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Invasões e migrações germânicas Apresentação Durante muito tempo, a historiografia tratou o fim do Império Romano do Ocidente com uma ideia de "declínio" ou "queda", e atribuiu a responsabilidade aos "bárbaros", como eram chamados os povos germânicos. Contudo, novos estudos têm questionado o emprego desses termos, que, além de estereotipados e preconceituosos, trazem consigo uma visão de história linear e evolutiva. É inegável que a crise do século III da Era Cristã representou uma exacerbação de problemas estruturais do Império, e que as relações entre romanos e não romanos, que eram em grande parte pacíficas, tornaram-se mais tensas. Mas somente as migrações e as invasões não são suficientes para explicar o fim do Império Romano. Vamos aprender mais sobre isso? Nesta Unidade de Aprendizagem, você estudará a crise do Império Romano a partir do viés que leva em consideração os seus contatos com os povos não romanos, aprenderá que povos eram esses, como ocuparam o território europeu e quais relações estabeleciam com os romanos. Por fim, você conhecerá algumas características culturais dos povos germânicos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Relacionar o enfraquecimento do Império Romano com a expansão dos povos bárbaros.• Definir os povos bárbaros e as suas principais rotas migratórias pelo continente europeu.• Sintetizar as características culturais dos povos germânicos do período. • Infográfico As inovações historiográficas do século XX não significaram apenas a introdução de novas abordagens e novos temas na escrita da história: houve uma significativa revisão de conceitos que, segundo os historiadores, representavam preconceitos e projetos políticos dos momentos de sua elaboração mais do que possibilidades de análises de determinados períodos históricos. Veja, neste Infográfico, um exemplo por meio do conceito de "romanização", e como ele restringia a possibilidade de análise das relações culturais entre os romanos e os povos não romanos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/94237c23-0121-4212-a513-fb52e921fa48/711f3b16-fbad-48b8-811a-16f853c16b0f.png Conteúdo do Livro O Império Romano vivenciou uma crise estrutural no século III da Era Cristã, o que ocasionou a sua desagregação e a formação dos reinos germânicos. Contudo, antes da vivência dessa crise, romanos e povos não romanos estabeleceram relações comerciais e diplomáticas, além de travarem guerras. Assim, os contatos entre romanos e outros povos eram constantes, e as migrações ocorridas se deram em diferentes contextos ao longo do tempo. Vamos estudar mais sobre esse processo? No capítulo Invasões e migrações germânicas, da obra História Medieval, você estudará o processo de desintegração do Império Romano a partir das dificuldades encontradas no convívio e nas relações com os povos não romanos, aprenderá mais sobre quem eram esses povos, de onde vieram e onde se estabeleceram, e, por fim, verá como se deu a troca cultural entre romanos e germanos e de que maneira isso influenciou ambas as culturas. Boa leitura. HISTÓRIA MEDIEVAL Caroline Silveira Bauer Invasões e migrações germânicas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Relacionar o enfraquecimento do Império Romano com a expansão dos povos bárbaros. Definir os povos bárbaros e suas principais rotas migratórias pelo continente europeu. Sintetizar as características culturais dos povos germânicos do período. Introdução As crises no Império Romano e os movimentos dos povos germânicos, ocorridos nos primeiros séculos da Era Cristã, representaram mudanças significativas na Europa Ocidental. A partir de então, houve uma nova organização econômica, política e social, com a fusão entre elementos da cultura romana e aspectos culturais dos germanos, originando um novo mapa no Ocidente europeu. Neste capítulo, você vai estudar o fim do Império Romano do Oci- dente, ocorrido em 476, e conhecer algumas características dos povos germânicos. Para começar, você vai conhecer as crises internas e ex- ternas que o Império Romano atravessou desde o século III. Tais crises levaram à sua divisão, no ano de 395, em Império Romano do Oriente e Império Romano do Ocidente, que se desfez em 476. Além disso, você vai conhecer melhor os povos germânicos, chamados de “bárbaros” por alguns historiadores da Antiguidade, e o seu estabelecimento no