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rtutti Scheeffer
ACONSELHAMENTO
PSICOLÓGICO
7 a . E D I Ç Ã O :
,CONSELHAM ENTO PSICOLÓGICO
aconselhamento constitui, dentro dos princípios e das práticas mais atuais, um dos 
tores específicos da Psicologia.
Psicologia do aconselhamento, como a Psicologia experimental, social, industrial, 
range uma importante área de especialização da ciência psicológica. Neste contex- 
representa uma síntese de várias diretrizes correlatas que se desenvolveram nos 
mpos da orientação educacional, higiene mental, psicometria, serviço social de ca- 
e psicoterapia.
im base em estudos aprofundados, grandes conhecimentos dos princípios teóricos, 
ipla aplicação desses princípios em situações concretas e larga experiência tanto 
i Psicologia quanto em Educação, a Professora Ruth Scheeffer escreveu este livro 
'a estudantes de Psicologia de Orientação Educacional e de Serviço Social, bem 
mo para outros profissionais que estejam interessados em se familiarizar com os 
todos utilizados na prática do Aconselhamento Psicológico.
sta obra, foram feitas referências cruzadas das principais teorias e das contri­
ções dos autores mais proeminentes no campo do Aconselhamento Psicológico e, 
concomitância, essas teorias e práticas foram agrupadas em três orientações dis- 
as: diretiva, não-diretiva e eclética. Esta abordagem é complementada por exten- 
a exemplificação prática de aconselhamento.
ntém: Conceito de aconselhamento psicológico. Evolução dos métodos de acon- 
hamento. O aconselhamento diretivo. O processo de aconselhamento diretivo. Ca- 
ilustrativo do aconselhamento diretivo. O aconselhamento não-diretivo. A dinâmica 
aconselhamento não-diretivo. O diagnóstico e a utilização dos testes psicológicos 
>-diretivos. Caso ilustrativo de aconselhamento não-diretivo. O aconselhamento 
ático. Caso ilustrativo do aconselhamento eclético (auto-ajustativo). Alguns pro- 
mas e sugestões. O aconselhamento na orientação do grupo familiar. As carac- 
sticas e alguns princípios éticos do orientador psicológico. Três entrevistas de 
inselhamento.
TA SOBRE A AUTORA
TH SCHEEFFER lecionou Psicologia e Orientação Educacional no Instituto de Se­
io e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas, do qual foi diretora. Foi 
fe do Gabinete de Assistência, Orientação e Aconselhamento do Estudante da 
:uldade de Educação da Universidade do Rio de Janeiro. É mestre em Psicologia 
Educação pela Universidade de Columbia; realizou cursos de doutoramento em 
Dologia do Aconselhamento e Clínica na Universidade Estadual de Michigan e Psi- 
)gia Educacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É livre-docente em 
íntação.
JCAÇÃO *
o-texto para as disciplinas ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL e PSICOLOGIA DA 
JCAÇÃO dos cursos de Pedagogia e Psicologia. Leitura de grande relevância pa- 
sicólogos, orientadores educacionais e assistentes sociais.
ubliccição otlcir
EDITORA ATLAS S.A.
Rua Conselheiro Nébias, 1384 — (Campos Elísios) 
Caixa Postal 7186 — Tel.: (011) 221-9144 (PABX) 
01203 São Paulo (SP)
Ruth Scheeffer
/1CONSELH4/MENTO
PSICOIDGICO
Teoria e Prática
7.a EDIÇÃO
SÃO PAULO
EDITORA ATLAS S.A. — 1989
ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO 
RUTH SCHEEFFER
Capa e diagramação de 
PAVEL GERENCER
Copyright © 1985 
EDITORA ATLAS S.A.
T O D O S OS D I R E I T O S R E S E R V A D O S — Nos te rmos da Lei que resguarda os d i­
reitos autora is , é proib ida a reprodução to ta l ou parc ia l, bem como a produção de 
aposti las a pa r t i r deste livro, de qualquer forma ou por qualquer meio — eletrônico 
ou mecânico, inclusive a través de processos xerográficos, de fotocópia e de gravação 
— sem permissão, por escrito, do Edi tor.
7.“ Edição
7.* tiragem — 1989
Impresso no Brasil 
Printed in Brazil
SUMARIO
Nota da Autora .......................................................................................... 7
Introdução .................................................................................................... 9
1. Conceito de Aconselhamento Psicológico ......................... .... 11
I. Introdução ....................................................................... 11
II. Desenvolvimento Histórico ............................................ 11
III. Definição ........................................................................... 12
IV. Aconselhamento e Entrevista ....................................... 14
V. Aconselhamento e Orientação Educacional ................ 14
VI. Aconselhamento e Psicoterapia .................................... 15
2. Evolução dos Métodos de Aconselhamento ........................... 19
I. Método Autoritário ........................................................ 19
II. Método Exortativo ........................................................ 21
III. Método Sugestivo ............................................................ 21
IV. Catarse ............................................................................. 21
V. Método Diretivo .............................................................. 22
VI. Método Interpretativo ................................................. 23
VII. Método Não-diretivo ...................................................... 24
VIII. Método Eclético .............................................................. 25
3. O Aconselhamento Diretivo — Princípios Básicos .............. 27
I. Fundamentos Teóricos ................................................. 27
II. Definição e Características ............................................ 27
III. Análise do Mecanismo do Aconselhamento Diretivo 29
IV. Atitude do Orientador ................................................. 29
V. Etapas ............................................................................... 30
4. O Processo de Aconselhamento Diretivo ........................... . . 34
I. Fases do Aconselhamento Diretivo ............................ 34
II. Técnicas Analíticas ......................................................... 36
Observações Sobre a Entrevista ................................. 37
III. Valor dos Testes como Instrumentos dc Aconselha­
mento e sua. Interpretação para o Cliente ................ 38
IV. O Diagnóstico ................................................................. 39
5. Caso Ilustrativo do Aconselhamento Diretivo .............................. 45
“ 1.“ Entrevista .................................................................................... 45
I. Apresentação do Problema pelo Orientando ............. 45
II. Dados Clínicos da Entrevista e de Outras Fontes . . . 45
III. Síntese Clínica do Problema ....................................... 46
IV. Diagnóstico ....................................................................... 46
V. Técnicas de Aconselhamento Aplicadas ..................... 46
VI. Prognóstico ....................................................................... 46
2.“ Entrevista .................................. •............................................. 53
3.11 Entrevista (final) ......................................................................... 56
5
usuario
Realce
I. Apresentação do Problema pelo Orientando ................ 56
II. Dados Clínicos ................................................................ 56
III. Síntese Clínica do Problema ...................................... 56
IV. Diagnóstico ..................................................................... 56
V. Técnicas de Aconselhamento Utilizadas e sua Efi­
ciência ............................................................................... 56
VI. Prognóstico ...................................................................... 57
VII. Seguimento " ........................................................................ 57
6. O Aconselhamento Não-diretivo — Conceitos Básicos ........ 58
I. Característicás Gerais .................................................... 58
II. Princípios Básicos com Respeito à Atuação do Orien­
tador .................................................................................depender o diagnóstico totalmente dele. Ou, o 
inverso: o descrédito que desvaloriza inteiramente. Ambos os 
casos estão sujeitos aos mesmos enganos.
2. Engano da simplificação — O fato de julgar que qualquer pes­
soa pode aplicar e interpretar um teste.
3. Engano dos rótulos — Perigo do aplicador se guiar pelo rótulo 
do teste. Muitas vezes, o teste investiga uma determinada capa­
cidade e não o aspecto geral subentendido no rótulo.
4. Engano da generalização — Perigo das aplicações inadequadas. 
É preciso não desconhecer que o teste só tem valor em determi­
nadas situações.
Os psicólogos reconhecem que os testes são instrumentos sujeitos 
a erros e têm publicado, ingenuamente, estas deficiências, influenciando, 
assim, as correntes que se opõem a eles.
Os testes, entretanto, devem ser usados, desde que sejam aplicados 
e interpretados com cuidado. Não devem ser abandonados em favor 
de outras técnicas menos objetivas que correm os mesmos ou maiores 
riscos. \
IV. O DIAGNÓSTICO
Após a coleta dos dados analíticos, o orientador e o orientando 
passam a procurar um padrão de consistência entre estes dados. Esse 
padrão descreve e explica as características do orientando e indica o 
aconselhamento, orientação ou tratamento que deve ser levado a efeito.
O processo de procura desse padrão de características é chamado 
diagnóstico. Na realidade este processo engloba: a descoberta dos fa­
tores etiológicos dos problemas apresentados pelo orientando; a relação 
entre essas características e o ajustamento ou desajustamento real ou 
potencial do indivíduo.
O diagnóstico no aconselhamento se diferencia do mesmo pro­
cesso usado na Medicina, porque nesta procura-se o conjunto de 
sintomas e causas indicativas de uma doença ou de um estado pato­
lógico. No aconselhamento faz-se também o diagnóstico de pessoas 
normais a fim de garantir-se contra futuros desajustamentos.
Sistematicamente, o orientador examina os dados com cuidado, 
procurando estabelecer relações e relevâncias. Formula, então, as mais 
plausíveis interpretações e, finalmente, avalia essas interpretações com 
o propósito de chegar a um julgamento adequado.
39
Em casos de desajustamentos, procura-se conhecer os fatores, as 
experiências e as condições que o determinaram. Nos casos normais, 
faz-se um balanço das qualidades e deficiências que poderão predizer 
um ajustamento em tal ou qual situação.
O diagnóstico não deve ser feito exclusivamente pelo orientador, 
mas realizado conjuntamente com o orientando, a fim de objetivar me­
lhor o seu autoconhecimento e lhe propiciar autodeterminação.
O processo de diagnóstico envolve 3 fases:
1. Identificação da problemática.
2. Descoberta das causas.
3. Indicação do aconselhamento, tratamento ambiental, terapia ou
outros planos de ação destinados a ajudar o orientando a obter
ajustamento na esfera educacional, profissional ou pessoal.
Identificação da problemática: Tem-se tentado, nos Centros de 
Orientação, fazer levantamentos das percentagens das problemáticas. 
Vários orientadores têm feito a classificação dos problemas que mais 
freqüentemente caracterizam os indivíduos que procuram o aconselha­
mento nas universidades. Darley(2*3) aponta os seguintes:
A) Problemáticas mais freqüenles na escolha profissional:
1. Discrepância entre as aspirações do estudante e suas possi­
bilidades e aptidões.
2. Informação errônea ou inadequada, com relação à profissão 
pretendida.
3. Indecisão.
4. Discrepância entre aptidões e interesses.
B) Problemáticas Educacionais:
1. Escolha de cursos inadequados.
2. Baixo rendimento.
3. Falta de motivação.
4. Falta de base de escolaridade.
C) Problemáticas Pessoais:
1. Sentimento de inferioridade.
2. Dificuldade no ajustamento social.
D) Problemáticas Econômicas.
E) Problemáticas Familiares.
Devido à freqüência com que estas problemáticas aparecem com­
binadas entre si, verificou-se que seria necessária uma análise mais 
profunda a fim de indicar a orientação e planos a serem seguidos no 
aconselhamento. Analisando os fatores etiológicos dos problemas apre­
sentados pelos orientandos, Bordin( i)apresentou as seguintes categorias:
Dependência: O orientando procura aconselhamento psicológico 
porque nunca aprendeu a resolver seus problemas sozinho. São indi­
víduos que funcionam passivamehte: dependeram sempre dos adultos 
e lhes entregam a solução de seus problemas. Seus progressos, desde a 
infância, consistem apenas em serem capazes de pedir ajuda mais ex­
plicitamente e em discriminar melhor aqueles a quem devem pedir au­
xílio. Usualmente, procuram o aconselhamento, porque alguém lhes 
sugere. O orientador verifica que esses tipos resistem em aceitar qual­
quer responsabilidade. Em geral, ficam ansiosos para manter os con­
tatos com o orientador e passam a procurá-lo todas as vezes que têm 
que tomar uma decisão. O orientador ingênuo e iniciante pensará que 
tal ocorre por ter estabelecido uip bom rapport e com isto encorajará a 
situação de dependência e, portanto, um padrão insatisfatório de ajus­
tamento. No aconselhamento desse indivíduo, é necessário que se lhe 
forneça o insight, para que ele assuma a responsabilidade de resolver 
os seus próprios problemas, ajudando-o a obter experiências que lhe 
permitam superar a atitude passiva. O simples fato de resolver os pro­
blemas para o orientando não o ajudará em coisa alguma. Talvez 
essa atitude seja aconselhável apenas no início do trabalho. Mas depois 
do insight o orientador deve encorajá-lo à independência.
Falta de informação: Nessa categoria situam-se os indivíduos 
que estão habituados a resolver os seus próprios problemas, mas que 
enfrentam, no momento, uma dificuldade de tomar uma decisão, devido 
à falta de conhecimento do assunto. Desejam informações sobre suas 
aptidões, currículos dos cursos etc. Nesses casos, o aconselhamento 
deve ser direto e informativo. O orientador deve ter o cuidado para 
não criar uma situação de dependência.
Conflito intrapsíquico: É o conflito entre o autoconceito e a ha­
bilidade de se comportar de maneira consistente com ele. Estes confli­
tos, muitas vezes, não são verbalizados. Nestes casos, os próprios defen­
sores da orientação dirigida aconselham o esclarecimento dos sentimen­
tos através da utilização de entrevistas não dirigidas. Exemplo: Uma 
adolescente natural de uma cidade do interior sempre foi considerada 
aluna brilhante no ginásio que lá freqüentou. Portanto, é esse seu auto­
conceito e o seu meio de auto-afirmação, principalmente no ambiente 
familiar. Todavia, ingressando em curso superior, na Capital, e tendo 
de enfrentar a competição com elementos mais aptos, já não consegue 
sobressair, apesar do seu esforço. Essa situação é capaz de desenca­
dear um conflito entre o seu autoconceito e a sua habilidade de se 
comportar de maneira consistente com o mesmo.
Angústia da escolha: Pode ser explicada através das pesquisas 
experimentais de Maier: ratos foram treinados a saltar de uma platafor­
ma para determinadas portas. Se certa porta fosse escolhida, eram pre-
41
miados com comida. Caso contrário, a porta não se abria e o rato batia 
com o focinho, sofrendo assim uma experiência desagradável. Neurose 
experimental foi induzida, punindo o animal por qualquer das escolhas. 
Entretanto, nem todos ficaram neuróticos, mas somente aqueles que 
continuaram na expectativa de encontrar a escolha compensadora. 
Compara-se a essa situação a da angústia de escolha, em que um indi­
víduo se vê entre duas alternativas, ambas desagradáveis e envolvendo 
uma perturbação nos seus planos vitais. Esses indivíduos procuram o 
aconselhamento (numa grande tensão nervosa e exaustão física) com a 
esperança de que o orientador lhes arranje uma 3.a alternativa, que seja 
agradável. Nesses casos, o orientador deve deixar que o orientando ver­
balize amplamente seus problemas, ajudando-o a enfrentar a realidade. 
Exemplo: Um jovem deseja com a mesma intensidade prosseguir seus 
estudos de Medicina e casar-se com a moça por quem se sente muito 
enamorado.Uma escolha exclui a outra, visto que, se resolver casar-se, 
terá que abandonar os estudos. Entretanto, esse rapaz insiste em con­
ciliar as duas alternativas, fato esse impossível, ocasionando assim gran­
de tensão, angústia e desgaste de energia psíquica.
Sem problemas: Há um grande número de indivíduos que pro­
cura os Centros de Orientação como uma pessoa que se submete a um 
check-up médico, ou seja, apenas para confirmar suas impressões. Po­
de ocorrer que estas pessoas estejam escondendo um problema de de­
pendência ou conflito intrapsíquico. Por isso, recomenda-se ao orien­
tador cuidado para identificar a verdadeira razão da procura. Em geral, 
quando não há realmente problema, o indivíduo se apresenta ao ser­
viço para a realização de testes e termina os contatos com o orientador 
assim que recebe os resultados das provas.
Descoberta das causas: Após a identificação do problema o 
orientador deve procurar os fatores que causaram os sintomas ou carac­
terísticas já verificadas. Procura compreender por que o orientado se 
encontra na situação atual. Evidentemente, a familiarização com a lite­
ratura, no campo da psicologia clínica, dá ao orientador o conhecimento 
de que certas condições determinam certos sintomas. No entanto, é 
preciso muita observação e, muitas vezes, uma análise mais prolongada 
e profunda, para que fiquem confirmadas as causas encontradas. É 
necessário considerar o problema de genótipo e fenótipo de Lewin. Em 
Psicologia não há leis gerais que liguem inexoravelmente as mesmas 
causas aos mesmos efeitos. A mesma causa pode determinar os mais 
diferentes efeitos e os mesmos efeitos podem ter diferentes causas. A 
análise da aparência dos sintomas é, em geral, superficial. Assim, o 
que aparece com o mesmo fenótipo não é determinado pelo mesmo 
genótipo e vice-versa . O indivíduo pode ser introvertido por causa tem­
peramental ou constitucional; mas poderá dar-se o caso da introversão
42
estar condicionada a experiências traumáticas. A paralisia infantil (ge­
nótipo) poderá determinar diferentes reações (fenótipo): timidez, iso­
lamento e sentimento de derrota ou, por compensação, atitudes de vigor 
e realização.
No diagnóstico é necessário o conhecimento do genótipo, além do 
conhecimento das leis gerais da psicologia e das leis que regem os acon­
tecimentos interpessoais dentro do mundo psicológico individual. De­
ve-se evitar as generalizações, muitas vezes perigosas, e a tendência 
de seguir certos clichês preestabelecidos, com relação a determinadas si­
tuações psicológicas, tais como: ligar agressividade e rejeição, depen­
dência e superproteção, QI baixo e falta de inteligência. Na realidade 
QI igual a 70 em duas crianças pode ser causado por fatores diferen­
tes: numa, por pouca inteligência, e noutra, por falta de motivação na 
realização da prova.
Williamson* que recomenda quando houver dúvida deve-se apli­
car maior número de testes.
Erros de diagnóstico decorrem, principalmente, de 3 fatores:
1. Conhecimento incorreto da natureza do comportamento humano. 
Desconhecimento das teorias psicanalíticas.
2. Erros de mensuração, de instrumentos ou de interpretação dos 
instrumentos.
3. Influência das condições pessoais do orientador. As vivências 
emocionais do orientador podem ser causa de erros.
Muitas vezes, o orientador tem a tendência a projetar seus pró­
prios problemas no diagnóstico. Verifica-se que há, realmente, uma 
preferência em explicar os problemas do orientando de acordo com 
certas situações pessoais: o orientador rejeitado encontra, com freqüên- 
cia, rejeição. Com relação aos problemas sexuais, pode ocorrer o 
mesmo.
* A daptado de W IL L IA M S O N , E. G. — C ounseling A dolescen ts . N ew Y ork, Mc 
G raw -H ill, 1950, pp. 510 a 536.
Desenvolvimento do 
Aconselhamento 
Diretivo ou Clínico
f
{
R E S U M O
Obtenção exaustiva de dados, 
Interpretação dos dados pelo orientador, 
Ênfase no diagnóstico e prognóstico.
Fases
Análise 
Síntese 
Diagnóstico 
Prognóstico 
Aconselhamento 
Seguimento
Caracterís­
ticas { Seqüência flexível, 
Interdependência.
Técnicas
Analíticas
Diagnóstico
Testes psicológicos e de escolari­
dade,
Informações de:
Fontes — professores,
— pais,
— colegas,
— próprio orientando.
Fichas cumulativas,
Autobiografias,
Instrumentos •. . . a maneira de estudar não seja muito boa. Pode ser, 
mas não sei ao certo.
O. — Você sente dificuldade de compreender o que lê?
J. L. — Sinto, sinto sim ... (pausa longa)...
O. — Como foi no início, isto é, logo que você começou a aprender 
a ler? Você tinha alguma dificuldade? Conseguia compreender o que lia?
J. L. — Não, acho que não entendia muito bem ... Sempre fui muito 
lento em leitura.
O. — De um modo geral, você se acha uma pessoa vagarosa?
J. L. — S ou... acho que sou sim ... Até tomei, no ano passado, umas 
aulas especiais de leitura para ver se melhorava e acho que melhorei bas­
tante. .. quer dizer... pelo menos tive esta impressão...
O. — Aonde, no Instituto Y?
J. L. — É.
O. — E achou que melhorou, não foi?
J. L. — Bem ... acho que agora compreendo melhor o que leio do 
que antes.
O. — Mas mesmo assim você ainda não está satisfeito com seu rendi­
mento em leitura, não é?
J. L. — Éé difícil demais 
para você?
J. L. — É, acho que sim ... (pausa)... Talvez peça transferência 
no próximo semestre...
O. — Qual a sua média global até o momento?
J. L. — 3,4.
O. — Quer dizer que você está em perigo de ser reprovado?
50
J. L. — É, estou... (pausa)
O. — Bem, em geral, temos por costume iniciar nossos trabalhos 
aplicando uma série de testes aos alunos que nos procuram pelo mesmo 
motivo que o seu. Depois disto torna-se mais fácil saber o que indicar- 
-lhes ou aconselhar-lhes (pausa). Você falou em pedir transferência no 
próximo semestre; já havia pensado em alguma coisa?
J. L. — Bem... ou ir para um Curso Técnico de Mecânica, ou ... 
Meu colega de quarto está fazendo um Curso de Comércio...
O. — Você se limitou a estas duas possibilidades? Não pensou em 
mais nada?
J. L. — Não, não pensei em mais nada.
O. — Bem, nós temos algumas informações sobre os . Cursos Técni­
cos de Mecânica...
J. L. — Sim...
O. — Se você quiser, poderemos lhe indicar algumas escolas e os 
diferentes currículos.
J. L. — Sim ... E sobre estes Cursos de Comércio, o senhor sabe 
alguma coisa? São apenas três anos, não é?
O. — Exato... Há Curso de Secretariado e de Contàbilidade. Você 
já viu alguma vez os prospectos desses cursos?
J. L. — Não, o senhor os tem aqui?
O. — Tenho. Se você quiser posso lhe mostrar na próxima entre­
vista. Ou se você preferir... existem alguns deles no Setor de Infor­
mação Ocupacional. Aliás, lá você poderá encontrar prospectos de uma 
série de outros cursos.
J. L. — M as... o Curso de Mecânica não é tão difícil como os 
demais?
O. — Bem, isto é difícil de respçnder. Tudo depende do aluno e 
não do curso em si.
J. L. — Bem,... o senhor sabe... porque aquele rapaz de quem 
falei esteve neste tal Curso de Mecânica... não sei... mas ele achou 
aquilo lá um bocado duro, tanto assim que pediu transferência para 
curso comercial. É bem verdade que nós não somos a mesma pessoa...
O. — Exatamente (pausa). Bem, o que você acha que seria bom 
fazermos para auxiliá-lo? Você gostaria de submeter-se aos testes e de­
pois consultar os prospectos de alguns Cursos de Mecânica, por exemplo?
J. L. — Gostaria.
O. — Acho que o ideal seria fazer os testes hoje e voltar um outro 
dia para conversarmos com mais vagar sobre as suas possibilidades.
J. L. — É, acho que isto seria uma boa idéia.
O. — Vou lhe mostrar alguns testes que estava pensando em lhe 
aplicar.
J. L. — S im .. .
O. — Alguns deles são testes de destreza manual que visam a medir 
sua habilidade motora. Outros testes são de compreensão mecânica.
J. L. — Sim. . . sim. . .
O. — Depois, um teste geral de interesse e talvez um de habilidade 
motora geral. Todas essas aptidões são importantes para o trabalho de 
mecânico (longa pausa).
J. L. — Acho que seria muito bom ...
O. — Você está interessado em fazê-los?
J. L. — Acho que sim ...
O. — Está bem, então vou marcar em seu cartão aqueles que pro­
gramamos, está bem?
J. L. — Sim ...
O. — Você gostaria de fazer um teste de aptidão para leitura e um 
inventário sobre hábitos de estudo?
J. L. — Sim.
O. — Ótimo! Nossos testes são um pouco diferentes daqueles que 
você faz no Instituto Y (pausa). Você está no l.° ano, não é?
J. L. — É.
O. — Então escreva em seu cartão, porque assim você será classi­
ficado de acordo com as tabelas desse grupo.
J. L. — Sim.
O. — Bem, agora a questão de horário. Estes testes não têm todos 
a mesma duração, de maneira que vou pôr aqui ao lado a duração de 
cada um, e você poderá vir aqui, nas suas horas disponíveis. Você terá 
mais ou menos um to ta l... deixe-me v e r ... um total de 6 horas de 
testes. O Departamento de Testes funciona pela manhã durante toda se­
mana. Seus testes são quase todos coletivos, mas para alguns deles você 
terá que marcar hora.
J. L. — Sim, está certo.
O. — Você acha que terá tempo? Possivelmente em uma ou duas 
semanas você os terminará.
J. L. — Mas sem dúvida...
O. — E que dia marcaremos para você voltar aqui?
J. L. — Bem, 6."-feira, sem ser esta a o u tra ...
O. — Ótimo, então tudo resolvido. À mesma hora, está bem?
J. L. — Está bem.
O. — Até lá então, José Luís.
J. L. — Até lá e muito obrigado.
52
2.8 ENTREVISTA
A segunda entrevista de José Luiz com o orientador foi rápida. 
Apesar de não ter tido oportunidade de submeter-se aos testes pro­
gramados, José Luiz manifestou, neste segundo contato, interesse em 
reconsiderar sua transferência para a Escola L. V. (Técnica). Além 
de nova programação de testes, o jovem recebeu ainda cartas de apre­
sentação para pessoas a quem poderia procurar naquela escola, e que 
lhe poderíam prestar auxílio na escolha de seu novo curso.
TRANSCRIÇÃO DA SEGUNDA ENTREVISTA:
O. — Acho melhor fecharmos a janela, você não acha? Está um 
pouco frio.
J. L. — Para mim é indiferente.
O. — Você gostaria de falar sobre algum assunto em particular?
J. L. — Bem, quer dizer. . . o senhor falou sobre aqueles testes que 
eu deveria fazer.
O. — Ah! E então, você já os fez?
J. L. — Não, não fiz ... falta de oportunidade...
O. — Bem, não faz mal, talvez tenha sido melhor mesmo você deixar 
para mais tarde...
J. L. — É, é possível..
O. — E você teve mais alguma idéia sobre a qual gostaria de falar?
J. L. — Bem... estive pensando sobre a Escola L. V.
O. — Sim. . .
J. L. — Estou achando boa a idéia de ir para lá ... Estava pen­
sando na maneira de me transferir...
O. — Você foi visitar a escola ou apenas esteve com os prospectos?
J. L. — Não, não cheguei a ir lá. Estou pensando em fazer isto, na 
primeira oportunidade. '•*’
O. — Você conhece alguém na escola que poderia ajudá-lo?
J. L. — Não, não conheço ninguém. > .
O. — Bem, se você quiser posso lhe dar alguns nomes de pessoas 
que poderão auxiliá-lo em seu primeiro contato.
J. L. — Ah, ótimo.
O. — Basta você procurá-las. Sua ocupação é justamente esta, dar 
às pessoas interessadas em ingressar na escola os esclarecimentos que lhes 
forem necessários.
J. L. — Hum, hum.. .
O. — Acho que eles lhe prestarão uma grande ajuda, pois estão a par 
de todas as possibilidades e exigências da escola. £ isto que você deseja, 
não?
53
J. L. — É isto mesmo... Bem... e sobre aqueles testes... posso 
vir a qualquer hora para fazê-los?
O. — A qualquer hora, de segunda à sexta-feira, das 8 horas ao 
meio-dia.
J. L. — Tenho, apenas, de ir à sala de aplicação e apresentar o cartão 
que o senhor me deu?
O. — Justamente, o técnico de provas verá pelo cartão quais os 
testes que deverá aplicar-lhe.
J. L. — Está bem.
O. — Quando você terá tempo de fazê-los?
J. L. — Estou com vontade de fazer um agora mesmo...
O. — Ótimo. Quando é que poderiamos marcar uma entrevista para 
lhe mostrar os resultados? Talvez daqui a duas semanas, não é? Você 
tem muitos testes para fazer.
J. L. — Está bem, acho que em duas semanas acabo tudo.
O. — Então vou reservar sua hora, posso?
J. L. — Pode sim...
O. — Então... terminamos nossa entrevista. Você gostaria de falar 
sobre alguma coisa mais?
. J. L. — Não.
O. — É possível que ao voltar você já tenha ido à Escola L. V. e, 
entãó poderemos trocar idéias sobre as suas impressões.
J. L. — É, vou ver se tenho tempo. Posso ir para a sala de aplicação?
0. — Sem dúvida, eu o acompanharei até lá.
J. L. — Obrigado.
RESULTADOS DOS TESTES E QUESTIONÁRIOS 
RESULTADOS DOS QUESTIONÁRIOS
1. Família:
Pai — agricultor, educação secundária incompleta. Mãe — 
doméstica, educação primária. Irmã — 23 anos, professora primá­
ria. Irmão — 21 anos, curso secundário completo; trabalha como 
agricultor na fazenda dos pais. Or. — 19 anos. Irmã — 15 anos, quar­
ta série secundária. Irmão — 12 anos, primeira série secundária.
2. Atividades preferidas pelo Or.:
Individuais — caça, montaria, natação, jogar pingue-pongue, 
cinema, pescaria.
Em grupo — futebol, basquetebol, excursões.
3. Leituras:
Ficção, revistas esportivas e de Mecânica.
4. Motivação para realizar Curso Superior:
1. ° — Preparar-se para uma profissão
2. ° — Obter maior cultura
3. ° — Obter melhores salários
4. ° — Obter maiores possibilidades de emprego5. ° Profissões pretendidas: RAZÃO: Acha que tem
1. ° Fazendeiro “jeito”. Gosta de lidar
2. ° Mecânico com máquinas
6. Prospecções:
Ter um bom emprego, seguro e com bom salário, que lhe permita 
tempo suficiente para pescar e caçar.
7. * Interesses diretamente expressos:
1. ° Atividades de direção e chefia
2. ° Atividades de tipo técnico científico
3. ° Atividades que envolvam contato humano
8. Autoconceito:
Considera-se calmo, autoconfiante, sensível, alegre, cordial, pa­
ciente e tolerante.
9. Saúde:
Boa
RESULTADOS DOS TESTES 
RESUMO
Escolaridade: Fraca.
Inteligência Geral: Média, percentil 50.
Compreensão de leitura: Deficiente.
Aptidão Mecânica: Superior, percentil 90.
Habilidade Manual: Superior, percentil 85.
Bateria Psicomotora: Classificação no escore total:
Superior à média.
Personalidade: Normal.
Ajustamento: Bom.
Interesses predominantes: Atividades técnicas e mecânicas.
3.* ENTREVISTA (final)
SUMÁRIO
I. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA PELO 
ORIENTANDO
Procurou o orientador a fim de tomar conhecimento do resultados 
dos testes.
II. DADOS CLÍNICOS
Foram examinados os resultados dos testes bem como os dados 
apresentados no questionário. Baseado, principalmente, nas classifica­
ções obtidas nos testes de aptidão mecânica, habilidade manual e apti­
dões psicomotoras, e no seu perfil de interesses, José Luiz chegou á 
conclusão de que procuraria entrar em contato com a Escola L. V. a 
fim de ingressar no Curso Técnico Industrial. Ainda está em dúvida 
quanto à especialização — está inclinado a especializar-se em aparelhos 
de refrigeração e ar condicionado. Parece ter obtido maior dose de se­
gurança mediante o conhecimento de suas reais possibilidades. Disse­
mos que realmente aprendeu muitas coisas, durante o seu processo de 
aconselhamento, que lhe seriam muito úteis no futuro.
III. SÍNTESE CLÍNICA DO PROBLEMA
A indecisão profissional parece haver sido reduzida pela melhor 
compreensão por parte do orientando das suas possibilidades profis­
sionais.
IV. DIAGNÓSTICO
Ainda falta de informação — menos com relação a si próprio do 
que com relação aos currículos dos Cursos Técnicos Industriais. Esta 
última, provavelmente, obterá por conta própria.
V. TÉCNICAS DE ACONSELHAMENTO 
UTILIZADAS E A SUA EFICIÊNCIA
As técnicas usadas foram, principqlmente, interrogativas, interpre­
tação dos resultados dos testes, fornecimento de informação e compre­
ensão das vivências emocionais do orientando. Estabeleceu-se bom 
rapport e o orientando expressou sua satisfação com o resultado do 
aconselhamento.
56
VI. PROGNÓSTICO
Apto para trabalhos técnicos (mecânicos), de nível médio.
VII. SEGUIMENTO
Nenhuma informaçcão.
é o contrário da atitude de desdém, 
indiferença e descrença em relação à natureza humana. Pessoas que 
têm atitude de cinismo com respeito ao gênero humano não possuem 
capacidade real de aceitação. Não se trata de aceitação ou respeito 
em forma abstrata ou geral, mas individual. Muitas vezes uma filoso­
fia ou uma crença religiosa otimista com relação ao gênero humano 
pode carecer desse respeito genuíno pelo ser individual.
Como essa aceitação deve ser comunicada ao cliente? Primeira­
mente, o mais importante é que o orientador se sinta realmente interes­
sado no orientando. Uma máscara de amizade e aceitação adotada 
para esconder hostilidade, desinteresse ou desprezo, simplesmente con­
fundirá o cliente, em vez de ajudá-lo, porque os verdadeiros sentimen­
tos do orientador surgirão fatalmente durante a entrevista. O orientan­
do reagirá, sentindo-se pouco à vontade, percebendo que alguma coisa 
não vai bem na situação e não mais voltará. Esse processo de comu­
nicar aceitação exige muita sensibilidade e quase que uma intuição — 
— como se fosse “ouvir com um terceiro ouvido”. Exige também co­
ragem porque envolve aceitação de sentimentos hostis para com o orien­
tador.' Não consiste na aprovação de um ou outro determinado traço, 
mas na aceitação da personalidade total do orientando, com todas as 
suas características, que abrangem seus aspectos positivos e negativos.
Compreensão não é um poder mágico, sabedoria intuitiva ou es­
pécie de raio X psíquico. Trata-se simplesmente de compreender com 
clareza o que o cliente está tentando expressar. Provavelmente, ne­
nhum ser humano compreende totalmente o outro, e para o orientador 
a personalidade do orientando nunca é um livro aberto. Também não 
é necessário, do ponto de vista da orientação rogeriana, que o orienta­
dor compreenda o cliente melhor que ele próprio. Numa entrevista 
produtiva é apenas necessário que haja o máximo de comunicação de 
pensamentos e emoções. Compreensão assim vista é um processo de 
compartilhar as vivências expressas pelo orientando. Para compreender
60
o cliente, não é suficiente que se conheça apenas os fatos de sua vida. 
O mais importante é saber como reagiu a esses fatos e experiências, bem 
como as atitudes que daí resultaram, conforme ele as sente e as per­
cebe. A fim de compreender é preciso que o orientador não se limite 
ao papel de observador mas que se ponha no lugar do orientando e per­
ceba o mundo e as experiências como este as percebe, penetrando no 
seu mundo emocional. Para isso é necessário adotar o “centro de re­
ferências” do orientando. Quando uma criança nos conta que os pais 
a punem severamente, nossa primeira tentativa é verificar se isso acon­
tece realmente. Mas a função do orientador é ver o mundo familiar da 
criança como ela o vê, e compreendê-lo como ela realmente o percebe. 
Exige alta capacidade de empatia que R ogers denomina identificação 
empática. Não é identificação emocional: é sentir com o orientando, 
pensar com o orientando, em vez de pensar a respeito do orientando. 
Essa atitude nos permite compreender e aceitar as pessoas. Temos o 
exemplo do marido que exige demais de sua esposa, de um nível social 
inferior ao seu; mas se compreendermos que foram as suas experiên­
cias de infância que nele provocaram esse comportamento, então a 
nossa própria atitude para com o marido será diferente.
Como comunicar essa compreensão? Fazendo a reflexão do con­
teúdo emocional em vez do fatual. As respostas do orientador refle­
tem o conteúdo emocional do orientando. É difícil às vezes essa per­
cepção do conteúdo emocional porque tendemos a nos prender ao con­
teúdo fatual. Por exemplo, uma orientanda declara: “Estou muito preo­
cupada com a Química. Tenho que me sair bem nesse curso já que 
desejo fazer Medicina. No entanto, não tenho conseguido. Estudo mais 
e mais durante o dia e quanto mais leio mais confusa fico.” A refle­
xão do conteúdo emocional consiste em trazer à tona a preocupação, 
não a deficiência na matéria — “Isto a perturba, saber que todo o seu 
futuro depende de uma coisa que você não consegue fazer.” Em vez 
de: “Química é a matéria em que você tem mais dificuldade”.
A clarificação do conteúdo emocional vem com a reflexão. O 
orientando percebe objetivamente suas emoções, sentimentos e confli­
tos e isto o ajuda a se compreender melhor. Por exemplo:
Orientando — Eu sei que não devia me preocupar. Mas o fato é 
que me preocupo. Na minha classe sempre acho que todo o mundo fica 
à espera da primeira chance para caçoar de mim. Tenho a impressão 
de que qualquer coisa errada que eu fizer todo mundo vai cair na mi­
nha pele. O pior é que detesto que riam de mim. Por isso não gosto 
de ter muito contato com os meus colegas. (Pausa.) Quando encontro 
uma pessoa fico sempre imaginando o que ela pensou de mim. Depois 
fico preocupado em ser aquilo que ela pensa que eu sou.
Orientador — Você sente que a opinião dos outros o afeta muito.
Orientando — Sinto sim, mas estas coisas não deviam me afetar 
desta maneira.
Orientador — Você sente que apesar de não haver razão fica 
muito afetado com essas coisas todas.
A aceitação, a compreensão e a comunicação desses dois elemen­
tos ao orientando, através da reflexão do conteúdo emocional e cla- 
rificação, determinam as seguintes reações:
1. maior expressão dos sentimentos e emoções,
2. autocompreensão,
3. aceitação de suas deficiências,
4. reconhecimento dos seus aspectos positivos,
5. insight,
6. atitudes e ações positivas,
7. maturação emocional, independência.
Resumindo, podemos apresentar as seguintes características prin­
cipais do aconselhamento não-dirigido:
1. Aconselhamento não é mero fornecimento de conselho. Pro­
gresso e amadurecimento só são conseguidos através do trabalho psico­
lógico realizado pelo orientando e não pelas sugestões do orientador. 
Mesmo nos casos em que se fornecem conselhos, o sucesso é resultado 
de uma boa relação e não do conselho em si.
2. Aconselhamento não visa apenas a solução de um problema 
imediato mas operar modificações no indivíduo que o habilitem a tomar 
decisões no futuro, bem como a resolver o problema atual. Por exem­
plo, no caso de um orientando indeciso entre Medicina e Direito, o 
orientador o ajuda a avaliar todos os fatores relevantes, a compreender 
como se sente a respeito desses campos e ver as situações mais claras. 
Nesse caso o orientando torna-se uma pessoa mais habilitada para to­
mar uma decisão adequada e bem fundamentada.
3. Aconselhamento se relaciona mais com atitudes do que com 
ações — ações são resultados de mudanças de atitudes. Exemplo: no 
caso de uma adolescente inibida com rapazes, de nada adiantaria, ape­
nas, sugerir-lhe frequentar clubes e ter mais atividades sociais. Seria 
preciso criar atmosfera para ela explorar os fatores ligados às suas 
inibições e timidez e ajudá-la a compreendê-los.
4. O aconselhamento lida mais com conteúdo emocional do que 
com o intelectual. Leitura e conhecimentos não são suficientes. Uma 
pessoa angustiada e insegura não se modificará apenas com cursos e 
leituras de livros sobre Psicologia.
5. O aconselhamento envolve uma relação. A reflexão que se faz 
na sala do orientador parece mais produtiva. Há mais ênfase na rela­
ção do que em técnicas. O orientador age como estimulante para de-
62
sencadear as reações do orientando e a relação existente deve ser de 
calor afetivo e não neutra.
II. PRINCÍPIOS BÁSICOS COM RESPEITO À 
ATUAÇÃO DO ORIENTADOR
Os princípios que o orientador deve seguir na orientação rogeriana 
podem ser sintetizados nos sete itens abaixo apresentados por A x lin e 2:
1. O orientador deve desenvolver, com o orientando, relação que 
revele calor afetivo, simpatia e cordialidade, a fim de estabelecer 
imediato rapport.
2. O orientador aceita o orientando como ele é na realidade. Im­
plica em aceitação total da personalidade.
3. O orientador estabelece um clima permissivo na sua relação com 
o orientando, a fim de que este possa expressar livremente suas 
vivências emocionais.4. O orientador compreende essas vivências reveladas pelo orientan­
do e expressa essa compreensão, refletindo-as e objetivando-as.
Não avalia nem diagnostica, simplesmente compreende.
5. O orientador mantém profundo respeito e confiança nas possibi­
lidades do orientando resolver seus problemas, desde que este 
tenha oportunidade para isso.
6. A responsabilidade das decisões pertence ao orientando, bem como 
das modificações nas suas atitudes.
7. O orientador não pretende dirigir as ações ou a conversa do 
orientando, de nenhuma maneira. O orientando dirige a entre­
vista, o orientador segue-o.
III. APLICAÇÕES DO ACONSELHAMENTO
NÃO-DIRETIVO
Inicialmente, a orientação rogeriana parecia ter aplicação apenas 
no campo do aconselhamento de problemas vitais e em psicoterapia, 
pois, quando apresentadas por R ogers, essas teorias tinham-se origina­
do principalmente de suas experiências em clínicas. Todavia, este con­
ceito foi-se modificando. R ogers, (i)na sua primeira obra sobre o acon­
selhamento não-diretivo, apresenta as seguintes situações como as mais 
propícias para a utilização da orientação nâo-dirigida:
l.° Estado de tensão emocional: quando o indivíduo está sob 
um grau razoável de tensão que provém de desejos ou necessidades pes­
soais incompatíveis, ou conflitos causados pelas demandas do ambien­
te e as necessidades individuais. A tensão assim criada é mais forte do 
que o desconforto resultante da expressão de suas vivências emocionais 
e problemas. Essa tensão deve provocar um certo desequilíbrio que
63
serve como motivação. O desconforto da tensão emocional deverá ser 
maior que o desconforto do indivíduo em verbalizar os problemas. 
Exemplos: o aluno socialmente desajustado, que deseja ser mais sociável 
e popular e ao mesmo tempo se proteger dos riscos da humilhação e 
inferioridade que ele sentirá quando se envolver em atividades sociais; 
um indivíduo que está em conflito entre forte necessidade sexual de um 
lado e forte sentimento de culpa do outro. As demandas do ambiente 
também entram em conflito com as próprias necessidades da pessoa; 
por exemplo, o aluno que nunca teve conflito por causa da falta 
de estudo e passou a senti-lo, quando ingressou na universidade. Há 
casos, porém, em que o desconforto de falar de sua problemática é 
mais forte do que a tensão causada pela mesma, como em certos casos 
de neurose muito estruturada. Mesmo com relação à escolha profissio­
nal, só é possível aconselhamento não-diretivo quando o desconforto 
causado pela pressão ambiental é de tal ordem que supera o descon­
forto de ter que enfrentar o problema.
2. ° Capacidade de o cliente lidar com sua própria vida: Ele deve 
possuir suficiente capacidade e estabilidade para exercer algum controle 
sobre os elementos de sua situação. As circunstâncias que ele tem que 
enfrentar não são tão adversas e imutáveis que se torne impossível para 
ele controlá-las e alterá-las. Há certos indivíduos que estão tão carre­
gados de deficiências pessoais ou ambientais que se toma irrealizável 
uma reorganização de atitudes que lhes permita enfrentar a vida de ma­
neira mais adequada. É o caso do delinqüente que mora em uma área 
delinqüente, onde os fatores sociais encorajam atos delinqüentes, e é 
rejeitado na família em favor de um irmão menor e aluno de uma escola 
que não oferece um programa específico para sua capacidade de apren­
dizagem medíocre, mas que o faz constantemente consciente de seus 
fracassos. Nenhuma dose de aconselhamento poderia ajudar esse in­
divíduo. Só mudança ambiental. É também assim o caso da mãe su- 
perprotetora cuja atitude está neurotizando a sua filha. Trata-se de 
uma senhora introvertida, neurótica e doente fisicamente. Esses fatores 
restringem seu campo de atividades. Não tem amigos, dá-se mal com 
o marido e seu único interesse é a filha. Para ajudar a filha, essa se­
nhora teria que renunciar a essa única fonte de satisfação. Dificilmente, 
isto poderia ser conseguido por meio de aconselhamento, já que as 
condições são por demais adversas.
3. ° Desejo de receber ajuda: É necessário que o orientando que 
se apresenta para o aconselhamento sinta real necessidade de receber 
ajuda. Os indivíduos que se vêem coagidos pela autoridade, adolescentes 
trazidos pelos pais contra a sua vontade, geralmente mostram-se rebel­
des ao orientador. As vezes, consegue-se estabelecer um rapport mas 
exige muita habilidade por parte do orientador, que usa técnicas não-
64
-diretivas. Precisa demonstrar aceitação das vivências do orientando, 
reconhecer suas razões, sua rebeldia, sua revolta e demonstrar essa com­
preensão e aceitação. Às vezes, o orientando fica tão surpreso com 
essa atitude que se sente motivado para aceitar a ajuda.
4. ° Inexistência de deficiências orgânicas: Ausência de instabili­
dade excessiva, particularmente de origem orgânica; hiperatividade; ner­
vosismo exagerado de origem fisiológica; descontrole excessivo das rea­
ções emocionais.
5. ° Nível intelectual suficiente (pelo menos rude): Débeis men­
tais tendem a ter menos possibilidades de serem ajudados, com esse 
tipo de orientação.
Em livro mais recente (1951) Rogers(3) modificou, parcialmente, 
esses critérios: aceita a possibilidade de aconselhamento não-dirigido 
mesmo para retardados mentais, com bons resultados. Ressalta, porém 
que tem sido pouco usado com esse tipo de indivíduos. Há também 
pouca experiência com delinqüentes. Admite fracassos freqüentes em 
casos de pessoas agressivamente dependentes que exigem do orientador 
uma direção: esses indivíduos fogem ao princípio básico da orientação 
não-dirigida que é o de aproveitamento dos recursos próprios do orien­
tando, pois suas características o impedem de fazê-lo.
Vários autores (3) apresentam possibilidades de aplicação da teo­
ria rogeriana em inúmeros campos de atividades, tais como: educacio­
nais, administrativos, psicoterápicos etc., pois a orientação não-dirigida 
já constitui, praticamente, uma filosofia no setor das relações humanas 
em geral.
Erickson (4) sugere a aplicação do aconselhamento não-dirigido nas 
seguintes situações:
1. Quando o orientando revela considerável estado de tensão.
2. Quando o orientando revela bloqueio emocional que o impede 
de fazer análise intelectual da situação.
3. Quando a solução dos problemas do orientando exige que assuma 
considerável responsabilidade para decisão e ação.
4. Quando as causas da dificuldade são obscuras e complicadas.
Ressalta também a necessidade de o orientador ter muita experiência 
na aplicação desse método. Indica as seguintes situações, onde seria menos 
útil esse método:
1. Quando o número de orientandos é muito grande e o tempo 
para as entrevistas é limitado.
