Prévia do material em texto
1 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português 2 3 Sumário Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português A Construção Semântica nos Escritos em Português Relacionados ao Texto e à Argumentação Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Práticas de Leitura Semântica no Contexto Escolar e Cotidiano Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Referências CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO 5 . 18 19 28 29 41 42 52 4 Objetivos Definição Explicando Melhor Você Sabia? Acesse Resumindo Nota Importante Saiba Mais Reflita Atividades Testando Para o início do desenvolvimento de uma nova competência; Se houver necessidade de se apresentar um novo conceito; Algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; Curiosidades indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forma necessárias; Se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; Quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; Quando forem necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; As observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; Textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; Quando o desenvolvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas. 5 @faculdadelibano_ 1 Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português 6 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Capitulo 1 Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português A Construção Semântica nos Escritos em Português Relacionados ao Texto e à Argumentação Conforme Moretto e Wittke (2019), o texto é uma demonstração material da língua derivada da organização discursiva estabelecida por circunstâncias de comunicação, é também construído para proferir alguma coisa dentro de um evento social, sendo assim, o motivo de intertextualidade do conjunto de fatores que tornam um texto relevante para a situação confirma sua funcionalidade, dada a adaptação às necessidades atribuídas por uma determinada efetivação comunicativa, o que demonstra que a manifestação textual é, na verdade manifestação de linguagem. Sampaio (2019) considera o texto como uma unidade semântica que constitui sentido independentemente de sua extensão, em que as relações entre suas partes cooperam para esse processo. Desse modo, compreender essas relações, que são tanto lógicas quanto semânticas permite reconhecer propriamente a construção de sentido almejado na produção do texto. Objetivos Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como funciona a análise da construção semântica dos escritos em português relacionados ao texto e à argumentação. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! 7 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Os textos exibem uma forma de organização composicional de sua estrutura, na qual acontecem várias tipologias de sequências, entre as quais se destaca a argumentativa, explícita Capistrano Júnior, Elias e Lins (2017). “A argumentação é o exercício da formulação de ideias que se relaciona ao raciocínio, na produção textual e na fala” (KOBS, 2012, p. 11). Mas como podemos saber o que é um texto na prática? Para Dietzsch (2005) na era da informação tudo é texto, podendo apresentar-se em um slogan político ou publicitário, um anúncio visual sem nenhuma palavra, uma canção, um filme, um gráfico, um discurso oral que nunca foi escrito, enfim, as mais diversas composições organizadas para informar, comunicar, veicular sentidos são textos. Nota Cada texto proporciona um nível de informatividade que deve estimular ou não o interesse de seu destinatário (MORETTO; WITTKE, 2019). FIGURA 1 Tudo é texto FONTE Pixabay Pauliuronis (2013) afirma que segundo os conceitos de uma semântica discursiva argumentativa, não existem textos inocentes, pois todos dividem uma intencionalidade, 8 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 cuja decifração deriva do reconhecimento de diversos fatores determinantes: o contexto extralinguístico, o contrato comunicativo que prevalece entre os parceiros, suas identidades sociais, as marcas linguísticas, “intencionais” ou não, deixadas pelo autor no texto, além da noção básica de gênero textual e formas de organização de discurso. Moretto e Wittke (2019) explicam que a textualidade é estabelecida mediante os processos semânticos e as atividades comunicativas entre os interlocutores, ou seja, a textualidade envolve as condições situadas no texto e situadas no usuário, portanto verifica-las de uma sequência enunciativa materializada, exige compreender a relação entre os elementos linguísticos e não linguísticos. Essa perspectiva do texto como fruto de um processo de construção interativa e intencional entre um emissor e um real ou virtual receptor, que se executa sempre através da composição de elementos linguísticos e não linguísticos, não é frequente nos nossos manuais didáticos e também não nas práticas interpretativas que possuem como foco os elementos constitutivos da gramática, de acordo com Pauliuronis (2013). Para a autora, se produzir um texto é, de acordo com os conceitos das teorias discursivas, agir argumentativamente, podemos adicionar que interpretá-lo é reconhecer, desmontar essa atividade e construir outra, processo do qual sempre resulta em uma unidade textual diferente. Desse modo, ela explica que decifrar um texto é compreender um dos sentidos possíveis para o qual os operadores ou as marcas argumentativas direcionam o raciocínio do leitor. Importante Argumentar tem relação com um desejo de fazer crer ou de fazer agir o interlocutor e esse desejo se consegue por meio detextos, falados ou escritos. (CAPISTRANO JÚNIOR; ELIAS; LINS, 2017). 9 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 A união entre as partes do texto constitui não exclusivamente um vínculo presente na superfície do texto, mas uma relação entre conceitos, tratando-se da ordem de uma relação não somente no nível sintático, mas no nível semântico, fatores que causam influência para a continuidade textual esclarece Moretto e Wittkel (2019). De acordo com a Teoria da Argumentação na língua proposta por Ducrot, na construção de um texto, a escolha de cada palavra tem efeito sobre as demais, isto é, nada pode ser aleatório no texto, pois todos os elementos que compõem a textualidade concorrem juntos para a construção de sentidos orientando argumentativamente em determinada direção, descreve Capistrano Júnior, Elias e Lins (2017). Por isso deve-se observar bem o que se está inserindo em um texto, Importante A argumentação é o que constitui o verdadeiro encadeamento de sentido, ela prepara a estrutura semântica em uma determinada criação (ABRAHÃO, 2008). FIGURA 2 União entre as partes do texto FONTE Pixabay 10 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Dentro da Teoria da Argumentação na língua de Ducrot uma fase merece destaque é a que trata da Teoria dos Blocos Semânticos, que, segundo Costa (2013, p. 26), “se sustenta na ideia de que os sentidossão produzidos na relação que ocorre entre os encadeamentos argumentativos”. A Teoria do Blocos semânticos, conforme Pereira e Guaresi (2012), tem início a partir do princípio de que o sentido está situado na língua, nos fatores linguísticos próprios ao texto, de modo que esses aspectos devem ser os primeiros a serem considerados na leitura, afirma ainda, que todo texto é argumentativo, por isso, para o seu estudo, são criados encadeamentos argumentativos que são responsáveis pela compreensão do sentido no texto. Mas, você sabe o que são encadeamentos argumentativos? Um encadeamento argumentativo é “qualquer sequência de dois segmentos que são, de certo modo, dependentes” (CAREL, 2005, p.80). Costa (2013) complementa afirmando que os dois segmentos que constituem o encadeamento não podem ser entendidos de forma isolada, mas sim a partir da relação singular que preserva um com o outro. Nota A teoria da argumentação na língua estabelece que um enunciado diz para o ouvinte procurar no mundo os sentidos colocados pela fala, respeitando a semântica produzida no texto, nesse caso, o próprio texto produzido pela fala, informa Abrahão (2008). Importante Os encadeamentos argumentativos encontram-se como sustentação de qualquer construção semântica, cita Carel (2012). 