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Poços de Caldas 2020 BEATRIZ MYRIAM GONÇALVES NEGRÃO CONTRIBUIÇOES DA TERAPIA COGNITIVO- COMPORTAMENTAL PARA O TRATAMENTO DE ADOLESCENTES VÍTIMAS DE BULLYING Poços de Caldas 2020 CONTRIBUIÇOES DA TERAPIA COGNITIVO- COMPORTAMENTAL PARA O TRATAMENTO DE ADOLESCENTES VÍTIMAS DE BULLYING Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Pitágoras, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Psicologia. Orientador: Daniele Sita BEATRIZ MYRIAM GONÇALVES NEGRÃO BEATRIZ MYRIAM GONÇALVES NEGRÃO CONTRIBUIÇOES DA TERAPIA COGNITIVO- COMPORTAMENTAL PARA O TRATAMENTO DE ADOLESCENTES VÍTIMAS DE BULLYING Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Pitágoras, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Psicologia. BANCA EXAMINADORA Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)? Poços de Caldas, ? de ? de 2020. AGRADECIMENTOS Primeiramente agradeço a Deus e minha família que me ajudou e deu forças durante essa caminhada. Tenho motivos especiais para agradecer a minha mãe Rosa por todo o apoio dado desde o início até este momento. Á todas as pessoas envolvidas meus sinceros agradecimentos, e principalmente ás amizades construídas durante o curso, que resultou hoje em amigos mais próximos, e sempre presentes. “Há mais na superfície do que nosso olhar alcança” (Aaron T. Beck) NEGRÃO, Beatriz M. G. Contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental para o tratamento de adolescentes vítimas de Bullying. 2020. 33f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Faculdade Pitágoras, Poços de Caldas, 2020. RESUMO Este trabalho trata-se de uma revisão bibliográfica sobre o conceito do Bullying e os principais danos psicológicos que ele provoca a vítima. O objetivo foi verificar aspectos da terapia cognitivo-comportamental e como essa contribui no atendimento de adolescentes vítimas de Bullying. Para sua elaboração foram analisados artigos científicos e livros localizados em bases de dados e em bibliotecas físicas, a partir de descritores concernentes à temática proposta. Considera-se que a pesquisa atingiu os objetivos delimitados e, a partir da leitura e análise das publicações na área, foi apresentado as possibilidades de aplicação da terapia cognitivo-comportamental frente ao fenômeno, bem como na prevenção do mesmo. Palavras-chave: Bullying; tratamento; cognitivo-comportamental; adolescentes; saúde mental NEGRÃO, Beatriz M. G. Contributions of Cognitive-Behavioral Therapy to the treatment of adolescent victims of Bullying. 2020. 33f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Faculdade Pitágoras, Poços de Caldas, 2020. ABSTRACT This work is a bibliographic review on the concept of Bullying and the main psychological damage it causes to the victim, condensed with some aspects of cognitive-behavioral therapy and how it contributes to the care of adolescent victims of Bullying. For its elaboration, scientific articles and books located in databases and in physical libraries were analyzed, using descriptors concerning the proposed theme. It is considered that the research reached the defined objectives and, from the reading and analysis of publications in the area, the possibilities of applying cognitive- behavioral therapy in the face of the phenomenon, as well as in preventing it, were presented. Key-words: Bullying; treatment; cognitive-behavioral; adolescents; mental health LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas TC Terapia Cognitiva TCC Terapia Cognitivo-Comportamental SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 13 2. ASPECTOS GERAIS DA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL ........ 15 3. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO BULLYING E OS DANOS QUE ELE ACARRETA À SAÚDE MENTAL DA VÍTIMA .......................................................... 21 4. CONTRIBUIÇÕES DA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL NO ATENDIMENTO DE ADOLESCENTES VÍTIMAS DE BULLYING. .......................... 