2. Quando a dificuldade não envolve muita tensão emocional por 
parte do orientando.
3. Quando o problema do orientando reflete a necessidade de maio 
res esclarecimentos, informações e de uma análise objetiva.
4. Quando o orientador não é suficientemente experiente e compe 
tente no uso da orientação não-dirigida.
RESUMO
Objetivos do Aconselhamento Não-Diretivo:
1. Lidar com o orientando como pessoa e não como pro­
blema.
2. Proporcionar:
Maior independência,
Integração,
Amadurecimento.
Fundamentos Básicos:
1. Concepção filosófica positiva e otimista da natureza 
humana.
2. Concepção filosófica democrática no setor das rela­
ções humanas.
3. Convicção nos recursos do indivíduo para solucionar 
seus próprios problemas.
Características da Entrevista Não-Diretiva:
1. O orientando assume a responsabilidade.
2. O orientando dirige a entrevista.
3. Segue-se o centro de referência do orientando.
4. Ênfase no conteúdo emocional e na relação (rapport).
Atitude do orientador:
Aceitação,
Compreensão,
Respeito,
Permissiva,
Objetivando confiança nas possibilidades de autodetermi­
nação do orientando.
Atuação do orientador:
Compreende,
Clarifica,
Sente e percebe com o orientando,
Reflete o conteúdo emocional,
Penetra no mundo psicológico do orientando.
67
Utiliza-se quando o orientandoapresenta:
1. Estado de tensão emocional,
2. Capacidade de lidar com os elementos de sua situação 
vital,
3. Desejo de receber ajuda,
4. Inexistência de deficiências orgânicas.
Campos de aplicação da orientação não-dirigida:
1. Administração,
2. Ensino,
3. Psicoterapia individual,
4. Psicoterapia em grupo,
5. Ludoterapia,
6. Aconselhamento: Profissional,
Educacional,
Vital.
68
A DINÂMICA
DO ACONSELHAMENTO
NÃO-DIRETIVO
O treinamento e prática em qualquer tipo de aconselhamento de­
pende de dois aspectos altamente relacionados: primeiro, da atitude do 
orientador e segundo, das suas técnicas. Estes dois aspectos são inti­
mamente interdependentes e só se separam para apresentação didática. 
Mesmo aí, dificilmente podem ser apreciados completamente em sepa­
rado, porque as técnicas empregadas pelo orientador dependem da sua 
atitude; isto é, a técnica é a objetivação da atitude do orientador. As­
sim, as respostas do orientador dependem de seu sistema de valores e 
da sua percepção da realidade objetiva.
Muito se tem dito a respeito da inconveniência, e mesmo perigo, 
de o orientador projetar as suas próprias atitudes e vivências no cliente, 
bem como da possibilidade da interferência das atitudes do orientador 
no processo de aconselhamento. Muito se tem feito para evitar que isso 
aconteça. A escola psicanalítica tem procurado contornar o problema, 
. submetendo à análise os próprios psicánalistas, com o objetivo de con­
trolar as suas ações, levando-os a um conhecimento profundo de suas 
próprias motivações. Orientadores profissionais e psicólogos têm pro­
curado, como meio de controlar a projeção de suas atitudes e conseguir 
uma base objetiva para os seus julgamentos, fundamentá-los mais e 
mais nos resultados dos testes padronizados.
Existem, porém, outras maneiras de o orientador controlar as suas 
atitudes, e estas são:
1. ° Conhecer, com precisão, a natureza da técnica que usa e as ati­
tudes que (através da aplicação dessa técnica) ele objetivará na 
sua relação com o orientando.
2. ° Compreender qual o clima psicológico que a técnica determina.
69
Vejamos um exemplo: o orientando expressa um problema. Que 
faz o orientador? Interpreta — Persuade — Inquire — Apóia — Com­
preende. Podemos levantar as seguintes questões sobre a atitude do 
orientador:
— Por que inquire sobre um determinado tópico?
— Que lhe fez escolher essa interpretação e não outra?
— Por que resolveu apoiar o orientando em determinado aspecto?
— Teria, acaso, aliviado com isso a sua própria angústia? A inter­
pretação dada não seria reflexo da atitude pessoal que se teria 
colocado frente a uma experiência semelhante? Estará absoluta­
mente certo de que a solução que sugere para o problema do 
orientando não é a solução que encontraria para um problema seu?
O orientador não responde ao orientando, ao acaso. Ele visa a 
atingir um objetivo e esse objetivo depende de um sistema de valores 
pessoais, que varia de um orientador para outro.
Quando um orientador utiliza técnicas persuasivas, coercitivas, su­
gestivas, ele adota o ponto de vista de que há limitações na capacidade 
de autodeterminação do orientando. Outro acredita que o orientando 
não é capaz de compreender as motivações do seu comportamento, por­
que está bloqueado pelos seus próprios mecanismos de defesa. Torna- 
-se, então, necessário que estas motivações lhes sejam apontadas e in­
terpretadas, o que é feito pelo orientador pois se encontra mais 
habilitado a percebê-las claramente. Há ainda outros orientadores que 
acreditam ser o orientando capaz de utilizar seus próprios recursos, des­
de que se sinta compreendido realmente. A sua técnica consiste em 
criar uma atmosfera propícia, que facilite a autocompreensão.
Elias Porter 0) apresenta uma classificação das categorias de res­
postas utilizadas pelos orientadores, baseada em estudo cuidadoso de 
entrevistas gravadas por seguidores das várias orientações. Essas cate­
gorias são as seguintes:
A valiativa: O orientador faz um julgamento do que o orientando 
expressou. De certa maneira, o orientador inclui, franca ou sutilmente, 
na sua resposta, aquilo que o cliente pode ou deve fazer.
I nterpretativa : Indica a intenção de o orientador atribuir um 
significado ao que o orientando diz, mostrando-lhe alguma coisa que 
por ele não foi percebida. Inclui, de maneira direta ou sutil, na sua 
resposta, o que o cliente deve ou pode pensar.
apoio: Indica que o orientador pretende animar o cliente, re­
duzir a intensidade das suas vivências emocionais. Inclui, na sua 
resposta, que o cliente não precisa, necessariamente, sentir-se abatido 
com o problema que tem.
70
Inquisitiva: Indica a intenção de o orientador procurar maiores 
informações e mesmo provocar discussão. Inclui a idéia de que será 
proveitoso para o orientando prolongar o debate sobre o problema 
apresentado.
Compreensiva: Indica que o orientador tem a intenção de trans­
mitir ao orientando a sua compreensão.
O exemplo que segue ilustra as referidas categorias, mediante 
a apresentação dos vários tipos de respostas que podem ser oferecidas 
pelo orientador à verbalização de um problema do orientando:
Orientando-. “Na verdade não sei o que fazer, se devo ou não con­
tinuar a ser professora primária. Não suporto mais esse trabalho que me 
põe tão nervosa. . . É verdade que tenho uma posição estável e um 
bom salário. Mas, é possível que o mais certo seja largar tudo e me 
dedicar àquilo que realmento desejo (pausa). Porém isto implicaria em 
começar tudo outra vez, partir da estaca zero, conformar-me com pe­
quenos salários. . e não sei se poderia fazer isto.”
Categoria de respostas que poderiam ser apresentadas pelo 
orientador:
Inquisitiva: A senhora poderia falar-me um pouco mais sobre o 
seu novo campo de interesse? Acho que isto seria importante, para po­
dermos conversar mais claramente sobre o assunto.
Avaliativa: Antes que a senhora tome uma decisão como esta, é 
preciso saber se realmente vale a pena. É preciso considerar se sua 
nova atividade lhe garantirá ao menos a segurança que lhe dá o magis­
tério primário.
a po io : Acho que poderemos auxiliá-la em sua decisão. A se­
nhora se submeterá a alguns testes, e através deles nos será possível 
avaliar suas possibilidades de sucesso nesse novo campo de interesse 
e possamos também descobrir as causas da sua insatisfação no magis­
tério. _
Interpretativa: Sua indecisão é muito compreensível. Por um 
lado, a senhora sente incerteza com relação ao seu novo campo de inte­
resse. Por outro lado, há o conflito entre a insatisfação com o magis­
tério e a segurança que essa atividade lhe proporciona.
Compreensiva: É uma decisão difícil, não é? Continuar um tra­
balho seguro que a irrita ou arriscar-se numa nova atividade.
Quais as características das respostas compreensivas? É a adoção 
do centFo de referência do orientando. É a reflexão das vivências emo­
cionais do orientando pelo orientador, que as percebe da mesma forma 
que o seu cliente. O orientador funciona com um “ego-substituto”, des­
pindo-se de suas próprias vivências emocionais, para se pôr a serviço 
do orientando: reflete suas emoções, temores, inseguranças e ansiedades.
Shostrom e Brammer (3) afirmam que é a adoção do centro de 
referência interno que cria o “clima psicológico não-diretivo”, isto é, o
conjunto de atitudes do orientador, que torna mais propícia a possibili­
dade de o orientando se autocompreender. A adoção do centro de refe­
rência interno consiste numa contínua tentativa de penetrar no mundo 
psíquico do orientando e viver as suas atitudes expressas por ele, em 
vez de, simplesmente, observá-las.
REGISTRO DA SÍNTESE DE UM CASO EM QUE FOI ADOTADO
PELO ORIENTADOR O CENTRO DE REFERÊNCIA INTERNO
Norma explicou que até o ano passado se sentira bastante feliz, 
trabalhando como enfermeira. Todavia, esse ano acha-se muito infeliz. 
Conforme ela apresentou a situação, é óbvio que se está sentindo muito 
preocupada e perturbada. Parece que há anos planejara ser enfermeira 
e que realmentese sentira ajustada nessa atividade conseguindo trabalhar 
muito bem até o ano passado. Mas esse ano, apesar de todo esforço, não 
consegue trabalhar. Conforme se expressou, gostava muito da atividade 
de enfermagem, mas agora a detesta e também se detesta a si própria por 
se sentir dessa maneira.
Agora tem tido que enfrentar tudo aquilo que reprovara nas outras 
pessoas — inclusive na sua própria irmã. Não consegue forçar-se a tra­
balhar; sente-se culpada quando veste o uniforme, porque se considera 
hipócrita. Sabe que se prosseguir como enfermeira não se sentirá satisfei­
ta e portanto não fará o trabalho direito. Acha que terá que tomar uma 
decisão dolorosa e decisiva. Se conseguir continuar na profissão atual, 
superando suas dificuldades e realizando um ajustamento satisfatório, sen- 
tir-se-á forte por havê-lo conseguido. Se não obtiver esse ajustamento, 
sentir-se-á fraca e deficiente.
Norma concluiu que o que estava tentando fazer era encontrar alguém 
que realizasse por ela essa decisão que, na realidade, só ela mesma poderia 
tomar.
Estruturou-se dessa forma o seu processo de aconselhamento. Norma 
decidiu que gostaria de se submeter a testes vocacionais, pelo menos como 
ponto de partida, e “fazer todo o esforço para esclarecer as suas incertezas”.
Um indivíduo adota o centro de referência externo quando segue 
uma situação tipicamente social. O orientando e o orientador pergun­
tam e respondem, cada um seguindo seu próprio fio de pensamento. As 
percepções que o orientador tem a respeito do cliente são formadas, 
exclusivamente, à base do seu treinamento e experiência. Ele se con­
centra nas informações que o orientando lhe fornece, atribui-lhe um 
significado e faz o diagnóstico. O exemplo que segue ilustra esse pro­
cedimento;
REGISTRO DA SÍNTESE DE UM CASO EM QUE FOI ADOTÁDO
PELO ORIENTADOR O CENTRO DE REFERÊNCIA EXTERNO
Expliquei à orientanda que ainda era cedo para uma indicação pro­
fissional definitiva. Apontei-lhe, contudo, o campo da Administração como 
sendo um daqueles onde, ela teria maiores possibilidades. Inicialmente,
ela fez objeções quanto a este campo profissional, mas, depois de levar em 
conta uma série de fatores, concluiu que seria uma carreira a considerar.
No setor de ajustamento emocional, verificamos que inúmeros de 
seus problemas e sentimentos de inferioridade eram resultantes da marcada 
predileção da mãe pelo irmão mais moço. Com intuito de ajudá-la a su­
perar os mesmos, explicamos que a predileção da mãe pelo filho e a do 
pai pela filha era uma ocorrência bastante comum e que isto não devia 
fazer com que ela perdesse a confiança em si mesma. Quanto a isto, 
afiançamos-lhe que seu ingresso em faculdade lhe seria muito proveitoso, 
pois iria ter possibilidade de constatar sua boa capacidade de estabelecer 
contatos sociais.
Para ilustrar melhor a diferença entre o Centro de Referência Ex­
terno e o Interno, E. PorterO) apresenta o seguinte diagrama:
CENTRO DE REFERÊNCIA CENTRO DE REFERÊNCIA
EXTERNO INTERNO
f
ORIENTADOR I
(organiza o mate­
rial ouvido e per­
cebido em um tipo 
de esquema)
1
Sintomas, Trau­
mas, Estruturas do 
Ego etc.
I
(Baseia as suas 
respostas naquilo 
que ele (orienta­
dor) percebe na si­
tuação do cliente, 
como significativo 
de acordo com a 
sua formação e ex­
periência técnica)
Quando o cliente fala 
ao
ele fala de X Y Z
de fatos externos 
ao cliente como 
ele os vê
de seu proprio 
comportamento 
como ele o per­
cebe
de seus sentimen­
tos, autoconceito, 
aspirações, valo­
res etc.
i
ORIENTADOR II
(tenta compreen­
der como o cliente 
percebe e tenta 
sentir da maneira 
como o cliente 
sente)
(Responde como 
que perguntando 
ao cliente se sua 
compreensão está 
correta)
1. É assim que 
você sente que 
é . . .
2. É assim que 
você percebe 
a situação
Quando o cliente fala ao orientador I ou II, ele fala X Y Z (seus 
sentimentos pessoais, experiências etc.); demonstra e revela muito de 
sua personalidade, pela maneira de agir durante a entrevista. A dife­
rença essencial está, evidentemente, nas respostas de cada um dos orien-
73
tadores. O orientador I baseia as suas respostas no que se sente como 
significativo na situação do cliente, enquanto que o orientador II dá as 
respostas baseado na compreensão daquilo que o cliente sente como 
significativo na situação.
Naturalmente, tanto o orientador I como o orientador II atentam 
para as percepções e sentimentos íntimos do orientando, e reconhecem 
que X Y Z são, em última análise, as percepções que o cliente tem dos 
acontecimentos, mas usa a sua compreensão (orientador I) em termos 
da significação que ele (orientador) atribui, ao que acha importante 
na situação do cliente. Isto é, responde em termos do Centro de Refe­
rência Externo. O segundo orientador procura eliminar o seu pró­
prio julgamento e visa a compreender as percepções e comportamento 
do orientando, somente como estes parecem ao próprio cliente. Reage, 
portanto, usando o Centro de Referência Interno.
Rogers (zjapresenta o seguinte exemplo para ilustrar a diferença 
entre a adoção, por parte do orientador, do centro de referência externo 
e interno:
Orientando — Acho que não sou muito equilibrado, mas gostaria 
de ser. . . (pausa). Pensei que tivesse alguma coisa a dizer, mas. . . não 
sei. . . Tentei pensar no que falaria nessa entrevista mas agora que 
estou aqui não sai coisa alguma. Imaginava que seria muito mais fácil 
(pausa). Mas posso lhe dizer uma coisa: não consigo decidir-me; não 
sei o que quero. Tenho tentado raciocinar logicamente e descobrir quais 
são as coisas importantes para mim. Acho que há duas coisas que um 
homem pode fazer: casar e ter filhos. Pois se ficar solteiro, simples­
mente trabalhando para viver — isto já não é tão bom. Às vezes, penso 
no meu tempo de criança e começo a chorar. Parece que a muralha se 
rom pe... Estive 4 anos na guerra. Nesse tempo, não tinha proble­
mas, nem aspiraçõeç, nem desejos. Meu único pensamento era cair 
fora, quando voltasse a paz. Agora que estou fora, meus problemas 
continuam os mesmos... Adoro crianças. Jurei nunca esquecer mi­
nha infância infeliz. Assim, quando via crianças, na Europa, eu as 
tratava muito bem. Dava-lhes sorvete e lhes pagava cinema. Foi ape­
nas uma fase — depois passou — mas acordou em mim algumas emo­
ções que imaginava já estarem mortas.
CENTRO DE REFERÊNCIA EXTERNO
Será que devo ajudá-lo a verbalizar?
Será essa incapacidade uma maneira de se tornar dependente de 
mim?
Por que tanta indecisão? Quais podem ser as causas?
Que significa esta preocupação com o casamento e filhos?
Ele deve ser solteiro, não sabia disso.
O choro, a muralha, parecem indicar que ele deve ser muito re­
primido.
Ele esteve na guerra. Será um caso psiquiátrico?
Deve ser mesmo terrível passar quatro anos na guerra.
Provavelmente, no futuro, ele terá que trazer à tona todas as suas 
experiências traumáticas.
Que significará esse interesse por crianças? Identificação? Ho- 
mossexualismo latente?
CENTRO DE REFERÊNCIA INTERNO
Você está lutando para conseguir manter seu equilíbrio.
É realmente difícil começar a se expressar.
Parece impossível *para você fazer uma decisão.
Você deseja casar mas não vê possibilidades.
Você se sente dominado por vivências infantis.
A guerra significou para você uma estagnação.
Ser bondoso com as crianças tem um significado especial para 
você. Mas isto foi, e é, uma experiência perturbadora para você.
Convém registrar que, no aconselhamento não-dirigido, o orienta­
dor utiliza outros tipos de respostas, além daquelas classificadas como 
compreensivas. Assim, na análise de casos apresentada por Snyder,^) 
nos quais foram empregadas técnicas não-diretivas, surgem as seguin­
tes respostas:
ClarificaçÃo das vivências emocionais: O orientador responde 
aos verdadeiros sentimentos expressos pelo orientando, porém os apre­
senta de maneira mais clara e mais facilmente compreensível. O orien­
tador não atenta aos fatos ou idéias, mas aos sentimentos e emoções.
Exemplo:
Orientando,(adolescente) — O meu exame médico não acusou ne­
nhuma doença. Agora mamãe me chama de preguiçosa porque eu só tenho 
vontade de dormir o dia todo. Não compreendo por que vivo tão cansada.
Orientador — Você está se sentindo um tanto perplexa e desapontada 
porque não pode mais atribuir à doença física o seu sono e cansaço.
Reflexão do conteúdo: Tenta classificar os sentimentos, mas só 
consegue repetir o que o cliente disse, com palavras diferentes.
75
Exemplo:
Orientando — Tenho muito mau gênio. Brigo com todo mundo.
Orientador — Você se irrita com facilidade e se desentende com 
as pessoas.
Interpretação: Ultrapassa os sentimentos expressos pelo orien­
tando. Inclui, na resposta, material ainda não conhecido ou percebido, 
isto é, material inconsciente.
Exemplo:
Orientando — Sinto uma necessidade incontrolável de lavar e 
limpar tudo.
Orientador — Talvez você deseje realmente se limpar de alguma 
coisa de que se sinta culpado.
Aceitação: Consiste na mera aceitação das vivências do orien­
tando. Pode ser verbal — exemplo: “Sim”, “Sei”, “Entendo” etc. — 
ou não verbal, expressa através de atitude silenciosa, empatia.
Apoio: São respostas de suporte. Exemplos:
“Compreendo como se sente”
“Deve ser dura a sua situação”
“Imagino como a senhora sofreu”
Perguntas: São usadas em situações específicas. Exemplos: “De­
seja continuar as entrevistas?”
“Gostaria de me falar um pouco mais sobre isso” (quando o orien­
tador necessita mais dados a fim de compreender as vivências do orien­
tando) .
“Como vão as coisas?” (pergunta vaga, usada, muitas vezes, para 
início da entrevista).
Informação: Sobre resultado de testes, ou sobre situações e dados 
objetivos, que resultarão em esclarecimentos e real ajuda para o orien­
tando tomar iniciativas e deliberações.
O quadro abaixo ilustra a freqüência com que são empregadas 
essas categorias de respostas no aconselhamento não-diretivo.
77
RESUMO
Atitude do orientador
Técnica do orientador 
Respostas do orien­
tador
determinam *
Clima psicológico do 
aconselhamento
Relação entre orienta- 
tador e orientando
Categorias de respostas do 
orientador em geral
Avaliativas
Interpretativas
Suportativas
Interrogativas
Compreensivas
O DIAGNÓSTICO E A 
UTILIZAÇÃO DOS TESTES 
PSICOLÓGICOS 
NO ACONSELHAMENTO 
NÃO-DIRETIVO
I. O DIAGNÓSTICO NO ACONSELHAMENTO
NÃO-DIRETIVO
RoGERs(6-7)critica e rejeita a utilização do diagnóstico como ponto 
central no processo de aconselhamento, pois considera-o basicamente 
em desacordo com os princípios filosóficos e ideológicos nos quais está 
fundamentada a orientação não-diretiva e que podem ser sintetizados 
na crença e na confiança que depositam na capacidade de autodetermi­
nação do indivíduo que o habilita a encontrar, ele próprio, as soluções 
mais adequadas para seus problemas.
O processo de diagnose psicológica localiza o centro de avaliação 
definitivamente no orientador que é considerado como o mais habilitado 
para conhecer os sentimentos e problemas do orientando. Essa situa­
ção resulta, obviamente, em atitude de dependência, pois o cliente sente 
que a responsabilidade para a compreensão e resolução de suas difi­
culdades está nas mãos de uma outra pessoa. Em tal situação, o indi­
víduo estará longe de obter progresso no desenvolvimento de sua capa­
cidade de autodeterminação e de utilização de seus recursos pessoais.
Assinala Rogers que há uma perda de senso de valor pessoal por parte 
do cliente, implícita na idéia de que uma outra pessoa, mesmo sendo um 
especialista, é capaz de avaliá-lo mais precisamente do que ele próprio 
e que, portanto, as medidas de seu valor pessoal estão em poder de 
outra pessoa. Quanto mais o orientando desenvolve essa atitude de 
dependência de outro para melhor autoconhecimento e avaliação de 
suas características e possibilidades, tanto menos oportunidade terá para 
amadurecimento. Afirma Carl Rogers que, mesmo com relação ao 
tratamento psicoterápico, o diagnóstico oferece pouca utilidade, em vista 
do escasso conhecimento objetivo que se possui a respeito da relação
79
entre as várias espécies de perturbações psíquicas e os tipos de trata­
mento psicoterápico mais adequados para as mesmas. Outrossim, cha­
ma atenção para a discordância revelada nas pesquisas, concernentes 
aos diagnósticos psiquiátricos. Entre outros, pode-se citar o estudo 
realizado por AsH,(0no qual 52 indivíduos do sexo masculino, porta­
dores de problemas de personalidade (não estavam incluídos no grupo 
casos de psicose) foram examinados por três psiquiatras diferentes, a 
fim de classificá-los em categorias de diagnóstico. Houve concordância 
completa em apenas 20% dos casos; em 45% apenas dois psiquiatras 
concordaram; 35% apresentaram absoluta discordância. Estudos rea­
lizados por Eysenck 5 também comprovam a escassa fidedignidade dos 
diagnósticos psiquiátricos.
Em vista dos argumentos expostos, Rogers preconiza que o diag­
nóstico deve ser realizado pelo próprio cliente, durante o processo de 
aconselhamento; à medida que explora o seu mundo psíquico vai 
obtendo maior autoconhecimento, descobrindo as causas de suas difi­
culdades e a amplitude de suas potencialidades.
TYLER,(4)por outro lado, assinala que o conceito de diagnóstico 
pode ser encarado de duas maneiras:
1) Diagnóstico como rótulo. Por exemplo: indecisão vocacional. 
Tem pouca utilidade, porque nada diz sobre as várias combinações de 
atitudes que estão implícitas nesse rótulo. Assim, só tem utilidade para 
facilitar a elaboração de relatórios, arquivos e fichários.
2) Diagnóstico como é usado por Williamson e outros diretivis- 
tas: representa um quadro compreensivo e total a respeito do cliente, 
que inclui suas fraquezas, possibilidades, interesses, aptidões, suas expe­
riências passadas e esperanças para o futuro. Esta espécie de diagnós­
tico constitui, para os diretivistas, a etapa principal, o ponto culmi­
nante, na orientação vocacional e educacional. Isso, entretanto, é feito 
pelo orientador sozinho, sem a colaboração do orientando. Sendo 
assim: a) a ênfase é dada a processo de pensamento do orientador 
antes da entrevista em que comunica ao orientando os resultados dos 
seus testes e na qual são tomadas as decisões. Na realidade, o orien­
tador já tomou decisões e deliberou que sugestionará o orientando, a 
fim de que a decisão dele (orientando) se enquadre na do orientador;
b) Objeta que os atuais estudos estatísticos de prognósticos revelam 
que não se tem suficiente conhecimento do campo psicológico, para 
fundamentar uma decisão vital, visto que as possibilidades de previsão 
ainda são muito fracas. Por exemplo, o sucesso em universidades e 
resultado de testes apresentam, apenas, a correlação de 0,60 e 0,70; c) 
Para fazer o diagnóstico, o orientador tem que sair do centro de refe­
rência do cliente e usar um centro de referência externo, perdendo 
assim muito das vivências expressas.
80
No entanto, Tyler reconhece que, em certos casos, é possível e 
útil o diagnóstico com relação às seguintes situações:
1. “Devo continuar com esse caso? Esse orientando será capaz 
de se beneficiar com o tipo de ajuda que damos aqui?” — Estão incluí­
dos os casos que se podem diagnosticar como “sem problemas aparen­
tes” e que procuram uma determinada instituição ou o orientador, por 
curiosidade ou por seguir o entusiasmo de um amigo. No outro extre­
mo temos aqueles que estão seriamente perturbados e que devem ser 
encaminhados a clínicas especializadas. Nessa situação, o orientador 
não deve dizer: “o seu caso é sério demais para o nosso Serviço”, mas: 
“seus problemas são um pouco diferentes daqueles que podemos ajudar 
a solucionar aqui neste Serviço”. Em seguida, deve indicar o serviço 
especializado. Tyler, em discordância com Carl Rogers, considera 
aconselhamento psicológico insuficiente para ajudar pessoas neuróticas, 
mas apenas para aquelas com dificuldades atuais. O uso dos testes 
psicológicos serve para facilitar esse esclarecimento.
2. Casos de só uma entrevista — São casos em que se verifica63
III. Aplicações do Aconselhamento Não-diretivo ............... 63
7. A Dinâmica do Aconselhamento Não-diretivo ...................... 69
Centro de Referência Externo ................................................. 74
Centro de Referência Interno ................................................. 75
8. O Diagnóstico e a Utilização dos Testes Psicológicos no
Aconselhamento Não-diretivo ..................................................... 79
I. O Diagnóstico no Aconselhamento Não-diretivo . . . 79
II. O Uso dos Testes Psicológicos no Aconselhamento
Não-diretivo ..................................................................... 82
III. A Interpretação dos Testes no Aconselhamento Não-
-diretivo ......................................... 85
9. Caso Ilustrativo do Aconselhamento Não-diretivo ................ 9o
O Caso de Margarida Castro ................................................ 90
Seguimento ..................................................................................... 95
10. O Aconselhamento Eclético ....................................................... 97
Etapas do Processo de Aconselhamento Auto-ajustativo . . . 103
11. Caso Ilustrativo de Aconselhamento' Eclético (Auto-ajusta-
, tivo) ..................; .......................................................................... 106
O Caso de'Mauro — Primeira Entrevista ................................ 106
Exemplo de Entrevista de Conselho — Segunda Entrevista 110
12. Alguns Problemas e Sugestões ............................. 116
I. Problemas Específicos ................................................ 116
II. Algumas Sugestões aos Orientadores .......................... 121
13. O Aconselhamento na Orientação do Grupo Familiar ........ 124
14. As Características e Alguns Princípios Éticos do Orientador
Psicológico ................................... 138
I. Características do Orientador ....................................... 138
II. Alguns Princípios Éticos .................. 143
15. Três Entrevistas de Aconselhamento ....................................... 147
Caso de Augusto ............................................................. 148
Caso de Helena ............................................................................. 163
Caso de Carlos Gustavo ............................................................. 173
Bibliografia ............................................................................................. 186
NOTA DA AUTORA
Quando elaboramos a primeira edição do Aconselhamento Psico­
lógico, a gravação de entrevistas de aconselhamento em nosso meio 
era pouco utilizada, provavelmente devido à timidez por parte dos 
orientadores e psicólogos e às resistências e suspeitas naturais por 
parte dos clientes. Nos últimos anos, o uso de gravadores se genera­
lizou em todas as áreas das atividades humanas, penetrando também 
no campo da orientação e da psicologia clínica.
A gravação sistemática de entrevistas de aconselhamento facili­
tou substancialmente as possibilidades de pesquisa e aperfeiçoamento. 
Convém registrar que alguns especialistas recomendam que as entre­
vistas sejam ouvidas não somente pelo orientador, mas igualmente 
pelos clientes, pois estudos realizados, sobretudo pelo corpo técnico 
do Centro de Aconselhamento da Universidade de Chicago, sugerem 
ser esse procedimento valioso auxiliar no desenvolvimento do pro­
cesso psicoterápico.
A presente edição do Aconselhamento Psicológico ofereceu-nos 
a oportunidade de enriquecer o nosso trabalho anterior, acrescentando 
um capítulo dedicado à apresentação de entrevistas gravadas e trans­
critas, acompanhadas ainda de alguns comentários sobre a resposta 
dos orientadores. Acreditamos que as mesmas serão úteis aos estu­
diosos do assunto, servindo como material didático e como ponto de 
partida para maiores reflexões.
/
Essa contribuição não teria sido possível sem a colaboração dos 
colegas que gentilmente nos cederam o material apresentado no capí­
tulo 15 e a quem somos profundamente gratos. Agradecemos tam­
bém as excelentes sugestões que recebemos de nossa colega, a Prof.a 
Maria Helena Novaes.
RUTH SCHEEFFER
8
INTRODUÇÃO
Este livro foi escrito para estudantes de Psicologia, de Orienta­
ção Educacional, de Serviço Social e para outros profissionais que 
estejam interessados em se familiarizar com os métodos utilizados na 
prática do Aconselhamento Psicológico. Não pretende oferecer ne­
nhuma idéia original ou técnica nova nesse campo. Representa sim­
plesmente uma tentativa para sintetizar, de maneira didática, as prin­
cipais abordagens e contribuições dos autores mais proeminentes. 
Com esse objetivo, procuramos agrupá-los, sobretudo, como repre­
sentantes' de três orientações distintas: diretiva, não-diretiva e eclética. 
A apresentação dos fundamentos teóricos em que se baseiam essas 
abordagens é complementada por exemplos práticos de entrevistas de 
aconselhamento nas' quais foram utilizados métodos diretivos, não- 
-diretivos e ecléticos. A firn de que esses exemplos fossem realmente 
ilustrativos, escolhemos propositadamente casos apresentados pelos 
próprios iniciadores e precursores dos três tipos de aconselhamento 
psicológico.
Outrossim, consideramos importante algumas palavras de escla­
recimento com respeito a certos termos empregados. Embora o vo­
cábulo “aconselhamento” não conste nos dicionários de língua por­
tuguesa, preferimo-lo a “conselho” por sentirmos que, mesmo se tra­
tando de um “neologismo psicológico'’, cacacterizaria melhor essa ati­
vidade. Aconselhamento expressa mais adequadamente o aspecto di­
nâmico dessa situação — na qual uma pessoa recebe ajuda psicoló­
gica na solução de suas dificuldades — e a diferencia com mais pro­
priedade do mero fornecimento de conselho. Não obstante a ampla
9
divulgação nos E.U.A. do termo “conselheiro” (counselor), é este 
ainda assaz estranho em nosso meio e decidimos conservar a deno­
minação “orientador”, que poderá ser psicológico, profissional ou 
educacional.
Há várias pessoas a quem devemos a possibilidade da realiza­
ção desse trabalho. Primeiramente o devemos à Professora MARIAN 
KINGET, da Michigan State University, Ex-Assistente de CARL 
ROGERS, cujos magníficos seminários sobre Aconselhamento e Psi- 
coterapia nos abriram novos horizontes nesse campo. A colabora­
ção da colega Maria de Lourdes Almeida Magalhães na adaptação 
dos casos apresentados foi preciosa, como o foi também a das alunas 
do Curso de Introdução à Teoria e Prática do Aconselhamento Psi­
cológico, por nós ministrado, que transcreveram as nossas aulas em 
forma de súmulas, as quais serviram de ponto de partida para esse 
trabalho atual. O Professor EMÍLIO M IRA y LÓPEZ, nosso chefe 
e diretor do Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Funda­
ção Getúlio Vargas, muito nos estimulou com a sua generosa e com­
petente apreciação. O colega Henrique Baez nos forneceu excelentes 
sugestões. Os orientandos que durante mais de 10 anos atendemos 
para aconselhamento nos proporcionaram, com a sua confiança, a 
necessária experiência e motivação para esse trabalho. A todos, a 
nossa sincera gratidão.
RUTH SCHEEFFER
10
a CONCEITO DE
ACONSELHAMENTO
PSICOLÓGICO
I. INTRODUÇÃO
O aconselhamento constitui, atualmente, um dos setores especí­
ficos da Psicologia. A psicologia do aconselhamento, como psicolo­
gia experimental, social, industrial, abrange um importante setor de 
especialização da ciência psicológica. Representa uma síntese de 
várias diretrizes correlatas que se desenvolveram nos campos da orien­
tação educacional, higiene mental, psicometria, serviço social de caso e 
psicoterapia.
II. DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO
Historicamente, o aconselhamento surgiu em conexão com os se­
guintes movimentos psicológicos renovadores: 1) Fundação de Cen­
tros de Orientação Infantil e Juvenil (para pais e filhos) na primeira 
década desse século. Todavia, conforme registra C arl R ogers* (10), o 
trabalho dessas instituições pioneiras consistianuma só entrevista (na entrevista inicial) que o orientando necessita 
de outro tipo de ajuda. Por exemplo:
— casos de doenças orgânicas;
— caso de aluno de escola que fracassa em virtude de séria dificul­
dade de leitura;
— caso de uma jovem que está com um programa de estudo mais 
carregado do que lhe é possível dar conta.
Nesses, casos, o orientador não diz ao orientando o que deve fazer, 
mas aceita a sua decisão de tentar outros recursos ambientais. Todavia, 
o orientador pode informar a respeito desses recursos.
3. Quando o orientador tem dúvidas com respeito à necessidade 
do uso de testes para orientação profissional ou educacional. — Neces­
sitará o orientando de testes para se conhecer melhor a si próprio? Não 
obstante, Tyler reconhece que nesses casos pode haver o perigo de 
criar uma atitude, por parte do cliente, que depende de julgamentos 
exteriores para se conhecer melhor, o que estaria em desacordo com 
a filosofia rogeriana básica. Os testes podem servir, apenas, para o 
indivíduo se compreender melhor, mas não para se aceitar melhor. 
Também podem ser utilizados como termo de comparação com o seu 
grupo. Os resultados são transmitidos ao orientando, porém sem diag­
nóstico realizado pelo orientador. O papel do orientador profissional 
não-diretivo é de sintetizar os resultados dos testes, informações e atitu­
des expressas pelo cliente, num todo compreensível e de transmiti-los 
ao orientando, de maneira que lhe permita assimilar essa síntese e to-
81
mar uma decisão. O plano de ação por ele elaborado, na base das im 
formações, pode não constituir um bom prognóstico do ponto de vista 
externo, mas será aquele pelo qual o orientando será responsável.
II. O USO DOS TESTES PSICOLÓGICOS NO 
ACONSELHAMENTO NÃO-DIRETIVO
Rogers reconhece a importância dos testes psicológicos como ins­
trumentos de investigação de aptidões, escolaridade, interesse, traços 
de personalidade e ajustamento, para diagnóstico dos casos de desajus- 
tamento ou mesmo patológicos. Aceita como necessário o seu uso no 
diagnóstico da criança-problema na escola, do delinqüente que aparece 
perante o tribunal, dos candidatos a emprego numa empresa. Porém, 
no caso da orientação não-diretiva, não é aceito o emprego dos testes 
como ponto central ou ponto de partida para o aconselhamento, pois 
estaria, como o diagnóstico, em desacordo com os princípios básicos 
dessa orientação. Se o orientador inicia o seu trabalho com a aplicação 
de uma bateria de testes, isso implicará em aceitar a idéia de que ele 
irá apresentar as soluções para os problemas do orientando. De acordo 
com a teoria rogeriana, as soluções fornecidas pelo orientador não são 
genuínas, não ajudam realmente o cliente e, muitas vezes, o torna de­
pendente e até ressentido. São realmente válidas as soluções encontra­
das pelo próprio orientando, embora com a ajuda do orientador (como 
um ego-substituto), na atmosfera permissiva da entrevista do aconse­
lhamento.
No entanto, não quer dizer com isso que os testes nunca devam 
ser utilizados no aconselhamento. Em muitos casos podem ser úteis, 
se forem usados como conclusão das entrevistas, mediante desejo ex­
presso do orientando. Um orientando pode chegar à compreensão do 
seu problema vocacional através do aconselhamento, sentindo-se pronto 
para pôr em ação os seus planos. No entanto, poderá reconhecer, sin­
ceramente, que não tem um conhecimento objetivo de suas aptidões e 
interesses, o que faz com que se sinta pouco seguro da sua escolha. 
Nesse caso, o uso dos testes poderá lhe proporcionar esse conhecimento 
que será muito construtivo, desde que os seus resultados possam ser 
incorporados à compreensão e à valorização por ele realizadas do 
seu “eu”.
Afirma Rogers que o teste só tem uma função útil no aconse­
lhamento não-diretivo, quando é usado para satisfazer uma necessi­
dade real, sentida pelo cliente. Os seguintes casos ilustram essa situa­
ção: um orientando pode ter decidido ingressar na carreira comer­
cial; mas haverá correspondência com os seus reais interesses e apti­
dões? Os testes serão úteis para lhe dar uma resposta? Outro orien­
tando, que faz o ginásio com dificuldade, poderá estar interessado em
82
saber objetivamente se deve tentar ingresso em curso superior. Os 
testes lhe fornecerão os dados objetivos para uma decisão adequada.
Do ponto de vista da orientação não-diretiva, os testes só têm va­
lor quando podem ser usados construtivamente pelo orientando, na 
tomada de decisões ou para pôr em prática realizações positivas. O 
uso de testes como meio de informação para o orientador só é admi­
tido quando se trata de verificar se o orientando é caso para ser sub­
metido a aconselhamento, tratamento ambiental ou tratamento psico- 
terápico — dúvida que ocorre, com freqüência, em orientação psicope- 
dagógica.
BoRDiNOOe Bixler,(2-3) imbuídos da filosofia não-diretiva (a res­
ponsabilidade e a iniciativa devem sempre ser dadas ao orientando), 
apresentaram num trabalho publicado a possibilidade da seleção de 
testes pelo orientando, como etapa do processo de aconselhamento. 
De início, essa idéia pareceu a muitos fantástica e irrealizável. No 
entanto, com a prática, verificou-se que, do ponto de vista do acon­
selhamento não-diretivo, é um procedimento valioso e até mesmo na­
tural. Pois assim se objetiva de maneira explícita, ao orientando, a 
idéia de que, desde o início, ele é responsável pelas suas decisões e 
que é livre para tomá-las.
Vejamos um exemplo concreto: é muito comum os orientandos, 
quando se referem aos objetivos da sua consulta, se exprimirem desta 
maneira: “Desejo submeter-me aos testes vocacionais para saber qual 
a profissão mais adequada para mim” . . . ou “Desejo submeter-me 
aos testes para saber se devo seguir o clássico ou o científico”. As 
respostas do orientador que o habilitam, primeiro a clarificar o seu 
conceito de como o seu problema poderá ser melhor solucionado, e 
segundo a determinar a sua atuação para solucioná-lo, levam-no co- 
mumente a expressar a idéia de que os testes o ajudarão. Neste pon­
to é comum, na orientação diretiva, o orientador assumir completa 
responsabilidade sobre a escolha dos testes, cujos resultados ele con­
sidera úteis para a informação do orientando. Muitas vezes para se­
lecionar os testes, o orientador tem que fazer perguntas e investiga­
ções que reforçarão mais a idéia de que está tomando a iniciativa e 
a responsabilidade da decisão*que deveríam pertencer ao orientando. 
Poder-se-ia argumentar que o orientador está melhor habilitado para 
selecionar os testes adequados. No entanto, esse procedimento pri­
vará o orientando de uma oportunidade de auto-expressão, de revisão 
do seu problema, bem como introduzirá o perigo de criar situação de 
dependência.
Evidentemente, esse processo apresenta o obstáculo do desconhe­
cimento, por parte do orientando, a respeito dos testes. Os autores 
sugerem que, para contornar essa dificuldade, se faça uma descrição,
em linguagem acessível e não-técnica das informações que o orien­
tando pode obter sobre si próprio, mediante os vários testes, a fim 
de que possa decidir os que prefere. Nessa discussão, muitas vezes, 
se tem oportunidade de clarificar atitudes e vivências do orientando, 
o que lhe dará melhor autocompreensão, além da oportunidade de 
catarse. O exemplo abaixo ilustra essa situação.
Discute-se a possibilidade de teste de aptidão científica.
Orientanda — É, eu gostaria de fazer esse curso, mas acho que agora 
já está um pouco tarde para pensar nisto.
Orientador — Você acha que já é tarde para pensar em Ciências 
Naturais?
Orientanda — É, acho que sim, apesar de gostar muito de Ciências. 
Sempre tive ótimas notas em Química e Biologia, quando estava no ginásio. 
No momento estou fazendo um Curso de Línguas, no qual estou-me saindo 
bastante bem. Mas não sei se estou no caminho certo.
Orientador — Você está-se saindo muito bem, mas não está certa se é 
exatamente aquilo que quer.
Orientanda — (pausa) Meu pai é químico e minhairmã trabalha em 
laboratório (sua face muda de expressão). Sempre achei que não seria 
difícil competir com eles, mas, não sei porque,. acabei por decidir que 
seria melhor não ingressar no campo científico (longa pausa).
Em continuação, a orientanda passou a verbalizar os seus sentimentos 
de insegurança e rivalidade com respeito às figuras paterna e fraterna.
Em geral, os orientandos que se recusam a fazer a escolha são 
aqueles que têm problemas de dependência. Naturalmente, nesses 
casos, o orientador não pode se recusar a fazer a escolha dos testes, 
embora se reconheça que esse tipo de orientando tenha a tendência a 
depender gradativamente mais do orientador para outras escolhas, de­
cisões e responsabilidades.
Em resumo, a seleção de testes realizada pelo orientando oferece 
as seguintes vantagens:
1. Desenvolve uma situação propícia para o orientando expressar 
material relacionado com os seus sentimentos e vivências.
2. Facilita uma compreensão mais profunda dos seus problemas.
3. Estimula uma atuação mais ativa do orientando e um reconheci­
mento mais imediato de sua responsabilidade no decorrer do 
processo.
4. Na realização dos testes, o orientando terá conhecimento e cons­
ciência do significado da sua atuação ou rendimento em cada um 
deles, o que lhe dârá oportunidade de se observar melhor. Essa 
auto-observação muitas vezes resulta em modificação de atitudes.
5. Propicia mais motivação (porque o indivíduo sabe o que está 
fazendo) e mais significado para os testes (porque existe uma 
participação ativa do orientando).
III. A INTERPRETAÇÃO DOS TESTES NO 
ACONSELHAMENTO NÃO-DIRETIVO
A atuação do orientador no aconselhamento não-diretivo deve 
ser meramente informativa e não avaliativa ou diretiva. O orienta­
dor deve manter o comportamento mais neutro possível, abster-se de 
dar opiniões pessoais e de determinar os planos de ação que devem 
ser da responsabilidade do cliente.
Mesmo a comunicação de resultados negativos ou deficientes deve 
seguir este mesmo princípio — franqueza e neutralidade. Geralmente, 
o orientador tem a tendência de esconder os resultados baixos dos 
testes e, em vez de ser franco, trata de persuadir o orientando a in­
gressar em profissões ou cursos que exijam pouca aptidão intelectual.
No entanto, de acordo com o ponto de vista do aconselhamento não- 
-diretivo, essa é, muitas vezes, uma ocasião propícia para o indivíduo 
amadurecer, aceitar-se a si próprio, através da expressão livre das 
suas ansiedades e desapontamentos.
A interpretação de testes de personalidade tem sido um desafio 
para os que seguem essa orientação, porque eles indicam condições 
pessoais do indivíduo que são muitas vezes traumáticas e de pouca 
utilidade. Em muitos casos, essa interpretação tem efeito negativo ou 
mesmo destrutivo, pois nada se consegue de construtivo para o indi­
víduo dizendo-lhe que o teste indica ser ele um inseguro, angustiado 
ou um desajustado social.
Tyler apresenta as seguintes recomendações:
1. ° No estudo de um caso — das notas da entrevista aos resul­
tados dos testes — o orientador deve sempre compreender o orien­
tando. Compreender o seu mundo, as suas percepções da realidade 
objetiva e nunca avaliá-lo. Por exemplo: o orientador procurará com­
preender as motivações que levam o orientando X a querer estudar 
medicina, se não demonstra nenhum interesse científico. Outras dis- 
crepâncias e conflitos devem merecer especial atenção, para que se 
possa formar o quadro mental (com que se aproximará do orientan­
do, na entrevista) que fornecerá base para melhor compreensão do 
padrão das experiências do orientando.
2. ° Outro aspecto é procurar compreender como os resultados 
dos testes afetarão o orientando. Para isso é preciso adotar o seu cen­
tro de referência. Só assim o orientador poderá compreender como o 
cliente se sentirá, baseado no conhecimento que dele obteve nas en­
trevistas anteriores.
85
3. ° Como comunicar o resultado ao orientando é o terceiro as­
pecto. A finalidade do orientador é habilitar o orientando a formar 
uma idéia clara de suas possibilidades e deficiências, sobre a qual 
possa construir o seu futuro. É muito importante que os testes reve­
lem aquilo que o orientando deseja saber de si próprio. A influência 
das percepções do orientando a respeito do valor dos testes deve ser 
compreendida pelo orientador. As suas expectativas com relação aos 
testes poderão fazer o orientando assimilá-los ou rejeitá-los. Por isso 
é necessário muita habilidade para organizar as informações num todo 
que será transmitido ao cliente, antecipando e compreendendo as suas 
reações. Isso exige grande intuição e empatia.
Por exemplo: dois orientandos, alunos do curso preparatório de 
medicina, submetem-se aos testes para elucidar a razão pela qual não 
conseguem sair-se bem nos estudos. O primeiro freqiienta o curso 
para satisfazer a imposição paterna. Seu desejo é trabalhar em negó­
cios. O segundo admira a profissão, talvez um tanto abstratamente, é 
filho único de mulher viúva que dedicou todas as suas economias para 
dar instrução ao filho, antevendo-lhe um futuro brilhante. Os testes 
de nível intelectual de ambos mostraram resultados insatisfatórios. Es­
ses resultados terão acolhidas e serão assimilados de maneira bem di­
ferente pelos indivíduos em questão. O primeiro, que provavelmente 
deseja se livrar do curso, os receberá com alegria e até com alívio, 
pois lhe darão argumento decisivo para desistir. Para o segundo os 
resultados serão decepcionantes e até traumáticos. Portanto o orien­
tador terá que abordá-los de maneira diversa e cuidadosa.