11 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Pereira e Guaresi (2012) explicam que um encadeamento argumentativo é formado por um primeiro segmento chamado de ‘suporte’ e um segundo chamado de ‘aporte’, ligados por um conector, e este conector pode acontecer de duas formas: • Uma normativa – representada por donc (DC). • Uma transgressiva – representada por pourtant (PT). Os encadeamentos possuirão uma interdependência semântica, isto é, o sentido estabelecido por esses encadeamentos necessita possuir a mesma significação independente dos conectores usados, explica Pereira e Guaresi (2012). Observe o seguinte exemplo citado por Pereira e Guaresi (2012): Pedro é feliz. Ele tem muito dinheiro. Nesta situação verificamos o seguinte encadeamento argumentativo: dinheiro DC felicidade, no qual se encontra o dinheiro como o suporte e a felicidade como aporte. Pereira e Guaresi (2012, p. 177) informam que esta situação “criaria um bloco semântico em que a ideia de felicidade está condicionada, isto é, para ser feliz é preciso ter dinheiro”. FIGURA 1 Carteira de trabalho FONTE Freepik 12 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Partindo dessa mesma situação, ainda podemos identificar outros encadeamentos que seriam: ‘neg-dinheiro PT felicidade’, ‘dinheiro PT neg-felicidade’ e ainda ‘neg-dinheiro DC neg-felicidade’. Demonstrando, assim que a negação de um ou de ambos os segmentos é parte essencial na construção dos blocos semânticos, pois se temos apenas uma negação, teremos o sentido transgressivo, mas se os dois segmentos forem negados voltaremos a ter o segmento normativo, esclarece Pereira e Guaresi (2012). Dessa forma, Costa (2013) explana que fica perceptível que a interdependência semântica acaba fazendo com que o sentido de cada um dos segmentos seja concedido através da relação com o outro segmento do encadeamento, portanto, o sentido de cada um dos segmentos é influenciado pela relação dos dois. A Teoria dos Blocos Semânticos ainda diferencia, segundo Carel (2012), duas formas de associações entre um vocábulo e os aspectos argumentativos que este significa, estando relacionadas ao estudo das frases sintáticas e devendo acontecer por causa da conexão que existe entre os enunciados e as entidades semânticas que tanto podem ser internas quanto externas. Vejamos como são essas argumentações: A argumentação interna, conforme Carel (2005, p. 64) “está constituída por um certo número de aspectos os quais pertencem os encadeamentos que parafraseiam essa entidade”, isto é, a argumentação interna se refere às paráfrases que poderão ser produzidas diante de um elemento lexical. Já as argumentações externas apresentam chances de ligação de uma certa entidade. Conforme Carel (2005), as argumentações externas são estruturais e constituem-se à significação linguística de uma entidade. Importante Os encadeamentos exprimem de maneira argumentativa o que está contido no texto. 13 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 A autora exemplifica com a situação de: “Pedro é prudente, portanto não terá acidente” e “Pedro é prudente, portanto estará seguro”, assim, prudente DC segurança/prudente PT segurança, demonstrando dessa forma que os dois aspectos fazem parte da significação de “prudente” pelo fato de que essa palavra está vinculada à “segurança” por um DC e por Neg-segurança por um PT. Partindo destas informações iremos analisar uma parábola chamada de “Parábola do Bom Samaritano”, segundo Andersen (2006, p.13) na qual explica que as parábolas são uma comparação produzida em pequeno conto em que se manifesta uma verdade, um ensinamento. Saiba Mais Aprofunde-se mais nesse tema lendo o artigo A argumentação na língua como subsídio para avaliação de leitura e produção de textos dissertativo-argumentativos, disponível aqui. http://www.revistas.usp.br/ linhadagua/ article/view/119698/147258 FIGURA 4 Um ensinamento FONTE Pixabay http://www.revistas.usp.br/linhadagua/ article/view/119698/147258 http://www.revistas.usp.br/linhadagua/ article/view/119698/147258 14 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Vamos observar o texto extraído do trabalho de Elenice Andersen, intitulado Fábulas e parábolas: um esboço para a interpretação de textos à luz da Teoria dos Blocos Semânticos, com publicação em 2006: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele, e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando- se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu te pagarei quando voltar (ANDERSEN, 2006, s. p.). Andersen (2006) inicia explicando sobre o enunciado que se introduz “Descia um homem de Jerusalém para Jericó”, no qual é acionado um discurso em donc: “O homem vinha de Jerusalém DC era judeu”. Os enunciados seguintes “e caiu nas mãos dos salteadores”, “os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram” e “deixando-o meio morto” têm a função de organizar o discurso para a argumentação a ser defendida. Eles sintetizam encadeamentos em donc que colaboram para o desenvolvimento da narrativa: O homem caiu nas mãos dos salteadores DC precisa de ajuda. O homem foi despojado DC precisa de ajuda. E, enfim: O homem ficou meio morto DC precisa de ajuda. Na ordem, o texto traz uma série de três personagens apresentando a atitude de cada uma relacionada ao judeu ferido. Nesta ocasião, é interessante ressaltar que cada personagem é identificada particularmente por uma palavra que existe na sua argumentação interna um encadeamento do tipo normativo, esclarece Andersen (2006). 15 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Na primeira situação, é interior à palavra ‘sacerdote’ o encadeamento é um ministrode Deus DC ajudará o ferido. Na segunda, também é interior à palavra ‘levita’ um encadeamento emdonc: é um servo de Deus DC ajudará o ferido. Essas argumentações internas são corroboradas, nas duas situações, pela oração “descia pelo mesmo caminho”. Agora, essa oração mostra que o sacerdote e o levita desciam de Jerusalém para Jericó e, assim, também eram judeus, elucida Andersen (2006). Efetivamente, a oração guia o discurso para o encadeamento normativo o sacerdote e o levita são judeus DC ajudarão outro judeu. No entanto, esses encadeamentos que são esperados por possuírem vinculação à norma são contrariados no transcorrer de cada passagem do texto. Os enunciados “vendo-o [o sacerdote] passou de largo” e “vendo-o [o levita] passou de largo” iniciam discursos em pourtant: era um sacerdote PT não ajudou o homem ferido, era um levita PT não ajudou o homem ferido e eram judeus [sacerdote e levita] PT não ajudaram um irmão da mesma pátria, explana Andersen (2006). Em seguida, Andersen (2006) explica que é colocado um enunciado que mostra a próxima personagem descrita como samaritano. A língua tem como uma das explicações possíveis para essa palavra o discurso é samaritano DC desprezado pelos judeus que, pelo contexto, dirige para o discurso normativo é samaritano DC não ajudará o judeu ferido. Contudo, essa norma é corroborada pelos enunciados finais, tais como, “chegou ao pé dele, e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão”, “E, aproximando- se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho” e “E, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro” que terminam esta interpretação: é um samaritano PT ajudou o judeu ferido. 