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A espiritualidade e a religiosidade na prática pediátrica

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Prévia do material em texto

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO 
PUC-SP 
 
 
 
 
Rodrigo Zukauskas Santos 
 
 
 
 
 
A Espiritualidade e a Religiosidade na prática pediátrica 
 
 
 
MESTRADO PROFISSIONAL EM EDUCAÇÃO NAS PROFISSÕES DA SAÚDE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SOROCABA 
2013
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO 
PUC-SP 
 
 
 
 
Rodrigo Zukauskas Santos 
 
 
 
 
 
A Espiritualidade e a Religiosidade na prática pediátrica 
 
 
 
MESTRADO PROFISSIONAL EM EDUCAÇÃO NAS PROFISSÕES DA SAÚDE 
 
 
Trabalho Final apresentado à Banca 
Examinadora da Pontifícia Universidade 
Católica de São Paulo, como exigência parcial 
para a obtenção do título de MESTRE 
PROFISSIONAL em Educação nas Profissões 
da Saúde, sob a orientação da Profª Drª Raquel 
Aparecida de Oliveira. 
 
 
 
SOROCABA 
 2013 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bibliotecário Responsável: Antonio Pedro de Melo Maricato CRB-8 / 6922 
Biblioteca Prof. Dr. Luiz Ferraz de Sampaio Júnior. 
Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde – PUC-SP 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Santos, Rodrigo Zukauskas 
S237 A espiritualidade e a religiosidade na prática pediátrica / Rodrigo 
Zukauskas Santos. -- Sorocaba, SP : [100.], 2013. 
 
 
Orientador : Raquel Aparecida de Oliveira. 
Dissertação (Mestrado Profissional) -- Pontifícia Universidade 
Católica de São Paulo, Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Banca Examinadora 
________________________________ 
________________________________ 
________________________________ 
 AGRADECIMENTOS... 
 
 
 “É com o coração que se vê 
 corretamente; o essencial é invisível aos olhos” 
 
Antoine de Saint Exupéry 
 
 
À minha esposa Ana e minhas filhas Clara e Julia pelo amor, respeito e 
incentivo a todos os momentos de minha vida. 
Aos meus pais pelas oportunidades e caminhos oferecidos. 
Aos funcionários e professores da Faculdade de Ciências Médicas e da 
Saúde da PUCSP pelo respeito e motivação. 
Aos funcionários e professores da Pós-Graduação da PUC-SP pelo 
acolhimento e pelos ensinamentos. 
Aos médicos pediatras do Conjunto Hospitalar de Sorocaba e aos residentes 
de pediatria da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUCSP pela atenção 
e respeito. 
Aos colegas da I Turma do Mestrado Profissional em Educação nas 
profissões da Saúde pelo carinho e amizade. 
À coragem, ao entendimento e à amorosidade de minha orientadora Profª Drª 
Raquel. 
À espiritualidade e à pediatria pela oportunidade do assunto. 
Às crianças, motivo maior de meu trabalho. 
RESUMO 
Santos, R.Z. A Espiritualidade e a Religiosidade na prática pediátrica 
Introdução: As novas concepções da física clássica, o crescente movimento 
religioso e as discussões bioéticas levaram a um aumento significativo de 
publicações a respeito da espiritualidade, inclusive suas implicações na saúde. Na 
atenção integral à criança e à família, a espiritualidade e a religiosidade devem estar 
presente no trabalho do médico em ato, local de infinitas possibilidades, como 
instrumento comunicacional, no respeito bioético e como força que pode influenciar 
positivamente o processo saúde-doença. Objetivos: Comparar a 
religiosidade/espiritualidade dos pediatras e dos residentes em pediatria, e como 
isso influencia a sua prática clínica; identificar a percepção quanto às necessidades 
espirituais das crianças atendidas e de seus familiares; e conhecer o quanto a 
religiosidade/espiritualidade das crianças e familiares influenciam no tratamento e 
enfrentamento das doenças. Metodologia: Foi realizada uma pesquisa quantitativa 
através da aplicação de um questionário sobre os dados gerais de caracterização; 
questões sobre a dimensão de religiosidade/espiritualidade; conhecimento do tema 
na saúde e a sua inserção na prática clínica dos profissionais. Resultados: 
Participaram 37 profissionais, sendo 25 médicos pediatras de um hospital público 
em Sorocaba-SP e 12 residentes em pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas 
e da Saúde da PUC/SP. Após tratamento dos dados, constatamos que não houve 
diferenças entre os dois grupos quanto a sua religiosidade e espiritualidade; são 
profissionais com grande religiosidade intrínsica, valorizam a espiritualidade e 
religiosidade em suas vidas, influenciando, inclusive, suas práticas clínicas diárias. 
Apesar de reconhecerem a necessidade da abordagem espiritual das crianças e 
familiares e a influência positiva da religiosidade e da espiritualidade no tratamento e 
enfrentamento das doenças, poucos abordam esta dimensão, sendo apontadas 
como principais razões a falta de conhecimento, treinamento e de tempo. Os 
profissionais também se mostram abertos e dispostos a incluírem esta temática em 
seus trabalhos. 
Palavras chave: Espiritualidade, Educação Médica, Pediatra, Religiosidade e 
Medicina. 
ABSTRACT 
Santos, R.Z. A Spirituality and Religiosity in pediatric practice 
Introduction: The new concepts of classical physics, the growing religious 
movement and bioethical discussions led to a significant increase in publications 
about spirituality, including its health implications. At full attention to the child and 
family, spirituality and religiosity should be present in the work of the medical act, 
place of endless possibilities, as an instrument of communication, respect and 
bioethics as a force that can positively influence the disease process. Objectives: To 
compare the religiosity/spirituality of pediatricians and pediatric residents, and how 
this influences their clinical practice to identify the perception of the spiritual needs of 
the children served and their families, and to know how religiosity/spirituality of 
children and family influence in the treatment and coping of diseases. Methods: Was 
performed a quantitative research through a questionnaire about general data 
characterization; questions about the extent of religiosity/spirituality, knowledge of the 
subject and its inclusion in health for clinical professionals. Results: Participants 
were 37 professional, 25 pediatricians in a public hospital in Sorocaba-SP and 12 
pediatric residents from the College of Medical and Health Sciences at PUC/SP. 
After processing the data, we found that there were no differences between the two 
groups regarding their religiousness and spirituality, are professionals with high 
intrinsic religiosity, spirituality and religiosity value in their lives, influencing even their 
daily clinical practice. While recognizing the necessity of spiritual children and 
families and the positive influence of religiosity and spirituality in coping and 
treatment of diseases, few approach this dimension. Pointed as the main reasons the 
lack of knowledge, training and lack of time. Professionals also show open and 
willing to include this issue in their work. 
Keywords: Spirituality, Education, Medical, Pediatric, Religion and Medicine. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE TABELAS 
 
Tabela 1. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo o Gênero e Etnia. Sorocaba, 
2012. ..................................................................................................................................................... 55 
Tabela 2. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo idade e tempo de formado. 
Sorocaba, 2012. ................................................................................................................................. 56 
Tabela 3. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo Religião e a sua percepção 
quanto à própria religiosidade. Sorocaba, 2012. ........................................................................... 57 
Tabela 4. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo a Religiosidade Organizacional e 
não organizacional.Sorocaba, 2012. .............................................................................................. 59 
Tabela 5. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo a Religiosidade Intrínseca. 
Sorocaba, 2012. ................................................................................................................................. 60 
Tabela 6. Entendimento dos Residentes e Pediatras do que é Espiritualidade. Sorocaba, 
2012. ..................................................................................................................................................... 61 
Tabela 7. Crenças em Deus e na existência da alma ou espírito pelos Residentes e 
Pediatras. Sorocaba, 2012. .............................................................................................................. 62 
Tabela 8. Relações citadas sobre o assunto “Saúde e Espiritualidade” por médicos e 
residentes. Sorocaba, 2012. ............................................................................................................. 63 
Tabela 9. Influência da religiosidade e espiritualidade na saúde segundo os Residentes e 
Pediatras. Sorocaba, 2012. .............................................................................................................. 64 
Tabela 10. Quanto os residentes e pediatras acham pertinente a abordagem do tema 
Religiosidade/Espiritualidade com seus pacientes e como se sentem ao fazê-la. Sorocaba, 
2012 ...................................................................................................................................................... 66 
Tabela 11. Quando segundo os residentes e pediatras é apropriado o médico rezar. 
Sorocaba, 2012. ................................................................................................................................. 67 
Tabela 12. Frequência que os residentes e pediatras abordam os assuntos espirituais e 
religiosos com os pacientes. Sorocaba, 2012 ............................................................................... 68 
Tabela 13. Algumas das afirmações que desencorajam os médicos e residentes a discutir 
religiosidade/espiritualidade com seus pacientes. Sorocaba, 2012. .......................................... 69 
Tabela 14. Ferramentas ou tratamentos espirituais que os residentes e pediatras acreditam 
que poderiam ser recomendados a seus pacientes. Sorocaba, 2012. ...................................... 70 
 
LISTA DE ABREVIAÇÕES 
 
 
ABEM: Associação Brasileira de Educação Médica 
AC: Alojamento Conjunto 
AFMA: Associação de Faculdades de Medicina Americanas 
AMM: Associação Médica Mundial 
CEP: Comitê de Ética em Pesquisa 
CHS: Conjunto Hospitalar de Sorocaba 
CINAEM: Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico 
Comissão Conjunta de Acreditação de Organizações de Saúde 
CNE: Conselho Nacional de Educação 
CNRM: Comissão Nacional de Residência Médica 
DCN: Diretrizes Curriculares Nacionais 
INPCS: Instituto Nacional de Pesquisa no Cuidado à Saúde 
LDBEN: Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional 
MS: Ministério da Saúde 
OMS: Organização Mundial da Saúde 
PROMED: Programa de Incentivo a Mudanças Curriculares nos Cursos de Medicina 
PROSAUDE: Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em 
Saúde 
PUC-SP: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 
SBP: Sociedade Brasileira de Pediatria 
SUS: Sistema Único de Saúde 
TCLE: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 
 
SUMÁRIO 
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 17 
2. IMPORTÂNCIA ..................................................................................................... 21 
3. RELIGIOSIDADE, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE ............................................... 23 
4. ENSINO MÉDICO E ESPIRITUALIDADE ............................................................. 31 
4.1. Considerações Históricas ............................................................................... 31 
4.2. Crise da Sociedade ......................................................................................... 34 
4.3. O novo modelo ................................................................................................ 36 
5. PEDIATRIA E ESPIRITUALIDADE ...................................................................... 43 
6. OBJETIVOS .......................................................................................................... 49 
6.1. Gerais ............................................................................................................. 49 
6.2. Específicos ...................................................................................................... 49 
7. METODOLOGIA ................................................................................................... 51 
7.1. Tipo de estudo ................................................................................................ 51 
7.2. Local do estudo ............................................................................................... 51 
7.3. População do estudo ...................................................................................... 52 
7.3.1. Critérios de inclusão ................................................................................. 52 
7.3.2. Critérios de exclusão ................................................................................ 52 
7.4. Instrumento de Coleta ..................................................................................... 53 
7.5. Tratamento dos dados .................................................................................... 54 
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 73 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 77 
APÊNDICE A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ............................ 85 
APÊNDICE B - Questionário ................................................................................... 87 
ANEXO A - Comitê de Ética em Pesquisa ............................................................. 95 
ANEXO B – Formulário de autorização de pesquisa (CHS) ................................. 97 
ANEXO C - Versão em português da Escala de Religiosidade da Duke – DUREL
 .................................................................................................................................. 99 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
 
 
“Da janela da sala, 
Podia ver luzes e sombras, 
Caminhos possíveis naquele momento presente...” 
(Rodrigo Zukauskas, 1999) 
 
 
 
Em minha infinita jornada pela busca do entendimento do ser humano é 
chegado mais um momento de transformação. 
Ao adentrar nesta pesquisa, lanço-me em uma longa viagem repleta de 
reflexões e significados para a minha vida pessoal e profissional ao trazer o tema da 
religiosidade e da espiritualidade na discussão do meu trabalho como médico e 
como futuro educador. 
As perguntas que surgem despertam-me a curiosidade, transformando-se em 
ação pela busca do saber. Desta ação, dependente da informação e da vontade, 
construo meu universo e reconstruo-me como Pediatra. 
Nesse contexto, ao cursar o Mestrado em Educação para as Profissões da 
Saúde tive a oportunidade de levar para minha prática médica reflexões sobre a 
bioética, as metodologias ativas e o processo de ensino-aprendizagem, a gestão e 
as políticas em saúde, mas além, a oportunidade das discussões e o respeito ao 
pluralismo, à diversidade cultural e à prática multidisciplinar. 
A minha formação médica foi pautada em um modelo de ensino-aprendizado 
fragmentado em disciplinas básicas, como anatomia, histologia e fisiologia, 
disciplinas clínicas. Era do tipo depositário em forma de aulas expositivas projetadas 
por repetidas transparências, muitas vezes impregnadaspelo bolor dos anos e anos 
de uso. O ensino da prática médica era realizado no hospital, centrado na busca 
pela doença. 
Os pacientes eram muitas vezes chamados não por seus nomes e sim pelos 
nomes de suas doenças. Eram enfermarias onde estavam internados pneumopatas, 
cardiopatas e nefropatas. Eram quartos onde as histórias de cada paciente 
permaneciam do lado de fora, não era permitida a sua entrada. O indivíduo doente 
perdia cada vez mais espaço e importância no seu próprio contexto e significado. 
Este modelo reducionista e biologista proporciona ao aluno uma formação 
fragmentada do ser humano, passando a doença a ser mais valorizada e 
interpretada que o próprio doente. 
No final do século XX, período da história em que ocorreu a minha 
Graduação, a evolução tecnológica supervalorizava os aspectos científicos em 
relação aos aspectos humanistas, levando o ensino médico não só a retirar o estudo 
de humanidades, incluindo a religião, de seu currículo, como também a desprestigiar 
e até ridicularizar qualquer tentativa nesta direção (SIQUEIRA, 2006). 
O primeiro contato com a disciplina de Pediatria na graduação e a escolha da 
especialidade como pós-graduação trouxe uma nova oportunidade. A criança abrira 
para mim um novo universo dentro da Medicina, trazendo mais clara a noção da 
transcendência, permitindo-me utilizar e valorizar comunicações antes esquecidas e 
ocultadas pelo modo materialista daquele saber que me formava. 
O meu trabalho como Pediatra ocorre nos campos de batalhas das urgências 
e emergências, em que crianças e famílias vivem sentimentos que se afloram 
somente em situações de intensos conflitos. Vivencio a dor da doença e da morte de 
crianças, mas também, presencio a cura de pacientes muitas vezes já 
desacreditados pela equipe de trabalho. Nesse contexto, percebo o quanto a 
religiosidade/espiritualidade são ferramentas possíveis a serem utilizadas pela busca 
de bem estar e conforto para as famílias e suas crianças. 
A abordagem da religiosidade/espiritualidade no processo de trabalho do 
pediatra consiste na oportunidade de ampliar o olhar sobre a criança e sua família, 
de respeitar o ser em vulnerabilidade e de rever conceitos do processo saúde-
doença. 
Partindo, portanto, do respeito bioético ao ser humano integral que vive e 
interpreta o seu processo saúde-doença, trilhei este trabalho no sentido de primeiro 
fazer um diagnóstico no meu ambiente de trabalho, explorando o tema no universo 
do médico recém-formado (residente) e no do pediatra já inserido na dinâmica da 
sociedade. 
A sociedade atual clama por valores humanos na relação médico-paciente, a 
religiosidade/espiritualidade faz parte deste contexto. Daí levanta-se neste estudo as 
seguintes questões: Qual a religiosidade/espiritualidade dos médicos residentes em 
pediatria e dos pediatras? Eles conhecem a importância e valorizam o tema? 
Aplicam tal temática em sua prática diária? 
Neste contexto, o saber remete à formação médica, por isso do ensino 
médico; à religiosidade/espiritualidade e sua relação com a saúde, o que se tem de 
informação até os dias de hoje; e, por fim, a relação entre a prática pediátrica e a 
religiosidade/espiritualidade. 
2. IMPORTÂNCIA 
 
 
 
“Transparente e límpida, 
Permanecia imóvel, reluzente... 
Sob as folhas verdes daquela manhã de primavera...” 
(Rodrigo Zukauskas, 1997) 
 
 
 