4. ° Convém iniciar a explicação dos resultados com testes de in­
teresse. porque a maioria dos orientandos diante deles sentirá menor 
necessidade de assumir atitude defensiva. Todavia, isso não é regra 
geral, pois é preciso levar em conta que as motivações do comporta­
mento humano são muito diversas.
5. ° Os termos usados devem merecer muita atenção. Devem-se 
evitar os que têm conotações emocionais desfavoráveis: usar aptidões 
acadêmicas em vez de inteligência etc.
6. ° Refletir e clarificar as expressões emocionais.
7. ° Sempre que possível, dar explicação em termos de percentil 
em vez de usar os termos inferior ou superior.
Exemplo de comunicação dos resultados dos testes no qual foi ado­
tada a orientação não-diretiva:
Orientador — Os resultados que você obteve nos seus testes de racio­
cínio numérico e espacial revelam que terá dificuldade na Faculdade de 
Engenharia. Raramente, estudantes com um rendimento igual ao seu se 
saem bem naquela Faculdade. Por outro lado, muitos estudantes com um 
rendimento como o seu se saem bem em Ciências Sociais.
86
Orientando — Mas quero entrar na Escola de Engenharia. Acho que 
serei mais feliz, como engenheiro. O senhor não acha que isto também é 
importante?
Orientador — Você está desapontado com os resultados dos testes 
e se pergunta se não é também importante o fato de você gostar de 
Engenharia.
Orientando — Mas os testes dizem que a Sociologia ou outra qual­
quer coisa desta natureza me são mais aconselháveis (desgostoso).
Orientador — Isso o deixa desapontado, porque não é o tipo de 
atividade que lhe interessa.
Orientando — Eu fiz um teste de interesse, não? Quais foram os 
resultados?
Orientador — Você gostaria de saber se eles não coincidem com o 
que você sente. Seu teste mostra que grande número das pessoas com 
seus escores tendem mais a se interessar pela Engenharia do que por 
Ciências Sociais.
Orientando — (interrompe) Mas o senhor disse que tenho poucas 
possibilidades em Engenharia, não é?
Orientador — Você sente que não adianta muito pensar em Enge­
nharia em tais circunstâncias, mas não está muito certo.
Orientando — É, não estou mesmo. Não sei se não me daria melhor 
fazendo aquilo que realmente me agrada. Talvez tenha mesmo melhores 
oportunidades em Engenharia. Talvez sabendo das minhas desvantagens, 
sirva de estímulo para me esforçar mais e conseguir superá-las.
Alguns Problemas:
1.Deve o orientando ver o resultado dos testes? Sempre que 
possível deve ser evitado, para impedir distorções. Muitas vezes isso 
é difícil (embora quanto mais se compreende o cliente mais se podem 
evitar as distorções, porque o orientador antecipará as suas vivências 
e reações). Porém, se houver insistência, pode-se mostrar, desde que 
não seja destrutivo para o cliente.
2. Devem-se aplicar os testes ininterruptamente ou intercalar com 
as entrevistas?
Depende da situação. Às vezes, depois de um teste de interesse se­
guido de uma entrevista, o orientando não sente mais necessidade de 
informações.
RESUMO
I. O DIAGNÓSTICO NO ACONSELHAMENTO NÃO-DIRIGIDO 
Diagnóstico realizado pelo orientador:
1. Rejeitado por Rogers porque:
a) Envolve avaliação do orientando pelo orientadpr.
b) Responsabilidade de compreensão e solução dos 
problemas estão com o orientador.
c) Supõe que o orientador é mais capaz.
d) Estimula atitudes de dependência.
e) Cientificamente deficiente.
2. Aceito por Tyler e outros:
a) Para verificação da conveniência de o orientando ser 
atendido pelo Serviço.
b) Para encaminhamento.
c) Para decidir a aplicação de testes (em orientação 
profissional e educacional).
II. USO DOS TESTES PSICOLÓGICOS NO ACONSELHAMENTO 
NÃO-DIRETIVO
Aceitável
1. Como conclusão das entrevistas, por 
desejo expresso do cliente.
2. Para satisfazer uma necessidade real 
do cliente de conhecer objetivamente 
suas características.
3. Para diagnóstico de casos que devem 
ser encaminhados.
Não-aceitável -que tenho é por causa disto. Ele já me disse mesmo que as 
pessoas que sofrem uma grande transformação física, às vezes, custam 
a se adaptar a estas mudanças (como se falasse para si mesma). Acho 
que ela apostaria seu salário de um mês, tal a sua certeza.
O. — Você está certa de que seu médico está enganado (clarifi­
cação) ?
M. — (enfática) Tenho a mais absoluta certeza. (Longa pausa. 
Enxuga os olhos e o nariz e prossegue em voz muito baixa) Ninguém 
pode agüentar passar a vida inteira odiando a mãe como eu, sem acabar 
ficando com os nervos em frangalhos. Desde que me entendo por gente 
que desejo que ela morra. Ela é uma pessoa tão tremendamente domi- 
nadora, que levou meu pai e minha irmã ao suicídio. Poderia dizer que 
os matou. Ela é um verdadeiro vampiro que nada mais fez, a vida 
inteira, que sugar o sangue de seus próprios filhos. Minha operação 
plástica foi apenas um acidente. Desde criança que me usou como 
empregada. Nesta época ela estava iniciando um negócio e toda sua 
energia era aplicada naquilo. Não resta dúvida que ela venceu. Atual­
mente é dona de uma cadeia de casas comerciais. Cada um de seus
filhos, os que restam, possui um certo capital em seu próprio nome.
Agora ela quer que participemos de seus negócios. Uma de minhas
irmãs já é sua sócia. A outra casou-se, mas como o marido não “serviu”, 
ela rapidamente providenciou o desquite. Seu último projeto é encar­
regar-me de um dos setores da Firma. Coitada, mas desta vez vai 
ficar muito surpreendida. O dia em que eu fizer 21 anos, aposso-me 
do dinheiro e vou-me embora para nunca mais voltar.
O. — A dominância de sua mãe tornou sua vida insuportável e 
você sente... (Clarificação).
M. — (Prosseguindo de maneira muito clara). . . É a primeira vez 
em minha vida que falo a alguém quanto odeio minha mãe, e como 
sempre desejei sua morte. (Irônica) Deveria ficar envergonhada, mas, 
por incrível que pareça, não sinto vergonha alguma.
O. — Você acha que deveria envergonhar-se do que disse a respeito 
de seus sentimentos em relação a sua mãe, mas na verdade não sente 
vergonha alguma (Clarificação).
M. — Acho que estou ficando insensível, asim como ela sempre foi 
comigo.
O. — Você acha que assimilou a falta de sensibilidade de sua mãe? 
(Reflexão).
M. — É. (calma) Não sei. Às vezes fico pensando se vale a pena 
gastar minhas energias continuando a odiá-la, desejando sua morte. 
Já não dependo tanto dela. Acho que já posso viver minha própria 
vida. Na verdade não preciso mais dela para nada.
O. — Você sente que já não é mais necessário desejar a morte de 
sua mãe? (Clarificação).
M. — É, acho que já sei o que devo fazer, que direção dar a minha 
vida daqui por diante. (Excitada) A senhora compreende? Minha 
vida tem sido um verdadeiro inferno. Minha infância não foi muito 
diferente da infância de uma empregadinha. Era responsável por todo 
o serviço da casa, arrumar, lavar e cozinhar. Era uma criança horrorosa 
e mamãe nunca se preocupou em me arrumar. Andava como um judas. 
Minha vida se limitava em ir de casa para a escola, da escola para casa. 
Meu único refúgio eram os livros. No colégio só falava com os profes­
sores, assim mesmo, para dar minhas lições. Acho que meus professores 
tinham pena de mim. Acho não, tenho certeza. Nunca consegui ter uma 
amiga. Naguela época me sentia a pessoa mais miserável e infeliz do 
mundo. A coisa mais importante para mim era ser a primeira aluna da 
classe, e, apesar de conseguir, mamãe nunca me deu um alfinete por isso 
ou me fez um elogio. Nem tampouco papai. Ela só sabia falar comigo 
para dar ordens: "Lave a roupa quando chegar do colégio”; “Arrume me­
lhor a casa, que está uma desordem”. Divertimentos! Ah, isto é coisa que 
ela jamais pensou em nos proporcionar. A senhora precisava ver em que 
estado viviam minhas mãos. Tinha até vergonha de que alguém as visse. 
Minha grande preocupação era mantê-las escondidas. Nesta época, ela não 
dava a menor importância à minha feiúra. Herdava as roupas de minhas 
irmãs. Não fazia mal que não ficassem muito bem, era mais econômico. 
Era tratada como o cachorro. Pior que isto, porque de vez em quando ela 
fazia uma festinha nele, mas para mim nunca sobrava tempo. Ela jamais 
deixou transparecer a menor afeição por mim, nem eu por ela, é lógico. 
Papai e ela passavam dias e dias sem se falarem. Coitado! A senhora pre­
cisava ver a maneira como ela o tratava! Só se dirigia a ele para dizer- 
-lhe que era um fracassado e que não servia nem mesmo para sustentar a 
família. (Com rancor contido) Ah, como eu desejava que ela morresse. 
Quando ela saía, ia para a porta e ao vê-la afastar-se desejava intensamente 
que ela não voltasse mais, que fosse morta. Mas quando chegava a tarde 
tinha verdadeiro pânico que tivesse acontecido o que desejara e só 
ficava calma quando ela regressava. Mas não levava muito tempo, todo 
meu ódio voltava de novo. E foi neste inferno que passei toda a minha 
infância. Nunca fui a lugar nenhum. Não tinha tempo e não tinha von­
tade, pelo menos achava que não tinha. Minha vida consistia em trabalhar 
e estudar, trabalhar s estudar. Como era importante para mim, ser a pri­
meira da classe! Às vezes, como não tinha tempo de estudar de dia, pas­
sava as noites em claro a fim de me preparar para as provas. Era conside­
rada menina modelo. Os professores me apontavam como exemplo e isto 
fazia com que meus colegas me odiassem. (Pequena pausa e em ritmo 
mais lento) Então um d ia ... bem, acho que ele agüentou até demais, — 
quando fui ao porão buscar mantimentos... encontrei-o. Estava morto. 
Ah, acho que nunca tive tanto ódio de mamãe. Como desejei que ela nunca 
mais voltasse, que ela morrese. Desejei tanto que cheguei até a adoecer 
(pausa). Há anos que desejo isto. E é uma coisa que não consigo superar. 
É como se tudo dependesse da sua morte (longa pausa). É, mas de algum 
tempo para cá isto está melhorando! Sinto que para me libertar não é 
mais necessário eliminá-la. Isto depende somente de mim (pausa). Às 
vezes chego a sentir pena dela. Sua vida deve ser um inferno. É uma mu­
lher tão tremendamente solitária! Ninguém consegue aproximar-se dela. 
Ela não tem uma amiga sequer. Todo mundo tem desprezo por ela. Sua 
vida também deve ser um inferno.
O. — Você sente que sua mãe é uma pessoa que merece piedade, 
que é desprezada por todos (Reflexão).
M. — É, mas apesar de tudo acho que ela pode viver sua vida 
assim, como eu a minha, e quanto mais longe vivermos uma da outra, 
melhor será. Um d ia ... quem sabe... talvez seja possível uma certa con­
ciliação desde que arranjemos um “modus vivendi”, em que nos respeite­
mos mutuamente, como seres humanos.
O. — Você acha que poderá um dia vir a ter uma relação humana 
com sua mãe, na qual haja um respeito mútuo (Clarificação).
M. — É. A senhora vê, na verdade sei que não necessito desta orien­
tação. Acredito que Dr. Carlos tenha tido boas intenções quando me 
mandou procurá-la. Mas não me sin to ... (campainha toca). Oh! Já 
estou aqui há uma hora? (tom de descrédito).
O. — O tempo pareceu voar (Clarificação).
M. — Bem ... (levantando-se). Não pretendo voltar. De qualquer 
modo, agradeço-lhe muito (Clarificação).
O. — Você sente que não necessita marcar outra hora?
M. — Não. Boa tarde.
O. — Boa tarde.
(Sai mas volta alguns minutos depois)
M. — Seria possível a senhora me dar seu telefone? Assim poderei 
telefonar-lhe, caso necessite.
O. — Está muito bem. Aqui está.
M. — Obrigada. Até logo.
Margarida não voltou a procurar a orientadora, mas o relatório 
médico declarou melhora pronunciada em seu estado emocional após 
a entrevista.
Sentimentos e vivências emocionais significativas expressas por 
Margarida durante a entrevista:
1. Eu só vim procurá-la porque o meu médico insistiu.
94
2. O doutor acha que tenho esses sintomas porque estou perturba­
da, emocionalmente, mas isto não é verdade. Não estou per­
turbada a respeito de coisa alguma.
3. Choro sem motivo algum. É apenas uma reação natural devido 
à operação cirúrgica a que fui submetida.4. Minha mãe fez todos os preparativos para que eu me submetesse 
a essa operação plástica, sem me consultar — nem ao menos 
procurou saber como eu me sentia a respeito.
5. Foi um choque tremendo quando tudo terminou. Eu era uma 
outra pessoa.
6. Senti-me como uma falsária, uma vigarista.
7. O doutor acha que estou assim perturbada por causa da opera­
ção, mas ele está enganado.
8. Uma pessoa não pode passar toda a vida odiando profunda­
mente alguém, como eu odeio minha própria mãe, e não se sen­
tir com os nervos destroçados.
9. Eu odeio minha mãe e desejo sua morte.
10. Suponho que deveria sentir-me envergonhada mas não me sinto 
assim.
11. Minha vida tem sido um verdadeiro inferno. Quando criança eu 
não passava de uma miserável criadinha.
12. Nunca tive amigos e me sentia profundamente infeliz na escola.
13. Jamais esquecerei o choque que eu senti quando encontrei meu 
pai. Ela o matara.
14. Todavia, acho que já sou suficientemente adulta para viver e 
deixar os outros viverem suas próprias vidas.
15. Na verdade, eu estava fugindo de enfrentar uma decisão, na 
esperança de que algo lhe ocorresse. Mas isto agora depende de 
mim. Realmente, acho que tenho pena dela. Sua vida deve ser 
um inferno.
16. Talvez, algum dia, possa haver uma certa conciliação entre nós 
duas.
17. Como a senhora vê, eu não precisava mesmo vir aqui.
18. Poderia dar-me seu telefone, caso eu necessite lhe falar outra 
vez?
SEGUIMENTO
Alguns meses após a entrevista transcrita, Margarida Castro ca­
sou-se com um colega de Faculdade. Seu médico nos informou que 
ela parecia estar muito feliz.
Dois anos mais tarde, soubemos que sua progenitora sofrerá um 
derrame cerebral, que a deixaria paralítica. Atualmente vive em com-
95
panhia de Margarida, que voluntariamente se propôs a cuidar dela. A 
relação entre ambas, segundo os informes recebidos, é muito satisfa­
tória, parecendo haver compreensão e amizade.
Infelizmente, fica apenas no terreno das especulações se houve al­
guma relação entre esses acontecimentos e a entrevista de aconselha­
mento.
96
O ACONSELHAMENTO 
ECLÉTICO
O aconselhamento eclético caracteriza-se pela utilização das várias 
técnicas aplicadas pelas diversas orientações, de acordo com a neces­
sidade do caso. A integração dessas técnicas poderá ou não constituir 
uma nova abordagem teórica. Alguns autores são de opinião de que 
não é possível o ecleticismo baseado em conceitos retirados das teorias 
diretivas e não-diretivas, visto que, considerando essas orientações pra­
ticamente opostas em seus princípios básicos, jamais poderão entrosar- 
-se de forma coerente. Realmente, é possível apreciar diferenças fun­
damentais' entre esses dois métodos de aconselhamento psicológico. 
(Ver quadro na p. 99.)
Todavia, operacionalmente, verifica-se que não há contrastes signi­
ficativos nas duas orientações. Pesquisas realizadas revelaram que há 
elementos idênticos na dinâmica das entrevistas de aconselhamento 
diretivo e não-diretivo. Verificou-se que há diversas técnicas comuns 
às duas orientações que variam apenas na freqüência com que são uti­
lizadas pelo orientador. Apresentamos, na página seguinte, essas técni­
cas pela ordem de freqüência.
■ Examinando as idéias dos diversos autores que defendem as van­
tagens do ecleticismo no aconselhamento psicológico, concluímos que 
há, sobre esse assunto, dois conceitos relativamente bem definidos. O 
primeiro preconiza a aplicação deliberada de técnicas diretivas e não- 
-diretivas. Seus principais representantes são T h o r n e , W arters, H am- 
rin , P aulson e ultimamente E rickson , que abandonou a posição abso­
lutamente diretiva para se agregar ao grupo de ecléticos cuja orientação 
denomina cooperativa. O segundo conceito representa a incorporação 
dos pontos de vista e técnicas diretivas e não-diretivas que foram pro­
vados mais válidos e úteis, experimentalmente, numa nova teoria deno­
minada pelos seus autores, Shostrom e B ram m er , Aconselhamento 
Auto-Ajustativo.
97
Aconselhamento Aconselhamento
Diretivo Não-diretivo
1. Orientador faz perguntas 1. Orientador reconhece sen-
específicas que podem ser 
respondidas pelo cliente: 
“ sim ” ou "não" (34. 1) *
timentos e atitudes (10).
2. Explica, discute, dá infor- 2. Interpreta e reconhece sen-
mações (20. 3). timentos e vivências (9.3).
3. Indica tópico de conversa, 3. Indica tópico de conversa,
mas deixa o cliente desen- mas deixa o cliente desen-
volvê-la (16. 4). volvê-la (6. 3).
4. Propõe atividade (13. 3). 4. Reconhece o conteúdo fa­
tual (6).
5. Reconhece conteúdo fatual 
apresentado pelo cliente 
(6. 1).
5. Dá informações (3. 9).
6. Mostra evidências para 6. Define a situação da entre-
persuadir o cliente a um vista em termos da res-
plano de ação (5. 3). ponsabilidade do cliente.
7. Aponta o problema ou 
condição requerendo cor­
reção (3. 7).
8. 0 orientador fala mais que 7. 0 orientador fala menos
o orientando que o orientando
O principal precursor e defensor do primeiro conceito de aconse­
lhamento eclético é F rederick T h o r n e que o considera como o mais 
adequado tipo de abordagem à teoria e prática do aconselhamento psi­
cológico. Defende a idéia de que o orientador deve ser igualmente 
competente na aplicação de ambos os métodos. A validade dos resul­
tados será determinada pela habilidade de selecionar o método a ser 
empregado, sob a luz dos fatores etiológicos do diagnóstico e de acordo 
com as indicações de cada caso. O ponto crítico não é método, mas a 
habilidade com que o método é selecionado e aplicado.
Na escolha do método devem ser consideradas as seguintes cir­
cunstâncias: á) se o cliente procurou o aconselhamento por vontade 
própria; b) se sua atitude é genuinamente receptiva ou se a cooperação 
é apenas superficial; c) se o estado emocional do orientando está in­
terferindo na sua receptividade; d) se há presença de estados patoló­
gicos afetivos e temperamentais que indiquem impossibilidade de rece­
ber aconselhamento.
* Os algarismos referem-se aos índices de freqüência do uso de cada técnica de 
acordo com pesquisa realizada.
98
Aconselhamento
Diretivo
Aconselhamento
Não-diretivo
D irig id o Pelo Orientador Pelo Cliente
P rin c íp io
B ásico
0 orientador conhece me­
lhor os objetivos mais ade­
quados ao cliente
0 cliente conhece melhor 
o que lhe convém e está 
mais capacitado para es­
colher os seus próprios 
objetivos.
F ilo s o fia
G era l
M e c a n ic is ta — Caracteri­
za-se pelo conceito de 
comportamento como o im­
pacto de uma força sobre 
outra.
H u m an is ta — 0 que inte­
ressa no comportamento 
humano não é o poder, 
mas suas energias criado­
ras, capacidades e poten­
cialidades. Conceito o ti­
mista da natureza humana.
F ilo s o fia das
R elações
H um anas
Oligárquica
Hierárquica
Autocrática
Democrática
Liberal
Ponto de 
V is ta C ie n tíf ic o
C iê n c ia s F ís ica s — Aná­
lise dos fatos; procura de 
objetividade; lida com ob­
jetos; manipula-os e os 
disseca
F eno m e n o ló g ico — Consi­
dera as coisas como apa­
recem. A personalidade do 
orientando é vista como 
única. Não há preocupa­
ção com leis gerais mas 
com a pessoa na sua indi­
vidualidade.
C e n tro de 
R e fe rên c ia
E xte rno — Objetivo In te rn o — Subjetivo
M é to d o
Seguido
M é to d o o b je tiv o — Ênfase 
no aspecto intelectual. 0 
orientador focaliza o his­
tórico do cliente, diagnos­
tica, dirige. Pensa a res­
peito do cliente.
M é to d o s u b je tiv o — Ênfa­
se nas vivências emocio­
nais. 0 orientador procura 
compreender o cliente.
Pensa com o cliente.
Papel do 
O rie n ta d o r
A n a lis ta — 0 orientador 
avalia e elabora um diag­
nóstico e prognóstico.
C a ta lis ta — 0 orientador 
age como catalizador que 
visa a desencadear uma 
modificação de atitude.
R e su ltad os Depende, principalmente, 
da competência do orien­
tador.
Depende, principalmente, 
da maneira com que o 
cliente utiliza seus re­
cursos.
Q ua dro c o m p a ra tiv o das c a ra c te rís t ic a s bá s ica s 
d o s a c o n se lh a m e n to s d ire t iv o e n ã o -d ire tiv o
99
Thorne considera a técnica não-diretiva inadequada para o indi­
víduo que deseja apenas informações e não tem problemas emocionais. 
Ineficiente, também, para pessoas que apresentam distorção de perso­
nalidade — do tipo personalidade psicopática — que nunca formaram 
um verdadeiro superego, censura, ou mesmo senso de autocrítica.
Thorne apresenta as seguintes etapas para a Orientação Eclética:
1. Diagnóstico das causas do problema.
2. Elaboração de um plano para modificar os fatores etiológicos.
3. Assegurar condições propícias para a aprendizagem adequada.
4. Estimular o cliente a utilizar seus próprios recursos e assumir 
responsabilidade para a prática de novas formas de ajustamento.
5. Manejar de maneira acertada problemas correlatos que possam 
contribuir para melhor ajüátamento.
O orientador pode delegar a responsabilidade das várias fases do 
aconselhamento ao cliente, mas é, em última análise, o responsável pelo 
seu planejamento e execução.
Thorne preconiza a possibilidade de se utilizar técnicas diretivas 
e não-diretivas na mesma entrevista, sem perturbar a atmosfera e a re­
lação permissiva que deve caracterizar uma boa entrevista. O cliente 
aceita bem tudo que é feito com tato e de uma maneira emocional­
mente não “ameaçadora”.
Com a finalidade de indicar a conveniência da aplicação de um 
outro método (diretivo e não-diretivo) Thorne faz as seguintes gene­
ralizações:
1. Os métodos passivos (não-diretivos) devem ser usados, sem­
pre que for possível.
2. Os métodos ativos (diretivos) devem ser usados somente quan­
do houver indicação específica. Geralmente, uma interferência diretiva 
é suficiente para alcançar os objetivos.
3. As técnicas passivas são, em geral, mais recomendadas no 
início do aconselhamento, quando o orientando está narrando a sua 
história, a fim de permitir a liberação do conteúdo emocional.
4. Todo aconselhamento deve ser centralizado no cliente, nos seus 
interesses. Isso não quer dizer que os métodos diretivos sejam contra- 
-indicados. Em muitos casos as necessidades do orientando indicam 
ação diretiva.
5. É conveniente dar a cada orientando uma oportunidade de 
resolver o seu problema de maneira não-diretiva. Quando há absoluta 
inabilidade, por parte do orientando, para progredir, usando-se apenas 
métodos passivos, indica-se a utilização de métodos diretivos.
6. Métodos diretivos são, geralmente, utilizados quando a difi­
culdade apresentada pelo orientando não pode ser resolvida sem a 
cooperação de outras pessoas.
7. Certo grau de diretivismo é inevitável em qualquer tipo de 
aconselhamento, ainda que seja apenas para se decidir pela aplicação 
dos métodos passivos.
8. Tratando-se de conflito intrapsíquico (discrepância entre o 
conceito do “eu” e as suas próprias experiências) é preferível usar o 
método não-diretivo, com as seguintes ressalvas: a) o orientador deve 
pedir ao orientando que chegue às suas próprias conclusões. Quando 
isso não for possível, o orientador deverá concluir para o orientando; 
b) o orientador não deve permitir que o cliente se afaste do aconse­
lhamento enquanto se encontrar no auge do conflito.
Thorne faz críticas à orientação absolutamente não-diretiva. Afir­
ma mesmo que não acredita em método completamente não-diretivo, 
pois este não é compatível com a natureza da relação entre orientador 
e orientando. Apresenta as seguintes razões para objetivai seu ponto 
de vista:
1. O orientando procura o orientador porque o considera mais 
experiente e treinado; considera-o um especialista. A condição de su­
perioridade do orientador já se encontra estruturada, desde o início da 
relação, devido ao seu prestígio como especialista.
2. O orientador determina o método a ser usado, o que implica, 
indiretamente, em “dirigir”.
3. O que é realizado na situação de aconselhamento não é ava­
liado apenas em termos do que o orientador pensa estar realizando, 
mas também em termos do que o aconselhamento representa para o 
orientando.
Erickson, inicialmente diretivista, defende agora a orientação eclé­
tica. Aceita também a idéia de que mesmo numa só entrevista podem- 
-se usar várias técnicas. Acha que a excessiva aderência a um só méto­
do torna o orientador menos flexível. Considera bom orientador aquele 
que é capaz de pôr em prática, com igual habilidade, as duas técnicas.
Chama a sua orientação de cooperativa e nela inclui os seguintes 
princípios:
1. A entrevista proporciona uma oportunidade conjunta para ca­
tarse, diagnóstico e planejamento de ação. O grau de participação do 
orientador e orientando varia e é transferido de acordo com as conside­
rações individuais.
2. Ambos os participantes têm interesse em ter alguma respon­
sabilidade com relação aos resultados do aconselhamento.
3. Ambos os participantes reconhecem o direito e responsabili­
dade do orientando de tomar as decisões e executar os planos de ação.
Hamrim e Paulson preconizam a utilização da orientação não- 
-diretiva quando se trata de situação de aconselhamento, que implica 
em ajuda para solução de problemas de ajustamento, preferindo porém 
o método diretivo para os casos que necessitam orientação profissional, 
informação ocupacional ou educacional.
Há autores que defendem o ponto de vista de que se pode incor­
porar numa nova teoria aquilo que for constatado como válido e útil 
nas diferentes teorias,*através de pesquisas ou estudos experimentais. 
Rogers parece adotar este ponto de vista quando afirma: “As escolas 
de pensamento ainda não abandonaram o pensamento mágico. Uma 
pessoa que tentar um meio termo ou entrosar duas teorias basicamente 
opostas, conseguirá, apenas, um ecleticismo superficial, que em nada 
aumentará a sua objetividade. Não se chega ao conhecimento da ver­
dade, através de concessões feitas às várias escolas de pensamento. Só 
é possível fazer desaparecer esses desacordos quando, através de pes­
quisas, forem estabelecidas novas evidências, permitindo que as duas 
orientações rivais sejam organizadas sob um novo prisma mais van­
tajoso.”
Shostrom e Brammer apresentam um corpo de teoria coerente 
coni este ponto de vista. Chamam de aconselhamento auto-ajustativo: 
tem a finalidade de ajudar o orientando a se tornar mais autodiretivo e 
auto-responsável.
Nos seus objetivos, muito se assemelha ao aconselhamento roge- 
riano. Nessa orientação a atitude do orientador é não-diretiva e per­
missiva, centralizada no cliente. Emprega consistentemente testes, pois 
é importante o fornecimento de informações ao cliente para que ele 
adquira melhor compreensão e percepção dos seus problemas e suas 
dificuldades. Essas informações só são fornecidas quando pedidas ou 
desejadas pelo orientando. Através das informações que recebe, o 
orientando pode considerar melhor as várias alternativas e assume a 
responsabilidade da escolha.
O orientador procura sempre que possível adotar o centro de re­
ferência do orientando. Todayia, usa também o centro de referência 
externo, quando necessário. Por exemplo: no fornecimento dos resul­
tados dos testes e de informações que o orientando necessita para me­
lhor se orientar, ou quando o próprio orientador precisa de esclareci­
mentos sobre o cliente, para complementar sua compreensão do mesmo.
As entrevistas desse tipo de orientação eclética são semidirigidas e 
a atmosfera é permissiva. Como na orientação não-diretiva, Shostrom 
e Brammer defendem a filosofia básica de autodeterminação do indi­
víduo e de confiança na sua capacidade para atingi-la.
ETAPAS DO PROCESSO DE ACONSELHAMENTO
AUTO-AJUSTATIVO
1. E ntrevista in ic ia l : realizada após o preenchimento de um 
questionário informativo pelo orientando. Apresenta o seguinte pro­
cesso:
1. Estabelecimento do "rapport”: Define o rapport como “um 
estado de confiança e respeito recíprocos, entre o orientador e o cli­
ente”. Essa relação deve inspirar no cliente sentimentos de segurança.
II. Estruturação: Após o estabelecimentodo rapport, o orienta­
dor inicia a entrevista, informando o cliente a respeito do tipo de rela­
ção que existe entre ambos. O seguinte exemplo de estruturação é 
apresentado pelos autores:
Orientador — Achamos que, em geral, essa entrevista inicial é 
mais produtiva quando o orientando nos fala a respeito do motivo da 
sua vinda ao Centro de Orientação e da natureza dos seus problemas. 
De certa forma, isso já é feito quando se preenche o Questionário Infor­
mativo, que pode também servir de roteiro para a sua conversa aqui co­
nosco. Assim, enquanto o orientando fala, o orientador procura pen­
sar com ele e, então, juntos decidem o que deve ser feito.
Convém registrar nessa estruturação os seguintes aspectos:
a) O Questionário Informativo é usado pelo cliente e não pelo 
orientador.
b) O orientador fala em termos gerais e não específicos, a fim de 
permitr ao cliente decidir-se se quer ou não seguir esse proce­
dimento.
c) O locus da responsabilidade é o cliente.
III. Discussão dos Problemas (Aconselhamento propriamente 
dito): São empregadas as técnicas não-diretivas de reflexão de vivên­
cias, aceitação e clarificação do conteúdo emocional expresso pelo 
cliente. Nessa etapa ocorrem liberação de cargas emocionais (catarse), 
obtenção de insights e elaboração de planos positivos de conduta, que 
incluem: a solicitação e seleção de testes psicológicos por parte do ori­
entando e procura de informação ocupacional ou dos recursos ofere­
cidos pela comunidade para satisfazer suas necessidades.
2. Fase exploratória: Os planos elaborados pelo orientando são 
postos em prática: submete-se aos testes, obtém informações nos ser­
viços informativos especializados etc.
3. Entrevista de síntese: Tem como finalidade sintetizar e rela­
cionar os seguintes tipos de informação a respeito do orientando:
103
a) Informação sobre ele próprio fornecida na entrevista inicial.
b) Informação fornecida pelos testes cujos resultados são expli­
cados e interpretados pelo orientador.
c) Informação sobre o mundo do trabalho que o orientando 
obteve por si mesmo.
d) Informação sobre outros recursos da comunidade. 
Conclusão: Conforme foi exposto, o ecleticismo representa uma
posição de meio termo e de equilíbrio no campo do aconselhamento. 
Todavia, conforme ressalta Warters, apresenta o perigo de tornar-se 
um método de orientação vago e superficial, inconsistente e simples­
mente oportunista. Isto pode ocorrer quando o orientador não procura 
entender rcalmente ambos os pontos de vista, seguindo simplesmente 
um processo denominado por Warters de “fórmula geral”.
104
RESUMO
Conceito que de­
fende a aplica­
ção deliberada de 
princípios d ire ti­
vos e não-dire- 
tivos.
Thorne
A escolha do mé­
todo depende da 
situação e atitude 
do cliente.
Aconselha­
mento M 
Eclético
J Hamrin 
e
Paulson
Problemas de ajus­
tamento — méto­
dos não-diretivos.
Orientação profis­
sional — méto­
dos diretivos.
Erickson {
Orientação coope­
rativa (flexib ilida­
de de técnicas).
Conceito que de­
fende a incorpora­
ção de princípios 
diretivos e não- ^ 
-diretivos, consi­
derados mais vá­
lidos, em uma no­
va teoria.
Shostrom
e
Brammer
J Aconselhamento 
| auto-ajustativo.
Entrevista in ic ia l.*
Etapas do 
Aconselha­
mento Auto-^ 
-ajustativo
Fase explorató­
ria. {
Discussão do problema (aconselha­
mento).
Estruturação.
Estabelecimento de rapport..
Aplicação de testes. 
Obtenção de informações.
Entrevista de sín­
tese.
105
CASO ILUSTRATIVO 
DE ACONSELHAMENTO
ECLÉTICO
(A UTO-A JUSTATIVO)
O CASO DE MAURO *
PRIMEIRA ENTREVISTA
1. Estabelecendo a relação:
O. — (indo ao encontro do orientando na sala de espera). Alô Mau­
ro, sou Dr. X, seu orientador. Como vai? Vamos entrar?
M. — Muito prazer. Bem, obrigado, e o senhor?
O. — Pode sentar. Diga-me uma coisa, é você o desenhista do jornal 
da Escola, não é? Já tive oportunidade de ver alguns de seus trabalhos e 
gostei muito.
M. — Obrigado. Divirto-me muito fazendo aquilo. Aliás, meus de­
senhos estão relacionados com o motivo que me levou a procurá-lo. Re­
solví vir aqui, porque estou com um grave problema. Desde que vim para 
a Universidade meus interesses têm mudado. Ontem, depois da Seção de 
Orientação em Grupo, o senhor mandou-me preencher aquele questioná­
r io ... Aqui na última página... é, talvez o senhor possa me compreen­
der melhor, lendo o que escrevi.
2. Estruturando:
O. — Hum, hum ... Você fez um bom trabalho, Mauro. Isto vai 
ser muito importante, principalmente depois que reunir todos os dados a 
seu respeito.
M. — Realmente, levei um bocado de tempo para respondê-lo... 
Falei tudo que tinha a dizer.
* A daptado de S H O S T R O M , E. L. e B R A M M E R , L. M. — T he D yn a m ics o f the 
C ounseling Process. N ova York, M cG raw -H ill, 1952, pp. 82-87 e 137-142.
106
O. — Não é fácil dizer o que se quer em um espaço tão pequeno, 
não é? Você gostaria de falar um pouco mais sobre esta parte ou outra 
qualquer? Talvez sinta-se mais à vontade falando diretamente sobre o 
assunto.
3. Discussão do Problema:
M. — Na verdade, não estou muito certo do meu problema. Pode­
remos falar se o senhor achar conveniente, mas tentei esboçá-lo o mais 
minuciosamente possível no questionário... Bem, aqui na frente eu co- 
loquei as diferentes escolas em que estive, os cursos em que estou interes­
sado e outras informações desta natureza.
O. — Mas, mesmo assim, você ainda está confuso quanto a seus pla­
nos futuros, não é?
M. — É, estou sim. Não sei exatamente... No ano que vem terei 
que fazer a escolha do meu campo de especialização. Tenho que começar 
a planejar desde agora, se quero fazer uma escolha acertada. E confesso 
que não sei o que escolher. . .
O. — Você não se acha apto para escolher sua especialidade, se bem 
que sinta que já é hora de tomar alguma decisão.
M. — Não, é mais complicado do que isto. O senhor compreende, 
toda vida achei, ou pelo menos mamãe e papai achavam, que eu deveria 
ser médico. Mas uma das coisas que é necessário para um médico é ser 
bom aluno em Biologia e Química e, na verdade, não me tenho saído muito 
bem nestas duas matérias. Gosto delas e, como sempre me interessei por 
esses assuntos, achei que estava certo pensar em Medicina. Mas depois que 
vim para aqui, descobri que gostava de outras coisas também. Acresce que 
recebi uma oferta para ser o redator da revista da Universidade. Ofere­
ceram-me esse emprego porque andei fazendo uns bons desenhos para eles. 
Acho que tenho uma boa aptidão para esse tipo de trabalho e me divirto 
também quando o realizo.
O. — Você tem muita confiança em si no campo das artes, não é?
M. — Realmente, tenho sim. Possuo uma infinidade de desenhos em 
casa, e, às vezes, fico pensando se algum dia não terei oportunidade de 
usá-los para alguma coisa.
O. — Sei.
M. — Pois é, agora não sei mais o que pensar... O que o senhor 
acha? Existe algum teste bom, através do qual se possa avaliar a capaci­
dade artística do indivíduo?
O. — Temos sim. Temos alguns testes que poderão auxiliá-lo em sua 
decisão. Mas eles são apenas guias. Não se pode confiar demasiado 
neles, mas acho que lhe ajudarão a descobrir qual o campo que mais lhe 
interessa. Além disso, eles poderão, também, auxiliá-lo na escolha do setor 
no qual você terá maiores possibilidades.
M. — Bem, isso será ótimo. Mas não estou certo se eles me dirão 
tudo o que desejaria saber. O senhor sabe, no ginásio, sempre fui um 
excelente aluno, mas aqui na Universidade tenho sido bastante medíocre.
107
Acho que vou ter dificuldades de ingressar na Faculdade de Medicina, 
ainda que me decida a fazê-lo.
O. — Você acha que os testes poderão auxiliá-lo?
M. — Acho que sim. Uma porção de colegas meus contaram-me que 
fizeram uma série de testes aqui e que obtiveram resultados muito satis­
fatórios.
O. — Bem, você fez um teste ao ingressar aqui que poderá nos 
dizer se tem ou não possibilidade de sucesso, caso queira ingressar na Fa­
culdade de Medicina.
M. — O senhor se refere ao Teste de Aptidões de Stanford?O. — É.
M. — Bem, mandaram-me o resultado pelo correio e disseram que 
eu havia sido classificado no grupo I. Que tal essa classificação, boa?
O. — É muito boa, Mauro. Você gostaria de saber seu escore?
M. — Gostaria muito.
O. — Então vamos ver. Assim poderemos depois elaborar um roteiro 
de provas para você. A não ser que você tenha mais algum assunto a falar.
M. — Tenho sim. O senhor é um psicólogo... conversa com uma 
infinidade de pessoas por aqui, talvez possa me ajudar. Tenho uma namo­
rada que está estudando arte. O senhor acha que é bom marido e mulher 
terem a mesma ocupação, ou é melhor quando têm atividades diferentes? 
Ou, talvez, não existam regras para isto. . .
O. — Bem, é sempre bom que um casal tenha interesses comuns. Mas, 
de outro lado, é bom que seus interesses sejam diferentes pois assim podem 
completar-se mutuamente.
M. — Esta é uma das razões que me fizeram pensar muito sobre 
Arte. E tem mais, acontece que recebi outro dia um convite de uma edi­
tora, da cidade em que moro, para trabalhar numa revista. Eles viram 
alguns de meus trabalhos e estão muito interessados. Para aceitar o convite 
teria que abandonar a Universidade. Confesso que isto me atrai muito. É 
o tipo da coisa que gostaria de fazer. Mas o senhor sabe, isto seria uma 
decepção para meus pais que sempre quiseram que eu fosse médico, e, 
também, me dá um pouco de pena deixar a Universidade, que é ótima.
O. — Você tem uma porção de possiblidades interessantes pela frente. 
Uma, continuar a Medicina como é desejo de seus pais. Outra, investigar 
novas áreas profissionais, como Arte, que é seu forte, e a terceira, largar 
a Universidade e ingressar num tipo de trabalho relacionado com seus in­
teresses atuais.
4. Selecionando os Testes:
M. — Pois é . .. (pausa). Mas a respeito dos testes de que o senhor 
falou. Será que poderia obter algum esclarecimento submetendo-me a 
eles?
O. — Bem, algumas vezes auxilam muito, outras não. . Aqui está à 
lista dos que usamos habitualmente em nosso Centro. Como você me ouviu 
falar, ontem à tarde, os testes são divididos em categorias diversas. Alguns
são de interesses, outros de aptidão acadêmica e outros mais específicos, 
como esse teste de julgamento artístico, esse de compreensão mecânica, des­
treza manual e tc ... Temos ainda outros tipos mais variados de testes, 
como os de personalidade e os de hábitos de estudos. Qual desses lhe in­
teressa?
M. — Será que esse de hábitos de estudo me auxiliaria a saber 
por que não estou me saindo bem nos estudos na Universidade?
O. — Eles têm ajudado alguns alunos a verificarem, pelo menos, em 
que área específica apresentam dificuldades.
M. — Sim. Mas que infinidade de testes o senhor precisa conhecer, 
hem! Quantos posso fazer?
O. — Isso varia de acordo com a situação da pessoa. Alguns alunos 
não se utilizam de nenhum, outros fazem quase todos. Normalmente, cinco 
é um número suficiente: um teste de interesse, que não será necessário, 
pois você já está bem certo do que deseja fazer, um teste de aptidão geral 
que você já fez e um ou dois testes de aptidões específicas, que no seu 
caso poderíam ser de arte. Vê, e com isto teremos pesquisado as áreas 
que mais nos interessam no momento.
M. — Bem, no que diz respeito à parte de interesse, sei que gosto 
de arte e sou bom nesse setor. Mas gostaria de conhecer outras atividades 
às quais poderia dedicar-me. E mesmo no campo da arte, seria bom 
pesquisarmos se poderia fazer outra coisa, além de ser desenhista.
O. — Hum, hum.
M. — Esses testes de a rte ... como são eles?
O. — Temos aqui o teste de Julgamento Artístico de Meyer. Mas 
é preciso que você entenda, não se trata de um teste de aptidão. Con­
siste em uma série de figuras colocadas aos pares. Seu trabalho é julgar 
qual das duas, de acordo com certos critérios estéticos, como equilíbrio, 
composição, perspectiva etc., é a melhor. Suas respostas são depois clas­
sificadas, de acordo com uma escala elaborada a partir dos resultados 
de um conjunto de estudantes bem sucedidos no campo artístico. Poste­
riormente, é possível ter uma idéia de suas preferências, comparadas com 
as de estudantes nos diversos setores artísticos.
M. — Isto está-me parecendo muito interessante. Que tal se fizesse 
um desses?
O. — Está muito bem. Deixe-me marcar em seu cartão. E sobre 
o teste de hábitos de estudos, você decidiu alguma coisa?
M. — Ah, quero fazer um deles, sim. Quantos ainda faltam?
O. — Bem, você não é obrigado a fazer todos os testes. Isto de­
pende do tempo disponível das pessoas. O que interessa é que faça um 
teste para cada área que necessita ser pesquisada.
M. — Ah, isto é ótimo. Na verdade, estou um pouco sobrecarre­
gado no momento. A revista tem-me ocupado demais. Bem, e agora o 
que tenho mais que fazer? Tudo resolvido?
O. — Por mim está. Então está combinado. Vou procurar saber seu 
escore no teste de Stanford para ver quais suas possibilidades de in­
gresso na Faculdade de Medicina. Depois você fará um teste de julga­
mento artístico e um de hábitos de estudo para descobrir o motivo de 
suas atuais dificuldades de rendimento escolar.
M. — Diga-me uma coisa, não existe nenhum teste de aptidão para 
Medicina? Isto seria esplêndido para mim, não acha?
O. — Temos, mas você ainda não pode fazê-lo, porque não tem 
escolaridade suficiente. Só possuímos tabelas para indivíduos que já têm 
dois anos de Curso Pré-Médico. Mas nesse particular pode ficar des­
cansado, o Stanford deixará bem claro se você tem, ou não, possibili­
dades de ingresso na Faculdade de Medicina.
M. — Ótimo, então estamos resolvidos, não é?
5. Orientação Ocupacional:
O. — É, acho que tudo está O.K. A única coisa que gostaria de 
sugerir é que você procurasse consultar os folhetos de informações sobre 
escolas em geral, que temos na biblioteca. É possível que se interesse 
por uma que existe em N. especializada em desenhos de caricaturas.
M. — Ah, isto me interessa muito. Já tinha ouvido falar nela. 
Quer dizer que na biblioteca poderei obter maiores informes, não é?
O. — Sem dúvida. E o prospecto está muito bem feito. Dá uma 
série de informações que. por certo você gostará de tomar conhecimento: 
mercado de trabalho, salário etc.
M. — Ótimo, era justamente o que estava querendo saber. É só 
chegar lá e pedir?
O. — É, só isto. Depois você pode ir para sala de aplicação de 
testes e fazer os que programamos, ou marcar um horário, se for ne­
cessário. Procure Dona Y, que ela lhe dará os esclarecimentos que fo­
rem necessários.
M. — Então, até amanhã. Agradeço muito sua ajuda.
EXEMPLO DE ENTREVISTA DE CONSELHO 
SEGUNDA ENTREVISTA
1. Interpretação dos Testes:
O. — Alô Mauro, :omo vai?
M. — Boa tarde, Dr. X, como vai o senhor?
O. — Bem, obrigado.
M ..— Mas que testes hem, doutor... O senhor já sabe os resul­
tados? Será que eles vão realmente nos ajudar a chegar a alguma con­
clusão?
O. — Sem dúvida que sim. Vejamos, você fez dois e deixou os 
outros para a próxima semana, não foi? Qual deles você gostaria de 
ver em primeiro lugar?
M. — Bem, poderiamos começar pelo de Arte. Para falar a ver­
dade, fiquei um pouco desiludido. Não tenho base para julgar, mas não 
tive muito boa impressão do teste, sabe? Achei as figuras acadêmicas 
demais.
O. — Bem, eles são modelos representativos do tipo clássico de 
Arte, mais Belas-Artes do que Pintura Moderna. Mas, de qualquer modo, 
o que se pretende é avaliar suas preferências ou julgamentos, compara­
dos aos de outros estudantes de arte e não aptidão artística propria­
mente dita.
M. — Neste caso, os pintores de orientação clássica devem sair-se 
melhor neste tipo de teste do que eu, por exemplo, que estou mais in­
teressado em arte comercial, não é?
O. — Isso mesmo, apesar de que há no grupo com que você foi 
comparado neste teste um número bastante grande de estudantes de arte 
comercial. Mas não resta dúvida que o teste verifica mais o tipo de 
julgamento exigido para Belas-Artes.
M. — Mas de qualquer modo estou curioso para saber como me saí
nele.
O. — Você vê estequadro? Pois é, nele seu julgamento é compa­
rado com qualquer julgamento de 100 estudantes de Artes. Nesta com­
paração seu escore cairia mais ou menos neste ponto (mostra o gráfico).
M. — Qual a função de todos esses homenzinhos aqui? Represen­
tam eles 100 estudantes de arte?
O. — Justamente. Esta distribuição representa qualquer centena de 
estudantes de arte, tomados ao acaso. A razão de apresentarmos estes 
100 é para que os orientandos possam perceber onde se localizam dentro 
do grupo. Você vê, há um bom número de alunos localizados dentro 
desta zona, a zona média.
