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Biomecânica do Aparelho Locomotor Biomateriais 1 Ossos 1.1 Morfologia Osso é a parte rígida do tecido conectivo que constitui a maior parte do esqueleto da maioria dos vertebrados. Consiste de uma parte orgânica (as células e a matriz) e de uma parte inorgânica ou mineral. O osso desempenha diversas funções mecânicas e fisiológicas: funções mecânicas: - fornece apoio para o corpo contra forças externas (ex., gravidade); - atua como um sistema de hastes de alavancas para transferir forças (ex., forças de contração musculares); - serve de proteção a órgãos vitais internos (ex, encéfalo). funções fisiológicas: - produz células sanguíneas (hematopoesis); - armazena cálcio (homeostasis mineral). Apoio - Tanto o osso esponjoso quanto o compacto fornecem um ponto de apoio para tecidos moles e para a construção do esqueleto do corpo. As diferentes posições do indivíduo e posturas dos animais não seriam possíveis sem a estrutura óssea. Sistema de alavancas - Os ossos fornecem pontos de inserção para as unidades tendão-músculo esquelético. Através das inserções musculares e das uniões dos ossos nas articulações, ossos e músculos trabalham juntos na transferência de forças em um sistema de avalancas. Proteção - Os ossos planos do esqueleto, compostos de uma camada de ossos trabecular entre duas camadas de osso compacto, são responsáveis pelas proteção de órgãos vitais como o coração, os pulmões e o encéfalo. O encéfalo, por exemplo, é protegido pelos ossos do crânio, a bexiga e os órgãos da reprodução pela pelve e o coração e os pulmões pela caixa toráxica. Hematopoesis - A hematopoesis, o processo de formação de células sanguíneas, ocorre na medula óssea. Em indivíduos adultos a medula óssea é preponderantemente encontrada em regiões compostas de osso trabecular, por exemplo, na epífise proximal do fêmur e na crista ilíaca. Nestas regiões, eritrócitos, leucócitos e trombócitos são formados. Homeostasis mineral - O osso é o maior reservatório de cálcio do corpo, com 99% do total de cálcio corporal armazenado no esqueleto. Outros importantes minerais, tais como fósforo, sódio, potássio, zinco e magnésio, também são armazenados no osso. Uma vez que o cálcio é crítico em um grande número de processos metabólicos vitais, a manutenção dos níveis de cálcio no corpo é mais importante que as necessidades de cálcio do osso. Os hormônios que regulam o equilíbrio do cálcio no organismo incluem o hormônio tireóideo, a calcitonina, o colecalciferol (vitamina D), hormônios reprodutivos e hormônio de crescimento. O osso é um tecido dinâmico em constante remodelagem e pode passar por uma transformação frente a um estímulo apropriado. A morfologia de qualquer osso pode passar por alterações substanciais durante a vida O esqueleto adulto humano consiste de 206 ossos. Embora os ossos variem consideravelmente em forma e tamanho, eles são semelhantes em estrutura e desenvolvimento. Os ossos podem ser classificados segundo a forma e, às vezes, pertencem a mais de um grupo. A despeito da variedade de formas externas no esqueleto, a morfologia do osso quanto ao nível de órgão, tecidual e celular é relativamente constante. As partes constituintes de um osso longo podem ser descritas baseadas em seus centros de ossificação. A epífise desenvolve a partir de um centro secundário de ossificação e são as extremidades dos ossos longos. As epífises articulam-se com outros ossos e são protegidas por uma camada de cartilagem hialina denominada cartilagem articular. Entre as duas epífises está o eixo do osso longo, a diáfise, que desenvolve a partir de um centro primário de ossificação. A diáfise é uma estrutura tubular ao redor do canal medular. O canal medular, um sítio de armazenagem, é revestido por uma fina membrana de tecido conectivo, o endósteo. Não existe canal medular nos ossos planos. Entre a epífise e a diáfise localiza-se a metáfise, a região de crescimento do osso. Envolvendo o osso, exceto nas áreas cobertas pela cartilagem articular, existe um tecido fibroso, resistente e vacularizado denominado periósteo. A lâmina mais externa do periósteo é bem suprida por vasos sanguíneos e nervos, alguns dos quais penetram no osso. A lâmina mais interna é fixada ao osso por feixes colágenos que penetram no osso. Algumas