26 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 31 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 32 13 1. INTRODUÇÃO O bullying é um assunto importante a ser tratado e necessita ser trabalhado, principalmente, com o público adolescente. Uma vítima desse fenômeno pode acarretar sintomas e outras consequências para o resto da vida se não for devidamente tratado e a terapia cognitivo-comportamental apresenta muito eficácia no tratamento de vítimas de bullying. Este trabalho se trata de uma pesquisa bibliográfica, sendo assim, tem uma importância significativa, pois os conteúdos a serem abordados têm embasamento científico e a partir desta pesquisa podem-se promover discussões, indagações, bem como acréscimo de conhecimento a respeito do tema. Na esfera social este trabalho poderá contribuir para a instrução e esclarecimento de dúvidas relacionadas ao tratamento do bullying com adolescentes para pais, professores, psicólogos e profissionais em geral e promover reflexões acerca do tema. Para a comunidade acadêmica acredita-se que este poderá ser utilizado como referencial para estudantes de psicologia ou outros cursos, bem como escolas ou outras instituições que queiram aprofundar o seu conhecimento sobre a temática aqui proposta. Diante do exposto até o momento o problema desse trabalho consistiu na seguinte questão de pesquisa: Quais as possíveis contribuições da terapia cognitivo- comportamental no processo de tratamento de adolescentes vítimas de bullying? Para se responder à questão proposta foi delimitado o seguinte objetivo geral: Discutir as contribuições terapia cognitivo–comportamental no processo de tratamento de adolescentes vítimas de bullying. Na perspectiva de se atingir o objetivo geral delimitou-se como objetivos específicos: descrever os aspectos gerais da Terapia Cognitivo-Comportamental; pontuar as principais características do bullying e os danos que ele acarreta à saúde mental da vítima; discutir as possibilidades de aplicação e as possíveis contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental no atendimento de adolescentes vítimas de bullying. Para o desenvolvimento deste Trabalho de Conclusão de Curso foi feita uma pesquisa bibliográfica, de caráter descritivo e qualitativo, que consistiu em reunir e analisar materiais científicos relacionados à temática proposta, a fim de serem utilizados como base para a elaboração de um texto coeso seguindo as normas da 14 Associação Brasileiras de Normas Técnicas (ABNT) respondendo a situação- problema. Os materiais a serem utilizados para a pesquisa foram publicados nos últimos 20 anos. Para a construção do referencial teórico foram utilizados livros e artigos científicos de autores como Beck (2000), Banaco (1999) e Knapp (2008). A consulta dos livros se deu na biblioteca física e digital da Faculdade Pitágoras de Poços de Caldas e os artigos em bases de dados disponíveis na internet, tal como o portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC) e Scientific Electronic Library Online (SCIELO). Para localização das produções foram empregadas as seguintes palavras- chaves: cognitivo - comportamental; bullying; tratamento. 15 2. ASPECTOS GERAIS DA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTALDe acordo com Knapp e Beck (2008) a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é um modelo de psicoterapia que consiste na combinação de técnicas da abordagem cognitiva e um conjunto de estratégias comportamentais que visam a modificação e aprendizado de comportamentos. A Terapia Cognitiva (TC) foi desenvolvida por Aaron Beck em 1960 para tratamento de uma ampla variedade de transtornos como ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Se trata de uma abordagem de psicoterapia breve, focada na resolução de problemas específicos do contexto atual que o paciente se encontra, tal como medo de dirigir, dificuldade em falar em público, ansiedade excessiva ao interagir socialmente, entre outros (KNAPP; BECK, 2008). Já a Terapia Comportamental pode ser considerada a aplicação dos princípios behavioristas no campo da psicoterapia. Segundo Skinner (2006), o behaviorismo demonstra que o indivíduo aprende por associação, reforço e pelas consequências dos seus atos. Busca-se então, a modificação de comportamentos disfuncionais pela aquisição e aprendizagem de novos comportamentos. Quando houve uma junção dos propósitos da terapia cognitiva e da comportamental, surgiu a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Knapp e Beck (2008) afirmam que ultimamente esse termo acaba abrangendo muitas formas de terapia, algumas com enfoque mais cognitivista, outras mais comportamentalistas, porém em geral todas buscam mudanças adaptativas. Baseada no modelo mediacional do psicólogo Edward Tolman, que diz que