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Unidade 6 
Historiografia e Teoria da História 
6) Filosofia e Teologia da História – Visão cristã da História 
 
Autor: Prof. Dr. Armando Alexandre dos Santos 
Todos os direitos reservados. 
 
Tópico A – Noções prévias: Cristianismo, Antropologia, Fé e Razão 
 
Para se entender a visão cristã da História, é indispensável chamar a atenção dos 
alunos para o eminente papel que teve a Igreja Católica na compreensão da pessoa 
humana e, portanto, no embasamento teórico do que deve ser uma verdadeira ciência 
antropológica. 
 
Rejeição do dualismo 
 
Entre os filósofos da Antiguidade, era comum a crença dualista de que, no ser 
humano, se digladiavam irremediavelmente dois princípios opostos, o corpo material e a 
alma espiritual. 
Os primeiros teólogos e pensadores cristãos conheciam bem e tomaram em 
consideração o pensamento grego clássico, mas souberam rejeitar a dualidade 
corpoXespírito presente naquele pensamento. Já Santo Agostinho, rejeitando 
decididamente o dualismo dos maniqueus, o fez de modo muito claro, e em sua esteira 
seguiu a totalidade dos Padres da Igreja e dos autores cristãos em geral. 
Mais tarde, São Tomás de Aquino, ao recuperar o que havia de melhor no 
ensinamento de Aristóteles, teve o cuidado de expurgá-lo de numerosos erros 
criteriológicos, entre os quais o dualismo. 
Corpo e alma não se opõem, mas, juntos, integram um só ser, que é o homem, 
plenamente considerado. Corpo e alma só se separam – mórbida e transitoriamente – pela 
morte, que é um estado anormal, devido ao pecado. É uma separação mórbida, porque 
engendra a corrupção: sem estar informado (no sentido filosófico) pela alma, o corpo, 
pura matéria, rapidamente se desintegra e se faz pó. E é transitória, porque, de acordo 
com o dogma da Ressurreição da carne, no fim dos tempos corpos e almas voltarão a se 
reunir, para jamais se separarem por toda a eternidade. Depois do Juízo, tanto os justos, 
no Paraíso, quanto os pecadores, na Geena, terão para todo o sempre os corpos e as almas 
indissociavelmente unidos.1 
 
1 Esse é o ensinamento da Igreja, que ademais se depreende da famosa Teoria Hilemórfica (que trata de 
matéria e forma), a qual, juntamente com a noção de Ato e Potência, constitui a base da metafísica 
aristotélico-tomista. 
 
Universalidade e fraternidade do gênero humano 
 
Além de ter contribuído para a Antropologia pela rejeição categórica do dualismo 
e pela compreensão da integridade da pessoa humana, também a um outro título, de 
grande importância, a Igreja Católica assentou as bases para a intelecção da verdadeira 
Antropologia. 
Na realidade, o Cristianismo foi a primeira religião de cunho mundial, que desde 
o seu início pretendeu atingir e conquistar toda a humanidade e, assim, inaugurou a ideia 
de que o gênero humano (entendido no sentido mais amplo, no espaço e no tempo) tem 
uma relação fraternal. É em Nosso Senhor Jesus Cristo que, pela primeira vez, a 
Humanidade pôde adquirir a noção de que constitui, toda ela, uma imensa fraternidade. 
Até o aparecimento do Cristianismo, todas as religiões e todos os deuses eram 
nacionais. Mesmo entre os hebreus, a religião mosaica era entendida como algo nacional, 
e isso se consolidou de tal maneira que, entre os Apóstolos e os primeiros discípulos de 
Jesus Cristo, houve grande resistência psicológica à ideia de uma pregação aberta a todo 
o gênero humano, fora dos limites do Povo Eleito. Essa dificuldade, tema central 
subjacente aos debates ocorridos no Concílio de Jerusalém (ano 50 d.C.), fica bem patente 
pela leitura dos Atos dos Apóstolos. 
Não havia, no passado, conflito religioso propriamente dito. Todos adoravam os 
deuses de sua nação e compreendiam que os outros adorassem os seus. Daí o caráter 
muitas vezes fragmentário, nacionalista e, também, relativista da religiosidade dos povos 
antigos. Daí, também, a dificuldade de os romanos entenderem os cristãos, não 
compreendendo porque estes teimavam em adorar a um Deus único e exclusivista, em 
vez de colocarem, como faziam todos, uma imagem da sua divindade no Panteão 
Romano, junto com todos os demais e, assim, se adequarem ao “stablishment” político-
religioso do Império. 
A noção de fraternidade universal (como decorrência de serem todos os homens 
filhos de um mesmo Deus e, assim de certa forma se irmanarem a Jesus Cristo, o Filho 
Unigênito de Deus) é fundamental para a compreensão da altíssima dignidade da pessoa 
humana. 
O erudito beneditino francês D. Próspero Guéranger (1805-1875) destacou, em 
seu livro O sentido cristão da História um ponto muito importante para nós, historiadores: 
até mesmo a compreensão de uma história universal, no sentido maior, no sentido mais 
abrangente, somente se tornou possível a partir da ótica cristã. Antes disso, era 
fragmentária e, necessariamente, incompleta. Passo a transcrever: 
Os historiadores pagãos não tinham uma visão de conjunto dos acontecimentos 
humanos. Para eles, a ideia de pátria era tudo, de tal forma que, até no tom de 
narrar os fatos, nunca se nota que o narrador se sentisse tomado, ainda que de 
leve, pelo sentimento de afeto pela espécie humana em si mesma considerada. 
De fato, a história somente principiou a ser tratada em sentido abrangente e de 
síntese a partir do cristianismo. Por remeter continuamente o nosso 
pensamento para o destino sobrenatural do gênero humano, o cristianismo 
habituou o nosso espírito à visão universal das coisas, muito além de um 
nacionalismo egoístico. Foi em Jesus Cristo que a fraternidade humana se 
revelou; e foi a partir de Jesus Cristo que a história da humanidade, como um 
 
 
todo, passou a ser objeto de estudo. (Le sens chrétien de l' Histoire, Éditions 
d´Histoire et d´Art, Paris, 1945, pgs. 17-18). 
 
É interessante recordar que os gregos antigos se julgavam superiores a todos os 
demais povos, que consideravam bárbaros e julgavam que somente existiam para se 
submeterem aos gregos e a eles servirem. Por isso, quando o apóstolo São Paulo foi pregar 
no Areópago de Atenas, grande foi sua coragem ao ensinar que os homens são diferentes, 
mas acidentalmente apenas, já que suas diferenças não são específicas, mas tão-somente 
étnicas: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e 
não habita em templos feitos por mãos humanas. (...) Ele fez nascer de um só todo o 
gênero humano, para que habitasse toda a face da terra.” (Atos, 17, 24-26.) 
Foi, pois, o Cristianismo que introduziu, na História humana, a noção de que a 
Humanidade inteira, por cima das limitações de espaço e tempo, constitui uma única e 
imensa fraternidade. 
 