território europeu. Por fim, você vai se familiarizar com alguns aspectos culturais dos germanos e ver de que forma eles se organizavam socialmente. Enfraquecimento do Império Romano e expansão dos povos bárbaros Os estudos dedicados às condições que levaram à dissolução do Império Ro- mano são muito variados. A historiografi a contemporânea enfatiza aspectos tanto internos quanto externos a esse processo. Além disso, procura romper com antigas expressões, tais como “declínio”, “decadência” ou “queda”, que transmitem uma ideia de progresso à trajetória das sociedades. O importante é você ter em conta que, durante a crise do século III, os romanos não se imaginavam vivendo o fim do Império: essa é uma visão retrospectiva dos historiadores. Percebe-se, sim, uma série de transformações que configuraram algumas das características das sociedades medievais, em um processo bastante lento. Na Figura 1, a seguir, você pode ver o Império Romano antes das grandes migrações. Figura 1. O Império Romano antes das grandes migrações. Fonte: Duby (2007, p. 52). Invasões e migrações germânicas2 Como você já viu, os historiadores procuram respostas para a dissolução do Império em diferentes aspectos. Alguns pesquisadores, enfatizando o viés político, afirmam que o problema residia na falta de regras para a sucessão dos imperadores, o que gerou um desequilíbrio de poder e uma crise estrutu- ral. Outros, por sua vez, assentam suas explicações nos fatores econômicos, ressaltando as mudanças na organização do trabalho (da escravidão para a servidão) como um indício de transformação social. Há ainda aqueles que assinalam os problemas entre a administração central e as províncias, do ponto de vista econômico e político (principalmente com a incorporação de alguns povos germânicos). Além disso, há os pesquisadores que afirmam que a difusão da cultura e das práticas cristãs foram responsáveis pelo enfraquecimento do Império, devido à assimilação que a população fez de valores tais como a humildade e a resignação. Por fim, existe uma corrente que interpreta o fim do Império a partir de aspectos militares, como a perda da capacidade de conquista e a incorporação dos “bárbaros” ao Exército. Embora as possibilidades interpretativas sejam várias, os historiadores parecem concordar que o período que se estende de 193 a 284, chamado de “crise do século III”, representa um ponto de inflexão na história do Império Romano. Essa “crise” foi, na verdade, um conjunto de crises estruturais e problemas inter-relacionados que levaram a transformações profundas e generalizadas: uma crescente influência da cultura germânica, uma tendência valorativa positiva à monarquia autocrática em detrimento da autoridade imperial e do Senado, um processo de ruralização, a expansão da cristandade, etc. Como afirma Machado (2015, p. 90–91), o século III foi “[...] um período caracterizado por problemas políticos (especialmente relativos à sucessão imperial), mas principalmente por guerras (civis e contra invasores) e a peste. Estes não são processos idênticos, mas que foram combinados e que levaram à formação de uma nova sociedade e ordenamento políticos [...]”. Aqui, você vai ver como se deu a pressão das tribos germânicas sobre as fronteiras do Império Romano. Contudo, lembre-se de que esse é apenas um dos aspectos de uma sociedade que estava em profunda transformação.A movimentação das tribos germânicas nas fronteiras romanas ocorria desde o período dos antoninos, ou seja, não era uma novidade no século III. Contudo, nesse período, houve um agravamento dessa relação. Isso ocorreu primeira- mente pela morte de Alexandre Severo, em 235, assassinado após a notícia de um possível acordo com os persas (o Império Sassânida, de origem persa, representava uma ameaça às províncias orientais). Outra causa foi a assimilação, por parte das tribos germânicas, de certos conhe- cimentos, práticas e valores romanos. Tais tribos passaram a se estabelecer próximo às fronteiras do Império para saqueá-lo ou por sobrevivência; assim, as invasões 3Invasões e migrações germânicas não eram mais circunstanciais ou esporádicas, mas frequentes, com liderança e motivações. Por fim, havia movimentos internos dos germanos, principalmente os orientais, que pressionavam territorialmente os ocidentais e, por consequência, as fronteiras do Império. Portanto, no século III, o império sofria pressões em sua fronteira