Prévia do material em texto
Unidade 6 Historiografia e Teoria da História 6) Filosofia e Teologia da História – Visão cristã da História Autor: Prof. Dr. Armando Alexandre dos Santos Todos os direitos reservados. Tópico A – Noções prévias: Cristianismo, Antropologia, Fé e Razão Para se entender a visão cristã da História, é indispensável chamar a atenção dos alunos para o eminente papel que teve a Igreja Católica na compreensão da pessoa humana e, portanto, no embasamento teórico do que deve ser uma verdadeira ciência antropológica. Rejeição do dualismo Entre os filósofos da Antiguidade, era comum a crença dualista de que, no ser humano, se digladiavam irremediavelmente dois princípios opostos, o corpo material e a alma espiritual. Os primeiros teólogos e pensadores cristãos conheciam bem e tomaram em consideração o pensamento grego clássico, mas souberam rejeitar a dualidade corpoXespírito presente naquele pensamento. Já Santo Agostinho, rejeitando decididamente o dualismo dos maniqueus, o fez de modo muito claro, e em sua esteira seguiu a totalidade dos Padres da Igreja e dos autores cristãos em geral. Mais tarde, São Tomás de Aquino, ao recuperar o que havia de melhor no ensinamento de Aristóteles, teve o cuidado de expurgá-lo de numerosos erros criteriológicos, entre os quais o dualismo. Corpo e alma não se opõem, mas, juntos, integram um só ser, que é o homem, plenamente considerado. Corpo e alma só se separam – mórbida e transitoriamente – pela morte, que é um estado anormal, devido ao pecado. É uma separação mórbida, porque engendra a corrupção: sem estar informado (no sentido filosófico) pela alma, o corpo, pura matéria, rapidamente se desintegra e se faz pó. E é transitória, porque, de acordo com o dogma da Ressurreição da carne, no fim dos tempos corpos e almas voltarão a se reunir, para jamais se separarem por toda a eternidade. Depois do Juízo, tanto os justos, no Paraíso, quanto os pecadores, na Geena, terão para todo o sempre os corpos e as almas indissociavelmente unidos.1 1 Esse é o ensinamento da Igreja, que ademais se depreende da famosa Teoria Hilemórfica (que trata de matéria e forma), a qual, juntamente com a noção de Ato e Potência, constitui a base da metafísica aristotélico-tomista. Universalidade e fraternidade do gênero humano Além de ter contribuído para a Antropologia pela rejeição categórica do dualismo e pela compreensão da integridade da pessoa humana, também a um outro título, de grande importância, a Igreja Católica assentou as bases para a intelecção da verdadeira Antropologia. Na realidade, o Cristianismo foi a primeira religião de cunho mundial, que desde o seu início pretendeu atingir e conquistar toda a humanidade e, assim, inaugurou a ideia de que o gênero humano (entendido no sentido mais amplo, no espaço e no tempo) tem uma relação fraternal. É em Nosso Senhor Jesus Cristo que, pela primeira vez, a Humanidade pôde adquirir a noção de que constitui, toda ela, uma imensa fraternidade. Até o aparecimento do Cristianismo, todas as religiões e todos os deuses eram nacionais. Mesmo entre os hebreus, a religião mosaica era entendida como algo nacional, e isso se consolidou de tal maneira que, entre os Apóstolos e os primeiros discípulos de Jesus Cristo, houve grande resistência psicológica à ideia de uma pregação aberta a todo o gênero humano, fora dos limites do Povo Eleito. Essa dificuldade, tema central subjacente aos debates ocorridos no Concílio de Jerusalém (ano 50 d.C.), fica bem patente pela leitura dos Atos dos Apóstolos. Não havia, no passado, conflito religioso propriamente dito. Todos adoravam os deuses de sua nação e compreendiam que os outros adorassem os seus. Daí o caráter muitas vezes fragmentário, nacionalista e, também, relativista da religiosidade dos povos antigos. Daí, também, a dificuldade de os romanos entenderem os cristãos, não compreendendo porque estes teimavam em adorar a um Deus único e exclusivista, em vez de colocarem, como faziam todos, uma imagem da sua divindade no Panteão Romano, junto com todos os demais e, assim, se adequarem ao “stablishment” político- religioso do Império. A noção de fraternidade universal (como decorrência de serem todos os homens filhos de um mesmo Deus e, assim de certa forma se irmanarem a Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus) é fundamental para a compreensão da altíssima dignidade da pessoa humana. O erudito beneditino francês D. Próspero Guéranger (1805-1875) destacou, em seu livro O sentido cristão da História um ponto muito importante para nós, historiadores: até mesmo a compreensão de uma história universal, no sentido maior, no sentido mais abrangente, somente se tornou possível a partir da ótica cristã. Antes disso, era fragmentária e, necessariamente, incompleta. Passo a transcrever: Os historiadores pagãos não tinham uma visão de conjunto dos acontecimentos humanos. Para eles, a ideia de pátria era tudo, de tal forma que, até no tom de narrar os fatos, nunca se nota que o narrador se sentisse tomado, ainda que de leve, pelo sentimento de afeto pela espécie humana em si mesma considerada. De fato, a história somente principiou a ser tratada em sentido abrangente e de síntese a partir do cristianismo. Por remeter continuamente o nosso pensamento para o destino sobrenatural do gênero humano, o cristianismo habituou o nosso espírito à visão universal das coisas, muito além de um nacionalismo egoístico. Foi em Jesus Cristo que a fraternidade humana se revelou; e foi a partir de Jesus Cristo que a história da humanidade, como um todo, passou a ser objeto de estudo. (Le sens chrétien de l' Histoire, Éditions d´Histoire et d´Art, Paris, 1945, pgs. 17-18). É interessante recordar que os gregos antigos se julgavam superiores a todos os demais povos, que consideravam bárbaros e julgavam que somente existiam para se submeterem aos gregos e a eles servirem. Por isso, quando o apóstolo São Paulo foi pregar no Areópago de Atenas, grande foi sua coragem ao ensinar que os homens são diferentes, mas acidentalmente apenas, já que suas diferenças não são específicas, mas tão-somente étnicas: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas. (...) Ele fez nascer de um só todo o gênero humano, para que habitasse toda a face da terra.” (Atos, 17, 24-26.) Foi, pois, o Cristianismo que introduziu, na História humana, a noção de que a Humanidade inteira, por cima das limitações de espaço e tempo, constitui uma única e imensa fraternidade. Reconhecimento da liberdade humana Além de rejeitar o dualismo professado pelos antigos filósofos pagãos, possibilitando a compreensão da verdadeira natureza humana, composta por corpo e alma, não como elementos antagônicos e conflitivos, mas complementares, e ensinar que o gênero humano constitui uma só e imensa fraternidade, o Cristianismo também deve ser considerado como fautor do reconhecimento da liberdade humana. Na ótica verdadeiramente cristã, o ser humano é livre e racional, plenamente responsável pelos seus atos. É pela racionalidade que os homens são criaturas que se assemelham a Deus criador. A liberdade é consequência dessa racionalidade. Porque é racional, o homem é livre, pode escolher os próprios caminhos e responderá diante do Criador pelas opções livres que tiver feito durante a vida. Deus preza tanto a liberdade humana que, mesmo sendo onipotente, nunca a viola, mas sempre a respeita. É verdade que Deus, sendo