Reconhecimento da liberdade humana 
 
Além de rejeitar o dualismo professado pelos antigos filósofos pagãos, 
possibilitando a compreensão da verdadeira natureza humana, composta por corpo e 
alma, não como elementos antagônicos e conflitivos, mas complementares, e ensinar que 
o gênero humano constitui uma só e imensa fraternidade, o Cristianismo também deve 
ser considerado como fautor do reconhecimento da liberdade humana. 
Na ótica verdadeiramente cristã, o ser humano é livre e racional, plenamente 
responsável pelos seus atos. É pela racionalidade que os homens são criaturas que se 
assemelham a Deus criador. A liberdade é consequência dessa racionalidade. Porque é 
racional, o homem é livre, pode escolher os próprios caminhos e responderá diante do 
Criador pelas opções livres que tiver feito durante a vida. Deus preza tanto a liberdade 
humana que, mesmo sendo onipotente, nunca a viola, mas sempre a respeita. 
É verdade que Deus, sendo onisciente, conhece todos os futuros, tanto os 
necessários, que decorrem de regras que Ele mesmo colocou na natureza (por exemplo, 
sabe que o dia sucede à noite, a primavera sucede ao inverno etc.), mas também aqueles 
decorrentes do livre arbítrio humano (Ele sabe o que cada um de nós, livremente, quererá, 
Ele conhece nosso futuro eterno). 
Essepré-conhecimento de Deus acerca do nosso futuro de modo nenhum significa 
que nossa liberdade seja tolhida, ou que ela seja menos plena. 
Segundo Santo Agostinho e incontáveis autores católicos que escreveram sobre a 
providencialidade divina da História, Deus tem um plano superior para a Humanidade, o 
qual se realiza sempre, sem que isso em nada obste à plena liberdade dos homens. 
A História salvífica da Humanidade se realiza, pois, de acordo com os altos 
desígnios de Deus, constituindo a História um maravilhoso espetáculo digno do olhar 
divino. Espetáculo, aliás, que constituirá um elemento de extraordinária beleza, que 
poderemos contemplar e admirar quando da Magna Aula de História que será o Juízo 
Final. 
Será o momento em que tudo se revelará, em que todas as tramas da História se 
patentearão, em que todo o encadeamento de causas e efeitos, nos acontecimentos 
humanos, se tornarão claros diante de todos os homens reunidos. Nesse momento, todos 
os mistérios da História Universal se revelarão, todos os crimes, conspirações e tramas 
que ficaram ocultos ao longo dos séculos e dos milênios serão devidamente postos a nu, 
mas também todos os atos de virtude, todos os atos de abnegação, todos os atos de 
heroísmo que permaneceram ocultos dos olhares humanos serão, então, proclamados, 
para glorificação de Deus em seus eleitos. 
É claro que essa ótica providencialista (repita-se: aquela que considera que, sem 
embargo da real e plena liberdade humana, existe um desígnio da Divina Providência, por 
onde os planos de Deus sempre se realizam) é muito dificilmente compreendida pelos 
autores que não têm fé, que não conhecem suficientemente a doutrina católica. 
Eles entendem, erradamente, que, se que Deus tem um plano e esse plano se 
realiza sempre, e se Deus conhece todos os acontecimentos futuros, na prática existe uma 
forma de determinismo histórico cristão. Em outras palavras, a nossa liberdade não 
passaria de uma ilusão: pensamos que somos livres, mas na realidade não somos, já que 
estamos apenas realizando um plano que Deus fixou desde toda a realidade... A 
consequência dessa intelecção errônea é que não teríamos responsabilidade por nossos 
atos, pois, se pecarmos, esse pecado já estava previsto por Deus, e era, portanto, 
inevitável. 
Na realidade, a visão católica da plena liberdade humana, do pleno livre-arbítrio 
de cada indivíduo, não é compartilhada por muita gente. Muita gente, de muitas 
orientações diversas, acredita num destino inelutável. Já os filósofos antigos criam nisso. 
Os budistas, os animistas, os supersticiosos em geral, acreditam no destino, no carma, no 
"fatum", ou nos astros governando os acontecimentos. Os maometanos, igualmente, 
creem no "maktub" (estava escrito.) Os protestantes, de um modo geral, acreditam que 
Deus salva aqueles que quer salvar e, quando alguém se perde, é porque foi predestinado 
para tal. 
Muitos, mesmo fora de uma perspectiva religiosa, também são deterministas e 
negam a plena liberdade humana. Por exemplo, os positivistas, os evolucionistas, os 
marxistas, os freudianos, os historicistas. Todos esses creem que tudo é regido por leis 
que vamos realizando passivamente, sob a ilusão de estarmos agindo livremente. 
Os marxistas, por exemplo, veem tudo como decorrência de leis econômicas que 
regem o dinamismo dialético interno das sociedades humanas. A própria cultura, as 
ideias, a arte, o pensamento, tudo isso é decorrência forçosa desse dinamismo, de modo 
que a cultura humana (superestrutura) é condicionada e determinada pela infra-estrutura 
material e econômica. 
Também o freudismo supõe o homem, enquanto ser racional e consciente, mero 
joguete de forças que não conhece nem controla, subjacentes no seu inconsciente. Nossas 
ações, pois, seriam mera consequência do nosso inconsciente. Ou seja, nem somos 
plenamente livres, nem somos moralmente responsáveis por nossos atos. 
Todos esses, habituados de modo mais ou menos claro, a formas diversas de 
determinismo, tendem a ver, erradamente, a doutrina agostiniana como uma variante do 
determinismo. 
O fato é que, fora do verdadeiro Cristianismo, muito pouca gente acredita de fato 
na plenitude da liberdade (e, portanto, da responsabilidade) humana. Entretanto, a lógica 
mostra que a visão determinista, seja de que variante for, não pode se compaginar com 
uma Antropologia verdadeira digna desse nome, a qual somente pode considerar o gênero 
humano como livre e fraternalmente uno. 
Essa foi a imensa contribuição – digamos assim – da Igreja Católica para a ciência 
antropológica. 
 
Finalidade do homem e das sociedades humanas 
 
Já vimos, na aula anterior – quando tratamos da teleologia, ou seja, o estudo dos 
fins ou objetivos – a importância da noção de causa final, para Aristóteles e para a 
filosofia em geral. É em função da sua finalidade que se definem e se explicam todas as 
coisas, e é na medida em que se aproximam da realização plena de sua finalidade que 
todas elas se aperfeiçoam. 
No caso do homem, sua perfeição é atingida quando ele tende ao Bem em si 
mesmo, finalidade a que todo ser aspira. Somente assim ele cresce em virtude e se 
aperfeiçoa. O ensinamento de Aristóteles foi acolhido pelo cristianismo. 
Sendo Deus o Criador de todas as coisas, Ele é o Alfa e o Ômega, ou seja, o início 
e o fim de tudo, e é para Ele que todo homem deve tender. Na medida em que o faça, será 
feliz e se aperfeiçoará. Na medida em que, fazendo uso de seu livre arbítrio, se afaste 
dessa finalidade, será infeliz e frustrará a razão de ser de sua existência. Isso se dá em 
nível individual, com cada pessoa. Mas também se dá, de certa forma, com as pessoas 
tomadas no seu conjunto. Dá-se com as famílias, com as sociedades maiores de qualquer 
natureza, com as nações, tanto tomadas num determinado momento como também 
inseridas no tempo. Cada uma delas será feliz e bem sucedida na medida em que consiga 
que seus elementos individuais tendam para o fim. 
Tendo alma imortal, é na eternidade, na posse de Deus, que cada homem poderá 
atingir sua plena felicidade. As sociedades humanas existem no tempo e não passarão 
para a eternidade. Sua finalidade, pois, se esgota no tempo, mas os membros que as 
constituem, esses sim, terão vida eterna, boa ou má, de acordo com as respectivas opções. 
O bem comum das sociedades não se identifica com o bem dos indivíduos que as 
compõem, mas tem profunda relação com ele. O bem comum tem dois aspectos: um 
menor, imanente e interno; e outro maior, transcendente e externo. Uma analogia utilizada 
por São Tomás de Aquino explica perfeitamente essa duplicidade de aspectos (De 
regimine principum, 75). Um navio é bem dirigido por seu comandante se chegar ileso 
ao porto desejado. A conservação do navio é meio necessário para ele poder chegar ao 
fim. Mas não basta conservá-lo: se o navio permanecer intacto, mas não chegar ao destino, 
o comandante não terá cumprido sua missão. Assim também se dá com as sociedades. O 
bem comum imanente e interior da sociedade comporta diversos bens necessários aos 
cidadãos: saúde, alimentos, conforto, cultura, segurança, virtude etc. O bem comum 
transcendente e externo é Deus, princípio e fim de todo bem, para o qual se deve ordenar 
a sociedade como o navio ao porto. Com efeito, diz São Tomás, "o fim último da 
sociedade não é viver virtuosamente, mas é chegar à posse e ao gozo de Deus após ter 
vivido virtuosamente" (De regimine principum, 79). 2 
 
