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EDUARDO LOURENÇO MITOLOGIA DA SAUDADE Seguido de PORTUGAL COMO DESTINO COMPANHIA DAS LETRASTEMPO PORTUGUÊS Há mais de meio século que centenas de milhares de portugue- ses vivem na Europa no meio de povos que os aceitaram e que eles aceitam. Mas poucos suspeitam a que ponto essa gente da extrema Europa, ibérica, católica ainda igrejas que eles mes- mos desertaram e em vias de as desertar também vem de um ou- tro mundo e continua a viver nesse mundo que deixou. Todos po- vos, mesmo vizinhos, se conhecem mal uns aos outros. No século XIX dizia-se da Espanha que era a China da França. Fernando Pes- soa, perito em geografia simbólica, pensava que "as nações todas são mistérios" e "cada uma é todo o mundo a sós". A idéia pode surpreen- der, mas retrata bem a maneira como os portugueses vivem a sua re- lação consigo mesmos e com 0 mundo. Os outros mesmos aqueles no meio dos quais trabalham, es- tudam e com quem acabam por se misturar - têm dificuldades em imaginar a natureza desse "mistério" particular aos portugueses. Tan- to mais que um dos seus traços mais conhecidos é da sua capaci- dade de se fundirem na paisagem. A sua estranheza é, a todos os tí- tulos, Eles mesmos não têm consciência disso, a tal ponto fazem corpo com ela. É-lhes vedado apreendê-la a partir de qualquer exterioridade, mesmo imaginária. A cultura portuguesa não produziu nunca pelo menos até Eça de Queirós nem Montaigne, nem Montesquieu, nem Swift, nem Lessing, quer dizer, um olhar exterior a si mesma que a acordasse, não de qualquer cegueira dogmática ou culposa, mas da contempla- ção feliz e maravilhada de si mesma. Todos povos vivem, mais ou menos, confinados no amor de si mesmos. Mas a maneira como os 9portugueses se comprazem nessa adoração é verdadeiramente singu- se-á para os portugueses aquele "lugar" onde eles se vêem, ao mesmo lar. Seria absurdo pretender que um povo entre outros e, ainda por tempo maiores e mais pequenos do que são. Essa identidade mítica, cima, um pequeno povo, possa estar fora ou escapar a razão da sua estranheza e do seu mistério, é o seu céu e a sua cruz. tröm a que chamamos História. Contudo, evitar o destino comum, Quem fará sair de um labirinto que não é mais do que o da sua instalar-se, não se sabe por que aberração ou milagre, às margens do imagem sublimada, consoladora, de que eles são o criador e as criatu- mundo, foi um pouco aquilo que o povo português sempre tem fei- ras? E por que motivo sairiam dele? Acabou, realmente, esse tempo to. Portugal vive-se "por dentro" numa espécie de isolamento subli- em que os portugueses ressentiam como uma ferida o fosso que sepa- mado, e "por fora" como o exemplo dos povos de vocação univer- rava o seu presente sem relevo particular, invisível aos olhos de ou- sal, indo a ponto de dispersar seu corpo e a sua alma pelo mundo trem, desse momento "imperial" de si mesmos para sempre perdido? inteiro. A imagem é de Camões, e todos os portugueses a conhecem Os portugueses não são o único povo que se sente desconheci- de cor. Essa mitologia está inscrita na bandeira portuguesa. Portugal do, mal conhecido ou decaído do antigo esplendor, real ou imaginá- é o único país que colocou no centro da sua bandeira a esfera armi- rio. De algum modo, é o caso de toda a gente e, hoje, até daqueles lar, em suma, a representação do Universo. Isso não espanta ninguém povos e culturas que, durante séculos, os outros olharam como fa- e ainda menos os portugueses. Essa imagem não é apenas de ordem róis do mundo. Mas o que surpreende, nos portugueses, é o fato de cosmológica consagração do papel de Portugal como descobri- parecer terem decidido viver como os cristãos nas catacumbas. Não dor de "novas terras e novos céus" mas de ordem crística: a do porque pese sobre eles qualquer ameaça efetiva, mas porque não su- convidado modesto sentado no lugar de honra dos eleitos. portam ser olhados por quem ignore ou tenha esquecido a sua vida Com que direito e em nome de quê? Em todos tempos, os po- imaginária. Preferem então, a exemplo de Fernando Pessoa, ausen- vos que desempenharam um papel na História se atribuíram missões tar-se de si mesmos e outorgar-se, como ele fez com insólita ful- de caráter messiânico. Mais do que todos, o povo de Israel, que es- gurância, o estatuto mesmo da Ausência. Uma ausência em que Tu- pera ainda que o seu sonho se cumpra e mude a História. Portugal do e Nada são indefinidamente reversíveis: não fugiu à regra. Na época da sua expansão no mundo investiu-se Não totalmente numa cruzada, ao mesmo tempo imperial e messiânica, Nunca serei nada. herdeira de Roma e de Israel. A utopia imperial conheceu a sanção Não posso querer ser nada. LER dos fatos. O sonho messiânico, esse, sem entraves À parte isso, tenho em mimitodos sonhos do mundo. no seu espaço interior, de Luís de Camões ao padre Antônio Vieira e Os leitores estrangeiros imaginam muitas vezes que Fernando a Pessoa, ou do infante d. Henrique ao mais banal dos seus gover- Pessoa, convertido em português universal, é uma exceção. A título nantes. O mais curioso é que, num momento de fanatismo, Portugal de gênio literário, sem Não a título de português, a despeito amputou-se ou recalcou a sua parte de Israel para se tornar, parado- do seu desejo de querer "ser tudo de todas as maneiras" e sair assim, xalmente, uma espécie de Israel católico. Talvez estivesse na ordem por conta de todos, da "pequena casa lusitana", esse sítio simulta- das coisas ou, pelo menos, da História. Em nome de Cristo, Portugal neamente banal e onírico que é o único onde os portugueses se sen- assumiu o papel impossível de povo "eleito". À volta do brasão de tem em casa. Nele são tão estrangeiros como fora dele O seu lugar Portugal evocando as cinco chagas de Cristo, os reis desse país, en- não se situa apenas no mapa. E muito menos se circunscreve ao pe- tão senhor dos mares, do Brasil ao Japão, ousaram colocar-se no cen- queno retângulo, deitado à beira do Atlântico, carregado de passado tro do mundo. e vida singulares, que chamamos Portugal. Esse momento de universalidade mais sonhado do que Desde os tempos mais recuados que essa terra, Atlântida sem real justificado menos por qualquer potência temporal do que lembrança dela, parece desertar a Europa. Por necessidade ou (cupi- pela irradiação de uma fé, vivida como luz e dom de Deus, tornar- dez, raro por aventura, portugueses partiram dela ao longo dos sé- 10 11culos, por vezes sem esperança de regresso. A longa história de Por- tugal, incluindo nela a anterior ao seu naseimento como reino, é a de são, a suspensão ficcional do tempo irreversível, fonte de uma emo- uma deriva e de uma fuga sem fim. explica a dispersão dos por- ção a nenhuma outra comparável. Nela e por meio dela sentimos ao tugueses e a sua presença no mundo, outrora no Brasil, na África, no mesmo tempo a nossa fugacidade e a nossa A esse título, Oriente e hoje no Canadá, nos Estados Unidos, na Venezuela, no Ha- a nostalgia, a melancolia, a própria saudade, reivindicada pelos por- vaí, ou mais perto, nesta Europa, na França, na Alemanha, tugueses como um estado intraduzível e singular, são sentimentos ou mesmo na vizinha Espanha. Mas nem essa deriva, nem essa fuga, ex vivências universais. Da universalidade do "tempo humano", preci- plicam a singularidade dos portugueses. Povo antes de o samente. É o conteúdo, a cor desse tempo, a diversidade do jogo que ser, por vontade ou à força, adaptável, discreto no meio dos outros, a memória desenha na sua leitura do passado, o que distingue a nos- sempre pronto, na aparência, a trocar a sua identidade pela dos ou- talgia da melancolia e estas duas da saudade. tros, na realidade nunca abandonou o seu ponto de partida. Quer di- Voltar-se para passado, lembrar-se, não é nunca um ato neu- zer, a sua verdadeira pátria, a do sonho adormecido mas nunca ex- tro, mas essa regressão constitutiva da memória pode ser vivida ape- tinto no fundo do seu ser nas como simples alusão, mero sinal endereçado aos acontecimen- Um tal povo, tão à vontade no mundo como se estivesse em ca- tos ou aos sentimentos que salpicam, como nos romances de Virginia sa, na verdade, não conhece fronteiras, porque não tem exterior. Co- Woolf, o decorrer flutuante, intermitente da "nossa vida" Os "re- mo se fosse, sozinho, uma ilha. Mundo onde, d. Sebastião de si mes- gressos" específicos da melancolia, da nostalgia, da saudade são de mo, esperasse um regresso sempre diferido, sonhando com a sua vida outra ordem: conferem um sentido ao passado que por meio delas passada. À semelhança de marinheiro, de Pessoa, memorial in- convocamos. Inventam-no como uma A melancolia visa o comparável de nostalgia e saudade dedicado à pura Ausência como passado como definitivamente passado e, a esse título, é a primeira e forma suprema da presença, Evocando admiravelmente a saudade, mais aguda expressão da temporalidade, aquela que a lírica univer- na medida em que pode ser evocada, d. Francisco Manuel de Mello sal jamais se cansará de evocar A nostalgia fixa-se num passado de- supôs, primeiro do que ninguém, que Portugal se tornara esse povo terminado, num lugar, num momento, objetos de desejo fora do nos- de uma nostalgia sem verdadeiro objeto devido ao seu destino de po- alcance, mas ainda real ou imaginariamente recuperável. A saudade marítimo, viajante, separado de S1 mesmo pelas águas do mar e participa de uma e de outra, mas de uma maneira tão paradoxat, tão do tempo. Sem dúvida que nosso destino de errância conferiu a es- estranha