M. — Então, se me localizo aqui, meu escore é mais ou menos 50, 
pouco mais que isso, 55 não é?
O. — Exatamente.
M. — Quer dizer, que obtive uma classificação apenas média?
O. — Nesse grupo, é. Se tomássemos somente desenhistas ou estu­
dantes de desenho comercial, seria difícil dizer onde se localizariam. É 
possível que fossem nas zonas mais baixas, mas considerando um grupo 
de estudantes de arte em geral, seu escore se acha nesta zona.
M. — De acordo com este teste eu não sou tão bom como ima­
ginava.
O. — Você não se saiu tão bem quanto esperava, não é isso?
M. — Bem, no meu caso esses resultados não dizem muita coisa, o 
senhor não acha?
O. — Você talvez tenha ficado um .pouco desapontado com esses 
resultados.
111
M. — Realmente', é isto mesmo. Mas como o senhor disse eles não 
medem o tipo de arte na qual estou interessado. Mas de qualquer modo, 
foi bom saber os resultados. E sobre o outro teste, como me saí?
O. — Bem, você fez o Inventário de Hábitos de Estudo que, como 
lhe disse na última vez, é um exemplo de alguns dos vários problemas 
que os estudantes enfrentam. Você gostou desse teste?
M. — Desse gostei, gostei muito. Tive que pensar numa porção de 
coisas sobre meus hábitos de estudo, que jamais me haviam ocorrido. 
Como me saí?
O. — Bem, você está vendo os itens sublinhados com lápis ver­
melho?
M. — Hum, hum ...
O. — Essas são as áreas que temos que considerar. Comparado 
com outros estudantes, estas são as áreas em que você está mais fraco. 
Por exemplo, a área de concentração.
M. — É isto mesmo. Tenho uma tremenda dificuldade de concen­
tração. O senhor quer um exemplo: tenho um retrato de minha namo­
rada sobre a mesa em que estudo. Às vezes, começo a trabalhar muito 
animado e, quando me dou conta, estou olhando para o retrato dela 
há bastante tempo, sem nem saber no que estou pensando (olhando o 
teste). Mas estou com deficiência em uma porção de áreas, pelo visto. 
Existe alguma coisa que eu possa fazer para melhorar a minha maneira 
de estudar?
O. — Existe uma série de coisas. Podemos analisá-las detalhada­
mente e fazermos planos para você melhorar em cada uma delas. Existe 
também um folheto que é um complemento do teste e que trata de cada 
um desses itens em separado. Chama-se “Estudando Eficientemente”. Já 
que você está com tanta vontade de melhorar seus hábitos de estudo, 
aconselho-o a comprar os que lhe interessam.
M. — Quanto custa cada um?
O. — Uns Cr$ 5,00 mais ou menos.
M. — Mas é claro que vou comprar. Quais deles, devo adquirir?
O. — Você poderá levar seu Inventário e ver quais as zonas a que 
precisa dar maior atenção. Caso você queira, tenho outros livros aqui 
que poderão também auxiliá-lo. Estão à sua disposição.
M. — Ótimo. E sobre aquele teste que fiz ao entrar para cá? Acho 
que me saí muito bem.
O. — Ah, o Teste de -Aptidões de Stanford? Nele você é compa­
rado a 100 candidatos a ingresso na Universidade. Em outras palavras, 
todos os alunos que desejam entrar na nossa Universidade são submetidos 
a esse teste.
M. — Quer dizer que nele não sou comparado apenas a estudantes 
de Arte?
112
O. — Justamente. E se avalia nele mais a aptidão verbal através do 
vocabulário do indivíduo, você se lembra? Nesse setor, você se coloca 
bem acima da média, acima de 90%.
M. — Quer dizer que eu poderia ser um bom médico, não é?
O. — É, isso significa que você poderia se sair bem em certos seto­
res da Medicina.
M. — Pelo visto, os testes indicam que eu poderia ser um bom 
médico, mas não um bom artista. Acho que estou mais confuso agora 
do que estava antes.
O. — Os resultados não estão sendo exatamente o que você queria, 
não é?
M. — Bem, de certo modo acho que foi muito bom ter feito este 
Inventário de Hábitos de Estudos. Agora sei que posso melhorar minha 
maneira de estudar e que tenho capacidade suficiente para aprender o que 
estudo. Na verdade só estou desapontado com meus resultados nos tes­
tes de arte. Mas penso que eles não medem tudo em arte, o senhor 
não acha?
O. — Na verdade. Mauro, é muito difícil medir a Aptidão Artística. 
A melhor maneira de verificá-la é pelas suas experiências passadas e seus 
interesses, assim como através da opinião dos outros a respeito de seus 
desenhos.
M. — Bem, fico muito contente em saber disto.
O. — A aptidão artística é alguma coisa que não podemos testar 
muito bem. Temos que depender de outras informações para saber quais 
as possibilidades de sucesso nesse campo. Por isso é que mandei você 
consultar, na Biblioteca, aqueles panfletos sobre mercado de trabalho, sa­
lário etc., para desenhistas. Você teve oportunidade de fazer isso?
2. Informação Ocupacional: — Discussão
M. — Ah, tive sim. Passei quase que o dia inteiro na Biblioteca. Li 
aquele artigo que o senhor me aconselhou e marquei algumas coisas. O 
senhor gostaria de ver?
O. — Sem dúvida.
M. — (Pegando suas notas.) De acordo com aquele artigo, pode-se 
fazer bastante dinheiro como desenhista, se conseguir entrar numa boa 
agência de publicidade. Os salários podem chegar a Cr$ 1.200,00 e até 
a CrS 1.300,00. Bom, não é?
O. — Qual é o salário inicial? Você verificou esse detalhe?
M .— Inicialmente, os salários não são muito altos. Começa-se como 
praticante em um agência e pode ser que não se consiga ir muito lon­
ge, mas isto depende mais do talento de cada um. E eu já tenho bas­
tante experiência no Jornal da Escola, de maneira que acho que poderei 
progredir mais como praticante.
O. — Isto lhe parece muito bom, não é?
113
3. Sínteses:
M. — Pelos dados e informações que tem sobre mim, o senhor não 
acha que poderei ter sucesso como desenhista?
O. — Penso que sim.
M. — Pois é, se consideramos meus interesses em geral, minhas ex­
periências neste setor e tudo mais, acho que não há dúvida que devo ini­
ciar-me no campo das Artes Comerciais.
O. — Tudo parece apontar-lhe essa direção, não é?
M. — É, e além disto meu escore no teste de Aptidão Verbal indica 
também que posso fazer um bom curso na Escola de Arte. Estive pen­
sando em dedicar-me um pouco à propaganda, e propaganda é uma coisa 
que depende também da capacidade verbal do indivíduo, segundo li em 
um dos folhetos que o senhor me indicou.
O. — Uma série de coisas parecem reunir-se e auxiliam você a se 
decidir em favor do curso de Arte, não é?
M. — É . .. mas preciso pensar numa maneira de comunicar minha 
decisão a meus pais, sem deixá-los muito decepcionados. Eles estavam 
tão certos que faria M edicina... Mas também tenho que pensar um 
pouco em minha noiva, não acha?
O. — Você está preocupado com os planos que seus pais fizeram 
para você, mas sua noiva também é um fator importante em sua decisão, 
não é isso?
M. — Bem, eu acho que tenho que levar em consideração os dois la­
dos. Afinal de contas vou viver com ela e não com meus pais. O senhor 
sabe, eu tanto poderia ingressar na Escola de Arte em N. ou ir trabalhar 
naquela agência da qual lhe falei. Não sei, porém estou tendendo mais 
para a segunda idéia. O senhor acha que seria melhor ir para lá, ter 
alguma experiência e depois voltar, a fim de concluir meu curso, e ir 
depois para a Escola de Arte, e u ... o que o senhor acha?
O. — No momento a proposta da agência lhe parece mais atraente, 
não é?
M. — É, acho que sim pelo seguinte... se for para o estágio de 
praticante, ganharei alguma coisa e talvez possa casar-me.
O. — A longo prazo, seria melhor para você aceitar a proposta da 
agência agora e depois ingressarnuma escola de aperfeiçoamento, não ê?
M. — O senhor sabe, não sei se minha namorada vai querer espe­
rar por mim, se decidir fazer o curso de Arte. Afinal de contas, são dois 
anos a mais, e há uma porção de campeões de futebol disponíveis na 
cidade em que ela mora.
O. — Você tem medo de arriscar?
M. — É. Mas isto é bobagem, acho que ela me esperará qualquer 
que seja minha decisão. Nós gostamos muito um do outro.
O. — Isto é o mais importante.
114
M. — É. Pode ser que mude de idéia amanhã. Mas no momento, 
o que me parece mais acertado, é aceitar a proposta da Agência. Depois 
que estiver mais ou menos estabelecido, caso-me com ela e quando as 
finanças melhorarem, tentarei prosseguir meus estudos. É pena ter de dei­
xar a Universidade... mas de qualquer modo, eles não têm curso de 
Arte aqui, não é? ... (pausa) Dr. X., estou bastante satisfeito. O senhor 
me ajudou muito com esses testes. E as informações da Biblioteca foram 
providenciais! Realmente, estou muito satisfeito. Tenho a impressão que 
as coisas agora estão mais claras.
(A entrevista prossegue, com agradecimentos efusivos de Mauro e o 
convite do orientador para que voltasse a procurá-lo, todas as vezes que 
quisesse discutir algum problema.)
115
ALGUNS PROBLEMAS 
E SUGESTÕES
I. PROBLEMAS ESPECÍFICOS
A entrevista de aconselhamento representa uma relação sui gencris, 
cujo significado para o cliente pode ter inúmeras conotações; dessas de­
pendem, frequentemente, o sucesso ou o fracasso do caso. Esses aspec­
tos têm, portanto, uma posição de extrema relevância para o orientador, 
que deve estar consciente da importância, não somente do seu próprio 
papel, da sua atuação e atitudes, mas do que representa para o orien­
tando a situação de aconselhamento. As percepções do indivíduo com 
relação à pessoa do orientador, o significado das suas comunicações 
não-verbais e a simbolização de suas experiências devem ser conside­
rados e compreendidos.
1. As expectativas do cliente constituem, sem dúvida, um dos 
aspectos importantes para o estabelecimento de uma boa relação entre 
o orientando e seu orientador. “Que espécie de ajuda espera ele receber 
no aconselhamento?” “Que pensa ele que vai suceder?” “Que espera 
obter dessa relação?” São perguntas que o orientador deve ter em 
mente quando estabelece seu primeiro contato com o cliente. Mesmo 
antes da entrevista inicial o orientador pode obter alguns indícios a 
respeito dessas expectativas, se souber qual a pessoa que o recomendou 
ou enviou para aconselhamento. Esse conhecimento a respeito do res­
ponsável pela indicação ou encaminhamento fornece uma boa pista 
para se conhecerem as expectativas do cliente. São várias as situações:
a) Moça que procura aconselhamento, enviada por uma amiga que 
já foi orientada, com êxito, traz expectativas positivas. Se a 
amiga foi submetida a alguns testes, ela também espera fazer esses 
testes. Não haverá a necessidade de “quebra-gelo”.
116
6) Estudante que comparece ao Serviço de Orientação, mandado 
pelo diretor da escola, por ser indisciplinado, evidentemente traz* 
expectativas bem diferentes da primeira cliente. O orientador é 
para ele uma continuação da figura do diretor. Aproxima-se 
dele com uma certa má vontade, mantendo uma atitude defensiva 
e pouco comunicativa. Só com aceitação e compreensão do orien­
tador poderá conseguir estabelecer uma relação satisfatória.
c) Rapaz que, após um fracasso amoroso, tem uma série de per­
turbações psíquicas (não consegue concentrar-se nos estudos, sofre 
de insônia etc.) e é mandado a um Serviço de Orientação pelo 
seu médico, para fazer um diagnóstico psicológico, traz consigo 
sentimentos de medo, apreensão e insegurança, que muito podem 
prejudicar a relação.
d) Indivíduos dependentes, que vêem no orientador um conselheiro, 
procuram os Serviços de Orientação com a intenção de receber 
fórmulas de conduta, que lhes poupem o trabalho de pensar. Se 
o conselho recebido lhes agrada, é seguido, se não, é desprezado 
e o orientador será encarado como pessoa tola e incapaz. Em 
quaisquer dos casos o indivíduo se sente feliz: o que lhe importa 
é receber conselho.
e) Pais que procuram os Centros de Orientação, com expectativas 
diversas: esperam uma fórmula mágica para transformar seus fi­
lhos "insuportáveis” em verdadeiros "anjinhos”; ou trazem con­
ceitos preestabelecidos, tais como: a criança não tem jeito, nada 
adiantará, e querem, apenas, a confirmação das suas idéias. São 
também casos muito difíceis de atender, exigem muita capacidade 
de empatia por parte do orientador. Nestes casos é aconselhável 
que o orientador, depois de ter os testes analisados, peça aos pais 
que eles mesmos sugiram a atitude que deve ser tomada para 
melhorar a situação.
2. A maneira com que o orientador é percebido varia de acordo 
com as vivências do orientando. Assim, uma adolescente que tem a 
idéia preestabelecida de que todo adulto é agressivo e autoritário, verá 
o orientador como tal e terá, provavelmente, uma atitude de má von­
tade para com ele. Moça jovem e solteira que é encaminhada a um 
orientador, simpático e também solteiro^ terá o seu comportamento com­
prometido pela percepção de um flerte na relação. Nesse caso, ela 
dará ênfase aos aspectos mais agradáveis de sua pessoa e encobrirá 
aqueles que julgar desfavoráveis, o que, obviamente, prejudicará o pro­
cesso de aconselhamento. Mãe de família, que não conseguiu realizar 
seus anseios intelectuais, vê a orientadora com certa inveja e hostilidade, 
porque esta lhe parece profissionalmente realizada.
O sexo do orientador constitui um problema importante no pro­
cesso de aconselhamento psicológico. Na realidade, todas as pessoas 
têm atitudes já preestabelecidas com relação aos sexos. O indivíduo, no
117
decorrer da sua evolução, inevitavelmente, desenvolve algumas concep­
ções a respeito da maneira de ser dos homens e das mulheres. Pesqui­
sas têm dçmonstrado que essas concepções aparecem na infância remo­
ta. Portanto, como o orientador tem que ser um homem ou uma mu­
lher, algumas atitudes e sentimentos do orientando com relação aos 
sexos darão determinado colorido à relação no aconselhamento. Muitos 
sinais, aparentemente irracionais, de hostilidade ou de dependência, 
têm origem nessas concepções preestabelecidas. Vejamos um exemplo 
concreto: um jovem vai procurar o Serviço de Orientação devido a 
problemas pessoais. Marca uma hora com a orientadora para acon­
selhamento, por recomendação de um amigo. Senta-se na cadeira mais 
afastada, tenso e pouco à vontade. A orientadora faz tudo que está 
a seu alcance para conquistar a sua confiança. Procura estabelecer uma 
conversa introdutória, falando sobre acontecimentos em voga, sem re­
sultado. Na última parte da entrevista, o orientando expõe algumas 
de suas dificuldades, porém de maneira vaga e impessoal. Todavia, 
apesar de não haver nenhuma evidência de que se houvesse estabeleci­
do um rapport (e para surprésa da orientadora) ao se despedir, marca 
uma hora para voltar na semana seguinte. Na segunda entrevista seu 
comportamento foi bem diferente. Assim que se senta, diz: “É melhor 
eu lhe dizer logo porque na entrevista passada foi tão difícil para mim 
falar dos meus problemas. . . Eu sempre detestei as mulheres; acho 
que a causa disso é a minha própria mã e . .. etc., etc.”, e daí começou 
a falar livremente das suas experiências e de sua vida familiar. Nesse 
caso, nada havia que a orientadora pudesse fazer, na primeira entre­
vista, para colocar o orientando à vontade, porquanto nada indicava a 
razão real do seu comportamento.
Casos como este levantam a questão sobre a conveniência de ser 
o orientador do mesmo sexo do orientando. Entretanto, não há evidên­
cia de que esta seja a melhor maneira para estabelecer um rapport sa­
tisfatório. É possível que um jovem que tenha um pai frio, seco e dis­
tante e uma mãe afetiva e compreensiva, apresente maior possibilidade 
de um rapport com um orientador do sexo feminino. Estas questões 
são muito complexas para seremmais no fornecimento 
de diagnóstico do que propriamente em aconselhamento psicológico.
2) Aparecimento da Orientação Profissional — Quando P arsons 
fundou seu Serviço de Orientação Profissional em Boston, em 1909, 
limitava-se a fornecer aos clientes informações relativas ao mundo 
profissional, sem háver preocupação com as técnicas de relaciona­
mento entre o orientador e o orientando, cujo caráter era estritamente 
estático. Ainda em 1924, definia-se a orientação profissional como o 
fornecimento de informações e conselhos sobre a escolha da profis­
são, baseado na experiência do orientador. Em 1937 adquiria maior
* Os números entre parênteses significam referências bibliográficas que estão no 
final dos capítulos com estes números.
11
dinamismo, quando M eyersC6 ) a definia como “um processo de assistir 
o indivíduo a encontrar uma profissão adequada às suas característi­
cas pessoais”. Nessa época, predominava a ênfase na aplicação dos 
testes psicológicos, porém já se admitia que a orientação era um pro­
cesso com finalidade de ajudar o orientando a fazer “alguma coisa 
para si próprio”. Após o período áureo dos testes psicológicos, de 
1940 a 1950, maior importância tem sido atribuída à relação entre 
orientador e orientando na situação de aconselhamento do processo 
de orientação profissional. Sem dúvida, para isso contribuiu o apa­
recimento das teorias de C arl R ocers com respeito à orientação não- 
-diretiva no aconselhamento psicológico. 3) A criação de Serviços de 
Higiene Mental para adultos, inclusive de Centros de Aconselha-, 
mento Pré-matrimonial e Matrimonial, nos E.U.A., ofereceram campo 
para o desenvolvimento das técnicas de aconselhamento. 4) As ins­
tituições de Assistência Social que necessitavam dar aos clientes, 
além de assistência médica e financeira, oportunidade de expressão e 
alívio de suas cargas emocionais constituíram um outro setor em que 
floresceu o aconselhamento psicológico. 5) O desenvolvimento dos 
serviços de assistência psicológica nas empresas ofereceu um novo 
campo de aplicação do aconselhamento. A criação desses serviços re­
sultou, principalmente, das pesquisas de R othlesberger e D ickson 
na Western Electric que constataram ser o ajustamento sócio-emocional 
fator mais importante na produtividade industrial do que o aumento 
de salário ou alteração das horas de trabalho.
III. DEFINIÇÃO
Tradicionalmente, o termo aconselhamento foi usado em conexão 
a várias situações, tais como: fornecer informações, dar conselhos, cri­
ticar, elogiar, encorajar, apresentar sugestões e interpretar ao cliente 
o significado do seu comportamento. Na realidade, a palavra aconse­
lhamento foi empregada na sua evolução para designar atividades que 
variavam de punição e coerção a relação permissiva que proporciona 
a liberação emocional do indivíduo e facilita o seu desenvolvimento. 
À medida que as suas técnicas se tornaram mais elaboradas e a sua 
aplicação ampliada, constituindo, como já dissemos, um novo ramo 
da psicologia científica, as definições de aconselhamento sofreram 
idêntica evolução.
As primeiras definições eram concisas e estáticas. Citaremos como 
exemplo a de G arrett(4) que definia aconselhamento como “uma con­
versa profissional”.
Não foi senão recentemente que o aconselhamento foi definido 
em termos mais dinâmicos e operacionais. Atribuiu-se a Ç arl R ogers 
(f0,p. 5) essa nova conceituação quando o definiu como “uma série
12
de contatos diretos com o indivíduo com o objetivo de lhe oferecer 
assistência na modificação de suas atitudes e comportamento”. Foca­
liza esse processo evidentementè do ponto de vista da sua orientação 
não-diretiva na qual se mesclam freqüentemente o conceito de aconse­
lhamento e o de psicoterapia.
Outras definições têm sido dadas ao aconselhamento. Mac 
Kinney (5,p. 22) apresenta a seguinte: “trata-se de uma relação inter­
pessoal na qual o conselheiro assiste o indivíduo na sua totalidade 
psíquica a se ajustar mais efetivamente a si próprio e ao seu am­
biente”. Nessa definição nota-se a preocupação em planejar o acon­
selhamento em termos de ajustamento do indivíduo na sua totalidade 
ao tipo de ambiente em que deve viver. Tolberg (12 p. 3) se refere 
a aconselhamento como uma relação pessoal entre duas pessoas, na 
qual o conselheiro, mediante a relação estabelecida e a sua compe­
tência especial, proporciona uma situação de aprendizagem, na qual 
o sujeito, uma pessoa normal, é ajudado a se conhecer a si próprio 
e as suas possibilidades e prospecções futuras, a fim de fazer uso 
adequado de suas potencialidades e características, de uma forma satis­
fatória para si próprio e benéfica para a sociedade e, mais remotamen­
te, poder aprender como resolver seus futuros problemas e atender às 
suas necessidades. Ressaltam nessa definição dois aspectos: primeiro, 
o aconselhamento é encarado como uma situação de aprendizagem; 
segundo, considerado como aplicável a pessoas normais.
Robinson(9) descreve o aconselhamento como uma ajuda às pes­
soas normais a obter um nível mais elevado de ajustamento que se 
manifesta através de maturidade crescente, independência, integração 
pessoal e responsabilidade. À semelhança de Tolberg, restringe o 
aconselhamento a pessoas normais embora se diferencie na ênfase dada 
ao processo de crescimento emocional.
E rickson (3,p. 5) atribui as seguintes características à entrevista 
de aconselhamento:
1. É uma relação entre duas pessoas.
2. Um dos participantes (o entrevistador) assumiu ou foi levado a 
assumir a responsabilidade de ajudar o outro participante. 3 4 5 * *
3. O entrevistando tem possíveis necessidades, problemas, bloqueios 
ou frustrações que deseja tentar satisfazer ou modificar.
4. O bem-estar do entrevistando constitui o interesse central da si­
tuação.
5. Ambos os participantes desejam e estão interessados em tentar
encontrar soluções para as dificuldades apresentadas pelo entre­
vistando.
Ressalta Erickson que a entrevista de aconselhamento varia nos 
seus objetivos, características e resultados consoante as necessidades 
básicas do entrevistando a serem atendidas. Pode ser uma entrevista 
com o objetivo de tomar contato, de avaliar, de fornecer informações, 
de investigar dados, ou de tratamento (terapêutica).
Considerando e sintetizando os conceitos apresentados, podemos 
definir o aconselhamento como uma relação face a face de duas pes­
soas, na qual uma delas é ajudada a resolver dificuldades de ordem 
educacional, profissional, vital e a utilizar melhor os seus recursos 
pessoais. Não desejamos contudo, com essa definição, adotar uma 
abordagem atomística, visto que concordamos com Cowley (2) quando 
ressalta a necessidade de encarar sempre o indivíduo na sua totalidade 
no processo de aconselhamento. A diferenciação das várias áreas foi 
feita meramente com intuito didático, embora reconheçamos que se 
encontram altamente inter-relacionadas.
IV. ACONSELHAMENTO E ENTREVISTA
O termo aconselhamento tem sido usado como sinônimo de entre­
vista, talvez porque seja feito sob essa forma. Bingham e Moore 1 
definiam aconselhamento como “uma conversação com objetivos”. 
Entretanto, a entrevista nem sempre visa a atingir os objetivos do 
aconselhamento como nos casos das entrevistas de inquérito, de pes­
quisa, de opinião pública, de seleção etc., cujas finalidades não são 
de prestar ajuda ao entrevistando.
V. ACONSELHAMENTO E ORIENTAÇÃO 
EDUCACIONAL
O termo aconselhamento é usado muitas vezes com relação à 
orientação educacional e profissional. Na realidade, embora não sejam 
a mesma coisa, têm finalidade comum, porque ambos visam a ajudar 
o orientando. O aconselhamento é parte integrante e imprescindível 
da orientação educacional e profissional.
A orientação educacional e o aconselhamento têm como finalidade 
promover um melhor ajustamento do estudante a fim de que ele possa 
desenvolver as suas potencialidades. Na orientação esse objetivo é 
realizado de maneira mais variada e através de outros recursos: abrange 
um campo mais amplorespondidas simplesmente na base do 
estabelecimento do rapport. No aconselhamento há um sistema de 
aprendizagem no qual as atitudes são modificadas. No exemplo citado, 
vimos que uma vez superado o obstáculo inicial, o contato do orientan­
do com um orientador do sexo feminino proporcionou, possivelmente, 
uma melhor possibilidade de catarse que talvez não ocorresse se o 
orientador fosse do sexo masculino. T yler 5 sugere que a melhor ma­
neira de proceder é deixar o próprio orientando decidir sobre o sexo 
do seu orientador. Todavia, podemos concluir qué se o orientador for 
capaz de aceitar o conceito desfavorável do orientando sobre o seu se­
xo, isto não interferirá, negativamente, no processo de aconselhamento.
3. O orientando forçado a comparecer à entrevista de aconse­
lhamento é uma outra situação específica. É comum adolescentes serem 
levados, contra a sua vontade, pelos pais a comparecer a um Serviço 
de Aconselhamento. Nesses casos, muitas vezes é difícil estabelecer 
uma relação. Alguns orientadores tentam “vender” o aconselhamento 
ao orientando, mostrando as vantagens do processo e a ajuda que ele 
poderá receber. Esse procedimento nem sempre surte efeito.
Apresentamos, a seguir, o exemplo de uma adolescente que foi tra­
zida, forçada pela mãe, a um Centro de Orientação, porque, apesar 
de sua superior inteligência, estava fracassando nos estudos. Dissemos, 
enquanto nos sentávamos: “O tráfego devia estar muito difícil hoje 
com essa chuva.” Nenhuma resposta. “Você mora no X, não é?” Ape­
nas um ruído querendo significar sim. Vânia sentara-se na cadeira, com 
as pernas cruzadas, a boca firmemente fechada, fitando-nos de frente, 
sem evitar o nosso olhar. Após uma pausa, dissemos: “Possivelmente 
você está imaginando por que foi trazida aqui e desejando muito não 
ter vindo.” Nenhuma resposta. Prosseguimos, depois de outra pausa: 
“A maioria dos jovens que nos procuram vêm por espontânea vontade. 
É possível que você tenha sido obrigada por sua mãe a vir aqui. E 
realmente é desagradável ser forçada a fazer alguma coisa que não 
se deseja. Eu compreendo que você esteja aborrecida e que não queira 
falar (pausa). No entanto, muitas vezes os jovens são ajudados, no 
nosso Instituto, a resolver certas dificuldades. Talvez você queira di­
zer-nos exatamente como se sentiu a respeito de sua vinda aqui. Pode- 
-se expressar com franqueza que nós não ficaremos suscetibilizados nem 
ofendidos, porque a nossa única finalidade é ajudar.” Vânia afinal 
respondeu: “Na realidade não queria mesmo vir. Mamãe me obrigou 
e eu fiquei furiosa. Mamãe sempre me obriga a fazer coisas que eu 
não quero.” E passou a falar-nos sobre seus problemas com a mãe.
4. O silêncio por parte do orientando constitui, em alguns casos, 
um problema. Que deve o orientador fazer se o orientando ficar cala­
do, no meio da entrevista, durante um minuto ou mais — minuto que 
para o orientador parecerá horas? — Não há uma técnica determinada 
a ser adotada. A resposta do orientador depende da percepção que 
tem da estrutura da situação. O silêncio pode ter muitos significados:
a) Pode significar que o indivíduo chegou ao fim de uma linha de 
pensamentos e está decidindo sobre o assunto que abordará em 
seguida. Nesse caso o orientador poderá simplesmente demons­
trar que aceita o silêncio e que não se sente embaraçado com ele. 
Um sorriso compreensivo pode ser suficiente. Se o cliente mos­
tra dúvida sobre a possibilidade de ficar um pouco calado, o 
orientador poderá dizer: “Fique à vontade, se preferir pensar 
um pouco. . . ”
119
b) O silêncio pode ocorrer quando o orientando está sendo motiva­
do por uma atitude de resistência consciente ou inconsciente. 
Nesse caso, fazer perguntas ou querer induzi-lo a falar poderá 
piorar a situação. Recomenda-se demonstrar que essa atitude é 
compreendida e aceita. O caso da adolescente já apresentado 
ilustra, com muita clareza, esta situação.
c) Em certos casos, as circunstâncias não dão ao orientador nenhu­
ma evidência do motivo do silêncio. Pode ser hostilidade, pode ser 
timidez etc. Quando isto ocorre, Tyler aconselha que se faça 
uma tentativa de iniciar a conversa, introduzindo um tópico de 
assunto geral, que não apresente conteúdo ameaçador à emotivi­
dade do orientando. Se for necessário, Tyler sugere até que se 
fale sobre o tempo, para ver se transparece alguma evidência da 
causa do silêncio. Essa autora conta o caso de um orientador 
que, para quebrar o silêncio de seu orientando, pergunta-lhe: 
"Você não é irmão do famoso herói de fu tebo l...” Semelhante 
pergunta teve efeito de uma verdadeira ducha de água fria no 
cliente, que imediatamente protestou: “Será possível que todos 
com quem falo me perguntam sempre a mesma coisa?” E se fe­
chou, ainda mais, numa atitude negativa. É preciso que nesta 
tentativa de interromper o silêncio, com a introdução de tópicos, 
se tenha o mais absoluto cuidado de apresentar assuntos neutros.
d) O silêncio pode ainda ser resultado da expectativa do orientando 
com relação à situação de aconselhamento. Muitos esperam que 
o orientador lhes faça perguntas e à base de suas respostas lhes 
diga o que devem fazer. O silêncio desses indivíduos pode signi­
ficar: "Bem. Que o senhor deseja saber a meu respeito? Estou 
aguardando as suas perguntas. . . ”
Devido a todos esses problemas, alguns autores já não recomendam 
que seja estruturada a situação de aconselhamento com uma explicação 
prévia. Talvez isso seja importante apenas em terapia não-diretiva, 
mas o mesmo não ocorre em aconselhamento, que envolve uma varie­
dade maior de situações (indicação educacional, profissional, compor­
tamento ambiental etc.). Deve-se apenas dizer alguma coisa que es­
timule o orientando a tomar, ele próprio, a direção da entrevista e a 
descobrir a maneira pela qual poderá ser ajudado. Tyler sugere que se 
diga: “Fale-me sobre o que lhe vier à cabeça; sobre você; que tipo de 
pessoa você é; suas experiências, suas aspirações, as pessoas que são 
importantes para você.” A função do orientador não é usar técnicas 
preestabelecidas para as várias situações, mas compreender a situação 
em si, em função do indivíduo que está sendo aconselhado, e agir de 
acordo.
120
Outras questões técnicas:
1. Que se deve fazer quando o orientando dá informações falsas?
A função do orientador não é acarear e estabelecer a verdade, mas 
compreender por que o cliente tem necessidade de mentir ou fantasiar.
O que importa não são os fatos e sim as vivências.
2. Que fazer quando o cliente quer saber a respeito da vida par­
ticular do orientador?
A situação de aconselhamento não deve ser confundida com uma 
situação social. O orientador deve assumir atitude compatível, demons­
trando que compreende o orientando e que ele pode estar demonstran­
do, naquela pergunta, uma série de vivências. Mas o orientador não 
deverá citar experiências suas para demonstrar compreensão.
3. Que fazer quando uma pessoa pergunta a respeito de um 
amigo que enviou para orientação?
Evidentemente não se deve fornecer nenhuma informação. O orien­
tando precisa sentir que a sua relação com o orientador é absolutamente 
segura e sigilosa.
4. Não é recomendável aceitar amigos ou parentes para aconse­
lhamento, pois os sentimentos pessoais do orientador prejudicam as 
suas percepções. Emocionalmente envolvido, ele correrá o risco de 
transformar a relação em situação social.
5. Presentes oferecidos pelos orientandos podem ser aceitos, mas 
o orientador precisa esclarecer aos clientes o sentido dessa sua atitude, 
tentando ele próprio, também, compreender a situação. O presente 
tem vários significados: ele pode exprimir apenas um “muito obriga­
do” mais efusivo e carinhoso, mas pode também ter outras significações 
que cabe ao orientador descobrir e explorar. É necessário que o orien­
tador expresse, objetivamente, as modificações que levaram o orientan­
do a dar o presente, sempre que desconfie de que não se trata*, de um 
simples e puro agradecimento.
II. ALGUMAS SUGESTÕES AOSORIENTADORES
1. Faça com que o orientando se sinta à vontade. Para isso su­
gere-se que, desde o cumprimento inicial, o orientador revele calor hu­
mano, interesse genuíno e espontaneidade. A sala de entrevista deve 
ser acolhedora e oferecer condições de privacidade.
2. Procure conquistar a confiança do orientando. Os seus aspec­
tos positivos devem ser enfatizados e seus sentimentos de autoconfian­
ça, sempre que possível, estimulados. Não se deve apressar o término 
de um caso, a não ser quando se pretenda evitar o estabelecimento de
121
uma relação de dependência. O tempo de duração das entrevistas deve 
ser limitado, mas é necessário permitir quantas horas forem precisas 
para proporcionar ao orientando os objetivos do aconselhamento.
3. É necessário que o cliente se sinta aceito e compreendido. O 
orientando deve ter liberdade para se expressar francamente, sem receio 
de ser julgado, avaliado ou censurado (muitas vezes a censura incons­
ciente do orientador é percebida pelo cliente de sensibilidade apurada). 
A vivência interior de aceitação do orientador é mais importante do 
que tentar expressá-la através de técnicas. Quando esta vivência real­
mente existe é percebida e sentida pelo orientando. Proporcione atmos­
fera permissiva, assegure a maior possibilidade possível de liberação 
das cargas e tensões emocionais.
4. Ouça e observe. É indispensável observar as reações, manei- 
rismos, gestos, expressões fisionômicas ou de tensão, tiques, cacoetes 
etc., bem como procurar relacioná-los aos tópicos ou sentimentos que 
estão sendo expressos pelo cliente. Por exemplo, a observação de que 
um adolescente ligeiramente gago passa à gaguejar mais quando fala 
de sua mãe dominadora proporciona-nos uma pista valiosa para a 
compreensão do seu problema. Saber ouvir é uma condição sine qua 
non para a atividade do orientador. Às vezes, como conseqüência de 
sua própria ansiedade, o orientador perde elementos preciosos por não 
ter sabido ouvir realmente, ou por haver interrompido o orientando 
indevidamente. Aliás, convém evitar interromper as comunicações do 
orientando a não ser em circunstâncias especiais, tais como: quando se 
trata de personalidade excessivamente obsessiva, que oferece o perigo 
de se perder em detalhes inexpressivos ou repetições desnecessárias; ou 
quando o orientando passa a falar de assuntos irrelevantes, como me­
canismos de resistência ou fuga da sua problemática. Todavia, é ne­
cessário registrar que, em muitos casos, uma ocorrência ou vivência 
emocional que é repetida ou muito verbalizada pelo orientando repre­
senta um aspecto importante de sua problemática.
5. Guarde-se contra si mesmo. O orientador não deve assumir 
a responsabilidade de resolver os problemas dos seus clientes. Tam­
pouco deve coagi-los a aceitar sugestões ou a tomar iniciativas, mesmo 
que estas sejam consideradas como indispensáveis para o melhor de­
senvolvimento emocional ou ajustamento do orientando. O orientador 
necessita tomar consciência de seus próprios preconceitos, sistema de 
valores e atitudes, pois estes, inevitavelmente, serão objetivados na sua 
relação com os clientes. Outrossim, as técnicas de sermão e de pre­
gação são, definitivamente, contra-indicadas.
6. No aconselhamento, a relação considerada como satisfatória 
e ideal apresenta as seguintes características:
1. O orientador possui empatia.
2. O orientador e cliente se relacionam muito bem.
3. O orientador entende realmente o problema do cliente.
4. O cliente sente-se à vontade para dizer o que lhe apraz.
5. Existe uma atmosfera de absoluta confiança.
6. O cliente assume papel ativo nas entrevistas.
7. O orientador deixa o cliente livre para fazer suas próprias esco­
lhas e decisões.
8. O orientador aceita todos os sentimentos expressos pelo cliente 
como normais e compreensíveis.
9. Existe atmosfera de tolerância.
10. O orientador é receptivo.
11. O orientador faz o máximo para compreender os sentimentos do 
cliente.
12. O orientador é realmente capaz de compreender o cliente.
13. O cliente sente que é compreendido pelo orientador.
Características que aparecem como contra-indicativas de uma re­
lação ideal:
1. O orientador não possui suficiente capacidade de empatia.
2. O orientador fez o cliente sentir-se rejeitado.
3. O orientador parece não sentir respeito pelo cliente.
4. A relação é fria e impessoal.
5. O orientador, constantemente, “põe o cliente em seu lugar”.
6. O orientador procura impressionar o cliente com a sua sabe­
doria e habilidade.
7. O orientador trata o cliente como se fosse uma criança.
O ACONSELHAMENTO 
NA ORIENTAÇÃO 
DO GRUPO FAMILIAR
Entre outras, o aconselhamento teve sua origem nos Centros de 
Orientação para Pais e Filhos. É justo mesmo ressaltar que sofreu 
influência poderosa desses Serviços no seu desenvolvimento devido à 
necessidade de expansão das medidas profiláticas, visando à promoção 
de melhor ajustamento familiar. Os métodos utilizados evoluíram em 
profundidade, face k constatação de que os problemas entre pais e 
filhos e conseqüentes desajustamentos, distúrbios de condutas, sinto­
mas neuróticos, comportamento delinqüente etc. eram, em geral, de 
natureza altamente complexa. Do ponto de vista de orientação, enqua­
dram-se em três categorias:
1. Os casos cujos problemas podem ser solucionados mediante 
aconselhamento.
2. Casos que devem ser encaminhados para psicoterapia, psicaná­
lise, ou outro tipo de tratamento.
3. Casos que não são passíveis de serem ajudados mediante aconse­
lhamento ou psicoterapia, pois necessitam remoção do ambiente 
familiar.
As pesquisas!2) têm revelado que apresenta maiores possibilidades 
de sucesso o aconselhamento de pais cujos problemas com os filhos 
são resultados de falta de informação ou de conhecimento de méto­
dos educacionais adequados. Por exemplo: é possível eliminarmos mui­
tas fontes de conflito e de atrito entre os pais e seus filhos adolescentes, 
se os ajudamos a compreender as características e necessidades dessa 
fase. Todavia, convém ressaltar que essa técnica informativa funciona 
com êxito quando se lida com aspectos e situações emocionalmente 
neutras, mas tende a fracassar nos casos em que há situações ou ati­
tudes emocionalmente carregadas. Quando a informação contraria uma
124
necessidade básica, há o perigo de criar uma situação de angústia e 
não ser, portanto, assimilada; como mecanismo de defesa o cliente re­
jeita o informante, ou distorce a informação para adaptá-la às. suas 
próprias necessidades.
Há acentuadas diferenças entre os pais, com relação à receptivi­
dade desse tipo de aconselhamento. Em geral, oferece maior possibi­
lidade de sucesso nas seguintes situações: a) quando a informação for­
necida aos pais é genuinamente nova sobre um campo ou situação 
sobre os quais não têm opinião preestabelecida; b) quando as infor­
mações correspondem às expectativas dos pais; c) quando as informa­
ções são prestadas a respeito de assunto em que não há excessivo en­
volvimento emocional. .
Dificilmente os pais aceitam interpretações ou explicações por 
parte do orientador que não sejam consistentes com o seu autoconceito. 
Por exemplo: a mãe que se defende dos seus sentimentos de rejeição 
com relação ao filho, (porque admiti-lo estará em desacordo com o seu 
autoconceito) mediante uma atitude superprotetora, dificilmente assi­
milaria do ponto de vista emocional ou aceitaria essa explicação forne­
cida pelo orientador numa situação de aconselhamento. Esse seria, 
provavelmente, um caso que poderia ser ajudado de maneira mais efi­
ciente, se encaminhado para psicoterapia. Outro problema no aconse­
lhamento de pais se relaciona às expectativas dos mesmos: usualmente 
procuram encontrar especialistas que lhes forneçam fórmulas; quando 
isto não ocorre, sentem-se frustrados e tendem a desenvolver vivências 
negativas com relação ao orientador. Nesse grupo, há muitos pais que 
necessitam, sobretudo, de aconselhamento que os ajude a reconhecer a 
necessidade de um tratamento mais profundo e os preparepara aceitar 
e procurar psicoterapia. Para isto é preciso grande sensibilidade por 
parte do orientador, a fim de sentir as reações do cliente, suas resistên­
cias, mecanismos de defesa e limitações, e, sobretudo, ter muita cautela 
para não se identificar com os filhos ou com os pais.
Com referência à aceitação por parte dos pais de uma psicoterapia, 
é preciso considerar as suas motivações para procurar um tratamento 
que vise à modificação de suas atitudes. Temos o exemplo do pai que 
conseguiu relativo equilíbrio emocional adotando mecanismos de ajus­
tamento que lhe tornam satisfatória a sua situação vital. Entre esses 
mecanismos estão incluídos atitudes altamente repressivas e sentimentos 
de rejeição concernentes ao seu filho adolescente. Evidentemente, essas 
atitudes são destrutivas para o ajustamento do filho, mas esse pai difi­
cilmente terá motivação para modificá-las, pois percebe o filho como 
mau e inádequado e manifesta desejo de modificação exclusivamente 
na pessoa do filho. Qualquer possibilidade de mudança de atitude será 
considerada por ele intolerável, sobretudo porque envolveria uma per­
125
turbação fundamental no seu ajustamento vital (talvez precário) já es­
tabelecido.
Segundo Rogers/ 2) as atividades dos pais relacionadas com situa­
ções de desajustamento conjugal criam maior motivação para trata­
mento psicoterápico e oferecem prognóstico mais positivo do que aque­
las que se relacionam apenas com vivências destrutivas para com os 
filhos. Pesquisas revelam mais sucesso no tratamento do primeiro grupo 
do que no segundo. Isso é fácil de compreender porque a possibilidade 
de uma ajuda no sentido de estabelecer melhor ajustamento conjugal 
resulta em maior satisfação vital.
Um outro aspecto a considerar é o grau de necessidade emocional 
que a atitude dos pais para com o filho tende a preencher. Se uma mãe 
superprotetora e dominadora tem uma vida social agradável ou mesmo 
um hobby, ou se tem um bom ajustamento conjugal, será mais fácil 
fazê-la renunciar à atitude dominadora ou à satisfação dessa tendência 
que obtém através da sua relação com o filho. As pesquisas realizadas, 
comparando as mães tratáveis com aquelas não tratáveis, apresentam 
algumas diferenças. As não tratáveis revelavam tendência a dominação, 
à agressividade, irritabilidade e egocentrismo. Apresentavam atitude 
de rejeição para com o filho e desajustamento conjugal. As mães que 
reagiram favoravelmente ao tratamento psicoterápico revelaram, prin­
cipalmente, sentimentos fortes de insegurança, inferioridade e obsessi- 
vidade no cumprimento de seus deveres. Predominavam no grupo ati­
tudes de superproteção e super-indulgência para com os filhos, mas 
revelaram melhor ajustamento conjugal do que o primeiro grupo.
No aconselhamento psicológico é possível também atuar no sen­
tido de esclarecer aos pais a respeito da necessidade de remover a 
criança do ambiente familiar, a fim de facilitar-lhe melhor ajustamento. 
Em muitos casos isso torna-se o principal objetivo do aconselhamento. 
Considerando o ponto de vista etiológico é fácil compreender como a 
remoção do ambiente familiar constitui um instrumento poderoso. Por 
exemplcn uma criança poderá obter sensível progresso na modificação 
de seu comportamento e conseqüente ajustamento, se é removida de um 
lar tenso, onde sofre constantes sarcasmos dos pais que a rejeitam. Um 
adolescente, que se está entrosando com um grupo de delinqüentes, 
constituído de jovens que moram na circunvizinhança, apenas para 
atender a sua necessidade de pertencer a uma turma, entregando-se 
a atos reprováveis (roubo etc.) como meio de afirmação perante o 
grupo, poderá ser ajudado a conseguir outras fontes de satisfação se 
for transportado para outro ambiente.
Evidentemente, essas medidas não são tomadas ao acaso e os cri­
térios que se devem adotar para objetivar esse procedimento repre­
sentam um dos aspectos mais delicados do processo de aconselhamento
126
de pais e filhos. Em geral, indica-se o afastamento do lar, mediante in­
ternamento em colégio ou mesmo transferência para casa de algum 
parente — cuja relação com a criança ou com a adolescente seja mais 
adequada — nas seguintes situações: 1) quando as dificuldades de ajus­
tamento do filho estão definitivamente associadas ao comportamento 
ou atitudes dos pais: 2) quando a atmosfera do lar é de rejeição, in­
segurança, hostilidade e tensão; 3) quando a afeição dos pais é do 
tipo prejudicial, causando extrema dependência; 4) quando as atitudes 
inadequadas dos pais estão profundamente enraizadas, resistindo a 
qualquer tentativa de modificação; 5) quando o filho apresenta carac­
terísticas pessoais que indicam possibilidade de adaptação a outro am­
biente, bem como atitude de receptividade à nova situação.
Como transmitir aos pais os resultados dos testes psciológicos de 
seus filhos constitui um outro aspecto que merece ser examinado. Re­
cente trabalho publicado no Test Service Bulletin (3) apresenta as se­
guintes considerações sobre o assunto: “Obviamente, não há um pro­
cedimento único que seja adequado a qualquer espécie de teste nem a 
qualquer tipo de pais. Sendo o pai uma pessoa ajustada e de bom 
nível cultural, a exposição dos resultados dos testes de sua filha talvez 
o ajude a compreendê-la melhor e a conhecer as suas verdadeiras ca­
pacidades e potencialidades. Mas se for um homem inseguro e menos 
esclarecido, uma informação idêntica poderá lhe provocar uma reação 
prejudicial à criança.” Dois princípios e uma técnica verbal parecem- 
-nos fornecer uma sólida base para a comunicação das informações 
obtidas através de testes. Os dois “mandamentos” são absolutamente 
interdependentes — 1) Os pais têm o direito de saber acerca das apti­
dões, do rendimento e dos problemas do seu filho; 2) o orientador deve 
realizar as comunicações de maneira compreensível e utilizável aos pais.
Exceções são feitas ao primeiro princípio quando se trata de casos 
nos quais a problemática do orientando, por solicitação expressa desse, 
não deve ser revelada aos pais. Quanto ao segundo princípio é muito 
importante considerar o conteúdo — aquilo que vamos dizer — e a 
linguagem — nosso modo de dizer — que são elementos inseparáveis 
quando empreendemos a transmissão de algo a alguém. Precisamos 
saber em primeiro lugar quais os aspectos realmente utilizáveis aos pais 
e expressá-los em linguagem acessível ao seu conhecimento. Muito já 
se tem escrito quanto à inadequação da transmissão do Q. I. aos pais, 
explicitamente no seu valor numérico. Mais perigosa ainda se torna a 
transmissão dos resultados de testes de personalidade, que, mais do que 
os de nível mental, estão sujeitos a distorções e interpretações errôneas. 
A linguagem usada deve ser, portanto, a mais simples possível. Ter­
mos técnicos tais como “situação edipiana”, “superego”, “homossexua- 
lismo latente”, não somente confundem o leigo mas se prestam a dis­
torções perigosas e destrutivas.