2 O moderno sistema liberal supõe que o bem comum é a mera soma dos bens individuais, ou seja, se todos 
os homens procurarem o seu bem individual, o bem comum já estará garantido. São Tomás de Aquino, 
entretanto, baseado em Aristóteles, ensina que o bem comum e o bem particular de uma pessoa "não diferem 
somente como o muito do pouco, mas por uma diferença formal" (Suma Teológica, II-IIae, q.58, a.7). O 
Nessa ótica, a História entendida cristãmente constitui numaimensa preparação dos 
homens para a eternidade e se reveste, por isso, de transcendental importância.3 O 
historiador cristão não pode, pois, em sua análise historiográfica, fazer abstração dessa 
finalidade última do ser humano, sob pena de falseá-la completamente. Em outras 
palavras, uma história materialista, que ignore o espiritual, ou uma história naturalista que 
faça abstração de Deus e do sobrenatural não é verdadeira. 
A historiografia cristã designa com o nome genérico de Historicismo o conjunto de 
interpretações historiográficas que nega ou ignora completamente a possibilidade de 
intervenção divina nos acontecimentos. Há historicismos de vários tipos, mas todos eles 
têm em comum a afirmação apriorística de que considerar essa possibilidade é 
anticientífico; os historiadores historicistas, por sua vez, costumam designar com o nome 
depreciativo de “Providencialismo” a posição dos que admitem essa possibilidade. 
Mas, será mesmo científico o Historicismo? A esse respeito, cabe ponderar que um 
historiógrafo que parta do pressuposto de que tudo, absolutamente tudo, tem uma 
explicação natural independente de Deus, e que rejeita a priori qualquer possibilidade de 
intervenção divina nos acontecimentos, esse historiógrafo não age como verdadeiro 
cientista. O próprio da ciência é considerar todas as hipóteses explicativas, com espírito 
aberto e sem preconcebidamente, não rejeitando a priori nenhuma delas. Aceitar como 
indiscutível um pressuposto dessa natureza é, de fato, aceitar um dogma. Em outras 
palavras, é transformar a Ciência em religião. Pois o que caracteriza as religiões é o fato 
de terem dogmas que consideram indiscutíveis. 
Na verdade, como se verá a seguir, não há contradição, mas mútua colaboração 
entre razão e fé; em outras palavras, a Fé não é uma atitude irracional, mas é uma atitude 
inteiramente razoável e sumamente racional, de quem compreende que a razão humana é 
 
bem individual divide, o bem comum une (De regimine principm, 6-7), o primeiro tem uma força 
centrífuga, o segundo centrípeta. Assim, até mesmo quando o bem comum de uma sociedade é legítimo e 
igualmente são legítimos os bens dos indivíduos que compõem aquela sociedade, pode haver oposição entre 
estes e aquele. Por isso, mesmo que os homens fossem perfeitos e ninguém avançasse sobre os direitos 
alheios, seria preciso haver governo, pois cada qual cuidaria do que é seu – e nisso não andaria mal, note-
se – antes de pensar no bem comum. (Cfr. SANTOS, Armando Alexandre dos. Parlamentarismo, 
sim! Mas à brasileira. 2. ed. São Paulo: Artpress, 2015, p. 90-91 e 328.) 
3 A importância da História, numa perspectiva cristã, é reconhecida até mesmo por historiadores sérios não-
cristãos. Veja-se, a respeito, um texto clássico do judeu Marc Bloch, ao tratar do debate sobre a legitimidade 
da História: “Nossa civilização ocidental inteira está interessada nele. Pois, diferentemente de outros tipos 
de cultura, ela sempre esperou muito de sua memória. Tudo a levava a isso: tanto a herança cristã como a 
herança antiga. Os gregos e os latinos, nossos primeiros mestres, eram povos historiógrafos. O cristianismo 
é uma religião de historiador. Outros sistemas religiosos fundaram suas crenças e seus ritos sobre uma 
mitologia praticamente exterior ao tempo humano; como Livros sagrados, os cristãos têm livros de história, 
e suas liturgias comemoram, com os episódios da vida terrestre de um Deus, os faustos da Igreja e dos 
santos. Histórico, o cristianismo o é ainda de outra maneira, talvez mais profunda: colocado entre a Queda 
e o Juízo, o destino da humanidade afigura-se, a seus olhos, uma longa aventura, da qual cada vida 
individual, cada `peregrinação´ particular, apresenta, por sua vez, o reflexo; é nessa duração, portanto 
dentro da história, que se desenrola, eixo central de toda meditação cristã, o grande drama do Pecado e da 
Redenção. Nossa arte, nossos monumentos literários estão carregados dos ecos do passado, nossos homens 
de ação trazem incessantemente na boca suas lições, reais ou supostas.” (BLOCH, Marc. Apologia da 
História ou O Ofício do Historiador. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, 
p. 42) 
http://lattes.cnpq.br/0315563596870512
poderosíssima, mas tem limites e não é infalível. A fé atua como iluminadora e ao mesmo 
tempo corretiva da razão. 
Fé e razão, as duas asas do pensamento humano 
“Fides et ratio” foi o título de uma encíclica que inicia com uma frase que se 
tornou muito famosa: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o 
espírito humano se eleva à contemplação da verdade”.4 
“Fides et ratio” foi também o nome dado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro a 
uma academia composta por intelectuais católicos de todo o Brasil, os quais se consagram 
ao estudo filosófico dos grandes problemas da atualidade, à luz da fé cristã. 
Numa perspectiva cristã, não há oposição nem conflito entre Fé e Razão. Ambas 
se harmonizam e se completam. Uma supõe a outra. A razão humana é o que torna os 
homens diferentes dos animais; o homem é um animal (elemento genérico) racional 
(elemento específico). O elemento que especifica o homem, no conjunto dos animais, é a 
sua racionalidade, precisamente aquele atributo por onde ele se espiritualiza, se aproxima 
dos anjos (que são puros espíritos, puras formas, sem matéria) e é uma criatura feita à 
imagem e semelhança do próprio Deus. 
A razão humana, nessa perspectiva, é poderosíssima; ela pode e deve investigar 
todos os assuntos, dedicar-se a todos os ramos do conhecimento; mas ela deve 
compreender, com humildade e bom senso, que não é ilimitada nem infalível. Ela 
necessita de um elemento que a oriente, a ilumine e lhe dê segurança de que pode e deve 
trabalhar intelectualmente sem se desviar da Verdade. A verdade, definiam os medievais, 
na esteira aristotélica, como a adequação da mente ao objeto contemplado (adaequatio 
mentis ad rem ou, em outra formulação, adaequatio rei et intellectus). 
Qual é o papel da fé, no trabalho racional do homem? É o papel de guia, para 
evitar que ele se transvie, ou por se enganar irremediavelmente na apreensão da realidade 
objetiva, ou por se perder no dédalo dos seus raciocínios. A fé, nessa ótica, não é um 
dogmatismo antirracional, mas é o elemento que torna possível e quase infalível a razão 
humana. 
A fé, pois, é profundamente racional. Os medievais – mais uma vez recorramos a 
eles! – definiam a fé como “rationabile obsequium”, ou seja, um dom razoável. A fé, 
enquanto virtude, é dom divino, não é conquista do homem com suas próprias forças, mas 
é um dom razoável, profundamente consentâneo com a razão que faz do homem a imagem 
do próprio Deus. 
A razão humana pode chegar, por si mesma, ao conhecimento racional de Deus e 
de seus principais atributos (esse é o tema de estudo da Teodiceia, “faixa” mais alta da 
própria Filosofia), mas não pode chegar por si mesma à fé, que é dom sobrenatural (e é 
estudada pela Teologia, a qual não se baseia somente na razão humana, mas necessita da 
Revelação e sobre esta última aplica a razão). 
A fé não limita o livre exercício da razão humana. Pelo contrário, permite que a 
razão humana seja plenamente livre. Um exemplo torna isso bem claro. Um avião precisa 
se sujeitar a certas regras, para alçar voo e realizar plenamente todas as suas 
potencialidades de voar com liberdade pelos espaços aéreos; ele precisa levantar voo 
 