Neste novo século, a humanidade vem questionando alguns valores por muito 
esquecidos: o olhar, o toque, a compaixão, a atenção e o estar presente, 
necessidades essenciais do ser humano. 
Boff (2001), afirmou que 
O século XXI será um século espiritual que valorizará os muitos 
caminhos espirituais e religiosos da humanidade ou criará novos. 
Esta espiritualidade ajudará a humanidade a ser co-responsável 
com o seu destino e com o da Terra, mais reverente diante do 
mistério do mundo e mais solidária para com aqueles que sofrem. A 
espiritualidade dará leveza a vida e fará que os seres humanos não 
se sintam condenados a um mar de lágrimas, mas se sintam filhos e 
filhas da alegria de viver juntos neste mundo, sob o arco-íris da 
graça e benevolência divina. 
A humanização, a bioética, a transdisciplinaridade e a ecologia profunda, 
entre outros temas atuais, trazem à sua luz a espiritualidade em suas perspectivas e 
concepções. 
A Religião e a Ciência estão novamente se reencontrando, nas ciências da 
vida e da saúde bem como em outras ciências. A espiritualidade e suas interfaces 
nas profissões da saúde causam novas transformações com potencial impacto sobre 
a saúde física e como possível fator de prevenção ao desenvolvimento de doenças 
na população previamente sadia, e eventual redução de óbito ou impacto de 
diversas doenças. (GUIMARÃES; AZEVUM, 2007). 
Médicos e instituições hospitalares começam a incluir nas suas rotinas de 
maneira sistemática e definitiva a prática de estimular nos pacientes o fortalecimento 
da esperança, do otimismo, do bom humor e da espiritualidade ao despertar ou 
fortificar nos indivíduos condições positivas, já abalizadas pela ciência como 
recursos eficazes no combate a doenças. 
A discussão da espiritualidade pela metodologia científica vigente pode trazer 
aos sentidos físicos aspectos além da linguagem atual, caracterizar e conceituar 
comunicações ainda não completamente codificadas. Trata-se de uma área repleta 
de desafios, preconceitos e mistérios. 
Assim, estudar cientificamente a espiritualidade se torna muito entusiasmante, 
pois permite adentrar em campos ocultos, almejando os entender, mas na certeza 
da busca pelo respeito ao ser humano em seus diversos aspectos, estes capazes 
conjuntamente de influenciar no dinâmico processo saúde-doença. 
A religião e a espiritualidade influenciam as atitudes e decisões dos seres 
humanos, bem como as suas relações e, portanto devem ser valorizadas também na 
saúde. (KOENIG, 2007). Portanto, nas práticas em saúde, torna-se essencial a 
discussão desses aspectos. Neste sentido, o ensino e a prática médica presente 
passam por uma reavaliação e reflexão, em que espaços cada vez maiores deverão 
ser ocupados pela valorização do ser integral de corpo, espírito e de suas relações 
com o mundo em toda a sua complexidade. 
Identificar e ficar atentos às necessidades espirituais como parte dos 
cuidados em saúde dos pacientes pode resultar em grande número de benefícios, 
até mesmo com impacto na qualidade de vida. (KOENIG, 2007; KRISTELLER, et 
al.,2005; PARGAMENT, 1997). 
 No processo de tomada de decisão, o sistema de crenças de uma pessoa 
tem papel fundamental. Estas crenças, incluindo-se as religiosas, afetam a sua 
percepção e leitura do mundo, o conjunto das alternativas disponíveis e a seleção da 
ação que irá ser realizada ou não. Os aspectos religiosos ou espirituais devem estar 
também incluídos em uma reflexão bioética, sempre preservando o caráter plural da 
discussão e não assumindo uma posição sectária. (GOLDIM, 2007). 
A abordagem da religiosidade/espiritualidade na formação do estudante pode 
oferecer recursos cognitivos ao aluno para resolução de possíveis conflitos que 
possam aparecer na relação médico-paciente-família, além de valorizar a 
espiritualidade como instância construtiva do ser humano, desenvolvendo 
mecanismos de respeito e tolerância para com o paciente. (DANTAS FILHO; SÁ, 
2007). 
 
3. RELIGIOSIDADE, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE 
 
 
 
“Encontram-se no passado, e se encontram 
até hoje, sociedades que não possuem 
ciência, nem artes, nem filosofia. Mas nunca 
existiu sociedade sem religião.” 
(BERGSON, 1978) 
 
 
 
Em toda a sua história, o homem busca a religiosidade e a espiritualidade 
para entender o significado da vida e da morte, a sua presença no mundo, melhorar 
sua saúde e como ferramenta para lidar com as adversidades e a dor, seja ela física, 
moral ou espiritual. 
A relação entre saúde e religiosidade é muito antiga,presente em mitos 
gregos, rituais indígenas e nas inscrições bíblicas que influenciaram e ainda vem 
influenciando a cultura ocidental nos tempos atuais. (BOTELHO, 1991). 
As grandes civilizações do passado sempre usaram os conhecimentos 
religiosos para tratar as doenças, seja isoladamente ou como coadjuvantes às 
práticas médicas incipientes. Além disso, utilizava-se a espiritualidade, também, 
para obter melhor qualidade de vida na saúde mental, garantindo paz e harmonia. 
(SANTOS, 2009). 
Estudos antropológicos têm demonstrado que as dimensões religiosas 
continuam presentes em todas as camadas sociais como parte importante da 
compreensão do processo de adoecimento e cura. (IBÁNEZ; MARSIGLIA, 2000). 
Na antiguidade, as funções de sacerdote e médico eram realizadas pela 
mesma pessoa e a cura espiritual e física eram administrados pela orientação divina. 
(NEELY; MINFORD, 2008). 
Essa associação entre religião e cuidados em saúde perpassa toda a Idade 
Média. Na Europa medieval, a Igreja alcançou uma situação de imenso poder, 
escolhia reis e o dogma era a lei. Controlava o exercício da Medicina, sendo 
responsável pela liberação dos diplomas daqueles que iriam exercê-la, havendo 
então muitos monges médicos e vice-versa. As necessidades físicas e espirituais 
eram abordadas ao mesmo tempo. 
Com o avanço das ciências na idade moderna, especialmente com o 
aparecimento de uma Medicina baseada, exclusivamente, em biologia, física e 
química orgânica, a associação entre saúde e espiritualidade começou a ser 
questionada. (SANTOS, 2009). 
Assim, no século XVI, o poder da igreja cristã sobre a Medicina começou a 
declinar, diminuindo gradativamente com o Iluminismo e com a Revolução Francesa. 
A visão dualista, inerente ao paradigma newtoniano e cartesiano, da ciência 
moderna separou o mundo da matéria do mundo do espírito, tornou ilegítima a 
consideração das dimensões religiosas da vida humana na investigação da gênese 
das doenças e na busca de medidas terapêuticas. A partir de então, as discussões 
relacionadas à espiritualidade durante um bom tempo foi considerada inapropriada 
ao estudo das questões ligadas à saúde. As pesquisas indicavam que os 
profissionais da saúde possuíam uma consciência muito limitada das necessidades 
espirituais dos pacientes. (PUCHALSKI; LARSON; LU, 2001). 
Porém, como observa Nobre (2004), no século XX as revoluções conceituais 
da Física contribuíram para uma nova visão da realidade, a matéria cedeu lugar à 
energia, o tempo é variável, o movimento descontínuo, a comunicação é não local, a 
consciência é capaz de influir nos eventos e selecionar possibilidades e existe a 
possibilidade real da existência de mais de quatro dimensões em nosso universo e 
todas as coisas existentes estão interconectadas. 
No novo paradigma, tudo é um imenso mar de incertezas até a presença de 
um observador. A consciência ou o observador são capazes de influir nos eventos e 
selecionar possibilidades. Não há tempo e espaço até a consciência escolher o 
caminho a ser traçado, somos então, criadores da nossa realidade. 
Os conhecimentos da física quântica passam a ser utilizados nas outras 
ciências, mudam-se pensamentos e valores. O pensamento passa de auto 
afirmativo a integrativo, de racional a intuitivo, de reducionista a holístico e de linear 
a não linear. Os valores também mudam de expansão à conservação, de 
competição à cooperação, de quantidade à qualidade e de dominação à parceria. 
(CAPRA; STEINDL-RAST, 1993). 
Os especialistas passam a enxergar o ser humano de forma integral, 
conectado a uma imensa rede invisível, que engloba todas as coisas, do micro ao 
macrocosmo, e não têm nenhum pudor em reconhecer a complementaridade entre 
ciência e religião, valorizando a espiritualidade na vida humana. (NOBRE, 2004). De 
um período de fechamento da Medicina científica em relação à espiritualidade, há 
hoje uma grande abertura para a sua aceitação. (PESSINI, 2007). 
Em 1998, a OMS, durante a 101st session of the Executive Board, eighth 
meeting, propôs a emenda de sua Constituição (Resolution EB101. R2), passando a 
conceituar saúde como um estado dinâmico de completo desenvolvimento físico, 
mental, espiritual e bem-estar social e não meramente a ausência de doença ou 
enfermidade (NEELY; MINFORD, 2008). Portanto, percebe-se a importância desta 
dimensão da assistência ao paciente. 
Desta forma, a atenção ao aspecto da espiritualidade se torna cada vez mais 
necessária na prática de assistência à saúde, pois os profissionais passaram a 
apreciar a importância da espiritualidade tanto para a saúde e bem-estar de seus 
pacientes, como para suas próprias vidas. (PUCHALSKI; LARSON; LU, 2001). 
A espiritualidade e sua relação com a saúde tem se tornado claro paradigma 
a ser estabelecido na prática médica diária moderna. O sofrimento espiritual não 
identificado frequentemente é o culpado em um plano terapêutico mal sucedido. 
(LIESSI; SANTOS; LOURES, 2010). 
Estudos têm revelado que os profissionais de saúde estão cada vez mais 
sensíveis a essa dimensão do cuidado; entretanto, as habilidades para identificá-la e 
avaliá-la ainda necessitam de maior conhecimento, esclarecimentos de conceitos, 
aprimoramento profissional e fundamentação científica por meio da realização de 
mais pesquisas sobre o tema espiritualidade e religiosidade. (PUCHALSKI; 
LARSON; LU, 2001). 
Há um aumento de mais de 600% das publicações científicas envolvendo 
espiritualidade e saúde em 10 anos. (STEFANEK; MCDONALD; HESS, 2005). Este 
aumento pode ser relacionado às manifestações de insatisfações ao modelo da 
biomedicina, que acabou por impulsionar: 
[..] o fortalecimento da crítica aos pressupostos filosóficos da racionalidade 
científica, a partir da segunda metade do século XX, e o surpreendente 
aumento dos movimentos religiosos, no final do mesmo século, criaram 
condições para o florescimento de uma extensa literatura, proclamando 
ideias e estratégias de saúde integradas a uma visão religiosa. Estas 
publicações passam a ser consumidas amplamente, tanto pela população 
como pelos profissionais de saúde. Apesar desta mudança cultural, os 
estudos acadêmicos em saúde continuam extremamente fechados à 
incorporação de aspectos religiosos no entendimento do processo de 
adoecimento e cura. (VASCONCELOS, 2009, p. 324). 
Os termos religiosidade e espiritualidade são utilizados frequentemente como 
sinônimos, mas seus significados não são os mesmos. Torna-se necessário neste 
momento fazer uma clara distinção entre eles, e existem na literatura várias 
definições acerca de religiosidade e espiritualidade. Isto é importante porque, em 
uma sociedade secular crescente, muitas pessoas que não têm fé religiosa 
específica, têm espiritualidade que dá a sua vida significado e propósito (NEELY; 
MINFORD, 2008). 
Lukoff, Lu e Turner (1992) definem religiosidade como adesão a crenças e 
práticas relativas a uma igreja ou instituição religiosa organizada, e espiritualidade, 
como a relação estabelecida de uma pessoa com um ser ou uma força superior a 
qual acredita. Worthington et al. (1996) definem uma pessoa religiosa como aquela 
que possui crenças religiosas e que valoriza a religião como instituição. Já uma 
pessoa espiritualizada é aquela que acredita, valoriza ou tem devoção a algum 
poder superior, mas não necessariamente possui crenças religiosas ou é devoto de 
alguma. 
Para Giovelli et al. (2012), a religiosidade trata de uma relação com a força 
divina ou sobrenatural; está ligada ao sagrado e a uma doutrina; serve como veículo 
pelo qual o indivíduo expressa sua espiritualidade, a partir de valores, crenças e 
práticas rituais que podem fornecer respostas às perguntas essenciais sobre as 
questões de vida e morte. É a aceitação de determinados conjuntos de valores e 
suas implicações. 
A espiritualidade, por sua vez, possui inúmeras definições. Boff (2001) a 
relaciona com as qualidadesdo espírito humano, tais como amor e compaixão, 
paciência e tolerância, capacidade de perdoar, comportamento, noção de 
responsabilidade, noção de harmonia, que trazem felicidade para a própria pessoa 
como para os outros. Saad, Masiero e Battistella (2001) a definem como um sistema 
de crenças que enfoca elementos intangíveis e que transmite vitalidade e significado 
a eventos da vida. Tal crença pode mobilizar energias e iniciativas extremamente 
positivas, com potencial ilimitado para melhorar a qualidade de vida das pessoas. 
A busca de sentido e significado em tudo que está em nós e em nossa volta é 
uma das necessidades fundamentais do ser humano, sendo realizada através de 
conceitos que transcendem o tangível; esta busca e crença em um sentido de 
conexão com algo maior que si próprio pode ser chamada de espiritualidade. 
(GIOVELLI et al., 2012). 
Assim, a espiritualidade é uma experiência universal que abrange o domínio 
existencial e a essência do que é ser humano; não significa uma doutrina religiosa, 
mas sim uma filosofia do indivíduo, seus valores e o sentido atribuído à vida, não se 
limitando a qualquer tipo de crença ou prática religiosa. A dimensão da 
espiritualidade visa a favorecer a harmonia com o universo, esforçando-se para 
responder a questões sobre o infinito e entra em evidência quando o indivíduo se 
encontra em situações de estresse emocional, doença física e morte, buscando um 
sentido para os acontecimentos, a integridade, a paz e a harmonia. Está relacionada 
com a essência da vida e produz comportamentos e sentimentos de esperança, 
amor e fé, em uma perspectiva de subjetividade e transcendência, que, pode ou não 
levar ao desenvolvimento de práticas religiosas. (GIOVELLI et al., 2012). 
Portanto, pode-se ter espiritualidade sem religião, mas não pode ter religião 
sem espiritualidade. A espiritualidade faz com que o significado flua na vida diária. 
A espiritualidade é uma questão de confiança naquele supremo pertencer que 
você vivencia em momentos de pico, de entendimento e percepção profunda. Estes 
momentos aparecem muitas vezes em situações como mudanças, doenças ou 
conflitos como uma compreensão súbita ou iluminação (CAPRA; STEINDL-RAST, 
1993). 
De fato, até o momento, os termos espiritualidade e religiosidade envolvem 
diversos conceitos. Segundo Koenig (2008), a espiritualidade estaria muito mais 
relacionada ao cuidado com o paciente do que a religiosidade que, por ser mais 
facilmente aferida, teria papel importante nas pesquisas científicas. 
Apesar dos significados distintos, o certo é que as crenças religiosas e 
espirituais demonstram serem recursos auxiliares na promoção de saúde e no 
enfrentamento de acontecimentos estressores, como no processo saúde-doença. 
Os conceitos espiritualistas provenientes da nova ciência podem e devem ser 
aplicados na saúde e na relação médico-paciente. Acreditando que o trabalho vivo1 
em ato seja capaz de criar infinitas possibilidades, modificando o objeto, ajudando-o 
na sua reestabilização, é neste contexto que a espiritualidade se insere. No trabalho 
em saúde o consumo do produto pelo usuário dá-se imediatamente na produção da 
 
