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MATERIAL DE ESTUDOS PARA DIREITO EMPRESARIAL INTRODUÇÃO AO DIREITO EMPRESARIAL O Direito Empresarial é o ramo do direito que regula as atividades empresariais e comerciais, incluindo a constituição, organização, funcionamento e dissolução de empresas, bem como as relações entre empresas, seus sócios, credores e terceiros. Desde sua origem, este ramo jurídico está intrinsecamente ligado ao mercado, ordenando a dinâmica estabelecida entre os mercadores e demais agentes econômicos. A finalidade do Direito Empresarial não é proteger o empresário individualmente, mas sim tutelar o tráfico econômico e defender o interesse geral do comércio. Como afirmava Visconde de Cayrú: "A liberdade do Commercio não he huma faculdade concedida aos Negociantes para fazer o que quiserem; isso seria antes sua real servidão. O que incomoda ao Commerciante, não grava por isso o Commercio". Portanto, o direito de empresa visa proteger o funcionamento do mercado e o interesse da empresa, não o agente de modo individual. O Direito Empresarial possui importância fundamental para a sociedade contemporânea por três razões principais: 1. Regulação do Mercado: Garante uma estrutura legal que permite o funcionamento ordenado e previsível do mercado. 2. Proteção de Direitos: Protege os direitos dos empresários, investidores, empregados e consumidores. 3. Promoção da Economia: Facilita o desenvolvimento econômico ao estabelecer regras claras para a atividade empresarial. O Direito Empresarial é um ramo jurídico fundamental para a regulação das atividades econômicas organizadas, estabelecendo normas e princípios que garantem o funcionamento ordenado do mercado e a proteção dos diversos interesses envolvidos nas relações empresariais. Sua importância transcende a mera proteção do empresário individual, alcançando a tutela do próprio mercado e da coletividade. Os conceitos fundamentais do Direito Empresarial, como empresa, empresário, estabelecimento, nome empresarial, patrimônio empresarial, escrituração mercantil e propriedade industrial, formam um arcabouço teórico e prático essencial para a compreensão e aplicação deste ramo jurídico. A correta compreensão desses conceitos e das normas que os regulam é indispensável para a atuação profissional no campo do Direito Empresarial e para o próprio exercício da atividade empresarial. A empresa, como atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços, é o elemento central do Direito Empresarial. Em torno dela gravitam os demais conceitos e institutos jurídicos, como o empresário (sujeito da atividade), o estabelecimento (conjunto de bens organizados para o exercício da empresa), o nome empresarial (identificação do empresário no mercado), o patrimônio (conjunto de bens tangíveis e intangíveis da empresa), a escrituração mercantil (registro das operações empresariais) e a propriedade industrial (proteção das criações intelectuais aplicadas à indústria e ao comércio). O conhecimento aprofundado desses conceitos e das normas que os regulam é essencial para a formação do profissional do Direito e para a atuação no campo empresarial, seja como advogado, consultor, gestor ou empreendedor. A compreensão do Direito Empresarial permite não apenas a solução de problemas jurídicos específicos, mas também a visão estratégica do ambiente de negócios e das possibilidades de atuação empresarial dentro dos limites legais. É importante destacar que o Direito Empresarial pode ser considerado um direito difuso, ou seja, pertence à coletividade e não a indivíduos específicos. Conforme o Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 81, inciso I, os direitos difusos são "os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato". Nesse sentido, o Direito Empresarial regula atividades que têm impactos amplos na sociedade e impõe às empresas o cumprimento de normas que beneficiem a coletividade, não apenas seus interesses privados. FONTES DO DIREITO EMPRESARIAL Fontes Primárias Constituição Federal A Constituição Federal do Brasil estabelece os princípios fundamentais e direitos relacionados à economia e ao direito empresarial. Ela garante a liberdade de empresa e concorrência, além de assegurar a função social da empresa. O artigo 170 da Constituição Federal estabelece que "a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social", observando princípios como a propriedade privada, a função social da propriedade, a livre concorrência, a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente, a redução das desigualdades regionais e sociais, a busca do pleno emprego e o tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte. Leis Ordinárias Código Civil Brasileiro (Lei nº 10.406/2002): Regula as normas gerais sobre contratos, sociedades e outras questões relevantes para o Direito Empresarial, como as normas sobre sociedades limitadas e anônimas. Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/1976): Regula as sociedades por ações, suas operações e estrutura, sendo fundamental para a gestão e funcionamento das grandes empresas no Brasil. Lei de Falências e Recuperação Judicial (Lei nº 11.101/2005): Regula os processos de falência e recuperação judicial de empresas, abordando os direitos e deveres das empresas em dificuldades financeiras. Leis Especiais Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996): Regula os direitos sobre patentes, marcas e direitos autorais, importantes para a proteção de inovações e criações empresariais. Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018): Estabelece normas para a proteção de dados pessoais, afetando como as empresas gerenciam e protegem informações sensíveis. Fontes Secundárias Jurisprudência As decisões dos tribunais superiores e de outras instâncias judiciais interpretam e aplicam as leis empresariais, formando precedentes que orientam a prática jurídica, como as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre questões de recuperação judicial e contratos empresariais. Doutrina O trabalho acadêmico e a análise de juristas e doutrinadores oferecem interpretações e comentários sobre as leis e práticas empresariais, como as obras de autores como Fábio Ulhoa Coelho e José dos Santos Carvalho Filho, que discutem aspectos do direito empresarial e societário. Práticas Comerciais e Costumárias As práticas e usos comuns no mercado empresarial podem influenciar a interpretação e aplicação das leis, como as práticas bancárias padrão que podem ser incorporadas ao contrato de crédito empresarial. Fontes Adicionais Tratados e Convenções Internacionais: A legislação internacional e os acordos bilaterais podem impactar o direito empresarial nacional, especialmente em relação ao comércio e investimentos internacionais. Regulamentações de Agências Reguladoras: As agências reguladoras têm a autoridade para emitir normas e regulamentações específicas para setores particulares, como o mercado de valores mobiliários e seguros. Códigos de Ética e Normas Internas: Códigos de ética e normas internas das empresas estabelecem regras e princípios adicionais que orientam o comportamento empresarial e as práticas de mercado. CONCEITO DE EMPRESA E SEUS ELEMENTOS Conceito de Empresa Para a economia, empresa é a organização dos fatores de produção (natureza, capital, trabalho, tecnologia). No direito, o conceito de empresa pode ser analisado sob diferentes perfis: 1. Perfil Subjetivo: Empresa como empresário ou sociedade empresária 2. Perfil Objetivo: Empresa como patrimônio ou estabelecimento 3. Perfil Funcional: Empresa como atividade empresarial 4. Perfil Corporativo: Empresa como instituição (concepção fascista) O Código Civil brasileiro adotou principalmente o perfil funcional da empresa, considerandoa como atividade. Conforme o artigo 966 do Código Civil, "considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômicaorganizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços". Elementos do Conceito de Empresa Para que uma atividade seja considerada empresarial, ela deve conter os seguintes elementos: 1. Exercício de uma Atividade A atividade é um fazer constante, um repetirse, não se aplicando a negócios ocasionais. Mesmo as sociedades de propósitos específicos (SPE) realizam vários atos para o seu fim único. A atividade não se esgota em cada um dos atos concatenados e sucessivos de que é composta, mas é a sequência orgânica dos atos, que se prolongam no tempo, com o fim de atingir o resultado da empresa: o lucro. A empresa surge não com o registro dos atos constitutivos do empresário ou da sociedade empresária, mas com o início efetivo da atividade. O registro é a regularização da pessoa do empresário, mas não da atividade, que pode ter se iniciado antes ou depois daquele. 2. Atividade de Natureza Econômica A atividade deve ser econômica no sentido de criar riqueza nova (conforme Tullio Ascarelli). É preciso que a atividade crie bens e/ou serviços, não sendo suficiente que corresponda a uma organização para deleite do organizador. A atividade econômica pode ser meio ou finalidade. Se for meio, o seu resultado (lucro) deve ser revertido integralmente em benefício da própria atividade, como no caso de associações beneficentes que exploram "comércio" (por exemplo, hospitais). Estas são chamadas de empresas civis. Se a atividade econômica for finalidade, o objetivo é sempre atingir o lucro, por meio da produção ou circulação de bens e serviços. A atividade empresarial se caracteriza pela economicidade e produtividade. É importante ressaltar que atividades econômicas ilícitas não são consideradas empresas, por violarem a lei e os bons costumes, o que impede seu registro como tal, conforme o artigo 35, I, da Lei nº 8.934/1994. 3. Atividade Organizada Não há empresa sem organização. Microempresários, pequenos empresários ou grandes conglomerados têm suas organizações diferenciadas apenas em nível e dimensão. É possível que a organização seja realizada pelo empresário individual, sem concurso de outras pessoas, seja porque ele faz tudo sozinho, seja porque toda sua produção é realizada por robôs. A organização pressupõe um estabelecimento, ou seja, um complexo de bens organizados para o exercício da empresa. A organização empresarial é a disposição ordenada dos fatores de produção: terra, trabalho, capital, investimentos produtivos e inovação tecnológica. O parágrafo único do artigo 966 do Código Civil estabelece que "não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa". 4. Exercício da Atividade de Modo Profissional Atividade profissional é a atuação contínua e especializada em alguma atividade econômica. A atividade deve ser exercida e não idealizada ou proclamada, deve ser constante e com o fim de lucro. Identificam-se dois elementos: temporal e lucrativo. A atividade deve ser desenvolvida no curso do tempo, praticando-se atos sucessivos concatenados e voltados à produção de bens e serviços, com o fim último de gerar lucros. A profissionalidade importa ainda dois elementos: voluntariedade e consciência. Não há criação acidental de empresa; a pessoa que a organiza tem vontade de cria-la e sabe o que está fazendo. A habitualidade e a continuidade não são essenciais, na medida em que a atividade empresária pode ser sazonal, como um hotel em estação de esqui. 5. Atividade com o Fim de Produzir ou Circular Bens ou Serviços A finalidade da empresa é a produção ou circulação de bens ou serviços no mercado. Este elemento distingue a atividade empresarial de outras atividades econômicas que não têm essa finalidade específica. Natureza Jurídica da Empresa A natureza jurídica da empresa é tema que gera debates e controvérsias. Conforme os delineamentos apresentados, não é possível classificar a empresa como sujeito de direito ou objeto de direito. A empresa é uma atividade exercida pelo sujeito sobre o objeto. Empresário como sujeito de direito: O empresário — seja pessoa física ou jurídica — é o sujeito de direito que exerce a atividade empresarial, com capacidade de adquirir direitos e assumir obrigações. Estabelecimento como objeto de direito: O estabelecimento, que é o complexo de bens organizados para o exercício da atividade empresarial, é considerado objeto de direito, incluindo bens corpóreos (físicos) e incorpóreos (intangíveis). Empresa