4 Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II (14 de setembro de 1998) - 
https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-
ratio.html 
https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html
https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html
disciplinadamente dentro da sua pista, sem sair dela, sem se desviarpara a direita nem 
para a esquerda. Se, raciocinemos hipoteticamente, um avião “quisesse” se comportar 
como um automóvel ou uma motocicleta e “pretendesse” sair da sua pista de voo e rodar 
pelas ruas da cidade, virando como bem entendesse para qualquer lado, ele fracassaria. 
Seu tamanho, sua forma, sua ergonomia o tornam inepto para rastejar; ele foi feito para 
as alturas. Para o avião, a “liberdade” do automóvel ou da motocicleta é uma liberdade 
ilusória, uma falsa liberdade. 
Para o intelectual cristão, a fé é como a pista de voo do avião. Ele se sujeita a um 
mínimo de disciplina, mas depois voa com segurança em plena liberdade. Já o filósofo 
que não tem fé, ou que tem fé, mas faz uma ablação artificial, desnecessária e prejudicial 
entre a fé e a razão, esse vai se perder nos seus raciocínios, sempre duvidando de si mesmo 
e jamais alcançando a certeza. Não será um filósofo no sentido pleno; apenas rastejará na 
vida de pensamento, jamais voará. Sua liberdade é ilusória, porque o prende ao chão e o 
impede de voar, como sua natureza espiritual anseia fazer. 
A atitude de quem tem fé é uma atitude de humildade, que confere ao pensador 
uma certeza básica, essencial, e lhe dá uma segurança imensa de indagar, de pesquisar, 
de elaborar acerca de tudo o mais. Essa segurança básica falta inteiramente ao filósofo 
que quer raciocinar sem a fé e se perde num verdadeiro labirinto epistemológico sem 
saída. 
Essa segurança confere, também, a quem tem fé – seja um filósofo, um historiador 
ou um simples crente – um bom senso fundamental, por onde é capaz de adquirir certezas 
em muitas coisas evidentes e até primárias da existência humana de todos os dias. 
Já os que não têm fé e se põem a pensar, esses se perdem no emaranhado das suas 
incertezas e, levados pelo mecanismo da lógica formal dissociada das suas premissas 
seguras, chegam a duvidar do que é evidente... e até mesmo daquilo que seus sentidos 
apreendem como realidade objetiva. Em outras palavras, perdem o mais elementar bom 
senso. Por orgulho, rejeitaram toda a submissão em matéria de pensamento e confiaram 
na sua própria capacidade argumentativa; o resultado obtido foi que se tornaram 
incapazes de ter certeza até mesmo daquilo que é tão óbvio que, de acordo com velha 
expressão popular, “entra pelos olhos adentro”. 
As loucuras de tantas escolas filosóficas modernas se explicam dessa forma. 
A sabedoria popular dos vários povos cunhou milhares e milhares de ditados 
simples, de bom senso, frutos de observação e experiência de vida, formulados à maneira 
de refrões ou adágios populares, simples e singelos, mas repletos de bom senso e, no 
sentido mais real do termo, de pensamento filosófico profundo. 
Não é, claro, pensamento filosófico no sentido acadêmico do termo, mas é fruto 
de gerações e gerações de pessoas com bom senso, que aprenderam com a experiência de 
vida e souberam plasmar suas conclusões em formulações lapidares e concisas, por vezes 
beirando a genialidade. Eram pessoas simples, de bom senso, que tinham suas fés, suas 
certezas elementares e básicas. E fizeram bom uso da racionalidade que Deus lhes deu. 
Exemplo típico disso temos nas longas falas de Sancho Pança a seu amo Dom 
Quixote, compostas por ditos populares profundíssimos e muitas vezes engraçados, 
encadeados uns nos outros, numa amostra viva da imensa e inesgotável sabedoria popular. 
Enquanto se manteve o equilíbrio entre Fé e Razão, tudo foi claro, tudo foi lógico, 
tudo foi estável. Sem esse equilíbrio, forçosamente se cai num dos dois extremos: ou 
supor a razão humana ilimitada e infalível, ou duvidar metodicamente de sua capacidade. 
No primeiro caso, cai-se num dogmatismo irracional, no segundo mergulha-se no 
relativismo e chega-se à negação de qualquer certeza racional. No início e no auge da 
Renascença, endeusou-se a razão humana. Já no declinar dessa fase histórica, com 
Montaigne, o cepticismo começou a questionar a própria razão. Desde então, de um ou 
de outro modo, todas as escolas filosóficas “patinaram” na superfície escorregadia da 
Epistemologia, sem nunca alcançarem equilíbrio, segurança e estabilidade. Se não 
tivessem feito da separação entre Fé e Razão o postulado básico da reflexão filosófica, o 
problema epistemológico básico nem se colocaria. Teria prevalecido o bom senso. 
Veremos mais à frente, em certas escolas historiográficas, autores caírem nos dois 
erros. Do exagero de considerar a razão infalível, prevalente por exemplo no iluminismo 
e no racionalismo dos séculos XVIII e XIX, chega-se hoje a certos autores pós-modernos 
que negam até mesmo a possibilidade de o ser humano apreender objetivamente o que 
seus sentidos lhe manifestam! 
 
 
 Dica do professor: 
Você tomou conhecimento, neste tópico, de conceitos básicos de uma 
Antropologia cristã. Compreendeu a razão de ser mais alta da unidade, da fraternidade, 
da liberdade e da dignidade do gênero humano. Haverá relação entre esses conceitos e o 
ensinamento aristotélico sobre Causa Final? Que lhe parece? 
 
 
 
Tópico B – A historicidade dos livros bíblicos 
 
 O primeiro grande mestre cristão que elaborou uma teoria cristã acerca da História 
foi, sem dúvida, Santo Agostinho, Bispo de Hipona (+ 430), com sua obra A Cidade de 
Deus, na qual representa a História da Humanidade como um grande confronto entre duas 
Cidades, a de Deus e a do Homem. Bem mais recentemente, o francês Jacques-Bénigne 
Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux, também teorizou acerca da História com seu livro 
Discurso sobre a História Universal, no qual desenvolve e amplia a visão agostiniana.5 
Ambos, como não podia deixar de ser, tomaram como base para suas considerações as 
Sagradas Escrituras. 
E aqui se coloca a questão: será científico um historiador basear-se nos livros 
históricos da Bíblia? Para os historicistas, claro está que não, já que não passam de relatos 
míticos e não podem ser considerados fontes históricas. 
Que pensar a respeito? 
 
