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Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada Dos Mitos Gregos à Especulação Filosófica A Filosofia Grega surgiu na História Antiga e é dividida em três períodos: Pré- Socrático, Socrático e Helenístico. Inicialmente, a explicação do mundo era feita por mitos, narrativas coletivas que buscavam dar sentido à origem da humanidade e aos fenômenos naturais, sem base racional. Com o tempo, a Filosofia foi substituindo os mitos ao buscar compreender a realidade por meio da razão, da observação e da lógica, marcando a transição do pensamento mítico para o pensamento filosófico. Cosmogonia x Cosmologia A Cosmogonia, também chamada de Teogonia, refere-se às narrativas mitológicas que explicam a realidade a partir da ação dos deuses, que seriam responsáveis pela origem e pela ordem do mundo. Já a Cosmologia é uma explicação filosófica que busca compreender a origem e a organização do mundo com base na Physis (a Natureza), por meio da razão. Essa abordagem racional parte do Logos, que funciona como o princípio explicativo e lógico das coisas. O Logos representa tanto a base racional da realidade quanto o discurso coerente e fundamentado, diferente das explicações mitológicas, pois se apoia em provas, lógica e regras que visam compreender os fenômenos como parte de uma ordem racional e não fruto do acaso. Os filósofos Pré-Socráticos Os primeiros filósofos gregos são conhecidos como pré-socráticos e, em sua maioria, surgiram nas ilhas gregas. Entre os principais nomes estão Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Heráclito. Embora não formassem uma escola única, todos buscavam explicar a origem do mundo e dos fenômenos naturais a partir da observação racional da natureza. Essa busca se centrava em encontrar o Arché, o princípio primordial de todas as coisas. Tales acreditava que a água era o Arché, pois a umidade era essencial para a vida. Anaximandro propôs o Apeiron, um princípio indefinido, infinito e sem forma. Anaxímenes identificou o ar como o elemento fundamental, sendo capaz de gerar outros elementos por rarefação e condensação. Já Heráclito defendia o fogo como base da realidade, simbolizando a mudança constante, o Devir, expressa na frase: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Além desses pensadores, surgiram também escolas filosóficas. A Escola Pitagórica, com Pitágoras, Hipaso e Filolau, via nos números a essência de todas as coisas. A Escola Atomista, representada por Leucipo e Demócrito, afirmava que toda matéria era composta por átomos indivisíveis que se movem no vazio e formam tudo por choques ou afinidade. Por fim, a Escola Eleática, com Parmênides, Zenão e Melisso, valorizava o conhecimento racional em detrimento do sensível, argumentando que a realidade é imutável e o movimento é uma ilusão. A questão da ética Na Grécia antiga, a noção de direito (Nomos) estava profundamente ligada à ideia de lei que organizava a vida na pólis. Desde Homero, a coesão social era sustentada por normas, simbolizadas inicialmente por Themis, divindade mitológica que representa a ordem imposta pela força e pela autoridade. No entanto, com o passar do tempo, surge uma nova figura simbólica: Dike, que também está relacionada ao direito, mas com uma ênfase maior na noção de justiça e equidade, em contraste com a rigidez autoritária de Themis. Para Heráclito, a justiça nasce do conflito: a guerra, a discórdia e a luta entre os opostos são os elementos que sustentam a harmonia da sociedade. Dessa forma, a justiça seria fruto da tensão entre Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada contrários, pois é na luta que se estabelece a verdadeira ordem. Os filósofos Sofistas Os sofistas foram pensadores que surgiram no contexto das transformações sociais e políticas da pólis grega, especialmente em Atenas, onde a democracia permitia que os cidadãos participassem diretamente da vida política. Atuando como mestres itinerantes, os sofistas ensinavam retórica, a arte de bem falar, com o objetivo de formar cidadãos capazes de convencer e agir politicamente de maneira eficaz. Entre os principais nomes estão Górgias, Hípias e Protágoras. Apesar de