1
 Por trabalho vivo entende-se o momento do trabalho em si, o qual depende de todo o saber adquirido para 
realização do mesmo. Esse momento é marcado pelas diversas possibilidades que o profissional tem para agir 
neste ato produtivo, incluindo aí seus saberes, sua subjetividade e os materiais que ele utiliza (MERHY, 1995). 
ação, construindo um espaço intercessor entre o trabalhador e o usuário que sempre 
existirá nos seus encontros, mas só nos seus encontros e em ato. (MERHY, 2003) 
Segundo Dal-Farra e Geremia (2010), excluir completamente os fatores 
religiosos e espirituais ou desconsiderá-los como parte importante do ser humano 
pode gerar uma oposição desnecessária, afetando as interconexões entre as 
diferentes dimensões do ser humano biopsicossocioespiritual. Por outro lado, uma 
posição conciliatória com o objetivo de construir a sinergia entre os vários 
elementos, pode contribuir para a saúde e o bem-estar, resultando inclusive em 
maior aderência aos procedimentos preventivos e terapêuticos. 
Segundo Neely e Minford (2008), nos últimos anos tem havido um interesse 
renovado nas ligações entre a espiritualidade, religião e saúde, refletida em um 
volume crescente de literatura sobre as relações entre eles. É reconhecido e 
lembrado que um paciente precisa ser tratado como uma pessoa inteira e não 
apenas como uma doença ou condição. A pessoa inteira tem dimensões físicas, 
emocionais e espirituais que interagem umas com as outras e conta para o bem-
estar pessoal. 
Cada vez mais a ciência se curva diante da grandeza e da importância da 
espiritualidade na dimensão do ser humano e o tema espiritualidade aparece nas 
principais revistas e conferências médicas. A interação entre mente e corpo, e a 
influência da espiritualidade sobre parâmetros de saúde estão amplamente 
demonstradas na literatura, indicando claramente que os aspectos ligados à 
espiritualidade auxiliam na promoção de tranquilidade e bem-estar em face das 
doenças e na prevenção e recuperação de pacientes, havendo uma relação positiva 
entre envolvimento espiritual e saúde física e mental (BARNES et al., 2000). 
Segundo Koenig (2003), verifica-se que, nos momentos de acometimentos 
físicos e emocionais, as questões espirituais se tornam mais importantes, bem como 
as relativas ao significado e propósito da vida, assumindo, portanto, maior relevância 
em países como o Brasil, em que a população idosa está em franco crescimento e a 
prevalência de doenças crônicas se amplia proporcionalmente. 
O principal motivo que justifica o médico abordar a espiritualidade com seus 
pacientes é que a maioria deles acredita em Deus e tem uma religião. Outros 
motivos são que os pacientes gostariam que suas necessidades religiosas e 
espirituais fossem ouvidas e que crenças religiosas afetam decisões médicas e 
podem conflitar com o tratamento. (KOENIG, 2003) 
As influências da religião dos pacientes, familiares e médicos se expressão no 
atendimento em saúde, desde a escolha do profissional a ser consultado, nas 
escolhas terapêuticas e na adesão ao tratamento. Segundo Pessini (2007), há a 
crença de que ambientes humanizados são fatores de saúde e cura; os valores 
humanos, que até há pouco tempo não eram tidos como importantes, são retomados 
no cuidado em saúde. 
Vários estudos prospectivos descobriram que aqueles que são mais religiosos 
têm pressão arterial mais baixa, menor número de eventos cardíacos, melhores 
resultados após a cirurgia cardíaca e maior sobrevida em geral. (LUCCHETTI, et al., 
2012; NEELY; MINFORD, 2008). 
Um extenso conjunto de publicações em bases de dados como Medline, 
PsycLIT, Embase, Ciscom e Cochrane Library têm identificado evidências de que o 
envolvimento religioso está favoravelmente associado a indicadores de bem-estar 
psicológico, incluindo a satisfação na vida, a felicidade, menor frequência de 
depressão e de utilização de drogas de abuso, entre outros. (MOREIRA-ALMEIDA; 
LOTUFO NETO; KOENIG, 2006). 
Culliford (2002) apontou uma extensa lista de 1.200 estudos e 400 revisões 
sobre correlações estatísticas e estudos longitudinais relacionando benefícios de 
práticas espirituais em pacientes com doenças cardíacas, hipertensão, doenças 
cerebrovasculares, imunológicas, câncer, dor e disfunções em geral, 
comportamentos saudáveis e a prática de exercícios, tabagismo, drogas, síndrome 
de burnout, relacionamentos conjugais e familiares, psicoses, depressão, ansiedade, 
suicídio e transtornos de personalidade. Os resultados indicaram claramente que os 
aspectos ligados à espiritualidade auxiliam na promoção de tranquilidade e bem-
estar em face das doenças e na prevenção e recuperação de indivíduos afetados. 
Podem,ainda, positivamente, auxiliar no processo saúde e doença, desde 
comportamentos como respeito ao corpo (menor uso de tabaco, drogas e atividade 
sexual de risco) e o suporte social da comunidade, até os efeitos psico-
neuroimunológicos da prece, da meditação e dos rituais. (LEVIN, 1996). 
McCullough et al. (2000), em metanálise de 42 estudos independentes, 
avaliando cerca de 125.826 participantes, demonstraram que o envolvimento com 
prática religiosa foi significativamente associado à menor mortalidade. 
Diversos estudos examinaram a relação da religiosidade e/ou espiritualidade 
com diversos aspectos da saúde mental. A maioria deles aponta para melhores 
indicadores de saúde mental e adaptação ao estresse em pessoas que praticam 
atividades ditas religiosas. (MOREIRA-ALMEIDA; LOTUFO NETO; KOENIG, 2006). 
Considerando que os estados de doença provocam uma ruptura nos aspectos 
biológicos, psicológicos, sociais e espirituais dos pacientes, as ações de cura 
deveriam atender a todos esses fatores. (SULMASY, 2002) 
Para Saad e Almeida (2008), quando um indivíduo se sente incapaz de en-
contrar um significado para os eventos da vida, como a doença, ele sofre pelo 
sentimento de vazio e desespero. Porém, a espiritualidade oferece um referencial 
positivo para o enfrentamento e ajuda a suportar melhor os sentimentos de culpa, 
raiva e ansiedade. 
A espiritualidade proporciona crescimento nos vários campos do 
relacionamento: no campo intrapessoal (consigo próprio), gera esperança, altruísmo 
e idealismo, além de dar propósito para a vida e para o sofrimento; no campo 
interpessoal (com os outros) gera tolerância, unidade e o senso de pertencer a um 
grupo; no campo transpessoal (com um poder supremo), desperta o amor 
incondicional, adoração e crença de não estar só. (SAAD; ALMEIDA, 2008). 
Enfim, pacientes, assim como suas famílias, devem ter suas necessidades 
físicas, psicológicas, sociais e espirituais atendidas, sem que nenhum destes 
aspectos seja esquecido. Portanto, o olhar do médico e do profissional da saúde 
para o processo saúde-doença deve ser ampliado, incluindo os propósitos de vida e 
as concepções de mundo. 
 
 
 
4. ENSINO MÉDICO E ESPIRITUALIDADE 
 
 
 
"Tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem, 
é conhecer o homem que tem a doença". 
 (Osler, 1849) 
 
 
 
4.1. Considerações Históricas 
Na antiguidade clássica, a filosofia abraçava todos os campos do saber. Era 
na Grécia antiga, de todas as ciências humanas, a Medicina, a mais afim das 
ciências éticas de Sócrates. Dotada de uma visão holística, entendia o homem como 
um ser de corpo e espírito, atuando em uma série de fatores causais. (JAEGER, 
1995). 
Na Idade Média, da Filosofia surge um primeiro ramo, a Teologia. Ao final da 
Idade Média, vinculados à Igreja Cristã, surgem os hospitais, depositários de 
doentes sem condições de recuperação, obra de caridade e local de 
institucionalização da educação médica na época. (SCLIAR, 1996). 
No século XVI, inicia-se uma fase de exploração dos mistérios do corpo e a 
Medicina passa a ser tratada como arte e ciência. Com Newton, a Filosofia começa 
a se fragmentar de forma definitiva e com Descartes a Matemática passa a ser o 
modelo de todas as ciências que surgiam. O homem começava a ser visto como 
uma máquina com aparelhos e sistemas concretos. 
A Idade Moderna é marcada por um novo papel do hospital, agora, lugar de 
cura e de recuperação dos enfermos, restabelecendo-os ao seu papel produtivo na 
sociedade capitalista mercantil da época. (SCLIAR, 1996). 
Até o final do século XIX, o ensino médico era carente de base científica e 
baseado em aula magistral. A partir do desenvolvimento das ciências biológicas, da 
química, da física e da matemática há uma reorganização no saber médico, que 
gradativamente, passa a desconsiderar as fontes das humanidades, levando a 
desumanização no ensino e na prática da Medicina. (JAEGER, 1995). 
Nos Estados Unidos, no final do século XIX, difunde-se a necessidade nas 
escolas médicas de laboratórios, mestres e pesquisadores. 
A evolução tecnocientífica em velocidade cada vez maior, principalmente 
após as Grandes Guerras do século XX, levou a extrema valorização dos aspectos 
científicos em detrimento dos aspectos humanistas. (DANTAS FILHO; SÁ, 2007). 
Na segunda década do século XX, nos Estados Unidos, um estudo 
encomendado pela Carnegie Foundation denominado relatório Flexner, acaba por se 
tornar paradigma para o ensino superior, principalmente nas carreiras biomédicas. A 
nova concepção, a partir de então, era que o ensino médico deveria ser construído 
em atividades na enfermaria e no laboratório. Propunha, ainda, a divisão do curso 
em disciplinas básicas e clínicas, a criação dos departamentos e sistemas de 
créditos. Estas modificações acabam fortalecendo uma visão individualista, 
tecnicista, biologista e hospitaliza a educação médica (FLEXNER, 1910). 
A atenção dos médicos transferiu-se dos pacientes para a doença. 
Localizaram, diagnosticaram e classificaram patologias. Os hospitais passam a ser 
centro de diagnósticos, terapia e ensino. Iniciou-se a tendência a especialização. 
(CAPRA, 2001). 
Esta visão organicista promoveu a divisão do ser humano, em nível do corpo, 
em aparelhos, sistemas e órgãos e influenciou uma ruptura gradual da relação 
médico-paciente, a medicalização e a supervalorização da tecnologia médica. 
O paradigma, até então, da formação dos médicos se caracterizava pelo 
predomínio da dimensão biológica do homem não havendo espaços significativos 
para o desenvolvimento da relação profissional/cliente. A doença e as 
especialidades eram os focos principais, não sendo considerados os determinantes 
sócios econômicos culturais e políticos que envolvem o processo saúde-doença. 
(BOGHOSSIAM, 1996). 
Este modelo histórico de formação médica mecanicista, fragmentado e 
reducionista, separou o corpo da mente, o sentimento da razão, a ciência da ética, 
refletindo em uma prática médica com vínculos superficiais, falta de reforços 
positivos, pressa, ações corporais ofensivas entre colegas, falhas de comunicação e 
pouca responsabilização na condução das histórias de vida e registro dos pacientes. 
(BINZ; MENEZES FILHO; SAUPE, 2010). 
A lógica da produtividade tomou conta da relação paciente-médico e a 
Medicina tornou-se impessoal, excessivamente técnica, fria e distante. O tratamento 
do paciente transformou-se, quase que exclusivamente, em uma intervenção 
exterior, dirigida à anormalidade biológica, através de drogas de todos os tipos e 
ações. A atenção do médico desviou-se do paciente para a doença. A intensa 
valorização dos aspectos tecnológicos e científicos acabou por afastar o estudante 
de Medicina da formação ética e humanística. 
Nos cuidados médicos modernos, a tecnologia pesada passou a ocupar lugar 
central, promovendo, ainda mais, a especialização, deixando o médico de olhar o 
paciente como um todo, produto de uma integração do corpo, espírito e mente com 
seu ambiente social e natural. 
Nos anos 90, as discussões sobre o ensino médico no Brasil ganharam maior 
articulação a partir da criação da CINAEM, renomeada anos depois de Comissão 
Interinstitucional Nacional de Avaliação das Escolas Médicas, na qual estão 
representados praticamente todos os órgãos de classe e de ensino médico. A 
CINAEM foi criada em novembro de 1990, durante a realização do XXVIII Congresso 
da ABEM com o objetivo de avaliar o ensino médico no país. Para compor esse 
grupo foram convidadas entidades representativas da comunidade acadêmica e da 
classe médica. 
Em 1994 dados do CINAEM mostravam que a maioria dos cursos no Brasil se 
dividia em ciclos básico, clínico, pré-clínico e internato, o ensino era 
departamentalizado e havia pouca integração de conhecimentos. O CINAEM 
mostrou que o modelo de ensino vigente é centrado na doença, sem visão 
integradora do indivíduo e da sociedade;que o aluno privilegia os conhecimentos 
técnicos e em menor grau as habilidades e a relação com o paciente; há baixa 
titulação docente; predominam as atividades docentes no ensino e na assistência e 
em menor proporção na pesquisa; há especialização precoce do aluno, decorrente 
principalmente da associação entre a escola médica e o hospital universitário, cuja 
organização se baseia na divisão da prática por especialidades e subespecialidades, 
na utilização acrítica de tecnologia e na concepção de prática da Medicina liberal 
(COMISSÃO INTERINSTITUCIONAL NACIONAL DE AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS 
MÉDICAS, 1994). 
Em momento posterior, as análises passaram a centrar-se na questão da 
formação do docente de Medicina, vista como fator limitante à mudança e/ou à 
melhoria da qualidade no ensino. No entanto, o docente de Medicina, como a 
maioria dos docentes universitários, tem seu ingresso na docência sem passar por 
qualquer formação didática, com exceção de disciplina eventualmente existente na 
pós-graduação. Em geral, os bons docentes referem-se a modelos de bons 
docentes que tiveram em seus tempos de faculdade e que procuram reproduzir. Os 
alunos, por seu lado, referem-se aos bons docentes como aqueles que possuem 
nítido interesse em ensinar; estabelecem boas relações com seus alunos; sabem 
selecionar o conteúdo de ensino relevante para a formação de graduação e se 
portam de forma compassiva e ética frente aos pacientes e a seus pares. E, 
claramente, há uma boa dose de paixão embutida nisso. (BALZAN,1996). 
 
4.2. Crise da Sociedade 
 
“O mundo depende de você e daquilo que você 
comunica a outras pessoas. Ele depende daquilo 
que você acredita que é real” 
 Goswami, 2000 
Na sociedade deste século, seres humanos buscam caminhos de integração 
e respeito e valorizam a vida espiritual. 
Reflexões sobre a humanização, a bioética, a diversidade étnica e sexual e a 
pluralidade cultural devem estar presentes na formação deste novo médico. 
Reencontrar e revalorizar as humanidades nos cursos de Medicina implica em 
ampliar os conhecimentos capazes de propiciar a crítica, incrementar a construção 
de recursos de vínculo por esses novos profissionais médicos, incorporar 
informações sobre as comunidades, cuidados e continuidade da assistência, bem 
como priorizar as ações de atenção, conforme as necessidades concretas da 
população. (AMORETTI, 2005). 
A crescente insatisfação do modelo biomedicina, o novo paradigma científico, 
a partir da segunda metade do século XX, e o aumento dos movimentos religiosos, 
no final do mesmo século, criaram condições para o fortalecimento de uma extensa 
literatura, proclamando ideias e estratégias de saúde integradas a uma visão 
religiosa. (BOFF, 1999; PIETRONI, 1988). 
A preocupação crescente com as mudanças necessárias na educação em 
saúde fomenta estudos e debates sobre a formação médica e os caminhos para a 
mudança. (BRASIL, 2006). 
Nos últimos anos, iniciativas governamentais, como as Diretrizes Curriculares 
Nacionais (DCN), o Programa de Incentivo a Mudanças Curriculares nos Cursos de 
Medicina (Promed) e o Programa Nacional de Reorientação da Formação 
Profissional em Saúde (Pró-Saúde), demonstram a preocupação em consolidar 
mudanças na formação dos recursos humanos, conforme a visão moderna de 
saúde, levando a uma formação crítica e humanista do profissional médico (BINZ; 
MENEZES FILHO; SAUPE, 2010; LAMPERT, 2004). 
As premissas enfatizadas nas novas diretrizes incluem integração entre teoria 
e prática, pesquisa e ensino e entre conteúdos biológicos, psicológicos, sociais e 
ambientais do processo saúde-doença, além da inserção precoce e responsável dos 
estudantes em atividades formativas nos serviços de saúde e o estímulo à 
participação ativa destes na construção do conhecimento, atitudes estas que 
instigam uma interação ativa entre estudantes, professores, profissionais de saúde e 
usuários. (NOGUEIRA, 2009). 
Na realidade da atenção em saúde, surgem as questões da relação entre as 
necessidades do sistema de saúde histórico. A LDBEN (Lei das Diretrizes e Bases 
da Educação Nacional) define dentro de suas finalidades o estímulo ao 
conhecimento dos problemas do mundo atual (Nacional e Regional) e a prestação 
de serviço especializado à população, estabelecendo com ela uma relação de 
reciprocidade. (MITRE, 2008). 
O Conselho Nacional de Educação através da resolução CNE/CES Nº 4 de 
2001, institui em seu artigo 3º: 
O Curso de Graduação em Medicina tem como perfil do formando 
egresso/profissional o médico, com formação humanística, crítica e 
reflexiva, capacitado a atuar, pautado em princípios éticos, no processo de 
saúde-doença em seus diferentes níveis de organização, com ações de 
promoção, prevenção, recuperação e reabilitação à saúde, na perspectiva 
da integralidade da assistência, com senso de responsabilidade social e 
compromisso com a cidadania, como promotor de saúde integral do ser 
humano. 
 
 
 
4.3. O novo modelo 
 
“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa 
sozinho; as pessoas se educam entre si, 
mediatizadas pelo mundo” 
(Paulo Freire, 1987) 
 
 
Assim, frente ao desafio de aperfeiçoar o cuidado do ser humano nos estados 
de saúde e doença, respeitando-o como um ser integral, muitas faculdades de 
Medicina têm incluído atividades relacionadas à importância da espiritualidade para 
a saúde e o bem-estar das pessoas. 
 
 
No ensino médico, a excessiva valorização dos aspectos tecnológicos e 
científicos da profissão, que ganhou força extraordinária após o Relatório 
Flexner, acabou por afastar brutalmente o estudante de Medicina da 
formação ético-humanística, que além de relegada a um segundo plano, 
não raro era considerada supérflua ou até ridícula. Não há dúvida, porém, 
que a crença das pessoas afeta radicalmente sua visão de mundo e 
influencia desse modo todas as suas atitudes e decisões. Essa influência 
pode facilitar ou dificultar suas relações interpessoais, incluída aí a relação 
médico-paciente. (DANTAS FILHO; SÁ, 2007, p. 273). 
 