 
5 A obra de Bossuet, muito ampla e diversificada, não é isenta de senões do ponto de vista teológico, pois 
seu autor, inserido no contexto absolutista do reinado de Luís XIV, foi até certo ponto um teórico que 
favoreceu o absolutismo régio e o galicanismo. 
Uma pergunta que desde logo importa responder é qual a autoridade dos livros 
bíblicos do ponto de vista histórico. Não será a Bíblia tão-somente uma obra literária de 
fundo e de inspiração religiosa? 
A Bíblia, além de exprimir para os que nela creem a Palavra de Deus e, enquanto 
tal, constituir uma obra de caráter eminentemente religioso, também é, sem dúvida, uma 
obra literária de grande beleza, com perfeições maravilhosas que o espírito humano pode 
indefinidamente ir aprofundando e sempre encontrará coisas novas. 
No conjunto dos seus 73 Livros inspirados, a Bíblia se revela de beleza, 
profundidade e lógica impecáveis. Tem uma unidade extraordinária e, ao mesmo tempo, 
oferece uma riquíssima variedade de temas e de estilos. Nela se encontram livros épicos, 
líricos, místicos, históricos, jurídicos, de provérbios e ditos curtos etc. Há nela textos 
populares ao alcance de qualquer pessoa, a par de tratados profundíssimos. E, tanto uns 
quanto outros têm uma densidade que desafia os cérebros mais poderosos de todos os 
tempos, que sempre descobrem coisas novas e nunca conseguem chegar ao fundo de tanta 
riqueza escondida. 
Mesmo abstraindo de seus elementos religiosos, a Bíblia fornece abundantíssima 
matéria para considerações de ordem literária. Uma coisa muito importante, entretanto, 
para bem entendermos isso, e para não nos perdermos em falsos dilemas que mais 
desnorteiam do que orientam, é ter presente que a Bíblia não deve ser lida com espírito 
matemático, com a lógica fechada do “2 e 2 são 4”. Isso é verdade numa certa dimensão, 
não porém em outras, que admitem e requerem uma liberdade muito maior. 
É preciso considerar, inicialmente, a diferença enormeque existe entre o espírito 
ocidental (que é o nosso, aquele em que formamos nosso espírito e ao qual estamos 
habituados) e o espírito oriental. Por exemplo, é preciso compreender bem uma coisa 
muito presente nas Escrituras: o midrash. 
O gênero midráxico é difícil de entender para nós, ocidentais, mas para um 
oriental ele é muito normal, muito natural. O ocidental se detém no sentido literal dos 
textos e tende a tomar extremo cuidado para em nada ultrapassar os limites desse sentido 
literal. Já o oriental tende a glosar os textos com liberdade muito maior. Quando se glosa 
alguma coisa, não se repete, pura e simplesmente, a ideia glosada, mas se a desenvolve 
com liberdade, por analogias, por extensão, acrescentando coisas que têm alguma ligação 
com ela. Essa abundância de sentidos analógicos desnorteia, por vezes, uma cabeça 
ocidental como a nossa. Daí o extremo cuidado que se deve ter ao analisar os textos 
bíblicos. 
Neles, e na literatura oriental em geral, os números têm mais valor simbólico do 
que quantitativo e a cronologia é mais entendida por ciclos do que expressa 
aritmeticamente por números exatos. Isso dificulta a intelecção por ocidentais de 
mentalidade cartesiana e racionalista, incapazes de compreender o estilo midráxico 
recorrente na Bíblia. Para nós, ocidentais modernos, os números representam sempre uma 
realidade matemática, aritmética, cada um deles com o seu valor quantitativo e preciso. 
Para os orientais antigos, eles representavam, sobretudo, valores simbólicos. No início do 
evangelho de São Mateus (1, 1-16), lê-se a linhagem genealógica de Abraão até Jesus 
Cristo, em 42 gerações, divididas em três séries de catorze. Um ocidental, quando lê a 
nominata de ancestrais do Messias, imediatamente se põe a fazer contas, a calcular o 
tempo, a verificar cartesianamente se aquela genealogia pode estar realmente correta. Se 
for um espírito crítico e racionalista, quererá apontar, possivelmente, erros na Bíblia, 
contradições com outros fatos da própria Bíblia etc. Para um oriental, entretanto, a reação 
era completamente diferente. Ele contemplava a beleza simbólica da tríplice série de 
ancestrais, ele se encantava com essa beleza, ele provavelmente usava a divisão das três 
séries como recurso mnemônico, e nem sequer se incomodava fazendo contas6. 
É curiosa, sem dúvida, essa diferença profunda entre ocidentais e orientais, mas é 
inegável que ela existe... Ora, a Bíblia, inspirada por Deus, se destina, mediatamente, ao 
gênero humano em todos os tempos e lugares, mas direta e imediatamente foi escrita por 
orientais para orientais. Se não se tem isso em vista, é inevitável que nos percamos pelo 
caminho, interpretando quadradamente trechos que exigem compreensão muito mais 
matizada. 
Esse é um cuidado elementar, que devemos ter não só para podermos apreciar a 
imensa beleza literária da Bíblia, mas também para julgarmos em que sentido os relatos 
bíblicos podem ser entendidos como fontes históricas. Nem tudo na Bíblia deve ser 
entendido em sentido estritamente literal. Há passagens que contêm alegorias, outras são 
de sentido meramente moral, outras ainda devem ser entendidas analogicamente. Os 
diversos sentidos com que os livros bíblicos devem ser interpretados estão expostos com 
toda a clareza no Catecismo da Igreja Católica, ns. 115 a 119. 
A Bíblia, entretanto, é reconhecida como fonte histórica por inúmeros cientistas de 
primeira linha, ainda nos nossos tempos. Desde obras clássicas como a célebre coletânea 
“La Bible, Livre d´Histoire”, do Prof. Daniel Rops, da Academia Francesa e do Instituto 
de França, “The Bible is true”, do arqueólogo britânico Sir Charles Marston, “Histoire 
d´Israël”, de F. Ricciotti, da Universidade Lateranense, outro livro homônimo de Martin 
Noth, da Universidade de Bonn, até obras de divulgação respeitáveis, como “E a Bíblia 
tinha razão”, de Werner Keller, ou “La vie quotidienne des hommes de la Bible”, de 
André Chouraqui, sustentam o valor histórico dos livros bíblicos. Inúmeras descobertas 
arqueológicas igualmente confirmam afirmações históricas contidas na Bíblia.7 
Sem dúvida, uma objeção de peso pode ser feita: sendo muito difícil (para não dizer 
impossível) precisar, historicamente, a época em que foram escritos os numerosos livros 
sagrados que compõem a Bíblia, e até mesmo precisar a autoria individual de cada um 
deles, é também muito difícil negar que tenham eles sofrido influência cultural de outros 
povos anteriores, que também têm, em suas tradições orais ou mesmo escritas, referências 
a um pecado original, a um lost paradise, a um dilúvio, à promessa de um grande 
libertador futuro, a uma torre mítica que estaria na origem da divisão das línguas etc. Na 
ótica desses objetantes, o fato de se encontrarem documentos escritos anteriores, 
documentando que também em outros locais se cultivava análoga crença, basta para 
provar que a Bíblia não pode ter sido origem delas, sendo, pelo contrário, originada por 
elas. Nisso incorrem no famoso paralogismo do “post hoc ergo propter hoc” (em tradução 
livre: se veio depois de algo, é porque foi causado por esse algo), que já estudamos em 
aula anterior. Esse raciocínio, também denominado da falsa causalidade, é errôneo, pois 
não basta algo ser anterior para ser causa de algo posterior. 
 