importantes para o desenvolvimento do pensamento crítico, Platão e Aristóteles criticaram os sofistas, considerando-os não verdadeiros filósofos, pois buscavam o convencimento em vez da verdade. Ainda assim, os sofistas marcaram o período socrático, rompendo com o foco naturalista dos pré-socráticos ao colocarem o homem e a sociedade como centro da reflexão. Para eles, conceitos como Justiça eram construções sociais, sujeitas à mudança conforme as leis, ou seja, relativas. Isso está sintetizado na frase de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”, evidenciando a perspectiva relativista e prática dos sofistas frente aos debates morais e políticos. Sócrates É considerado um marco na história da filosofia, sendo reconhecido como o fundador da filosofia moral (ou axiologia). Embora não tenha deixado obras escritas, suas ideias foram preservadas principalmente pelos diálogos de Platão, pelas peças cômicas de Aristófanes e pelos textos de Xenofonte. Nascido em Atenas em uma família humilde, filho de um escultor e de uma parteira, Sócrates teve sua trajetória transformada após ser apontado 1 que tratam a verdade como uma mercadoria para ser comercializada, ou seja, que pelo Oráculo de Delfos como alguém destinado à sabedoria. Passou a se dedicar à educação filosófica, influenciado por pensadores como Anaxágoras e Arquelau. Sócrates e os Sofistas Diferente dos sofistas, que usavam a retórica para persuadir, Sócrates valorizava a busca honesta pela verdade. Ele acreditava que o conhecimento verdadeiro se alcança por meio do diálogo e da reflexão crítica, método conhecido como maiêutica, inspirado na profissão de sua mãe, no qual ajudava seus interlocutores a “dar à luz” o conhecimento por meio de perguntas. Essa postura fez com que Sócrates se tornasse símbolo da ética e da integridade filosófica, sendo exaltado por filósofos medievais e modernos como exemplo de compromisso com a verdade, em oposição aos sofistas, considerados por ele como "vendilhões da verdade"1. Sócrates se opunha fortemente aos sofistas, pois acreditava que a verdade deveria ser buscada por meio do questionamento filosófico e da razão, e não tratada como uma convenção mutável. Enquanto os sofistas defendiam que os conceitos, como o de justiça, eram relativos e moldados pelas leis e costumes de cada sociedade, Sócrates via esse relativismo como perigoso, por afastar os indivíduos da busca por fundamentos sólidos e universais. Para ele, era necessário indagar profundamente sobre os conceitos e valores para atingir o verdadeiro conhecimento. Essa tensão refletia um momento de transição cultural na Grécia: as tradições que sustentavam a pólis, baseadas na mitologia e simbolizadas por figuras como Themis e Dike, começavam a dar lugar a novas perspectivas filosóficas, nas quais as leis e normas eram vistas como criações humanas, e não mais como verdades divinas. Sócrates, nesse contexto, tentava preservar a ética e a racionalidade frente ao manipulam a verdade por interesse próprio, especialmente financeiro ou político. Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada ceticismo relativista promovido pelos sofistas. Sua influência foi tão profunda que a filosofia grega passou a ser dividida entre pré-socráticos e pós-socráticos. Sócrates atuou especialmente nos campos da epistemologia e da ética, sendo lembrado até hoje como um dos maiores educadores da história. A máxima socrática Sócrates revela sua convicção de que a verdadeira sabedoria está no reconhecimento da própria ignorância. Ao dialogar com um homem que se julgava sábio, percebeu queesse homem acreditava saber aquilo que, na realidade, desconhecia. Sócrates, por sua vez, não se deixava enganar por um falso saber e, justamente por admitir aquilo que não sabia, considerava-se mais sábio, ainda que por uma pequena diferença. Para ele, reconhecer os próprios limites do conhecimento é o primeiro passo para alcançar a sabedoria. Virtude em Sócrates No diálogo Protágoras, Sócrates define a virtude (Areté) como a excelência moral e política, que consiste em cumprir a finalidade para a qual cada coisa ou pessoa foi criada. No caso do ser humano, isso significa agir fielmente segundo sua