Em resposta a esta necessidade, a Associação de Faculdades de Medicina 
Americanas e o Instituto Nacional de Pesquisa no Cuidado à Saúde, reconhecendo 
a importância da bioética e o aumento de evidências sobre a interconexão entre 
espiritualidade e saúde, têm patrocinado conferências para praticar o 
desenvolvimento curricular desta temática nos cursos de Medicina nos Estados 
Unidos. (PUCHALSKI; LARSON; LU, 2001). 
Corroborando e ampliando esta diretriz, a Organização Mundial de Saúde e a 
Comissão Conjunta de Acreditação de Organizações de Saúde recomendam que as 
questões espirituais devam ser inseridas no ensino dos profissionais de saúde 
(FREEMAN; DOBBIE, 2007). A força da espiritualidade funciona como uma 
ferramenta de “promoção da saúde, na medida em que aborda dimensões pouco 
conscientes do ser em que se assentam os valores, motivações profundas e 
sentidos últimos da existência individual e coletiva”, como bem lembra Vasconcelos 
(2009, p. 325). 
Os portadores de doenças graves vivem crises subjetivas intensas e 
mergulham com profundidade em dimensões inconscientes da 
subjetividade. É nessa elaboração subjetiva profunda que são construídos 
novos sentidos e significados para suas vidas, capazes de mobilizá-los na 
difícil tarefa de reorganização do viver exigida para a conquista da saúde. 
Há uma milenar tradição do uso da espiritualidade no enfrentamento dos 
problemas de saúde que pode ser resgatada, mas que necessita ser 
atualizada para as atuais características da sociedade. (VASCONCELOS, 
2009, p. 325). 
A inserção de temas envolvendo espiritualidade e religiosidade no curso de 
Medicina seguem os caminhos dessa visão mais ampla de ser humano, que supera 
os paradigmas tecnocientífico e comercial-empresarial da Medicina atual, integrando 
o paradigma humanitário-solidário, a partir do qual o paciente é visto,além de 
exclusivamente por sua biologia, também por sua biografia, (MARTIN, 1998). É a 
busca de um conceito ainda mais global de saúde, incorporando ao clássico 
conceito da OMS de “bem-estar físico, mental e social” (SILVA, 1998) o “bem-estar 
espiritual”. (MARTIN, 1998). 
Neste novo século, o avanço tecnológico, as reflexões sobre as metodologias 
de ensino e as publicações científicas e discussões da espiritualidade sobre a saúde 
humana são repercussões das alterações do mundo no ensino em saúde. (DAL 
FARRA; GEREMIA, 2010). 
Sobre as metodologias, vivemos um momento do ensino e aprendizado em 
transição de um modelo tecnocrático, depositário e fragmentado para um novo 
modelo construído por valores, em conjunto e integralista, permitindo a correlação 
entre o significado e a contextualização do conhecimento em questão. 
Desta forma, o processo de ensino e aprendizagem passa a valorizar o 
desenvolvimento de habilidades técnicas cognitivas e atitudinais, através da busca 
ativa, autoformação, articulação do conhecimento, raciocínio crítico, habilidades de 
comunicação, saber atuar em equipe, discussão bioética, étnica, diversidade sexual 
e transcultural. 
Segundo Santos, Tenório e Kich (2011), o grande desafio de uma proposta de 
ensino é desenvolver reflexões e questionamentos do tipo: como lidar com as 
necessidades de aprendizagem dos alunos? O que deve ser ensinado? Que 
saberes são significativos para sua aprendizagem? Quais são os interesses, frente 
aos conflitos sociais que se vivenciam? 
 
As situações didáticas são pontos fundamentais para desencadear o 
processo de aprendizagem. O docente, ao criar condições para que o aluno 
possa sentir/pensar/agir, promove a integração dos conteúdos, dos alunos 
entre si, e a relação professor/ alunos. (SANTOS; TENÓRIO; KICH, 2011, p. 
61). 
 
De acordo com Dellaroza e Vannuchi (2005) existem alguns princípios para a 
construção de um currículo integrado, são eles: totalidade, interdisciplinaridade, 
relação entre teoria e prática, e deve ser considerado um processo permanente 
aberto para discussão, crítica, avaliação, sendo reconstruído sempre. Nesse sentido, 
deve ser valorizada a integração do ensino, do serviço e da comunidade, assim 
como a problematização (exercer uma análise crítica sobre o problema) e a 
aprendizagem significativa (o mais importante é aquilo que o aprendiz já sabe). 
É preciso que a ação educativa esteja pautada na vivência dos aprendizes, 
oportunizando a elaboração de novos conceitos, a resolução de problemas 
e a tomada de decisões, tanto individual como coletivamente. Assim, 
dizemos que esse processo tem como resultados as aprendizagens 
significativas desses alunos. (SANTOS; TENÓRIO; KICH, 2011, p. 62) 
 
Módulos interdisciplinares substituem a função administrativa das disciplinas, 
e devem garantir habilidades cognitivas (saber), psicomotoras (saber fazer) e 
atitudinais (saber ser e saber conviver) necessárias para o alcance de desempenhos 
e competências. (DELLAROZA; VANNUCHI, 2005). Na formação em saúde, surge 
também o conceito de aprender fazendo, ação-reflexão-ação presente ao longo de 
toda a carreira. 
O armazenamento e entendimento das informações se processam na relação 
estabelecida entre o significado e o contexto, o que já se sabe, para que se serve, e 
aonde se insere em minha realidade. Portanto, na aprendizagem significativa se 
estabelece a relação destes dois processos: o da continuidade, relações 
estabelecidas com o conhecimento prévio e o da ruptura, ao problematizar a 
realidade por sujeito crítico e reflexivo. Ao problematizar o discente, torna-se 
responsável por sua comunidade e sociedade real, um agente de transformação 
social, pois mobiliza discussões éticas, políticas e sociais. 
O conhecimento não se transmite se comunica e nesta comunicação exigem-
se habilidades tanto na busca de reforços positivos do seu processo como na busca 
de quebra de barreiras que limitam a sua expansibilidade. (PEGORARO, 2002.). 
O conhecimento surge da intenção e desejo da busca de resposta à própria 
realidade da vida humana. Surge como trabalho morto2 da ação comportamento. 
Esta relação realidade, pergunta, conhecimento, comportamento e nova realidade se 
retroalimentam dentro de realidades que se encontram, se transformam, se criam e 
recriam-se. E nestes intercruzamentos de realidade é que os preceitos bioéticos 
surgem. (PEGORARO, 2002.). 
Em nosso País, o Ministério da Saúde, aprovou a Portaria n. 1820, de 13 de 
agosto de 2009 (BRASIL, 2009), que “dispõe sobre os direitos e deveres dos 
usuários da saúde nos termos da legislação vigente” (art. 1º), que passam a 
constituir a “Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde” (art. 9º), publicada no Diário 
Oficial da União, 14 de agosto de 2009. O artigo 4º e parágrafo único afirmam: 
Toda pessoa tem direito ao atendimento humanizado e acolhedor, realizado 
por profissionais qualificados, em ambiente limpo, confortável e acessível a 
todos. Parágrafo único: É direito da pessoa, na rede de serviços de saúde, 
ter atendimento humanizado, acolhedor, livre de qualquer discriminação, 
restrição ou negação em virtude de idade, raça, cor, etnia, religião, 
orientação sexual, identidade de gênero, condições econômicas ou sociais, 
estado de saúde, de anomalia, patologia ou de deficiência, garantindo-lhe: 
III – nas consultas, nos procedimentos diagnósticos, preventivos, cirúrgicos, 
terapêuticos e internações, o seguinte: (...); d) aos seus valores éticos, 
culturais e religiosos; (...); g) o bem-estar psíquico e emocional; X – a 
escolha do local de morte; (...) XIX – o recebimento de visita de religiosos 
de qualquer credo, sem que isso acarrete mudança na rotina de tratamento 
e do estabelecimento e ameaça à segurança ou perturbações a si ou aos 
outros. 
 
A Associação Médica Mundial, na “Declaração sobre os Direitos do Paciente” 
(UNESCO, 2005), diz que “O paciente tem o direito de receber ou recusar conforto 
espiritual ou moral, incluindo a ajuda de um ministro de sua religião de escolha”. A 
dimensão da espiritualidade é fator de bem-estar, conforto, esperança e saúde, e 
precisamos urgentemente de que nossas instituições de saúde se organizem no 
atendimento desta necessidade humana. 
Em 1993, menos de cinco escolas médicas dos Estados Unidos tinham a 
disciplina de religião/espiritualidade. Em 1994, apenas 13% das escolas médicas 
dos EUA ofereciam ensino sobre questões religiosas e espirituais aplicada à 
 
2 Trabalho morto são produtos de trabalhos humanos que os concretizaram, isto é, não estão prontos 
na natureza, e estão expressando no momento de sua utilização um trabalho morto que foi resultado 
de um trabalho vivo anterior que os produziram (MERHY, 2005). 
 
Medicina (17 das 126 escolas médicas americanas ofereciam cursos sobre 
Espiritualidade). Atualmente a maioria destas escolas oferecem em seus cursos tal 
temática. Os médicos educadores americanos tornaram-se mais conscientes de que 
a espiritualidade é um componente integral da assistência integral ao paciente e 
passaram a se esforçar para formar médicos mais compassivos. Os estudantes de 
Medicina estão sendo ensinados a atender às expectativas dos pacientes em 
respeitar e incorporar as suas perspectivas espirituais em seus cuidados. (NEELY; 
MINFORD, 2008). 
Dados da Harvard Medical School de 2007 apontam que mais de 100 escolas 
médicas americanas das atuais 141 (70,9%), já possuem cursos de espiritualidade 
na Medicina (FORTIN; BARNETT, 2004). Da mesma forma, instruções a respeito de 
espiritualidade nos programas americanos de residência médica em psiquiatria já 
são obrigatórias. (PUCHALSKI; LARSON; LU, 2009). 
Neely e Minford (2008) realizaram um estudo no Reino Unido objetivando 
investigar a natureza do ensino sobre a espiritualidade no currículo de graduação 
em Medicina, bem como verificar como os estudantesde Medicina são preparados 
para identificar as necessidades espirituais dos pacientes. Concluíram que apesar 
de 59% das escolas médicas do Reino Unido fornecer alguma forma de ensino 
sobre a espiritualidade, há pouca uniformidade entre as escolas médicas no que diz 
respeito ao conteúdo, forma, quantidade ou forma de ministrar o ensino. 
No Canadá, pesquisa realizada pelo George Washington Institute for 
Spirituality and Heath (GWISH) em 2001 demonstrou que haviam 4 escolas médicas 
com cursos de espiritualidade, 24% das 17 escolas. Em decorrência disso, foi criado 
o Gwish Canada Initiative em 2004, envolvendo líderes de 12 escolas médicas 
canadenses (70% do total) para implementação maciça de cursos de espiritualidade 
na Medicina do Canadá. (NEELY; MINFORD, 2008). 
Pouca informação existe sobre o ensino de Espiritualidade e Saúde nas 
Faculdades de Medicina na América Latina, Ásia, Austrália ou África. (BORGES et 
al., 2012). 
Conforme Borges et al. (2012), no Brasil, poucas Faculdades de Medicina 
possuem cursos relacionados à espiritualidade e saúde e, atualmente, 
aproximadamente 40% fornece alguma forma de ensino referente à temática. 
Infelizmente a maioria dos ensinos sobre espiritualidade e saúde não são 
padronizados e poucas universidades oferecem oportunidade para os estudantes 
realmente praticarem o que eles aprenderam. 
No Brasil, a primeira instituição a oferecer um curso a respeito do assunto foi 
a Universidade de Santa Cecília, localizada em Santos, Estado de São Paulo, no 
ano de 2002. Contudo, a primeira faculdade a promover a inserção do tema no 
currículo acadêmico foi a Universidade do Ceará, somente em 2006. Nos anos 
posteriores, outras Instituições, como as Universidades Federais de São Paulo, Rio 
Grande do Norte e do Triângulo Mineiro, passaram a oferecer algum curso 
relacionado à espiritualidade, todos no currículo de optativas. (LUCCHETTI; 
GRANERO, 2010). 
O Brasil conta também com grupos de pesquisa especializados em 
espiritualidade e saúde, como o PROSER (Programa de Saúde, Espiritualidade e 
Religiosidade) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, o NUSE 
(Núcleo Universitário de Saúde e Espiritualidade) da Universidade Federal de São 
Paulo e o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) da 
Universidade Federal de Juiz de Fora, os quais são responsáveis por grande parte 
das publicações relacionadas à Medicina e espiritualidade no Brasil. 
Lucchetti et al.(2012) afirmam que atualmente há um consenso geral entre os 
médicos e os professores das escolas médicas sobre a importância da 
espiritualidade na saúde, sendo necessária então, a inserção do tema no currículo 
das Faculdades de Medicina. 
Verifica-se, neste processo, a inclusão de atividades variadas e com 
diferentes objetivos em cada instituição. Fortin e Barnet (2004) ao estudarem as 
formas de inclusão da espiritualidade em atividades acadêmicas nas Faculdades de 
Medicina, constataram que elas são estruturadas de diferentes formas, tais como 
palestras, discussões em pequenos grupos, entrevistas padronizadas de pacientes, 
acompanhamento de capelães e leituras específicas. 
É muito importante que as inter-relações entre a espiritualidade e saúde 
sejam efetivamente contempladas na formação dos médicos e demais profissionais 
de saúde, abordando-se, inclusive práticas educativas. 
Entretanto, o fato de ser uma temática em fase de construção quanto a sua 
abordagem e inserção nos currículos torna relevante a realização de amplo debate 
acerca do tema por parte da comunidade acadêmica, tendo em vista os diferentes 
olhares sobre a questão e o processo democrático que deve permear a educação. 
Mesmo que muitas vezes não seja verbalizada nas interações dos pacientes 
com os médicos, a influência das questões espirituais estará sempre presente, 
compondo, em maior ou menor grau, a subjetividade do indivíduo, segundo uma 
perspectiva ética de abordagem. Deste modo, a inserção da espiritualidade no 
ensino na área da saúde representa considerá-la uma variável importante na 
constituição dos seres humanos, assim como os demais aspectos que os compõem 
como sujeitos, objetivando aumentar o conhecimento sobre as diversas religiões, 
desenvolvendo mecanismos de respeito e tolerância para com o paciente visto como 
ser integral e autônomo; revisar os conceitos pessoais dos estudantes, promovendo 
um exercício de busca de soluções para os possíveis enfrentamentos entre os 
conceitos (e preconceitos) próprios e os do paciente. (DANTAS FILHO; SÁ, 2007). 
As abordagens em educação devem ser realizadas de forma gradual e com 
uma inserção harmoniosa com as demais disciplinas. É fundamental que os médicos 
respeitem os aspectos espirituais dos pacientes diante da importância que 
representam na vida das pessoas. 
Segundo Pessotti (1996), num mundo em que os avanços científicos 
precisam prosseguir em paralelo à adoção de princípios éticos que visem ao bem-
estar de todos, não se pode prescindir da necessidade de cultivar uma atitude de 
profundo respeito à condição do outro, reconhecendo suas necessidades, seus 
anseios e suas potencialidades. Sob esta perspectiva, a inserção de temáticas que 
favoreçam a consideração do ser humano do ponto de vista integral permite abordar 
o paciente diante de seus anseios e expectativas. 
5. PEDIATRIA E ESPIRITUALIDADE 
 
 
“A Pediatria não é uma área de atividade dentro da Medicina: 
ela é toda a Medicina.” 
(Pedro de Alcantara, 1979) 
 
 
 
A Pediatria é o campo da Medicina que atende os problemas da criança, isto 
é, do ser humano em seu período de desenvolvimento, da fecundação à puberdade 
e tem como condição de existência e validade o amor à criança, o interesse por seu 
bem estar presente e futuro, o prazer de sua presença e na sua contemplação. 
(ALCANTARA, 1979) 
A criança nos abre ao transcendente, a gratuidade de amor, à expansão da 
existência para níveis que nos sobrepassam/transcendem, provocam em nós 
cumplicidades e a consciência de unidade. 
No processo do trabalho do pediatra, o objeto, a criança, não é só de corpo, 
como também de espírito e relações. Muitas vezes, a criança não se expressa pela 
linguagem codificada surgindo na comunicação símbolos e linguagens únicas. Os 
sentidos devem ser ampliados, devendo o pediatra estar atento a todos os sons e a 
todos os silêncios, e utilizar de outros instrumentos fora os oriundos da física 
clássica como termômetros, estetoscópios e aparelhos de pressão. 
Segundo Alcantara (1979) “é uma área peculiar da Medicina, diversa das 
especialidades em geral. Enquanto estas cuidam dos problemas de um órgão, ou 
aparelho, ou de um sistema, a Pediatria cuida dos problemas de um período da 
vida.” Para o mesmo autor, a assistência global à criança, tem-se que a Pediatria é a 
Medicina da pessoa e é por isso que esta área peculiar da Medicina possui enorme 
responsabilidade, já que é aplicada no vulnerável período do crescimento e do 
desenvolvimento humano. 
Em consequência de ser a Medicina da pessoa em vulnerabilidade, a 
Pediatria condiciona, mais do que outros ramos da Medicina, modalidades de 
espírito e de conduta do médico. 
Pela susceptibilidade emocional da criança, a Pediatria induz ao médico a 
gentileza e à doçura no seu trato, a fim de conquistá-la para sua 
propedêutica. Essa conduta, entretanto, deve ser a exteriorização de um 
sentimento profundo, que é a atitude espiritual e afetiva do pediatra frente à 
vulnerabilidade da criança e da injustiça dos males que a acomete. 
(ALCANTARA, 1979). 
 
