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"A totalidade desta pesquisa pretende confluir para a leitura do discurso freudiano nas suas diferentes in- Gramáticas terpretações formuladas sobre a histeria, a diferença do erotismo sexual e a feminilidade. O objetivo é, portanto, mos- A feminilidade e as suas formas trar as ambiguidades que permearam aquele discurso de subjetivação em psicanálise no que concerne a tais problemáticas, mas que lhes são, em contrapartida, constitutivas e fundamentais. Pretendo mostrar, sobretudo, a presença, no discurso freudiano, de diferentes gramáticas do erotismo, de ma- neira que a leitura da sexualidade feminina fundada na Joel Birman figura do falo estabelece uma relação de paradoxo e am- biguidade com conceito freudiano de feminilidade." ISBN 85-200-0569-1Uma das críticas mais contundentes à psicanálise surgiu do feminismo, e seu principal alvo foi a teoria freudiana da se- xualidade. A tese das feministas é que ela incorporava de forma ingênua a idéia de uma natural entre os sexos, corn as inaceitáveis que ess premissa A não-compreen- são caráter CO desta hierarquia, ia dos sexos tecida no processo de constituição da moder- nida de teria levado Freud a ado- tar visão patriarcalista e essencialista da e do feminino, ou seja, politicamente conservadora e teorica- merite Em erotismo, Joel Birman leva esta critica a sério Ab invés de refutá- la de admite Sua pertinência e faz dela O ponto de para uma releitu- ra criativa e vigoro do texto freudiano, que reorganiza termos do debate. Para isto ele se utiliza de dois procedi- men O primeir e reconstrução dos camin rri Freud desde as formul. ca da sexualidade feminina a histeria até Livraria a formula onceito de femi- PRO nilidade. epistemológica se SECULO acrescenta uma segunda, de caráter ge- nealógico, que procura dar conta dos con- (34) 3214-1166 textos em que esta trajetória foi Rua Bocaiuva 457 Centro da, ou seja, das condições de possibilidade www.proseculo.com.br Wellington Luis C. Bessa Psicólogo-CRP 04/9722 não apenas teóricas mas antropológicas CPFGramáticas do erotismo Wellington Luis C. Bessa Psicólogo-CRP 04/9722 CPFSUJEITO E HISTÓRIA Joel Birman Diretor de coleção: Joel Birman A coleção Sujeito e História tem caráter interdisciplinar. As obras nela incluídas estabelecem um diálogo vivo entre a psicanálise e as demais ciências humanas, buscando compreender o sujeito nas suas dimensões histórica, política e Títulos já publicados: Mal-estar na atualidade, Joel Birman Metamorfoses entre o sexual e o social, Carlos Augusto Peixoto Junior O prazer e o mal, Giulia Sissa O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha, Silvia Alexim Nunes Gramáticas do O desejo frio, Michel Tort Próximo título: erotismo Problema de gênero, Judith Butler A feminilidade e as suas formas de subjetivação em psicanálise CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA Rio de Janeiro 2001YRIGHT © Joel Birman, 2001 A lyn Grumach GRÁFICO elyn Grumach e João de Souza Leite P-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE NACIONAL RJ Birman, Joel, 1946- "La beauté sera convulsive ou ne sera pas. Gramáticas do a feminilidade e as suas formas 521g de subjetivação em psicanálise / Joel Birman. - Rio de Janei- A. BRETON, NADJA ro: Civilização Brasileira, 2001. (Sujeito e história) Inclui bibliografia ISBN 85-200-0569-1 1. Feminilidade (Psicologia). 2. Sexo (Psicologia). 3. Psicanálise. I. Título. CDD 155.633 CDU 159.92-055.2 01-0810 Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito. Direitos desta edição adquiridos pela EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA um DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. selo da Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 20921-380 - Tel.: 585-2000 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052, Rio de Janeiro, RJ - 20922-970 *Breton, A. "Nadja". In: Breton, A. Oeuvres Complètes. Volume I. Impresso no Brasil Gallimard, 1988, p. 753. 2001Renata, Para Daniela e Pedro, meus filhos. Thais, por tudo. ParaSumário INTRODUÇÃO 11 CAPÍTULO I Um passo à frente e dois atrás? 15 CAPÍTULO II Do sexo único à diferença sexual 31 CAPÍTULO III Padecem as mães no paraíso? 53 CAPÍTULO IV Erotizar ainda é possível? 69 CAPÍTULO V Possuídos, nervosos e degenerados 81 CAPÍTULO VI Uma desconstrução do biopoder? 121 CAPÍTULO VII Nem tudo são flores 169 CAPÍTULO VIII Um lance de dados? 221 BIBLIOGRAFIA CITADA 245 9Introdução A finalidade deste livro é realizar uma leitura sistemática do con- ceito de feminilidade e de sexualidade feminina em psicanálise, percorrendo, para isso, as diferentes linhas de desenvolvimento que se podem encontrar no discurso freudiano. Como se verá ao longo deste ensaio, estes conceitos seriam bem diferenciados neste dis- curso, considerado como um todo. Enquanto palavras nas quais se conjugam diversos universos semânticos e diferentes linhas de for- ça, as noções de feminino e feminilidade são a encruzilhada não apenas de muitas exigências teóricas, mas de imperativos éticos. No interior do discurso freudiano, ao longo de todo seu percurso, é possível depreender esse conjunto de imposições que permeiam, que do pré-conceito ao conceito incidiram sobre sua construção. Minha finalidade aqui é procurar desenredar e desvendar algumas dessas encruzilhadas conceituais, que, como todos os jogos de lin- guagem, funcionam também como formas de isto é, têm reais sobre o corpo e a subjetividade. Para empreender bem esse trabalho de desenredamento e desvendamento dessas palavras, no contexto do discurso freu- diano, lançarei mão da leitura das matrizes constitutivas do 'Wittgenstein, L. Investigações filosóficas. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 11JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO pensamento psicanalítico. Vale dizer, ao lado de uma estrita lei- cesso de medicalização do Ocidente iniciado no final do século tura epistemológica da retórica freudiana, pretendo lançar mão XVIII e ainda presente nos dias de hoje. Este processo transfor- também de interpretações de ordem histórica e mou radicalmente não apenas as nossas relações com a vida e a que nos permitiriam melhor apreender as linhas de força que morte, mas as formas de conceber a subjetividade e o erotismo. seriam constitutivas do discurso psicanalítico. Para não rodar no A totalidade desta pesquisa pretende confluir para a leitura seco e assim cair no vazio, o que as leituras estritamente concei- do discurso freudiano nas suas diferentes interpretações formula- tuais desse discurso com provocam, é preciso con- das sobre a histeria, a diferença sexual e a feminilidade. obje- jugar, do ponto de vista epistemológico, a análise interna à tivo é, portanto, mostrar as que permearam aquele externa.4 Vale dizer, é preciso pensar nas condições de possibi- discurso no que concerne a tais problemáticas, mas que lhes são, lidade dos conceitos em questão na sua relação interna com o em contrapartida, constitutivas e fundamentais. Pretendo mos- discurso psicanalítico e com as condições históricas concretas trar, sobretudo, a presença, no discurso freudiano, de diferentes deste último. Daí o recurso à história e à genealogia, subsumindo- gramáticas do erotismo, de maneira que a leitura da sexualidade as às exigências principalmente epistemológicas. feminina fundada na figura do falo estabelece uma relação de Nessa perspectiva, considerarei devidamente no percurso os paradoxo e com o conceito freudiano de feminili- modelos constituídos no Ocidente para pensar a construção dos dade. sexos e a existência de erogeneidades masculina e feminina di- Enfim, foi para a leitura crítica dessas e para- ferentes. Além disso, pretendo me bastante à leitura da doxos que me vi impulsionado na realização deste Por histeria, tanto na sua inscrição na sociedade antiga quanto na isso mesmo, sublinhei com bastante insistência estes e aquelas, modernidade, considerando as interpretações realizadas pela para conferir todo o relevo possível à leitura destas ambigüida- neuropatologia, pela psiquiatria e pela psicanálise. Finalmente, des e paradoxos. Foi para abrir um horizonte crítico na psicaná- sublinharei a posição estratégica ocupada pela histeria na lise de hoje, procurando inscrevê-la no mundo conturbado da modernidade, naquilo que Foucault denominou de biopoder e pós-modernidade, que esta investigação foi concebida. modalidades teóricas de pensar no gigantesco pro- M. Surveiller et punir. Paris, Gallimard, 1974. 'Tudo isso constitui uma linha de pesquisa iniciada há oito anos, realizada no M. "Nietzsche, la généalogie, l'histoire". In: Foucault, M. Dits et Programa de Pós-Graduação de Teoria Psicanalítica da Universidade Federal écrits. Volume II. Paris, Gallimard, 1994. do Rio de Janeiro e do Programa de Pós-Graduação de Saúde Coletiva da G. "L'Objet de l'histoire des sciences". In: Canguilhem, G. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para a qual contei com a colabo- Études d'histoire et de philosophie des sciences. Paris, Vrin, 1968. ração da CAPES e do CNPq. de pesquisa foi a condição de possi- M. de savoir. Histoire de la sexualité. Volume 1. Paris, bilidades para inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutoramento Gallimard, 1976. realizadas em ambas as instituições. 12 13CAPÍTULO I Um passo à frente e dois atrás?o discurso freudiano sobre o feminino é perpassado por múlti- plas contradições e ambiguidades é o mínimo que se pode dizer a seu propósito. Este é o grau zero do reconhecimento que se pode ter aqui, sobre a maneira pela qual a psicanálise forjou sua leitura sobre a subjetividade da mulher e da condição femi- nina. Reconhecimento fundamental este, que, diga-se de passa- gem, não apenas se pode ter, mas também se deve ter. A dimensão de imperativo é o ponto de partida desse desenvolvimento, que deve estar sempre presente para nós ao longo de todo o percurso. Como os imperativos, no entanto, impõem-se de forma ca- tegórica e insofismável, é preciso que se possam enunciar alguns indicadores, se possível literais e patentes, daquelas contradições e ambiguidades, para que o imperativo em pauta não soe como uma imposição incontornável, mas, ao contrário, como o pon- to de chegada de uma longa e tortuosa inquietação por mim percorrida. que enuncio aqui como uma afirmação insofis- mável e quase como um imperativo é, pois, a resultante de um permanente processo de indagação em que mergulhei há muito tempo. que ofereço ao leitor, então, desde o princípio deste ensaio, é a conclusão de um longo e demorado percurso pelas sendas do feminino em psicanálise. Cabe a mim, portanto, indi- 17JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO car as razões pelas quais a conclusão se impôs para mim de ma- positivação da histeria no final do século realizou tam- neira insofismável e quase como um imperativo, acima de qual- bém, ao lado disso, uma leitura do psiquismo feminino pela qual quer dúvida. É o que pretendo tecer ao longo deste ensaio. este seria marcado pelas impossibilidades de sublimação e de Começarei por apontar alguns dos indicadores patentes das restrições eloqüentes na ordem do pensamento.8 Esta patente contradições e no registro textual. Não tenho a contradição está no fundamento de todas as outras, que se enun- intenção de ser exaustivo, bem entendido, mas apenas de pon- ciam como efeitos em cascata dessa formulação primordial. tuar algumas das oposições e signos mais flagrantes. Além disso, Pode-se depreender, sem muita astúcia, que existe uma dife- não pretendo desenvolvê-las agora, mas adiar sua indagação para rença temporal significativa entre a primeira e a segunda for- momentos posteriores dessa incursão crítica. Minha intenção mulação. De fato, a primeira se forjou nas páginas inaugurais inicial é apenas destacar o bem fundado de meu enunciado po- dos "Estudos sobre a histeria" enquanto a outra se teceu nos lêmico e do quase imperativo formulado, para em seguida esbo- textos tardios sobre a feminilidade. No tempo total da obra e çar os eixos teóricos que pretendo desenvolver neste ensaio, para da ordem freudiana do discurso, no entanto, essa incoerência é demonstrar minhas afirmações. patente e salta imediatamente aos nossos olhos e ouvidos. que Assim, quais são os indicadores patentes das ambigüidades e se teria passado, então, nesse denso intervalo de trinta anos, no contradições do discurso freudiano sobre a feminilidade? que qual se constituiu toda uma obra, para que um segundo enun- nos oferece o registro dos textos a esse respeito? A que nós e ciado crítico da primeira formulação fosse forjado? Tentarei res- entrelaçamentos discursivos aqui me refiro para enunciar algo ponder minuciosamente à questão ao longo desse percurso. sobre os impasses da leitura freudiana da condição da mulher? Entretanto, isso já nos evidencia que o discurso freudiano Esta é a nossa questão inicial, o preâmbulo dessa incursão críti- será auscultado, aqui, na sua espessura temporal, na medida em ca, para que o quase imperativo enunciado não se transforme que as incoerências de seus enunciados se revelam na trama numa arbitrariedade e numa imposição leviana da minha parte. diacrônica dos desdobramentos. Não se pode então perder de Caminhemos inicialmente, pois, pelas incoerências evidentes do vista essa perspectiva, já que estará presente no método de lei- texto de Freud no que tange à problemática do feminino. tura aqui proposto para a indagação sistemática da interpreta- ção freudiana do ser do feminino. I. CONTRADIÇÕES E AMBIGÜIDADES S., Breuer, J. Études sur l'hystérie (1895). Paris, Presses Universitaires de France, 1971. S. "Quelques conséquences psychiques de la différence anatomique Com efeito, se, por um lado, aquele discurso deu de fato voz e entre les sexes" (1925). In: Freud, S. La Vie sexuelle. Paris, Presses Universitaires direito à fala para as mulheres desde os seus primórdios, pela de France, 1973. 