onisciente, conhece todos os futuros, tanto os necessários, que decorrem de regras que Ele mesmo colocou na natureza (por exemplo, sabe que o dia sucede à noite, a primavera sucede ao inverno etc.), mas também aqueles decorrentes do livre arbítrio humano (Ele sabe o que cada um de nós, livremente, quererá, Ele conhece nosso futuro eterno). Essepré-conhecimento de Deus acerca do nosso futuro de modo nenhum significa que nossa liberdade seja tolhida, ou que ela seja menos plena. Segundo Santo Agostinho e incontáveis autores católicos que escreveram sobre a providencialidade divina da História, Deus tem um plano superior para a Humanidade, o qual se realiza sempre, sem que isso em nada obste à plena liberdade dos homens. A História salvífica da Humanidade se realiza, pois, de acordo com os altos desígnios de Deus, constituindo a História um maravilhoso espetáculo digno do olhar divino. Espetáculo, aliás, que constituirá um elemento de extraordinária beleza, que poderemos contemplar e admirar quando da Magna Aula de História que será o Juízo Final. Será o momento em que tudo se revelará, em que todas as tramas da História se patentearão, em que todo o encadeamento de causas e efeitos, nos acontecimentos humanos, se tornarão claros diante de todos os homens reunidos. Nesse momento, todos os mistérios da História Universal se revelarão, todos os crimes, conspirações e tramas que ficaram ocultos ao longo dos séculos e dos milênios serão devidamente postos a nu, mas também todos os atos de virtude, todos os atos de abnegação, todos os atos de heroísmo que permaneceram ocultos dos olhares humanos serão, então, proclamados, para glorificação de Deus em seus eleitos. É claro que essa ótica providencialista (repita-se: aquela que considera que, sem embargo da real e plena liberdade humana, existe um desígnio da Divina Providência, por onde os planos de Deus sempre se realizam) é muito dificilmente compreendida pelos autores que não têm fé, que não conhecem suficientemente a doutrina católica. Eles entendem, erradamente, que, se que Deus tem um plano e esse plano se realiza sempre, e se Deus conhece todos os acontecimentos futuros, na prática existe uma forma de determinismo histórico cristão. Em outras palavras, a nossa liberdade não passaria de uma ilusão: pensamos que somos livres, mas na realidade não somos, já que estamos apenas realizando um plano que Deus fixou desde toda a realidade... A consequência dessa intelecção errônea é que não teríamos responsabilidade por nossos atos, pois, se pecarmos, esse pecado já estava previsto por Deus, e era, portanto, inevitável. Na realidade, a visão católica da plena liberdade humana, do pleno livre-arbítrio de cada indivíduo, não é compartilhada por muita gente. Muita gente, de muitas orientações diversas, acredita num destino inelutável. Já os filósofos antigos criam nisso. Os budistas, os animistas, os supersticiosos em geral, acreditam no destino, no carma, no "fatum", ou nos astros governando os acontecimentos. Os maometanos, igualmente, creem no "maktub" (estava escrito.) Os protestantes, de um modo geral, acreditam que Deus salva aqueles que quer salvar e, quando alguém se perde, é porque foi predestinado para tal. Muitos, mesmo fora de uma perspectiva religiosa, também são deterministas e negam a plena liberdade humana. Por exemplo, os positivistas, os evolucionistas, os marxistas, os freudianos, os historicistas. Todos esses creem que tudo é regido por leis que vamos realizando passivamente, sob a ilusão de estarmos agindo livremente. Os marxistas, por exemplo, veem tudo como decorrência de leis econômicas que regem o dinamismo dialético interno das sociedades humanas. A própria cultura, as ideias, a arte, o pensamento, tudo isso é decorrência forçosa desse dinamismo, de modo que a cultura humana (superestrutura) é condicionada e determinada pela infra-estrutura material e econômica. Também o freudismo supõe o homem, enquanto ser racional e consciente, mero joguete de forças que não conhece nem controla, subjacentes no seu inconsciente. Nossas ações, pois, seriam mera consequência do nosso inconsciente. Ou seja, nem somos plenamente livres, nem somos moralmente responsáveis por nossos atos. Todos esses, habituados de modo mais ou menos claro, a formas diversas de determinismo, tendem a ver, erradamente, a doutrina agostiniana como uma variante do determinismo. O fato é que, fora do verdadeiro Cristianismo, muito pouca gente acredita de fato na plenitude da liberdade (e, portanto, da responsabilidade) humana. Entretanto, a lógica mostra que a visão determinista, seja de que variante for, não pode se compaginar com uma Antropologia verdadeira digna desse nome, a qual somente pode considerar o gênero humano como livre e fraternalmente uno. Essa foi a imensa contribuição – digamos assim – da Igreja Católica para a ciência antropológica. Finalidade do homem e das sociedades humanas Já vimos, na aula anterior – quando tratamos da teleologia, ou seja, o estudo dos fins ou objetivos – a importância da noção de causa final, para Aristóteles e para a filosofia em geral. É em função da sua finalidade que se definem e se explicam todas as coisas, e é na medida em que se aproximam da realização plena de sua finalidade que todas elas se aperfeiçoam. No caso do homem, sua perfeição é atingida quando ele tende ao Bem em si mesmo, finalidade a que todo ser aspira. Somente assim ele cresce em virtude e se aperfeiçoa. O ensinamento de Aristóteles foi acolhido pelo cristianismo. Sendo Deus o Criador de todas as coisas, Ele é o Alfa e o Ômega, ou seja, o início e o fim de tudo, e é para Ele que todo homem deve tender. Na medida em que o faça, será feliz e se aperfeiçoará. Na medida em que, fazendo uso de seu livre arbítrio, se afaste dessa finalidade, será infeliz e frustrará a razão de ser de sua existência. Isso se dá em nível individual, com cada pessoa. Mas também se dá, de certa forma, com as pessoas tomadas no seu conjunto. Dá-se com as famílias, com as sociedades maiores de qualquer natureza, com as nações, tanto tomadas num determinado momento como também inseridas no tempo. Cada uma delas será feliz e bem sucedida na medida em que consiga que seus elementos individuais tendam para o fim. Tendo alma imortal, é na eternidade, na posse de Deus, que cada homem poderá atingir sua plena felicidade. As sociedades humanas existem no tempo e não passarão para a eternidade. Sua finalidade, pois, se esgota no tempo, mas os membros que as constituem, esses sim, terão vida eterna, boa ou má, de acordo com as respectivas opções. O bem comum das sociedades não se identifica com o bem dos indivíduos que as compõem, mas tem profunda relação com ele. O bem comum tem dois aspectos: um menor, imanente e interno; e outro maior, transcendente e externo. Uma analogia utilizada por São Tomás de Aquino explica perfeitamente essa duplicidade de aspectos (De regimine principum, 75). Um navio é bem dirigido por seu comandante se chegar ileso ao porto desejado. A conservação do navio é meio necessário para ele poder chegar ao fim. Mas não basta conservá-lo: se o navio permanecer intacto, mas não chegar ao destino, o comandante não terá cumprido sua missão. Assim também se dá com as sociedades. O bem comum imanente e interior da sociedade comporta diversos bens necessários aos cidadãos: saúde, alimentos, conforto, cultura, segurança, virtude etc. O bem comum transcendente e externo é Deus, princípio e fim de todo bem, para o qual se deve ordenar a sociedade como o navio ao porto. Com efeito, diz São Tomás, "o fim último da sociedade não é viver virtuosamente, mas é chegar à posse e ao gozo de Deus após ter vivido virtuosamente" (De regimine principum, 79). 