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Metodologia do ensino de atletismo Antenor de Oliveira Silva Neto SUMÁRIO 1 Introdução ao atletismo 9 1.1 Conhecendo o atletismo 9 1.2 Provas oficiais 14 1.3 Instalações 22 2 Atletismo na escola 30 2.1 Aspectos didáticos e metodológicos 30 2.2 Atletismo e a Base Nacional Comum Curricular 35 2.3 O papel do professor no ensino do atletismo 41 3 Corridas e saltos 47 3.1 Corridas rasas, meio-fundo e fundo 47 3.2 Corridas com barreiras e obstáculos 55 3.3 Revezamentos 61 3.4 Saltos horizontais e verticais 63 4 Lançamentos e arremesso 72 4.1 Lançamento de disco 72 4.2 Lançamento de dardo 75 4.3 Lançamento de martelo 78 4.4 Arremesso de peso 80 5 Provas combinadas e marcha atlética 85 5.1 Provas combinadas: heptatlo e decatlo 85 5.2 Marcha atlética 89 6 Paratletismo 94 6.1 Paratletismo e inclusão 94 6.2 Classificação funcional 96 6.3 Provas 99 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! Introdução ao atletismo 9 1 Introdução ao atletismo Antes de conhecer a história do mais tradicional e secular dos esportes, é interessante perguntar: você sabia que o atletismo é um conjunto de modalidades esportivas? Isso mesmo! O atletismo se divide em corridas, lançamentos, arremessos e saltos. Geralmente, essas modalidades são praticadas em estádios, exceto a maratona – por ser uma corrida de longa distância – e as corridas de rua. Com origem na Grécia, o atletismo é um dos esportes mais anti- gos, com a primeira competição de que se tem registro ocorrendo em 776 a.C., na cidade de Olímpia. É considerado um esporte de base, pois sua prática possui a extensão dos movimentos funda- mentais do ser humano: caminhar, correr, saltar e lançar. Neste capítulo, conheceremos a origem do atletismo e o seu processo histórico no Brasil e no mundo. Veremos, também, os principais órgãos responsáveis por esse esporte, as competições oficiais, as instalações e os equipamentos necessários. 1.1 Conhecendo o atletismo O atletismo é inerente ao homem , afinal , nossos ancestrais já anda - vam e precisavam correr , saltar e lançar como uma forma primitiva de sobrevivência , numa luta constante de busca por alimentos e contra predadores. Podemos dizer que, a partir disso, o homem desenvolveu habilidades que explicam o surgimento das primeiras competições es- portivas atléticas , já que elas nasceram da imitação dos movimentos naturais do ser humano. Nesse sentido, o atletismo é considerado o esporte mais antigo do mundo. Trata-se de um conjunto de modalidades esportivas que envol- ve corridas, saltos, lançamentos e arremessos. No início de sua prática, essas atividades eram consideradas preparação para a guerra. 10 Metodologia do ensino de atletismo De acordo com Oliveira (2006), há evidências de que a origem do atletismo aconteceu por volta de 4 mil anos atrás, no Antigo Egito, onde os homens realizavam corridas. Já na Grécia Antiga, surgiram jogos re- gulares, com disputas de corrida, arremesso de objetos diversos e sal- tos. Porém, os registros efetuados na Grécia, em 776 a.C., indicam que somente a corrida existiu no estádio. EUPHILETOS. Ânfora do prêmio Panathenaic de terracota. c. 530 a.C., 62,2 cm. Terracota. Metropolitan Museum of Art, Nova York. Pharos//W ikimedia Commons Os Jogos Olímpicos da antiguidade tiveram início no ano de 776 a.C., sendo realizados até 393 d.C., quando foram suspensos por meio de uma proibição expressa do imperador romano Teodósio I. Este impe- diu a realização das competições por motivos religiosos. Por ser cristão, o imperador combatia qualquer movimentação, reunião ou culto que promovesse práticas não cristãs, e os torneios olímpicos estavam en- tre os eventos que mais agrupavam pessoas, sendo considerados uma atividade pagã. A decisão fez com que o templo dedicado a Zeus, em Olímpia, fos- se fechado para os Jogos Olímpicos, interrompendo-se, assim, uma tradição depois de mais de mil anos. Mariano (2012) afirma que essa decisão gerou muita revolta no povo, pois não se tratavam apenas de competições, os jogos eram também um momento festivo. Entretanto, eles nada puderam fazer para combater a proibição. Já na era moderna, mais precisamente em 1892, Pierre de Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin, apresentou um projeto de Figura 1 Ânfora grega com repre- sentação de práticas de atletismo Introdução ao atletismo 11 restituição da tradição para se realizar um evento desportivo periódico, tal qual se fazia na Grécia Antiga. Sua intenção era criar um movimento internacional, chamado por ele de olimpismo, com o intuito de promo- ver a união entre os povos por meio do esporte. Além disso, Pierre queria formar o caráter dos jovens com a prática esportiva, a disciplina e o autoconhecimento, para que conseguissem dominar a si mesmo, ter espírito de equipe e disposição para competir. O projeto, entretanto, só foi colocado em prática no ano de 1894, após a realização de um congresso esportivo na cidade de Paris, que contou com a participação de 14 países. Nesse mesmo encontro, foi criado o Comitê Olímpico Internacional (COI), com sede na Suíça. O COI criou as normas para que fossem realizados os primeiros jogos em 1896, e Atenas foi escolhida como cidade-sede, por sentimento de valor histórico e representativo. O programa de atletismo dos Jogos Olímpicos de 1896, em Atenas, foi composto por corridas de 100 m, 400 m, 800 m e 1.500 m; além de 110 m com barreiras, saltos em distância, altura, triplo e com vara, e, ainda, arremesso de peso e lançamentos de disco. Uma maratona es- pecial foi sugerida pelo francês Michel Bréal para recordar o soldado Fidípedes, que correu da cidade de Maratona até Atenas para anunciar aos gregos a vitória de Milcíades sobre os persas em 490 a.C. O percur- so foi de 42 km, que compreendia a distância aproximada percorrida por Fidípedes, e teve como vencedor o grego Louís Spýros. Lu ck yB ird ie /W ik im ed ia C om m on s Figura 2 Pierre de Frédy, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna Materialscientist / Wikimedia Commons Figura 3 Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas, 1896 12 Metodologia do ensino de atletismo Primeiramente aberto apenas a competidores do sexo masculino, o programa de atletismo olímpico foi modificado com o tempo. Em 1900, por exemplo, foram introduzidas as seguintes provas: 400 m com bar- reiras, 2.500 m com obstáculos e lançamento de martelo. Dentre as modalidades clássicas, as últimas a aparecerem no programa dos Jogos Olímpicos modernos foram o lançamento de dardo, em 1908, e o pen- tatlo, em 1912. Nesse ano, realizaram-se também o primeiro decatlo e os revezamentos de 4×100 metros e 4×400 metros. É importante destacar que o programa original olímpico era ex- clusividade dos homens, e a cada ano foram sendo acrescentadas as modalidades; a última prova clássica a ser inserida foi o lançamento de dardo, oficialmente disputado em 1908. As mulheres vieram a par- ticipar das provas de atletismo dos Jogos Olímpicos somente em 1928. No Brasil, o atletismo surgiu no final do século XIX. Em meados dos anos 1880, os resultados de competições de várias modalidades do atletismo no Rio de Janeiro eram anunciados no Jornal do Commercio da capital carioca. Entre os anos de 1900 a 1930, o atletismo teve uma ascensão mui- to significativa, chamando a atenção de muitos atletas da época para a sua prática. Sendo assim, ele foi consolidado no país pela antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que era a responsável por praticamente todos os esportes no Brasil. De acordo com a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), a CBD see humanizada. De acordo com Matthiesen (2017), para que o atletismo ganhe mais espaço na escola, é necessário, por exemplo, que o professor não tra- balhe o correr simplesmente por correr, assim como o saltar por saltar e o arremessar e lançar como atos simples e sem significados. Estes devem ser contextualizados, discutidos, refletidos e analisados sob a ótica da integralidade e interdisciplinaridade. O artigo Atletismo Escolar: possibilidades e estratégias de objetivo, conteúdo e método em aulas de Educação Física, publicado por Carmen Marques e Jacob iora na revista Movimento em 2009, apresenta uma crítica sobre a utilização do atletismo apenas com métodos que visam ao alto rendimento, desprezando criatividade, novas formas de movimento e inserção destas no contexto dos esportes. Propõe-se o ensino do esporte na escola com fins pedagógicos e utilizando metodologias que se adequem tanto à realidade escolar quanto aos espaços disponíveis para as aulas práticas. Acesso em: 18 maio 2020. https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/3078 Artigo 44 Metodologia do ensino de atletismo Portanto, é fundamental que, na escolha dos conteúdos curriculares da escola, seja ponderado que a função do professor não é somente a transmissão do conhecimento, e cabe à escola abordar a complexida- de de valores que precisam ser trabalhados no ambiente educacional. Nesse contexto, o atletismo apresenta-se como um importante aliado pelas particularidades do seu surgimento aos dias atuais. Sempre que os professores pensam em conteúdos clássicos nas aulas de Educação Física, remetem-se ao atletismo pela característica de partici- pação e compreensão dos indivíduos, independentemente de classe social, etnia ou sexualidade. Afinal, por meio do atletismo, o professor discute es- sas questões por diferentes vieses, dentre os quais podemos citar as dife- renças de pesos, distâncias e tempos de provas masculinas e femininas. Um elemento que merece maior atenção do professor é a competi- tividade. A competição e a individualidade são inerentes ao atletismo, mas o professor pode trabalhá-las em grupos e promover a socializa- ção, comunicação e cooperação com atividades lúdicas, principalmente nos primeiros anos do ensino fundamental. Assim, os alunos apoderam-se de competências e habilidades fundamentais das corridas, saltos, lançamentos e arremessos, mas especialmente das experiências que esses movimentos naturais e a execução do gesto técnico podem proporcionar. Essa máxima só é possível quando o professor se coloca dentro do processo como um facilitador das descobertas do aluno. Contudo, para que o ensino do atletismo tome essa dimensão de espaço e acontecimento, é preciso que a participação de todos seja o princípio das ações. Aquele atletismo que apenas seleciona os mais ha- bilidosos e de alto desempenho não deve fazer parte do esporte com caráter educacional, participativo e inclusivo. Isso requer do professor habilidade e mediação de conflitos entre os alunos que possuem uma predisposição para competição como único fator motivador. Matthiesen (2017) afirma que a habilidade do professor em traba- lhar novas perspectivas pedagógicas para o ensino do atletismo é de extrema importância, pois exige flexibilidade na condução das aulas, de modo que todo trabalho voltado às questões de formação integral do aluno não perca a essência da origem, da especificidade técnica e normativa que coloca o atletismo em condição privilegiada dentre os demais esportes. Atletismo na escola 45 Enfim, podemos perceber que o atletismo possui um grande po- tencial no contexto escolar com vistas a garantir o desenvolvimento coletivo e individual indispensável para o convívio em sociedade. Dessa maneira, o papel do professor no ensino dessa modalidade é oferecer condições para que isso ocorra. CONSIDERAÇÕES FINAIS É inegável que o atletismo dispõe de movimentos que motivam todos que o praticam; afinal, consiste nos movimentos naturais do ser humano. No âmbito escolar, especificamente nas aulas de Educação Física, os mo- vimentos de correr, saltar, arremessar e lançar ganham a compreensão da cultura corporal do movimento e dimensão, com a reflexão e análise de movimentos adaptados, técnicos e específicos da modalidade, possibi- litando um acervo cultural de movimento ainda mais amplo. O fomento da prática de movimentos direcionados no contexto esco- lar é legítimo e duradouro, possibilitando ao aluno um repertório motor diversificado, como também o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social. Nesse sentido, a escola assume um compromisso de educar para a vida que vai além da transmissão de conteúdo específico e, muitas vezes, sem sentido algum para o aluno. Nessa perspectiva, quando trabalhado corretamente na escola, o atletismo correlaciona valores sociais importantes diante do cenário do esporte com poder de transformação social. Com uma visão crítica, cola- borativa e reflexiva, o aluno consegue transportar a situação de jogo para uma situação real, superar as dificuldades e vencer. Por fim, para que todos os benefícios da prática do atletismo vistos até aqui sejam possíveis, é preciso que os professores dediquem-se ao ensino, incentivando e conduzindo os alunos a um novo pensar e um novo agir. ATIVIDADES 1. Existe uma relação entre o baixo interesse dos acadêmicos na modalidade do atletismo e o desenvolvimento dessa prática no âmbito profissional. De que forma podemos reverter esse quadro? 2. Quais as principais características que o professor de Educação Física precisa saber sobre a BNCC? 46 Metodologia do ensino de atletismo 3. Qual é a importância, do ponto de vista do processo de ensino- aprendizagem, da formação de professores que visam formar cidadãos por meio da cultura corporal do movimento, tornando-os alunos autônomos, críticos e instruídos a cuidar de si mesmos e identificando diferenças étnicas, sociais e culturais? REFERÊNCIAS BRASIL. Base Nacional Comum Curricular do Ensino Fundamental. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018a. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_ EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 18 maio 2020. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018b. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/ historico/BNCC_EnsinoMedio_embaixa_site_110518.pdf. Acesso em: 18 maio 2020. LIBÂNEO, J. C. Adeus professor, adeus professora: novas exigências educacionais e profissão docente. São Paulo: Cortez, 1998. MARIANO, C. Educação Física: o atletismo no currículo escolar. 2 ed. Rio de Janeiro: Wak, 2012. MATTHIESEN, S. Q. Atletismo: teoria e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. OLIVEIRA, M. C. M. de. Atletismo escolar: uma proposta de ensino na educação infantil. Rio de Janeiro: Sprint, 2006. PENTEADO, F. BNCC: O que é a Base Nacional Comum Curricular e qual é o seu objetivo. SAE Digital, 9 jan. 2019. Disponível em: https://sae.digital/bncc-o-que-e-qual-e-o-seu- objetivo/. Acesso em: 18 maio 2020. Corridas e saltos 47 3 Corridas e saltos Neste capítulo, você conhecerá os exercícios coordenativos do atletismo fundamentais para o desenvolvimento da corrida, a classificação das corridas, bem como as categorias dos saltos e suas divisões. Nas corridas, você conhecerá as exigências físicas e estruturais, se- quências de movimentos, entre outras. Já nos saltos, verá a divisão e os aspectos relacionados com os saltos em distância, triplo, em altura e com vara. Ainda, entenderá o encadeamento de cada um deles, que, apesar das semelhanças, possuem especificidades em suas práticas. O ponto em comum entre as corridas e os saltos está na pre- missa do correr, mudando apenas os requisitos desse ato. 3.1 Corridas rasas, meio-fundo e fundo A corrida é considerada uma extensão natural da caminhada . A locomoção é caracterizada por passadas em três fases: apoio e impul- são, voo com balanço e recuperação, eapoio e impulsão novamente . Já os braços têm o papel fundamental de manutenção do equilíbrio do corpo durante a corrida. Todos nós corremos desde cedo, sem nos preocuparmos em como estamos correndo; afinal, não somos ensinados a correr, nós simples- mente corremos. Mas em se tratando da corrida no atletismo, temos uma técnica mais adequada e uma divisão da modalidade. As corridas rasas do atletismo dividem-se em: corridas de veloci- dade, caracterizadas por curtas distâncias; corridas de meio-fundo, ou médio-fundo, que têm distâncias com percursos intermediários; e corri- das de fundo ou longa distância, que compreendem maiores distâncias. São corridas de velocidade: 100 m, 200 m e 400 m; meio-fundo: 800 m e 1.500 m; e fundo: 5.000 m, 10.000 m, 21.097,5 m (meia-maratona), 42.195 m (maratonas) e ultramaratonas (distâncias acima da maratona). 48 Metodologia do ensino de atletismo Antes mesmo de conhecer as especificidades de cada corrida de acordo com a sua divisão, é imprescindível compreender que existem movi- mentos básicos para o desenvolvimento e apri- moramento da corrida de maneira geral. Estamos nos referindo aos exercícios educativos e coorde- nativos, como são conhecidos. Esses exercícios são responsáveis por melhorar a biomecânica, equilíbrio e postura durante a corrida, proporcio- nando melhoria das capacidades físicas e coorde- nação motora e evitando maior desgaste muscular e cardiovascular pela economia de energia nas passadas. CORRIDAS RASAS 100 m – 200 m – 400 m 800 m – 1.500m 5.000 m ou mais Velocidade ou curta distância Médio-fundo Longa distância ou fundo Subdividem-se em 3 grupos Figura 1 Classificação das corridas rasas Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. São vários os exercícios utilizados na aprendizagem das técnicas de corrida e melhoria do desempenho motor. Mas, ao contrário do que muitos pensam, os exercícios educativos não são exclusividade para atletas de alto rendimento ou apenas para melhorar o desempenho. Eles são essenciais para a aquisição de habilidades motoras, impor- tantes para a fase de desenvolvimento do aluno, como o trabalho de lateralidade, coordenação dos membros, noção espacial e temporal. Na escola, os exercícios educativos podem ser executados de manei- ra lúdica, no aquecimento, durante o alongamento ou como parte específica do treinamento. Dentre os exercícios educativos e coordenativos de corrida, pode- mos destacar os seguintes: Figura 2 Skipping Skipping Deslocamento com base na ele- vação alternada dos joelhos até a altura do quadril, mantendo o tronco ereto e os membros supe- riores no sentido anteroposterior, sempre priorizando a frequência do movimento da corrida. IESDE O livro Atletismo: teoria e prática apresenta de maneira clara, objetiva e didática o ensino de atletismo na escola, con- textualizando o esporte quanto aos aspectos históricos, fundamentos básicos, técnicas de exe- cução, principais regras, bem como sugestões de atividades e adaptações para iniciação do atletis- mo no âmbito escolar. MATTHIESEN, S. Q. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. Livro Corridas e saltos 49 Figura 3 Dribbling IESDE IESDE IESDE Dribbling Deslocamento com movimento curto, em que uma perna é ligei- ramente elevada e flexionada, enquanto a outra permanece estendida com o pé tocando no chão, apoiando os pés alternada- mente. Os membros superiores acompanham o movimento da corrida, priorizando a frequência na execução. Figura 4 Anfesen Anfesen Deslocamento com base na flexão alternada dos membros inferiores de modo que os calcanhares toquem os glúteos, mantendo o tronco ligeiramente inclinado para a frente e os membros superiores realizando o movimento da corrida. Figura 5 Kick Out Kick Out Deslocamento com base no mo- vimento do dribbling; a cada três passos, realiza-se a elevação al- ternada do joelho com extensão da perna para a frente. 