a resposta a um estímulo é produto de uma mediação cognitiva do organismo, ou seja, o estimulo é processado no cérebro antes do organismo emitir uma resposta, a TCC defende que uma mudança cognitiva media ou leva a uma mudança comportamental. Assim a maneira como um indivíduo pensa, percebe e atribui significado a uma situação influencia diretamente no humor e no comportamento do mesmo (BECK, 2000). Beck (2014) destaca que a criança, desde as primeiras relações com o ambiente e com as figuras cuidadoras, constrói crenças de si e do mundo que a cerca. Podem ser crenças positivas ou negativas. As negativas são classificadas em desamparo, desamor e desvalor. De desamparo quando a pessoa apresenta crenças como “sou incompetente, inadequado, um fracasso”; de desamor quando tem certeza 16 que não é amada, que é rejeitada e de desvalor quando acredita que não possui valor, é inaceitável. E podem ser em relação a si mesmos, como as citadas anteriormente, ou em relação ao mundo e às pessoas como “as pessoas são más” ou “o mundo é perigoso”. De acordo com Beck (2014) estas crenças, gradualmente, formam estruturas cognitivas que servem de orientação para a percepção de próximas experiências que serão vividas ao longo dos anos. Estas estruturas cognitivas denominamos de esquemas. Os esquemas são como pastas arquivadas em uma gaveta e as crenças seriam os conteúdos dentro das pastas. Porém, algumas crenças formadas podem apresentar distorções. Durante a interpretação de uma situação vivenciada, é comum as pessoas focarem seletivamente em informações que provem a veracidade das crenças que possui e ignora fatos que as contradizem. É um movimento automático que torna a crença mais forte, mesmo não sendo real (BECK, 2014). Beck (2014) cita exemplos de distorções cognitivas. São elas: enxergar as situações em apenas duas categorias, como certo ou errado, sucesso ou fracasso, desprezando o meio termo; catastrofizar o futuro, superestimando a possibilidade de ocorrências negativas e acreditar que eventos negativos ou comportamentos aversivos de terceiros, se devem a fato que a própria pessoa fez, dentre outros. Ter uma ideia excessivamente rígida de como deve ser o seu comportamento e grande exigência sobre a sua performance; descartar características positivas das vivências, evidenciando as negativas e chegar a conclusões na ausência de evidências também são considerados desvios de cognição (BECK,2014). Beck (2014) declara que essas distorções são expressas por meio de pensamentos automáticos. Os pensamentos automáticos são pensamentos breves, que acontecem espontaneamente e manifestam a maneira como significamos as situações bem como as distorções que fazemos da realidade. Na maior parte das vezes não são percebidos, embora se possa fazer isto com um pouco de treino. Em geral, estamos mais cientes da emoção que sentimos em decorrência deles do que do próprio pensamento. Podem estar em formas verbais, visuais ou ambas. Geralmente, estes pensamentos automáticos são assumidos como verdades absolutas pelos pacientes, porém, quando eles tomam consciência dos mesmos e os ligam às crenças centrais, verificam o sentido dos pensamentos e quão realistas eles 17 são, declara Beck (2014). Há aqueles que não conseguem mudar a forma de pensar por ter as crenças muito rígidas. Essa rigidez acaba trazendo sofrimento ao indivíduo, que pode começar a apresentar sintomas. Segundo Beck (2014), temos ainda as crenças intermediárias. Estas constituem basicamente de regras e suposições como “eu devo”, “eu tenho que”, “se então”, a fim de reduzir o sofrimento provocado pelas crenças centrais. Uma pessoa que desenvolve um esquema ligado ao abandono devido a um relacionamento passado, pode desenvolver uma crença central como “eu não mereço ser amado”, como crença intermediaria terá “se eu não namorar mais ninguém, ninguém me abandonará” como uma forma de proteção. Em situações futuras de um possível flerte ela poderá emitir pensamentos automáticos como “não é comigo mesmo, acho que devo ignorar”. É comum que as pessoas utilizem de estratégias compensatórias para camuflar crenças afirma Beck (2014). Por exemplo, toda ocasião que o marido viaja, a esposa tem o pensamento automático “ele pode sofrer acidente e bater o carro”. Então, ela liga para ele e certifica que está tudo bem. É uma forma de aliviar a angústia que os pensamentos trazem a curto prazo, mas a