2 2 O moderno sistema liberal supõe que o bem comum é a mera soma dos bens individuais, ou seja, se todos os homens procurarem o seu bem individual, o bem comum já estará garantido. São Tomás de Aquino, entretanto, baseado em Aristóteles, ensina que o bem comum e o bem particular de uma pessoa "não diferem somente como o muito do pouco, mas por uma diferença formal" (Suma Teológica, II-IIae, q.58, a.7). O Nessa ótica, a História entendida cristãmente constitui numaimensa preparação dos homens para a eternidade e se reveste, por isso, de transcendental importância.3 O historiador cristão não pode, pois, em sua análise historiográfica, fazer abstração dessa finalidade última do ser humano, sob pena de falseá-la completamente. Em outras palavras, uma história materialista, que ignore o espiritual, ou uma história naturalista que faça abstração de Deus e do sobrenatural não é verdadeira. A historiografia cristã designa com o nome genérico de Historicismo o conjunto de interpretações historiográficas que nega ou ignora completamente a possibilidade de intervenção divina nos acontecimentos. Há historicismos de vários tipos, mas todos eles têm em comum a afirmação apriorística de que considerar essa possibilidade é anticientífico; os historiadores historicistas, por sua vez, costumam designar com o nome depreciativo de “Providencialismo” a posição dos que admitem essa possibilidade. Mas, será mesmo científico o Historicismo? A esse respeito, cabe ponderar que um historiógrafo que parta do pressuposto de que tudo, absolutamente tudo, tem uma explicação natural independente de Deus, e que rejeita a priori qualquer possibilidade de intervenção divina nos acontecimentos, esse historiógrafo não age como verdadeiro cientista. O próprio da ciência é considerar todas as hipóteses explicativas, com espírito aberto e sem preconcebidamente, não rejeitando a priori nenhuma delas. Aceitar como indiscutível um pressuposto dessa natureza é, de fato, aceitar um dogma. Em outras palavras, é transformar a Ciência em religião. Pois o que caracteriza as religiões é o fato de terem dogmas que consideram indiscutíveis. Na verdade, como se verá a seguir, não há contradição, mas mútua colaboração entre razão e fé; em outras palavras, a Fé não é uma atitude irracional, mas é uma atitude inteiramente razoável e sumamente racional, de quem compreende que a razão humana é bem individual divide, o bem comum une (De regimine principm, 6-7), o primeiro tem uma força centrífuga, o segundo centrípeta. Assim, até mesmo quando o bem comum de uma sociedade é legítimo e igualmente são legítimos os bens dos indivíduos que compõem aquela sociedade, pode haver oposição entre estes e aquele. Por isso, mesmo que os homens fossem perfeitos e ninguém avançasse sobre os direitos alheios, seria preciso haver governo, pois cada qual cuidaria do que é seu – e nisso não andaria mal, note- se – antes de pensar no bem comum. (Cfr. SANTOS, Armando Alexandre dos. Parlamentarismo, sim! Mas à brasileira. 2. ed. São Paulo: Artpress, 2015, p. 90-91 e 328.) 3 A importância da História, numa perspectiva cristã, é reconhecida até mesmo por historiadores sérios não- cristãos. Veja-se, a respeito, um texto clássico do judeu Marc Bloch, ao tratar do debate sobre a legitimidade da História: “Nossa civilização ocidental inteira está interessada nele. Pois, diferentemente de outros tipos de cultura, ela sempre esperou muito de sua memória. Tudo a levava a isso: tanto a herança cristã como a herança antiga. Os gregos e os latinos, nossos primeiros mestres, eram povos historiógrafos. O cristianismo é uma religião de historiador. Outros sistemas religiosos fundaram suas crenças e seus ritos sobre uma mitologia praticamente exterior ao tempo humano; como Livros sagrados, os cristãos têm livros de história, e suas liturgias comemoram, com os episódios da vida terrestre de um Deus, os faustos da Igreja e dos santos. Histórico, o cristianismo o é ainda de outra maneira, talvez mais profunda: colocado entre a Queda e o Juízo, o destino da humanidade afigura-se, a seus olhos, uma longa aventura, da qual cada vida individual, cada `peregrinação´ particular, apresenta, por sua vez, o reflexo; é nessa duração, portanto dentro da história, que se desenrola, eixo central de toda meditação cristã, o grande drama do Pecado e da Redenção. Nossa arte, nossos monumentos literários estão carregados dos ecos do passado, nossos homens de ação trazem incessantemente na boca suas lições, reais ou supostas.” (BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, p. 42) http://lattes.cnpq.br/0315563596870512 poderosíssima, mas tem limites e não é infalível. A fé atua como iluminadora e ao mesmo tempo corretiva da razão. Fé e razão, as duas asas do pensamento humano “Fides et ratio” foi o título de uma encíclica que inicia com uma frase que se tornou muito famosa: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade”.4 “Fides et ratio” foi também o nome dado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro a uma academia composta por intelectuais católicos de todo o Brasil, os quais se consagram ao estudo filosófico dos grandes problemas da atualidade, à luz da fé cristã. Numa perspectiva cristã, não há oposição nem conflito entre Fé e Razão. Ambas se harmonizam e se completam. Uma supõe a outra. A razão humana é o que torna os homens diferentes dos animais; o homem é um animal (elemento genérico) racional (elemento específico). O elemento que especifica o homem, no conjunto dos animais, é a sua racionalidade, precisamente aquele atributo por onde ele se espiritualiza, se aproxima dos anjos (que são puros espíritos, puras formas, sem matéria) e é uma criatura feita à imagem e semelhança do próprio Deus. A razão humana, nessa perspectiva, é poderosíssima; ela pode e deve investigar todos os assuntos, dedicar-se a todos os ramos do conhecimento; mas ela deve compreender, com humildade e bom senso, que não é ilimitada nem infalível. Ela necessita de um elemento que a oriente, a ilumine e lhe dê segurança de que pode e deve trabalhar intelectualmente sem se desviar da Verdade. A verdade, definiam os medievais, na esteira aristotélica, como a adequação da mente ao objeto contemplado (adaequatio mentis ad rem ou, em outra formulação, adaequatio rei et intellectus). Qual é o papel da fé, no trabalho racional do homem? É o papel de guia, para evitar que ele se transvie, ou por se enganar irremediavelmente na apreensão da realidade objetiva, ou por se perder no dédalo dos seus raciocínios. A fé, nessa ótica, não é um dogmatismo antirracional, mas é o elemento que torna possível e quase infalível a razão humana. A fé, pois, é profundamente racional. Os medievais – mais uma vez recorramos a eles! – definiam a fé como “rationabile obsequium”, ou seja, um dom razoável. A fé, enquanto virtude, é dom divino, não é conquista do homem com suas próprias forças, mas é um dom razoável, profundamente consentâneo com a razão que faz do homem a imagem do próprio Deus. A razão humana pode chegar, por si mesma, ao conhecimento racional de Deus e de seus principais atributos (esse é o