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Teoria Geral do Estado Introdução ao Direito Constitucional Ivan Lima Rio de janeiro – RJ 2024 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ESTADO E DIREITO Teoria Monista Teoria Dualística Teoria do Paralelismo TEORIA DA TRIDIMENSIONALIDADE DO ESTADO E DO DIREITO TEORIA GERAL DO ESTADO Conceito Aspectos da Teoria Geral do Estado Fontes de estudo da Teoria geral do Estado NAÇÃO E ESTADO Conceito de Nação Conceito de Estado ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO População Território Governo CONCEITO DE SOBERANIA Teoria da Soberania Absoluta do Rei Teoria da Soberania Popular Teoria da Soberania Nacional Teoria da Soberania do Estado Teorias Alemã e Austríaca Teoria Negativista da Soberania Teoria Realista ou Institucionalista Limitações da Soberania Nascimento dos Estados Extinção dos Estados Princípio das Nacionalidades: Teoria das Fronteiras Naturais: Teoria do Equilíbrio Internacional: Teoria do Livre-Arbítrio dos Povos: Teorias da Origem Familiar Teoria da Origem Patrimonial Teoria da Força Teoria do Direito Divino Sobrenatural Teoria do Direito Divino Providencial Hugo Grotius Emmanuel Kant Thomas Hobbes: John Locke: Panteísmo Neopanteísmo Teoria da Supremacia das Classes Teoria de Léon Duguit Estados Perfeitos e Imperfeitos Estado simples e composto União Pessoal União Real União Incorporada Confederação Estado Unitário Estado Federal Federalismo Orgânico Classificação de Governo conforme Aristóteles Monarquia e República Poder Constituinte Derivado Divisão Formal das Constituições A Doutrina de Montesquieu Classificações dos Direitos Individuais Sufrágio Universal Voto do Analfabeto Sufrágio restrito e censo alto Sufrágio igualitário e voto de qualidade Sufrágio feminino Voto público e voto secreto Direito de voto Eleição direta e indireta Sistemas eleitorais Representação Política Teorias sobre a representatividade política Divisão do sistema representativo quanto à sua natureza Características do Presidencialismo Responsabilidade e “Impeachment” Modalidades do Sistema Presidencialista Mecanismos do Sistema Parlamentarista Contexto histórico resumido Conceito de Democracia Democracia em sentido formal e substancial FINALIDADE DO ESTADO Teorias Individualistas e Totalistas Teoria dos Fins Intermediários UNIDADE SOCIAL E A PESSOA HUMANA Teorias Extremadas e Intermediária ELEMENTOS TEÓRICOS DA CIÊNCIA POLÍTICA Individualismo e Coletivismo Anarquismo SOCIALISMO UTÓPICO OU COMUNISMO O Socialismo Científico de Karl Marx A evolução do socialismo após Marx A FAMÍLIA E A IGREJA O Estado e a Igreja O ESTADO BRASILEIRO Território Brasileiro População Brasileira Forma federativa de Estado Forma de Governo REFERÊNCIAS APRESENTAÇÃO Esta obra é fruto de pesquisa doutrinária e legislativa decorrente da preparação de aulas sobre Teoria Geral do Estado publicadas no canal do youtube (@direitotopicos). Foram cerca de 2 (dois) anos de pesquisas e compilações, com anotações e fichamentos bibliográficos, além da aplicação do conhecimento acumulado ao longo dos anos em vários ramos do direito, em especial no Direito Constitucional. Com uma formação superior em Direito, complementada pela especialização na pós-graduação lato sensu em Direito Público, tive a oportunidade de realizar este trabalho com o devido cuidado para que, mesmo resultando em uma obra simplificada, concluir um material com as informações necessárias no campo da ciência política e essencial para a introdução ao estudo do direito constitucional. O leitor terá a oportunidade, sob uma linguagem simples e direta, de acessar a um conteúdo completo sobre Teoria Geral do Estado, onde poderá aprender os conceitos de Estado e Nação, as teorias aplicadas ao assunto, bem como angariar mais conhecimentos sobre política e formação de Estados. Espero que a presente obra possa favorecer a aprendizagem dos graduandos em Ciências Políticas e em Direito, além daqueles interessados em aprender mais sobre a formação do nosso Estado Brasileiro. Tal conteúdo foi feito de tal forma que não deixasse de fora ninguém, com o intuito de oferecer ao leitor uma linguagem de fácil compreensão e forma objetiva. Felicidade e sucesso a todos! Ivan Lima. INTRODUÇÃO O presente trabalho possui o resultado de pesquisa de mais de um ano, onde foram abordados os principais tópicos necessários para o estudo sobre Ciências Políticas e introdução ao estudo do Direito Constitucional. Dividimos esta obra em vários blocos, iniciando pelo estudo entre o Direito e o Estado, para avançar na análise entre Estado e Nação, passando pelas teorias doutrinárias atinentes à formação do Estado, até culminar na visão final sobre a estrutura política do Estado Brasileiro. Apresentamos também o resultado de pesquisa sobre a relação do homem com o Estado e os princípios aplicados, além da influência da Igreja na formação do Estado. Sob o campo filosófico, adentramos nos estudos sobre o socialismo e o liberalismo, ensejando em uma formação crítica quanto ao melhor entendimento consubstanciado pela doutrina. Diante disso, o caro leitor tem em suas mãos um material completo e simplificado sobre todo conteúdo necessário para uma formação crítica quanto ao estudo sobre Ciências Políticas e Direito, em especial como um material essencial para uma introdução ao estudo do direito constitucional. Tenha uma boa leitura e sucesso nos estudos! ESTADO E DIREITO O Estado e o Direito são dois institutos jurídicos que se interagem um em relação ao outro, ora numa percepção de coexistência, ora sob um viés de independência existencial. A primeira relação que podemos verificar entre o Estado e o Direito é quanto as suas definições, onde Estado é uma organização que se destina manter a ordem social, utilizando-se do direito para essa realização e, o direito, que é o conjunto de condições existenciais da sociedade sob a responsabilidade do Estado. Contudo, a aparente relação pacífica entre estes dois institutos traz um problema quanto a sua representação diante da realidade humana. Não se sabe ao certo se o Estado e o Direito representam uma realidade única ou duas realidades distintas e independentes. Assim, para tentar explicar a melhor solução para esse problema a doutrina nos apresenta três grupos de pensamentos: A Teoria Monista, Teoria Dualística e Teoria do Paralelismo. Teoria Monista A Teoria Monista é também chamada de estatismos jurídico e significa dizer que o Estado e o Direito se confundem numa só realidade. Para os defensores desta corrente só existe o direito do Estado, ou seja, não se admite a ideia de que qualquer regra esteja fora da jurisdição estatal. Assim, para os monistas, o Estado é a única fonte do Direito, porque para eles o Estado, por meio da sua força coercitiva, faz com que o Direito exista. Ihering afirma que não há como haver regra jurídica sem que haja coação, ou seja, um fogo que não queima, uma luz que não ilumina (Maluf, 2018). Enfim, por esta corrente o Direito só existe se for emanado pelo Estado, estando ambos numa coexistência única. Teoria Dualística Esta corrente é também chamada de teoria pluralística, pois sustenta que o Estado e o Direito são realidades distintas, independentes e inconfundíveis. Para essa corrente, o Estado não é a fonte única do Direito, não sendo assim confundido com este. A função do Estado é apenas prover as condições necessárias para que seja possível a efetivação do direito, utilizando-se assim da exclusividade de uma categoria especial de Direito, o direito positivo. Logo, algumas outras normas decorrentes da consciência coletiva, como o direito costumeiro, ensejam em positivação nas regras sociais, devendo o Estado, quando houver casos omissos, acolher essas normas para que lhes deem legitimidade. Diante deste pensamento, o Estado também reconhece e defende direitos não escritos, como o Direito Canônico, entre outros Direitos relacionados às associações menores. O que os dualistas querem dizer é que o Direito não é uma criação estatal, mas sim, uma criação social. Assim, as mutações decorrentes da vida em sociedade, comalemão, que detinha um caráter subversivo, totalitarista e organizado de forma militar, com sua milícia chamada de “Camisas Pardas”. Logo após a entrada em vigor da Constituição de Weimar, o governo instituído dissolveu a câmara dos Deputados da Prússia, convocando novas eleições por meio do Comissário do Reich, ensejando na vitória considerável do Partido Nacional Socialista liderado por Adolph Hitler. Diante deste fato, houve uma profunda transformação política, onde o novo governo criou várias leis de uniformização, objetivando a subordinação direta dos Estados-Membros ao governo federal. Com o falecimento do presidente Hindenburg, houve a sucessão do cargo de presidente do Reich ao Führer e Chanceler do Reich, Adolph Hitler. Assim, com poderes ditatoriais em suas mãos, Hitler extinguiu os demais partidos políticos e todos os demais grupos nacionais que reputava como perigosos para o movimento nazista, e instituiu o Terceiro Reich, com a promessa de reconstruir a Grande Alemanha resultante das sequelas da primeira grande guerra mundial. Logo adiante o Partido Nacional Socialista se fundi no próprio Estado Alemão, fundado em um partido político militarizado. Assim, com tamanho poder de mais alto e incontestável atuação, todas as atividades públicas e privadas estavam sob o seu total controle. Passou então a desenvolver rapidamente a indústria bélica, em conjunto com um plano internacional de diplomacia agressiva, ensejando em um programa de ação que culminou com a Segunda Guerra Mundial. Um dos ideais maléficos do nazismo alemão foi o racismo estrutural que objetivava a exaltação dos vínculos nacionais, como a proteção dos símbolos nacionais e a dignificação da história alemã, com espeque na lei sobre esterilização de 1934 que estipulava a separação entre alemães e não-alemães, em especial entre judeus e alemães, culminando numa ideologia de luta de vida ou morte contra a comunidade judaica. O racismo alemão acabou se constituindo em um racismo político que possui sua base no estado civil e na religião. Toda essa discriminação racial decorreu da crença de que havia uma espécie humana superior na terra, a raça ariana, atribuída ao povo alemão, ou seja, havia um laço de sangue entre estes seres ditos superiores. No que diz respeito à economia, o nazismo consolidou uma forma de comunidade econômica formada por nacionais, onde os atentados contra a economia estatal seriam punidos com morte. Assim, o serviço militar alemão de caráter obrigatório, surgiu como uma forma de estabelecer a prestação de trabalho gratuito para a pátria, entendendo que teria um valor educativo e econômico ao mesmo tempo. Além disso, o Estado nazista defendia a igualdade perante a lei, ou seja, o que se tinha era uma igualdade formal, independentemente das desigualdades entre os indivíduos. Desta forma, em razão do regime ditatorial nazista atuar de forma sectária e intolerante, houve o domínio da personalidade humana por parte do Estado e, com isso, a aniquilação dos valores individuais. Enfim, o nazismo alemão foi além do que chegara o fascismo italiano, pois no nazismo havia a personificação do chefe nazista, seguindo cegamente as diretrizes e comando de um único comandante para o destino comum e nefasto de toda uma coletividade germânica. FORMAS DE ESTADO O Estado é caracterizado por três elementos essenciais: a) População: que pode constituir um Estado nacional ou plurinacional; b) Território: cuja posição geográfica enseja na configuração de um Estado central ou marítimo; e c) Governo. Estados Perfeitos e Imperfeitos Por Estado Perfeito temos aquele Estado que reúne os três elementos constitutivos sem qualquer fragmentação, ou seja, população, território e governo. Neste caso podemos confirmar uma personalidade jurídica de direito público internacional de forma plena. Já o Estado Imperfeito é aquele que, apesar de possuir os três elementos constitutivos, há certa restrição a qualquer um deles. A maior incidência observada é no governo, pois este elemento sofre maior influência da política, porque segue a linha ideológico-política da autoridade governante. O que se quer dizer é que mesmo havendo uma administração própria, muitas vezes tal Estado se sujeita à influência de uma potência estrangeira, impactando na sua soberania. Estado simples e composto O Estado simples é aquele que tem relação com um grupo populacional homogêneo, ou seja, seu território é tradicional e seu poder público se constitui de uma única expressão, resultando em um governo nacional. No que diz respeito ao Estado composto temos que é a união de dois ou mais Estados, constituindo-se de dois polos distintos de governo, mas seguindo um regime jurídico especial, com predominância do governo da união como sujeito de direito público internacional. Aqui temos uma pluralidade de Estados no seu âmbito interno, mas uma unidade diante da comunidade internacional. União Pessoal A União Pessoal é uma forma de estado característica da monarquia, em que dois ou mais Estados se sujeitam ao governo de um só monarca. Em regra, temos neste caso um governo resultante da sucessão hereditária. União Real A União Real é uma forma de estado que também é bem característica com a monarquia, pois há uma união definitiva entre dois ou mais Estados, onde cada um possui autonomia administrativa, ou seja, existência individual, mas se constituindo em uma pessoa jurídica de direito público internacional única. União Incorporada A União incorporada é a união de dois ou mais Estados para a formação de um novo Estado. Temos aqui uma nova entidade resultante da incorporação, tendo como representante internacional um governo único. Confederação A Confederação é a união permanente entre Estados independentes com o intuito de cooperarem para a defesa externa e a paz interna. Nesta forma de Estado, cada Estado membro não sofre qualquer restrição à sua soberania, mantendo inclusive a sua personalidade jurídica de direito público internacional. Podemos conceituar a confederação da seguinte forma: “A confederação é uma forma instável da união política; a união só pode existir enquanto aos Estados componentes convier; os Estados guardam como corolário natural de sua soberania política a possibilidade de, a todo tempo, se desligarem da união, segundo a fórmula os Estados não foram feitos para o acordo, mas o acordo para os Estados”[18]. Estado Unitário O Estado Unitário é um Estado que se apresenta como uma organização política singular, constituindo um governo único com jurisdição nacional plena, ou seja, há apenas divisões internas na ordem administrativa. Estado Federal O Estado Federal é aquele que se divide em unidades políticas autônomas, em que há uma divisão política de direito público no âmbito nacional e no âmbito provincial. A característica principal de um estado federal é o fato de haver uma harmonia, dentro de um mesmo território e sob o governo das mesmas pessoas, a interação de governos federal e estadual. Uma das definições aceita pela doutrina é: “O Estado federal é um Estado formado pela união de vários Estados; é um Estado de Estados”[19]. A doutrina também elenca as características fundamentais do sistema federativo, conforme o modelo norte- americano: a) Distribuição do poder em dois planos harmônicos, federal e provincial: o governo federal atua sob a égide da Constituição, enquanto os Estados-membros exercem os poderes implícitos na competência da União, mas que não lhes são vedados pela Constituição; b) Sistema judiciarista: é a possibilidade de ampliação da competência do poder judiciário, como no caso do Supremo Tribunal Federal, como órgão regulador do equilíbrio federativo e da ordem constitucional; c) Composição bicameral do poder legislativo: ensejando numa representação nacional pela Câmara dos Deputados e uma representação dos Estados-membros pelo Senado; e d) Constância dos princípios fundamentais da Federação e da República: que condiz com as garantias da rigidez constitucional, imutabilidadedos princípios e possibilidade intervenção federal. FEDERALISMO Como vimos, os Estados podem se dividir de diversas formas, mas no que tange ao direito público interno, sua divisão pode se dá como estados unitários e estados federais. O Estado Unitário é aquele em que há uma única organização política, ou seja, sua organização política se dá de forma singular. Neste tipo de Estado há um único governo que possui plena jurisdição nacional, não havendo divisões internas, salvo no que diz respeito às atividades administrativas, ou seja, mesmo sendo dividido em municípios, distritos ou departamentos, o que se têm são apenas divisões administrativas. Já o Estado Federal é aquele em que há uma divisão política autônoma em suas províncias, onde há duas fontes de direito público, o nacional e o provincial. Para Queiroz Lima o Estado Federal “é um Estado formado pela união de vários Estados”. Vemos que o Estado Federal se projeta no plano internacional com uma unidade política. Podemos também ver na doutrina uma definição mais precisa de Estado Federal: “O Estado federal é uma organização formada sob a base de uma repartição de competências entre o governo nacional e os governos estaduais, de sorte que a União tenha supremacia sobre os Estados-membros e estes sejam entidades dotadas de autonomia constitucional perante a mesma união”[20]. Vimos anteriormente que a doutrina vem elencando as características essenciais do Estado Federal como aquelas advinda do sistema federativo segundo o modelo norte-americano: a) Distribuição do poder de governo em dois planos harmônicos; b) Sistema judiciarista; c) Composição bicameral do Poder Legislativo; e d) Constância dos princípios fundamentais da Federação e da República. Nos Estados Unidos o federalismo surgiu da união das treze colônias que estavam sujeitas à dominação britânica no século XVIII, se constituindo inicialmente numa Confederação de Estados em 1781, com o objetivo de fortalecer a defesa em comum. Com o tempo verificaram que a união confederal era instável e precária e que não solucionava os problemas internos, em especial de ordem econômica e militar. Assim, os Estados pactuantes elaboram a Constituição Federal de 1787 e estruturam o federalismo. No Brasil o sistema federal é do tipo orgânico, ou seja, é um sistema federal muito mais rígido. Durante o Brasil-Império o Brasil era um Estado Unitário, dividido administrativamente em províncias. A sua transformação na forma federativa foi se dando paulatinamente, pois diante do território extenso, das variações climáticas e da diversidade étnica, a sua descentralização política foi necessária, possibilitando pelo Ato Adicional de 1834 a concessão de autonomia provincial. Diferentemente do processo de federalismo americano que se deu de fora para dentro, no Brasil tal processo se deu de dentro para fora, ou seja, com a queda do imperialismo central, surge a ideia democrática com viés focado no princípio federativo. Mesmo diante dos esforços para salvar a monarquia, em 