longo prazo não é funcional, pois só reforça o comportamento compensatório, de ligar para o marido neste caso. A Terapia cognitivo-comportamental realiza uma Reestruturação Cognitiva, que consiste em intervir sobre as cognições disfuncionais para que o paciente gradualmente aprenda maneiras assertivas de interpretar as situações e assim modificar emoções e comportamentos que lhe trazem prejuízo. Este processo é também chamado de empirismo colaborativo, já que terapeuta e paciente procuram juntos evidências a favor e contra as crenças atuais (BANACO, 1999). De acordo com Beck (2014) os pacientes são ensinados a identificar os padrões afetivos, cognitivos e comportamentais que pioram os seus sintomas. Após a identificação é aplicado técnicas da Terapia Cognitiva a fim de modificar essas percepções ou comportamentos. São técnicas mais verbais como avaliação e questionamento das crenças; procurar evidências que provam e outras que contradizem a crença manifesta; imaginar que um amigo tem a mesma crença e ele deve convencer o amigo de que a é equivocada, entre outras. 18 O terapeuta ajuda o paciente a identificar as principais cognições e a adotar percepções mais realistas e adaptativas das situações, que o leva a se sentir melhor emocionalmente e ter uma melhora nos sintomas. Por outro lado, algumas vezes as crenças realmente são verdadeiras, mas ainda sim acarretam comportamentos disfuncionais que trazem sofrimento ao paciente. Então, o terapeuta utiliza estratégias para modificar comportamentos não assertivos. Entre as técnicas utilizadas, incluem treinamento de habilidades sociais; prescrições comportamentais de tarefas para casa e técnicas de solução de problemas (BECK, 2014). Em alguns casos, afirma Beck (2014), pode acontecer do paciente conseguir perceber que uma crença é disfuncional, mas emocionalmente ainda acredita que seja verdade. Dada essa circunstância, recomenda-sea técnica de role-play, em que terapeuta e paciente fazem um diálogo onde um desempenha a parte intelectual e o outro a parte racional. Em um segundo momento, os papéis são invertidos. Essa técnica permite que o paciente observe com distanciamento ás suas próprias crenças e teste a validade das mesmas. Por fim, é feito um Treinamento de Assertividade, em que se treina o paciente a agir de modo mais assertivo em possíveis situações futuras que ele irá enfrentar como forma de prevenção de recaída de comportamentos emitidos anteriormente nas mesmas situações (BECK,2014). Entretanto, Banaco (1999) enfatiza que para os objetivos terapêuticos serem atingidos é necessário estabelecer e manter uma boa relação terapêutica entre ambos. Segundo Knapp e Beck (2008) a Terapia cognitivo-comportamental é altamente respeitada por ter sua eficácia comprovada cientificamente no tratamento de transtornos emocionais como depressão, ansiedade, fobias. Tem se adaptado a diversas culturas e ambientes como hospitais, escolas, programas vocacionais, prisões com um público de diferentes idades que vão desde crianças pequenas até adultos com idade mais avançada (BECK, 2014). Em relação à adolescência, Neufeld (2017) destaca que é importante considerar que é uma fase que contém particulares que influenciam nas crenças do paciente, e isto precisa ser considerado durante o processo terapêutico. 19 Piaget (1960) apud Neufeld (2017) expõe que neste estágio do desenvolvimento é esperado que se atinja uma maturação cognitiva que permite que os adolescentes estejam aptos a realizar processos avaliativos e reflexivos a respeito de sua própria imagem, bem como dos relacionamentos aos quais se vinculam. Eles já conseguem elaborar hipóteses a respeito de si mesmo e seus propósitos pessoais. No entanto, é um período de mudanças física, hormonais, de autoestima, identidade. Esses aspectos, declara Neufeld (2017), implicam em alterações emocionais significativas que podem dificultar o uso das técnicas da TCC, uma vez que os pacientes praticam técnicas complexas como autorreflexão, avaliação de consequências de seu padrão comportamental e questionamento de crenças. Neufeld (2017) pontua que devido a alterações hormonais, os adolescentes tendem a ter mais produção de cortisol (hormônio do estresse). Por esse motivo, estão mais propensos a desenvolverem estados mais emotivos, intensos e se envolverem em situações de risco como uso de substâncias psicoativas ou práticas sexuais de risco. Nesta