127
Apresenta-se a seguir um caso ilustrativo de aconselhamento com 
um adolescente e seus familiares:
Luís Filipe, quando cursava o 3.° ano ginasial, foi enviado ao Serviço 
de Orientação Escolar, por ter sido apanhado em flagrante quando “escor­
regava” no corredor principal da Escola. Antes da entrevista com Luís 
Filipe o orientador procurou colher dados informativos sobre o orientando 
nos fichários da Escola. Através deles, tomou conhecimento de que Luís 
Filipe havia sido um bom aluno durante todo o primário. No l.° ano gi­
nasial sua média, nas diversas matérias, tinha sido 6, exceto em Português 
em que tinha ficado para 2." época. Seu currículo escolar incluía Inglês e 
Matemática.
Na ficha relativa ao comportamento geral do orientando encontrou 
inúmeras queixas da professora de Inglês. Em suas aulas Luís Filipe apre­
sentava-se excepcionalmente turbulento, perturbando a disciplina da classe 
com comentários e atitudes jocosas. Outros professores referiam-se ainda 
à sua agressividade. O professor de trabalhos manuais era o únicoque 
fazia observações positivas sobre o orientando. Luís Filipe revelava exce­
lente habilidade manual; contudo trabalhava melhor isoladamente do que 
em conjunto, quando mostrava-se agressivo e irrequieto. Esse mesmo pro­
fessor referia-se às freqüentes implicâncias do grupo com o orientando, a 
quem os colegas apelidaram de “cara de anjo”. Sob o ponto de vista das 
aptidões intelectuais o único aspecto que poderia prejudicar o rendimento 
acadêmico do orientando era sua deficiência em leitura. No Inventário 
de Interesses, Luís Filipe revelara maior tendência para trabalhos do tipo 
mecânico, atividades ao ar livre e atividades do tipo persuasivo. Sob o 
ponto de vista físico, apresentava boa saúde, apesar de ter um grande 
déficit estatural. Seu comportamento, em geral, mostrava que o orientando 
sentia-se infeliz e desajustado no ambiente escolar.
Luís Filipe era o filho caçula de irmandade de três. Seus dois ir­
mãos, aliás muito mais velhos que ele, eram ambos casados, morando cada 
um em sua casa própria. Seu pai, operário altamente especializado, já 
havia falecido. Sua mãe era proprietária da casa em que moravam, mas 
necessitava de auxílio financeiro dos dois filhos para poder manter-se. 
O padrão econômico da família poderia ser considerado como médio- 
-inferior. Luís Filipe, apesar destas dificuldades, nunca trabalhou. Não 
havia em suas fichas referências aos planos futuros do orientando.
Com o auxílio desses dados a orientadora, pôde concluir que não 
parecia tratar-se de um caso grave, mas, de qualquer modo, Luís Filipe 
mostrava ser um menino que necessitava de algum auxílio.
Segue-se a l.a entrevista realizada com o orientando:
L. F. — Bom dia.
O. — Bem, Luís Filipe, você foi enviado a mim por causa de uma 
série de pequenos incidentes que têm ocorrido com você aqui na Escola. 
Gostaria de conversar com você sobre eles.
L. F. — Não sei por que me mandaram aqui. Afinal de contas não 
tenho feito coisa tão grande assim ...
128
O. — Bem, não sei se você sabe que recebemos constantemente infor­
mações sobre todos os alunos da Escola, tanto dos bons alunos como dos 
maus. Às vezes vocês pensam que os professores só nos enviam relatórios 
dos maus alunos. Mas isto é um engano.
L. F. — Mas o fato é que vocês só chamam para cá os que são 
maus alunos.
O. — Você pensa assim e no entanto posso lhe contar uma porção 
de coisas boas que me falaram sobre você.
L. F. — Não sei quem iria dizer coisas boas sobre mim aqui na 
Escola.
O. — Foi seu prófessor de Trabalhos Manuais.
L. F. — Ah! É o professor Mota, pode ser.
O. — Você gostaria de saber o que ele disse?
L. F. — Bem. . . acho que gostaria sim.
O. — O professor Mota me disse que você é extremamente jeitoso. 
Ele me disse que você fez um excelente trabalho, há pouco tempo, quando 
encadernou uns livros para a Escola.
L. F. •— É, realmente ficaram mesmo muito bons.
O. — Ele me disse que vale a pena vê-los.
L. F. — É mesmo, até eu gosto de olhá-los,, de vez em quando. 
Acho que o professor Mota é a única pessoa que me entende aqui nessa 
Escola.
O. — Ele reconhece seus esforços, não é?
L. F. — É, a senhora sabe, eu gosto de me dar bem com as pessoas, 
até faço força para isto.
O. — Você tenta mas sente dificuldade, acha difícil...
L. F. — É, é isto mesmo. Mas tudo tem limites. Meus colegas 
ficam me chamando de “mariquinhas”, "cara de anjo”. Afinal de contas 
não tenho culpa de ser pequeno. E não sei como responder. Até lá em 
casa me chamam de "cara de anjo”.
O. — Em sua casa também lhe chamam "cara de anjo”?
L. F. — É, mamãe me chama.
O. — E o resto do pessoal?
L. F. — Não tem mais ninguém lá em casa. Meus dois irmãos são 
casados. E papai morreu há alguns anos. Vivo sozinho com mamãe. 
E ela tem mania de dizer “meu anjinho, faça isto”, “meu anjinho, faça 
aquilo”. Eu fico danado. Não sou anjo, coisa nenhuma!
O. — Sei, sei.
L. F. — Então eu venho para a Escola. Aqui faço as minhas bagun­
ças, de vez em quando. Como ontem no corredor, pór exemplo. Acho 
que foi por isso que resolveram mandar meu nome para a senhora.
O. — É, eu soube disto, realmente.
L. F. — Mas até que foi engraçado, sabe!
O. — Você gosta de fazer coisas engraçadas, não é?
L. F. — Gosto. Todo mundo ri.
O. — Você gosta de fazer os outros rirem?
129
L. F. — Gosto sim. A senhora sabe, no colégio a gente não se 
diverte! Tudo é tão cacete que a gente tem que dar um jeito de ajudar 
as horas passarem.
O. — Você se caceteia no colégio, não é? Não há, além da aula 
de Trabalhos Manuais, nenhuma outra que você goste?
L. F. — Não, nenhuma. Nesse colégio acho que os professores não 
gostam de ajudar a gente. Em Inglês, por exemplo, a senhora não encontra 
ninguém para ajudar se tem alguma dificuldade.
O. — Ah! Ia justamente lhe perguntar sobre as aulas de Inglês.
L. F. — Pois é, a senhora vê. A professora manda a gente para a 
Biblioteca, para ler. Mas qualquer coisa que se pergunta à Bibliotecária 
ela responde com má vontade e manda a gente embora. Tem lá uma 
porção de livros que gostaria de ler, mas desisto. Não vou mais lá.
O. — Mas você lê algumas coisas em casa, não lê?
L. F. — Leio. Estou lendo sobre um projeto que estou fazendo. 
Mas também só leio sobre isso.
O. — Que projeto é esse?
L. F. — É para a aula de Trabalhos Manuais. Já terminei toda 
aquela parte de encadernação. Agora resolvi fazer uma cesta bem grande 
lá para casa. Nós estamos precisando de uma para guardar roupas. 
Mamãe vive querendo uma e não pode comprar porque são muito caras. 
Resolvi fazer uma de surpresa para ela, para mostrar-lhe que não sou 
apenas um “anjinho”, que já sou alguém que pode executar coisas difíceis.
O. — Acho que ela vai ficar satisfeitíssima. Diga-me uma coisa, 
Luís Filipe, e seus irmãos, como são eles? Você costuma vê-los com 
freqüência?
L. F. — Ah! Eles são muito camaradas. Tem um então que é 
muito meu amigo. O Haroldo. É grande, forte e um bocado alinhado. 
É casado, mas vai muito lá em casa. Com ele converso muito. Mas, 
também, ele me entende. Haroldo e meu professor de Trabalhos Manuais 
são meus melhores amigos.
O. — Haroldo é todo do seu lado, então.
L. F. — Não tenho a menor dúvida.
O. — Você acha que Haroldo poderia ajudá-lo caso conseguíssemos 
que ele viesse aqui, para conversar comigo?
L. F. — Ah! A senhora vai gostar dele, tenho certeza. Ele é um 
sujeito e tanto. Até mamãe escuta o que ele fala. Acho que é a única 
pessoa no mundo a quem eia atende. A senhora sabe, desde que papai 
morreu, ela não tem ninguém com quem se aconselhar.
O. — Ótimo, então vejamos como poderiamos fazer para entrar em 
contato com ele. Segundo o que você me disse acho que ele realmente 
poderia ajudar-nos muito.
L. F. — É, ele é ótimo. Acho que ele vai poder ajudar-nos muito. 
A senhora vê, são essas coisas tolas que tenho vontade de fazer aqui na 
Escola. Quando chego em casa e conto para Haroldo, ele consegue me 
mostrar como fui tolo em fazê-las. Mas quando estou aqui, acabo fazendo 
mesmo. São essas coisinhas como puxar cabelos das meninas, escorregar
no corredor. Depois, quando penso melhor, vejo que foi asneira. Mas 
na hora faço sem pensar. Faço porque fico com vontade.
O. — Estas coisas fazem você sentir-se bem, na hora, não é?
L. F. — É, e é o tipo da coisa de que todo mundo ri.
O. — E você gosta de fazer seus colegas rirem?
L. F. — É, gosto sim, acho que é a única coisa que sei fazer, e 
fazer bem: os outros rirem.
O. — É, vamos ver, acho que com a ajuda de Haroldo daremos 
um jeito de melhorar isto tudo.
L. F. — É, talvez... m as...
O. — Você acha que ajudaria?
L. F. — Bem, acho sim. Mas não queria que a senhora contasse a 
ele tudo que faço aqui na Escola. Ele não sabe que sou tão levado assim. 
Conto alguma coisa, mas não tudo.
O. — Eu não pretendo contar nada a Haroldo a seu respeito, pode 
ficar descansado.
L. F. — A senhora só conversa com ele, está bem?
O. — Está muito bem.
L. F. — Ele é ótimo para conversar, a senhora vai ver. Ele sempre 
tem assunto.
O. — Está bem. Diga-me uma coisa, Luís Filipe, você não gostariade dar uma palavrinha com sua professora de Inglês a respeito do inci­
dente de ontem?
L. F. — Ih! Não sei não. Ela é tão difícil de conversar. É o 
oposto do professor Mota. Com ele a gente pode ir lá falar o que 
quiser, ele sempre escuta o que se tem a dizer. Já com Miss Smith é 
diferente. Ela é tão esquisita. Acho que ela não acha graça em nada.
O. — E isto só acontece com ela? Outro dia ela queixou-se que 
você tem certa tendência a fazer graça durante as aulas para seus colegas 
rirem.
L. F. — É; nisso ela tem razão. Faço sim.
O. — E ela nunca ri quando você faz graça?
L. F. — Nunca. Não, aliás outro dia ela riu. Acho que foi a primei­
ra vez que eu a vi rir de alguma coisa.
O. — Bom, então esqueçamos de Miss Smith. Vamos chamar Haroldo 
e ver o que podemos conseguir com ele.
L. F. — Acho que a senhora vai gostar dele. Quer que eu diga 
para procurá-la?
O. — Ótimo, então faça isto, está bem?
L. F. — Bem, agora tenho que ir para a aula.
O. — Muito bem, pode ir, Luís Filipe. Até breve.
Quando Luís Filipe deixou a sala, a Orientadora permaneceu alguns 
minutos pensando no caso. Talvez essa fora a primeira oportunidade que 
o menino tivera de expressar a sua percepção do mundo em que vivia: 
u escola, um lugar desagradável, onde todos estavam contra ele, com 
exceção do professor de Trabalhos Manuais; em casa, ainda o conside­
131
ravam um bebê; seu irmão mais velho, de quem gostava e por quem 
tinha admiração, pouco o procurava. Ela podia compreender que Luís 
Filipe tivesse necessidade de se defender contra esse mundo hostil e 
desinteressante.
A orientadora iniciou o seu trabalho de aconselhamento a Luís Filipe 
através dos professores — procurando fazê-los compreender por que o 
orientando se apresentava como um elemento perturbador nas aulas. 
Ajudou-os a comprendê-lo melhor e a auxiliá-lo a superar seus senti­
mentos de insegurança e de insuficiência. A família de Luís Filipe também 
foi orientada no sentido de compreendê-lo melhor e proporcionar-lhe no­
vas experiências.
Entrevista com o irmão de Luís Filipe.
O. — Bom dia, o senhor é Sr. Barroso, irmão de Luís Filipe, não é?
Sr. B. — Isto mesmo, bom dia. Luís Filipe me disse que a senhora 
gostaria de falar comigo.
O. — Realmente. Estou um pouco preocupada com ele e gostaria de 
ajudá-lo a fim de que pudesse lograr um melhor ajustamento aqui no co­
légio.
Sr. B. — Por quê? Ele não se está comportando como devia?
O. — Ele pensa que faz coisas muito sérias, mas na verdade não 
faz. Ontem à tarde, por exemplo, foi repreendido por estar fazendo de­
sordem no corredor central da Escola.
Sr. B. — Mas isto é uma coisa séria, a senhora não acha?
O. — Não, não acho que seja tão sério assim. Considero apenas 
um dos sintomas de alguma coisa mais profunda.
Sr. B. — A senhora talvez esteja com a razão. Quando converso 
com Luís Filipe noto que ele não se sente muito feliz aqui na escola. 
Parece-me que alguma coisa o aborrece. Não posso saber o que é. Já 
havia pensado em vir até aqui, mas não sabia a quem procurar. Quando 
ele me deu seu recado fiquei até muito contente.
O. — Fico muito satisfeita que o senhor possa ter vindo, pois acre­
dito que seja uma das pessoas mais indicadas para ajudá-lo. Tenho a 
impressão de que Luís Filipe está tentando desesperadamente ser um 
homem. E na verdade ele tem contra si o fato de ser muito pouco 
desenvolvido. O senhor é uma pessoa de estatura normal, talvez nunca 
tenha pensado nos problemas que acarretam para um menino na idade 
dele o fato de querer ser homem, sem ter físico para isto.
Sr. B. — Realmente, nunca pensei.
O. — Isto faz com que Luís Filipe se considere um pária dentro 
de sua turma.
. Sr. B. — Sei, sei, são dessas coisas que a gente se esquece de levar 
em consideração, quando não passou por elas.
O. — Acresce que ele não tem eçn casa nenhuma figura masculina 
com quem possa identificar-se.
S. B. — É, é verdade. Por causa disto procuro ir freqüentemente 
lá em casa.
O. — Luís Filipe contou-me. Isto já é uma grande coisa para ele. 
Aliás, resolvi chamá-lo pelo fato de ele ter uma relação afetiva muito 
grande com o senhor. Toda vez que se refere a sua pessoa é cóm grande 
respeito e admiração. O senhor sabe, os jovens nessa idade precisam 
muito de ter contato com homens mais velhos. Isso não quer dizer que 
sua mãe não esteja fazendo para ele o máximo que uma mãe pode fazer.
Sr. B. — Compreendo perfeitamente o que a senhora quer dizer.
O. — Mas na verdade ela só tem Luís Filipe, no momento. Ela 
dedica toda atenção a ele. O senhor não acha que ela o superprotege 
um pouco? Luís Filipe contou-me que sua mãe o chama de “meu anji­
nho”, não é verdade?
Sr. B. — É sim, e aliás já falei com ela a esse respeito. Apesar de ele 
não ser muito desenvolvido, de qualquer forma está-se tornando um 
homem. Mamãe se preocupa demais com ele e o aborrece demais em 
questões de estudo. Eu concordo que ela o está tratando de uma maneira 
errada. Mas não sei bem o que fazer para melhorar a situação. A 
senhora poderia sugerir-me alguma coisa?
O. — Acho completamente contra-indicado fazer mais pressão sobre 
Luís Filipe a respeito dos estudos. Ele não é um aluno brilhante mas 
está produzindo normalmente. Acresce que em certos setores, como 
Trabalhos Manuais, ele vai indo muito bem.
Sr. B. — É, ele realmente fala muito sobre isto.
O. — E na verdade ele parece ter uma excelente habilidade manual. 
Seu professor falou-me aliás que, isoladamente, ele trabalha muito bem, 
mas sempre que se encontra em grupo cria problemas. Acho que esta 
é uma de suas características principais. Toda vez que ele se encontra 
em uma situação competitiva acontece isto. Daí achar prejudicial a 
pressão da senhora sua mãe sobre ele.. Não creio que o trabalho pura­
mente acadêmico seja a parte mais forte de Luís Filipe.
Sr. B. — E o pior, é que mamãe não permite que ele faça mais 
nada além de estudar. A senhora vê, Luís Filipe nunca tem um trabalho 
como os demais meninos de sua idade. Daí sua falta de senso de respon­
sabilidade.
O. — É, e acho que ele sente fálta disso. Será que o senhor não 
poderia ajudá-lo nesse particular?
Sr. B. — Posso. Creio que sim. Mas talvez fosse bom a senhora 
mesma dar uma palavrinha a mamãe a esse respeito. Mamãe não é uma 
pessoa difícil, mas ficou muito alquebrada com a morte de papai. Acho 
que até hoje ainda não se recobrou do golpe. E na verdade ela ainda 
não compreendeu que Luís Filipe está-se tornando um homem. O fato 
é que ela não lhe dá o senso de responsabilidade que papai semprè 
procurou desenvolver em mim e em meu irmão.
O. — Ficaria muito contente de falar com ela. Mas de qualquer 
maneira acho que o senhor tem um grande papel a desempenhar em tudo 
isto. Não podemos exigir que sua mãe compreenda toda a situação, tão 
facilmente como nós. Às vezes, as mães desenvolvem uma relação com 
os filhos, principalmente com os caçulas, que tende a impedir a sua 
maturação. Com isto se sentem úteis por mais tempo. É possível que
133
sua mãe sinta que Luís Filipe está crescendo e que mais cedo ou mais 
tarde irá separar-se dela, deixando-a sozinha.
Sr. B — É, isto é bem provável. Até hoje ela me diz quando devo 
usar galochas etc. . .
O. — É difícil para as mães reconhecerem que os filhos já são 
adultos. O que o senhor acha de dar a Luís Filipe a oportunidade de 
arranjar um empreguinho?
Sr. B. — É, eu já havia pensado nisto e até tinha falado com 
mamãe.
O. — E o senhor sabe, às vezes, oferecem à Escola algumas vagas, 
e eu poderei indicar o nome de Luís Filipe.
Sr. B. — Acho que seria esplêndido.
O. — Tenho a impressão que seria uma coisa boa também para ele 
sair, às vezes, com o senhor. Sei que tem sua família, mas não seria 
possível convidá-lo uma vez ou outra para ir a um cinema com o senhor 
e sua família?
Sr. B. — Não resta a menor dúvida. Minha senhora e eu estamos 
projetando passar as férias fora daqui e havíamos pensado em levá-lo 
conosco. Mas, além disso, tentarei, de agora em diante, incluí-lo tanto 
quanto possível em nossos programas.O. — Isso será ótimo. Acho que não constituirá nenhum problema 
para sua senhora, não é? Ela se dá bem com Luís Filipe, pelo que pude 
perceber.
Sr. B. — Ela gosta muito dele. Luís Filipe adora fazer os outros 
rirem e ela acha-o muito divertido. Outra coisa que queria perguntar-lhe: 
há muito tempo estou com vontade de mandar Luís Filipe a um médico 
para ver essa questão do seu desenvolvimento físico. Qual a sua opinião?
O. — Ia sugerir-lhè isto mesmo. O senhor poderia levá-lo a um 
endocrinologista. Seria aconselhável um especialista que visse o problema 
também sob um prisma psicológico. Pode ser que seja uma questão de 
hereditariedade. Mas de qualquer maneira acho que devemos deixar isto 
bem claro, antes de adotarmos qualquer atitude definitiva. Ainda que seja 
uma questão de tempo, necessitamos de arranjar meios que possam favo­
recer o melhor ajustamento de Luís Filipe, até que ele chegue ao seu 
completo desenvolvimento físico.
Sr. B. — Gostaria que a senhora falasse também sobre esse assunto 
com mamãe. Ela acha que não é necessário. No seu entender só se 
procura médico quando se está doente. Talvez se esta sugestão partir 
de uma pessoa como a senhora ela dê maior atenção.
O. — Não resta dúvida que falarei. Mas levando em conta o fato 
de que ela o atende muito, acho que o senhor também poderia falar-lhe.
Sr. B. — Sem dúvida.
O. — Bem, Sr. Barroso, gostaria que me respondesse com franqueza. 
Por acaso a resistência de sua mãe terá alguma relação com a parte 
financeira? Os senhores necessitariam de algum auxílio neste particular?
Sr. B. — Tudo depende do custo do tratamento. A pensão que 
mamãe recebe é muito pequena e meu irmão e eu temos que contribuir 
para os gastos da casa. A senhora sabe, esses tratamentos especializados
são em geral muito dispendiosos. Mas se não for o caso acho que meu 
irmão e eu poderemos proporcioná-lo a Luís Filipe.
O. — Bem, façamos o seguinte. Eu me encarregarei de arranjar um 
auxílio da Escola para que o exame seja realizado. Acho que o senhor 
já está fazendo mais do que muitos irmãos fazem.
Sr. B. — Mas caso seja necessário, faço questão de contribuir.
O. — Está muito bem, assim que saiba alguma coisa lhe darei uma 
resposta.
Sr. B. — Agradeço-lhe imensamente todo o trabalho e interesse por 
Luís Filipe.
O. — E eu sua colaboração.
Alguns dias após a entrevista apresentada, a mãe de Luís Filipe 
compareceu à Escola para entrevista com a orientadora. A princípio o 
contato com a mesma foi um pouco difícil, porque apesar de a mãe estar 
muito interessada em ajudar o orientando, achava-se um pouco na defen­
siva. Durante a entrevista a Sra. Barroso admitiu que, na verdade, Luís 
Filipe era um pouco levado no colégio e que por vezes criava problemas 
na vizinhança. Mas, apesar disso, insistia em afirmar que Luís Filipe era 
ótimo menino. Concordou em deixar de chamá-lo de “anjinho”, como 
também lhe permitiu arranjar um emprego de tempo parcial que lhe daria 
oportunidade de ganhar o suficiente para suas despesas pessoais. Com 
certo custo, concordou em lhe dar mais liberdade, às sextas-feiras e aos 
sábados. Mas, nem por um instante, durante a entrevista, deixou trans­
parecer que via o filho como um problema.
O laudo médico foi bastante encorajador. Apesar de ser comprovado 
o déficit estatural de Luís Filipe, nàda havia de anormal, permanecendo 
assim a possibilidade de uma recuperação física em alguns anos. A fim 
de acelerar seu desenvolvimento lhe foi proporcionado um tratamento.
Luís Filipe não foi encaminhado para psicoterapia visto que apresentou 
sensível progresso no seu comportamento escolar e familiar, como se pode 
verificar na entrevista que segue:
Entrevista final com Luís Filipe.
O. — Bom dia, Luís Filipe. Como vai?
L. F. — Bem, e a senhora? Passei por aqui e resolvi dar-lhe uma 
palavrinha.
O. — Ótimo. O que há de novo?
L. F. — Há alguns meses atrás estive aqui e lhe falei da cesta que 
estava fazendo para mamãe,' a senhora lembra?
O. — Lembro-me, sim.
L. F. — Pois é, hoje vim aqui para convidá-la para ir vê-la. Já 
está pronta na oficina.
O. — Com todo prazer. Quando posso ir lá?
L. F. — A qualquer hora até o fim da semana quando pretendo 
levá-la para casa.
O. — Poderia ser hoje à tarde?
L. F. — Pode sim.
O. — Eu irei então.
135
r
L. F. — Acho que é bobagem, mas queria contar uma coisa para a 
senhora. Imagine que meus colegas deixaram de me chamar de “cara 
de anjo”.
O. — Isto é ótimo, não é?
L. F. — É sim. Nem mamãe me chama mais. Sua conversa com 
Haroldo foi ótima. Imagine que fui passar as férias com ele. Foi diver­
tidíssimo!
O. — Mas que bom!
L. F. — Além do mais arranjei um empreguinho aos sábados e não 
preciso mais do dinheiro de mamãe para minhas despesas menores.
O. — Muito bem!
L. F. — E tem mais. Isto não quero que a senhora comente. Estou 
gostando muito de Miss Smith.
O. — Ela já ri do que você faz?
L. F. — Bem, na verdade não estou fazendo aquelas palhaçadas que 
fazia antes. Não sei por que. Não sinto mais vontade. Mas de qualquer 
modo, atualmente ela ri mais que antigamente. Ela disse que gostou 
muito de meu último trabalho. Escrevi uma redação contando como tinha 
feito minha cesta e ela ficou muito interessada. Ela também vai ver 
minha cesta, hoje.
O. — Isto é muito bom. E talvez, quem sabe, você poderá receber 
algumas encomendas de cestas. Todo mundo necessita de um lugar para 
guardar roupas.
L. F. — É, quem sabe, não é? Outra coisa, Haroldo levou-me a 
um médico.
O. — Sim? E o que aconteceu? Ele lhe disse alguma coisa?
L. F. — Bem, ele me receitou uns remédios horrorosos.
O. — Mas você está tomando, não?
L. F. — Estou. E sabe, já cresci 2 cm e engordei um pouco. Isto 
foi ótimo porque agora, estou podendo fazer um pouco de esportes.
O. — É, eu ouvi dizer que você está até participando do time do 
colégio, não é?
L. F. — É, é isto mesmo. Isso foi muito bom. Talvez por esse 
motivo esteja me dando melhor com meus colegas. Acho que agora estou 
menos implicante. Tenho que fazer uma porção de coisas e me divirto 
mais. Bem, D. Teresa, acho que já vou andando. Tenho que fazer uns 
pequenos acabamentos em minha cesta, e quero que ela esteja pronta 
quando a senhora e Miss Smith chegarem lá.
O. — Está muito bem, Luís Filipe. Então até logo. Apareça.
L. F. — Até logo e muito obrigado.
I
136
RESUMO
MÉTODOS EMPRE­
GADOS NO ACON- 
SELHAMENTO DE 
PAIS
MOTIVAÇÕES POSI­
TIVAS DOS PAIS
TRANSM ISSÃO DOS 
RESULTADOS DOS- 
TESTES AOS PAIS
In fo rm a tivo i
Quando a in form ação é 
rea lm ente nova.
Quando não há a titud e 
p reestabe lecida.
Quando não há e n vo lv i­
m ento em ociona l. 
Quando não se opõe às 
necessidades dos pais. 
Quando co rresponde às 
expecta tivas dos pais.
In te rp re ta tivo (m enos u tilizá ve l). 
Pré-terapia (preparação para aceitação de 
tra tam en to p s ico te ráp ico ).
Remoção do am bien te fa m ilia r.
1. Para m od ifica -
ção de a titude
2. Para aceitação
de tra tam en to
p s ico te rá p ico
Linguagem
1. Quando p ro po rc io ­
na sa tis fação de 
suas necessidades.
2. Quando não p e rtu r­
ba os padrões de 
a justam ento v ita l 
já es tabe lec idos.
3. Quando visa a fa c i­
lita r o a justam ento 
m a trim on ia l.
f C om preensiva, 
■J Clara,
I Precisa.
C onteúdo -ou indiretas.
Apresentamos algumas dessas características e atributos, de acordo 
com os autores mais conhecidos e experimentados no campo do acon­
selhamento.
A. W illiamson(4) enfatiza, principalmente, a necessidade de uma 
atitude objetivamente científica e o lastro intelectual do orientador que 
deseja exercer o aconselhamento clínico por ele defendido. Faz as se­
guintes observações atinentes aos atributos do orientador:
1. O orientador deve estar muito bem atualizado e familiarizado 
com as conclusões das teorias e pesquisas psicológicas a fim de ajudar 
o orientando a ficar alerta a indícios ou sintomas de desajustamento.
2. Deve adquirir o hábito de perceber além dá “superfície” dos 
fatos e características.
3. Suas leituras e experiências devem ter-lhe proporcionado co­
nhecimento de que certas situações e condições são sintomáticas de 
certos tipos de problemas atuais ou potenciais.
4. Tem conhecimento da etiologia e dinâmica do comportamento 
humano e dos desajustamentos psicológicos, educacionais e morais.
138
5. Seu treinamento psicológico lhe proporcionou a convicção de 
que a lógica e a metodologia das ciências, quando adequadamente apli­
cadas, oferecem maiores possibilidades para uma compreensão válida 
do problema do que os métodos de avaliação de caráter, baseados, sim­
plesmente, no bom senso.
6. Finalmente, seu treinamento clínico e experimental lhe ensi­
naram que as leis psicológicas são verdadeiras apenas em condições 
muito restritas e específicas e que é necessário sintetizar todas as in­
formações a respeito do caso, a fim de interferir com adequação se 
as condições são suficientemente idênticas àquelas das quais as leis fo­
ram derivadas, a fim de aplicá-las à atual situação.
7. Recomenda conhecimento profundo e extenso das seguintes 
áreas:
a) Mensuração das características humanas. Inclui: psicologia dife­
rencial, testes psicológicos, teorias psicológicas da personalidade.
b) Relações entre causa e efeito na psicologia científica.
c) Estatísticas aplicadas à psicologia clínica.
d) Prática clínica em diagnóstico da individualidade (considerando 
que a Psicologia é ao mesmo tempo uma ciência nomotética e 
ideográfica, regida por leis gerais e também por leis que regem 
os fatos dentro do próprio indivíduo — cada pessoa constitui 
em si mesmo, uma lei especial da natureza).
B. ERICKSON/Óalém da formação cultural, considera importantes 
as seguintes características:
1. Interesse em lidar e trabalhar com pessoas. Sentir-se à von­
tade com os seres humanos. As suas atividades do passado devem in­
dicar interesse social, participação nas atividades da comunidade. Esse 
interesse pode ser investigado e revelado desde o período escolar (lider 
na escola, popular entre os colegas etc.).
2. Personalidade: deve ter maturidade emocional, revelada, 
principalmente, pela organização de sua vida privada — sua habilidade 
de viver em moldes socialmente aprovados.
3. Liderança: senso de responsabilidade, capacidade de inspirar 
confiança e empatia.
4. Um bom ajustamento é, evidentemente, condição necessária 
para o exercício da profissão de orientador. A facilidade de pessoas 
desajustadas projetarem os seus conflitos no orientando, principalmente 
quando se trata da orientação diretiva — em que é usado o centro de 
referência do orientador — constitui um perigo, que existe também na 
interpretação.
5. Outras características consideradas importantes por E rickson 
são: paciência, tato, senso de humor, ausência de tendência ao retrai-
mento, habilidade de aceitar crítica e de aprender com os erros co­
metidos.
6. Aparência pessoal: pose, boa saúde, timbre de voz agradá­
vel, ausência de maneirismos desagradáveis e maneira de vestir.
C. Rogers*3) declara que o indivíduo que se encontra qualificado 
para exercer a profissão de orientador deve ter qualidades pessoais e 
profissionais.
1. Pessoais: alguns autores têm descrito o orientador como uma 
espécie de super-homem psicológico, que conhece tudo e que está 
salvo de qualquer reação comum aos outros mortais. Rogers acha isto 
irreal. Há, evidentemente, algumas qualidades pessoais que devem estar 
presentes no indivíduo que vem a ser um bom orientador. No entanto, 
essas qualidades não diferem daquelas necessárias para se exercer bem 
outras profissões. Isto é especialmente verdadeiro quando tratamos da 
orientação não-diretiva. O orientador diretivo necessita de maiores qua­
lidades de onipotência, já que tem que decidir e ensinar ao orientando 
como estudar melhor, como se dar bem com os outros;, qual a filosofia 
de vida apropriada e outras questões intricadas a respeito das quais o 
orientando se encontra perplexo ou preocupado. Porém, quando a fina­
lidade do aconselhamento é vista de maneira mais modesta, a primeira 
qualificação do orientador é a sensibilidade ou sensitividade às relações 
humanas. Essa qualidade é difícil de ser definida satisfatoriamente, mas 
é evidente em qualquer situação social. Uma pessoa obtusa às reações 
dos outros, que não compreende ou percebe o efeito que suas atitudes 
causam, que não percebe hostilidade ou amizade nas suas relações com 
outras pessoas ou entre as pessoas de suas relações, que é incapaz de 
perceber se um comentário seu provocou prazer ou desagrado, não pode 
ser um bom orientador. Evidentemente, essas qualidades podem ser de­
senvolvidas, mas se a pessoa não possuir essa sensibilidade social e uma 
grande capacidade de observação, é duvidoso que o aconselhamento 
psicológico seja seu campo profissional mais adequado.
Outras características são: objetividade — atitude emocionalmente 
livre, identificação controlada, capacidade de simpatia e empatia porém 
sem envolvimento emocional, e sem exagero, atitude genuinamente re­
ceptiva e interessada, uma profunda compreensão que torna impossível 
fazer julgamentos morais ou demonstrar atitude de choque ou horror. 
Os indivíduos com essa atitude diferem daqueles frios e impessoais ou 
com atitude onipotente e diferem também, vivamente, das pessoas pro­
fundamente sentimentais e emotivas que se identificam e se deixam en­
volver com os problemas do orientando, tornando-se incapazes de 
ajudá-lo. A identificação com o orientando tem que ser controlada, a 
fim de que haja, por parte do orientador, suficiente compreensão das
140
vivências, dos sentimentos e dos problemas que estão perturbando o 
orientando.
— Respeito pelo indivíduo — Respeito genuíno pela integridade 
do orientando, que assegura a possibilidade de amadurecimento e não 
envolve nenhum zelo reformador por parte do orientador pois este não 
deseja moldar o orientando à sua imagem e semelhança.
— Autocompreensão — Compreensão da sua própria personali­
dade, das suas motivações, dos seus padrões emocionais e das próprias 
limitações e deficiências. A não ser que o orientador tenha um consi­
derável grau de insight, ele não será capaz de reconhecer as situações 
em que é vulnerável emocionalmente, prejudicando suas possibilidades 
de julgamento e objetivação. Essa autocompreensão pode ser adqui­
rida através de adequada supervisão durante o treinamento. A ma­
neira, porém, mais eficiente de se conseguir insight é através da terapia 
pessoal do orientador. Aliás, Rogers recomenda vivamente a psicote­
rapia pessoal do orientador durante o período de treinamento.
2. Conhecimento psicológico: o aconselhamento não é simples­
mente uma arte. Exige também uma base científica cultural sólida. 
Rogers, embora considere as características pessoais como mais im­
portantes, não despreza o aspecto da formação intelectual. Apresenta 
o seguinte plano para formação e prática: d) Seleção psicológica inicial 
dos candidatos ao curso; b) Cursos gerais para a compreensão funda­
mental das relações humanas, tais como: sociologia, psicologia social, 
antropologia. Curso básico sobre a psicologia evolutiva e do ajustamen­
to, biologia, dinâmica do ajustamento humano (nos campos profissio­
nais, educacionais), ajustamento matrimonial e do excepcional, teorias 
psicológicasda personalidade; c) Experiência no magistério ou campo 
das relações industriais; d) Conhecimento dos métodos de pesquisas a 
fim de avaliar o seu trabalho e o de outros; é) Cursos sobre as várias 
teorias do aconselhamento psicológico; /) Prática de role-playing (dra­
matização) ; g) Prática supervisionada de aconselhamento.
A American Psychological Association apresenta os seguintes atri­
butos para os que desejam trabalhar em aconselhamento: 1 2 3 4 5 6 7
1. Superior capacidade intelectual e de julgamento.
2. Originalidade e versatilidade.
3. Contínua e insaciável curiosidade científica (autodidatismo).
4. Interesse pelas pessoas como indivíduos e não como objetos a 
serem manipulados.
5. Insight sobre suas próprias características pessoais.
6. Sensibilidade para a complexidade das motivações.
7. Tolerância — ausência de arrogância.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
8. Habilidade para adotar uma atitude terapêutica e para estabele­
cer relações humanas satisfatórias.
Capacidade de trabalho — hábitos metódicos de trabalho — 
habilidade para tolerar pressões.
Aceitação de responsabilidade.
Tato e cooperação.
Estabilidade e autocontrole.
Senso de humor.
Senso de discriminação dos valores éticos.
Base cultural extensa.
Profundo interesse pela psicologia, principalmente pelos aspectos 
clínicos.
D. H ahn e MacLea^ í2)ressaltam a importância do problema de 
seleção daqueles que desejam trabalhar em aconselhamento psicológico. 
Recomendam investigação das capacidades intelectuais, motivações e 
interesses. Do ponto de vista da personalidade deve-se verificar se o 
candidato possui calor humano, receptividade, objetividade, capacidade 
de compreensão e tolerância. Reprovam veementemente a aceitação de 
pessoas emocionalmente desajustadas para esse tipo de trabalho. Re­
jeitam o refrão de que “só aqueles que passaram por essa situação 
(de desajustamento) podem compreendê-la” pois o consideram invá­
lido e perigosa a sua aplicação ao campo do aconselhamento. O suces­
so de algumas pessoas desajustadas nesse tipo de trabalho não é resul­
tado do seu desajustamento mas de que, apesar de serem desajustadas, 
possuíam excelente capacidade intelectual. Apresentam alguns exem­
plos de orientadores inadequados: o tipo rígido e perfeccionista, com 
idéias inatingíveis, que desejam impor aos orientandos; os otimistas 
que mesmo em face dos problemas mais sérios, batem nas costas e le­
vantam o ânimo dos orientandos com afirmações de que acabará bem, 
o tempo se encarregará de resolver, e lembram “que não há bem que 
sempre dure e mal que não se acabe”, “trabalho e virtude dissipam 
todos os males” etc.; os angustiados, para os quais a simples solicitação, 
por parte do orientando, a fim de mudar de curso, constitui um pro­
blema sério, que os leva a investigações profundas, imaginando as gra­
ves conseqüências futuras.
E. De acordo com a nossa experiência pessoal, consideramos as 
seguintes características indispensáveis ao orientador:
1. Ajustamento pessoal satisfatório: o orientador deverá ser, 
acima de tudo, uma pessoa psicologicamente madura, com excelente 
controle emocional e com alto grau de estabilidade. De acordo com 
M ira y López, a pessoa madura é aquela que possui boa saúde mental. 
A Organização Mundial da Saúde Mental da Unesco foi assaz explícita, 
no que considera uma pessoa portadora de boa saúde mental: é o indi-
142
víduo que se auto-estima e se aceita adequadamente. Julga-se com obje­
tividade, sem se hipo ou hipervalorizar, de modo que seu autojuízo 
coincide com o que dele fazem os demais. Reconhece seus erros, mas 
aprecia seus êxitos, na sua justa medida, por isso não corre os riscos 
de vaidade e ambição desmedidas, inveja ou timidez excessiva. Rela- 
ciona-se bem com os demais: é capaz de manter atitude cortês e se­
rena perante as pessoas, sem distinção de sexo, idade, cultura, raça, 
posição econômica ou status social. Interessa-se pelos problemas da 
coletividade e dos grupos sociais a que pertence e está disposto a ofe­
recer a sua ajuda a quem dela necessitar, apesar de conservar a sua in­
dependência de juízo e de ação. Sabe enfrentar as exigências da vida: 
quando tem diante de si um obstáculo ou um problema sabe estu­
dá-lo e tomar uma decisão lógica. Se não pode modificar o ambiente, 
é capaz de se adaptar a ele, sem modificar intimamente os seus pro­
pósitos. É flexível, porém conserva sempre sua dignidade. Tolera as 
frustrações, procurando extrair um ensinamento dos seus fracassos.
2. Predominância de interesse por atividades assistenciais.
3. Capacidáde de empatia: deverá ser capaz de compreender as 
pessoas, penetrando nas suas vivências e sentimentos, percebendo a rea­
lidade como elas a percebem. Não obstante, deve ter capacidade de 
se manter neutro, não se permitindo envolver emocionalraente nas si­
tuações e problemas apresentados por seus clientes.
II. ALGUNS PRINCÍPIOS ÉTICOS
A relação que existe entre o orientador e seus clientes é sui generis 
e envolve aspectos sutis e delicados. Na situação de aconselhamento 
são fornecidas ao orientador informações confidenciais e, em muitos 
casos, altamente sigilosas, que envolvem não somente o orientando mas 
a outros que com ele estão relacionados. No aconselhamento, senti­
mentos e vivências íntimas são desnudados e compartilhados com o 
orientador. Os que trabalham nesse campo sabem que é comum ou­
vir do orientando que “essa é a primeira vez que fala com alguém 
a respeito de certa experiência ou sentimento”. Está implícito nesse 
fato que uma alta dose de confiança é depositada na integridade pes­
soal do orientador. É necessário elevado senso de responsabilidade, 
discrição, capacidade de discernimento e mesmo uma atitude de humil­
dade para lidar com esse material de caráter privativo e sigiloso, de 
maneira a corresponder à confiança depositada. Além disso, é indis­
pensável um código de ética que norteie objetivamente as atitudes a 
serem tomadas pelo orientador em certas situações. Esses princípios 
éticos, cuidadosamente elaborados, não somente lhe fornecerão os pa­
drões profissionais de conduta mas, sobretudo, o protegerão contra si­
tuações prejudiciais para ele próprio e para seus clientes.
143
Em artigo recente, Wrenn (s ) apresenta uma adaptação de alguns 
princípios do Código de Ética dos Psicólogos, elaborado em 1951, pela 
American Psychological Association, que podem ser considerados como 
fundamentos e diretrizes da conduta do orientador.
I. Responsabilidade. para com o cliente:
1. O orientador é responsável primeiramente perante seu cliente 
e, em última instância, perante a sociedade; essa atitude básica deve 
reger todas as suas realizações profissionais. O orientador deve em to­
das as circunstâncias respeitar a integridade e proteger o bem-estar do 
seu cliente.
2. O orientador deve obter a permissão do cliente antes de co­
municar qualquer informação sobre ele, que lhe tenha sido fornecida 
em situação de aconselhamento, a outra pessoa ou Serviço, tais como 
pais, médico, empregador, clínica etc. Esse princípio deve ser obser­
vado mesmo quando essa ação for percebida pelo orientador como de 
interesse do cliente. Exceção é contida no princípio três.
3. O orientador deve guardar sigilo das confidências profissionais 
e somente revelá-las sem permissão do cliente após cuidadosa delibe­
ração e em face de um perigo claro e iminente para um indivíduo ou 
para a sociedade, isto é, ameaça de suicídio, homicídio ou traição.
4. Informações de conteúdo psicológico, tais como resultados de 
testes ou de diagnósticos, devem ser fornecidas ao cliente em ocasião 
propícia e de maneira mais adequada para serem aceitas por ele como 
parte de seu autoconceito, isto é, quando oferecerem maiores possibi­
lidades de ser úteis ao cliente para solucionar seus problemas.
5. O orientador deve encaminhar seu cliente a especialista ade­
quado quando verifica que as dificuldades por ele apresentadas estão 
fora da sua competência profissional. Em escolas ou instituições onde 
crianças estãoenvolvidas o encaminhamento deve ser realizado com 
o consentimento dos pais.
6. Material clínico só pode ser utilizado em aulas ou publicações 
com permissão das pessoas envolvidas ou quando a sua identidade não 
pode ser absolutamente reconhecida.
7. Entrevistas não podem ser gravadas para treinamento, estudo 
e pesquisa, sem o conhecimento e consentimento do cliente. Exceções 
podem ser feitas quando a gravação é realizada para finalidade de pes- 
ouisa em tais circunstâncias que só o pesquisador possa identificar o 
cliente.
II. Responsabilidade para com a Sociedade:
Considera-se falta de ética por parte do orientador oferecer 
serviços estranhos a sua formação e experiência profissionais ou acima 
do seu nível de competência.
144
III. Responsabilidade para com. a instituição empregadora e para 
com os colegas:
1. Nas situações de aconselhamento nas quais o orientador tem 
compromisso de lealdade concomitantemente com seu cliente e com 
seu empregador, deve ser estabelecido um acordo sobre como lidar 
com o material confidencial; os termos desse acordo devem ser conhe­
cidos previamente pelos interessados.
2. Informações obtidas na situação de aconselhamento devem 
ser discutidas somente em ambiente profissional e com profissionais 
que estão claramente relacionados com o caso.
3. Comunicações profissionais não devem ser mostradas ao 
cliente.
IV. Responsabilidade para consigo próprio e para com a pro­
fissão:
1. É desejável no aconselhamento, no qual é essencial uma re­
lação interpessoal altamente satisfatória, que o orientador esteja a par 
de suas insuficiências pessoais que poderíam influenciar seu julgamento 
a respeito de outros ou deturpar suas relações profissionais com eles. 
Deve evitar atividades onde suas limitações pessoais possam resultar 
num serviço profissional de qualidade inferior ou prejudicial ao cliente.
2. O orientador deve distinguir claramente seus valores daqueles 
mantidos pelo seu cliente, a fim de se proteger contra uma sutil im­
posição dos seus próprios valores e código de ética no seu cliente.
RESUMO
A. CARACTERÍSTICAS DO ORIENTADOR
w il l ia m s o n {
ERICKSON -
Atitude objetivamente científica.
Formação acadêmica adequada.
Formação acadêmica (prática de ensino). 
Estágio probatório.
Atributos pessoais:
a) interesse humano.
b) personalidade:
— maturidade,
— liderança,
— discrição,
— empatia,
— bom ajustamento,
— paciência, tato, senso de humor,
— ausência de tendência ao retraimento,
— aparência, timbre de voz, pose,
„ — ausência de maneirismos.
'Atributos
Pessoais 
Sensibilidade a 
relações hu­
manas.
ROGERS {
Identificação controlada, 
Emotividade controlada 
Empatia.
HAHN
MACLEAN
Respeito pelo 
ser humano.
Autocompre­
ensão.
f Teórica.
Formaçao I prática (drama- 
. Acadêmica tização).
'Atributos Pessoais:
a) interesse e motivação.
b) personalidade:
— calor humano,
— receptividade,
— objetividade,
— compreensão,
— tolerância,
_ — bom ajustamento.
B. CÓDIGO DE ÉTICA DO ORIENTADOR
1. Responsabilidade para com o cliente.
2. Responsabilidade para com a Sociedade.
3. Responsabilidade para com a instituição empregadora 
e para com os colegas.
4. Responsabilidade para consigo próprio e para com a
profissão.______ ~_____________________
146
TRÊS ENTREVISTAS 
DE ACONSELHAMENTO
As três entrevistas de aconselhamento que seguem foram gra­
vadas e depois transcritas. Trata-se de casos que procuraram Serviços 
de Psicologia Aplicada com o intuito de se orientarem profissional­
mente. Todavia, verifica-se, ao se examinarem as entrevistas, que, ape­
nas no caso de Carlos Gustavo, o aconselhamento se deteve dentro 
dos limites da área da escolha profissional. Na entrevis"ta de Augusto, 
não obstante a tônica ser a orientação profissional, assuntos relacio­
nados à situação familiar do orientando vieram à tona e foram deba­
tidos e explorados. No caso de Helena, o acontelhamento é vital, por­
quanto a escolha profissional da orientanda se encontra prejudicada 
pelas suas dificuldades emocionais. Trata-se de um caso clínico, no 
qual se delineia claramente uma neurose obsessivo-compulsiva. Toda 
a ênfase do aconselhamento de Helena se concentra em fazê-la aceitar 
tratamento psicanalítico. Helena reage de forma ambivalente às su­
gestões da orientadora.