como é estranha e paradoxal a relação dos portugueses sa nostalgia, a esse afastamento doloroso de nós mesmos, o seu peso com o "seu" tempo que, com razão, se tornou num labirinto e num de tristeza e de amargura, a sua coroa de bruma. a lembrança da enigma para aqueles que a experimentam como o mais misterioso e casa abandonada, esse gosto de mel e de lágrimas, que a palavra-mi- o mais precioso dos sentimentos. to dos portugueses sugere. Mas não é nesse destino que devemos co- Em si mesma, a saudade não tem História. Mas têm-na as ma- lher a origem, a essência do sentimento que a si mesmo se plasma nifestações dela. So em termos historicistas e sem nenhuma coerên- na palavra, no pensamento, da cia interna, essa História escrita com fins dogmáticos mereceu A saudade, a nostalgia ou a melancolia são modalidades, mo- alguma atenção. Antes de ser pensada, a saudade foi cantada e é fi- dulações da nossa relação de seres de memória e sensibilidade com lha e prisioneira do lirismo que primeiro lhe deu Antes de se tor- o Tempo. Ou antes, com a temporalidade, aquilo que, a exemplo de nar no mito que já não a deixa pensar e a configura num papel ha- Georges Poulet, designarei de "tempo humano". Isso significa que giográfico-patriótico, a saudade não foi mais que a expressão do essa temporalidade é diversa daquela outra, abstratamente universal, excesso de amor em relação a tudo 0 que merece ser amado: ami- que atribuímos ao tempo como sucessão irreversível. Só esse "tem- go ausente, a amada distante, a natureza imemorial e íntima, escrí- po humano", jogo da memória e constitutivo dela, permite a inver- nio de todos os amores, flor de verde pinho, ondas do mar. ma ressonância trágica perpassa naquelas canções em que a saudade 12comparece em toda a sua ingenuidade. No seu berço céltico, o da diante da mais irrefutável de todas: a Morte. Na sua ilha-saudade, a Galícia e Portugal, a saudade parece modulada pelo ritmo universal um tempo ilha dos mortos e ilha dos amores, como crianças, igno- do mar. Descobre-se, sem bem o saber ainda, que a eternidade é fei- ram a Morte. Ou, noutra versão, ela é-lhes de tal modo consubstancial ta de tempo, e o tempo, de eternidade. Tudo é aí, simultaneamente, ("Morte, irmã coeterna da minha alma") que acabou por se lhes tor- passado e presente. Essa música de fundo, primeiro exterior, tornar- nar invisível. Ninguém morre no país da Saudade. Como nos sonhos. se-á música da alma. Nada é mais popular em Portugal que o culto das almas do Pur- Contrariamente à lenda, o povo português, ferido como tantos gatório. Com todas as forças do nosso imaginário, recusamos o Na- outros por tragédias reais na sua vida coletiva, não é um povo trági- da. Sem dúvida, isso é verdadeiro para toda a humanidade. Mas para Está aquém ou além da tragédia. A sua maneira espontânea de se nós, portugueses, essa recusa tornou-se um hábito da nossa alma. A voltar para o passado em geral, e para o seu em particular, não é nos- saudade, descida no coração do tempo para resgatar o tempo tálgica e ainda menos melancólica. E simplesmente saudosa, enrai- nosso, pessoal ou coletivo é como uma lâmpada que recusa apa- zada com uma tal intensidade no que ama, quer dizer, no que é, que gar-se no meio da Noite. Talvez nos torne estranhos e mesmo com- um olhar para o passado no que isso supõe de verdadeiro afastamen- placentes para com essa estranheza, mas esse sentimento é puramen- to de si, uma adesão efetiva ao presente como sua condição, é mais te ilusório. Sob outros nomes ou sem nomes, a saudade é universal, da ordem do sonho que do real. esse lugar de sonho, esse lugar ao não apenas como desejo de eternidade, mas como sensação e senti- abrigo do sonho, esse passado-presente, que a "alma portuguesa" não mento vividos de eternidade. Ela brilha sozinha no coração de todas quer abandonar. Para o não abandonar antes mesmo que esse past as ausências. sado se tivesse tornado historicamente mítico, como tempo glorioso das Descobertas ou infeliz de Alcácer Quibir Portugal, imerso Vence, 9 de setembro de 1997 com doçura no mundo, natural e sobrenaturalmente maravilhoso converteu-se em ilha-saudade Um lugar sem exterior onde lhe fosse impossível distinguir a realidade do sonho, um porto de onde não se sai, como Ulisses, para defrontar os monstros e a traição dos elemen- tos mesmo se nenhum povo afrontou com maior afoiteza mas para tentar recuar até aos limites momento de encontro consi- go, imposto pelo outro, o verdadeiramente outro, aquele que não nos vê como nós nos vemos: cavaleiros do Graal adormecidos, mas de pé, imóveis, no coração da realidade. Com a saudade. não recuperamos apenas o passado como pa- raíso; inventamo-lo. O nosso povo, imemorialmente rural, absorvido por fora em afazeres desprovidos de transcendência, mas levados a cabo como uma epopéia, com o seu talento do detalhe, da miniatura, é um povo-sonhador. Não especialmente por ter cumprido sonhos maiores do que ele, mas porque, no fundo de si, ele recusa o que se chama a realidade. Ou, se se prefere, a ordem do tempo, rio sem re- gresso. Mais quixotescos que d. Quixote, portugueses não dão realmente muita atenção à realidade empírica. Suportam-na, mas não se dobram diante de nenhum desmentido da realidade. Nem mesmo 14 15consciência da nossa finitude, à nossa essência de seres-para-a-mor- te. Isso é sem dúvida verdadeiro, mas em função de uma morte por assim dizer sonhada, imaginada e vivida como absoluta falta de es- colha, tempo que volta do passado para se imobilizar diante de nós como um infindável buraco negro. De certa maneira, o angustiado MELANCOLIA E SAUDADE tem excesso de vida e de impaciência; não pactua com o futuro nem projeta nele as cores da sua angústia. Ao contrário da melancolia, a angústia não comporta o "jogo" com o tempo tudo é urgência, a própria memória fica como que em suspenso. O campo próprio da angústia é o da imaginação, imaginação do pior, em que real fica de fora. O tédio, pelo contrário, remete-nos para 0 real, para o tem- Sabemos que o jovem Sartre pensou no título Melancholia para po, mas não para o jogo do tempo, como a melancolia; subjugados livro que havia de tornar-se célebre com o nome de A náusea. Se o pela realidade, estamos simultaneamente desligados dela, privados tivesse mantido, teria posto um remate na longa história da Melan- do cordão vivo que a ela nos prende. A realidade está a mais, e nós colia que faz do corpo a fonte do desencanto da alma perante o misté- também. Não precisamos de pedir ao Tempo que suspenda o seu vôo, rio da existência, com que Romantismo se deleitou. Sartre arrepen- como no poema em que a Melancolia romântica se encenou. Está já deu-se, com razão, dessa primeira escolha. Não releva da melancolia suspenso, ou melhor, roda invariavelmente em torno de si mesmo. a repugnância de Antoine Roquentin perante a opaca e proliferante Por sua vez, o tédio baudelairiano tem demasiada proximidade com realidade das raízes do castanheiro. Há na "náusea" sartriana, metá- a melancolia é inseparável dela, como nos mostra Starobinski fora da do corpo, um excesso de mundo, um insustentável peso do para nos ajudar a discernir 0 que ela tem de específico. É ainda um ser. Não há nela lugar para o jogo entre os tempos do "eu" que só são tédio que podemos mobiliar com as lembranças da vida e em que o possíveis através da memória. Para descrever a melancolia baudelai- tempo, apesar de cinzento e baço, desempenha ainda o seu papel, co- riana, Starobinski fala de "melancolia ao espelho", termo que tão mo no poema citado por Starobinski: bem se adapta à melancolia moderna, cujo eu é simultaneamente au- la Mélancolie, à midi, quand tout dort, tônomo e múltiplo. No fundo, toda a melancolia é já espelho, lugar le menton dans la main, au fond du corridor [...] em que se quebram as núpcias reais entre eu e a vida, em que pre- un pied alourdi de précoces ennuis, sente se interrompe, suavemente repelido pelo sentimento de fragili- et son front moite encore des langueurs de ses nuits. dade ontológica do teatro do mundo. Como essa melancolia em majestade, o tédio baudelairiano "gro- O "sentimento" da melancolia parece inscrever-se numa cons- tesco.ou repelente" é ainda demasiado nobre, não está suficiente- telação de afecções da alma que vão da tristeza à angústia, sem es- mente despojado dos ouropéis românticos e romanescos exigidos pe- quecer o tédio. Na medida em que pertence à esfera do "psicológi- la ópera negra de As flores do mal. Teixeira de Pascoaes, um dos co", há interferências entre esses três "estados da alma", em especial maiores poetas portugueses, a quem se deve, sob o nome de sauda- entre a tristeza e o tédio. A angústia, essa, é mais nítida. Menos in- de, a versão mais paradoxal da melancolia, dá-nos uma figura mais distinta, leva ser à beira da própria negação. Mais não é, aliás, que humilde e nua do tédio. Na sua "Canção monótona", o tédio mani- a vida subtraída ao futuro, asfixiada por um presente sem dimensões. festa-se pelo recalcar e esmagar do tempo, mas também como tem- Falta-nos tempo, e nós faltamos ao tempo. Heidegger ligou-a à po-Janus, indiferente à alegria ou à tristeza dos dias: 16 17Monotonia... Sempre a imagem das cousas que nos pesa. insatisfeitos com a sua condição humana. A melancolia antiga, que A mesma cor vermelha da Alegria, Zielinski lia nas estátuas da época helenística, era natural, por assim O mesmo claro-escuro da Tristeza. dizer, como a que a tradição lírica associa ao outono. Ulisses não desceu ao reino das sombras para trazer os vivos de