com os germanos no norte e com o Império Sassânida ao leste. O Império Romano tinha sob seu controle um dos mais extensos domínios territoriais já conquistados, motivo pelo qual o exército ficava em primeiro plano, tendo peso decisivo na manutenção do poder instituído. “A partir do século III, assiste-se a um progressivo e inexorável processo de crise das estruturas imperiais, responsável pela fragmentação da unidade política romana, pelo desmembramento e desaparecimento definitivo do Império [...]” (MACEDO, 2006, p. 78–79). Para Macedo (2006), uma das causas está nas transformações ocorridas no recrutamento para o Exército e na possibilidade de germanos serem utilizados como guardiões de fronteiras. Veja: No princípio do século IV, as antigas formações militares (legiões e guarda preto- riana) foram praticamente dissolvidas e em seu lugar apareceram duas unidades militares específicas: as tropas de fronteira, colocadas em fortificações perma- nentes nos limes, isto é, nos limites do mundo romano, com a incumbência de protegê-los de eventuais invasões; e uma força tática móvel, colocada em posições estratégicas no interior do território imperial. A tais reformas corresponderam novas formas de recrutamento. As consequências econômico-financeiras da crise afetaram a estabilidade militar devido à dificuldade de remuneração dos soldados. No século IV, uma das formas de pagamento do serviço militar consistia na concessão de lotes de terra de fronteira a soldados regularmente recrutados e incorporados aos quadros do exército quando cumpriam seu tempo regular de serviço ao fim de 25 anos. Era uma maneira de assegurar a presença de pessoas capacitadas a defender as fronteiras em caso de ataque (MACEDO, 2006, p. 79). Portanto, as invasões que ocorrem no século V não são uma novidade para os romanos, mas se tornam um fator de enfraquecimento do poder imperial em função da crise do século III. Nesse sentido, é importante lembrar que, para um dos maiores especialistas em Idade Média, Le Goff (2016), as causas do fim do Império Romano são internas, não têm a ver com as invasões: A causa da catástrofe é interna. Foram os pecados dos romanos — inclusive cristãos — que destruíram o Império que seus vícios entregaram aos bárba- ros. Os romanos eram, de si mesmos, inimigos piores do que seus inimigos de fora, pois, embora os bárbaros já os tivessem arrasado, eles se destruíam ainda mais por si mesmos (LE GOFF, 2016, p. 21). Invasões e migrações germânicas4 Em outro trecho, o historiador reforça a questão da crise como maior fator explicativo: “A verdade é que os bárbaros foram favorecidos pela cumplicidade ativa ou passiva da massa da população romana. A estrutura social do Império Romano, em que as camadas populares eram cada vez mais esmagadas por uma minoria de ricos e poderosos, explica o sucesso das invasões bárbaras [...]” (LE GOFF, 2016, p. 22). Os povos bárbaros Quem eram esses “invasores”? No tópico anterior, você estudou o fi m do Império Romano do Ocidente a partir da presença dos povos germanos em seu território e em suas fronteiras. Contudo, também deve considerar a falsa dicotomia étnica existente entre romanos e não romanos. Veja: Os romanos e seus vizinhos, que viviam próximos ao limes, não possuíam di- ferenças muito consistentes em termos de identidade ou etnia, que a existência dicotômica entre romanos e bárbaros é uma criação moderna e que esta só se consolidara no discurso político, na tentativa de enaltecer a tradição clássica face ao constante crescimento do poder provinciano e estrangeiro. [...] Nesta óptica, as populações germânicas da antiguidade já não poderiam mais ser vistas como racialmente homogêneas, organizadas a partir de características étnicas de “matriz” germânica ou ariana, mas por tradições culturais — a crença em um determinado deus, um antepassado em comum, semelhanças linguísticas —, o que permitiria que estes grupos tivessem uma configuração poliétnica (SILVA; ALBUQUERQUE, 2015, p. 347). Os povos genericamente chamados de “germanos” são originários de um processo de imigração de tribos indo-europeias, provenientes da Europa Centro-Oriental, que atingem as penínsulas da Dinamarca e da Escandinávia entre 3000 a 2500 a.C. A partir do ano 2000 a.C., já haviam se expandido para a costa do mar Báltico e para o mar do Norte. Por volta do século VI a.C., ocupam a região do rio Reno e, quatro séculos depois, o rio Danúbio, tornando-se suas principais fronteiras políticas. 