1891 foi criada a uma nova Constituição brasileira, que passava a estruturar o federalismo brasileiro segundo o modelo norte- americano. Federalismo Orgânico A federação brasileira é uma federação orgânica, pois há poderes superpostos onde os Estados-membros se organizam conforme à União Federal. As Constituições Estaduais devem se espelhar na Constituição Federal, se subsumindo ao princípio da hierarquia. Uma definição para essa explicação é a seguinte: “A União nada pode fora da Constituição; os Estados só não podem o que for contra a Constituição”[21]. O que se quer dizer é que para os Estados-membros o que se espera é que as suas Constituições estaduais não contradigam as bases essenciais da Constituição Federal. Com o tempo o sistema brasileiro foi se distanciando do sistema norte-americano, se tornando o chamado federalismo orgânico. FORMAS DE GOVERNO Primeiramente, devemos verificar a definição de governo para melhor compreensão do tema. Para Queiroz Lima, governo é o conjunto das funções estatais que asseguram a ordem jurídica. Há três aspectos que devemos considerar no que diz respeito ao direito público interno: a) Governo segundo a origem do poder: cujo poder pode ser o poder de direito ou o poder de fato; b) Governo pela natureza das suas relações com os governados: que poderá ser legal ou despótico; e c) Governo quanto à extensão do poder: que poderá ser constitucional ou absolutista. Assim, com esta introdução vamos verificar o conceito de governo em suas diversas vertentes: a) Governo de direito: trata-se do governo instituído em conformidade com a lei fundamental do Estado, resultante da legitimidade advinda da consciência jurídica nacional; b) Governo de fato: é aquele que se suplanta na sociedade por meio de fraude ou violência; c) Governo Legal: trata-se do governo em conformidade com o direito positivo, ou seja, o Estado se sujeita a seus próprios preceitos jurídicos, resultando numa condição harmônica e socialmente equilibrada; d) Governo Despótico: ao contrário do governo legal, o governo despótico é resultante do arbítrio dos detentores do poder, aplicando no sistema jurídico seus interesses pessoais em detrimento dos interesses coletivos; e) Governo Constitucional: é o governo formado e desenvolvido conforme uma Constituição, ensejando numa divisão de poderes políticos em três funções institucionais distintas, executiva, legislativa e judiciária, garantindo a seus cidadãos a defesa dos direitos fundamentais; e f) Governo Absolutista: é o governo em que se concentra todos os poderes em um só órgão político. No regime absolutista verificamos suas origens nas monarquias de direito divino em que a vontade da lei é a manifestação volitiva do príncipe. Classificação de Governo conforme Aristóteles Aristóteles dividiu as formas de governo em dois grandes grupos: a) Formas de Governo Normais: que possui como objetivo o bem da comunidade; e b) Formas de Governo Anormais: que buscam vantagens exclusivas para seus governantes. As formas normais, também denominadas de formas puras, são classificadas da seguinte forma: a) Monarquia: onde o governo é gerido por uma só pessoa; b) Aristocracia: cujo governo se dá por meio de uma classe social restrita; e c) Democracia: onde governo é entregue à gestão de todos os cidadãos. Já a classificação das formas anormais corresponde, respectivamente, às três formas normais anteriores: tirania, oligarquia e demagogia. Montesquieu aduziu uma identificação clara quanto a esses conceitos aristotélicos citados: a Monarquia deverá ser regida pela Honra; a Aristocracia pela Moderação; e a Democracia pela Virtude. Se faltar quaisquer dessas virtudes estaríamos diante de formas de governo anormais (tirania, oligarquia e demagogia). A essas classificações aristotélicas, alguns autores acrescentam a Teocracia (forma normal de governo sob um prisma religioso) e Clerocracia (governo despótico dos sacerdotes). Agora vamos analisar as duas principais formas de governo. Monarquia e República Esta nova divisão sob a classificação das formas de governo foi dada por Maquiavel, onde temos o seguinte: a) Monarquia: é o governo hereditário e vitalício. Aqui temos uma classificação essencial de monarquia; e b) República: é o governo que se renova mediante eleições periódicas. Ou seja, temos como classificação essencial de república a eletividade e a temporariedade. Queiroz Lima traz algumas características para a Monarquia, que veremos se tratar das características correspondentes às monarquias absolutas: a) Autoridade unipessoal; b) Vitaliciedade; c) Hereditariedade; d) Ilimitabilidade do poder e indivisibilidade das supremas funções de mando; e e) Irresponsabilidade legal, inviolabilidade corporal em sua dignidade. Diante do que vimos até agora, podemos classificar as formasde governo conforme o esquema a seguir: Fonte: MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 2018 Vejamos, então, a definição de cada uma delas: a) Monarquia absoluta: trata-se de uma forma de governo em que todo o poder se concentra na pessoa do monarca; b) Monarquia Limitada: esta é uma forma de governo em que o poder central se divide em órgãos autônomos. Estes podem ser de três tipos distintos: - Monarquia de Estamentos: é aquela em que o Rei descentraliza algumas de suas funções para a nobreza, funcionando como desdobramento do poder real; - Monarquia Constitucional: é aquela em que o poder executivo era exercido pelo Rei, em consonância com os poderes legislativo e judiciário; e - Monarquia Parlamentar: é aquela em que o Rei não exerce função de governo, deixando tal exercício para o Conselho de Ministros, sob responsabilidade do Parlamento. c) República Aristocrática: é o governo regido por uma classe social privilegiada por direito de nascimento ou de conquista. Aqui temos o que era chamado de “governo dos melhores”, constituído pela nobreza; d) República Democrática: trata-se de uma forma de governo em que o poder emana do povo, podendo se dá de duas formas: - República Democrática Indireta (Representativa): onde o poder público se concentra nas mãos de magistrados eletivos, investidos no cargo de forma temporária e com atribuições predeterminadas; e - República Democrática Semidireta (Mista): que consiste em sistema em que o poder da assembleia representativa é restringido, cujo pronunciamento direto de maior importância se dá por meio da Assembleia Geral dos Cidadãos, em especial os assuntos de ordem constitucional. PODER CONSTITUINTE Podemos iniciar conceituando o Poder Constituinte como uma função da soberania nacional, pois o poder constituinte é aquele que constrói, reconstrói ou reformula a ordem jurídica de um Estado. A Constituição é o documento formal em que estão reunidas as regras fundamentais da nação, emanada do poder soberano, por meio de representantes eleitos e reunidos em uma Assembleia Constituinte. A Assembleia Constituinte é a instituição democrática que exerce o poder soberano na sua plenitude, pois se caracteriza pela sua transitoriedade e ilimitabilidade do poder político. Não devemos confundir com as Assembleias Legislativas, pois estas são investidas de poderes já constituídos e possuem poderes limitados pela Constituição. O poder constituinte pode se dá de duas formas: a) Poder Constituinte Originário: é aquele que também é chamado de poder genuíno ou de 1º grau, que se incumbe de constituir o Estado por meio de uma Constituição e tem como característica ser um poder inicial; autônomo; ilimitado juridicamente; incondicionado; soberano; poder de fato e poder político; e permanente; e b) Poder Constituinte Derivado: que também pode ser chamado de poder de 2º grau, que tem a capacidade, que é delegada pelo Poder Constituinte Originário, de emendar, reformar ou modificar a Constituição vigente, realizando alterações parciais em seu texto. O poder derivado tem como características principais ser condicionado; secundário; e limitado. Vamos analisar com mais detalhe o Poder Derivado (Poder Reformador). Poder Constituinte Derivado Trata-se da função estatal de poder reformar ou emendar a Constituição, no curso das legislaturas, dentro dos limites estabelecidos pelo Poder Constituinte Originário. Seu objetivo é reformar parcialmente ou emendar a Constituição, de forma que possa adequar as normas constitucionais à evolução social, econômica e ético-jurídica. Contudo, na ordem constitucional brasileira, algumas estruturas constitucionais básicas são inalteráveis, como no caso da Forma Federativa do Estado, a Forma Republicana do Governo e a Ordem Democrática. Há também limitações temporais como a impossibilidade de emenda à Constituição durante o Estado de Sítio ou em determinados períodos definidos no texto constitucional. CONCEITO DE CONSTITUIÇÃO A Constituição é uma concepção política que na ciência do Estado possui uma dupla acepção: a) Em sentido lato: Constituição é um conjunto dos elementos estruturais do Estado, ou seja, é o compêndio relacionado a sua composição geográfica, política, social, econômica, jurídica e administrativa; e b) Em sentido estrito: é a lei fundamental do Estado, que abrange todo o conteúdo legislativo do Estado, criando limitações ao poder de governo e determinando a forma de sua realização. Toda Constituição que se preze possui um prólogo, ou seja, um preâmbulo. O Preâmbulo é o enunciado político que aponta o conteúdo ideológico e o pensamento político do momento da sua elaboração pela Assembleia Constituinte. O preâmbulo não traz consigo um caráter normativo, pois é apenas um instrumento que serve de norte para o intérprete. Assim, ao ler o preâmbulo, o intérprete tem uma boa noção dos motivos e mobilizações políticas que ensejaram a aprovação das regras e princípios constitucionais, possibilitando uma melhor compreensão do objetivo primordial do poder constituinte originário. O sistema constitucional é um encadeamento normativo que centraliza as normas mais importantes de um Estado, delimitando as regras e limites de competência dos seus poderes políticos e determinando a ação estatal em relação a seus administrados. Há registros históricos da constitucionalização do direito em tempos antigos, como as Leis de Creta, durante o regime jurídico de Atenas na antiga Grécia, que consistia numa ordem constitucional criada pela vontade popular, por meio de leis. Durante a Idade Média também se evidenciou algumas regras constitucionais, em especial no Foral de Leão, de 1188, onde ficou estabelecido o Pacto Político Civil entre os nobres e D. Afonso IX, constituindo a inviolabilidade de domicílio e o direito de propriedade. Além desses exemplos, também temos a Magna Carta dos ingleses, de 1215, e a Bula de Ouro dos Húngaros, de 1222. Esses documentos constitucionais antigos, em especial durante o período medieval, não traziam as mesmas diretrizes ideológicas das Constituições modernas, pois as leis medievais estavam mais voltadas à pacificação entre o príncipe e o povo, não impactando na limitação do absolutismo monárquico. Com a ascensão do Estado Liberal, surgem os primeiros movimentos políticos que ensejaram nas primeiras Constituições escritas que mais se coadunam com os sistemas constitucionais modernos. Com este breve apanhado histórico podemos ver agora o conceito de Constitucionalismo. De acordo com a visão filosófica liberal, o Estado era visto como uma organização jurídica precária, mutável, que era destinada a possibilitar a harmonia entre os pares em um determinado grupo social. Assim, o Constitucionalismo surge como uma ferramenta de formalização daquela filosofia liberalista, ou seja, um meio pelo qual a vontade nacional determina as regras fundamentais do Estado e dos direitos de seus cidadãos, manifestando-se através do poder constituinte. Logo, todas essas regras codificadas em um documento fundamental do Estado, chamamos de Constituição. Nem sempre as Constituições foram escritas, como no caso da Inglaterra, que foi a precursora do sistema liberal constitucionalista, onde todo o sistema estava manifestado em um sistema não escrito, resultante de entendimentos jurisprudenciais ao longo do tempo e vinculados a situações futuras. Assim, as constituições possuem uma classificação doutrinária, cuja divisão passaremos a analisar a seguir. Divisão Formal das Constituições Fonte: MALUF, 2018 a) Constituição Escrita: é aquela que constitui o direito positivado, que também são chamadas de Lei fundamental, lei magna, lei suprema e que podem se dá de duas formas: - Codificada: com ideias e assuntos organizados de forma concatenadas; e - Não Codificada: constituída por meio de leis constitucionais esparsas. b) Constituição Não Escrita: é aquela baseada nos usos, costumes e tradições de uma nação. Elas também podem ser chamadas de constituição inorgânica,costumeira ou consuetudinária. As Constituições escritas podem ser classificadas de quatro formas: a) Imutáveis: que não podem ser alteradas de nenhuma forma; b) Fixas: que, em regra, não podem ser modificadas, somente por meio do poder constituinte; c) Rígidas: que é aquela Constituição que não pode ser alterada por um processo comum de elaboração de leis ordinárias, necessitando para tal de um procedimento mais complexo; e d) Flexíveis: são aquelas Constituições que podem ser modificadas por meio de ato legislativo comum ordinário. No que tange à sua origem, a doutrina tem classificado as Constituições escritas de duas formas: a) Dogmáticas: que também são chamadas de Constituição Popular, são aquelas que o próprio povo elabora e promulga, por meio de representantes eleitos pelo povo; e b) Outorgadas: é aquela que não há manifestação da soberania nacional, sendo editada e posta em vigência de forma onipotente pelo detentor eventual do poder. DIVISÃO DO PODER DO ESTADO A divisão do poder do Estado moderno se dá em três órgãos distintos: legislativo, executivo e judiciário. Tais órgãos são independentes e harmônicos entre si e representam o sistema constitucional instituído. Temos aqui neste tema o que é chamado na doutrina de princípio da divisão funcional do poder soberano, onde o legislativo cuida da elaboração das leis, o executivo a execução do que fora definido em lei e o judiciário se incumbe da solução dos conflitos decorrentes do direito implantado, dizendo o direito e assegurando a realização da justiça. Nos estados antigos e medievais não havia, em regra, uma divisão funcional do poder de governo, concentrando todas as decisões nas mãos do monarca. No entanto, com a evolução do direito, sob um viés liberal, surge a divisão do poder sob o espeque da doutrina de Montesquieu. A Doutrina de Montesquieu Montesquieu foi o autor da obra “O Espírito das Leis”, de 1748, que sistematizou o princípio da divisão das funções estatais com mais afinco. A primeira constituição escrita que adotou a doutrina de Montesquieu foi a Constituição Americana do Estado da Virgínea, em 1776, que acabou por ensejar na Constituição Federal Americana de 1787. Nos dizeres dos Constitucionalistas americanos temos o seguinte: “Quando na mesma pessoa ou corporação, o poder legislativo se confunde com o executivo, não há mais liberdade. Os três poderes devem ser independentes entre si, para que se fiscalizem mutuamente, coíbam os próprios excessos e impeçam a usurpação dos direitos naturais inerentes aos governados. O Parlamento faz as leis, cumpre-as o executivo e julga as infrações delas o tribunal. Em última análise, os três poderes são os serventuários da norma jurídica emanada da soberania nacional”. Logo, diante do princípio de Montesquieu consagrado na Constituição Americana, os norte-americanos criam a ideia do sistema de freios e contrapesos. Contudo, a separação de poderes não pode ser interpretada de forma absoluta no sentido do que cada poder pode funcionar com plena independência e autonomia. Aqui temos uma divisão formal, mas sob a subordinação de um poder único, o poder político originário e central. Temos, então, que o poder de soberania, exercido pelo poder político nas três funções do Estado, deve ser substancialmente uno e indivisível. Os três órgãos estatais separado formalmente, devem exercer a soberania em harmonia, de forma a preservar a unidade política. Assim, a divisão formal e funcional do poder estatal deve repelir a literalidade do termo independente, pois os três poderes são independentes no que diz respeito a sua organização e funcionamento, mas devendo haver harmonia entre si e subordinação mútua para que atenda ao anseio da soberania nacional, utilizando-se assim do sistema de freios e contrapesos para a contenção do poder pelo poder. DIREITOS FUNDAMENTAIS DO HOMEM Vimos as transformações ao longo da história que acabou ensejando no constitucionalismo das políticas de Estado. Com esse constitucionalismo surge um humanismo político, trazendo em decorrência da soberania nacional e do imperativo da Constituição escrita um instrumento que limita a autoridade pública. Esse humanismo político ganhou força durante os séculos XVII e XVIII, quando então dois princípios essenciais se evidenciaram: de um lado a divisão do poder em três órgãos (legislativo, executivo e judiciário) e de outro lado a declaração dos direitos fundamentais da pessoa humana. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão foi editada em decorrência da Revolução Francesa em 1789, cujo primeiro artigo já estampava a presente afirmativa de que “os homens nascem livre e iguais em direitos”. Assim, a Declaração de Direitos sistematiza o Estado Democrático, pois trata-se de um resumo da ciência política autêntica a ser adotada pelo próprio Estado. Nos dizeres de Pontes de Miranda: “As declarações de direitos são partes mais importantes das Constituições; a história das declarações de direitos é a melhor história das regras de fundo; a história delas e de sua prática, a melhor história da liberdade”. A doutrina dos direitos individuais tem seu bojo originário que remonta aos Dez Mandamentos da Lei de Deus, conforme revelado por Moisés no Monte Sinai. Assim dizendo, tais mandamentos divinos serviram como limitadores do poder do governo que se sujeitavam aos escritos sagrados. Nas repúblicas mais primitivas, como as gregas e romanas, havia princípios atinentes à liberdade política, indicando privilégios de cidadania a seus cidadãos. Com a evolução história, os direitos individuais foram angariando importância até serem repetidamente positivados em diversos textos normativos, chegando então a sua inserção constitucional. As revoluções liberais na América do Norte e na França possibilitaram à ascensão da doutrina dos direitos individuais, ensejando na constitucionalização de tais direitos nos moldes clássicos atuais e limitando o poder do Estado. Classificações dos Direitos Individuais De acordo com a doutrina, a Declaração de Direito possui duas partes: a) Direitos políticos: que é a definição da qualidade de cidadão nacional aduzido de suas prerrogativas, possibilitando a aquisição e perda da respectiva nacionalidade e, ainda, constituindo o corpo eleitoral com direitos a uma participação política ativa ou passiva, além de acesso aos cargos públicos; e b) Direitos Fundamentais propriamente ditos: que são os atributos naturais da pessoa humana, que são invariáveis no tempo e no espaço, conforme a ordem natural das coisas, partindo do princípio de que “todos os homens nascem livres e iguais em direitos”. Podemos citar como exemplo desses direitos, a vida, a liberdade, a segurança individual e a propriedade. Enfim, enquanto os direitos políticos são relativos, os direitos fundamentais da pessoa humana podem ser relativos ou absolutos. Os direitos relativos são aqueles que dizem respeitos ao relacionamento que o homem tem na sociedade, como por exemplo, a manifestação de pensamento, da crença ou culto etc. Já os direitos absolutos são aqueles direitos naturais da pessoa humana que não pode sofrer controle estatal, como o pensamento e a crença. Vemos aqui que, diferentemente da “manifestação” de pensamento, trata-se do pensamento como atributo intrínseco humano, ou seja, características pessoais que estão no campo da intimidade da pessoa humana, não possibilitando ao Estado obrigar o indivíduo a pensar diferente do seu íntimo. Enfim, o Estado pode até disciplinar os atos de manifestação do pensamento, mas não pode disciplinar o pensamento em si mesmo. Exemplo: pode haver controle de uma manifestação pública, mas não da crença deste pensamento em si mesma. A doutrina classifica os direitos fundamentais em positivos e negativos: a) Direitos fundamentais positivos: são aqueles em que há uma faculdade de se exigir e obter determinadas prestações do Estado; e b) Direitos fundamentais negativos: são aqueles efetivamente limitadores do poder do estado, impondo a ele uma atitudede abstenção, ou seja, não intervenção. Os direitos fundamentais também podem ser classificados como intraestatais e supraestatais: a) Direitos fundamentais intraestatais: são aqueles direitos variáveis para cada Estado no que tange a sua ordem sócio-ético-jurídica; e b) Direitos fundamentais supraestatais: são os direitos que transcendem para a órbita do jus gentium, ou seja, se impõe a generalização dos direitos a todos os homens e a todos os povos, independente do vínculo nacional que possua. Os direitos dos direitos do homem, em razão da sua supressão por estados tiranos ao longo da história, ensejaram na sua defesa e positivação no campo internacional. No plano supraestatal, sob o apoio da Organização das Nações Unidas, criou-se a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, trazendo uma norma geral para todos os povos e nações, buscando garantir os direitos e liberdades para toda pessoa, devendo sua aplicação independente de raça, cor, idioma, religião, opinião pública, índole econômica ou qualquer outra situação discriminatória, estabelecendo, assim, uma carta de direitos humanos essencial para a defesa dos direitos do homem. Além das normas clássicas positivando os direitos fundamentais do homem pela Declaração Universal, no mundo jurídico atual surgiu novos direitos fundamentais, como o direito à própria imagem, o direito à intimidade pessoal e o direito à informação. O Estado evolucionista social-democrático também teve seu apelo positivado como direitos fundamentais do homem, como o direito ao trabalho, à família, à educação e à cultura, além de exigir uma ação governamental no sentido de obsequiar um programa mínimo de assistência social. Além dos direitos apresentados, também tivemos agregados a tais direitos fundamentais, as garantias fundamentais, como ferramentas para manejar a possibilidade daqueles direitos fundamentais, como o habeas corpus, na garantia do direito de ir e vir, e o habeas data, no sentido de possibilitar o direito à informação pessoal. Enfim, os direitos fundamentais do homem foram se consubstanciando no direito universal, garantindo avanços no mínimo existencial da pessoa humana. Contudo, muito ainda tem que ser feito para que tais direitos sejam de fato universais. SISTEMAS ELEITORAIS Antes de falarmos diretamente sobre os principais sistemas eleitorais, devemos analisar alguns tópicos atinentes ao direito eleitoral, começando pelo conceito de sufrágio universal. Sufrágio Universal O sufrágio universal é o meio pelo qual a vontade do povo é manifestada para a formação do governo. Esse processo consiste em escolher pessoas que exercerão a representatividade política da nação. Assim, sufrágio universal nos demonstra a ideia de uma participação ativa dos cidadãos, dentro de um corpo eleitoral, que possibilita ao cidadão eleito falar por todos. Contudo, no Estado moderno o sufrágio universal não é absoluto, pois há restrições legais de capacidade eleitoral, no que tange a requisitos mínimos de instrução, idoneidade e independência para o exercício pleno da cidadania. No Brasil, por exemplo, não podem participar do pleito eleitoral os estrangeiros não naturalizados, os menores de 16 anos e os conscritos prestando serviço militar obrigatório. Voto do Analfabeto A questão relativa à restrição ao voto do analfabeto remete a questões polêmicas, pois se um Estado se negligenciar na obrigação de prestar uma formação escolar mínima e adequada, como restringir o acesso daqueles que sequer teve oportunidade de estudar? Assim, como dizer que os cidadãos eleitos estariam de fato representando esta classe social? Entretanto, no Brasil, o voto dos analfabetos somente foi admitido no Brasil império, quando o voto não era secreto e era manifestado publicamente. Sufrágio restrito e censo alto Para o exercício do voto, o cidadão deve alcançar a capacidade plena legal, pois as restrições legais abarcam os requisitos necessários para exercício deste direito político. As restrições ao voto podem sofrer afetações tanto no caráter social, econômico quanto religioso, a depender do sistema eleitoral de cada país. O sufrágio universal restrito significa a exigência ao indivíduo de preencher requisitos desproporcionais aos meios sociais e econômicos que passa o país. Por isso, muitas das vezes tal restrição pode decorrer da aferição do grau de instrução se secundário ou superior. Este caso a doutrina tem chamado de Censo Alto ou Sufrágio de qualidade. O objetivo desta segregação por grau de instrução seria proteger a democracia representativa em países que possuam nível geral de cultura muito baixo. Sufrágio igualitário e voto de qualidade Dentro do direito eleitoral temos dois princípios importantes, como o princípio da universalidade e o princípio da igualdade dos sufrágios. O princípio da igualdade dos sufrágios é decorrente do princípio da universalidade, pois podemos deduzir que o sufrágio universal enseja em um sufrágio igualitário. O sufrágio igualitário é aquele em que as democracias aplicam o mesmo valor unitário do voto, independentemente de quem votou. Por outro lado, como vimos, há o voto de qualidade que consiste em um método no qual a qualidade do voto possui um valor múltiplo, ou seja, o voto teria um valor a depender da posição social do votante, sendo incompatível com o princípio da igualdade dos sufrágios. Sufrágio feminino O voto feminino é uma conquista de anos de luta pela igualdade das mulheres. O direito ao voto das mulheres decorre do princípio da igualdade jurídica dos sexos. A luta pela igualdade de direitos ao voto feminino só se concretizou na Constituição Federal de 1934. Voto público e voto secreto No início dos sistemas democráticos o voto era público, ou seja, todos os demais cidadãos sabiam em quem o votante estava escolhendo para representá-lo. Entretanto, este sistema era intimidador e suscetível de corrupção, pois, a depender do status econômico-social do eleitor, este poderia sofrer represálias para a escolha do candidato. Mas com o passar do tempo e viabilizando uma política de igualdade e justiça na escolha dos eleitos, surge o sistema do voto secreto. O voto secreto busca assegurar uma maior liberdade do eleitor, fortalecendo assim o regime democrático. Direito de voto Os teóricos da origem contratual, em especial a escola clássica francesa, sempre defenderam que o voto seria um direito do cidadão, pois tal exercício político seria um ato de soberania nacional. Contudo, os contratualistas entendem que o voto seria uma função social. Devido a essas controvérsias doutrinárias podemos deduzir duas conclusões: a) Voto como direito: sufrágio universal; e b) Voto como função social: sufrágio restrito e qualitativo. Para Leon Duguit, o voto deve ser considerado tanto como um direito individual quanto como uma função social, pois ao mesmo tempo que o cidadão é o titular do direito, este direito estaria também investido de uma função pública. Enfim, o direito decorre do poder de votar e a função social da obrigatoriedade do voto. Eleição direta e indireta A eleição direta é aquela em que os eleitores podem escolher pessoalmente os candidatos. Já a eleição indireta é aquela em que os cidadãos são os eleitores de primeiro grau, que elegerão os seus representantes para eleger os governantes, onde aqueles são chamados de eleitores de segundo grau. Sistemas eleitorais Podemos agora analisar os sistemas eleitorais. Vamos analisar os dois principais deles: a) Sistema majoritário: onde os candidatos são independentes de partidos e passam a ser eleitos se receberem maior quantidade de votos; e b) Sistema proporcional: consiste naquele sistema em que é assegurado para cada circunscrição eleitoral, para variados partidos, um determinado número de membros para preencher as vagas destinadas às assembleias. Harold Gosnell[22] define o sistema proporcional como: “O sistema que visa assegurar um corpo legislativo que reflita, com uma exatidão mais ou menos matemática, a força dos partidos no eleitorado”.SISTEMA REPRESENTATIVO O ideal que se almeja em uma democracia é que a nação por meio de seu poder soberano seja a fonte de todo o poder do Estado, resultando numa espécie de autogoverno, pois seria uma forma de haver uma administração dos interesses do Estado de forma direta pela comunidade nacional. Na democracia pura o governo é direto e, por isso, é realizado diretamente pelo próprio povo, por meio de assembleias públicas e com a participação de todos. Óbvio que esse tipo de democracia remonta às antigas democracias gregas, não mais sendo praticável no mundo moderno. Assim, surge um novo modelo democrático pautado numa democracia indireta, onde temos uma democracia representativa regida por um sistema denominado sistema representativo de governo. Representação Política O mandato político é identificado sob três elementos: a) Mandante: que é aquele ator que elege pessoas para o exercício do poder de governo. Temos aqui que o mandante é o povo nacional, por meio da soberania popular, por seus representantes eleitos; b) Mandatário: é aquele que possui direitos e obrigações fixados nas leis de ordem constitucional, dentro de um controle positivado pela vontade nacional; e c) Mandato: aqui temos o chamado mandato político, que significa o meio legal em que uma pessoa eleita exerce em nome de seus eleitores os direitos e obrigações inerentes ao respectivo cargo político a que foi empossado, conforme as regras normativas vigentes no mandato. Teorias sobre a representatividade política A doutrina analisa a representatividade política sob diversas concepções. Veremos agora as três principais concepções doutrinárias: a) Teoria do Mandato Imperativo: esta teoria surge do liberalismo clássico e que está intimamente ligada ao conceito de direito civil sobre o mandato. Entende-se por esta teoria que o mandato político é o instituto que possibilita a representabilidade do povo em sua totalidade, ou seja, o mandatário tem em si a delegação da soberania nacional, ensejando na liberdade total em decidir sobre os interesses da nação. Assim, por exemplo, um Deputado teria ampla autonomia de ação, em contradição com o princípio de que a soberania é inalienável, intransferível; b) Teoria da Investidura: esta teoria também é oriunda do liberalismo clássico que consiste na ideia de que a representação política não implicaria em transmissão substancial do poder soberano. Nos dizeres de Hauriou[23]: “Delegar alguém é enviá-lo, é conferir-lhe um poder, enquanto investir alguém é dizer-lhe: exercereis o vosso poder próprio, por uma capacidade que vos compete, mas o fareis em meu nome e no meu interesse...”. Enfim, por esta teoria vemos que o poder está na função exercida pelo mandatário, ou seja, no cargo que ele está investido. Vemos neste caso, que a soberania ficaria restrita à função estatal e a pessoa investida do cargo a simples instrumentalidade para se alcançar os fins almejado pelo mandato político. c) Teoria dos Órgãos de Representação: esta teoria é defendida pela escola alemã, que defende que o Estado é uma unidade corporativa e que a sua atividade é realizada por órgãos imbuídos das atribuições políticas. Assim, a vontade dos órgãos é a própria vontade do Estado, conforme assevera Jellinek: “Os corpos representativos são órgãos da vontade do povo”. Contudo, a doutrina tem remetido que a teoria dos órgãos se relaciona com a teoria totalitária da soberania do Estado. Divisão do sistema representativo quanto à sua natureza O sistema representativo quanto à natureza é dividido sob duas concepções, quanto à organização do Legislativo e quanto à composição do Executivo. a) Quanto à organização do Legislativo: - Sistema representativo individualista: é aquele sistema de natureza tradicional, onde os representantes políticos são a própria comunidade de cidadãos. O conjunto de indivíduos integra o corpo eleitoral independentemente de classe ou profissão; - Sistema representativo corporativista: aqui temos uma forma intermediária entre o sistema individualista e o sistema totalitário, pois verificamos que o Estado não é composto de indivíduos isoladamente, nem de uma totalidade absoluta, mas sim, em grupos políticos, econômicos, culturais e espirituais. No sistema corporativista, os representantes sãos eleitos por associações de classes, sindicatos ou corporações, consagrando assim a teoria do institucionalismo, focada no âmbito das questões de caráter social; - Sistema representativo totalitarista: esse sistema pressupõe que o Estado é composto pelo total absoluto de indivíduos numa nação, como uma unidade política de representatividade. Alguns autores entendem que a teoria totalitária se confunde com a teoria corporativa, pois por se tratar de grupalismo e totalismo em posições contrárias ao individualismo, passam a se caracterizar como sistemas antidemocráticos. b) Quanto à composição do Executivo: Veremos neste tópico a divisão formal do sistema representativo: - Sistema representativo diretorial: esse é o sistema em que todo o poder estatal está concentrado no parlamento, ou seja, a função executiva do Estado é exercida por uma junta governamental que é delegada pelo Parlamento. Portanto, o sistema diretorial é de subordinação do executivo diretamente ao legislativo; - Sistema representativo presidencial: é o sistema em que a função executiva fica vinculada ao poder executivo; e - Sistema representativo parlamentar: é aquele sistema em que os poderes de governo ficam nas mãos de um representante eleito pelo parlamento, enquanto o Presidente exerce a representação diplomática do Estado junto à comunidade internacional. SISTEMA PRESIDENCIALISTA Dando continuidade ao estudo sobre o Sistema Representativo, veremos agora com mais detalhe um dos sistemas representativos quanto à composição do Executivo, o sistema presidencialista. O sistema presidencialista surge com os americanos, durante a Convenção da Filadélfia, sendo positivado na constituição federal americana. Este novo sistema possibilitou uma solução prática para os problemas decorrentes dos conflitos políticos das treze colônias americanas durante sua formação na Confederação dos Estados Unidos da América do Norte, centralizando o poder político quando da sua conversão em uma federação. A doutrina vem criticando este sistema político no sentido de considerar que o presidencialismo nada mais seria do que um novo formato para uma monarquia “republicana”, ou seja, no lugar dos princípios monárquicos da vitaliciedade e hereditariedade, surge os princípios da temporariedade e eletividade. De acordo com Summer Maine, acompanhada por João Barbalho, o presidencialismo americano trouxe uma figura de presidência da república nos mesmos moldes da monarquia onipotente do Rei Jorge III da Inglaterra que governava de forma autoritária. Para o Professor Machado Paupério[24] ao concordar com outros doutrinadores, salienta seu ponto de vista quanto ao Presidencialismo da seguinte forma: “Dentro das suas prerrogativas, de preeminência incomparável, é um verdadeiro ditador em estado latente, a impor sempre ao governo a sua própria personalidade. (...) Não é por outra razão que enquanto os Estados parlamentares têm história de partidos, os presidenciais apenas apresentam períodos pessoais de governo”. O que nos traz a doutrina é que o sistema presidencialista é uma transferência do poder soberano para o governo, ensejando no exercício de uma democracia originária, mas não evidenciada de fato. O que deveria ocorrer seria a mínima transferência de poder para os representantes políticos, conforme acrescenta Montesquieu: “Povo soberano deve fazer por si mesmo tudo o que puder fazer bem; e o que não puder, cumpre que o faça por intermédio dos magistrados que eleja”. Assim, o que se espera é que a representação democrática seja limitada e revogável, possibilitando à nação a transferência do poder soberano a seus representantes políticos, mas com a possibilidade de revogar tal transferência no caso de não se ver cumpridas as obrigaçõesdemocráticas. Características do Presidencialismo As características essenciais do presidencialismo podem ser elencadas da seguinte forma: - Eletividade do chefe do Poder Executivo; - Poder Executivo unipessoal; - Participação efetiva do Poder Executivo na elaboração da lei; - Irresponsabilidade política; - Independência dos três poderes de Estado; e - Supremacia da lei constitucional rígida. No sistema presidencialista, o poder executivo exerce uma função de natureza inerente a sua atuação política. Mas além desta função executiva, há também exercícios legislativos que lhes caracterizam, como: - Direito de iniciativa de qualquer projeto de lei; - Direito exclusivo de iniciativa de determinados projetos de lei, de ordens administrativa, econômico- financeira, militar, entre outros; - Competência para praticar os atos conclusivos e integrativos da lei, como promulgação, sanção e publicação; e - Direito de veto. Outra característica importante e muito presente no presidencialismo é a figura do Ministro de Estado. Trata-se de uma função executiva auxiliar de suma importância no presidencialismo, pois os ministros de estado são agentes administrativos que auxiliam o Presidente da República cumprir suas atribuições institucionais. Responsabilidade e “Impeachment” O Presidente da República responde criminalmente pelos seus atos funcionais, que se caracterizam por violações dos deveres constitucionalmente predeterminados