volta ao reino Sempre, no mesmo corpo, a mesma doença: a vida! da luz, mas para lamentar a tristeza dos mortos bem-amados. E se Sempre a mesma elegia, em sílabas de mágoa... Orfeu, que é a própria poesia, traz Eurídice consigo, é sob condição [...] de nunca se voltar, de não olhar nunca para o espelho do Tempo. É Este íntimo Alentejo em que se perde a gente... um papel contrário o que atribuímos à melancolia, ou que a melan- Em nosso próprio ser, Tempo desmaiado... colia moderna desempenha para nós, malgrado o halo lunar de que a mesmo, mesmo, mesmo, em nós, perpetuamente! rodeamos e a postura curvada com que Dürer a figurou. Apesar das Sob a sua forma romântica, ainda sentimental e lírica, tédio aparências, a melancolia não é essencialmente a expressão da nossa ercontra aqui uma espécie de reconhecimento resignado. Para além derrota, como seres simbolicamente imortais, às mãos do tempo, mas dele, seria um tédio gélido, constatação sem concessão nem resigna- a última encenação de todo nosso ser para aliviar o luto das nossas ção do sem-sentido da vida, que tem no mais célebre poema de Fer- esperanças desfeitas, dos nossos anseios perdidos, dos nossos amo- nando Pessoa, "Tabacaria", a sua expressão e a sua poética: res defuntos. Há entre a melancolia e a nostalgia uma profunda afi- Sempre uma coisa defronte da outra, nidade. Confundimos talvez amiúde uma e outra, ou há entre elas tal Sempre uma coisa tão inútil como a outra, entrelaçamento que não é fácil distingui-las. Um poema de Álvaro Sempre impossível tão estúpido como real, de Campos pode ler-se em qualquer dos dois registos: Sempre mistério do fundo tão certo como sono do mistério No tempo em que festejavam dia dos meus anos, [da superfície, Eu era feliz e ninguém estava morto. Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, Excesso de desespero, de ironia metafísica, orienta aqui a visão E a alegria de todos. e a estava certa com uma religião [qualquer. melancólica em que se enraíza o famoso poema para a pura irrisão e [...] absurdo. O tédio assim descrito não releva nem sequer do tempo Hoje já não faço anos. morto ou esmaecido, como em Teixeira de Pascoaes, nem mesmo Duro. toma em consideração. Estamos para lá da melancolia e do seu jogo Somam-se-me dias. no interior da memória, memória de coisas vivas, mais vivas que as Serei velho quando for. da vida presente, e no entanto impalpáveis, inacessíveis, a não ser Mais nada. [...] pela viagem através da eternidade perdida de nós próprios de que se O tempo em que festejavam dia dos meus anos!... tece justamente a melancolia. A lírica universal não é mais do que a perpétua tentativa de trazer à superfície a barca afundada dos nossos Na mesma trama cerrada de melancolia e nostalgia se tecem al- momentos de eternidade. A poesia antiga conhecia bem a dor inex- guns dos mais belos poemas de V. de Milosz, um dos grandes poetas primível do tempo que foge, fonte originária da melancolia. Basta da Melancolia visada como tal, experiência suprema da revelação lembrar Virgílio ou Ovídio. Mas neles tempo dos deuses e o tem- dos nossos arcanos celestes, como na pungente "Sinfonia de no- vembro": po dos homens era demasiado heterogêneo para fazer nascer na sua consciência essa outra dor própria da melancolia moderna de seres 18 19Ce sera tout à fait comme dans cette vie. La même chambre. oui, mon enfant, la même. Au petit jour l'oiseau des temps classificam os melancólicos (alguns deles, entre os maiores) como [dans la feuillée seres excepcionais. Hércules, o herói por excelência, releva desse es- pâle comme une morte: alors les servantes se lèvent tranho "desarranjo" que o aliena. Também aos poetas era atribuída et l'on entend le bruit glacé et creux des eaux. certa afinidade com a melancolia. Sem sairmos, com antigos, do [...] círculo da natureza, de uma afecção do corpo gêmea da alma, a in- Ce sera tout à fait comme dans cette vie! Le même jardin. tuição de uma superioridade de ordem espiritual criadora própria da Profond, profond, touffu, obscur. Et vers midi melancolia deixa supor que ela releva de uma outra instância que não des gars se réjouiront d'être réunis là a da "natureza" ou do "espírito" concebido como emanação dela. qui ne se sont jamais connus et qui ne savent les uns des autres que ceci: qu'il faudra s'habiller Não estamos certos de que haja uma analogia perfeita entre aqui- comme pour une fête, et aller dans la nuit lo a que antigos chamavam "melancolia" e o que designamos por des disparus, tout seul, sans amour et sans lampe. melancolia quando pensamos em Dürer, em Hamlet, em Werther, Re- Ce sera tout à fait comme dans cette vie. né, Nerval, Baudelaire ou Pessoa. Não temos uma idéia exata da ma- neira como homem da Antiguidade estava inserido no real, incluin- Se a verdadeira melancolia é inseparável da tristeza e de uma do o tempo. Só Nietzsche ou Hölderlin, antes dele, sob a máscara da espécie de distanciamento da própria tristeza, o poema de Milosz tra- nostalgia, tiveram "antipensamento", fonte da nova modernidade, duz melhor ainda que o de Pessoa a essência da melancolia. Há que de um enraizamento da alma antiga numa temporalidade tão concre- lembrar porém que a melancolia porque não é uma modalidade, ta como um rio. Os deuses são "astros", divino, a ordem que con- entre outras, da sensibilidade e do sentimento, mas uma manifesta- figuram, e as Idéias, embora "não são formas e, acima de ção estrutural do ser humano, afetado pela sua relação com o tempo tudo, algo que exclui por definição "o Tempo". Como ligar a uma tal não pode ser confundida com expressões contingentes da nossa vivência, empírica ou intelectual, a perturbação da nossa relação com existência como a tristeza ou a nostalgia. A tristeza e a nostalgia têm o Ser que se exprime na melancolia, se virmos nesta, para empregar causas, origens e motivações identificáveis na ordem da experiência as palavras de Shakespeare, a tomada de consciência de um tempo empírica dos homens. Se bem que se fale também de "tristeza sem "saído dos eixos"? A perturbação de Pascal perante o famoso "silên- motivo" a propósito de certos estados de alma de ensimesmamento cio dos espaços infinitos" é menor que a dos poetas que sentiram pri- doloroso: mas se acrescentamos "sem motivo" a essa espécie de tris- meiro que ninguém tempo da melancolia quando se deram conta teza que se aproxima assim da melancolia é porque para essa de que já não eram capazes de ver a hora do Homem no relógio de paixão há habitualmente uma causa ou um motivo, real ou suposto. Deus. Não é esse 0 caso da melancolia. Aquilo de que ela "fala" ou que A melancolia a de Baudelaire. tal como a dor ou a tris- fala nela está fora da esfera empírica, apesar de alterar todo nosso teza, não é já a alegoria medieval, representação ampliada e sintética comportamento dito "normal" ao ponto de o tornar "anormal" ou "in- das dores e tristezas reais, mas um símbolo. Perdida a referência do sano", como diriam os antigos. A singularidade da melancolia e do homem melancólico não es- transcendente, signos que evocam essa perda não podem ser se- não "símbolos", mesmo quando são objeto de uma alegoria de grau capou ao olhar da medicina, da "psicologia" e da filosofia grega, e superlativo, como é justamente caso de Na Idade Mé- tanto 0 seu diagnóstico como a sua mitologia chegaram quase intac- tos até Esquirol, passando pelo Examen de Ingenios de Huarte de dia, nem a morte nem a alegoria que visa o sentimento de desalento, San Juan. A melancolia reside na natureza, no corpo, em que a "bílis ou de "desinteresse ativo" perante a vida, eram desconhecidos. Mas negra" dita, por assim dizer, a lei. A alma, o espírito, limitam-se a o seu sentido e 0 seu interesse não podem ser mesmos que na épo- sofrer as No entanto, e paradoxalmente, gregos ca em que a visão teocêntrica do mundo e o quadro orgânico da so- ciedade se esboroam ou se desintegram. No seio do mundo cristão, 20 21fenômeno da melancolia só podia ser entendido como misterioso e nem desempenha o papel único que terá mais tarde, de sentimento- incompreensível "abandono" de Deus a perda do gosto da vida e chave, por meio do qual o enigma da alma portuguesa supostamente a perda do gosto de Deus (acedia) confundem-se ou como casti- se revela. Mas é inesquecível o seu comentário a propósito do en- go de uma falta, em suma, como um pecado. A verdadeira vida é um canto específico da palavra saudade, termo que não tem equivalente louvor a Deus e às suas criaturas. São Francisco dará a esse ideal a nem "em latim nem outra linguagem", próprio como nenhum outro forma mais perfeita. Os santos são alegres, e a tristeza sobretudo para exprimir a estranheza e a sutileza de um sentimento de tal com- a mais negra, a melancolia é suspeita. Os demônios são mudos, plexidade. Raridade do termo, raridade do sentimento: quanto basta cheios de uma tristeza sem brilho como a do anjo caído de Milton. para que no espírito dos portugueses tome forma a idéia de que a al- A representação da melancolia reflete o seu estatuto no imaginário ma portuguesa vive e experimenta, com deleite e intensidade sem medieval: é personificada na figura de uma velha, retrato do abati- par, um estado que só nessa palavra intraduzível é possível exprimir. mento, parente próxima da Morte. É a morte no coração da vida de Com a ajuda dos poetas, a cultura portuguesa irá inscrever-se, com que só a "Graça" nos pode livrar. É forçoso constatar, no entanto, uma espécie de complacência, no círculo da saudade, e Portugal tor- que des-gosto da vida, 0 encerramento