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Farmacodinâmic� A farmacodinâmica é o estudo dos efeitos bioquímicos e fisiológicos decorrente da interação fármaco-receptor e de seus modos de ação. Assim, os efeitos terapêuticos da maioria dos fármacos resultam de suas interações com os alvos moleculares, ou seja, com os receptores localizados nos órgãos e tecidos dos pacientes. A molécula do fármaco interage com o receptor, dando início a uma cadeia de eventos bio-químicos e fisiológicos que resultam nos efeitos observados para os fármacos. Essa interação do ligante-receptor e seus resultados são parte da farmacodinâmica. Na farmacologia, um receptor é qualquer molécula biológica com a qual um fármaco interage para gerar uma resposta biológica. Podem atuar como receptores de enzimas, ácidos nucleicos e, principalmente, proteínas estruturais. A farmacodinâmica investiga os locais de ação dos fármacos, seus mecanismos de ação, os efeitos no organismo, a relação entre a dose e a intensidade dos efeitos, além das variações nas respostas aos medicamentos. Os efeitos farmacológicos dos fármacos resultam da interação com componentes macromoleculares do organismo, como receptores. Essas interações modificam a função do componente biológico envolvido e desencadeiam alterações bioquímicas e fisiológicas que compõem a resposta ao fármaco. Em geral, os fármacos não criam novas respostas biológicas, mas modulam a velocidade ou a magnitude de respostas celulares já existentes, ajustando processos fisiológicos preexistentes no organismo. Os receptores de fármacos geralmente estão localizados na superfície celular, mas também podem ser encontrados em compartimentos intracelulares, como o núcleo. Enzimas, ácidos nucleicos e proteínas atuam como receptores de fármacos ou de agonistas endógenos, sendo as proteínas o grupo mais importante. As proteínas reguladoras, que respondem a sinais químicos endógenos como neurotransmissores, autacoides e hormônios, são os receptores de fármacos mais bem estudados. Outras proteínas que podem atuar como receptores incluem enzimas (como a diidrofolato redutase, alvo do metotrexato), proteínas de transporte (como a Na⁺/K⁺-ATPase, alvo dos glicosídeos digitálicos), e proteínas estruturais (como a tubulina, alvo da colchicina). Os receptores determinam as relações quantitativas entre dose (ou concentração de fármacos) e efeitos farmacológicos: A afinidade de um fármaco para se ligar ao receptor determina a concentração necessária para formar um número suficiente de complexos fármaco-receptor. O número total de receptores disponíveis pode limitar o efeito máximo que o fármaco pode produzir. À medida que a concentração do fármaco aumenta, o efeito farmacológico também cresce até que todos os receptores estejam ocupados, atingindo o efeito máximo. Esse comportamento é representado pela curva dose-resposta gradual, que tem o formato de uma hipérbole retangular. Dessa curva, podem ser determinadas duas propriedades importantes dos fármacos: a potência, que indica a quantidade de fármaco necessária para produzir um efeito específico, e a eficácia, que é a capacidade máxima do fármaco de produzir um efeito. Potência é a quantidade de fármaco necessária para produzir um efeito de determinada intensidade. A concentração que gera 50% do efeito máximo (CE50) é usada para medir a potência: quanto menor a CE50, maior a potência do fármaco. Eficácia é a capacidade máxima de um fármaco gerar uma resposta ao se ligar a um receptor, dependendo do número de complexos formados e da atividade intrínseca do fármaco. A eficácia máxima (Emáx) é alcançada quando todos os receptores estão ocupados, e aumentar a concentração não eleva a resposta. A eficácia distingue agonistas totais, parciais e antagonistas, onde os agonistas totais produzem a resposta máxima, agonistas parciais têm um efeito limitado e antagonistas não geram ativação, resultando em Emáx zero. O índice terapêutico (IT) mede a segurança de um fármaco, comparando suas concentrações terapêuticas e tóxicas. É definido pela relação entre a dose que causa toxicidade em 50% da população (DT50) e a dose eficaz em 50% da população (DE50), ou seja, IT = DT50/DE50. Um IT elevado indica uma grande margem de segurança, pois há uma ampla diferença entre a dose efetiva e a tóxica. Fármacos com um IT alto têm uma ampla janela terapêutica, ou seja, uma faixa de concentração onde o fármaco é eficaz sem ser tóxico. No entanto, muitos medicamentos usados na prática clínica têm um IT baixo (menor que 10), o que significa uma pequena margem de segurança entre as doses terapêuticas e tóxicas. Os receptores são responsáveis pela seletividade da ação do fármaco: Nenhum fármaco age exclusivamente em um único alvo celular, mas sua ação farmacológica depende de um certo grau de seletividade. A seletividade determina a margem de segurança entre efeitos desejados e indesejados e amplia as aplicações clínicas. A afinidade e a atividade intrínseca de um fármaco são determinadas pela sua estrutura química, que influencia sua capacidade de se ligar aos receptores específicos. Características como tamanho, formato e carga elétrica molecular definem se e com que afinidade o fármaco se ligará a um receptor específico. Alterações na estrutura química podem modificar significativamente a afinidade do fármaco por diferentes receptores, afetando seus efeitos terapêuticos e tóxicos. Receptores: Os receptores são moléculas específicas com as quais os fármacos interagem para alterar a função celular. Para responder a estímulos químicos específicos, os receptores precisam ser seletivos nas suas características de ligação. Fármacos que se ligam a um grupo limitado de tipos de receptor são considerados específicos, enquanto aqueles que interagem com muitos tipos diferentes são classificados como não específicos. As interações fármaco-receptor ocorrem por três tipos principais de ligação química: 1. Covalente: são ligações fortes e muitas vezes irreversíveis sob condições biológicas. 2. Eletrostática: são mais fracas que as covalentes, mais comuns e geralmente reversíveis. 3. Hidrofóbica: são as mais fracas de todas, mas ainda desempenham um papel importante na interação com receptores. A afinidade de um fármaco por seu receptor, que pode ser medida pela constante de dissociação, reflete a força da interação reversível entre eles. Tanto a afinidade quanto a atividade intrínseca de um fármaco são determinadas por sua estrutura química, que também influencia a especificidade farmacológica. Fármacos que interagem apenas com um único tipo de receptor presente em células diferenciadas são considerados altamente específicos. Por outro lado, se o receptor for expresso por diferentes células distribuídas por todo o organismo, os fármacos que atuam nesse tipo de receptor produzem efeitos generalizados e poderiam causar efeitos adversos ou tóxicos potencialmente graves, se o receptor desempenhasse funções importantes em vários tecidos. Alguns fármacos produzem efeitos por uma ação e geram efeitos no corpo inteiro. Como por exemplo a ação da lidocaína, um bloqueador do canal de Na+, que produz efeitos nos nervos periféricos, no coração e no sistema nervoso central (SNC), uma vez que os canais de Na+estão expressos em todos estes tecidos.Assim, a lidocaína produz efeitos anestésicos locais quando administrada por via tópica para evitar ou atenuar a dor, mas também pode produzir efeitos no coração e no SNC quando atinge a circulação sistêmica. Os agentes anti-infecciosos, como antibióticos, antivirais e fármacos para infecções parasitárias, atuam em receptores ou processos celulares que são essenciais para a proliferação e sobrevivência do agente infeccioso, mas que não são encontrados no hospedeiro. Um exemplo é a penicilina, que inibe uma enzima crucial para a síntese da parede celular das bactérias, uma enzima ausente em humanos e