50 Metodologia do ensino de atletismo Halpserlauf Deslocamentos acompanhados de saltos duplos, tanto na perna livre quanto na de impulsão. O tronco deve permanecer ereto, enquanto os movimentos dos membros inferiores e superiores são realizados alternadamente. Figura 6 Halpserlauf IESDE Os exercícios educativos de corrida são realizados em distâncias cur- tas, entre 20 m e 40 m com, no máximo, duas repetições e podem ser desenvolvidos em ritmos diferentes, de acordo com as individualidades dos alunos. Independentemente da técnica de execução do exercício, o professor pode desenvolver os movimentos de modo lúdico dentro de algum jogo, por exemplo, o pega descola, gerando o fator motivacional. As corridas de velocidade certamente são as que mais chamam a atenção das crianças nas aulas de Educação Física devido à sua alta disposição e à necessidade de liberação de energia, aliadas, princi- palmente, ao aspecto competitivo, comum na fase de aprendizagem em que se encontram. Dessa maneira, na escola, o professor precisa explorar ao máximo os jogos que necessitem da corrida, mas com o cuidado para que a competição não seja exclusividade e trabalhando, sobretudo, a cooperação. As corridas rasas possuem características e especificidades nas téc- nicas de execução do movimento e regras, além das diferenças de dis- tâncias. Logo, mesmo considerando um trabalho pedagógico com base no atletismo, é necessário conhecer de modo aprofundado todas as particularidades, sendo assim possível realizar uma prática direcionada da atividade lúdica à técnica correta do movimento e aos espaços espe- cíficos para sua realização. Então, é importante destacar algumas regras básicas dessas corridas, de acordo com a Confederação Brasileira de Atletismo – CBAt (2020): Corridas e saltos 51 • É obrigatória, em todas as provas até 400 m, a saída baixa, ou seja, com a utilização do bloco de partida. O bloco de partida é um equipamento que, antes de qualquer coisa, deve garantir a segurança do indivíduo. Um bloco de partida alternativo geralmente é feito com madeira, parafusos e trena (o recorte da madeira é feito com serrote ou em uma marcenaria). Mas não é tão simples. Na escola, utilizamos dois métodos alternativos, ambos realizados em duplas. Apoio de joelhos de costas: o aluno “bloco de partida” se posiciona de costas, com os joelhos apoiados no chão, e os pés oferecem a base para o colega que correrá. Apoio sentado de frente: o aluno “bloco de partida” posiciona-se sentado, com as pernas fle- xionadas de modo que os pés ofereçam suporte para o colega que correrá. IESDE Na escola • Todas as provas deverão ser realizadas em raias separadas; caso um atleta invada a raia de outro corredor, atrapalhando-o, será desclassificado. • A saída só poderá acontecer após o tiro de partida; uma largada antes do sinal implicará na desclassificação do atleta, exceto para as provas combinadas. • Os atletas devem ser classificados na ordem em que qualquer parte do seu corpo (ou seja, tronco, ficando excluídos cabeça, pescoço, braços, pernas, mãos ou pés) atinja o plano vertical que passa pela borda anterior da linha de chegada. • Os atletas podem competir com os pés descalços, ou com calça- dos em um ou ambos os pés. IESDE Assim como existem as regras básicas para realização das pro- vas, há técnicas para melhor execução das corridas de velocidade. De acordo com Matthiesen (2017, p. 41), “quando falamos em corri- Figura 7 Saída baixa no bloco de partida 52 Metodologia do ensino de atletismo das, é comum observarmos que a frequência e amplitude das pas- sadas são determinantes para o rendimento final”. Nesse sentido, quanto maior a velocidade na corrida, o tronco será mais inclinado, o movimento dos membros superiores será mais forte e o tempo de contato dos pés no solo será menor. Apoio apoio - impulsão balanço – recuperação apoio - impulsão ApoioVoo IESDE As corridas, de maneira geral, possuem a mesma característi- ca quanto à sua execução. Segundo Vidigal (2012), a fase deapoio acontece com o contato do pé no solo, e a fase de impulsão ocorre ainda com o apoio do pé no solo, sendo entendida como o momento de preparação para as demais fases. Na impulsão, acontece o movi- mento de extensão das articulações do tornozelo, joelho e quadril. Nessa ação, o atleta realiza força contra o solo, para frente e para cima. Já na fase de voo, o corpo é projetado para frente devido ao impulso. Meio-fundo e fundo: Corridas de meio-fundo e fundo diferenciam-se das corridas de velocidade em vários aspectos. Conforme Matthiesen (2017, p. 51), “a definição do ritmo, da técnica, do tempo, da distância e das fontes ener- géticas empregadas no desenvolvimento das corridas é fundamental para sua classificação em provas de velocidade, meio-fundo e fundo”. Nesse sentido, é importante elencar algumas considerações a respeito das corridas de meio-fundo: • Provas realizadas com saída alta, ou seja, sem bloco de partida, e em raias livres. São conhecidas como provas não raiadas. • Esse tipo de prova já consiste na resistência do atleta, logo não necessita de bloco de partida; afinal, a largada não é garantia de que o atleta vença a prova, mas sim o conjunto de sua realização.; Figura 8 Técnica da corrida de velocidade Corridas e saltos 53 • O atleta se mantém em pé com os pés atrás da linha de partida já em posição de corrida. • A prova pode ser dividida em largada, regularidade e chegada. A re- gularidade é classificada por ritmo constante durante toda prova. • No treinamento, os tempos parciais, isto é, em cada volta, são anotados para controle e escolha da estratégia e melhoria do tempo total. • Um erro comum de atletas iniciantes nesse tipo de prova é a larga- da em ritmo muito forte, não conseguindo manter-se nas demais voltas a ponto de apresentar considerável queda de velocidade. Da mesma forma, as corridas de fundo, ou corridas de longa distân- cia, são divididas em largada, regularidade e chegada. A principal dife- rença entre as corridas de meio-fundo e de fundo consiste no maior tempo de regularidade. Isso quer dizer que o atleta deve manter um rit- mo constante por muito mais tempo, no qual atinge o estado estável; dependendo da prova, esse período é maior. O sistema aeróbico é o principal meio para a produção energética. Assim como as demais corridas, as de fundo possuem caracterís- ticas quanto à técnica, aos passos e à tática. De acordo com Vidigal (2012), são elas: Técnica: é necessário que os movimentos sejam executados com excelência, descontraídos e ritmados, tendo como finalidade mostrar a maneira pela qual se economiza energia, afastando a fadiga muscular. Passos: precisam ser desprendidos, regulares, tocando ligeiramen- te o solo primeiramente com o calcanhar, finalizando com a ponta do pé. A corrida é feita com o máximo de relaxamento muscular a fim de não gastar energia desnecessariamente. Tática: as táticas das corridas de fundo são muito peculiares; ne- las, os atletas precisam poupar energia o tempo todo e, ter mais cuidado com a hidratação e nutrientes, pois, ao final, mesmo com o desgaste da corrida, os atletas aumentam o ritmo, momento cha- mado de tiro. estado estável: equilíbrio existente entre a energia requerida pelos músculos que trabalham durante a corrida e o ritmo de produção de substratos energéticos. Glossário 54 Metodologia do ensino de atletismo Quadro 1 Características e técnicas básicas das corridas Corridas com velocidade elevada Corridas com velocidade média Corridas com velocidade moderada Posicionamento da cabeça Estável; fixa; no prolongamento do tronco; olhar direcionado à frente e um pouco para baixo. Posição no tronco Inclinado à frente no trecho inicial. Na vertical. Na vertical. Movimentação dos braços – plano frontal Os braços cruzam pouco o corpo no plano frontal; braços paralelos. Reduzido cruzamento dos braços no plano frontal. Cruzamento considerável dos braços no plano frontal. Movimentação dos braços no plano sagital (movimentos laterais em relação ao tronco) Grande amplitude. Média amplitude. Pequena amplitude. Ângulo entre o ante- braço e o braço 90º Ângulo pouco menor que 90º. Menor angulação dos braços. Contato dos pés no solo (direcionados p/ frente) Contato pela ponta do pé. Contato pela parte me- dial e ponta do pé. Apoio passando pelo calcanhar, planta e pon- ta do pé Movimentação do calcanhar (perna livre) Alto; próximo ao glúteo; movimento circular. Movimento intermediá- rio. Menor elevação; movi- mento pendular. Elevação da perna li- vre à frente do corpo (elevação dos joelhos) Próximo à horizontal (aproximadamente 80º). Aproximadamente 70º. Elevação superior às corridas de fundo. Menor elevação. Impulsão (intensi- dade da força de impulso) Muito forte (com máxima intensidade). Forte. Média. Distância percorrida durante a fase de sus- pensão (comprimento dos passos) Masc.: ≅ 2,40 m. Fem.: ≅ 2,00 m. Grande comprimento. Masc.: ≅ 1,70 m. Fem.: ≅ 1,50 m. Médio comprimento. Masc.: ≅ 1,30 m. Fem.: ≅ 1,10 m. Pequeno comprimento. Frequência dos passos Muito alta. Alta. Média. Fonte: Vidigal, 2012, p. 11. Como podemos ver no Quadro 1, cada tipo de corrida apresenta uma característica corporal no movimento. As corridas de velocidade exigem maior amplitude nas passadas, inclinação do tronco, angulação do braço em 90º em relação ao antebraço e maior tempo de suspensão Corridas e saltos 55 nas passadas, entre outras características. Já as corridas de meio-fundo e fundo possuem movimentos parecidos no que se refere à posição do tronco, média e pequena amplitude nas passadas, menor elevação da perna livre, e suspensão alta e média. Quadro 2 Classificação das corridas e vias energéticas Provas Classificação básica Sub classificação Via energética predominante 100 m Velocidade Velocidade intensa Anaeróbia 200 m Velocidade intensa Anaeróbia 400 m Velocidade prolongada curta Anaeróbia 800 m Velocidade prolongada longa Anaeróbia / Aeróbia 1.500 m Meio-fundo Meio-fundo curto Anaeróbia / Aeróbia 5.000 m Fundo Fundo curto Aeróbia 10.000 m Fundo Aeróbia 42.195 m Fundo longo Aeróbia Fonte: Vidigal, 2012, p. 11. Para ajudar na classificação das corridas, um dos principais mé- todos utilizados é a predominância da via energética utilizada. Nas corridas de velocidade, como 100 m, 200 m e 400 m, prevalece a via anaeróbica 1 ; já nas corridas de meio-fundo, como 800 m e 1.500 m, são utilizadas as vias anaeróbica e aeróbica 2 ; embora atualmente se discuta que, nas corridas de 800 m, predomine a via anaeróbica e as corridas de fundo utilizem a via aeróbica. Via anaeróbica não utiliza o oxigênio como fonte de energia e é caracterizada por exercícios de alta intensidade e curta duração. 1 Via aeróbica utiliza o oxigênio como principal fonte de energia e queima de gordura e é caracteriza- da por exercícios de longa duração. 2 3.2 Corridas com barreiras e obstáculos Já vimos que as corridas de até 400 m são categorizadas como de velocidade, logo as corridas com barreiras estão empregadas nessa categoria. Entretanto, os três tipos de provas com barreiras (100 m, 110 m e 400 m) possuem particularidades quanto à distância entre uma barreira e outra, à altura entre elas e à técnica de passagem. 56 Metodologia do ensino de atletismo Corridas com barreiras 1,07 m – masculino 0,84 m – feminino 0,91 m – masculino 0,76 m – feminino Saltar mais de 10 barreiras 100 m 110 m 400 m Têm por objetivo Barreiras medem Barreiras medem Figura 9 Classificação das provas com barreiras Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. A corrida com barreiras combina corrida e salto, embora a técnica in- forme que a barreira precisa ser passada e não saltada, pois não se perde o ritmo da corrida. É realizada na pista de atletismo, com os atletas em suas raias e cada raia com dez barreiras dispostas ao longo do percurso. As provas de 100 m são exclusivas para as mulheres, as de 110m são para os homens e as de 400 m para ambos os sexos. Nas provas de 100 m e 110 m, as barreiras medem 1,07 m para homens e 0,84 m para mulheres, e nos 400 m, são um pouco menores: 0,91 m para homens e 0,76 m para as mulheres. Segundo Matthiesen (2017), nas provas de 100 m e 110 m, no caso dos homens, a primei- ra barreira fica a 13,72 m da largada e as outras nove ficam a uma distância de 9,14 m umas das outras. Da última barreira até a chegada, existe uma distância de 14,02 m. No caso das mulhe- res, a primeira barreira fica a 13 m da largada e as demais a uma distância de 8,5 m entre elas. Da última barreira até a linha de chegada, a distância é de 10,5 m. Nas provas de 400 m, os atletas percorrem uma distância de 45 m até a primeira barreira; a distância entre uma e outra é de 35 m e da última barreira até a linha de chega- da são 40 m, sem diferença para ambos os sexos. Figura 10 Barreira IES DE Provas 100 m e 110 m 107 m homens 84 cm mulheres Provas 400 m 91 cm homens 76 cm mulheres No vídeo Elaboração de materiais para mini atletismo, publicado pelo canal da treinadora More Galetovic, vemos como fazer um kit para atletismo com materiais reciclados. O vídeo é em espanhol, mas você pode utilizar a ferramenta de tradução do próprio YouTube. Disponível em: https://youtu. be/LeVE1rUNvyY. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo Corridas e saltos 57 Figura 11 Distribuição das barreiras nas provas de 100 m feminino 8,5 m13 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 10,5 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m13,72 m 14,02 m IESDE 8,5 m13 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 8,5 m 10,5 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m 9,14 m13,72 m 14,02 m Figura 12 Distribuição das barreiras nas provas de 110 m masculino IESDE A barreira oficial é feita de alumínio, um material leve, portanto pode acontecer de o atleta derrubá-la e continuar a prova normal- mente. Essa ação não é considerada infração, desde que aconteça de maneira involuntária; quando identificado que foi derrubada de modo intencional – usando as mãos, por exemplo –, o atleta é desclassificado. Vidigal (2012) divide a corrida com barreiras em seis fases para fins didáticos: partida, abordagem (ataque) da barreira, passagem sobre a barreira, apoio após a passagem, corrida entre as barreiras, e corrida final para a chegada. Vejamos cada uma delas a seguir: Partida: a primeira barreira fica a 13 m ou 13,72 m da linha de lar- gada. Nesse caso, é preciso verificar quantos passos o atleta consegue dar até a primeira barreira para transpor com a perna de apoio ou, no bloco de partida, mudar a perna de abordagem, ou seja, a perna de maior domínio e força. Abordagem: a perna que fica à frente para realizar o chamado ata- que é a perna de abordagem; ela fica à frente e estendida para realizar a passagem. A perna de impulsão só deixa de tocar o chão quando a perna de abordagem estiver totalmente estendida. Contudo, pode acontecer de o atleta realizar a passagem com pernas alternadas devi- do à distância entre as barreiras e à velocidade empregada. 58 Metodologia do ensino de atletismo Inspiring/Shutterstock Passagem sobre a barreira: deve ser realizada o mais rápido pos- sível. Para isso, o atleta precisa estender a perna de abordagem e logo descê-la procurando apoiá-la ao chão; ao mesmo tempo, a perna de impulsão deixa o solo e flexiona o máximo paralelamente ao solo para ultrapassar a barreira. O tronco é posicionado com inclinação para a frente e o braço, contrário à perna de abordagem, fica lançado à frente, promovendo o equilíbrio para continuar a corrida logo após a passa- gem da barreira. Apoio após a passagem: o pé de abordagem desce próximo à passagem e a perna de impulsão vai em direção ao solo, tocando o mais distante possível da barreira. Enquanto a perna de abordagem passa pela barreira estendida, a perna de impulso passa flexionada. Corrida entre as barreiras: o treino deve considerar a velocidade, a distância das barreiras e o número de passadas para garantir que as abordagens sejam com a mesma perna, embora nem sempre isso seja possível. Corrida final: após ultrapassar a última barreira, o atleta faz a explosão de velocidade, conhecida como tiro final, até cruzar a linha de chegada. Após conhecermos as corridas com barreiras, vamos conhecer as corridas com obstáculos. Muitos pensam que são a mesma coisa, apenas acrescentando obstáculos, mas não é simples assim. As provas com obstáculos têm outra configuração e origem nas provas de campo. Suas distâncias são bem diferentes em relação às provas com barreiras e configuram-se em provas de meio-fundo, diferentemente das provas com barreiras, que são de velocidade. Esse tipo de corrida possui obstáculos ao longo do percurso, e os atletas precisam saltar e passar por eles. É realizada nas distâncias de 3.000 m e 2.000 m nas categorias masculina e feminina, exigindo de ambos uma preparação, como nos demais tipos de corridas, mas com a inserção da superação de obstáculos com ritmo compatível à Figura 13 Corrida com barreira Na escola, os obstáculos podem ser feitos com diversos materiais e objetos, como cones, em que os alunos precisem passar entre eles, ou até mesmo um circuito de atividades que envolva cordas para que os alunos passem por baixo, com cones em zigue-za- gue, arcos no chão para os alunos pisarem dentro etc. O objetivo é que, durante a corrida, os alunos precisem ultrapassar os obstácu- los dispostos no percurso. Na escola Corridas e saltos 59 dificuldade enfrentada durante a execução. Isto quer dizer que, na passagem pelos obstáculos, o atleta não pode comprometer o ritmo ditado pela corrida. Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Corridas com obstáculos Fosso de água de 70 cm Saltar obstáculos 0,91 m de altura 0,76 m de alturaPodem ter Têm por objetivo FemininoMasculino Figura 14 Organização das corridas com obstáculos Conforme Matthiesen (2017), para fins didáticos, apresentaremos na sequência a divisão da corrida com obstáculos em três fases: cor- rida, passagem pelos obstáculos, incluindo o fosso 3 , e percurso final, que compreende a chegada. Corrida: como falamos anteriormente, a corrida com obstáculos pos- sui duas distâncias. Nos 3.000 m, ao longo do percurso, os atletas saltam 28 vezes sobre os obstáculos e 7 vezes sobre o fosso de água. Já nos 2.000 m, os atletas precisam saltar 18 vezes sobre os obstáculos e 5 ve- zes sobre o fosso. De acordo com as regras oficiais da CBAt (2020, p. 107), nas provas com obstáculos, “haverá 5 saltos por volta após a linha de chegada ter sido passada pela primeira vez, sendo a passagem do fosso o quarto obstáculo. [...] a distância entre os saltos deve ser aproximada- mente a quinta parte do comprimento normal de uma volta”. Ainda de acordo com a CBAt (2020), na prova de 3.000 m, a distância da saída ao começo da primeira volta não deve incluir nenhum salto e, na de 2.000 m, o primeiro salto é o terceiro obstáculo de uma volta nor- mal. Os obstáculos anteriores serão removidos depois que os atletas tenham passado por eles pela primeira vez. Fosso é uma cavidade na pista com 70 cm de profundidade com água no nível da superfície da pista. Antes dele, há uma barreira fixa, em que os atletas precisam saltar e passar pelo fosso. 3 O livro Atletismo: desen- volvimento humano e aprendizagem esportiva apresenta uma abor- dagem contextualizada sobre o desenvolvimento humano e o ensino e a aprendizagem da moda- lidade atletismo. Além disso, trata da modali- dade como intervenção social, uma vez que pode melhorar a qualidade de vida e o desenvolvimento dos seus praticantes. SANTOS, A. S.; VAGETTI, G. C.; OLIVEIRA, V. Curitiba: Appris, 2007. Livro 60 Metodologia do ensino de atletismo Passagem pelos obstáculos e fosso: a técnica de passagem pelos obstáculos e pelo fosso é a mesma empregada na prova com barreiras, incluindo a preparação,impulsão, ataque e ultrapassagem. Com rela- ção à transposição do fosso, quando ultrapassa o quarto obstáculo, o atleta pode realizar a impulsão apoiando-se no obstáculo; embora, com o aumento da técnica de transposição, os atletas venham fazendo a passagem sem tocá-lo, evitando, assim, perder ritmo e tempo de prova. 12,7 cm 12,7 cm 3,66m 3,66m Linha de chegada Obstáculo Obstáculo Obstáculo Partida Obstáculo e fosso Obstáculo Yuliya n V elc he v/ Sh ut te rs to ck Figura 16 Pista com obstáculos e fosso Percurso final e chegada: após a passagem do último obstáculo, o corredor terá um percurso para desenvolver o máximo de sua veloci- dade; afinal, não existem mais obstáculos e ele precisa cruzar a linha de chegada. Esse momento também é chamado de sprint final, palavra de origem inglesa que se refere à aceleração de um competidor quando está próximo da chegada. Figura 15 Modelos de obstáculos e fosso Corridas e saltos 61 3.3 Revezamentos As corridas de revezamento possuem duas modalidades: 4x100 me- tros e 4x400 metros. Na primeira, são quatro atletas que correm um percurso de 100 m cada na raia específica de cada equipe. Já na segun- da, os competidores percorrem 400 m cada, sendo que o primeiro cor- redor completa a volta na raia específica e, a partir do segundo atleta da equipe, pode-se correr em qualquer raia após cruzar a linha livre de raia. Por essa característica, a prova de 4x400 metros é uma prova parcialmente raiada, isto é, a corrida inicia em raia específica, mas, de- pois, é desenvolvida em qualquer raia. Não há nenhuma diferença de distância entre homens e mulheres. Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Corridas de revezamento 4x100 metros 4x400 metros Equipes de atletas ocupam uma raia apenas Há troca de posse do bastão Podem ser Figura17 Classificação das corridas de revezamento Na segunda volta, ocupam qualquer raia Obrigatoriamente, todos os atletas das equipes devem percorrer trechos com distâncias iguais, transportando um bastão do início ao fim da prova, com a passagem do bastão entre os componentes na zona de passagem do bastão, área de 20 m específica para realizar a transferência do bastão. Nos revezamentos, é possível notar a prevalência do trabalho em equipe com bastante entrosamento, técnica de passagem e recepção, e velocidade na transposição. Por esse aspecto coletivo, é importante cada atleta ter um perfil específico para as exigências do momento da prova. Vejamos algumas capacidades físicas dos corredores, de acordo com Vidigal (2012, p. 22): 1º. atleta: saída rápida – melhor rendimento em corrida na curva; 2º. atleta: bom rendimento em corrida na reta e habilidade para receber e passar o bastão; 62 Metodologia do ensino de atletismo 3º. atleta: bom rendimento em corrida na curva – habilidade para receber e passar o bastão – maior capacidade de recuperação; 4º. atleta: atleta mais veloz e com grande capacidade para a fina- lização da prova/chegada. Segundo Matthiesen (2017), a passagem do bastão é um momento crucial na prova e, por isso, é muito treinada pelas equipes e pode ser dividida em dois tipos básicos: a passagem visual, utilizada nas provas de revezamento de 4x400 metros, e a passagem não visual, utilizada nas provas curtas de 4x100 metros. Tanto na passagem visual quanto na não visual, existem duas técnicas mais aplicadas: a passagem as- cendente, conhecida como passagem de baixo para cima, e a passagem descendente, conhecida, também, como passagem de cima para baixo. IESDE Figura 19 Passagem descendente IESDE Na passagem visual, como o nome já sugere, os atletas conseguem ver a aproximação do componente da equipe e visualizam o bastão. Todos recebem o bastão com a mão esquerda e passam para o companheiro com a mão direita. É bastante usada na fase de iniciação a modalidade. StockphotoVideo/Shutterstock Figura 18 Passagem ascendente Figura 20 Passagem do bastão visual Corridas e saltos 63 A passagem não visual é utilizada nas provas de 4x100 metros; todos correm na raia e permanecem de costas para o colega de equipe, posicio- nando o braço e a mão para receber o bastão na zona de passagem de bastão. Nessa área, os atletas já podem iniciar a corrida, mas não devem ultrapassar sem que estejam com o bastão em mãos. Caso o bastão caia da mão de um competidor, este pode pegá-lo desde que não atrapalhe o membro de outra equipe. Correr sem o bastão desclassifica a equipe. Quanto ao bastão, é um tubo circular, geralmente oco e liso, confeccio- nado em madeira ou metal rígido, com apenas um material por peça. Seu comprimento mede 30 cm, diâmetro externo 40 mm e não pode pesar menos que 50 g. Deve ser colorido para visualização durante a corrida. Por fim, é importante destacar que o bastão dever ser carregado na mão durante toda a prova, não sendo possível prendê-lo em nenhuma outra parte do corpo ou fazer uso de outros materiais, como luvas, para melhorar a adesão ao bastão. Caso seja derrubado, pode ser recuperado apenas pelo atleta que o deixou cair, mas não pode configurar vantagem com a queda do bastão, por exemplo: se o bastão cair bem em fren- te do local onde deveria ter acontecido a passagem. Figura 21 Passagem do bastão não visual W ill ia m P er ug in i/S hu tte rs to ck Figura 22 Bastão vectorfusionart/Shutterstock 3.4 Saltos horizontais e verticais Os saltos são classificados em dois tipos: saltos horizontais, dividi- dos salto em distância e triplo, e saltos verticais, divididos em salto em altura e com vara. Os horizontais têm por objetivo atingir a maior dis- tância – embora a angulação realizada na direção vertical seja parte importante na técnica para atingir melhores distâncias – e os verticais visam atingir a maior altura possível. 