5Invasões e migrações germânicas A seguir, você vai conhecer melhor os reinos germânicos, formados a partir da política dos foederati (domínios relativamente independentes do Império). Você vai ver que a organização política, religiosa e social desses reinos em nada se assemelhava à condição de “barbárie”, termo pejorativo utilizado para lhes referenciar. O termo “bárbaros” é encontrado em crônicas romanas desde o século I a.C. e era utilizado para fazer referência a todos os povos que não falavam o latim, sem distinção entre celtas, eslavos, gauleses ou germanos. Considere o seguinte: [...] a denominação de “bárbaros”, no sentido moderno do termo, não era absolutamente justificada, porque os germanos, os persas, os árabes e os outros numerosos povos vizinhos do Império não podiam ser absolutamente reduzidos a hordas desorganizadas, selvagens e incontroláveis. Por outro lado, eles nunca haviam formado uma coalizão devotada a uma tarefa deliberada de destruição do Império Romano, como se isso fosse desejado por Deus. A diversidade geográfica das fronteiras era acompanhada por povoamentos variados, e ambições muito diferentes eram expressas pelos externi, “aqueles do mundo exterior” (LE ROUX, p. 2013, p. 86). Os primeiros contatos entre Roma e aqueles que foram chamados de “germa- nos” ocorreram no final do século II a.C. Pressionados por questões ambientais e pelo excesso populacional, os povos teutões e cimbros migraram para o sul e pressionaram as fronteiras de Roma no norte da Itália. Veja: Certamente aqueles tempos foram principalmente de confusão. Confusão sur- gida antes de tudo da própria mistura de invasores. Ao longo de seu trajeto, as tribos e os povos haviam se combatido, submetido uns aos outros, misturado. [...] Confusão acrescida pelo terror. Mesmo levando em conta os exageros, os relatos de massacres, de devastações, que abundam na literatura do século V, não deixam dúvida quanto às atrocidades e destruições que acompanharam os “passeios” dos povos bárbaros (LE GOFF, 2016, p. 26). Durante muito tempo, predominou a visão historiográfica segundo a qual as relações entre os romanos e germanos ocorrera apenas nos séculos IV e V, sendo marcadas por ataques e invasões violentas, já que o objetivo principal desses povos que viviam fora das fronteiras do Império era destruir e saquear. Contudo, há registros de relações comerciais e diplomáticas entre romanos e Invasões e migraçõesgermânicas6 não romanos. Assim, novas abordagens têm procurado desconstruir a visão das “[...] invasões bárbaras enquanto um fluxo de populações que irrompem violentamente no seio do Império de um momento para outro — e por momento entendemos o último quarto do século V — e que seriam responsáveis pelo esfacelamento da coesão imperial [...]” (SILVA, 2011, p. 4–5). Por exemplo, após a crise do século III, o Império Romano estabeleceu acordos para que os francos repovoassem a Gália e para que os ostrogodos se fixassem na Península Ibérica, em uma política chamada hospitalias (“hospita- lidade”). Tratou-se de uma estratégia para manter a integridade dos territórios e a soberania do Imperador nas províncias do Mediterrâneo. Ao mesmo tempo, tal estratégia possibilitou a fixação de alguns povos nômades no território. Posteriormente, alguns desses reinos foram elevados à condição de federados ao Império. Porém, a preocupação com as fronteiras e as possíveis invasões do território antecede e muito o século III: Durante o período republicano (509–27 a.C.), Roma sofreu uma série de ame- aças, sendo a mais famosa imposta por Breno, chefe gaulês da costa adriática da Itália, que em 387 a.C., invadiu e saqueou a cidade. No Principado, Augusto (63 a.C.–14 d.C.) manteve um interesse particular pela conquista da Germânia (atual Alemanha). Porém, a expansão é finalizada quando Armínio (16 ou 17 a.C.–21 d.C.), germano de nascimento, porém cidadão romano e treinado na arte da guerra pelos mesmos, aniquilou o exército comandado pelo cônsul Públio Varo (46 a.C.