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1 Teologia Wesleyana – A graça na visão Wesleyana. Greice Cristiane Da Silva Ferreira1 Jaqueline Dos Santos Dornellas Da Silva2 Levy Bastos3 RESUMO O artigo coloca ideias sobre a graça de Deus ao longo do tempo. Nele observaremos a necessidade do ser humano acerca de Deus e da sua graça demonstrados através de uma perspectiva teológica, prática, sólida e doutrinária na visão da Bíblia, na história do cristianismo e na teologia Wesleyana no contexto anterior e atual. Abordaremos de forma simples e direta essa Teologia, de maneira que compreendam essa identidade no modo de pensar a graça em John Wesley. PALAVRAS-CHAVE: Graça; salvação; visão bíblica da graça; teologia wesleyana; metodismo. 1 INTRODUÇÃO Quando falamos sobre a graça de Deus pensamos em como ela muitas vezes está tão perto e ao mesmo tempo tão distante da humanidade, e como essa graça tão genuína é apresentada aos homens, levando-os a refletir naquilo que esse favor imerecido provoca na vida de quem o alcança, mudando e oferecendo um novo sentido de vida ao ser humano. Esta pesquisa tem o objetivo de analisar a Teologia da graça de Deus na visão Bíblica, na história do cristianismo e na visão de John Wesley. Concluindo com uma reflexão acerca da graça na visão Wesleyana de pensar, apresentando conteúdos analisados bibliograficamente e informações levantadas ao longo da história em John Wesley já publicadas por diversos autores. 1Graduando do curso de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. 2 Graduando do curso de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. 3 Professor Orientador. 2 A primeira seção refere-se à Teologia Bíblica da graça no Antigo e Novo Testamentos que retrata de maneira muito transparente e simples a visão da graça de Deus, no Antigo testamento destacando essa graça manifestada desde o princípio e ao longo de toda a história do homem como presença salvadora de Deus e no Novo Testamento sendo revelada ao homem através da nova aliança em Cristo que trouxe a ação resgatadora de Deus através da reconciliação. A segunda seção tem por objetivo demonstrar que ao longo dos séculos a história do cristianismo sinalizou homens que buscaram justificar em suas teorias a salvação do ser humano através da graça divina, citamos nessa seção homens como Agostinho de Hipona e Martinho Lutero, que através de suas teologias e experiências de vida deixaram como legado convicções acerca da salvação e da justificação através da fé, mediante a graça. A terceira e última seção refere-se à Teologia Wesleyana e tem como objetivo detalhar a salvação através da graça, retratando de maneira muito transparente essa graça e apresentando a reflexão de que Deus chama o ser humano como autor na construção de sua redenção. Na visão de John Wesley é através da fé e experiência pessoal que todos aqueles que querem alcançam a salvação por meio da graça de um pai amoroso e que se importa com todos os seres humanos. 2 TEOLOGIA BÍBLICA DA GRAÇA 2.1 A graça no Antigo Testamento A graça de Deus tem se manifestado desde o princípio de todas as coisas, na criação do mundo quando Deus disse haja luz, na criação do homem, dos animais e da natureza. Segundo o autor e escritor D. A. Delafield (2006, p.13), “A graça é um canal no qual as pessoas podem ser puras, bondosas e leais. Algo que pode fazer qualquer indivíduo ser diferente daquilo que é”. Deus sempre priorizou o relacionamento com sua criação, e em tudo é possível enxergar a manifestação desta graça tão genuína ao ponto de nos mínimos detalhes ser revelada a nós. No livro de Gênesis e no Êxodo é possível ver de perto o cuidado de Deus com a sua criação através do pacto feito com o homem quando o introduziu no Éden, onde a obediência era o elo principal desse acordo. Para John Murray (2001, p.51), 3 “Um pacto divino é uma administração soberana de graça e promessa.” No entanto, pode-se ir mais a fundo em tal definição de acordo com o pai do puritanismo, William Perkins (1558-1602), citado por John Murray (2001, p.10), quando diz que “O pacto da graça nada mais é do que um acordo feito entre Deus e os homens referente à reconciliação e vida eterna através de Cristo”. Foi no Éden, onde tudo começou, e mesmo diante da ingratidão expressada pelo casal que Deus havia criado com suas próprias mãos, o Senhor não hesitou em preparar túnicas para que Adão e Eva se vestissem quando sentiram vergonha por desobedecerem à ordenança de não comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Durante os dias que o Senhor precisou para criar todas as coisas, Ele olhava para tudo que criava e dizia que tudo era muito bom, mas por causa da desobediência, e com o aumento da iniquidade, o temor já não existia mais, a maldade corrompeu a humanidade, e com o arrependimento de ter feito o homem e pesar no coração, Deus decidiu então, destruir a terra e tudo que nela existia. Diante do episódio ocorrido no Éden e com o objetivo de destruir o que havia criado, Deus acha graça em um homem chamado Noé e confirma seu pacto de amor com a humanidade através de sua vida estabelecendo com o mesmo uma aliança, instruindo-o a construir uma arca que seria abrigo para ele e sua família durante o dilúvio que o próprio Deus enviaria para acabar com a raça humana que havia se corrompido. O versículo de Gênesis “Porém Noé encontrou favor aos olhos do Senhor” (Gn 6,8) nos revela que um homem alcançou graça e misericórdia para ele e sua família sendo parte