16 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Merece destaque, também, que o realce a essa interpretação é permitida pela oração referente “que ia de viagem”. Essa oração não possui um valor simplesmente descritivo, mas está exercendo um papel argumentativo, ilustra Andersen (2006). A autora ainda afirma que através dessa expressão, tem-se fortificada a ideia de que a personagem não era um judeu: descia de Jerusalém para Jericó PT estava de viagem. O caráter distintivo que o texto constitui entre o bloco esperado e o bloco que se estabelece de maneira efetiva deve ser citado. Perceba que o léxico utilizado para descrever as personagens, pelo uso trivial na língua, leva à espera de discursos emdonc: sacerdote DC ajuda, levita DC ajuda, samaritano DC não-ajuda. Não inocentemente, esses três discursos sofrem transgressão à norma no transcorrer do texto: sacerdote PT não- ajuda, levita PT não-ajuda, samaritano PT ajuda. Dessa forma, podemos perceber como funciona a Teoria dos Blocos Semânticos analisando textos e observando a compatibilidade efetiva desta teoria empregando sentidos que fogem ao falante comum. FIGURA 5 Ajudou o judeu ferido FONTE Pixabay 17 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português Capitulo 1 Resumindo E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Neste capítulo você deve ter compreendido que o texto é considerado uma unidade semântica que constitui sentido independentemente de sua extensão e compreender as relações lógicas e semânticas permitem reconhecer a construção do sentido almejado na produção do texto e que a união entre as partes do texto constitui uma relação entre conceitos tratando-se da organização de uma relação no nível sintático e no nível semântico. Viu também que dentro da Teoria da Argumentação na língua existe uma fase que trata da Teoria dos Blocos Semânticos, no qual os sentidos são produzidos na relação existente entre os encadeamentos argumentativos e que existem dois tipos de conectores, os normativos representados pelo donc (DC) e os transgressivos representados pelo pourtant (PT), como também existe a argumentação interna e a argumentação externa. Por fim, você observou uma análise de uma parábola realizada com a Teoria dos Blocos semânticos. 18 @faculdadelibano_ 2 Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor 19 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Capitulo 2 Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa O estudo da Semântica é fundamental para uma eficiente compreensão dos sentidos e significados que as expressões podem assumir em um contexto, seja ela com alterações ocorridas como o tempo, ou com o enriquecimento da língua. Para Chierchia (2003, p. 7), a Semântica é entendida como “o estudo do significado das expressões das línguas naturais”. Os significados das palavras e sentenças em uma língua podem ser apresentados como um elemento do conhecimento do falante daquele idioma. Os falantes nativos da língua são a fonte primária da informação sobre o significado, contudo, o estudante de Semântica, ou até mesmo o professor de Semântica pode saber descrever muito bem o significado de uma forma geral, mas não possui vantagem alguma sobre qualquer falante nativo de uma determinada língua quando falamos em acesso aos elementos básicos referentes ao significado, esclarece Hurford e Heasley (2004). Objetivos Neste capítulo, você compreenderá a introdução dos fundamentos da semântica no processo de formação do leitor e sua importância para uma boa compreensão das sentenças.. 20 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 De acordo com Macedo (2013), o significado é importante para os estudos gramaticais, especialmente se o estudo estiver situado no nível da frase, pois não se pode construir uma gramática sem levar em consideração o seu significado. Dessa forma, para que o leitor compreenda as expressões existentes em um determinado texto, ele deverá compreender também o significado das sentenças das línguas naturais, ou seja, da Semântica. Hurford e Heasley (2004, p. 33) entendem por sentença como sendo uma “série completa de palavras do ponto de vista gramatical, que expressa um pensamento completo”. Nota Não é papel da semântica determinar modelos de autocorreção, indicar que significados as palavras devam apresentar, ou como devam ser usadas. (HURFORD; HEASLEY 2004). Importante Espera-se que o aluno leia textos cujo assunto e forma já sejam conhecidos por ele, conseguindo resgatar o seu significado e compreender a ideia global. (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997). Azeredo (2010) esclarece que uma sequência de frases só pode construir um texto se elas estiverem estruturadas de forma coerente e coesa. Coerência e coesão são aspectos de um mesmo princípio organizador, chamado de integração, graças ao qual a sequência de frases que integram o texto se espalha e se estrutura como uma combinação aceitável (possível) de conteúdo. Se esse princípio é violado, cria-se uma combinação incoerente de conteúdo. 21 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 Marcuschi (2012, p. 69) ilustra que “esses fatores dão conta da estruturação da sequência superficial do texto; não são simplesmente princípios sintáticos e sim uma espécie de semântica da sintaxe textual”. Mas como podemos compreender as expressões em uma determinada leitura? Foucambert (1998) propõe o modelo interacionista no qual: Coloca, portanto, como hipótese, que a compreensão não é produto da atividade de leitura, mas a atividade em si, pela qual se operam a construção dos conteúdos semânticos e a abordagem das unidades gráficas. A compreensão é, nesse caso, um processo, não um resultado; é o processo de questionamento recíproco de um papel gráfico dos olhos. O resultado é a significaçãoatribuída ao texto, a mudança que o texto provocou nas representações do leitor (FOUCAMBERT, 1998, p. 120). Para Barbosa (2006, p. 415), esse modelo interacionista leva a reflexão para três posições importantes que são a de que “a compreensão não é produto da atividade de ler; a compreensão é um processo; e a significação atribuída ao texto é o resultado do processo de compreensão”, ou seja, de um processo recíproco de perguntas e respostas entre um acúmulo pessoal de conhecimentos e um acúmulo gráfico-semântico ao que tudo indica estático pela linguagem escrita sobre um suporte. FIGURA 6 Processo de compreensão FONTE Pixabay 22 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 Barbosa (2006) ainda explica que a compreensão não é um produto, pois é um propósito em que o leitor parte ao elaborar, em suas relações históricas, culturais e sociais, concepções interrogativas, mesmo que tracejadas, com a esperança de encontrar respostas, sólidas ou não. No decorrer do processo de compreensão, estabelecido pela conduta do leitor na sua comunicação com o texto, as elaborações encontram respostas pouco claras, mas que acabam causando novos traços de elaborações à procura de novas respostas devido a sua própria natureza. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), faz-se necessário que no processo de ensino e aprendizagem, sejam averiguadas: • A aprendizagem de metodologias que esteja apta a dar prioridade a construção de estratégias de verificação e comprovação de hipóteses na construção do conhecimento. • A construção de argumentação capaz de ter controle dos resultados desse processo. • O desenvolvimento do espírito crítico capaz de favorecer a criatividade, a compreensão dos limites e alcances lógicos das explicações propostas. A compreensão é suporte, é processo, é intenção que são procedimentos constituintes da ação de ler, e criadores de produtores de um objeto imaterial, existente nessa relação efêmera entre o leitor e o texto a que se dá o nome de ‘leitura’. A leitura, assim compreendida, não estaria fora do sujeito, materializada nos livros ou em qualquer outro material impresso, mas sim, na relação do homem com o mundo do Importante A leitura entendida dessa forma, não se representa como material estático para ser adquirido ou estimulado ou ensinado, mas um conjunto de dados, procedimentos, elaboraçõesmentais, diálogos construídos e desconstruídos (BARBOSA, 2006). 