–9 d.C.), na Batalha da Floresta de Teutoburg. No segundo século da Era Cristã, o imperador Adriano (76–138) mandou erguer na Bretanha a Muralha de Adriano, com a intenção de deter os constantes invasores pictos (originários da Escócia) (CARLAN, 2010, p. 169). A historiografia contemporânea tem demonstrado a necessidade de se superar a dicotomia aliados versus inimigos para se considerarem as relações entre os povos romanos e não romanos. Nesse sentido, afirma-se que, em diferentes situações, essas relações poderiam ser “[...] de opositores militares, de refugiados, de povos assimilados, de povos assimilados que se rebelam, de contingentes militares integrados ao Império, de contingentes integrados ao exército imperial que novamente se insurgem [...]” (BARROS, 2009, p. 556–557). Na Figura 2, veja as migrações dos povos bárbaros. A seguir, veja uma descrição das principais rotas. 7Invasões e migrações germânicas Figura 2. Migrações dos povos bárbaros. Fonte: Mackay e Ditchburn (1997, p. 8). Anglo-saxões: compreendiam os anglos, os saxões, os jutos, os frísios e outros povos que se instalaram na foz do rio Reno. Alguns grupos, posteriormente, migraram para a ilha da Grã-Bretanha, no século V, dominando as populações celtas e criando reinos que perduraram até a invasão dos normandos (vikings) em 1066. Burgúndios: formaram um reino no início do século V, que foi destruído pelos hunos. Posteriormente, fundaram um novo reino, em 443, que foi destruído pelos francos aproximadamente um século depois. Francos: constituíram um dos mais poderosos reinos. Em 481, dominaram grande parte da Europa Central, na margem esquerda do rio Reno. Nessa mesma região, os hunos fizeram incursões contra o Império Romano. Ostrogodos: criaram na Itália um reino que congregou romanos e germanos. Em 553, foram conquistados pelo Império Bizantino. Suevos: estabeleceram, em 410, um reino na região da Galícia (norte de Portugal e noroeste da Espanha), tendo sido conquistados em 585 pelos visigodos. Vândalos: invadiram a Península Ibérica entre 407 e 409, tendo sido expulsos primeiramente pelos romanos, depois pelos visigodos. Ocu- param o norte da África em 429, fundando um poderoso reino. Invasões e migrações germânicas8 Visigodos: instalaram-se primeiramente na Gália e, em 409, partiram para a Península Ibérica, estabelecendo-se em 418. Foram conquistados pelos muçulmanos no século VII, migrando para a região dos Pirineus e colaborando com os francos. Novamente, note a diversidade de povos abarcados pelos termos “bárba- ros” e “germânicos”. Os caracteres que costumeiramente foram utilizados para distinguir os povos uns dos outros talvez não sejam suficientes para se estabelecer uma etnia e, por consequência, criar uma diferenciação tão grande dos romanos. Veja: Tal como os relatos dos gregos/romanos sobre as gentes barbarorum, língua, armas, roupas ou cabelos (cortes ou penteados) também não são sinais confi- áveis para identificar identidades étnicas estáveis. Isso não significa que não houvesse diferenças marcantes nos povos antigos, ou que essas projeções cul- turais — cabelo, língua, roupas, armas — não fossem relevantes, mas sim que elas eram muito fluidas e dinâmicas, e a supervalorização destas atende mais aos estereótipos do que à História (SILVA; ALBUQUERQUE, 2015, p. 352). Após o intenso movimento migratório ocorrido no século V, aos poucos as tribos germânicas foram se fixando num determinado local. Seus membros, por sua vez, foram se misturando aos romanos, ocorrendo uma fusão das duas culturas. Você vai estudar mais sobre isso no próximo tópico. A cultura dos povos germânicos Como você viu nos tópicos anteriores, diferentes povos foram reunidos por meio do termo “germânicos”. Hoje, há diferentes níveis de informações sobre tais povos. Como lembram Silva e Albuquerque (2015, p. 347), grande parte do que se sabe a respeito do mundo germânico deriva de “[...] uma construção ideológica alemã [...]”. Tal construção tem início com a “redescoberta dos escritos de Tácito no século XV, atingindo seu ápice no século XIX, quando as tendências políticas e intelectuais da época (romantismo, pan-germanismo, fi lologia, teoria da raça ariana, dentre outras) buscavam legitimar uma unifi cação do mundo nórdico”. A seguir, você vai ver algumas características desses povos, mas lembre-se de que é preciso estudá-los em suas singularidades e nas variações que ocorrem ao longo do tempo. Veja o que afirma Le Goff (2016, p. 25): 9Invasões e migrações germânicas Os bárbaros que se instalaram no Império Romano no século V não eram aqueles povos jovens, mas selvagens, recém-saídos de suas florestas ou de suas estepes, descritos por seus detratores da época ou seus admiradores modernos. Tinham evoluído muito com seus