em nós, existem nessa épo- na-se miticamente a terra da saudade. ca e que se torna necessário compreender como experiência humana Nem no plano do sentimento nem no plano da cultura é lícito essa estranha doença de langor do corpo e da alma. dizer que d. Duarte está na origem de uma tal mitificação, que faz da No primeiro quarto do século XV, um rei de Portugal dado à me- saudade centro do discurso identitário e por seu intermédio se sa- lancolia, d. Duarte, debruçou-se com as armas da sua meditação pes- craliza. O objetivo de d. Duarte é mais modesto e mais universal. A soal sobre a velha "doença sagrada" dos antigos. No Leal conselhei- saudade é uma entre as outras afecções da alma (tristeza, tédio, no- ro, este personagem escrupuloso e fora do comum, infeliz como rei jo, melancolia) a que dedica as suas considerações, não por curiosi- e como ser humano, deixou-nos que se pode já chamar, a justo tí- dade intelectual, mas por preocupação moral. Trata-se de conhecer o tulo, uma espécie de "anatomia da melancolia". Ou melhor, porque mecanismo das suas paixões para melhor as dominar e levar a vida estamos longe de qualquer mitificação, do "humor A em conformidade com a vontade de Deus. Não se contando entre as análise que consagra a esse "humor" interessa-nos duplamente. Pri- paixões violentas como a soberba, o ódio, a inveja, a ira pecados meiro que tudo porque, ao contrário do tratamento das outras pai- mortais e por isso mesmo designados como obstáculos à salvação xões, sentimentos ou afecções da alma, as suas considerações sobre sentimentos como a tristeza, nojo, tédio, a melancolia, não po- "humor melancólico" nos são apresentadas numa óptica autobio- diam suscitar-lhe o mesmo interesse, e ainda menos a saudade. Mes- gráfica: a sua experiência da melancolia é-nos relatada no capítulo mo assim, uma alma tão escrupulosa tinha dever de examinar "Da maneira que fui doente do humor menencórico e cuidadosamente esses sentimentos sem relação imediata com a pala- dele guareci [me curei]". Em segundo lugar, porque é no mesmo con- vra "saudade", ou a sua expressão, pois todos relevam mais ou me- texto autobiográfico, a propósito da melancolia ou doutros estados nos da inquietação, da perturbação, e afastam homem do bem su- de alma comparáveis ou ligados à sua manifestação, que d. Duarte premo: "a paz da alma", o acordo consigo mesmo. Num tal quadro, elabora a primeira meditação conhecida sobre a Saudade. Bastaria essa espécie de perturbação deliciosa que decorre da ausência de um esta razão para merecer um lugar à parte naquilo a que podemos cha- bem e não da negação ou da recusa desse bem, a saudade, sem que mar "História da seja objeto de tanta atenção como outros sentimentos, é no entanto As passagens consagradas pelo rei filósofo ao sentimento da posta em relação com eles e em especial com a tristeza e a me- saudade fazem parte de um conjunto de reflexões mais ou menos sis- lancolia. temáticas dedicadas, numa perspectiva escolástica, às "paixões da Não pode deixar de sublinhar-se que d. Duarte só acessoriamen- alma". sentimento de saudade não é o centro das suas análises, te, digamos, se interessa pelo sentimento da saudade, destinado a tor- 22 23nar-se tema de obsessiva predileção da cultura portuguesa, e que ele só aborda depois da tristeza e da melancolia. Quanto à tristeza, porâneos uma doença provocada pela angústia, mas um autêntico d. Duarte retoma discurso tradicional. Como paixão, grave na me- pecado. Nada têm de romântico as páginas célebres do Leal conselheiro dida em que se compraz no sofrimento, relevando da desesperança, em que relata o seu combate com a melancolia, mesmo que possa- quer dizer, da recusa ativa de Deus. a tristeza é um pecado. A melan- mos, com o tempo, lê-las como uma variante no contexto tão di- colia também, mas mais misteriosa e perturbante, pois pode ser cau- verso do século XV do combate com o anjo que todo o homem tra- sada pela própria exigência de cumprir um dever ou aspirar a uma finalidade, em si mesma, positiva. É desta espécie a melancolia que va quando se aproxima das alturas, e que deixa só face a si mesmo. Mas d. Duarte não é ainda Hamlet, cujo espírito o espectro do abis- o atinge, e de que deseja dar testemunho para edificação dos demais. Talvez, também, para cumprir uma espécie de exorcismo. mo persegue, nem Sénancour ou Kierkegaard, confrontados com 0 afastamento ou a transcendência, real ou imaginária, de Deus. No Nada pode substituir a leitura dessas páginas impregnadas da retidão e da sublime ingenuidade de um espírito honesto, imbuído desalento supremo, é ainda Deus e a sua misericórdia que este prín- do desejo de verdade e capaz de se olhar sem complacência até ao cipe tem por inabaláveis. A sua melancolia não pode confundir-se, mais fundo de si. A história de d. Duarte é simples. Com 22 anos de pois, nessa ordem, com a da modernidade. Basta lembrar, de novo, o idade, 0 rei seu pai, ocupado nos preparativos da conquista de Ceu- percurso da Melancolia desde Dürer, figuração da nossa impotência ta, confia-lhe negócios de Estado. Devota-se à tarefa com um ze- para penetrar o mistério do universo, até Milton e o seu Satã mergu- lhado no fundo do abismo pela lembrança da luz perdida, ou até lo que ele mesmo descreve como excessivo. Esmagado pela imagem do pai, Hamlet avant la lettre, receia não estar à altura. Torna-se es- Lamartine, coração banhado pelas doçuras de um Tempo onipresen- te na lembrança, mas perdido para sempre. A melancolia, segundo cravo da tarefa que empreendeu, sem deixar contudo de experimen- d. Duarte, é uma enfermidade real do corpo e da alma que não com- tar uma real satisfação em cumpri-la. E como se se penitenciasse por isso, d. Duarte recusa todos os ócios e prazeres dos jovens da sua porta qualquer desespero da Providência Divina. Está tudo nas mãos condição. Apesar do sentimento de fazer bem o que acha seu dever de Deus, o que torna ainda mais inexplicável 0 seu estado até ao mo- fazer, assalta-o uma tristeza inexplicável, tristeza que logo se con- mento em que o aceita como uma provação, branda decerto, se com- parada à condenação de que Deus parece assim preservá-lo. verte em melancolia. Nenhum dos remédios dos físicos da época lhe debela desalento, feito de desespero moral, de e Não se passa o mesmo com a Saudade que d. Duarte foi o pri- meiro a descrever, sem nela se deter, associando-a ou separando-a mais ainda da incapacidade de compreender o que tem. Aliás, nunca da melancolia. Como para a análise dos outros sentimentos, d. Duar- o pressentirá. Dá-se conta do efeito nefasto do seu excesso de zelo, te não ultrapassa o horizonte de uma descrição espontaneamente "fe- mas não pode suspeitar que nesse exercício zeloso do poder se mede Compara, nota as afinidades entre sentimentos que com a sombra do Pai e se sente Tanto mais que tem amor, e se entrelaçam no "nó" das emoções da alma, constantes e movedi- temor, por esse pai, herói do seu povo. Mas é maior a veneração pe- la mãe, a princesa inglesa da Casa de Lancaster que deixou na me- próximas e contrárias, de que se fabrica a saudade. Não a liga mória portuguesa uma lembrança indelével. Quando a peste vitima a ainda ao viver do tempo humano enquanto tal. Mas entendendo-a co- rainha, fica ao pé dela e vive sem medo a sua doença. Esquece a me- mo um jogo da memória afetiva, ao precisar que não releva do en- lancolia, e experimenta nessa altura uma verdadeira libertação. Cris- tendimento mas do coração, estabelece o nexo entre a saudade e o tão fervoroso, atribui, naturalmente, a sua cura miraculosa a Deus e tempo. à intercessão da Virgem. Modifica então os seus hábitos, redescobre Como todos aqueles que depois dele procuraram definir o que a saudade tem de específico, d. Duarte, apesar da preferência que o gosto do mundo, e sente-se pouco a pouco liberto dessa estranha melancolia que não era aos seus olhos nem aos dos seus contem- mostra pelas distinções claras, na tradição escolástica, tem acerca dela dois discursos. Não que seja um dialético, mas é um psicólogo 24 25notável. A ambivalência ou duplo aspecto das paixões que se dedi- gado ao passado, outro ao futuro. A coloração particular da lem- cou a estudar pelo seu valor moral e pelo papel que brança saudosa não releva, como ele acentua, de uma qualquer exi- têm na vida interior. Quanto mais se colocam sob um signo negativo gência de ordem racional, mas inteiramente do coração, da sensibili- quer dizer, quanto melhor se lhes adapta estatuto de pecado mor- dade, das afecções, esfera regida pela oposição entre sofrimento e tal menos ambivalentes são e menos se prestam a uma dupla lei- prazer. Nas suas palavras, a saudade "é um sentido do coração que tura. Quanto mais se afastam dele, mais difícil é saber a que "lugar" vem da sensualidade, e não da razão, e faz sentir às vezes os senti- pertencem nessa espécie de balanço de sentimentos positivos e ne- dos da tristeza e do nojo. E outros vêm daquelas cousas que a ho- gativos que nos oferece o Leal conselheiro. Com a saudade, d. Duar- mem praz que sejam, a alguns com tal lembrança que traz prazer e te tem dificuldades bem maiores, apesar do código relativamente sim- não pena. E em casos certos se mistura com tão grande nojo, que faz ples que preside às suas análises, do que com paixões como o ódio, ficar em tristeza". O embaraço do autor é tal que recorre nesse passo a soberba, a presunção, a tristeza ou a melancolia. Tanto mais que a à "cobardia do exemplo", como lhe chamou Pessoa. Parece-nos bem- saudade só nalguns dos seus efeitos