e previstos por leis próprias e, além disso, por crimes da legislação penal comum. Mas para tal responsabilização tem certas limitações decorrentes de prerrogativas especiais quanto ao processo e ao julgamento. Assim surge o instituto do IMPEACHMENT, que é uma forma processual de acusação e julgamento dentro de um processo político de responsabilização do presidente da república por seus atos. Para o Professor Lauro Nogueira[25], o impeachment é ao mesmo tempo político e criminal, vejamos: “É político porque visa especialmente despejar do poder um mau funcionário; porque não tem como escopo primordial uma punição; porque não impõe uma pena propriamente dita; porque não traz como consequência, na sua aplicabilidade, a perda da liberdade; e porque é exercitado por dois corpos políticos. É criminal porque, afinal, queira-se ou não se queira, aplica uma pena”. Vale aqui acrescentar que quanto à duração do mandato político, a maioria dos países, como o Brasil, possuem o prazo de quatro anos para o exercício presidencial. Modalidades do Sistema Presidencialista De acordo com a doutrina o sistema presidencialista pode ser visto sob o viés das seguintes modalidades: a) Presidencialismo puro: que apresenta uma divisão radical dos poderes, onde não há interação e equilíbrio entre os poderes políticos instituídos; b) Presidencialismo atenuado: em que se permite a presença dos ministros de estado perante as assembleias legislativas, podendo apresentar as opiniões e providência do Executivo diante dos parlamentares; c) Presidencialismo temperado: que admite uma fiscalização do legislativo junto ao executivo, de forma mitigada, não impactando numa demissão forçada do chefe do executivo; e d) Presidencialismo eclético: onde há a nomeação dos ministros pelo presidente da república, mas com o aval do legislativo. SISTEMA PARLAMENTARISTA Dando continuidade ao estudo sobre os sistemas representativos, vamos estudar agora o Sistema Parlamentarista. Esse sistema teve origem na Inglaterra, em decorrência da luta da liberdade contra a tirania monárquica, em defesa dos direitos do homem. Contudo, o sistema parlamentarista inglês somente se consolidou na reforma eleitoral de 1832. No embalo do sistema democrático inglês, a França também instituiu reformas legislativas, até se adequar ao modelo britânico. As características fundamentais do sistema parlamentarista britânico influenciaram diversos países europeus, que formataram o sistema conforme suas peculiaridades locais. O sistema parlamentarista se caracteriza em partidos políticos organizados, que respondem aos anseios da opinião da maioria e que há uma constante subordinação dos representantes políticos à vontade da nação. O que há neste sistema é uma forma de manifestações legítimas da opinião pública, onde se pode verificar com mais afinco a responsabilidade política, cujo processo é chamado de governo de opinião. Uma outra característica deste sistema é o chamado governo das capacidades, onde há uma seleção natural entre homens de saber e de altas virtudes. Neste caso, não há demagogos e medíocres atuando na política, pois não se sustenta que homens não tenham um mínimo de cultura e de eloquência. Mecanismos do Sistema Parlamentarista No sistema parlamentarista há certos pontos essenciais a se considerar: - Organização dualística do Poder Executivo; - Colegialidade do órgão governamental; - Responsabilidade política do Ministério perante o Parlamento; - Responsabilidade política do Parlamento perante o Corpo Eleitoral; e - Interdependência dos Poderes Legislativo e Executivo. Em um sistema parlamentarista estão presentes os três poderes clássicos: Legislativo, executivo e judiciário. Entretanto, há neste sistema um quarto poder, chamado de Poder Moderador, que é exercido pelo Presidente da República ou pelo Rei. Há no poder executivo uma organização dualística, num lado o exercício de chefe de Estado e outro o de chefe de governo, o primeiro num viés representativo de Estado e o segundo numa responsabilidade governamental ou de gestão. O que se espera é que no Poder executivo propriamente dito seja dependente da confiança nacional, pois deve manifestar conforme tal, enquanto o poder moderador atuaria na falta deste compromisso nacional. Vemos, assim, que há a figura do Chefe da Nação ou Chefe de Estado, na figura do Presidente da República ou do Rei, que não deve se confundir com o Chefe de Governo, que neste caso ficaria na responsabilidade do Primeiro-Ministro. Por fim, podemos aduzir que o parlamentarismo possui uma composição bicameral ou congresso, que é característica de Estados compostos, em especial os Estados federativos. Assim, independentemente do Estado, os Estados possuem seu poder legislativo dividido em duas câmaras, onde há por um lado a representação da soberania nacional e de outro das unidades que integram a união federativa. Entretanto, o sistema parlamentarista tende para uma formação unicameral do legislativo, mas nada obsta uma formação em duas câmaras. DEMOCRACIA Contexto histórico resumido A democracia remonta a tempos antigos, desde as repúblicas gregas e romanas, onde se destacava o Estado ateniense como local das primeiras manifestações democráticas. Naquelas antigas repúblicas, a democracia era idealizada e praticada sob a forma direta, ou seja, o próprio povo exercia a política de forma direta, em assembleias gerais que eram realizadas nas praças públicas. Neste primeiro momento o exercício da democracia era restrito somente a pequenos grupos da comunidade urbana. No mundo moderno, a democracia passou a se manifestar de forma indireta, ou seja, uma democracia representativa. Contudo, preservou-se aqui o princípio da soberania popular, mas com a transferência do exercício político aos representantes ou mandatários da nação. Assim, a democracia e a representação política passaram a ser ideias equivalentes. Conceito de Democracia Para Aristóteles, havia três formas de governo: - Monarquia: governo de uma só pessoa; - Aristocracia: governo da minoria; e - Democracia: governo da maioria. O que se tem entendido é que a democracia moderna é um governo exercido por um corpo eleitoral formado por cidadãos, que transferem os seus direitos políticos a seus representantes, com o objetivo do bem comum. A doutrinaapresenta que o conceito de democracia de Aristóteles como forma de governo não mais convém, pois o que se vê no mundo moderno é a existência de duas formas de governo, a monarquia e a república, ficando, assim, a democracia com um conceito extrínseco ou formal de modalidade da forma republicana; e democracia num conceito intrínseco, como condição comum de qualquer governo, tanto monárquico como republicano. Democracia em sentido formal e substancial Em sentido formal ou estrito, podemos conceituar a democracia como um sistema de organização política onde os interesses coletivos são direcionados nos anseios da maioria do povo, de acordo com as convenções e as normas jurídicas que deem garantias de participação efetiva de todos os cidadãos na formação do governo. Aqui temos a proclamação clássica de que “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Assim, considerando que há um sistema de governo temporário e eletivo, a democracia em sentido substancial é um sistema ou ordem constitucional que se baseia no reconhecimento ou na garantia dos direitos fundamentais da pessoa humana. Somando-se os dois conceitos, formal e substancial, temos que a democracia é um sistema de organização política que deve seguir os seguintes parâmetros: - Todo poder deve emanar do povo e deve ser exercido em seu nome e interesse; - As funções de mando devem ser temporárias e eletivas; - A ordem pública deve ser alicerçada em uma constituição escrita, que consubstancie a tripartição dos poderes políticos; - Deve haver um sistema que possibilite a pluralidade de partidos políticos; - Deve assegurar os direitos fundamentais do homem nos dispositivos constitucionais; - Deve garantir a primazia da igualdade, conciliando as desigualdades humanas; - Assegurar a supremacia da lei como manifestação incontestável da soberania popular; e - Fazer com que os atos dos governantes sejam sujeitos aos princípios da responsabilidade e do consenso para que sejam considerados validados. FINALIDADE DO ESTADO Como vimos, o Estado é formado sob um viés ora político ora autoritário, mas não se pode negar que tal instituição não tenha um caráter finalístico, pois o Estado é uma organização sociojurídica que tem como principais finalidades a concretização da paz, da segurança e da prosperidade de seus nacionais. Entretanto, a doutrina vem negando essa natureza finalística porque, sob um ponto de vista democrático, o Estado seria um fim em si mesmo. Ou seja, o que se quer dizer é que a finalidade dita pertencente ao Estado, na verdade é uma finalidade da nação. Assim, o Estado não seria a finalidade, mas sim o meio pelo qual uma determinada nação se utiliza para se alcançar os fins almejados. Teorias Individualistas e Totalistas Diante daqueles conceitos doutrinários, surgem duas posições ideológicas: de um lado uma concepção ideológica de que o Estado é apenas um meio, ou seja, o Estado existe para servir o homem; e de outro lado a ideia de que o Estado é um fim em si mesmo, onde o homem existe para servir ao Estado. Destarte, temos duas escolas doutrinárias: a) Escola individualista ou liberalista: que entende que o Estado seria “um mal necessário”, para que seja possível a conservação do bem-estar dos indivíduos; e b) Escola Totalitária ou panestatais: que seria a concretização do absoluto, ou seja, o Estado tem um fim em si mesmo e utiliza os indivíduos como meio de atingir sua finalidade. Nesta concepção há a negação da distinção entre Nação e Estado. Teoria dos Fins Intermediários Em uma posição intermediária entre as duas teorias anteriores, surge a teoria dos fins intermediários do Estado, que no entendimento do Prof. Ataliba Nogueira[26], temos: “O fim do Estado é a prosperidade pública ou o complexo das condições requeridas para que, na medida do possível, todos os membros orgânicos da sociedade possam conseguir por si a omnímoda felicidade temporal, subordinada ao fim último. Entre as condições, todavia, ocupa primeiro lugar o gozo da ordem jurídica, tal qual postula a estrutura da sociedade natural; lugar secundário, a abundância suficiente dos bens da alma e do corpo, os quais são necessários para realizar a dita felicidade, coisas estas que se não podem atingir suficientemente com a atividade privada”. Assim, de acordo com esta corrente doutrinária, o Estado tem como finalidade a prosperidade pública, que seria dar condições a todos os homens individualmente ou em grupos sociais, a possibilidade de agir livremente e pela própria atividade na busca de sua felicidade. Enfim, o Estado não seria o fim do homem, pois a missão estatal é o apoio ao homem para conseguir atingir o seu fim. UNIDADE SOCIAL E A PESSOA HUMANA Vimos anteriormente vários assuntos que tratavam da relação entre o Estado e o indivíduo. Verificamos que havia uma dicotomia entre o indivíduo e o Estado, como a liberdade e autoridade, de forma que tais característica se relacionam de forma interdependente. O que se almeja da ciência do Estado é determinar a posição do homem em relação ao Estado, onde ao mesmo havia limites para liberdade individual e para a autoridade estatal. Por um lado, o excesso de liberdade ensejaria numa anarquia e, por outro lado, o excesso de autoridade levaria a um absolutismo do poder. Para melhor compreensão da relação indivíduo e Estado, devemos analisar o homem sob dois aspectos: - Indivíduo (unidade social): que seria uma partícula do organismo social; e - Pessoa (pessoa humana): que é a realidade espiritual. Logo, por essa análise podemos ver que o indivíduo é um membro do corpo social, que possui deveres e obrigações perante o Estado, sendo retribuído com um meio ambiente adequado e com garantias que possibilitam seu desenvolvimento pessoal, em busca da paz e da felicidade. Já como pessoa humana, temos que o indivíduo é dotado de direitos naturais, que seriam de origem divina, não estatal, cujo Estado não possui o poder de outorgá-los ou de suprimi-los. Teorias Extremadas e Intermediária A doutrina tem nos apresentado dois grandes grupos teóricos, um primeiro como uma teoria extremada, constituindo o individualismo e o coletivismo; e de outro, uma teoria intermediária, constituindo o ideal liberal-social. Na concepção individualista, sugere-se que as unidades sociais sejam como o fim do todo, enquanto para a concepção coletivista, deve se levar em conta que o todo é a razão de ser das unidades. Assim, temos as seguintes assertivas sobre essa dualidade doutrinária: - Há uma subordinação da coletividade ao indivíduo: neste caso o indivíduo deve realizar o seu bem utilitário; - Há uma subordinação do indivíduo à coletividade: pois, neste caso, uma parte ordena o todo; e - Deve haver subordinação do coletivo e do Indivíduo: pois assim haverá a realização do homem perfeito, pois ficará clara a natureza humana e o seu somatório com a sociedade. ELEMENTOS TEÓRICOS DA CIÊNCIA POLÍTICA Iremos abordar agora os conceitos sobre o individualismo e o coletivismo, sobre o grupalismo, adentrando no conceito de anarquismo, em especial sua relação com o anarquismo político e o socialismo revolucionário. Individualismo e Coletivismo O individualismo se caracteriza pela ideia de supremacia do indivíduo em relação à sociedade e ao Estado. Já o coletivismo, também chamado socialismo, totalismo ou totalitarismo, é a ideologia política em que o sujeito de direito público é a coletividade, havendo aqui um integralismo, ou seja, uma integridade do grupo nacional. Entre uma concepção e outra, temos o grupalismo, que significa que a sociedade não é um todo de indivíduos, nem de indivíduos isoladamente, pois há nesta concepção a ideia de grupos sociais que integram o Estado, como as famílias, os sindicatos, as corporações, as associações religiosas etc. No campo filosófico, há também duas concepções extremas, como: - O espiritualismo: que é a afirmação da existência da alma e de sua preeminênciasobre o corpo ou a matéria; e - O materialismo: que é a negação da existência da alma e de Deus, sendo este conceito aplicado à ciência política, pelo seu viés filosófico de submeter o indivíduo inteiramente ao Estado. Anarquismo Na linha do individualismo extremado temos o que é chamado de anarquismo. Para essa corrente filosófica, a única realidade seria o indivíduo, pois todas as entidades que buscam limitar o indivíduo, como o Estado, a igreja, a família, não tem razão de ser, porque a sociedade seria um mero instrumento dos indivíduos para a busca da própria satisfação pessoal. Assim, a partir do momento que o indivíduo não obtivesse mais vantagem da sociedade, ele a abandonaria. O que prega os anarquistas é o indivíduo como única realidade, atendo-se a mera conveniência fática, não à sociedade, ou seja, é dependente do equilíbrio egoístico. Desta forma, as alianças sociais seriam meramente utilitárias, efêmeras, onde prevalece a liberdade absoluta do ser. Desta concepção filosófica surgiu o anarquismo político, que é a ideia de um fato social como realidade e sobre essa realidade exerceria a sua ação. O anarquismo político se identificou com o socialismo revolucionário comunista, que considerava o Estado como um mal necessário, para que pudesse alcançar o estágio anárquico ideal. SOCIALISMO UTÓPICO OU COMUNISMO Com a publicação da obra de Tomas More, um filósofo inglês do século XV, De optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia, surge a escola doutrinária voltada à filosofia socialista. Esta obra foi publicada no ano de 1518, por Erasmo, amigo de More, cujo nome da obra foi chamado simplesmente como Utopia. Esta obra traz uma crítica à organização política e social da Inglaterra, entre outros Estados europeus, no que tange à tirania monárquica e aos privilégios e abusos da aristocracia presente naquele momento. Nesse viés filosófico, o direito de propriedade era visto como a origem de todos os males da sociedade e, então, a propriedade deveria ser uma concessão do Estado, correspondendo a um Estado socialista democrático, com reformas substanciais na política e na economia da Inglaterra. No século XIX, em decorrência de diversas obras literárias sobre o tema, as palavras “socialismo” e “comunismo” passaram a ser confundidos no que diz respeito a sua significação. Neste momento, o socialismo passava a ideia de uma ordem comunista superior, que passou a ser denominado de socialismo utópico ao se iniciar a doutrina do socialismo científico. O Socialismo Científico de Karl Marx O socialismo científico também é chamado de marxismo, em decorrência da sua influência doutrinária sobre o assunto. Marx se junto à Frederic Engels, outro utopista da época, que elaboraram a obra “Manifesto Comunista” de 1848, resumindo, assim, os pensamentos doutrinários idealizados por Karl Marx. Logo após a publicação dessa obra, Marx começa a escrever uma nova obra chamada “O Capital”, mas que somente foi concluída por Engels, após o falecimento de Marx em 1883. Marx não considerava o sistema coletivista como um socialismo de Estado, mas sim, um socialismo científico, no qual os fatos e fenômenos sociais, com análise de suas causas e desenvolvimento, chegava-se à possibilidade de prevê uma revolução e uma ditadura proletária. A partir deste ponto, Marx não mais apresenta uma solução política. Diante do desenrolar das doutrinas do socialismo político e estatal que iam se formando, o próprio Karl Marx começou a renunciar a sua própria doutrina marxista. A evolução do socialismo após Marx Após o socialismo científico de Marx, surgiram várias doutrinas, como o socialismo de Estado, também chamado de socialismo integral; o socialismo radical; o socialismo corporativista, também chamado de socialismo sindicalista; o socialismo agrário; o socialismo cristão ou católico, o socialismo democrático; entre outros. Dentre esta espécies de socialismo, se destaca o socialismo de Estado, no qual o Estado perde as características próprias e se transforma em um Estado opressor, em busca de atender os ideais de uma ditadura classista. Para essa doutrina, o Estado absorveria todas as atividades, impedindo inclusive manifestações naturais de religiosidade, em razão de considerar manifestações espiritualistas contrárias a filosofia básica do Estado. Neste sistema, o Estado é regido de forma ditatorial, rechaçando qualquer resistência, em especial naquele momento as forças capitalistas particulares e a burguesia. Em um segundo momento, o Estado deixou de ser um governo de pessoas e passou a adotar um sistema de administração do patrimônio em comum. Enfim, o socialismo de Estado “seria o meio pelo qual se atingiria o fim ideal, que é o comunismo, sonho e miragem dos utopistas”. (Sahid Maluf) Surge neste momento, a teoria da extinção gradativa do Estado, no sentido de que a administração social chegaria a um ponto tal que não seria necessária a existência