fundamental de um pacto feito pelo próprio Deus que o possibilitava de desfrutar do favor imerecido dado por ele, no entanto, essa graça estava presente no Antigo Testamento de diversas formas como uma oportunidade de vida plena com o criador de todas as coisas. A arca foi uma das maiores oportunidades que o homem teve de experimentar o novo de Deus, de poder recomeçar e desfrutar da sua bondade. Nem todos puderam tomar posse desse presente divino, por causa das escolhas equivocadas que lhes custaram muito caro, desde o Éden quando Eva comeu o fruto proibido achando que seus olhos seriam abertos para conhecimentos maiores, querendo ser 4 como Deus, do mesmo modo o povo dos tempos de Noé achando que não choveria, impediram com suas atitudes a manifestação da graça em suas vidas. Após o dilúvio, Deus estabeleceu uma aliança com Noé, com sua geração e com todo ser vivente, dando a garantia de que não enviaria em hipótese alguma um dilúvio como aquele, ao ponto de destruir o homem. Esse acordo trouxe conforto, e segurança na certeza de que através da graça de Deus essa aliança estaria presente na vida do homem eternamente. Sobre tal afirmativa é possível citar John Murray (2001, p.23), onde o mesmo menciona: Não será destruída toda carne por águas de dilúvio (Gn 9,11). A perpetuidade está atrelada ao caráter divinamente unilateral e monergista do pacto. Ele pode ser perpétuo porque é divino em sua origem, administração, estabelecimento e ratificação. E nós podemos dizer que a perpetuidade tanto se origina na divindade como dá testemunho dela. O tempo todo, o bom Deus criava e cria até os dias atuais oportunidades para a humanidade desfrutar do seu amor e graça dando a todos a liberdade de escolha. Adão e Eva escolheram pecar, a humanidade no tempo de Noé escolheu permanecer na maldade, ou seja, nunca seremos obrigados a nada e jamais encontraremos nas escrituras relatos de pessoas que foram obrigadas. No entanto, Deus dá ao homem o direito de decisão e sempre espera que a faça da melhor forma. Segundo D. A. Delafield (2006, p.17): A graça de Deus faz por você somente aquilo que você mesmo não pode fazer sozinho. Embora seja verdade que ninguém pode mudar o próprio coração - só Deus o pode- o fato é que você precisa agir de acordo com que lhe dizem os impulsos de um coração convertido, e tomar cada diaa decisão de proceder corretamente e de obedecer a Deus. Foi assim também com os hebreus que viviam escravos no Egito, o livro de Êxodo nos relata detalhes do chamado de Moisés e do seu envio como salvador de um povo que era mantido na escravidão durante muito tempo por Faraó. Desde o nascimento de Moisés tudo sempre foi muito complicado para ele e sua família, pois na época o rei do Egito, havia mandado matar todas as crianças do sexo masculino que nascessem pois temia o crescimento exagerado dos hebreus. Após nascer e livre da morte, com apenas três meses de vida, ele foi enviado pelo rio em direção a casa de Faraó onde foi encontrado e criado como príncipe. A chegada de Moisés ainda bebê ao palácio de Faraó não foi por acaso, foi pela graça de Deus para que se cumprisse o propósito do Senhor na vida daqueles que viviam oprimidos no Egito e também em sua vida que não escaparia da morte 5 se não fosse o Senhor ter o livrado e o colocado entre os príncipes para que pudesse crescer no lugar onde seria usado como instrumento de Deus para libertar os cativos. O povo que era mantido em dura servidão, sujeitos às ordens de faraó, sonhava com a liberdade, mas quando a mesma é conquistada e finalmente conseguem sair do Egito, eles não entendem o propósito do Senhor, e esmorecem na caminhada. Nota-se, portanto, que para John Murray (2001, p.33), “O pacto mosaico dá um apoio à concepção de pacto mais aceitável do que qualquer outra aliança de Deus com os homens”. Os propósitos do Eterno Deus não precisam ser compreendidos e sim vividos conforme a sua vontade, mas o povo não compreendia isso. Conforme John Murray (2001, p.37), “O pacto mosaico com respeito à condição de obediência não é uma categoria diferente das outras”. Com muita frequência se presume que as condições prescritas no pacto mosaico colocam a dispensação mosaica em uma categoria totalmente diferente. Com relação a graça por um lado e exigência ou obrigação por outro. Durante toda caminhada em direção a terra prometida, o criador concedeu inúmeras demonstrações do seu amor e da sua genuína graça. No deserto durante o dia com a nuvem dando refrigério em meio ao calor extremo, e a noite com a coluna de fogo para aquecer do frio e principalmente ao enviar o maná todos os dias para saciar a fome do seu povo. De acordo com Leonardo Boff (1976, p.20-21): A graça cria situações Kairológicas que fundam marcos referenciais, para a memória histórica da graça divina como bondade concreta de Deus na libertação do Egito, no exílio babilônico, no culto, na tranquilidade da paz e da ordem. Contudo, sabemos que a graça é um presente recebido, não por obras ou por mérito, mas por amor, essa dádiva está disponível a humanidade desde a fundação do mundo, no Antigo Testamento havia a presença salvadora de Deus, independente de cor, raça ou posição social, cabia ao homem desfrutar ou não desse privilégio. Assim, é nítido o que afirma Wilhelmus À Brakel (1635-1711), mencionado por Christopher Vicente (2019, p.10): De tudo isso é evidente que os crentes sob o antigo testamento desfrutavam dos benefícios da aliança da graça, tinham a aliança e eram participantes da mesma aliança conosco tendo todos comido a mesma carne espiritual e tendo bebido a mesma bebida espiritual. 