própria essência, o que possibilita que indivíduos virtuosos possam exercer qualquer função na sociedade com competência. Justiça em Sócrates Sócrates a entende a justiça como um princípio fundamental para o bom funcionamento da República, em que cada pessoa deve desempenhar a tarefa para a qual é naturalmente mais apta, sem interferir nas atribuições dos outros. Essa divisão harmônica de funções, sempre voltada ao bem comum, configura a verdadeira justiça e garante a ordem social. O método socrático O método socrático busca o conhecimento verdadeiro por meio do autoconhecimento, utilizando principalmente dois procedimentos: a ironia e a maiêutica. • A ironia socrática consiste na refutação das ideias do interlocutor por meio de perguntas estratégicas. Sócrates, ao questionar, levava a pessoa a perceber contradições em seu pensamento, desestabilizando suas crenças superficiais e demonstrando que, muitas vezes, aquilo que se acredita saber não é tão claro quanto parece. • A maiêutica, que significa literalmente “a arte de partejar”, é o processo pelo qual, após a refutação, Sócrates auxiliava o interlocutor a “dar à luz” novas ideias, construídas a partir da reflexão crítica. Esse processo permitia que o conhecimento surgisse de forma autêntica e interna, como um fruto do próprio raciocínio do indivíduo, e não imposto externamente. Assim, o método socrático não entrega respostas prontas, mas estimula o pensamento profundo e o questionamento constante, promovendo o desenvolvimento da sabedoria. A morte de Sócrates Sócrates teve muitos discípulos importantes, entre eles Platão, Crítias, Críton e Fédon. Contudo, ele foi denunciado por três cidadãos atenienses (Ânito, Meleto e Lícon) que o acusaram de não acreditar nos deuses tradicionais da pólis, de introduzir a crença em novos deuses considerados estranhos e perigosos, e de corromper a juventude com suas ideias. Para Platão, a condenação de Sócrates teve um forte caráter político, uma tentativa de silenciar uma voz crítica que ameaçava a ordem vigente. No entanto, em seus diálogos, Platão também destaca a dimensão moral da postura de Sócrates ao aceitar sua sentença e respeitar as leis da Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada cidade, mesmo que isso implicasse a sua própria morte. Essa questão é o foco central do diálogo Críton. Nesse diálogo, Sócrates declara aos juízes que, ao condená-lo à morte, eles estarão sujeitos a um castigo muito mais severo do que o que impõem a ele, pois acreditam que, matando aqueles que os criticam, ficarão livres de prestar contas por suas próprias ações. Sócrates afirma: "Eu vos prevejo, juízes, que me condenais à morte, mas logo após minha morte tereis de sofrer um castigo muito mais penoso, por Zeus, do que aquele que me aplicais matando-me. Pensais que, matando aqueles que criticam, ficareis livres para viver mal, mas estáis enganados. Essa forma de se livrar das críticas não é nem eficaz nem honrosa." Platão (427–347 a.C.) Foi um dos maiores nomes da história da filosofia e é considerado a primeira grande expressão genial do pensamento filosófico ocidental. Discípulo direto de Sócrates, Platão nasceu em uma família aristocrática de Atenas e presenciou de perto o julgamento e a condenação de seu mestre. Esses acontecimentos marcaram profundamente sua visão de mundo e influenciaram sua filosofia, sobretudo nos campos político e jurídico. Após a morte de Sócrates e o período de perseguição aos seus discípulos, Platão fundou em Atenas a famosa Academia, que se tornaria uma das instituições filosóficas mais importantes da Antiguidade. Lá, ele ensinou diversos jovens, entre eles Aristóteles, seu discípulo mais notável. A produção filosófica de Platão se dá principalmente por meio dos Diálogos, forma literária em que ele expõe suas ideias de maneira viva, questionadora e investigativa. Dialética É O método central da filosofia de Platão e busca ir além das aparências sensíveis para atingir o conhecimento das ideias verdadeiras. Enquanto os sofistas dialogavam para chegar a consensos entre opiniões, Platão propõe um confronto rigoroso de ideias com o objetivo de purificar erros e se aproximar da verdade. A dialética platônica