6 Cfr. SANTOS, A. A. dos. “Como compreender a beleza literária da Bíblia”, A Tribuna Piracicabana, 
Piracicaba, 5/nov/2011, p. 8; ver também DANIEL-ROPS (PETIOT, Henri). Qu´est-ce que la Bible?. Paris: 
Arthème Fayard, 1956; BETTENCOURT OSB, Dom Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Rio de 
Janeiro: Livraria Agir Editora, 1956, p. 61-77. Especificamente sobre o recurso literário do midraxe, 
característico das literaturas orientais, ver KETTERER, Eliane; REMAUD, Michel. O Midraxe. São Paulo: 
Paulus, 1995; e LIMENTANI, Giacoma. O Midraxe: como os mestres judeus liam e viviam a Bíblia. São 
Paulo: Paulinas, 1998. 
7 Ver, por exemplo: DU BUIT, M. Archéologie du peuple d´Israël. Paris: Librairie Arthème Fayard, 
1960; MARSTON, Sir Charles. La Bible a dit vrai. (The Bible is true). (Résultats des fouilles effectuées de 
1924 à 1934 en terre biblique. Paris: Librairie Plon, 1935. 
A crítica literária moderna, dos livros bíblicos, tende a acreditar que o que se 
conhece da Bíblia, na sua composição atual, nem sempre corresponde a uma primeira 
versão escrita por um único autor, mas é muitas vezes o resultado de inúmeras gerações 
de copistas/redatores que fizeram acréscimos, interpolações, cesuras etc. Essa suposição, 
mesmo que verdadeira, de si não desclassificaria a Bíblia como fonte histórica. Por 
análogo processo de múltipla autoria e gradual composição passaram, como é 
reconhecido por todos os estudiosos, obras como a Ilíada e a Odisseia, assim como o 
mesopotâmico Gilgamesh (a mais antiga referência escrita, conhecida até hoje, a um 
dilúvio universal), e nem por isso são sumariamente descartadas ou deixam de ser tratadas 
com respeito por historiadores de todas as tendências. 
É verdade que em boa parte os textos bíblicos somente foram escritos muito depois 
de terem sido compostos e depois de terem sido recitados de memória por sucessivas 
gerações, mas isso não lhes diminui a autoridade. Também outras grandes obras da 
literatura antiga – como a Ilíada e a Odisseia – somente foram escritas depois de serem 
recitadas de memória durante séculos. O mesmo aconteceu com os Livros Sagrados de 
diversas religiões antigas, inclusive com a quase totalidade do Antigo Testamento8. Nos 
primeiros tempos do Cristianismo prevaleceu o antigo costume da oralidade. Jesus Cristo, 
aliás, ordenou aos seus discípulos que pregassem o seu ensinamento, não que o 
escrevessem: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15.) 
E o Apóstolo São João, no final do seu Evangelho, chega a afirmar hiperbolicamente que, 
para escrever todas as coisas que Jesus Cristo fez durantesua vida terrena, “creio que nem 
no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever” (Jo 21,25). 
Seria apriorística e preconceituosa a atitude de um historiador que desconsiderasse 
liminarmente as informações bíblicas porque tomá-las em consideração seria admitir a 
possibilidade de intervenção divina nos acontecimentos – o que por princípio é algo 
anticientífico. Como se viu no tópico anterior, um historiógrafo que parta do pressuposto 
de que absolutamente tudo tem uma explicação natural independente de Deus não age 
como verdadeiro cientista. O próprio da ciência é considerar todas as hipóteses 
explicativas, com espírito aberto, não rejeitando a priori nenhuma delas. 
Parece muito mais equilibrada e razoável a posição de quem prefere supor, como 
consta da Bíblia e de mitologias presentes em culturas de todos os continentes, uma 
origem comum para toda a humanidade e vê, nas variações dessas mitologias, distorções 
explicáveis de um patrimônio cultural que foi comum a todos e a certa altura se perdeu. 
 
8 “Muito antes de ser escrita, parcialmente no tempo de Ezequias e Josias, mas mais completamente no 
século V a. C., quando o escriba Esdras, segundo contam, ditara noventa e quatro dos livros santos, a Bíblia 
do Antigo Testamento fora falada. Sabe-se formalmente que as profecias de Jeremias foram `ditas´ 22 anos 
antes de serem redigidas; os Salmos, os Provérbios, os cânticos nupciais do Cântico dos Cânticos são, com 
toda a evidência, trechos falados ou cantados, só escritos mais tarde. Sucedera o mesmo com os poemas 
homéricos e sabe-se que, em Atenas, Pisístrato se tornara célebre fixando o seu texto por escrito; e o mesmo 
acontecera ainda com o Zend Avesta, livro santo iraniano, `fixado por Zaratustra´; e ainda com o Corão, 
de que o próprio nome inclui a ideia de `palavra recitada´. Mesmo quando o texto sagrado se fixara e 
escrevera, o hábito da transmissão oral do pensamento não se perdera. Há provas numerosas disso. O ensino 
dos rabinos era oral, suas sentenças transmitidas oralmente; o tratado talmúdico Gittin diz mesmo que era 
proibido fixá-lo por escrito. Cerca do ano mil da nossa era, Shérida Gaon afirmava que `os sábios julgam 
que é seu dever recitar de cor´. E aliás a palavra Talmud significa `aprendido de cor´. (...) Num tal sistema, 
a memória desempenhava um papel considerável. Os rabinos ligavam uma importância enorme ao seu 
treino. O rabino Dostraï, filho de Jonaï, dizia em nome do rabino Meir: `O que esquece quaisquer partes 
do que aprendeu causa a sua perda´. E o maior elogio que se podia fazer dum discípulo era `É como uma 
cisterna bem cimentada que não perde uma gota de água´” (Daniel-Rops s/d: 298-299). 
 
Inúmeros dados científicos corroboram essa visão. Desde estudos linguísticos, que 
têm como certa a existência de um idioma primitivo do qual procedem, como de um 
tronco, todos os idiomas e dialetos que hoje conhecemos, até as modernas pesquisas de 
DNA, que demonstram provir todos os seres humanos atualmente existentes, em todas as 
regiões do Globo, de uma origem comum, vale dizer, de um único casal. Esse ancestral 
comum vem sendo chamado, nos meios científicos mais arejados e menos 
preconceituosos, como “o Adão científico”, para distingui-lo, sem dissociá-lo de todo, do 
Adão bíblico. Ou seja, é “um Adão” cuja existência é deduzida cientificamente, 
independente de revelação bíblica e independente de se aceitar ou não a teoria darwiniana. 
Estudos antropológicos também confluem no mesmo sentido. Existem estudos sérios, em 
várias áreas do conhecimento, igualmente coincidentes. 
O caso de Akhenaton, faraó egípcio que viveu no século XIV a.C. e tentou 
introduzir, em seu reino, o culto a um único Deus, costuma ser apresentado, por certos 
críticos modernos que preferem ignorar os relatos bíblicos, como a primeira manifestação 
monoteísta da história da humanidade. Por não aceitarem os relatos bíblicos e negarem 
total caráter histórico a eles, apontam Akhenaton como estando na raiz e na origem de 
todos os monoteísmos conhecidos, incluindo, em ordem cronológica de aparecimento, o 
judaísmo, o cristianismo e o maometismo, e ignorando crenças monoteístas difusas em 
numerosas partes do mundo, inclusive entre tribos indígenas da América do Sul. 
Ora, em lugar de se imaginar que foi ele o criador de uma novidade absolutamente 
inédita até então – a ideia da existência de um único Deus – e de que dele derivam todos 
os monoteístas que vieram depois, inclusive os hebreus, por que não se perguntar se na 
origem da humanidade não estava exatamente o monoteísmo, que este foi cedendo 
terreno, em muitos locais, a formas variadas de politeísmo (precisamente o que está 
afirmado na Bíblia, note-se), e que Akhenaton apenas resgatou parcialmente uma tradição 
primeva? Essa hipótese é muito mais razoável, tanto mais que o próprio Egito, em tempos 
de Akhenaton, convivia com um povo caracteristicamente monoteísta, o povo hebreu. 
Não terá sido, aliás, por influência hebreia que Akhenaton resgatou a tradição 
monoteísta primeva, bem ao contrário da teoria que pretende estar Akhenaton na origem 
da tradição monoteísta da Bíblia? 
Outra alegação muito frequente contra a historicidade dos relatos bíblicos é o caso 
das famosas “deusas-mães” da antiguidade. O culto à Virgem Maria, na Era Cristã, não 
seria senão uma adaptação de cultos pagãos de épocas remotas. 
A esse respeito, cabe referir os estudos do mariólogo francês Jean-Jacques Auguste 
Nicolas (1807-1888), autor de uma obra monumental, em quatro volumes, intitulada “La 
Vierge Marie et le le plan divin - nouvelles études philosophiques sur le Christianisme” 
(Paris, 1852).9 
Esse autor registrou, em suas pesquisas, numerosas mitologias, provenientes de 
várias partes do mundo, acerca de uma Mulher extraordinária, que deveria ter um papel 
eminente na redenção da Humanidade, corrigindo o erro de uma mulher anterior, que 
estaria na origem de todos os males. A explicação mais razoável é que tenha havido uma 
fonte comum a todas elas, como aliás se lê no livro do Gênesis, com o anúncio do 
 
9 Nicolas era leigo, advogado e seguiu carreira como magistrado. Foi diretor do Serviço de Bibliotecas 
Públicas da França, o que lhe assegurava uma facilidade de pesquisas que soube aproveitar do melhor modo. 
Compôs numerosas obras apologéticas, de grande erudição e de reconhecida solidez, algumas das quais 
ainda em nossos dias vêm sendo reeditadas. 
chamado Proto-Evangelho10. Se se descarta, porém, aprioristicamente essa explicação 
como “anti-científica” só porque está na Bíblia, não se consegue chegar a conclusão 
razoável alguma. 
É curioso notar que os povos primitivos das partes mais diversas do globo 
conservaram, em suas tradições orais, reminiscências do Proto-Evangelho, e tais tradições 
chegaram de uma forma ou de outra a muitos povos modernos. 
 