fase, eles tendem a se encaixar em grupos e os comportamentos que emitem, na maior parte, são para terem uma boa reputação no grupo que valorizam socialmente e isso contribua para uma percepção favorável a respeito de si mesmo (NEUFELD, 2017). Para intervenção, o que determinará a escolha de técnicas predominantemente cognitivas ou comportamentais, segundo Neufeld (2017) é se as dificuldades dos adolescentes são do tipo internalizantes (ansiedade e depressão) ou externalizantes (oposição, desafios e condutas antissociais). No primeiro, predomina-se recursos cognitivos enquanto na segunda recursos comportamentais. Neufeld (2017) recomenda, portanto, que o terapeuta faça perguntas ao paciente sobre essas dificuldades características do período adolescente. Se identificar alguma dessas situações, pode-se aplicar técnicas de regulação da emoção e trabalhar recursos de enfrentamento juntamente com técnicas de relaxamento para estresse ou ansiedade. Os comportamentos de risco como ideações suicidas por exemplo devem ser investigados e monitorados. Uma técnica que permitem auxiliar os jovens a obter maior consciência de suas emoções, pensamentos e sensações, sem necessariamente reagir ou julgar, é a mindfulness. Os adolescentes, revela Neufeld (2017), são ensinados a desenvolver 20 uma percepção sem julgamento de suas cognições, seus estados afetivos e suas experiências somáticas. Ao se atentar, deixam de apenas reagir com base apenas no hábito ou de modo inapropriado, passam a revisar seus valores e atitudes e torna-los mais assertivos. A Terapia Cognitivo-Comportamental, portanto, tem como princípio norteador a relação colaborativa estabelecida pela dupla terapêutica, na qual o profissional psicoeduca o paciente sobre suas emoções, pensamentos e comportamentos. A abordagem faz uso de técnicas cognitivas e comportamentais ao longo da intervenção, visando auxiliar os clientes no planejamento e no aprendizado de novos comportamentos, com alívio ou remissão de sintoma; melhora na qualidade de vida e desenvolvimento de estratégias mais adaptativas de enfrentamento (NEUFELD,2017). 21 3. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO BULLYING E OS DANOS QUE ELE ACARRETA À SAÚDE MENTAL DA VÍTIMA O bullying despertou interesse na década de 70, quando o pesquisador Dan Olweus observou a interação com práticas violentas entre crianças de escolas da Noruega e ainda hoje é um fenômeno social significativo. (LISBOA; BRAGA; EBERT,2009). Apesar da temática ser uma preocupação também em outros públicos - como em adultos em empresas ou universidades - de acordo com Caballo (2003), as escolas são os locais onde o fenômeno mais surge e permanece, sobretudo entre crianças e adolescentes. “O termo bullying deriva de bully que, em inglês, significa “valentão” (LISBOA et. al., 2014.p.456) e corresponde a uma agressividade física ou psíquica entre pares tal como apelidos, insultos, deboches, chutes, empurrões ou ameaças, de forma contínua e sem motivo aparente, a um indivíduo por um ou mais agressores. As atitudes agressivas, além de repetidas, são intencionais, executadas dentro de uma relação desigual de poder, causando dor, angústia, humilhação e exclusão (PIGOZI; MACHADO, 2015). Há quatro papeis diferentes envolvidos no fenômeno: os agressores, as vítimas, os agressores/vítimas, os reforçadores e as testemunhas. Os agressores são aqueles que praticam a violência nas diversas formas contra a vítimas, que geralmente por medo e insegurança, não conseguem defender-se. Há os agressores/vítimas que são aqueles que oram agridem os colegas, ora são agredidos. Os reforçadores são aqueles que incentivam o agressor, reforçando-o com risadas por exemplo, e encorajando-o a fazer novamente, já as testemunhas são os que presenciam este tipo de violência mas permanecem neutros em relação a situação (LISBOA et.al., 2014). Lisboa et.al. (2014) enfatizam que bullying é diferente de brincadeiras inocentes entre amigos. A diferença se encontra justamente no fato de que em uma brincadeira todos estão se divertindo, já no bullying há sofrimento em algumas das partes. Logo, quando existe sofrimento já não é mais apenas divertimento, é violência. Silva (2015) assegura que há diversos tipos de bullying que podem acontecer isolados ou em conjunto. São eles: verbal (insultar, ofender), físico ou material (bater, chutar, roubar), psicológico (ameaçar, intimidar, fazer