E exatamente por tratar de um período de vida da pessoa em que esta se 
encontra extremamente vulnerável que se torna muito importante o reconhecimento 
da espiritualidade no cuidado a saúde, como fonte de fortalecimento para o 
enfrentamento da doença, incentivando comportamentose práticas saudáveis e 
fornecendo interações sociais. 
A literatura pediátrica contém poucas pesquisas sobre as relações entre a 
prática pediátrica e a espiritualidade (BARNES, et al., 2000; GROSSOEHME et al., 
2007). Em recente busca na base Medline, entre os períodos de 2002 a 2013, foram 
encontradas 22 referências da relação espiritualidade e pediatria. Historicamente, as 
primeiras publicações na literatura científica relatavam os efeitos negativos desta 
relação, incluindo as objeções religiosas aos cuidados médicos, autoritarismo, 
castigo, sentimentos de culpa ou indignidade. (ARMBRUSTER ; CHIBNALL ; 
LEGETT, 2003). 
Somente a partir do final do século XX é que algumas publicações passaram 
a explorar o potencial positivo dos efeitos da espiritualidade no cuidado com a 
criança, incluindo diversos mecanismos como: respeito ao corpo; menor uso de 
tabaco, drogas e risco sexual; suporte social das comunidades religiosas; e os 
efeitos psiconeuroimunológicos da prece, meditação e dos rituais. Da mesma forma, 
outras publicações demonstram os efeitos das filosofias de vida nas tradições 
espirituais e religiosas como sentimentos de otimismo, amor e esperança e os 
significados do conforto espiritual nas crises existenciais como no final da vida. 
(ARMBRUSTER ; CHIBNALL ; LEGETT, 2003; LEVIN, 1996). 
O atendimento às crianças e adolescentes envolve interações 
multidimensionais complexas entre médico, equipe de saúde, pacientes, pais e/ou 
responsáveis, comunidade e sistema de saúde, que são inseparáveis no momento 
da tomada de decisão e manejo terapêutico. 
 E este atendimento é fortemente afetado por crenças e valores, 
desigualdades sociais, avanços tecnológicos e questões morais da sociedade, 
resultando em vivências que, muitas vezes, são geradoras de dilemas éticos e 
espirituais. (GUEDERT; GROSSEMANN, 2011). 
Segundo Alcantara (1979), o pediatra deve estar atento a problemas 
orgânicos e psíquicos, em caráter preventivo e curativo. Cada um destes quatro 
aspectos deve ser considerado isoladamente e em suas múltiplas 
interdependências, à luz da constituição da criança; à luz das condições 
econômicas; das condições espirituais da família; e das condições do ambiente 
físico (clima, casa e terreno, agasalhos, condições propícias a acidentes), tudo isso 
em caráter evolutivo, conforme o progressivo desenvolvimento da criança, 
contribuindo para a formação de uma pessoa física e mentalmente sadia e 
socialmente útil. 
As crianças, em particular, não distinguem espiritualidade e religião e cada 
vez mais jovens têm ideias claras sobre realidade divina, fé e reza. (COLES, 1990). 
Eisemberg et al. (1998) concluíram que o senso de espiritualidade na criança 
ou o engajamento em alguma comunidade religiosa pode promover um 
enfrentamento estratégico positivo frente à doença e que diferentes tradições 
religiosas possuem diferentes interpretações do processo saúde-doença. 
Segundo Barnes et al. (2000), as tradições religiosas podem desempenhar 
vários papéis na vida das crianças, como por exemplo, fornecer estrutura para o 
desenvolvimento moral e para a socialização da criança em diferentes ideais 
de personalidade e comportamento e influenciar suas ideias a respeito da doença, 
do sofrimento, enfrentamento e cura, questões estas de grande relevância para a 
prática pediátrica e bem-estar infantil. 
Nos Estados Unidos, cerca de 100 milhões de crianças recebem anualmente 
atendimento pediátrico, sendo que estudos demonstram que a religião e a 
espiritualidade parecem influenciar os pediatras na abordagem dos cuidados às 
crianças (CATLIN et al., 2008). 
Atualmente, um número crescente de médicos reconhece que religião e 
espiritualidade ajudam alguns pacientes a lidarem com doenças, especialmente as 
que oferecem risco de vida. Pesquisas recentes descrevem as atitudes de médicos 
pediatras sobre religiosidade e espiritualidade e como estas poderiam influenciar no 
cuidado aos seus pacientes. (CADGE; ECKLUND, 2009). 
Em um estudo feito por Siegel et al. (2002), constatou-se que os pediatras 
exercem um importante papel no desenvolvimento das crianças e de suas famílias, 
bem como a religião e espiritualidade parecem influenciar a conduta dos pediatras 
quando do atendimento. Estes autores realizaram um estudo com pediatras e 
residentes em pediatria, e verificaram que apesar da maioria dos pesquisados 
acreditarem que a fé desempenha um papel na cura dos pacientes, apenas alguns 
deles perguntam sobre espiritualidade e religiosidade a seus pacientes. Verificaram, 
ainda, que os pesquisados com forte orientação religiosa e/ou espiritual 
demonstraram atitudes mais positivas para incorporar a religião e a 
espiritualidade em sua prática pediátrica. 
Os profissionais de saúde devem reconhecer o sofrimento da criança e dos 
membros de suas famílias ouvindo as suas histórias, proporcionando reflexões e 
auxiliando-os a encontrar seus significados de vida. Devem então identificar a 
necessidade de cuidado espiritual da criança e de sua família incorporando as 
questões éticas e oferecendo apoio. 
O pediatra tem o papel de facilitar o acesso aos recursos espirituais, assim 
como reconhecer e aceitar as práticas espirituais das famílias sob seus cuidados. A 
espiritualidade pode ser usada como estratégia de enfrentamento para amenizar o 
estresse vivido com a doença e oferecer conforto espiritual. (CALLAGHAN, 2005). 
Ebmeier et al. (1991) sugerem que a espiritualidade pode desempenhar um 
papel importante na vida diária de uma criança, que pode intensificar durante 
períodos de crise, como períodos de problemas de saúde, que envolvam 
experiências traumáticas (dano físico ou emocional), eventos de risco de vida 
(doença e morte). 
Tal como os adultos, a criança vai utilizar de experiências anteriores, incluindo 
as crenças religiosas e espirituais, na busca do sentido e para lidar com suas crises. 
Somando-se a isso, a criança terá uma gama de ideias preconcebidas, medos, 
preocupações e fantasias que são geralmente ligadas à fase de desenvolvimento 
cognitivo e experiências anteriores. É lógico que as crenças das crianças 
dependerão de seu estágio de desenvolvimento; parece apropriado tentar 
compreender espiritualidade das crianças através da abordagem de 
desenvolvimento. (McSHERRY; SMITH, 2005). Portanto, é necessário compreender 
as formas que as crianças podem expressar sua espiritualidade. 
A necessidade de significado e de integração afetiva, unida à capacidade 
simbólica própria dos primeiros anos levam, a criança, ao limiar da religiosidade, 
tornando-a particularmente disponível para a reflexão e relação com o 
transcendente. 
A constatação de que existe, aparentemente, uma associação positiva entre 
práticas espirituais e saúde nos faz naturalmente pensar em por que, como, quando 
e o que devemos abordar em espiritualidade na prática clínica. A provisão do 
cuidado espiritual pelo pediatra caracteriza-se como um desafio, dentre os papéis 
que lhes são atribuídos, ressaltam-se o estar presente, as habilidades de saber ouvir 
às demandas dos familiares e respeitar suas crenças e valores. (PAULA; 
NASCIMENTO; ROCHA, 2009). 
Desta forma, a espiritualidade e crenças pessoais dos pacientes necessitam 
ser inseridas no entendimento da prática clínica do pediatra (GIOVELLI et al., 2012). 
Trazer, portanto, a espiritualidade à discussão da prática do pediatra faz parte 
da ética dos seres vivos, o respeito e o reconhecimento do outro. 
Em todos os encontros clínicos, os pediatras podem ou não identificar a 
tradição espiritual e religiosa particular dos seus pacientes e familiares, e podem 
exibir diferentes graus de receptividade à dimensão espiritual nos seus cuidados. 
(BARNES et al., 2000). 
Um estudo realizado por Stern, Canda e Doershuk (1992) examinou a relação 
entre saúde, religião e espiritualidade das crianças e evidenciou que práticas 
religiosas e espirituaissão comuns e muitas vezes percebida pelas crianças como 
úteis. O senso de espiritualidade e/ou envolvimento de uma criança em uma 
comunidade religiosa pode contribuir para o enfrentamento positivo de uma 
determinada doença, já que elas passam a se sentir apoiadas, assistidas frente às 
experiências difíceis, especialmente nos casos de medo noturno, problemas 
psiquiátricos, hospitalização, deficiência, câncer, doenças terminais. (BARNES et al., 
2000). 
Ao fazerem um levantamento na literatura, McSherry e Smith (2005) 
verificaram que o desenvolvimento de uma abordagem mais ampla para a 
compreensão e atendimento das necessidades espirituais da criança e de sua 
família pode ser obtido através do desenvolvimento de uma compreensão 
multifacetada da natureza da espiritualidade, por meio do ensino médico; da ciência 
dos médicos de suas próprias crenças e valores; da garantia de uma abordagem 
centrada na criança, no intuito de fazer com que as crianças expressem suas 
crenças; minimização de separação ou rompimento com a criança e da família 
durante os períodos de doença; e compreensão de que a espiritualidade pode ou 
não ser expressa em crenças religiosas. 
 
 
 
6. OBJETIVOS 
6.1. Gerais 
 
� Comparar a religiosidade/espiritualidade dos pediatras e dos residentes em 
pediatria, e como isso influencia a sua prática clínica. 
� Identificar a percepção dos pediatras e residentes em pediatria quanto às 
necessidades espirituais das crianças atendidas e de seus familiares. 
 
6.2. Específicos 
 
� Correlacionar os aspectos da religiosidade/espiritualidade na prática do 
pediatra e dos residentes. 
� Conhecer o quanto que, na opinião dos pediatras e residentes em 
pediatria, a religiosidade/espiritualidade das crianças e familiares influenciam no 
tratamento e enfrentamento das doenças. 
 
 
 
 
7. METODOLOGIA 
 
7.1. Tipo de estudo 
 
Exploratório, descritivo e quantitativo. 
 
7.2. Local do estudo 
 
Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), um complexo de atendimento 
público de saúde de nível terciário que realiza atendimentos clínicos e cirúrgicos. O 
CHS está integrado ao SUS e é responsável pelo atendimento de 48 municípios do 
sudoeste paulista com uma população de mais de 3 milhões de habitantes e 
também é referência para as Unidades Básicas de Saúde de Sorocaba e Pronto 
Atendimento. 
O CHS é local tanto da prática do médico pediatra, funcionário público do 
Estado de São Paulo, como local de ensino-aprendizagem dos alunos de Medicina e 
dos residentes em pediatria da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da 
PUCSP. 
São nos seguintes setores do CHS onde residentes e pediatras atuam: 
Unidade Regional de Emergência (URE), Enfermaria, UTI Infantil, UTI Neonatal, 
Alojamento Conjunto (AC) e Ambulatório. Nestes setores, atuam em turnos de 12 
horas, totalizando cerca de 60 pediatras e 18 residentes em pediatria. 
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) 
da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo (PUC/SP) em 2011 (Anexo A) de acordo com a Resolução 196/96 do 
Conselho Nacional de Saúde e das diretrizes e normas regulamentadoras de 
pesquisa envolvendo seres humanos. Todos os participantes assinaram o Termo de 
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice 1). A pesquisa foi autorizada 
pelo CHS (Anexo B). 
 
 
7.3. População do estudo 
 
Foram entrevistados 37 pessoas, entre médicos pediatras, funcionários 
públicos do Estado de São Paulo e residentes em pediatria pela da Faculdade de 
Ciências Médicas e da Saúde da PUCSP. 
A residência médica objetiva o treinamento e a formação complementar do 
médico. É requisito e critério para obtenção de títulos de especialista nas 
especialidades. 
A residência médica em pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas e da 
Saúde é reconhecida pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). 
A Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) é vinculada ao 
Ministério da Educação que estrutura e sistematiza as normas de organização e 
funcionamento das Residências Médicas. 
A Pediatria é um dos mais antigos dentre os inúmeros programas de 
residência oficialmente reconhecidos pela CNRM. Tem como atividade a assistência 
do ser humano desde antes do nascimento, com a assistência pré- natal e 
aconselhamento genético, até à adolescência. 
 
7.3.1. Critérios de inclusão 
 
Foram incluídos no estudo médicos pediatras e residentes em pediatria que 
atuam no CHS e que concordaram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e 
Esclarecido (TCLE). 
 
7.3.2. Critérios de exclusão 
Médicos pediatras e residentes de pediatria que não atuam no CHS ou que se 
recusaram a participar do estudo por qualquer motivo foram excluídos. 
 
 
 
7.4. Instrumento de Coleta (Apêndice 2) 
 Os pediatras e residentes de pediatria foram abordados no segundo semestre 
de 2011 e no início do primeiro semestre de 2012, no ambiente de trabalho de forma 
que não comprometesse a sua rotina e responderam o questionário auto-aplicável. 
 Antes do início da coleta, foi realizado um teste piloto para adequações 
necessárias do instrumento com 4 pediatras de outra instituição. Neste teste, não se 
verificou a necessidade de nenhum ajuste no instrumento. 
 Após a obtenção do consentimento expresso no TCLE, foi aplicado um 
questionário estruturado, com perguntas fechadas (múltipla escolha, padrão Likert 
ou dicotomizada em “sim” e “não”) subdividido em 3 partes: 
1. Dados Gerais de caracterização: As variáveis, função, gênero, etnia, idade 
e tempo de formado, foram estabelecidas pelo pesquisador e correspondem 
as questões de 1 a 5; 
2. Dimensão de religiosidade/espiritualidade dos entrevistados: Foram 
avaliadas nas questões 6 a 17. 
As questões 6 e 7 referem-se às afiliações religiosas e à percepção quanto a 
própria religiosidade do entrevistado. Utilizou-se da versão em português da Escala 
de Religiosidade Duke-DUREL (Anexo C) modificada por Moreira-Almeida et al. 
(2008) nas questões de 8 a 12, que captam três das dimensões de religiosidade: 
organizacional (RO), não organizacional, (RNO) e religiosidade intrínseca (RI). As 
questões 8 e 9, abordam RO e RNO e as questões 10, 11 e 12, se referem à RI e 
são os três itens da escala de RI de Hoge que melhor se relacionam com a 
pontuação total nesta escala e com suporte social e desfechos em saúde (KOENIG; 
PARKERSON; MEADOR, 1997). 
 Entendemos por religiosidade organizacional a participação do individuo nas 
atividades religiosas institucionalizadas como cultos ou missas e não organizacional 
as atividades religiosas individuais como preces e orações. A religiosidade intrínseca 
entende-se como a influência da religiosidade dos entrevistados no seu modo de 
viver e de agir. 
As questões 13 a 17 foram baseadas no questionário utilizado por Borges et 
al. (2013). 
 3. O conhecimento do tema da religiosidade/ espiritualidade na saúde e a sua 
inserção na prática clínica dos profissionais (questões 13 a 27): Estas questões 
foram baseadas no questionário utilizado por Borges et al. (2013). 
 
7.5. Tratamento dos dados 
 
 Utilizou-se o programa: SPSS 13.0 for Windows. 
Para o estudo das diferenças entre as variáveis categóricas foi utilizado o 
teste qui-quadrado para as variáveis categóricas. O teste Qui-Quadrado de Pearson 
baseia-se nas diferenças entre valores observados e esperados, avaliando se as 
proporções em cada grupo podem ser consideradas semelhantes ou não, ou seja, 
este teste verifica a independência dos grupos em relação às variáveis categóricas 
(DAWSON; TRAPP, 2003). 
Nas situações nas quais existam frequências esperadas menores que 2 ou 
que mais que 10% destas sejam menores que 5, ou seja, quando as frequências 
esperadas são muito pequenas, o valor da estatística para o teste de qui-quadrado 
foi obtido mediante simulação de Monte Carlo conforme descritopor Peat e Barton 
(2005). 
8. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS 
Os resultados do estudo serão apresentados separadamente em três grupos, 
conforme o instrumento de coleta descrito na metodologia: dados gerais de 
caracterização dos entrevistados, aspectos da religiosidade/espiritualidade dos 
profissionais e o conhecimento e a inserção do tema em suas práticas clínicas. 
Apresento primariamente nas tabelas 1 e 2 os resultados referentes aos 
dados gerais de caracterização dos entrevistados e que correspondem às questões 
1 a 5 do instrumento de pesquisa. 
 
Tabela 1. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo o Gênero e Etnia. Sorocaba, 2012. 
 Residentes Pediatras Total p Valor 
Gêneros Masculino N 2 8 10 
 
 
0,326 
% N 16,7% 32% 
Feminino N 10 17 27 
% N 83,3% 68% 
Total 12 25 37 
 
Etnias Oriental N 0 2 2 
 
 
0,247* 
% N 0% 8% 
Branco N 12 20 32 
% N 100% 80% 
Mulato N 0 3 3 
% N 0% 12% 
Total 12 25 37 
 Fonte: Dados da Pesquisa 
 * Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Foram avaliados 37 profissionais, sendo 12 residentes e 25 pediatras. Essa 
amostra representa 47% do total da população, sendo 66,6% referentes aos 
residentes e 41% aos médicos. 
Na distribuição quanto ao gênero e etnia não se detectou diferenças 
estatísticas significativas, porém observa-se maior incidência do sexo feminino em 
ambas as populações. No grupo dos residentes 83,3 % são do sexo feminino e 16,7 
% do sexo masculino. No grupo dos pediatras 68% são do sexo feminino e 32% do 
sexo masculino. Em relação à etnia, 100% dos residentes se declararam brancos e 
80 % dos pediatras se declararam brancos, 12 % mulatos e 8% orientais. 
A tabela 2 nos mostra a idade e o tempo de formado dos entrevistados. 
 
 
Tabela 2. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo idade e tempo de formado. 
Sorocaba, 2012. 
Variável Categoria N Média DP p-valor 
Idade 
 
Tempo de formado 
Residente 
Pediatra 
Residente 
Pediatra 
12 
25 
12 
25 
27,2 
45,3 
1,46 
21 
3,7 
8,0 
0,7 
7,6 
<0,001 
 
<0,001 
 Fonte: Dados da Pesquisa 
 * Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Sobre à idade e tempo de formado as diferenças entre as médias são 
estatisticamente significativas entre os grupos de entrevistados, com valores de p, 
para ambas as situações, menores que 0,001. Observamos que as médias de idade 
e tempo de formados dos residentes são respectivamente 27,2 anos e 1,46 anos. No 
grupo dos médicos pediatras as médias de idade e tempo de formado foram 
respectivamente 45,3 anos e 7,6 anos. 
As diferenças quanto à idade e tempo de formado entre os grupos podem ser 
explicadas por serem residentes os recém-graduados do curso médico, portanto 
mais jovens que os médicos pediatras já inseridos no mercado de trabalho. 
A pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborada pela 
FIOCRUZ (Fiocruz/CFM – MS/PNUD, 1996) aponta que 60% dos médicos pediatras 
do Brasil são mulheres, sendo que 50% destes têm mais de 40 anos de idade. 
Números parecidos com este estudo, no qual observamos que 68% da população 
médica pediátrica estudada são do sexo feminino e possuem média de idade de 
45,3 anos. 
Os resultados do segundo grupo: Diferentes aspectos da 
religiosidade/espiritualidade dos profissionais estão apresentados nas tabelas 3 a 7 
e fazem referência às questões 6 a 17 do instrumento de pesquisa. Neste grupo de 
resultados, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os 
médicos pediatras e os residentes em pediatria. 
 A tabela 3 mostra a religião dos entrevistados e suas percepções quanto a 
intensidade de que se consideram religiosos, e referem-se às questões 6 e 7 do 
instrumento. 
 