6 2.2 A graça no Novo Testamento A Bíblia apesar de ser um único livro, contém livros que carregam histórias de muitos homens e mulheres, ela revela principalmente a história da salvação do ser humano através da manifestação da graça de Deus. O Novo testamento ou nova aliança revela ao ser humano a manifestação dessa ação de Deus através da fé. A graça é a fonte e a fé é a condição para o ser humano ser alcançado por essa salvação. O termo “Graça” no Antigo Testamento significa “favor”, bondade de Deus, esse termo no Novo Testamento refere-se aquele favor que o homem não merece, benefício, um presente que Deus lhe concede em Jesus Cristo, essa graça é perdão, justificação, redenção, um amor incondicional que não depende da pessoa que o recebe, mas que para receber essa graça é necessário crer, definição de acordo com o Vocabulário Bíblico ALLMEN J.J Von (1972, p.158): “As consequências da encarnação são a graça e a verdade: todo amor do Deus que dá e perdoa, toda a revelação, conhecimento de Deus, estão em Jesus Cristo para serem comunicados aos homens, a fim de tirá-los das trevas.” A graça de Deus possui suas multifaces que atestam misericórdia e amor demonstrados por Jesus Cristo que pagou todo o preço pelo pecado humano, Deus abençoa o ser humano através de Cristo apesar de não merecer. A Bíblia aborda que todos os homens por si só são pecadores e carecem da glória de Deus e de sua justificação, ela nos leva a compreender que os seres humanos carecem dessa redenção e libertação, sendo ela a graça a base dessa condição salvífica como diz na carta de Efésios "Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef 2,8). O Novo Comentário Bíblico NT (2010, p. 505) define Efésios 2, versículo 8: Os cristãos foram salvos pela graça. A graça de Deus é a fonte de salvação, a fé é o meio para obtê-la, não a causa. A salvação não provém dos esforços das pessoas; ela é fruto da benignidade de Deus. Na verdade, Deus é quem nos salva - do Senhor vem a salvação. O particípio do verbo salvar (salvos) nesta passagem indica que a salvação do cristão já ocorreu no passado, quando Jesus morreu por nós na cruz. Somente com a manifestação e a entrega sacrificial de Jesus é possível que o ser humano seja justificado, pois é através da graça “o que não merecia” que Deus nos salva da morte e nos restitui gratuitamente. 7 O ser humano é um pecador e completamente incompatível com a natureza bondosa de Deus, sozinho não pode alcançar esse estado de graça e perdão, Deus é o único que pode conduzi-lo a esse caminho de amor inexplicável que se ofereceu perdoando a ofensa recebida manifestada através da redenção em Jesus Cristo. A graça no Novo Testamento pode ser comparada a uma nova atmosfera salvífica, a esperança para o destino humano e do mundo encontram no presente um fim fora da ira de Deus, através da salvação de Jesus Cristo. A graça é assim uma nova atmosfera salvífica, um acontecer escatológico que nos faz participar da realidade definitiva do Reino e da vida mesma de Deus. Por isso a graça que foi Jesus Cristo, como a salvação presente de Deus, encarnada e feita história, deslanchou esperanças escatológicas para a irrupção próxima da total comunicação amorosa de Deus. (BOFF, 1976, P.21). A graça de Deus é de graça para todas as pessoas, agindo sobre a vida do homem em muitas formas, manifestando-se e trazendo salvação, redimindo o ser humano e os ensinando a caminhar em santidade, observaremos um escrito de Paulo na carta direcionada a Tito irmão e colaborador na expansão do evangelho da graça “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos” (Tt 2,11). Foi tão unicamente através de um amor incondicional como esse, capaz de se manifestar de tal maneira e oferecer-se sem que se fosse feito absolutamente nada para ser alvo dessa maravilhosa graça, que o ser humano recebeu liberdade e uma nova história para o seu destino. Um Deus tão humano e presente que se tornou carne e veio habitar em nosso meio, cheio de graça e verdade, doando-se, identificando-se com o homem, tornando-se maldição em seu lugar, é nesse Deus que encontraremos acesso ao trono da graça. De acordo com Boff (1976, p.15), “Por isso a graça fala da reconciliação do céu e da terra.” A graça é a fonte que a humanidade pode beber, Jesus se manifestou em graça sendo Ele mesmo o caminho; e dotado de grande compaixão tornou-se esse acesso de graça para aqueles e por aqueles que outrora estavam sentenciados à perdição. “A saber, que Deus estava em Cristoreconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra da reconciliação.” (2 Co 5,19). Diante de um Deus que manifestou reconciliação a cada pessoa e salvação como oportunidade de um novo nascimento, podemos acreditar que o Novo Testamento afirma em Cristo essa intenção da essência do Pai, que foi sempre a de 8 redimir o ser humano de suas ações pecaminosas e o resgatar de sua condição de morte. E mesmo o ser humano não merecendo, Deus em seu infinito amor e misericórdia faz o convite para que a humanidade através do filho experimente essa graça e convencido pelo Espírito Santo identifique que a salvação imerecida nos alcança e nos justifica ao longo do caminho. JOINER, Eduardo (2004, p. 390) descreve em Manual Prático de Teologia que o motivo da justificação do homem provém exclusivamente da imensa graça de Deus. “A causa original da justificação é o livre e imerecido amor de Deus: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” 3 A TEOLOGIA DA GRAÇA NA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO O objetivo desta seção é sinalizar que ao longo da experiência histórica do Cristianismo podemos observar homens buscando teorias que justifiquem o destino do ser humano em relação ao plano de salvação. Homens que fizeram reformas e através de suas vidas, trouxeram convicções sobre sua salvação mediante a graça divina. Portanto, usaremos duas figuras importantes em nossa história cristã, reformadores que se converteram e vivenciaram em sua fé a ação salvadora de Deus em suas vidas, observaremos questões relevantes na vida de Agostinho e Martinho Lutero e o que foi deixado como herança de graça para a história do cristianismo. 