intrigas), sexual (abusar, 22 assediar) e virtual (mais conhecido como cyberbullying, quando os insultos acontecem por meios de comunicação eletrônico, como as redes sociais). Em relação ao gênero, os meninos parecem mais envolvidos em agressões físicas, roubos, ameaças e ofensas verbais, enquanto as meninas envolvem-se de maneira indireta como indiferença, exclusão, difamação, ações as quais são mais difíceis de identificar e verificar (LISBOA et.al., 2014). Martins e Faust (2018) apontam que entre os motivos que contribuem para o surgimento do bullying incluem às relações parentais ineficientes e escassa supervisão ao contexto escolar com orientação insuficiente a professores e alunos quanto ao fenômeno, principalmente aos adolescentes. Segundo Neufeld (2017), desde o início da adolescência, os indivíduos tendem a se comparar aos pares e compreender que seus comportamentos estão sendo avaliados pelaspessoas do seu convívio. A construção da sua identidade pessoal e a visão que possuem de si mesmos é influenciada por esse julgamento social. A percepção do adolescente em relação a si mesmo influencia na maneira como desenvolve as cognições a respeito do self e das próprias habilidades sociais. O senso e o fato de se sentir eficiente nesta fase pode influenciar decisivamente o curso de suas vidas. Quando essa percepção do sentido de vida dos adolescentes condiz com a sua identidade e seus valores pessoais, eles se desenvolvem de forma mais saudável e apresentam maiores níveis de felicidade, autoestima estável e comportamento pró-social (NEUFELD,2017). Entretanto, adolescentes que são vítimas de bullying geralmente apresentam um desenvolvimento pouco saudável. De acordo com Carvalhosa (2010), as vítimas são introvertidas, não confiam nas suas habilidades físicas nem sociais e não possuem boa visão de si mesmos. Faltam-lhes competências sociais, demonstrando comportamentos menos assertivos (como chorar) e de submissão (se afastar), com uma passividade comunicativa que lhe impede de defender seus próprios direitos e se defender das provocações (MARTINS; FAUST, 2018). Boulton e Smith (1994) apud Carvalhosa (2010) compreendem a vítima como sendo alguém com quem frequentemente implicam, batem, ou fazem diversas coisas desagradáveis sem um motivo racional. Também apresentam, segundo Carvalhosa (2010) sentimentos de infelicidade e de tristeza, possuem baixa autoestima e fraca 23 autoconfiança. Geralmente, têm consideráveis problemas de saúde mental e um bem- estar escasso, podendo isso refletir-se e perdurar até a vida adulta. Carvalhosa (2010) menciona que na esfera das relações interpessoais, as vítimas têm maior dificuldade em fazer amigos por sofrer rejeição dos pares, se isolam e se sentem sozinhas. No contexto escolar, é comum exibirem sintomas de evitamento e afastamento dos demais, apresentando insegurança. Faltam com frequência ás aulas pois veem a escola como um lugar desagradável, o que gera prejuízos significativos à sua aprendizagem. Pigozi e Machado (2015) igualmente declaram que o bullying na infância e adolescência acarreta sintomas e outras consequências à saúde mental dos indivíduos. Podem apresentar temperamentos depressivos, apáticos, instáveis ou ansiosos acompanhado de tristeza, baixa autoestima, baixo autocontrole, principalmente, quando precisa enfrentar momentos difíceis ou resolver problemas. Carvalhosa (2010) afirma que as vítimas tendem a pertencer a famílias que são caracterizadas como tendo uma educação de restrição e excesso de proteção pelos pais. Nas vítimas-agressoras - aquelas que alternam entre passividade e agressividade - há um padrão de comportamento reativo em excesso e desregulado emocionalmente, com elevada tendência a depressão. Esse padrão de desregulação emocional que caracteriza as vítimas- agressoras, destaca Carvalhosa (2010), pode ser consequência de uma exposição a violência e abusos em casa, ou pais punitivos. Os pais reagem de forma agressiva ao comportamento dos filhos e, às vezes, até os rejeitam. Então os filhos, pela exposição ao negativismo parental e excesso de proteção materno, repetem a mesma reação com os colegas na escola. A relação familiar serve como modelo para o aprendizado de padrões comportamentais e sociais das crianças. Em famílias que a violência conjugal ou punições severas se faz presente a saúde mental das crianças e adolescente que ali convivem fica