parte de uma opinião inicial (tese), envolve um processo de questionamento e discussão crítica, buscando expor contradições e refinar o entendimento, podendo resultar na negação, modificação ou aprofundamento da tese inicial, com o objetivo de aproximar-se da verdade. Dessa forma, a verdade não é imposta, mas alcançada por meio de um processo racional, investigativo e transformador. A Teoria do Conhecimento Está estruturada a partir da distinção entre dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível. O mundo sensível é aquele que percebemos por meio dos sentidos — formado pelas coisas visíveis (zóa) e pelas imagens (eíkones). Por ser acessado pelos sentidos, está sujeito a ilusões, mudanças e opiniões, tornando-se um tipo de conhecimento instável e enganoso. Já o mundo inteligível é o mundo das ideias (eídos), onde estão as formas perfeitas e eternas das coisas. É também onde se encontram os objetos matemáticos (ta mathéma), que, embora abstratos, possuem estrutura lógica e são acessíveis à razão. Platão organiza os modos de conhecimento conforme sua confiabilidade. No mundo inteligível estão os modos superiores: a nóesis (intuição intelectual pura, que atinge as ideias verdadeiras) e a dianóia (raciocínio dedutivo, como o da matemática). No mundo sensível, os modos inferiores são a pístis (crença) e a dóxa (opinião), que se baseiam na percepção sensorial, e a eikasía, Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada que corresponde à imaginação, ou seja, ao conhecimento das sombras e aparências, o mais frágil de todos. Essas ideias são representadas de forma simbólica no Mito da Caverna, presente no Livro VII da obra A República. Na alegoria, Platão descreve homens acorrentados no fundo de uma caverna que só enxergam sombras projetadas na parede, tomando-as como realidade. Um deles se liberta, sai da caverna e, após um processo doloroso de adaptação à luz, contempla o mundo verdadeiro, o mundo das ideias. O mito representa a passagem do conhecimento sensível (ilusório) ao conhecimento racional (verdadeiro) e mostra como a educação filosófica é o caminho para sair da ignorância e alcançar a verdade. O objetivo principal da teoria platônica do conhecimento é estabelecer fundamentos seguros para o conhecimento e para a ação, superando os limites do sensível por meio da razão e da filosofia. A concepção de mundo em Platão É uma concepção profundamente dualista, ou seja, divide a realidade em dois planos distintos: o mundo das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias (ou mundo inteligível) é o plano onde habitam as essências eternas, perfeitas e imutáveis das coisas. Essas ideias são as verdadeiras realidades, acessíveis apenas pela razão, por meio da contemplação filosófica e da superação dos enganos causados pelos sentidos. Para Platão, somente as ideias são verdadeiras, enquanto tudo aquilo que vemos e experimentamos com o corpo sãoapenas cópias imperfeitas dessas essências. O mundo sensível, por sua vez, é o mundo das aparências, da multiplicidade, do movimento e da transformação constante. Ele é o mundo do “vir-a-ser”, que não possui estabilidade e, portanto, é ilusório. Os objetos que percebemos com os sentidos são sombras, reflexos imperfeitos do mundo das ideias, e só existem na medida em que participam dessas ideias originais. A relação entre esses dois mundos é feita por meio da dialética, o método filosófico que permite à alma humana elevar-se do plano sensível ao inteligível. A alma, segundo Platão, está originalmente ligada ao mundo das ideias, mas ao encarnar-se, esquece essa origem. O processo filosófico é, então, uma forma de lembrança (anamnese), onde a alma recupera o conhecimento das ideias verdadeiras. As ideias são organizadas hierarquicamente, com a ideia do Bem ocupando o topo dessa hierarquia. Essa ideia suprema é a fonte de existência e valor de todas as outras ideias, das quais todas participam. Na concepção platônica do cosmos, o Demiurgo surge como um "Artesão divino" responsável por moldar o mundo sensível com base no mundo das ideias. O Demiurgo atua como um princípio ordenador, conferindo racionalidade e harmonia ao universo. Assim, para Platão, conhecer