animais. No entanto, um problema significativo com muitos desses agentes é o desenvolvimento de resistência, que pode ocorrer rapidamente. Essa resistência pode ser causada pordiversos mecanismos, como: Mutação do receptor-alvo, que torna o fármaco ineficaz. Aumento da expressão de enzimas que degradam o fármaco. Efluxo do fármaco, que impede a acumulação do agente no interior da célula do patógeno. Desenvolvimento de vias bioquímicas alternativas que permitem que o agente infeccioso evite os efeitos do fármaco. Os receptores medeiam as ações de agonistas e antagonistas farmacológicos Os receptores desempenham um papel crucial nas ações de agonistas e antagonistas farmacológicos. Os agonistas são fármacos ou substâncias endógenas (como hormônios e neurotransmissores) que se ligam a receptores e ativam a sinalização celular, resultando em uma resposta biológica. Por outro lado, os antagonistas também se ligam a esses receptores, mas não ativam a geração de sinais. Em vez disso, eles interferem na capacidade dos agonistas de ativar os receptores. O efeito de um antagonista "puro" depende exclusivamente de sua capacidade de bloquear a ligação de agonistas e suas ações biológicas. Alguns antagonistas, além de impedir a ligação de agonistas, também suprimem a atividade constitutiva (sinalização basal) dos receptores, reduzindo ainda mais a atividade celular. Essa interação entre agonistas e antagonistas é fundamental para a regulação das funções fisiológicas no organismo e para o desenvolvimento de terapias farmacológicas. Muitos receptores farmacológicos são, de fato, proteínas que atuam como alvos para ligandos reguladores endógenos. Esses alvos são conhecidos como receptores fisiológicos e são especialmente seletivos, pois reconhecem e respondem de maneira específica a moléculas sinalizadoras que desempenham papeis importantes nas funções biológicas do organismo. Os fármacos que se ligam a esses receptores fisiológicos e simulam os efeitos das moléculas sinalizadoras endógenas são chamados de agonistas. Esses agonistas podem ser classificados em: Agonistas totais (ou plenos): Produzem uma resposta máxima ao se ligar ao receptor, ativando-o completamente. Agonistas parciais: Estes fármacos produzem uma resposta menor do que a máxima, independentemente da concentração utilizada. Eles ativam o receptor, mas não conseguem gerar o efeito total que um agonista pleno conseguiria. Alguns fármacos, chamados antagonistas, conseguem ocupar um receptor sem ativar seu mecanismo de sinalização, ou seja, têm afinidade pelo receptor, mas não apresentam eficácia. Esses fármacos bloqueiam ou reduzem a ação dos agonistas. O antagonismo pode ocorrer por vários mecanismos: 1. Antagonismo competitivo direto: O antagonista compete com o agonista pelo mesmo sítio de ligação do receptor. Isso resulta em um desvio da curva de dose-resposta do agonista, mas sem alterar a resposta máxima. O desvio é proporcional à concentração do antagonista e sua afinidade pelo receptor. 2. Antagonismo não competitivo: O antagonista se liga ao receptor, mas não compete diretamente pelo sítio do agonista. Ele pode dissociar-se lentamente, como no caso do anlodipino, um bloqueador do canal de Ca²+, que pode reduzir a resposta máxima ao agonista. 3. Antagonismo irreversível: O antagonista liga-se de forma permanente ao receptor, bloqueando sua ação de maneira duradoura. Ele compete pelo mesmo sítio que o agonista, mas sua ligação é irreversível. 