64 Metodologia do ensino de atletismo Figura 23 Classificação dos saltos Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Saltos 3 tentativas para cada altura. 3 faltas seguidas levam à eliminação. 3 tentativas para cada altura. 3 faltas seguidas levam à eliminação. 3 tentativas para saltar o mais longe possível. Saltam sobre uma barra horizontal. Enterram uma vara de fibra de vidro flexível. Pegam impulso em pista de cerca de 40 m. Aterrissam em um banco de areia. 3 tentativas para saltar o mais alto possível. Saltam sobre uma barra horizontal. Tocam o solo 2 vezes, uma com cada pé. Pegam impulso em pista de cerca de 40m. Horizontais Os atletas Os atletas Verticais Salto com vara Salto em distância Salto em altura Salto triplo De maneira geral, a mecânica dos saltos é compreendida pela proje- ção do corpo no espaço para cima e para frente. O atleta se lança no ar, ficando suspenso por determinado período; quanto maior for o inter- valo de suspensão, melhor é o salto, porque quanto maior for o tempo Corridas e saltos 65 de suspensão, mais tempo ele terá para executar a técnica de projeção do corpo para realizar a passagem pelo sarrafo. Em todos os saltos, a velocidade de execução da corrida é fundamental. Para fins de organização didática, apresentaremos os saltos na se- guinte ordem: salto em distância e salto triplo (horizontais), salto em altura e salto com vara (verticais). Figura 24 Técnica de movimento do salto em distância IESDE Salto em distância Nesse tipo de salto, o atleta corre com velocidade máxima na pista de salto, que mede entre 40 e 45 m e, ao final, realiza o salto na tábua de impulsão. À frente fica a caixa de areia, que serve de amortecimento de queda e marcação da distância atingida. É impor- tante destacar que o atleta salta apenas com um pé, não podendo ultrapassar a tábua de impulsão, mas cai com os dois. São três estilos básicos na técnica de movimento utilizada no desenvolvimento do salto em distância: passada no ar, arco e grupado. Porém, o ensino deve ser concentrado inicialmente no grupado e após aperfeiçoado, deve-se inserir a passada, seguida do arco, até realizar o movimento por completo. De acordo com Matthiesen(2017), independente- mente do estilo e técnica do salto em distância, todos eles apresentam uma fase de preparação, que envolve a concentração para realização da chamada corrida de aproximação até a tábua de impulsão, uma fase de suspensão, podendo ser chamada também de deslocamento ou flu- tuação, e uma fase de queda, que é a conclusão do salto. Inspiring/Shutterstock Figura 25 Movimento do salto em distância 66 Metodologia do ensino de atletismo A medição da distância do salto é feita a partir da marca de areia mais próxima da tábua de impulsão (faixa vermelha, con- forme Figura 25). Após o salto, o corpo precisa ser projetado o máximo possível para frente. O salto em distância desenvolve muito a velocidade, impulsão e força. Nesse sentido, um trabalho de lateralidade é fundamental, não apenas para descobrir o lado dominante do aluno, mas, sobretudo, para estimular de igual forma os membros inferiores. Obviamente, um programa específico de treino exigirá aprimorar o salto com base na perna dominante. Salto triplo Nesse salto, o atleta deve executar a corrida similar ao salto em dis- tância, porém, existe a técnica de preparação para o salto, a realização de três impulsos e a queda, finalizando o salto. A pista é a mesma do salto em distância, mas, de acordo com as regras oficiais, a distância da linha de impulsão até a borda mais próxima da caixa de areia é maior, com 21 m., A mesma regra orienta que as competições não podem ter essa distância menor que 13 m para homens e 11 m para mulheres. IESDE Pé esquerdo 1.º Salto (Hop) 2.º Salto (Step) 21 m 3.º Salto (Jump) Pé esquerdo Pé direito 3 º Salto (Jump( ) eito No salto triplo, o atleta realiza a corrida de preparação até a linha de impulsão; nela, ele executa o primeiro salto. Na sequência, usan- do a mesma perna em ritmo de corrida, faz o segundo salto tentando chegar o mais próximo possível da caixa de areia, em que realizará o terceiro salto com a perna contrária aos dois primeiros saltos para fi- nalizar com a queda. É importe ressaltar que, para melhor aproveitamento do salto, é ne- cessário que o primeiro salto seja realizado o mais próximo da tábua Figura 26 Execução do salto triplo Corridas e saltos 67 ou linha de impulsão, pois, a partir dela, o atleta executará os demais saltos. Quanto mais próximo da linha, mais próximo ele chegará da caixa de areia, atingindo, assim, maior distância. Saltar antes da linha não é infração, mas além da linha é inválido. Em resumo, o salto consiste em: 1º. salto com uma perna, 2º salto com a mesma perna e 3º. salto com uma perna diferente. Salto em altura O princípio desse salto é não ter nenhum auxílio para impulsão, consistindo em transpor o sarrafo posicionado horizontalmente, apoia- do nos saltômetros, mais conhecidos popularmente como postes de sustentação. Para isso, o atleta tem três tentativas para saltar. O toque no sarrafo ou barra, como também pode ser chamado, não configura infração, mas caso caia (o que facilmente acontece com o toque), o sal- to é invalidado. A técnica do salto em altura é dividida em quatro momentos, são eles: corrida de balanço (que é a preparação para o salto), chamada de impulsão para o salto, voo (caracterizado pelo momento da transposi- ção ao sarrafo) e queda no colchão de amortecimento. Queda Voo Chamada Corrida de balanço IESDE Existem três técnicas básicas para transposição do sarrafo; a primei- ra, e mais simples, é utilizada para iniciantes, chamada de estilo tesoura. A segunda é o estilo rolo ventral, considerada como intermediária, e o estilo fosbury flop, que emprega uma técnica mais apurada. O estilo tesoura é o primeiro estilo a ser ensinado, pois não oferece riscos na execução e pode ser apren- dido facilmente. A elevação do sarrafo é baixa, pois, nesse estilo, o aluno não consegue atingir Na escola, os próprios alunos podem fazer o sarrafo segurando uma corda elástica, cordas elásticas amarradas em cones, latas grandes de tinta e cabos de vassouras emendados, pneus preenchidos com espuma e revestidos com uma lona. Na escola Figura 27 Técnica de execução do salto em altura Figura 28 Salto em altura sp or tp oi nt /S hu tte rs to ck 68 Metodologia do ensino de atletismo muita altura. No estilo tesoura, a passagem pelo sarrafo é feita primei- ramente com a perna contrária à de impulsão; em seguida, a outra. A perna de impulsão é a externa ao sarrafo. Logo, se a perna de apoio for à direita inicia-se a corrida pela esquerda, mas se for à esquerda a corrida inicia-se pela direita. IESDE No rolo ventral, já é possível atingir uma altura maior. Para essa técnica, a corrida deve ser iniciada pelo lado que propicie ao atleta chegar com a perna de impulsão para o salto mais próximo ao sar- rafo. Por exemplo, se a perna de impulsão for a direita, o atleta deve realizar a corrida de aproximação pelo lado direito; caso a perna de impulsão seja a esquerda, a corrida é iniciada pela esquerda. Para fins de esclarecimento, a perna interna é a de impulsão e a externa é a de manutenção do equilíbrio. Figura 30 Rolo ventral IESDE O estilo fosbury flop tem uma característica maior de velocidade. Para a execução dele, o atleta precisa realizar uma corrida veloz e em curva para chegar paralelamente ao sarrafo. O impulso, diferentemen- te do rolo ventral, é realizado com a perna externa em relação à posi- ção do sarrafo. Enquanto isso, a perna interna é flexionada, seguindo o movimento de projeção para transposição do sarrafo no mesmo mo- mento em que o quadril é elevado. Durante a passagem pelo sarrafo, as costas fazem um movimento de arco. A complexidade desse estilo Figura 29 Estilo tesoura No vídeo As técnicas de salto em altura, publicado pelo canal da Agence France-Presse (AFP), é possível conhecer as va- riadas técnicas utilizadas no salto em altura. Disponível em: https://youtu.be/ EFjDyyB2MOA. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo Corridas e saltos 69 finaliza com a queda no colchão, que se torna imprescindível pela posi- ção em que o atleta cai. IESDE Como pudemos ver, existem diferentes estilos técnicos para execu- ção do salto em altura; cada um deles possui suas especificidades. Para um primeiro contato, é indicado o estilo tesoura, pelos motivos men- cionados de simplificação e facilidade de adaptação. Os outros dois já exigem um pouco mais de técnica e equipamentos de proteção, como é o caso do colchão de queda. Salto com vara No salto com vara, o atleta percorre uma distância em velocidade para ganhar força para impulsão no momento em que colocar a vara na área de encaixe, localizada ao final do corredor. O espaço para de- senvolvimento da corrida mede entre 40 e 45 m. Nesse salto, tal qual o nome já sugere, o atleta faz uso de uma vara para realizar a impulsão e transposição do sarrafo. Sobre a vara, inicialmente era feita de material rígido, como o bam- bu e, depois, o alumínio. Hoje, ela é flexível e pode ser confeccionada de qualquer material ou combinação de materiais, embora as va- ras utilizadas por atletas de alto rendimento sejam feitas de fi- bra de vidro ou de carbono, pois são mais leves e resistentes. Não há normas quanto ao tamanho, diâmetro e peso; geral- mente, as varas seguem o tamanho e característica do atle- ta, sendo de sua livre escolha. A técnica básica de movimento está dividida em três fases que consistem em: a empunhadura, junto à corrida de preparação para o salto, o salto, que en- volve impulsão, elevação, giro e transposição, e a queda, fi- nalização do salto. Figura 31 Fosbury flop Na escola, podem ser utilizados cabos de vassoura feitos de madeira ou varas de bambu. Na escola Figura 32 Movimento do salto com vara Inspiring/Shutterstock 70 Metodologia do ensino de atletismo A empunhadura é feita com a vara na posi- ção horizontal, a ponta ligeiramente elevada, realizando a pegada com as mãos, uma com a palma voltada para cima e a outra para baixo. A corri- da inicia lenta e vai aumentandode velocidade à medida que o atleta se aproxima da área de en- caixe. A vara fica posicionada elevada e ao lado da perna contrária à perna de impulsão; com o desenvolvimento da corrida, vai abaixando, ten- do em vista o momento de encaixe. No momento do encaixe da vara, o atleta rea- liza a impulsão com a perna que está à frente na corrida, enquanto a outra é semiflexionada para elevação do quadril. Ao mesmo tempo em que ocorre a inversão do corpo e extensão das pernas no ar, o atleta empurra a vara para a frente, resultando na trans- posição do sarrafo. Assim como no salto em altura, o colchão de queda é indispensável para amortecimento do atleta. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, foi possível conhecer os exercícios educativos e coor- denativos do atletismo. Vimos que eles são fundamentais para o aprimo- ramento da corrida e melhoramento da postura, podendo evitar lesões. Esses mesmos exercícios são trabalhados na perspectiva de desenvolvi- mento de habilidades motoras básicas, tão exigidas no atletismo. Também, conhecemos as corridas, suas características e especificida- des quanto aos espaços necessários à prática, princípios fundamentais, sequências didáticas de ensino, principais regras básicas, classificação e técnicas de execução das corridas de velocidade, meio-fundo e fundo, e saltos horizontais e verticais. É importante, com base nas modalidades apresentadas, você perceber que o atletismo possui um repertório de categorias esportivas que podem e devem ser trabalhadas com os alunos na escola, pois são movimentos motores básicos, fundamentais para o crescimento, amadurecimento e desenvolvimento humano. Ovcharenko Boris/Shutterstock Figura 33 Salto com vara Corridas e saltos 71 É preciso lembrar que, na escola, o professor deve trabalhar o atletismo na perspectiva educacional, ou seja, utilizar os valores presentes nos espor- tes para promover o ensino e a formação do indivíduo. Portanto, não ter uma infraestrutura de uma pista olímpica ou equipamentos e implementos oficiais não pode e nem deve ser motivo para deixar de ensinar o atletismo aos alunos, uma vez que há a possibilidade de se adaptar as atividades. A concepção do esporte na escola é educativa, não de alto rendimento. ATIVIDADES 1. As provas de corrida com obstáculos são realizadas nas distâncias de 3.000 m e 2.000 m, nas categorias masculina e feminina. Explique as características das seguintes fases da corrida com obstáculos: corrida, passagem pelos obstáculos, incluindo o fosso, e percurso final, que compreende a chegada. 2. As corridas de revezamento são divididas em duas modalidades: 4x100 metros e 4x400 metros. As duas são disputadas por equipes, em que cada atleta percorre distâncias iguais para poder passar o bastão ao companheiro de equipe. Explique as características da passagem de bastão nas duas provas de revezamento. 3. Sabe-se que existem características semelhantes na execução de alguns tipos de saltos. Explique a diferença entre o salto em distância e o salto triplo. REFERÊNCIAS CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ATLETISMO - CBAt. Regras De Competição e Regras Técnicas – 2020: Edição Oficial para o Brasil. São Paulo: CBAt, 2020. Disponível em: http://www.cbat. org.br/repositorio/cbat/documentos_oficiais/regras/regrasdecompeticaoeregrastecnicas_ edicao2020.pdf. Acesso em 18 maio 2020. DICIONÁRIO OLÍMPICO. Atletismo. 2020. Disponível em: http://www.dicionarioolimpico. com.br/. Acesso em: 18 maio 2020. MATTHIESEN, S. Q. Atletismo: teoria e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. SANTOS, A. S.; VAGETTI, G. C.; OLIVEIRA, V. Atletismo: desenvolvimento humano e aprendizagem esportiva. Curitiba: Appris, 2007. 72 Metodologia do ensino de atletismo 4 Lançamentos e arremesso Neste capítulo, conheceremos os aspectos técnicos, metodoló- gicos e didáticos, assim como as principais regras dos lançamentos de disco, dardo, martelo e do arremesso de peso. Lançamentos e arremessos exigem muita técnica de execução e, portanto, é preciso conhecer ainda – e de maneira detalhada – as sequências pedagógicas necessárias no desenvolvimento das modalidades, para iniciar o esporte na escola, inclusive por meio da adaptação de materiais. É importante destacar que temos três tipos de lançamentos e um tipo de arremesso. Apesar de as palavras serem sinônimas e, no dicionário, estarem relacionadas à ação de atirar com força al- gum objeto, no atletismo, elas possuem características diferentes quanto ao contexto de execução do movimento e ao manuseio do implemento. Nos lançamentos, o atleta realiza o gesto de projeção do imple- mento no ar; já no arremesso, o peso é empurrado. A análise bio- mecânica do movimento define outra característica que diferencia essas modalidades: enquanto os lançamentos possuem projeção angular, o arremesso apresenta projeção linear. 4.1 Lançamento de disco O lançamento de disco é considerado uma das provas mais clássi- cas do atletismo, pois foi um dos primeiros implementos que os gregos utilizaram nas competições, nos Jogos Olímpicos da antiguidade. Ob- viamente, esse esporte passou por mudanças até chegar ao formato que conhecemos hoje. Um exemplo disso é o material do disco que, inicialmente, era feito de pedra, depois, passou a ser de bronze e, hoje, é fabricado em aço. Lançamentos e arremesso 73 Lançamento de disco Feminino Masculino 3 tentativas Zona de lançamento Categorias Disco 2 kgDisco 1 kg Figura 1 Classificação do lançamento de disco Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. A prova de lançamento de disco consiste em lançar um disco o mais longe possível. O lançamento é realizado dentro de um círculo no chão de 2,5 m de diâmetro com um anteparo na frente do círculo; este configura o limite da área de lançamento. Para a rea- lização do lançamento, o atleta segura o disco com a mão e o antebra- ço e, após o movimento de giro sobre si, lança o disco, executando a extensão do braço. É importante destacar que, de acordo com a regra, o lançamento precisa ser feito em direção a uma área demarcada no campo, e o atleta deve permanecer no círculo de lançamento até que o disco caia. Só então ele pode sair pela parte traseira do círculo. Figura 2 Área de lançamento Círculo de lançamento 2,5 m Anteparo IE SD E Você sabia que o símbolo da Educação Física é o Discóbolo, de Míron? O Discóbolo é uma estátua do escultor grego Míron, construída em bronze, em 455 a.C.; ela representa um atleta em preparação para lançar um disco. O Discóbolo foi escolhido como símbolo da Educação Física em 2002, pelo Conselho Federal de Educação Física (CONFEF), porque a estátua apresenta os movimen- tos do corpo humano em ação com vigor, energia e vitalidade. Além disso, foi escolhida por ser considerado a mais clássica das estátuas atléticas. Ainda de acordo com o CONFEF, a imagem mostra um cuidadoso estudo de todos os movimentos musculares, assim como dos tendões e dos ossos que fazem parte da ação. As pernas, os braços e o tronco se incli- nam para imprimir maior impulso ao golpe; o rosto não parece contorcido pelo esforço, mas calmo e confiante na vitória. CCCCCC CCCCCSCCCCCCCCCCC Curiosidade 74 Metodologia do ensino de atletismo Matthiesen (2017) classifica a técnica básica de movimento da seguinte forma: preparação para lançamento e empunhadura, balanceios e giros, lançamento em si, e conclusão. A preparação para lançamento e empunhadura tem início na posição estacionária, dentro do círculo e de costas para a direção do lançamento. Nessa fase, o atleta se posiciona com as pernas afastadas, coloca o disco sob as mãos, segura-o com os dedos e apoia-o no antebraço. O braço que tem o disco fica estendido para trás e o outro braço, para frente. IC Cp CCC Cg CS CC CCC CC CC CC Com balanceios e giros, o atleta movimenta o disco de um lado para o outro. Esse momento serve de preparação para a realização do giro de lançamento, que projeta o disco para a frente. Figura 5 Técnicade balanceios A B C D E F IE SD E 1 1 3 3 2 Figura 3 Empunhadura IE SD E Figura 4 Técnica básica de movimento Lançamentos e arremesso 75 Quanto ao lançamento em si, os movimentos dos braços permane- cem contrários um ao outro, enquanto seguem a projeção do giro cor- poral. O disco deve permanecer na altura do ombro e deve ser lançado sempre a partir do dedo indicador, saindo da mão, de dentro para fora; ou seja, no sentido horário, com a ponta dos dedos voltada para a frente. Figura 6 Lançamento PC CC Cp CC CC CC CC CC CC SC CC CC CC CC CC Na conclusão do lançamento do disco, o atleta imprime tanta força que, normalmente, continua a girar sobre a perna de apoio, acontecen- do, assim, uma troca desse apoio no momento do giro, para manter o equilíbrio e não cair ou sair do círculo. Na escola, o disco pode ser facilmente adaptado utilizando pratos descartáveis, pratos plásticos, CDs e, até mesmo, madeira; isso quando for atingido um nível considerável de segurança. Há também inúmeros exercícios para iniciação e desenvolvimento do lançamento de disco, tanto de modo individual como em duplas, com ou sem objeto. No vídeo Lançamento de Disco com Andressa Oliveira (21/06/15), publicado pelo canal Vida de Atleta, podemos ver a atleta brasileira, já classificada para os Jogos do Rio 2016, contar a sua trajetória no esporte, a sua rotina de treino e a expectativa para as Olimpíadas. Ela também explica tudo sobre o lançamento de disco. Disponível em: https://youtu. be/jglpxoQ-qWU. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo 4.2 Lançamento de dardo O lançamento de dardo é uma prova nobre no atletismo e consiste em lançar um implemento em formato de lança pela maior distância possível. Como em outras modalidades , o peso , o tamanho , o centro de gravidade e o material do dardo sofreram alterações ao longo dos 76 Metodologia do ensino de atletismo anos. Existem dardos de bambu, de fibra de carbono, de fibra de vidro, de alumínio e de inox. A medida oficial do objeto para o masculino é de 2,60 m no mínimo e 2,70 m no máximo, e para o feminino 2,20 m no mínimo e 2,30 m no máximo, pesando 800 g e 600 g, respectivamente. Para lançar o dardo, o atleta precisa realizar uma corrida por uma pista de 36,5 m, onde, ao final, fica o círculo de lançamento. O atleta não pode ultrapassar a linha limite para lançar o implemento; tam- bém, não pode virar o rosto na mesma direção do dardo. Ele pre- cisa manter o rosto na posição contrária à lança. Figura 8 Classificação do lançamento de dardo Lançamento de dardo Feminino Masculino Pista de corrida e lançamento 36,5 m de comprimento 4 m de largura Categorias Dardo 800 gDardo 600 g Ocorre em Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Matthiesen (2017) classifica, também, a técnica básica de movi- mento em: preparação para lançamento e empunhadura, corrida de aproximação e preparação para o lançamento, lançamento em si, e conclusão do lançamento. A B C D E F G H I IE SD E Figura 7 Lançamento de dardo EE CCC ECEC CE CC CC CSCC CCC CCC CC C Figura 9 Técnica básica de movimento Lançamentos e arremesso 77 A preparação para lançamento e empunhadura é realizada no corredor de lançamento. O atleta escolhe um tipo de empunhadura, que pode ser: alemã em “V”, com o dardo entre os dedos indicador e médio; finlandesa, com apoio do indicador; ou americana, com apoio do indicador e do polegar. O competidor segura o dardo na altura da cabeça ou um pouco acima dela e dá início à corrida de aproximação. Figura 10 Tipos de empunhadura IE SD E Empunhadura Filandesa Empunhadura Americana Empunhadura Alemã em “V” Para a realização da corrida de aproximação e de preparação para o lançamento, é necessário que o atleta segure o dardo e posi- cione-o na horizontal, na altura da cabeça ou um pouco acima dela. A corrida acontece com velocidade progressiva e não prejudicial ao lançamento em si. Durante a fase da corrida, o competidor se prepara para a chamada passada cruzada, no momento final antes do lançamento. Na medida em que ele se aproxima da linha de lançamento, é necessário realizar a pro- jeção do corpo para o lançamento propriamente dito. Normalmente, são cinco passos finais. De acordo com Matthiesen (2017), nos três primei- ros passos finais, o atleta leva o dardo para trás, continua na altura dos ombros e rotaciona o tronco para o lado que segura o dardo. No quar- to passo, acontece a passada cruzada, em que o lançador realiza uma passada rasante da perna de ataque para a frente; com isso, promove um atraso do tronco e do braço, ganhando força de impulsão no lança- mento. Com esse movimento, o atleta realiza o quinto passo, apoiando o pé esquerdo no solo e realizando o lançamento. IC Cp CCC Cg CS CC CCC CC CC CC Figura 11 Passadas finais do lançamento 78 Metodologia do ensino de atletismo A conclusão do lançamento, também conhecida como arremate, ca- racteriza-se pela recuperação do equilíbrio, uma vez que o atleta pro- jeta seu corpo para a realização do lançamento com muita impulsão e concentra a força no braço de lançamento. Todavia, ele precisa ter o controle para não invadir o setor de queda do dardo, limitado ao arco de lançamento, este feito, normalmente, com uma linha branca pinta- da no solo. Na escola, o dardo pode ser facilmente adaptado utilizando boli- nhas de meia, bolinhas de jornal, cabos de vassoura ou tubos plásticos, desde que se observe o nível dos praticantes e um grau considerável de segurança seja levado em conta. Há também inúmeros exercícios para iniciação e desenvolvimento do lançamento de dardo, tanto de modo individual como em duplas. 4.3 Lançamento de martelo O lançamento de martelo ocorre no mesmo local do lançamento de disco, isto é, dentro da gaiola de lançamento, que é revestida por tela ou rede, para oferecer segurança ao público presente. Assim como a gaiola, a área de lançamento é a mesma, composta por um círculo de 2,135 m feito de concreto. O atleta não pode deixar o círculo até que o martelo tenha contato com o chão após o lançamento; depois que o implemento tocar o chão, o competidor deve sair pela parte de trás do círculo. SC CC jC CC CC SC CC CC CC CC CC Figura 12 Lançamento de martelo Lançamentos e arremesso 79 Antigamente, o martelo era feito de pedra com um cabo de madeira rígida. Hoje, é composto de uma esfera de metal presa a um cabo em aço com empunhadura/manopla. O peso é de 7,26 kg para os homens e de 4 kg para as mulheres, enquanto o comprimeto é de no máximo 1,215 m para o masculino e 1,195 m para o feminino. Figura 14 Classificação do lançamento de martelo Lançamento de martelo Feminino Masculino Categorias Fixadas em cabo de aço Bola 7,2 kgBola 4 kg Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Matthiesen (2017) classifica, didaticamente, o passo a passo da técnica básica de movimento em: preparação para lançamento e em- punhadura, sendo a preparação para o lançamento dividida em moli- nete e giro, lançamento em si, e conclusão do lançamento. IC Cp CCC Cg CS CC CCC CC CC CC Na preparação para lançamento e empunhadura, o atleta se po- siciona na parte traseira do círculo, de costas para a área de queda e com as pernas na largura dos ombros; ele realiza a empunhadura segurando a manopla do martelo. A partir desse momento, realiza os balanceios para dar início aos molinetes (giros de preparação para o lançamento). Para tanto, com o martelo à frente do corpo, executa ba- lanceios para a direita e para a esquerda e inicia o molinete. Figura 13 Pesos oficiais do martelo IE SD E 1,215 m 7,26 kg 4,00 kg 1,195 m M asculino Fem inino Figura 15 Técnica básica de movimento A preparação para o lançamento se caracteriza pelo molinete e pelos giros, consequência dos balan- ceios realizados na fase anterior. Geralmente, são executados dois ou três molinetes, seguidos de qua- tro giros que antecedem o lançamento. O lançamento em si acontece após o terceiro giro. Na sequência, iniciao lançamento com o quarto giro. Já a conclusão do lançamento é feita por meio da ve- locidade de giro atingida na fase de lançamento. No ambiente escolar, as adaptações e confecções de materiais alternativos para a iniciação do lançamento de martelo são extremamente importantes, pois o manuseio e a técnica de execu- ção têm sido muito discutidos e relacionados à segurança dos alunos. Nesse sentido, o martelo pode ser construído pelos próprios alunos, com elásticos ou meias para fazer o cabo, com anéis de papelão reves- tidos com fita adesiva ou outro material, como borracha, para criar a empunhadura/manopla, e com meias ou tecido revestido de fita adesi- va e areia dentro. Assim, o lançamento de martelo poderá ser trabalha- do em atividades lúdicas para iniciação à modalidade. 4.4 Arremesso de peso O arremesso de peso consiste em arremessar um implemento de aço em formato esférico e totalmente liso; mas esse esporte nem sem- pre foi dessa forma e não era realizado como é atualmente. Antes de fazer parte dos Jogos Olímpicos, o arremesso era estático, praticado com pedra ou bala de canhão, que se aproxima mais do modelo atual. Nas competições oficiais com até oito atletas, cada um pode rea- lizar seis arremessos; já nas competições com mais de oito esportis- tas, são três arremessos. Estes são executados dentro do círculo de arremesso, com um anteparo à frente. Não é permitido que o competidor pise fora do círculo, sobre o anteparo, ou deixe a área antes que o peso toque o chão, no setor de queda após o arremesso. A saída do círculo de arremesso deve acontecer pela parte posterior. Nas competições oficiais para adultos, o peso do implemento para os homens é de 7,26 kg e para as mulheres é de 4 kg. Figura 16 Empunhadura IE SD E DCCCC ECECCECSCCCCCCCCCCC Figura 17 Arremesso de peso 80 Metodologia do ensino de atletismo Lançamentos e arremesso 81 O arremesso de peso possui várias formas de execução, mas todas elas consistem em posicionar o implemento junto ao pescoço. Nesse sentido, temos três estilos técni- cos mais utilizados: ortodoxo ou sem deslocamento; giro rotacio- nal ou com deslocamento; e O’Brien. A seguir, conheceremos cada um deles. O estilo ortodoxo é caracteri- zado pelo arremesso sem deslo- camento. É muito utilizado para a iniciação no esporte, pois é mais simples de ser realizado. Por meio desse estilo, o aluno poderá desenvolver a técnica com deslocamento. IE SD E Na preparação para arremesso e empunhadura desse estilo, o atle- ta se posiciona lateralmente ao círculo, com as pernas afastadas, se- gurando o peso junto ao pescoço do lado contrário à parte frontal do círculo. Ele mantém o braço que segura o peso flexionado e o outro, estendido. A empunhadura é feita pelo contato do peso com a mão e com os dedos. O arremesso em si é feito sem deslocamento, empurrando o peso com o braço o mais distante possível. Na conclusão, há uma tendência, principalmente de iniciantes, em projetar o corpo para fora do círculo, o que não é permitido pela regra. A técnica ortodoxa é a mais indicada para iniciar a aprendizagem dessa modalidade por ser de simples execução, mesmo quando se uti- Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Arremesso de peso Feminino Masculino Tem 3 tentativas Usa a técnica do giroCategorias Peso 7,2 kgPeso 4 kg O atleta Figura 18 Classificação do arremesso de peso Figura 19 Arremesso do peso estilo ortodoxo 82 Metodologia do ensino de atletismo liza os implementos de aço. Porém, é sempre recomendável que a ini- ciação seja feita com materiais adaptados. A B C D E IE SD E Na preparação para arremesso e empunhadura do peso no estilo ro- tacional, o atleta se posiciona de costas para o setor de queda, com as pernas afastadas, mantendo o peso do corpo sobre perna direita, se for destro, ou sobre a esquerda, se for canhoto. O braço que leva o objeto fica flexionado e o outro, estendido. A empunhadura é realizada da mesma forma que no estilo anterior. O deslocamento do arremesso em si acontece com deslocamen- to da ponta dos pés e rotação do tronco para realização do giro, até o corpo ser projetado para frente e o peso empurrado, realizando o arremesso. Da mesma forma que no estilo ortodoxo, há uma tendência de o atleta se projetar para a parte de fora do círculo devido ao impulso tomado para efetuar o arremesso. A técnica rotacional também é indicada para a iniciação no esporte, considerando a fase de aprendizado como nível intermediário e para alunos maiores, que já tenham consciência corporal. O estilo rotacional já exige uma técnica mais desenvolvida que o estilo ortodoxo e é bas- tante importante para o aprimoramento do arremesso. A B C D E F IE SD E Figura 20 Arremesso de peso estilo rotacional Figura 21 Estilo O’Brien Lançamentos e arremesso 83 Esse estilo carrega o nome de Parry O’Brien, campeão olímpico norte-americano que, no início dos anos 1950, desenvolveu esse méto- do pessoal de lançamento do peso. A preparação para arremesso e empunhadura do peso, nessa técnica, consiste em se posicionar dentro do círculo, de costas para o setor de queda, mantendo o peso do corpo sobre a perna direita, se o atleta for destro, ou sobre a esquerda, se for canhoto; a outra perna deve ficar um pouco afastada para trás, apoiada com a ponta do pé, e os dois braços à frente do corpo, um realizando a empunhadura e o outro ficando estendido. O deslocamento em si está dividido em três fases. Na Fase 1, o tron- co é ligeiramente flexionado para a frente; na Fase 2, ocorre a flexão e a aproximação das duas pernas; e na Fase 3, inicia-se o deslocamento do corpo para trás, com o movimento rasante da perna direita em direção ao centro do círculo (Figura C e D), enquanto a perna esquerda é deslo- cada para baixo, próxima ao anteparo (Figura E e F). Nesse momento, acontece o arremesso do peso. Na conclusão, dentre os estilos, esse é o que exige maior cuidado para não sair do círculo de lançamento. Portanto, a técnica deve ser bem apura- da, para que o arremessador não cometa infração pisando fora do círculo. Como vimos, dentre a técnicas, a de O’Brien é a que mais recruta consciência corporal, equilíbrio e articulação entre corpo e membros, para gerar força, potência e impulso. Desse modo, para aplicar uma se- quência didática adequada, sugerimos iniciar o aprendizado pelo estilo ortodoxo, passando para o rotacional até chegar no estilo O’Brien. Independentemente das técnicas utilizadas, existem, para todas elas, exercícios de iniciação e métodos para a confecção de implemen- tos adaptados, todos voltados à introdução e ao desenvolvimento do esporte no contexto escolar. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, vimos que, nos lançamentos de disco, dardo e martelo, os implementos são projetados de modo diferente dos utilizados no arre- messo de peso; neste, o implemento é empurrado. Em cada um desse esportes, pudemos observar as técnicas e as se- quências didáticas para facilitar a aprendizagem. Ainda, vimos o modo de 84 Metodologia do ensino de atletismo inserir essas práticas esportivas na escola. Detalhamos, também, as fases de preparação para lançamento e empunhadura, as execuções dos movi- mentos, os lançamentos e o arremesso em si, bem como suas conclusões. O importante a ser destacado é a possibilidade de trabalhar com essas modalidades na escola. Independentemente da faixa etária e da série, po- demos incluir os lançamentos e os arremessos no ambiente escolar por meio da construção de implementos adaptados com materiais reciclados, de jogos pré-desportivos que possuam características de movimentos se- melhantes aos realizados no esporte propriamente dito ou, até mesmo, por meio de atividades lúdicas. ATIVIDADES 1. Qual é a principal diferença entre as provas de arremesso e de lançamento na modalidade atletismo? 2. No atletismo, existem instrumentos que são utilizados em provas de lançamento e de arremesso. Quais são esses instrumentos e de que material eles são feitos?3. Nas provas de lançamento e de arremesso, no atletismo, a forma e as medidas dos implementos variam, adequando-se às características dos atletas de gênero feminino e masculino. Quais são as principais diferenças apresentadas? REFERÊNCIAS DICIONÁRIO OLÍMPICO. Atletismo. 2020. Disponível em: http://www.dicionarioolimpico. com.br/. Acesso em: 18 maio 2020. MATTHIESEN, S. Q. Atletismo: teoria e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. SANTOS, A. S. dos; VAGETTI, G. C.; OLIVEIRA, V. Atletismo: desenvolvimento humano e aprendizagem esportiva. Curitiba: Appris, 2007. VIDIGAL, J. M. S. Apostila Disciplina de Atletismo. Minas Gerais: PUC Minas ICBS, 2012. Provas combinadas e marcha atlética 85 5 Provas combinadas e marcha atlética Neste capítulo, você conhecerá as provas combinadas do atle- tismo, que compreendem um conjunto de esportes. Elas são divi- didas em heptatlo para a modalidade feminina, com sete provas, e decatlo para a modalidade masculina, com dez provas. Destacamos que existem outras modalidades de provas com- binadas, como o pentatlo moderno, o pentatlo clássico, o heptatlo e o decatlo para ambos os sexos. Entretanto, aqui, abordaremos o heptatlo e o decatlo conforme a classificação da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), uma vez que, por serem as únicas modalidades olímpicas, são as mais praticadas. Você conhecerá, também, a marcha atlética, bem como sua classificação, a técnica de execução do movimento de marcha, os erros mais comuns e os exercícios para a correção deles. Além disso, discutiremos acerca do processo didático-pedagógico para início da modalidade na escola. 5.1 Provas combinadas: heptatlo e decatlo Nas provas combinadas, o objetivo não é simplesmente vencer to- das as provas, mas, sobretudo, somar o maior número de pontos em cada uma delas; ou seja, o atleta precisa se preocupar em vencer as provas, mas precisa manter uma regularidade. Por exemplo, se um atleta vence uma prova e reúne resultados ruins nas demais, poderá fi- car atrás de um atleta que não ganhe nenhuma prova, mas tenha bons resultados no geral. Os pontos são atribuídos pela tabela de pontos da World Athletics. 86 Metodologia do ensino de atletismo Provas combinadas HeptatloFeminino Masculino 2 dias consecutivos Decatlo 10 provas7 provas ocorrem em são tipos de Figura 1 Classificação das provas combinadas composto por composto por Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Os atletas do heptatlo e do decatlo precisam ter versatilidade e bom desempenho em todas as provas. O conjunto dessa competição exige muita resistência, assim como habilidades e harmonia nas diferentes aptidões e valências físicas, como força, velocidade, coordenação, entre outras. Não é à toa que os vencedores recebem o título simbólico de maior atleta do mundo. Figura 2 Organização das provas de heptatlo e decatlo Provas combinadas Heptatlo 200 m rasos Arremesso de peso Lançamento de dardo Salto em distância 100 m com barreiras Salto em altura 800 m rasos é uma das composto por Provas combinadas Decatlo 100 m rasos Salto em distância Lançamento de dardo Salto em altura Lançamento de disco Arremesso de peso Salto com vara 100 m com barreiras 1 500 m rasos 400 m rasos é uma das composto por Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Provas combinadas e marcha atlética 87 No primeiro dia do heptatlo, são realizadas as provas de 100 m com barreiras, salto em altura, arremesso de peso e 200 m rasos; no se- gundo dia, acontecem as provas de salto em distância, lançamento de dardo e 800 m rasos. Figura 3 Provas de cada dia no heptatlo IE SD E 13s85 Performance necessária para marcar 1 000 pontos em cada prova Salto em distância 100 m com barreira Salto em altura Arremesso de peso 200 m Lançamento de dardo 800 m Heptatlo Primeiro dia Segundo dia 1,82 m 17,07 m 23s79 6,48 m 57,18 m 2min07s63 Já no decatlo, no primeiro dia de competição, são realizadas as pro- vas de 100 m rasos, salto em distância, arremesso de peso, salto em altura e 400 m rasos; no segundo dia, ocorrem as provas de 110 m com barreiras, lançamento de disco, salto com vara, lançamento de dardo e 1.500 m rasos. Figura 4 Provas de cada dia no decatlo IE SD E 10s39 Performance necessária para marcar 1 000 pontos em cada prova Salto em distância100 m Salto em alturaArremesso de peso Decatlo Primeiro dia Segundo dia 7,76 m 18,4 m 2,21 m 400 m 100 m com barreira 46s17 13s80 Lançamento de dardoLançamento de disco Salto com vara 56,18 m 5,29 m 77,20 m 1 500 m 3min53s79 88 Metodologia do ensino de atletismo Cada prova possui suas próprias regras, como já vimos separada- mente nos capítulos anteriores. Contudo, de forma geral, as provas combinadas possuem regras específicas, que destacaremos a seguir. De acordo com a CBAt (2020): • O intervalo deve ser de pelo menos 30 minutos entre o término de uma prova e o início da próxima, para qualquer atleta. • O tempo entre o fim da última prova do primeiro dia e o início da primeira do segundo dia deverá ser de pelo menos 10 horas. • A ordem dos participantes deverá ser feita por sorteio, antes da prova. • As regras das provas são as mesmas definidas pela World Athletics para provas individuais, exceto nas provas de salto em distância, arremesso e lançamento, nas quais o atleta terá três tentativas, a depender da quantidade de competidores. • Não havendo cronometragem automática, a aferição pode ser realizada por três árbitros cronometristas. • Nas provas de pista, o atleta será desclassificado se cometer duas faltas, ou seja, sair antes do tiro de partida. • É necessário que o atleta participe de todas a provas e pontue em todas elas. • A pontuação é definida pela tabela da World Athletics. As provas combinadas nos oferecem um leque de possibilidades para desenvolver essas práticas no ambiente escolar, uma vez que possuem um conjunto de esportes com opções de adaptação aos espaços e aos recursos disponíveis na escola. Já conhecemos tais formas quando trabalhamos com as modali- dades de maneira individualizada nos capítulos anteriores; vimos as técnicas e a organização didática e pedagógica para o processo de inserção do esporte. Mas, além desse conhecimento, é importante destacar que, mesmo que a regra do heptatlo e do decatlo espe- cifique o quantitativo de sete e dez provas, em cada modalidade, respectivamente, podemos trabalhar com no mínimo três ou quatro provas no âmbito escolar; esta última é classificada como tetratlo. Desse modo, podemos escolher provas em que os alunos estejam mais aptos ou em que as condições estruturais sejam melhores para o desenvolvimento da modalidade. Provas combinadas e marcha atlética 89 Vale destacar que o tetratlo é um conjunto de provas da categoria Sub-14, de acordo com as regras da CBAt, e é disputado nos Jogos Es- colares da Juventude. Ele compreende as modalidades de 80 m com barreiras, arremesso de peso, salto em distância e 600 m rasos. 5.2 Marcha atlética A marcha atlética teve origem na Inglaterra, entre os séculos XVII e XVIII, porque, nesse período, os caminhantes percorriam longas dis- tâncias. Obviamente, a prática passou por muitas modificações até ser compreendida e institucionalizada como esporte olímpico. A marcha atlética é caracterizada por uma sucessão de passos, em que, alternadamente, pelo menos um dos pés do atleta sempre man- tém contato com o solo. A perna de avanço toca o solo de maneira reta até a posição vertical. As distâncias das provas de marcha atlé- tica são 20 km na categoria feminina e 20 km ou 50 km na categoria masculina. São aspectos fundamentais nesse tipo de prova a técnica apurada e a resistência. Figura 5 Classificação da marcha atlética Provas de rua Marcha atlética Categorias Feminino Masculino 20 km 20 km 50 km é uma das Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. 90 Metodologia do ensino de atletismo De acordo com as regras oficiais da CBAt (2020, p. 183), “a marchafiliou, em 1914, à Federação Internacional de Atletismo Amador, cria- da em 1912. Em 2001 mudou para Associação Internacional das Fede- rações de Atletismo, mas permaneceu com a mesma sigla (IAAF) – vale ressaltar que a IAAF mudou de nome e logomarca em 2019, passando a se chamar World Athletics; em português, Atletismo Mundial. Essa fi- liação foi o que possibilitou a primeira participação brasileira em um torneio olímpico, nos Jogos de Paris, em 1924, conhecidos como Jogos de Verão. O primeiro campeonato nacional no Brasil foi o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, no ano de 1925 (CBAt, 2008). Em 1931, liderada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a seleção nacional começou a disputar os Campeonatos Sul-America- decatlo: competição de atletismo composta por dez provas. Nos Jogos Olímpicos, é exclusivamente praticada por homens. O equivalente feminino dessa prova é o heptatlo, com sete provas. Glossário Introdução ao atletismo 13 nos. Segundo dados da CBAt (2008), “em 1932, Clovis Rapozo (oitavo no salto em distância) e Lúcio de Castro (sexto no salto com vara) chega- ram às finais nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos Estados Unidos. Quatro anos depois, Sylvio de Magalhães Padilha foi o quinto nos 400 m com barreiras nos Jogos de Berlim, na Alemanha”. Em 1945, foi criado o Troféu Brasil de Atletismo, que contou com a participação de clubes representando todos os estados brasileiros. Hoje, é a maior competição nacional de atletismo do calendário do país. Ainda de acordo com a CBAt (2008, on-line), “em 1952, nos Jo- gos de Helsinque, na Finlândia, Adhemar Ferreira da Silva conquistou a medalha de ouro no salto triplo, em 23 de julho”, batendo o recorde mundial com um salto de 16,22 m. Arquivo Nacional/W ikim edia Com m ons Visando a uma maior atenção e um maior foco na disseminação do esporte, em 1977, o atletismo se desliga oficialmente da CBD e passa a ser coordenado pela CBAt, órgão criado especificamente para cuidar do atletismo em todas as esferas, da base nas escolas até o alto ren- dimento. A CBAt teve origem no Rio de Janeiro em 1977, mudou para Manaus em 1994 e, em 2013, transferiu-se para São Paulo. Para resumir o processo histórico do atletismo que vimos até aqui, destacamos algumas datas importantes na linha do tempo a seguir. No início, as competições eram realizadas em um conjunto de modalidades, que envolviam atletismo, futebol, remo, entre outras. Acesse o QR Code a seguir e veja uma fotografia do evento realizado na época. Curiosidade Figura 4 Adhemar Ferreira da Silva durante os Jogos de Helsinque, em 1952 14 Metodologia do ensino de atletismo 1.2 Provas oficiais Vídeo Uma característica imprescindível para que um esporte seja con- siderado como oficial é a existência de um órgão regulamentador ao qual esteja associado e subordinado. Assim é o papel das federações, confederações, associações e comitês, que são responsáveis por orga- nizar eventos e, principalmente, elaborar as regras de cada esporte. 