tema de estudo da Teodiceia, “faixa” mais alta da própria Filosofia), mas não pode chegar por si mesma à fé, que é dom sobrenatural (e é estudada pela Teologia, a qual não se baseia somente na razão humana, mas necessita da Revelação e sobre esta última aplica a razão). A fé não limita o livre exercício da razão humana. Pelo contrário, permite que a razão humana seja plenamente livre. Um exemplo torna isso bem claro. Um avião precisa se sujeitar a certas regras, para alçar voo e realizar plenamente todas as suas potencialidades de voar com liberdade pelos espaços aéreos; ele precisa levantar voo 4 Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II (14 de setembro de 1998) - https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et- ratio.html https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html disciplinadamente dentro da sua pista, sem sair dela, sem se desviarpara a direita nem para a esquerda. Se, raciocinemos hipoteticamente, um avião “quisesse” se comportar como um automóvel ou uma motocicleta e “pretendesse” sair da sua pista de voo e rodar pelas ruas da cidade, virando como bem entendesse para qualquer lado, ele fracassaria. Seu tamanho, sua forma, sua ergonomia o tornam inepto para rastejar; ele foi feito para as alturas. Para o avião, a “liberdade” do automóvel ou da motocicleta é uma liberdade ilusória, uma falsa liberdade. Para o intelectual cristão, a fé é como a pista de voo do avião. Ele se sujeita a um mínimo de disciplina, mas depois voa com segurança em plena liberdade. Já o filósofo que não tem fé, ou que tem fé, mas faz uma ablação artificial, desnecessária e prejudicial entre a fé e a razão, esse vai se perder nos seus raciocínios, sempre duvidando de si mesmo e jamais alcançando a certeza. Não será um filósofo no sentido pleno; apenas rastejará na vida de pensamento, jamais voará. Sua liberdade é ilusória, porque o prende ao chão e o impede de voar, como sua natureza espiritual anseia fazer. A atitude de quem tem fé é uma atitude de humildade, que confere ao pensador uma certeza básica, essencial, e lhe dá uma segurança imensa de indagar, de pesquisar, de elaborar acerca de tudo o mais. Essa segurança básica falta inteiramente ao filósofo que quer raciocinar sem a fé e se perde num verdadeiro labirinto epistemológico sem saída. Essa segurança confere, também, a quem tem fé – seja um filósofo, um historiador ou um simples crente – um bom senso fundamental, por onde é capaz de adquirir certezas em muitas coisas evidentes e até primárias da existência humana de todos os dias. Já os que não têm fé e se põem a pensar, esses se perdem no emaranhado das suas incertezas e, levados pelo mecanismo da lógica formal dissociada das suas premissas seguras, chegam a duvidar do que é evidente... e até mesmo daquilo que seus sentidos apreendem como realidade objetiva. Em outras palavras, perdem o mais elementar bom senso. Por orgulho, rejeitaram toda a submissão em matéria de pensamento e confiaram na sua própria capacidade argumentativa; o resultado obtido foi que se tornaram incapazes de ter certeza até mesmo daquilo que é tão óbvio que, de acordo com velha expressão popular, “entra pelos olhos adentro”. As loucuras de tantas escolas filosóficas modernas se explicam dessa forma. A sabedoria popular dos vários povos cunhou milhares e milhares de ditados simples, de bom senso, frutos de observação e experiência de vida, formulados à maneira de refrões ou adágios populares, simples e singelos, mas repletos de bom senso e, no sentido mais real do termo, de pensamento filosófico profundo. Não é, claro, pensamento filosófico no sentido acadêmico do termo, mas é fruto de gerações e gerações de pessoas com bom senso, que aprenderam com a experiência de vida e souberam plasmar suas conclusões em formulações lapidares e concisas, por vezes beirando a genialidade. Eram pessoas simples, de bom senso, que tinham suas fés, suas certezas elementares e básicas. E fizeram bom uso da racionalidade que Deus lhes deu. Exemplo típico disso temos nas longas falas de Sancho Pança a seu amo Dom Quixote, compostas por ditos populares profundíssimos e muitas vezes engraçados, encadeados uns nos outros, numa amostra viva da imensa e inesgotável sabedoria popular. Enquanto se manteve o equilíbrio entre Fé e Razão, tudo foi claro, tudo foi lógico, tudo foi estável. Sem esse equilíbrio, forçosamente se cai num dos dois extremos: ou supor a razão humana ilimitada e infalível, ou duvidar metodicamente de sua capacidade. No primeiro caso, cai-se num dogmatismo irracional, no segundo mergulha-se no relativismo e chega-se à negação de qualquer certeza racional. No início e no auge da Renascença, endeusou-se a razão humana. Já no declinar dessa fase histórica, com Montaigne, o cepticismo começou a questionar a própria razão. Desde então, de um ou de outro modo, todas as escolas filosóficas “patinaram” na superfície escorregadia da Epistemologia, sem nunca alcançarem equilíbrio, segurança e estabilidade. Se não tivessem feito da separação entre Fé e Razão o postulado básico da reflexão filosófica, o problema epistemológico básico nem se colocaria. Teria prevalecido o bom senso. Veremos mais à frente, em certas escolas historiográficas, autores caírem nos dois erros. Do exagero de considerar a razão infalível, prevalente por exemplo no iluminismo e no racionalismo dos séculos XVIII e XIX, chega-se hoje a certos autores pós-modernos que negam até mesmo a possibilidade de o ser humano apreender objetivamente o que seus sentidos lhe manifestam! Dica do professor: Você tomou conhecimento, neste tópico, de conceitos básicos de uma Antropologia cristã. Compreendeu a razão de ser mais alta da unidade, da fraternidade, da liberdade e da dignidade do gênero humano. Haverá relação entre esses conceitos e o ensinamento aristotélico sobre Causa Final? Que lhe parece? Tópico B – A historicidade dos livros bíblicos O primeiro grande mestre cristão que elaborou uma teoria cristã acerca da História foi, sem dúvida, Santo Agostinho, Bispo de Hipona (+ 430), com sua obra A Cidade de Deus, na qual representa a História da Humanidade como um grande confronto entre duas Cidades, a de Deus e a do Homem. Bem mais recentemente, o francês Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux, também teorizou acerca da História com seu livro Discurso sobre a História Universal, no qual desenvolve e amplia a visão agostiniana.5 Ambos, como não podia deixar de ser, tomaram como base para suas considerações as Sagradas Escrituras. E aqui se coloca a questão: será científico um historiador basear-se nos livros históricos da Bíblia? Para os historicistas, claro está que não, já que não passam de relatos míticos e não podem ser considerados fontes históricas. Que pensar a respeito? 