pertence à esfera das paixões. É vindo o recurso, neste caso. Não porque alivie o embaraço do autor em si mesma tão ambígua, intangível, presta-se tanto a leituras con- (nem o nosso, de leitores), mas porque esclarece o seu pensamento trárias, que d. Duarte, no célebre capítulo que lhe consagra, renun- profundo e permite compreender o estatuto da saudade na sua visão cia à especulação habitual, à sutileza das distinções, para passar aos do mundo, estatuto que é simultaneamente positivo e negativo. Mas exemplos. O próprio assunto é novo, e a tal ponto, que o rei aconse- quando d. Duarte exemplifica as duas cores da saudade, damo-nos lha o leitor a prescindir dos livros e a examinar, tal como ele faz, "seu coração". conta de que as razões do prazer ligadas a certas formas de lembran- ça não têm nada de realmente positivo. Em suma, a saudade, segun- Não encontramos nessa primeira imagem da Saudade, ao con- do o autor do Leal conselheiro, tem mais a ver com a tristeza e o des- trário da longa tradição posterior, os traços quase hagiográficos de gosto que com a felicidade. Sentimos saudade, escreve d. Duarte, que a idéia de saudade se revestirá mais tarde, até se tornar supre- pela ausência de um ser ou de um lugar amado. Diga-se de passagem mo ícone da cultura portuguesa. O título do capítulo em que é abor- que o rei dá aqui um lugar à nostalgia, no sentido original. A sua des- dada a saudade deveria ter-nos posto de sobreaviso: "Do nojo, pesar, crição é perfeita não se vê que outra coisa possa ser a saudade. desprazer, aborrecimento e saudade". Preferiu-se salientar o acento Mas ficamos perplexos quando liga a lembrança saudosa ao prazer posto na singularidade da palavra saudade, em que desponta na ver- de, ao comparar o nosso estado presente ao estado passado em que dade um certo orgulho "patriótico", e desprezaram-se as considera- fomos felizes, acharmos este presente melhor. É essa uma inversão ções sem ambigüidades sobre sentimento em si, e sobretudo do seu total da óptica romântica sobre a saudade marcada pela consciência estatuto. A saudade é descrita, com perfeita precisão, como uma afli- de um presente sem réstia de esplendor amor distante ou perdido, ção da alma entre a tristeza, nojo e prazer. Por outras palavras, tanto quanto a pátria que só o tormento fulminante da lembrança tristeza. inspira umas vezes mais tristeza que prazer, outras mais prazer que que a si mesma se chama saudade permite recuperar como um sonho acordado. Assim podem considerar-se duas espécies de saudade que não Será de crer que o nosso melancólico rei, que foi primeiro a vão no mesmo sentido e não têm portanto o mesmo estatuto. D. Duar- "pensar" a saudade, nunca conheceu ou teve verdadeiramente as sau- te não vê ainda a saudade como um sentimento intrinsecamente des- dades que os portugueses se gabam de sentir a todas as horas da sua dobrado, reflexo de uma relação única mas inconciliável da alma alma perpetuamente saudosa? Ou tê-las-á sentido talvez demais, vis- com o objeto da sua lembrança ou do seu desejo, como o farão mais lumbrando nas suas delícias bárbaras algum veneno invisível? Por tarde românticos, especialmente Almeida Garrett, em versos cele- que ligou tão intimamente esse sentimento singular aos fantasmas brados. Todavia, d. Duarte distingue dois tempos da saudade, um li- da tristeza, do nojo? Há saudade e saudade, tal como há prazer e pra- 26 27zer. Por que insiste d. Duarte em minimizar ou ocultar esse desejo as páginas do mais belo livro alguma vez escrito em língua portu- quase insano que arrasta a memória para o passado, e prefere crer guesa, as Saudades de Bernardim Ribeiro, de uma melancolia suave que o prazer sentido releva mais da plenitude do presente que da do e dilacerante, como se a saudade mesma se tivesse volvido em escri- passado? ta. Do mesmo modo, em Camões, em particular nas Canções, a sau- Insólitas, para nós, essas últimas considerações do autor, que dade converte-se em canto dedicado a uma ausência que não é so- retoma as suas preocupações éticas, imbuído de um rigorismo que mente a do ser amado ou da pátria perdida, mas angústia do ser que hoje apelidaríamos jansenista, clarificam essa peculiar inversão de se vive, pela primeira vez na cultura portuguesa, como "filho do Tem- papéis entre passado e presente. Menos que ninguém ele ignora a po", quer dizer, como seu prisioneiro. Tudo se passa como se a sau- força com que a saudade puxa para o passado, que lhe está no cerne. dade, consolação do inconsolável, tocasse limites da felicidade A saudade traduz a sedução desse passado, quer seja momento ou magoada que destila. Pode dizer-se que se operará nela uma conver- lugar, que aos seus olhos se tinge muitas vezes de um encanto que são, quando a saudade se confundirá com a aspiração à mais alta rea- em tudo se assemelha à tentação. E precisamente por conhecer essa lidade e se descobre como lembrança da verdadeira cidade a Je- atração, d. Duarte esforça-se por precaver leitor contra a sujeição rusalém celeste onde a ferida do amor humano e a ferida mais da saudade. Ele a vê menos como um movimento da alma atraída pe- funda da nossa finitude encontram remédio: lo Bem como será, muito platonicamente, descrita mais tarde do que como um afastamento da única felicidade verdadeira, a de Não é logo a saudade Das terras onde nasceu Deus, luz presente e não perdida. Ensina-lhe a experiência que a sau- A carne, mas é do Céu, dade arrasta, com maior complacência, para amores condenáveis, pa- Daquela santa cidade ra predileções funestas, que para momentos de verdadeira plenitude De onde esta alma descendeu. ou seja, livres da sombra do pecado. A saudade não se distingue por isso de uma paixão de que convém guardar-se. Essa conclusão Com Camões, no limiar do Barroco, a visão neoplatônica cris- de moralista, em consonância com a visão medieval do mundo, en- tianizada instaura a verdadeira mitologia da saudade, a que encontra- quadra-se no conjunto do discurso sobre as paixões e em particular remos ainda, sob outras roupagens, em Teixeira de Pascoaes e Pessoa. sobre a mais universal de todas, Amor. A visão de d. Duarte não é Na sua expressão barroca, de um tempo paradoxalmente suavizado muito diferente da do Auto da alma, de Gil Vicente, mas tem uma to- pela sua aposta na eternidade, a saudade, para lá da sua definição nalidade mais carregada. Só uma concepção do mundo que põe o clássica dada por Duarte Nunes de Leão, "lembrança de alguma coi- amor no centro da vida amor concebido como essência do pró- sa e desejo de a possuir", tornar-se-á, depois de Camões, desejo de prio universo à maneira ou sob a influência do neoplatonismo da- uma "felicidade fora do mundo". Ninguém melhor que d. Francisco rá à saudade uma coloração menos sombria que a da sua primeira Manuel de Mello traçou retrato dessa nova saudade que é ao mes- versão, saída da pena de um príncipe melancólico. Mas ficará sem- mo tempo desejo de eternidade e nostalgia eterna. D. Francisco Ma- pre no coração do amor a sombra do desassossego, que não é outra nuel de Mello retoma algumas das intuições de d. Duarte, num sen- senão a sombra do Tempo, de que a saudade é de certa forma a Musa. tido menos pessimista, mas tenta também pela primeira vez encontrar, Os poetas já tinham adivinhado ou exprimido tudo isso por meio se não uma explicação, ao menos uma base na vida e no destino er- do glosar infinito dos tormentos ou das contradições do amor. O que radio dos portugueses. A saudade é para ele um sentimento simulta- muda é a idéia ou o papel desse mesmo amor. Na Renascença, com neamente singular, universal e transcendente. Bernardim Ribeiro e Camões, o amor torna-se visão do mundo, na As suas páginas extraordinárias mereceriam só por si um en- medida em que a saudade o sublima ou transfigura. A saudade já não saio. Limitemo-nos a lembrar as passagens mais significativas sobre é objeto de controvérsia. É um sentimento avassalador que impregna aquilo a que chama "esta generosa paixão" (expressão magnífica): 28 29É a saudade uma mimosa paixão da alma, e por isso tão subtil, que equivocamente se experimenta, deixando-nos indistinta a dor da satisfa- ção. É um mal, de que se gosta, e um bem, que se padece: quando fe- nece, troca-se a outro maior contentamento, mas não que formalmen- te se extinga: porque se sem melhoria se acaba a saudade, é certo que amor e desejo se acabarão primeiro. Não é assim com a pena; por- que quanto é maior a pena, é maior a saudade, e nunca se passa ao DA SAUDADE COMO maior mal, antes rompe pelos males; conforme sucede aos rios impe- MELANCOLIA FELIZ tuosos conservarem o sabor de suas águas, muito espaço de misturar- se com as ondas do mar, mais opulento. Pelo que diremos que ela é um suave fumo do fogo do amor, e que do próprio modo que a lenha odorífera lança um vapor leve, alvo e cheiroso, assim a saudade, mo- desta e regulada, dá indícios de um amor fino, casto e puro. Não ne- cessita de larga qualquer desvio lhe basta, para que se co- Habitados a tal ponto pela saudade, os portugueses renuncia- nheça. Assim prova ser parte do natural apetite da união de todas as ram a defini-la. Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essên- coisas amáveis e semelhantes; ou ser aquilo falta, que da divisão des- cia do seu sentimento da existência, a ponto de a transformarem num sas tais coisas procede. Compete por esta causa aos racionais, pela mais nobre porção que há em nós; e é legítimo argumento da imortali- "mito". É essa mitificação de um sentimento universal que à es- dade de nosso espírito, por aquela muda ilação, que sempre nos está sem tragédia que é seu verdadeiro conteúdo cul- fazendo interiormente, de que fora de nós há outra coisa melhor que tural, e faz brasão da sensibilidade portuguesa. Mas será a sau- nós mesmos, com que nos desejamos unir; sendo esta tal a mais subi- dade assim tão intraduzível quanto o pretende essa mitologia cultural? da das saudades humanas, como se disséssemos: um desejo vivo, uma Podemos aceitar que assim seja, mas apenas na medida em que ne- reminiscência forçosa, com que apetecemos espiritualmente que não nhum sentimento tem outro conteúdo que não da sua manifesta- havemos visto jamais, nem ainda ouvido, e que está ção. O "sentido" está incluído na própria manifestação, e, se escu- de nós remoto e incerto; mas um e outro fim, sempre debaixo das pre- tarmos a VOZ sem verbo que na aflora, esse silêncio original missas de bom e deleitável. Esta é em meu juízo a teórica das sauda- acaba por se fazer ouvir. Quem melhor do que poetas poderia, co- des, pelos modos que, sem as conhecer, as padecemos, agora humana, mo Orfeu, descer ao labirinto do tempo sepultado para aí surpreen- agora divinamente. der a luz não extinta, simultaneamente espectral e ofuscante, da feli- Será preciso esperar até ao Romantismo por uma leitura tão pers- cidade passada? picaz e tão digna da saudade, do seu mistério ou do seu enigma. O Revisitemos por instantes a mais célebre descrição dessa desci- Romantismo fará entrar na História, principalmente na essa da ao coração do a de Almeida em plena aurora ro- imagem sublime. O Romantismo português não é outra coisa senão mântica. Todos os portugueses conhecem de cor o "retrato" que ele a leitura da história de Portugal como avatar da saudade e, inversa- nos deixou da Saudade, mente, da saudade como avatar da nossa História. gosto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho Esses versos famosos, que caracterizam perfeitamente a contra- dição da alma saudosa, nada dizem da saudade. Por que esse "gosto amargo", por que esse "delicioso pungir"? Qual a raiz da contradi- ção que assim se exprime e se redime, como se exprimem e segundo a nossa mitologia cultural, a dificuldade ou 0 mistério da 30 31nossa maneira de estar no mundo? Não será saudade um nome, en- maneiras de encenar seus modos de representação. A saudade não tre outros, com que se exprime alguma coisa de mais universal é da ordem da representação, mas da pura vivência. A consciência precisamente a dificuldade para todo o ser, feito de tempo, de "estar "saudosa" não joga consigo mesma, é palco de um jogo. Não é 0 eu no mundo"? que contempla a saudade, analisa-a ou joga com ela; é ela que faz Costumamos dizer que "temos Temos saudades da dele joguete, que avassala: o eu converte-se, por inteiro, em sauda- infância, da escola, de alguém, dum determinado momento. No en- de. Não estamos aqui no plano da psicologia, ou mesmo da gnoseo- tanto esse "ter" em nada se parece com a posse, a apropriação, em logia, mas no plano da ontologia. suma, com o dispor soberana e livremente daquilo que se tem. Tam- Como é possível essa estranha confusão de uma modalidade do bém não pode assimilar-se o sentir saudades, por exemplo, ao sentir- nosso ser afetivo com todo nosso ser? Lembre-se de que não so- se bem de saúde, apesar de a saúde também não ser um objeto, mas mos seres inscritos, ou inseridos, como agora se diz, num espaço e um estado positivo, tão positivo que nada mais significa que não es- num tempo indeterminados, mas seres espacializantes e temporali- tar Podia, quando muito, em bom rigor comparar-se ou si- zantes, unidos e divididos no espaço e no tempo que somos e que tuar no mesmo plano o estar "saudoso" e o estar "triste", mas não criamos. Espaço e tempo são para nós realidades com um rosto, podemos dizer ter tristeza como dizemos ter saudades. A tristeza é rosto daquilo que amamos, lugar da única, precária felicidade. Se experimentada como idealmente passageira; a saudade, pelo contrá- nos afastarmos desse lugar afetivo que nos pertence e a que perten- rio, faz do "passageiro" algo de idealmente presente Na verdade, sentimos então aquilo a que chamamos, em sentido próprio, temos saudades, é a saudade que nos tem, que faz de nós seu ob- nostalgia, 0 estar longe da nossa casa, do nosso lar, do lugar onde jeto. Imersos nela, tornamo-nos Todo o nosso ser ancorado nascemos, na acepção própria e figurada. Costumamos dar a esse no presente fica, de súbito, ausente Sentimo-nos como um rio que afastamento um conteúdo, por assim dizer, geográfico, mas não é deixa de correr e reflui para a nascente. aqui onde estamos asse- disso que se trata. Na verdade, só quando à vivida, física, melha-se a um crepúsculo, toda a "nossa" luz se vai para o lá que nos se acrescenta o sentimento de que se romperam OS laços com esse causa saudades, lugar ou presença, ou ambos, envoltos pelo mesmo lugar que fazia parte de nós, sentimos, no seu sentido pleno, a nos- "halo" de irrealidade. Saudade subentende, naturalmente, memória talgia. A evocada por todos exilados, mistura amarga, desde Oví- é memória em estado de incandescência, que não se confunde no dio, de tristeza e de melancolia. A nostalgia, sofrimento por conta de entanto com ela, nem sequer com a memória proustiana, pura irrup- um bem perdido que era constitutivamente nosso, desvenda-se e re- ção do passado no presente ou fuga do presente para mais antigo vela-se como um sentimento essencialmente negativo, espécie de de nós mesmos. É por uma outra maneira de ser presente no passa- luto que tempo desvanece sem o deixar esquecer. Há alguma pos- do, ou de ser passado no presente, que a saudade se distingue de uma sibilidade de contornar esse luto desde dentro e não de fora, transfi- simples manifestação "memorial". Como? gurando-o em nostalgia, por assim dizer, feliz? A memória é a autonegação do presente, seu esquecimento Talvez não seja por acaso que devamos a Teixeira de Pascoaes, vivido, voluntário ou involuntário, que idealmente nos proporciona poeta que, melhor do que ninguém, mitificou o sentimento da sau- um passado (ou o passado) como tal, idêntico na sua manifestação, dade, a recolha intitulada Regresso ao Paraíso. Esse "regresso" é na sua relação com a consciência, ao presente suspenso, apesar do obra da saudade, que subtrai a nostalgia ao sentimento da pura per- sentimento de irrealidade de que se acompanha. A memória oferece- da ou ausência, confiando-lhe a missão de transmudar a perda em vi- nos assim que passou como se existisse ainda, a fantasia como pu- tória de Muitos duvidam de que tanto baste para distinguir ra invenção o que não existe, e a imaginação o que não existe como verdadeiramente saudade da nostalgia, mas podemos compreender se realmente existisse. Mas tanto a memória como a fantasia e a ima- onde se situa a linha divisória. No seu sentido primordial, a nostal- ginação são, como se dizia, uma éspécie de "faculdades" da alma. gia inscreve-se no horizonte da espacialidade humanizada e nele to- 32 33ma forma. Nessa medida, pode mesmo findar se reintegrarmos o es- paço humano cujo afastamento a provocou. Só em princípio, porém, porque pode acontecer (como sempre acontece) que o "tempo" que é mais, nesse caso, que ação humana ou medida exterior te- nha desfigurado o lugar de origem de que sentimos nostalgia. Se as- sim for, experimentamos perante lugar revisitado uma nostalgia CLARIMUNDO: SIMBOLOGIA saudosa, o que mostra bem que a saudade se enraíza numa outra ex- periência, mais radical ainda que a do espaço afetivo. Experiência IMPERIAL E SAUDADE que é ao mesmo tempo a mais universal e a mais pessoal das expe- riências, porquanto não tem outro conteúdo que não seja o vivido temporal, nós próprios, noutras palavras, como filhos nascidos no coração tempo e expulsos do seu lugar de nascimento. É essa sen- sação-sentimento de ardermos no tempo sem nele nos consumirmos A alma de Camões não era todavia uma excepção a que propriamente chamamos saudade Os que nunca mudaram de porque Barros, Gois, Couto, e a geração dos qui- lugar, levados pela mão do acaso ou da necessidade, não sentem nos- nhentistas em geral, vivia do mesmo espírito. talgia dele. Mas Robinson Crusoe na sua ilha terá saudades do dia Oliveira Martins, História da civilização ibérica em que encontrou Sexta-feira, como Petrarca da sexta-feira santa em que viu Laura diante de saudade (que mais podia ser?) é ape- El Império era la forma más perfecta de la socie- nas isto: a consciência da temporalidade essencial da nossa existên- dad humana; por eso Dios perpetuaba sobre la cia, consciência carnal, por assim dizer, e não abstrata, acompanha- Tierra el Império desde los tiempos más remotos da do sentimento subtil da sua de la transferiendo-lo de Babilónia a Ma- Talvez só um povo permanentemente distraído da sua existên- cedónia, a Cartago y a Roma. cia como tragédia, ou imbuído e inebriado dela a ponto de a esque- Menendez Pidal, Idea imperial de Carlos V cer, pudesse tomar por brasão da sua alma a figura da saudade. Tal- vez, simplesmente, porque, como povo, feliz na sua inconsciência Die rechter Minner vil smaken que é a da vida, não se resigne a que nada fica de nada, como disse Eest in dolen, eest in geraken Unamuno. Quando nada resta de nada, fica ainda o tudo desse nada. Buten alle weghe van menschen sinnen É isso que vivemos como saudade, unindo numa só intuição as vi- Hadewisch d'Anvers sões, no fundo semelhantes, dos nossos maiores poetas, de Camões a Garrett, de Pascoaes a Pessoa. Mas talvez só a música