de um Estado, onde se defendia que haveria uma igualdade absoluta, com um princípio da livre associação ou do livre contrato, do qual os contraentes poderiam revogar a qualquer momento o contrato com o Estado, preconizando assim a apropriação dos capitais pela coletividade e a exploração destes por parte de associações livres e independentes do Estado. Logo, em decorrência desta linha de pensamento, surgiram duas correntes, uma comunista e outra do socialismo integral. A primeira sob um cunho anárquico e a segunda sob a fórmula russa de intervenção do Estado na propriedade particular. A FAMÍLIA E A IGREJA Para compreendermos melhor sobre a dicotomia entre o Estado e a Igreja, vamos começar analisando dois importantes princípios aplicados à sociedade: Princípio da Unidade e Princípio da Pluralidade. De acordo com a Teoria Geral do Estado temos três objetos de estudos: o governo, a sociedade e o Estado. Nesta tríade temos uma divisão teórica que corresponde à política, à sociologia e ao jurídico. De acordo com a doutrina, a sociedade “é a união moral de muitos em busca do bem comum”[27]. Para explicar esta definição surgem duas teorias doutrinárias, a teoria da unidade e a teoria da pluralidade. Pelo Princípio da Unidade Social temos que a sociedade é um corpo orgânico, único e indivisível, subordinando-se a elementos que formam uma ordem comum, que tem como objetivo a busca do bem comum para a realização dos fins humanos. Já pelo Princípio da Pluralidade Social, que também é chamada de Variedade Social, há a classificação das sociedades em perfeitas e imperfeitas (completas ou incompletas, respectivamente). No primeiro caso, são perfeitas no sentido de haver uma complementação recíproca sem qualquer dependência ou subordinação. No segundo caso, são imperfeitas porque há grupos integrantes de uma sociedade maior, que possuem uma associação pautada no direito natural, em que há uma divisão do todo coletivo. Para a doutrina, há dois tipos de sociedades perfeitas: a sociedade civil e a sociedade religiosa. A sociedade civil é caracterizada por sua natureza temporal onde verificamos a união de vários grupos particulares, ou seja, união de sociedades imperfeitas, cujo grupo natural mais importante é o de ordem biológica, a família, que se destaca por se caracterizar como grupos pedagógicos, econômicos e políticos. Numa concepção aristotélica-tomista, a sociedade civil é uma concepção grupalista de democracia cristã e orgânica, representando no campo político uma posição intermediária entre a concepção totalitária de Platão, que não reconhece qualquer subdivisão, e a concepção individualista, que somente considera os indivíduos como unidades do corpo social. Para a Teoria da Pluralidade Social, além da sociedade civil, pode haver outros grupos sociais considerados sociedades perfeitas, pois para esta escola doutrinária, na sociedade humana há duas ordens sociais, uma sociedade temporal e outra intemporal. O que se quer dizer é que o homem na verdade é composto de matéria e espírito, havendo assim um outro lado do direito natural, inclinadoao lado espiritual, a sociedade religiosa. As duas sociedades, civil e religiosa, preenchem o mesmo espaço para a realização de uma dupla finalidade na vida terrena: de um lado os ideais comuns de felicidade do homem no mundo físico; e de outro lado, uma subordinação às leis da natureza e à soberania de Deus, onde o homem acredita que o espírito é eterno e sobreviverá ao corpo, buscando-se assim uma vida transcendental. Enfim, enquanto a sociedade civil se corporifica no Estado, a organização religiosa se corporifica na Igreja. Então, para compreendermos a harmonia entre estes grupos sociais, vamos analisar a interação entre o Estado e a Igreja. O Estado e a Igreja No decorrer da história, os poderes, civil e espiritual, buscaram se sobrepor um ao outro, chegando ao ponto de unificação destas duas autoridades, surgindo assim uma constante luta entre estas entidades, que podemos resumir em quatro momentos históricos: - Indiferença entre o Estado e a Igreja; - Preeminência da Igreja sobre o Estado; - Preeminência do Estado sobre a Igreja; e - Equilíbrio entre ambos os poderes. Algumas soluções foram apresentadas para tentar sanar os problemas de relação entre a Igreja e o Estado. Dentre as soluções temos as seguintes: a) Controle do poder civil pela Igreja: que se daria por meio de uma teocracia; b) Absorção ou eliminação da Igreja pelo Estado: aplicando-se aqui uma religião oficial para o Estado como solução; c) Indiferença do Estado em relação à Igreja: caracterização de um Estado agnóstico, podendo o Estado ser ou não tolerante com a Igreja; e d) Equilíbrio e harmonia entre os dois poderes: possibilitando o convívio harmônico, mas de forma separada, deixando os assuntos políticos positivados pelo Estado sem qualquer subordinação com as regras estabelecidas pela Igreja, e vice-versa. O ESTADO BRASILEIRO Em conclusão a esta obra sobre Teoria Geral do Estado, iremos analisar o Estado Brasileiro sob o aspecto de seu território, população, formação federativa, até chegarmos aos mandamentos constitucionais promulgados em 1988. Antes de adentrarmos nesta análise devemos contextualizar o Brasil na sua formação histórica. No final do Século XVII, o território do Brasil compreendia a faixa litorânea que era limitada ao Meridiano de Tordesilhas. Nesta linha territorial, Portugal passou a colonizar, se expandindo para território adentro, alargando assim sua área de influência política. Em razão disso, com a assinatura dos Tratados de Madrid, em 1750, e o Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, o limite definido pelo meridiano de Tordesilhas foi desconsiderado, admitindo-se assim a expansão territorial do Brasil. Território Brasileiro De acordo com a doutrina majoritária, o Brasil é um Estado de formação originária, pois suas terras não foram resultado de conquistas, anexação ou divisão de território, mas sim dos próprios nativos que entraram no caldeamento do tipo étnico nacional, ou seja, trata-se de um Estado de desenvolvimento natural, isto é, um Estado histórico-geográfico. População Brasileira Com a colonização de Portugal, há o início da formação populacional brasileira. Naquele primeiro momento três raças contribuíram para a formação da população: europeus, africanos e americanos. Com a fusão das três raças, houve a formação de um tipo nacional, resultando em três troncos étnicos: o mameluco (branco com índio); o mestiço ou mulato (branco com negro); e o cafuso (índio com negro). Em razão da existência dessa miscigenação étnica é que se pode concluir por uma raça brasileira homogênea. Contudo, atualmente não há mais como se falar de raça, cor etc, pois a população brasileira é composta de um emaranhado étnico que dificulta sua classificação por biotipos ou raça, devendo ser visto assim como uma etnia humana homogênea. Forma federativa de Estado Nos primórdios da formação do Estado Brasileiro, houve um conjunto de regiões autônomas, trazendo de Portugal a ideia de municipalidades, que tinha certa semelhança com o sistema feudal germânico. Num primeiro momento, no Brasil colônia, houve a divisão política entre dois governos gerais, Bahia e Rio de Janeiro, que não davam conta da imensidão territorial. Mais tarde, houve movimentos políticos para uma maior descentralização do poder, ensejando na criação do regime provincial. Este movimento contrário ao Centralismo, resultou na abdicação de D.Pedro I, que ensejou na promulgação do Ato Adicional em 1834, criando a autonomia das Províncias. Assim, como vimos anteriormente, a formação da federação foi de fora para dentro. O Brasil ainda ficou sob um regime monárquico por 67 anos, até se tornar em República. Forma de Governo Com a Proclamação da República em 1889, o Brasil inicia uma nova forma de governo, reunindo laços de federação com as antigas Províncias, constituindo assim os Estados Unidos do Brasil. Com a instituição da República foi promulgada uma nova Constituição em 1891, que ensejou na primeira eleição para Presidente e Vice-Presidente da República, por meio do sistema indireto pelo Congresso constituinte, os marechais, Deodoro e Floriano. Durante vários anos, entre promulgações e golpes políticos, chegamos à promulgação da Constituição de 1988, também chamada de constituição cidadã. REFERÊNCIAS AGRA, Walter de Moura. Curso de direito constitucional. 9 ed. Belo Horizonte: Fórum, 2018. BRAZ, Jacqueline Mayer da Costa Ude. Teoria geral do direito constitucional. Londrina: Educacional, 2016. COUTO E SILVA, Almiro do. Conceitos fundamentais do direito no estado constitucional. São Paulo: Malheiros, 2015. DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. 33 ed. São Paulo: Saraiva, 2016. LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 22 ed. São Paulo: Saraiva, 2018. MALUF, Sahid. Teoria geral do Estado. 34 ed. São Paulo: Saraiva, 2018. SARMENTO, Daniel. Dignidade da pessoa humana: conteúdo, trajetórias e metodologia. Belo Horizonte: Fórum, 2016. SILVA, José Afonso. Curso de direito constitucional Positivo. 25 ed. São Paulo: Malheiros, 2005. STRECK, Lenio Luiz; MORAIS, Jose Luis Bolzan. Ciência política e teoria do estado. 8 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 15 ed. São Paulo: Saraiva, 2017. [1] apud Maluf, 2018 [2] apud Maluf, 2018 [3] apud Maluf, 2018 [4] Streck e Morais, 2014 [5] Streck e Morais, 2014 [6] apud Maluf, 2018 [7] apud Maluf, 2018 [8]Maluf, 2018 [9]Maluf, 2018 [10] apud Maluf, 2018 [11] Maluf, 2018 [12] apud Maluf, 2018 [13] apud Maluf, 2018 [14] apud Maluf, 2018 [15] apud Maluf, 2018 [16] apud Maluf,2018 [17] apud Maluf, 2018 [18] Queiroz Lima apud Maluf, 2018 [19] Queiroz Lima apud Maluf, 2018 [20] Pinto Ferreira apud Maluf, 2018 [21] João Barbalho apud Maluf, 2018 [22] apud Maluf, 2018 [23] apud Maluf, 2018 [24] apud Maluf, 2018 [25] apud Maluf, 2018 [26] apud Maluf, 2018 [27] Maluf, 2018 INTRODUÇÃO ESTADO E DIREITO Teoria Monista Teoria Dualística Teoria do Paralelismo TEORIA DA TRIDIMENSIONALIDADE DO ESTADO E DO DIREITO TEORIA GERAL DO ESTADO Conceito Aspectos da Teoria Geral do Estado Fontes de estudo da Teoria geral do Estado NAÇÃO E ESTADO Conceito de Nação Conceito de Estado ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO População Território Governo CONCEITO DE SOBERANIA Teoria da Soberania Absoluta do Rei Teoria da Soberania Popular Teoria da Soberania Nacional Teoria da Soberania do Estado Teorias Alemã e Austríaca Teoria Negativista da Soberania Teoria Realista ou Institucionalista Limitações da Soberania Nascimento dos Estados Extinção dos Estados Princípio das Nacionalidades: Teoria das Fronteiras Naturais: Teoria do Equilíbrio Internacional: Teoria do Livre-Arbítrio dos Povos: Teorias da Origem Familiar Teoria da Origem Patrimonial Teoria da Força Teoria do Direito Divino Sobrenatural Teoria do Direito Divino Providencial Hugo Grotius Emmanuel Kant Thomas Hobbes: John Locke: Panteísmo Neopanteísmo Teoria da Supremaciainfluências éticas, psíquicas, ensejam na criação do Direito. Em suma, o Direito é um fato social em contínua transformação, ficando para o Estado unicamente a função de positivar o Direito, devendo transcrever em normas os princípios gerados por aquela consciência social. Teoria do Paralelismo Para essa corrente jurídica, o Estado e o Direito são realidades distintas, mas interdependentes. Esta linha de pensamento adotou a concepção racional da graduação da positividade jurídica, defendida por Giorgio Del Vecchio. Esta tese jurídica reconhece a existência do direito não estatal, que identifica a determinação jurídica dentro e fora da influência do Estado, ou seja, obedecendo uma graduação de positividade. Assim, no que tange a esses centros esparsos do ordenamento jurídico, temos o Estado como o centro de irradiação da positividade. Para Del Vecchio, as normas estatais representam uma razão de conformidade com a vontade social predominante. Diante desta explanação, podemos ver que a teoria do paralelismo completa a teoria pluralista, pois estas teorias contradizem a teoria monista, pois para aquelas correntes o Estado e o Direito são duas realidades distintas que se completam com interdependência. TEORIA DA TRIDIMENSIONALIDADE DO ESTADO E DO DIREITO Vimos anteriormente que dentre as correntes doutrinárias que relacionam o Estado e o Direito, a Teoria do Paralelismo é que é aceita atualmente, por se tratar do equilíbrio entre os extremos das teorias monista e dualista. Com a teoria paralelística há um culturalismo na relação entre o Direito e o Estado, posicionando a concepção do direito em consonância com a vontade social predominante, ensejando numa graduação da positividade jurídica, onde o Estado e o Direito, apesar de serem realidades distintas, possuem uma relação de interdependência. Assim, diante desta concepção de Estado, há o surgimento de um culturalismo que é ampliado com os ensinamentos de Miguel Reale. O eminente mestre explica que culturalismo “integra-se no historicismo contemporâneo e aplica, no estudo do Estado e do Direito, os princípios fundamentais da axiologia, ou seja, da teoria dos valores em função dos graus da evolução social”[1]. Diante desta concepção, Miguel Reale desenvolve a teoria da tridimensionalidade do Estado e do Direito, que resumidamente significa que a realidade estatal é uma síntese ou integração do “ser” e do “dever ser”, cujo fato é integrado na norma que exige um valor a se realizar. O que se quer dizer é que o Estado não se limita a um sistema geral de normas, pois há uma realidade cultural que constitui uma historicidade que decorre da própria natureza social humana, que encontra sua integração no ordenamento jurídico. Assim, o Estado não é apenas uma organização fática do poder público, sendo considerado uma realização do fim da convivência social, pois há nas suas realizações a aplicação harmônica dos três momentos ou fatores: fato, valor e a norma. a) O fato: é a existência de uma relação permanente do Poder, discriminando governantes e governados; b) O valor: significa um complexo de valores em virtude do Poder exercido; e c) A norma: que é o resultado expresso da mediação do Poder para aplicação dos valores na convivência social. Ainda nesta toada, o Estado deve ser visto sob um tríplice aspecto: a) Sociológico: quando se estuda a organização estatal como fato social; b) Filosófico ou Axiológico: quanto se estuda o Estado como fenômeno político-cultural; e c) Jurídico: quando o Estado é visto como um órgão central de positivação do Direito. Enfim, esse assunto aborda conhecimentos do campo jurídico-filosófico, resultando em um campo de estudo bastante abrangente, cujo conteúdo visto neste tópico é suficiente para o objetivo deste trabalho. TEORIA GERAL DO ESTADO Conceito A teoria geral do estado é a parte geral do direito constitucional, ou seja, não se trata de uma ramificação desta área, mas sim o seu próprio tronco dogmático. A ciência política é inerente aos estudos voltados a Teoria Geral do Estado, pois dentro deste campo de estudo devemos ter a política como um de seus focos de análise. A política é uma ciência prática e de valorização e a Teoria do Estado se perfaz por meio de teorias e de forma não valorizadora. Vale ressaltar, a teoria geral do estado não busca a aplicação do que é estritamente político, porque é uma ciência cultural e, para tal, tem um fundo sociológico, com uma finalidade ligada à investigação da realidade da vida estatal. Assim, cabe ao Estado o dever histórico da estrutura e funções em uma sociedade, evidenciando as tendências de sua evolução. Aspectos da Teoria Geral do Estado De acordo com a doutrina, a teoria geral do estado deve ser vista sobre três aspectos, pois esta teoria corresponde a um conjunto de ciências aplicadas à compreensão do fenômeno estatal: a) Teoria Social do Estado: neste primeiro aspecto, devemos ver a análise do surgimento e do desenvolvimento do fenômeno estatal, em razão dos seus fatores históricos, sociais e econômicos; b) Teoria Política do Estado: é a justificativa das finalidades do governo que atua em razão de diversos sistemas de cultura; e c) Teoria Jurídica do Estado: que corresponde à estrutura, à personificação e ao ordenamento jurídico do Estado. Assim, conforme bem observa o Prof. Miguel Reale, a Teoria Geral do Estado pressupõe a Filosofia do Direito e do Estado, não se confundindo entre si. Contudo, o que temos em foco é o Poder estatal como uma realidade social, política e jurídica. Fontes de estudo da Teoria geral do Estado Por fim, temos que as fontes de estudo da teoria geral do estado se classificam em fontes diretas e fontes indiretas: a) Fontes Diretas: são aquelas que compreendem os dados da paleontologia, os dados históricos e as instituições políticas passadas e vigentes; e b) Fontes Indiretas: também chamadas de fontes subsidiárias, elas compreendem o estudo das sociedades animais, o estudo das sociedades selvagens contemporâneas e o estudo das sobrevivências. NAÇÃO E ESTADO A Nação e o Estado são duas situações inconfundíveis, em razão da sua distinção em relação a sua realidade. Vamos começar, então, estudando o conceito de Nação. Conceito de Nação Como vimos a Nação e o Estado são duas realidades distintas, enquanto a Nação é uma realidade sociológica, o Estado é uma realidade jurídica. Assim, podemos dizer que o conceito de Nação é um conceito de ordem subjetiva e o conceito de Estado um conceito de ordem objetiva. A doutrina tem classificada a formação nacional em três fatores: a) Fator natural: que são os territórios, unidade étnica e idioma comum; b) Fator histórico: que são as tradições, costumes, religião e leis; e c) Fator psicológico: que são as aspirações comuns, ou seja, a consciência nacional. Diante desta classificação, podemos verificar que a humanidade é composta de grupos distintos e localizados em regiões globais distintas, mas certas e determinadas. E em cada um daqueles fatores há uma similitude entre os grupos sociais ao longo do globo terrestre, pois cada grupo nacional possui seu fator ético, étnico, histórico, geográfico, político, econômico entre outros. A permanência de cada um dos grupos em sua região com a influência de todos esses fatores, que são peculiares a sua cultura, caracteriza as peculiaridades somáticas e psíquicas dos seus indivíduos, resultando em uma distinção entre aqueles grupos sociais. O clima, a comida, a água e até mesmo a característica do relevo da região, faz com que cada grupo desenvolva uma característica psíquica comum, que resulta numa identificação de uma personalidade coletiva. Daí surge a solidariedade entre os semelhantes, gerando assim uma espécie de parentesco espiritual, ensejando numa comunhão de ideias, sentimentos e aspirações. Enfim, a Nação é anterior ao Estado e é entendida pela doutrina como uma entidade de direito natural e histórico. Assim, para a doutrina, Nação é um conjunto homogêneo de pessoas ligadas entredas Classes Teoria de Léon Duguit Estados Perfeitos e Imperfeitos Estado simples e composto União Pessoal União Real União Incorporada