4. Antagonismo alostérico: O antagonista se liga a um sítio diferente do receptor, alterando a afinidade do receptor pelo agonista, geralmente reduzindo essa afinidade. Isso também pode ocorrer de forma que um fármaco alostérico potencialize a ação do agonista, funcionando como um coagonista alostérico. A principal diferença entre antagonistas competitivos e não competitivos é que os competitivos diminuem a potência do agonista (necessitando de mais do agonista para alcançar a mesma resposta), enquanto os não competitivos diminuem a eficácia do agonista (reduzindo a resposta máxima que pode ser alcançada). Relação entre a dose e a resposta clínica do fármaco A relação entre a dose de um fármaco e a resposta clínica é crucial, pois a quantidade administrada determina o efeito observado. Uma dose abaixo de um limiar crítico não produz efeito, enquanto doses crescentes podem intensificar a resposta, resultando em uma relação dose-efeito. Contudo, essa relação pode variar entre indivíduos, onde a mesma dose pode causar diferentes intensidades de resposta devido a fatores como genética, idade e condições de saúde. A reatividade a um fármaco pode ser influenciada por doenças ou pela administração prévia do mesmo, uma vez que os receptores são dinâmicos e podem ser regulados por fatores endógenos e exógenos. Além disso, a eficácia e a segurança terapêuticas de um fármaco dependem da interação entre a variabilidade farmacodinâmica populacional e os determinantes farmacocinéticos, como função renal e hepática, ligação a proteínas plasmáticas e absorção gastrointestinal. Assim, o sucesso no tratamento envolve considerar tanto a eficácia do fármaco quanto as características individuais do paciente. A resposta farmacológica varia entre indivíduos devido a fatores ambientais, culturais e genéticos. A influência da raça, grupo étnico e sexo é significativa em medicamentos como antipsicóticos, antidepressivos e anti-hipertensivos. Fatores ambientais, como alcoolismo, dieta e estresse, afetam a farmacocinética dos fármacos; por exemplo, o uso de tabaco pode aumentar o metabolismo hepático. A desobediência ao regime terapêutico, frequentemente ligada a fatores culturais e psicossociais, também é um problema. Geneticamente, polimorfismos enzimáticos afetam o metabolismo de fármacos, mostrando variações entre grupos étnicos. O sexo influencia parâmetros farmacocinéticos, como absorção e volume de distribuição, com mulheres apresentando meia-vida de eliminação mais longa para muitos fármacos. Outros fatores, como ciclo menstrual e ritmos circadianos, também impactam a eficácia dos tratamentos. Estudos demonstram diferenças significativas na resposta a medicamentos entre homens e mulheres, o que deve ser considerado na prática clínica. Part� II Tipos de receptores: Os receptores desempenham várias funções cruciais na farmacologia: (a) reconhecem ligantes como neurotransmissores, hormônios e fármacos; (b) se acoplam a esses ligantes com alta afinidade; (c) atuam como transdutores, convertendo sinais extracelulares em intracelulares; (d) determinam a relação entre dose/concentração do fármaco e seus efeitos; (e) são responsáveis pela seletividade das ações dos fármacos; e (f) influenciam as ações de agonistas e antagonistas. A afinidade do receptor determina a concentração necessária para formar complexos ligante-receptor, enquanto o número total de receptores pode limitar o efeito máximo. Assim, a ativação e o bloqueio dos receptores são fundamentais para os efeitos clínicos dos fármacos. O local onde um fármaco se liga a uma proteína é chamado de domínio de ligação, enquanto a parte da molécula que desencadeia a resposta celular é o domínio efetor. Os sítios de ação podem ser extracelulares, como a ligação da heparina a proteínas de coagulação; intracelulares, como os anti-inflamatórios esteroides que se ligam a receptores citoplasmáticos; ou na superfície da membrana celular, onde muitos fármacos se acoplam a receptores. São 4 tipos de receptores: Os quatro tipos principais de receptores são: 1. Canais iônicos controlados por ligantes (receptores ionotrópicos): Proteínas de membrana com sítios de ligação extracelulares. Eles mediam respostas rápidas a neurotransmissores, como o receptor nicotínico da acetilcolina e receptores glutamatérgicos (NMDA). 