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Texto 8- Cap. VI Pescadores de Anzóis A.1 Os cientistas pertencem ao mesmo clube que os caçadores, detetives e pescadores "Teorias são redes; somente aqueles que as lançam pescarão alguma coisa."○ O cientista como um pescador lançando as redes e recolhendo os mais inesperados espécimes nesse mar infinito da realidade ○ • A.2 É evidente que nem as redes dos pescadores nem as dos cientistas caem do céu. Elas têm que ser construídas O pescador faz as suas redes com fios; o cientista com palavras○ Estas redes construídas com palavras têm o nome de teorias○ • A.3 Um cientista que consegue decifrar um código de uma mensagem cifrada conseguiu uma rede para segurar os peixes que lhe interessam "Galileu, ao propor a matemática como a linguagem a ser usada para traduzir a natureza, construiu uma rede cujas as malhas deixam passar cheiros, sons, cores, sensações táteis.. Em seu aquário só podiam sobreviver relações matemáticas, por isso sua rede só segurava objetos matematizáveis." ○ • B.1 A habilidade não é feita pela ferramenta. Os laboratórios não fazem cientistas• O que torna o indivíduos caçadores, pescadores ou detetives é o conhecimento que eles possuem sobre aquela entidade, bicho, peixe ou gente que, mais cedo ou mais tarde, terão que pegar. Esse conhecimento se constitui em uma teoria Teorias são enunciados acerca do comportamento do objeto de interesse dos cientistas○ Teoria é o conjunto de conhecimento acerca dos hábitos comportamentais das entidades a serem caçadas, sem o que o cientista não poderá preparar-lhes armadilhas. Um cientista é uma pessoa que sabe usar as redes teóricas para apanhar as entidades que lhe interessam ○ • Uma rede vale não só pelo que pega, mas também pelo que deixa passar• Toda teoria, da mesma forma que as redes, incluí um pré-julgamento ou um pré-juízo acerca das coisas destituídas de significação. São essas coisas que se deve deixar passar As redes da nossa ciência moderna querem pegar o que existe antes da tradução dos sentidos, mesmo quando não há tradução dos sentidos ○ A psicologia tradicional ignorava os lapsos, os sonhos, os comportamentos neurológicos e psicóticos, como sento destituídos de significação. Freud elabora uma nova teoria, e os peixes antes rejeitados como repulsivos passaram a ser procurados com empenho ○ • O rigor de uma ciência é diretamente proporcional à rotina do objeto Rotina = Leis Leis são enunciados da rotina, da falta de imaginação, da monotonia, do eterno retorno, da igualdade, dos objetos. ○ A ciência do homem busca regularidades e monotonia○ Todos somos monótonos: o comportamento ocorre em cima de leis, da mesma forma que a aranha anda sobre a sua teia○ A ciência tem a ver com a busca da ordem-unida, da regularidade, dos hábitos da caça. Ela não se interessa pela diferença, mas pelo comum. A lei é o comum. Por ser comum, é também universal. ○ • Um indivíduo é um ser único. Sobre ele não pode fazer ciência. Mas o fato é que todos os indivíduos encontram-se localizados em certas entidades sociais, que são sociais exatamente por serem comuns e universais Ex.: Cada um tem um papel na sociedade○ Nas ciências da natureza, tudo é tão dominado pela rotina que é tudo previsível○ • B.2 As teorias dão informação sobre os hábitos comportamentais de certas classes, tipos e entidades No campo da física e da química os tipos se identificam como indivíduos. Assim: Ácido sulfúrico é sempre ácido sulfúrico, seja aqui, seja na China. Não existe ácido sulfúrico diferente A luz, não importa onde ela se encontre, é sempre luz, sempre brinca de onda, sempre brinca de partícula É essa uniformidade que torna muito mais fácil o trabalho dos cozinheiros dessa área. Cientistas são, de certa forma, cozinheiros. Artigos científicos são receitas ○ No campo da biologia, as coisas se complicam um pouco Cães são cães em qualquer lugar do mundo, mas existem os mansos e os ferozes.. Homens são homens em todos os lugares, mas se diferem na música, guerra, ternura... ○ • O mundo humano não é parte da natureza como a nossa roupa não é um prolongamento da nossa pele. O mundo da cultura é uma invenção, e