5 A obra de Bossuet, muito ampla e diversificada, não é isenta de senões do ponto de vista teológico, pois seu autor, inserido no contexto absolutista do reinado de Luís XIV, foi até certo ponto um teórico que favoreceu o absolutismo régio e o galicanismo. Uma pergunta que desde logo importa responder é qual a autoridade dos livros bíblicos do ponto de vista histórico. Não será a Bíblia tão-somente uma obra literária de fundo e de inspiração religiosa? A Bíblia, além de exprimir para os que nela creem a Palavra de Deus e, enquanto tal, constituir uma obra de caráter eminentemente religioso, também é, sem dúvida, uma obra literária de grande beleza, com perfeições maravilhosas que o espírito humano pode indefinidamente ir aprofundando e sempre encontrará coisas novas. No conjunto dos seus 73 Livros inspirados, a Bíblia se revela de beleza, profundidade e lógica impecáveis. Tem uma unidade extraordinária e, ao mesmo tempo, oferece uma riquíssima variedade de temas e de estilos. Nela se encontram livros épicos, líricos, místicos, históricos, jurídicos, de provérbios e ditos curtos etc. Há nela textos populares ao alcance de qualquer pessoa, a par de tratados profundíssimos. E, tanto uns quanto outros têm uma densidade que desafia os cérebros mais poderosos de todos os tempos, que sempre descobrem coisas novas e nunca conseguem chegar ao fundo de tanta riqueza escondida. Mesmo abstraindo de seus elementos religiosos, a Bíblia fornece abundantíssima matéria para considerações de ordem literária. Uma coisa muito importante, entretanto, para bem entendermos isso, e para não nos perdermos em falsos dilemas que mais desnorteiam do que orientam, é ter presente que a Bíblia não deve ser lida com espírito matemático, com a lógica fechada do “2 e 2 são 4”. Isso é verdade numa certa dimensão, não porém em outras, que admitem e requerem uma liberdade muito maior. É preciso considerar, inicialmente, a diferença enormeque existe entre o espírito ocidental (que é o nosso, aquele em que formamos nosso espírito e ao qual estamos habituados) e o espírito oriental. Por exemplo, é preciso compreender bem uma coisa muito presente nas Escrituras: o midrash. O gênero midráxico é difícil de entender para nós, ocidentais, mas para um oriental ele é muito normal, muito natural. O ocidental se detém no sentido literal dos textos e tende a tomar extremo cuidado para em nada ultrapassar os limites desse sentido literal. Já o oriental tende a glosar os textos com liberdade muito maior. Quando se glosa alguma coisa, não se repete, pura e simplesmente, a ideia glosada, mas se a desenvolve com liberdade, por analogias, por extensão, acrescentando coisas que têm alguma ligação com ela. Essa abundância de sentidos analógicos desnorteia, por vezes, uma cabeça ocidental como a nossa. Daí o extremo cuidado que se deve ter ao analisar os textos bíblicos. Neles, e na literatura oriental em geral, os números têm mais valor simbólico do que quantitativo e a cronologia é mais entendida por ciclos do que expressa aritmeticamente por números exatos. Isso dificulta a intelecção por ocidentais de mentalidade cartesiana e racionalista, incapazes de compreender o estilo midráxico recorrente na Bíblia. Para nós, ocidentais modernos, os números representam sempre uma realidade matemática, aritmética, cada um deles com o seu valor quantitativo e preciso. Para os orientais antigos, eles representavam, sobretudo, valores simbólicos. No início do evangelho de São Mateus (1, 1-16), lê-se a linhagem genealógica de Abraão até Jesus Cristo, em 42 gerações, divididas em três séries de catorze. Um ocidental, quando lê a nominata de ancestrais do Messias, imediatamente se põe a fazer contas, a calcular o tempo, a verificar cartesianamente se aquela genealogia pode estar realmente correta. Se for um espírito crítico e racionalista, quererá apontar, possivelmente, erros na Bíblia, contradições com outros fatos da própria Bíblia etc. Para um oriental, entretanto, a reação era completamente diferente. Ele contemplava a beleza simbólica da tríplice série de ancestrais, ele se encantava com essa beleza, ele provavelmente usava a divisão das três séries como recurso mnemônico, e nem sequer se incomodava fazendo contas6. É curiosa, sem dúvida, essa diferença profunda entre ocidentais e orientais, mas é inegável que ela existe... Ora, a Bíblia, inspirada por Deus, se destina, mediatamente, ao gênero humano em todos os tempos e lugares, mas direta e imediatamente foi escrita por orientais para orientais. Se não se tem isso em vista, é inevitável que nos percamos pelo caminho, interpretando quadradamente trechos que exigem compreensão muito mais matizada. Esse é um cuidado elementar, que devemos ter não só para podermos apreciar a imensa beleza literária da Bíblia, mas também para julgarmos em que sentido os relatos bíblicos podem ser entendidos como fontes históricas. Nem tudo na Bíblia deve ser entendido em sentido estritamente literal. Há passagens que contêm alegorias, outras são de sentido meramente moral, outras ainda devem ser entendidas analogicamente. Os diversos sentidos com que os livros bíblicos devem ser interpretados estão expostos com toda a clareza no Catecismo da Igreja Católica, ns. 115 a 119. A Bíblia, entretanto, é reconhecida como fonte histórica por inúmeros cientistas de primeira linha, ainda nos nossos tempos. Desde obras clássicas como a célebre coletânea “La Bible, Livre d´Histoire”, do Prof. Daniel Rops, da Academia Francesa e do Instituto de França, “The Bible is true”, do arqueólogo britânico Sir Charles Marston, “Histoire d´Israël”, de F. Ricciotti, da Universidade Lateranense, outro livro homônimo de Martin Noth, da Universidade de Bonn, até obras de divulgação respeitáveis, como “E a Bíblia tinha razão”, de Werner Keller, ou “La vie quotidienne des hommes de la Bible”, de André Chouraqui, sustentam o valor histórico dos livros bíblicos. Inúmeras descobertas arqueológicas igualmente confirmam afirmações históricas contidas na Bíblia.7 Sem dúvida, uma objeção de peso pode ser feita: sendo muito difícil (para não dizer impossível) precisar, historicamente, a época em que foram escritos os numerosos livros sagrados que compõem a Bíblia, e até mesmo precisar a autoria individual de cada um deles, é também muito difícil negar que tenham eles sofrido influência cultural de outros povos anteriores, que também têm, em suas tradições orais ou mesmo escritas, referências a um pecado original, a um lost paradise, a um dilúvio, à promessa de um grande libertador futuro, a uma torre mítica que estaria na origem da divisão das línguas etc. Na ótica desses objetantes, o fato de se encontrarem documentos escritos anteriores, documentando que também em outros locais se cultivava análoga crença, basta para provar que a Bíblia não pode ter sido origem delas, sendo, pelo contrário, originada por elas. Nisso incorrem no famoso paralogismo do “post hoc ergo propter hoc” (em tradução livre: se veio depois de algo, é porque foi causado por esse algo), que já estudamos em aula anterior. Esse raciocínio, também denominado da falsa causalidade, é errôneo, pois não basta algo ser anterior para ser causa de algo posterior. 6 Cfr. SANTOS, A. A. dos. “Como compreender a beleza literária da Bíblia”, A Tribuna Piracicabana, Piracicaba, 5/nov/2011, p. 8; ver também DANIEL-ROPS (PETIOT, Henri). Qu´est-ce que la Bible?. Paris: Arthème Fayard, 1956; BETTENCOURT OSB, Dom Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1956, p. 61-77. Especificamente sobre o recurso literário do midraxe, característico das literaturas orientais, ver KETTERER, Eliane; REMAUD, Michel. O Midraxe. São Paulo: Paulus, 1995; e LIMENTANI, Giacoma. O Midraxe: como os mestres judeus liam e viviam a Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1998. 