como atividade: A empresa não pode ser classificada como sujeito ou objeto de direito, pois ela representa o exercício da atividade econômica. A empresa não tem uma existência física ou jurídica própria, como ocorre com o empresário e com o estabelecimento. Ao contrário, a empresa é a atividade em si, exercida pelo empresário, e não um ente autônomo com capacidade jurídica. Portanto, a natureza jurídica da empresa deve ser entendida como uma atividade jurídica qualificada, ou seja, a prática de atos e negócios jurídicos que ocorrem no contexto de uma atividade econômica organizada e exercida de forma profissional, com o fim de obter lucro. A empresa se enquadra como uma categoria jurídica abstrata única (empresa é empresa), uma vez que representa o conjunto de atos e ações que constituem a atividade empresarial, mas não pode ser tratada como sujeito ou objeto de direito. EMPRESÁRIO INDIVIDUAL Conceito e Características Se empresa é atividade, empresário é o agente que a exerce. Assim, quem se disponha a exercer atividade profissionalmente organizada para produzir ou circular bens e serviços é o empresário em sentido subjetivo. O Código Civil, em seu artigo 966, define empresário como "quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços". O empresário é a pessoa natural ou jurídica que se propõe a exercer a empresa. Conforme o artigo 967 do Código Civil, "é obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade". Requisitos para Inscrição do Empresário A inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis deve conter, conforme o artigo 968 do Código Civil: 1. Nome, nacionalidade, domicílio, estado civil e, se casado, o regime de bens; 2. A firma, com a respectiva assinatura autógrafa; 3. O capital; 4. O objeto e a sede da empresa. Caso o empresário venha a admitir sócios, poderá solicitar ao Registro Público de Empresas Mercantis a transformação de seu registro de empresário para registro de sociedade empresária. Capacidade para Exercer a Atividade Empresarial Para ser empresário, a pessoa deve estar em pleno gozo da capacidade civil e não ser legalmente impedida de exercer atividade empresarial, conforme o artigo 972 do Código Civil. São considerados capazes: 1. Os maiores de 18 anos; 2. Os menores emancipados. A emancipação pode ocorrer, entre outras formas, pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria, conforme o artigo 5º, parágrafo único, V, do Código Civil. Incapacidade Superveniente Se o empresário plenamente capaz se torna incapaz após o início do exercício da atividade, ele pode prosseguir na empresa, representado ou assistido, conforme o artigo 974 do Código Civil. Essa previsão busca evitar que a incapacidade leve à extinção imediata da atividade empresarial, garantindo a continuidade com a devida assistência legal princípio da preservação da empresa. Os requisitos para o prosseguimento da empresa pelo incapaz são: 1. Autorização judicial prévia; 2. Exame das circunstâncias e riscos; 3. Conveniência. A autorização é sempre precária e pode ser revogada a qualquer tempo se o caso recomendar. Os bens que o incapaz possuía não ficam sujeitos ao resultado da empresa, quando não advieram do acervoda empresa, o que deve constar no alvará de autorização de exercício da atividade. Pessoas Impedidas de Exercer a Empresa As proibições para o exercício da atividade empresarial no Brasil possuem origem tanto no antigo Código Comercial quanto em diversas leis extravagantes, que estabeleceram restrições de cunho administrativo, penal ou de direitos. As restrições visam proteger a integridade da função pública, garantir a idoneidade financeira e ética dos empresários e regular o acesso de estrangeiros ao mercado brasileiro. Entre as pessoas impedidas de exercer a empresa estão: 1. Falidos não reabilitados (art. 197, Lei nº 11.101/2005); 2. Funcionários públicos (art. 117, inc. X, Lei nº 8.112/1990), inclusive políticos (art. 54, inc. II, a, CR); 3. Militares (art. 29, Lei nº 6.880/1980 e art. 35, Decreto-Lei nº 1.029/69); 4. Magistrados (art. 36, inc. I, LOM); 5. Membros do Ministério Público (art. 44, inc. III, Lei nº 8.625/93); 6. Penalmente proibidos (art. 1.011, §1º, CC, art. 147, LSA); 7. Médicos com interação ou dependência em farmácia (Resolução CFM nº 1.246 de Janeiro de 1988); 8. Leiloeiros (art. 36, a, I, Decreto nº 21.981/1932); 9. Devedores do INSS (art. 95, §2º, d, 8.212/1991); 10. Deputados e senadores podem ser empresários, mas não podem ser proprietários, controladores ou diretores de empresas que tenham contratos com o poder público (art. 54, II, da CF/88). O Código Penal (arts. 47 e 56) prevê a interdição temporária de direitos, que pode incluir a proibição de exercer profissão ou atividade que exija habilitação especial, sempre que a violação de deveres seja verificada. Certas atividades empresariais que exigem habilitação especial, como a financeira ou securitária, são particularmente afetadas por essas restrições. Empresário Casado O casamento impõe limites aos cônjuges no trato do seu patrimônio e do patrimônio comum (aquestos). O artigo 1.647 do Código Civil estabelece que, ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta, alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis, pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos, ou prestar fiança ou aval. No entanto, o artigo 978 do Código Civil estabelece que "o empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal, qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real". Outra obrigação do empresário casado é informar ao registro público o regime de bens e suas mudanças, conforme o artigo 979 do Código Civil: "Além de no Registro Civil, serão arquivados e averbados, no Registro Público de Empresas Mercantis, os pactos e declarações antenupciais do empresário, o título de doação, herança, ou legado, de bens clausulados de incomunicabilidade ou inalienabilidade". Consequências do Exercício da Empresa por Pessoa Impedida Se o empresário impedido exercer a empresa, ele responderá por tudo o que praticou, porque os terceiros não podem ser prejudicados. Conforme o artigo 973 do Código Civil, "a pessoa legalmente