18 19JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO É ainda pela consideração desse gap temporal na ordem curso freudiano sobre a mulher. Assim, se a mulher seria per- freudiana do discurso que se pode também escutar outra con- passada pela inveja, traço maior do seu ser marcada que seria tradição patente do discurso freudiano sobre a feminilidade. pela inferioridade genital por ser despossuída da magnificência Com efeito, se de início a obra civilizatória foi considerada como do pênis/falo em contrapartida inscreveria o falo na totali- algo produzido pela virtude e graça das mulheres, pelas sendas dade do seu corpo, que pela sedução e pela beleza escravizariam da depois, contudo, aquelas foram consideradas os homens ao seu A falácia feminina estaria justamente essencialmente anticivilizatórias, pelas demandas imperativas do na pretensão das mulheres de quererem fazer crer que teriam o desejo e do erotismo Pode-se sublinhar aqui o enun- falo incrustado no seu corpo. ciado de uma oposição entre os eixos da maternida- Nessa medida, o falo circularia livremente como um duende de e do desejo no que tange à condição feminina, de forma que, e um espírito, deslocando-se paradoxalmente como uma se pela dimensão da maternidade as mulheres se inscrevem no materialidade e um potente órgão de gozo, entre o pênis mas- trabalho incansável de construção da civilização, pela vertente culino e o corpo feminino. Nessas diversas incrustações corpó- do desejo elas seriam um obstáculo intransponível ao processo reas, no entanto, o falo seria sempre um operador de sedução, civilizatório. Qual o significado dessa dissonância conceitual fascinando igualmente homens e mulheres pelo seu atributo sobre o ser do feminino, que entre maternidade e desejo se trans- maior, isto é, o de fazer gozar. Como se sabe, Freud concebeu o formaria inapelavelmente de catalisador da construção civiliza- pênis na categoria de objeto parcial, inscrevendo-o numa série tória em seu oposto, isto é, em destruidor e de coveiro desta? de equivalências fundada no prazer, que, do seio e das fezes, Não precisamos responder a isso, pelo menos por ora. Po- passando pelo bebê, poderiam oferecer ao sujeito a possibilida- rém, seria a oposição entre maternidade e erotismo no ser da de de Contudo, se o pênis foi indubitavelmente relati- mulher que convergiria, como uma resultante destacada, para a vizado nessa seriação do prazer e do desejo, manteve seu lugar interpretação freudiana de um traço maior do feminino. Quero de destaque e no campo diversificado dos objetos me referir à inveja, marca do psiquismo feminino na parciais. escuta de Freud. Com efeito, a inveja do pênis/falo seria o mo- Por que isso? Devemos nos indagar sobre este tópico, é ób- tor crucial do funcionamento psíquico das mulheres. Porém, vio. A resposta de Freud para isso é clara. A destacada posição ainda aqui se pode entrever outra contradição manifesta do dis- atribuída ao pênis inscreve-se na trama do complexo de Édipo, S. "La Morale sexuelle et la maladie nerveuse des temps "Freud, S. "Pour introduire le narcissisme" (1914). In: Freud, S. La Vie sexuelle. modernes" (1908). In: Freud, S. Vie sexuelle. Op. cit. Op. cit. S. Malaise dans la civilisation (1930). Paris, Presses Universitaires de S. "Sur les transpositions de pulsions plus particulièrement dans France, 1971. l'érotisme anal" (1917). Idem. 20 21JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO na medida em que este definiria não apenas a diferença de se- crever não apenas os fundamentos teórico e histórico dessa nova e a ruptura das gerações, mas as identificações sexuadas na interpretação sobre a diferença sexual, mas também todos os seus subjetividade, superando e redefinindo os objetos parciais ante- desdobramentos e no registro histórico dos pro- riores da história libidinal do sujeito. cessos de subjetivação. No entanto, isso não dá conta inteiramente do fato de que o pênis perdeu seu valor relativo na série dos objetos parciais, sendo alçado a uma posição de valor absoluto. Daí por que a II. PSICANÁLISE E FEMINISMO expressão inveja do pênis se inscreve no discurso freudiano so- bre o feminino de maneira saliente. Os discursos feministas, principalmente nos seus momentos mais Evidentemente, o conjunto dessas contradições e ambigüi- heróicos e aguerridos, tomaram a psicanálise como um dos sig- dades ruidosas do discurso freudiano teve efeitos marcantes no nos privilegiados da moral machista e do sexismo. Aquela se imaginário ocidental, que tomou aquelas e estas como signos de transformou, por isso mesmo, em alvo de combate para o femi- uma leitura inferiorizante do ser da mulher. Nessa leitura, exis- nismo militante. A evidente hierarquia dos sexos no discurso tiria, para Freud, uma relação hierárquica entre homem e mu- freudiano não obstante a intenção deliberada de Freud de lher, pela qual o pólo masculino assumiria indiscutivelmente uma pensar em novas bases a diferença sexual fez da psicanálise posição superior em face do feminino. Entre as figuras do ho- um lugar estratégico de combate para feminino. Na retomada mem e da mulher existiria não apenas a relação entre o superior militante da palavra de ordem igualitária entre os sexos dos anos e o inferior dados os atributos valorativos conferidos a cada 60, pela qual se procurou passar da palavra ao ato os pressupos- uma das figuras em pauta mas uma hierarquia inscrita na tos igualitários da cidadania promulgados pela Revolução Fran- ordem da natureza. Essa naturalização da hierarquia entre os cesa, o feminismo pretendeu romper com a hierarquia valorativa sexos, formulada em termos libidinais pelo discurso freudiano, entre o masculino e o feminino. Para isso, estabeleceu um con- fundou-se numa concepção sobre o sentido da diferença sexual. fronto direto com os discursos que pensavam aquela hierarquia De qualquer maneira, a diferença sexual foi concebida naquele em termos ontológicos, já que necessário seria realizar a discurso como algo inerente à natureza dos sexos, esboçada agora desconstrução daqueles discursos que sustentavam a hierarquia em termos psíquicos e não mais estritamente biológicos. No e a dominação entre os sexos. Foi nesse contexto, portanto, que entanto, uma ontologia dos sexos foi efetivamente concebida a a psicanálise se transformou então num dos focos destacados de partir de essências diferenciadas. Para mim, isso parece indu- confrontação do feminismo, na medida em que procurava fun- bitável. dar as diferentes inserções dos sexos nas práticas sociais, com o que me parece mais importante é procurar bem circuns- evidente desvantagem para as mulheres. 22 23JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO Pode-se afirmar, sem pestanejar, que o feminismo está certo freudiano. Com isso, Freud inscreve-se inapelavelmente na ver- em sua contestação à psicanálise, já que esta se configurou his- tente da tradição no que concerne à reflexão sobre a diferença toricamente, de maneira indubitável, como um dos redutos do entre os sexos. pensamento patriarcal na modernidade? Ou, então, poder-se-ia É claro que Freud se referiu a outros destinos possíveis para dizer que não obstante as diversas contradições e o feminino, além da maternidade, deslocando-se, pois, de uma o discurso freudiano é muito mais sutil no que tange à sua leitu- espécie de predeterminação biológica dos diferentes sexos. Pro- ra do feminino? É esta oposição que deve ser aqui trabalhada de moveu, com isso, uma leitura histórica para os destinos do fe- maneira pertinente e consistente, para que se possam respon- minino delineando para essas diferentes possibilidades. Porém, der, de forma concisa, às interrogações acima levantadas. Esta é se as mulheres poderiam ter outros destinos históricos e subjeti- a questão primordial que estará presente ao longo de todo este vos, tais como a inibição sexual, a histeria e a não desenvolvimento. resta dúvida de que, para o discurso freudiano, a maternidade Acredito que ambas as formulações enunciadas se sustentam seria a forma por excelência de realização do ser da mulher. Vale efetivamente, mas que se inscrevem em níveis diversos de reali- dizer, sem a maternidade a mulher não seria efetivamente mu- dade. Esta é uma de minhas hipóteses de trabalho neste ensaio. lher de verdade, do estrito ponto de vista libidinal. Enfim, pelas É a circunscrição cuidadosa desses diferentes campos do real que diferentes configurações da inibição sexual, da histeria e da precisa ser aqui delimitada e bem costurada, para que possamos virilização, as mulheres estariam inscritas nos campos da ano- nos deslocar de uma oposição absoluta e perigosa entre os dois malia e até mesmo da franca patologia libidinal, afastando-se, enunciados cortantes e trabalhar, então, no registro de suas decididamente, do encontro com a plena feminilidade, que ape- interlocuções possíveis. Seria preciso encontrar as instâncias de nas se daria com a assunção da maternidade. mediação desses enumerados para então discutir adequadamente Parece-me que tudo isso é absolutamente correto. Este é o suas evidentes dissonâncias. ponto maior de estrangulamento teórico da leitura freudiana De qualquer maneira, é preciso que se diga logo, sem ilu- sobre a feminilidade, mas não é tudo. Trata-se apenas de um dos que o feminismo tem parcialmente razão na crítica que lados da interpretação psicanalítica do feminino. Existe outro, empreendeu à razão psicanalítica, na medida em que esta for- que deve ser também sublinhado e considerado. Não se pode mulou uma leitura hierárquica da diferença sexual. A promoção incontestável da figura da maternidade no discurso psicanalítico, esse respeito, ver Freud, S. "Quelques conséquences psychiques de la mediante a qual o feminino se faria mulher de maneira indiscu- différence anatomique entre les sexes" (1925). In: Freud, S. La Vie sexuelle. Op. cit., Freud, S. "Sur la sexualité féminine" (1931). Idem; Freud, S. "La tível, é o traço mais disso. Esta seria, sem dúvida, a Féminité". In: Freud, S. Nouvelles conférences sur la psychanalyse (1932). Paris, marca maior da moral do patriarcado presente no discurso Gallimard, 1936. 24 25JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO esquecer ou deixar de considerar esse outro lado, pois algo de que adentremos decididamente as condições de enunciação do precioso se perderia assim na interpretação do discurso freudiano discurso freudiano. Estas condições não são apenas de ordem do feminino. Vale dizer que este discurso é algo bem mais sutil, teórica, bem entendido, mas também de ordem histórica. Vale tortuoso e sobretudo muito mais contraditório na interpretação dizer, é preciso que se pense também nas condições de possibi- que empreende do feminino do que nos faz crer uma leitura lidade do discurso freudiano sobre a diferença sexual para que superficial e rápida. É preciso, pois, certa prudência e sobretu- se possa apreender, então, em estado nascente, as contradições do muita cautela nessa leitura, para que se possa seguir sem in- e sobre o feminino forjadas naquele discurso. genuidades a rota cortante da paciência do conceito. Assim, é preciso delimitar devidamente as matrizes sobre as quais se fundou o discurso freudiano sobre a sexualidade e a diferença sexual. Aquelas não são apenas teóricas e conceituais, III. DO QUE SE TRATA? pelo contrário, supõe-se aqui que vão muito além disso. Trata- se de matrizes antropológicas que se inscreveram no tempo his- A intenção maior deste ensaio é procurar interpretar os eixos tórico da modernidade. Freud foi herdeiro dessas matrizes, sem constitutivos do discurso freudiano sobre a feminilidade, bus- dúvida, mas submeteu-as a uma reinterpretação psicanalítica. cando para tal circunscrever devidamente a noção de diferença Vale dizer, Freud construiu certos conceitos a partir dessas ma- sexual que se forjou no campo deste discurso. Parece-me que as trizes, mas, em contrapartida, seus conceitos se infletiram decidi- contradições e maiores promovidas pela leitura damente sobre o ser das matrizes que herdou, reconfigurando-as, freudiana da condição feminina se devem à forma pela qual a então, com certa originalidade. Dessa maneira, as matrizes ad- concepção de diferença sexual foi construída naquele discurso. quiriram outra consistência e novos horizontes. É este percurso Destaca-se aqui, de maneira a figura do falo, opera- complexo, marcado por idas e vindas, por torções e retorções, dor teórico maior da diferença sexual. Ter ou não ter o falo, ou, que precisa ser aqui bem evidenciado. Isso porque o discurso então, ser ou não ser o falo se enunciaram como as aporias teó- freudiano foi indiscutivelmente marcado por um solo histórico ricas maiores que delineariam o campo matizado da diferença e epistemológico que em muito lhe transcendia, mas aquele de- sexual. senhou efetivamente um destino específico para este com os Porém, isso ainda não é tudo. Empreender uma leitura que conceitos psicanalíticos que enunciou. permaneça somente no registro dos enunciados freudianos pa- Com efeito, a noção de diferença sexual se constituiu firme- rece-me francamente insuficiente. Essa é a condição necessária mente no imaginário cultural do Ocidente na virada do século desta leitura, mas não é suficiente. Para que possamos nos des- XVIII para o XIX, a partir das contradições sociais produzidas locar do registro do necessário para o do suficiente, é preciso pelo ideário igualitário constituído pela Revolução Francesa. 26 27JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO Nesses termos, é preciso se indagar, antes de mais nada, sobre feminina, lançando, pois, uma nova luz não apenas sobre o ser os efeitos do igualitarismo dos direitos dos cidadãos na cons- do feminino, mas também para outra leitura possível sobre a trução do paradigma teórico da diferença sexual. Seria, pois, este masculinidade. paradigma, assim produzido como sua condição histórica de É nesse patamar contraditório e nesse limiar crítico que se possibilidade, que estaria no fundamento da indagação freudiana estabelece o essencial desta discussão, no meu entender. É nesse sobre a diferença sexual. Enfim, sem que esses liames sejam es- registro que se delineia a nervura maior desta polêmica teóri- tabelecidos e bem esboçados aqui é bastante difícil e, creio eu, ca, que se desdobra numa polêmica também de ordem ética e até impossível compreender efetivamente o discurso freudiano política. É para esse patamar contraditório que temos de nos sobre a feminilidade e a masculinidade. voltar para apreender nesse limiar crítico os parâmetros maio- Além disso, é preciso sublinhar enfaticamente que a relação res desta polêmica, que ainda está em curso nos dias atuais, do discurso freudiano com este solo histórico foi marcada pelo nos novos desacordos existentes entre psicanálise e feminismo. paradoxo e pela contradição. Com isso, produziram-se não ape- Na atualidade foram formulados novos enunciados entre os nas diferentes ambiguidades daquele discurso em relação ao seu interlocutores, sem dúvida, mas ainda persiste o desacordo en- solo fundador, como também ruídos e outras no tre os campos. interior do discurso freudiano sobre a diferença sexual. Vale Assim, procurarei inicialmente estabelecer os traços funda- dizer, esse discurso caminhou parcialmente considerando o bem mentais do moderno discurso sobre a diferença sexual e suas fundado daquela diferença antropológica, assumindo, pois, os transformações significativas em relação ao discurso da Antigüi- valores veiculados pelo paradigma dominante. Porém, também dade sobre a construção dos sexos. Em seguida, indicarei os parcialmente os rejeitou, promovendo avanços significativos em avanços e recuos do discurso freudiano em face do paradigma relação a tais valores, como veremos ainda. Produziu-se aqui uma moderno da diferença sexual, sublinhando principalmente os evidente dissonância cognitiva, que precisa ser muito bem aqui- paradoxos e as contradições. Finalmente, pretendo dizer como latada nos seus próprios termos. conceito de feminilidade, Freud buscou uma solução para os paradoxos e contradições forjado no final do percurso freudiano, é uma das maiores evi- construídas ao longo do seu percurso teórico e que lhe marca- dências Pela proposição daquele conceito, a feminilida- ram de modo indelével nesse de se diferenciaria tanto da sexualidade masculina quanto da Isso, bem entendido, se considerarmos que existem soluções efetivas para tal. que é uma aposta que realizamos aqui. Aposta essa que implica uma ética e se desdobra numa política. 