776 a.C. Primeira prova olímpica, uma corrida de 200 m chamada de stadium. 1896 Retorno das competições de estádio – atletismo moderno (corridas, saltos, lançamentos e combinadas). 394 d.C. Interrupção dos Jogos Olímpicos. 1910 Primeiras competições de atletismo no Brasil sob a responsabilidade da Confederação Brasileira de Desporto (CBD). 1914 CBD filia-se à IAAF. 1924 Primeira participação do Brasil em Jogos Olímpicos (Paris). 1928 Primeira participação das mulheres em Jogos Olímpicos (Amsterdã). 1929 Primeira competição oficial de atletismo no Brasil – Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. 1945 Primeira edição do Troféu Brasil de Atletismo. Hoje, é a principal competição nacional do calendário da CBAt. 1952 Primeira medalha no atletismo do Brasil, com Adhemar Ferreira da Silva no salto triplo (estabelecendo o novo recorde mundial). 2001 A IAAF altera sua denominação para Associação Internacional das Federações de Atletismo. 2019 A IAAF muda a logomarca e o nome para World Athletics. 1912 Criação da Federação Internacional de Atletismo Amador (IAAF). 1977 Criação da CBAt no Rio de Janeiro. Introdução ao atletismo 15 Sem as entidades representativas não seria possível estabelecer normas, padrões e regras para cada modalidade. Imagine cada país criando sua própria regra para uma mesma prática; seria um caos para realizar uma competição internacional, não é mesmo? Portanto, a se- guir, conheceremos algumas dessas organizações para depois saber quais são as provas oficiais e as instalações determinadas por elas. O atletismo não é diferente de outros esportes, isto é, possui mui- tas instituições responsáveis por ele e que vão de abrangência nacio- nal à internacional. Entidade máxima responsável por organizar competições mundiais e coordenar federações e confederações. WORLD ATHLETICS Com sede em Manaus, este é o órgão responsável por organizar competições em seu domínio na América do Sul. CONFEDERAÇÃO SUL-AMERICANA DE ATLETISMO (CONSUDATLE) Responsável pela administração, organização e realização das Olimpíadas. Seleciona e acompanha o país-sede dos Jogos em sua organização. COMITÊ OLÍMPICO INTERNACIONAL (COI) Atua diretamente com a CONSUDATLE no atendimento das federações regionais filiadas. Mantém relacionamento com os clubes e atletas, além de coordenar o esporte em nível estadual. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ATLETISMO (CBAt) Instituição máxima no esporte do Brasil. Todas a federações com esportes olímpicos e algumas que não possuem esporte nos Jogos Olímpicos são subordinadas ao COB. COMITÊ OLÍMPICO DO BRASIL (COB) Quando falamos em esporte adaptado, surgem órgãos específicos em função das especificidades de cada deficiência, que exigem atenção especial e um conjunto de regras ajustadas. Entidade máxima responsável, que tem, entre suas principais funções, organizar as Paralimpíadas. Responsável por coordenar todos os esportes que fazem parte das Paralimpíadas. COMITÊ PARALÍMPICO INTERNACIONAL (IPC) COMITÊ PARALÍMPICO BRASILEIRO (CPB) 16 Metodologia do ensino de atletismo Após conhecermos as entidades responsáveis pelo atletismo em ní- vel nacional e internacional, é hora de saber quais são as provas oficiais e suas classificações. As provas oficiais do atletismo são classificadas em diferentes grupos, de acordo com as capacidades e habilidades atléticas utilizadas pelos praticantes na competição. O conjunto de mo- dalidades é dividido em quatro grupos: provas de pista, provas de cam- po, provas de rua e provas combinadas. Figura 5 Organograma de provas oficiais PROVAS DE PISTA PROVAS DE CAMPO PROVAS DE RUA PROVAS COMBINADAS Lançamento de disco Salto em altura Maratona Lançamento de martelo Salto com vara Marcha Lançamento de dardo Salto em distância Arremesso de peso Salto triplo 100 m com barreiras Salto em distância Arremesso de peso 400 m rasos 110 m com barreiras Arremesso de disco Salto com vara Lançamento de dardo 1.500 m rasos 100 m com barreiras Salto em altura Arremesso de peso 200 m rasos Salto em distância Lançamento de dardo 800 m rasos Fonte: Dicionário Olímpico, 2020. Corridas rasas Provas de lançamento Heptatlo Provas de salto Decatlo Corridas de revezamento Corridas com barreiras Corridas com obstáculos Dividem-se em:Dividem-se em: Dividem-se em: Dividem-se em: PISTAS Ocorrem em IMPLEMENTOS São usados ESTÁDIOS Ocorrem em PERCURSO Tem Dividem-se em: São tipos de 7 provas 10 provas MasculinoFeminino Ink on g B ou tch ale rn/ Sh utt ers toc k Introdução ao atletismo 17 Como podemos ver, nas provas de pista, acontecem corridas ra- sas e revezamento, com barreiras e obstáculos. Já nas provas de cam- po, temos os lançamentos de dardo, disco e martelo, o arremesso de peso, os saltos em altura, com vara, em distância e triplo. Nas provas de rua, os atletas participam da maratona e da marcha atlética.atlética é uma progressão de passos, executados de tal modo que o atleta mantenha um contato contínuo com o solo, não podendo ocor- rer (a olho nu) a perda do contato com o mesmo. A perna que avança não deve estar flexionada”. Nesse sentido, além da técnica de execução da marcha aplicada ao movimento da perna, outros elementos são imprescindíveis para a di- nâmica da marcha, como os membros superiores e o tronco. A análise da biomecânica da marcha compreende os braços fle- xionados a 90º, com movimentação alternada para frente e para trás, impulsionando o corpo para a frente. Quanto mais rápidos forem os passos, mais rápido os braços são movimentados; semelhante à ca- minhada comum. O tronco se mantém ligeiramente inclinado para a frente, não havendo rotação exagerada do quadril. Com relação ao movimento dos membros inferiores, Matthiesen (2017) o define em duas fases de apoio: simples e duplo. Na simples, acontece o rolamento do pé sobre o solo, ou seja, há a entrada com o calcanhar; em seguida, toda a planta do pé é apoiada sobre o solo e, na finalização, a ponta do pé realiza a impulsão para a passada se- guinte. Na fase de duplo apoio, a ponta do pé posterior está tocando o solo, realizando a impulsão, enquanto o pé anterior realiza a entrada no solo, iniciando o movimento descrito no apoio simples. Perceba que o movimento da marcha mantém sempre os dois pés ou pelo menos um deles em contato com o solo; essa é a regra básica da modalidade. Figura 6 Marcha atlética Ev re nK al in ba ca k/ Sh ut te rs to ck O resgate do atletismo praticado na escola, nas aulas de Educação Física, é a perspectiva principal do livro Atletismo se apren- de na escola. Além da abordagem leve e acessí- vel dos conteúdos, a obra apresenta sugestões e orientações para iniciação da modalidade na escola, por meio de brincadeiras e jogos pré-desportivos. MATTHIESEN, S. Q. (org.). 2. ed. São Paulo: Fontoura, 2009. Livro Provas combinadas e marcha atlética 91 Pode acontecer, principalmente na fase inicial, de o aluno realizar movimentos desnecessários e/ou cometer erro na execução da mar- cha. Pensando nisso, a seguir, apresentamos alguns erros comuns. Quadro 1 Erros comuns e respectivas correções Erros Correções Perda de contato com o solo ou “flutua- ção”, provocando a fase aérea proibida na marcha atlética. Realizar movimento de forma mais lenta, dando ênfase ao movimento do quadril, em boa sincronia com os ombros para garantir que isso não aconteça. Insuficiente movimentação de membros superiores. Segurar um bastão em cada uma das mãos e exagerar o movimento dos braços, aumentando a amplitude e a frequência da passada. Flexão do(s) membro(s) inferior(es) ou “desbloqueio”. Realizar o movimento de forma lenta, com passadas curtas, no plano e em leve aclive, de modo que o machador possa sentir a total extensão das articulações dos joelhos. Movimento do quadril para os lados. Andar sobre uma linha reta, com um colega monitorando o movimento do quadril, com dois bastões colocados na lateral da pelve do marchador. Excessiva projeção do tronco. Marchador segurando um bastão atrás do corpo com os braços posicionados a 90º. Fonte: Matthiesen, 2017, p. 26. Como foi apresentado anteriormente, é preceito básico manter o contato com o solo, portanto é preciso que o pé dianteiro toque o solo antes que o traseiro perca esse contato. Assim, a perna que avança deve estar estendida, sem que haja flexão do joelho do primeiro con- tato até a perna ficar na posição vertical. A saída acontece da mesma forma que nas provas de longa distância, ou seja, em pé, atrás da linha de largada, e sob os comandos de “às suas marcas” e tiro de partida. O atleta pode ser advertido por cada árbitro uma única vez; quando este somar três advertências, de três árbitros, por não realizar o movimento de marcha, é desqualificado. 92 Metodologia do ensino de atletismo Para o processo de ensino da modalidade na escola, de modo a atender aos requisitos didático-pedagógicos, é importante a utilização de método simplificado. O professor deve torná-lo o mais fácil possível e fazer uso de atividades lúdicas, como uma brincadeira de pega-pega em que os alunos só possam caminhar. Assim, deve levantar uma dis- cussão acerca da diferença entre caminhar, andar e correr, observando os variados tipos de ritmos em cada uma delas. Com base na marcha atlética, é possível discutir temas transversais, uma vez que existe uma desinformação quanto ao movimento do qua- dril durante a marcha. Muitos creem que esse movimento está relacio- nado ao público feminino, como se homens não pudessem realizá-lo. Nesse sentido, vale destacar que a prova de marcha atlética foi criada so- mente para os homens. As mulheres passaram a integrar os campeona- tos mundiais somente no ano de 1991, e os Jogos Olímpicos ocorreram em 1992. Para homens, a marcha atlética foi inserida nos Jogos Olímpi- cos de 1908. É importante considerar, ainda, que, mesmo sendo a marcha atlé- tica uma prova de fundo, ou seja, de longa distância, a metodologia de ensino requer um aprendizado com atividades curtas e variação entre andar lento e rápido, inserindo, aos poucos, os movimentos específicos da marcha. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, foi possível conhecer as provas combinadas e a marcha atlética. Vimos, também, que o heptatlo e o decatlo são conjuntos de pro- vas que os atletas realizam em dois dias de competição, sendo o heptatlo voltado para as mulheres e o decatlo, para os homens. Atualmente, há um movimento para que os Jogos Olímpicos passem a ter o decatlo para homens e mulheres, substituindo o heptatlo. Foi possível aprender, também, sobre o tetratlo, que, por sua vez, corresponde a uma modalidade específica para os Jogos Escolares, ten- do em vista as limitações físicas de jovens na realização do conjunto de provas da categoria Adulto. Além disso, o heptatlo e o decatlo para jovens exige maiores investimentos em instalação, tempo e organização. Por fim, sempre frisamos o quanto é importante disseminar essa prá- tica por sua representatividade no conjunto de provas do atletismo, bem como por sua contribuição na melhoria das habilidades motoras, da coor- denação e do desenvolvimento global do aluno. O material Aprendendo a marcha atlética é um Projeto de Intervenção Pe- dagógica na escola apre- sentado como Plano de Formação Continuada do Programa de Desenvolvi- mento Educacional. Com uma linguagem objetiva e acessível, apresenta todos os aspectos da marcha atlética, como o histórico da modalidade, as regras e a metodologia de ensino. Conta, ainda, com exemplos de aulas prá- ticas com processos peda- gógicos globais, parciais e mistos, além de atividades para sala de aula. OLIVEIRA, I. T. São José dos Pinhais: Secretaria de Estado da Educação/ Universidade Federal do Paraná, 2008. Disponível em: http://www. diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/ pde/arquivos/1836-6.pdf. Acesso em: 18 maio 2020. Leitura http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1836-6.pdf http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1836-6.pdf http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1836-6.pdf Provas combinadas e marcha atlética 93 ATIVIDADES 1. O heptatlo é uma competição de atletismo que reúne sete provas, cujo objetivo não é simplesmente vencer todas, mas, sobretudo, somar o maior número de pontos em cada uma delas. Diante do que foi apresentado, explique como funciona e quais são as provas disputadas no heptatlo. 2. Quais são as diferenças básicas nas provas de decatlo e heptatlo? 3. Quais são as principais características da marcha atlética? E quais são as distâncias para as provas das categorias feminina e masculina? REFERÊNCIAS CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ATLETISMO - CBAt. Regras De Competição e Regras Técnicas – 2020: Edição Oficial para o Brasil. São Paulo: CBAt, 2020. Disponível em: http://www.cbat. org.br/repositorio/cbat/documentos_oficiais/regras/regrasdecompeticaoeregrastecnicas_edicao2020.pdf. Acesso em 18 maio 2020. DICIONÁRIO OLÍMPICO. Atletismo. 2020. Disponível em: http://www.dicionarioolimpico. com.br/. Acesso em: 18 maio 2020. MATTHIESEN, S. Q. (org.). Atletismo se aprende na escola. 2. ed. São Paulo: Fontoura, 2009. MATTHIESEN, S. Q. (org.). Atletismo: teoria e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. VIDIGAL, J. M. S. Apostila Disciplina de Atletismo. Minas Gerais: PUC Minas, ICBS, 2012. 94 Metodologia do ensino de atletismo 6 Paratletismo Neste capítulo, você conhecerá o histórico da prática esportiva para pessoas com deficiência, bem como do esporte adaptado e da evolução das Paralimpíadas até chegarem à compreensão e à regulamentação que temos atualmente, com classificação funcio- nal, classe e provas. Na classificação funcional, conheceremos como são realizadas as avaliações em cada etapa, e as classes nas quais os atletas podem participar após o laudo da avaliação. Veremos também as provas oficiais do paratletismo separadas por pista e campo. Além dos aspectos gerais, das especificidades do esporte e das principais regras, abordaremos a importância das modalidades para a inclusão social de pessoas com deficiência e dos valores presentes nessa prática, que representa lições para a vida. 6.1 Paratletismo e inclusão Na história, há indícios de práticas esportivas com pessoas com de- ficiências auditivas e visuais na natação e no atletismo no início do sé- culo XX. Entretanto, o esporte adaptado para esse público surgiu após a Segunda Guerra Mundial com o médico Ludwig Guttmann, que orga- nizou competições de arco e flecha entre pacientes cadeirantes do hos- pital de Stoke Mandeville, na Inglaterra, no ano de 1948, como forma de reabilitação e de inclusão social para soldados que foram mutilados durante a guerra. Esse evento chamou a atenção do mundo, principalmente do co- mitê organizador dos Jogos Olímpicos. Essa iniciativa de promover competições entre pacientes, organizada pelo médico, impulsionou os estudos e competições entre pessoas com deficiência e, no ano de 1960, foram realizados os primeiros jogos Paralímpicos em Roma. Paratletismo 95 Essa edição contou com cerca de quatrocentos atletas de vinte e três países, competindo em oito modalidades. Figura 1 Corrida com atleta amputado de braço CH EN W S/ Sh ut te rs to ck O atletismo adaptado é institucionalizado pelo Comitê Paralímpico Internacional (IPC). O paratletismo é voltado a pessoas com deficiên- cias física, visual e intelectual e é a maior modalidade em quantidade de atletas nas Paralimpíadas. As provas são separadas por pista, rua e campo, e contemplam corridas, saltos, lançamentos e arremessos nas categorias masculino e feminino. No Brasil, o paratletismo, assim como outros esportes paralímpicos, é gerido pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Todas as provas apresentam adaptações e possuem regras específicas, mas a infraestrutura é a mesma utilizada por atle- tas sem deficiência. O paratletismo carrega consigo a capacidade de superação constan- te; as histórias dos paratletas são das mais diversas, com muitos desa- fios e conquistas. São pessoas que encontraram no esporte uma forma de melhorar a autoestima, a independência e a socialização; afinal, qualquer deficiência, seja ela congênita (que já nasce com o indivíduo) ou adquirida (que ocorre depois do nascimento), provoca barreiras que precisam ser vencidas. Nesse sentido, podemos perceber como é importante a aplicação do esporte para a educação inclusiva na escola. Com base no atletismo, 1960 Roma – Itália 1964 Tóquio – Japão 1968 Tel Aviv – Israel 1976 Toronto – Canadá 1980 Arnhem – Países Baixos 1988 Seoul – Coreia do Sul 1992 Barcelona – Espanha 1996 Atlanta – Estados Unidos 2000 Sydney – Austrália 2004 Atenas – Grécia 2008 Pequim – China 2012 Londres – Grã-Bretanha 2016 Rio de Janeiro – Brasil 2020 Tóquio – Japão (adiado para 2021 devido à pandemia de COVID-19) 1984 Stoke Mandeville – Inglaterra e Nova York – Estados Unidos 1972 Heidelberg – Alemanha Ocidental 96 Metodologia do ensino de atletismo o professor pode iniciar um trabalho voltado à inclusão de alunos com algum tipo de deficiência, promovendo o bem-estar e a qualidade de vida. Além disso, pode desenvolver capacidades motoras e físicas, como coordenação, equilíbrio, força e resistência. A pesquisa O esporte adaptado como fator de inclusão social para pessoas com deficiência física, de Everson Grubano, contextualiza o esporte adaptado como agente de inclusão e transformação social para pessoas com deficiên- cia. A metodologia de perguntas e respostas apresenta de maneira objetiva os tipos de deficiência, a classificação da modalidade e os benefícios da práti- ca esportiva para a vida das pessoas que possuem algum tipo de deficiência. Acesso em: 18 maio 2020. http://repositorio.unesc.net/bitstream/1/3075/1/Everson%20Cardoso%20Grubano.pdf Pesquisa A prática do atletismo para alunos com deficiência representa a educação inclusiva, possibilitando a transformação para uma sociedade inclusiva, em que se amplia a participação de todos os alunos nas atividades. Assim, com base nessa perspectiva, espera-se reestruturação da cultura e das práticas nas escolas de maneira a atender a diversidade e as necessidades dos alunos. Portanto, o paratletismo pode contribuir significativamente com o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de habilidades para esse pú- blico que convive com limitações, mas que busca se auto superar dia- riamente. As pessoas com deficiência, inclusive intelectual, geralmente possuem algum comprometimento motor, e o atletismo ajuda na flexi- bilidade, no equilíbrio, na agilidade, na força, na orientação espacial e na coordenação motora. Entretanto, os benefícios da prática vão além desses; a conquista da independência, resgate da autonomia e estabelecimento de vínculos estão rela- cionados aos mais importantes ganhos para a vida. 6.2 Classificação funcional A classificação funcional existe para garantir a legítima participação de todos os atletas com deficiências. Assim, de acordo com a classi- ficação, há um nivelamento entre os aspectos relacionados aos tipos de deficiência, então os atletas são colocados em grupos equivalentes. Figura 2 Salto em altura no paratletismo CHEN W S/Shutterstock http://repositorio.unesc.net/bitstream/1/3075/1/Everson%20Cardoso%20Grubano.pdf Paratletismo 97 Essa organização permite uma competição justa e igualitária entre os indivíduos, pois a classificação atribuída ao atleta é pré-requisito. O sistema de classificação funcional é fundamental em todas as modali- dades paralímpicas, visto que garante direitos iguais e, consequente- mente, impede que injustiças aconteçam. A divisão por grupos está entre os critérios essenciais no parades- porto, tanto é que sua atualização se tornou constante com o passar dos anos, por isso os atletas são avaliados periodicamente. É comum uma pessoa com deficiência entrar em uma classificação e, em nova avaliação (chamada de revisão), mudar de categoria. Isso ocorre nor- malmente por dois motivos; o primeiro, e mais comum, é o atleta me- lhorar sua capacidade funcional com os treinamentos, fazendo com que ele realize os movimentos de modo muito superior aos da catego- ria atual. A segunda pode acontecer por uma regressão no quadro da deficiência que o limite ainda mais ao realizar os movimentos. É importante destacar que a avaliação acontece em três fases: ava- liação médica, com laudo específico da deficiência; funcional, que é a especificidade do esporte, ou seja, se a deficiência está relacionada com a modalidade; e observação, que ocorre dentro e fora da compe- tição, evitando, assim, injustiças e fraudes. Os profissionais envolvidos na avaliação, conhecidos como classificadores, são: médico, fisiotera- peuta e profissional de Educação Física, considerando respectivamente os estágios médico, funcional e técnico. O médico avalia, com base em exames,a patologia que causa de- terminada impossibilidade ou limitação. O fisioterapeuta aplica testes de amplitude de movimento articular (força muscular, coordenação motora, mensuração de membros e troncos) a fim de identificar pos- síveis ações musculares utilizadas na prática esportiva. O objetivo é verificar se o atleta realmente não tem resíduos dessas ações que o coloque em vantagem em relação aos demais. O profissional de Edu- cação Física é o responsável por acompanhar a execução em prova teste, observando os movimentos do atleta, possibilidades de adap- tações, utilização de próteses (aparelhos de uso permanente) ou ór- teses (aparelhos de uso provisório). Durante uma prova, é possível identificar algo que tenha ficado obscuro durante o processo de avaliação para classificação funcional. Figura 3 Atleta anão de lançamento de dardo Sh ShS ehS S/S hut ter sto ck O livro Atividade física adaptada: qualidade de vida para pessoas com necessidades especiais traz uma abordagem dinâmica sobre as possibilidades da inserção da prática esportiva para pessoas com deficiência, ofere- cendo subsídios, com informações atualizadas acerca das especificidades de diversas modalidades esportivas e enfatizando os benefícios sociais para esse público. GREGOUL, M.; COSTA, R. F. (orgs.). 