2. Receptores acoplados a proteína G (GPCRs): Também conhecidos como receptores metabotrópicos, atravessam a membrana celular sete vezes e estão acoplados a proteínas G. São numerosos e incluem receptores para hormônios e neurotransmissores lentos, como o receptor muscarínico da acetilcolina e receptores adrenérgicos da epinefrina. 3. Receptores ligados a enzimas (receptores ligados a cinases): Família heterogêneade receptores de membrana que respondem principalmente a mediadores proteicos, como a insulina e citocinas. 4. Receptores intracelulares: Regulam a transcrição gênica e localizam-se no interior da célula. Ligantes como hormônios esteroides, hormônio da tireoide, ácido retinoico e vitamina D precisam penetrar na célula para interagir com esses receptores. destaque: Os receptores de canais iônicos transmembrana são alvos importantes para a ação de muitos fármacos, que podem mimetizar ou bloquear as ações de ligantes endógenos, como neurotransmissores, que regulam o fluxo de íons através da membrana plasmática. Ligantes como acetilcolina, serotonina, GABA, glicina, aspartato e glutamato atuam nesses receptores. Ao se ligar a esses canais, o ligante provoca a abertura do canal iônico, permitindo o fluxo de íons como sódio (Na+), potássio (K+), cálcio (Ca2+) ou cloreto (Cl-), o que altera o potencial elétrico da membrana. Por exemplo, a acetilcolina liga-se ao receptor nicotínico (nAChR), causando a abertura do canal e permitindo a entrada de Na+, gerando uma despolarização pós-sináptica. Já o GABA, ao se ligar ao seu receptor, aumenta o influxo de Cl-, hiperpolarizando o neurônio e inibindo sua excitabilidade. Existem também canais iônicos controlados por voltagem, que respondem às alterações no potencial de membrana e são alvos de fármacos como os anestésicos locais e o verapamil. Os anestésicos locais, por exemplo, inibem os canais de sódio controlados por voltagem, bloqueando a condução neuronal. O verapamil inibe os canais de cálcio controlados por voltagem, reduzindo a pressão arterial e agindo como um antiarrítmico, sem interagir com neurotransmissores. Esses canais podem ser regulados por mecanismos como fosforilação e endocitose, processos que também desempenham um papel importante na plasticidade sináptica, contribuindo para o aprendizado e a memória. Receptores transmembrana com atividade enzimática regulada alostericamente são proteínas que, ao se ligarem a um agonista no seu domínio extracelular, desencadeiam uma resposta intracelular. Essa classe de receptores está envolvida na sinalização de moléculas como insulina, EGF, PDGF, ANP e TGF-β. Eles possuem um domínio extracelular para a ligação do ligante e um domínio enzimático citoplasmático, conectados por um segmento hidrofóbico que atravessa a membrana plasmática. Um exemplo clássico é a via de sinalização dos receptores cinase, onde a ligação do ligante promove a aproximação dos domínios cinase adjacentes, ativando-os enzimaticamente para fosforilar proteínas sinalizadoras. Esse processo permite que um único tipo de receptor regule diferentes processos bioquímicos. Receptores acoplados à proteína G (GPCRs) são responsáveis pela sinalização de muitos ligantes extracelulares, aumentando a concentração de segundos mensageiros dentro das células. Este sistema de sinalização envolve três componentes principais: 1. Receptor de superfície celular: Detecta o ligante extracelular de maneira seletiva. 2. Proteína G: Após a ativação pelo receptor, a proteína G, localizada na face citoplasmática da membrana, liga-se ao GTP, ativando-se. 3. Elemento efetor: A proteína G ativada altera a atividade de um efetor, que pode ser uma enzima ou canal iônico. Para o AMPc, o efetor é a adenilil ciclase, que converte ATP em AMPc. A proteína G estimuladora (Gs) ativa a adenilil ciclase após ser estimulada por receptores específicos, como β-adrenoceptores, receptores de glucagon, tireotrofina, dopamina e serotonina. Isso leva a um aumento na produção de AMPc, que atua como segundo mensageiro para propagar a resposta celular. A proteína G