Examinando-se as técnicas adotadas pelos orientadores, verifica-se 
que, nos casos de Carlos Gustavo e de Augusto, a entrevista de acon­
selhamento poderia ser comparada à entrevista de síntese do método 
auto-ajustativo. Os orientadores procuraram seguir o roteiro reco­
mendado por Shostrom e Brammer, sintetizando e relacionando o se­
guinte material, nas suas comunicações aos orientandos:
a) os planos prospectivos revelados pelos orientandos nos questioná­
rios e entrevistas anteriores são revistos;
b) os resultados dos testes obtidos pelos orientandos são explicados, 
interpretados e relacionados aos seus planos profissionais;
c) são fornecidas informações sobre o mundo do trabalho, as enti­
dades educacionais e os recursos da comunidade.
Observa-se que os orientadores se esforçaram para tornar os re-
147
sultados dos testes suficientemente claros e significativos a fim de 
serem relacionados de forma adequada, pelos orientandos, aos seus 
campos profissionais preferidos. Verifica-se a tentativa de proporcio­
nar ao orientando uma certa aprendizagem a respeito de suas próprias 
aptidões, interesses e outras características de sua pessoa, no sentido 
de que ele se possa ajustar melhor à realidade, conhecendo as suas 
possibilidades e limitações.
O aconselhamento de Helena, embora possa também ser classifi­
cado como eclético, processou-se de maneira mais vaga e menos estru­
turada. Evidencia-se apenas que há uma predominância de respostas 
interpretativas que não são assimiladas pela orientanda. Essas respos­
tas interpretativas, por apresentarem quase sempre conteúdo simbólico 
complexo, nos pareceram prematuras para a entrevista em questão e 
consequentemente incompreensíveis para a orientanda.
São reproduzidas, a seguir, as entrevistas de aconselhamento, an­
tecedidas de algumas informações sobre os respectivos orientandos e 
acompanhadas de algumas observações com respeito â atuação dos 
orientadores.
CASO DE AUGUSTO
Idade — 18 anos.
Motivo da consulta — Orientação Profissional.
Nível de escolaridade — 2.“ série do Curso Científico.
Preferências profissionais — Engenharia, Economia, Arquitetura. 
Situação familiar — Pai economista, mãe doméstica. Irmão, 21 anos, 
estuda Direito. Irmã, 20 anos, estudante secundária. As relações com o 
pai são tensas e pouco espontâneas.
Provas a que foi submetido — Questionário, Entrevista para coleta 
de dados, Psicodiagnóstico Miocinético, DAT, Registro de preferências de 
Kuder, Provas de Aptidão Artística, Exame Médico, WAIS.
O. — Orientadora 
A. — Augusto
1 — O. — Então, Augusto, que achou das provas?
1 — A. — Puxa, parecia que não iam acabar mais.
2 — O. — Quer dizer que você já estava cansado?
2 — A. — Já, eu já não fazia com tanta vontade; o colégio, tenho de
ir em casa. . .
3 — O. — Estava um pouco cansado, não é?
3 — A. — É, estava.
4 — O. — O colégio, em geral, exige esforço.
4 — A. — Não, o que cansa muito é em vésperas de provas; passando, 
eu me preparo para prova seguinte; é assim que eu faço.
Mas, só aquela canseira de vir pra casa, saio do colégio 
apressado (que eu saio do colégio meio-dia e meia) e às ve­
zes chegava atrasado.
5 — O. — É, realmente foi duro para você fazer as provas todas.
5 — A. — Foi um pouquinho.
6 — O. — Houve alguma prova, em que você tivesse tido dificuldade,
que tivesse feito em condições que não fossem muito ade­
quadas porque estivesse muito cansado?
6 — A. — Dificuldade eu não tive, não; só não quis fazer aquela d e ...
é massa, não é?
7 — O. — É modelagem.
7 — A. — É, aquela eu não quis fazer, não gosto. Achava que não
linha idéia, também não tinha idéia pra fazer nada daquilo, 
e vontade também.
8 — O. — Sim, você não tinha interesse em fazer, você sentiuque não
estava dentro do seu campo de interesse, de trabalho, a 
modelagem.
8 — A. — Não sei se é porque eu já estava no final, não tive vontade
mesmo. O resto eu fiz bem.
9 — O. — Bem, então vamos ver aqui os resultados. Você veio fazer
orientação profissional, não é? Você nos disse que estava 
muito indeciso na escolha profissional, que já tinha mudado 
um pouco na escolha, mas que intimamente você estava in­
teressado em Engenharia, Economia...
9 — A. — Geologia...
10 — O. — E Arquitetura, não é? São essas as carreiras que você pre­
fere. Bem, então nós vamos ver agora os resultados dessas 
provas. Quando nós fazemos a orientação profissional nós 
procuramos ver três aspectos que são importantes para a 
escolha profissional. Primeiramente, as aptidões do indiví­
duo, quer dizer, aquilo que o indivíduo pode fazer, aquilo 
que tem mais facilidade. As aptidões podem ser intelectuais 
ou podem ser de outra natureza, por exemplo, artísticas 
(você fez prova de aptidão artística). Então, nós temos esse 
aspecto, de capacidade, aptidão. Agora, há um segundo as­
pecto que é preciso investigar também: é o aspecto dos in­
teresses que a pessoa tem. Quer dizer, é preciso saber o que 
a pessoa gosta realmente de fazer, porque às vezes a pessoa 
pensa que gosta de certa atividade e desconhe, na realidade, 
o que se faz naquela carreira. Então, nós fazemos aquelas 
provas de interesses, de escolher entre várias situações a que 
mais lhe agrada realmente, para ver quais são os interesses 
verdadeiros da pessoa. Bem, e fazemos também provas de 
personalidade para ver se não há uma contra-indicação, do 
ponto de vista da personalidade, para a profissão que a pes­
soa deseja. Nós fazemos exame médico também com essa 
mesma finalidade eliminatória, como a personalidade: veri­
ficar se não há uma contra-indicação do ponto de vista de
149
i
saúde para a carreira indicada. Então você fez todas essas 
provas. Vamos ver os resultados de cada uma delas. Primei­
ramente, fazendo uma revisão aqui na sua entrevista, você 
diz que quer seguir Engenharia porque tem habilidade para 
Matemática e Química, não é? Não gosta de Física.
10 — A. — Da Descritiva, não gosto de Física...
11 — O. — Gosta de Matemática...
11 — A. — Eu não gosto porque não acho nada lá no colégio, não me 
atrai, a Sr", sabe? Mas, eu tenho certeza que saindo lá do 
colégio, eu tenho certeza que eu vou gostar da Física no 
vestibular.
12 — O. — Sei, pelo que você diz parece que você acha que não gosta 
no momento, por causa da situação no colégio; mas acha 
que gostaria em outra situação; quer dizer, você tem capa­
cidade para aprender; no momento você não está muito 
motivado, por causa do colégio, professores etc. Você diz 
isso mesmo na entrevista. (Pausa.) E pensa em Arquitetura 
também, não é? Por influência do seu pai.
12 — A. — É.
13 — O. — E Economia, porque é mais fácil e exige menos tempo.
(Pausa.) Quer dizer que realmente parece uma escolha mais 
de acordo com o que você gosta, a Engenharia.
13 — A. — É, a que está em primeiro plano é a Engenharia.
14 — O. — As outras são escolhas mais baseadas em motivo externo.
Uma porque seu pai acha boa e a outra porque você acha 
que leva menos tempo e dá menos trabalho. Então, vamos 
ver aqui o resultado das suas provas. Você fez as provas de 
aptidões intelectuais diferenciais. Aqui nós verificamos as 
aptidões nas várias áreas intelectuais. Aqui na prova de ra­
ciocínio verbal você saiu-se na média de seu grupo; nessa 
prova você é comparado a indivíduos do seu nível de esco­
laridade, quer dizer, são pessoas do seu nvel, de curso cien­
tífico. É com esse tipo de gente que você vai competir no 
vestibular; então você tem que ser comparado a essas pessoas 
para verificar como você se situa, não é? Comparando-se 
com elas, se você está ... assim, na média, abaixo da m édia... 
Então, comparado a esse grupo, você se classificou na mé­
dia, no raciocínio verbal, na capacidade de raciocinar com 
símbolos verbais. E no raciocínio numérico, na capacidade 
de raciocinar com números, com conhecimento de Matemá­
tica, aí é uma prova também de conhecimento, de aritmética, 
principalmente, não é? Você também se classificou na média 
de seu grupo. No raciocínio abstrato, que é a prova que 
investiga a capacidade de raciocinar com símbolos abstratos, 
estabelecer relações, você também se classificou na média 
de seu grupo. No raciocínio espacial — que é a capacidade
11- O. — In te rru p ção inadequada.
12- 0 . — R esposta re flex iva por dem ais p ro lixa . V erifica-se essa m esm a ca rac te r ís ­
tica em o u tras respostas da O rien tado ra .
150
14 — A. —
15 — O. — 
15 — A. —
16 — O. —
16 — A. —
17 _ O. —
17 — A. —
18 — O. —
18 — A. —
19 — O. — 
19 — A. —
20 — O. —
20 — A. —
21 — O. —
de a pessoa raciocinar com formas no espaço, quer dizer 
imaginar as formas, como elas existem na realidade — você 
se classificou quase na zona superior, bém superior à média; 
você se classificou no 80 percentil, quer dizer que em 100 
jovens do seu nível, apenas 20 obtêm resultado superior a 
você nessa prova e 80 obtêm resultados inferiores. No racio­
cínio mecânico — é aquela prova em que se trata com pro­
blemas mecânicos. São situações concretas que você tem que 
resolver. Aí envolve certa inteligência prática, com conheci­
mento desses princípios; você se classificou também na mé­
dia. Na prova de rapidez e prática, que investiga a capaci­
dade para a pessoa perceber rapidamente pequenos detalhes 
que é importante para trabalhos burocráticos, trabalhos 
de precisão — você obteve escore máximo; você se classifi­
cou no 99 percentil. (Pausa.) Você está surpreendido com 
o resultado?
Fiquei surpreendido!
Você achou que não se saiu bem?
Eu sou muito lento, sabe como é, D. Léia, e deixava muita 
coisa por fazer, deixava muita coisa em branco...
Nas outras provas, mas esta prova aqui, você se lembra da 
prova. . .
Aquelas primeiras, não é? Aquelas 7 primeiras...
É, exato, aquela que tem um grupo de nomes, que tem que 
se com parar...
. . . ao mesmo grupo em ordem contrária, não é?
É, às vezes com pequena modificação, que se tem de fazer, 
parece que em oito ou sete minutos. É a mais rápida de 
todas.
É, tive surpresa, não esperava!
Aí é apenas a capacidade de você ter atenção e rapidez. 
Também fiquei surpreso na Matemática; eu esperava um 
resultado acima da mediana.
Acima da média.
É . . . já o raciocínio verbal, não; é isso mesmo.
Está na média. Bom, aqui você precisa compreender que 
está sendo comparado com o grupo do seu nível de escola­
ridade, e esse grupo com o qual você está sendo comparado 
é um grupo de escolas da zona sul, onde esse teste foi pa­
dronizado estatisticamente. Nós obtivemos essas normas de 
comparação com alunos de escolas, digamos, mais exigentes, 
da zona sul. De modo que você está sendo comparado qua­
se com a elite intelectual, compreendeu? Você classificou-se 
na média, embora você imaginasse que podia ter sido me-
15-0. e 16-0. — A O rien tado ra estim ulou o O rien tando a exp ressar suas im pres­
sões das p rovas, não perm itindo , porém , que ele as com pletasse. 
20-O. — C orreção desnecessária que dem ostra p reocupação da O rien tado ra com o 
conteúdo fa tu a l e não com o em ocional.
151
lhor. Na Ortografia você se classificou no 90 percentil, em 
situação superior. Quer dizer que em 100 jovens do seu ní­
vel apenas 10 tiraram resultados melhores. Na Sintaxe você 
se classificou no 70 percentil, também acima da média; signi­
fica que em 100 jovens do seu nível 70 saíram-se inferio­
res a você e 30 superiores. Entendeu bem o resultado? 
Aqui, de acordo com esse teste, as suas aptidões são bem 
distribuídas, você tem uma boa escolaridade, tem boa orto­
grafia, conhece bem sintaxe; agora, há aqui uma predomi­
nância do raciocínio espacial, dessa capacidade de visualizar 
as formas do espaço, raciocinar com formas no espaço, que 
é uma aptidão muito importante para a Engenharia. É uma 
aptidão importante para qualquer profissão que tenhae tem recursos mais variados. Visa, entre 
outros objetivos, a:
d) remover as causas de fricção entre aluno e professor;
b) promover atividades extracurriculares;
14
c) classificar e distribuir os alunos nas classes e promover currículo 
adequado às suas necessidades e possibilidades;
d) ajudar os alunos a utilizar melhor seus recursos individuais;
e) promover serviço de diagnóstico e aconselhamento psicológico;
/) encaminhar os alunos profissionalmente e até proporcionar-lhes
oportunidades de colocação.
Verificamos, portanto, que o aconselhamento é um aspecto do 
processo de orientação educacional e mesmo profissional, porém não 
pode ser confundido com esses conceitos.
VI. ACONSELHAMENTO E PSICOTERAPIA
O aconselhamento psicológico também é usado com referência à 
psicoterapia, porque com ela se confunde nas suas finalidades. A 
psicoterapia visa a ajudar o indivíduo a obter melhor compreensão de 
si mesmo para orientar-se na solução de seus problemas vitais. Por isso, 
alguns autores consideram o aconselhamento psicológico como psico­
terapia. Entre eles, Carl Rogers,(10) que faz a seguinte declaração:
“Há um grande número de profissionais que se dedica a entrevistas, 
com a finalidade de trazer modificações construtivas na atitude de 
seus clientes, através desses contatos íête-à-tête. Quer sejam chamados 
psicólogos, orientadores educacionais, assistentes sociais, chefes de pes­
soal, psiquiatras etc., se a sua tarefa se relaciona com indivíduos desa­
justados, fracassados nos estudos ou delinqüentes, que deixam as en­
trevistas de alguma maneira melhor ajustadas às dificuldades e enfren­
tando a realidade da vida de maneira mais construtiva, então os mé­
todos usados são de interesse para nós.” Prossegue dizendo que a 
diferença é uma questão apenas de terminologia. Aconselhamento é 
usado nos meios educacionais e psicoterapia nos meios psicológicos e 
clínicos, por psicólogos clínicos, assistentes sociais e psiquiatras. Ambos 
representam uma série de contatos com alguém que visa a oferecer 
assistência na obtenção de uma modificação de atitudes ou de compor­
tamento. Aponta que há uma tendência para se usar o termo aconse­
lhamento em entrevistas mais superficiais, enquanto que a psicoterapia 
se refere a um contato mais duradouro e intensivo, objetivando uma 
reorganização mais profunda da personalidade.
StrangO1) encontra dificuldades em diferenciar aconselhamento de 
psicoterapia. Ambos pretendem ajudar o indivíduo a obter um nível 
mais ejevado de desenvolvimento pessoal e social. É difícil diferenciá- 
-los visto que um processo emerge do outro como uma escala contínua, 
de acordo com o conteúdo emocional, profundidade é extensão das 
transformações positivas na personalidade do orientando. No início da 
escala, podemos localizar os tipos mais superficiais de aconselhamento
15
educacional e profissional que têm como finalidade o fornecimento de 
informações. Em seguida, localizamos o aconselhamento vital que visa 
à exploração da personalidade e é também empregado em orientação 
educacional e profissional. Em continuação, na seguinte ordem, temos 
a psicoterapia, o tratamento psiquiátrico e a psicanálise — três formas 
de tratamento que atuam em nível mais profundo.
QUADRO 1
Aconselhamento Educacional e Profissional 
— Aconselhamento Vital (pessoal)
. — Psicoterapia 
\ — Psicanálise
\ — Tratamento Psiquiátrico
Conceito de Strang
WilliamsonO4) e TylerO3) diferenciam a psicoterapia do aconse­
lhamento nos seguintes termos: aconselhamento visa a ajudar na toma­
da de uma decisão e envolve, muitas vezes, informações objetivas que 
permitem ao orientando utilizar melhor seus recursos pessoais. Psico­
terapia atua em nível mais profundo e tem como finalidade ajudar o 
indivíduo desajustado ou neurótico a reestruturar sua personalidade.
Em recente livro, Patterson(8) dedica o seu primeiro capítulo à 
descrição dos aspectos que diferenciam a psicoterapia do aconselha­
mento, apresentando para isso o ponto de vista de vários especialistas. 
De uma maneira geral, a maioria dos autores parece concordar que o 
aconselhamento se destina a proporcionar ajuda a indivíduos normais, 
a fim de remover obstáculos ao seu ótimo desenvolvimento. Comu- 
mente, são obstáculos de natureza ambiental, ou situacionais, e não 
distúrbios de personalidade. A aplicação dos adjetivos educacional, 
matrimonial, profissional etc., com referência ao aconselhamento, indi­
cam essas características. O aconselhamento pretende ajudar o indi­
víduo a lidar satisfatoriamente com problemas reais; a solução para 
conflitos profundos da personalidade pertence ao âmbito da psicote­
rapia. Citando MowRER(7)diz que no aconselhamento se proporciona 
assistência a pessoas que sofrem de conflitos plenamente conscientes, 
acompanhados da chamada ansiedade normal. Para Patterson é difí-
16
cil, na prática, estabelecer uma fronteira entre aconselhamento e psico­
terapia porquanto acha, muitas vezes, impossível distinguir entre ansie­
dade normal e ansiedade neurótica, entre conflitos conscientes e in­
conscientes. Todavia, concorda com Mowrer em que as técnicas apli­
cadas no aconselhamento são diferentes das usadas na psicoterapia, 
mormente quando o problema é de falta de informação.
A Divisão de Psicologia do Aconselhamento da American Psycho- 
logical Association conclui, após estudos, que aconselhamento e psico­
terapia constituem uma gradação, sendo o primeiro de natureza pro- 
filática.
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que 
imaginar as formas como elas existem na realidade. (Pau­
sa.) Bem, há alguma dúvida quanto a essas provas?
21 — A. — Não.
22 — O. — Está tudo compreendido. Então vamos ver agora a outra
prova de aptidão que você fez; aptidão artística. Você tinha 
falado em Arquitetura, então nós marcamos também provas 
de aptidão artística a fim de verificar se você teria suficiente 
aptidão para Arquitetura. Aqui você foi classificado na 
zona média, mais ou menos, quer dizer a técnica concluiu 
que não há contra-indicação para Arquitetura, porém neces­
sita de maior estudo e de desenvolvimento gráfico, bem 
como de atenção de professor especializado. Quer dizer, não 
há contra-indicação; você tem suficiente capacidade para fa­
zer o curso, embora tenha que se esforçar bastante, estudar 
bastante, porque a sua classificação é média, mas média em 
comparação com a população geral, não é em comparação 
com o seu grupo específico, como aqui nessa prova, enten­
deu? (Mostra o teste DAT.)
22 — A. — “Tá.”
23 — O. — Portanto, aí tem o resultado. Você fez uma outra de nível
mental. Você foi chamado depois pra fazer e justamente foi 
uma prova que não era muito necessária, mas como nós sen­
timos necessidade de comparar os resultados que você tinha 
obtido há alguns anos, aqui na orientação a que você se 
submeteu, resolvemos pedir que você a repetisse; e no­
tamos que, realmente, há uma diferença mesmo muito sig- 
nificativq entre o rendimento que você revelou naquela oca­
sião, quando esteve aqui, há alguns anos, e atualmente; há 
uma diferença de muitos pontos, quase 20 pontos ganhos. 
Quer dizer, você foi classificado como praticamente normal, 
brilhante, no rendimento intelectual. Essas aqui, então, fo­
ram as suas provas de aptidão. Nós vamos ver agora as
21-A e 22-0 . — As explicações dos re su ltad o s dos te s te s foram ap resen tadas de form a 
dem asiado técnica . T erm os como ‘'p e rc e n til” , “p ad ron ização", “popu­
lação g e ra l” d ific ilm en te serão com preendidos de form a adequada pelo 
O rien tando .
152
23
24 
24
25
25
26
26
27
27-0 .
provas de interesses. Você fez duas provas de interesses. 
Bem, essas provas de interesses revelaram as seguintes pre- 
dominâncias: acima da média estão os interesses por ativi­
dades administrativas auxiliares, quer dizer, trabalho de es­
critório em geral. Também estão ligeiramente acima da 
média, normais, os interesses por trabalho manual-técnico, 
trabalho técnico, trabalho que envolva também mecânica e 
cálculos, sendo que, na média, nós temos aqui a música, 
artes plásticas, atividades persuasivas e atividades científicas; 
e você tem interesses em menor escala, quer dizer, está abai­
xo do normal, em atividade social, literatura e trabalho ao 
ar livre é o que você menos gosta. Essa outra prova confir­
mou esses interesses que você revelou, aqui confirmou essa 
predominância por trabalho manual-técnico, por cálculo e 
administração, e aqui você demonstrou também uma certa 
predominância por interesse científico, por atividade cientí­
fica; revelou também interesse por atividade assistencial, 
quer dizer atividade que envolva ajuda a pessoas. Portanto, 
do ponto de vista de interesses, os seus estão bem estrutu­
rados. Os seus interesses estão voltados para essas áreas: 
trabalhos técnicos, que envolvam cálculo e que envolvam 
também atividades de escritório, e, de certa maneira, ativi­
dade administrativa. Estão bem estruturados nesse sentido. 
Agora, no que diz respeito à sua personalidade, não há con­
tra-indicação profissional; é uma personalidade normal, no 
momento com algumas dificuldades de que nós vamos falar 
depois. Também o exame médico não acusa nenhuma anor­
malidade a não ser a necessidade de você fazer uma dieto- 
terapia. Você me disse que tem essa dificuldade, não é? 
Come demais, e tem dificuldade de digestão.
A. — É. Justamente.
O. — Interessante.
A. — Como bastante, mas não engordo, sempre fui assim; aliás, 
eu era gordo, sabe? Mas, aos seis anos eu tive coqueluche 
e nunca m ais...
O. — ...Emagreceu?
A. — Emagrecí e fiquei assim até hoje.
O. — É, às vezes um pequeno distúrbio glandular pode provocar 
isso. (Pausa.) Bom, agora vamos ver as suas idéias a res­
peito das profissões que você escolheu, considerando esses 
resultados das suas provas. Quais são as suas conclusões?
A. — O mais adequado mesmo é a Engenharia e é o que eu tenho 
mais vontade; a Arquitetura eu coloquei em segundo plano, 
a Economia também; acho melhor a Engenharia.
O. — Quer dizer que você prefere a Engenharia e você acha que 
os testes não a contra-indicam. Realmente aqui nos seus tes-
T eria s ido m ais adequado se a O rien tado ra tivesse dado oportun idade ao 
O rien tando pa ra e lab o ra r m elhor as conclusões in ic iadas na 26-A.
153
tes de aptidão há maior predominância para essa atividade. 
Os interesses também estão voltados para trabalhos técnicos, 
que envolvem cálculo e trabalho de escritório. De certa ma­
neira a Engenharia, principalmente a Engenharia civil, esta­
ria bem dentro desses interesses. Mas a Economia não esta­
ria contra-indicada. A Economia tamém é um trabalho ad­
ministrativo, trabalho de escritório; não é administrativo 
propriamente dito, mas é um trabalho de escritório; poderá 
ser também administrativo (a administração é uma especia­
lidade dentro do curso de Economia) e é um trabalho que 
envolve também cálculos que o economista muito utiliza e 
Matemática; realiza pesquisas e emprega, muitas vezes, a 
Matemática; faz cálculos; estaria dentro dos seus interesses 
também. E a Arquitetura não é contra-indicada, quer dizer, 
você não tem nenhuma cacaracterística que a contra-indi­
que: você tem suficiente raciocínio espacial, tem suficiente 
aptidão geral, tem também alguma aptidão artística; porém 
não é o seu campo predominante de interesses. Aqui, com 
relação a esses planos profissionais, seria interessante talvez 
nós fazermos uma observação: é que há uma certa situação 
de conflito, pelo que me parece, no seu ajustamento fami­
liar. Pelo que você nos disse, pelo que revela nas suas pro­
vas, existe uma situação de certa coerção, você se sente um 
pouco coagido no seu ambiente familiar, se sente um pouco 
restringido naquilo que você deseja, inclusive até mesmo eco­
nomicamente. Para você, nessa época é muito importante 
certa independência, não é?
27 — A. — Justamente.
28 — O. — Você, pelo que nos disse, cogitava fazer concurso para
o Banco M. a fim de poder ganhar logo o seu dinheiro, 
comprar carro....
28 — A. — Mas aí, a parte financeira... não é bem a parte financei­
r a . . . é o seguinte: é a liberdade, não é, D. Léia? Eu sou 
rapaz, eu gostaria de ter um carro. Um dia eu vou casar 
mesmo e eu quero casar satisfeito, tendo aproveitado a mi­
nha vida bastante. Só assim eu vou encontrar a felicidade. 
Fora disso, eu acho que não encontro. Um homem que não 
goza a vida não pode ser um homem feliz.
29 — O. — É, compreendo. Quer dizer: você sente a necessidade de
certa liberdade a fim de que possa aproveitar mais a vida. 
Assim como está agora você não sente que está aproveitan­
do muito a vida. Você está num colégio que tem uma si­
tuação de muita severidade, é um colégio muito severo, rí­
gido, de disciplina. Em casa também a situação é de coer­
ção, de pouca liberdade, uma situação, assim, de você não 
se sentir muito à vontade frente a seu pai; embora faça for­
ça para isso, há uma barreira.
29 — A. — Ele mesmo quer chegar a nós mas não é possível.
30 — O. — Ele mesmo criou essa barreira.
154
30 — A. — Eu não sei se isso tudo é falta de confiança dele; não com­
preendo.
31 — O. — Você acha que ele talvez pense que você não está habilitado
ainda a gozar essa liberdade de maneira sensata. É isso?
31 — A. — Eu não sei, eu acho que ele vai causar-me prejuízo, eu vou
prejudicar-me com isso, eu vou abandonar meus estudos; é 
isso que ele quer. Eu acho que assim não há incentivo. A 
hora que for pro estudo eu vou estudar e a outra hora eu 
aproveito bastante, brinco.
32— O. — Acha que você precisa ter liberdade para fazer sua escolha;
quando você quer estudar e quando você quer passear.
32 — A. — Aí eu divido meu tempo, eu mesmo.
33 — O. — Você acha que tem direito de poder utilizar o seu tempo.
33 — A. — Eu tenho um irmão com 21 anos, vai fazer 22, e é a mes­
ma coisa. Agora mesmo tiramos carteira de motorista e 
não pegamos no carro dele, pois diz que não sabemos 
dirigir; não empresta, e nós deixamos pra lá, não tocamos 
mais no assunto porque não adianta.
34 — O. — Foi uma decepção para você.
34 — A. — Foi uma decepção porque ele dizia tanto que emprestava o
carro pra nós, que não sei q u ê ... Podia emprestar o carro 
no fim de semana junto com nossos amigos, independente 
deles. Âs vezes eles vão de carro e querem levar-nos e a 
mamãe não fica descansada. Eles têm que ver isso: nós já 
somos rapazes.
35 — O. — Prendem demais vocês.
35 — A. — Eles prendem demais.
36 — O. — Você também já se sente muito preso no colégio, não é?
36 — A. — Em casa não, porque eu ando o dia inteiro na rua, a Sra.
sabe como é. Eu quero ter a liberdade d e ... quero sair, ir 
a um lugar longe, chegar mais tarde e a gente fica naquela 
coisa da mamãe ficar preocupada; a mamãe não gosta se a 
gente chega às quatro ou cinco horas em casa, ela não gos­
ta. Se a gente for à praia (não só eu, como os outros tam­
bém) ela não fica descansada em casa, com medo de brin­
cadeira de colegas, é aquela falta de confiança.
37 — O. — Ela acha que vocês não são capazes mesmo de se cuidarem,
ela vê vocês como se fossem criancinhas, não vê como ra­
pazes de 18 anos.
37família um pouco
mais, não é?
48 — A. — Vai continuar a mesma coisa. (Pausa.) Mas terei de fazer
o sacrifício.
49 — O. — Seria um pouco mais de tem po...
49 — A. — Seria um pouco mais de tem po...
50 — O. — Mas, talvez, quando você estivesse aí no terceiro ano, um
pouco mais adiantado, pudesse arranjar um trabalho. Ha­
vería possibilidade de trabalho. Pelo que você revela nas 
provas, esse aspecto é muito importante para você. Você 
viveu todos esses anos reprimido. Tem-se reprimido em 
casa, tem-se reprimido no colégio, sem possibilidade tam­
bém de se expandir socialmente. É isso a que você se refere 
no questionário, esses problemas sobre que já conversamos 
na outra entrevista; esses problemas de desinteresse nos es­
tudos, problemas com os seus pais m esmo... você não tem 
atividade social, não tem um ânimo mesmo, não é? Fica 
cansado... Tudo isso está ligado a essa repressão que você 
vem enfrentando durante todos esses anos. (Pausa.)
50 — A. — Tenho que estudar, não é? Eu tenho a impressão que con­
versando lá em casa não adianta. Todos são da mesma 
opinião. Ter de estudar... (Pausa longaj Por mim eu 
trabalhava, fazia Economia, mas pelo menos a minha vida 
eu gozava.
51 — O. — Sei. Quer dizer que, dependendo de uma escolha sua, so­
mente sua, você faria mesmo Economia.
51 — A. — É. Faria Economia. Engenharia eu gosto demais. Tenho
muita vontade? Mas não pode se r ... A Engenharia (pau­
sa) quer dizer, a Economia vai ser melhor porque aí eu con­
sigo a minha independência.
52 — O. — É.
52 — A. — Mas, já na Engenharia, não. A Sra. vê, com seis anos de
Engenharia, mais ou m enos...
53 — O. — Cinco anos.
53 — A. — Cinco, não é? Vestibular e tal, eu tenho 19 anos, daqui a
seis anos... a Sra. já viu, não é? São 25 anos. (Ri.)
54 — O. — (Ri.) É. Está achando que é muito tempo. Você ainda tem
muitos anos aí pela frente e não sabe se vai tolerar isso. 
Mas você vai ter possibilidade de arranjar emprego quando 
estiver um pouco mais adiantado, não é?
158
54 — A. — O emprego não é tudo. Eu quero é minha liberdade.
55 — O. — Hum, hum.
55 — A. — Posso dar duro, não é?
56 — O. — Para ser livre?
56 — A. — Eu quero ser livre.
57 — O. — Realmente, isso parece ser muito importante para você. Por
essa razão é que eu quis chamar a sua atenção sobre esse as­
pecto positivo da Economia. Mas, por outro lado, você fica 
numa situação de conflito. Porque você sente que seus pais 
não vão aceitar essa sua idéia de fazer concurso para o Ban­
co M. e fazer Economia.
57 — A. — É. Mas a í . . . o que pode acontecer é isso aí resultar numa
discussão, num conflito.
58 — O. — Bem. Você acha que não valeria a pena...
58 — A. — De vez em quando eu tenho cada idéia... de sair de casa,
ir ser motorista de ônibus. (Ri.) Ter liberdade... Mas 
não pode ser, não? Coisas absurdas. . .
59 — O. — (Ri.) Coisas absurdas, não é? Ter liberdade...
59 — A. — É. coisas absurdas.
60 — O. — Mas o plano do Banco M. não é um aburdo. É um plano
possível, de ser posto em prática, não é? Não é como a 
idéia de ser m otorista... uma coisa irrealista. É um plano 
realista. Vai haver concurso /e você pode perfeitamente fa­
zer concurso, sem dúvida.
60 — A. — Então a Sr.“ acha que eu trabalhando e estudando Engenha­
ria é possível?
61 — O. — Como assim? Estudar e trabalhar?
61 — A. — Estudar e trabalhar.
62 — O. — Engenharia?
62 — A. — Engenharia.
63 — O. — Você quer saber o que eu penso sobre isso? Bom. A minha
opinião é que, naturalmente, a Engenharia exige mais dedi­
cação ao estudo. Porque, por exemplo, ò curso de Economia 
você poderia fazer até à noite. Agora, isso não impede, pois 
há muita gente que faz o curso de Engenharia e, talvez não 
no primeiro ano, mas no terceiro ano pode arranjar um tra­
balho, não é? Talvez um trabalho de meio tempo, não é? 
Como seria o trabalho no Banco M.
63 — A. — Eu digo o Banco M., como exemplo,.
64 — O. — É. O Banco M., naturalmente, é um trabalho que exige de­
dicação maior, porque talvez fosse mais difícil você fazer 
Engenharia e trabalhar no Banco M. Não sei se seria im­
possível. Isso só você mesmo é que poderia saber, não é? 
Só você mesmo fazendo uma tentativa. Talvez fosse possí­
vel, não sei. Agora, sem dúvida alguma, a Economia — você
60-0 . e 6 1 -0 . — P ercebe-se que a O rien tad o ra p rocura ganhar tem po antes de se decid ir 
a d a r a sua opin ião pessoal.
159
81 — O. — Você compreendeu a diferença que existe entre o raciocínio 
verbal é a ortografia e a sintaxe...
81 — A. — Compreendí.
82 — 0. — Alguma outra dúvida que você gostaria de esclarecer?
82 — A. — Não., Creio que não.
83 — O. — Tudo claro?
83 — A. — Tudo claro.
84 — O. — Fazendo um resumo, as suas aptidões estão classificadas na
média e acima da média, com predominância do raciocínio 
espacial, rapidez e prática e conhecimento da língua portu­
guesa. As suas aptidões artísticas estão na média. Os inte­
resses estão voltados...
. 84 — A. — (Cortando.) E sobre a Geologia, não está incluída na En­
genharia?
85 — O. — Bom,, a Geologia é uma atividade principalmente científica.
Seu interesse científico não está ausente mas não é um in­
teresse predominante. Você não estaria contra-indicado para 
Geologia, mas a Geologia também seria um trabalho mais 
de ar livre, não é? E você não gosta muito. Gosta muito 
mais de trabalho de escritório. Talvez não seja esse o cam­
po mais interessante para você. Embora sob o ponto de vis­
ta de capacidade intelectual você pudesse fazer. Mas talvez 
não seja o campo de maior interesse, não é? Seria talvez 
uma quarta escolha. (Pausa.) Bom. Então os seus interes­
ses estão voltados para essas atividades: trabalho manual, 
técnico, cálculo, atividades de escritório e também, em me­
nor escala, por atividades científicas que envolvem esses as­
pectos. E, sob o ponto de vista de personalidade, você se 
revelou normal, embora com personalidade fina, sensível, en­
contrando certas dificuldades, no momento, devido a pres­
sões a que você vem sendo submetido e, naturalmente, liga­
das a certas indecisões, certa insatisfação que você já men- 
- cionou na entrevista comigo. Exame médico também; não 
há nenhum estado patológico registrado, a não ser a necessi­
dade, segundo o médico, de fazer uma dieta para aumentar 
o peso.
85 — A. — (Ri.) O peso?
86 — O. — Você está abaixo da tabela para sua altura. (Pausa.) Por­
tanto, há essa possibilidade de você fazer Engenharia e Eco­
nomia — ambas estão dentro de seus interesses e suas apti­
dões. Arquitetura não estaria contra-indicada e tampouco 
Geologia, embora venham em segundo plano. Tudo certo?
86 — A. — Tudo certo.
87 — O. — Agora é uma questão de você refletir. Tempo você ainda
tem para decidir a questão da sua escolha, não é?
87 — A. — Inda falta um pouquinho até lá, não é?
83-0 . — P ergun ta que induz a uma resposta con firm ativa .
162
88 — 
88 — 
89 —
89 —
90 —
90 —
91 —
91 —
92 —
92 —
93 —
93 —
94 —
O. — E você pode adiar a sua escolha. (Ri.)
A. — É. (Ri.) (Pausa.)
O. — Você não tem certeza agora de coisa alguma, não é?
A. — É. (Pausa.)
O. — Agora seria difícil decidir, não?
A. — Quando chegar a ocasião...
O. — Hum hum. Acha que agora está muito difícil de fazer...
A. — (Cortando.) Acho que agora está muito difícil.
O. — Deixar amadurecer um pouco, não? Mas, se nesse meio 
tempo você quiser voltar aqui para conversar comigo outra 
vez, tiver alguma dúvida, sentir que essa dúvida está muito 
intensa, quiser conversar um pouco comigo para desabafar 
ou, pelo menos, procurar ver as coisas mais objetivamente, 
não hesite; você pode telefonar e eu marco uma hora. Es­
tarei aqui sempre à sua disposição. Essa entrevista não quer 
dizer que foi terminada a sua orientação. Terminada nesta 
parte. Seus testes ficarão arquivados e qualquer dúvida que 
você tenha e quiser voltar para outra entrevista., marcarei 
uma hora.
A. — (Pausa longa.)
O. — Então terminamos. E, você já sabe? Conversaremos outra 
vez quando você precisar.
A. — Muito obrigado. Até logo.
O. — Até logo. Felicidades.
CASO DE HELENA
Idade— 25 anos.
Estado Civil — Solteira.
Motivo da consulta — Orientação profissional e conhecer melhor a 
sua personalidade.
Nível de escolaridade — Superior.
Preferências profissionais — Serviço Social, Escritora, Psicanalista. 
Profissão atual — Funcionária administrativa.
Situação familiar — Pai funcionário público, falecido. Mãe domésti­
ca. Irmão, 20 anos, trabalha em escritório. A Orientanda sempre teve di­
ficuldades nas relações com os pais.
Provas a que se submeteu — Questionário, Entrevista para coleta de 
dados, Psicodiagnóstico Miocinético, Rorschach, Provas de Aptidão Ar­
tística, Registro de preferências Kuder, Exame Médico, Prova de Aptidão 
Intelectual.
O. — Orientadora 
H. — Helena
1 — O. — Esteja à vontade, pode falar um pouco mais próximo do mi­
crofone. Se a Sr." não se sentir à vontade é preferível inter-
l-O . — M uito bem estru tu rad o o in íc io da en trev is ta , em face da g ravação que se iria 
efe tuar.
romper; qualquer coisa que a Sr." não queira comunicar en­
quanto está gravando, nós interromperemos. Tanto para a 
Sr." como para mim, este não é um aspecto agradável, tira 
um pouco da espontaneidade. (Pausa.)
1 — H. — Posso fazer uma pergunta? O exame médico feito pelo Ins­
tituto H. é um exame chamado Sheldon?
2 — O. — O exame médico inclui aspectos, numa ficha fisiossomática,
à base da classificação de Sheldon.
2 — H. — Eu acho muito importante, uma vez que há uma incoerên­
cia, às vezes, entre a inclinação espiritual de uma pessoa 
para determinada profissão e a impossibilidade física; eu, 
por exemplo, sempre estou orientando as amigas e as moças 
que estão ao redor e isso, para mim é um prazer; mas, acon­
tece que eu noto, como eu sou introvertida de base, ou in- 
tratensiva — como se chama —, eu noto que me desgasto, 
quer dizer, a parte física se ressente, o espírito fica satisfeito, 
mas eu sou muito emotiva.
3 — O. — Sei, a Sr.n está querendo saber se há uma correspondência
entre o seu aspecto físico e o seu aspecto mental, emocional.
3 — H. — Não, não é se há correspondência; eu sei que não há; agora,
eu lhe pergunto se foi considerada, na análise do meu caso, 
essa disparidade de reações. Quando eu fiz um Curso de 
Relações Humanas de quatro meses, o Dr. L. é quem fazia 
o Sheldon nos candidatos, e então nós, como alunos, sabía­
mos do laudo dele e muitas vezes ele punha assim: reações 
lentas, reações rápidas, trabalho de rotina, trabalho de va­
riação; mostrava como cada pessoa dava para um tipo de 
trabalho, de acordo com a sua inclinação e suas exigências 
físicas. Então, eu estive pensando: será que eu fui bem 
clara nesse ponto também ou será que meu exame físico foi 
suficiente para isso, para me indicar uma profissão que eu 
até gosto de praticar, mas que seja um tipo de desgaste?
4 — O. — Então a sua preocupação seria se o seu exame médico, exa­
me físico, a sua classificação biotipológica, estaria em de­
sacordo com as suas pretensões e o seu tipo e os trabalhos 
a realizar; é esse o problema que a Sr." quer apresentar?
4 — H. — Não só se está em desacordo como se foi considerado esse
desacordo.
5 — O. — O resultado do exame médico da Sr.", nesse sentido de uma
classificação biotipológica, indica estar classificada normal­
mente. Não há uma disparidade quanto ao aspecto biotipo- 
lógico; o seu biótipo está perfeitamente de acordo com as 
características de temperamento, caracterológicas e suas aspi­
rações, o tipo de trabalho mais adequado; não há uma dis­
paridade nesse sentido, não há uma contra-indicação refe­
rente ao aspecto intelectual, psíquico, abstrato, nesse tipo de
3 -0 . — A O rien tado ra perdeu a oportun idade de c la rific a r v ivênc ia em ocional da O rien ­
tanda, detendo-se apenas no conteúdo fa tua l.
164
trabalho que depende do biótipo; no exame médico da Sr.\ 
o aspecto importante é do seu problema do diabetes. 
Mas, isso a Sr." já sabe, já tem conhecimento, já conhece 
as devidas providências de tratamento, é um aspecto que 
apenas comentamos, mas não é um aspecto de novidade para 
a Sr.". Quanto ao aspecto do exame médico, nós não temos
nada a comentar. Dentro do exame médico, o que nós co­
mentaremos serão problemas de outra ordem; problemas de 
ordem emocional, nós vamos tratar mais adiante, quando 
estivermos focalizando as características da personalidade.
5 — H. — Será relacionado, não é?
6 — O. — É. Considerando que nós estamos nesse aspecto de adequa­
ção de trabalho, quero comunicar que acho que o curso que 
a Sr." está fazendo, de Orientadores Educacionais, realmente 
é um curso muito bem adequado para a Sr".; não só o cur­
so é adequado, mas, também, há o aspecto do valor que a 
Sr.“ apresenta e que para uma atividade dessas, realmente, há 
uma necessidade de pessoas com as possibilidades que tem. 
Não estou vendo só o aspecto da Sr." se beneficiar do cur­
so, que é realmente bem adequado, mas também a atividade 
do educador, do orientador educacional; essa posição numa 
instituição, num colégio requer, em larga escala, uma pes­
soa com as condições que a Sr." tem-, com as possibilidades 
que poderá ter, de trabalhar nesse ramo. (Pausa.) Quer di­
zer, a Sr." realmente escolheu bem.
6 — H. — Posso fazer uma pergunta? Não sei se quando o Instituto
H. faz a indicação de uma profissão, assim como a Sr." aca­
ba de fazer, o candidato tem direito de perguntar: suponha­
mos que, por uma análise errada, ou por um problema do 
passado,, a pessoa não se sinta com a devida disposição, en­
tusiasmo, para a profissão indicada; então eu queria inter­
rogar: qual seria a segunda profissão?
7 — O. — Uma outra possibilidade, não é? Quais os campos de ativi­
dade? Então vamos tocar aqui nos campos de atividades 
adequadas para a Sr.". Será o campo de uma atividade assis- 
tencial, de contato com pessoas, visando à assistência ou 
mesmo psicoterapia de apoio; uma atividade dessa natureza.
7 — H. — Quer dizer de contato com pessoas.
8 — O. — É; contato com pessoas, mas nesse sentido assisténcial.
8 — H. — Assim sendo, uma profissão, como seja a de jornalista, que,
digamos assim, por certa característica, me agradaria porque 
eu gosto muito de escrever, já faria com que eu perdesse...
9 — O. — ...esse aspecto... não é?
(j - O . — A O rien tado ra não ap resen ta os elem entos em que se baseou para a indicação 
p rofissional.
7-0 . — Não obstan te a O rien tanda te r declarado suas d ificu ldades em se re lac ionar com 
as pessoas, a O rien tado ra indica-lhe p rofissão ass is ténc ia l, todavia sem explicar 
em que elem entos ob jetivos se baseou para a sua indicação.
165
9 — H.
10 — O.
10 — H.
1 1 — 0 . 
11 — H.
12 — O.
12 — H.
13 — O.
13 — H.
14 — O.
14 — H.
— Certas posições para beneficiar diretamente as pessoas, não 
é? É isso que a Sr.“ quer dizer? Nesse caso, o jornalismo 
está num plano de menor rendimento...
— . ..d e menor aproveitamento dessa característica sua, assis- 
tencial, de contato direto. Realmente, não no jornalismo, 
mas na atividade literária, a Sr.11 poderá produzir, quer dizer, 
a sua possibilidade de escrever pode ser aproveitada mesmo 
dentro de uma atividade assisténcial. Há possibilidade de 
criar mesmo nesse sentido de uma atividade escrita. Em vez 
de fazer jornalismo, dentro da atividade assisténcial a Sr.1 
pode escrever.
— Sei, são opiniões, são comentários que poderão beneficiar 
outrem.
— Exato.
— Agora, eu lhe digo o seguinte: eu fiz essa pergunta porque 
tenho, hoje em dia, uma espécie de aversão à escola; gosto 
muito de crianças, mas se elas não estivessem na escola me 
sentiría muito melhor em lidar com elas; não sei se porque 
na Escola D.O., quando eu tinha 16 anos, a Diretoria me 
tratou assim, eu estava muito traumatizada e me tratou com 
certa incompreensão, isso não sei se porque eu era adoles­
cente, fui ensinar e uma vez eu errei lá na correção de um 
problema, assim em público; era um exame oral, não sei se 
também porque eu era vaidosa, não sei; dizem que eu era 
muito boa pessoa, responsável, tudo isso, esforçada, masacontece que gosto de crianças, mas esse negócio de escola, 
secretaria... só pelo fato de a orientação educacional se rea­
lizar em escola, não serve; agora, o trabalho em si, fazer o 
bem em relação à formação dos adolescentes, de orientá-los 
para a vida, essa parte me interessa.
— Talvez a Sr." consiga resolver as dificuldades que traz o con- • 
tato com a escola, pois a sua posição como orientadora edu­
cacional é bem diferente... é uma posição bastante dife­
rente.
— Já sei, a Sr." quer dizer no setor da assistência, não é?
— É. O caráter do trabalho é bem diferente e a Sr.11 com o 
curso completo, nessa atmosfera da orientação educacional, 
provavelmente terá melhores condições para trabalhar nesse 
sentido da orientação, mais do que na posição de profes­
sora.
— Ou de inspetora...
— É . .. Mas, isso são condições que a sua experiência no cur­
so, a sua posição através do curso e a sua experiência pes­
soal, poderão ajudar.
— Porque... outra coisa também é a primeira pergunta que eu 
lhe fiz: - que sendo eu uma pessoa que, com facilidade, se 
desgasta no contato com as pessoas, pelo fato de que falar
166
me abate fisicamente... sinto que é porque eu sou intra- 
tensiva, então reajo de uma maneira diferente, extratensiva- 
mente; não há, portanto, uma coerência entre constituição e 
reação. Eu aí fico em dúvida: será que eu nasci mesmo 
para dar assistência e eu faria o bem, como a Sra. falou, es­
crevendo? Escrevendo, eu diria o mesmo que poderia dizer 
sem. . .