comprometida e provoca comportamentos prejudiciais à interação social. Até mesmo na idade adulta, dificuldades de ordem psicológicas podem ter relação com eventos de violência na infância e/ou adolescência (SA, 2010). Silva (2015) afirma que a exposição dos jovens à intimidação constante provoca consequências psíquicas e comportamentais. A prática do bullying pode agravar problemas com a autoestima que a vítima já dispõe, que chegam a 24 desenvolver transtornos psíquicos. Entre eles estão: transtorno de ansiedade, síndrome do pânico, fobia escolar ou social, depressão, transtorno de estresse- pós- traumático, transtorno obsessivo- compulsivo ou alimentares como anorexia e bulimia e o desenvolvimento - muito comum - de sentimentos excessivos de raiva. Além disso, é comum apresentarem sintomas psicossomáticos, expõe Silva (2015), que causam desconforto e prejudicam o dia-a-dia dos indivíduos. Alguns dos sintomas são: cansaço crônico, cefaleia, insônia, enjoo, dificuldade de concentração, diarreia, sudorese, tensão muscular, entre outros. Esses malefícios, se não forem devidamente tratados, permanecem até a vida adulta. De acordo com Lisboa e Habigzang (2017) “vítimas de bullying apresentam um significativo déficit em habilidades sociais, presença de crenças negativas a respeito de si mesmas e dificuldades para a resolução de problemas”. Algumas pessoas chegam a demonstrar sintomas de estresse pós-traumático e maior tendência ao uso de drogas (PIGOZI; MACHADO, 2015). Para identificar casos de bullying faz-se necessário estar atento aos comportamentos típicos dos envolvidos, tanto no ambiente escolar quanto no ambiente doméstico. Segundo Silva (2015), as vítimas se encontram frequentemente isoladas na escola. Dentro da sala geralmente apresenta postura mais retraída dos demais. Faltam com frequência as aulas e as vezes mostram-se tristes ou aflitas. Em casa, queixam-se constantemente de dor de cabeça ou estômago, tem insônia, perdem o apetite, ficam sonolentas durante o dia e apresentam mudanças frequentes e intensas no estado de humor e explosões repentinas de irritação ou raiva. Sousa (2015) informa que recentemente foi sancionada a Lei Nº 13.185, conhecida como Lei Anti- bullying, que determina a criação do Programa de Combate à Intimidação Sistemática em todo o território nacional. A lei, que entrou em vigor em fevereiro de 2016, determina que as escolas devem promover atividades para prevenir a prática do bullying e preparar os docentes para lidar com agressores e vítimas no dia a dia. O fato do bullying ser um fenómeno grupal, sugere que os programas de prevenção da violência escolar devem dirigir-se mais aos grupos, escolas e turmas, do que aos indivíduos; e o fato de se manifestar sob diferentes formas – físico, verbal e indireto – sugere que as estratégias de intervenção ou prevenção deverão levar em consideração o tipo de bullying que pretendam prevenir ou erradicar. (MARTINS, 2005, p. 403). 25 De forma geral, deve-se trabalhar, tanto em casa quanto na escola, a importância de se ter empatia e cuidado com o próximo. Humanizar a forma com que veem uns aos outros, entendendo que mesmo que o outro seja diferente e apresente suas particularidades, ele é um ser humano que possui sentimentos e uma história de vida. O respeito pelo próximo independe de suas diferenças físicas, personalidade ou de ideias, visão de mundo. É importante o trabalho junto a professores e demais membros da equipe escolar, orientando-os a intervir caso identifiquem situações de bullying. No processo de tratamento, os pais devem ser igualmente incluídos nas intervenções, para que limitem comportamentos reativos de seus filhos, auxiliem para que consigam se expressar de forma mais assertiva e apoiem o estabelecimento de novas relações interpessoais, as quais sejam saudáveis para esses jovens (LISBOA E HABIGZANG, 2017). 