impregnada A Crônica do imperador Clarimundo foi escrita e publicada do peso e da lembrança do tempo a de Bach ou de Beethoven, de quase um século antes do D. Quixote. Não tendo sido traduzida para Schubert ou de Mahler confira a um sentimento que julgamos úni- espanhol, é duvidoso que figurasse entre "cien cuerpos de libros CO a sua real e indizível universalidade. grandes muy bien encuadernados y outros pequeños" da biblioteca escolhida do Cavaleiro da Triste Figura. Sem isso não teria escapado às chamas como os seus irmãos mais afortunados, Amadis, flor de cavaleiros, e Palmeirim, obra régia, segundo Cervantes, e bem escri- ta. Nessa ordem de idéias, contudo, Clarimundo poderia salvar-se aos olhos de Cervantes. Se há um livro admiravelmente escrito, nes- ses começos do século XVI, numa língua que é ainda hoje objeto de 34 35goa e da saudade, ergue-se o autor do único livro que não se pode reescrever, pois foi ele que nos fez, tal como a nós mesmos conti- nuamos a sonhar-nos. 0 Romantismo foi também, ou sobretudo, uma maneira de dar ao sonho antigo do nosso destino inscrito n'Os lusía- das um futuro digno dele. TEMPO E MELANCOLIA EM FERNANDO PESSOA enigma visível do tempo, nada vivo em que es- tamos! Álvaro de Campos Fosse tempo uma fortaleza e poderíamos derrubar seus mu- ros com nosso canto, como Josué diante das muralhas de Jericó. Mas "o nada vivo em que estamos" não se deixa seduzir pelo imagi- nário que nele se origina. A poesia de Pessoa, que vive do confronto com uma temporalidade que se pode viver mas não se pode com- preender verdadeiramente, e a esse confronto radical deve a sua lu- minosa estranheza, não está meros desarmada que outras para deci- frar ou roçar ao menos mistério do tempo. A realidade misteriosa do tempo é obcecante na poesia de Fer- nando Pessoa. Nem por isso deixa de dever a sua originalidade mais profunda e seu sortilégio à suspensão do Tempo. O Tempo, como a morte, está fora de qualquer possibilidade de experiência, e é no sentimento originário da sua irrealidade que se gera toda a poesia de Pessoa. O poema nasce como a expressão mais "sensível" e mais inteligível da ausência radical de sentido daquilo que tanto desig- namos por tempo como por morte. iniciado, o dos poemas herméticos de Pessoa que retoma assim uma velha idéia neopla- tônica ou mesmo platônica é aquele que sabe com límpida clare- za que não há morte. Por ser naturalmente "divina", a alma é natu- ralmente imortal. Quer dizer, fora do tempo. Tempo e espaço são as formas originais da Queda da alma no corpo. São próprio Corpo, incapaz de se pensar como alma, como 64 65manifestação primordial da Unidade, única realidade, mesmo que Não sei... Eu perco-o... E outra vez regressa não possamos pensá-la senão na ordem da pura ausência. Na altura A luz e a cor do mundo claro e atual, em que Fernando Pessoa exprimia a sua visão do mundo moldan- E na interior distância do meu Real do-a no mais refinado simbolismo, a evocação dessa queda expres- Como se a alma acabasse, rio cessa... sa-se ainda sob um véu de névoa, em metáforas de lânguido e enig- No país do sonho, o único onde alguma vez viveu, não correm mático recorte: os rios. Desde muito novo que Pessoa compreendeu que tempo é Meu pensamento é um rio subterrâneo. intrinsecamente e descreveu a sua inenarrável monotonia "Tão Para que terras vai e donde vem? sempre a mesma, a Hora" como esvaziamento do seu tempo pró- Não sei... Na noite em que meu ser tem prio: "a Hora expulsa de si Tempo". Num outro poema com o em- Emerge dele um ruído subitâneo blemático título "Hora absurda", essa Hora simbolista volve-se em De origens no Mistério extraviadas tempo que já passou: "a Hora sabe a ter sido". De eu compreendê-las... misteriosas fontes É unicamente na sua exterioridade que a realidade temporal ga- Habitando a distância de ermos montes nha a tonalidade heraclitiana de algo que flui incessantemente. Ou Onde momentos são a Deus chegados... melhor, que é um puro fluir sem "ser". Sob a máscara de Álvaro de Campos, anjo caído no mundo e com ele só na aparência soli- De vez em quando luze em minha mágoa, dário, Pessoa saberá dar VOZ a essa temporalidade intangível. Mas, Como um farol num mar desconhecido, no mais fundo da sua verdade, a temporalidade é uma miragem e o Um movimento de correr, perdido caminhar incessante que parece traçar caminho é já um regresso a Em mim, um pálido soluço de água... essa Pátria Anterior, a esse Cais platônico de que na "Ode marítima" partimos. A viagem individual ou coletiva é sempre um desenrolar E relembro de tempos mais antigos Que a minha consciência da ilusão imaginário do tempo humano, simulacro cujo sentido só se revela às Águas divinas percorrendo chão avessas, como involução on pesadelo, como o de d. Sebastião na Men- De verdores uníssonos e amigos, sagem: Que importa areal e a morte e a desventura E a idéia de uma Pátria anterior Se com Deus me guardei? À forma consciente do meu ser É que eu me sonhei que eterno dura, Dói-me no que e vem bater Esse que regressarei. Como uma onda de encontro is minha dor. Poderá dizer-se, com razão, que essa negação do tempo é so- Escuto-o... Ao no meu vago tacto bretudo a de Fernando Pessoa ortônimo, da sua poesia essencialmen- Da minha alma, perdido som incerto, te simbólica ou mítica, quer nos poemas herméticos dos Passos da Como um eterno rio indescoberto, Cruz quer nos da pseudo-epopéia Mensagem, que não são menos. Mais que a idéia de rio certo e abstrato... É nos poemas de Fernando Pessoa ortônimo que 0 sentimento de que- da no tempo tem a expressão mais perfeita, como consciência de uma E para onde é que ele vai, que se extravia Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce? infelicidade provisória ou como infelicidade ontologicamente irre- Em que frios de Assombro é que arrefece? mediável. A maneira de Antero, nos Passos da cruz alterna uma e De que soturnas se anuvia? outra perspectiva em poemas muito conhecidos, como no poema VI: 66 67[...] resto como puro não-ser. Chegamos a pensar que a nós próprios se Venho de longe e trago no perfil, deve, por assim dizer, esse não-ser. Em forma nevoenta e afastada, perfil de outro ser que desagrada Leve, breve, suave, Ao meu atual recorte humano e vil. Um canto de ave Sobe no ar com que principia Ou no poema XIII: O dia. Emissário de um rei desconhecido Escuto, e passou... Eu cumpro informes instruções de além, Parece que foi só porque escutei Que parou. [...] Não sei se existe Rei que me mandou. Nunca, nunca, em nada, Minha missão será eu a esquecer, Raie a madrugada, Meu orgulho 0 deserto em que em mim estou... Ou 'splenda dia, ou doire no declive, Tive Mas ah! Eu sinto-me altas tradições Prazer a durar De antes de tempo e espaço e vida e ser... Mais do que 0 nada, a perda, antes de eu ir Já viram Deus as minhas sensações... Gozar. Mesmo sob a sua forma mítica, a suspensão do tempo é a for- ma inversa que toma a consciência aguda desse mesmo tempo. Por- A melancolia romântica vivia já da consciência da nossa vida como realidade evanescente. Deparamo-nos aqui, por assim dizer, que se vive como simulacro, como esboço de uma realidade oculta, com uma melancolia em segundo grau. Só a pode curar a irrupção aquém do tempo, o poeta não deixa de glosar a banal temporalidade, de um outro mundo sonhado, imerso e presente na sua mesma au- entendida como saudade de si próprio, ou vertiginosa busca do ser. sência. Essa melancolia eco de uma temporalidade ilusória que a Mas que conta é a ausência de substância de uma existência redu- incessante glosa do tédio alimenta pode às vezes dar lugar a uma zida a simples "passagem das horas", a pura inconsistência do devir. felicidade breve, embora fictícia, na medida em que o momento vi- Ouvimos essa "velha música" na poesia do poeta ortônimo, que vido sobrevive à sua própria evanescência: não tem aparentemente ambição metafísica e é por vezes quase po- pular na sua inspiração. Nela colhemos o sentimento de uma tempo- Momento ralidade desdobrada, real e vã, como no célebre poema do "sino da Que coisa que há sua aldeia": Já em mim qualquer coisa Que nunca passará? tão lento teu soar, Sei que passados anos, Tão como triste da vida O que isto é lembrarei, Que já a primeira pancada Sem saber já que era, Tem som de repetida. Que até já não sei. Intrinsecamente contraditório, tempo tanto é fonte do senti- Mas, nada só que fosse, mento de inexorabilidade como do tédio, revelador de uma falha e Fica dele um ficar falha em si próprio, monótona e ontológica impotência. Na sua mais Que será suave ainda aguda manifestação, a do instante, sentimo-nos e sentimos todo Quando eu não lembrar. 