15 — O. — ...sem contato.
15 — H. — É, isso; eu acho interessante o que a S r/ disse.
16 — O. — Bom; isso depende duma condição de problemática da Sr.",
e nós vamos tocar, mais adiante, nesse sentido, vamos vol­
tar a esse problema quando surgir oportunidade. Bem, ou­
tra atividade que estaria dentro das suas possibilidades seria 
a psicologia clínica, trabalhar numa instituição de assistên­
cia, clínica psicoterápica, e há uma possibilidade também 
relativa à atividade pessoal do psicólogo clínico, a terapêu­
tica psicoterápica. Parece-me que, no momento, não há um 
grande campo para os psicólogos... mas no momento mes­
mo, parece-me que existem psicólogos fazendo clínica.
16 — H. — Hum hum.
17 — O. — Além disso, a própria formação do psicoterapeuta exige con­
dições que não são condições rígidas, mas que limitam um 
pouco as possibilidades para psicólogos. (Pausa.) Bem, isso 
é quanto ao aspecto da atividade profissional.
17 — H. — D r.\ uma coisa eu quero lhe perguntar: eu lhe falei que se 
o Instituto H. me indicasse uma profissão eu faria um es­
forço pará que essa profissão indicada fosse praticada por 
mim; por esse teste pode-se tirar a conclusão de que eu não 
dou para a Medicina?
18 — O. — Não; nós não temos elementos para tirar conclusão de que 
para a Medicina a Sr." não dá. Uma conclusão dessa cate­
goria, assim de afirmativas, seja para eliminar ou indi­
car, eu só teria com relação a um ramo, por exemplo, da 
atividade técnica, um ramo de atividade em escritório e con­
tabilidade comercial. Essas que estou citando, eu realmente 
tenho elementos para, positivamente, contra-indicar; no cam­
po assisténcial, eu tenho elementos para indicar. E Medici­
na está realmente dentro desse campo assisténcial.
18 — H. — Eu perguntei, genericamente, se a Medicina está contra-in­
dicada para mim porque ela, apesar de ser assisténcial, há 
um aspecto dela que não me agrada muito: o ter que lidar 
assim com doentes, às vezes de aspecto constrangedor e não 
só isso como também sangue, que não está muito de acordo 
com a sensibilidade que possuo; mas, como pode ser que eu 
esteja enganada sobre isso e como me encanta muito a pro-
16-0. — A O rien tad o ra não a ten tou pa ra o conteúdo em ocional expresso pela O rien tanda 
na re sposta 14 — H ., p referindo p rossegu ir na indicação p rofissional.
167
fissão de médica e há quem diga que eu tenha vocação, foi 
por isso que eu perguntei.
19 — O. — Eu acho que a Sr.tt tem condições, características, condições 
pessoais, personalidade, aptidões, interesses, tudo isso, dentro 
das possibilidades da Medicina; nada contra-indica a Medi­
cina. Só suponho que o seu interesse pela Medicina, acre­
dito, esteja ligado mais à psiquiatria e à psicanálise.
19 — H. — Agora, o que a pessoa tem de fazer é passar pela mesma...
20 — O. — ...exatamente, a Sr.'1 iria para o curso médico já com de­
terminado objetivo.
20 — H. — Não, eu digo é o seguinte: a parte negativa da formatura
em Medicina é que o aluno tem que passar pelas mes­
mas provas que um aluno que escolhesse cirurgia.
21 — O. — Exatamente; só que, apesar de haver uma especialização, o
curso inteiro é necessário. Acredito que talvez uma meia dú­
zia de cadeiras não, mas o todo é importante. A própria 
formação médica inclui um número grande de matérias que 
não são usadas na prática pelos que se especializam em de­
terminado ramo, mas é importante em si. Agora, nesse sen­
tido, o seu interesse pela psicoterapia para ser psicoterapeu- 
ta, eu vejo isso: o seu interesse para fazer Medicina está 
meio ligado a esse seu interesse em fazer psicoterapia. En­
tão, quanto à Medicina não há nada contra-indicado. (Pau­
sa.) Agora, o que eu pude observar também aqui, num dos 
testes seus, é o aspecto do seú interesse pelas artes: a mú­
sica, artes plásticas... há um interesse bem acentuado nesse 
ramo; parece-me que a Sr.'1, na sua situação atual, procura 
libertar-se de alguma coisa através de uma atividade artís­
tica, através de uma satisfação artística.
21 — H. — Eu tenho a impressão...
22 — O. — . . . a impressão mais nesse sentido de se libertar do que pro­
priamente um interesse profissional. Quer dizer, não é só o 
interesse profissional em jogo que deu esse resultado assim 
intenso para artes; parece-me que é mais um outro interesse.
22 — H. — Eu tenho a impressão (a Sr." é quem melhor julga) de que
profissional não é de maneira alguma, porque eu não me in­
clino de modo nenhum a lecionar coisa nenhuma em maté­
ria de arte; apenas eu, desde menina, gostava muito de 
piano e tive a vocação contrariada porque tive que suspen­
der meus estudos. Agora, hoje em dia, suponho que seja 
uma inclinação natural, muita sensibilidade para apreciar.
23 — O. — Exatamente; isso está dependendo apenas de características
da sua personalidade, da sua sensibilidade.
23 — H. — A Sr." tem razão.
19- 0 . — A expressão “eu acho” , empre.gada pela O rien tado ra , pode im p licar num a ind i­
cação p rofissional baseada em elem entos sub jetivos.
20- 0 . e 22-0. — A in te rrupção das respostas da O rien tanda im pede que esta expresse
seu pensamento.
168
24 — O. — Agora, quanto ao aspecto da sua aptidão artística, que nós 
investigamos aqui, para a música, vamos supor, eu não sei 
qual foi a sua experiência dentro da música, mas através de 
teste musical, a sua aptidão seria classificada em termos mé­
dios; essa seria a sua situação de aptidão. (Pausa.) Vamos 
ver o aspecto de sua aptidão intelectual; aspectos bem agra­
dáveis, uma vez que a Sr." é uma pessoa bem dotada quanto 
à aptidão intelectual; essa aptidão intelectual da Sr.1, numa 
classificação médio-superior ou superior, significa uma boa 
dotação intelectual; a Sr." é uma pessoa capaz, com grande 
potencial de trabalho intelectual, tem boas condições para 
progredir no seu trabalho, para realizar com bastante efi­
ciência aquilo que a Sr." empreender. (Pausa.) Bem, vamos 
agora ao aspecto dos problemas levantados aqui. Bom, o 
primeiro eu achei um tanto estranho, esse questionário 
seu ... (Mostra o questionário.)
24 — H. — É? Por quê?
25 — O. -— A forma de apresentação um tanto estranha...
25 — H. — Quanto à variedade das dúvidas que eu apresentava? A re­
petição?
26 — O. — Por que a variação de tintas, qual o sentido?
26 — H. — Não tem outro sentido, não. (Passa a falar muito rápido.)
Foi porque na hora falhou o lápis-tinta azul e eu tive que 
lançar mão do vermelho; entende? Eu ando com vários lá­
pis na bolsa porque sempre estou escrevendo, onde euchego 
estou escrevendo e aí, olhe aqui (mostra o lápis); uso outro.
27 — O. — A Sr." então anda com uma série de lápis na bolsa?
27 — H. — Sim, eu tenho quatro aulas particulares, estudo; se um fa­
lhar, tenho outro; não gosto de estar pedindo emprestado 
sem necessidade.
28 — O. — Então, exatamente. Esse dado aqui, da sua tinta, revela sua
característica de estar munida, uma pessoa que está como se 
tivesse um arsenal.
28 — H. — Eu antigamente só andava com uma caneta. Há pouco tem­
po é que fiz isso porquê também gosto de destacar os temas 
principais de um estudo, de uma análise e então eu uso vá­
rias cores para dar mais facilidade ao estudo. A variedade 
das cores é para isso. Agora, quanto a minúcias, a repeti­
ções, a dúvidas, isso é a minha insegurança, de não ter sido 
bem clara, de ter-me esquecido de alguma coisa.
29 — O. — Isso são coisas que estão bem dentro de sua dificuldade emo­
cional. ..
29 — H. — .. .para que me entendam m elhor...
30 — O. — .. .de sua problemática emocional, de uma posição, vamos
falar assim, sempre em dois sentidos; quer, não quer; vai, 
não vai; entende, não entende; faço isso, faço aquilo; não
24-0 . — A ap resen tação dos re su ltados dos te stes é rea lizada de m aneira vaga e super­
ficial.
28-0. — Trata-se de resposta interpretatjva que a Orientanda rejeita logo a seguir.
169
faço, faço; quer dizer, esse aspecto bastante problemático da 
sua situação, é assim uma posição que a Sr.“ toma em qual­
quer circunstância, sempre levando consigo essa situação am­
bígua, ambivalente: acabo, não acabo; vai, não vai; sempre 
em duplo sentido. Esse é um aspecto bastante difícil, bem 
sério no sentido das suas condições emocionais, só isso já 
estaria como üm sinal para nós indicarmos realmente um 
tratamento psicanalítico. A sua produção poderia ser bem 
maior se não houvesse esse impacto, esse interchoque de for­
ças, quando realiza alguma coisa.
3 0 — H. — De dúvida, não é? (Pausa.)
31 — O. — De maneira que a sua aspiração, que a Sr.* já de início de­
monstrou, de fazer um tratamento psicanalítico, é realmente 
uma indicação que nós fizemos aqui também; a Sr.‘ poderá 
beneficiar-se muito. Considerando a sua situação, a sua pes­
soa, eu acho que está bem indicado um tratamento psicana­
lítico.
31 — H. — Uma coisa que eu acho interessante. D r.\ até na escolha, na
precisão de fazer o tratamento psicanalítico, há duas possi­
bilidades: uma é a seguinte: eu vou fazer tratamento psica­
nalítico certa de que ele vai beneficiar-me; agora, eu vou, é 
claro, gastar bastante e então já vem a dúvida de se eu es­
tou cometendo um erro em gastar tanto com uma coisa que 
talvez não seja tão necessária, que eu possa resolver de outra 
maneira, arranjando uma amiga inteligente, compreensiva e 
então eu me sentiría menos segura pela perda do dinheiro, 
se bem que eu gosto do dinheiro não pelo dinheiro, mas o 
fato de sentir que estou gastando excessivamente. . .
32 — O. — Sei, não o gasto da moeda, mas gastar em si, quer dizer,
qualquer coisa, que saia de dentro de si, tem esse aspecto de 
estar gastando; quer dizer a Sr.* estaria sendo desfalcada, 
desalimentada, desnutrida...
32 — H. — É . .. eu poderia conseguir a mesma coisa com uma amiga,
pessoa inteligente, pois, de fato, às vezes há pessoas que, com 
uma palavra inteligente, me beneficiam e eu sou dócil em 
aceitar opinião.
33 — O. — Além desse problema, há o outro que eu acho mais pro­
fundo, que está bem dentro da sua maior problemática, que 
é o problema da Sr." não se permitir ser beneficiada, não se 
permitir receber; é a dificuldade sua em receber; traduzindo 
em palavras, suponhamos que seria assim uma frase: eu não 
posso receber, ou eu não tenho direito a receber, ou eu não 
mereço receber.
33 — H. — A Sr." tem razão porque geralmente eu me sinto muito mais 
segura quando dou do que quando recebo; quando eu recebo, 
aquilo já é uma dívida que eu contraio, fico na necessidade 
de depois pagar com gentileza, com bondade; nesse ponto a 
Sr." está certa. (Pausa.) Agora, em relação ao médico não 
é assim porque aí eu já o encaro de maneira diferente. Se
170
estou dando o que ele me pediu, monetariamente, não lhe 
fico devendo um favor, um benefício; de qualquer maneira, 
o que ele me faça é motivo de agradecimento, mas não será 
um favor tão grande como se fosse uma pessoa que esponta­
neamente estivesse me dando assistência; aí não existe esse 
problema de eu não querer receber; aí é questão do di­
nheiro só.
34 — O. — Esse dinheiro tem outro aspecto, outro sentido. (Pausa.)
34 — H. — O outro é do médico me inspirar segurança; eu já lhe falei
que comecei muito bem e depois achei que ele era frágil e 
terminei.
35 — O. — E a Sr." com sua grande necessidade poderia até desnutri-lo
com o seu grande desejo. (Ri.) (Pausa.) Mas a Sr." real­
mente está necessitada de ser ajudada.
35 — H. — A Sr." analisou que eu tenho essa grande necessidade de re­
ceber, e que, no entanto, já estava achando que eu podia 
dar a e le ...
36 — O. — A Sr.", com essa grande necessidade de receber, para uma
parte sua, estaria desnutrindo aquele que estava dando à Sr.", 
estaria enfraquecendo a pessoa dele. Mas, de qualquer ma­
neira, a Sr." realmente necessita de ser ajudada, beneficiada 
com a psicanálise, não só pela sua necessidade real, pela sua 
"desnutrição”, vamos chamar assim, mas como, também, pela 
sua produtividade, para aproveitar a sua capacidade de tra­
balho.
36 — H. — A Sr." admite que eu vou satisfazer-me pelo processo de tra­
tamento do médico, independente dos meus problemas emo­
cionais.
37 — O. — Admito que haja o elemento da empatia, desse entrosamento,
isso realmente existe, aceitação melhor. É legítimo esse con­
tato de empatia ou não.
37 — H. — Mas, também, há médicos que não estão em condições psi­
cológicas perfeitas; a gente nota que os médicos apresentam 
também certos problemas e também precisam da assistência 
de outro médico mais abalizado do que eles.
38 — O. — Eu sugiro à Sr.n que, no contato que tiver com o psicana­
lista, comunique-lhe esses problemas que está apresentando 
aqui. São elementos bem importantes.
38 — H. — E a Sr.", que é psicóloga e tem experiência nesse terreno, po­
deria dar uma opinião a respeito do médico que eu escolhi, 
Dr. Fulano?
39 — O. — Eu lhe posso dar o endereço.
39 — H. —1 Não, eu tenho. Eu pergunto é se a Sr." conhece, se acha que 
eu acertei em escolher.
35- 0 . — A in te rp re ta ç ão não é ace ita pela O rien tanda (35 — H .).
36- 0 . — O utra in te rp re ta ç ão ba stan te com plexa e in te lec tu a lizad a e que d ific ilm ente
poderia ser com preendida pela O rien tanda .
39-0 . — A O rien tanda p rocura fu g ir a um a resposta d ire ta .
171
40 — O. — Eu acho que a Sr." estará muito bem entregue. Agora, além 
dele, que eu acho que é um grande médico, existem outros 
também. Nesse sentido também eu lhe poderia dar nomes 
de outras pessoas que eu acho que estão em boas condições, 
ou mesmo com ele, com o Dr. Fulano, a Sr." poderá saber, 
caso haja dificuldade de horário. Porque há esse aspecto ob­
jetivo que deve ser levado em conta, para iniciar o seu tra­
tamento o mais rápido possível, dentro das condições de suas 
possibilidades. (Pausa.)
40 — H. — Eu nem sempre sou feliz no meu contato pessoal e então eu
vou fazer uma carta explicando a ele como eu sou cética em 
relação a médicos e como, apesar de pequena no valor e ne­
cessitada, eu não me ajusto com facilidade; então, se ele não 
puder me atender agora, que veja se consegue atender-me de­
pois; mas eu queria que fosse ele. Há uma equipe que tra­
balha com ele, mas eu indo com qualquer médico que traba­
lha com ele já não me sentiria segura.
41 — O. — Pois não; a Sr", tem o direito a lutar e realmente conseguir.
Agora, eu lhe posso fornecer o horário de atendimento que 
ele tem, de contato pessoal; apesar de muito trabalho, ele 
tem horário em que pode ter entrevista, um contato com a 
Sr.". A sua forma de iniciar através de uma carta já está 
dentro dasua dificuldade.
41 — H. — Dificuldade?!
42 — O. — Dificuldade de se aproximar das pessoas...
42 — H. — Dr.", nesse caso eu lhe confesso: eu preferia conversar com
ele.
43 — O. — Ele tem um horário de átender telefonemas para marcar en­
trevista.
43 — H. — É? Eu não sabia disso!
44 — O. — A Sr." tem o telefone dele?
44 — H. — Tenho.
45 — O. — (Dá o horário.) Ele atende ao telefone e a Sr." pode com­
binar com ele.
45 — H. — E agora quero o estímulo da Sr.", pessoal; a Sr." acha que 
seja lá quanto eu precise dispor para pagar ao médico eu 
deva entregar isso sem nenhuma dúvida, desde que eu possa? 
A Sr.'1 acha que compensa? Eu tenho uma pessoa amiga 
muito inteligente, serena, que quando eu estou com ela ou 
quando peço uma opinião eu me sinto tão segura, resolvo 
com facilidade os problemas, desaparecem-me as dúvidas e, 
então, eu fico pensando: talvez eu precise é de uma bengala; 
no caso não seria custoso, mas também não é coisa que se 
vá comprar e as circunstâncias às vezes dissolvem a dificul­
dade. (E H. continuou divagando sobre esse tópico, até 
terminar a sua hora, sem ter-se decidido, completamente, pela 
realização da terapia.)
172
CASO DE CARLOS GUSTAVO
Idade — 20 anos.
Motivo da consulta — Orientação profissional.
Nível de escolaridade — Cursa a 3." série do Curso Científico. 
Preferências profissionais — Psicologia, Jornalismo, Escritor.
Situação familiar — Pai, advogado; mãe, doméstica. Filho único. As 
relações do Orientando com a mãe são pouco satisfatórias.
Provas a que foi submetido — Questionário, Entrevista para coleta de 
dados, Psicodiagnóstico Miocinético, Registro de preferências Kuder, 
DAT, Exame Médico.
O. — Orientador 
C.G. — Carlos Gustavo
1 — O. — Quando você chegou aqui ao Instituto A., Carlos Gus­
tavo, você preencheu para nós esse questionário de orien­
tação profissional.
1 — C.G. — Exato.
2 — O. — Você aqui disse que o motivo de sua vinda seria o de não
sentir definida, em você, a tendência que lhe indicasse o 
futuro profissional e, no final da orientação, ou seja, hoje, 
você espèrava ouvir conselhos baseados nos traços psico­
lógicos em relação à vocação profissional. Na nossa en­
trevista você me indicou, como sendo as profissões de sua 
preferência, aquelas ligadas a serviços sociais, profissões 
de cunho assisténcial e, possivelmente, também, profissões 
literárias, aquelas em que vòcê pudesse escrever alguma 
coisa. Então, para orientá-lo adequadamente, Carlos Gus­
tavo, nós pedimos a você que fizesse aqui conosco testes 
de aptidões e de interesses. A finalidade desses testes foi 
a seguinte: o teste de aptidão nos daria uma medida do 
que você pode fazer intelectualmente, ou seja, nos daria 
informação sobre a sua estrutura intelectual, as suas di­
versas aptidões e os seus tipos predominantes de raciocí­
nio. Com isso nós poderiamos dizer quais os cursos mais 
aconselháveis para você. Essa então seria a dimensão in­
telectual. A outra dimensão, importante para o aconselha­
mento, seria a dimensão de interesses, ou seja, aquilo que 
você gosta de fazer. Nós pesquisamos, através de testes 
de interesses, os seus campos de interesses, isto é, procura­
mos saber, de maneira mais objetiva, o que é que você 
gosta de fazer, para então combinarmos essas duas dimen­
sões: aquilo que você pode fazer, intelectualmente, com 
aquilo que você gosta de fazer, para podermos apontar os 
campos profissionais mais indicados para você. Foram
2 -0 . — O O rien tad o r e s tru tu ra de form a adequada, em bora p ro lixa, a com unicação dos 
re su ltados dos te s te s , no sen tido de fornecer ao O rien tando um conhecim ento 
-o b je tiv o de suas ap tidões e re lac ionando-as aos cam pos p rofissionais.
aqueles sete testes que você fez ali na sala 309. A finali­
dade deste teste de aptidões, Carlos Gustavo, é a de me­
dir os seus tipos predominantes de raciocínio. É como se 
cada uma dessas aptidões aqui fosse inteligência separada. 
O teste mediu, então, o seu raciocínio verbal; é aquele em 
que você usa palavras para raciocinar, em que você racio­
cina com palavras. Mediu a sua habilidade numérica, que 
é o raciocínio que utiliza números. O indivíduo pensa so­
mente em termos de números. Mediu o seu raciocínio 
abstrato, que é aquele que não envolve nem palavras nem 
números, mas sim relações — simples relações — de causa 
e efeito etc. O raciocínio espacial mediu a sua percepção 
de formas e tamanhos e a realação de objetos nos planos 
do espaço e também o seu raciocínio sobre essas relações 
de objetos, mas tudo no plano espacial. O raciocínio me­
cânico é o raciocínio concreto, aquele em que você racio­
cina com objetos em movimento. Vê a relação desses ob­
jetos mas, geralmente, sempre em movimento. Rapidez e 
exatidão é uma aptidão específica para tarefas burocráti­
cas de escritório. No caso aqui consistiu em ver quão ra­
pidamente e precisamente você pode comparar combina­
ções de letras e números. E ortografia e sintaxe mediu os 
seus conhecimentos específicos da língua portuguesa, atra­
vés da ortografia e da sintaxe. Nós podemos então verifi­
car, por este perfil, Carlos Gustavo, que você obteve um 
rendimento, na zona normal, na maioria dos testes que 
você fez. Porém sobressaiu-se no raciocínio verbal e no 
raciocínio numérico. O seu raciocínio verbal, por exem­
plo, se nós compararmos a sua execução com aquela de 
cem pessoas que viriam aqui fazer este teste com o mesmo 
nível de escolaridade que você tem, se situaria então aqui 
no percentil 98. Quer dizer que, em cada 100 indivíduos, 
apenas 2 apresentariam rendimento verbal superior ao seu. 
Por aí você vê que o seu rendimento verbal é, deveras, 
muito bom. Apenas 2 indivíduos em 100 se situariam 
acima de você. O mesmo acontece com seu raciocínio nu­
mérico. Apenas 5 indivíduos em 100 se situariam acima de 
você. Agora, no raciocínio numérico a precisão atingiu 
aqui o ponto máximo. Quer dizer que todas as questões 
que você considerou, todas elas estavam certas. Então nós 
diriamos o seguinte: que você apresentou um predomínio 
do raciocínio verbal e também da habilidade numérica. 
Isso quer dizer que você é uma pessoa que demonstra fa­
cilidade em raciocinar com números e também com pala­
vras. Nos demais testes que você fez, ou seja, de raciocínio 
abstrato, espacial, mecânico, rapidez e precisão, ortografia 
e sintaxe, você situou-se aqui na zona da normalidade, o 
que significa o seguinte: em cada 100 indivíduos, 50, apro­
ximadamente, estariam acima de você e os outros 50 abai­
xo. Apenas em ortografia é que situou-se um pouquinho
acima da média, isto é, 30 pessoas acima e 70 abaixo. 
Agora, pelo rendimento dado no teste de sintaxe, compa­
rando esse rendimento com o seu bom raciocínio verbal, 
nós diriamos que, com um pouco mais de estudo, você po­
deria elevar, bastante, esse rendimento. Isso quer dizer 
que talvez seu estudo de português, na parte da sintaxe, 
poderia ser melhor. Não é por uma deficiência de racio­
cínio verbal, pois o seu raciocínio verbal é muito bom. 
Por este perfil intelectual, poderiamos dizer que, provavel­
mente, você se daria melhor naqueles cursos que fossem 
eminentemente de conteúdo verbal, isso de um modo ge­
ral; não que você apresentasse contra-indicação para ou­
tros cursos. Talvez não se adaptasse muito bem a certos 
cursos de Engenharia que exigissem um raciocínio espacial 
e mecânico muito elevado, como Engenharia Química, En­
genharia Industrial, Mecânica e Elétrica — de modo ge­
ral esses cursos técnicos. Agora, os outros cursos que gi­
ram em torno de conceitos verbais, como curso de Di­
reito, por exemplo, ou esses cursos mesmo de natureza as- 
sistencial — Medicina e Psicologia — esses cursos então, 
puramente do ponto de vista intelectual de aptidões, para 
eles você não apresenta nenhuma contra-indicação, pela 
sua estrutura intelectual.
2 — C.G. — O. IC.
3 — O. — Tem alguma dúvida sobre este aspecto, Carlos Gustavo?
3 — C.G. — Não, não. Acho que o Sr. resumiu aqui... no primeiro
caso ficou eliminado todo o curso técnico,exato?
4 — O. — Não é propriamente que tenha ficado eliminado.
4 — C.G. — Mas, de uma m aneira... usando um coeficiente mais alto
de dimensões, ficou eliminado o curso técnico. Só isso.
5 — O. — Hum, hum. Bem, esta parte de eliminação eu gostaria de
explicar bem a você. Não é propriamente que ficasse eli­
minado. É, apenas, que não seria tão aconselhável quanto 
os outros. (Pausa.) Isso, então, seria a dimensão intelec­
tual; a dimensão de suas aptidões. Mas vamos deixar estes 
testes de lado e vamos voltar a eles depois de termos visto 
os testes de interesses. Você fez aqui dois testes de interes­
ses. Neste você teve de dar a sua escolha entre várias ati­
vidades — aquela que você gostava mais, aquela que você 
gostava menos; e este foi aquele teste dos cartões em que 
você também teve de fazer escolha semelhante. A finali­
dade dos testes de interesses é a seguinte: se o indivíduo 
apresenta interesse predominante em determinado campo, 
é provável que se ele for exercer uma profissão que está 
de acordo com esse interesse, ele então tenderá a se sentir 
muito melhor, pois está fazendo uma coisa que está de
S-O. — O O rien tado r oferece um a exp licação c la ra a respeito da finalidade dos testes 
de in te resses e dos re su ltad o s revelados pelo O rien tando , ou tra vez re lacionando 
os seus re su ltad o s com os vário s cam pos p rofissiona is.
175
acordo com seus interesses predominantes. E esses testes, 
então, visam justamente a isto. Dar-nos a medida de seus 
vários interesses, distribuídos nesses nove campos diferen­
tes. Essas duas linhas azuis aqui delimitam a zona da 
normalidade. Os interesses situados entre essas duas linhas 
são aqueles interesses normais. Seria, então, a sua zona 
secundária de interesse. Abaixo da linha azul é a zona de 
pouco interesse. Isso quer dizer que você teria muito pou­
ca probabilidade de sentir-se satisfeito se fosse exercer 
profissões que envolvessem esses interesses. E acima da li­
nha azul, então, nós temos os seus interesses predominan­
tes. Quer dizer que é nessas áreas que você teria maior 
probabilidade de satisfação; agora isto aqui no ponto pu­
ramente de interesses. Não envolve o aspecto intelectual 
que foi esse que nós já vimos antes. Então, você apresen­
tou aqui pouco interesse, interesse baixo por trabalho ma­
nual e técnico — na maioria — no caso, aqui, das profis­
sões de engenheiro, das profissões técnicas. E também de­
monstrou pouco interesse por trabalhos que envolvessem 
cálculos. Por exemplo, as profissões de contabilista, de 
atuário, de estatístico, de matemático etc. Agora, interes­
sante é que, apesar de ter pouco interesse por profis­
sões que envolvam cálculos, você tem uma boa habilidade 
numérica. Aí seria uma discrepância entre aquilo que 
você pode fazer e aquilo que você gosta de fazer. Apre­
sentou um interesse normal por trabalhos ao ar livre, ati­
vidades exercidas ao ar livre, por atividades científicas, 
atividades que envolvam a pesquisa de um modo geral. 
Atividades persuasivas, ou seja, aquelas atividades em que 
você entra em contato com as pessoas no sentido de per­
suadi-las a fazer alguma coisa, para que aceitem o seu 
ponto de vista, comprem uma idéia sua. Seriam as ativi­
dades comerciais, por exemplo, do advogado, do vendedor 
etc. Interesse normal também por atividades literárias. 
Aquela onde a palavra escrita ou palavra falada seja o 
centro principal da profissão. Neste caso temos, por exem­
plo, a profissão de advogado, a profissão de escritor, de 
locutor de rádio, de professor de línguas etc. E interesse 
normal também por música e por serviços administrativos 
de escritório, serviços burocráticos de escritório. Esta 
área, então — como você vê, é bastante extensa — seria 
a área normal de seus interesses. Os seus interesses pre­
dominantes, segundo os dois testes. E você vê que há uma 
concordância grande entre os dois testes, o que significa, 
realmente, que você já tem os interesses cristalizados neste 
setor. Então, os interesses predominantes foram o serviço 
social e atividades assistenciais. As atividades assistenciais, 
Carlos Gustavo, são aquelas em que você entra em con­
tato com as pessoas para prestar algum serviço em benefí­
cio desses indivíduos. Como o nome diz, é uma atividade
assisténcial, em que você presta assistência a outros. Este, 
então, foi o seu interesse predominante. Quer dizer, en­
tão, que neste setor, de acordo com a impressão pessoal 
que você já tinha a seu respeito, é que você terá maiores 
probabilidades de sentir-se bem. Neste setor de atividades 
assistenciais. Agora, nós poderiamos, então, pensar em vá­
rios cursos, em várias profissões que envolvessem a ativi­
dade assisténcial, profissões que giram em torno da ati­
vidade assisténcial. Você mencionou, aqui no seu questio­
nário, que estaria interessado, possivelmente, em fazer o 
curso de Psicologia ou senão o de Assistente Social. Tanto 
um curso como o outro envolvem, eminentemente, a ati­
vidade assisténcial. E são cursos também que giram, prin­
cipalmente, em torno de conceitos verbais. E na Psicolo­
gia, um pouco de conceito numérico, na parte referente à 
estatística. Mas, por exemplo, a Assistência Social e gran­
de parte do ensino da Psicologia gira em torno de concei­
tos verbais. E para esses dois cursos você não apresenta 
nenhuma contra-indicação de ordem intelectual. Isso quer 
dizer: você pode fazer os cursos bem feitos. Não terá di­
ficuldade em fazê-lo, é claro, se estudar, se se dedicar etc. 
Outro curso também aconselhável para você e dentro desta 
área de atividades assistenciais seria a Medicina; ou, pre­
ferivelmente, a Medicina Clínica — Clínica Geral — ou, 
senão, a Psiquiatria. Aí você teria que lidar um pouco 
com conceitos numéricos que entram na Física e na Quí­
mica, mas somente nos primeiros anos. Depois, quando 
você entrar na parte prática isso já fica um pouco em se­
gundo plano. Mas com as suâs aptidões apresentadas aqui, 
como são aptidões normais, por exemplo, raciocínio abs­
trato, é de se prever também que você possa fazer esse 
curso de Medicina sem maiores dificuldades. Agora, 
quanto às outras duas áreas que você assinalou aqui como 
sendo de seu interesse também pesquisar, ou seja, a parte 
de escritor e de jornalista, nós diriamos o seguinte: você, 
pelo seu bom raciocínio verbal, provavelmente não encon­
traria dificuldade, talvez com treino, em expressar as suas 
idéias, em se fazer entender. Você tem uma aptidão boa 
para essas profissões. Agora, do ponto de vista de interes­
ses, o interesse por atividade literária e o interesse por ati­
vidade persuasiva, talvez entrassem um pouquinho na pro­
fissão de escritor e se situariam na zona secundária. É 
provável que você se sentisse melhor como psicólogo ou 
assistente social ou médico do que propriamente como es­
critor ou jornalista. O que você poderia fazer, depois que 
escolhesse adequadamente, então, seria escrever artigos so­
bre sua profissão, sobre assuntos de seu interesse. Aí en­
tão você poderia utilizar o seu bom raciocínio verbal.
C.G. — É. Neste ponto eu estou mais com o senhor. Porque tan­
to escrever quanto fazer Jornalismo envolvem uma série
177
de preparos diferentes do meu modo. Jornalista, por 
exemplo, vive mais do sensacionalismo, da notícia.
6 — O. — Hum, hum.
6 — C.G. — Ele, então, às vezes chega até a forçar a notícia. Ele não
vê o fato humano na maioria dos casos. Ele vê o fato 
notícia. O acontecimento que ele possa gravar. No meu 
caso não seria assim. Mas, eu seria obrigado, para come­
çar, a ter que aceitar essa idéia para depois poder ter am 
conceito próprio.
7 — O. — Hum, hum.
n — C.G. — Como escritor, só como escritor, o problema também seria 
muito complexo; porque apesar de eu ter facilidade de ex­
pressão, apesar de ter idéias, eu normalmente não escrevo 
sobre qualquer tema. Prende-se sempre ao meu .interesse, 
por exemplo, pela Filosofia. Eu escrevo, então, sobre a Fi­
losofia. Eu discuto aqueles problemas que eu vejo. Então 
o que eu escrevoé preso a isso. Já tentei outras experiên­
cias ou maneiras de escrever, mas não dá certo. É alguma 
coisa em que eu tenho experiência, alguma coisa que eu 
senti, então eu dou uma opinião praticamente analisando, 
segundo a minha razão, segundo como eu vejo. Então, pra 
mim, isso é o escrever.
8 — O. — Hum, hum.
8 — C.G. — Ia ser muito difícil, sem que existisse uma função especí­
fica que me desse vida como escritor, porque é como se 
fosse um morcego que vivesse à custa da banana... Sem 
a banana não existiría o morcego porque não tinha de 
onde sugar. É um problema tecnicamente meu aí nesse 
ponto...
9 — O. — Hum, hum.
9 — C.G. — Sei disso. Por exemplo, atualmente eu estou com um pro­
blema, estou analisando o problema de uma garota. Então 
eu estou tirando conclusões, estou escrevendo acerca da 
Psicologia, tirando conclusões acerca de como se processa 
dentro dela certas evoluções que eu já verifiquei em ou­
tras garotas e em outros rapazes também.
10 — O. — Hum, hum.
10 — C.G. — Então, é nesse ponto que eu escrevo. Eu não crio o tema,
eu descubro o tema e desenvolvo aquilo.
11 — O. — Hum, hum. E você sente, então, que você realmente gos­
taria de escrever sobre os assuntos de sua predileção e não 
outros que fossem impostos a você como jornalista, não é?
11 — C.G. — Exato, exato, exato.
12 — O. — Você poderia, então, desenvolver melhor, porque você
sente isso melhor.
l l-O . e 12-0. — N essas respostas com preensivas o O rien tad o r s in te tiza as v ivências que 
o O rien tando v inha expressando desde 5 — C.G. V erifica-se que o 
O rien tado r adotou o cen tro de re fe rênc ia do O rien tando .
178
12 — C.G. — Sinto melhor.
13 — O. — Hum, hum. Você esteve, Carlos Gustavo, na Seção de In­
formação Vocacional?
13 — C.G. — EstiVe, sim Sr.
14 — O- — Dos cursos que você viu lá qual foi o que mais lhe interes­
sou, assim pelo conteúdo e tudo? Você teve oportunidade 
de pensar um pouco sobre esse aspecto?
14 — C.G. — Doutor, eu tive oportunidade de pensar um pouco. E o
problema varia um pouco. A Universidade B., para eu 
seguir o curso de Psicologia, traria desvantagens acerca 
dos pontos em que eu tivesse que enfrentar...
15 — O. — Hum, hum.
15 — C.G. — .. .que eu tivesse de enfrentar uma mentalidade completa­
mente diferente da minha mentalidade filosófica e a téc­
nica de ensino de Psicologia mesmo lá é formidável, mas 
também tendencia em alguns pontos...
16 — O. — Hum, hum ...
16 — C.G. — .. .E tive uns colegas meus que fizeram Sociologia e tive­
ram de fazer pequenas revisões. Então é a única coisa que 
acho sobre Psicologia, que é como se fosse um monopólio 
e que ou se sujeita àquela maneira de ser ou não tenho 
direito a ser.
17 — O. — Hum, hum ...
17 — C.G. — No setor d e ... olhando só cu rso ... Psicologia se apresen­
tou assim pra mim. Mas eu continuo em dúvida. Acho 
Assistência Social formidável. Acho que talvez até desse 
mais vazão à minha maneira de ser. Mais grupo. Menos 
unidade. Mas também eu não sei até que ponto esse seria 
o problema, porque iria faltar uma parte que eu sinto que 
tem a Psicologia — que é o estudo e a pesquisa do ser 
humano constante.
18 — O. — Hum, hum ...
18 — C.G. — ...P on to por ponto. Já na Assistência Social eu iria, pra­
ticamente, viver nas costas do psicólogo. Ele formava as 
idéias, ele fazia mais como se fosse um cadastro e eu ia 
lá com o catálogo geral que ele me dava, olhava a situa­
ção grupai e procurava resolver o problema da maneira 
geral.
19 — O. — Hum, hum.
19 — C.G. — Os casos que fossem mais difíceis — porque é impossí­
v e l... vamos dizer: estou numa fábrica.
20 — O. — Hum, hum ...
20 — C.G. — .. .Tem dois mil operários. A fábrica está funcionando na 
maioria deles. Então, se uso uma terapia que resolve cin- 
qüenta por cento dos casos — e tem dois ou três que estão 
entravando o andamento — eu tenho de isolar esses dois 
ou três e empregar alguém que possa ter tempo para resol­
ver esses dois ou três. Então eu deixei dois ou três casos
179
de lado. É um problema que surge dentro de mim tam­
bém. E fa lta ... falta a parte do estudo, falta a parte do 
conhecimento, eu sinto fraca a matéria do curso e não tem 
a objetividade que eu sinto necessidade que tenha um 
curso pra minha formação.
21 — O. — Hum, hum.
21 — C.G. — ...E u necessito andar todos os degraus que existam pra
poder partir pra alguma coisa mais. Então a Assistência 
Social seria, mais ou menos, como se eu deixasse o meu 
fim útil e, com os conhecimentos médios, eu me lançasse 
a empregá-los, sem fazer as duas coisas. Eu largaria uma 
parte, praticamente, do meu objetivo. . .
22 — O. — Hum, hum ...
22 — C.G. — . . . e meu objetivo é ter as duas coisas.
23 — O. — Mas talvez você pudesse conciliar as duas coisas, Carlos
Gustavo, especializando-se ou estudando alguma coisa de 
Psicologia Social.
23 — C.G. — Mas em Psicologia Social, Dr., o problema, o problema
m eu... eu parto da individualidade.
24 — O. — Hum, hum ...
24 — C.G. — . . . O problema social — eu acho que tem interesse pro­
fundo, mas o grupo é sempre reação do indivíduo. Estu­
dar o tipo de reação do indivíduo sem conhecer bem ba­
sicamente o indivíduo, para lançar-se à Psicologia Social, 
é lançar-se meio no escuro.
25 — O. — Você sente, então, Carlos Gustavo, que pelo seu maior in­
teresse pelo indivíduo, talvez a Psicologia fosse mais ade­
quada para você?
25 — C.G. — Eu creio isso. O único ponto que pega é exatamente a
Universidade B.
26 — O. — Mas você sabe que no ano que vem, provavelmente, vai
ser iniciado o curso na Faculdade M. D.
26 — C.G. — Aqui na Universidade...
27 — O. — Aqui na Universidade L.
27 — C.G. — Mas, vai haver vestibular este ano para ...
28 — O. — Provavelmente, provavelmente. De modo que aí você não
teria esse problema do dogma religioso... da doutrina re­
ligiosa. Então, você talvez encontrasse o curso sob esse 
aspecto mais favorável para você.
28 — C.G. — Exatamente. E . .. e . . . seria a coisa melhor que eu po­
deria ter é encontrar um curso de Psicologia com liber­
dade.
29 — O. — Hum, hum.
29 — C.G. — .. .Liberdade de pensamento. Eu acho que a Universidade
B. vai restringir. Porque em toda a dogmática dela, toda 
a sua didática, ela impregna esse curso. . . esse cunho.. . 
Eu acho que tudo deve ,.ser livre.
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35
32-0.
O. — Hum, hum.
C.G. — Nós podemos ter as nossas convicções — mas as nossas 
convicções só são convicções quando enfrentam qualquer 
liberdade. E se não enfrentam qualquer liberdade não são 
convicção. A Universidade B. já vai me preparar, já vai 
me fazer enfrentar a realidade psicológica através dos ân­
gulos dela. Ela já dá o seu jeito. Ela faz o espiritualismo 
dela, a psicologia j á . .. a sua psicologia espiritualista. Mas 
eu acho que se deve aprender Psicologia como se fosse 
ateu. Desse ponto, aprendeu-se isso, aí, então, o problema 
é nosso.
O. — Hum, hum.
C.G. — Aclimatar aquilo que nós sentimos de espiritualidade com 
aquilo que nós aprendemos de ciência pura. Daquela ciên­
cia que é atéia — não tem Deus. É isso que eu acho, Dr.
O. — Hum, hum. Mas como você se sente atualmente, Carlos 
Gustavo, você crê, então, que possivelmente, desses cursos 
de conteúdo assisténcial, a Psicologia talvez fosse o que lhe 
agradasse mais?
C.G. — Eu creio que sim. Eu creio que sim. Por todos os aspec­
tos. O único problema que surge aí é a parte do meu es­
porte. Porque eu, às vezes, sinto um certo choque entre o 
esporte e a Psicologia. Principalmente quando ou eu estou 
praticando muito o esporte ou eu estou resolvendo um 
problema muito a firme, como no caso dessa garota. . .
O. — Hum, hum ...
C.G. — ...quando eu chego pra praticar o esporte é um impacto 
dum mundo diferente. É a única coisa que eu sinto dentro 
da minha personalidade que é feito um choque. É isso. 
E quando existe um mergulho profundo numa das duas 
partes e quando eu volto para a outra eu sinto choque.
O. — Mas qual é o choque que você sente, Carlos Gustavo, 
quando você estálá praticando seu esporte? Em que sen­
tido é que esse choque se verifica — entre um aspecto e 
outro?
C.G. — Não. Quando eu estou praticando esporte o problema é 
o seguinte: É uma competição... Então eu resumo as mi­
nhas atividades psíquicas ao mínimo, porque eu me pre­
paro mais fisicamente, me dedico muito mais ao esporte 
do que à Psicologia. E o esporte tem dentro de si, ele 
como vida, uns conceitos bem diferentes da Psicologia.
O. — Hum, hum ...
C.G. — ...E le é m ais... é mais ação. Então, quando eu entro 
na Psicôlogia, aquela mentalidade de ação se sente um 
pouco insatisfeita até que haja de novo a readaptação, o
O O rien tad o r c la rifica ou tra vez os sen tim en tos do O rientando. V erifica-se 
porém que as respostas com preensivas do O rien tado r se concentram , sobretudo, 
nas v ivências re lac ionadas à escolha p rofissiona l.
181
equilíbrio entre as duas partes. É como se um sujeito es­
tivesse numa sala escura, e, na hora em que ele saísse na 
luz, sentisse os olhos doerem. Ou o contrário. Se ele es­
tivesse na luz, no sol, muito tempo, entrasse num quarto 
escuro, ele não ia enxergar nada. Aos poucos ele voltaria 
a enxergar. Exatamente. Eu acho que essa imagem define 
bem o que existe entre a Psicologia e a minha luta. É 
essa diferençazinha que eu sinto.
36 — O. — Hum, hum. Mas no tocante aos testes, você teria alguma 
dúvida? Gostaria de me fazer alguma pergunta sobre tudo 
isso que eu lhe expliquei?
36 — C.G. — Eu gostaria de saber daquele teste d o ... Aquele teste é
um teste que desafia, porque não tem interpretação. Nós 
é que temos de interpretar. Aquele é mais desenho, é mais 
aplicação. Então, é uma curiosidade que eu sinto.
37 — O. — I-Ium, hum. A finalidade daquele teste foi de dar caracte­
rísticas de sua personalidade. Agora, com o ponto de vista 
puramente profissional. Para ver se ali você não apresen­
tava algum traço de personalidade que pudesse contra-in­
dicá-lo para essas profissões que nós acabamos de conver­
sar. E foi verificado através daquele teste que você apre­
sentou uma personalidade normal. Quer dizer que, por 
ali, não haverá contra-indicação para que você exerça essas 
profissões nesses campos assistenciais. Eu gostaria, então, 
para concluir, de discutir com você os resultados do seu ' 
exame médico.
37 — C.G. — O exame médico...
38 — O. — Você foi examinado pelo nosso médico, e ele disse... ele
relatou aqui que você contou a ele que, durante determi­
nado período de sua vida, você teve vertigens.
38 — C.G. — Não foi durante determinados períodos. Eu disse que,
quando eu tiro sangue, geralmente desmaio...
39 — O. — Hum, hum ...
39 — C.G. — .. .se não conseguir chegar ao café mais próximo.
40 — O. — Ah. Sei. Então você comunicou isso a ele, claramente,
não?
40 — C.G. — Eu disse isso. Que c o m ... é única chance que isso acon­
tece e eu creio que posso explicar isso mais ou menos. 
Porque, normalmente isso acontece no hospital.
41 — O. — Hum, hum.
41 — C.G. — .. .Um amigo e eu sofremos um desastre.
42 — O. — Hum, hum.
42 — C.G. — ...M eu amigo sofreu fratura exposta do lado direito.
Então o sangue corria de tudo que é jeito.
43 — O. — Hum, hum.
36-0 . — O O rien tado r ado ta a titu d e d ire tiv a , p rovavelm ente por haver notado que o 
O rien tando estava-se perdendo no em aranhado de seus pensam entos.
182
43 — C.G.
44 — O. 
44 — C.G.
45 — O. 
45 — C.G
46 — O.
46 — C.G.
47 — O.
47 — C.G.
48 — O.
48 — C.G.
49 — O.
49 — C.G.
50 — O.
50 — C.G.
51 — O.
— .. .Eu tinha um ferimento aqui e ele na cabeça. Então 
foi. . . nós fomos levados para o hospital. Eu creio que 
inconscientemente eu relaciono essas coisas.
— Hum, hum.
— ...D e maneira que quando eu estou no hospital, tiro san­
gue, aquilo volta, então eu sinto o que na hora me con­
trolei, na hora eu me mantive normal, parado...
— Hum, hum.
— ...e u só paralisei. Não houve... não desmaiei, não hou­
ve coisa alguma. Ajudei meu amigo a sair d o ... do car­
ro, e tudo. Eu creio que é como se fosse satisfação da­
quela emoção no passado.
— Quer dizer, se quando você visse sangue agora, você revi­
vesse, então, aquilo que você talvez tivesse vivido naquela 
época.
— Aquilo que eu d o u ... daria vazão agora, aquilo que eu 
não dei vazão lá.
— Hum, hum.
— Mas é em condições específicas. Porque, quando eu me 
corto, quando eu me machuco, quando sai sangue comigo, 
quando é ferimento, não há nenhum problema. Esteja aon­
de estiver. Somente quando tiro sangue.
— Hum, hum.
— . . . quando tiro sangue, ali é que acontece. A reação. 
Eu acho que caracteriza bem por ser dentro do hospital.
— Hum, hum. Entendo bem.
— ...G rava bem a idéia.
— Muito bem, Carlos Gustavo. Mais alguma questão que 
você gostaria de debater comigo?
— Bem. Dr., eu acho que quando entrar lá na faculdade, eu 
tenho de trabalhar em alguma coisa. E eu gostaria que 
também o Sr. me orientasse, se fosse possível, em que se­
ria melhor que eu trabalhasse, durante esse período em 
que eu terei que terminar de fazer o vestibular e fazer a 
faculdade.