4. ed. rev. ampl. Barueri, SP: Manole, 2018. Livro 98 Metodologia do ensino de atletismo Muitas vezes, com o intuito de vencer inerente à competição, o atleta mostra todo o seu potencial funcional, por isso existem classificadores monitorando os atletas em várias competições. Vale ressaltar que um atleta pode pertencer a vários grupos e classificações, ou seja, pode ter deficiência visual e possuir também deficiência física motora. Nesse contexto, de acordo com a classificação funcional, os atletas são categorizados por classes. Essas classes variam de 11 a 64, conside- rando pista (track), identificada pela letra T, e campo (field), identificado pela letra F. Figura 4 Classes do paratletismo IPC Atlhetics Deficiência intelectual Classe 20 Amputados e outros Classes 40 - 41 (anões) Classes 42 - 44 (amp. de perna) Classes 45 - 47 (amp. de braço) Deficiência visual Classes 11 - 13 Paralisados cerebrais Classes 31 - 34 (cadeirantes) Classes 35 - 38 (ambulantes) Paraplégicos e tetraplégicos Classes T51 - T54 (pista) Classes F51 - F57 (campo) Todos os cadeirantes Amputados de perna Classe 61 - 64 (com prótese) Fonte: Comitê Paralímpico Brasileiro, 2019. Como vimos, para que uma pessoa seja considerada elegível ao paratletismo, precisa passar por rigorosa avaliação a fim de definir a classe a que o paratleta pertencerá; cada classe apresenta e classifica o paratleta de acordo com a deficiência. No vídeo Atletismo para pessoas com deficiência, publicado pelo canal kalebeps, conheça o projeto de atletismo para pessoas com deficiên- cia da Universidade do Estado de Santa Catarina, que visa desde o trabalho de iniciação e desenvolvi- mento até a formação de paratletas para disputar competições. Disponível em: https://youtu.be/ AMVVzRuuZBA. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo O Regulamento Geral de Paralimpíadas Escolares apresenta as normas gerais para a organização de eventos esportivos para pessoas com defi- ciência: finalidade, objeti- vos e justificativa. Ainda, descreve detalhadamente as especificações de cada modalidade. COMITÊ PARALÍMPICO BRASILEIRO. Paralimpíadas Escolares. São Paulo: CPB, 2019. Disponível em: https:// cpb.org.br/upload/document- s/5cea47bc4cb64b47bec3624ee- 3fb6bba.pdf Acesso em: 18 maio 2020. Leitura Paratletismo 99 A classificação funcional é primordial na prática esportiva de qual- quer modalidade esportiva para pessoas com deficiência, pois promo- ve igualdade e inclusão dentro e fora da competição. 6.6.3 Provas Como vimos anteriormente, as provas são classificadas da mesma forma que no atletismo convencional, com estrutura e equipamen- tos esportivos adequados; nesse último, são incluídos itens a mais, como cadeiras adaptadas, faixas de amarração para oferecer maior segurança, próteses e óculos escuros para deficientes visuais na clas- se T11 para evitar percepção luminosa. Também, são alterados os pesos dos implementos. Conforme o regulamento do CPB (2019), as provas são para ambos os sexos e estão divididas em pista, rua e campo. Rua Maratona (42 km) Meia-maratona (21 km) Campo Lançamento de disco e club Lançamento de dardo Arremesso de peso Pista Velocidades: 100 m, 200 m, 400 m, rev. 4x400 m e rev. 4x100 m Meio fundo: 800 m, 1.500 m Fundo: 5.000 m, 10.000 m Salto em distância Salto em altura Salto triplo Figura 5 Classificação das provas paralímpicas Fonte: Comitê Paralímpico Brasileiro, 2020. As provas de pista são: velocidade 100 m, 200 m, 400 m, 4x100 metros e 4x400 metros; meio-fundo 800 m e 1.500 m; fundo 5.000 m e 10.000 m; e saltos em distância, em altura e triplo. As provas de rua são: meia-maratona (21 km) e maratona (42 km). Já as provas de campo são os lançamentos de dardo, disco e club e arremesso de peso. O club é um implemento alternativo e específico do paratletismo para pessoas que não conseguem segurar o disco, pertencentes às classes 31, 32 e 51. Além do peso mínimo do club ser de 397 g, ele deve ser feito de madeira e estar em conformidade com as especificações de tamanho apresentadas na Figura 6. Diâmetro: 1,8 - 2,0 cm Diâmetro: 5 - 6 cm Peso: 397 g Extremidade de metal: 3,8 cm de diâmetro Comprimento total: 35 - 39 cm IESDE Figura 6 Club Em todas as provas de pista, atletas da classe T11 devem correr com o atleta guia, utilizando uma corda que une as mãos dos dois. A principal regra é que atleta e guia devem sempre correr juntos; em hipótese alguma, o guia poderá correr à frente do atleta, muito menos puxá-lo. O guia pode dar instruções verbais, pois ele é uma extensão do paratleta devido à sua deficiência visual. Para isso, são disponibili- zadas duas raias para o atleta e o guia e eles serão tratados como uma só pessoa. Para as demais classes (T12 e T13), o guia poderá dar ins- truções e acompanhar o atleta até a pista, área de lançamento ou sal- to, devidamente identificado com uso de um colete laranja fornecido pela comissão organizadora. Nas corridas de revezamento, a passagem do bastão deve ser realiza- da dentro da zona de passagem. Tan- to o atleta como o guia devem estar dentro da zona de pas- sagem quando ela ocorrer e o bastão pode ser passado pelo atleta ou pelo guia, mas o atleta deve entrar na zona de passagem primeiro. No vídeo Esporte Paralím- pico: Lançamento de Club, Suellen Gomes Calixto, a Suh do canal O Nerd e a Cadeirante, entrevista Diego Cascardo, treinador de paratletas, sobre o lançamento de club no Programa Esporte para Todos, na Cidade de Taubaté-SP. Disponível em: https://youtu. be/1ES-FCanzOc. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo Figura 7 Corrida de atletas cegos com guia CH EN W S/ Sh ut te rs to ck 100 Metodologia do ensino de atletismo Figura 8 Corrida de atletas cadeirantes Fo cu sD zi gS /S hu tte rs to ck Os atletas com paralisia cerebral estão entre as classes 31 e 38. As clas- ses 31 a 34 são os cadeirantes e as 35 a 38 são os andantes. As cadeiras de- vem, obrigatoriamente, ter duas rodas grandes e uma pequena na frente. No caso dos atletas andantes, ou seja, que possuem dificuldade de locomoção, mas não precisam de cadeiras, não é preciso utilizar bloco de partida, podendo realizar saída alta ou baixa com ou sem bloco; embora todos os atletas utilizem o bloco pela influência em melhorar o desempenho na largada. É importante destacar que a prótese é de res- ponsabilidade do atleta e deve estar com ele do início ao fim da prova. Os atletas com deficiência física seguem as mesmas regras conven- cionais. No caso dos atletas com deficiência visual, também é permitido o uso do guia. Na classe 11, o guia dá instruções em todas as etapas dos saltostriplos, em distância e em altura. Já nas classes 12 e 13, o guia apenas acompanha o atleta até a área dos saltos, sendo permitida a orientação apenas nesse local; após posicionar o atleta e sinalizar que a orientação foi concluída, o contato entre os dois não pode ser manti- do, sob pena de desclassificação. Os lançamentos e arremessos seguem as mesmas regras quanto ao guia para os deficientes visuais, além das adaptações neces- sárias para que os atletas consigam realizar as tentativas com sucesso e segurança. Para isso, os atletas com paralisia que não são andantes podem utilizar cadeiras adaptadas para os lançamentos de dardo, disco e club e arremesso de peso, bem como uso de tiras para prendê-los à cadeira. No vídeo Conheça a atleta que é esperança de medalha no atletismo das Paralímpiadas, publicado pelo canal do Jornal da Record, veja a história de vida, dificuldades, supe- ração, rotina de treinos e perspectivas da atleta paralímpica Terezinha Guilhermina, que compe- te como corredora nos 100 m, 200 m e 400m. Disponível em: https://youtu.be/ ZIIGKnqajN0. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo Figura 9 Salto em distância de atleta com membro amputado CC DC Cress/Shutterstock 101Paratletismo 102 Metodologia do ensino de atletismo As regras para utilização da cadeira, como tam- bém a localização, o posicionamento, a amarração e as dimensões, são as mesmas para os lançamentos de dardo, disco e club e o arremesso de peso. No contexto escolar, as regras e os implementos podem ser facilmente adaptados pelo professor. O atletismo para pessoas com deficiência é totalmente possível de ser trabalhado na escola, visto que são uti- lizados os mesmos espaços do atletismo convencional. Porém, ele requer a adaptação das atividades e da in- fraestrutura, tornando a escola acessível para garantir a participação dos alunos. Portanto, é imprescindível que o professor de Edu- cação Física compreenda a classificação funcional com clareza para assegurar igualdade em suas au- las, atendendo à função social da escola e aos objetivos da classificação no esporte paralím- pico: promover a participação e igualdade na competição, estimular o envolvimento e encorajar alunos e atletas a outros ní- veis de desempenho. CONSIDERAÇÕES FINAIS Trabalhar o paratletismo na escola significa estimular a participação dos alunos com deficiência em atividades esportivas. Educar o aluno com base na prática esportiva na escola reforça a construção de valores funda- mentais para o desenvolvimento de uma sociedade melhor, pacífica, livre de discriminação, solidária e, acima de tudo, que respeita as diferenças. A inserção do paratletismo na escola promove um ambiente demo- crático, onde os alunos se sentem parte integrante. Além disso, viabiliza o acesso e a permanência do aluno no contexto escolar e prepara todos os envolvidos no processo para o pleno exercício da cidadania. Figura 10 Arremesso de peso na cadeira de lançamento ShShSehSS/Shutterstock O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) possui um canal no YouTube no qual você encontra tudo sobre paradesporto e Paralimpíadas de alto rendimento e escolares, histórias, treinos, além de orientações para profes- sores e muito mais. Disponível em: https://www.youtu- be.com/user/cpboficial. Acesso em: 18 maio 2020. Vídeo https://www.youtube.com/user/cpboficial https://www.youtube.com/user/cpboficial Paratletismo 103 REFERÊNCIAS COMITÊ PARALÍMPICO BRASILEIRO. Paralimpíadas Escolares. São Paulo: CPB, 2019. Disponível em: https://cpb.org.br/upload/documents/5cea47bc4cb64b47bec3624ee3fb6bba.pdf. Acesso em: 18 maio 2020. GREGOUL, M.; COSTA, R. F. Atividade física adaptada: qualidade de vida para pessoas com necessidades especiais. 4. ed. ver. ampl. Barueri, SP: Manole, 2018. MELLO, M. T.; WINCKLER, C. Esporte Paralímpico. Rio de Janeiro: Atheneu, 2012. SILVA NETO, A. de O. Educação inclusiva: uma escola para todos. Revista Educação Especial, v. 31, n. 60, p. 81-92, jan./mar. 2018. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/ educacaoespecial/article/view/24091/pdf. Acesso em: 18 maio 2020. https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/24091/pdf https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/24091/pdfPor fim, nas provas combinadas, os atletas realizam o heptatlo (conjunto de sete provas) para o feminino e o decatlo (conjunto de dez provas) para o masculino. Percebemos que há uma classificação por gênero masculino e fe- minino nas provas; isso acontece devido à diferença nas capacidades de proficiência física entre homens e mulheres, que são muito utiliza- das no atletismo. Dentre elas, podemos citar força, velocidade e re- sistência. Quando comparamos os resultados das provas, fica muito evidente essa diferenciação. Por exemplo, no masculino, o recorde mundial de uma maratona (42.195 m) é do queniano Eliud Kipchoge, com o tempo de 01:59:40; já no feminino, o recorde é da queniana Brigid Kosgei, com 02:14:04. As diferenças nos resultados seguem nos saltos, lançamentos, ar- remessos e demais provas. Por isso, a forma mais justa é separar as categorias por gênero na fase adulta. Já no processo de crescimento, maturação e desenvolvimento, o jovem possui diferenças morfológi- cas, psicofisiológicas, cognitivas, afetivas e sociais que ainda estão em formação; por isso, existe a classificação por faixa etária. A Norma 12, art. 1º da CBAt (2020), aprovada pela Assembleia Geral em 26 de abril de 2014 e atualizada pelo Departamento Técnico em 26 agosto de 2019, refere-se às categorias e respectivas faixas etárias ofi- ciais do atletismo no Brasil, em consonância com as normas e regras da World Athletics e da CONSUDATLE, devendo ser aplicada obrigatoria- mente no atletismo brasileiro. Vamos ver, a seguir, quais são elas. a. Categoria Sub-14: atletas com 12 e 13 anos no ano da competição. b. Categoria Sub-16: atletas com 14 e 15 anos no ano da competição. c. Categoria Sub-18: atletas com 16 e 17 anos no ano da competição. d. Categoria Sub-20: atletas com 16, 17, 18 e 19 anos no ano da competição. e. Categoria Sub-23: atletas com 16, 17, 18, 19, 20, 21 e 22 anos no ano da competição. f. Categoria de Adultos: atletas de 16 anos em diante no ano da competição. O filme Raça retrata a vida do norte-ame- ricano Jesse Owens, corredor que, durante as Olimpíadas de 1936, mostrou ao mundo que a ideia de supremacia ariana construída por Hitler era apenas uma ideia racista. Direção: Stephen Hopkins. Canadá: Diamonds Films, 2016. Filme 18 Metodologia do ensino de atletismo g. Categoria de Masters: atletas de 35 anos em diante (idade a ser considerada no dia da competição). É importante destacar que, além das categorias definidas pelos ór- gãos regulamentadores, existe a divisão por faixa etária dentro das ca- tegorias, que é apresentada no Quadro 1. Quadro 1 Categorias e faixas etárias da CBAt Idade Masculino – Faixa etária Feminino – Faixa etária 35 a 39 anos M35 F35 40 a 44 anos M40 F40 45 a 49 anos M45 F45 50 a 54 anos M50 F50 55 a 59 anos M55 F55 60 a 64 anos M60 F60 65 a 69 anos M65 F65 70 a 74 anos M70 F70 75 a 79 anos M75 F75 80 a 84 anos M80 F80 85 a 89 anos M85 F85 90 a 94 anos M90 F90 95 a 99 anos M95 F95 100 anos e acima M100 F100 Fonte: CBAt, 2020. Ainda de acordo a Norma 12 da CBAt (2020), para as provas serem validadas e terem seus resultados homologados, a aplicação dessa norma é condição básica obrigatória em todas as competições oficiais de atletismo realizadas no Brasil. Além da classificação descrita no Quadro 1, a mesma norma da CBAt permite que as competições ofi- ciais, no Brasil, sejam subdivididas em: • Competições Sub-14: os atletas não podem participar em mais de duas provas, sendo uma individual e outra no revezamento. É vedada a participação de atletas menores de 11 anos de idade; para essa faixa etária, é recomendado o Programa Miniatletismo da CBAt/Word Athletics. Introdução ao atletismo 19 • Competições Sub-16: podem participar atletas com 14 e 15 anos de idade no ano da competição. • Competições Sub-18: podem participar atletas com 16 e 17 anos de idade no ano da competição. • Competições Sub-20: podem participar atletas com 16, 17, 18 e 19 anos de idade no ano da competição. • Categoria Sub-23: atletas com 16 e 17 anos de idade não podem participar das provas de arremesso, lançamentos e decatlos, no masculino, e das provas de 10.000 metros, maratona e marcha atlética, no masculino ou feminino. Atletas da categoria Sub-20 com 18 e 19 anos podem participar das competições Sub-23, exceto das provas de maratona e 50 km marcha atlética. A Norma 12 da CBAt (2020), ainda, estabelece idades mínimas para a participação de atletas em corridas de rua. São elas: • Provas com percurso de até 5 km: 14 (catorze) anos completos até 31 de dezembro do ano da prova. • Provas com percurso menor que 10 km: 16 (dezesseis) anos com- pletos até 31 de dezembro do ano da prova. • Provas com percurso de 10 km a 30 km: 18 (dezoito) anos com- pletos até 31 de dezembro do ano da prova. • Maratona e acima: 20 (vinte) anos completos até 31 de dezembro do ano da prova. Essa definição considera os fatores biológicos e fisiológicos dos in- divíduos, principalmente quanto aos estágios de desenvolvimento e maturação. É importante que qualquer prática esportiva seja benéfica aos atletas e não o contrário. O crescimento das corridas de rua e o aumento no número de praticantes não pode ser motivo para a prática indiscriminada e sem o devido cuidado com a saúde. A seguir, apresentaremos o quadro de provas oficiais do atletismo na categoria masculina. Da categoria Sub-16 à categoria Adulto são rea- lizadas todas as provas com variação de distâncias nas corridas, altura nos saltos e peso nos arremessos e lançamentos. A categoria Sub-14 segue os mesmos critérios e provas, exceto a corrida com obstáculos, que não há. No documentário Town of runners, a paixão pela corrida é o viés da história de duas meninas na Etiópia que buscam, no esporte, uma vida diferente. O filme retrata três anos de treinamento dessas corredoras e seus altos e baixos para se tornarem atletas profis- sionais. Direção: Jerry Rothwrll. Etiópia; EUA: Met Film Production, 2012. Filme 20 Metodologia do ensino de atletismo Quadro 2 Provas oficiais do atletismo masculino Provas Adulto Sub-23 Sub-20 Sub-18 Sub-16 Sub-14 Corridas rasas 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 5.000 m 10.000 m 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 5.000 m 10.000 m 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 3.000 m 5.000 m 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 3.000 m 75 m 250 m 1.000 m 60 m 150 m 800 m Corridas com barreiras 110 m 400 m 110 m 400 m 110 m 400 m 110 m 400 m 100 m 300 m 60 m Corrida com obstáculos 3.000 m 3.000 m 3.000 m 2.000 m 1.000 m Não há Marcha atlética 20.000 m 50.000 m 20.000 m 10.000 m 10.000 m 5.000 m 2.000 m Revezamentos 4×100 m 4×400 m 4×100 m 4×400 m 4×100 m 4×400 m 4×400 m Misto**** 4×75 m 4×60 m Saltos Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Vara ** Arremesso Lançamentos Peso (7,26 kg) Disco (2 kg) Dardo (800 g) Martelo (7,26 kg) Peso (7,26 kg) Disco (2 kg) Dardo (800 g) Martelo (7,26 kg) Peso (6 kg) Disco (1,75 kg) Dardo (800 g) Martelo (6 kg) Peso (5 kg) Disco (1,5 kg) Dardo (700 g) Martelo (5 kg) Peso (4 kg) Disco (1 kg) Dardo (600 g) Martelo (4 kg) Peso (3 kg) Disco (750 g) Dardo (500 g) Martelo (3 kg) *** Combinada Decatlo Decatlo Decatlo Decatlo Pentatlo Tetratlo ** A vara dever ter comprimento de 2,80 m a 3,40 m. *** Cabo com comprimento de 90 cm. **** Prova realizada com dois atletas do naipe masculino e dois atletas do naipe feminino. Fonte: Elaborado pelo autor com base em CBAt, 2020. As provas oficiais de corrida para o feminino apresentam a mesma classificação nas categorias Sub-16 até a categoria Adulto do masculi- no. Assim como nas provas masculinas, as diferenças estão nas pro- vas de arremesso e lançamentos. Observe que os pesos são diferentes entre o masculino e o feminino e existe diferençado decatlo para os Introdução ao atletismo 21 homens e heptatlo para as mulheres. Com relação à categoria Sub-14 feminino, esta segue a mesma divisão de provas; as únicas alterações são no peso do dardo e do martelo, com 100 g a menos. Quadro 3 Provas oficiais do atletismo feminino Provas Adulto Sub-23 Sub-20 Sub-18 Sub-16 Sub-14 Corridas 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 5.000 m 10.000 m 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 5.000 m 10.000 m 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 3.000 m 5.000 m 100 m 200 m 400 m 800 m 1.500 m 3.000 m 75m 250 m 1.000 m 60 m 150 m 800 m Corridas com barreiras 100 m 400 m 100 m 400 m 100 m 400 m 100 m 400 m 80 m 300 m 60 m Corrida com obstáculos 3.000 m 3.000 m 3.000 m 2.000 m 1.000 m Não há Marcha atlética 20.000 m 20.000 m 10.000 m 5.000 m 3.000 m 2.000 m Revezamentos 4×100 m 4×400 m 4×100 m 4×400 m 4×100 m 4×400 m 4×400 m Misto**** 4×75 m 4×60 m Saltos Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Triplo Vara Distância Altura Vara ** Arremesso Lançamentos Peso (4 kg) Disco (1 kg) Dardo (600 g) Martelo (4 kg) Peso (4 kg) Disco (1 kg) Dardo (600 g) Martelo (4 kg) Peso (4 kg) Disco (1 kg) Dardo (600 g) Martelo (4 kg) Peso (3 kg) Disco (1 kg) Dardo (500 g) Martelo (3 kg) Peso (3 kg) Disco (750 g) Dardo (500 g) Martelo (3 kg) Peso (3 kg) Disco (750 g) Dardo (400 g) Martelo (2 kg) *** Combinada Heptatlo Heptatlo Heptatlo Heptatlo Pentatlo Tetratlo ** A vara deve ter comprimento de 2,80 m a 3,40 m. *** Cabo com comprimento de 80 cm. **** Prova realizada com dois atletas do naipe masculino e dois atletas do naipe feminino. Fonte: Elaborado pelo autor com base em CBAt, 2020. 22 Metodologia do ensino de atletismo Como falamos no início do capítulo, o atletismo é um conjunto de mo- dalidades esportivas. Cada uma dessas modalidade possui características, especificidades e, ainda, é dividida por gênero e idade; isso torna esse es- porte ainda mais completo e possibilita inúmeras maneiras de trabalhá-lo em espaços escolares. Com tantas opções, imagine o que podemos de- senvolver na escola com corridas, saltos, arremesso e lançamentos! 