impedida de exercer atividade própria de empresário, se a exercer, responderá pelas obrigações contraídas". NOME EMPRESARIAL Conceito e Importância O nome empresarial é um elemento essencial na identificação do empresário ou da sociedade empresária no exercício de suas atividades. Torna-se um dos principais mecanismos de distinção no ambiente de negócios, sendo fundamental tanto para a individualização do empresário no mercado quanto para a proteção contra concorrência desleal. O Código Civil brasileiro, em seus artigos 16, 52 e 1.155 a 1.168, regula a matéria, complementando a Lei de Registro de Empresas Mercantis (Lei nº 8.934/94). Conforme o artigo 1.155 do Código Civil, "considera-se nome empresarial a firma ou a denominação adotada, de conformidade com este Capítulo, para o exercício de empresa". Diferença entre Nome Civil e Nome Empresarial O nome empresarial distingue-se do nome civil. No caso de empresários individuais, o nome empresarial pode ou não coincidir com o nome civil do titular. No entanto, mesmo que coincidam, possuem naturezas diferentes: o nome civil refere-se à pessoa natural, enquanto o nome empresarial identifica o sujeito que exerce a atividade econômica. Para as pessoas jurídicas, o nome empresarial é a única forma de identificação permitida. Para elas, o nome será firma ou denominação, a depender do tipo societário escolhido pelos sócios para realizarem a empresa. Distinção entre Nome Empresarial e Outros Identificadores O nome empresarial não se confunde com outros elementos identificadores utilizados no comércio, como: Nome empresarial: Identifica o empresário ou a sociedade empresária. Marca: Identifica produtos ou serviços. Nome de domínio: Identifica a página na rede mundial de computadores (website). Título de estabelecimento: Relaciona-se ao ponto comercial ou local de funcionamento da empresa. Embora muitas vezes haja uma coincidência entre essas denominações por razões de conveniência mercadológica, cada um desses elementos é regulado por diferentes normas jurídicas e tem proteção própria. Natureza Jurídica do Nome Empresarial O nome empresarial possui natureza dual, conforme as principais correntes doutrinárias: Função Subjetiva: O nome empresarial é um atributo pessoal do empresário, seja ele uma pessoa natural ou jurídica, e está relacionado à identificação da pessoa no exercício de sua atividade econômica. Função Objetiva: O nome empresarial serve para individualizar o empresário no ambiente empresarial, garantindo-lhe exclusividade no uso do nome dentro de seu ramo de atividade e área geográfica. A legislação brasileira e a jurisprudência consolidaram o entendimento de que o nome empresarial é um direito pessoal do empresário, com proteção jurídica assegurada pela Lei da Propriedade Industrial e pela Constituição Federal, no artigo 5º, inciso XXIX. Formação do Nome Empresarial A formação do nome empresarial obedece a critérios específicos, definidos tanto no Código Civil quanto na Lei de Registro de Empresas Mercantis: Firma Individual: É formada pelo nome civil do empresário, com a possibilidade de abreviações ou adições de termos que identifiquem o ramo de atividade. Exemplo: "A. S. Pereira Livros Técnicos". Firma Social: Nas sociedades empresárias, a firma social é constituída pelos nomes de um, alguns ou todos os sócios. Quando o nome de todos os sócios não é utilizado, deve-se acrescentar a expressão "& Cia." ou "& Companhia". Exemplo: "Silva, Pereira & Cia. Ltda.". Denominação Social: Deve conter o objeto social da empresa e ser acompanhada da identificação do tipo societário, como por exemplo "Limitada" ou "Sociedade Anônima". Poderá ser formada por qualquer expressão linguística, inclusive elementos fantasia, como no caso de "Alvorada Livros Novos Ltda.". A escolha e a formação do nome empresarial variam de acordo com a pessoa que titulariza o nome: Empresário individual: Conforme o artigo 1.156 do Código Civil, "o empresário opera sob firma constituída por seu nome, completo ou abreviado, aditando-lhe, se quiser, designação mais precisa da sua pessoa ou do gênero de atividade". Sociedade empresária: O nome da sociedade empresária diz muito sobre ela, já que pelo nome é possível identificar o tipo societário que ela adota e a responsabilidade dos sócios que a compõem. Sociedade com sócios de responsabilidade ilimitada: Conforme o artigo 1.157 do Código Civil, "a sociedade em que houver sócios de responsabilidade ilimitada operará sob firma, na qual somente os nomes daqueles poderão figurar, bastando para formá-la aditar ao nome de um deles a expressão 'e companhia' ou sua abreviatura". Sociedade limitada: Conforme o artigo 1.158 do Código Civil, "pode a sociedade limitada adotar firma ou denominação, integradas pela palavra final 'limitada' ou a sua abreviatura". Sociedade cooperativa: Conforme o artigo 1.159 do Código Civil, "a sociedade cooperativa funciona sob denominação integrada pelo vocábulo'cooperativa'". Sociedade anônima: Conforme o artigo 1.160 do Código Civil, "a sociedade anônima opera sob denominação integrada pelas expressões 'sociedade anônima' ou 'companhia', por extenso ou abreviadamente, facultada a designação do objeto social". Sociedade em comandita por ações: Conforme o artigo 1.161 do Código Civil, "a sociedade em comandita por ações pode, em lugar de firma, adotar denominação aditada da expressão 'comandita por ações', facultada a designação do objeto social". Sociedade em conta de participação: Conforme o artigo 1.162 do Código Civil, "a sociedade em conta de participação não pode ter firma ou denominação". Esta sociedade é puramente contratual e não cria uma pessoa jurídica. Se não é pessoa, não tem nome. Princípios do Nome Empresarial Conforme a Instrução Normativa DREI nº 81, de 10/06/2020, o nome empresarial atenderá aos princípios da veracidade e da novidade e identificará, quando assim exigir a lei, o tipo jurídico adotado. Se a Junta Comercial verificar erro na composição do nome empresarial, ainda que devido à semelhança, ou afronta aos princípios da veracidade e/ou novidade, deve promover notificação ao interessado para que ele promova, no