Este oráculo bíblico, observa Nicolas (La Vierge Marie, II, cap. 4), suspenso 
sobre o berço do gênero humano, foi levado pelos homens em suas migrações, 
em sua dispersão pela face da terra; foi alterado, dividido, a ponto de não se 
poder mais reconhecer aí, fora o povo hebreu, senão um vestígio de verdade, 
misturado a fábulas. Mas, nesse vestígio, o que melhor se conservou foi o que 
se referia à Mulher de quem deveria provir o Libertador. 
Todos os povos pagãos, não menos os antigos do que os modernos, em seus 
livros sagrados ou em suas mitologias, em seus ritos ou na boca de seus poetas, 
assim como mostram a mulher como origem de todos os males, também 
invocam e esperam uma Virgem que há de reparar esses males e trazer ao 
mundo seu Libertador. 
Assim, no Tibete, no Japão e em uma parte da Índia, acreditava-se que, para 
salvar a família humana arruinada por uma grande culpa, o deus Fó se haveria 
de encarnar no seio da virgem Lhamoghinprul, a mais bela de todas as 
mulheres. 
Entre os chineses, a deusa Soping-Mu estava destinada adar ao mundo um 
filho, capaz de operar os prodígios mais maravilhosos, e tê-lo-ia de conceber 
ao contato de uma flor. Para os siameses, o deus Sommonokhodon é filho de 
uma virgem, fecundada pelos raios do sol. Para os lamas, a mãe de Buda é a 
virgem Maha-Mahai. E os Brâmanes fazem descender de uma virgem o 
Iagrenat, o salvador do mundo. Assim como os babilônios fazem nascer de 
uma virgem, a virgem Dogda, seu grande profeta Zardascht. Nas Gálias, os 
druidas veneravam a deusa Iside, virgem e mãe do salvador do mundo. Em 
substância, uma tradição idêntica se encontra entre todos os povos e em muitos 
dos autores mais célebres da antiguidade, como Plutarco, Ésquilo e muitos 
outros." (apud ROSCHINI, P. Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: 
Edições Paulinas, 1960, p. 30-31). 
Segundo Nicolas, os povos todos, de uma ou de outra forma, quando se espalharam 
pela terra levaram consigo a lembrança dessa revelação primitiva e a foram modificando 
e adulterando aos poucos. Portanto, a origem desses mitos está na revelação primitiva. 
Essas referências a uma mulher extraordinária, que se revestem de várias formas (virgens 
que dão à luz, deusas-mães etc.) têm, todas, origem no Proto-Evangelho. E não é o 
contrário que se dá, como afirmam hoje em dia muitos autores, que supõem que a devoção 
cristã à Virgem tenha origem na crença pagã das deusas-mães. 
O dilúvio foi algo tão espantoso que deixou tradições orais, mais ou menos 
mitológicas, em povos da terra inteira. Entre os gregos, havia o mito de Deucalião e Pirra, 
o casal que, depois do dilúvio, teria repovoado a terra. Entre os índios do Brasil, havia a 
lenda de Tamandaré, o único índio bom que havia conseguido escapar com vida do 
 
10 Designa-se como Proto-Evangelho o versículo 3,15 do Gênesis, no qual pela primeira vez, logo após o 
pecado de Adão, a serpente é castigada e é feito o anúncio da futura redenção: “Porei inimizades entre ti e 
a Mulher e entre a tua descendência e a descendência dela: ela te esmagará a cabeça e tu armarás insídias 
sob seu calcanhar.” (tradução literal da Vulgata Latina, de São Jerônimo) 
 
dilúvio, flutuando com sua família numa palmeira que as águas não engoliram11. Há, 
ainda, restos fósseis impressionantes, por exemplo, de peixes marítimos em altitudes dos 
Andes. São indícios que nos levam a supor que realmente existiu um dilúvio que, se não 
foi universal, pelo menos atingiu proporções muitíssimo extensas e abrangeu todo o 
gênero humano então existente. 
Flávio Josefo, historiador do povo hebreu que viveu no século I d.C., fala do dilúvio 
e da Torre de Babel. Ele refere algo que não está na Bíblia, mas deve ter chegado até ele 
pela tradição da sinagoga. Segundo ele, os homens orgulhosos, chefiados por Nemrod, 
bisneto de Noé, queriam fazer um monumento que atestasse sua grandeza e que, ao 
mesmo tempo, desafiasse a Deus. Fizeram, pois, uma torre que fosse tão alta que, mesmo 
que Deus mandasse outro dilúvio, eles se salvariam. Na realidade, eles sabiam muito bem 
que não haveria outro dilúvio, pois Deus, que havia declarado formalmente (Gn 8,21) que 
não voltaria a castigar o povo da forma como havia feito no dilúvio, não voltaria atrás de 
suas próprias palavras. Mas fizeram a torre como desafio a Deus. E Deus castigou-os de 
modo inesperado e, ao mesmo tempo, terrível, confundindo suas falas e seus corações.12 
Hoje, estudos linguísticos muito apurados concluem que todas as línguas humanas 
têm uma origem comum. Também existem evidências arqueológicas sobre a existência 
de uma imensa torre, na Babilônia. O que não se tem certeza é se o episódio bíblico da 
confusão das línguas, na construção da torre, é estritamente histórico, ou se é mais bem 
metafórico, devendo ser entendido como tal. Também não se sabe a extensão física do 
chamado dilúvio universal. Ele pode ter atingido a totalidade do gênero humano em um 
determinado momento histórico, sem precisar ter atingido o planeta inteiro. 
 * * * 
Em resumo, os livros históricos da Bíblia são, sim, fontes históricas, mas não podem 
sempre ser entendidos no seu sentido estritamente literal. Entre uma espécie de mal 
entendido fundamentalismo exegético, que não admite outra interpretação que não seja a 
literal, e a rejeição sumária dos livros bíblicos por considerá-los míticos e anticientíficos, 
há que procurar um justo meio termo. Nisso, como em tudo o mais, há que ter bom 
senso.13 
 
 Dica do professor: 
 
11 Cfr. NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Clássica do Brasil. São 
Paulo: Editora Global, 2013, p. 599. A narrativa mitológica dos Tupi, encontrada com diversas variantes 
pelos missionários do século XVI, inspirou ao romancista José de Alencar o capítulo final de seu romance 
O Guarani, quando Peri consegue salvar sua amada Cecília, sobrevivendo ambos à inundação avassaladora 
porque flutuaram sobre uma palmeira arrancada do solo. Sobre as variantes dessa narrativa, encontradas 
em diferentes tribos, ver: MÉTRAUX, A. A religião dos tupinambás e suas relações com a das demais 
tribus tupi-guaranis. Prefácio, tradução e notas de Estevão Pinto. Coleção Brasiliana, vol. 267. São Paulo: 
Companhia Editora Nacional, 1950, p. 93-96, 102-106 et passim. 
12 Cfr. FLÁVIO JOSEFO, História dos Hebreus. São Paulo: Editora das Américas, 1956, vol. I, p. 58-60. 
13 Essa posição intermediária de bom senso, além de corresponder ao ensinamento do Catecismo da Igreja 
Católica (números 115-119), é também corrente entre autores católicos do último século. Veja-se, apenas 
à guisa de exemplo: BETTENCOURT, Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Rio de Janeiro: 
Livraria Agir Editora, 1959; CHARLIER, Célestin. A origem e a interpretação da Bíblia. Lisboa/São Paulo: 
Editorial Aster/Livraria Flamboyant, 1959. 
 