14Freud, S. "L'Analyse avec fin et l'analyse sans fin" (1937). In: Freud, S. Résultats, Idées, Problèmes. Volume II. Paris, Presses Universitaires de France, Serão estes, assim, os meus encaminhamentos maiores aqui, 1992. nessas sendas sempre obscuras e problemáticas do feminino no 28 29JOEL BIRMAN so freudiano. Entre um passo à frente e dois atrás, para asear um famoso título de sobre a derrotada Revo- Russa de 1905, será este, enfim, o meu percurso crítico o feminino em psicanálise. CAPÍTULO II Do sexo único à diferença sexual 30A constituição de um discurso sobre a diferença sexual é um acontecimento bastante recente na história do Ocidente, não obstante a naturalização daquele discurso. Com efeito, apenas no final do século XVIII e no início do século XIX teria se for- jado um discurso sistemático sobre esta diferença, pois até en- tão os sexos eram concebidos de maneira hierárquica, sendo sempre regulados pelo modelo masculino. Este era figurado de maneira indiscutível como o sexo perfeito. Foi este último mo- delo que prevaleceu, como referência e paradigma, na tradição ocidental desde a Deslocamo-nos, portanto, de um paradigma fundado no sexo único para outro no qual existiriam dois sexos, distintos e bem Passar a conceber os sexos como essencialmente diferencia- dos não era apenas um exercício brilhante de argúcia teórica e acumulação de novas informações biológicas sobre a natureza dos sexos, mas, principalmente, outra forma de percepção e representação da diversidade sexual, que teve então efeitos bas- esse respeito, ver: Laqueur, T.La Fabrique du sexe. Paris, Gallimard, 1992; Laqueur, T. "Orgasm, generation, and the politics reproductive biologie". In: Gallager, C., Laqueur, T. The Making of Modern Body. Califórnia, California Press, 1984. 33JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO tante salientes nas práticas sociais. Da mesma maneira, o antigo logia, nos seus aspectos anatômico e fisiológico, que funciona- paradigma do sexo único, com a postulada hierarquia entre o ria como divisor de águas na natureza, diferenciando de ma- masculino e o feminino, não se limitava apenas ao deleite con- neira cortante o ser do macho e o ser da fêmea. Desse substrato templativo dos sábios, mas desdobrava-se também em conse- essencial se constituiria, então, o fundamento destes. Portan- cruciais para as práticas das relações sociais entre os to, essas essências diferentes esboçariam os horizontes sexos. Já que convivemos de maneira naturalizada com o mode- veis e diversificados para a inserção do macho e da fêmea não lo da diferença sexual há duzentos anos pelo menos e, assim, apenas nas relações entre si, mas também nas suas inscrições perdemos de vista sua relatividade histórica, é preciso que se no espaço social. Seriam, então, as essências naturais diferen- enuncie com clareza o que tudo isso significa. É preciso então tes que delineariam as possibilidades e as finalidades sociais desnaturalizar essa questão, inscrevendo-a decididamente na diversas para os sexos. Enfim, o discurso da diferença sexual temporalidade histórica. esboçaria uma ontologia dos diversos sexos, que se discrimi- nariam definitivamente, isto é, de forma incontornável e irre- versível. I. A DIFERENÇA SEXUAL E A IGUALDADE DOS DIREITOS Estaria justamente aí a marca insofismável da modernidade. Com efeito, o paradigma da diferença sexual é fundante e Assim, o novo paradigma da diferença sexual que se instituiu correlato da modernidade no Ocidente. Isso porque, até o final então como um imperativo teceu-se pela reflexão e pela pesqui- do século XVIII, o modelo do sexo único dominava ainda o sa, pela formulação do postulado da existência de uma diversi- imaginário sexual da nossa tradição. Este modelo, constituído dade radical de fundamentos sobre o ser do homem e o ser da na Antigüidade, teve, no entanto, uma perenidade impressio- mulher. Estes teriam, assim, essências diferentes, que seriam nante nesta tradição. Não obstante os ruídos provocados pelo então irredutíveis entre si. Nesse contexto, não existiria qual- novo modelo da diferença sexual que já apareciam, aqui e quer possibilidade de reversibilidade entre os sexos, dado que ali, desde o início do século XVII- o paradigma do século único suas essências seriam radicalmente diferentes. Isso quer dizer, mostrou ainda, de maneira surpreendente, sua pregnância até o portanto, que ser homem e ser mulher passaram a ser então con- final do século XVIII, quando a igualdade de direitos dos cida- cebidos como matrizes da natureza plenamente diferenciadas e dãos se impôs de modo irreversível, como decorrência direta das absolutamente inconfundíveis. exigências forjadas pela Revolução Francesa. Constituiu-se aqui uma leitura naturalista da diversidade De acordo com Laqueur, foi a igualdade dos direitos dos sexual. Com efeito, a natureza diferenciada dos sexos foi con- cidadãos, propagada e sustentada ao longo do século XVIII, que cebida como algo de ordem estritamente biológica. Seria a bio- subverteu definitivamente o modelo hierárquico do sexo único 34 35JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO imperante no Ocidente desde a Seria, portanto, tação para uma leitura renovada do discurso freudiano sobre a a impossibilidade de sustentar a hierarquia entre o homem e a diferença sexual, é preciso que, antes de mais nada, se possa mulher pelo paradigma do sexo único, em função do discurso enunciar esquematicamente a construção dos modelos acima. da igualdade dos cidadãos diante da lei, que teria solapado tal paradigma, construído no mundo greco-romano, e criado as condições concretas de possibilidade para a construção de ou- II. SEXO ÚNICO tro modelo sexual. Com efeito, como seria possível sustentar uma hierarquia modelo do sexo único e da relação hierárquica entre o ho- entre o homem e a mulher diante do imperativo jurídico da igual- mem e a mulher foi construído na como já afir- dade de direitos? Foi justamente este paradoxo que funcionou mamos. Se Galeno foi o responsável pela versão final deste como condição histórica de possibilidade para a constituição do foi Aristóteles, contudo, quem estabeleceu seus discurso da diferença sexual. De acordo com o moderno alicerces fundamentais. Com efeito, sem as reflexões deste so- paradigma da diferença, a inserção funcional dos diversos sexos bre a reprodução e a geração, aliada à teoria grega dos quatro no espaço social se fundaria agora nas suas finalidades biológi- elementos e dos humores, teria sido impossível a construção cas diversas. galênica estar fadada a uma longa história. Porém, é fundamental sublinhar que a hierarquia entre os Assim, partindo de sua teoria das quatro causas - material, sexos não deixou absolutamente de existir, mas foi apenas formal, eficiente e Aristóteles concebeu a geração como deslocada e passou a se fundar no registro biológico da natureza. diversamente distribuída entre as figuras do homem e da mu- Com efeito, as diferentes inserções sociais dos sexos passaram a lher. Com efeito, se a mulher seria a sede e o vetor da causa ser legitimadas agora pelo determinismo natural dos corpos, que material da geração, caberia ao homem o poder da causa for- delineavam então horizontes diversos e bem discriminados para mal. Sendo essas causas concebidas de maneira hierárquica na o macho e a fêmea. De tudo isso, pode-se depreender que os ontologia aristotélica isto é, a causa formal sendo considera- poderes hierarquizados entre os sexos ganharam agora novo da superior e a causa material, inferior a superioridade mas- contorno, fundando-se numa caução biológica, sendo aqueles culina estaria propriamente inscrita em ato na própria geração legitimados, enfim, pelo discurso da ciência. dos seres, já que sem a forma de nada valeria a matriz feminina Para que se possa compreender, adequadamente, a dimensão na sua materialidade bruta. Seria aquela, pois, que imprimiria e o alcance da transformação e as dessa interpre- definitivamente seu traço sobre esta, produzindo então uma T. Idem. 36 37JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO hierarquia indelével entre o ser masculino e o ser feminino no disso, o responsável pela distribuição daquela morfologia tanto ato da geração. no corpo quanto no espaço. Isso porque Galeno supunha exis- A figura do macho então seria a responsável pela transmis- tir uma equivalência bem precisa entre cada um dos elementos são da humanidade propriamente dita, já que apenas aquele seria presentes nos aparelhos genitais do homem e da mulher. Have- portador do princípio divino. Isso porque a forma, enquanto ria então uma homologia precisa entre as genitálias no macho e essência, seria o ato, sendo esta, pois, a perfeição em que se trans- na fêmea. Daí o paradigma do sexo único. Contudo, não obstante mite a marca do divino. Por isso mesmo, o macho seria, on- a equivalência e a homologia morfológicas, as formas se discri- tologicamente falando, o princípio motor e gerador, isto é, o minariam minimamente e se inscreveriam ainda de maneiras único ser que poderia engendrar um outro. Em contrapartida, a opostas no espaço, de acordo com a presença/ausência do hu- figura da fêmea, enquanto matéria, esperaria passivamente para mor quente nos corpos. ser engendrada. A figura do macho seria, pois, atividade e a da Com efeito, a morfologia assumida pela genitália masculi- fêmea, passividade. Enfim, o macho seria o artesão, que com a na, assim como sua projeção no espaço exterior, seria devida às forma engendra o ser, enquanto a fêmea ofereceria apenas a virtudes do humor quente. Em contrapartida, as formas matéria sobre a qual o macho trabalharia a sua artesania micas da genitália feminina e sua inclusão no espaço interior do Galeno trabalhou sobre esse terreno inicial forjado por corpo seriam decorrentes da ausência ou da subalternidade do Aristóteles, complexificando-o bastante, contudo, pela introdu- humor quente no corpo das mulheres. Com isso, enfim, a inva- ção da teoria dos humores. Para aquele, com efeito, seria a pre- ginação dos diversos elementos da genitália feminina seria a sença e a dominância do humor quente no ato da geração que direta da ausência relativa do humor quente na produziria o sexo masculino e sua ausência, o feminino. Assim, circulação humoral no corpo das seria a dominância do quente enquanto tal que condensaria em Pode-se depreender dessa leitura como os pólos masculino si as virtudes do masculino, enquanto o feminino seria forjado e feminino se oporiam como a luminosidade e a obscuridade, já pela sua ausência ou pela sua subalternidade na circulação geral que o masculino se associaria, pela projeção para fora, com a dos humores. Portanto, a morfologia corporal seria decorrente exterioridade, enquanto o feminino se ligaria, pela invaginação, da circulação dos humores. com a interioridade. Esta oposição se desdobraria em outra, pela Com efeito, o equilíbrio entre os humores configuraria a qual a verdade estaria no pólo masculino, considerando-se que morfologia genital dos sexos. Porém, o humor quente seria, além a luminosidade se articularia com a via da verdade, enquanto o feminino pela escuridão, isto é, com a não-verdade. Além disso, esse respeito, ver: Aristóteles, De la génération et de la corruption. Paris, Belles Lettres, 1967; Aristóteles, La Métaphysique. Volume I, E. Paris, Vrin, 1964. T. La Fabrique du sexe. Op. cit. 38 39JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO é preciso evocar que o pólo masculino seria a representação da ro, mas masculino não poderia jamais se tornar feminino. Isso atividade e da ação, isto é, o que faz protuberância e penetra no porque o imperfeito poderia ser transformado no perfeito, des- espaço exterior, enquanto o feminino seria a representação da de que a presença do humor quente pudesse ser o operador da passividade e da recepção. Enfim, todas essas oposições estariam transformação, de acordo com os pressupostos valorativos pre- condensadas e intrincadas na oposição maior dentro/fora, re- sentes da lógica hierárquica. No entanto, não existiria recipro- gulada pelo humor quente. cidade entre os sexos. Uma mulher poderia efetivamente ser Nesse contexto, a equivalência e a homologia morfológicas transformada num homem, já que o imperfeito poderia sempre entre os sexos se inscrevem numa lógica marcadamente hierár- se transformar no perfeito, mas a operação oposta não se reali- quica. As várias oposições acima destacadas já revelam eviden- zaria jamais, pela razão oposta. temente as linhas de força presentes na arquitetura hierárquica Portanto, nesse paradigma teórico só existiria um único sexo, entre os sexos. Com efeito, o pólo masculino seria caracteriza- com variações e matizações polares entre o masculino e o femi- do pela perfeição, como já dissera Aristóteles ao aproximá-lo do nino, que seria finalmente decidido pela dominância do quente divino, enquanto o pólo feminino seria marcado, no seu ser, pela na circulação dos humores. Isso promoveria ainda seja a proje- imperfeição, dada a ausência do humor quente. Contudo, na ção seja a invaginação da morfologia da genitália, para fora ou medida mesmo em que o sexo era considerado único, existiria para dentro do corpo. Finalmente, seria pela unicidade ontoló- sempre a possibilidade de transformação de um no outro, desde gica do sexo que a transformação da mulher em homem seria que, evidentemente, a hierarquia entre eles fosse respeitada em concebida, dada a homologia e a equivalência dos órgãos genitais. sua lógica infalível. Por mais espantoso que possa parecer para nossa represen- Nessa perspectiva, o feminino poderia ser transformado no tação moderna sobre os sexos, no entanto, esse paradigma per- masculino, desde que o humor quente pudesse se tornar domi- durou no imaginário ocidental durante séculos, evidenciando-se nante no corpo da mulher. Com isso, a invaginação morfológica por diversos signos. Assim, até o início do século XVII os dese- da genitália feminina seria projetada para o exterior e para fora, nhos nos livros médicos de anatomia se baseavam no corpo de forma que a fêmea se tornaria finalmente macho. Conseqüen- masculino, considerado o modelo da perfeição, isto é, o estudo temente, a passividade se transmutaria então em atividade, a do corpo do homem possibilitaria não apenas o saber anatômico recepção em ação e a obscuridade se faria subitamente luz. Enfim, adequado, mas também perfeito sobre a morfologia corpórea. a verdade se imporia efetivamente sobre a não-verdade, no lusco- Não obstante o início das descobertas anatômicas no Renasci- fusco da transformação tópica regulada pelo humor quente. mento, como também a expansão das práticas de dissecção, os Portanto, a equivalência virtual entre o masculino e o femi- atlas de anatomia mantinham ainda de maneira anacrônica o nino possibilitaria, pois, a transformação do segundo no primei- modelo sexual da Antigüidade. No início do século XVII, no 40 41JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO , começaram a aparecer, de maneira esparsa e difusa, os III. ONTOLOGIA SEXUAL os atlas anatômicos nos quais as diferenças morfológicas corpos do homem e da mulher começaram a se deter- Com a perda irreversível de legitimidade do paradigma do sexo até mesmo a se Portanto, começou a se esboçar único e sua progressiva substituição pelo modelo da diferença se- na nova relação entre os sexos, no sentido de enfatizar xual, o que passou a caracterizar a condição do homem e da mu- enas a diferença ontológica, como também a impossibili- lher foi a presença de marcas naturais essenciais. Ser homem ou e transformação de um no outro. Tudo isso culminará, mulher, então, seria a inevitável e insofismável de na formulação da teoria natural da diferença sexual, que traços inscritos na estrutura do organismo. Esses traços seriam inde- rá progressivamente ao longo do século XVIII e no iní- século XIX. léveis, na