prazo de trinta dias da notificação, a alteração do nome empresarial, e o bloqueio total no cadastro do empresário ou da sociedade. Situações Especiais Empresa em processo de liquidação: Ao final dos nomes do empresário individual, da sociedade empresária e da cooperativa que estiverem em processo de liquidação, após a anotação no Registro de Empresas, deverá ser aditado o termo "em liquidação". Empresa em processo de recuperação judicial: Conforme o artigo 69 da Lei nº 11.101/2005, "em todos os atos, contratos e documentos firmados pelo devedor sujeito ao procedimento de recuperação judicial deverá ser acrescida, após o nome empresarial, a expressão 'em Recuperação Judicial'". Microempreendedor Individual (MEI): O empresário individual, enquadrado na condição de Microempreendedor Individual (MEI), que realizar o desenquadramento desta condição, deve proceder com a alteração do nome empresarial, para fins de adequação às normas relativas a composição do nome. PATRIMÔNIO TANGÍVEL E INTANGÍVEL DA EMPRESA Conceito de Patrimônio O patrimônio é o complexo de relações jurídicas que cada pessoa tem, com expressão econômica (Clóvis Bevilaqua). Cuida-se de uma universalidade de direito e seria uma emanação da personalidade. A concepção clássica de patrimônio é devida a Charles Aubry e Charles Rau, na obra: "Cours de droit civil français: d'après la méthode de Zachariae". O patrimônio pode ser decomposto em duas perspectivas: Positivo: É o subconjunto dos direitos e bens; Negativo: É o subconjunto correspondente às obrigações. A soma de ambos é o patrimônio no sentido clássico. O empresário organiza os meios de produção para produzir ou circular bens e serviços no intuito de lucro de modo profissional. Para tanto, deverá organizar o patrimônio destinado ao desenvolvimento da atividade, sem prejuízo da manutenção de patrimônio particular para satisfação de suas necessidades básicas. O que a prudência recomenda é a correta separação do que é patrimônio da empresa, do que é patrimônio da pessoa natural, que exerce a mercancia. Quando a exerce por pessoa jurídica, os patrimônios são naturalmente separados. Patrimônio Tangível O patrimônio tangível refere-se aos bens materiais, que possuam existência física e podem ser tocados (são palpáveis) ou visualizados. Costuma ter valor econômico, podendo ser contabilizados com facilidade. Costumam ser utilizados diretamente na atividade produtiva ou na prestação de serviços da empresa, representando parte do capital fixo e circulante do negócio e contribuindo diretamente para a operação. Exemplos de patrimônio tangível: Imóveis: Terrenos, edifícios, fábricas. Equipamentos: Máquinas, veículos, computadores, móveis. Estoque: Produtos destinados à venda ou insumos de produção. Patrimônio Intangível O patrimônio intangível compreende os bens imateriais, que não possuem existência física, mas que podem gerar valor econômico para o titular, a começar pelo nome do empreendimento. Embora não possam ser tocados, esses ativos são cruciais para o sucesso e crescimento do negócio. Embora sejam difíceis de avaliar em termos econômicos, possuem grande impacto no valor de mercado da empresa. Exemplos de patrimônio intangível: Marcas e patentes: A propriedade sobre uma marca registrada ou patente de invenção. Goodwill: A reputação e a clientela de uma empresa que podem agregar valor além dos ativos físicos. Propriedade intelectual: Direitos autorais, softwares, licenças e concessões. Knowhow: Conhecimento especializado ou métodos de produção que diferenciam uma empresa no mercado. Importância do Patrimônio para a Empresa O patrimônio tangível e o intangível são essenciais para a determinação do valor da empresa e para atestar sua capacidade de honrar suas obrigações. Em situações de falência, fusões ou aquisições, a avaliação desses ativos se torna crucial para definir o valor da empresa. A proteção dos bens intangíveis (como marcas e patentes) são tratados com destaque no Direito Empresarial, já que poderão ser fonte de vantagem competitiva e inovação. Compreender a distinção entre bens tangíveis e intangíveis é fundamental tanto para a gestão financeira de uma empresa quanto para a análise de sua posição patrimonial e estratégias de crescimento. Estabelecimento Empresarial O estabelecimento empresarial é o conjunto de bens corpóreos e incorpóreos que compõem o acervo da empresa, servindo-lhe para o alcance de sua finalidade produtiva e lucrativa, bem como servindo de garantia ao pagamento das obrigações empresariais. O estabelecimento não é apenas um conjunto de bens isolados, devendo ser entendido como um todo com destinação específica – universalidade por destinação. Conforme o artigo 1.142 do Código Civil, "considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária". O estabelecimento não se confunde com o local onde se exerce a atividade empresarial, que poderá ser físico ou virtual. A noção de "estabelecimento" tem origem no Código Civil Italiano de 1942, cujo artigo 2555 define "azienda" como "o complexo de bens organizados pelo empresário para o exercício da empresa". A partir dessa base, países como o Brasil começaram a adotar conceitos semelhantes, com variações doutrinárias e jurídicas. Terminologia Fundo de comércio (França): É o termo equivalente a "azienda". Refere-se também a esse conjunto de bens organizados para a exploração de uma atividade comercial. Fundo mercantil: Utilizado no Brasil para descrever o estabelecimento comercial em tempos anteriores ao atual Código Civil. Patrimônio Aziendal: Termo usado em economia para enfatizar o caráter organizacional do estabelecimento no contexto da gestão de empresas. Natureza Jurídica do Estabelecimento Rubens Requião: Define o estabelecimento como "o instrumento da atividade do empresário", destacando que o estabelecimento é o meio pelo qual a empresa se concretiza. Ou seja, o foco é na funcionalidade e na operação. Carvalho de Mendonça: O estabelecimento é "um complexo de meios materiais e imateriais pelos quais o comerciante explora determinada espécie de comércio". Isso inclui tanto bens materiais (como imóveis e máquinas) quanto imateriais (como