o mundo de verdade é abandonar as ilusões do sensível e se voltar ao plano das ideias, onde está a verdadeira realidade e onde a alma reencontra sua origem. O conceito do homem em Platão: corpo + alma Para Platão, o ser humano é composto por duas partes fundamentais: o corpo e a alma. O corpo está ligado ao mundo sensível, ao material e ao transitório; enquanto a alma é imortal, ligada ao mundo das ideias, sendo ela a verdadeira essência do ser humano. A alma é, portanto, a causa da vida é ela que anima o corpo e permanece viva mesmo após a morte. Platão propõe uma divisão tripartida da alma, conhecida como as almas platônicas, cada uma com funções e localizações simbólicas no corpo. • Alma racional: Situada no cérebro, que busca o conhecimento e a verdade. Essa Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada é a parte mais elevada da alma, pois é espiritual, imortal e deve governar as demais. • Alma irascível: Localizada no tórax, ligada à coragem, à força de vontade e à proteção do corpo. Ela é responsável pelas emoções e pelo senso de honra, e embora esteja conectada ao corpo, participa da elevação da alma racional quando bem orientada. • Alma apetitiva: Situada no abdômen, voltada aos desejos e necessidades corporais como fome, sede, sexo e prazeres. É a parte mais inferior da alma, sendo também mortal e responsável pela conservação da vida física. A harmonia no ser humano, segundo Platão, ocorre quando essas três partes da alma estão em equilíbrio, com a alma racional governando, a irascível colaborando como aliada, e a apetitiva sendo moderada. Essa concepção influencia diretamente sua filosofia política, onde Platão defende que uma sociedade justa é aquela em que cada classe cumpre sua função de forma equilibrada, à semelhança de uma alma bem ordenada. A República de Platônica É sua principal obra político- filosófica, na qual ele apresenta a ideia de um Estado Ideal, fundado na justiça e na harmonia entre as partes da alma humana, refletidas nas classes sociais. Para Platão, a sociedade deve ser organizada de forma análoga à estrutura da alma: a classe dos filósofos-governantes corresponde à alma racional, os guerreiros à alma irascível, e os trabalhadores à alma apetitiva. Um Estado justo é aquele em que cada classe cumpre sua função de acordo com sua natureza, sob a liderança dos mais sábios, os reis- filósofos. Platão acreditava que somente os filósofos, por buscarem a verdade e possuírem conhecimento das ideias, especialmente da ideia do Bem, seriam capazes de governar com sabedoria e justiça. Governar, para ele, significa libertar o povo das correntes da ignorância, por meio da educação e da razão. No entanto, ele reconhece que esse modelo ideal de Estado é uma utopia, como ele próprio admite na obra As Leis. Sua tentativa de aplicar esse ideal na prática, ao tentar influenciar o governo do tirano Dionísio em Siracusa, fracassou, reforçando sua percepção de que sem educação verdadeira, os governantes tendem a ser injustos. Alegoria do Navio É uma das principais metáforas políticas de Platão, apresentada na obra República. Nela, o navio representa o Estado, e o piloto, o filósofo. Platão mostra que, numa embarcação, os tripulantes competem pelo leme mesmo sem qualquer conhecimento de navegação, guiados apenas pelo prazer e pela conveniência. Enquanto isso, o verdadeiro piloto, que observa as estrelas, o clima e as estações para conduzir corretamente, é ignorado e considerado inútil. Assim são os filósofos no mundo real: muitas vezes vistos como ineficazes, na verdade são os únicos com a capacidade de governar de forma justa. Já os sofistas, que dominam a retórica, mas não buscam a verdade, são comparados aos maus navegadores que tomam o poder por força e astúcia, não por sabedoria. Essa alegoria deixa claro o contraste entre o governo justo, dos filósofos, e o governo injusto, dos sofistas. Platão propõe, então, uma reforma da educação e Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada da política, defendendo que somente através da formação filosófica e moral é possível alcançar uma cidade verdadeiramente justa. Aristóteles (384–322 a.C.) Nasceu em Estagira, na Macedônia, e desde cedo