Confederação Estado Unitário Estado Federal Federalismo Orgânico Classificação de Governo conforme Aristóteles Monarquia e República Poder Constituinte Derivado Divisão Formal das Constituições A Doutrina de Montesquieu Classificações dos Direitos Individuais Sufrágio Universal Voto do Analfabeto Sufrágio restrito e censo alto Sufrágio igualitário e voto de qualidade Sufrágio feminino Voto público e voto secreto Direito de voto Eleição direta e indireta Sistemas eleitorais Representação Política Teorias sobre a representatividade política Divisão do sistema representativo quanto à sua natureza Características do Presidencialismo Responsabilidade e “Impeachment” Modalidades do Sistema Presidencialista Mecanismos do Sistema Parlamentarista Contexto histórico resumido Conceito de Democracia Democracia em sentido formal e substancial FINALIDADE DO ESTADO Teorias Individualistas e Totalistas Teoria dos Fins Intermediários UNIDADE SOCIAL E A PESSOA HUMANA Teorias Extremadas e Intermediária ELEMENTOS TEÓRICOS DA CIÊNCIA POLÍTICA Individualismo e Coletivismo Anarquismo SOCIALISMO UTÓPICO OU COMUNISMO O Socialismo Científico de Karl Marx A evolução do socialismo após Marx A FAMÍLIA E A IGREJA O Estado e a Igreja O ESTADO BRASILEIRO Território Brasileiro População Brasileira Forma federativa de Estado Forma de Governo REFERÊNCIASsi por vínculos permanentes de sangue, idioma, religião, cultura e ideais. Antes de avançarmos na matéria e verificar o conceito de Estado, vejamos três conceitos importante para melhor compreensão da matéria: população, povo e raça. a) População: significa um conceito aritmético, quantitativo, demográfico, que define total de indivíduos que vivem em um território sob o império das leis de um determinado país; b) Povo: em sentido amplo, povo equivale à população, ou seja, são os indivíduos que compõem uma nação; e c) Raça: para a doutrina, raça é uma unidade bioantropológica, assim, uma nação pode ser formada de várias raças. Conceito de Estado Podemos neste momento concluir que a Nação é um dos elementos formadores do Estado. Entretanto, a doutrina traz três elementos que constitui o Estado: população, território e governo. A população corresponde aqui ao conceito de nação. Assim, a doutrina define Estado como uma nação politicamente organizada. Isto é, a população, que integra o Estado, necessita de um atributo nacional. Para Bigne de Villeneuve: “O Estado é a unidade política e jurídica durável, constituída por uma aglomeração humana, formando, sobre um território comum, um grupo independente”[2]. Assim, vemos que com um certo amadurecimento político ao longo do tempo, o agrupamento humano desenvolve de alguma maneira o Estado, havendo em certo momento homogeneidade, em razão dos fatores históricos e psicológicos em comum. O Estado deve ser alinhado aos fatores históricos e psicológicos de uma nação, pois caso contrário, como bem observa Giorgio Del Vecchio, um Estado que não corresponda a uma Nação é um Estado imperfeito, ou seja, se o Estado não promover e defender o caráter nacional é um Estado ilegítimo. Hans Kelsen também trouxe à tona a concepção dualística entre o Estado-ideia, ou seja, estado instituição (pertencente à reflexão filosófica), e o Estado histórico, real ou empírico (ligado à reflexão sociológica). Kelsen, aduziu a ideia de que a ciência política deve encarar o Estado sob dois ângulos: primeiro, como objeto de valoração, que quer dizer que o Estado deve ser efetivamente uma realidade social; e segundo, como hipótese, onde o observador deve se guiar pela realidade para entender o Estado. Assim, a doutrina traz diversas definições de Estados. Entre elas temos: a) O Estado é um organismo natural ou produto da evolução histórica; b) O Estado é uma entidade artificial, resultante da vontade coletiva manifestada em algum momento histórico; c) O Estado é objeto de direito, ou seja, conforme verificado por meio das doutrinas monárquicas; d) O Estado é um sujeito de direito, onde podemos verificar a ideia de pessoa jurídica, ou seja, uma defesa doutrinária democrática; e e) Para Leon Duguit, o Estado é uma criação exclusiva da ordem jurídica e representa uma organização da força a serviço do direito. Na doutrina brasileira, se destaca a definição de Clóvis Beviláqua[3]: “O Estado é um agrupamento humano, estabelecido em determinado território e submetido a um poder soberano que lhe dá unidade orgânica”. Enfim, o Estado democrático é apenas uma instituição nacional que tem como objetivo a realização dos fins da comunidade nacional. ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO De acordo com a doutrina, um Estado perfeito é composto por três elementos (população, território e governo), acompanhados de características essenciais, ou seja, uma população homogênea, um território certo e inalienável e um governo independente. Se estiver ausente quaisquer desses elementos, estaríamos diante de um Estado desqualificado. Um exemplo atual é o Canadá por ser subordinado ao governo britânico, por se integrante da commonwealth, deixando de caracterizar com Estado perfeito. Com esta introdução, vamos agora analisar cada um desses elementos. População A população é o elemento humano que compõe o Estado e, por isso, sua característica elementar independe de qualquer justificação. Um ponto divergente na doutrina é quanto ao requisito da homogeneidade. Parte da doutrina entende que por ser a população um núcleo básico para formação do Estado, corresponde a uma unidade ética. Os Estado antigos e tradicionais, por exemplo, foram originários de unidades políticas decorrentes de vários estágios de formação, como a família, a tribo, depois a cidade, até se constituir com Estado. Também há corrente doutrinária que defende que o elemento população visto em sentido amplo e formal é o conjunto de indivíduos de várias origens, que se estabeleceram em um território em caráter definitivo, e assim se organizaram. Como exemplo, destaca-se a nacionalidade italiana que seria o resultado da formação de diferentes povos, como os umbros, samnitas, etrusco etc. Mas, trazendo para uma análise mais aprofundada, vemos que o requisito da homogeneidade da população que constitui o Estado, não se pode considerar a ideia de raça, como um sentido biológico ou antropológico, pois não há como se afirmar uma homogeneidade racial nesse sentido, pois o que se destaca é uma conceituação de nacionalidade, mas num sentido psicossociológico, podendo-se neste caso deduzir a ideia de raça. Outro ponto importante é que os Estados criados de forma arbitrária, em razão de decisões de grupos heterogêneos, sempre resultam em uma existência precária e tumultuada. Já os Estados que surgem originariamente de uma base de população nacional, ou seja, homogênea, são Estados mais estáveis e de longa duração. Giorgio Del Vecchio acrescenta que os Estados plurinacionais ou não nacionais são Estados imperfeitos, pois sua existência só prevalece para legitimar a defesa e promoção de uma unificação nacional. Não podemos deixar de ressaltar que não podemos confundir POPULAÇÃO, em sentido amplo, com UNIDADE NACIONAL, porque a esta só detém legitimidade do poder soberano com direito subjetivo absoluto. Território Este é o elemento físico do Estado que representa o âmbito geográfico da nação, onde há a aplicação do ordenamento jurídico. Sabemos que uma nação, que é uma realidade sociológica, pode subsistir sem território próprio, não necessariamente se constituindo como Estado. Contudo, não há como se falar em Estado sem que se tenha presente o elemento Território. Parte da doutrina, como Leon Duguit, entende que o território não é elemento necessário para que exista o Estado, pois o que se lucubra é que no direito internacional moderno há o reconhecimento da existência de Estado sem território, como no caso do Vaticano. Queroz Lima afirma que o Estado moderno é rigorosamente territorial, pois este elemento físico, além da população e governo, é indispensável para que se configure o Estado. Em razão do poder de jurisdição, parte da doutrina divide o território em três partes: terrestre, marítimo e fluvial, estendendo suas grandezas de jurisdição no suprassolo, o subsolo e o mar territorial. Importante também destacar o ponto de vista de Lenio Streck[4], quando a função do território: “Na tradição, o território desempenha uma função positiva de que tudo e todos que se encontram nos seus limites ficam sujeitos à sua autoridade e uma função negativa de exclusão de toda e qualquer outra autoridade diversa daquela do Estado, sendo regido pelo princípio da efetividade, limitando-se ao espaço físico sobre o qual o Estado efetivamente exerce o seu poder soberano, podendo coexistir a soberania territorial de um Estado com a supremacia territorial de outro”. Governo O Governo é o elemento estatal que representa a soberania nacional. Em sentido positivista, Governo é o conjunto das funções necessárias à manutenção da ordem jurídica e da administração pública. Para Leon Duguit, a palavra governo possui dois sentidos: a) Sentido coletivo: que significa o conjunto de órgãos que exercem a política do Estado; e b) Sentido singular: que significa o exercício do poder executivo, que exerce a função de direção dos negócios públicos. A doutrina traz vários pontos de vista que ensejam na conceituação de governo,mas todas elas definem governo como o exercício do poder soberano. Por isso, há parte da doutrina que sugere que os elementos constitutivos do Estado seria população, território e soberania. Há também corrente doutrinária que propõe a soberania como um quarto elemento, mas é refutada essa ideia em razão de se entender que a soberania é simplesmente a força geradora e justificadora do elemento Governo. CONCEITO DE SOBERANIA Vimos anteriormente que o Estado possui três elementos constitutivos: população, território e governo. Vimos ainda que alguns autores entendem que a soberania seria um quarto elemento, contudo, fundamento este que não prospera, pois a soberania já faz parte do próprio conceito de Estado, ou seja, um Estado sem soberania não é Estado. A soberania não está limitada a nenhum outro poder, pois é uma autoridade superior, ou seja, a soberania é uma só, integral e universal, não havendo a possibilidade de sofrer qualquer tipo de restrição, a não ser se tal exercício de poder comprometa a convivência pacífica entre as nações soberanas no plano do direito internacional. Conforme a doutrina enfatiza: “A noção de soberania emerge quando há a consciência da oposição entre o poder do Estado e outros poderes”[5]. Assim, vamos estudar as teorias que buscam conceituar a soberania. Teoria da Soberania Absoluta do Rei Essa teoria surgiu na França, no século XVI, cujo téorico mais destacado foi Jean Bodin[6] que pregava que: “A soberania do rei é originária, ilimitada, absoluta, perpétua e irresponsável em face de qualquer outro poder temporal ou espiritual”. Vemos que o fundamento desta teoria é histórico, pois utiliza-se de raízes monárquicas antigas fundadas no direito divino dos reis. Em decorrência desta corrente de pensamento, surge a doutrina da soberania absoluta do rei nas monarquias medievais, onde as monarquias absolutistas eram predominantes. Teoria da Soberania Popular Pela teoria da soberania popular, defendida por boa parte da doutrina, entende-se que na forma da teoria do direito divino providencial, o poder público vem de Deus, infundindo-se com a inclusão social do homem e resultando na necessidade de um governo. Assim, o poder civil corresponde à vontade de Deus, mas que é legitimado pela vontade popular. Desta teoria, surgiu a ideia de que o poder real era uma soberania constituída, como uma existência de um poder maior, exercido de certa maneira pelo povo, denominado pela doutrina como soberania constituinte. Teoria da Soberania Nacional Pela teoria da soberania nacional se entende que o poder não pertence ao Rei, mas sim ao Estado, pois cogita-se que é um princípio, uma tradição, onde o Monarca seria apenas um depositário do poder estatal. Assim, para esta corrente o órgão governamental só exerce legitimamente o poder sob o consentimento nacional. Vemos aqui que esta corrente é nacionalista, pois defende que a soberania é originária da nação, em sentido estrito de população nacional, o povo nacional, onde os direitos de soberania são exercidos apenas pelos nacionais ou nacionalizados. Vale ressaltar que a teoria da soberania nacional difere da teoria da soberania popular, no sentido de que a teoria da soberania popular o que se entende é o exercício do poder soberano também em relação aos estrangeiros residentes no país. Em suma, para os defensores desta teoria, a soberania seria una, indivisível, inalienável e imprescritível. Teoria da Soberania do Estado Por esta teoria, a soberania é a capacidade que o Estado possui de autodeterminação por seu próprio e exclusivo direito, ou seja, a soberania é uma qualidade do poder do Estado, uma qualidade do Estado perfeito. Assim, o Estado é anterior ao direito e sua fonte é única. Teorias Alemã e Austríaca Para estas escolas de pensamento, que possuem como defensores Jellinek e Hans Kelsen, o que se verifica é a estabilidade integral do Direito, pois a soberania é estritamente jurídica, sendo o direito do Estado um direito absoluto, sem qualquer tipo de limitação. Essa doutrina sustenta que só existe o direito estatal, ou seja, o direito criado pelo Estado. Enfim, já que a soberania é um poder de direito e todo direito provém do Estado, toda forma de coação impelida pelo Estado é legítima, pois o que se busca é a realização do direito como forma de vontade soberana do Estado. Teoria Negativista da Soberania Pela teoria negativista da soberania, podemos observar que possui natureza absolutista. A soberania aqui é vista como uma ideia abstrata, pois não existe de forma concreta. O que temos na realidade é simplesmente a aceitação da existência da soberania. Para essa corrente o Estado, nação, direito e governo compõem uma única realidade, isto é, não há direito natural nem qualquer outra forma de norma que não tenha sido criada pelo próprio Estado. Para Leon Duguit[7], a soberania é “um princípio ao mesmo tempo indemonstrado, indemonstrável e inútil”. O que ele quis dizer é que a negação da soberania leva a um resultado óbvio, ou seja, reforça a legitimidade da força pelo Estado. Teoria Realista ou Institucionalista Esta é uma teoria moderna que defende que a soberania é oriunda da Nação, mas se consubstanciando de forma expressa e concreta com a positivação institucionalizada pelo órgão estatal. Assim, a soberania é originariamente da Nação, mas com normatização definida pelo Estado. Diferentemente das teorias absolutistas e da soberania nacional, a teoria realista defende que a soberania é um poder relativo, pois está sujeita a limitações normativas. Limitações da Soberania Podemos aferir que a soberania é limitada pelos princípios de direito natural ou da coletividade, bem como pela coexistência pacífica entre povos no plano do direito internacional. Assim, podemos verificar tais limitações da soberania entre três planos: a) Limitação pelos princípios de direito natural: onde o Estado serve apenas como instrumento de organização do direito, possuindo legitimidade no que diz respeito às leis eternas e imutáveis da natureza; b) Limitação pelo direito grupal ou coletivo: cujo Estado é responsável pela segurança do bem comum, competindo-lhe garantir a coordenação da atividade e respeito de cada grupo que integra a sociedade civil; e c) Limitação pelo princípio da coexistência pacífica das soberanias: aqui temos o respeito entre as nações que integram uma ordem mundial, cujo poder de autodeterminação de cada uma é limitado pelos imperativos de preservação e sobrevivência das demais soberanias. NASCIMENTO E EXTINÇÃO DOS ESTADOS Nascimento dos Estados De maneira singela, podemos dizer que um Estado surge quando presentes seus três elementos essenciais: população, território e governo. Entretanto, esses elementos por si só não provocam o surgimento do Estado. É necessário algo mais para que haja união entre aqueles elementos e assim se vislumbrar o Estado propriamente dito. É sabido pela doutrina que os primeiros Estados surgiram de forma natural com a evolução das sociedades humanas. Primeiramente houve o surgimento de comunidades primitivas até avançar para uma formação política que conhecemos hoje. Mesmo em comunidades primitivas já existiam regras de comportamento para o convívio harmônico entre seus indivíduos, mas tal comportamento social era regido pelo direito natural. Nesta linha de pensamento, confirmamos a diferenciação entre Nação e Estado, onde Nação é a entidade de direito natural e o Estado a entidade de direito positivo. Assim, vemos que a Nação subsiste independentemente da existência de Estado, ou seja, diante da possibilidade e extinção de um Estado, sempre haverá a possibilidade de seu ressurgimento sob uma nova roupagem. A morte do Estado pode se dá por diversos fatores, mas o mais comum é em virtude da resistência a sua estrutura, apoiada em sua força, que alguns caso gera descontentamento entre seus administrados, ensejando em sua derrubada. De acordo com a doutrina o estado nasce de três modos: originários, secundários e derivados. Vamos ver cadaum desses. Modo Originário É aquele que independe de qualquer fator externo, pois o Estado surge do próprio meio nacional. Modo Secundário Este tipo de Estado decorre de uma nova unidade política, podendo nascer da união ou da divisão de Estados, como por exemplo, a confederação, a federação, a união pessoal e a união real. Vejamos cada uma destas: a) Confederação: é a união de países independentes, que possuem objetivos de interesse comum, buscando o fortalecimento da defesa e a cooperação mútua; b) Federação: é uma união mais próxima, perpétua e indissolúvel em que há uma só pessoa de direito público que representa as províncias no âmbito internacional; c) União Pessoal: é o caso de uma união de dois ou mais países, onde há uma representação monárquica, havendo, neste caso, uma unidade governamental. Tal união possui natureza precária, transitória, pois sua manutenção depende exclusivamente de eventuais direitos sucessórios ou convencionais; e d) União Real: que significa uma união efetiva, com natureza permanente, entre dois ou mais países que formam uma única pessoa de direito público internacional. A União Real pode ser dividida em: Divisão Nacional e Divisão Sucessoral. Cuja Divisão Nacional é aquela que decorre da independência de uma região ou província que integra um Estado, formando-se assim uma nova unidade política e, a Divisão Sucessoral, aquela que é típica das monarquias medievais, onde o Estado é propriedade da monarquia. Modo Derivado Neste caso, o surgimento do Estado decorre de movimentos externos, que podem ser: colonização, concessão dos direitos de soberania e ato de governo. a) Colonização: é a forma de povoamento de terras alheias por povos estranhos à região, formando um sistema político vinculado ao colonizador; b) Concessão