knowhow, marcas e clientela). Dylson Doria e Navarrini: O estabelecimento é um "complexo das várias forças econômicas e dos meios de trabalho necessários para a atividade empresarial". Aqui, o foco está na unidade formal entre esses meios e a finalidade empresarial. O conceito atual de estabelecimento empresarial no Código Civil (art. 1.142) reflete essas teorias ao definir o estabelecimento como o conjunto de bens organizados para o exercício da empresa. A legislação tenta balancear a funcionalidade prática do estabelecimento com sua estrutura jurídica, vinculando-o diretamente à organizaçãopara o exercício de uma atividade econômica. Princípio da Unidade Patrimonial e Separação Patrimonial O princípio da unidade patrimonial afirma que uma pessoa só pode possuir um patrimônio, sendo este único e indivisível. O empresário, ao organizar um estabelecimento, separa parte de seus bens para o exercício da atividade empresarial. No Direito Brasileiro, essa separação só se torna relevante em termos de obrigações e direitos quando o estabelecimento é transferido. Na prática, isso significa que, em situações normais, o patrimônio pessoal do empresário não é diferenciado do patrimônio da empresa (exceto nas hipóteses legais específicas). Doutrinadores como Hernani Estrella criticam a separação patrimonial na empresa individual, argumentando violação direta ao princípio da unidade patrimonial. Permitir que o empresário crie duas massas patrimoniais distintas (pessoal e empresarial) é uma "ficção jurídica" que não deveria ser admitida. Por outro lado, Fran Martins foi um defensor da criação da empresa individual de responsabilidade limitada, sustentando a possibilidade de separação patrimonial para o exercício do comércio, isto é, a criação de um patrimônio empresarial distinto do patrimônio pessoal do empresário. Se o sócio pode limitar suas responsabilidades sem comprometer seu patrimônio pessoal, o mesmo direito deve ser facultado ao comerciante individual. ESCRITURAÇÃO MERCANTIL Conceito e Importância A escrituração mercantil é o registro sistemático e cronológico das operações realizadas pelo empresário ou pela sociedade empresária. É uma obrigação legal que visa garantir a transparência, a segurança e a confiabilidade das informações contábeis e financeiras da empresa. No passado, o Código Comercial de 1850 estabelecia que "ninguém é reputado comerciante para efeito de gozar da proteção que este Código liberaliza em favor do comércio, sem que se tenha matriculado em algum dos Tribunais do Comércio do Império, e faça da mercancia profissão habitual" (art. 4º). Atualmente, o Código Civil estabelece as obrigações de todo empresário: 1. Inscrição no Registro Mercantil (arts. 967971 e 1.1501.154); 2. Adoção de livros obrigatórios (arts. 1.1801.185); 3. Escrituração uniforme de livros mercantis (art. 1.179); 4. Levantamento anual de balanço patrimonial e de resultado econômico (art. 1.179); 5. Boa guarda da escrituração, da correspondência e demais papéis relativos à atividade (art. 1.194). Obrigatoriedade da Escrituração Conforme o artigo 1.179 do Código Civil, "o empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico". O pequeno empresário é dispensado das exigências de escrituração, conforme o §2º do artigo 1.179 do Código Civil. O Decreto nº 64.567, de 22 de maio de 1969, considera pequeno comerciante a pessoa natural inscrita no registro do comércio que exerça em um só estabelecimento atividade artesanal ou outra atividade em que predomine o seu próprio trabalho ou de pessoas da família, e que aufira receita bruta anual não superior a cem vezes o maior salário mínimo mensal vigente no país e cujo capital efetivamente empregado no negócio não ultrapassar vinte vezes o valor daquele salário mínimo. Livros Obrigatórios Livro Diário O Livro Diário é indispensável, conforme o artigo 1.180 do Código Civil, e pode ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica. No entanto, a adoção de fichas não dispensa o uso de livro apropriado para o lançamento do balanço patrimonial e do de resultado econômico. No Diário, escreve-se a história cotidiana da empresa. Deve-se lançar de modo claro e cronológico: 1. Todas as operações, quer a prazo quer à vista; 2. As letras e outros quaisquer papeis de crédito que emite, aceita, avaliza ou endossa; 3. Tudo quanto recebe e despende de sua conta ou de conta alheia, seja a que título for; 4. O balanço patrimonial e o de resultado econômico. Conforme o artigo 5º do Decreto-Lei nº 486, de 3 de março de 1969, "sem prejuízo de exigências especiais da lei, é obrigatório o uso de livro Diário, encadernado com folhas numeradas seguidamente, em que serão lançados, dia a dia, diretamente ou por reprodução, os atos ou operações da atividade mercantil, ou que modifiquem ou possam vir a modificar a situação patrimonial do comerciante". Antes de poder ser legalmente utilizado, o Livro Diário precisa de autenticação do Registro Público de Empresas Mercantis, o que pressupõe a prévia inscrição do empresário no mesmo registro. O Diário conterá termo de abertura e de encerramento, precedentes à sua escrituração, que revelará todas as operações do empresário. Livros Auxiliares O Livro Diário pode ser resumido, por totais que não excedam o período de um mês, relativamente a contas cujas operações sejam numerosas ou realizadas fora da sede do estabelecimento, desde que utilizados livros auxiliares para registro individualizado e conservados os documentos que permitam sua perfeita verificação. Os livros auxiliares do Diário resumido tornam-se obrigatórios. Os principais são: 1. Livro Razão: Enquanto no Livro Diário se registra as transações em ordem cronológica, no Livro Razão se organiza as informações contábeis de acordo com as contas contábeis específicas. 2. Livro Caixa: No livro caixa registram-se os recebimentos e os pagamentos realizados em dinheiro durante um período. 