7 Ver, por exemplo: DU BUIT, M. Archéologie du peuple d´Israël. Paris: Librairie Arthème Fayard, 1960; MARSTON, Sir Charles. La Bible a dit vrai. (The Bible is true). (Résultats des fouilles effectuées de 1924 à 1934 en terre biblique. Paris: Librairie Plon, 1935. A crítica literária moderna, dos livros bíblicos, tende a acreditar que o que se conhece da Bíblia, na sua composição atual, nem sempre corresponde a uma primeira versão escrita por um único autor, mas é muitas vezes o resultado de inúmeras gerações de copistas/redatores que fizeram acréscimos, interpolações, cesuras etc. Essa suposição, mesmo que verdadeira, de si não desclassificaria a Bíblia como fonte histórica. Por análogo processo de múltipla autoria e gradual composição passaram, como é reconhecido por todos os estudiosos, obras como a Ilíada e a Odisseia, assim como o mesopotâmico Gilgamesh (a mais antiga referência escrita, conhecida até hoje, a um dilúvio universal), e nem por isso são sumariamente descartadas ou deixam de ser tratadas com respeito por historiadores de todas as tendências. É verdade que em boa parte os textos bíblicos somente foram escritos muito depois de terem sido compostos e depois de terem sido recitados de memória por sucessivas gerações, mas isso não lhes diminui a autoridade. Também outras grandes obras da literatura antiga – como a Ilíada e a Odisseia – somente foram escritas depois de serem recitadas de memória durante séculos. O mesmo aconteceu com os Livros Sagrados de diversas religiões antigas, inclusive com a quase totalidade do Antigo Testamento8. Nos primeiros tempos do Cristianismo prevaleceu o antigo costume da oralidade. Jesus Cristo, aliás, ordenou aos seus discípulos que pregassem o seu ensinamento, não que o escrevessem: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15.) E o Apóstolo São João, no final do seu Evangelho, chega a afirmar hiperbolicamente que, para escrever todas as coisas que Jesus Cristo fez durantesua vida terrena, “creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever” (Jo 21,25). Seria apriorística e preconceituosa a atitude de um historiador que desconsiderasse liminarmente as informações bíblicas porque tomá-las em consideração seria admitir a possibilidade de intervenção divina nos acontecimentos – o que por princípio é algo anticientífico. Como se viu no tópico anterior, um historiógrafo que parta do pressuposto de que absolutamente tudo tem uma explicação natural independente de Deus não age como verdadeiro cientista. O próprio da ciência é considerar todas as hipóteses explicativas, com espírito aberto, não rejeitando a priori nenhuma delas. Parece muito mais equilibrada e razoável a posição de quem prefere supor, como consta da Bíblia e de mitologias presentes em culturas de todos os continentes, uma origem comum para toda a humanidade e vê, nas variações dessas mitologias, distorções explicáveis de um patrimônio cultural que foi comum a todos e a certa altura se perdeu. 8 “Muito antes de ser escrita, parcialmente no tempo de Ezequias e Josias, mas mais completamente no século V a. C., quando o escriba Esdras, segundo contam, ditara noventa e quatro dos livros santos, a Bíblia do Antigo Testamento fora falada. Sabe-se formalmente que as profecias de Jeremias foram `ditas´ 22 anos antes de serem redigidas; os Salmos, os Provérbios, os cânticos nupciais do Cântico dos Cânticos são, com toda a evidência, trechos falados ou cantados, só escritos mais tarde. Sucedera o mesmo com os poemas homéricos e sabe-se que, em Atenas, Pisístrato se tornara célebre fixando o seu texto por escrito; e o mesmo acontecera ainda com o Zend Avesta, livro santo iraniano, `fixado por Zaratustra´; e ainda com o Corão, de que o próprio nome inclui a ideia de `palavra recitada´. Mesmo quando o texto sagrado se fixara e escrevera, o hábito da transmissão oral do pensamento não se perdera. Há provas numerosas disso. O ensino dos rabinos era oral, suas sentenças transmitidas oralmente; o tratado talmúdico Gittin diz mesmo que era proibido fixá-lo por escrito. Cerca do ano mil da nossa era, Shérida Gaon afirmava que `os sábios julgam que é seu dever recitar de cor´. E aliás a palavra Talmud significa `aprendido de cor´. (...) Num tal sistema, a memória desempenhava um papel considerável. Os rabinos ligavam uma importância enorme ao seu treino. O rabino Dostraï, filho de Jonaï, dizia em nome do rabino Meir: `O que esquece quaisquer partes do que aprendeu causa a sua perda´. E o maior elogio que se podia fazer dum discípulo era `É como uma cisterna bem cimentada que não perde uma gota de água´” (Daniel-Rops s/d: 298-299). Inúmeros dados científicos corroboram essa visão. Desde estudos linguísticos, que têm como certa a existência de um idioma primitivo do qual procedem, como de um tronco, todos os idiomas e dialetos que hoje conhecemos, até as modernas pesquisas de DNA, que demonstram provir todos os seres humanos atualmente existentes, em todas as regiões do Globo, de uma origem comum, vale dizer, de um único casal. Esse ancestral comum vem sendo chamado, nos meios científicos mais arejados e menos preconceituosos, como “o Adão científico”, para distingui-lo, sem dissociá-lo de todo, do Adão bíblico. Ou seja, é “um Adão” cuja existência é deduzida cientificamente, independente de revelação bíblica e independente de se aceitar ou não a teoria darwiniana. Estudos antropológicos também confluem no mesmo sentido. Existem estudos sérios, em várias áreas do conhecimento, igualmente coincidentes. O caso de Akhenaton, faraó egípcio que viveu no século XIV a.C. e tentou introduzir, em seu reino, o culto a um único Deus, costuma ser apresentado, por certos críticos modernos que preferem ignorar os relatos bíblicos, como a primeira manifestação monoteísta da história da humanidade. Por não aceitarem os relatos bíblicos e negarem total caráter histórico a eles, apontam Akhenaton como estando na raiz e na origem de todos os monoteísmos conhecidos, incluindo, em ordem cronológica de aparecimento, o judaísmo, o cristianismo e o maometismo, e ignorando crenças monoteístas difusas em numerosas partes do mundo, inclusive entre tribos indígenas da América do Sul. Ora, em lugar de se imaginar que foi ele o criador de uma novidade absolutamente inédita até então – a ideia da existência de um único Deus – e de que dele derivam todos os monoteístas que vieram depois, inclusive os hebreus, por que não se perguntar se na origem da humanidade não estava exatamente o monoteísmo, que este foi cedendo terreno, em muitos locais, a formas variadas de politeísmo (precisamente o que está afirmado na Bíblia, note-se), e que Akhenaton apenas resgatou parcialmente uma tradição primeva? Essa hipótese é muito mais razoável, tanto mais que o próprio Egito, em tempos de Akhenaton, convivia com um povo caracteristicamente monoteísta, o povo hebreu. Não terá sido, aliás, por influência hebreia que Akhenaton resgatou a tradição monoteísta primeva, bem ao contrário da teoria que pretende estar Akhenaton na origem da tradição monoteísta da Bíblia? Outra alegação muito frequente contra a historicidade dos relatos bíblicos é o caso das famosas “deusas-mães” da antiguidade. O culto à Virgem Maria, na Era Cristã, não seria senão uma adaptação de cultos pagãos de épocas remotas. A esse respeito, cabe referir os estudos do mariólogo francês Jean-Jacques Auguste Nicolas (1807-1888), autor de uma obra monumental, em quatro volumes, intitulada “La Vierge Marie et le le plan divin - nouvelles études philosophiques sur le Christianisme” (Paris, 1852).9 Esse autor registrou, em suas pesquisas, numerosas mitologias, provenientes de várias partes