medida em que seriam produzidos pela natureza biológi- ca. Conseqüentemente, passou a existir um abismo intransponível tro signo bastante destacado da pregnância do modelo entre os sexos, já que uma essência particular e perene os diferen- da são os repetidos relatos da transforma- ciava. Com isso, a possibilidade de transformação da figura da mulheres em homens, que perduraram durante séculos mulher na do homem passou para o registro do imaginário, sendo do Renascimento, quando lentamente teve início o algo não apenas da ordem do improvável e do impraticável, mas o de crise e a desconstrução do paradigma do sexo úni- principalmente do impensável. Enfim, a marca sexual que cada um contra-se em Montaigne, num dos fragmentos de seus e do Diário de viagem à uma das últimas refe- portava, seja masculina ou feminina, passou para o nível da essên- cia, constituindo-se, então, uma ontologia da diferença sexual. de uma transformação sexual ocorrida com uma jovem Essa essência passou a ser concebida no registro estritamente vessar um rio. biológico, que passou a caracterizar o ser do homem e o da mulher por marcas inscritas em suas configurações anatômicas e em suas regularidades fisiológicas. Com efeito, com o desenvolvimento da biologia no século XIX, passou-se a configurar os dois sexos por L. The Mind Has no Sex? Women on the Origins of Modern caracteres sexuais ditos primários e secundários, o que os tornaria nce. Cambridge, Harvard University Press, 1989, Schlebinger, L. "Skeleton inconfundíveis. No século XX, com o desenvolvimento da genéti- e Closet: The First Illustration of the Female Skeleton in the Eighteen- ca como ciência, passou-se a indicar essas diferenças essenciais no ury Anatomy". In: Gallager, C., Laqueur, T. The Making of the Modern y. Op. cit. registro cromossômico, de maneira que, além do sexo somático, se ontaigne, M. Essais. Livro I, cap. XXI. In: Montaigne, M. Oeuvres enunciou também essa diferença essencial como sexo cromos- plètes. Paris, Gallimard 1962, p. 96. sômico. Além disso, entre o registro cromossômico e o somático, a ontaigne, M. "Journal de voyage en Italie". Idem, p. ontologia dos dois sexos foi também estabelecida, no final do sécu- 42 43JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO lo XIX, no registro dos hormônios, de maneira que se impôs a noção ção e explicação desses desvios e inadequações ruidosas entre de existência de um sexo hormonal, como fundador também da os registros somático e moral. Com efeito, essas anomalias e diferença sexual. Enfim, nesses diferentes registros da natureza e patologias psíquicas foram concebidas como formas de antina- em diversos níveis de complexidade do organismo, a diferença se- tureza e até mesmo de monstruosidade, na medida em que exis- xual foi estabelecida como essência intransponível, de maneira que tiria nelas uma evidente desarmonia entre os registros somático o ser do homem e o da mulher se impuseram definitivamente como e mental. Por isso mesmo, o conceito médico e psiquiátrico de um determinismo insofismável da natureza. degeneração se impôs, na segunda metade do século XIX, como Como foi concebida, nesse paradigma, a presença e a inscri- a categoria de interpretação fundamental para essas anomalias ção das faculdades morais das figuras do homem e da mulher? e patologias. Enfim, o fato de que certas individualidades pu- Existiria, por acaso, uma autonomia ou, pelo contrário, uma ins- dessem ter certas características psíquicas em discordância e de- crição e derivação diretas destas no ser do organismo? sarmonia com o sexo anatômico passou a ser considerado uma Com efeito, nesse paradigma, as faculdades morais e psí- forma de degeneração da espécie, de forma que tais persona- quicas de ambos os sexos foram designadas como efeitos dire- gens assumiriam traços de antinatureza e de monstruosidade. tos de marcas biológicas duradouras. Vale dizer, a forma de ser É na consideração cuidadosa da trama desse paradigma da das individualidades masculina e feminina foi interpretada como diferença sexual, fundado na essência biológica e na suposta epifenômenos de diferentes essências biológicas. Supunha-se harmonia entre o somático e o psíquico, que se pode interpre- inicialmente, então, uma estrita homologia entre o somático e o tar a tentativa de Ulrich, em meados do século XIX, de propor mental, que em seguida se acrescentou às séries hormonal e a existência do homossexualismo como um terceiro sexo. Para cromossômica nessa interpretação muito bem costurada da isso, ele utilizou os termos e a retórica da teoria da diferença diferença essencial entre os sexos. Enfim, as ditas faculdades psí- sexual, ficando preso, por isso mesmo, às suas próprias contra- quicas dos diferentes sexos seriam determinadas nos registros dições interiores. Assim, a figura do homossexual "verdadeiro" cromossômico e somático, reguladas também pelo metabolismo não seria nem homem nem mulher, mas um outro ser no qual hormonal. existiria a presença de um corpo masculino numa alma femini- Nesse contexto, as anomalias e as patologias psíquicas pas- na. Ulrich admitia que pudessem existir também homossexuais saram a ser concebidas no espaço das desarmonias existentes degenerados, de acordo com o estrito modelo da diferença se- entre os registros somático e moral, inicialmente, e entre os re- No entanto, formulava decididamente a existência do gistros hormonal, cromossômico e moral, posteriormente. o campo das perversões sexuais, desenvolvido minuciosamente S. Trois essais sur la théorie de la sexualité (1905). ensaio. Paris, pela sexologia durante o século XIX, fundava-se na classifica- Gallimard, 1982. 44 45JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO verdadeiro homossexualismo como uma outra modalidade de remos ao longo deste ensaio, mesmo que o discurso freudiano sexo, que se contraporia, assim, ao paradigma da essência dos não se inscreva inteiramente nos cânones desse paradigma, ele sexos, pela inexistência da desarmonia entre os registros somático esteve sempre lá, impondo-se como figura de fundo, constran- e psíquico. Porém, ao incorporar a retórica do paradigma, ficou gendo, pois, as linhas de força da construção psicanalítica sobre aprisionado pela lógica deste e sem escapatória para propor outra a diferença sexual. Enfim, este seria um dos paradoxos e uma leitura sobre o homossexualismo. das contradições flagrantes daquele discurso no que tange à di- Além disso, deve-se evocar aqui que a formulação de Freud ferença sexual, que deve ser bem sublinhado aqui, numa releitura (parafraseando Napoleão) de que a "anatomia é o destino"24 se do discurso freudiano sobre a sexualidade. inscreve literalmente nos pressupostos do paradigma moderno da diferença sexual. Vale dizer, o real do corpo somático, na sua visual eloquência anatômica, se imporia ao sujeito como condi- IV. DIFERENÇA SEXUAL E SEXOLOGIA ção concreta de possibilidade de ordenação do psiquismo, es- tritamente de acordo com as teses do paradigma. próprio título Contudo, é preciso agora circunscrever como a formulação da do ensaio inaugural de Freud, dedicado inteiramente à leitura igualdade de direitos entre os sexos, proclamada pela Revolu- da feminilidade, é bastante evidente no que concerne a isso: "As ção Francesa, foi o coveiro definitivo do discurso do sexo úni- psíquicas das diferenças anatômicas entre os co, sendo simultaneamente aquilo que legitimou discurso da sexos". Vale dizer, nessa formulação freudiana, as marcas anatô- diferença sexual. Isso porque a questão que se colocou então, micas produziriam não apenas traços psíquicos, mas principal- de maneira aguda, foi como seria possível sustentar a hierarquia mente delineariam o horizonte irrefutável e constrangedor para entre o homem e a mulher, quando se formulava, ao lado disso, a construção do psiquismo no homem e na mulher. a igualdade de direitos entre os cidadãos? Com efeito, se aque- Assim, não obstante o fato de que para Freud as relações entre les eram iguais diante da lei, deveriam ter, conseqüentemente, o somático e o mental não eram de ordem mecânica e concebi- acesso às mesmas posições sociais. Portanto, em princípio as das de maneira determinista, como no modelo oitocentista da mulheres deveriam ter a mesma educação que os homens para diferença sexual, não resta dúvida de que o paradigma estava que pudessem adquirir as mesmas habilidades e ter acesso às firmemente presente na teorização freudiana. Como ainda ve- mesmas posições no espaço social. Com tudo isso, os antigos privilégios concedidos aos homens em detrimento das mulhe- res teriam de ser perdidos, devendo, pois, agora, estes, serem S. "Quelques conséquences psychiques de la différence anatomique entre les sexes". In: Freud, S. La Vie sexuelle. Op. cit. relançados no mercado simbólico, em igualdade de direito en- tre os homens e as mulheres. 46 47JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO As irrefutáveis da lógica da igualdade dos elas os mesmos direitos. Contudo, o modelo do sexo único da direitos, no entanto, não se transformaram logo em normas não tinha então mais lugar e legitimidade, tendo sociais capazes de legitimar a igualdade de condições entre os de ser construído um outro discurso sobre os sexos, no qual a sexos. Foram necessários quase dois séculos para que essa lógica hierarquia de poder entre as figuras do homem e da mulher fos- se transformasse em normas sociais e conferisse a tal igualdade se fundada em novas bases. de condições entre os sexos. Foi necessário uma "longa marcha", Assim, se a democracia ateniense da construiu para parafrasear o título do livro de Simone Beauvoir sobre a o paradigma do sexo único, no qual as mulheres tinham um es- Revolução Chinesa, que se realizou em várias etapas, na qual as tatuto ontológico e social inferior ao dos homens, a nova de- mulheres foram progressivamente ganhando terreno no espaço mocracia advinda da Revolução Francesa procurou fundar na social. natureza biológica as inserções sociais diferentes entre os sexos. Com efeito, do direito de votar ao de poderem ser educadas, Com efeito, se a antiga democracia grega foi constitutiva da tra- passando a ter acesso aos espaços sociais da masculinidade, o dição patriarcal no Ocidente sendo então a política iden- percurso das mulheres foi marcado por um longo combate de tificada com o universo do masculino e panteão religioso muitas idas e vindas, progressões e retrocessos. Os anos 60 do dominado por divindades a moderna democra- século XX foram o momento crucial dessa ruptura, quando o cia transformou efetivamente os fundamentos até então inques- feminismo rompeu de vez as amarras tradicionais da condição tionáveis do poder patriarcal, mas manteve inalteradas as fontes da mulher no Ocidente. Produziu-se, então, uma revolução, que do poder masculino. Para isso, entretanto, foi necessário forjar continua em processo, da qual não sabemos ainda todos os seus um novo discurso, precisamente sobre a diferença sexual, pelo desdobramentos e nos registros psicológico, éti- qual o homem e a mulher teriam finalidades e inserções sociais e político. Quanto a isso, é bom que se diga, as surpresas são bastante diversas, em de suas naturezas diferencia- quase cotidianas, tal a escala das transformações que ocorreram das e irredutíveis uma à outra. na redefinição das identidades Vale dizer, é quase impossível compreender a emergência De volta ao final do século XVIII, o que se pode certamente histórica do discurso da diferença sexual sem que se conside- dizer é que a sociedade democrática, que se constituiu com a rem suas condições social e política de produção. Seriam estas, Revolução Francesa, não concedeu às mulheres a tal paridade então, os catalisadores do processo, isto é, aquilo que regularia de direitos proclamada. Apesar do engajamento político das a nervura de seus procedimentos. Isso porque ser homem e ser mulheres na Revolução, a sociedade emergente não conferiu a mulher agora, com a modernidade, seriam a decorrência direta E. XY. De l'identité masculine. Paris, Odile Jacob, 1992. E. L'Un est l'autre. parte, capítulo I. Paris, Odile Jacob, 1986. 48 49JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO e estrita da ordem da natureza, que modelaria suas modalidades cepção sobre a sexualidade que se encontra ainda presente na diferenciais de ser e que delimitaria ao mesmo tempo o hori- contemporaneidade, pela costura estrita que realizaram entre zonte possível de suas inserções sociais. Enfim, o determinismo fundamento biológico e modalidades espirituais do ser do ho- biológico esboçaria de maneira indelével as finalidades naturais mem e do ser da mulher. dos diferentes sexos, que se fariam então presentes nos regis- o que se destaca de maneira fundamental é a problemática tros corpóreo e moral de maneira imperativa. da maternidade. Foi a construção estrita do ser da mulher em Foi também nesse contexto histórico que se construiu o dis- torno da figura da mãe e da finalidade específica de reprodução curso no qual as perversões sexuais encontraram da espécie o que estava em pauta na teoria da diferença sexual. lugar de destaque. Este discurso não apenas é homogêneo ao da A maternidade foi então concebida como algo de ordem instin- diferença sexual, mas é também uma derivação fundamental des- tiva, como uma potencialidade da fêmea como organismo, im- te. Com efeito, em ambos foi esboçada a concepção de que as pondo-se, pois, como um imperativo inelutável para o ser da modalidades morais de ser dos sexos seriam decorrência direta Foi por este viés que a hierarquia e a relação de poder da natureza biológica destes. Portanto, seria a natureza biológica entre os sexos foi mantida no contexto da concepção da dife- do macho e da fêmea o que delinearia não apenas as finalidades rença sexual. Vale dizer, o que estava fundamentalmente em biológica e moral do homem e da mulher, mas também as moda- questão na concepção da diferença sexual era a manutenção da lidades possíveis de suas inserções sociais diferenciadas. figura da mulher na posição da maternidade. É em torno da fi- Pouco importa considerar aqui o argumento formal de que gura da mulher como mãe que o paradigma da diferença sexual a sexologia se ateve apenas ao estudo e à classificação dos desvios pode ser mais bem elucidado. É o que se verá em seguida. sexuais, circunscrevendo, então, o estudo da degenerescência sexual, enquanto o discurso da diferença sexual se voltava espe- cificamente para definir a natureza diferencial entre as figuras do homem e a mulher. Isso porque, em ambos, a mesma formu- lação sobre a condição natural dos sexos foi não só esboçada, mas se forjou de maneira sistemática, pelo enunciado das finali- dades biológicas de cada um dos sexos, numa leitura diferencial sobre a natureza moral de cada um. Homogeneidade e deriva- ção, enfim, entre ambos os discursos, que delinearam uma con- esse respeito, ver: Badinter, E. L'Amour en plus. Histoire de l'amour maternel. XIX siècle). Paris, Flammarion, 1980; Shorter, E. Naissance de la famille moderne. Paris, Seuil, 1975; Meyer, Ph. L'Enfant et la raison 28Krafft-Ebing, R. Psychopathia sexualis. Paris, Payot, 1950. d'état. Paris, Seuil, 1977. 