23 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 impresso. Virtual e imaterial, é criada pela intenção que tem o leitor por compreender e se transforma ao transformar o próprio modo de pensar e de organizar o conhecimento desse leitor. O processo de ler não atingiria o seu ponto quando ele atribui, no limite do seu conhecimento e de suas capacidades, sentido no texto, mas quando transforma o pensamento e o modo de pensar do leitor, porque, se assim, não fosse, de pouco serviria aprender e saber ler, ilustra Barbosa (2006). Capello et. al. (2008) descreve que existem diferentes pontos de vista que operam no processo de formação de leitores. Assim, podemos observar que o contexto local e as experiências prévias desempenham um papel fundamental na construção do leitor. Através destes princípios, constata-se, então, que os sujeitos-leitores “se formam”, a partir dessa realidade local, que é múltipla, heterogênea e rica. Para os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), o trabalho com leitura tem como propósito a formação de leitores competentes e, por conseguinte, a formação de escritores, pois a possibilidade de construir textos eficazes se origina na prática de leitura, ambiente de construção da intertextualidade e fonte de referências modalizadoras. FIGURA 7 Transforma o pensamento FONTE Pixabay 24 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 As primeiras experiências de relação com o mundo da literatura geralmente acontecem nos contextos familiares, por adultos leitores do mundo e da palavra que através das suas narrativas mágicas e repletas de encantamento, fornecem ao leitor iniciante o livro e a literatura como “passaportes, bilhetes de partida”, lembra Capello et. al. (2008). E a escola, qual a importância dela para a leitura? A escola, entre outros espaços educativos formais e informais, realiza uma função privilegiada no processo de formação de futuros leitores, pois como instituição dedicada ao mundo das letras, que vincula as diferentes áreas do conhecimento, a escola adota o papel de transmitir as primeiras marcas experienciais que descrevem o perfil de futuros leitores, informa Capello (2008). Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), a relação estabelecida entre a leitura e a escrita, entre o papel de leitor e de escritor, não é mecânica, pois alguém que lê muito não é, automaticamente, alguém que escreve bem. Pode-se dizer que existe uma grande possibilidade de que assim seja. Dessa forma, é nessa situação, considerando que o ensino deve ter como finalidade formar leitores, que sejam também capazes de produzir textos coerentes, coesos, adequados e ortograficamente escritos, que a relação entre essas duas atividades deve ser compreendida. Nota A leitura, por um lado, nos fornece a matéria-prima para a escrita, ou seja, o que escrever e por outro, auxilia para a construção de modelos, como escrever (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997). 25 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 Formar um leitor competente pressupõe formar alguém que compreenda aquilo que está lendo; que possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos implícitos; que estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos; que saiba que vários sentidos podem ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos explícita os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997). Para que se alcance esses resultados, os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) descrevem que é preciso ofertar aos alunos inúmeras oportunidades de aprenderem a ler utilizando as ferramentas que os bons leitores utilizam. É indispensável que antecipem, que façam inferências a partir do contexto ou do conhecimento prévio que são donos, que examinem suas suposições, tanto em relação à escrita, propriamente dita, quanto ao significado. FIGURA 8 Produzir textos FONTE Pixabay Saiba Mais Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso ao artigo Texto como discurso: a formação do leitor crítico, disponível aqui. http:// seer.upf.br/index.php/rd/article/ view/3532. http://seer.upf.br/index.php/rd/article/ view/3532. http://seer.upf.br/index.php/rd/article/ view/3532. 26 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 Lima (2008) esclarece que o campo semântico aborda vocábulos dentro do texto e compreende uma série de palavras que apresentam em si uma relação significativa ou nocional. As palavras englobadas referem-se a uma ou outra que lhes dá a ideia comum com certas características que lhe são específicas. Por isso a Semântica se apresenta com tanta importância, você percebe? Dessa forma, Macedo (2013) explica que o clarão que a Semântica lança sobre assuntos que parecem à primeira vista, confusos tem uma importância didática que não pode de alguma forma ser ignorada, pois ela presta uma contribuição valiosíssima ao ensino da Língua Portuguesa. Lima (2008) considera que a maior importância da Semântica estána diferenciação entre sinônimos e antônimos e entre homônimos, parônimos e palavras polissêmicas. FIGURA 9 Palavras dentro do texto FONTE Pixabay Importante Existem outros pontos que possuem grande relevância no estudo da Semântica, como no caso da metáfora, da ambiguidade, da implicatura, da pressuposição e das teorias dos Atos da Fala, por exemplo. Conhecer esses elementos e saber identificá-los no texto é de fundamental importância para a compreensão do seu significado. 27 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Capitulo 2 Halliday (1994) afirma que o que colabora para que os textos sejam capazes de manifestar ou não seus significados, realizando padrões semânticos para proporcionar a interação e comunicação entre os indivíduos, estaria essencialmente na implicação entre discurso e gramática, ainda que, no seu entendimento, qualquer análise do discurso deva representar as relações gramaticais a fim de não passar de um comentário aleatório. Resumindo Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a Semântica estuda o significado das sentenças das línguas naturais, deste modo, para que o leitor compreenda as expressões existentes em um determinado texto ele deverá ter esse conhecimento, por isso que compreender as relações tanto lógicas quanto semânticas, permite reconhecer a construção do sentido almejado na construção do texto, como também, o modelo interacionista na qual a compreensão é a atividade em si, pela qual se operam a construção dos conteúdos semânticos e a abordagem das unidades gráficas, sendo o resultado da significação atribuída ao texto, ou seja, a mudança que o texto provocou nas representações do leitor. Viu também que o contexto local e as experiências prévias desempenham um papel fundamental na construção do leitor e que formá- lo de maneira competente pressupõe formar alguém que compreenda aquilo que está lendo, assim como é indispensável que antecipem e examinem suas suposições tanto em relação à escrita quanto ao significado. Por fim, você entendeu que o campo semântico aborda as palavras que apresentam em si uma relação significativa ou nocional e que o conhecimento de sinônimos, antônimos, homônimos, parônimos, polissemia, metáfora, ambiguidade, pressuposição, teoria das falas possuem grande relevância para a compreensão do significado e para a formação do leitor. 28 @faculdadelibano_ 3 Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano 29 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Capitulo 3 Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Práticas de Leitura Semântica no Contexto Escolar e Cotidiano De acordo com Yunes (2002), os antigos etimologistas diziam que alguém só poderia ter conhecimento de fato sobre um objeto, uma pessoa ou uma noção abstrata se esse alguém apresentasse domínio do nome daquilo que almejava conhecer. Para a autora, Yunes (2002, p. 69), “a base etimológica da palavra leitura é o verbo ler”. Assim, a leitura significa o ato de ler. Mas o que é “ler”? Você já se questionou sobre isso? Segundo Lauriti e Molinari (2013), ler não é apenas decifrar fonemas e sílabas, falando-as em voz alta, mas conceder um significado a um conjunto de letras que já são conhecidas do leitor. Devido a esse entendimento de leitura inadequado, a escola vem formando grande quantidade de leitores capazes de decifrar qualquer texto, mas com enormes dificuldades para compreender o que tentam ler. Objetivos Neste capítulo, você irá identificar práticas de leitura semântica no contexto cotidiano e escolar observando a importância do significado para a compreensão da leitura.. 30 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Para Marcuschi (2008) os efeitos de sentido são determinados pelos leitores ou ouvintes nas associações com os textos, de maneira que as compreensões daí resultantes são obra do trabalho conjunto entre produtores e receptores em circunstâncias reais de uso da língua. O leitor aciona seu conhecimento prévio para conceder intencionalidade ao texto, estabelecendo relação da leitura aos contextos. Portanto, quanto mais conhecimento de mundo o leitor possui, mais facilmente ele estabelecerá relações mentais entre as suas informações já conhecidas e o que o texto novo apresenta, esclarece Lauriti e Molinari (2013). Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizadas, pouco têm a ver com a competência discursiva, que é questão central. Dentro desse marco, a unidade básica de ensino só pode ser o texto, mas isso não significa que não se enfoquem palavras ou frases nas situações didáticas específicas que o exijam (PARÂMETROS NACIONAIS CURRICULARES, 1997, p. 29). Dessa forma, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), a leitura apresenta-se como um processo em que o leitor desempenha um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir de elementos como os seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a língua: características do gênero, do portador, do sistema de escrita, entre vários outros. Importante Um leitor capaz não lê apenas o que está escrito de forma explícita, mas até aquilo que está implícito e é conhecido por causa do contexto comunicativo. (LAURITI; MOLINARI, 2013). 31 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Lauriti e Molinari (2013, p. 36) lembram que “compreender é recriar sentidos a partir das informações do texto e do conhecimento de mundo, inferindo elementos implícitos do texto”. Qualquer leitor que possua experiência e que consiga examinar sua própria leitura verificará que a decodificação é apenas um dos procedimentos que emprega quando lê, pois, a leitura realizada de forma fluente envolve uma série de outras estratégias como seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível rapidez e proficiência, explícita os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997). Nota Não se trata puramente de retirar informação da escrita, decifrando-a letra por letra, palavra por palavra. Refere-se a uma atividade que implica, essencialmente, compreensão na qual os sentidos começam a ser estabelecidos antes da leitura propriamente dita (PARÂMETROS NACIONAIS CURRICULARES, 1997). FIGURA 10 Elementos implícitos do texto FONTE Pixabay 32 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Marcuschi (2003, p. 25) lembra que “o estudo da oralidade pode mostrar que a fala mantém com a escrita relações mútuas e diferenciadas, influenciando uma a outra nas diversas fases da aquisição da escrita.” Conforme Barbosa (2006) nesse processo de formação de leitores, a didática na escola, de modo generalizado, não se importa com o domínio desse processo, nem tampouco com as modificações da maneira de pensar, razão primeira da criação da leitura, da sua vida e de sua transformação. Atenta-se com as respostas que o aluno oferece às perguntas elaboradas com a intenção de analisar apenas essa relação entre pergunta e resposta, mas não atua sobre as transformações de modo de pensar. O homem que tenta compreender o mundo pelo gráfico que desenvolve um modo muito mais elaborado para operar o pensamento, à procura de novas funções, entre elas, o desenvolvimento predominante da reflexão, em relação à memorização. Importante É a utilização desses procedimentos que permitecontrolar o que vai sendo lido, tomar decisões perante as dificuldades de compreensão, arriscar-se diante do desconhecido, procurar no texto a comprovação das suposições realizadas etc. (PARÂMETROS NACIONAIS CURRICULARES, 1997). Nota Ao saber construir e criar leitura, baseada na compreensão, o homem transforma seu próprio cérebro e sua maneira de agir (BARBOSA, 2006). 33 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 “Com a leitura colhemos conhecimentos que são armazenados na memória” (YUNES, 2002 p. 72). A tradição de se amparar na memória, concretizada na criação de gêneros textuais como a poesia, as fábulas, as parábolas, os versículos, com os esquemas rigorosos de construção, dão lugar para a criação de gêneros abertos, com estruturas pouco elaboradas ou permutáveis, porque a função do homem do mundo gráfico e eletrônico é a da reflexão, pois esta admite a leitura modificar-se em argumentos, conhecimentos, ideias, signos, descreve Barbosa (2006).’ Marcuschi (2008) defende que o trabalho da escola, ao atuar com a língua como atividade interacional situada sócio historicamente, deve introduzir o aluno em circunstâncias reais de produção e emprego do idioma, ou seja, o domínio de uma língua é desenvolvido na escola a partir de aprendizados contextualizados e significativos. Refletir sobre o significado, como ele é construído, quais os processos mentais envolvidos, retira o aluno do lugar de familiaridade que ele habita na linguagem, produz afastamento da sua língua, permitindo observá-la como um objeto do qual ele está desligado, explica Oliveira (2012) FIGURA 11 Leitura modificar-se FONTE Pixabay 34 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Gonçalves (2008) informa que se nos centralizarmos na compreensão da leitura é porque atendemos a outra indicação sobre o ato de ler que nem sempre fez jus ao necessário reconhecimento, pois não basta apenas aprender a ler, é indispensável que se aprenda com o que se lê, assim como é necessário interpretar os conteúdos e conceder-lhes significado, para que a leitura, como exercício de inteligência, execute o seu papel. Esta interpretação não se apresenta como um ato mecânico de unir letras e formar palavras, mas um verdadeiro diálogo do leitor com o autor, em que aquele coparticipa na produção de sentido do texto. Gonçalves (2008) ainda explica que compreender um texto acarreta num processo mental em que o leitor procura esquemas, em sua memória, que correspondam a cada trecho lido, fazendo interpretações preliminares que são analisadas gradativamente objetivando uma interpretação final correspondente. A semântica pode ser um instrumento para aperfeiçoarmos não apenas a leitura e a escrita, mas para consentir a reflexão sobre a linguagem, entende Oliveira (2012). Nota Essa atitude de observar sem estar envolvido é fundamental para que ele possa ser um melhor avaliador de seu próprio texto (OLIVEIRA, 2012). 35 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Oliveira (2012) exemplifica alguns casos interessantes da colocação da Semântica na sala de aula, como a situação ocorrida de alunos de faixa etária de 11 anos, no qual a professora realizou um projeto de pesquisas sobre propagandas em que os alunos deveriam trazer como resultado publicidades que continham ambiguidades. Uma das propagandas era sobre um sorteio que possuía como lema: Todos os ganhadores recebem uma moto. O que você entende ao ler essa sentença? Pra você, existe ambiguidade? A discussão gerada ficou em torno de: seria apenas uma moto para todos os ganhadores ou uma moto para cada ganhador? A interpretação aparentemente mais adequada é a segunda, mas quem garante que quem está promovendo o sorteio não tenha em mente a primeira? Questiona Oliveira (2012). FIGURA 1 Carteira de trabalho FONTE Freepik 36 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Oliveira (2012) ainda exemplifica outra experiência curiosa que acabou resultando em uma dissertação de mestrado, na qual a autora se preocupou em analisar as questões de provas organizadas pelos professores das diferentes disciplinas e verificar as respostas dos alunos. Através dessa análise, ela percebeu que existiam questões ambíguas o que acabava causando uma interpretação dos alunos divergente da do professor e que este não percebia. Observe a seguinte pergunta: Minhocas são anelídeos. Qual é a importância disso para a sua vida? Oliveira (2012) esclarece que o problema apresentado nessa situação está no pronome ‘sua’, que pode receber duas interpretações: • Se ele for anafórico, então ele está recuperando ‘minhocas’. Assim, neste caso, a pergunta seria: qual é a importância de ser anelídeo para a vida das minhocas. • Se ele for dêitico, ele será interpretado como referente ao leitor/ ouvinte, sendo a seguinte: qual a importância para a vida do leitor/ ouvinte o fato de as minhocas serem anelídeos. Sem perceber a presença da ambiguidade na sua pergunta, o professor acaba avaliando como incorretas as respostas que são orientadas pela interpretação que ele (o professor) não percebeu, esclarece Oliveira (2012). Definição A ambiguidade é uma propriedade semântica estruturada em situações que podem ser interpretadas de mais de uma maneira, descreve Pinto et. al. (2016). 