correspondente, Gs(proteína G--estimuladora), estimula a adenilil ciclase depois de ser ativada por hormônios e neurotransmissores que atuam por meio de receptores específicos acoplados a Gs. Exemplos desses receptores: β-adrenoceptores, receptores de glucagon,receptores de tireotrofina e alguns subtipos de receptores de dopamina e serotonina. A proteína Gs, assim como outras proteínas G, se ativa ao se ligar ao GTP, o que permite que ela ative seus efetores, como a adenilil ciclase. Entretanto, essas proteínas G têm a capacidade de hidrolisar o GTP em GDP, um processo que eventualmente as inativa. No entanto, essa hidrólise ocorre de forma relativamente lenta, permitindo que a proteína G ativada tenha uma meia-vida mais longa na célula do que o próprio receptor ativado. Por exemplo, quando um neurotransmissor como a norepinefrina se liga ao seu receptor de membrana, essa interação pode durar apenas milissegundos. No entanto, a proteína Gs ligada ao GTP continua ativada por mais tempo, o que prolonga a ativação da adenilil ciclase. Isso resulta em uma amplificação do sinal original, uma vez que a duração da ativação da adenilil ciclase depende da longevidade da proteína Gs ativa, e não da afinidade do receptor pelo neurotransmissor. Esse mecanismo explica como a sinalização via proteínas G pode gerar o fenômeno dos receptores de reserva, onde apenas uma fração dos receptores precisa ser ativada para gerar uma resposta celular completa. A família das proteínas G é composta por diversas subfamílias, cada uma com funções específicas que mediam os efeitos de diferentes receptores e efetores. A classificação dessas proteínas G se baseia principalmente na estrutura e sequência da subunidade α. As três principais isoformas são: 1. **Gs: Estimula a adenilil ciclase, aumentando a produção de AMPc. 2. Gi: Inibe a adenilil ciclase, reduzindo os níveis de AMPc. 3. Gq: Ativa a fosfolipase C, que, por sua vez, aumenta a produção de inositol trifosfato (IP3) e diacilglicerol (DAG), promovendo a liberação de cálcio intracelular. Outras isoformas incluem: - Gt: Encontrada na rodopsina na retina, responsável pela transdução visual. - Go: Regula canais de cálcio. - Gk: Controla a atividade dos canais de potássio. O término da ação de um fármaco no receptor pode ocorrer de diversas maneiras. Nos sistemas de receptores acoplados à proteína G, por exemplo, o segundo mensageiro, como o AMPc, é degradado por fosfodiesterases, o que encerra a sinalização. Em outros casos, o efeito é interrompido pelo fechamento de canais iônicos abertos pelo receptor. Algumas vezes, o efeito do fármaco termina assim que ele se dissocia do receptor, mas em muitos casos, a ação pode continuar mesmo após a dissociação, devido à persistência de moléculas sinalizadoras ativas. No caso de fármacos que se ligam covalentemente ao receptor, o efeito pode perdurar até que o complexo ligante-receptor seja destruído e novos receptores sejam sintetizados. Assim, a duração do efeito depende tanto da natureza da ligação do fármaco ao receptor quanto dos mecanismos celulares que inativam os sinais subsequentes. A ligação de ligantes (ou "primeiros mensageiros") a muitos receptores na superfície celular provoca alterações rápidas e temporárias na concentração de moléculas sinalizadoras intracelulares, conhecidas como segundos mensageiros. Esses segundos mensageiros, de baixo peso molecular, modulam a atividade de outras proteínas intracelulares. Por exemplo, a adenilil ciclase, que é ativada pela proteína Gs e inibida pela proteína Gi, produz o segundo mensageiro AMPc (adenosina monofosfato cíclico). Já a proteína Gq ativa a fosfolipase C, gerando os segundos mensageiros diacilglicerol (DAG) e trifosfato de inositol (IP3). O AMPc e o DAG ativam diferentes proteínas-cinases dentro da célula, resultando em uma variedade de efeitos fisiológicos. O IP3, por sua vez, regula a concentração de cálcio livre no interior da célula e influencia