3.1 A graça em Agostinho de Hipona Agostinho de Hipona é conhecido como o pai teológico da Reforma Protestante pelos calvinistas, e alguns teólogos afirmam que Agostinho entendia que todo antigo testamento apontava o caminho para Jesus. Sendo conhecido como doutor da graça, o teólogo da patrística mais citado pelos reformadores pelo fato de sintetizar fé e razão e entender que todo pecador é incapaz de ter um relacionamento com Deus se não for pela fé através da razão. Agostinho buscava na razão a justificativa para a fé e defendia que só podemos encontrar a verdadeira liberdade através da graça, pois o homem não a 9 alcança por merecimento, e sim pela fé, destacando que a vida eterna também é alcançada pela graça de Deus como recompensa pela vida de retidão na terra. Todos podem optar pelo livre arbítrio, escolhendo ser escravo do pecado ou desfrutar da graça de Deus. Santo Agostinho (1999, p.23) declara: “Irmãos, é vosso dever pelo livre arbítrio não fazer o mal, mas praticar o bem.” De acordo com o antigo testamento, os judeus viviam sob o jugo da lei e não sob a graça, por isso eram dominados pelo pecado, por que a lei não liberta, mas sim a graça. É possível encontrar no relato de Santo Agostinho (1998, p.17): Se o caminho da verdade permanecer oculto, de nada vale a liberdade, a não ser para pecar. E quando começará se manifestar o que se deve fazer e para onde se dirige, não se age, não se abraça o bem, não se vive retamente, se com o bem não se deleita, e não se o ama. Agostinho abandona a fé maniqueísta depois de repensar sobre o caráter de Deus. No maniqueísmo as pessoas acreditavam existir no universo duas forças iguais e opostas, uma boa e outra ruim, e quanto mais Agostinho se aprofundava nessas teorias, mas ele entendia que precisava se afastar deles, e quando se converteu de vez ao cristianismo sendo impactado pela carta aos Romanos entendeu que precisava priorizar outras linhas de pensamento se colocando também em oposição aos pelagianos, monges que ensinavam que o homem não carregava a mancha do pecado original herdada de Adão e Eva, afirmando não existir pecado original. A ideia do pecado original é bastante presente no pensamento agostiniano, enquanto Pelágio afirmava que o ser humano possui uma capacidade natural para fazer o bem, no pensamento agostiniano aprendemos que o ser humano não é assim tão livre, sendo totalmente dependente da graça de Deus. Pelágio incomodava muito Agostinho com o conceito que tinha sobre a graça, afirmando que a mesma era um socorro divino de acordo com os méritos dos homens e para alcançar a salvação bastava apenas ser bom e fazer o bem levando Agostinho a enfatizar com mais veemência a doutrina do pecado original. Com a sua conversão Agostinho chegou à conclusão de que o mal não existe, sendo assim, fruto das ações do homem, entendendo ser o livre arbítrio a oportunidade de o homem encontrar a felicidade e andar em retidão, sem ficar refém da lei ao contrário de algumas teorias como a de Pelágio onde afirmava que salvação não dependia da Graça. Santo Agostinho (1998, p.106) afirma: 10 Desse modo, são tão diferentes as características da lei e da graça, que a lei não apenas em nada ajuda, mas, pelo contrário, é um grande dano, não havendo a ajuda da graça. Percebe-se a utilidade da lei, quando ela obriga os seus transgressores a recorrerem a graça para se libertarem do pecado e para superarem a má concupiscência mediante a ajuda. Para Agostinho não basta ter o conhecimento da lei sem o auxílio da graça de Deus. A lei como um fardo de um castigo a ser carregado só traz ruínas. O homem sempre sentiu necessidade de ser livre e a lei aprisiona, mas a graça liberta. O pecado é sem dúvida o que destrói o homem e por causa disso todos sofrem, o homem, os animais a natureza que clama por socorro, necessitando da graça de Deus. De acordo com Santo Agostinho (1998, p.54): Neste estado, o homem não teria salvação se não lhe fosse dada a graça de Deus. Esta é dom gratuito. Não é devida aos méritos humanos. “Gratia gratis data, unde etGratia nomiatur” (a graça é dada de graça, pelo que esse nome lhe é dado). Agostinho insiste em que a graça não é dada em recompensa a nossos méritos ou devido à nossa dignidade. Portanto, esse teólogo tão respeitado em seu tempo deixou um legado muito importante para a história da igreja defendendo a importância da fé, da dependência de Deus, do livre arbítrio e da graça como o ponto de partida para uma vida plena. No entanto, é preciso ressaltar a relevância da carta aos Romanos e suas influências nos pensamentos de Agostinho que foram a alavanca para que ele defendesse com tanta precisão a salvação através da graça. 