teve contato com a prática médica por influência de seu pai, Nicômaco, o que contribuiu para a formação de uma filosofia voltada à experiência concreta e ao mundo real. Aos 16 anos, mudou-se para Atenas e ingressou na Academia de Platão, onde permaneceu por vinte anos, até a morte do mestre. No entanto, mesmo sendo seu discípulo, Aristóteles sempre manteve divergências teóricas com Platão, especialmente no que diz respeito à Teoria das Ideias. Para Aristóteles, não existe uma separação entre o mundo sensível e o inteligível: a realidade é composta pela união da forma com a matéria, e o conhecimento deve partir da observação dos fenômenos, e não de ideias abstratas. Após a morte de Platão, a direção da Academia foi assumida por Espeusipo, que deu ao ensino um viés mais matemático e idealista, o que fez com que Aristóteles se afastasse. Ele fundou então sua própria escola filosófica, o Liceu, onde desenvolveu uma abordagem sistemática e naturalista, com base na lógica e na experiência empírica. Aristóteles compreendia o universo como um Todo ordenado por leis naturais, aplicáveis não só aos fenômenos físicos, mas também aos sociais, econômicos e políticos. Sua filosofia influenciou profundamente diversas áreas do saber, como a biologia, zoologia, ética, política e metafísica. Além disso, Aristóteles foi tutor de Alexandre, o Grande, o que lhe garantiu prestígio político e condições para desenvolver sua obra em Atenas mesmo após a dominação macedônica. Seu pensamento, centrado na busca pelas causas e finalidades das coisas, a chamada teoria das quatro causas, tornou-se a base de toda a filosofia ocidental durante a Idade Média e a Idade Moderna, especialmente no pensamento escolástico cristão, que reinterpretou Aristóteles à luz do cristianismo. Silogismo É o instrumento central do pensamento lógico de Aristóteles e representa a forma ideal de raciocínio dedutivo. Trata-se de uma estrutura composta por três proposições declarativas, sendo duas premissas e uma conclusão. A conclusão decorre necessariamente das premissas, com base numa relação lógica entre elas. A premissa maior é geralmente universal, por exemplo, “Todo homem é mortal” enquanto a premissa menoré particular como “Sócrates é homem”. A partir disso, chega-se à conclusão lógica: “Logo, Sócrates é mortal”. Esse modelo de raciocínio visa garantir clareza e coerência entre as ideias, evitando contradições e erros. Para Aristóteles, o silogismo é mais do que uma técnica de argumentação: ele é o fundamento do conhecimento racional, pois permite deduzir verdades universais a partir de princípios evidentes. Esse método lógico será a base para o desenvolvimento de sua Metafísica, ou Filosofia Primeira, que busca compreender as causas e os princípios fundamentais do ser. Por meio da lógica e da observação sistemática do mundo, Aristóteles inaugura um modo de pensar voltado à organização do conhecimento científico, influenciando profundamente a filosofia ocidental e toda a tradição racionalista que viria depois dele. Metafísica A palavra Metafísica não foi criada por Aristóteles, mas sua aplicação ao seu pensamento significa “Filosofia Primeira”, que estuda as causas primeiras, os princípios básicos e a finalidade de tudo o que existe. A Metafísica aristotélica Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada funciona como uma crítica à Teoria das Ideias de Platão, buscando moderar o idealismo platônico. Ela enfatiza a distinção entre o universal, que corresponde à essência das coisas, e o particular, que se refere à forma. Seu objetivo é compreender a realidade em sua totalidade, não apenas as partes, e não se limita ao âmbito transcendente. Aristóteles e a virtude Aristóteles diverge de Platão ao não considerar a virtude algo inato no ser humano. Para ele, embora saibamos o que é certo, nem sempre agimos corretamente, o que indica que a virtude depende de uma disposição da alma, uma vontade de ser virtuoso que se desenvolve pela prática e pela educação. A virtude, para Aristóteles, é um ponto médio entre o excesso e a falta, um equilíbrio que se manifesta no comportamento, caracterizado pela prudência. Aristóteles e a prudência É uma virtude prática destacada