37 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Uma música interessante para analisarmos é a de Vinicius de Moraes, observe: Onde anda você? E por falar em saudade Onde anda você Onde andam seus olhos Que a gente não vê Onde anda esse corpo Que me deixou morto De tanto prazer. (Vinicius de Moraes) Analisando a música podemos perceber a ocorrência da polissemia na palavra ‘andar’ e ‘morto’ na qual aparecem com linguagem figurada adquirindo sentido metafórico. Definição A ambiguidade semântica é gerada pelo fato de os pronomes terem diversos antecedentes, sendo uma questão relacionada à correferencialidade e às interpretações possíveis que são atribuídas ao tipo de ligação entre os pronomes das sentenças, explica Cançado (2008). Definição A polissemia ocorre quando os possíveis sentidos da palavra ambígua têm alguma relação entre si, descreve Cançado (2008). Outro cenário que podemos observar, está relacionado com atividades que apontam para o estudo das conjunções, a partir do valor ou dos valores semânticos desta classe. Olivan (2009) cita como exemplo o exercício que apresenta ao aluno a leitura de vários 38 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 períodos compostos, conectados pela conjunção ‘e’, com a finalidade de que reflitam sobre os diferentes sentidos que esta conjunção adota em cada contexto. Assim, observe os seguintes exemplos retirado de Cereja e Magalhães (2006): a) Disseram estar famintos e não comeram nada. b) Luciana saiu de casa bem cedo e já deve estar chegando ao interior. c) Pensou em comprar flores e dá-las de presente para a mãe. d) O garoto disse: “Não vou dar banho no cachorro hoje.” “E eu, nunca”, respondeu a irmã”. (CEREJA; MARALHÃES, 2006, p. 218) Percebe que cada vez que o ‘e’ aparece nestas sentenças ele possui um sentido diferente? A presença de ‘e’ indica, respectivamente, ideia de adversidade, conclusão, finalidade e explicação enfática. Um ponto fundamental que precisamos entender é sobre as provas do Enem, pois de acordo com o professor Murilo Coelho, na obra Superguia Completo para passar no Enem (2017), essas provas não apresentam questões apenaspara avaliar o conhecimento da gramática normativa dos estudantes, mas será analisado também o conhecimento semântico, visto que o estudante terá que apontar a alternativa correta nas questões elaboradas sobre as relações entre o sistema linguístico e a realidade de mundo (Figura 13), ou seja, a sua representação do mundo através da linguagem. O estudante também terá que demonstrar domínio da Pragmática, isto é, a relação entre o sistema linguístico e a ação do sujeito em situações concretas de uso da língua. 39 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 O autor, Coelho (2017), ainda explica que o estudo do significado existente na relação entre as palavras e aquilo que elas significam (a ligação natural entre os nomes e as coisas nomeadas ou mero resultado de convenção), precisa levar em consideração também as mudanças de sentido e o aparecimento de novas expressões. A leitura de um texto não conduz a significados únicos, existem muitas possibilidades de significação, mas é necessário pôr a gramática em prática. Por isso, é preciso procurar conhecer em qual contexto social e até mesmo histórico, além das variedades regionais e sociais da língua em que a narrativa foi escrita. Para compreender a significação de um texto, Coelho (2017), descreve que primeiramente o estudante deverá analisar que todo texto possui significado a partir das intenções de um determinado falante ou escritor, que emprega elementos linguísticos. Como nas obras de escritores consagrados como “José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Raquel de Queirós e Guimaraes Rosa, entre outros, temos regionalismo na prosa literária” (COELHO, 1997, p. 89). Pensemos no caso de polissemia que é determinada pelo contexto, ou seja, a significação pode estar na linguagem figurada, dessa forma, o leitor ou ouvinte precisa selecionar entre as distintas significações a partir do cenário em que aquela palavra tenha sido empregada, informa Coelho (2017). FIGURA 13 Realidade de mundo FONTE Pixabay 40 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Capitulo 3 Resumindo Neste capítulo, você deve ter aprendido que os efeitos dos sentidos são determinados pelos leitores nas associações com os textos e que quanto mais conhecimento de mundo o leitor possui, mais facilmente estabelecerá relações mentais entre as informações já conhecidas e o que o texto novo apresenta, assim, a leitura apresenta-se como um processo em que o leitor desempenha um trabalho ativo na construção do significado do texto. Viu também que o domínio da língua é desenvolvido na escola a partir de aprendizados contextualizados e significativos e que não basta apenas aprender a ler, é necessário interpretar os conteúdos e conceder o significado adequado, e a Semântica pode ser um instrumento para aperfeiçoarmos não apenas a leitura e a escrita, mas para consentir a reflexão sobre a linguagem. Verificou algumas análises realizadas em salas de aula voltadas para a ambiguidade e polissemia, por fim a importância da Semântica nas provas do Enem. 41 @faculdadelibano_ 4 Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa 42 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Capitulo 4 Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Segundo Pinto et. al. (2016) o contexto social reflete a situação em que os sujeitos que se relacionam, desempenham papéis e exercem funções. De acordo com Abrahão (2018), uma das diferenças mais acentuadas na abordagem da perspectiva da produção do sentido é a ideia de sujeito. Nesse entendimento não existe alguém que se aposse de uma linguagem pronta para transmitir suas ideias e sentimentos (o falante). A linguagem nesse ponto é entendida como elemento que constitui a construção da subjetividade. Objetivos Neste capítulo, você irá entender a relação entre o sujeito, sentido e enunciação no estudo da Língua Portuguesa, a correlação entre esses elementos e suas principais características.. Importante Assim, não existe linguagem sem sujeito como também não existe sujeito sem linguagem. 43 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 Nas teorias que apontam a linguagem como ferramenta de comunicação, o sentido deriva da ordem das frases e das unidades lexicais. Assim, estas já estariam determinadas fora de qualquer contexto, e é garantida a prioridade do significado no dicionário em desvantagem do sentido que as expressões recebem no uso. O efeito é um produto final previsível, com poucas modificações, afirma Abrahão (2018). Para Mari (1991) se percebermos que sem o sujeito não existe linguagem, isto é, que ela não está pronta antes do uso, o sujeito pode ser entendido como um privilégio de linguagem. Dessa forma, ele deve ser o interesse primeiro daqueles que almejam encarar a significação. A importância dessa categoria se deve ao fato de ela adotar o ponto da produção de sentido em linguagem de uma maneira não presa, não imaginável. Não há como conceber um sujeito autônomo, cuja vontade e intenção determinam o sentido do discurso. Em cada contexto interativo, um ato comunicativo tem o sentido ali construído, negociado, partilhado pelos interlocutores. Esse será o seu sentido, o seu valor interativo (SALIM MIRANDA, 2001, p. 67). Você percebe, assim, a importância do sujeito na sentença? Nota O sujeito não se refere somente a um emissor ou um falante, nem a uma pessoa que tem a intenção de informar determinados fatos ou sentimentos de uma forma mais clara possível, desejando diminuir o nível de repetições, para que o ouvinte tenha a compreensão completa da mensagem (MARI, 1991). 