dos Direitos de Soberania: sistema muito comum na Idade Média, onde os monarcas concediam direitos de autodeterminação aos seus principados, ducados, condados; e c) Ato de Governo: é a forma pelo qual um novo Estado nasce, em decorrência de uma simples vontade de um conquistador ou de um governante absoluto. Extinção dos Estados De modo geral, um Estado desaparece quando ausentes quaisquer dos seus elementos essenciais: população, território e governo. Contudo, havendo uniões e divisões de Estados, também estaríamos diante de desaparecimento de Estados. Vejamos alguns casos que ensejam a extinção dos Estados: a) Conquista: havendo desorganização ou enfraquecimento de sua organização, um Estado está sujeito à violação de sua soberania por outro Estado, utilizando-se para isso o uso da força ou por meio de movimentos separatistas internos; b) Emigração: pode ocorrer a extinção do Estado, caso haja um movimento muito grande de uma população nacional, se estabelecendo no território do Estado invadido, pois, neste caso, haverá um conflito entre nações em um mesmo território; c) Expulsão: quando ocorre o uso de forças conquistadoras, em que há a ocupação plena do território invadido, forçando a população vencida a abandonar suas terras; e d) Renúncia dos Direitos de Soberania: neste exemplo, ocorre quando um Estado renuncia seus direitos de autodeterminação em favor de outro Estado, formando assim um novo e maior Estado. TEORIAS SOBRE NASCIMENTO E EXTINÇÃO DOS ESTADOS Agora veremos os entendimentos doutrinários sobre o nascimento e extinção dos Estados. Tais estudos analisam os fatos jurídicos que propunham o acatamento de todos os povos em razão destas transformações: Princípio das Nacionalidades: Primeiramente, vamos ver o conceito de nacionalidade diante da realidade estatal: “Consistindo o Estado na organização política de uma nação, a cada nacionalidade diferenciada deverá corresponder uma composição política autônoma”[8]. Assim, pelo princípio das nacionalidades temos que os grupos humanos, que são distintos pelos vínculos de raça, língua, usos e costumes, tradições, formam os grupos nacionais e, assim, cada um desses grupos forma o seu próprio Estado. Temos, então, conforme afirma Queiroz Lima, pelo princípio das nacionalidades, pode ensejar em bondade ou maldade, pois por um lado serve de reinvindicações legítimas, e por outro, como luta por espoliações injustas. Teoria das Fronteiras Naturais: Por esta teoria, entende-se que cada nação deveria ter seu próprio território, ou seja, um complemento natural, onde deveria haver uma delimitação por meios de grandes acidentes geográficos naturais. Para esta Teoria, a geografia do terreno, com seus relevos naturais, daria a delimitação adequada para o território de cada nação. Teoria do Equilíbrio Internacional: Também chamada de Teoria da Paz Armada, esta teoria foi criada para manter o equilíbrio europeu, procurando evitar o conflito entre as várias nações existentes na região. Assim, entre as principais potências deve se almejar uma igualdade de domínios territoriais, para que haja um fortalecimento proporcional entre os Estados. Teoria do Livre-Arbítrio dos Povos: Esta teoria é semelhante a teoria do princípio das nacionalidades, pois defende a vontade nacional do Estado. O que se entende é o livre consentimento de cada povo para justificar e presidir a existência do Estado. Essa doutrina pode ser resumida da seguinte forma: “Nenhuma potência tem o direito de submeter um Estado contra a vontade soberana da respectiva população”[9]. ORIGEM DOS ESTADOS A origem dos Estados é um tema muito debatido na doutrina, trazendo várias teorias para tentar explicá-la. Contudo, tentar definir qual a ideia mais adequada para explicar a origem dos Estados é uma tarefa muito complexa, pois não há evidências científicas para uma reconstituição história, nem dos meios de vida das primeiras associações humanas. Logo, as teorias sobre a origem dos Estados são teorias hipotéticas, mas que podem nos trazer uma boa compreensão dos possíveis acontecimentos que poderiam ser a explicação mais lógica. Com esta ideia em mente, de que tais teorias são baseadas em meras hipóteses, vamos analisar as três principais teses sobre o tema. Teorias da Origem Familiar Esta teoria defende uma derivação de origem bíblica, onde a humanidade seria originária de um casal inicial. Esta teoria se subdivide em duas correntes, a teoria patriarcal (ou patriarcalística) e a teoria matriarcal (ou matriarcalística). Teoria Patriarcal Por esta corrente, o Estado surge de um núcleo familiar em que a autoridade máxima seria decorrente de um ascendente mais velho, ou seja, o patriarca. Para Jean Jacques Rousseau, a família é o primeiro modelo da sociedade política, sendo assim uma unidade social, cujo estado se desenvolve de uma unidade mais ampla, chamada de tribu, um conjunto de unidades familiares. Teoria Matriarcal Esta corrente afirma que a primeira organização familiar teria como autoridade máxima uma figura materna. Nesta linha de pensamento, durante um período de estado promiscuo, onde não se teria uma referência paternal para definir a linhagem dos descendentes, a mãe seria a dirigente das famílias primitivas, ou seja, um clã matronímico. Apesar desta teoria parecer trazer uma conclusão mais lógica, o que prevaleceu ao longo do tempo foi a família patriarcal. Teoria da Origem Patrimonial Esta teoria traz a ideia de que a origem do Estado decorreu do direito de propriedade, que era considerado um direito natural, ou seja, era anterior à ideia de Estado. Os defensores desta corrente entendem que a posse da terra gerava o poder público e assim deu origem à organização estatal. No entendimento moderno, esta teoria foi acolhida pelo socialismo, pois se entendia que o fator econômico determinava os fenômenos sociais. Teoria da Força Também chamada de Origem Violenta do Estado, tal teoria se fundava na ideia de que a organização política era resultante do poder de dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Para Franz Oppenheimer[10]: “O Estado é inteiramente, quanto à sua origem, e quase inteiramente, quanto à sua natureza, durante os primeiros tempos da suaexistência, uma organização social imposta por um grupo vencedor a um grupo vencido, destinada a manter esse domínio internamente e a proteger- se contra ataques exteriores”. Thomas Hobbes também sistematizou esta doutrina defendendo que toda guerra tem fim com a vitória dos mais fortes, originando assim um Estado com uma organização do grupo dominante, mantendo seu poder de domínio sobre os vencidos. Hobbes dividiu os Estados em duas categorias: a) Estado Real: que é aquele formado por imposição da força; e b) Estado Racional: que provém da razão, ou seja, decorre de uma fórmula contratualista. Um entendimento mais racional é de que a força que enseja a origem ao Estado não poderia ser a força bruta, pois a força deveria promover uma unidade social, estabelecendo o direito e realizando a justiça, pois as regras da razão não se coadunam com o estabelecimento de um Estado por meio de força bruta. A INFLUÊNCIA TEOLÓGICA NO ESTADO Todo poder governamental, no que tange ao seu envolvimento na política social, teve sua aplicação sob o prisma das crenças ou doutrinas de cunho religioso, objetivando assim legitimar os atos de governo. No início dos tempos, o poder de governo era direcionado em nome dos deuses, sob uma justificação natural, que trazia carisma aos seus governados, em total obediência a seus princípios divinos. Contudo, com as primeiras organizações políticas decorrentes da soberania popular, tal justificação doutrinária do poder se desenvolve atualmente de forma mais imperiosa, trazendo um desafio para os cientistas políticos. Tudo se desenvolve em razão da problemática sobre a origem do Estado, estampando um desafio no que tange ao valor do Direito na criação do Estado, pois neste pensamento político a sociedade procurou justificar a criação do Estado com os seguintes pontos de vistas: a) Estado Divino: originário de um poder sobrenatural; b) Estado Humano: derivado da lei ou da razão humana; e c) Estado Social: um resultado da história ou da evolução humana. Com base na corrente filosófica do Estado fundado no direito divino, há um entendimento de que a vontade de Deus, decorrente de origem sobrenatural, traz para o Estado moderno um sentido de concretude da vontade popular. Vejamos então as duas principais teorias teológico- religiosas: teoria do direito divino sobrenatural e teoria do direito divino providencial. Teoria do Direito Divino Sobrenatural De acordo com esta corrente filosófica, o Estado foi fundado por Deus, por meio de ato concreto de manifestação de vontade. Assim, o Rei, que era também um sumo sacerdote da época, era representante de Deus na terra. Nas monarquias orientais esse conceito de poder estatal é muito forte, pautando seus governos na crença de um direito divino sobrenatural, ou seja, o Estado não era apenas de fundamento teológico, era um Estado teocrático, pois era governado pelo próprio Rei-Deus. Na concepção do mundo medieval, sob a influência do Cristianismo, houve o surgimento do absolutismo monárquico, que foi uma reação ao poder oriundo do Papado. No final da Idade Média, ainda no reinado de Luiz XIV, chamado de Rei-Sol, este declarou textualmente: “A autoridade em que os reis são investidos é uma delegação de Deus. Está em Deus e não no povo a fonte de todo poder, e somente a Deus é que os reis têm de dar contas do poder que lhes foi confiado”[11]. Aqui vemos que há uma alusão de que o soberano era a fonte única e exclusiva do direito, isto é, o soberano se confundia com o próprio Estado. Teoria do Direito Divino Providencial Este pensamento era dominante na Idade Média, que consistia em admitir que o Estado era de origem divina, mas haveria uma manifestação providencial da vontade de Deus. Melhor explicando, Deus se dirigia providencialmente ao mundo e regia a vida dos povos influenciando nos acontecimentos históricos. Assim, todo o poder viria de Deus, mas não de forma visível e concreta. Por essa doutrina, fez-se a confirmação de Leis e da legitimidade das autoridades nos cargos e ofícios governamentais, mas sob um direcionamento invisível da providência divina, que estaria mesmo assim sempre presente. A teoria do direito divino providencial foi abarcada pela Igreja e assim se concebeu dois poderes, o poder temporal e o poder espiritual. Desta forma, como o poder divino é originário e superior, o Estado deve respeitar as leis eternas e imutáveis de Deus na ordem temporal. Por outro lado, somente as instituições legitimadas por Deus e que respeitem as leis do direito natural estabelecida pelo poder divino podem exercer o poder de Estado, devendo todos os homens respeitá-las. Assim, afirmava São Tomás de Aquino (apud Maluf, 2018): “Deus quis que houvesse governo na ordem civil, mas deixou aos homens a forma e o modo de sua realização”. TEORIAS RACIONALISTAS Estas teorias justificam o Estado como um ente de origem convencional, ou seja, um produto da razão humana. As teorias racionalistas, também chamadas de teorias contratualistas ou pactistas, apresentam teses que estudam as comunidades primitivas, no estado de natureza, trazendo uma concepção metafísica jusnaturalista, deduzindo que a sociedade civil, em sua organização estatal, surgiu de um acordo entre os indivíduos. Com a Reforma religiosa, tais teorias se fortaleceram e trouxeram uma nova visão filosófica na interpretação da lei religiosa. O racionalismo religioso passou a direcionar as ciências do Direito e do Estado, apresentando dogmas sobre a razão, a liberdade de consciência e da inteligência livre. Assim, o direito divino dos Reis deu lugar ao Direito Humano. Pelas teorias racionalistas que buscam justificar o Estado, o homem primitivo em estado de natureza se relaciona com os princípios do direito natural. Diante desta explicação, vamos verificar os pontos de vistas dos principais doutrinadores que defenderam esta nova linha de pensamento. Hugo Grotius Grotius foi um holandês que defendeu o racionalismo na ciência do Estado. Ele trouxe uma visão dicotômica entre o direito positivo e o direito natural, entendendo que o direito natural estaria acima do direito positivo, pois o direito natural seria imutável, absoluto, atemporal e independente de espaço, pois era oriundo da natureza humana, não estando assim sujeito à vontade do soberano. Logo, Hugo Grotius afirmava que o Estado seria: “Uma sociedade perfeita de homens livres que tem por finalidade a regulamentação do direito e a consecução do bem-estar coletivo”[12]. Emmanuel Kant Kant, filósofo que viveu no século XVIII, defendeu que o homem reconhece que ele é a causa necessária de suas ações, ou seja, a razão pura, e que também deve ser obediente às regras de comportamento existentes, isto é, uma razão prática, um imperativo categórico. Para Kant, o Direito deve garantir a liberdade, sob um aspecto absoluto. Assim, o homem quando migra do estado de natureza para um estado associativo, se sujeita a uma limitação externa, livremente acordada, sob uma autoridade civil chamada de Estado. Thomas Hobbes: Hobbes foi um filósofo inglês do século XVII que sistematizou o contratualismo como justificativa do Estado. Ele defendia o poder absoluto do Estado justificando que o homem não surgiu naturalmente numa sociedade, pois no estado de natureza os homens eram inimigos entre si, ou seja, homo homini lupus (o homem era o lobo do outro homem). Havia no estado de natureza uma constante luta pelo poder e o domínio sobre os outros homens, cujo término deste confronto somente se dava com a morte do oponente. Desta forma, quando o homem se associa, os homens passam a reconhecer que é necessário armar um poder superior, que possa conter a resistência violenta entre os indivíduos. Para Hobbes, a sociedade civil é um produto de um pacto voluntário. Thomas Hobbes[13] afirmava que: “Considerando que a vontade de atacar é inata no homem; considerando que cada homem, atacando, está no seu direito, e o outro, resistindo, também está no seu direito; considerando que daí a desconfiança mútua estájustificada e cada um medita sobre os meios de se defender, porque o Estado natural do homem é o estado de guerra”. Culminando com sua teoria, Hobbes publica O Leviatã, em 1651, que trouxe duas categorias de Estado: a) Estado Real: formado pelos fatos históricos e baseado nas relações da força; e b) Estado Racional: resultante da razão humana. John Locke: Locke foi um filósofo inglês do século XVII, que apresentou a tese do contratualismo de base liberal como justificativa do Estado. Para John Locke, o homem não concedeu ao Estado os poderes de forma absoluta, pois tais poderes estariam limitados às relações externas na vida social, deixando os direitos de cunho pessoal indelegáveis. Assim, as liberdades fundamentais, o direito à vida, entre outros direitos inerentes a pessoa humana, seria anterior e superior ao Estado. Para Locke era uma mútua cooperação normativa, enquanto os súditos obedeciam e seriam protegidos, o Estado dirigia e promovia a justiça, ou seja, o contrato é utilitário e sua moral é o bem comum. Em outro ponto, para Locke o Estado não cria a propriedade, mas apenas a reconhece. Vale ressaltar que John Locke foi o precursor da teoria dos três poderes fundamentais do Estado, que foi posteriormente desenvolvida por Montesquieu (executivo, legislativo e judiciário). TEORIA DO CONTRATO SOCIAL Dando andamento ao estudo das teorias que justificam a existência do Estado, temos a teoria contratualista, que decorre da criação convencional da sociedade humana. Vimos que Tomas Hobbes defendia que havia um pacto voluntário entre os homens que construíam o Estado, transferindo ao Estado a totalidade dos seus direitos naturais de liberdade e autodeterminação. Neste primeiro momento, conforme Hobbes, havia uma sujeição do homem ao Estado absolutista. Na sequência, mas de forma mais humana e racional, surge a concepção voluntarista do Estado de John Locke, onde havia uma limitação do poder governamental, que somente tinha seu poder influente nas relações externas do homem no meio social, devendo os direitos fundamentais do homem, como no caso da vida, ser o alcance do poder estatal. Com essa evolução humanista, surge a teoria contratualista de maior expressão, a visão teórica de Jean-Jacques Rousseau. Rousseau viveu no século XVIII e se destacou dentre os teóricos do voluntarismo em razão da sua filosofia que se expandiu pelo mundo moderno. Rousseau desenvolveu a parte dogmática do Contrato Social, defendendo que o Estado é convencional e resultante de uma vontade geral, ou seja, uma soma de vontade manifestada pela maioria dos indivíduos. Assim, a nação seria superior ao Rei, não havendo a atribuição de divindade à Coroa, pois havia um direito legal decorrente da soberania nacional. Para Rousseau, a soberania nacional era limitada, ilimitável, total e inconstrangível, pois o governo seria instituído com o fim de promover o bem comum. Dessa forma, sustentava Rousseau o direito de revolução, caso as ações do Estado não correspondessem aos anseios populares, possibilitando ao povo o direito de substituir coercitivamente seus governantes. Para Rousseau, o estado de natureza era uma felicidade perfeita, porque nesta situação o homem era sadio, ágil e robusto, onde seus únicos bens seriam os alimentos, a mulher e o repouso, limitando seus males à dor e à fome. Mas com o decorrer do tempo, para que o homem obtivesse tal felicidade, o homem teria adquirido duas virtudes que inexistiam nos outros animais: a faculdade de aquiescer ou resistir; e a faculdade de aperfeiçoar-se. Com essas duas virtudes, o homem começou enfim a sair do seu estado primitivo, dando ensejo a outras faculdades que alavancaram seu potencial. Surge, então, neste momento o desenvolvimento ascendente humano, resultando em acumulação de posses e domínio dos mais ricos sobre os mais pobres. Com o Contrato Social, a sociedade civil determinou certas proposições essenciais, como a transferência do poder individual a uma suprema direção da vontade geral e a obediência a essa vontade geral, ou seja, com a realização deste paradigma o homem estaria obedecendo a si mesmo. Assim, para que se alcance a liberdade social, cada indivíduo deveria trocar a sua vontade particular pela sua vontade geral, dessa forma, ser livre é obedecer ao corpo social, o que equivale a obedecer a si próprio. Enfim, o povo organizado socialmente passa ser um ser soberano único, enquanto a lei se torna uma manifestação positiva da vontade geral. Muitas críticas foram apresentadas ao contratualismo de Rousseau, entre elas Leon Duguit que afirmava que o pensamento rousseauniano teria inspirado a filosofia panteísta de Hegel, resultando na pregação de uma doutrina absolutista e violenta e, ainda, conforme Queiroz Lima, que a teoria de Rousseau teria sido um alvo fácil às arremetidas do ecletismo oportunista e inconsequente, diante da futilidade de sua influência teórica transcendente. Logo, essas