50 51CAPÍTULO III Padecem as mães no paraíso?que caracterizaria a figura da mulher seria, então, o dom para a maternidade, que definiria sua finalidade biológica e delinearia, pois, suas modalidades de inserção no campo social. Isso porque as faculdades morais femininas estariam efetivamente definidas por suas potencialidades naturais. Se esse atributo da mulher sem- pre foi reconhecido de bom grado e sempre foi a fonte maior de seu poder no imaginário na modernidade, tornou-se o caminho preferencial pelo qual se procurou também limitar o anseio das mulheres por outros poderes e lugares no espaço so- cial. Com efeito, por suas disposições naturais intrínsecas pélvis alargada, presença dos seios e a possibilidade do aleitamento parece evidente que a finalidade biológica do corpo feminino seria para a gestação e a maternidade, podendo realizar, então, a fina- lidade suprema da reprodução da espécie. Enfim, a maternidade seria algo de ordem estritamente instintiva. esse respeito, ver: Godelier, M. "Homem/Mulher". In: Enciclopédia (Einaudi) 20. Parentesco. Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989; Basaglia, F.O. "Mulher". Idem; Héritier, F. Idem; Héritier, F. "Família". Idem; Héritier, F. "Incesto". Idem; Héritier, F. "Endogamia". Idem; Héritier, F. "Casamento". Idem; Héritier, F. Masculin/ Féminin. La Pensée de la différence. Paris, Odile Jacob, 1996; Héritier, F. Les Deux soeurs et leur mère. Anthropologie de l'inceste. Paris, Odile Jacob, 1995. 55JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO As marcas morais maiores do ser da mulher domínio dos reprodução e da produção, sendo o primeiro alocado no espa- etos sobre a racionalidade seriam as diretas privado e o segundo, no público. A família foi assim esboçada os desdobramentos de suas virtualidades biológicas. Isso lhe como o espaço feminino por excelência, sobre o qual a mulher rneceria a possibilidade de acolhimento e de cuidado em rela- exercia seu poder legítimo, isto é, sua governabilidade. Em ao outro, de que o homem seria naturalmente destituído. contrapartida, o espaço social ampliado, fora das fronteiras da seria antropologicamente marcado pelo logos e pela razão, família, seria o lugar para o exercício masculino da governabili- lhe definiriam outro horizonte social de inserção e outras dade. Esse conjunto de oposições sociais entre os sexos era con- ossibilidades de existência. Pelos seus traços, definidos sempre siderado legítimo, dado que caucionado não apenas pelas virtualidades do seu organismo, a figura da mulher estaria, diferenças naturais, mas pelos desdobramentos diretos destas so- mais próxima do pólo da natureza, enquanto a do homem, bre as faculdades morais. ela mesma razão, se aproximaria do pólo da civilização. En- Acreditava-se, de fato, que não se estava retirando poder m, entre os pólos do sentimento e da razão, ou então entre social das mulheres em relação ao poder masculino, mas tão- atureza e civilização, esboçou-se, no imaginário coletivo, a car- somente repartindo socialmente os diversos sexos segundo as grafia moral da diferença sexual, que seria sempre a conse- virtualidades irrefutáveis de suas diferentes Não se direta da natureza biológica diferenciada entre o ser do trataria, pois, de usurpação de direitos, mas de sua justa distri- omem e o da mulher. buição social, de acordo com as disposições naturais diferentes. São os traços definidores e os fundamentos dessa constru- Existiria, enfim, uma ordem diferencial na natureza que impli- antropológica o que se pretende esboçar neste capítulo. caria uma ordem social diferenciada, com funcionalidades es- pecíficas para cada um dos sexos em questão. De qualquer maneira, nessa repartição social da legitimida- DIREITO E COSTUME de sexual, aos homens foi atribuído o registro dos direitos, en- quanto às mulheres o dos Entre as ordens do direito om isso, realizou-se uma estrita circunscrição dos espaços so- e do costume se condensariam todas as oposições antes destaca- ais de pertencimento para cada um dos dois sexos. Essa cir- das público/privado, espaço social/família, razão/sentimento, unscrição espacial teve como correlato uma distribuição de produção/reprodução de forma tal que, para a governa- oderes entre os pólos masculino e feminino. Com efeito, para bilidade feminina, foi atribuído algo de grande importância social mulheres foi designado o espaço privado e, para os homens, no imaginário coletivo. Com efeito, pelos cuidados concedidos espaço público, sendo conferido a cada um poderes específi- Assim, os sexos foram distribuídos entre as demandas da G. Les Femmes et leur histoire. Paris, Gallimard, 1990. 56 57JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO às crianças, não apenas do ponto de vista físico mas também mentário inicial de Freud apesar dos efeitos mórbidos do moral, as mulheres tinham lançada sobre si a gigantesca tarefa processo modernizador sobre as mulheres, pela repressão sexual de reprodução do social. A mediação insubstituível da materni- promovida por este, estas seriam agentes fundamentais desse dade tornaria, então, possível a reprodução do social. Daí po- processo inscreve-se tanto no contexto da reprodução bioló- der-se afirmar que existia efetivamente uma governabilidade do gica quanto no dos costumes que aquelas Com espaço doméstico. efeito, enquanto mães que ao mesmo tempo atuam no registro Os grandes filósofos do final do século XVIII e início do da educação moral e no de cuidados somáticos, as mulheres se- século XIX procuraram legitimar a oposição entre os direitos e riam ainda e foram de fato agentes cruciais para a realização do os costumes, considerando que a diferença sexual outorgava tal projeto de modernização do social. distinção, sem que isso implicasse, no entanto, uma diminuição Nessa leitura de Freud, seria, portanto, a demanda sexual efetiva do ser da mulher, ou até mesmo uma retirada de sua igual- desmesurada e o imperativo do amor que colocariam a figura dade de direitos em relação aos homens. Assim, de Rousseau a da mulher numa posição anticivilizatória e anti-social, tal como Hegel, passando por Fichte e Kant, quase todos os grandes formulado posteriormente em Mal-estar na Assim, teóricos da época estavam de acordo com essa leitura sobre a delineada ao mesmo tempo como agente civilizatório e agente natureza diferencial entre masculino e feminino e com as conse- anticivilizatório, isto é, entre catalisador da ordem e operador qüências disso sobre a legitimidade de suas inserções da desordem, a figura da mulher estaria polarizada todo o tem- Existiram também os críticos, evidentemente, como Condorcet po entre a maternidade e o erotismo. Isso porque, como mãe, a e Porém, no fundamental, os maiores pensadores do figura da mulher seria sempre agente civilizatório e da ordem, período concordavam com o fato de que não existia retirada de enquanto, pelo segundo eixo, seria agente da desordem e do direitos das mulheres nessa repartição estrita dos territórios do processo anticivilizatório. erotismo seria sempre socialmente social segundo os problemático no ser da mulher, na representação forjada pela A formulação inaugural de Freud sobre o valor e a impor- modernidade. tância das mulheres na construção da civilização inscreve-se Contudo, o poder então atribuído às mulheres, pela transmis- precisamente nesse debate e nesse registro. Com efeito, o co- são dos costumes, enquanto espaço específico no qual poderia ser exercida sua governabilidade, apenas pode ser compreendido 32Fraisse, G. Idem. respeito disso, consultar: Kofman, S. Aberrations. Le devenir femme S. "La Morale sexuelle 'civilisée' et la maladie nerveuse des temps d'Auguste Comte. Paris, Auber-Flammarion, 1978, Kofman, S. Le Respect des modernes". In: La Vie sexuelle. Op. cit. Paris, Galilée, 1982. 36Freud, S. Malaise dans la civilisation. Op. cit. 58 59JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO devidamente pela construção recente do biopoder ao longo do o biopoder e a bio-história se constituíssem, enfim, no registro século XIX. Vale dizer, a governabilidade feminina exercida es- das práticas sociais. pecificamente pela maternidade e pela reprodução da espécie Assim, começou-se então a conceber que a riqueza das nações se inscreveria no projeto e no campo do Este confi- não dependeria apenas da riqueza de seus recursos naturais e de gurou de maneira original o pólo feminino do poder, delinean- suas indústrias, como sempre se pensou desde a mas do outro espectro para o campo feminino da governabilidade. da qualidade da sua população, elemento que definiria as po- É disso que falarei em seguida. tencialidades virtuais e concretas dos demais recursos das nações. A qualidade de base do capital humano seria, pois, a condição de possibilidade para a produção e a reprodução do capital econômi- II. BIOPODER E FAMÍLIA co, conferindo, assim, novas perspectivas para a produção de ri- queza a partir dos recursos do solo e das indústrias existentes. Com efeito, a modernidade constituiu uma nova modalidade de Para que isso fosse possível, no entanto, caberia ao Estado poder que foi intitulada de biopoder por Foucault. Em con- investir primordialmente na qualidade de sua população, já que trapartida, o biopoder foi a condição concreta de possibilidade esta seria sua fonte maior de recursos e manancial efetivo de para a constituição daquilo que Foucault também denominou riqueza das nações. Assim, as boas condições de vida e saúde das de Vale dizer, pela nova modalidade de poder en- populações se transformaram na finalidade maior para a acu- tão atribuída à ordem da vida, e não apenas à da morte, cons- mulação de capital e produção de riqueza das nações. Da mes- truiu-se uma modalidade original de história centrada em suas ma forma, a promoção da educação e sua democratização para vicissitudes. É bom ressaltar não se tratar apenas, na leitura de todos os grupos sociais se transformaram num imperativo polí- Foucault, de uma narrativa da história produzida pela imposi- tico ao longo do século XIX. Daí a introdução da escolaridade ção formal atribuída à categoria de vida pelos historiadores, mas obrigatória nas nações européias e a gerência sanitária do espa- de uma história concreta costurada pelas regulações políticas e social pelo Estado. sociais então atribuídas à ordem da vida na aurora do século Pode-se depreender, portanto, que a expansão da medicina investimento estratégico conferido à ordem da vida moderna, nos mais diferentes e complexos registros indivi- pela sociedade oitocentista e pela modernidade possibilitou que dual e coletiva, clínica e social, somática e moral, curativa e pre- foi a maior dessa estratégia de poder. M. Volonté de savoir. Histoire de la sexualité. Volume I. Paris, Gallimard, 1976 M. Idem. M. Naissance de la clinique. Une archéologie du regard Paris, Presses Universitaires de France, 1963. 60 61JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO A medicalização do social, que se constituiu desde então no Além disso, o imperativo de controle da reprodução da es- Ocidente e persiste até hoje em níveis progressivos de comple- pécie impôs-se aqui de maneira decisiva. Com efeito, a reprodu- xidade e foi instituída, de fato e de direito, no ção da espécie e a constituição específica de uma medicina campo do Estado moderno, como decorrência dessa nova es- feminina centrada no parto impuseram-se como dimensões fun- tratégia do poder. damentais do biopoder. Ao lado disso, constituiu-se aqui tam- Assim, a totalidade dos registros da existência, individual e bém uma medicina especificamente infantil, com a finalidade de coletiva foi atravessada pelas modernas estratégias da medica- cuidar da formação do capital humano, voltada para a produ- lização, sem exceção. Com efeito, da organização das condições ção futura da riqueza das nações. de vida do espaço rural à construção de novas funcionalidades Dessa forma, oferecer para a figura da mulher o poder de urbanas, oscilando entre a higiene dos corpos e a higiene dos governabilidade no espaço privado a administração da famí- espíritos, a medicina moderna se constituiu então como um dis- lia e dos implicava então inseri-la de maneira pre- positivo fundamental para a produção de uma população mais cisa nos processos de medicalização configurados pelo biopoder. saudável, pela promoção de novas qualidades de vida. Assumindo Com isso tudo, o corpo da mulher foi devidamente medicalizado uma perspectiva ora terapêutica, ora preventiva, a medicina junto com o da criança, assim como a totalidade da existência moderna se configurou sempre como medicina já que familiar foi catalisada pelo recente discurso da medicina social, pelas novas estratégias do biopoder a individualidade foi sem- da higiene e da saúde pública. pre concebida nas suas inscrições sociais. Foi nesse contexto, portanto, que a família se transformou num espaço fundamental para o processo social de medicalização III. MATERNIDADE E DESEJO e construção do biopoder, na medida em que nela seria esboçada e programada a constituição renovada da população esboçada Esboça-se aqui uma concepção da sexualidade pela qual esta se pelo biopoder. Produzir, enfim, crianças somaticamente saudá- identifica com o imperativo da reprodução da espécie. A fun- veis e bem alimentadas que fossem acompanhadas desde o nas- ção da sexualidade seria, pois, a reprodução, e tudo o que pudes- cimento até a maturidade de maneira absoluta, para evitar desvios se interferir ou até mesmo competir com a finalidade reprodutora orgânicos e funcionais na sua formação, transformou-se num alvo seria uma ameaça para a sociedade, concebida esta evidentemente crucial da biopolítica. pelas exigências da biopolítica. Nesses termos, o prazer e o desejo seriam finalidades outras M. do poder. Rio de Janeiro, Graal, da sexualidade que poderiam desviá-la do reto caminho repro- G. Da polícia médica à medicina social. Rio de Janeiro, Graal, 1979. dutivo. Por isso mesmo, o erotismo tornou-se um pólo contra- 62 63JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO ditório no ser da mulher, que poderia perturbar a vocação existência casta e do caminho virtuoso da maternidade. Enfim, reprodutiva do seu corpo. Isso porque, entre o desejo sensual e na ética cristã a relação sexual só seria permitida e reconhecida a maternidade, o corpo feminino seria polarizado. Não por aca- com fins reprodutivos, devendo ser silenciada qualquer dimen- so, como já indiquei acima, o discurso freudiano poderia reco- são de gozo no corpo feminino. nhecer positivamente o papel crucial da mulher no processo A figura da mulher possuída pelo desejo foi, assim, iden- civilizatório quando se referia à figura da mãe, e, em contrapar- tificada com a obra do Mal. Com efeito, a figura do diabo seria tida, criticá-lo negativamente quando o desejo sexual estava em o arquiteto malévolo dessas artimanhas, a qual retiraria as mu- pauta. Enquanto a primeira figura provocaria a coesão social, a lheres do caminho reto da virtude, da maternidade e da família. segunda, ao contrário, promoveria a dissolução dos laços sociais Dessa maneira, o diabo seria o responsável pelo erotismo femi- até mesmo a possibilidade de sua devassidão. erotismo fe- nino, manipulando o corpo da mulher na sua disputa incansá- minino era concebido como essencialmente perigoso, pela vel com Deus. A possessão pelo desejo identificou-se, pois, à ameaça de desordem que representava. possessão diabólica, pelo menos no que tange à figura da mu- Entretanto, é preciso recordar que essa oposição radical entre lher. "Estar com o diabo no corpo", foi assim que se configu- maternidade e desejo no ser da mulher, formulada no século rou, no imaginário cristão, essa leitura sobre a mulher XIX, foi meticulosamente tecida pela tradição do cristianismo. Nessa perspectiva, o que a sexologia realizou no século XIX, Nesse particular, a ética transformou radicalmente a po- com a estrita identificação da sexualidade com a finalidade da reconhecida no erotismo pela tradição do paganismo reprodução da espécie, foi tão-somente a transformação dos da Com o cristianismo, o erotismo foi esvaziado preceitos da moral cristã num discurso supostamente científico de suas virtudes e concebido como pura negatividade. Com efei- sobre a sexualidade humana. Portanto, a sexologia ofereceu uma o, no modelo do sexo único de Galeno e na teoria aristotélica versão secular e cientificista da moral ascética do cristianismo. geração, era enunciada a efetividade do orgasmo feminino A mulher desejante passou a figurar, assim, uma possibilida- omo condição de possibilidade da geração. Vale dizer, somen- de real para o Mal e para o desvio social, na medida em que, e existiria a concepção caso o orgasmo da mulher estivesse pre- enquanto sustentação do desejo, estaria se deslocando do reto ente na relação Entretanto, o cristianismo desarticulou caminho da maternidade e da mulher virtuosa. A mulher dese- registros do prazer e da reprodução, considerando o primei- jante e aquela que não assumisse devidamente o papel crucial o como da ordem do pecado. Constituiu-se, assim, a diaboliza- ão do desejo feminino, que poderia desviar as mulheres da 44A esse respeito, ver: Birman, J. sacrifício do corpo e a descoberta da psicanálise". In: Birman, J. Ensaios de teoria Parte I. Rio de Ja- T. La Fabrique du sexe. Op. cit. neiro, Jorge Zahar, 1993. 