44 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 Assim, Mari (1991) acredita que o sentido não se garante só no sistema linguístico, já que uma mesma frase pode ser percebida de diversas maneiras, nem apenas em relação ao momento histórico, e a significação sugerida nunca é da ordem do imaginável, do contextualmente determinado. Conforme Mari (1991), o sujeito é constituído em três momentos: • Linguagem como condição: o sujeito depende do sistema linguístico para se estabelecer em um discurso. Assim, ele aprende uma língua, como também se confronta com ela. E a determinação do sistema é necessária, pois é através dela que o sujeito encontra apoio para se estabilizar. • Condição para linguagem: apesar de ser, de alguma forma, determinado pelas condições históricas e pelo sistema linguístico, existe um espaço em que o sujeito é ativo, autônomo. Assim, a linguagem não se apresenta como reprodução em que ele fala de um objeto, mas sim como reflexo no qual um sujeito elabora em linguagem o seu mundo visível e, também, o mundo possível. • Condição na linguagem: o sujeito eleva-se de acordo com as condições históricas que pronunciam formações discursivas. Ele tem que “aceitar” e se “adequar”, até certo ponto, a essas formações, porque elas determinam o que pode e o que deve ser falado, mas o limite entre os dois polos é opaco. Pinto et. al. (2016) explica que levando em consideração que todo texto é uma interlocução, a sua implicação de sentido é originada na influência mútua entre dois sujeitos: o sujeito da enunciação e o sujeito da leitura. Portanto, ao estabelecer um enunciado, o sujeito da enunciação assume três funções: • A de configurar um locutor (ou locutores) para o texto. • A de construir um enunciador (ou enunciadores) para orientar a fala do (s) locutor (es). Nota O sentido passa a estabelecer uma realidade que nem sempre se apresenta como uma verificação baseada em fatos (MARI, 1991). 45Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 • A de se inscrever no texto como seu autor. Essas três funções acontecem de forma simultânea e originam os sujeitos da leitura: o alocutário e o destinatário, ou leitor virtual (PINTO et. al. (2016). FIGURA 14 Sujeitos da leitura FONTE Pixabay Mas quais as funções desses sujeitos da leitura? O locutor representa a voz que fala no texto, desempenhando a função do ‘eu’, ao mesmo tempo que estabelece um você (ou tu), isto é, o alocutário do texto, manifestado pelo paradigma da 2ª pessoa, relata Pinto et. al. (2016). EXEMPLO: Na sentença “Nós gostaríamos que você concordasse em ser madrinha do nosso filho”, o locutor é a voz q fala, representado linguisticamente pelo pronome pessoal ‘nós’ e reforçado na flexão verbal e no pronome possessivo ‘nosso’. Já o alocutário tem a representação linguística do interlocutor com o ‘você’ do enunciado, explanam Pinto et. al. (2016). A figura do enunciador compõe o ponto de vista da enunciação, ou seja, aquilo que faz com que essa fala seja a representação ou defesa de uma perspectiva A e não B. Existe 46 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 um enunciador na fala de todo locutor, que pode ser individual, coletivo, ou genérico, dependendo do grau de generalidade que possua numa comunidade. É o enunciador por trás do locutor que faz com que o usuário reconheça, entre outros aspectos, a função social (mãe, pai, médico, professor, por exemplo), a crença religiosa, o partido político de um locutor de um texto oral e escrito. Isso faz com que o usuário consiga reconhecer que aquilo que está sendo falado tem relação ideológica com uma determinada teoria científica ou social, mencionam Pinto et. al. (2016). Pinto et. al. (2016) ainda lembram que para se chegar à compreensão que o autor pretende sobre o efeito do sentido é preciso tratar o texto, detectando as estratégias discursivas nele utilizadas, seu locutor ou locutores, seus enunciadores, seu leitor virtual ou implícito. Dessa forma, o leitor apresenta-se como aquele que constrói uma unidade de sentido para o texto, considerando não apenas o seu conhecimento prévio, como também as manobras discursivas do autor implícito no texto. Desta maneira, é possível se identificar com o que o autor apresenta ou não, convencendo- se através da sua argumentação. Pinto et. al. (2016) mencionam os estudos de Ducrot (1988) relacionados à polifonia questionando a unicidade do sujeito falante em que pretende provar que o enunciado pode ser perpassado por mais de uma voz, ou seja, ele defende que o autor não se expressa diretamente, mas sim, coloca em cena diferentes personagens linguísticos no qual pode ser observado por meio de sentenças simples e cotidianas a existência de uma espécie de diálogo imaginário. EXEMPLO: Alice parou de cantar. Podemos entender desta sentença que o enunciador comunica simultaneamente que Alice antes cantava, e que hoje não canta mais. Em uma espécie de diálogo imaginário, o enunciador se interroga se Alice parou de cantar e se ela cantava antes. Para Pinto et. al. (2016) a primeira informação é chamada 47 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 Shaffer, Flores e Barbisan (2002) esclarecem que Ducrot em seu esboço da Teoria Polifônica da Enunciação, criado a partir do conceito de polifonia desenvolvido inicialmente por Bakhtin, propõe-se a contrapor a tese de que na base de cada enunciado se submete um único autor. Diferencia-se de Bakhtin por conduzir sua pesquisa no nível linguístico, aplicando-se a enunciados e não a discursos. Conforme Pinto et. al. (2016), Ducrot, com a Teoria Polifônica de Enunciação, propõe que a origem da enunciação seja designada a um ou vários sujeitos e indica a existência de três funções diferentes: Locutor (L), sujeito empírico (SE) e enunciador (E). • O locutor (L) é aquele que se mostra como responsável pelo enunciado, a quem são declarados o pronome eu e as marcas de primeira pessoa do enunciado. • O sujeito empírico (SE) é aquele que se aponta como o produtor do enunciado. • Os enunciadores (E) são os diversos pontos de vista indicados pelo locutor, em seu discurso, que assume determinadas posições em relação a esses enunciadores. FIGURA 15 Alice cantava FONTE Pixabay de posto e a segunda de pressuposto. Assim, é possível pressupor que Alice cantava antes, uma vez que foi dito que ela parou de cantar. 48 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 Ducrot ainda identifica dois tipos de polifonia presentes nos enunciados que são a polifonia de locutores e a de enunciadores, lembra Pinto et. al. (2016). O locutor é declarado como o ser responsável pela enunciação, alguém a quem devemos atribuir a responsabilidade da sua produção. Diferente do autor empírico, trata-se de uma ficção discursiva, apesar de comumente coincidir com este no discurso oral. É ao locutor que encaminham as marcas de primeira pessoa inclusa no enunciado. Essa definição difere o falante do autor e este do locutor, descreve Shaffer, Flores e Barbisan (2002). FIGURA 1 Funções para a enunciação FONTE Adaptado de Pinto et. al. (2016). Importante Segundo Ducrot o sujeito é visto como sendo a origem dos atos ilocutórios produzidos através do enunciado e acredita que ele pode ser identificado apenas pelas marcas de primeira pessoa, explícita Shaffer, Flores e Barbisan (2002). 49 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 Para Shaffer, Flores e Barbisan (2002) o locutor é ampliado para esclarecer o fato de surgirem em uma enunciação marcas de primeira pessoa atribuível a diferentes locutores. Para isso, Ducrot considera o locutor-enquanto-tal (L), estabelecido no nível do dizer e responsável pela enunciação, e o locutor-enquanto-ser-no-mundo (Y), origem do enunciado, que constitui discursivamente o ser empírico, identificável por meio de(L) e formado no nível do dito. Os dois se apresentam como seres do enunciado, diferentes do sujeito-falante, elemento não-enunciativo. Já os enunciadores, apontam uma segunda forma de polifonia, pois representam, de uma forma geral, para o locutor, o que corresponde ao personagem para o autor em uma obra de ficção. O enunciador é uma concepção expressa através da enunciação, ele não ‘fala’, mas sim tem seu ponto de vista colocado sem que seja conferida exatidão nas suas palavras. O locutor oferece uma enunciação de que se declara responsável e o enunciador existe em função da imagem que (L) oferece das vozes presentes no enunciado. Assim, a identificação de (E) só é possível por meio de(L) que pode ou não concordar com (E), explana Schaffer, Flores e Barbisan (2012). Conforme Pinto et. al. (2016) a noção de polifonia de Ducrot explica diversos fenômenos discursivos, vejamos alguns dos indicadores da polifonia: • Pressuposição – opera como uma das vozes presentes, que induz o ouvinte a aceitar a pressuposição e a não poder negá-la. Alguns advérbios ou verbos que demonstram mudança/permanência, sentimento, entre outras marcas linguísticas, declaram o ponto Nota Essa distinção justifica o fato de Ducrot não ter escolhido um conceito de enunciação comprometida com o produtor/autor, nem dirigida a alguém (SHAFFER; FLORES; BARBISAN, 2002). 