deslocamentos, muitas vezes seculares, que acabaram por lançá-los no mundo romano. Tinham visto muito, aprendido muito e incorpo- rado bastante. Seus caminhos os levaram a contatos com culturas e civilizações das quais absorveram costumes, artes e técnicas. Direta ou indiretamente, a maioria deles havia sofrido influência das culturas asiáticas, do mundo iraniano e do próprio mundo greco-romano, principalmente em sua parte oriental, que, em vias de tornar-se bizantina, continuava sendo a mais rica e mais brilhante. Aqueles povos que viviam mais próximos aos limes estabeleceram cons- tantes trocas com os romanos, apropriando-se de alguns de seus hábitos e práticas culturais. Esse estabelecimento dos povos nas fronteiras do Império deveu-se a um processo de assentamento de culturas que eram anteriormente nômades e viviam nas estepes e florestas. Tais povos dominavam técnicas de trabalho com o couro e a madeira, além da fundição de metais. Em seu processo de sedentarização, alguns desses povos permaneceram com suas práticas religiosas, com rituais animistas e de adoração à natureza, enquanto outros se converteram ao cristianismo ariano. Veja: Por um curioso acaso, que acarretou pesadas consequências, esses bárbaros convertidos — ostrogodos, visigodos, burgúndios, vândalos e, mais tarde, lombardos — o foram ao arianismo, que, depois do Concílio de Niceia, tornara- -se heresia. [...]. Assim, o que deveria ter sido um vínculo religioso foi, ao contrário, objeto de discórdia e gerou lutas acirradas entre bárbaros arianos e romanos católicos (LE GOFF, 2016, p. 24). Quantoao culto pagão, provavelmente havia cultos a rochas, bosques, árvo- res, fontes, etc. Não há indícios de grandes construções. Nos poucos locais de culto com edificações, estas eram utilizadas para “[..] alojar ex-votos, imagens de divindades (provavelmente muito singelas, a julgar pelos poucos exemplares indubitáveis achados) e objetos sagrados [...]” (CARDOSO, 2012, p. 10–11). Além disso, eram realizadas visitas individuais, não cerimônias coletivas. Em decorrência do processo de ruralização ocorrido durante o Medievo, há um predomínio da vida privada em detrimento da vida pública: Antes a alegria de viver estava nas ruas e nos grandes monumentos urbanos; agora se refugia nas casas e nas cabanas. Antes, com suas leis, tropas e edis, o Império se honrara em facilitar a vida pública como ideal de vida; agora, com os reinos germânicos, dilui-se o culto da urbanidade em proveito da vida privada. Para os recém-chegados, os germanos, quase tudo é de domínio privado (ROUCHE, 1900, p. 403). Invasões e migrações germânicas10 A cultura dos germanos era essencialmente rural, com atividades agrárias, mas com forte ênfase no pastoreiro. Dessa forma, a organização familiar tornou- -se muito importante para esses povos. As famílias agrupavam-se em tribos a partir de laços de solidariedade e, assim, criavam uma estabilidade. Daí decorre um traço importante da cultura germânica, a ideia de linhagem, formada pela herança dos antepassados, o que dá aceitação social e prestígio perante o grupo. As sociedades germânicas eram patriarcais, sendo o papel masculino decisivo para a organização familiar e matrimonial, bem como para a educa- ção dos filhos e as decisões políticas e militares, que ocorriam por meio dos comitatus. Alguns desses povos estruturaram formas de Estado com poder monárquico. Assim, o militarismo e a participação em guerras faziam parte da cultura dos povos germânicos. BARROS, J. D. Passagens de antiguidade Romana ao ocidente medieval: leituras his- toriográficas de um período limítrofe. História, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 547–574, 2009. CARDOSO, C. F. A interpenetração da cosmogonia religiosa com a história entre os escandinavos. Nearco, Rio de Janeiro, v. 1, ano v, n. 1, p. 8–19, 2012. CARLAN, C. U. História, cidades e fronteiras: o império romano e as Invasões. Mosaico, Goiânia, v. 3, n. 2, p. 169–177, 2010. DUBY, G. Atlas histórico mundial. Barcelona: Larousse, 2007. LE GOFF, J. A civilização do ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016. E-book. LE ROUX, P. Império Romano. Porto Alegre: L&PM, 2013. MACEDO, J. R. Conquistas bárbaras. In: MAGNOLI, D. (org.). História das guerras. São Paulo: Contexto, 2006. MACHADO, C. A. R. A antiguidade tardia, a queda do Império Romano e o debate sobre o “fim do mundo antigo”. Revista de História, São Paulo, n. 173, p. 81–114, 2015. MACKAY, A.; DITCHBURN, D. Atlas of medieval Europe. New York: Routledge, 1997. ROUCHE, M. 