das fibras do periósteo são entrelaçadas a fibras de tendões, fornecendo inserções aos músculos. Projeções dos ossos, denominadas processos, são sítios para fixação de ligamentos e tendões, enquanto uma depressão em um osso permite a articulação com o processo de um outro. Em linhas gerais, todos os ossos no esqueleto adulto possuem duas componentes estruturais básicas: a cortical e a esponjosa. O osso cortical (ou compacto) é um material denso e sólido formando as paredes da diáfise e as superfícies externas do osso. Este tipo de osso é sólido, forte e resistente a flambagem. A espessura do osso cortical varia entre e dentro dos ossos em função dos esforços mecânicos a que o osso é submetido. O osso esponjoso é formado por espículas denominadas trabéculas. Estas trabéculas orientam- se segundo a direção das forças aplicadas ao osso. São encontradas em processos, no corpo vertebral, na epífise dos ossos, nos ossos curtos e entre as duas camadas de osso compacto que formam os ossos chatos (díploe). Espaços irregulares de interconexão se formam entre as trabéculas reduzindo o peso do osso. O osso esponjoso é altamente resistente a cargas compressivas. Os ossos são compostos de dois materiais. A matriz orgânica é constituída de aproximadamente 95% de fibras colágenas, bastante reforçadas por depósitos de sáis de cálcio e fosfatos na forma de hidroxiapatita. Os depósitos de cálcio e fosfatos fornecem ao osso sua força, dureza e rigidez, enquanto as fibras colágenas fornecem ao osso sua flexibilidade limitada. 1.2 Processos de transformação do esqueleto Existem essencialmente quatro processos de transformação do esqueleto que ocorrem em vários estágios da vida humana: crescimento, modelamento, remodelamento e reparação. Estes processos são fundamentalmente distintos operando sob diferentes tipos de controle, em diferentes lugares e em diferentes idades do indivíduo, mesmo que o mesmo tipo de célula óssea esteja envolvida em todos eles. 1.2.1 Crescimento a) Ossificação intramembranosa - ocorre através da oposição do osso em um tecido dentro de uma membrana embriogênica. b) Ossificação endocondral - O osso é precedido por cartilagem, e a ossificação ocorre a partir de centros de ossificação. 1.2.2 Modelamento e remodelamento do osso Modelamento ósseo é definido como o processo pelo qual a massa do osso é aumentada. Remodelamento ósseo é definido como o processo pelo qual a massa do osso é mantida ou diminuida. No modelamento o osso cortical aumenta tanto em espessura quanto em diâmetro externo. O processo de modelamento envolve quase a superfície periosteal e endosteal inteira, ao passo que no remodelamento somente uma fração desta superfície é ativa em um determinado tempo. 1.2.3 Reparação óssea A reparação óssea ocorre em dois níveis. O primeiro é uma constante reparação de microtraumas que resultam da exposição a cargas fisiológicas, através de um processo de remodelamento. Este processo natural não produz calo ósseo. O segundo aparece em resposta a uma carga excessiva a fim de reparar uma fratura, onde ocorre a formação do calo ósseo. 1.3 Propriedades físicas do osso As propriedades estruturais e mecânicas do osso alteram em função das forças que atuam sobre ele. A primeira análise das implicações deste fato resultaram na lei de adaptação funcional de Wolff (1870): “A forma do osso é determinada somente por cargas estáticas.”Vários comentários parecem ser apropriados no contexto desta lei. O stress tem diferentes efeitos no osso. Pode afetar o crescimento como no processo de restabelecimento de fraturas, pode afetar o modelamento como em situações de sobrecarga, e/ou remodelamento em situações de subcarga. Além disso, há evidências que o tipo de carga influencia a formação do osso e/ou os processos de remodelamento. Cargas dinâmicas parecem ser mais importantes para o modelamento ósseo do que cargas estáticas. Isto sugere que a lei de adaptação funcional de Wolff deva ser restabelecida de uma forma mais geral. Formas específicas de stress não são os únicos fatores que determinam o crescimento do osso, mas são um dos mais importantes. Assim, a lei de Wolff deveria ser reescrita: “As leis físicas são os principais fatores que influenciam o modelamento e o remodelamento ósseo.” As propriedades físicas dos biomateriais podem ser divididas