Tabela 3. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo Religião e a sua percepção quanto 
à própria religiosidade. Sorocaba, 2012. 
 Residentes Pediatras Total p valor 
 
 
 
Religião 
 
 
 
 
 
Nenhuma 
 
N 3 2 5 
 
 
 
 
 
0.510* 
 
 
 
%N 25.0% 8.0% 13.5% 
Evangélico N 1 0 1 
%N 8.3% 0% 2.7% 
Espírita N 3 4 7 
%N 25.0% 16.0% 18.9% 
Católico 
Romano 
N 4 13 17 
%N 33.3% 52.0% 45.9% 
Umbandista N 1 0 1 
%N 8.3% 0% 2.7% 
Espiritualista N 0 6 6 
%N 0% 24% 16.2% 
Total (%) 12 25 37 
 
 
O quanto se 
considera 
uma pessoa 
religiosa? 
Muito N 1 3 4 
 
 
0,672* 
 
 
 
 
%N 8,3% 12% 10,8% 
Moderado N 5 15 20 
%N 41,7% 60% 54,1% 
Pouco N 5 5 10 
%N 41,7% 20% 27% 
Nada N 1 2 3 
%N 8,3% 8% 8,1% 
Total (%) 12 25 37 
 Fonte: Dados da pesquisa 
 * Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
 
Quanto à religião dos entrevistados, 86,5% tem uma religião, sendo 92% dos 
médicos pediatras e 75% dos residentes. 
Na população médica brasileira, segundo a pesquisa do CFM (Conselho 
Federal de Medicina) realizada e publicada em 2007, “A saúde dos Médicos do 
Brasil”, 86,4% dos médicos tem uma religião, número bastante parecido com esta 
pesquisa. 
Na população geral brasileira, segundo o senso do IBGE 2010, apenas 8% da 
população não tem religião. Neste estudo, bem como no estudo do CFM, 
encontramos que 14% dos médicos entrevistados não possuem religião definida. 
Nos Estados Unidos, segundo Catlin (2008), comparado com o público, uma 
proporção notavelmente menor de pediatras acadêmicos relataram uma identidade 
religiosa pessoal. 
 Quanto à religião dos entrevistados, 46% são católicos, 18,9% são espíritas e 
16,2% se autodenominam espiritualistas. 
 Segundo o CFM 2007, 67% dos médicos são católicos, 11,5% espíritas e 
7,3% protestantes. Na pesquisa da Fiocruz, bem como nesta pesquisa, os católicos 
são maioria entre os médicos. Neste estudo 46% dos entrevistados são católicos e 
35% são os que se denominam espíritas ou espiritualistas, portanto, número 3 vezes 
maior do que na população médica geral do Brasil. 
Trata-se de um dado importante para a prática médica, pois, segundo Todres 
et al. (2000), as afiliações religiosas dos médicos pediatras influenciam certas 
decisões de tratamento. 
A maioria dos entrevistados, neste estudo, considera-se muito ou 
moderadamente religioso (65%), sendo esta percepção em 72% dos médicos 
pediatras e em 50% dos residentes em pediatria, dados próximos ao estudo do CFM 
onde 70% dos entrevistados se consideram muito ou moderadamente religiosos. 
A tabela 4 faz referência às religiosidades organizacional e não organizacional 
dos entrevistados e são referentes às questões 8 e 9 do instrumento de pesquisa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tabela 4. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo a Religiosidade Organizacional e 
não organizacional. Sorocaba, 2012. 
 Residentes Pediatras Total p Valor 
 
 
Qual a 
frequência 
que vai a 
uma igreja 
ou templo 
Uma vez 
por semana 
N 1 3 4 
 
 
 
 
 
0,808* 
%N 8,3% 12% 10,8% 
2 a 3 vezes 
mês 
N 3 4 7 
%N 25% 16% 18,9% 
Algumas 
vezes no 
ano 
N 4 13 17 
%N 33,3% 52% 45,9% 
Uma vez no 
ano ou 
menos 
N 3 3 6 
%N 25% 12% 16,2% 
Nunca N 1 2 3 
%N 8,3% 8% 8,1% 
Total 12 25 37 
 
 
 
 
Atividade 
religiosa 
individual 
Mais de 
uma vez ao 
dia 
N 1 3 4 
 
 
 
 
 
 
0,238* 
%N 8,3% 12% 10,8% 
Diariamente N 2 10 12 
%N 16,7% 40% 32,4% 
Duas ou 
mais vezes 
semana 
N 2 7 9 
%N 16,7% 28% 24,3% 
Uma vez na 
semana 
N 1 2 3 
%N 8,3% 8% 8,1% 
Poucas 
vezes no 
mês 
N 3 1 4 
%N 25% 4% 10,8% 
Raramente 
ou nunca 
N 3 2 5 
%N 25% 8% 13,5% 
Total 12 25 37 
 Fonte: Dados da Pesquisa 
 * Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Entendemos por religiosidade organizacional a participação do individuo nas 
atividades religiosas institucionalizadas como cultos ou missas e a não 
organizacional as atividades religiosas individuais. Observamos que 30% dos 
entrevistados frequentam regularmente, ao menos 2 a 3 vezes ao mês, uma Igreja 
ou templo religioso e 75,7% deles dizem realizar frequentemente uma atividade 
religiosa individual ao menos umavez na semana, sendo 88% no grupo dos 
médicos pediatras e 50% dos residentes. Em Catlin (2008), quase 88% dos 
entrevistados foram criados em uma tradição religiosa, mas apenas 67,2% 
afirmaram identificação religiosa atual. Neste mesmo estudo, mais da metade 
(52,6%) dos entrevistados relataram orar privadamente; adicionais práticas 
espirituais relatadas incluíram: técnicas de relaxamento (38,8%), meditação (29,3%), 
as leituras sagradas (26,7%) e yoga (19%). 
Segundo Moreira-Almeida et al. (2008) diversos estudos mostram que as 
dimensões da religiosidade a nível organizacional e não organizacional estão 
relacionados a melhores indicadores de saúde física, mental e suporte social. 
A tabela 5 refere-se à religiosidade intrínseca (RI) dos entrevistados e 
correspondem às questões 10 a 12. 
 
Tabela 5. Distribuição dos Residentes e Pediatras segundo a Religiosidade Intrínseca. 
Sorocaba, 2012. 
 Residentes Pediatras Total p valor 
 
 
Eu sinto a 
presença de 
Deus 
Totalmente 
verdade 
N 11 16 27 
 
 
0,229* 
%N 91,7% 64% 73¨% 
Em geral é 
verdade 
N 1 7 8 
%N 2,7% 18,9% 21,6% 
Não estou 
certo 
N 0 2 2 
%N 0 5,4% 5,4% 
Total 12 25 37 
 
 
Crenças 
religiosas 
influenciam 
toda a minha 
maneira de 
viver 
Totalmente 
verdade 
N 3 11 14 
 
 
 
 
0,634* 
%N 27% 44% 37,8% 
Em geral é 
verdade 
N 7 9 16 
%N 58,3% 36% 43,2% 
Não estou 
certo 
N 2 4 6 
%N 16,7% 16% 16,2% 
Não é verdade N 0 1 1 
%N 0 2,7% 2,7% 
Total 12 25 37 
 
 
Eu me 
esforço muito 
para viver a 
minha 
religião em 
todos os 
aspectos da 
vida: 
Totalmente 
verdade 
N 3 5 8 
 
 
 
 
 
0,903* 
%N 25% 20% 21,6% 
Em geral é 
verdade 
N 5 14 19 
%N 41,7% 56% 51,4% 
Não estou 
certo 
N 3 4 7 
%N 25% 16% 18,9% 
Em geral não 
é verdade 
N 0 1 1 
%N 0 4% 2,7% 
Não é verdade N 1 1 2 
%N 8,3% 4% 5,4% 
Total 12 25 37 
Fonte: Dados da pesquisa 
* Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Em relação à religiosidade intrínseca, observamos que 95% dos entrevistados 
acreditam ser totalmente verdade ou ser em geral verdade que sentem a presença 
de Deus, 81% deles acreditam ser totalmente verdade ou geralmente verdade que 
suas crenças religiosas influenciam toda a sua maneira de viver e 73 % dizem ser 
totalmente verdade ou em geral ser verdade que se esforçam para viver a sua 
religião em sua vida. 
Segundo Moreira-Almeida et al. (2008) na análise dos resultados da DUREL, 
as pontuações nas três dimensões (RO, RNO e RI) devem ser analisadas 
separadamente e os escores dessas três dimensões não devem ser somados em 
um escore total. 
A tabela 6 nos mostra o entendimento por Espiritualidade dos entrevistados 
relatados em resposta à pergunta 13 do instrumento de coleta. 
Tabela 6. Entendimento dos Residentes e Pediatras do que é Espiritualidade. Sorocaba, 2012. 
Respostas Número de 
Citações 
% do 
 Total de 
citações 
% dos 
Respondentes 
Postura ética e humanistica. 14 18,6 37,8 
Busca de sentido e significado para 
a vida humana. 
23 30 62,1 
Crença e relação com Deus / 
Religiosidade. 
16 21,3 43,2 
Crença em algo transcendente à 
matéria 
12 16 32,4 
Crença na existência da alma e na 
vida após a morte. 
18 24 48,6 
Total 75 100,0 - 
Fonte: Dados da pesquisa 
 
Observamos na tabela 6 que das citações sobre o que os entrevistados 
entendem por espiritualidade, 30% delas foram relacionadas à busca de sentido e 
significado para a vida humana, 24% na crença na existência da alma e na vida 
após a morte, 21,3% na crença e relação com Deus/Religiosidade, 18,6% na postura 
ética e humanística e 16% relacionadas à crença em algo que transcendem a 
matéria. 62,1 % dos entrevistados entendem espiritualidade como a busca de 
sentido e significado na vida humana, mostrando uma não uniformidade conceitual. 
Segundo Lucchetti et al. (2012) não há uma homogeneidade entre os estudantes de 
Medicina frente a conceitos e relações entre saúde e espiritualidade. 
 
A tabela 7 refere-se às perguntas 14 a 17 do instrumento de pesquisa. 
 
Tabela 7. Crenças em Deus e na existência da alma ou espírito pelos Residentes e Pediatras. 
Sorocaba, 2012. 
 Residentes Pediatras Total p Valor 
Você crê em 
Deus? 
Sim N 12 25 37 
%N 100% 100% 100% 
Não N 0 0 0 
%N 0 0 0 
Sem 
opinião 
N 0 0 0 
%N 0 0 0 
Total 12 25 37 
Você acredita que 
apesar da morte 
do corpo, a 
alma/espírito 
ainda preserva-se 
viva? 
Sim N 10 22 32 
 
 
0,503* 
 
 
%N 83,3% 88% 86,5% 
Não N 1 0 1 
%N 8,3% 0 2,7% 
Sem 
opinião 
N 1 3 4 
%N 8,3% 12% 10,8% 
Total 12 25 37 
Você acredita em 
reencarnação 
(preservação da 
alma/espírito 
após a morte, 
com o posterior 
retorno à Terra, 
ligada a um corpo 
humano a ser 
gerado após a 
fecundação) 
Sim N 9 16 25 
 
 
0,868* 
%N 75 64 67,6 
Não N 1 5 6 
%N 8,3 20 16,2 
Sem 
opinião 
N 2 4 6 
%N 16,6 16 16,2 
Total 12 25 37 
Você acredita que 
o ser humano é 
composto de um 
corpo e uma 
alma/espírito? 
Sim N 11 25 36 
 
 
0,143 
%N 91,7% 100% 97,3% 
Não N 0 0 0 
%N 0 0 0 
Sem 
opinião 
N 1 0 1 
%N 8,3% 0 2,7% 
Total 12 25 37 
Fonte: Dados da pesquisa 
* Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Nesta tabela observamos que todos os entrevistados acreditam em Deus 
(100%), 86,5% acreditam que a alma/espírito preserva-se viva apesar da morte do 
corpo físico, 67,6% acreditam na reencarnação e 97,3% dos entrevistados acreditam 
que o ser humano é composto por um corpo e uma alma/espírito, mostrando já a 
valorização do ser humano em mais de uma dimensão. 
 Segundo Armbruster, Chibnall e Legett (2003), as características associadas 
aos pediatras que valorizam os aspectos da religiosidade e espiritualidade em sua 
prática com os pacientes são: maior idade, religião cristã, própria discrição de 
religioso, dar importância a sua própria espiritualidade e religiosidade, acreditar na 
importância do tema e sentir confortável em perguntar sobre o tema a seus 
pacientes. 
O terceiro grupo dos resultados está apresentado nas tabelas 8 a 12 e 
correspondem às questões 18 a 28 do instrumento de pesquisa que buscam 
compreender os conhecimentos sobre Religiosidade e Espiritualidade dos 
entrevistados e a influência dos temas em sua prática clínica. 
A tabela 8 apresenta-nos como que os Residentes e Pediatras relacionam o 
assunto “Espiritualidade e Religiosidade” e corresponde à pergunta 18. 
 
Tabela 8. Relações citadas sobre o assunto “Saúde e Espiritualidade” por médicos e 
residentes. Sorocaba, 2012. 
Citações Número de 
Citações 
% do 
 Total de 
citações 
% dos 
Respondentes 
Humanização da 
Medicina 
 
23 29,4 57,5 
Qualidade de Vida 
 
9 11,5 22,5 
Saúde total/holística 
 
14 17,9 35 
Interferência positiva 
ou negativa da 
religiosidade na Saúde 
 
10 12,8 25 
Interferência do 
transcendente/imaterial 
na saúde 
10 12,8 25 
Abordagem do viver e 
do morrer 
12 15,3 30 
Total 78 100 
Fonte: Dados da pesquisa 
 
Observamos que do total das citações, 29,4% foram relacionar o assunto 
“Saúde e Espiritualidade” com humanização da Medicina, 17,9% com saúde 
total/holística e 15,3% com abordagem do viver e morrer. A humanização da 
Medicina foi citada por 57,5% dos entrevistados como o assunto que se relaciona 
com Espiritualidade e Religiosidade. 
A tabela 9 mostra o quanto e como os entrevistados acham que a 
Religiosidade e a Espiritualidade influenciam o processo saúde-doença e a relação 
médico-paciente, e correspondem às questões 19, 20 e 21 do instrumento de coleta. 
 