3.2 A graça em Martinho Lutero Martinho Lutero monge de ordem agostiniana (1483 – 1546) que após uma caminhada de muitas lutas enfrentadas em seu tempo, desenvolveu ao longo de sua história uma compreensão acerca de Deus, da igreja e de sua fé. O centro de sua teologia era o grandioso amor de Deus revelado aos seres humanos através do sacrifício de Jesus Cristo. Timothy George em seu livro Teologia dos Reformadores (1993, p.61) traz a seguinte afirmação: “O âmago da teologia de Lutero era que, em Jesus Cristo, Deus deu-se a si mesmo, absolutamente e sem reservas, para nós.” Para Lutero Deus era soberano na salvação do ser humano, seus conflitos espirituais eram imensos em relação a busca de um Deus misericordioso, medo da morte e julgamento após ela, era algo que o perseguia em seus caminhos. Vicente 11 Themudo Lessa descreve em Lutero: sua vida e obra, acerca desse momento de muitos conflitos de Lutero (2017, p.36): “Gemia Lutero procurando obter perdão de seus pecados e a purificação de suas culpas, voltando-se a todo gênero de penitências.” Lutero era interrogado muitas vezes sobre a natureza de seus conflitos espirituais e alguns conselhos e instruções que recebia eram como Bálsamo para a sua alma pesada. Em sua Teologia compreendeu a importância da graça de Deus, e que os cristãos são salvos poressa graça. Não importava o quão pecador Lutero sentia-se ser, ele entendeu que nada do que fizesse era capaz de torná-lo justo diante de Deus, a justiça de Deus vinha somente através do sacrifício de Cristo na cruz e não das suas obras. De acordo com o texto bíblico que trazia paz e luz a Lutero, Jesus Cristo é aquele que nos declara justos mediante a fé, logo nos tornamos justos quando olhamos para o seu sacrifício. Nos seus conflitos espirituais, o texto bíblico que lhe trouxe a luz da verdade e a paz de consciência veio a ser a célebre passagem da Epístola aos Romanos (1.17), em que o apóstolo cita o profeta Habacuque – “o justo pela fé viverá”, texto que lhe acudira ao subir a Scala Sancta, segundo a versão tradicional. (LESSA, 2017, p.64). Esse episódio de encontro com o texto Paulino na vida de Lutero foi bastante decisivo em sua certeza sobre a justiça de Deus, justiça essa que não desenvolve o papel de julgar e exigir sacrifícios, e sim uma justiça baseada no amor dado em graça, essa afirmação o fez entender que seus pecados e toda a sua inquietação tinham sido levados por Cristo em sua cruz, esse texto o liberta de todo peso que carregava trazendo-lhe a convicção de paz espiritual e inspiração para uma caminhada cristã na história da Igreja. Lessa (2017, p.64) define: Seus pecados, suas angústias, seus sofrimentos, haviam caído sobre os ombros de Cristo na cruz. Cristo fizera o que ao pecador teria sido impossível fazer com suas penitências e méritos pessoais. A certeza do perdão trouxe-lhe a paz espiritual e imprimiu uma nova direção ao seu ensino na universidade e no púlpito. Foi grande a inspiração de sua vida. Lutero estava convencido de que a salvação se dá unicamente pela graça de Deus sem mérito algum humano, sua doutrina acerca do entendimento da justificação criou raízes e assumiu forma definitiva em seu tempo. Segundo Timothy 12 George (1994, p. 65): “Ele estava certo de que o perdão era dom de Deus, não resultado do mérito humano.” Lutero defendia que a vitória do filho de Deus era o caráter definitivo de justificação, somos salvos unicamente pela graça de Deus e é exatamente por isso que somos declarados justos, somente pela fé, tendo como fruto de justificação e graça uma fé ativa no amor, no mesmo amor que concedeu a ele o entendimento de salvação e base para suas pregações e teologia. O fruto da justificação é a fé ativa no amor. Tal amor é dirigido em primeiro lugar não a Deus, na esperança de conseguir algum mérito para a salvação, mas ao próximo, porque “o cristão vive não em si mesmo, mas em Cristo e em seu próximo”. Lutero incitava os cristãos a realizar boas obras, a partir de um amor espontâneo, em obediência a Deus por causa dos outros. Por outras palavras, a justificação pela fé somente liberta-me para amar meu próximo desinteressadamente, por causa dele mesmo, como meu irmão ou irmã, não como meio calculado para meus próprios objetos desejados. Visto que não mais carregamos o insuportável peso da autojustificação, estamos livres “para ser de Cristo uns para os outros”, para nos consumirmos em favor dos outros, mesmo como Cristo também nos amou e deu a si mesmo por nós. (GEORGE, 1994, P.74). A vida de Lutero não somente deixou um legado em suas muitas realizações no campo da teologia e reforma como também de acordo com o que GEORGE, Timothy (1994, p.106) declara “O verdadeiro legado de Lutero é sua percepção espiritual do caráter gracioso de Deus, em Jesus Cristo, o Deus que nos ama e nos sustenta até a morte e de novo até a vida.” Assim a epístola de Paulo aos Romanos, influencia uma das principais composições da Teologia de Martinho Lutero ao longo da história do cristianismo, Deus é aquele que por sua justiça verdadeira julga o ser humano, ninguém merece a salvação Deus faz isso livremente e através da sua bondade faz expiação de todas as nossas iniquidades, não justificando por meio de obras, mas pela fé perante Ele. 4 A TEOLOGIA WESLEYANA A teologia de John Wesley sempre foi considerada como a teologia do caminho por ser fundamentada na leitura da bíblia, nas práticas sociais e no testemunho do evangelho. Wesley sentia-se extremamente incomodado