3. Livro de Contas Correntes: O livro conta corrente é um livro auxiliar do Livro Razão, destinado a controlar as contas que representam direitos e obrigações para uma empresa. Modo de Fazer a Escrituração Conforme o artigo 1.183 do Código Civil, "a escrituração será feita em idioma e moeda corrente nacionais e em forma contábil, por ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem entrelinhas, borrões, rasuras, emendas ou transportes para as margens". É permitido o uso de código de números ou de abreviaturas, que constem de livro próprio, regularmente autenticado. O Decreto-Lei nº 486, de 3 de março de 1969, estabelece que "a escrituração será completa, em idioma e moeda corrente nacionais, em forma mercantil, com individuação e clareza, por ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem entrelinhas, borraduras, rasuras, emendas e transportes para as margens". Os erros cometidos serão corrigidos por meio de lançamentos de estorno. Balanço Patrimonial e de Resultado Econômico O balanço patrimonial ou balanço contábil é um relatório revelador da situação contábil e econômica de uma empresa em determinado período. Indica e descreve todos os bens e direitos de um empresário, identificando as fontes dos seus recursos e os investimentos, bem como todas as suas despesas e dívidas. Conforme o artigo 1.188 do Código Civil, "o balanço patrimonial deverá exprimir, com fidelidade e clareza, a situação real da empresa e, atendidas as peculiaridades desta, bem como as disposições das leis especiais, indicará, distintamente, o ativo e o passivo". O resultado econômico é a diferença entre as receitas e as despesas da empresa em determinado período. Conforme o artigo 1.189 do Código Civil, "o balanço de resultado econômico, ou demonstração da conta de lucros e perdas, acompanhará o balanço patrimonial e dele constarão crédito e débito, na forma da lei especial". PROPRIEDADE INDUSTRIAL Conceito e Abrangência Propriedade industrial é o ramo do direito que tem por objeto as patentes de invenção e de modelo de utilidade, marca, desenho industrial, indicação geográfica, segredo industrial e repressão a concorrência desleal. Visa proteger a criatividade e o gênio humano, no que toma à indústria e ao comércio. A propriedade industrial confere ao criador ou titular, um título de propriedade (direitos exclusivos) de usar, produzir ou comercializar sua invenção, design ou marca, por um período de tempo, evitando que outros usem ou copiemsua invenção sem autorização. A exploração desses bens é regulamentada pela Lei de Propriedade Industrial (LPI), Lei nº 9.279/1996, e os direitos são concedidos pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Conforme o artigo 2º da Lei de Propriedade Industrial, a proteção dos direitos relativos à propriedade industrial, considerado o seu interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País, efetua-se mediante: 1. Concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade; 2. Concessão de registro de desenho industrial; 3. Concessão de registro de marca; 4. Repressão às falsas indicações geográficas; 5. Repressão à concorrência desleal; 6. Concessão de registro para jogos eletrônicos. Patentes A patente é um título de propriedade temporário concedido pelo Estado ao inventor ou titular de uma invenção ou de um modelo de utilidade. Esse título dá ao titular o direito exclusivo de explorar comercialmente a sua criação, impedindo que terceiros utilizem, fabriquem, vendam ou importem sem sua autorização, durante o período de vigência da patente. Conforme o artigo 6º da Lei de Propriedade Industrial, "ao autor de invenção ou modelo de utilidade será assegurado o direito de obter a patente que lhe garanta a propriedade, nas condições estabelecidas nesta Lei". Patentear significa: Obter exclusividade: O titular da patente possui o direito exclusivo de usar, vender ou licenciar a invenção. Proteger a invenção: Ninguém mais pode usar ou comercializar a invenção sem autorização durante o prazo de vigência da patente. Estimular a inovação: O sistema de patentes visa promover a inovação ao proteger os inventores e permitir que eles obtenham retorno financeiro por suas criações. Tipos de Patente 1. Patente de Invenção: Protege uma criação que oferece uma solução técnica nova para um problema específico. A invenção deve ser algo inédito e não óbvio para especialistas na área, com aplicação industrial que traga um progresso técnico. Conforme o artigo 8º da Lei de Propriedade Industrial, "é patenteável a invenção que atenda aos requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial". Novidade: A invenção deve ser algo novo, não compreendido no "estado da técnica" (conhecimento público existente antes dos dados de depósito do pedido de patente). Atividade Inventiva: Não pode ser algo óbvio para um técnico da área. Aplicação Industrial: A invenção deve poder ser aplicada em algum setor da indústria ou comércio. O prazo de proteção de invenção é de 20 anos a partir dos dados de depósito no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), conforme o artigo 40 da Lei de Propriedade Industrial. 2. Patente de Modelo de Utilidade: Protege inovações em objetos já existentes, que resultem em melhorias funcionais ou maior eficiência no uso. Não é uma invenção completamente nova, mas uma melhoria que traz vantagens práticas. Conforme o artigo 9º da Lei de Propriedade Industrial, "é patenteável como modelo de utilidade o objeto de uso prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que apresente nova forma ou disposição, envolvendo ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação". O prazo de proteção de modelo de utilidade é de 15 anos a partir dos dados de depósito no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), conforme o artigo 40 da Lei de Propriedade Industrial. O que não pode ser patenteado: Conforme o artigo 10 da Lei de Propriedade Industrial, não se considera invenção nem modelo de utilidade: 1. Descobertas, teorias científicas e métodos matemáticos; 2. Concepções puramente abstratas; 3. Esquemas, planos, princípios ou métodos comerciais, contábeis, financeiros, educativos, publicitários, de sorteio e de fiscalização; 4. As obras literárias, arquitetônicas, artísticas e científicas ou qualquer criação estética; 5. Programas de computador em si; 6. Apresentação de informações; 7. Regras de jogo; 8. Técnicas