críticas demonstraram uma vulnerabilidade do contratualismo em razão do seu profundo conteúdo metafísico e deontológico. Apesar de tais críticas, a teoria do contrato social ainda é responsável pelo pensamento democrático da atualidade e do futuro das sociedades democráticas. PANTEÍSMO E NEOPANTEÍSMO Panteísmo O panteísmo advém do grego PAN (que significa O TODO); e THÉOS (que significa DEUS). Logo, o panteísmo é o sistema filosófico monista que faz a integração entre Deus e o mundo, numa só realidade. Daí surge o conceito do termo ABSOLUTO, que pode ser vislumbrado na natureza, no caso dos reinos animal, vegetal e mineral, bem como na história, por meio da família, da sociedade e do Estado. Assim, podemos ver que o Estado também é uma das expressões sobre o ABSOLUTO. Por meio do Panteísmo, o livre-arbítrio não é reconhecido, bem como todo convencionalismo jurídico, pois se acredita em um determinismo invencível, isto é, para os panteístas, Deus está presente em todos os lugares e momentos, bem como no Direito e no Estado. Nesta corrente filosófica, o Direito é imanado de Deus e se distribui sobre todos os seres finitos, utilizando-se o Estado como um instrumento de sua manifestação. Neste caso, afirma-se que o poder do Estado é um poder absoluto, por ser ele a suprema encarnação de Deus. Ernesto Haeckel[14] afirmava que: “Quer admiremos o esplendor das altas montanhas ou o mundo maravilhoso do mar, quer observemos com o telescópio as maravilhas infinitamente grandes do mundo estrelado, ou com o microscópio as maravilhas ainda mais estonteantes dos infinitamente pequenos, o Deus-Natureza oferece-nos por toda parte uma fonte inesgotável de gozos estéticos”. Contudo, a doutrina apresenta críticas ao panteísmo e razão dele ser contraditório, pois em um único modelo encontram-se todos os princípios opostos, como o englobamento de elementos antagônicos, como o absoluto e o relativo, o infinito e o finito, a perfeição e a imperfeição. Antes de avançarmos para o próximo assunto, cabe aqui deixar claro o que era a chamada Escola Orgânica. Escola Orgânica A escola orgânica no âmbito conceitual de Estado é uma escola doutrinária eminentemente panteísta. Nesta linha doutrinária, o Estado é um organismo natural, que poderíamos comparar inclusive aos seres vivos. Também se afirmava que o Estado era um ser coletivo, que possuía membros e órgãos, na mesma ideia que temos em relação aos seres vivos. O Professor Pedro Calmon[15] resume essa ideia da seguinte forma: “Os indivíduos são os membros do Estado; sua alma, a religião e a cultura; seu órgão de discernimento, o governo; seus braços, o funcionalismo; seus pés, o comércio e o trabalho; seu aparelho digestivo, a economia; seu sistema circulatório, a produção e o consumo; a pátria é a sua entidade moral; o território, a sua estrutura física. A paz é a saúde do Estado; as crises e convulsões políticas correspondem aos processos mórbidos que podem levá-lo à perda da unidade vital e à morte”. Neopanteísmo A corrente neopanteísta abandona o paralelismo do Estado com os organismos biológicos,comparando agora com os organismos psicológicos ou éticos. Apesar disso, a corrente neopanteísta manteve-se no campo da ficção, pois ao comparar o organismo estatal com os organismos psíquicos, estaria no campo da metáfora, constituindo uma lógica para a estrutura jurídica do Estado, mas deixando de lado sua definição em relação a sua essência e a sua realidade. TEORIA DA SUPREMACIA DAS CLASSES E A TEORIA DE LEON DUGUIT Teoria da Supremacia das Classes Esta teoria foi defendida pela escola sociológica alemã, com destaque para Ludwig Gumplowicz e Franz Oppenheimer, que justificava o Estado com base na supremacia das classes. Para Gumplowicz, há uma dupla noção de propriedade, por um lado a propriedade individual sobre bens móveis, que é decorrente do trabalho e é um direito natural, e por outro lado, a propriedade sobre a terra, que é ilegítima e inadmissível, pois o solo não comporta apropriação individual, mas sim uma propriedade coletiva. Assim, para este professor, a propriedade da terra se iniciou com invasões em que se apropriaram delas e obrigaram os homens vencidos a cultivarem a terra sob seu império. O que se quer dizer com essa teoria é que o Estado nada mais é do que uma organização da supremacia da classe dominante. Conforme afirma Gumplowicz[16]: “É um conjunto de instituições que tem por finalidade assegurar o domínio de uma minoria vencedora sobre uma maioria vencida”. Há neste caso a aplicação do Princípio do Fato Consumado, pois o emprego da violência, por não ser permanente, pois toda guerra tem um fim, chega a um ponto de estabilidade diante da força predominante, constituindo uma ordem de hábito, costume e direito. Oppenheimer contribuiu para essa teoria, mas aplicando um sentido marxista, aduzindo que todo Estado é uma organização de classe, sendo assim toda teoria política uma teoria de classe. Para ele, somente por meio de uma pesquisa histórico-sociológica é que se pode compreender o Estado como fato historicamente universal. Aqui também se vislumbra que o poder político é sempre da organização de classe vencedora, mas destinada a manter seu domínio no interior para repelir ataques exteriores. Léon Duguit também aderiu a esta escola de pensamento, aduzindo que o Estado é uma superposição de classes, ou seja, uma classe de governantes que dispõe da força para impor sua vontade aos governados. Para ele o Estado age sob uma força a serviço do direito. Teoria de Léon Duguit Duguit[17] define Estado da seguinte forma: “É uma sociedade onde vontades individuais mais fortes se impõem às outras vontades”. Sua doutrina é concernente à filosofia aristotélica, onde o Estado é formado essencialmente de governantes e governados. Podemos resumir tal pensamento na doutrina de Maluf (2018): “A organização política do Estado repousa na diferenciação entre governantes e governados; a classe dos governantes, dispondo de uma maior força, impõe a sua vontade aos governados”. Enfim, o entendimento é que o Estado é particularmente um ente que tem seu governo como um simples fato social, não constituindo assim um fato jurídico, desenvolvendo a teoria do direito independentemente da teoria do Estado. Para Duguit, a soberania é um fato de poder. Mas em resposta a sua afirmação, as teorias objetivas rechaçam o pensamento de Duguit explicando que a única vontade que dirige a organização estatal e o pleno exercício do poder de governo é a vontade nacional, que se resume numa manifestação dos poderes constituinte e legislativo. Temos neste entendimento que os indivíduos são apenas investidos em cargos públicos para realizarem as funções governamentais, servindo assim como instrumento da realização da vontade da lei. Logo, para Duguit o Estado é apenas a simples aplicação da força entre as classes dominantes sobre os dominados, devendo estes se sujeitar a sua imposição, ignorando a tese de que a vontade política da massa influencia indiretamente a soberania e formação política do Estado. O ESTADO LIBERAL O Estado Liberal foi marcado por seus alinhamentos com as ideias dominantes da época, como o conceito de direito natural, ligado ao humanismo e ao igualitarismo político, ensejando na dedução racional do homem em que se concluía pela ideia de que todos os homens nascem livres e em igualdade de direitos, ou seja, o único poder legitimado é aquele advindo e reconhecido pela vontade dos cidadãos. A ideia liberal independia de se tratar de uma monarquia constitucional, ou uma forma republicana de governo, pois a soberania nacional era o exercício do sistema representativo de governo. O regime constitucional por sua vez servia de limitador do poder conferido aos representantes políticos, possibilitando uma harmonia entre três órgãos institucionais distintos, o Legislativo, Executivo e Judiciário. O arcabouço teórico do Estado Liberal pautava esses ideais, além da defesa da liberdade do homem sob a máxima do princípio da legalidade, com identidade bem definida entre o direito público e o direito privado, somado a uma igualdade jurídica sem qualquer discriminação, seja por distinção de classe, raça, cor, sexo, ou crença, oportunizando aqui a liberdade religiosa diante da neutralidade do Estado do que diz respeito à fé religiosa. Contudo, tudo isso estaria longe de se constituir em realidade, pois tais ideais não passavam de uma formação no mundo das ideias. Essa distância com os problemas reais foi um dos primeiros erros dos liberais, notoriamente durante a Revolução Industrial, onde ocorreu um grande impacto na realidade social de diversos países, gerando problemas desconhecidos, mas que poderiam ter sido previsíveis. Ora, na teoria o liberalismo se apresentava com uma perfeição divina, onde todos os homens teriam acesso a todo tipo de benesse decorrente da igualdade formal entre seus pares. Entretanto, o que se viu foi um reino de ficção, onde os cidadãos que eram teoricamente livres, se tornavam materialmente escravizados pelo sistema. Surge na Revolução Industrial a figura do operário fabril, que fica à mercê da lei da oferta e da procura, sendo negociado como uma mercadoria pelos patrões detentores do poder econômico cada vez mais desproporcional. Assim, muitos operários aceitavam salários ínfimos sob a obrigação de trabalhar mais de 15 horas por dia, numa jornada de trabalho ininterrupta. As mulheres também ingressam nesse sistema de trabalho em busca do reforço salarial para a família, ensejando num afastamento das crianças das escolas em busca de mais um mercado de trabalho impróprio para suprir a insuficiência de recurso auferido pelos pais. Essa foi a consequência dos ideais liberalistas incondizentes com a realidade, uma inconsciência social que desintegrava as famílias. Enquanto os enfermos e os idosos eram entregues à própria sorte e do outro lado os jovens operários escravizados pelo capitalismo, havia o grande contraste com as grandes fortunas acumuladas nas mãos de poucos dirigentes do poder econômico. Obviamente que os conceitos liberais de igualdade e liberdade da maneira que eram defendidos, nada mais era do que um ato desumano, onde o Estado possibilitava uma luta entre desiguais, numa liberdade e igualdade legal ilusória, pois perante o Estado não havia fortes ou fracos, nem poderosos ou humildes, nem ricos ou pobres, o que se defendia era que a todos o Estado assegurava os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Mas como se falar em liberdade se não havia uma paridade de armas, ou seja, as mesmas condições para que qualquer cidadão pudesse optar ou não a se sujeitar ao domínio do outro? Assim, uma multidão de pessoas foi espoliada de seus bens, sendo oprimidas, sem um lar, sem roupas, sem comida e, até mesmo, sem fé em Deus. Nesse infortúnio, começa diante da ausência da compaixão e da esperança, uma reação violenta contra as injustiças sociais, resultando no surgimento das ideias socialistas, levando o Estado Liberal lucubrar a possibilidade de reforma ou o consequente perecimento. Enfim, com todo esse movimento, fomentado pelas mazelasdecorrentes de toda injustiça social, surge o movimento evolucionista do Estado, qual seja, o Estado social-democrático, que busca harmonizar o individualismo conforme o socialismo. O SOCIALISMO E A REVOLUÇÃO RUSSA Após o fracasso dos ideais Liberais, surge o socialismo como a primeira reação antiliberal. O alvo principal foi a Revolução Francesa, onde por meio de doutrinas literárias houve um intenso ataque aos ideais liberalistas, chegando ao ápice no Manifesto comunista de Karl Marx e Frederich Engel, em 1848. Tratava-se do socialismo utópico, que veremos com mais detalhe quando estudarmos sobre o que os socialistas e anarquistas almejavam em relação à existência do Estado. Com o passar do tempo, na segunda metade do século XIX, as correntes doutrinárias se declinaram ao marxismo, dando início ao socialismo científico. Assim, o Estado Liberal com seus erros doutrinários e confrontado pelas realidades sociais, se enfraqueceu e deu espaço aos ideais socialistas. Logo na Primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, surge a fronte entre a Alemanha e a Rússia, desencadeando uma grave crise social e econômica, ante as investidas do exército alemão. Neste cenário, as correntes socialistas prosperam. Inicia-se então a revolução russa, em meio aos centros industriais de Petrogrado e Moscou, com base no Manifesto Comunista de Marx e Engels, com o objetivo de imersão na ordem política, com a aniquilação da burguesia, abolição da propriedade privada, nacionalização das fontes de produção e instauração da ditadura do proletariado. Com a ascensão do socialismo russo, inicialmente o que se objetivava era um Estado Liberal Proletarista. Entretanto, os extremistas se impuseram e constituíram o sovietismo. Neste momento há uma divisão de duas facções políticas, os Mencheviques e os Bolcheviques, que possuem como vetor desta divisão o domínio do Partido Operário Russo Social- Democrático sobre o Partido Socialista Revolucionário. O grupo Bolchevique, que era a maioria, liderado por Lenin, se apoderou do governo com o auxílio da Guarda Vermelha. Assim, o novo Estado, agora comunista, propõe a nova ordem política como uma ditadura do proletariado. Durante este período ocorreu o início de um tempo de terror, onde houve extermínio da religião, estatização da economia, subordinação da justiça ao controle do executivo, concentração de poderes nas mãos do Presidente do Conselho de Operários etc. No desenrolar do comunismo de guerra, com a nova política econômica instituída, surge o Exército Vermelho de Operários e Camponeses. Com o resultado das investidas bolchevistas, surge enfim o Estado Soviético, com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, uma espécie de confederação, com o objetivo de cooperação entre as nações associadas, para a manutenção da ordem socialista. Em suma, as características essenciais do Estado Socialista Russo era o seguinte: a) Partido único; b) Ditadura classista; c) Governo coletivista integral e materialista; d) Concentração de poderes no órgão executivo; e) Eliminação da propriedade privada; f) Estatização integral da economia; g) Nacionalização das fontes de produção; e h) Imperialismo internacionalista. Resumindo, o que se pode aferir é que o ideal comunista era demonstrar que o Estado seria um mal necessário, que seria destituído aos poucos até se alcançar um estágio superior da ordem comunista, ou seja, a extinção do governo de pessoas, dando espaço a um sistema simples de administração das coisas comuns. Com o nivelamento das classes, o Estado deixaria de ser necessário, onde cessariam todas as lutas revolucionárias, e com elas, o próprio Estado. Entretanto, com o bolchevismo, surge o sovietismo, com base numa ditadura classista, pondo fim ao ideal comunista, pois se pautou numa negação ao marxismo, porque a ideologia soviética era considerada uma Revolução em marcha, estando sujeita às transformações decorrentes de novos fenômenos sociais. Enfim, o Estado soviético era um Estado ecumênico, que se voltava na união de todos os trabalhadores do mundo, onde defendia as reivindicações proletárias mesmo em outros países, criando uma situação instável e com uma constante agitação social. MOVIMENTO FASCISTA O movimento fascista surge na Itália, logo após o comunismo russo, com o intuito de reformar o Estado Moderno, no sentido de lutar contra a desintegração socioeconômica do liberalismo, que já estaria em decadência, e contra a infiltração do comunismo no âmbito internacional. Para o Fascismo o Estado seria a união entre grupos ou corporações que se pautava em um movimento nacionalista, mas baseado na filosofia alemã, onde a ideologia definia o Estado como o criador exclusivo do direito e da moral. Assim, para esta nova filosofia, os homens teriam os direitos limitados ao que seria concedido pelo Estado. Com o partido fascista, o Estado se apoiava numa ilimitada autoridade moral, pois todos os cidadãos, juntamente com seus bens, seriam propriedade moral e material do próprio Estado e, qualquer opositor desta nova linha política, seria considerado traidor da pátria, sendo submetido à justiça sob o controle do poder executivo. Mussolini assume a liderança deste movimento político, se afastando totalmente da concepção liberal, pois proclama que a nação não seria elemento integrante do Estado, isto é, para ele a nação seria criada pelo Estado, que seria responsável de regular a moral e a vontade existencial da nação instituída. No que diz respeito à ordem econômica, o fascismo foi diametralmente oposto ao liberalismo e ao socialismo marxista. Havia neste movimento um rígido controle partidário, pois as corporações partidárias seriam órgãos do partido fascista, que controlava qualquer doutrina que não fosse correspondente à política estatal. Assim, o Partido Nacional Fascista foi o partido vitorioso, pois tratava-se de um partido único, que era organizado militarmente e tinha apoio da milícia chamada Camisas Negras. Neste momento, Mussolini empreende a chamada marcha para Roma, em 1922, onde o Rei entrega a ele a direção do Estado, sendo nomeado como Presidente do Conselho de Ministros. Enfim, o Partido Nacional Fascista se torna Estado, nação, governo e organização produtiva, tudo ao mesmo tempo, controlando todo o sistema político-jurídico do Estado. Durante o movimento fascista italiano houve um equilíbrio entre o capital e o trabalho, mantendo a iniciativa privada e a livre concorrência sob seu pleno controle, além dos contratos coletivos de trabalho e da organização corporativa das categorias trabalhistas. Contudo, como o trabalho era considerado um dever social, todo movimento grevista era proibido, sendo considerado crime contra a organização corporativa estatal. De todo o feito, apesar de parecer tais iniciativas de proteção ao trabalho vantajosas para os trabalhadores, tal movimento político obviamente não se demonstrou benéfico em razão do domínio capitalista das forças dominantes da sociedade, que incentivou a violência governamental para controle social e, no plano internacional, um programa de conquista que levou o povo italiano a uma consequente tragédia nacional. NAZISMO ALEMÃO Já estudamos sobre transformações político ideológicas, como a instituição do Estado Liberal, a ascensão socialista e o movimento fascista italiano. Agora vamos estudar outro movimento ideológico que foi ganhando força em meio a aquelas transformações políticas do Estado: o Nazismo Alemão. Primeiramente temos que entender que o nazismo surge na Alemanha com um duplo objetivo: combater o liberalismo democrático (que estava em decadência) e reagir contra o movimento comunista (se encontrava em ascensão). O Partido Nacional socialista da Alemanha também integrou tal diretriz com mais duas finalidades: desvincular a Alemanha do Tratado de Versalhes e impor uma supremacia da raça ariana. Com a República alemã de Weimar, diante da Constituição de 1933, inicia-se uma crescente política nazista, ensejando no desenvolvimento daquele partido