na obra “Ética a Nicômaco”. Ela consiste em agir de maneira refletida, ponderada e deliberada, não apenas cumprindo o dever por obrigação, mas considerando as circunstâncias reais da ação. Para Aristóteles, a justiça só se realiza plenamente quando acompanhada pela prudência, pois julgar com retidão exige reflexão cuidadosa sobre as consequências e o contexto das decisões. Aristóteles e a Justiça No início do Livro V da Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta uma divisão fundamental da Justiça em dois grandes campos: a Justiça Universal e a Justiça Particular. A Justiça, para ele, pode ser entendida de forma ampla e em sentidos mais específicos. • Justiça Universal é aquela tomada num sentido lato, onde a justiça é vista tanto como uma manifestação geral da virtude quanto como a conformidade com a lei considerada justa. Diferente da visão moderna, para Aristóteles a lei deve ser justa em seu conteúdo, não apenas formalmente válida; uma lei má não é verdadeira lei. Assim, o cumprimento da lei é o cumprimento da justiça universal. • Justiça Particular é o estudo do que é justo em si, sendo a virtude que consiste em dar a cada um o que é seu. Ela é, portanto, a ação de distribuição correta das coisas devidas a cada pessoa, uma espécie de “regra de ouro” da justiça. Dentro da Justiça Particular, Aristóteles distingue três tipos: 1. Justiça Distributiva: Relaciona-se à distribuição de bens, honras e riquezas. A justa distribuição é uma função proporcional entre pessoas e bens, e o critério principal é o mérito, pessoas com mais mérito devem receber mais. A justiça distributiva é uma forma de equidade, pois trata os iguais como iguais e os desiguais como desiguais. 2. Justiça Corretiva: Relaciona-se à reparação em casos de injustiça, como crimes ou prejuízos causados voluntária ou involuntariamente. Ao contrário da distributiva, aqui a proporção é aritmética, e as pessoas são tratadas formalmente como iguais. A justiça corretiva busca restaurar o equilíbrio rompido. 3. Justiça por Reciprocidade: Uma forma de justiça aplicada às trocas econômicas e à produção. Para que as trocas sejam justas, deve haver uma equivalência adequada entre produtos e serviços diferentes, como a troca entre o trabalho de um sapateiro e o de um pedreiro. O dinheiro atua como um equivalente universal, facilitando essa reciprocidade. Aristóteles e a Política Aristóteles não via a democracia como a melhor forma de governo para promover o bem comum. Após analisar várias cidades- Este material foi produzido por Luiza Mabel e não tem reprodução autorizada estados da Grécia, ele classificou as formas de governo, ressaltando que elas podem degenerar em formas corrompidas. O que define um bom governo para Aristóteles não é a quantidade de governantes ou sua formação, mas sim o fato de o governo visar o bem comum e o interesse coletivo. Por outro lado, um mau governo é aquele que age para beneficiar apenas quem está no poder, não a sociedade como um todo. O Bárbaro A palavra bárbaro originou-se da incapacidade de falar corretamente a língua grega ou romana, e, assim, significava alguém "estranho" à cultura greco-romana. Para Aristóteles, o bárbaro é um ser “apolítico”, pois não se adapta às instituições gregas e, por isso, vive à margem da sociedade, numa condição quase de escravo. O bárbaro não participa do processo educativo grego e teme a lei porque não compreende nem acessa a esfera cultural e legal da pólis. Essa insuficiência linguística e cultural impede sua integração social e política. Poder e Escravidão em Aristóteles A identidade do bárbaro e do escravo depende de fatores políticos e legais, ou seja, da permissão que recebem dentro da sociedade. A relação de poder é vista em várias hierarquias, segundo Aristóteles: • Dono sobre escravo • Marido sobre mulher • Pais sobre filhos • Rei sobre súdito • Magistrado sobre cidadão Para Aristóteles, a escravidão é natural e justificada por um direito natural: alguns seres humanos são, por sua natureza, destinados a serem escravos. Ele acreditava que certos povos eram naturalmente inferiores e, portanto, deveriam ser dominados por povos mais cultos, como os gregos, cuja razão era superior.