do mundo, acerca de uma Mulher extraordinária, que deveria ter um papel eminente na redenção da Humanidade, corrigindo o erro de uma mulher anterior, que estaria na origem de todos os males. A explicação mais razoável é que tenha havido uma fonte comum a todas elas, como aliás se lê no livro do Gênesis, com o anúncio do 9 Nicolas era leigo, advogado e seguiu carreira como magistrado. Foi diretor do Serviço de Bibliotecas Públicas da França, o que lhe assegurava uma facilidade de pesquisas que soube aproveitar do melhor modo. Compôs numerosas obras apologéticas, de grande erudição e de reconhecida solidez, algumas das quais ainda em nossos dias vêm sendo reeditadas. chamado Proto-Evangelho10. Se se descarta, porém, aprioristicamente essa explicação como “anti-científica” só porque está na Bíblia, não se consegue chegar a conclusão razoável alguma. É curioso notar que os povos primitivos das partes mais diversas do globo conservaram, em suas tradições orais, reminiscências do Proto-Evangelho, e tais tradições chegaram de uma forma ou de outra a muitos povos modernos. Este oráculo bíblico, observa Nicolas (La Vierge Marie, II, cap. 4), suspenso sobre o berço do gênero humano, foi levado pelos homens em suas migrações, em sua dispersão pela face da terra; foi alterado, dividido, a ponto de não se poder mais reconhecer aí, fora o povo hebreu, senão um vestígio de verdade, misturado a fábulas. Mas, nesse vestígio, o que melhor se conservou foi o que se referia à Mulher de quem deveria provir o Libertador. Todos os povos pagãos, não menos os antigos do que os modernos, em seus livros sagrados ou em suas mitologias, em seus ritos ou na boca de seus poetas, assim como mostram a mulher como origem de todos os males, também invocam e esperam uma Virgem que há de reparar esses males e trazer ao mundo seu Libertador. Assim, no Tibete, no Japão e em uma parte da Índia, acreditava-se que, para salvar a família humana arruinada por uma grande culpa, o deus Fó se haveria de encarnar no seio da virgem Lhamoghinprul, a mais bela de todas as mulheres. Entre os chineses, a deusa Soping-Mu estava destinada adar ao mundo um filho, capaz de operar os prodígios mais maravilhosos, e tê-lo-ia de conceber ao contato de uma flor. Para os siameses, o deus Sommonokhodon é filho de uma virgem, fecundada pelos raios do sol. Para os lamas, a mãe de Buda é a virgem Maha-Mahai. E os Brâmanes fazem descender de uma virgem o Iagrenat, o salvador do mundo. Assim como os babilônios fazem nascer de uma virgem, a virgem Dogda, seu grande profeta Zardascht. Nas Gálias, os druidas veneravam a deusa Iside, virgem e mãe do salvador do mundo. Em substância, uma tradição idêntica se encontra entre todos os povos e em muitos dos autores mais célebres da antiguidade, como Plutarco, Ésquilo e muitos outros." (apud ROSCHINI, P. Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p. 30-31). Segundo Nicolas, os povos todos, de uma ou de outra forma, quando se espalharam pela terra levaram consigo a lembrança dessa revelação primitiva e a foram modificando e adulterando aos poucos. Portanto, a origem desses mitos está na revelação primitiva. Essas referências a uma mulher extraordinária, que se revestem de várias formas (virgens que dão à luz, deusas-mães etc.) têm, todas, origem no Proto-Evangelho. E não é o contrário que se dá, como afirmam hoje em dia muitos autores, que supõem que a devoção cristã à Virgem tenha origem na crença pagã das deusas-mães. O dilúvio foi algo tão espantoso que deixou tradições orais, mais ou menos mitológicas, em povos da terra inteira. Entre os gregos, havia o mito de Deucalião e Pirra, o casal que, depois do dilúvio, teria repovoado a terra. Entre os índios do Brasil, havia a lenda de Tamandaré, o único índio bom que havia conseguido escapar com vida do 10 Designa-se como Proto-Evangelho o versículo 3,15 do Gênesis, no qual pela primeira vez, logo após o pecado de Adão, a serpente é castigada e é feito o anúncio da futura redenção: “Porei inimizades entre ti e a Mulher e entre a tua descendência e a descendência dela: ela te esmagará a cabeça e tu armarás insídias sob seu calcanhar.” (tradução literal da Vulgata Latina, de São Jerônimo) dilúvio, flutuando com sua família numa palmeira que as águas não engoliram11. Há, ainda, restos fósseis impressionantes, por exemplo, de peixes marítimos em altitudes dos Andes. São indícios que nos levam a supor que realmente existiu um dilúvio que, se não foi universal, pelo menos atingiu proporções muitíssimo extensas e abrangeu todo o gênero humano então existente. Flávio Josefo, historiador do povo hebreu que viveu no século I d.C., fala do dilúvio e da Torre de Babel. Ele refere algo que não está na Bíblia, mas deve ter chegado até ele pela tradição da sinagoga. Segundo ele, os homens orgulhosos, chefiados por Nemrod, bisneto de Noé, queriam fazer um monumento que atestasse sua grandeza e que, ao mesmo tempo, desafiasse a Deus. Fizeram, pois, uma torre que fosse tão alta que, mesmo que Deus mandasse outro dilúvio, eles se salvariam. Na realidade, eles sabiam muito bem que não haveria outro dilúvio, pois Deus, que havia declarado formalmente (Gn 8,21) que não voltaria a castigar o povo da forma como havia feito no dilúvio, não voltaria atrás de suas próprias palavras. Mas fizeram a torre como desafio a Deus. E Deus castigou-os de modo inesperado e, ao mesmo tempo, terrível, confundindo suas falas e seus corações.12 Hoje, estudos linguísticos muito apurados concluem que todas as línguas humanas têm uma origem comum. Também existem evidências arqueológicas sobre a existência de uma imensa torre, na Babilônia. O que não se tem certeza é se o episódio bíblico da confusão das línguas, na construção da torre, é estritamente histórico, ou se é mais bem metafórico, devendo ser entendido como tal. Também não se sabe a extensão física do chamado dilúvio universal. Ele pode ter atingido a totalidade do gênero humano em um determinado momento histórico, sem precisar ter atingido o planeta inteiro. * * * Em resumo, os livros históricos da Bíblia são, sim, fontes históricas, mas não podem sempre ser entendidos no seu sentido estritamente literal. Entre uma espécie de mal entendido fundamentalismo exegético, que não admite outra interpretação que não seja a literal, e a rejeição sumária dos livros bíblicos por considerá-los míticos e anticientíficos, há que procurar um justo meio termo. Nisso, como em tudo o mais, há que ter bom senso.13 Dica do professor: 11 Cfr. NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Clássica do Brasil. São Paulo: Editora Global, 2013, p. 599. A narrativa mitológica dos Tupi, encontrada com diversas variantes pelos missionários do século XVI, inspirou ao romancista José de Alencar o capítulo final de seu romance O Guarani, quando Peri consegue salvar sua amada Cecília, sobrevivendo ambos à inundação avassaladora porque flutuaram sobre uma palmeira arrancada do solo. Sobre as variantes dessa narrativa, encontradas em diferentes tribos, ver: MÉTRAUX, A. A religião dos tupinambás e suas relações com a das demais tribus tupi-guaranis. Prefácio, tradução e notas de Estevão Pinto. Coleção Brasiliana, vol. 267. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950, p. 93-96, 102-106 et passim. 12 Cfr. FLÁVIO JOSEFO, História dos Hebreus. São Paulo: Editora das Américas, 1956, vol. I, p. 58-60. 