com as questões sociais principalmente diante do cenário vivido em meio ao período que 13 envolvia a Revolução Industrial onde ocasionou desemprego, fome e muita desigualdade social. Diante desse cenário, o jovem anglicano sentiu um profundo interesse pelos menos favorecidos, e como a igreja da Inglaterra passava por um momento muito difícil, Wesley acabou sendo o precursor de um grande avivamento religioso. Em concordância, é possível mencionar Antônio Gouvêa Mendonça (1984, p.40) que aborda tal momento vivido por John Wesley: Na segunda metade do século XVII a Igreja da Inglaterra entrou em declínio. No século XVII dá-se o grande avivamento de João Wesley (1703-1791), que já na Universidade de Oxford, onde estudara, manifestara preocupação com a santificação da vida religiosa. Ministro da Igreja Anglicana estivera na Geórgia onde teve contato com os Moravianos, cuja doutrina influiu sobre ele. Em 1738 “converteu-se” em Londres durante um movimento religioso. Wesley, por cinquenta anos, viajou por toda a Inglaterra, Irlanda e Escócia, pregando e organizando sociedades metodistas, verdadeiras igrejas, embora não reconhecidas. No período mencionado acima, muitas pessoas não tinham acesso as escrituras sagradas e ainda viviam em grande pobreza, no entanto, após sentir o coração extremamente aquecido pela palavra de Deus, Wesley decide sair da sua zona de conforto e liderar um movimento em prol dos menos favorecidos apresentando um evangelho simples e equilibrado que respeitava a diversidade e conduzia a sociedade ao centro da vontade de Deus. John Wesley e Carlos Wesley, filhos de Samuel e Suzana Wesley, com outros jovens foram impulsionados pelo Senhor para fazerem a diferença em meio ao caos que vivia a Inglaterra fundando uma associação que com o tempo foi chamada de Metodista. Durante sua missão como precursor desse movimento Wesley sofreu algumas influências em seus pensamentos sobre a graça de Deus, principalmente no âmbito familiar o qual era dividido entre puritanos e anglicanos de origem reformada. Assim, fica evidente o que Antônio Gouvêa Mendonça (1984, p.42) destaca sobre tal informação: O misticismo e o pietismo fazem, portanto, parte da herança religiosa de Wesley, assim como isto também é verdade em relação ao puritanismo. Ocorre que Wesley soube fazer uma produtiva síntese dessas três correntes, o que valeu ao seu movimento religioso e social um extraordinário crescimento na Inglaterra e ainda mais extraordinário na América. 14 Nota-se, portanto, que John Wesley era totalmente aberto a qualquer tipo de pensamento, levando sempre em consideração a palavra de Deus, respondia as questões sociais que mais afligia os que estavam ao seu alcance, por isso em seus sermões procurava usar palavras simples e de fácil compreensão. Segundo José Carlos de Souza (2003, p.127): Wesley estava profundamente integrado à sua época e procurou, em nome do evangelho, responder às questões que a sociedade inglesa contemporânea consciente ou inconsciente levantava. Com efeito, é impossível arrancá-lo da rede de relações que estabeleceu no século XVIII. 4.1 O Modo de pensar a Graça em John Wesley John Wesley buscava a santidade e entendia que uma vida mais próxima de Deus traria mudanças de dentro para fora, e orientava a todos que estavam ao seu redor a buscarem a santificação com novas atitudes e novos posicionamentos. Para ele, sem a graça não seria possível ter um relacionamento íntimo com Deus. Ter uma identidade de filho de Deus para Wesley só seria possível com ajuda do Espírito santo através da oração, do estudo da palavra, dos sacramentos e da comunhão com os santos.É possível concretizar tal pensamento testificando-o com a própria escrita de Wesley (sermão 16; II- 1): No discurso que se segue proponho-me examinar mais minuciosamente se há quaisquer meios de graça. Por “meios de graça” entendo os sinais exteriores, palavras ou ações, ordenados por Deus, e designados para esse fim, para serem canais ordinários pelos quais Ele comunica aos homens a graça preventiva, justificadora e santificante. Uso a expressão – “meios de graça” – porque não conheço outra melhor e porque ela tem sido geralmente usada na Igreja Cristã através de muitas gerações, em particular por nossa própria Igreja, que nos dirige no louvor de Deus pelos meios de graça e pela esperança da glória, ensinando-nos também que o sacramento é “o sinal exterior de uma graça interior, e um meio pelo qual recebemos a mesma graça. Os principais desses meios são a oração, seja secreta ou juntamente com a congregação; o estudo das Escrituras (que compreende a leitura, audição e meditação delas); e a participação da Ceia do Senhor, comendo o pão e bebendo o vinho em memória de Cristo: cremos que tais meios foram ordenados por Deus, como canais ordinários pelos quais Ele comunica sua graça à alma dos homens. Wesley entendia que a graça de Deus ocupava um lugar insubstituível na vida do ser humano, e que seria possível evidenciar isso antes da sua conversão ao gerar frutos de arrependimento através do Espírito santo que convence do pecado, do juízo e da justiça. E é através das escrituras sagradas que o leitor é conduzido ao 15 momento de remissão de seus pecados para que tudo se faça novo, nascendo uma nova criatura. Essa nova criatura morta para os pecados da carne e justificada diante de Deus só nasce através da fé para um processo de santificação e maturidade em um relacionamento íntimo com Ele, tendo como destino o céu. Para Wesley toda graça de Deus teria fins salvíficos sendo enviada a humanidade como um presente imerecido, não por obras e méritos, mas por amor incondicional do Criador. 