 
A leitura dos livros históricos da Bíblia não apenas proporciona muitos 
ensinamentos, mas também proporciona um agradável entretenimento. Procure ler esses 
livros. Aprenda com eles. 
O Êxodo, as peripécias dos hebreus no Egito e no deserto, a conquista da Terra 
Prometida, os livros dos Reis, os dois livros dos Macabeus, tudo isso encanta. Já a leitura 
de Atos dos Apóstolos, um livro do Novo Testamento, em certas passagens parece até um 
relato de aventuras. 
 
 
 
Tópico C – Alguns textos para reflexão 
 
O Papa Pio XII, a 24 de março de 1957, recebeu em audiência mais de 50 mil 
estudantes de Roma. Proferiu, então, uma alocução sobre diversos problemas relativos ao 
ensino. No tocante à História, assim falou: 
Quando estudais a História, não vos esqueçais de que ela não é simples lista de 
fatos, mais ou menos cruéis ou edificantes, porque é fácil ver nela uma 
arquitetura, que deve ser estudada e aprofundada à luz da Providência Divina 
universal e da incontestável liberdade da ação humana. Em particular notareis 
com que vistas diferentes encararíeis os acontecimentos dos dois últimos 
milênios se os considerásseis como o desenvolvimento da civilização cristã, 
partindo daquilo que foram os humildes primórdios da Igreja, detendo-vos nas 
grandes sínteses antigas e medievais que não foram sobrepujadas, refletindo 
sobre as dolorosas apostasias, mas também sobre as grandes conquistas 
modernas e olhando com confiança para os numerosos sinais de renascença e 
reerguimento. (A.A.S., 49, 1957, n. 5-6, p. 281-287). 
 
Note-se, nesse texto, o equilíbrio entre, de um lado a ação providencial de Deus, 
que tem um plano geral para a História e realmente o executa, e de outro lado a liberdade 
humana. O mesmo equilíbrio já havia sido realçado pelo mesmo pontífice em outro 
discurso, dirigido em 7 de setembro de 1955 aos participantes do X Congresso 
Internacional da Ciências Históricas: 
Catolicismo e historicismo são conceitos antitéticos. (...) O termo historicismo 
designa um sistema filosófico que não percebe em toda a realidade espiritual,no conhecimento da verdade, na religião, na moral e no direito senão câmbio 
e evolução, e rechaça, por isso, tudo o que é permanente, eternamente válido e 
absoluto. Tal sistema é, sem dúvida, inconciliável com a concepção católica 
do mundo e, em geral, com toda religião que reconheça um Deus pessoal. 
A Igreja Católica sabe que todos os acontecimentos se desenvolvem segundo 
a vontade ou a permissão da Divina Providência e que Deus persegue na 
História seus próprios objetivos. Como o grande Santo Agostinho afirmou com 
uma concisão muito clássica: o que Deus se propõe, “hoc fit, hoc agitur; etsi 
paulatim peragitur, indesinenter agitur.” (A.A.S. 47, 1955, p. 672-682) 
 
Com essas palavras latinas, cuja tradução livre é “Isso se faz, isso se realiza; 
embora aconteça paulatinamente, realiza-se sem interrupção”, Santo Agostinho se refere 
à vitória de Jesus Cristo sobre seus inimigos. 
Na História, manifestam-se de modos diferentes o plano geral de Deus e a 
liberdade do homem. Esta se manifesta pela variedade, aquele pela unidade. É o que 
explica outro teórico de uma visão cristã da História, o Pe. Henri Ramière S. J. (1821-
1884), quando comenta a multiplicidade de teorias explicativas da História produzidas 
por historicistas de várias tendências: 
Daí, todas as teorias da Filosofia da História que surgiram nos nossos dias e 
que se multiplicam continuamente (...). Devemos examinar tais teorias e 
devemos até perguntar-nos se existe uma Filosofia da História e quais podem 
ser as leis dessa ciência, supondo que ela existe. Mas, ao contrário dos seus 
autores, não contestaremos aqueles primeiros pressupostos, do qual eles 
também partem. Como eles, queremos que a História seja una; como eles, 
sustentaremos que é regida por grandes leis, cuja aplicação infalível ordena a 
sua aparente desordem. 
Contudo, num ponto não podemos estar de acordo com a maior parte desses 
fabricantes de sistemas: é quando afirmam que a infalibilidade das leis 
históricas é incompatível com a liberdade humana. Para preservar a unidade da 
ciência histórica, subtraem-lhe o seu objeto próprio, ou seja, a atividade livre 
do homem. Para colher o fruto, cortam a árvore. Eis uma loucura que não 
queremos imitar. Para nós, a ciência não é incompatível com o bom senso. 
Antes de mais, reconhecemos a liberdade. Mas, sem diminuir em nada esse 
atributo do homem, ser-nos-á fácil vê-lo dominado pela Providência de Deus. 
É à liberdade humana que atribuiremos a variedade da história, mas, ao mesmo 
tempo, descobriremos a sua unidade nos desígnios da Providência Divina. 
Assim, poderemos salvaguardar as condições essenciais da ciência histórica e 
sustentá-las, seja contra os simples narradores, seja contra os ataques dos 
historiadores filósofos que sacrificam a variedade à unidade. 
Este método, o único inteiramente conforme aos ensinamentos da fé cristã, é 
também o único que reúne, na sua plenitude, os elementos constitutivos da 
ciência. Reúne todas as vantagens dos outros métodos, sem incorrer nos 
inconvenientes que neles apontamos. 
A História pode conservar nos seus relatos todo o interesse e toda a verdade 
atraente do método descritivo; pode possuir toda a segurança da mais rigorosa 
crítica, toda a utilidade da história moral ou política; pode dar a conhecer os 
fatos, estabelecer a autenticidade dos monumentos e a verdade dos 
testemunhos, permitir a compreensão dos homens e atribuir a cada povo o seu 
papel. Objetivos secundários todos eles, mas compreendidos no seu fim 
específico. E quanto mais ela se colocar num ponto de vista superior, tanto 
mais lhe será fácil entender cada um desses aspectos parciais, abarcando 
melhor o conjunto e relacionando mais facilmente a ação dos indivíduos e das 
sociedades particulares com os destinos gerais da humanidade. 
Eis a verdadeira ciência da História em toda a sua grandeza e beleza, tal como 
o cristianismo nô-la revela. (RAMIÈRE, Henri. O Reino de Jesus Cristo na 
História. Porto: Livraria Civilização Editora, 2001, p . 17-18) 
 
 * * * 
 Não é comum, nos cursos de Licenciatura em História, ser exposta uma visão cristã 
da História, em seus aspectos filosóficos e teológicos. Como diferencial do nosso curso, 
desejamos que todos os alunos conheçam essa visão para, com total liberdade, poderem 
compará-la com outras escolas historiográficas. Foi indispensável partirmos da noção de 
uma Antropologia cristã e nos estendermos na explicação de conceitos doutrinários para 
o entendimento de uma Filosofia e uma Teologia da História. É por isso que a presente 
aula foi tão extensa. 
 
 Dica do professor: 
 
O estudo desta Unidade 6 com certeza trouxe, para você, numerosos conceitos que 
não são com frequência focalizados nas escolas. Reflita sobre esses conceitos. São 
reflexões que um historiador e um professor de História devem ter continuamente em 
foco. Anote suas reflexões no seu caderno ou em um arquivo especial, no seu computador. 
De tempos em tempos, releia. Vá, à medida que desenvolve sua formação, completando 
ou corrigindo o que escreveu antes.

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