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Conheça, na Dica do Professor, um pouco mais sobre essa obra e sobre a sua importância para conhecermos a relação dos romanos com os povos não romanos, além dos cuidados que devemos ter com o etnocentrismo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/abe801ae21a5bbe39a72af793294ca84 Exercícios 1) O fim do Império Romano do Ocidente, em 476, foi consagrado pela historiografia como um marco para o término da História Antiga e início da Idade Média. Sabemos os problemas que as cronologias e as periodizações podem gerar para os historiadores, principalmente por sua artificialidade. Considerando a temática do fim do Império Romano, são feitas as seguintes afirmações: I – A adoção de 476 como marco da passagem da Antiguidade para o Medievo pode reforçar interpretações de “decadência”, “declínio” e “queda”, mais do que a desagregação de um Império e formação de outras estruturas econômicas e políticas a partir de práticas já existentes. II – É importante estabelecer um marco rígido para o fim da História Antiga, pois os reinos surgidos com a desagregação do Império Romano em nada conservaram a cultura romana. III – A data de 476 é importante para ser considerada como o início da Idade Média, pois foi nesse momento que a Igreja Católica passou a ser a instituição mais importante na Europa Ocidental e Oriental. Qual(is) está(ão) correta(s)? A) Apenas a I. B) Apenas a II. C) Apenas a III. D) Apenas a I e a II. E) Apenas a I e a III. 2) A crise do século III levou o Império Romano a modificar uma série de práticas e procedimentos em relação às suas fronteiras e ao ingresso no Exército como forma de proteção aos ataques realizados por alguns povos germanos. Assinale a alternativa correta em relação a essas modificações: Os romanos vendiam aos povos germanos postos dentro do Exército, o que permitia a eles o porte de espadas e lanças que, posteriormente, foram utilizadas nos motins dos povos não A) romanos contra o Império. B) Os romanos escravizaram os povos germanos e os obrigaram a construir uma longa muralha em torno de todas as fronteiras do Império, o que permitiu proteção e tranquilidade até a cidade de Roma ser conquistada. C) Os não romanos foram incorporados no Exército e certos povos foram incorporados ao território romano como federados para neutralizar o ataque de inimigos, cultivar terras e estabelecer relações comerciais. D) Os não romanos poderiam ser incorporados ao Império desde que se submetessem a um processo de aculturação e conversão ao catolicismo, condições indispensáveis para que recebessem terras e pudessem ingressar no Exército. E) A prática de cultivo de terras pelos povos não germanos não foi exitosa em função da incompatibilidade dessas culturas com as práticas agrícolas. Isso acarretou o agravamento da crise do século III. 3) As “invasões bárbaras” foram consideradas, durante muito tempo, como um dos elementos determinantes para o fim do Império Romano. Entretanto, novas abordagens historiográficasvêm questionando a responsabilidade dos contatos e conflitos entre romanos e não romanos na desagregação do Império Romano. Assinale nas alternativas a seguir V para as verdadeiras e F para as falsas. ( ) Os povos não romanos, chamados de “bárbaros”, trouxeram novas culturas e padrões de comportamento em seus contatos com os romanos. ( ) O termo “invasões” tem muito mais um sentido valorativo do que de explicação histórica, o que tem levado muitos historiadores a abandoná-lo em detrimento da ideia de “migrações”. ( ) Os contatos estabelecidos entre os romanos e os demais povos que viviam em torno do Império foram sempre belicosos, porque os povos não romanos não aceitavam a conversão ao catolicismo. ( ) As migrações de povos não romanos podem não ter contribuído diretamente para o fim do Império Romano, mas foram por meio desses movimentos que ocorreu uma disseminação de ideais selvagens e primitivas. A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: A) V – F – F – F. B) F – V – F – F. C) V – F – V – V. D) F – F – V – V. E) V – V – F – F. 4) A demografia e a etnografia são áreas que têm possibilitado um incremento nos estudos sobre a passagem da Antiguidade para a Idade Média, principalmente no que diz respeito ao fim do