1.3 Instalações Para a execução das provas de atletismo, assim como em outros es- portes, é necessário um espaço específico. Nesse sentido, o conjunto de modalidades é praticado na pista e no campo, exceto as corridas de rua e as provas combinadas, como vimos anteriormente. Na pista, são realizadas as provas de corridas e a marcha, enquanto, no campo, acon- tecem os saltos, lançamentos e o arremesso. Podemos encontrar pistas com tamanhos diversos, entretanto, focaremos nas medidas oficiais. Figura 6 Pista e campo de atletismo Áreas para saltos horizontais • Salto em distância • Salto triplo Áreas para lançamento de dardo Pistas para corridas Áreas para arremesso de peso 200 m 5.000 m 1.500 m 800 m 400 m, 400 m com barreiras e revezamento 4x100 m10.000 m e revezamento 4x400 m 3.000 m com obstáculos 100 m e 100 m com barreiras 110 m com barreiras Áreas para lançamento de disco e martelo Áreas para saltos verticais • Salto em altura • Salto com vara Pontos de partida Ponto de chegada de todas as modalidades de corrida Yuliya n V elc he v/ Sh ut te rs to ck Introdução ao atletismo 23 As pistas de atletismo, geralmente, ficam dentro de estádios, principalmente as que são utilizadas em competições internacio- nais; isso se deve ao fato de possuírem arquibancada para o públi- co e estrutura para recepção e acomodação dos atletas. As provas acontecem simultaneamente e, por isso, a pista e o campo possuem distribuição organizada para atender a modalidades diferentes ao mesmo tempo, ficando apenas as finais com exclusividade. As pistas de atletismo possuem pisos e tamanhos diferentes, mas, de acordo com as regras oficiais da CBAt (2020), a pista deve ser construída em formato oval, com duas curvas em formato de meia lua que liguem as duas retas. A reta principal pode ser identi- ficada, na Figura 6, pela linha de chegada (padrão em todas as pro- vas) e pelo prolongamento, onde acontecem as provas de 100 m; ela também atende às corridas com barreiras. Para uma pista receber provas oficiais, ela precisa ter certificado de aprovação emitido pela World Athletics. As marcações oficiais determinam que deve haver oito raias me- dindo 1,22 metros de largura e separadas por faixas de 5 centíme- tros de largura. Uma volta completa na raia interna (raia 1) mede 400 metros; a raia mais externa (raia 8) mede 449 metros de exten- são. Por conta dessa diferença de comprimento entre as raias, nas provas acima de 200 metros, que passam pelas curvas, foram fei- tos os escalonamentos no ponto de partida da prova, assim há uma compensação e as distâncias ficam iguais. No campo, são realizadas as provas de salto em distância, tri- plo, em altura e com vara, lançamento de disco, martelo e dardo, e arremesso de peso. Vamos conhecer as áreas de execução dessas modalidades? Os saltos estão divididos em horizontal (salto triplo e em distân- cia) e vertical (salto com vara e em altura). Consequentemente, estes necessitam de quatros instalações, de acordo com as regras oficiais da CBAt (2020). As provas sempre são realizadas em sentido anti-horário. A curva logo após a largada é chamada de primeira curva e a outra, segunda curva. Importante 24 Metodologia do ensino de atletismo Para essa modalidade, é necessário um corredor (pista de balanço)me- dindo entre 40 e 45 metros de comprimento, com largura de 1,22 metros, demarcado com linhas brancas de 5 centímetros de largura (a mesma dimensão da pista). Além disso, deve haver a tábua de impulsão, que é feita de madeira, com 1,22 metros de largura e 20 centímetros de com- primento; ela deve ser fixada no mesmo nível da pista. Na sequência, deve existir um espaço de 1 a 3 metros entre a tábua e a área de queda. Esta deve medir entre 2,75 e 3 metros e ser preenchida com areia fofa e molhada; sua superfície deve estar no mesmo nível da pista. SALTO EM DISTÂNCIA Possui as mesmas medidas da instalação para o salto em distân- cia. As diferenças ficam por conta da tábua de impulsão, que deve ter distância da área de queda de, no mínimo, 13 metros para homens e 11 metros para mulheres. Além disso, precisa ter, pelo menos, 21 me- tros até o final da área de queda. SALTO TRIPLO Petrovic Igor/Shutterstock Pe tro vic Ig or/ Sh utt ers tock Figura 7 Área do salto em distância Área de queda 2,75 e 3 m Tábua de impulsão (1,22 m x 20 cm) de 1 a 3 m 1,22m Pista de balanço (entre 40 e 45 m) Linha branca de demarcação da pista (5 cm) IESDE21m Figura 8 Área do salto triplo 13 m para homens 11 m para mulheres Tábua de impulsão Pista de balanço IESDE Área de queda 2,75 e 3 m 21m Introdução ao atletismo 25 A instalação dessa modalidade é formada por um corredor com lar- gura mínima de 16 metros e extensão entre 15 e 25 metros. A área de queda deve ter de 5 a 6 metros de comprimento, 3 a 4 metros de largura e 70 centímetros de altura. O colchão fica posicionado atrás da fasquia. SALTO EM ALTURA Figura 9 Corredor do salto em altura Postes Fasquia Pista de balanço Colchão de queda Petrovic Igor/Shutterstock Pe tro vic Ig or /S hu tte rs to ck IESDE70 cm 3 a 4 m 5 a 6 m 15 a 25 m 16 m Para essa modalidade, é necessário um corredor medindo entre 40 e 45 metros de comprimento, com largura de 1,22 metros, demarcado com linhas brancas de 5 centímetros de largura (a mesma dimensão da pista). O encaixe da vara deve ser enterrado a 20 centímetros de profundidade e com a borda visível no mesmo nível da superfície. Em seu início, a caixa de apoio da vara tem largura de 60 centímetros e, ao final, 40,8 centímetros de altura. O colchão da área de recepção deve medir entre5 e 6 metros quadrados. Nas laterais da abertura de encaixe da vara, encontram-se dois apêndices do colchão com 2 metros de comprimento. SALTO COM VARA Pista de corrida (entre 40 e 45 m) Cerca de 4 m Caixa de apoio 40,8 cm 20 cm 60 cm Colchão de recepção (entre 5 e 6 m) Área de aterrissagem Figura 10 Corredor de salto com vara IESDE 1,22 m 26 Metodologia do ensino de atletismo Para os lançamentos e arremessos, são necessários três espaços. Suas respectivas características são apresentadas a seguir. Compreende um círculo de lançamento com diâmetro interno de 2,5 metros, com borda na cor branca de 6 centímetros de espessura. Nessa modalidade, deve haver uma linha com 75 centímetros de com- primento e 5 centímetros de largura que vai da borda do círculo em direção à área de queda. Ela marca o local de saída das duas linhas perpendiculares ao eixo central da área de queda. Esta, por sua vez, é constituída de duas linhas brancas de 5 centímetros, formando um ângulo de 34,92º. Para que o disco não atinja outras pessoas, no mo- mento do lançamento, há uma tela de proteção chamada gaiola. LANÇAMENTO DE DISCO Figura 11 Gaiola de lançamento de disco Gaiola 34,92° Linhas local de saída (75 cm) Formado por um círculo, o local de lançamento conta com diâmetro interno de 2,13 metros e borda na cor branca de 6 centímetros de es- pessura. A frente possui o setor de queda, que é representado por duas linhas brancas de 5 centímetros de largura e, assim como no lançamento de disco, essas duas linhas formam um ângulo de 34,92º. Para evitar que o martelo toque o árbitro ou a plateia, existe a gaiola de proteção. LANÇAMENTO DE MARTELO Petrovic Igor/Shutterstock Petrovic Igor/Shutterstock IESDE Círculo de lançamento (2,5 m) Introdução ao atletismo 27 Figura 12 Corredor de lançamento de dardo Nessa modalidade, há um corredor medindo de 30 a 36 metros de comprimento, com 4 metros de largura, e marcado com linhas brancas de 5 centímetros de largura. No final desse corredor, fica a área de lançamento com 8 metros de diâmetro e no mesmo nível do solo. Duas linhas brancas de 5 centímetros de largura, com ângulo de 28,96°, for- mam o setor de queda. LANÇAMENTO DE DARDO O círculo do arremesso possui diâmetro interno de 2,13 metros, borda com 5 centímetros de largura e na cor branca. Na parte frontal, deve ser fixado um anteparo, normalmente feito de madeira ou aço, em formato de meia lua na parte interna, acompanhando o formato do círculo. Seu tamanho varia entre 9 e 10 centímetros de altura, apro- ximadamente, com 1,22 metros de comprimento e 11 a 30 centímetros de largura. A área de queda contém duas linhas de 5 centímetros de largura, na cor branca, que formam um ângulo de 34,92°. ARREMESSO DE PESO Petrovic Igor/Shutterstock Petrovic Igor/Shutterstock Figura 13 Círculo do arremesso de peso Eixo central Linha branca 34,92° IESDECírculo de arremesso 2,13 m Anteparo 9-10x1,22x11-30 Ângulo de lançamento 28,96° Pista: de 30 a 36 m Área de lançamento 8m Posição de saída O atleta não deve passar desta linha Alumínio Área de contato 4 m Dardo feminino Peso: 600 g | Comprimento: 2,20/2,30 m Dardo masculino Peso: 800 g | Comprimento: 2,60/2,70 m IESDE 28 Metodologia do ensino de atletismo Neste capítulo, pudemos compreender a história do atletismo e a sua execução até os dias atuais. Com esse conhecimento, foi possível abordar a constituição dos órgãos responsáveis pelo esporte no Bra- sil e no mundo, bem como a institucionalização de diretrizes e regras. Foi possível, ainda, conhecer sobre as instalações e competições e, dessa forma, compreender a categorização, os métodos e as técnicas de cada modalidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS O atletismo é um dos esportes mais clássicos que existem, pois pos- sui os movimentos elementares que representam o comportamento do ser humano, como andar, correr, saltar, segurar, lançar e arremessar; movimentos estes que, em determinado período da evolução, estavam associados à caça e à busca pela sobrevivência, passando para forma- ção e preparação do homem para guerras e competições, até ganhar o status de esporte, com o surgimento das entidades regulamentadoras e, por conseguinte, das regras e dos padrões para sua prática. Observando a peculiaridade do surgimento do atletismo, sua evo- lução no decorrer dos anos e o status que carrega nos dias atuais, podemos considerá-lo como um esporte nobre. Isso se prova ao ve- rificarmos a mobilização de um evento olímpico e, principalmente, da ascensão das corridas de rua. Pensando na magnitude do atletismo, a quantidade de modalida- des, classificações, provas, regras e instalações não poderiam ser menos complexas. Estamos diante de um esporte que traz um conjunto de ati- vidades capaz de atender a todos os públicos. É com essa máxima que o professor deve iniciar o trabalho no contexto escolar, independente- mente de espaços (que podem ser facilmente adaptados) e da heteroge- neidade de capacidades, habilidades e potencialidades dos alunos. ATIVIDADES 1. O atletismo é uma modalidade que consiste em um conjunto de provas esportivas (corridas, saltos, lançamentos e arremessos); existem também as provas combinadas, em que os atletas realizam o heptatlo (conjunto de sete provas) para o feminino e o decatlo (conjunto de dez provas) para o masculino. Explique por que acontece essa classificação por gênero masculino e feminino nas provas. Introdução ao atletismo 29 2. Em uma competição de atletismo, observa-se que, nas provas de 200 m e 400 m, os atletas não saem da mesma posição na largada. Por que ocorrem os escalonamentos no ponto de partida da prova? 3. Em se tratando de saltos horizontais, quais são as principais semelhanças e diferenças existentes entre o salto em distância e o salto triplo? REFERÊNCIAS CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ATLETISMO. História do Atletismo. São Paulo: CBAt, 2008. Disponível em: http://www.cbat.org.br/acbat/historico.asp acesso em: 24 maio 2020. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ATLETISMO - CBAt. Regras De Competição e Regras Técnicas – 2020: Edição Oficial para o Brasil. São Paulo: CBAt, 2020. Disponível em: http://www.cbat. org.br/repositorio/cbat/documentos_oficiais/regras/regrasdecompeticaoeregrastecnicas_ edicao2020.pdf. Acesso em 18 maio 2020. DICIONÁRIO OLÍMPICO. Atletismo. 2020. Disponível em: http://www.dicionarioolimpico. com.br/. Acesso em: 18 maio 2020. MARIANO, C. Educação Física: o atletismo no currículo escolar. 2 ed. Rio de Janeiro: Wak, 2012. OLIVEIRA, M. C. Atletismo Escolar: uma proposta de ensino na educação infantil. Rio de Janeiro: Sprint, 2006. 30 Metodologia do ensino de atletismo 2 Atletismo na escola Neste capítulo, abordaremos os aspectos didáticos e metodo- lógicos do atletismo no contexto escolar, a influência da mídia na disseminação da prática esportiva, do seu reconhecimento nas aulas de Educação Física e como o professor poderá fazer o seu planejamento para que o atletismo se torne prazeroso para o alu- no e contribua na sua formação enquanto cidadão. Discutiremos, também, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), principalmente com relação às competências gerais e específicas, bem como as habilidades a serem desenvolvidas pe- los alunos nas aulas de Educação Física no ensino fundamental e médio. Ainda, discorreremos a respeito do papel do professor no ensino do atletismo como um facilitador e mediador da aprendiza- gem do aluno. 2.1 Aspectos didáticos e metodológicos O atletismo, por muito tempo, foi negligenciado na Educação Fí- sica escolar e os motivos são diversos. Dentre eles, podemos citar a infraestrutura inadequada das escolas, a predominância dos esportes coletivos (como futsal, vôlei, handebol e jogo de queimada), o desin- teresse dos professores e alunos em trabalhar e praticar o atletismo, entre outros. Os esportes possuem papel importante na cultura de uma socie- dade. Sendo muitas vezes fatores determinantes na sociedade, assim também é possível afirmarque os esportes em alta na mídia, que fazem parte da grade de transmissão televisiva, representam uma espécie de hierarquia em relação aos demais. Os esportes citados anteriormente representam o topo dessa hierarquização, já o atletismo figura abaixo nesse cenário. Atletismo na escola 31 Entre vários aspectos, podemos considerar que se o atletismo ti- vesse maior espaço nos veículos de comunicação, despertaria maior interesse. Esse primeiro ponto não seria significativo se a cultura es- colar influenciasse a mídia e não o contrário. Outro ponto que merece atenção, relacionado também à divulgação da modalidade pela mídia, é a falta de espaço adequado, incentivos à prática, parcerias e persona- lidades desse esporte. Matthiesen (2017) aponta que a mudança desse cenário começa a partir da formação superior, isto é, os graduandos precisam aumentar o interesse na modalidade para poder desenvolver um trabalho que discuta todas as vertentes educativas do atletismo, desde técnicas até os aspectos sociais. O baixo interesse dos acadêmicos resulta em difi- culdades ligadas diretamente ao modo como os conteúdos são plane- jados e, consequentemente, conduzidos durante as aulas. Ainda de acordo com Matthiesen (2017), o processo de ensino- -aprendizagem do atletismo e seus aspectos didáticos e metodológicos evidenciam a necessidade de entendimento desse esporte como um conjunto de modalidades esportivas de iniciação, devido aos seus fun- damentos básicos, como correr, saltar, lançar e arremessar. Atualmente, a esportivização impõe a competição e a vitória como os fatores mais importantes de sua prática. Embora reconheçamos que o atletismo esteja ligado historicamente ao alto rendimento, na escola, precisamos trabalhá-lo de maneira lúdica e recreativa também. É importante que esse esporte seja vivenciado no contexto educacio- nal além do tradicional; isso significa dizer que os valores, tais quais respeito, disciplina, ética, espírito de equipe, entre outros, precisam fazer parte da formação dos alunos enquanto sujeitos em fase de desenvolvimento. Para tanto, partimos do pressuposto de que a maio- ria dos alunos não se tornarão atletas de alto nível. Alguns autores, como Matthiesen (2017), consideram que o atletismo pode ser organizado na escola em três etapas. A primeira seria uma espécie de “pré-atletismo”, em que os alunos correm, saltam, caminham e arremessam de maneira natural e espontânea, com base em jogos e brincadeiras, executando movimentos básicos. A segunda etapa compreende o desenvolvimento desses mesmos movimentos, porém, com um nível de dificuldade maior para que sejam aprimora- das as capacidades motoras, inserindo exercícios mais complexos e esportivização: prática de transformar jogos e outras práticas corporais em esporte institucionalizado, ou seja, com característica competitiva. Glossário 32 Metodologia do ensino de atletismo exigindo maior destreza e habilidade. Na terceira etapa, são realizados os movimentos com a intencionalidade e a prática do atletismo, sem que haja uma cobrança excessiva para execução do movimento com perfeito gesto técnico, pois isso cabe a um programa específico de trei- namento do atletismo. Essa abordagem metodológica, possibilitada por meio do brincar, garante que o atletismo seja trabalhado na escola de modo prazeroso e que atenda a cada estágio do indivíduo, favorecendo o desenvolvimen- to integral da criança. A prática dos jogos é importante para aperfeiçoar a compreensão de convivência e respeito pelo próximo, além de pos- sibilitar o trabalho de conceitos, ética e cidadania. No jogo, a criança expõe seus sentimentos e emoções, promovendo relação constante de diversão e interação social. Os jogos são metodologias e estratégias pedagógicas fundamentais que permitem momentos de diálogo, análise e reflexão do que está sendo realizado. Assim, é possível construir o conhecimento e traba- lhar valores, como respeito, responsabilidade, união e cooperação, que são importantes para a vida em sociedade. É por meio dos jogos que a criança aprende a conviver com outras pessoas, trocando experiências e ampliando o seu conhecimento. Mas, para isso, é importante destacar aqueles em que os participan- tes jogam uns com os outros e não contra; eles são exercícios para compartilhar, unir pessoas e despertar a coragem para assumir riscos, tendo pouca preocupação com o fracasso e o sucesso em si. Durante o jogo, a criança se manifesta com uma naturalidade rara- mente observada em outras atividades. Na educação infantil, deve-se fazer uso dos jogos e brincadeiras na prática pedagógica, pois essas atividades fomentam o pensamento da criança. Com base na concepção do jogo, entende-se que o brincar é par- te integrante do desenvolvimento infantil; por meio dele, as crianças expressam o que vivem e sentem. A brincadeira deve ser encarada como algo sério na infância, pois é uma forma natural de as crian- ças externarem medos, problemas e angústias que enfrentam ou já enfrentaram. Ao brincar, a criança adquire a capacidade de simboli- zação e segue para novos espaços e construção da realidade; duran- te a brincadeira, ela desenvolve uma atitude positiva diante da vida. Nesse ato, o adulto ou criança faz coisas, não se trata apenas de Atletismo na escola 33 pensar ou desejar, o brincar é fazer; isso é prático e envolve corpo, objetos, tempo e espaço. O brincar desenvolve capacidades sensoriais, cognitivas, sociais, afetivas e psicomotoras na criança, facilitando a construção do apren- dizado, seja em grupo ou individualmente. É necessário que brinquem e vivenciem, em nível simbólico, suas ideias para a compreensão das experiências vividas. A brincadeira é caracterizada pela ludicidade e a atividade lúdica apresenta aspectos importantes a serem levados em consideração, tais como: o tempo e o espaço, os jogadores, os brinque- dos e objetos, e as ações e reações dos envolvidos. Com base na compreensão do jogo e da brincadeira, entendemos a importância do atletismo experimentado de modo lúdico no âmbito escolar. Ao propormos atividades divertidas, os alunos se entregam e as fazem com empenho, gerando experiência coletiva e individual, cada um com suas próprias impressões no contexto de vida e dos funda- mentos básicos do esporte. Segundo Mariano (2012), é preciso rever o atletismo lecionado no formato tradicional, que super valoriza a performance, e passar a vê-lo como prática educativa que, além de ensinar regras, gestos e técnicas, visa à formação global dos alunos, em que todos possam congregar, socializar, participar e incluir, para que não seja um esporte apenas para os mais habilidosos. Para promover aspectos didáticos e metodológicos, o professor precisa oferecer diversidade nas atividades do atletismo. Nesse senti- do, as práticas corporais lúdicas, culturais e psicológicas constituem-se como parte fundamental nesse processo. De acordo com Oliveira (2006), ainda existem barreiras para o ensi- no do atletismo, apresentadas com caráter didático-pedagógico, o que implica dizer que os profissionais priorizam outros esportes em detri- mento do atletismo, deixando de trabalhar o valor cultural do espor- te. Para o autor, essa escolha evidencia a fragilidade no planejamento das aulas de Educação Física na escola, visto que não aborda todos os conteúdos propostos pela BNCC e, mais grave, o aluno não vivencia a cultura corporal do movimento por meio desse esporte, que possui dinâmica indispensável às demais modalidades esportivas. Precisamos entender o atletismo, além da prática específica da mo- dalidade, como um importante aliado pedagógico no desenvolvimento 34 Metodologia do ensino de atletismo de habilidades para os demais esportes. É um erro acreditar que o atle- tismo está restrito à pista, ao campo e às regras oficiais; muito pelo contrário, ele pode ser trabalhado em quadras, pátios, espaços com areia e, até mesmo, dentro da sala de aula, por meio de jogos de mími- ca, desenhos,maquetes, pinturas, questionários, entre outros. A reali- dade das escolas brasileiras não garante espaços oficiais para todos os esportes, entretanto, é possível desenvolvê-los pedagogicamente. O artigo Atletismo na escola é possível! Experiência do ensino do atletismo em aulas de Educação Física, de João Bressen et al., publicado na revista Corpoconsciência em 2018, trata de uma investigação a respeito da pre- sença do atletismo como conteúdo das aulas de Educação Física em uma escola pública. Os autores observam a compreensão limitada de alunos e professores acerca de saberes que fundamentam o atletismo em detrimento de outros esportes e mostram possibilidades do ensino da modalidade com base nas situações diagnosticadas. Acesso em: 18 maio 2020. http://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/corpoconsciencia/article/view/5760 Artigo Fundamentados por Oliveira (2006), o estímulo e a inserção do atletismo na escola necessita da criatividade do professor na utilização de ativida- des prazerosas que atraiam os alunos, assim todos podem participar. Na escola, os movimentos devem ser naturais, com base no que os edu- candos já fazem, para que eles se sintam motivados nas aulas práticas. O planejamento não pode ser complexo a nível dos alunos não consegui- rem executar movimentos básicos; assim, uma estratégia é a utilização de materiais alternativos e que os próprios alunos possam construir. Sabemos que toda prática esportiva carrega um viés competitivo. O direcionamento didático dado na escola, muitas vezes, prioriza provas de acordo com o esporte e suas regras oficiais. É importante deixar claro que isso não é proibido, porém, o problema é quando o professor compreende apenas dessa forma. A consequência disso é uma prática que não se torna saudável, com tendência a ser seletiva para os mais habilidosos e segregadora para os demais, tornando o atletismo desinteressante para os alunos. Ademais, a popularidade de um esporte influencia bastante em sua prática no ambiente escolar e nas preferências dos alunos. Por Atletismo na escola 35 isso, orientamos que o professor inicie o conteúdo sob o olhar das coberturas dos eventos, dos ídolos dos esportes e de suas marcas e, ainda, aborde temas relacionados à modalidade, como as vestimentas, marcas, patrocinadores e movimentação do mercado. Dessa forma, os alunos poderão ser envolvidos no esporte antes mesmo da prática pro- priamente dita. Quanto mais o conteúdo for atraente e envolvente para os alunos nas discussões externas, maior será a chance de sucesso dentro da escola. Isso exige do professor habilidade de criar, pensar e agir de ma- neira didática, metodológica e pedagógica em seu planejamento, para que o atletismo, no contexto educacional, possa influenciar a vida dos alunos e, consequentemente, a sociedade. 