64 65JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO da maternidade seriam figurações da mulher perigosa, que de- tamente porque naquelas as individualidades exerciam a sexua- veria então ser cuidada e corrigida medicamente em nome da lidade pelo usufruto do puro erotismo e não eram, assim, guia- higiene social, para que se impedisse, enfim, a degeneração da das pela finalidade reprodutiva. espécie. Trata-se de uma dupla crítica, pois, do discurso freudiano Sabemos que o discurso freudiano se constituiu pela propo- ao dispositivo do biopoder, ao reconhecer a dimensão erótica sição cardinal de que a sexualidade visava ao prazer e não à re- da sexualidade. Contudo, para que se possa aquilatar devida- produção da espécie, sendo crítico, pois, da sexologia. Para mente o lugar da psicanálise na escuta do desejo na histeria e o aquele, o que se pretendia com a sexualidade era o gozo, que lugar desta no imaginário social do século XIX, necessário é existiria não apenas no registro genital mas também no da per- delinear, antes de mais nada, algumas modalidades de figuração versidade-polimorfa. Com isso, foi formulada a existência da do feminino que se constituíram em oposição marcada ao im- sexualidade infantil, na qual existia apenas o gozo perverso- perativo da maternidade para a mulher, assim como o reconhe- cimento e a legitimidade, desde então, do desejo masculino. Este Dessa maneira, o discurso freudiano foi certamente uma seria, enfim, líquido e certo, acima de qualquer suspeita, estan- instância crítica importante do dispositivo do biopoder no iní- do para além do bem e do mal. cio do século XX, permitindo criticar a teoria da degeneres- Pela configuração precisa desses territórios podemos melhor e sustentar a positividade do desejo feminino. Por isso compreender as tecnologias do biopoder e a posição específica mesmo, pôde escutar a dimensão desejante que estava presente do discurso freudiano nesse contexto histórico. É o que se es- no corpo histérico, destacando então que a efetividade do boçará a seguir. recalque sexual nas mulheres estaria na base de suas perturba- ções do espírito. Portanto, ao reconhecer o desejo sensual la- tente na histeria, o discurso freudiano a retirou do limbo das degenerações do espírito e ofereceu-lhe com isso outro desti- mesmo movimento interpretativo foi realizado pelo discurso freudiano com as perversões sexuais, classificadas como degenerações pela sexologia e pelo dispositivo do biopoder, jus- "Freud, S. Trois essais sur la de la sexualité. 1° ensaio. Op. cit. "Foucault, M. du savoir. Op. cit. S., Breuer, J. Études sur Op. "Freud, S. Trois essais sur la théorie sexuelle. Op. cit. 66 67Assim, se a mulher enquanto mãe teria de ser destituída de seu erotismo, já que uma das possibilidades rivalizava agonisticamente com a outra e cada uma delas poderia conduzir a mulher a um destino subjetivo e social oposto, o mesmo não se daria, contu- do, com o erotismo masculino. Com efeito, para o homem era perfeitamente reconhecida sua potencialidade desejante ao lado de sua efetividade reprodutiva, de maneira a ser constituída uma real assimetria e até mesmo uma hierarquia entre os sexos. Seria isso, então, a marca e a evidência maior da sociedade patriarcal, mesmo no contexto do discurso da igualdade de di- reitos dos promovido pela Revolução Francesa?49 Com certeza. Quanto a isso não existe nenhuma dúvida. A assimetria e a hierarquia entre os sexos, insígnias maiores do patriarcalismo, continuavam perfeitamente incólumes e consistentes no solo da sociedade democrática pós-revolucionária. que significa di- zer que a hierarquia e a assimetria presentes na estrutura antiga do sexo único foram agora deslocadas para a relação entre os sexos, concebidos como essências irredutíveis. Além de se constatar isso - o que todos nós já sabemos, há muito -, é preciso considerar as formas sociais pelas quais foi or- E. L'Un est l'autre. parte, capítulo II. Op. cit. 71JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO denada a duplicidade de possibilidades admitidas para o sexo mas- entre erotismo e reprodução da espécie, assim como entre dese- culino. Deslocando-se livremente entre os espaços público e priva- jo e amor familiar. Com essa circunscrição, no entanto, a pros- do, isto é, entre os espaços social e familiar, ao homem era permitido tituição poderia ser objeto de vigilância,50 exercida pelo Estado, o duplo exercício erótico e reprodutivo. Se a família era, assim, o por intermédio da polícia médica e da higiene social. Existia, sacrossanto espaço para a reprodução da espécie, o espaço social enfim, uma positivação da ordem nas formas pelas quais a de- enquanto tal era o lugar efetivo para a existência do erotismo. sordem era ritualizada na sua negatividade. Além disso, a prostituição era ainda objeto de outros controles sociais, ao lado da já referida circunscrição espacial. Com efeito, as A MEDICALIZAÇÃO DO EROTISMO prostitutas eram sujeitas a exames médicos regulares com a finali- dade de se constatar a presença ou a ausência de doenças venéreas. Com efeito, a grande expansão da antiga prática da prostituição, A permissão de trabalhar, outorgada pela polícia, era submetida à que ocorreu ao longo do século XIX, seria a contrapartida social decisão médica, de acordo com as boas ou más condições de saúde para que se pudesse definir um locus preciso e bem circunscrito das mulheres. Dessa maneira, a higiene social controlava ativa e para o exercício do erotismo masculino. Nesse espaço, os homens minuciosamente a saúde reprodutiva e instituía os imperativos poderiam satisfazer suas demandas eróticas, impossibilitadas par- maiores da biopolítica, pelo exame médico regular das prostitutas. cialmente no campo da família. Para isso, contudo, a prostituição Isso porque as doenças venéreas que eram os grandes tormen- de ser muito bem regulada pelo Estado, por instrumentos da tos no imaginário social ao longo do século XIX e até a descoberta nascente medicina social, para que não colocasse em risco a demanda da penicilina no final da Grande Guerra obsecavam a higiene de reprodução na família e as exigências maiores de produção da social, pois perturbavam o projeto social da biopolítica. Enfim, eram qualidade de vida da população, formuladas então pelo biopoder. sobre tais enfermidades que as práticas higiênicas de circunscrição, Assim, a prostituição passou a ser ativamente regulada pelo exame, tratamento, prevenção e permissão de trabalho para as Estado moderno, que para ela designou territórios muito bem prostitutas estavam fundamentalmente voltadas, na medida em que circunscritos do espaço urbano. Com efeito, apenas em certos aquelas colocavam frontalmente uma questão estratégica para as e bairros das cidades a prostituição era permitida. proposições do isso mesmo, tais lugares passaram a ser amaldiçoados e proi- no imaginário coletivo, representando sempre a desordem, M. Surveiller et punir. Paris, Gallimard, 1975. presença do mal e a ameaça de morte. Enquanto marcas auto- esse respeito, ver: Adler, L. Secréts d'alcôves. Une histoire des couples de izadas de desordem, no próprio contexto da ordem, a exclu- 1830 à 1930. Paris, Hachette, 1983; Adler, L. La Vie quotidienne dans les maisons closes: 1830-1930. Paris, Hachette, 1990; Corbin, A. Les filles des noces. Misère ão desses espaços ritualizava, na arquitetura urbana, a oposição sexuelle et prostitution, XIX-XX siècles. Paris, Aubier-Montaigne, 1970. 72 73JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO Assim, a medicalização da sexualidade processava-se em dife- um dos destinos sociais que seriam autorizados para as mulhe- entes lugares do social, com a intenção sistemática de realizar o res, de maneira silenciosa mas decidida, caso se rebelassem e não rojeto da biopolítica. Ao se postular as boas qualidades da repro- se sujeitassem aos desígnios esperados da maternidade. A exclu- ução como a fonte maior de acumulação de capital, para a produ- são social dessas mulheres era assim positivada num destino bem da riqueza das nações, a biopolítica instrumentava-se então traçado, mesmo que fosse bem pouco abonador em termos de iretamente nas práticas e nos saberes médicos. Com isso, a higie- valores morais. Um destino bem funesto, bem entendido. e social e a polícia médica articulavam-se, numa rede complexa, preço alto que as mulheres deveriam pagar pela sua oposição e recentes práticas da ginecologia, da obstetrícia e da pediatria, rebeldia ao lugar que lhes tinha sido designado. om a finalidade de promover sempre as melhores condições sani- Além disso, a prostituição, como positividade que era sobre irias para a produção ativa da qualidade da população. um fundo de negatividade, era o caminho possibilitado para que desejo e a reprodução poderiam ser então bem regulados, existisse um contraponto real ao erotismo masculino. Não se as suas distribuições deliberadas entre os espaços público e pode esquecer disso, já que existia uma funcionalidade social rivado, isto é, entre o espaço social ampliado e a família. Con- muito bem definida para a prostituição. Existia então certa o erotismo poderia ser usufruído pelos homens em face dessas mulheres, que se harmonizava ain- o circuito semiclandestino da prostituição, enquanto o amor, da com a ideologia liberal recente da modernidade. Porém, ape- n contrapartida, se identificava com a ordem da família, sempre sar do liberalismo permissivo para outros destinos possíveis para oltada para a reprodução. Tudo isso era muito bem orquestra- a feminilidade, as mulheres que fugiam e se desviavam do reto e o, bem entendido, pela ordem médica, que realizava minu- sagrado caminho da maternidade eram ativamente culpabiliza- osamente os desígnios maiores da biopolítica. das, moralmente diminuídas em seu valor e até mesmo crimina- lizadas pela assunção de outras figurações sociais. Essas mulheres desviantes eram bastante bem definidas nas FIGURAÇÕES DO FEMININO suas configurações sociais e morais. Existia uma verdadeira ga- leria de mulheres perigosas que foram bem delineadas pelo dis- ontudo, se a prostituição então existia dessa maneira e era curso da medicina de então. É dessa cartografia do mal que temos gulamentada devidamente pela polícia médica e a higiene so- de nos aproximar agora, para apreendermos outras configura- al, isso implica reconhecer que existia um grande contingente ções do feminino no século XIX. de mulheres que não se inseriam na figura da ma- Assim, pode-se registrar, na produção médica de então, a rnidade. Isso é óbvio. Não é preciso muita argúcia interpre- tentativa de descrever minuciosamente quatro modalidades de tiva para reconhecer isso. Com efeito, aquela possibilidade era desvio moral da feminilidade. Com efeito, a prostituição, o 74 75JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO infanticídio, a ninfomania e a histeria eram as figuras privilegia- referência fundamental no campo do saber médico para delinear das, no discurso médico, do desvio moral entre as mulheres. os novos campos do processo de medicalização. Tanto as revistas especializadas quanto os livros de psiquiatria e Trata-se, pois, de figurações anômalas do feminino, na medida medicina legal eram invadidos pelos estudos sobre essas formas em que o que está basicamente em questão é sempre a recusa da extraviadas do comportamento feminino, conforme nos indi- maternidade. que está em pauta aqui, com exceção da figura da cam alguns trabalhos de pesquisa histórica sobre o histeria, como se verá em seguida, é a escolha de outro destino moral A retórica dos estudos revela uma tentativa de caracterização para essas mulheres, no qual a maternidade é recusada e o erotis- médica e psiquiátrica dessas personagens, ao lado de uma tenebro- mo é positivamente assumido como dimensão efetiva da existência sa moral na leitura das figurações desviadas da femini- feminina. Seriam essas, enfim, as marcas eloqüentes que caracteri- lidade. A dimensão moralista das descrições científicas salta contudo zariam as modernas figurações desviantes da feminilidade. aos nossos olhos, o que nos revela imediatamente que aquelas Com efeito, a prostituição seria caracterizada pela assunção positividades foram tanto desenhadas quan- positiva do erotismo como forma de vida e a recusa da existên- to construídas a partir de um julgamento moral prévio. Não se pode cia familiar e maternal. Da mesma maneira, a ninfomania seria deixar de reconhecer o apriori moral que funda tais positividades marcada pelo erotismo excessivo, que transbordaria numa es- médicas e psicopatológicas. Com efeito, foi a condição moral de pécie de desejo insaciável presente nessas mulheres. A infanticida desvio dessas subjetividades que deu ensejo à medicalização e à seria aquela, enfim, que mataria de bom grado os filhos recém- psiquiatrização das novas figuras do feminino. A construção teóri- nascidos, para se livrar assim do peso da maternidade e manter- ca e as classificações nosográficas empreendidas se fizeram sempre se sempre livre para suas aventuras eróticas. segundo essa lógica moralmente fundada. Depreende-se disso que Contudo, essas diversas formas de figuração do desvio fe- se atinge aqui outro limiar de discursividade do processo de me- minino não foram concebidas como essências absolutas. Vale dicalização do social, cuja presença já indiquei em outras estraté- dizer, uma mesma mulher poderia ser ao mesmo tempo prosti- gias da polícia médica e na higiene social. Nesse novo patamar, no tuta, infanticida e ninfomaníaca. Poderia, existir, então, com- entanto, a medicalização assume uma definida direção psiquiátrica plementaridade entre os diferentes tipos classificatórios, assim e psiquiátrico-legal, pela qual se procura delinear a constituição como passagem de um para o outro. subjetiva dessas figuras anômalas