a atividade de algumas proteínas-cinases, promovendo respostas celulares diversificadas. Os íons de cálcio (Ca²⁺) são um dos segundos mensageiros mais amplamente utilizados em praticamente todas as células. Outro mensageiro comum é o AMPc (adenosina monofosfato cíclico). O aumento de AMPc nas células eucarióticas ativa a proteína-cinase A (PKA), que fosforila proteínas-alvo, levando a mudanças no metabolismo celular.Além disso, o AMPc também pode regular a atividade de canais iônicos em algumas células. Nas vias de sinalização mediadas por receptores acoplados à proteína G, tanto o AMPc quanto os íons Ca²⁺ desempenham papéis cruciais na regulação de processos celulares e serão discutidos em detalhes mais adiante no capítulo. Esses segundos mensageiros são essenciais para amplificar e propagar os sinais iniciados por ligantes extracelulares. Os segundos mensageiros, como o Ca²⁺ e o AMPc, difundem-se rapidamente pelo citosol, mais rapidamente do que as proteínas. Isso os torna ideais para vias de sinalização onde o alvo está localizado em uma organela intracelular distante do receptor de membrana plasmática que gerou o sinal. Além de sua rápida difusão, uma das principais vantagens dos segundos mensageiros é a amplificação do sinal. A ativação de uma única molécula receptora na superfície celular pode levar ao aumento de milhares de moléculas de AMPc ou íons Ca²⁺ no citosol. Esses mensageiros, ao ativarem suas proteínas-alvo, amplificam o sinal, influenciando a atividade de muitas proteínas subsequentes na cascata de sinalização, resultando em uma resposta celular robusta. Monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) O monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) é um segundo mensageiro intracelular essencial, sintetizado pela enzima adenilil ciclase, cuja atividade é mediada pela subunidade α da proteína G estimulante (Gs) e inibida pela subunidade α da proteína G inibitória (Gi). O AMPc desempenha um papel crucial em diversas respostas hormonais, incluindo: - Mobilização de energia: Promove a quebra de carboidratos no fígado e triglicerídeos em adipócitos, estimulada por catecolaminas β-adrenomiméticas. - Conservação de água: Mediado pela vasopressina nos rins. - Homeostase do Ca²+: Regulada pelo paratormônio. - Função cardíaca: Aumenta a frequência e a força de contração do músculo cardíaco, também em resposta a catecolaminas. O AMPc regula a produção de esteroides suprarrenais e sexuais em resposta à corticotrofina ou ao hormônio folículo-estimulante, além de atuar no relaxamento de músculos lisos e em diversos processos endócrinos e neurais. Mecanismo de Ação O AMPc exerce seus efeitos principalmente através da ativação das proteínas-cinases dependentes de AMPc. Essas proteínas são compostas por um dímero regulador (R), que se liga ao AMPc, e duas cadeias catalíticas (C). Quando o AMPc se liga ao dímero R, as cadeias C ativas são liberadas e se difundem pelo citoplasma e núcleo, onde transferem grupos fosfato do ATP para proteínas-alvo, muitas vezes enzimas. A especificidade dos efeitos do AMPc é determinada pelos diferentes substratos proteicos das cinases, que variam entre os tipos celulares. Por exemplo, no fígado, a fosforilase cinase e a glicogênio sintetase são reguladas de forma recíproca pela fosforilação dependente de AMPc, controlando o armazenamento e a liberação de carboidratos. Terminação da Sinalização Quando o estímulo hormonal cessa, as ações do AMPc são rapidamente terminadas por fosfatases, que revertam a fosforilação dos substratos. Além disso, o AMPc é degradado em 5ʹ-AMP por diversas fosfodiesterases (PDEs). Por exemplo, a milrinona, um inibidor seletivo das PDE tipo 3, é utilizada como tratamento adjuvante na insuficiência cardíaca aguda, pois inibe a degradação do AMPc. Da mesma forma, a cafeína e a teofilina atuam como agentes farmacológicos que promovem efeitos benéficos ao inibir competitivamente a degradação do AMPc.