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Como criar verdades, quando a gente sabe que a verdade é, no fim das contas, 
aquilo que cada um faz dela? 
A busca pela verdade sempre foi tratada como algo quase sagrado. Por 
muito tempo, aprendemos que existia uma única verdade que é objetiva, neutra, 
universal. Mas hoje, com o planeta em colapso, desigualdades escancaradas e 
essa sensação de que o mundo está meio esgotado, fica difícil sustentar essa 
ideia. A tal verdade absoluta já não dá mais conta da complexidade da vida. Talvez 
a grande virada esteja justamente aí: entender que a verdade é construída, não 
descoberta. E que a gente precisa reaprender a construí-la. 
Nesse caminho, escutar se torna essencial. Quando Ailton Krenak, em O 
Amanhã Não Está à Venda, fala sobre o luto que sua comunidade já vivia pelo rio 
Doce antes mesmo da pandemia, ele não está só denunciando uma tragédia. Ele 
está mostrando um outro jeito de estar no mundo, um jeito que não esquece, que 
não se desconecta da Terra. E quando escuta um engenheiro dizer que “é 
impossível parar tudo” pra deixar o rio se regenerar, e responde ironicamente que 
o mundo parou, ele abre uma fissura no discurso dominante. Aquilo que parecia 
impensável, como desacelerar e frear o progresso de repente se tornou real. 
Isabelle Stengers, em Esse Mundo Já Era, vai além: ela lembra que os 
cientistas, sozinhos, não conseguem imaginar todos os impactos éticos e sociais 
da crise climática. Eles precisam da filosofia, da arte, das ciências humanas. A 
razão técnica, por si só, não dá conta. A imaginação, tão subestimada, passa a ser 
uma aliada crucial. Pensar, hoje, não é só fazer conta ou calcular impacto. É 
sonhar com outras possibilidades. Porque, como diz Stengers, o futuro pode nos 
cobrar: “Vocês sabiam, e o que fizeram?” 
E aí a pergunta bate: o que a gente tem feito? 
A filosofia de Deleuze e Guattari, especialmente em Mil Platôs, nos provoca 
a romper com essa lógica linear do pensamento de começo, meio e fim, tudo 
arrumadinho. Eles propõem o rizoma: um jeito de pensar que se espalha como 
raízes ou fungos, em várias direções ao mesmo tempo, conectando tudo com 
tudo. Nesse modelo, a verdade não é mais algo fixo. Ela se torna encontro, 
movimento, afeto. A fotografia, por exemplo, pode ser um desses encontros. Ela 
não explica, mas sugere. Não define, mas nos convida a olhar de outro jeito. 
As imagens feitas por Christian Cravo sobre a tragédia de Mariana são um 
bom exemplo. Ele não mostra só a destruição, ele também revela uma beleza 
estranha, silenciosa, que insiste em permanecer ali, entre os destroços. É como 
se houvesse camadas de tempo congeladas, como em Pompéia. Mas, diferente 
da erupção natural da cidade romana, Mariana foi causada por mãos humana, ou 
seja, por ganância, por descaso. E por isso, é ainda mais brutal. 
Numa das fotos de Cravo, o vazio é quase gritante. A ausência pesa. A 
gente é forçado a parar, a sair do modo automático e encarar aquilo que 
normalmente evita: nossa fragilidade, nossa arrogância, essa mania de achar que 
estamos fora da natureza, quando na verdade somos parte dela. É nesse ponto 
que a fala de Krenak ecoa forte: “Não somos o sal da Terra”. A verdade dura é essa 
— a Terra pode seguir sem a gente. 
 
Na foto que eu produzi, tentei capturar um pouco desse mesmo sentimento 
de pausa. Um instante em que o tempo parece suspenso. Pode ser algo simples, 
mas que, de repente, nos lembra que tudo está vivo, mesmo que a gente não 
esteja prestando atenção. Essa imagem não é um complemento do texto. Ela é um 
convite. Um chamado silencioso para olhar com mais cuidado. 
Criar novas verdades, então, talvez seja isso: aceitar que não existe só uma 
resposta certa. Que o mundo é múltiplo, que a realidade escapa da lógica pura e 
simples. Nietzsche já dizia que a verdade é uma ilusão da qual esquecemos que é 
ilusão. Se for assim, que a gente escolha ilusões melhores. Que sirvam à vida, e 
não à destruição. 
Descolonizar o pensamento, nesse sentido, não é abandonar a razão mas 
colocá-la ao lado da sensibilidade, da ancestralidade, da imaginação. É 
reconhecer que existem outras formas de saber. Saberes que, muitas vezes, são 
mais generosos, mais sustentáveis, mais humanos. Só assim talvez a gente 
consiga criar verdades que ajudem a sustentar a vida, e não a justificar o colapso.

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