a variação é tão grande que os indivíduos podem mesmo decidir ser diferentes do que são. • Aula 11 sábado, 2 de maio de 2020 16:37 C.1 Um evento se apresenta como novo quando significa uma intrusão num padrão estabelecido de organização. Só há desordem por oposição de um padrão de ordem • O jogo da ciência só é possível se o cientista tem uma ideia muito clara da ordem que se espera da realidade. Fora desse quadro de ordem, os fatos não têm absolutamente significação. Uma das funções mais importantes do estudo da teoria e da história da ciência é fazer com que os estudo se familiarize: 1: com a ordem que é, no momento, aceita pela comunidade dos cientistas○ 2: com as sucessivas revoluções e transformações por que essa ordem passou○ • D.1 "Os cientistas preferem anzóis ao invés de redes." Os cientistas precisam de resultados específicos e precisos. Numa rede vem tanta coisa inesperada e indesejável..○ Anzóis são mais precisos; se você vai pescar, que anzol usa?○ Anzóis são métodos Assim como os anzóis predeterminam o resultado de uma pescaria, os métodos predeterminam o resultado da pesquisa Os métodos são preparados de antemão para pegar o que desejamos Se você faz uma pesquisa no campo da psicologia, usando o método behaviorista, comportamentalista, não existe a mínima possibilidade de obter resultados favoráveis à psicanálise □ ○ • "Não se deixe hipnotizar, mistificar, enganar pelas repetidas afirmações acerta das maravilhas do método científico. Ele é muito importante. Sem anzóis não há peixes. Cuidado, entretanto, com a arrogância do pescador que, com um peixinho na mão, pretende haver desvendado o mistério da lagoa escura.." Na ciência o equívoco pode ocorrer mais que o acerto○ • Capítulo VII: A Aposta A.1 Redes não se constroem com peixes Redes são feitas para pegar peixes. No entanto, é frequente encontrar pessoas que teorias se fazem com dados. É possível que sejam levadas a essa curiosa conclusão a partir do fato de que teorias são usadas para pescar dados. ○ Dados são entidades que só fazem sentido dentro das malhas da teoria, mas não se prestam a construir teorias○ • "Existe um fato a priori inevitável em todo o trabalho científico"? Os resultados da investigação não serão fatalmente viciados pelos pré-conceitos que carrego comigo?○ • A.2 A ciência ocidental surgiu como uma rebelião contra tais elementos a priori• Francis Bacon desejava estabelecer os fundamentos sobre os quais se poderia construir o edifício da ciência, em oposição aos filósofos que "corriam atrás de palavras mais do que da matéria". Seria necessário purificar a mente de todas as ideias preconcebidas No passado, quando qualquer problema surgia, não se ia à natureza para saber como as coisas se davam. O filósofo ou teólogo se perguntava acerca das grandes autoridades do passado A luta entre o pensamento baseado na autoridade e o pensamento orientado pela investigação da natureza é fascinante. Só gostaria de lembrar que o que estava em jogo não era apenas a compreensão filosófica de ciência, mas também um sem-número de interesses políticos. "Os fortes pensam de maneira diferente dos fracos.". Em nosso caso, o representante da ordem eclesiástica medieval buscava suas armas no passado; os marginais, sem ter acesso a esse passado, voltavam-se à natureza ○ • A.3 Com o enfraquecimento do poder dos "cientistas" da ordem medieval, os filósofos naturais trataram de preparar os fundamentos de u novo saber voltado para a natureza Bacon tratou de fazer um inventário das perturbações possíveis do nosso conhecimento, sugerindo um quadro de patologia do poder. Ele deu o nome de ídolo a cada uma dessas perturbações Ídolos da tribo Ídolos da caverna Ídolos do foro Ídolos do teatro ○ • É assim que um novo clima intelectual se estabelece. Por um lado, um sadio ceticismo quanto àquilo quehavia sido herdado do passado. Por outro, a preocupação em aprender da natureza "Basta de saber livresco. Agora o livro a ser decifrado e lido é o da natureza. Não era isso que dizia Galileu?"