13 Essa posição intermediária de bom senso, além de corresponder ao ensinamento do Catecismo da Igreja Católica (números 115-119), é também corrente entre autores católicos do último século. Veja-se, apenas à guisa de exemplo: BETTENCOURT, Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1959; CHARLIER, Célestin. A origem e a interpretação da Bíblia. Lisboa/São Paulo: Editorial Aster/Livraria Flamboyant, 1959. A leitura dos livros históricos da Bíblia não apenas proporciona muitos ensinamentos, mas também proporciona um agradável entretenimento. Procure ler esses livros. Aprenda com eles. O Êxodo, as peripécias dos hebreus no Egito e no deserto, a conquista da Terra Prometida, os livros dos Reis, os dois livros dos Macabeus, tudo isso encanta. Já a leitura de Atos dos Apóstolos, um livro do Novo Testamento, em certas passagens parece até um relato de aventuras. Tópico C – Alguns textos para reflexão O Papa Pio XII, a 24 de março de 1957, recebeu em audiência mais de 50 mil estudantes de Roma. Proferiu, então, uma alocução sobre diversos problemas relativos ao ensino. No tocante à História, assim falou: Quando estudais a História, não vos esqueçais de que ela não é simples lista de fatos, mais ou menos cruéis ou edificantes, porque é fácil ver nela uma arquitetura, que deve ser estudada e aprofundada à luz da Providência Divina universal e da incontestável liberdade da ação humana. Em particular notareis com que vistas diferentes encararíeis os acontecimentos dos dois últimos milênios se os considerásseis como o desenvolvimento da civilização cristã, partindo daquilo que foram os humildes primórdios da Igreja, detendo-vos nas grandes sínteses antigas e medievais que não foram sobrepujadas, refletindo sobre as dolorosas apostasias, mas também sobre as grandes conquistas modernas e olhando com confiança para os numerosos sinais de renascença e reerguimento. (A.A.S., 49, 1957, n. 5-6, p. 281-287). Note-se, nesse texto, o equilíbrio entre, de um lado a ação providencial de Deus, que tem um plano geral para a História e realmente o executa, e de outro lado a liberdade humana. O mesmo equilíbrio já havia sido realçado pelo mesmo pontífice em outro discurso, dirigido em 7 de setembro de 1955 aos participantes do X Congresso Internacional da Ciências Históricas: Catolicismo e historicismo são conceitos antitéticos. (...) O termo historicismo designa um sistema filosófico que não percebe em toda a realidade espiritual,no conhecimento da verdade, na religião, na moral e no direito senão câmbio e evolução, e rechaça, por isso, tudo o que é permanente, eternamente válido e absoluto. Tal sistema é, sem dúvida, inconciliável com a concepção católica do mundo e, em geral, com toda religião que reconheça um Deus pessoal. A Igreja Católica sabe que todos os acontecimentos se desenvolvem segundo a vontade ou a permissão da Divina Providência e que Deus persegue na História seus próprios objetivos. Como o grande Santo Agostinho afirmou com uma concisão muito clássica: o que Deus se propõe, “hoc fit, hoc agitur; etsi paulatim peragitur, indesinenter agitur.” (A.A.S. 47, 1955, p. 672-682) Com essas palavras latinas, cuja tradução livre é “Isso se faz, isso se realiza; embora aconteça paulatinamente, realiza-se sem interrupção”, Santo Agostinho se refere à vitória de Jesus Cristo sobre seus inimigos. Na História, manifestam-se de modos diferentes o plano geral de Deus e a liberdade do homem. Esta se manifesta pela variedade, aquele pela unidade. É o que explica outro teórico de uma visão cristã da História, o Pe. Henri Ramière S. J. (1821- 1884), quando comenta a multiplicidade de teorias explicativas da História produzidas por historicistas de várias tendências: Daí, todas as teorias da Filosofia da História que surgiram nos nossos dias e que se multiplicam continuamente (...). Devemos examinar tais teorias e devemos até perguntar-nos se existe uma Filosofia da História e quais podem ser as leis dessa ciência, supondo que ela existe. Mas, ao contrário dos seus autores, não contestaremos aqueles primeiros pressupostos, do qual eles também partem. Como eles, queremos que a História seja una; como eles, sustentaremos que é regida por grandes leis, cuja aplicação infalível ordena a sua aparente desordem. Contudo, num ponto não podemos estar de acordo com a maior parte desses fabricantes de sistemas: é quando afirmam que a infalibilidade das leis históricas é incompatível com a liberdade humana. Para preservar a unidade da ciência histórica, subtraem-lhe o seu objeto próprio, ou seja, a atividade livre do homem. Para colher o fruto, cortam a árvore. Eis uma loucura que não queremos imitar. Para nós, a ciência não é incompatível com o bom senso. Antes de mais, reconhecemos a liberdade. Mas, sem diminuir em nada esse atributo do homem, ser-nos-á fácil vê-lo dominado pela Providência de Deus. É à liberdade humana que atribuiremos a variedade da história, mas, ao mesmo tempo, descobriremos a sua unidade nos desígnios da Providência Divina. Assim, poderemos salvaguardar as condições essenciais da ciência histórica e sustentá-las, seja contra os simples narradores, seja contra os ataques dos historiadores filósofos que sacrificam a variedade à unidade. Este método, o único inteiramente conforme aos ensinamentos da fé cristã, é também o único que reúne, na sua plenitude, os elementos constitutivos da ciência. Reúne todas as vantagens dos outros métodos, sem incorrer nos inconvenientes que neles apontamos. A História pode conservar nos seus relatos todo o interesse e toda a verdade atraente do método descritivo; pode possuir toda a segurança da mais rigorosa crítica, toda a utilidade da história moral ou política; pode dar a conhecer os fatos, estabelecer a autenticidade dos monumentos e a verdade dos testemunhos, permitir a compreensão dos homens e atribuir a cada povo o seu papel. Objetivos secundários todos eles, mas compreendidos no seu fim específico. E quanto mais ela se colocar num ponto de vista superior, tanto mais lhe será fácil entender cada um desses aspectos parciais, abarcando melhor o conjunto e relacionando mais facilmente a ação dos indivíduos e das sociedades particulares com os destinos gerais da humanidade. Eis a verdadeira ciência da História em toda a sua grandeza e beleza, tal como o cristianismo nô-la revela. (RAMIÈRE, Henri. O Reino de Jesus Cristo na História. Porto: Livraria Civilização Editora, 2001, p . 17-18) * * * Não é comum, nos cursos de Licenciatura em História, ser exposta uma visão cristã da História, em seus aspectos filosóficos e teológicos. Como diferencial do nosso curso, desejamos que todos os alunos conheçam essa visão para, com total liberdade, poderem compará-la com outras escolas historiográficas. Foi indispensável partirmos da noção de uma Antropologia cristã e nos estendermos na explicação de conceitos doutrinários para o entendimento de uma Filosofia e uma Teologia da História. É por isso que a presente aula foi tão extensa. Dica do professor: O estudo desta Unidade 6 com certeza trouxe, para você, numerosos conceitos que não são com frequência focalizados nas escolas. Reflita sobre esses conceitos. São reflexões que um historiador e um professor de História devem ter continuamente em foco. Anote suas reflexões no seu caderno ou em um arquivo especial, no seu computador. De tempos em tempos, releia. Vá, à medida que desenvolve sua formação, completando ou corrigindo o que escreveu antes.