2.2 Atletismo e a Base Nacional Comum Curricular Que o atletismo é conteúdo da Educação Física nós já sabemos, en- tretanto, alguns questionamentos surgem naturalmente, tais quais: o que ensinar? Quando ensinar? Qual é a fundamentação e quais são os documentos norteadores? Tais perguntas podem ser respondidas com base na BNCC. Logo, antes mesmo de dialogar sobre as possibilidades de ensino do atletismo no contexto escolar, é fundamental conhecê-la. A BNCC é um documento que define as principais competências (ge- rais e específicas), habilidades e aprendizagens que todos os alunos precisam desenvolver ao longo da educação básica, nos níveis de ensi- no infantil, fundamental e médio. Ela assegura que os conteúdos e suas respectivas competências e habilidades sejam trabalhados em todo o território nacional, desde as escolas dos grandes centros, até aquelas localizadas em regiões mais afastadas. É importante destacar que a BNCC é um documento basilar, não um currículo cujo conteúdo deve ser reproduzido nas escolas; mesmo por- que ela não traz uma matriz curricular do que precisa ser ensinado aos alunos, e sim oferece um conjunto de orientações com vistas a nortear os professores na construção dos currículos, entendendo as especifici- dades de cada região e local. 36 Metodologia do ensino de atletismo A criação de um documento que determinasse princípios para a edu- cação básica estava prevista há décadas. Segundo Penteado (2019), uma base comum estava prevista desde 1988. O discurso ressurgiu com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) no ano de 1996, mas somente em 2014 ganhou força, após a proposta ser incluída como meta no Plano Nacional de Educação (PNE). Ainda de acordo com Penteado (2019), a criação de uma Base Nacional Comum Curricular visa garantir que todos os estudantes possam aprender com base em um conjunto fundamental de conhe- cimentos comuns, independentemente das escolas serem públicas ou privadas, urbanas ou rurais. Espera-se que os riscos de desigualdades educacionais sejam reduzidos e, com isso, eleve-se a qualidade da edu- cação e do ensino no país. A BNCC estabelece ao longo dos anos da educação básica as apren- dizagens essenciais, que asseguram aos estudantes o desenvolvimento de dez competências gerais. Ela também esclarece o conceito de com- petência na qual as orientações estão pautadas: competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. (BRASIL, 2018a, p. 8) Nesse sentido, com base nas competências, os alunos podem desen- volver habilidades por meio da mobilização de conhecimentos, atitudes e valores que a própria BNCC ressalta, como a resolução de questões do cotidiano, do mundo do trabalho e para exercer a cidadania. Vale ressaltar que a BNCC é classificada em parte Comum e parte Diversificada. A primeira contempla conhecimentos em comum a todos os estudantes e a segunda atende a conteúdos complementares, com as especificidades e particularidades de cada região, e pode ser defini- da por instituições, redes e sistemas de ensino. Após conhecer brevemente a BNCC, listamos as dez competências gerais que o documento apresenta com algumas competências que po- dem ser desenvolvidas por meio do atletismo. Na coluna à esquerda, temos as competências gerais da BNCC e, na coluna à direita, algumas características do conteúdo de atletismo. Atletismo na escola 37 Quadro 1 Competências gerais da educação básica e características do conteúdo de atletismo Competências gerais da BNCC Características do conteúdo de atletismo Valorizar e utilizar os conhecimentos histori- camente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Refletir sobre o processo histórico do atletismo, desde as habilidades fundamentais do ser hu- mano na caça e na pesca como elementos de sobrevivência, perpassando pelas competições na Grécia e preparação para a guerra, até o esporte como é visto e praticado atualmente. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a in- vestigação, reflexão, análise crítica, imaginação e criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver proble- mas, e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. Refletir e problematizar a evolução do atle- tismo, considerando sua institucionalização, modernização e conjunto de modalidades esportivas com análise das áreas educacionais, tecnológicas, da saúde e do esporte. Valorizar e fruir as diversas manifestações ar- tísticas e culturais, das locais às mundiais, e par- ticipar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Praticar as modalidades do atletismo enquan- to cultura corporal do movimento nas mais diversas formas de expressão do ser humano. Observar quaisas modalidades mais praticadas e as diferenças locais, regionais e mundiais. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecer as linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, ex- periências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. Entender o movimento humano como forma de comunicação e expressão de sentimentos. O corpo que corre, salta, lança e arremessa é o mesmo que fala, sente, responde e se comunica. Por meio dos movimentos presentes no atletismo, é possível fazer a correlação com as configurações necessárias para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Compreender, utilizar e criar tecnologias digi- tais de informação e comunicação de maneira crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas, e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. Praticar e discutir os jogos eletrônicos que simulam as modalidades, em que, para o personagem do jogo correr, saltar, lançar e arremessar, é necessário que o jogador faça os mesmos movimentos em perfeita harmonia entre a máquina e o homem. Com base nisso, uma série de discussões pode ser estabelecida. (Continua) 38 Metodologia do ensino de atletismo Competências gerais da BNCC Características do conteúdo de atletismo Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais, apropriar-se de conhecimentos e experiências que possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autono- mia, consciência crítica e responsabilidade. Resgatar os jogos e brincadeiras populares que acontecem no município, estado ou país, re- fletindo sobre suas origens e valores culturais. Com isso, disseminar os conhecimentos daque- la comunidade e conhecer outros pertencentes a outras comunidades. Argumentar com base em fatos, dados e infor- mações confiáveis, para formular, negociar e de- fender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos huma- nos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético com relação ao cuida- do de si mesmo, dos outros e do planeta. Conhecer os valores éticos e morais necessários à prática do esporte e traçar um paralelo com os avanços tecnológicos dos equipamentos, análises de desempenho e construção de estádios, muitas vezes instalados em locais de preservações ambientais. É importante também considerar a matéria-prima utilizada na fabricação dos equipa- mentos e o descarte de copos de água mineral nas corridas de rua, entre outros fatores. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diver- sidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. Exercitar o autoconhecimento, a autopercepção e a relação da prática esportiva com o seu bem-estar físico, social e mental. O saber ven- cer e perder faz parte do processo de formação dos estudantes e precisa ser trabalhado desde a educação infantil. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao próximo e aos direi- tos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potenciali- dades, sem preconceitos de qualquer natureza. Praticar o atletismo não é apenas um ato com- petitivo; antes de qualquer coisa é um ato co- letivo. Com base nesse entendimento, o aluno percebe que não é simplesmente jogar contra o outro, mas sim jogar com o outro, partindo do princípio de que se o importante é competir, o fundamental é cooperar. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. Valorizar a garra, determinação, foco, disciplina, força de vontade e respeitar o próximo são atitudes indispensáveis na prática esportiva. A capacidade de perceber que aprendemos com as diferenças presentes em nosso dia a dia faz de nós indivíduos melhores. Fonte: Organizado pelo autor com base na BNCC, 2018a. Atletismo na escola 39 Podemos observar, no quadro, as competências gerais da BNCC e como o atletismo se correlaciona com a proposta do documento norteador. Esse é um exemplo do que se espera das equipes pedagó- gicas na formulação da proposta curricular, isto é, que estabeleçam os conteúdos a serem trabalhados com os estudantes, fundamentados e direcionados pelas competências. De acordo com a BNCC (2018a, p. 213), a Educação Física se apre- senta como “o componente curricular que tematiza as práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, entendidas como manifestações das possibilidades expressivas dos sujeitos, pro- duzidas por diversos grupos sociais no decorrer da história”. Parte-se, assim, do pressuposto de que o movimento humano está inserido na cultura, não sendo limitado a um período de tempo, nem ao corpo. Nesse contexto, entende-se que as práticas corporais desenvolvidas na escola devem ser abordadas como um fenômeno cultural dinâmico. Desse modo, os alunos poderão construir e reconstruir conhecimen- tos que possibilitem a ampliação de sua consciência a respeito de seus movimentos e dos recursos para o cuidado de si e dos outros, além de desenvolver autonomia para apropriação e utilização da cultura corpo- ral de movimento em diversas finalidades, favorecendo a participação de modo confiante e autoral na sociedade (BRASIL, 2018a). A BNCC classifica os conteúdos da Educação Física na educação básica em seis unidades temáticas: Jogos e Brincadeiras, Esportes, Ginástica, Danças, Lutas, e Práticas Corporais de Aventura. O atletismo está cate- gorizado em Esportes, precisamente como Esporte de Marca e Precisão, conceituado como o “conjunto de modalidades que se caracterizam por comparar os resultados registrados em segundos, metros ou quilos (pa- tinação de velocidade, todas as provas do atletismo, remo, ciclismo, le- vantamento de peso etc.)” (BRASIL, 2018a, p. 214). O atletismo é contemplado na unidade temática de Jogos e Brin- cadeiras pelas atividades de iniciação, pelos jogos populares e muitos outros, trabalhando os movimentos básicos da modalidade; e na uni- dade de Práticas Corporais de Aventura, principalmente pela crescente prática de trail run (corrida de trilha) e trekking (caminhada realizada em montanhas, serras etc). Com base nas competências gerais, é possível chegar às competências específicas da Educação Física na BNCC, para compreender o atletismo e 40 Metodologia do ensino de atletismo seu encaixe de maneira singular na educação básica para o desenvol- vimento das habilidades previstas. As cinco primeiras competências buscam: compreender a origem da cultura corporal do movimento, planejar e empregar estratégias para resolver desafios e aumentar as possibilidades de aprendizagem das práticas corporais, refletir critica- mente sobre as relações entre a realização das práticas corporais e os processos de saúde/doença, identificar a multiplicidade de padrões de desempenho, saúde, beleza e estética corporal, e identificar as formas de produção dos preconceitos (BRASIL, 2018a). Portanto, considerando essas competências específicas, podemos incluir o atletismo com caráter de iniciação nas unidades temáticas de Jogos e Brincadeiras e Esportes de Marca e Precisão nos 1º e 2º anos do ensino fundamental, de acordo com os objetos de conhecimento previstos e classificados pela Base. Já as outras cinco competênciasespecíficas visam interpretar e re- criar os valores, os sentidos e os significados atribuídos às diferentes práticas corporais, reconhecer as práticas corporais como elementos constitutivos da identidade cultural dos povos e grupos, usufruir das práticas corporais de maneira autônoma para potencializar o envol- vimento em contextos de lazer, reconhecer o acesso às práticas cor- porais como direito do cidadão, e experimentar, desfrutar, apreciar e criar diferentes brincadeiras, jogos, danças, ginásticas, esportes, lutas e práticas corporais de aventura, valorizando o trabalho coletivo e o protagonismo (BRASIL, 2018a). Nesse sentido, a aplicação do atletismo pode acontecer nas unidades temáticas de Jogos e Brincadeiras, Esportes de Marca e Precisão e Prá- ticas Corporais de Aventura. O trabalho com o atletismo está presente nos 6º e 7º anos do ensino fundamental com foco no aprofundamento das práticas corporais, bem como na sua compreensão e realização nos contextos de lazer e saúde, dentro e fora da escola. Na etapa do ensino médio, compreende-se que os estudantes já possuem um nível maior de habilidades, pensamento crítico e abstrato. Por isso, os conteúdos são constituídos por áreas temáticas, e a Edu- cação Física faz parte da área de Linguagens e suas Tecnologias, que, de acordo com a própria BNCC – Ensino Médio (2018b, p. 473), “busca consolidar e ampliar as aprendizagens previstas na BNCC de Ensino Fundamental nos componentes Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e Língua Inglesa”. Ao ler o seguinte QR Code com seu celular, você pode acessar o documento da BNCC. As habili- dades específicas do atletismo na Educação Física escolar para o ensino fundamental estão da página 227 em diante. Dica Atletismo na escola 41 Logo, ao trabalhar o atletismo nessa etapa da educação básica, os alunos são capazes não apenas de desenvolver condicionamento físico, consciência corporal, lazer e saúde, mas de se movimentar “com dife- rentes intencionalidades, construídas em suas experiências pessoais e sociais com a cultura corporal de movimento” (BRASIL, 2018b, p. 475). Dessa forma, a Educação Física tem um papel fundamental na for- mação de sujeitos capazes de desfrutar, construir e transformar com base na cultura corporal do movimento, tornando-se responsáveis por tomar decisões conscientes, éticas e reflexivas diante das práticas cor- porais em sua vida e na sociedade. Partindo desse pressuposto, a forma de abordagem do atletismo contribui de maneira significativa para a constituição de valores como ética, respeito, altruísmo, determinação, disciplina e foco, indispensá- veis para a vida acadêmica, pessoal e profissional. Ao ler o seguinte QR Code com seu celular, você pode acessar o documento da BNCC. Na página 483, já na parte que trata do ensino médio, você encontrará as habilidades específicas da área. Dica 2.3 O papel do professor no ensino do atletismo As constantes mudanças das práticas metodológicas , que vem acompanhando a evolução tecnológica e as necessidades dos atuais estudantes, têm sido de grande importância para um ensino adequa - do à realidade educacional . Entretanto , tais mudanças exigem do pro - fessor cada vez mais criatividade e atualização para desenvolver sua práxis docente. O papel do professor está ainda mais desafiador na medida em que sua finalidade se expande de maneira síncrona aos avanços tec- nológicos, com a inserção de elementos mais dinâmicos e atraentes ao mundo do aluno. Dessa maneira, o professor precisa tornar o conteú- do prazeroso, chamando a atenção dos estudantes, considerando suas experiências e o contexto no qual estão inseridos. A contemporaneidade não admite mais a transmissão de conteúdo; o professor não é apenas aquele que transfere conhecimento e o aluno não é o reprodutor desse conhecimento engessado. Nos dias atuais, o profes- sor media e conduz o aluno ao saber e esse aluno descobre, cria, recria e adquire novos conhecimentos, com base no que já está consolidado. Segundo Libâneo (1998, p. 29), a função do educador vai além de depositar conhecimento, “ele deve se envolver no universo dos edu- candos para poder pinçar temas que fazem parte dos seus saberes, 42 Metodologia do ensino de atletismo para então situar novos assuntos no grupo de informações que já esta- vam preestabelecidas”. Todo material produzido, a exemplo dos livros didáticos, pode e deve ser considerado, uma vez que fazem parte da produção do conhecimen- to materializado; mas, antes de qualquer coisa, precisa ser entendido como a partida para o descobrimento de outros conhecimentos. O papel do professor não é reproduzir, repetir ou revisar conteú- do; a prática do ensinar requer renovação, criatividade e utilização de novos componentes que levem o aluno a pensamentos mais críticos, reflexivos e práticos. Podemos usar como exemplo o ensino da mo- dalidade corrida de rua: além de trabalhar o conhecimento técnico de distâncias, passadas e exercícios coordenativos, é fundamental que o professor conduza os alunos a uma análise dos fatores sociais, políticos e econômicos presentes na corrida, tais como lazer, saúde, meio am- biente, investimentos para a prática, entre outros. Nesse sentido, cabe ao professor a responsabilidade da dissemina- ção e estímulo do pensamento crítico e reflexivo do aluno na relação entre o conteúdo específico, a abordagem básica de compreensão do assunto e as análises da utilização e importância desse conhecimento para as situações de vida e aplicabilidade na sociedade. Quando o professor assume o papel de mediar a aprendizagem dos alunos, já trata-se de uma situação inovadora, pois, historicamente, ele foi visto como o detentor de todo o saber. Portanto, é indispen- sável que o docente renove sua metodologia e atualize o processo didático-pedagógico de ensinar e aprender. Ao mediar, o professor facilita o processo de maneira que a informação se converta em conhecimento e novas aprendizagens. Ter a resposta para todas as perguntas não se trata de, necessariamente, ser o melhor, mas sim de descobrir com o estudante e, principalmente, fazer boas pergun- tas, levando em conta a experiência do aluno além dos muros da escola. Quando, por exemplo, um aluno questiona sobre o recorde do salto em altura, é apenas uma curiosidade, porém, quando o professor leva o aluno a refletir sobre a altura atingida e faz perguntas do tipo: quais fatores podem influenciar a altura desse recorde? Por que antigamente não chegaram a essa marca? Os tênis, equipamentos e treinos eram di- ferentes? Foi devido aos avanços tecnológicos e da medicina esportiva? Questionamentos como esses elevam o conhecimento a outro pata- Atletismo na escola 43 mar e, por consequência, a aprendizagem torna-se mais significativa e transcende a sala de aula. Chamamos isso de intencionalidade. Para colocar o aluno como protagonista do seu aprendizado, ele precisa adotar uma postura de proatividade, mas o professor deve encaminhá-lo ao conhecimento provocando reflexões, despertando o desejo pelo que está sendo es- tudado e relacionando o conteúdo com outras situações por meio de uma construção autônoma e crítica. Antes de tudo, o professor precisa ter em mente que sua função é formar cidadãos por meio da cultura corporal do movimento, tornan- do-os sujeitos autônomos, críticos e instruídos ao cuidar de si mesmos, identificando diferenças étnicas, sociais e culturais. Nessa perspectiva, o papel do professor no ensino do atletismo é utilizar a história e os fun- damentos e técnicas das modalidades para promover a construção do conhecimento e contribuir com a formação do indivíduo na sociedade. É importante que o professor observe o leque de opções no atle- tismo para despertar o prazer e um novo significado para o aprendi- zado no aluno. Independentemente se o conteúdo for técnico ou não, ele precisa desenvolver capacidades físicas, motoras, afetivas e sociais para que haja uma formação integral