4.2 Os Caminhos de Graça A Graça de Deus na Teologia Wesleyana é para todos e não depende exclusivamente de mérito humano, Wesley acreditava na necessidade que o homem possui de receber a graça, o processo de salvação do homem se desenvolve a partir de sua resposta e responsabilidade à obra de redenção do perdão de Deus através de Jesus Cristo e da ação capacitadora e convencedora do Espírito Santo. De acordo com Maddox (2019, p.381): Wesley considerava a presente salvação humana fundamentalmente como um processo terapêutico gradual, que se desenvolve a partir da nossa participação responsiva na graça perdoadora e capacitadora de Deus. No seu sentido mais normativo, a salvação não aparece nem unilateralmente nem espontaneamente em nossas vidas; ela deve ser progressivamente capacitada e responsavelmente nutrida ao longo do Caminho da Salvação. A graça não é somente para aqueles que são intitulados eleitos, ela é alimentada e gerada de maneira gradual no decorrer da caminhada do ser humano e do seu reconhecimento a extrema necessidade de se reconciliar e aproximar do seu criador. Todas as necessidades do ser humano são envolvidas por esses caminhos e meios de salvação que seguiram Wesley ao longo de toda sua história de vida. Maddox (2019, p.381), destaca o ponto de que “Ele os discutiu em vários contextos, com listas ligeiramente diferentes em quase todos os casos.” A graça para Wesley está disponível universalmente e existem alguns caminhos específicos que desenvolvem compreensões fundamentais para a caminhada e vida cristã. Para Wesley são essas práticas que despertam a humanidade ao convencimento da sua necessidade de Deus, esses sãos meios capazes de transmitir a graça salvadora (preveniente) ao ser humano. 16 Maddox (2019, p. 383) define: Wesley não teve reservas quanto a encorajar o seu povo a buscar a graça de Deus por intermédio dos vários sinais, palavras e ações externas que Deus determinou como canais “ordinários” para a transmissão da graça salvadora à humanidade. Na visão Wesleyana os caminhos de graça mostravam-se exteriores aos homens e eram ordenados por Deus a fim de serem canais de comunicação do seu amor e da sua ação de justificação, a igreja, a oração pessoal e comunitária, o estudo das escrituras sagradas são meios de caminhar em uma graça preventiva tornando assim o homem santificado na sua caminhada de fé. Maddox (2019, p.381) descreve esses papéis dos meios de graça da seguinte forma: Os itens incluídos nessas listas variam de práticas cristãs universais, tais como jejum, oração, eucaristia e leituras devocionais, a práticas mais caracteristicamente metodistas, como reuniões de classe, festas do amor e regras especiais do viver santo. Resta saber, que tudo isso não torna Deus preso e sujeito a esses caminhos para operar sua salvação, a graça não é confinada a regras, mas entende-se que é somente através de Deus e da sua graça que chegamos ao pleno conhecimento da verdade, é através do criador e Pai que o homem alcança essa graça divina, esse favor ativo universalmente na vida até mesmo daqueles que não estão debaixo desses meios de graça. 4.3 A salvação através da Graça O ser humano na visão de Wesley é um pecador e completamente incompatível com a natureza de Deus, sozinho não pode alcançar esse estado de graça e perdão, Deus é o único que pode levá-lo a salvação, pois a iniciativa de Deus é o que move o plano salvífico na vida do ser humano transformando a sua condição decaída através da graça permitindo com que os mesmos respondam a oferta de graça salvadora de Deus. De acordo com Maddox (2019, p.281): Wesley estava firmemente convencido da primazia da graça divina na obra da salvação. Ao mesmo tempo, ele frequentemente achava importante em sua atividade teológico-prática esclarecer o papel da participação humana responsável nessa obra graciosa. 17 Deus é aquele que governa e facilita a obediência do homem, porém não o força a obedecer, o ser humano pode crer e confiar se quiser ou até mesmo resistir à graça, na compreensão de Wesley a graça é resistível a uma pessoa e que essas pessoas são colocadas ou encontram-se diante dos meios de graça, e que a ação do Espírito Santo pode trazer a elas o convencimento fazendo com que elas cooperem ou não com esse momento, ele acreditava que se alguém resistir a essa graça torna-se cada vez mais longe dela. Maddox (2019, p. 290), menciona: Mas, mesmo na sua formulação mais forte, tais afirmações estavam ligadas a um reconhecimento de que os seres humanos (infelizmente) podem resistir às aberturas graciosas de Deus, pois sua graça restauradora é cooperante. Na visão Wesleyana as pessoas podem rejeitar ou aceitar a graça divina, um pecador pode ao receber essa graça oferecida usufruir de cada um dos seus efeitos. E Deus de forma alguma seria incapaz de salvar ou reprovar alguém sem oferecer a ele a capacidade de resposta de amá-lo ou servi-lo por escolha própria, Deus é aquele que encoraja o homem a se esforçar no desenvolvimento da salvação que Cristo conquistou. Assim, meus amados, como vocês sempre obedeceram, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o quere como o realizar, segundo a sua boa vontade. (Fp 2,12-13) A graça para Wesley está disponível universalmente. Uma participação humana necessária, mas não forçada, o homem é despertado