da feminilidade. Enfim, a Nessas diferentes figurações, portanto, existiria uma as- psicopatologia nascente assume aqui a posição de vanguarda e de sunção positiva do erotismo pelas mulheres, que se constitui- riam, assim, como figuras da mulher perigosa, traço primordial da sua identidade feminina, conforme os pressupostos mater- S.A. o corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha. Sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. nais propostos no ideário da biopolítica e do familiarismo. No 76 77JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO entanto, existia em todas essas figurações desviantes da femini- tro da ação, mas manteria sua rebeldia justamente no registro do lidade uma dimensão de passagem ao ato, isto é, de realização imaginário. Vale dizer, a mulher histérica seria aquela que gosta- direta de seus desejos eróticos e de oposição ativa à maternida- ria de ser como a prostituta, a ninfomaníaca e a infanticida, mas de. Vale dizer, nessas formas discrepantes de ser das mulheres, que não suportaria ou não agüentaria como as outras passar da as escolhas se realizavam sempre como ação no contexto social, imaginação para a ação, isto é, deslocar-se do registro da fantasia não se restringindo, pois, ao campo do imaginário. Por isso para o do ato. Isso porque, ficando presa no conflito psíquico entre mesmo, essas mulheres podiam ser objeto de acusações judiciá- as demandas opostas do erotismo e da maternidade, não conse- rias e serem, assim, perseguidas publicamente e mesmo crimi- guiria jamais se deslocar do registro do imaginário para o do real. nalizadas pelos seus atos, além de poderem eventualmente ser Com isso, a mulher histérica adoeceria psiquicamente, presa que internadas como loucas em hospitais psiquiátricos, como pos- ficaria, portanto, ao seu conflito moral, imobilizada e mortifica- suídas por formas diversas de alienação Daí por que da por não exercer todos os seus anseios e desejos. essas figurações do feminino se inscreverem tanto nos estudos Como se sabe, a histeria constituiu o grande laboratório teó- de psicopatologia clínica quanto nos de medicina legal, confor- rico para a constituição da mulher nervosa no século XIX, para me a gravidade assumida por seus desvios sociais. Contudo, es- onde confluíram todas as questões referentes à feminilidade, con- ses destinos não se opunham absolutamente, podendo o sujeito forme nos disse Foucault na sua História da Nesses ser, ao mesmo tempo, louco e criminoso, isto é, ser marcado termos, a histeria seria uma produção marcante do biopoder, na simultaneamente pela alienação mental e pela criminalidade. medida em que neste se opôs de maneira sistemática o erotismo à A histeria, contudo, nos revela outra rota de construção do maternidade, como duas formas inconciliáveis de ser da feminili- território feminino. Pode-se reconhecer aqui um outro esquadri- dade. Da mesma maneira, a prostituição, a ninfomania e o in- nhamento da cartografia moderna do feminino. Com efeito, o que fanticídio, nas modalidades que conhecemos desde o século XIX, caracterizaria a histeria seria, sem dúvida, a mesma oposição en- seriam também produções específicas e positivas do biopoder, nas tre os registros da maternidade e do erotismo, sempre presente quais se sublinham as dimensões do desvio moral e social a partir nas figurações anteriores, pela qual a mulher histérica se recusa- do imperativo da maternidade. Trata-se, pois, de diferentes mo- ria a identificar-se apenas com a maternidade, sendo permeada dalidades de produção de subjetividade advindas da estratégia de fio a pavio pela dimensão erótica. Porém, diferente das figuras desse poder, pela oposição que acabou por promover entre ero- acima delineadas, a histeria não passa como aquelas para o regis- tismo e maternidade no ser da mulher. Foi também no contexto dessa oposição que se estabeleceu, J. psiquiatria como discurso da Rio de Janeiro, Graal, 1970. 54Foucault, M. de savoir. Op. cit. 78 79JOEL BIRMAN no século XIX, a prática médica sistemática de extração do clitóris, nas mulheres mais indóceis aos imperativos da materni- dade e que ansiavam também pelos doces deleites do Com isso, a extração cirúrgica do clitóris poderia colocar essas mulheres no caminho virtuoso da maternidade, já que não seriam mais tomadas de assalto por suas demandas eróticas. A materni- dade acabaria por se impor por si mesma pela despossessão do CAPÍTULO V desejo feminino figurado pelo clitóris. Possuídos, nervosos e Isso nos revela de maneira radical a oposição instituída en- degenerados tre erotismo e maternidade pelo biopoder, que retomou num discurso cientificista aquilo que fora estabelecido pela moral do cristianismo. A ruptura entre erotismo e maternidade constitui a diferença mais marcante entre a tradição do paganismo da e a do cristianismo, no que concerne ao erotismo, evidentemente, na medida em que a exclusão deste último mar- cou com ferro e fogo as matrizes do dito pensamento científico sobre a sexualidade na modernidade. Porém, foi desse solo histórico e ético que a psicanálise se constituiu como um saber fundado na sexualidade, tendo na histeria seu ponto de inauguração e de incansável indagação. discurso freudiano foi uma investigação interminável da histe- ria e da feminilidade, sendo estas as suas condições concretas de possibilidade. Foi desse solo que uma nova leitura do feminino se realizou. É o que se verá agora. S.A. corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha. Op. cit. 80A histeria foi a matéria-prima do discurso psicanalítico. Isso é indubitável, sendo talvez o único ponto de convergência entre os historiadores da psicanálise, não estando sujeito, pois, a ne- nhuma polêmica, como costuma ocorrer em outros tópicos da descoberta freudiana. Foi no esforço progressivo para desven- dar o enigma que aquela representava que o discurso freudiano se constituiu na sua originalidade, não apenas para forjar uma racionalidade que a pudesse decifrar, mas também para ofere- cer outros destinos possíveis para aquela. Destinos psíquicos e sociais diferentes, evidentemente, que não fosse a mortificação cronificante em vida a que eram fadados regularmente os histé- ricos, no final do século XIX. Com efeito, condenados a inter- nações subseqüentes e definitivas, estes eram excluídos da existência social, imobilizados para sempre na sua possibilidade de existir. Apesar do reconhecimento, até então recente, de que não era absolutamente uma anomalia restrita ao mundo das mulhe- res, no momento em que Freud constituiu a psicanálise a histe- ria era, ainda, bastante identificada com os da feminilidade. Apesar de todos os pesares, a histeria ainda mar- cava as mulheres, sendo uma das personagens nefastas em que 83JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO se delineava um dos horizontes possíveis para estas. Horizonte I. SEXUALIZAÇÃO E DESSEXUALIZAÇÃO bem entendido, já que indicava sempre para as mulhe- res um destino bastante tenebroso. Além disso, supunha-se ain- No contexto do pensamento médico do século XIX, o que esta- da que existiria uma espécie de identidade de natureza entre ser va em pauta era se a histeria era uma patologia nervosa ou uma mulher e poder se tornar enfim histérica em algum momento patologia sexual, no sentido estrito do termo. Essa alternativa de sua existência. Enunciar a existência do nervosismo das mu- etiológica estava no fundo do debate sobre a exclusividade fe- lheres implicava dizer, ao mesmo tempo, que aquele era de na- minina do ser da histeria ou sobre a presença desta também entre tureza histérica. Definia-se desta maneira, então, a quintessência os homens. Era essa oposição causal que definia a distribuição do feminino, a sua marca irredutível e insofismável. entre os dois sexos do ser da histeria, ou, em contrapartida, a Nas diferentes histórias da psicanálise foi atribuída ao gênio circunscrição daquela exclusivamente ao mundo das mulheres. de Freud a virtude de ter rompido definitivamente com a con- Esse debate teórico inaugurou definitivamente as leituras mo- cepção de que a histeria era apenas uma perturbação psíquica dernas da histeria, já que, antes, a identificação desta com a fe- feminina, pela evidência clínica de sua existência também entre minilidade estava muito bem estabelecida nos imaginários social os homens. Contudo, a história não foi bem assim, já que antes e médico da tradição ocidental. de Freud existiram efetivamente outros autores que também Com efeito, desde a tradição grega a figura da histeria foi supunham que a histeria masculina fosse um fato incontestável. identificada com o ser da mulher, sendo então impensável con- o discurso freudiano realizou, de fato e de direito, a desmisti- ceber que os homens pudessem também ser histéricos. Isso por- ficação em larga escala no que concerne à existência da histeria que se imaginava que histeria fosse efetivamente produzida pelo masculina, rompendo definitivamente com a crença dominante deslocamento do útero do seu lugar natural e sua inserção no de que a histeria era um atributo exclusivo das mulheres. Cren- sistema nervoso, o que teria, como efeito, o quadro clínico ça esta, diga-se de passagem, difundida não apenas no mundo convulsionário que a caracterizava. Esse deslocamento seria pro- do senso comum, mas também na dita comunidade científica, vocado tanto pelo anseio de ter um filho quanto pela insatisfa- representada pela medicina, pela neurologia e pela psiquiatria. ção erótica, pouco importa, dado que pela sexualidade é que o É a construção teórica e histórica dessa problemática que filho poderia ser Esta era a concepção de Hipócrates vamos percorrer esquematicamente agora, procurando balizar que dominou toda a Antigüidade grega e romana, de maneira o ser da histeria entre os diferentes mundos dos demônios, dos que era impossível pensar que a histeria fosse também masculina. nervosos e dos degenerados, para pretender fundá-la em segui- da, pela psicanálise, no campo do erotismo e do inconsciente. esse respeito, ver: Chauvelot, D. L'Hystérie vous salue bien. Sexe et violence dans l'inconsciente. Capítulo 1. Paris, Denöel, 1995; Trillat, E. Histoire de l'hystérie. Capítulo 1. Paris, Seghers, 1986. 84 85JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO Contudo, essa concepção não ficou restrita ao mundo da dade feminina e a possibilidade de procriação se deve ao lugar mostrando um longo fôlego teórico e histórico, que fundamental atribuído à reprodução da espécie nos processos fez com que perdurasse por muitos séculos, ultrapassando de de reprodução social, na medida mesmo em que as sociedades longe as fronteiras da cultura greco-romana. Pode-se afirmar antigas não poderiam perdurar e desapareceriam inequivocamen- rigorosamente que, até o século XVIII, essa concepção ainda te sem a reprodução sexual, num contexto marcado por altas mantinha sua força, apesar de já ser bem combatida na sua con- taxas de mortalidade. Com níveis irregulares e oscilantes, essas sistência e no reconhecimento científico que provocava. Porém, taxas se mantiveram altas até o final do século XVII, quando é preciso destacar que, apesar de sua demolição teórica pelo houve finalmente uma relativa estabilização na população eu- discurso científico da medicina, essa concepção se mantém viva na tradição da cultura das classes populares até os dias de hoje, Por esse viés pode-se compreender de forma adequada como em regiões do mundo rural e culturas pré-modernas que tenham a identidade das mulheres passava obrigatoriamente pelo impe- sido pouco tocadas pela tradição científica e pela modernidade. rativo procriativo, que se constituía também e por isso mesmo De qualquer maneira, o que caracterizava a concepção da na fonte maior de seu poder social. Além disso, a tradição an- sobre a histeria era a íntima ligação entre a deman- tropológica nos mostra com bastante ênfase como a possibilida- da de geração e a histeria. Com efeito, as mulheres teriam uma de da procriação e da maternidade, nas sociedades arcaicas, se espécie de fome de gerar, um desejo de procriação que definiria constitui como a dimensão fundamental para a construção da infalivelmente seu ser. Demanda gratuita, aparentemente. As- identidade Nestas sociedades, com efeito, as mulhe- sim, a possibilidade e a efetividade da geração definiriam o ser res que não conseguem procriar não têm o mesmo poder que as da mulher de maneira inelutável, sendo eixo fundamental para demais, sendo até mesmo identificadas como homens, apesar de a construção da sua identidade, de forma tal que a impossibili- sua condição feminina. dade daquela a conduziria inapelavelmente para a perturbação Portanto, se a possibilidade da existência e da reprodução convulsionária da histeria. Ainda por essa razão, a demanda de social passa pela reprodução biológica, na qual a figura da mu- geração seria permeada pelo desejo, já que o filho indicaria o lher ocupa uma posição estratégica, pode-se depreender como único caminho legítimo para a construção da identidade da a construção da identidade feminina passou historicamente pelo mulher. o desejo feminino seria sempre disparado pela demanda de geração, de forma que entre o erotismo e a procria- esse respeito, ver: Flandrin, L. Le Sexe et l'Occident. Évolution des ção os liames eram meticulosamente alinhavados no ser da mu- attitudes et des comportements. Paris, Seuil, 1981; Flandrin, Familles: não existindo então qualquer oposição entre esses. Parenté, Maison, sexualité dans l'ancienne société. Paris, Seuil, 1984. Ariès, É claro que a articulação cerrada estabelecida entre a identi- Ph. Histoire des populations françaises. Paris, Seuil, 1971. F. Masculin/Féminin. La pensée de la différence. Op. cit. 86 87GRAMÁTICAS DO EROTISMO JOEL BIRMAN imperativo da procriação. Além disso, pode-se depreender tam- sa, até o início do século XVII, quando começou a mostrar os bém, sem muita dificuldade, como a procriação se transformou primeiros sinais de fratura e erosão. Não obstante as pequenas num desejo fundamental, de maneira que, se não existisse, a fi- variações teóricas sobre o ser da e sobre a feminilida- gura da mulher poderia enlouquecer de maneira convulsionária, de, essa teoria permaneceu certamente como um paradigma pela histeria. pregnante sobre a histeria. Foi quando começou a se constituir Nesse contexto, a histeria seria necessariamente feminina, progressivamente outra versão, segundo a qual a histeria não teria sendo impensável que pudesse ocorrer entre os homens. Se a nada a ver com a genitália e o útero das mulheres, isto é, com a mulher perderia seu lugar natural para falar de uma maneira demanda de procriação e o erotismo, mas com uma alteração aristotélica se não pudesse procriar e ter acesso à maternida- do sistema nervoso. De acordo com a nova concepção, a histe- de, o homem estaria fora de seu lugar natural se desejasse a ria seria o produto de uma alteração nervosa, independente da maternidade e a procriação. E, como indiquei acima, o perfeito demanda sexual e do aparelho reprodutor.60 não poderia se tornar imperfeito segundo a lógica hierárquica Com esse deslocamento crucial do útero para o sistema da isto é, o homem não poderia se tornar mulher nervoso produziu-se progressivamente a dessexualização da segundo os pressupostos dessa ontologia. Enfim, seria impen- histeria, isto é, o fato novo forjado pela modernidade de que sável, para a que um homem fosse histérico, já que esta não