Tabela 9. Influência da religiosidade e espiritualidade na saúde segundo os Residentes e 
Pediatras. Sorocaba, 2012. 
 Residentes Pediatras Total p 
Valor 
O quanto você acha 
que a 
religião/espiritualidade 
influencia na saúde de 
seus pacientes? 
Extremamente N 3 2 5 
 
 
0,348* 
%N 25% 8% 13,5% 
Muito N 8 18 26 
%N 66,7% 72% 70,3% 
Mais ou 
menos 
N 1 5 6 
%N 8,3% 20% 16,2% 
Total 12 25 37 
A influência da 
religião/espiritualidade 
na saúde geralmenteé 
positiva ou negativa? 
Geralmente 
Positiva 
N 11 15 26 
 
 
0,049 
%N 91,7% 60% 70,3% 
Igualmente 
Positiva e 
Negativa 
N 1 10 11 
%N 8,3% 40% 29,7% 
Total 12 25 37 
Com que intensidade a 
espiritualidade/ 
religiosidade dos 
médicos interfere no 
entendimento do 
processo saúde-doença 
e na relação médico-
paciente? 
Enorme N 2 1 3 
 
 
 
 
0,133* 
%N 16,7% 4% 8,1% 
Grande N 8 12 20 
%N 66,7% 48% 54,1% 
Moderada N 1 10 11 
%N 8,3% 40% 29,7% 
Pequena N 1 2 3 
%N 8,3% 8% 8,1% 
Total 12 25 37 
Fonte: Dados da pesquisa 
* Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Observa-se que 84% dos residentes e pediatras acreditam na extrema ou 
muita influência da espiritualidade e religiosidade na saúde dos pacientes. Quanto a 
influencia da religião/espiritualidade na saúde há diferenças estatisticamente 
significativas entre os grupos (p<0,05), onde observamos que 40 % dos médicos 
pediatras acreditam ser geralmente positiva e negativa. 92% acreditam que a 
religiosidade/espiritualidade dos médicos interfere de forma enorme, grande ou 
moderada no entendimento do processo saúde-doença e na relação médico-
paciente, não havendo diferenças entre os grupos. 
Segundo Catlin (2008), a maioria dos pediatras acadêmicos (58,6%) 
acreditava que crenças pessoais espirituais ou religiosas influenciavam as suas 
interações com pacientes e colegas. Estas probabilidades aumentaram 5,1 vezes, 
quando pediatras acadêmicos participaram de serviços religiosos mensal ou mais. 
Para Grossoehme et al. (2007), a atenção às preocupações espirituais e 
religiosas dos pacientes está associada a uma rede de características pessoais e 
profissionais dos pediatras. Algumas características dizem respeito ao investimento 
pessoal do médico na espiritualidade e religião em suas próprias vidas. 
Na população geral dos Estados Unidos, 77% acreditam que os médicos 
devem considerar as suas crenças espirituais, 73% gostariam de compartilhar as 
suas crenças religiosas com o profissional médico e 66% demonstraram interesse 
para que o médico pergunte sobre sua espiritualidade. No entanto, apenas 10% a 
20% relataram que os médicos discutiram a espiritualidade com elas (ANAYA, 2002; 
COWAN et al., 2003; LARSON; KOENIG, 2000). 
Até mesmo nas áreas mais religiosas dos EUA, menos de um terço dos 
médicos perguntam sobre a religiosidade dos pacientes e menos que um, entre dez 
médicos, leva em conta a sua história espiritual. (CHIBNALL; BROOKS, 2000). 
Na literatura, observamos que poucos médicos percebem as necessidades 
espirituais dos pacientes, o que vem a reafirmar a conclusão de Barnes et al. (2000), 
de que as questões espirituais e religiosas na prática pediátrica têm recebido pouca 
atenção. 
Brooks e Chibnall (2000) e Armbruster, Chibnall e Legett (2003) verificaram 
em seus estudos que a maioria dos professores pediátricos acreditam que a 
religiosidade/espiritualidade têm implicações para a saúde, pois fortalecem o 
relacionamento terapêutico e fornecem suporte para as crianças e familiares; porém, 
estes mesmos educadores não discutem as preocupações religiosas e espirituais de 
seus pacientes e de suas famílias. 
Na tabela 10, observamos o quanto os entrevistados acham pertinentes a 
abordagem dos temas relativos à religiosidade/espiritualidade pertinentes e como se 
sentem ao fazê-la e corresponde às questões 22, 23 e 24 do instrumento de coleta. 
Tabela 10. Quanto os residentes e pediatras acham pertinente a abordagem do tema 
Religiosidade/Espiritualidade com seus pacientes e como se sentem ao fazê-la. Sorocaba, 
2012 
 Residentes Pediatras Total p 
Valor 
Você sente 
vontade de 
abordar o tema 
fé/espiritualidade 
com os 
pacientes? 
Sim 
frequentemente 
N 5 9 14 
 
0,814* 
 
 
%N 41,7% 36% 37,8% 
Sim raramente N 4 11 15 
%N 33,3% 44% 40,5% 
Não N 3 5 8 
%N 25% 20% 21,6% 
Total 12 25 37 
 
 
O quanto você se 
considera 
preparado para 
abordar aspectos 
religiosos e 
espirituais com 
seus pacientes? 
 
Muito N 1 1 2 
 
 
 
0,243* 
 
 
 
%N 8,3% 4,3% 5,7% 
Moderado N 4 12 16 
%N 33,3% 52,2% 45,7% 
Pouco N 5 10 15 
%N 41,7% 43,5% 42,9% 
Nada N 2 0 2 
%N 16,7% 0 5,7% 
Total 12 23 35 
O quanto você 
acha pertinente tal 
abordagem? 
Muitíssimo N 2 3 5 
 
 
 
0,764* 
%N 16,7% 12% 13,5% 
Muito N 5 7 12 
%N 41,7% 28% 32,4% 
Moderado N 4 10 14 
%N 33,3% 40% 37,8% 
Pouco N 1 5 6 
%N 8,3% 20% 16,2% 
Total 12 25 37 
 Fonte: Dados da pesquisa 
 * Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Entre os entrevistados, 62 % não se sentem ou raramente se sentem à 
vontade para abordar o tema com seus pacientes; 49% se consideram pouco ou 
nada preparados para abordar os aspectos religiosos ou espirituais com seus 
pacientes e 84% responderam que consideram ao menos moderadamente 
pertinente esta abordagem, não havendo diferenças estatísticas significativas entre 
os grupos. Estes resultados confirmam e estendem os achados de Grossoehme et 
al. (2007), que também relataram ser desconfortável questionar seus pacientes 
sobre as preocupações espirituais e religiosas, bem como participar de práticas 
espirituais e religiosas. 
Em relação ao preparo para abordar o tema, Siegel et al. (2002) concluíram 
que uma ligeira maioria de pediatras se considerava orientada espiritualmente e/ou 
religiosamente para discutir questões espirituais e religiosas com seus pacientes, no 
sentido de fortalecer a relação médico pediatra/paciente. 
Muitos médicos dizem que se sentem desconfortáveis ao falar sobre assuntos 
religiosos ou que não têm tempo para lidar com isso. Outros não consideram os 
assuntos espirituais como parte de seus trabalhos, não entendem por que deveriam 
fazê-lo, não sabem como nem quando introduzi-los e sequer imaginam quais seriam 
os resultados caso os incluíssem (MARR; BILLINGS; WEISSMAN, 2007). 
A tabela 11 informa, segundo os entrevistados, quando é apropriado ao 
médico rezar com seus pacientes e corresponde à questão 25 do instrumento de 
coleta. 
 
Tabela 11. Quando segundo os residentes e pediatras é apropriado o médico rezar. Sorocaba, 
2012. 
 Residentes Pediatras Total p Valor 
Quando e 
apropriado 
rezar com 
seu 
paciente 
Nunca N 2 3 5 
 
 
 
1,00* 
%N 16,7% 12% 13,5% 
Somente se o 
paciente pedir 
N 7 14 21 
%N 58,3% 56% 56,8% 
Sempre que o 
médico achar 
apropriado 
N 3 8 11 
%N 25% 32% 29,7% 
Total 12 25 37 
Fonte: Dados da pesquisa 
* Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Somente 5% dos entrevistados não acham apropriado rezar com seus 
pacientes e 56,8% acreditam ser apropriado rezar com seu paciente somente se ele 
pedir, não havendo diferenças estatísticas significativas entre os grupos. 
Um estudo realizado por Koenig, Bearon e Dayringer (1989) com médicos de 
prontos socorros na década de 80, revelou que apenas um terço (37%) acreditavam 
que os pacientes queriam orar com seus médicos. Em outro estudo de Koenig, 
Smiley e Gonzales (1998), quando pacientes da mesma área foram perguntados se 
gostariam que seus médicos orassem com eles, apenas 5% foram radicalmente 
contra. 
A frequência com que os entrevistados abordam em suas práticas os 
assuntos da religiosidade/espiritualidade é mostrada na tabela 12 e fazem 
referência às questões 26, 26a e 26b. 
 
Tabela 12. Frequência que os residentes e pediatras abordam os assuntos espirituais e 
religiosos com os pacientes. Sorocaba, 2012 
 Residentes Pediatras Total p Valor 
Você alguma vez 
já perguntou 
sobre a religião 
e/ou 
espiritualidade 
dos seus 
pacientes? 
Sim N 9 19 28 
 
0,947 
%N 75% 76% 75,7% 
Não N 3 6 9 
%N 25% 24% 24,3% 
Total 12 25 37 
 
 
 
Com que 
frequência? 
Raramente N 2 10 12 
 
 
 
0,039* 
%N 22,2% 47,6% 40% 
Algumas 
vezes 
 
N 7 6 13 
%N 77,8% 28,6% 43,3% 
Comumente N 0 5 5 
%N 0 23,8% 16,7% 
Total 9 21 30 
 
 
 
Com que 
frequência os 
pacientes lhe 
parecem 
desconfortáveisquando são 
questionados 
sobre a 
religiosidade/espi
ritualidade? 
 
Nunca 
 
N 
 
2 
 
6 
 
8 
 
 
 
 
 
0,740* 
%N 20% 28,6% 25,8% 
 
Raramente 
 
N 
 
6 
 
10 
 
16 
%N 60% 47,6% 51,6% 
 
Algumas 
vezes 
 
N 
 
2 
 
3 
 
5 
%N 20% 14,3% 16,1% 
 
 
Comumente 
 
 
N 
 
 
0 
 
 
2 
 
 
2 
%N 0 9,5% 6,5% 
Total 10 21 31 
Fonte: Dados da pesquisa 
* Estatística de q2 obtido por simulação de Monte Carlo 
 
Encontramos na população estudada que 75% dos entrevistados já 
perguntaram sobre a religiosidade/espiritualidade dos seus pacientes. Os residentes 
perguntam com maior frequência que os pediatras (p<0,05). Segundo os 
entrevistados, 77% dos pacientes quando questionados sobre o assunto raramente 
ou nunca se sentem desconfortáveis. 
Como Armbruster, Chibnall e Legett (2003), que ao estudarem a ação da 
espiritualidade e religião na Medicina e a relação desta crença no comportamento 
dos médicos e experiências na sua prática diária, identificaram entre residentes e 
assistentes que poucos pediatras rotineiramente perguntam sobre o assunto, os 
assistentes perguntam mais sobre a religião, mas os residentes são mais abertos 
quando perguntados sobre rezar durante as crises. 
Em respeito à atenção religiosa e espiritual aplicadas na prática médica, 
alguns estudos mostram que, apesar da maioria dos médicos se considerarem 
religiosos ou espiritualizados, poucos incluem em sua atividade diária este cuidado 
com seus pacientes (BARNES, et al., 2000; CHIBNALL; BROOKS, 2001). 
A tabela 13 mostra as afirmações que desencorajam os entrevistados a 
discutir religiosidade/espiritualidade com seus pacientes e corresponde à questão 
27. 
 
Tabela 13. Algumas das afirmações que desencorajam os médicos e residentes a discutir 
religiosidade/espiritualidade com seus pacientes. Sorocaba, 2012. 
Respostas Número de 
Citações 
% do 
 Total de citações 
% dos 
Respondentes 
Falta de 
conhecimento 
11 14,6 27,5 
Falta de treinamento 16 21,3 40 
Falta de tempo 
 
17 22,6 42,5 
Desconforto com o 
tema 
7 9,3 17,5 
Medo de impor ponto 
de vista religioso aos 
pacientes 
 
12 16 30 
Conhecimento de 
religião não é 
relevante no 
tratamento medico 
 
0 0 0 
Não faz parte do 
trabalho 
4 5,3 10 
Medo de ofender os 
pacientes 
 
7 9,3 17,5 
Medo de que os 
colegas não aprovem 
1 1,3 2,5 
Total 75 100 
Fonte: Dados da pesquisa 
 
Dentre as afirmações que desencorajam os entrevistados a discutirem 
religiosidade/espiritualidade com seus pacientes, falta de tempo (22,6%), falta de 
treinamento (21,3%) e falta de conhecimento (14,6%) são apontados como os 
principais motivos somando-se 58,5% das respostas. Observamos também que a 
falta de tempo foi apontada por 42% dos entrevistados e a falta de treinamento por 
40% deles. Na prática clínica, o desconforto dos médicos, a falta de tempo e o temor 
que o paciente se sinta ofendido são também fatores que dificultam a abordagem do 
assunto (KOENIG, 2007). Outras razões são apontadas para esta discrepância 
incluindo: desconforto sobre o tema, a falta de tempo, falta de treinamento e o medo 
da percepção dos colegas. (LEVIN; LARSON; PUCHALSKI, 1997). 
Estes resultados vão ao encontro do afirmado por Grossoehme et al. (2007) e 
Lucchetti e Granero (2010) ou seja, que os médicos não são preparados para 
abordar as preocupações espirituais e religiosas dos pacientes e familiares. Algumas 
questões são apontadas pelos médicos como barreiras para a discussão dos 
assuntos espirituais junto aos pacientes: limitações de tempo, dificuldade na 
identificação de pacientes que querem discutir assuntos espirituais, falta de 
treinamento para abordar tais discussões junto ao paciente, medo e desconforto de 
abordar o assunto, medo de projetar suas próprias crenças para pacientes e falta de 
interesse pessoal na religião e espiritualidade. (ARMBRUSTER ; CHIBNALL ; 
LEGETT, 2003; LUCCHETTI et al, 2012; NEELY; MINFORD, 2008). 
A tabela 14 mostra quais as ferramentas ou tratamentos espirituais que os 
entrevistados acham que poderiam ser recomendados para seus pacientes e 
corresponde à questão 28. 
 
Tabela 14. Ferramentas ou tratamentos espirituais que os residentes e pediatras acreditam que 
poderiam ser recomendados a seus pacientes. Sorocaba, 2012. 
Ferramentas ou tratamentos 
espirituais 
Nº Citações % Citações % N 
Reza/Prece 27 43,5 67,5 
Leitura Religiosa 13 20,9 32,5 
Água fluidificada/Energizada/Benta 3 4,8 7,5 
Desobsessão/Exorcismo/Descarrego 1 1,6 2,5 
Imposição das 
Mãos/Reike/Passe/Johrei 
 
13 
 
19,1 
 
32,5 
Trabalho de caridade em templos 
religiosos 
 
5 
 
7,3 
 
12,5 
Total 62 100 
Fonte: Dados da pesquisa 
 
Do total das citações quanto à utilização de ferramentas ou tratamentos 
espirituais, 43,5% são reza/prece, 20,9% são leituras religiosas e 19,1% a Imposição 
das mãos/Reike/Passe/Johrei, sendo citadas respectivamente por 67,5%, 32,5% e 
32,5% dos entrevistados. 
Um estudo realizado por Stern, Canda e Doershuk. (1992) em pacientes com 
fibrose cística, dos 70% das crianças que procuraram terapias não médicas, 60% 
usaram tratamentos religiosos, tais como a oração, peregrinação e a posse de 
objetos religiosos. Neste sentido, verifica-se que cerca de 82% dos americanos 
acreditam no poder pessoal da prece como prática complementar e alternativa. 
(EISEMBERG et al., 1998). 
 
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
 
“Porque vemos sempre algo cada vez mais 
maravilhoso, a tal ponto que o homem não se 
cansa nunca de olhar e aprender” 
Jakob Boehme, 1575. 
 
 
 
Após transcorrer as etapas metodológicas que conduziram este estudo e 
estabelecer relações com os substratos teóricos, é possível concluir que os objetivos 
foram alcançados. 
Verificou-se que os dois grupos estudados, residentes e pediatras são 
semelhantes quanto a própria religiosidade/espiritualidade. Podendo-se caracterizá-
los como indivíduos ao menos moderadamente religiosos e que valorizam a 
espiritualidade em suas vidas. Ainda mais, concluir que suas características 
pessoais influenciam as suas práticas clínicas. 
MacLean et al. (2003) concluíram em seu estudo que a espiritualidade e a 
religiosidade dos médicos influenciam o cuidado clínico e que muitos pacientes 
acreditam que os médicos devam estar cientes sobre suas crenças espirituais e 
religiosas. 
Quanto à percepção das necessidades espirituais dos pacientes e seus 
familiares, ambos os grupos acreditam que a espiritualidade e a religiosidade influem 
positivamente na saúde e que, sua própria religiosidade e espiritualidade interferem 
no processo saúde-doença e na relação médico-paciente. 
A doença de uma criança, especialmente a crônica, é uma das situações que 
apontam para a fragilidade humana, tornando as pessoas que enfrentam estas 
condições, ainda mais vulneráveis. Para lidar com a situação de crise é preciso 
considerar as estratégias encontradas pela própria família para enfrentar esta 
situação, as quais geralmente se apoiam em crenças, religiões e filosofias de vida, 
fazendo da espiritualidade um aporte que contribui para fortalecer a família. 
(DAMASCENO; SOUZA; SILVA, 2011). 
 Ao correlacionar os aspectos da religiosidade/espiritualidade dos 
residentes e pediatras à sua prática, observamos que, apesar dos entrevistados 
acharem pertinente, não se sentem à vontade e nem se consideram preparados 
para a abordagem das necessidades espirituais de seus pacientes. Podemos 
agrupar as principais razões apontadas em duas temáticas: o ensino médico (falta 
de conhecimento e de treinamento) e o processo de trabalho (falta de tempo). 
As identidades religiosas e espirituais, crenças e práticas médicas estão 
começando a ser exploradas de maneira geral, especialmente no que se refere às 
suas relações clínicas e tomadas de decisões. Desta forma, os médicos tornaram-se 
conscientes de que as crenças religiosas e espirituais dos pacientes e as práticas 
podem desempenharum papel no enfrentamento da doença, na tomada de decisão 
médica e em outros processos de saúde (Catlin et al., 2008). 
A crise existencial trazida pela doença leva o paciente e seu grupo social a 
importantes questionamentos sobre suas vidas. São questionamentos intensamente 
impregnados de emoção, em que elementos inconscientes da subjetividade 
participam intensamente. Podem resultar em amplas transformações positivas ou em 
grandes catástrofes pessoais e familiares. A participação do profissional de saúde 
neste processo de elaboração é dificultada pelo fato de sua formação não valorizar e 
não prepará-lo para lidar com dimensões subjetivas não expressas de forma racional 
e clara. (VASCONCELOS, 2009). 
Segundo Dantas Filho e Sá (2007), o médico antes de tudo é um ser humano 
e um cidadão, e como profissional sempre serviu como figura de referência de 
virtude em nossa sociedade. Mostrando disposição para o diálogo, principalmente 
na dimensão da espiritualidade, o médico cumpre também um importante papel na 
difusão de uma cultura de tolerância e respeito que transcende a relação médico-
paciente e vai ao encontro de um clamor que perpassa toda a nossa sociedade. 
É o começo do desmonte de uma postura autoritária e paternalista, na qual 
predomina a crença do médico em detrimento das crenças do paciente, 
explícitas ou implícitas; é o fundamento para as decisões negociadas e 
compartilhadas, para o consentimento livre e esclarecido; é o saneamento 
da visão reducionista do ser humano, da divisão corpo-alma, do desrespeito 
à autonomia do paciente; é o desenvolvimento de um modelo de médico 
que desejamos para nós mesmos e para os nossos familiares; é o florescer 
de novos direcionamentos menos conflituosos para questões relativas ao 
início e término da vida, à transfusão de sangue, aos transplantes de 
órgãos, às manipulações genéticas, etc. (DANTAS FILHO; SÁ, 2007, p. 
276). 
 