68 69O tempo como pura evanescência tem a sua expressão mais for- desdobra-se sem cessar ou torna-se outra, apenas entrevista ou no- te na peça marinheiro. Na verdade, não é de uma temporalidade meada. da ordem da queda que se trata, como a que serve de tema ao seu li- A verdadeira experiência da temporalidade, apesar do sentimen- rismo, mas de uma espécie de tempo morto que é, naturalmente, o to intenso da sua irrealidade originária, só a vive Pessoa, em termos tempo da Morte. Nesse drama, que Pessoa descreve como estático, mais comuns, através dos seus duplos Álvaro de Campos, Ricardo não acontece nada. Entre a vida e a morte, mais mortas que vivas, Reis, Alberto Caeiro, e da comédia-drama que encarnam. Só efeti- três irmãs desfiam numa circularidade perpétua um puro sonho o vamente a heteronímia, jogo de um duplo, de um triplo desdobra- de um Marinheiro que só existe para lhe servir de justificação. Falam mento de si, comporta um embate positivo com a realidade parado- indistintamente do passado, do presente e do futuro sem dar a essas xal do tempo tal como santo Agostinho a captou de uma forma três faces do que não se pode nomear maior verossimilhança que ao definitiva. Através dos três heterônimos, as três existências tempo- sonho que as faz existir por falarem dele. Tudo isso podia ser cúmu- rais que Heidegger descreve recebem uma expressão poética própria. lo do artifício e do preciosismo simbolista e em parte o é mas Os seus poemas não nascem da pura glosa da irrealidade do tempo essa temporalidade de sonho, como um perfume entediante, entra- ou da sua evanescência, como no caso da poesia da temporalidade nha-se nas palavras com a nostalgia pungente da realidade. O sonha- mítica (da Mensagem ou dos poemas herméticos) ou da temporali- dor Pessoa, mas também o "visual" Pessoa, recorta as coisas do mundo dade irreal (a de Pessoa ortônimo ou a d'O marinheiro). Os três ava- numa luz irreal e, subitamente, o mundo conhecido toma a forma do tares de Pessoa representam uma tentativa desesperada de se instalar desconhecido, e tempo-morte a do espelho em que entrevemos, pa- na realidade, de se confundir com ela e, em última análise, escapar à ra além do sonho, a incandescência pura da vida: visão simbolista que a sua ficção heteronímica nunca deixou de ser. Ao princípio ele criou as paisagens; depois criou as cidades; criou de- O tempo próprio dessa visão é 0 de uma original Queda, de uma per- pois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da da do Ser responsável pela ausência de sentido inerente à nossa exis- sua alma uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos tência e às palavras com que em vão procuramos exprimi-la. cais de onde ele criou depois OS portos... Uma a uma as ruas, e a gente Pedir ao Tempo, romanticamente, que suspenda 0 seu vôo era, que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhe- para Fernando Pessoa, um gesto impossível ou gratuito. Se pudésse- cer certa gente, como quem a reconhece apenas... conhecendo mos interpelá-lo, estaríamos já subtraídos à ausência de que ele é as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha ape- equívoco signo. O mais que podemos fazer, assumindo a ficção, que nas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordado, através do país que criara... E assim foi construindo seu passado... Breve tinha é a invenção poética deliberadamente mítica, é procurar dar um ros- uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde to ao vazio ou ao excesso de plenitude pelo qual a temporalidade se os lugares onde passara a OS portos onde embarca- manifesta. Para um tempo que magicamente caberia num "ponto in- ra... Ia tendo tido companheiros da infância e depois os amigos e finito" (a sensação, cada sensação e todas as sensações), como a ma- inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele tive- téria do universo pode caber num dedal, Pessoa imaginou Alberto ra nem o país, nem a gente, nem 0 seu passado próprio se pareciam Caeiro, guardador de um ser reduzido à forma menos consciente do com o que haviam sido... real: flor, árvore, rio, cor, contato imediato e irreal com um Todo co- Esta passagem d'O marinheiro mostra bem que, mesmo na es- mo pura exterioridade: fera do tempo irreal, desfiar interminável da veleidade de falar e de que nós vemos dus coisas são as coisas ser, a sombra da Queda, que é a essência mesma da temporalidade, Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra? está sempre presente. No sonho do real atribuído ao marinheiro (ele Por que é que ver e ouvir seria iludir-nos mesmo um sonho), a realidade sonhada ruas, rostos familiares Se ver e ouvir são ver e ouvir? 70 71A VOZ do que Pessoa recusa faz parte da interrogação, embora deza das trevas, vive o tempo intemporal de pura ficção horaciana ele não tenha achado melhor estratagema para fixar o Tempo, para das Odes de Ricardo Reis. Um tempo de paz, paz por indiferença es- acreditar, com ou sem fingimento, na sua "realidade", que conceber tóica à tristeza da temporalidade, mas também pelo gozo um tanto universo como um conjunto de sensações fechadas em si próprias, epicuriano da doçura melancólica do devir. "verdadeiras", fonte de verdade e de felicidade para aquele que vive Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. na sua órbita, feliz e extasiado como um anjo no Paraíso. A esse an- Sossegadamente fitemos seu curso e aprendamos jo do Tempo-sensação chamou, como se sabe, Alberto Caeiro. Atra- Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. vés dele, Fernando Pessoa finge escapar ao tempo negando-se a se- (Enlacemos as mãos). pará-lo do puro gozo da sensação. Não é por acaso que, depois de ter conseguido, como uma criança, a proeza de estar no tempo como na Depois pensemos, crianças adultas, que a vida eternidade que só a contemplação da Natureza nos consente, "des- Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, cobre" Álvaro de Campos, poeta de uma temporalidade múltipla, fei- Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, ta de múltiplas sensações, percepções, movimentos, atividades hu- Mais longe que deuses. manas inumeráveis e contraditórias, exigindo cada uma e em cada Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. momento um outro "eu" para serem compreendidas. O que é, em Al- Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como rio. berto Caeiro, tempo condensado, forçado simulacro de eternidade, é Mais vale saber passar silenciosamente em Álvaro de Campos tempo fragmentário, duração sem unidade in- E sem desassossegos grandes. trínseca, simples sucessão de fulgurações ou fosforescências da apa- [...] rência, que do nada procedem e ao nada tornam. Mas a realidade des- se "nada" é como um fogo negro no qual arde o ser ou a idéia do ser, Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as e cuja chama nos queima. É esta temporalidade vivida como angús- No colo, e que seu perfume suavize momento tia ou tédio absolutos, expressão da nossa inexorável falta de reali- Este momento em que sossegadamente não cremos em nada. dade, que sugere a Álvaro de Campos a mais profunda e a mais do- Pagãos inocentes da decadência. lorosa metáfora do tempo: "o nada vivo em que estamos". Tal como o Mostrengo da Mensagem, Fernando Pessoa cum- Pessoa-Álvaro de Campos deu forma a essa visão duma tempo- priu as três rondas rituais para exorcizar "o enigma visível do tem- ralidade enquanto não-ser no coração do ser, nalguns dos poemas po". O enigma ficou por decifrar. Ninguém melhor do que ele sabia, mais pungentes da nossa literatura e da literatura do nosso século, desde o princípio, que que esse enigma esconde é indecifrável. Mas como a "Ode marítima", "Lisbon revisited" ou "Tabacaria". Na luz dos três exorcismos surgiram Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ri- de um tempo que não podemos nem sequer perder, porque nunca o cardo Reis, três metáforas vivas da intemporalidade, três maneiras pudemos fazer nosso, Pessoa descreve-se (e descreve-nos) como de fingir que o enigma tem decifração. Poeticamente, sim, na medi- Sombra que passa através das sombras, e brilha da em que cada um dos poetas-poema ou dos poemas-poeta nos mos- Um momento a uma luz fúnebre desconhecida, tra mas agora numa espécie de luz sensível e ofuscante a que E entra na noite como um rastro de barco se perde ponto o tempo, tal como espaço, não pertencem, para Fernando Na água que deixa de se ouvir... Pessoa, ao domínio do real. Este, no seu mistério irredutível, releva Entre tempo pseudo-eterno do guardador de rebanhos e o tem- da ordem do oculto, perante a qual as palavras, mesmo as mais lu- po noturno de Álvaro de Campos, familiar, como Conrad, da profun- minosas, não são mais que simulacros ou sortilégios. Aos que estão 72 73no tempo, OS deuses mais não concedem que "viver 0 momento tre- mulamente sobre águas eternas", como nos diz o poeta na "Ode ma- rítima". No nosso século, poucos poetas terão vivido sobre essas águas eternas, em que tempo e espaço são puro exílio, com maior melancolia e esplendor que Fernando Pessoa. DOIS PRÍNCIPES DA MELANCOLIA: FERNANDO PESSOA E LUÍS DA BAVIERA De que matéria essencialmente divina são os castelos que não são de areia? O livro do desassossego Estar aqui é um esplendor.. Rilke, Elegias de Duino Nada faria prever que um dia a vida e o destino tão distantes de um príncipe de sangue e de um modesto empregado de escritório de uma capital da extrema Europa seriam evocados juntamente. Poeta de todos OS sonhos impossíveis, Fernando Pessoa fez de Luís da Ba- viera uma figura do seu reino de melancolia, e Luís povoou de cas- telos fantasmagóricos o seu reino de verdade para neles abrigar e exorcizar uma incurável melancolia. Para além da distância do tem- po e do estado, estaremos perante dois irmãos em melancolia? Não sabemos exatamente por que vias 0 destino do amigo exal- tado de Rei-virgem cantado anteriormente por Verlaine, tornou-se para o jovem Pessoa objeto de um fascínio que chegou à identificação quase mística. Somente constatamos que encontro hou- ve, e dele dá testemunho o extraordinário poema em prosa "Marcha fúnebre para rei Luís segundo da Baviera", hoje incluído na com- plexa trama pós-simbolista que leva o nome do livro livro do de- sassossego. No seu poema, onde perpassam todas as cores e fantasmas do imaginário fúnebre e erótico de uma ópera de Wagner revisitada por Gustave Moreau, o jovem Pessoa representa a Morte como sedutora 74 75