— Bem, se você vai realmente optar, depois de pesar tudo isso 
que foi dito aqui, por um curso de Psicologia, existem 
muitas oportunidades atualmente em trabalhos de Psicolo­
gia. Eu não digo que você possa, logo assim de início, fa­
zer um trabalho, talvez que você gostasse de fazer mais 
tarde. Mas a pessoa para chegar àquilo que gosta de fazer 
tem de passar por vários estágios preparatórios, por assim 
dizer. Mas existem muitas firmas interessadas, Carlos 
Gustavo, em contratar estudantes de Psicologia para apli­
cação de testes psicológicos, para correção de testes. É 
como se você começasse a sua vida profissional já como 
estudante, como se fosse um auxiliar de psicólogo. E esse
183
trabalho, então, lhe daria uma experiência prática de muito 
valor. Você tomaria contato com testes que são aplicados 
em firmas para fins de seleção de pessoal, mas iria tam- 
oém conhecendo as técnicas. Poderia, eventualmente, au­
xiliar em entrevistas de emprego, entrevistas iniciais... 
Depois que você entrar para a faculdade, talvez através de 
alguns professores que geralmente recebem pedidos de fir­
mas, você poderá, então, encaminhar-se, ou mesmo lendo 
o jornal X, na edição de domingo. As firmas, geralmente, 
colocam ali anúncios procurando pessoas que possam aju­
dar. É sempre, por assim dizer, um trabalho inicial, como 
não poderia ser de outra forma. Mas, de qualquer manei­
ra, já é um trabalho dentro daquela profissão que você 
vai escolher futuramente. À medida que você for tam­
bém se aprofundando no seu curso de Psicologia, você 
poderá escolher mais tarde qual dos três setores será mais 
conveniente para você. Segundo os testes aqui, possivel­
mente, a Psicologia Clínica seria a mais indicada. Exis­
tem três campos da Psicologia. Três especializações. A Psi­
cologia Industrial, aplicada à indústria — problemas hu­
manos na indústria — talvez você se interessasse também. 
A Psicologia Educacional, aplicada à educação, métodos 
educacionais, e a Psicologia Clínica, então, ligada assim a 
problemas de personalidade, de terapia do indivíduo, gru­
pos etc. Mas isso, à medida que você for tomando con­
tato com o curso, e sabendo também que você tem in­
teresse predominantemente assisténcial, você poderá resol­
ver com mais acerto.
51 — C.G. — Perfeito. Agora, o problema do emprego... (Ri.) é que.
constitui preocupação.
52 — O. — Hum, hum.
52 — C.G. — ...Porque anúncio no jornal eu acho difícil. Não existe,
vamos dizer assim, qualquer cursinho pequeno que pudes­
se ser feito, por agora, nesse setor, que viesse resolver o 
problema...?
53 — O. — Não. Isso eu acho muito difícil. Eu acho difícil. Você
teria duas opções: ou esperar para ingressar na faculdade, 
e depois procurar um emprego e já ser indicado como es­
tudante de Psicologia, o que lhe daria um staíus diferente, 
ou senão agora ir procurar um emprego, mas sem aquela 
qualificação que, mesmo sendo de estudante, lhe ajuda de 
certa forma. Agora o máximo quese quisesse voltar para a primeira seção em que trabalhara. Isto 
irritou Lilian profundamente e levou-a a buscar o auxílio da Assistente So­
cial da instituição em que trabalhava.
Segue-se a entrevista que teve com a mesma:
L. — Dona Agnes, preciso de seu auxílio.
A. S. — Bom dia Lilian, vamos sentar? Espero poder ajudá-la. O 
que aconteceu?
L. — Não suporto a seção em que estou trabalhando.
A. S. — Em que seção você está e por que não gosta de lá?
L. — Estou no Almoxarifado. Tudo lá é horrível, o lugar, a umidade, 
o trabalho, enfim não agüento mais aquilo. Queria voltar para o Setor de 
Expedição de Material.
A. S. — Acho que poderemos arranjar isto, desde que suas condições 
físicas melhorem.
L. — É, o chefe da divisão me disse isto mesmo, mas o caso é que 
ele quer que eu reassuma meu antigo lugar. Mas para lá não vou de jeito 
nenhum. Não quero trabalhar de novo com D. Maria da Glória.
A. S. — Mas por que, se D. Maria da Gloria é uma de nossas melho^ 
res chefes de seção?
L. — Pode ser, mas não simpatizo com ela.
A. S. — Muito bem Lilian, vejamos: você me disse que necessita 
trabalhar para sustentar seus dois filhos e que precisa ir para um lugar 
onde possa ganhar mais, a fim de melhorar sua situação financeira. No 
entanto, agora que lhe aparece esta oportunidade recusa-se a aceitá-la por­
que não simpatiza com a chefe da seção para onde foi enviada. O que 
você tem contra D. Maria da Glória?
L. — Bem, acho-a muito parcial.
A. S. — Conhecendo D. Maria da Glória como conheço, posso garan­
tir-lhe que ela iria ficar muito surpreendida se soubesse disto, pois uma de 
suas maiores preocupações é esta questão de justiça com relação a seus 
subordinados. Se eu fosse você aceitava o lugar que lhe ofereceram. Deixe 
de lado estas suscetibilidades infundadas que aqui não é lugar para isto.
L. — Tenho a impressão que se não for para lá serei despedida, a 
senhora não acha?
A. S. — Acho que sim. Já lhe deram duas oportunidades e esta vai 
ser sua última chance.
L. — Bem, acho que terei mesmo de voltar para lá.
A. S. — Ótimo, e na primeira oportunidade darei uma palavrinha a 
D. Maria da Glória a seu respeito.
L. — Não, pelo amor de Deus, não faça isto. Prefiro que ela não 
saiba quais meus sentimentos em relação a ela.
II. MÉTODO EXORTATIVO
Caracteriza-se pela obtenção de um termo de compromisso ou 
promessa formal. O orientador se empenha em fazer com que o 
orientando aja de acordo com aquilo que acha ser melhor para ele. 
Trabalha com este objetivo, até conseguir a promessa: deixar de beber, 
de jogar, de bater na esposa etc.
Este método até recentemente tem sido usado em vários setores 
orientacionais, apesar de um grande inconveniente: o fato de ser ba­
seado numa exigência externa e que, muitas vezes, não pode ser, por 
motivos internos, atendida, cria, além do problema existente, um senti­
mento de culpa pelo não cumprimento da promessa.
III. MÉTODO SUGESTIVO
Baseia-se, principalmente, no emprego de técnicas sugestivas, usa­
das inicialmente por CouÊ. Procura-se provocar uma modificação no 
procedimento do indivíduo, sugestionando-o com o progresso obtido.
Usa-se o tipo encorajamento: “Você está mais calmo”; “mais cora­
joso” etc.
Este método nem sempre consegue os objetivos desejados e acon­
tece certas surpresas; porque a sugestão dada, muitas vezes, não é 
compreendida ou porque não atua no sentido em que se deseja.
É muito usado ainda, atualmente. Consiste na repressão do pro­
blema. Através do encorajamento e suporte, o indivíduo se convence 
que a problemática não existe. Ressurgiu, agora, com mais ênfase, 
com o hipnotismo.
IV. CATARSE
Baseada na confissão, usada durante muitos séculos pela Igreja 
Católica. Consiste na expressão dos problemas, apresentada a uma 
pessoa que proporciona uma orientação.
Foi trazida à'terapêutica por Freud. É empregada em Psicanálise 
de maneira sistemática e profunda com o objetivo de liberar o indiví­
duo de recalques, angústias etc. Aplicada de maneira contínua pode 
mobiliza? o inconsciente, resultando um melhor ajustamento.
É usada, praticamente, em todos os tipos de orientação e aconse­
lhamento psicológico, com exceção da entrevista autoritária, quando o 
orientador não oferece ao orientando a possibilidade de catarse.
A catarse é método essencial ao aconselhamento psicológico e 
tem sido muito desenvolvida em vários ramos da terapia: ludoterapia, 
psicoterapia, psicodrama etc.
21
É o de maior importância e que conta com maior número de se­
guidores. O orientador age como dirigente. Seleciona os tópicos que 
serão discutidos, define os problemas, descobre as causas e sugere so­
luções ou planos de ação. Baseia-se na orientação médica, pois dá 
grande ênfase ao histórico do caso, empenha-se em fazer um diagnós­
tico e um prognóstico. A responsabilidade cabe, em maior escala, ao 
orientador, já que é ele quem dirige a entrevista.
Esse tipo de orientação pode criar situações de dependência, visto 
que a responsabilidade das soluções está a cargo do orientador. Por 
essa razão, já se fizeram modificações dentro do próprio método.
Nas diversas definições apresentadas pelos pioneiros do aconselha­
mento diretivo, surgem nítidas as suas características:
1. BiNGHAMO)diz que o método diretivo se baseia em dar informa­
ções, influenciar e motivar o orientando de modo a fazê-lo aceitar 
estas informações.
2. EricksonÍ3) acha que consiste em ressaltar o problema e encorajar 
o orientando a discuti-lo.
3. Williamson, () principal defensor desta corrente, assim a defi­
ne: o orientador expõe seu ponto de vista com firmeza e pre­
tende, através de sua exposição, esclarecer o orientando.
4. Darley(2)cüz que a orientação diretiva se assemelha à atuação do 
vendedor. É como se o orientador visasse a “vender” certas idéias, 
planos e modificações necessárias à atitude do orientando. O 
orientador escolhe os objetivos e sugere ao orientando aceitá-los. 
O orientador está em posição de autoridade.
Verificamos que em qualquer definição, o orientador aparece diri­
gindo a ação. Não deixa de ser, de certa forma, um aconselhamento 
do tipo autoritário, embora não em caráter rígido. De qualquer ma­
neira é o orientador quem apresenta a solução para o orientando, que 
pode aceitá-la ou rejeitá-la.
V. MÉTODO DIRETIVO
EXEMPLO DO MÉTODO DIRETIVO 
SÍNTESE DE UM CASO *
1. Problemas Emocionais:
Parte do aconselhamento foi feita em forma de catarse. Siivio parece 
ter-se sentido aliviado falando de seus problemas. Referiu-se às inúmeras 
vezes que se havia sentido profundamente infeliz devido a sua incapacidade 
de estabelecer uma relação positiva com as pessoas (grande parte desses
* Adaptado de R O G E R S , C. — C ounseling and P sychoterapy.
22
informes foi extraída dos dados clínicos). Nosso primeiro passo foi 
fazê-lo sentir que este traço de sua personalidade interferia, de maneira 
negativa, no seu bom ajustamento vital e que deveriamos buscar rrieios para 
superá-lo. Perguntei-lhe. “Você gostaria de mudar esse aspecto de sua 
personalidade?” A resposta do orientando foi afirmativa. Em face disto 
apresentamos-lhe as seguintes sugestões que visavam ao seu reajustamento 
social:
1. Inscrição no Curso de Trabalhos Manuais da A.C.M.
2. Participação das Reuniões do Clube Internacional, onde Sílvio 
podería encontrar um campo de afirmação dado seu grande conhe­
cimento sobre os assuntos tratados no mesmo.
3. Participação nas diversas atividades da A.C.M. (tivemos o cuidado 
de enviar cartas a estas entidades pedindo-lhes que dispensassem 
de início uma atenção especial ao orientando).
2. Problemas Escolares:
Neste particular nosso primeiro trabalho foi dissuadir o orientando de 
prosseguir o curso prévio de Contabilidade, e convencê-lo a ingressar em 
um curso menos especializado. Como argumentos apresentei o mau merca­
do de trabalho naquele campo profissional o que ocasionava forte com­
petição neste setor. Sabendo da aversão do orientando por Matemática, 
fizemos-lhe sentir que no curso de Contabilidade teria que enfrentarvocê poderia conseguir 
— você tem o curso científico e tudo — seria, assim, como 
auxiliar de escritório e isso, pelos seus testes aqui, prova­
velmente, não lhe interessaria muito. Então seria a ques­
tão, talvez, de pesar a possibilidade de esperar um pouco, 
talvez se preparando, já tomando informações, sobre o 
curso e no ano que vem, então, procurar um emprego nes­
se sentido.
184
54 — C.G. — Eu creio que é melhor assim. O.K.
54 — O. — Mais alguma coisa, Carlos Gustavo?
54 — C.G. — Não Sr.
55 — O. — Muito bem. Então eu vou lhe devolver seu cartão e os
seus testes ficarão sempre arquivados aqui conoscò. Se 
você precisar de nós, no futuro, para alguma coisa, quiser
rever seus testes, basta que 
cesso será, então; tirado do
55 — C.G. — Muito bem.
56 — O. — Muito obrigado, então.
56 — C.G. — Obrigado ao Sr. Até logo.
traga seu cartão aqui e o pro- 
arquivo.
185
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counseling processi New York, McGraw-Hill, 1952.
5. THORNE, F. C. — “A critique of Non-directive Methods of Psy­
chotherapy”, J. Abnorm. Soc. Psychol., 1944, 39, 459-470.
6. THORNE, F. C. — "Directive Psychotherapy: Imparting Psycholo-
gical Information”, /. of Clinicai Psychol., 1946, 2, 179-190, 1946.
7. THORNE, F. C. — “Directive Psychotherapy: The Psychology of
Simple Maladjustment”, J. of Clinicai Psychol., 1945, 1, 282-240, 
1945.
8. WARTERS, J. — Techniques of counseling. New York, McGraw-
-Hill, 1954.
CAPITULO 12
1. ERICKSON, C. E. — A practical handbook for school counselors. 
New York, Ronald Press, 1949.
2. ERICKSON, C. E. — The counseling interview. New York, Pren-
tice-Hall, 1950.
3. PATTERSON, C. H. — Counseling and psychotherapy: theory and
practice. New York, Harper, 1959.
4. PEPINSKY, H. B. e PEPINSKY, P. — Counseling, theory and
practice. New York, Ronald Press, 1954.
5. TYLER, L. — The work of the counselor. New York, Appleton-
-Century-Crofts, 1953.
CAPITULO 13
1. HAMRIN, S. A., PAULSON, B. B. — Counseling adolescents.
Chicago, Science Research Associates, 1950.
2. ROGERS, C. — The clinicai treatment of the problem child. Bos­
ton, Houghton Mifflin, 1939.
3. Test Service bulletin, The psychological Corporation, n.° 54, dez.
1959.
CAPITULO 14
1. ERICKSON, C. F. — The counseling interview. Prentice-Hall, New
York, 1950.
2. HAHN, M.uma 
série de matérias correlatas, como Finanças, Estatística, Economia. Argu­
mentamos ainda que estas matérias eram áridas e seus estudo estéril (com 
o perdão dos meus colegas que se dedicam às mesmas). Paralelamente 
mostrei-lhe o curriculum do curso X, ressaltando a parte interessante do 
mesmo.
O orientando concordou em reconsiderar o assunto e elaboramos em 
conjunto o seguinte plano:
1. Procurar o orientador educacional a fim de discutir com ele a 
questão da transferência de curso.
2. Discutir o assunto com os pais.
3. Tomar as providências necessárias para a transferência de Con­
tabilidade para o curso de História.
VI. MÉTODO INTERPRETATIVO
Na orientação diretiva, além da persuasão e conselho, também se 
usam as técnicas interpretativas. O estudo da dinâmica da persona­
lidade permite melhor compreensão do comportamento e a possível 
descoberta das causas que o motivaram. Pode ser definido como “ten­
tativa para alterar o comportamento humano, através de explicação e 
interpretação intelectuais”. Surge da compreensão crescente dos fatores 
que motivam o comportamento humano.
23
Certas experiências, certos tipos de inter-relação familiar ou social 
levam o indivíduo a determinados comportamentos e é exatamente isso 
que deve ser exposto ao orientando, para que ele possa comprender 
melhor as suas próprias atitudes.
Esta técnica é usada na psicanálise, com recursos muito maiores, 
pois, por ser um trabalho mais lento, proporciona oportunidade de o 
cliente assimilar aos poucos a interpretação. Só traz benefício, quando 
é realmente assimilada pelo orientando. Quando o indivíduo não está 
preparado corre-se o risco de produzir um choque ou bloqueio. A 
explicação, à queima-roupa, pode causar uma resistência por parte do 
orientando ou até aumentar a problemática.
EXEMPLO DO MÉTODO INTERPRETATIVO ATIVO
Lúcia — Não quero mesmo ter amigas. Prefiro andar sozinha. Todas 
minhas colegas são tão bobas, tão enjoadas, que a senhora nem pode calcu­
lar! Só pensam em roupas, namorados, cinema. Não tem uma que escape. 
Na verdade me sinto tão superior a elas!
Orientadora — Você não acha que tudo isto talvez seja uma maneira 
de você esconder seu verdadeiro problema? É possível que você não se 
sinta aceita pelas suas colegas, então, em vez de olhar a coisa de frente, 
dá a si mesma esta desculpa de ser superior a elas, porque dessa maneira 
é menos penoso para você.
Lúcia — Isto não, acho-as mesmo umas cacetes, não tenho a menor 
vontade de andar com elas. Se a senhora as conhecesse veria se não tenho 
razão. Acho que a vida não se resume em rapazes, festas e vestidos... 
Não sei, prefiro conversar com pessoas adultas...
Orientadora — Você prefere conversar com os adultos porque ao lado 
deles se sente mais protegida e com menos possibilidade de ser rejeitada.
Lúcia — Não se i..., apenas acho que as pessoas mais velhas são 
mais interessantes, falam sobre coisas que me agradam m ais...
VIL MÉTODO NÃO-DIRETIVO
Iniciado por Carl Rogers (5), sofreu a influência de Allen, que 
por sua vez foi discípulo de Ramk. Apresenta as seguintes caracte­
rísticas: 1) A maior responsabilidade da direção da entrevista cabe ao 
orientando — por isso é denominado “client-centered” — isto é, entre­
vista centralizada na pessoa do orientando. 2) Visa à pessoa, mais do 
que o problema apresentado. 3) Proporciona a oportunidade de um 
amadurecimento pessoal. 4) Não se dá grande importância ao con­
teúdo fatual e intelectual — dá-se maior ênfase ao conteúdo emocional.
Numa atmosfera emocional altamente propícia, o orientando relaxa 
as suas defesas e elabora os seus próprios planos de ação. O papel 
do orientador consiste na clarificação e aceitação dos conteúdos emo-
24
cionais do orientando. Não há preocupação com um diagnóstico, como 
na orientação diretiva. A principal função do orientador não é inculcar 
a autocompreensão ao cliente, mas criar, durante a entrevista, uma 
atmosfera favorável para que o cliente atinja, ele próprio, esse auto- 
conhecimento.
EXEMPLO DO MÉTODO NÃO-DIRETIVO
Sr. Silva — Às vezes, acho que isso não pode mais continuar. Levan­
to-me às 5 horas da manhã e trabalho até às 4 horas da tarde. Depois 
vou às aulas. Sinto-me tão cansado que muitas vezes durmo durante as 
aulas. É uma tortura me manter desperto. Em casa, estudo até meia-noi­
te. Nunca durmo suficientemente e me sinto cada vez mais fatigado.
Acho que não vou agüentar isso muito tempo.
Orientador — O senhor sente que está chegando ao limite de sua 
resistência.
Sr. Silva — O pior de tudo é o efeito do meu estado nas outras pes­
soas. Brigo muito com minha esposa e o meu filhinho me irrita de tal 
forma que o castigo, muitas vezes, injustamente, por coisas insignificantes.
Eu sei quanto isso é mau pois em criança sofri muita injustiça (pausa).
Mas não posso evitar.
Orientador — É muito penoso para o senhor ver-se a si próprio como 
uma pessoa que maltrata seu próprio filho.
Sr. Silva — Exato (pausa). Preocupa-me muito o fato de meu pai 
ter sido doente mental. Muitas vezes tive receio de acabar como ele. Tal­
vez eu já esteja doente mental e as pessoas não perceberam ainda.
Orientador — Você desconfia que já não é mais uma pessoa normal.
VIII. MÉTODO ECLÉTICO
Caracteriza-se pela aplicação de conceitos e técnicas pertencentes 
aos diversos métodos já focalizados. Consiste no aproveitamento das 
técnicas consideradas pelo orientador como mais satisfatórias e eficien­
tes para a situação apresentada pelo cliente. Assim, técnicas diretivas, 
não-diretivas, interpretativas, catárticas, suportativas e sugestivas podem 
ser usadas, simultâneamente ou não, de acordo com a natureza do pro­
blema e as necessidades do orientando. Grande ênfase é dada à habili­
dade de o orientador selecionar, manejar e aplicar as várias técnicas, 
relacionando-as adéquadamente às exigências da situação apresentada 
pelo orientando.
25
/
SÍNTESE DAS CARACTERÍSTICAS GERAIS 
DOS MÉTODOS DE ACONSELHAMENTO
Método autoritário: — ordenar,
— proibir,
— repreender,
— ameaçar.
Método exortativo: — termo de compromisso e pro­
messas formais como estímulo 
para modificação de atitudes.
Método sugestivo: — repressão da problemática atra­
vés de encorajamento e suporte.
Catarse: — verbalização de problemas e de 
vivências emocionais conscien­
tes e inconscientes a aiguém 
que proporcione aceitação e 
compreensão.
Método diretivo: o Orientador:
— dirige a entrevista,
— seleciona os tópicos,
— define os problemas,
— sugere soluções e planos de 
ação,
— baseia-se na orientação médica.
Método interpretativo: — esclarecimentos a respeito das 
motivações (às vezes inconscien­
tes) do comportamento e ati­
tudes.
Método não-diretivo: — o orientando dirige a entrevista,
— visa ao amadurecimento emocio­
na! e não apenas solução de 
problemas,
— focaliza o conteúdo emocional 
expresso pelo cliente,
— proporciona atmosfera propícia 
para autodeterminação por parte 
do orientando.
Método eclético: — emprega, simultaneamente ou 
não, os vários métodos, de acor­
do com a natureza do problema 
e a necessidade do cliente.
1
26
O ACONSELHAMENTO 
DIRETIVO — 
PRINCÍPIOS BÁSICOS
I. FUNDAMENTOS TEÓRICOS
O aconselhamento diretivo baseia-se nos princípios da interação 
social defendida por um grupo de psicólogos de alto calibre entre os 
quais se incluem K urt L e w in (3,4 ) — psicologia tecnológica, teoria do 
campo (jield theory) e espaço vital (life spacé) — G ordon A llport 1 
— interação social — G ardner M u r ph y (5) — situacionismo.
Apóia-se nos seguintes fundamentos teóricos:
1. Conceito unitário do organismo e ambiente — não se deve subtrair 
o indivíduo do meio onde vive.
2. A importância das forças do campo social sobre o indivíduo.
3. A influência do ambiente e do grupo social no indivíduo como 
base de suas percepções, sentimentos, emoções e ações. Tanto 
quanto a sua própria constituição mental, o grupo social a que 
pertence transmite ao indivíduo características próprias.
4. A importância do estudodas situações sobre o indivíduo que deve 
ser tão sistemático e completo como o da estrutura interna que 
responde a essas situações.
Como objetivo o aconselhamento diretivo pretende, principalmen­
te, o ajustamento atual e remoto do indivíduo ao seu meio e a remoção 
dos obstácblos que dificultam essa aprendizagem.
II. DEFINIÇÃO E CARACTERÍSTICAS
Pode ser definido como processo educativo que visa à aprendiza­
gem de atitudes adequadas a um ajustamento pessoal e social satisfa­
tórios.
27
É a forma clássica de aconselhamento, tradicionalmente aplicada 
no campo da orientação profissional e, talvez, até a época atual, a mais 
usada nos vários países.
Entre os defensores da orientação diretiva, encontram-se famosos 
educadores, orientadores e psicólogos, tais como: Darley, Erickson, 
Williamson, Mac Lean etc.
O desenvolvimento da técnica diretiva está intimamente ligado à 
evolução da orientação profissional. Surgiram em conjunto. A princí­
pio era feita de maneira mecânica: fornecimento puro e simples de in­
formações. Passou, depois, a ser um processo dinâmico caracterizado 
por uma relação entre duas pessoas.
Nas definições de aconselhamento diretivo encontramos, através 
dos tempos, modificações que caracterizam a sua evolução. Nas pri­
meiras há um cunho muito mais autoritário do que as atuais. Em 1943, 
Darley(2) apresentou a seguinte definição: “A entrevista de aconselha­
mento se assemelha a uma situação de venda, porquanto o orientador 
tenta vender ao orientando certos pontos de vista, planos de ação ou 
atitudes, impondo as suas idéias sem levar em conta as motivações do 
orientando.” Continuando Darley diz: “Cuidado com o orientando 
que discute livremente os seus problemas e retorna periodicamente ao 
orientador, mas nesses intervalos, nada faz para se modificar, revelando 
não-aceitação das sugestões que lhe são apresentadas. Raramente 
esses casos são solucionáveis.”
Atualmente, o aconselhamento diretivo tomou uma característica 
diferente, perdendo muito desse autoritarismo inicial. Williamson(6>7) 
relaciona o processo de orientação ao processo de educação e aprendi­
zagem: a educação moderna visa atingir uma aprendizagem de ati­
tudes adequadas para conseguir um ajustamento melhor. O orientador, 
assim como o professor, ajuda o orientando a utilizar seus próprios pen­
samentos e encontrar soluções para os seus próprios problemas.
Na orientação diretiva, os orientadores têm feito diferença entre 
aconselhamento e psicoterapia. Williamson encara o aconselhamento 
como um processo de ajuda na aprendizagem, sem visar à correção 
de anormalidades ou características patológicas. Na psicoterapia existe 
a condição de cura.
Os seguidores do aconselhamento diretivo fazem críticas severas a 
Rogers e seus discípulos, que retiram o indivíduo do ambiente em que 
vive. O estudo do ambiente é um dos aspectos mais enfatizados na 
orientação diretiva. Não se pode dispensar o conhecimento do efeito 
do ambiente nas atitudes do orientando e vice-versa. Esta interpelação 
é vital, já que o objetivo não é somente o ajustamento pessoal e, sim, 
também, o social.
28
III. ANÁLISE DO MECANISMO DO 
ACONSELHAMENTO DIRETIVO
1. O orientando adquire novos conhecimentos sobre a sua pessoa e 
sobre o ambiente.
2. Essa aprendizagem resulta num melhor ajustamento.
3. Para isso, é preciso situar o orientando no seu ambiente, conhe­
cendo o sistema de inter-relação — efeito do ambiente sobre o 
orientando e das atitudes do orientando sobre o ambiente.
4. Portanto, necessário se torna conhecer o histórico de suas expe­
riências e, se possível, as pessoas com quem se relaciona ou se 
relacionava no passado.
5. Como na aprendizagem, a motivação é um dos aspectos mais 
importantes para o sucesso do aconselhamento.
IV. ATITUDE DO ORIENTADOR
1. As correntes modernas frisam a rejeição do autoritarismo. Ja­
mais devem ser usadas expressões como:
. “a única coisa que você deve fazer”
. . . “eu vou lhe dizer o que deve fazer”
. . . “a melhor maneira de você conseguir”
. . . “a maneira mais inteligente...”
. . . “se você não fizer isso, vai se arrepender”.
Aconselhamento diretivo não pode ser confundido com aconse­
lhamento autoritário, atualmente já em desuso.
2. Williamson e seus seguidores aceitam uma neutralidade rela­
tiva; as decisões devem ser tomadas pelo orientando e respeitadas pelo 
orientador. Entretanto, essa atitude de neutralidade não deve ser leva­
da ao exagero a ponto de permitir (no caso de ser mal escolhida a 
decisão) a autodestruição do cliente, direta ou indiretamente, ou pre­
juízo ao grupo social a que pertence. Neste caso o orientador interfere. 
Manter a neutralidade seria, nesse caso, adotar uma atitude de indife­
rença pelo ajustamento do indivíduo. Na realidade, o orientador não é 
genuinamente neutro, pois' deseja sempre ver os seus casos resolvidos 
satisfatoriamente. A neutralidade absoluta seria, portanto, uma ati­
tude irreal.
3. A atitude do orientador não pode ser passiva. É. preciso, mui­
tas vezes, comandar a situação na entrevista, impedindo que o orientan­
do se perca no emaranhado de seus problemas e conflitos. O aconse­
lhamento diretivo compara-se à aprendizagem. O papel do orientador 
assemelha-se ao do professor: assistir o orientando no processo da 
aprendizagem, seguindo os princípios da educação ativa de Dewey —
29
o orientando deve aprender por si mesmo, fazendo. As devidas corre­
ções e esclarecimentos devem ser fornecidos pelo orientador, que de­
sempenha o papel de assistente, que interfere no momento oportuno, 
da maneira mais adequada, para impedir os erros que prejudicam a 
aprendizagem e propiciando a resolução dos problemas.
4. O orientador interfere também sempre que sente que há solu­
ção mais adequada para o orientando do que aquela que foi escolhida 
por ele. Nesta atitude está implícita a idéia de que o orientador é um 
indivíduo competente, experimentado, com grandes possibilidades de 
ajudar e que dispõe de variados recursos para conseguir levar o orien­
tando a aceitar o diagnóstico feito e os planos que ele (o orientador) 
acha mais satisfatórios. O orientador é mais competente e está mais 
habilitado do que o orientando para avaliar as problemáticas, perceber 
o melhor plano de ação e a maneira mais eficiente de executá-lo. Deve 
transmitir as suas experiências ao orientando.
São inúmeros os recursos para atingir este objetivo e não se admite 
senão a idéia de que o orientador não poupa esforços em benefício do 
seu orientando, pondo em uso toda a sua experiência e capacidade na 
solução de cada caso.
V. ETAPAS
1. Rapport: é o ponto de partida. Consegue-se através de uma 
atitude simpática, compreensiva, de interesse sincero e respeito. O ori­
entando precisa se sentir “importante” para o orientador. O significado 
da entrevista deve ficar bem claro.
É muito útil que o orientador tenha conhecimento das suas pró­
prias deficiências, dificuldades e problemas, pois eles podem interferir 
no rapport.
2. Obtenção do autoconhecimento: O orientando, através dos 
testes e do diagnóstico feito pelo orientador, tem conhecimento das suas 
limitações, de suas fraquezas, de suas possibilidades e fica mais habili­
tado a usar os seus recursos.
3. Planos de ação: São usadas técnicas diversas. É defendido o 
ponto de vista de que o orientador deve dar a sua opinião desde que o 
orientando a peça. Também se admite a opinião do orientador quando 
este sente que o orientando toma um caminho que pode ser prejudicial 
para ele. Em ambos os casos o orientador deve explicar os seus pontos 
de vista, dizendo, no segundo caso, quais os perigos que envolve a de­
cisão escolhida pelo orientando, para que ele aceite substituí-la.
30
Para alcançar este objetivo, são usadas as seguintes técnicas:
a) persuasivas: O orientador não pode ter atitude ditatorial. É pre­
ciso levar o indivíduo a aceitar o diagnóstico e a orientação, usan­
do persuasão e simpatia. A idéia de “ditadura” é rejeitada total­
mente.
b) interpretativas: Interpreta-sea ação do orientando para levá- 
lo ao real conhecimento do problema.
c) explanatórias: Consideradas por Williamson(5) como as mais 
adequadas. O orientador faz o diagnóstico, explana todos os 
“prós” e “contras” e deixa que o orientando reflita até encontrar 
a decisão que deverá, posteriormente, discutir com o orientador. 
Exemplo: Orientador — Segundo me parece, as aptidões por você 
reveladas indicam poucas chances de vencer o curso da Faculdade 
de Medicina. No entanto, suas possibilidades no setor de admi­
nistração de negócios são muito mais promissoras. Vou lhe apre­
sentar as razões para minhas conclusões'. Você tem fracassado con­
tínua e consistentemente em Biologia e Química. Você não possui 
o padrão de interesses característicos das pessoas que têm tido 
sucesso na Medicina, o que indica que provavelmente não encon­
traria satisfação nessa atividade. Por outro lado, sua aptidão para 
Matemática é excelente, sua inteligência geral é de bom nível e 
e seu perfii de interesses coincide com o dos contadores. Esses 
fatos parecem-me suficientemente significativos para justificar a 
sua escolha de Contabilidade como futura profissão. Suponha­
mos que você pense um pouco sobre esses fatos que lhe apresen­
tei e também sobre a minha sugestão? Fale com seu pai a esse 
respeito e converse também com o professor Morais, que ensina 
Contabilidade, e volte na próxima quinta-feira, às 10 horas, para 
me dizer a que conclusão você chegou. Recomendo que dê mui­
ta atenção a todos os “prós” e “contras” antes de tomar uma de­
cisão final.
Orientando — Está certo. Vou fazer isso mesmo. Acho que o 
senhor me ajudou bastante a conhecer minhas possibilidades. Na 
próxima quinta-feira voltarei a fim de conversarmos mais sobre o 
assunto. É possível que até lá já tenha tomado uma decisão.
4. Encaminhamento: Indicação de instituições especializadas 
para conseguir melhor ajustamento do indivíduo.
Em síntese, primeiramente verificamos que o aconselhamento di­
retivo está baseado numa relação humana que implica autoridade, não 
no sentido de força ou coação, mas calcada no reconhecimento da com­
petência do orientador. O orientador é o mais experiente, o mais trei­
nado para ter o papel de dirigente nessa relação humana.
Em segundo lugar, o papel do orientador é o do líder que assume 
a maior responsabilidade, porque julga as decisões do orientando e se­
leciona as mais adequadas. Os rogerianos chamam esta orientação de 
Counselor-Centered (o orientador é o centro do processo).
O clima psicológico da orientação dirigida é determinado pelo cen­
tro de referência do orientador. A entrevista se assemelha a uma situa­
ção social. Cada um segue a sua própria linha de pensamento. O orien­
tador se concentra nas informações do orientando e as trabalha, chegan­
do à conclusão; transmite-a ao orientando que pode aceitá-la ou não.
A relação entre o orientador e orientando se caracteriza por maior 
ênfáse no aspecto intelectual do que no emocional, visto que o material 
com que lida é a informação; o histórico do caso é mais importante do 
que as vivências do orientando.
Baseia-se na orientação médica que dá importância ao histórico, 
à anamnese, que levam ao diagnóstico e às conclusões. Por isso é tam­
bém chamado aconselhamento clínico.
32
RESUMO
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO ACONSELHAMENTO " 
DIRETIVO:
1. Conceito unitário de organismo e ambiente.
2. Psicologia topológica — Kurt Lewin.
3. Interação social no desenvolvimento da personalidade
— Allport.
4. Situacionismo (conceito bio-social da personalidade)
— Gardner Murphy.
ATUAÇÃO DO ORIENTADOR:
1. Rejeição do autoritarismo.
2. Neutralidade relativa.
3. Atitude ativa: — seleciona os tópicos
— define os problemas
— investiga as causas
— diagnostica
— apresenta soluções
ETAPAS:
1. Rapport.
2. Obtenção de autoconhecimento
3. Conselho de planos de ação.
4. Encaminhamento.
TÉCNICAS APLICADAS:
A. Persuasivas.
B. Interpretativas.
C. Explanatórias.
D. Informativas.
33
O PROCESSO x - | 
DE ACONSELHAMENTO g K
DIRETIVO
I. FÀSES DO ACONSELHAMENTO DIRETIVO
Aconselhamento diretivo é denominado, pelos seus seguidores, de 
aconselhamento clínico, porque segue, no seu desenvolvimento, uma 
seqüência semelhante à da orientação médica.
Conselheiro clínico (clinicai counselor) é o nome que se dá nos 
Estados Unidos ao orientador que diagnostica e aconselha a respeito de 
problemas, nas seguintes áreas: higiene mental, orientação educacional 
e profissional. Baseia-se nos seguintes aspectos:
á) obtenção de dados
b) interpretação desses dados pelo orientador
c) ênfase no diagnóstico e prognóstico.
Na atividade do orientador não está incluída a aplicação e inter­
pretação de testes, que é função especializada do psicometrista.
O trabalho do orientador se resume nas seguintes etapas: análise, 
síntese, diagnóstico, prognóstico, aconselhamento propriamente dito e 
seguimento.
Análise: Refere-se à coleta de dados, em fontes diversas, que 
proporcionam uma compreensão mais adequada do orientando.
Síntese dos dados obtidos: O orientador faz um todo compreen­
sivo e verifica os pontos altos e baixos da vida do orientando. Síntese 
é, pois, o resumo dos dados obtidos na análise, organizados de maneira 
significativa, que revela vantagens e deficiências, ajustamentos e desa- 
justamentos. Èxige do orientador um conhecimento sólido dos campos 
da psicologia aplicada, além da técnica do aconselhamento dirigido. A 
cada fator obtido, o orientador atribui um peso adequado. Não é fá-
34
cil identificar os dados significativos e lhes atribuir um peso. É preciso, 
inclusive, uma certa intuição, além de muita experiência para conseguir 
encontrar o significado de dados e informações, que muitas vezes são, 
por si mesmos, irrelevantes.
Diagnóstico: Consiste na conclusão do orientador a respeito dos 
diferentes aspectos apresentados pelo orientando. A validade do diag­
nóstico depende da validade dos dados obtidos e também da correção 
e capacidade de o orientador reconhecer os aspectos mais importantes 
e conseguir formar uma relação entre eles. É muito importante que o 
orientador verifique, objetivamente, através de uma ampliação de in­
formações com colegas, ou discussão com pessoas especializadas, a 
validade do seu julgamento e a fidedignidade do seu diagnóstico.
Prognóstico: Em vista de todos os fatores analisados, quais serão 
os resultados que se podem esperar, seguindo esta ou aquela solução ou 
plano de ação? A resposta a esta pergunta constitui o que chamamos 
de prognóstico. Prognóstico se refere à previsão do desenvolvimento 
futuro do problema apresentado pelo orientando. A concordância entre 
o prognóstico e o que na realidade acontece demonstra a capacidade 
do orientador. É o melhor meio de validar o seu julgamento clínico, 
conhecimento cooperacional, insight e habilidade. Em matéria de prog­
nóstico tem-se a tendência muito humana e compreensível de nos lem­
brarmos apenas de nossos sucessos, e com isso o orientador continua 
a reincidir nos mesmos erros.
Aconselhamento propriamente dito: Refere-se às iniciativas to­
madas pelo orientador clínico, a fim de conseguir um ajustamento ou 
reajustamento. Nas fases anteriores os dados são elaborados, mais ou 
menos, somente pelo orientador. Nesta fase, todos os dados são levados 
ao conhecimento do orientando, e então, é elaborado um plano de ação. 
Conselheiro e orientando trabalham em conjunto, avaliando as vanta­
gens e desvantagens de determinadas atitudes.
Seguimento: Tem a finalidade de constatar a eficiência do conse­
lho e assistir o orientando em problemas futuros. É uma fase impor­
tante, por ser a única maneira de se verificar a validade do diagnóstico 
e prognóstico. Nem sempre o seguimento é realizado de maneira sis­
temática, por haver uma dificuldade grande de se manter um serviço 
constante de contato com o orientando. Nas poucas vezes em que foi 
realizado, teve caráter de pesquisa, com o objetivo de investigar deter* 
minados casos.
Na prática do aconselhamento, nem sempre as fasesseguem a or­
dem descrita. O roteiro, muitas vezes, é bem diferente. Assim, pode-se 
fazer um aconselhamento no campo profissional, ao mesmo tempo que 
se diagnostica sobre um problema de ordem emocional.
O aconselhamento é, na verdade, um processo dinâmico. Tratan­
do-se de orientação profissional, por exemplo, pode-se dizer que é um 
• processo de longa duração, que se inicia no nível do curso secundário 
e se prolonga, através da vida, não terminando mesma quando o indi­
víduo ingressa num campo profissional determinado. O aconselhamen­
to necessita ser recapitulado, repetido e reorganizado em novas for­
mas, no que se refere às seis etapas mencionadas. Muitas vezes o 
processo de orientação profissional continua, mesmo depois de ter-se 
aposentado o orientando, ou em face de uma incapacidade que o im­
peça de trabalhar em sua profissão. Aí, o aconselhamento se fará numa 
seqüência diferente.
Outro aspecto das fases do aconselhamento diretivo é a interde­
pendência entre elas — não podem ser separadas.
Finalmente, o aconselhamento não consiste na mera complemen- 
tação de um caso, com um objetivo definido, formulado e aceito pelo 
orientando, no plano verbal do comportamento. Mas constitui, princi­
palmente, a aprendizagem da intercorrelação entre causa e efeito, rela­
cionada com as suas características pessoais e a aplicação adequada 
desses conhecimentos, que no futuro vai ajudá-lo na resolução de novos 
problemas.
II. TÉCNICAS ANALÍTICAS
São assim denominados por Williamson(7>8) os recursos usados 
para obter, de várias fontes, dados completos, necessários e relevantes 
a respeito do orientando. Depois de interpretados pelo orientador são 
transformados em diagnóstico. Todo o indivíduo é uma combinação 
única de traços gerais. Esta combinação determina uma individualida­
de que deve ser analisada no aconselhamento: vista em termos do pas­
sado e do presente e projetada no futuro. O orientador visa a compre­
ender essa combinação (individualidade) para aconselhar, propiciando 
melhor ajustamento ao indivíduo. Fontes para obtenção de dados ana­
líticos: testes psicológicos e informações diversas.
Os pais revelam nas entrevistas, às vezes, inconscientemente, as 
causas do problema dos orientandos. Os professores e parentes podem 
fornecer informações relevantes e preciosas. Todavia, a entrevista com 
o orientando é o ponto culminante do processo do aconselhamento. É 
o método mais antigo, porém, o mais importante. Uma boa entrevista 
exige espontaneidade — é uma arte. Tem 3 elementos primordiais:
1. ° A própria habilidade do orientador (capacidatie de empatia e
treinamento ou experiência pessoal). O fato de o orientador não 
possuir essas duas qualidades prejudicará o sucesso da entrevista.
2. ° Transparência e comunicabilidade do orientando. Há casos em
que, pela falta dessa comunicabilidade, não se consegue atingir os 
objetivos que se desejam.
36
3.° Seleção e apresentação das questões que vão ser abordadas e que 
fornecem informações verdadeiras e interessantes sobre o orien­
tando.
OBSERVAÇÕES SOBRE A ENTREVISTA
1. O orientador deve verificar as vivências do orientando e como 
ele encara o seu problema. Muitas vezes é preciso uma conversa pre­
paratória para deixar o orientando à vontade. Entretanto, recomen­
da-se cuidado, para não transformar esta conversa em um contato de 
aspecto social.
2. O orientando merece uma satisfação a respeito das notas que 
são tomadas. Se o indivíduo fizer alguma objeção o orientador deve 
desistir das anotações.
3. A entrevista não deve ser usada para obtenção de. dados fa- 
tuais. Estes devem ser obtidos anteriormente e, se possível e necessá­
rio, memorizados pelo orientador. A entrevista visa a conhecer as vi­
vências do orientando. Williamson (s i) preconiza que o orientador deve 
ter todo& os dados fatuais assimilados antes do primeiro contato com o 
orientando. Na realidade, a entrevista é o ponto culminante do acon­
selhamento. Admite-se que seria possível para o orientador muitíssimo 
experimentado realizar um aconselhamento sem nenhum contato com o 
orientando, utilizando somente os resultados das técnicas analíticas. 
Entretanto, essa relação entre o orientador e orientando é de tal impor­
tância, que até mesmo nestes casos não deveria ser dispensada. É a esta 
relação que chamamos rapport. Signific^ a compreensão entre dois 
seres hurnanos que analisam e trabalham na solução de um problema 
importante para ambos. Desse rapport é que depende a eficiência do 
aconselhamento. Para conseguir esta relação vale a pena gastar o tempo 
que for necessário. A entrevista dá ao orientando oportunidade de 
catarse, através da verbalização dos seus problemas.
4. Outro aspecto da entrevista é a transmissão de informações.
O orientador transmite ao orientando todos os dados que o levaram ao 
diagnóstico. Isto porque seria falta de respeito apenas indicar a orien­
tação, sem dar as razões que a determinaram.
Erickson (4) faz uma série de recomendações a respeito da en­
trevista:
1. ° Desde o início, a entrevista deve ter uma certa estrutura, para que
não haja o perigo de se transformar em uma conversa social.
“Como podemos ajudá-lo?” é uma boa maneira de iniciar a 
entrevista.
2. ° O orientador não deve completar as frases do orientando. Este
deve ter a liberdade de achar o seu próprio pensamento e procurar
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o termo adequado. Jamais se deve cortar o fluxo do pensamento 
do orientando. Formular perguntas que sugiram respostas do tipo 
“sim” ou “não” é uma maneira de impedir a liberdade do pen­
samento do cliente. Por outro lado, também não se deve permitir 
que o orientando se perca no emaranhado dos seus pensamentos. 
Quando isso acontece, é preciso trazê-lo de volta ao tópico da 
entrevista, abordado anteriormente.
3. ° A atitude do orientador deve ser de aceitação completa das vi­
vências do orientando. Não deve haver discussão de pontos 
de vista.
4. ° Pausas, silêncios, são, às vezes, embaraçosos para o orientador.
Entretanto, podem ser bastante produtivos para o orientando e por 
isso não se recomenda a interrupção imediata. O orientando po­
derá estar revivenciando certas experiências que não deseja ou não 
pode apresentar verbalmente, naquele momento. Quando forem 
muito longas, o orientador poderá solicitar que ele se estenda um 
pouco mais, por exemplo, sobre o tópico anterior da entrevista 
que estava sendo discutido.
5. ° Deve haver um tempo marcado e o orientando deve ter conheci­
mento do tempo que dispõe. Sendo necessário, far-se-ão outras 
çntrevistas. Não se deve discutir um número exagerado de idéias 
em cada sessão, pois isso pode confundir o orientando.
6. ° É necessário evitar o üso do pronome pessoal "eu” e usar expres­
sões mais vagas, tais como: "parece q u e . . .”; “ta lv ez ...”; “pa­
rece melhor. . . ” etc.
7. ° Recomenda-se.que se faça o resumo dos assuntos que foram dis­
cutidos em cada entrevista. No final da entrevista, cabe ao orien­
tador fazer, com o orientando, uma síntese dos assuntos ventilados.
8. ° O término da entrevista não deve transformar-se numa conversa
social, que nada tem a ver còm os problemas discutidos. Isto pode 
prejudicar o resultado da entrevista, que é uma relação humana 
sui generis, e não pode ser confundida com contato social.
III. VALOR DOS TESTES COMO INSTRUMENTOS 
DE ACONSELHAMENTO E SUA 
INTERPRETAÇÃO PARA O CLIENTE
A orientação diretiva considera os testes como instrumentos pre­
ciosos no aconselhamento, embora tenha havido um decréscimo no in­
teresse pelos mesmos, nos últimos anos. Primeiramente, devido ao apa­
recimento da teoria não-diretiva, que faz pouco uso de testes; em se­
gundo lugar, as objeções feitas por certos autores que apontam seus 
defeitos e fraquezas: estão sujeitos a uma série de enganos, não indicam 
determinados aspectos muito importantes, como a motivação, a ambi­
ção etc.
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H ahn e Mac Lean( 5) ressaltam vários enganos relacionados com 
a aplicação de testes:
1. Engano da crença — O fato de acreditar excessivamente em um 
teste, fazendo

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