e convencido a sua necessidade de Deus e da capacidade de resposta aos caminhos de graça salvadora (preveniente) ao ser humano. De acordo com Maddox (2019, p.290): Posto em termos ligeiramente diferentes, Wesley estava convencido de que, embora não possamos alcançar a santidade (e completude) à parte da graça de Deus, Deus não efetuará a santidadeà parte da nossa salvação responsiva O homem convertido para Wesley precisava lembrar-se do momento em que experimentou do amor e da graça justificadora de Deus, em uma visão pastoral como a de Wesley precisamos aplicar e alinhar as experiências pessoais a toda prática 18 aprendida, somado a uma vida de renúncia e conversão. Isso deve estar implícito em cada ser humano que se arrepende e nasce de novo. Os esforços de avivamento iniciais de Wesley refletiam esses pressupostos do "nascido duas vezes". Ele duvidava da realidade da conversão de qualquer um que não pudesse identificar o momento exato em que experimentou o amor justificador de Deus (MADDOX, 2019, p. 301). Contudo Deus em seu infinito amor nos convida a vivenciar experiências mais práticas que teóricas, à parte dos livros, artigos e papéis. A Teologia Wesleyana é um processo que articula e insere no ser humano uma relação pessoal de igreja versus mundo na prática. No sentir e no ser, essa Teologia revela a graça de Deus e identifica que a salvação imerecida nos alcança e nos justifica ao longo do caminho. 5 CONCLUSÃO Ao final deste artigo, afirmamos que a graça é um tema central na Teologia Wesleyana do início ao fim, mediante o exposto essa graça é resistível e nos foi dada a liberdade pelo criador de aceitá-la ou não. A graça é sem dúvida o maior presente deixado para criatura, sendo ela algo incomparável e insubstituível ao homem, é exatamente por isso que sempre haverá um equilíbrio entre a iniciativa do ser humano e a resposta de Deus a humanidade. Somos justificados pela graça de Deus, no Deus presente no Antigo Testamento e no Novo Testamento no Cristo que se deu pelo homem e assumiu o pagamento de uma dívida. Tendo em vista os aspectos observados nesse projeto, entendemos que a justificação não é um fim em si mesmo como muitos defendem; mas sim; a salvação é o começo de uma jornada de santidade e santificação, pois a salvação na perspectiva bíblica é o começo do relacionamento entre Deus e sua criação. As experiências da graça na história do Cristianismo através de homens que buscaram teorias para justificar o destino humano em relação ao plano de salvação e a experiência de John Wesley são sem sombra de dúvidas positivas e servem de referência para o próximo, principalmente em momentos difíceis, mas não podemos 19 viver baseados somente nesses fatos e sim é preciso buscar resposta e auxílio para qualquer situação em Deus que está sempre pronto a nos responder. A grande preocupação de Wesley através de sua Teologia não era a de exaltar uma ortodoxia doutrinária, mas, atender as necessidades humanas principalmente dos que são menos favorecidos que precisam ter acesso à palavra e ao conhecimento para mudar de vida e sair da situação de desigualdade que se encontram assolados. Portanto, esse é o modo de pensar a graça na visão Wesleyana, revelar em sua Teologia um Deus disposto a reconciliar consigo a sua criação e revelar o seu amor nas páginas e ensinamentos Bíblicos vistos como caminhos de graça e salvação. REFERÊNCIAS À BRAKEL, Wilhelmus. O Pacto da Graça tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Natal: Nadere Reformatie Publicações, 2019. AGOSTINHO, Santo. A Graça I. Tradução: Agostinho Belmonte. São Paulo, SP: 1998. AGOSTINHO, Santo. A Graça II. Tradução: Agostinho Belmonte. São Paulo, SP: 1999. ALLMEN, J.J Von. Vocabulário Bíblico. São Paulo, SP: Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, 1972. BÍBLIA, A. T. Provérbios. In BÍBLIA. Português. Sagrada Bíblia Católica: Antigo e Novo Testamentos. Tradução de José Simão. São Paulo: Sociedade Bíblica de Aparecida, 2008. p. 202-203. BÍBLIA, Bíblia de estudo John Wesley. Nova Almeida Atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada, 3ª edição. SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2020. BOFF, Leonardo. A graça libertadora no mundo. 4. ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1976. Cf. Sermão 16: “Os meios de Graça”, incluída no livro Obras de Wesley DELAFIELD, D.A. Pela graça de Deus: como cumprir o voto e a lei do Desbravador/D. A Delafield; tradução de Renato E. Oberg. -6. ed. - Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004. GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 1994. GOUVÊA MENDONÇA, Antônio. O celeste Porvir: A Inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Ed. Paulinas, 1984. 20 JOINER, Eduardo. Manual Prático de Teologia. Rio de Janeiro, RJ: Editora Central Gospel, 2004. LESSA, Vicente Themudo. Lutero: sua vida e obra. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017. MADOXX, L. Randy. Graça Responsável. São Bernardo do Campo/SP: Editeo, 2019. MURRAY, John. O Pacto da Graça. São Paulo, SP: Facioli Gráfica e Editora Ltda, 2001. PERKINS, William. O Pacto da Graça. Natal: Nadere Reformatie Publicações, 2019. RADMACHER, Earl; ALLEN, Ronald B e HOUSE, H. Wayne. O Novo Comentário Bíblico NT, com recursos adicionais. Rio de Janeiro, RJ: Editora Central Gospel, 2010. SOUZA, José Carlos de. Fazendo teologia numa perspectiva wesleyana. In: Caminhando, 300 Anos de John Wesley. Ano VIII, no12 – 2o Semestre de 2003. p. 127.