Neste início de terceiro milênio, a novo médico deve ter uma forte base 
técnico-científica e como lastro uma formação humanística e bioética consistente 
(SIQUEIRA, 2006). A formação humanística implica a necessidade do 
autoconhecimento e envolve a consciência do outro e de seus valores no que tange 
aos significados que atribui à vida. 
E hoje, tanto para o senso comum como para a comunidade científica, a 
religião e as práticas espirituais exercem influências sobre a saúde. Em várias partes 
do mundo, universidades e hospitais têm trabalhado com essa realidade. 
Ao se incluir atividades relativas à espiritualidade no currículo de Medicina, 
busca-se abranger a dimensão espiritual dos pacientes na sua consideração como 
seres humanos e desenvolver um entendimento sobre os reflexos da espiritualidade 
na saúde das pessoas. 
Lucchetti e Granero (2010) e Lucchetti et al. (2012) descreveram os desafios 
enfrentados na integração de espiritualidade nas faculdades de Medicina brasileiras, 
ressaltando que grande parte das barreiras é a de haver poucos estudos brasileiros 
publicados sobre o tema; a visão de que a Medicina deve se manter secular e, 
portanto, deve evitar abordar questões religiosas, pois pode ser vista como 
coercitiva por alguns pacientes; e ao fato de que poucas conferências médicas 
brasileiras abordaram o tema espiritualidade e saúde antes do ano 2000, já que os 
departamentos de pesquisas universitárias raramente investigaram tal temática, 
assim como apenas um programa de pós-graduação existe em todo o país. 
Através de competências reforçadas na prática clínica, o desenvolvimento de 
currículos e políticas de saúde e da busca de agenda de pesquisa para apoiar 
a inclusão da espiritualidade e da religião em relação à saúde e especialmente à 
pediatria, será possível termos na atenção à criança a abordagem das necessidades 
religiosas e espirituais como parte integrante de um bom atendimento pediátrico. 
Ainda sobre as questões de treinamento Lucchetti e Granero (2010) afirmam 
em seu estudo que na anamnese médica, a história social, o questionamento da 
atividade física, os hábitos e vícios podem proceder à abordagem da espiritualidade 
de forma natural, podendo-se incluir o assunto no segmento que aborda os hábitos 
de vida e de condições socioeconômicas dos pacientes. 
O pediatra deve reconhecer o sofrimento e os sofredores e ouvir suas 
histórias, criando um contexto para reduzir o sofrimento, proporcionando reflexões 
sobre suas vidas. (PAULA; NASCIMENTO; ROCHA, 2009). 
Portanto, diante da importância e valorização crescente da religiosidade e da 
espiritualidade na saúde é urgente inserir a discussão do tema na educação médica 
e no processo de trabalho do pediatra. 
Na graduação médica, a religiosidade e a espiritualidade e suas interfaces na 
saúde podem ser inseridas de forma interdisciplinar, transdisciplinar e transversal, 
como forma e função, contemplando o conhecer, o fazer e o ser, espaço em que as 
vivências e as emoções dos alunos possam ser discutidas, e a poesia possa ser 
recitada. Na transdisciplinaridade não há espaço ou tempo para conhecimentos 
hegemônicos. 
Nas atividades extracurriculares como estimulo à pesquisa, bem como 
incluído em cursos e congressos acadêmicos e na educação permanente dos 
profissionais da saúde. 
Os educadores devem criar espaços para um diálogo mais profundo sobre a 
complexidade da vida, em que outras dimensões além da racional devem ser 
compartilhadas. 
Os pediatras e os residentes em pediatria mostram-se abertos e dispostos a 
incluírem esta temática em seu trabalho, como grupo de estudo, bem como nas 
discussões dos casos clínicos. 
Enfim, no processo de trabalho do pediatra, a abordagem das necessidades 
espirituais dos pacientes e suas famílias pode ser incluída na anamnese clínica 
através de ferramentas como a aplicação de escalas de aferição e valorização dos 
aspectos espirituais e religiosos, e como habilidade de comunicação na relação 
médico paciente. 
Na atenção integral à criança e à família, a espiritualidade e a religiosidade 
devem estar presentes no trabalho vivo do médico em ato, local de infinitas 
possibilidades, como instrumento comunicacional, no respeito bioético e como força 
que pode influenciar positivamente o processo saúde-doença. 
E o que não é a realidade senão o produto, em um tempo e espaço, do 
espírito infinito... 
Inverno de 2013 
 
77 
 
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84 
 
85 
 
APÊNDICE A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO 
 
1. Título do projeto: “A Espiritualidade e a Religiosidade na prática 
pediátrica” 
2. Desenho do estudo e objetivo(s): O presente estudo objetiva avaliar a 
religiosidade e espiritualidade dos médicos pediatras, seu conhecimento 
sobre o tema e como é aplicado em sua prática clínica; 
3. Descrição dos procedimentos: Será aplicado um questionário padrão para 
todos os participantes. O questionário será impresso em papel com perguntas 
de múltipla escolha e será preenchido durante o horário de trabalho. A forma 
de preenchimento será presencial, ou seja, o voluntário preencherá o 
questionário no momento da entrega pelo pesquisador e devolverá após o 
seu término; 
4. Descrição dos desconfortos e riscos esperados nos procedimentos: Sem 
risco. 
5. Benefícios para o participante: Não há benefício direto para o participante, 
nem prejuízo. É um estudo totalmente isento de vinculações hierárquicas e 
administrativas ou de influências que possam interferir no seu vínculo como 
médico na instituição, afastando quaisquer pressuposições de natureza 
coercitivas em decorrência da sua participação na pesquisa, bem como no 
relatório final do estudo. 
6. Garantia de acesso: em qualquer etapa do estudo, você terá acesso ao 
responsável pela pesquisa para esclarecimento de eventuais dúvidas, 
Rodrigo Zukauskas Santos que pode ser encontrado no endereço: Rua 
Silvério Svilásio de Oliveira, 160 – Casa 19- Jd Saira-Sorocaba 33420910. 
Se você tiver alguma consideração ou dúvida sobre a ética da pesquisa, entre 
em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) – da Faculdade– 5º 
andar – Telefone 32129900. 
86 
 
7. É garantida a liberdade da retirada de consentimento a qualquer momento e 
deixar de participar do estudo, sem qualquer prejuízo com a Instituição; 
8. Direito de confidencialidade – As informações obtidas serão analisadas e não 
serão divulgadas a identificação dos entrevistados; 
9. Despesas e compensações: não há despesas pessoais para o participante 
em qualquer fase do estudo. Também não há compensação financeira 
relacionada à sua participação. 
10. Compromisso do pesquisadorde utilizar os dados e o material coletado 
somente para esta pesquisa. 
 
Acredito ter sido suficientemente informado a respeito das informações que li 
ou que foram lidas para mim, descrevendo o estudo: “A Religiosidade e a 
Espiritualidade na prática pediátrica.” 
Eu discuti com o pesquisador sobre a minha decisão em participar nesse 
estudo. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os 
procedimentos a serem realizados, seus desconfortos e riscos, as garantias 
de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também 
que minha participação é isenta de despesas e quaisquer prejuízos que 
possam interferir na minha vida acadêmica. Concordo voluntariamente em 
participar deste estudo e poderei retirar o meu consentimento a qualquer 
momento, antes ou durante o mesmo, sem penalidades ou prejuízo ou perda 
de qualquer benefício. 
Assinatura do entrevistado __________________________________ 
Data / / 
Declaro que obtive de forma apropriada e voluntária o Consentimento Livre e 
Esclarecido deste aluno ou representante legal para a participação neste estudo. 
Nome do entrevistador e assinatura: __________________________________ 
 
87 
 
APÊNDICE B - Questionário 
 
 
QUESTIONÁRIO 
 
 
 
DADOS GERAIS DOS ENTREVISTADOS 
 
1. Gênero 1- Fem 2- Masc 
 
2. Quantos anos você tem? ________ anos 
 
3. Como você definiria sua etnia? Você considera-se 
1 Oriental 
2 Branco 
3 Negro 
4 Mulato 
5 Outras _____________________________ 
 
4. Qual é o seu setor no CHS? 
1 URE 
2 Enfermaria 
3 Berçário/Alojamento Conjunto 
4 UTI pediátrica 
5 Ambulatório 
 
5. QUAL A SUA RELAÇÃO NO CHS e Tempo de formado? 
1. Residente 
2. Médico 
Quanto tempo de formado?_________________ 
 
 
 
88 
 
DIMENSÃO DE RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE: 
 
6. Das alternativas, aquela que melhor descreve sua afiliação religiosa é? 
1 Nenhuma, mas acredito em Deus 
2 Nenhuma e não acredito em Deus 
3 Evangélico/Protestante 
4 Budista 
5 Hindu 
6 Judeu 
7 Espírita 
8 Muçulmano 
9 Protestante 
10 Católico Apostólico Romano 
11 Umbandista 
12 Espiritualista 
13 Outros (favor especificar): _________________ 
 
7. O quanto você se considera uma pessoa religiosa? Você diria que é 
1 Muito religioso 
2 Moderadamente religioso 
3 Pouco religioso 
4 Não religioso 
 
8. Com que frequência você vai a uma igreja, templo ou outro encontro 
religioso? 
1 Mais de uma vez por semana 
2 Uma vez por semana. 
3 Duas a três vezes por mês 
4 Algumas vezes por ano 
5 Uma vez por ano ou menos 
6 Nunca 
 
89 
 
9. Com que frequência você dedica o seu tempo a atividades religiosas, 
individuais, como preces, rezas, meditações, leitura da bíblia ou de outros 
textos religiosos? 
1 Mais do que uma vez ao dia 
2 Diariamente 
3 Duas ou mais vezes por semana 
4 Uma vez por semana 
5 Poucas vezes por mês 
6 Raramente ou nunca 
 
10. Em minha vida, eu sinto a presença de Deus (ou do Espírito): 
1 Totalmente verdade para mim 
2 Em geral é verdade 
3 Não estou certo 
4 Em geral não é verdade 
5 Não é verdade 
 
11. As minhas crenças religiosas estão realmente por trás de toda minha 
maneira de viver: 
1 Totalmente verdade para mim 
2 Em geral é verdade 
3 Não estou certo 
4 Em geral não é verdade 
5 Não é verdade 
 
12. Eu me esforço muito para viver a minha religião em todos os aspectos da 
vida: 
1 Totalmente verdade para mim 
2 Em geral é verdade 
3 Não estou certo 
4 Em geral não é verdade 
5 Não é verdade 
 
 
90 
 
13. O que você entende por Espiritualidade? (assinale uma ou mais) 
1. Postura ética e humanística. 
2 Busca de sentido e significado para a vida humana. 
3 Crença e relação com Deus / Religiosidade. 
4 Crença em algo transcendente à matéria. 
5 Crença na existência da alma e na vida após a morte. 
 
14. Você acredita em Deus? 
1 Sim 
2 Não 
3 Sem opinião formada 
 
15. Você acredita que apesar da morte do corpo, a alma/espírito ainda 
preserva-se viva? 
1 Sim 
2 Não 
3 Sem opinião formada 
 
16. Você acredita em reencarnação (preservação da alma/espírito após a morte 
do corpo físico, com o posterior retorno desta alma/espírito à Terra, ligada a 
um corpo humano a ser gerado após a fecundação)? 
1 Sim 
2 Não 
3 Sem opinião formada 
 
17. Você acredita que o ser humano é composto de um corpo e uma alma/ 
espírito? 
1 Sim 
2 Não 
3 Não tenho opinião formada 
 
 
 
91 
 
CONHECIMENTO DO ASSUNTO, RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE E 
PRÁTICA CLÍNICA 
18. Você relaciona o assunto “Saúde e Espiritualidade” com: 
(assinale uma ou mais) 
1 Humanização da Medicina. 
2 Qualidade de vida. 
3 Saúde total / holística. 
4 Interferência positiva ou negativa da religiosidade na saúde. 
5 Interferência do transcendente/imaterial na saúde. 
6 Abordagem do viver e do morrer. 
 
19. Em geral, o quanto você acha que a religião/espiritualidade influencia na 
saúde de seus pacientes? 
1 Extremamente 
2 Muito 
3 Mais ou menos 
4 Pouco 
5 Muito pouco ou nada 
 
20. A influência da religião/espiritualidade na saúde geralmente é positiva ou 
negativa? 
1 Geralmente positiva 
2 Geralmente negativa 
3 Igualmente positiva e negativa 
4 Não tem influência 
 
21. Em sua opinião, com que intensidade a espiritualidade/religiosidade dos 
médicos interfere no entendimento do processo saúde-doença e na relação 
médico-paciente? 
1 Enorme intensidade 
2 Grande intensidade 
3 Moderada intensidade 
4 Pequena intensidade 
5 Não interfere 
92 
 
22. Você sente vontade de abordar o tema fé/espiritualidade com os pacientes? 
1 Sim, raramente 
2 Sim, freqüentemente 
3 Não 
 
23. O quanto você se considera preparado para abordar aspectos 
religiosos/espirituais com seus pacientes? 
1 Muitíssimo preparado 
2 Muito preparado 
3 Moderadamente preparado 
4 Pouco preparado 
5 Nada preparado 
6 Não se aplica 
 
24. O quanto você acha pertinente tal abordagem? 
1 Muitíssimo pertinente 
2 Muito pertinente 
3 Moderadamente pertinente 
4 Pouco pertinente 
5 Nada pertinente 
 
25. Quando é apropriado para o médico rezar com seu paciente? 
1 Nunca 
2 Somente se o paciente solicitar 
3 Sempre que o médico achar que é apropriado 
 
26. Você alguma vez já perguntou sobre a religião/espiritualidade dos seus 
pacientes? 
1 Sim (Se Sim ..., responder questões 26a e 26b) 
2 Não 
3 Não se aplica, eu não vejo pacientes 
 
 
 
93 
 
26a. Com que frequência você pergunta? 
1 Raramente 
2 Algumas vezes 
3 Comumente 
4 Sempre 
 
26b. Com que frequência os pacientes lhe parecem desconfortáveis quando 
são questionados sobre a religiosidade/espiritualidade? 
1 Nunca 
2 Raramente 
3 Algumas Vezes 
4 Comumente 
5 Sempre 
 
27. Alguma das afirmações seguintes desencorajam você a discutir 
religião/espiritualidade com seus pacientes? (MARQUE TODAS QUE 
COUBEREM) 
1Falta de conhecimento 
2Falta de treinamento 
3Falta de tempo 
4 Desconforto com o tema 
5  Medo de impor pontos de vista religiosos aos pacientes 
6  Conhecimento sobre religião não é relevante no tratamento médico 
7  Não faz parte do meu trabalho 
8 Medo de ofender os pacientes 
9 Medo de que meus colegas não aprovem 
10 Outros_______________________ 
 
 
 
94 
 
28. Quais das ferramentas ou tratamentos espirituais você acha que poderiam 
ser recomendados para seus pacientes? 
1 Reza/prece 
2 Leitura religiosa 
3 Água fluidificada/Água Energizada/Água Benta 
4 Desobsessão/Exorcismo/”Descarrego” 
5 Imposição de mãos/Reike/Passe/Johrei 
6 Trabalhos de caridade em templos religiosos 
7 Outros. Quais? __________________________________________ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
95 
 
 
ANEXO A - Comitê de Ética em Pesquisa 
 
 
 
 
 
 
 
96 
 
 
97 
 
ANEXO B – Formulário de autorização de pesquisa (CHS) 
 
 
 
 
 
 
98 
 
 
99 
 
ANEXO C - Versão em português da Escala de Religiosidade da 
Duke – DUREL 
 
(1) Com que frequência você vai a uma igreja, templo ou outro encontro religioso? 
1. Mais do que uma vez por semana 
2. Uma vez por semana 
3. Duas a três vezes por mês 
4. Algumas vezes por ano 
5. Uma vez por ano ou menos 
6. Nunca 
 
(2) Com que frequência você dedica o seu tempo a atividades religiosas individuais, 
como preces, rezas, meditações, leitura da bíblia ou de outros textos religiosos? 
1. Mais do que uma vez ao dia 
2. Diariamente 
3. Duas ou mais vezes por semana 
4. Uma vez por semana 
5. Poucas vezes por mês 
6. Raramente ou nunca 
 
A seção seguinte contém três frases a respeito de crenças ou experiências 
religiosas. Por favor, anote o quanto cada frase se aplica a você. 
(3) Em minha vida, eu sinto a presença de Deus (ou do Espírito Santo). 
1. Totalmente verdade para mim 
2. Em geral é verdade 
3. Não estou certo 
4. Em geral não é verdade 
5. Não é verdade 
 
 
 
 
100 
 
(4) As minhas crenças religiosas estão realmente por trás de toda a minha maneira 
de viver. 
1. Totalmente verdade para mim 
2. Em geral é verdade 
3. Não estou certo 
4. Em geral não é verdade 
5. Não é verdade 
 
(5) Eu me esforço muito para viver a minha religião em todos os aspectos da vida. 
1. Totalmente verdade para mim 
2. Em geral é verdade 
3. Não estou certo 
4. Em geral não é verdade 
5. Não é verdade 
 
	Pre Textual
	Textual
	PosTextual

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