em duas categorias: estruturais e materiais. Propriedades estruturais descrevem propriedades de um componente específico, por exemplo, a força de ruptura de uma tíbia. Propriedades materiais são independentes de um componente específico e descrevem o material em si, por exemplo, o stress para o qual o osso rompe sob compressão. As propriedades físicas dos ossos são: densidade, conteúdo mineral, conteúdo de água, módulo de elasticidade, carga de ruptura sob tensão e carga de ruptura sob compressão. O módulo de elasticidade E representa o stress necessário a fim de dobrar o comprimento de um objeto. O módulo de elasticidade é uma constante que descreve a característica do material. Isto não significa que um material em particular possa de fato ser esticado até dobrar o seu comprimento. Para o osso os valores típicos de E são: - osso esponjoso 109 Pa - osso compacto 2x1010 Pa - metal 1011 Pa Para o osso, a elongação necessária a fim de causar fratura é somente uma fração deste comprimento duplo. Como uma regra geral temos: Fruptura = 200 1 Fduplicação O stress de ruptura para a compressão e a tensão do osso esponjoso é pelo menos uma ordem de magnitude menor que o do osso compacto. Existe somente uma pequena região de alongamento na qual o osso segue uma relação linear entre força e alongamento. Além deste limite, deformação e força não são mais aritmeticamente proporcionais e quando a força é removida, o osso não retorna mais à sua forma original e retém alguma deformação. 1.4 Anisotropia óssea O osso é um material não homogêneo e anisotrópico. Suas propriedades mecânicas alteram- se em função de uma região específica do osso e da direção na qual a força é aplicada. A rigidez relativa à tensão é máxima para forças axiais e mínima para forças transversais. A rigidez para forças axiais é cerca de duas vezes a magnitude da rigidez para forças transversais. Ademais, o strain de ruptura para o osso (osso compacto do fêmur humano) sob carga na direção axial é cerca de duas vezes o strain de ruptura para o osso sob carga na direção transversal. 1.5 Adaptações mecânicas O remodelamento do osso é influenciado pelo strain tangencial e pelo efeito de cargas aplicadas na curvatura da superfície do osso. É difícil distinguir entre o stress e o strain como os fatores que causam a formação e adaptação do osso. Normalmente, supõe-se que o strain seja uma variável mecânica importante no modelamento e remodelamento do osso, sob diferentes aspectos: - tipo de strain (compressão ou tensão); - direção do strain; - natureza do strain (estático ou dinâmico); - freqüência do strain; - distribuição do strain; - energia do strain. 1.6 Trauma ósseo A fratura do osso pode ocorrer devido a: stress excessivo e/ou material debilitado. O stress pode ser excessivo por diferentes razões: as forças externas atuantes são excessivas, as dimensões da estrutura sob carga são pequenas, a geometria das forças atuantes é desfavorável e/ou frequência excessiva de aplicação de carga. Forças externas excessivas podem ocorrer durante um acidente, por exemplo, quando um esquiador choca-se com uma árvore. Neste caso, a força que atua sobre o osso excede a força de ruptura. Exceto em tais acidentes, tipicamente durante atividades cotidianas e esportivas, as forças externas raramente são de magnitude tal que resultam em fratura óssea. Tem-se demonstrado que pequenas dimensões ósseas são causa de fraturas de fadiga. Por exemplo, existe uma relação entre o momento de inércia da tíbia e a incidência de fraturas no fêmur e na tíbia de recrutas militares. As forças que agem sobre o osso estão dentro de limites fisiológicos para o osso, mas devido à pequena dimensão das estruturas, o stress estava além de seu limite. A carga e a sobrecarga do osso sempre têm dois aspectos: primeiro, o stress local durante um ciclo (ex., na corrida), e segundo, o número de repetições deste stress. Os ossos precisam de um estímulo stress ou strain para seu desenvolvimento. Entretanto, este estímulo deve estar dentro de uma faixa ótima de magnitudes. É difícil definir esta faixa ótima. Vários fatores são importantes: fatores biomecânicos, fadiga muscular e perturbações hormonais. Bibliografia - NIGG, B.M.; HERZOG, W. (ed.) Biomechanics of the musculo-skeletal system. New York, John Wiley & Sons, 1995.