Império Romano e à formação dos reinos germânicos. A demografia tem demonstrado que os germanos não eram um contingente populacional muito volumoso. Quanto à etnografia, leia o trecho a seguir: “Assim sendo, não havia uma etnia romana, por mais que houvesse características que os tornassem semelhantes. Os bárbaros, de outra forma, eram uma categoria inventada, frutos de uma longa tradição etnográfica e discursiva do mundo clássico [...].” (GEARY, 2005, citado por SILVA; ALBUQUERQUE, 2015, p. 350) A partir da leitura do texto, assinale a alternativa correta sobre a etnia em relação aos bárbaros e aos romanos: A) Para os romanos, a ideia de conviver com os “bárbaros” era inadmissível, o que levou ao rechaço no estabelecimento de contatos e de trocas com esses povos frente à possibilidade de influências culturais. B) A tendência de se utilizar a nomenclatura “bárbaros” para os povos não romanos deve ser mantida pela historiografia, pois o termo não denota qualquer juízo de valor ou julgamento cultural em relação aos povos que são assim denominados. C) Enquanto os romanos tinham uma etnia bem específica, os povos não romanos eram muito variados, e foram agrupados na denominação de “bárbaros” apenas por viverem fora das fronteiras do Império. D) Procurou-se forjar uma homogeneidade étnica a partir dos termos “romanos” e “bárbaros” como forma de reforço de identidades, contudo, os dois grupos são marcados por uma quantidade muito variável de etnias. E) O termo “bárbaros” foi positivado pelos povos não romanos, que passaram a usar da destruição e da violência como métodos de interação com os romanos, reforçando as crenças preexistentes. 5) Após o século V, o Império Romano do Ocidente desintegrou-se e em seu lugar novos reinos começaram a se formar. Esses reinos tinham diferenças significativas entre si, principalmente em questões culturais, em função de características próprias dos povos que os conformaram e do contato estabelecido com os romanos. Sobre a cultura dos povos germanos, são feitas as seguintes afirmações: I – Os germanos, que habitavam não somente as fronteiras do Império, mas também vários de seus territórios, transferiram para essas terras algumas práticas econômicas, como o sistema de trocas e a exploração coletiva da terra. II – A guerra tinha uma importância muito grande para esses povos, que se organizavam de forma patriarcal e em grupos familiares, e por relações de confiança, lealdade e reciprocidade. III – Os germanos abandonaram os cultos pagãos e se converteram ao cristianismo, fator que facilitou as trocas estabelecidas com os romanos. Qual(is) está(ão) correta(s)? A) Apenas a I. B) Apenas a II. C) Apenas a I e a II. D) Apenas a II e a III. E) I, II e III. Na prática Nos últimos anos, as transformações no campo da história da historiografia têm possibilitado aos professores de história repensar os currículos, os conteúdos ministrados e as práticas docentes. Com a temática da Idade Média não tem sido diferente, ainda mais com as críticas provenientes de uma abordagem eurocêntrica e muito distante da realidade dos alunos. Contudo, os medievalistas são unânimes em afirmar a importância do estudo do medievo, desde que a partir de uma renovação. E se buscássemos na ocupação da Península Ibérica e na formação dos reinos da Espanha e de Portugal formas de conectar a colonização do Brasil com a Idade Média, seja em costumes ou práticas? Veja, Na Prática, como o trabalho com os povos que ocuparam essa região da Europa pode ser explorado e como os alunos podem aprender sobre a diversidade que caracterizou a formação dos reinos da Espanha e de Portugal. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/75ec788d-e8a5-44ff-bf4e-8c8890c79c3a/7b28b839-6665-4e86-9775-512f0ccbbf0f.png Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: O MUNDO ROMANO E AS INVASÕES GERMÂNICAS Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Invasões germânicas Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Fronteiras da Antiguidade: algumas leituras e discussões historiográficas sobre o período que medeia a Antiguidade e a Idade Média Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iii%20cnlf%2057.html https://www.historiadomundo.com.br/idade-antiga/invasoes-barbaras.htm#:~:text=As%20migra%C3%A7%C3%B5es%20germ%C3%A2nicas%20resultaram%20no,prevaleceram%20a%20partir%20da%20for%C3%A7a. https://seer.ufrgs.br/anos90/article/view/18928