e métodos operatórios ou cirúrgicos, bem como métodos terapêuticos ou de diagnóstico, para aplicação no corpo humano ou animal; 9. O todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de qualquer ser vivo natural e os processos biológicos naturais. É importante ressaltar que não há patente de seres vivos. A proteção aos cultivares se dá pela Lei nº 9.456, de 25 de abril de 1997, que institui o direito de Proteção de Cultivares. Conforme o artigo 2º desta lei, "a proteção dos direitos relativos à propriedade intelectual referente a cultivar se efetua mediante a concessão de Certificado de Proteção de Cultivar, considerado bem móvel para todos os efeitos legais e única forma de proteção de cultivares e de direito que poderá obstar a livre utilização de plantas ou de suas partes de reprodução ou de multiplicação vegetativa, no País". Também não há patente de programas de computador em si. A proteção aos softwares se dá pela Lei nº 9.609, de 19 de fevereiro de 1998. Conforme o artigo 2º desta lei, "o regime de proteção à propriedade intelectual de programa de computador é o conferido às obras literárias pela legislação de direitos autorais e conexos vigentes no País, observado o disposto nesta Lei". A proteção aos direitos de que trata esta Lei independe de registro e tem prazo de cinquenta anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente ao da sua publicação ou, na ausência desta, da sua criação. Marcas A marca é o sinal distintivo de produtos ou serviços, garantindo que os consumidores possam identifica-los no mercado. A marca pode ser um nome, logotipo, símbolo ou qualquer combinação desses elementos. Conforme o artigo 122 da Lei de Propriedade Industrial, "são suscetíveis de registro como marca os sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais". Funções da Marca Distinção: Identificar a origem do produto ou serviço. Garantia de qualidade: Certifique-se de que o produto ou serviço segue determinadas normas. Publicitária: Usada para promover o produto ou serviço. Classificação das Marcas As marcas podem ser definidas em conformidade com diversos critérios: 1. Quanto à Aplicação: Marca de Produto ou Serviço: Usado para identificar produtos ou serviços específicos. Exemplo: Nike para produtos esportivos (calçados, roupas, acessórios), Uber para serviços de transporte. Marca de Certificação: Atesta a conformidade de um produto ou serviço com determinadas normas ou especificações técnicas. Exemplo: ISO 9001 (certificação de qualidade para empresas), Comércio Justo (certificação de práticas comerciais justas). Marca Coletiva: Usada para identificar produtos ou serviços de membros de uma determinada entidade, como associações ou cooperativas. Exemplo: Cooperativa Vinícola Garibaldi (usada por vinícolas associadas para identificar seus produtos), Indicação Geográfica do Café do Cerrado Mineiro (usada por produtores de café da região). 2. Quanto à Finalidade: Marcas Singulares: Identifica um único produto ou serviço. Exemplo: iPhone (marca singular, específica para um único produto da Apple), Red Bull (marca de uma única categoria de bebida energética). Marcas Gerais: Identificam uma série de produtos ou serviços de uma mesma marca. Exemplo: Nestlé (usada para diversos produtos alimentares, como chocolates, cafés, laticínios, etc.), Samsung (aplicada a uma vasta gama de produtos eletrônicos, como smartphones, TVs, eletrodomésticos). 3. Quanto à Forma: Marcas Nominativas (Verbais): Compostas apenas por palavras, letras ou números. Exemplo: Google (marca nominativa formada pela palavra "Google"), Coca-Cola (marca nominativa formada pela combinação das palavras "Coca" e "Cola"). Marcas Figurativas (Emblemas): Compostas apenas por elementos gráficos, sem palavras. Exemplo: A maçã mordida da Apple, O swoosh da Nike. Marcas Mistas (Compostas): Combinam elementos nominativos e figurativos. Exemplo: Starbucks (combina o nome"Starbucks" com a figura da sereia), McDonald's (combina o nome "McDonald's" com o arco dourado). Marcas Tridimensionais: Formadas pela forma distintiva do produto ou de sua embalagem. Exemplo: A garrafa da Coca-Cola, O formato do chocolate Toblerone. 4. Quanto ao Conhecimento: Marcas de Alto Renome: Marcas conhecidas em todo o território nacional, que recebem proteção especial em todas as classes de produtos e serviços. Exemplo: Coca-Cola, Nike, Apple. Marcas Notoriamente Conhecidas: Marcas que, embora não registradas no Brasil, são amplamente conhecidas em seu ramo de atividade e recebem proteção especial. Exemplo: Ferrari (mesmo que não estivesse registrada no Brasil, seria protegida no setor automobilístico devido à sua notoriedade mundial). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASCARELLI, Tullio. Corso di diritto commerciale: introduzione e teoria dell'impresa. 3. ed. Milano: Giuffrè, 1962. BARRETO FILHO, Oscar. Teoria do estabelecimento comercial Fundo de comércio ou fazenda mercantil. São Paulo: Max Limonad, 1969. BEVILAQUA, Clóvis. Teoria geral do direito civil. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1929. CARVALHO DE MENDONÇA, José Xavier. Tratado de direito commercial brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1933. COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. GALGANO, Francesco. Tratato di diritto commerciale e di diritto publico dell'economia. v. II, Pádua: Cedam, 1978. MARTINS, Fran. Curso de direito comercial. 40. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. Rio de Janeiro: Borsoi, 1954. REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. ROISIN, Christopher Alexander. Direito Empresarial I Noções gerais. Material de aula, 2025. ROISIN, Christopher Alexander. Conceito de empresa elementos. Material de aula, 2025. ROISIN, Christopher Alexander. Empresário individual. Material de aula, 2025. ROISIN, Christopher Alexander. Escrituração mercantil. Material de aula, 2025. ROISIN, Christopher Alexander. Empresa Patrimônio Tangível e Intangível. Material de aula, 2025. ROISIN, Christopher Alexander. Nome Empresarial. Material de aula, 2025. ROISIN, Christopher Alexander. 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