○ O que se busca é uma linguagem em que o homem esteja silencioso e que a expressão rigorosa daquilo que os fatos nos autorizam a dizer ○ • A.4 Aprender da natureza• "A razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno, que ouve tudo que a professora se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou." • Bacon estabelece um método para organizar o pensamento. Os fatos são a voz da natureza, a questão, então, é organizar esses fatos, de modo que formem frases coerentes. O cientista não precisa dizer coisa alguma. Basta-lhe ordenar os dados • Tabela de afirmações O observador deveria anotar ali onde se encontra a propriedade que ele está estudando ○ Tabela de negações O conhecimento de que o corpo é quente, ao passo que um cadáver é frio, deve abrir avenidas para o saber ○ Tabela de comparações O objetivo era verificar se existe alguma relação entre variações observadas ○ B.1 Método indutivo para a ciência A indução tem como programa construir o discurso da ciência a partir de fenômenos observáveis○ A indução é uma forma de pensar que pretende efetuar, de forma segura, a passagem do visível para o invisível Não é necessário concluir coisa alguma sobre o passado, porque ele é visível, dado. Mas o futuro é invisível. Quando concluímos sobre o futuro a partir do passado, estamos fazendo um raciocínio indutivo: do conhecido ao desconhecido, do visível ao invisível Sempre que passamos do passado para o futuro, ou do particular para o geral, ampliamos o que sabemos ○ • B.2 Argumentos dedutivos ou demonstrações Na dedução, você toma por assentado um conhecimento universal, geral. Por exemplo: o quadrado da hipotenusa é igual a soma de quadrado de seus dois catetos. Essa é uma afirmação universalmente válida e que pode ser demonstrada. É impossível a existência de um triângulo que escape dessa regra. ○ Na demonstração, o que se faz é simplesmente isso: dado certo ponto de partida, o pensamento examina as conclusões inevitáveis que as seguem "Supondo que todos os homens são quadrúpedes, segue-se que alguns homens são quadrúpedes" ○ • B.3 O pensamento indutivo se levantou contra a ciência medieval, que pretendia ampliar o conhecimento da natureza por meio da dedução. Mas a dedução não serve para ampliar conhecimento de coisa nenhuma. Ela só serve para garantir o rigor do caminho seguido pelo pensamento, quando ele pensa sobre si mesmo Ideias são produzidas pelos próprios pensamentos○ • As conclusões de uma demonstração são logicamente necessárias. Mas não existe necessidade lógica nos caminhos da natureza• C.1 Se os pontos de partida de um pensamento forem errados, não importa o rigor do pensamento, as conclusões sempre serão erradas • Os preconceitos são pontos de partida que resultam não do exame da realidade, mas de nossas deformações mentais "Felizmente, a ciência é destituída de preconceitos.": este é mais um preconceito. Não foi só Galileu que sofreu nas mãos da inquisição. Também as comunidades científicas possuem suas inquisições, com outros nomes ○ • C.2 O problema está em que parece que a indução é também uma ilusão. Por mais que nos esforcemos para seguir, com rigor, o caminho que vai dos fatos aos enunciados de leis e teorias, há indícios de que, em certas passagens, trapaceamos sem querer • D.1 Tudo aquilo que podemos investigar se divide em duas classes: Relação de ideias: geometria, álgebra, aritmética, lógica, etc. (método dedutivo)○ Matérias de fato: tudo que acontece no mundo real, que nos é dado pelos sentidos. (método indutivo) Mas a razão, por si mesma, nunca permitiria que concluir que a água mata a sede e apaga o fogo. As matérias de fato só são conhecidas pela experiência Conhecer as matérias de fato significa conhecer suas causas e seus efeitos ○ • Se digo "Todos os homens são mortais. Sócrates é homem; então Sócrates é mortal." O raciocínio é lógico. A passagem de todos para alguns é lógica, demonstrativa, analítica○ As teorias, essas ambiciosas generalizações que abarcam o passado, o presente e o futuro, o aqui e os confins do espaço, são construídas sobre a nossa crença na continuidade do universo, uma exigência que brota da fé, dos sentimentos e dos hábitos ○ • O método científico pressupõe a imutabilidade dos processos naturais ou o "princípio da uniformidade da natureza"•