seria uma particularidade das mulheres, mas poderia a histeria era um desejo de procriação e de maternidade, traço existir também entre os homens. Não quero afirmar assim que especificamente feminino. os teóricos iniciais da nova concepção nervosa tenham produzi- Na concepção de uma mulher ao mesmo tempo histérica e do imediatamente tal alargamento do campo empírico e clínico procriadora, está presente a idéia bem precisa de que, pela ges- da histeria, o que não foi o caso. Com efeito, tais teóricos de tação e maternidade, a mulher teria algo da ordem da perfei- início formularam a etiologia nervosa da histeria, mas mantive- ção. Com efeito, seria como matriz procriadora que as mulheres ram-na ainda no território das mulheres. imaginário da Anti- colaborariam para a manutenção da vida e para a reprodução güidade indica assim o seu lastro e o seu peso, mantendo ainda social, mediante a recepção da forma e da sacralidade introdu- a histeria no campo do feminino. Com a causalidade agora zidas nelas pela perfeição masculina. Enfim, apenas por esta centrada no sistema nervoso, a histeria foi infalível mas lenta- inscrição no seu corpo do projeto patriarcal, imposto pelos mente arrancada do território feminino e redistribuída também imperativos de reprodução da ordem social, custe o que custar dado o alto nível de mortalidade existente a mulher po- 59A esse respeito, ver: Trillat, E. Histoire de l'Hystérie. Capítulo II e III. Op. deria ser objeto de valor, honra e reconhecimento sociais. cit.; Chauvelot, D. L'hystérie vous salue bien! Capítulos 3-7. Op. cit. Essa concepção da histeria se manteve incólume e podero- 89 88JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO entre os homens. Contudo, se essas passaram a cupação com a produção da vida foi articulada ao projeto estra- ser retiradas apenas no século XIX, os pressupostos da desse- tégico de riqueza das nações. Foi com a medicalização em larga xualização da histeria foram mortalmente cravados no imaginá- escala promovida pela nova medicina social, na qual a promo- rio social e científico desde o século XVII. ção da qualidade de vida foi destacada como um valor social Deve-se registrar ainda que a nova etiologia nervosa da his- primordial, que a nova concepção de sexualidade se articulou a teria se constituiu e veio ao mundo no mesmo contexto históri- outra concepção teórica sobre a histeria. em que o paradigma do sexo único da começou Nesse contexto, em que a produção de novas qualidades de a se fraturar, pelos novos estudos anatômicos sobre a diferença vida foi posta no primeiro plano das políticas públicas, que um sexual no século XVII. Vale dizer, foi no mesmo período histó- novo olhar sobre a maternidade e seu papel crucial para a ri- rico em que o paradigma hierárquico dos sexos da Antigüidade queza das nações foi forjado. Em nome de uma população mais começou a ser lentamente desconstruído, na direção de uma nova saudável, na qual as fragilidades e anomalias biológicas fossem concepção antropológica ligada doravante à diferença sexual, reguladas pela medicina e pela higiene social, foi atribuída à que a concepção antiga da histeria começou a ser também mulher e à maternidade um novo poder de produção, tanto da desconstruída lentamente, orientando-se de uma concepção se- raça quanto de uma população saudáveis. xual para outra que seria decididamente nervosa. Pode-se depreender daí que o eugenismo se impõe aqui como Tratar-se-ia, pois, de uma simples coincidência, isto é, de uma poderosa ideologia na modernidade, marcando-a como um mero acaso e de um encontro fortuito de duas séries históricas todo e não se restringindo absolutamente aos dias negros do independentes? Não acredito nisso, já que suponho aqui que uma nazismo. Pelo contrário, o nazismo foi a explicitação levada ao mudança crucial na concepção da sexualidade conduziu inevi- extremo e ao absurdo do projeto eugênico do biopoder, de for- tavelmente a outra concepção da histeria, mas que esta se insti- ma que podemos dizer com que o Holocausto e o tuiu apenas lenta e progressivamente, de maneira dominante, nazismo foram a revelação terrorífica do projeto da modernidade na racionalidade médica. do Ocidente, explicitando no fundamental as ambigüidades Contudo, o encontro entre as duas séries a deste. concepção de sexualidade e a teoria da histeria apenas come- Por isso tudo, a maternidade a característica antiga da a mostrar sua efetividade social com a revolução demográfica mulher foi lançada agora como marca insofismável do ser do século XVIII, pela qual houve uma maior estabilidade po- feminino, a fonte única e exclusiva da sua identidade. Entretan- pulacional e a mortalidade foi relativamente controlada em seu to, na modernidade e na teoria da diferença sexual essa possibi- poder social de devastação. Essa transformação demográfica está intimamente ligada ao surgimento do biopoder, pelo qual a preo- Modernidade e Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990. 90 91JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO lidade foi ancorada nas estruturas do ser biológico da mulher, presente como marca moral também entre os homens. De qual- que teria agora marcas absolutas e insuperáveis de diferença em quer maneira, é a pertinência dessa equação simbólica que deve relação aos homens. Com isso, a maternidade assume evidente- ser aqui bem indagada. mente outra configuração e outro sentido, não obstante a con- No entanto, a originalidade teórica do discurso freudiano tinuidade existente, desde o mundo grego até o moderno, na em relação à histeria consiste em ter realizado uma leitura da caracterização do ser da mulher. A mesma formulação seria vá- concepção nervosa desta pela qual a dimensão sexual foi rea- lida também para o ser do homem, que nesse contexto assume locada no interior da nova interpretação. Dito de outra manei- agora outra configuração e sentido. ra, Freud formulou a teoria nervosa da histeria não no sentido Não deixa de ser curioso, que, no contexto mesmo em que estrito de uma perturbação do sistema nervoso, mas numa lei- a sexualidade passou a ser concebida numa direção definida pelo tura na qual o psiquismo poderia dar conta das ditas perturba- eixo da diferença sexual, a histeria tenha passado a ser conside- ções nervosas. Com isso, toda a tradição sexual foi alocada rada uma doença nervosa e não mais, primordialmente, uma novamente no interior do campo do psiquismo, reatualizando, enfermidade sexual. Parece existir aqui certa contradição ou até assim, todas as suas mitologias. Com efeito, o psiquismo seria mesmo paradoxo, que merece ser bem elucidado, já que se po- regulado pela sexualidade, de forma tal que o erotismo não te- deria esperar que, num contexto em que a figura da mulher ria nenhuma exterioridade na sua relação com aquele. Dito de passou a ser esboçada na dimensão da maternidade, a histeria maneira mais enfática ainda, o sexual é que caracterizaria o psí- ficasse restrita ao universo feminino. As coisas não se passaram quico, sendo pois seu movente, que se regularia, então, pelas exatamente assim, mas não ficaram também tão distantes disso, demandas da libido e pelos imperativos insofismáveis do gozo. pois a histeria continuou sendo uma perturbação do espírito Minha hipótese de trabalho, então, é que a leitura freudiana predominantemente feminina, não obstante sua presença e seu retomou a visão antiga pela qual a histeria seria efetivamente reconhecimento também entre os homens. sexual, superando e criticando, pois, a versão da etiologia ner- Com efeito, os diferentes autores continuaram enunciando vosa. Porém, ao mesmo tempo, Freud criticou a visão neuroló- que a histeria existiria fundamentalmente entre as mulheres, gica da histeria ao retomá-la e retificá-la na perspectiva de uma apesar do reconhecimento de sua existência no contingente teoria do aparelho psíquico. A teoria freudiana do psiquismo e masculino. Vale dizer, constituiu-se uma aproximação profun- sua interpretação correlata da histeria seriam, assim, a retoma- da entre feminilidade e histeria, de maneira que seria das vir- da de alguns traços da concepção da Antigüidade, mas agora in- tualidades da primeira que adviria então a segunda. o que não seridos em outro contexto discursivo, no qual a problemática quer dizer, bem entendido, que a feminilidade enquanto tal fi- da diferença sexual estaria presente. Enfim, os discursos freu- casse restrita ao contingente das mulheres, já que poderia estar dianos sobre o psiquismo, a histeria e o feminino implicaram 92 93JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO então a retomada decisiva da versão antiga da sexualidade e da II. DEMONOLOGIA E FANTASMAGORIA histeria, mas num contexto discursivo em que a diferença sexual estaria agora inserida no primeiro plano de leitura. Por esse viés, poder-se-ia interpretar a aproximação realizada pelo Esses remanejamentos cruciais fizeram com que o discurso discurso freudiano entre a demonologia e a psicanálise no que con- freudiano se tornasse marcado, ao mesmo tempo, pela comple- cerne à crença nos espíritos. A referência aqui é a crença na possessão xidade e pela estranheza, já que articula o antigo e o moderno pelo demônio e pelos espíritos em geral, fartamente desenvolvida numa mesma matriz teórica. Isso se revela no estilo do discurso pela demonologia ao longo da Idade Média. Falou-se muito aqui freudiano, no qual a imprecisão científica se articula à exigên- da bruxaria e da possessão demoníaca que obcecaram o imaginá- cia de rigor conceitual. Assim, condensa-se naquele discurso uma rio medieval, em que as mulheres, tomadas de corpo inteiro pelo vigorosa crítica da moderna teoria nervosa da histeria pela desejo e contrariando as sagradas obrigações familiares, foram acu- assunção decidida da antiga dimensão sexual desta, o que possi- sadas de estabelecer um pacto com o diabo. Como bilitou à psicanálise uma superação do paradigma teórico disso, teriam sido queimadas vivas, supliciadas em praça pública, centrado no registro nervoso em nome do psiquismo, que pas- nas fogueiras da virtude, para que o mau exemplo fosse exibido e sou a ser decididamente o novo herdeiro das virtudes da sexua- não se alastrasse, como uma epidemia, sobre as demais mulheres. lidade. Com isso, todas as mitologias ligadas ao universo da erotismo foi identificado aqui como uma manifestação sexualidade foram atualizadas agora, mas no contexto do psi- privilegiada de forças diabólicas, que se chocava no real com os quismo, na medida em que este seria perpassado pelos fantas- imperativos da moral do cristianismo e das boas virtudes da fa- mas e pelo erotismo que o açambarcariam. mília. A figura da mulher possuída pelo erotismo se chocava, Com efeito, foi pela pregnância fundamental atribuída ao pois, com a da mãe, devotada que deveria ser ao marido e aos filhos, o que ameaçava ao mesmo tempo as ordens familiar e universo dos fantasmas na regulação do erotismo que o discur- religiosa. Os historiadores já trataram fartamente da questão, de so freudiano pôde restaurar, ao menos parcialmente, o campo maneira que é desnecessário discorrer sobre o assunto. do imaginário antigo sobre a sexualidade e ainda legitimá-lo que nos interessa sublinhar, no entanto, é como, em "Uma como da ordem do direito. Tudo isso apesar das repetidas reti- neurose demoníaca do século XVII" (1923), Freud formulou cências do discurso científico de então em face da hipótese da enfaticamente que a demonologia tinha razão contra os enuncia- sexualidade, assim como dos estranhos procedimentos de cons- dos da ciência positiva, na medida em que afirmava a presença trução conceitual realizados pela psicanálise e que caracterizam da sexualidade na possessão demoníaca das Nesse indiscutivelmente estilo de discursividade desta. S. "Une Névrose diabolique au siècle" (1923). In: Freud, S. L'Inquiétante étrangeté et autres essais. Paris, Gallimard, 1985, p. 265-315. 94 95JOEL BIRMAN GRAMÁTICAS DO EROTISMO sentido, a psicanálise como concepção teórica se identificaria ximação imaginária da histeria com as epidemias diabólicas no decididamente com a tradição demonológica e se contraporia à mundo medieval. Contudo, é preciso reconhecer ainda que esta tradição da ciência positiva, já que nesta não se atribuía lugar identificação foi realizada antes por Charcot, que escreveu uma nem para os espíritos nem para a sexualidade. Contudo, a dife- bela obra sobre o Enquanto discípulo deste, Freud rença da psicanálise em relação à demonologia se atinha à natu- conhecia certamente bastante bem este livro, de maneira que foi reza dos espíritos, que nesta teria um estatuto realista e naquela indubitavelmente da obra do mestre que extraiu algumas das se circunscreveria ao registro psíquico do intuições em questão para poder enunciá-las numa outra versão Isso nos revela com clareza que o discurso freudiano se cons- teórica, centrada agora no psiquismo. tituiu pelo retorno a um modelo antigo da histeria, mas reinter- Tudo isso nos indica, então, não apenas a crítica freudiana pretado agora a partir da hipótese teórica da existência do sistemática da teoria nervosa da histeria, como também seu re- psiquismo permeado pela sexualidade e regulado pelos fantas- torno ao imaginário da e da Idade Média, pela mas. Além disso, indica ainda muito bem como neste estranho mediação agora da teoria do aparelho psíquico. Foi ainda em retorno existe uma crítica sistemática da teoria moderna da his- nome deste retorno mítico que o discurso freudiano pôde con- teria, na qual esta era concebida como uma estrita perturbação ferir veracidade ao que o indivíduo histérico dizia na sua do sistema nervoso. Seria isso, afinal, o que Freud queria dizer teatralidade. Contudo, pelo reconhecimento da dimensão de na passagem acima referida, isto é, que a demonologia tinha razão verdade presente na fantasmagoria da histeria, o discurso contra as formulações da ciência positiva. freudiano criticava de forma contundente uma das afirmações Contudo, é preciso inscrever tudo isso no contexto históri- maiores e mais enunciadas pela medicina e pela da constituição da psicanálise. Evidentemente, é preciso evo- neuropatologia, qual seja, a de que a histeria se caracterizaria car aqui que o século XIX foi o palco de inúmeras epidemias de pela simulação, pela mentira e pelo engano.66 Existiria, enfim, possessão demoníaca, similares às da Idade Média, mas nas quais as mulheres não foram mais lançadas às fogueiras das virtudes, mas receberam diagnóstico médico de Isso indicava J.M.; Richer, P. Les Démoniaques dans l'art. Paris, Delahaye & Lécroshier, 1887. seguramente para Freud, no seu campo histórico, a presença de esse respeito, ver: Veith, I. Hysteria: The History of a Disease. Chicago, signos similares nos diferentes tempos e que permitiram a apro- University of Chicago Press, 1965; Aragon, L.; Bréton, A. "Le Cinquentenaire de l'hystérie". In: La Revolution surrealiste. n° 11. Paris, 1928; Wajeman, G. "Psyche de la femme: Note sur l'hystérie au siècle". In: Romantisme, n° 13-14. Paris, 1976; Carroy-Thirard, J. "Figures de l'hystérie dans la S. Idem. psychanalise française au siècle". In: Psychanalyste a l'Université. IV. J. extase, hystérie au XIX siècle". In: n° 14. Paris, 1979; Léonard, J. La France médicale. Médecins et Maladies au Psychanalyse à l'Université. V, n° 19. Paris, 1980. XIXe siècle. Paris, Gallimard/Julliard, 1978. 96 97

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