50 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 de vista de outro enunciador, que pode ser, até mesmo o senso comum, uma crença. E XEMPLO: Enunciador 2 (E2): O país ainda espera por mudanças. Enunciador 1 (E1): O país esperavapor mudanças antes. Podemos observar neste enunciado mais de um enunciador, ou seja, mais de uma voz de diálogo (E1 e E2). E1 é o pressuposto, o que está por trás do enunciado produzido, a voz pressuposta; já o E2 é o posto, o conteúdo explícito que foi efetivamente produzido, exemplifica Pinto et. al. (2016). • Uso metafórico do futuro do pretérito – alguns tempos verbais são mais utilizados para narrar e outros mais para comentar, porém, às vezes acontece o inverso por um propósito. Esse emprego é muito frequente no discurso jornalístico. EXEMPLO: E2: Policiais corruptos teriam cobrado propina dos comerciantes. E1: Fonte (não informada) afirma que os policiais corruptos cobraram propina de comerciantes. Exemplificam Pinto et. al. (2016). • Operadores conclusivos – introduzem uma voz, geralmente de um enunciador genérico (sabedoria popular, provérbios, valores de uma cultura etc.) para argumentar a partir dela. EXEMPLO: E2: Levantou-se, vestiu o uniforme e saiu. Portanto, deve ter ido trabalhar. E1: Quem se levanta, veste o uniforme e sai vai trabalhar (voz geral). (PINTO ET. AL. 2016). • Expressões como “parece que”, “segundo fulano” – introduzem a voz de um enunciador externo para encadear um ponto de vista pessoal EXEMPLO: E2: Parece que a inflação voltou. E1: A inflação voltou. (PINTO et. al., 2016). Esses fenômenos demonstrados são situações em que o locutor segue as perspectivas dos enunciadores. 51 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Capitulo 4 Resumindo Neste capítulo, você deve ter entendido que na abordagem da perspectiva da produção de sentido, a ideia de sujeito apresenta-se como uma das diferenças mais acentuadas, que sem sujeito não existe linguagem e que ele é constituído em três momentos sendo linguagem como condição, condição para linguagem e condição na linguagem. Você viu que a Teoria Polifônica de Enunciação indica a existência de três funções diferentes para a enunciação que é o locutor, o responsável pelo enunciado; o sujeito empírico, produtor do enunciado; e o enunciador, que sãos pontos de vista indicados pelo locutor; e que existem dois tipos de polifonia presentes nos enunciados que são a polifonia de locutores e a de enunciadores. Por fim você conheceu alguns dos indicadores de polifonia como a pressuposição, o uso metafórico do futuro do pretérito, os operadores conclusivos e as expressões como “parece que”, “segundo fulano”. 52 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Referências ABRAHÃO. V. B. B. Semântica, enunciação e ensino. Vitória: EDUFES, 2018 ABRAHÃO. M. H. M. B. Professores e alunos: aprendizagens significativas em comunidades de pratica educativa. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2008 ANDERSEN, E. M. L. Fábulas e parábolas: um esboço para a interpretação de textos à luzda Teoria dos Blocos Semânticos. ReVEL, v. 4, n. 6, mar., 2006. AZEREDO, J. C. Fundamentos de gramática do Português. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. BARBOSA. R. L. L. Formação de educadores: artes e técnicas – ciências e políticas. São Paulo: UNESP, 2006. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF. 1997. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. CANÇADO, M. Manual de Semântica: noções básicas e exercícios. Belo Horizonte: UFMG, 2008. CAPELLO, C. et al. Literatura na formação do leitor. Rio de Janeiro: CECIERJ, 2008. CAPISTRANO JR. et al. Linguística textual: diálogos interdisciplinares. São Paulo: Labrador, 2017. CAREL, M. O que é argumentar? Revista do Programa de Pós- Graduação em Letras da UPF, Passo Fundo, v. 1, n. 2, p. 77-84, jul./dez., 2005. CAREL, M. Argumentation et polyphonie: de Saint Augustin à Robbe- Grillet 7-58. Paris: L’Harmattan, 2012 53 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Referências CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Português: linguagens. 2. ed. São Paulo: Atual, 2006. CHIERCHIA, G. Semântica. Campinas: Unicamp, 2003. COSTA, A. C. M. F. A teoria dos blocos semânticos: um estudo através do texto. Orientadora: Claudia Mendes Campos. 2013. 97 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Paraná. UFPR. Curitiba. 2013. DIETZSCH, M. J. M. Espaços da linguagem na educação. 2 ed. São Paulo: Humanitas, 2005. GOMES, L. A argumentação na língua como subsídio para avaliação da leitura e produção de textos dissertativo-argumentativos. Linha D’Água, São Paulo, v. 29, n. 2, p. 295-319, dez., 2016. GONÇALVES, S. Aprender a ler e compreensão do texto: processos cognitivos e estratégias de ensino. Revista Iberoamericana de Educación, n. 46, p. 135-151, jan./abr., 2008. HALLIDAY, M. A. K. An introduction to Functional Grammar. 2. ed. London: Edward Arnold, 1994. HURFORD, J. R.; BRENDAN, H. Curso de Semântica. Canoas: ULBRA, 2004. KOBS, V. D. Argumentação e retórica. Curitiba: IEDES, 2012. LAURITI, N. C.; MOLINARI, S. G. S. Perspectivas da alfabetização. Jundiaí: Paco, 2013. LIMA, A. de O. Interpretação de textos: aprenda fazendo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. MACEDO, W. O livro da semântica: estudo dos signos linguísticos. Rio de Janeiro: Lexicon 2013. MARCUSCHI, L. A. Compreensão de texto: algumas reflexões. In: BEZERRA, M. A.; DIONÍSIO, Â. P. (org.). O livro didático de Português: múltiplos olhares. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003. MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 3. ed. São Paulo: Parábola, 2008. 54 Aspectos Semânticos na Construção da Escrita em Português Referências MARCUSCHI, L. A. Linguística textual: o que é e como se faz. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. MARI, H. Os lugares do sentido. Belo Horizonte: UFMG, 1991. MARI, H. Os lugares do sentido. Campinas: Mercado das Letras, 2008. MIRANDA, N. S. O caráter partilhado da construção da significação. Veredas, Juiz de Fora, v. 5, n. 1, p. 57-81, 2001. MORETTO, M.; WITTKE, C. I. Reflexões sobre a produção escrita no contexto escolar. Jundiaí: Paco, 2019 OLIVAN, K. N. A semântica e o ensino da Língua Portuguesa. Work. Pap. Linguíst., Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 45-59, jan./jun., 2009. PAULIURONIS, M. A. L. Texto como discurso: a formação do leitor crítico. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF, Passo Fundo, v. 9, n. 1, p. 9-19- jan./jun., 2013. PEREIRA, V. W.; GUARESI, R. Estudos sobre leitura: psicolinguística e interfaces. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2012. PINTO. D. C. et al. Introdução à Semântica. Rio de Janeiro: CECIERJ, 2016. SAMPAIO, S. M. As relações lógica-semânticas de projeção em textos acadêmicos. Jundiaí: Paco, 2019. SCHAFFER, M.; FLORES, V, do N.; BARBISAN, L. B. Aventuras do sentido: Psicanálise e Linguística. Porto Alegre? EDIPUCRS, 2002. YUNES, E. Pensar a leitura: complexidade. São Paulo: Loyola, 2002. TRAVAGLIA. L. C. Na trilha da gramática: conhecimento linguístico na alfabetização e letramento. São Paulo: Cortez, 2014. 55 Texto e Argumentação: A Construção Semântica nos Escritos em Português A Construção Semântica nos Escritos em Português Relacionados ao Texto e à Argumentação Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa: Fundamentos para a Formação do Leitor Aspectos Semânticos da Língua Portuguesa Práticas de leitura semântica portuguesa na escola e no cotidiano Práticas de Leitura Semântica no Contexto Escolar e Cotidiano Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Sujeito, Sentido e Enunciação no Estudo da Língua Portuguesa Referências