26 4. CONTRIBUIÇÕES DA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL NO ATENDIMENTO DE ADOLESCENTES VÍTIMAS DE BULLYING Diversas técnicas da TCC são usadas como intervenção no tratamento de vítimas de violência que pode ser aplicada nas modalidades grupal ou individual. Destaca-se a psicoeducação, reestruturação cognitiva, pareamento de lembranças dessensibilização, manejo das emoções, bem como treinamento de habilidades sociais e assertividade para prevençãoda recaída (LISBOA; HABIGZANG, 2017). A Psicoeducação, segundo Martins (2018) é uma técnica baseada na ideia de que as pessoas podem aprender novas habilidades para mudar suas crenças, para controlar seu humor e realizar mudanças no comportamento. Pode ser utilizada para ampliar o conhecimento que o adolescente tem sobre o bullying, sobre as emoções, as crenças, ampliando assim as habilidades para enfrentamento do bullying, bem como ressignificar as crenças dos jovens envolvidos sobre si mesmos, sobre suas capacidades/habilidades e interações sociais (LISBOA; HABIGZANG, 2017). Entretanto, Monteiro e Rizo (2013) manifestam que o terapeuta não deve focar simplesmente nas técnicas a serem utilizadas, a empatia neste momento é o mais importante. O paciente se encontra em sofrimento e necessita de uma compreensão genuína e acolhedora do mesmo. Um dos impactos negativos do bullying é a tendência de a vítima ficar revivendo a situação traumática com sofrimento e ressentimento. De acordo com Lisboa e Habigzang (2017), o primeiro passo para se trabalhar com a vítima é ajudá-la a internalizar a ideia de que a situação já passou e é necessário sair desse lugar de vitimização. O objetivo é a compreensão de que sentimentos como ressentimento e mágoas não somam nenhum benefício e não há possibilidades de se mudar o passado, mas o presente sim. O terapeuta, ao longo do tratamento, deve trabalhar o autoconhecimento e ressignificação de crenças e pensamentos que foram provocados pelo evento. Lisboa e Habigzang (2017) declaram que intervenções clínicas a envolvidos com bullying devem focar a ressignificação de distorções cognitivas que reforçam estereótipos sobre diferenças sociais, estéticas, culturais ou religiosas, assim como crenças de vitimização, rejeição, incapacidade, desvalor muito comum nas vítimas. Esse processo de ressignificação de crenças denomina-se restruturação cognitiva. 27 Beck (2014) ressalta que o terapeuta deve ensinar ao paciente que as crenças e pensamentos que ele tem podem estar distorcidos e é preciso procurar evidências que comprovem a sua veracidade, assim como evidências que a contradizem. A partir dessas evidências e questionamentos, se avalia a perspectiva mais realista que se pode obter. Por exemplo: uma perspectiva mais realista da crença “sou inaceitável, sou rejeitado” seria: “houve momentos que alguém me rejeitou, mas isso não significa que sou e serei rejeitado sempre”. O pareamento de lembranças é um exemplo de ressignificação acerca das memórias instaladas e postas como rígidas e dolorosas. Gradativamente, são feitas associações com as quais é possível promover uma redução do impacto causado pelas lembranças de sofrimento, permitindo assim uma modificação clara da forma como o paciente reage e como o mesmo passa a perceber seus agressores e envolvidos nas situações (BECK,2014). O segundo passo, de acordo com Caballo (2003), é ensiná-la sobre a distinção entre comportamentos assertivos, passivos e agressivos, apresentando maneiras assertivas de impor respeito e limite ao outro para que o bullying não aconteça mais. Uma pessoa passiva é aquela que deixa suas necessidades de lado para atender as de outras pessoas, geralmente sentem dificuldade em dizer não e possuem extrema vontade de sempre querer agradar. A pessoa agressiva é o contrário, aquela que não respeita as vontades de ninguém e se impõe de forma hostil, sempre a favor de suas próprias necessidades (CABALLO, 2003). A assertividade se encontra no meio termo. Um dos objetivos do tratamento na TCC é ensinar ao paciente a reagir de forma mais assertiva ás situações. Assertividade, segundo Caballo (2003) é um estilo de comportamento que envolve vários componentes verbais e não verbais, que se relacionam com a capacidade de expressão adequada de sentimentos e a responder adequadamente às críticas, sem passividade ou agressão. Aprende-se a resolver problemas, defender seus direitos e ter respeito por si, mas sem desrespeitar os direitos e às necessidades do próximo. Monteiro e Rizo (2013) expõe que a forma como o jovem se coloca frente aos atos de violência é determinante para a continuidade ou não das agressões. Se ele impor limite ao agressor e se colocar numa relação igual de poder, estará diminuindo drasticamente a probabilidade de continuar a ser vítima das agressões. Porém, se 28 reage de forma passiva ou se mostra humilhado, estará aumentando a probabilidade de as agressões perpetuarem. Para que o jovem consiga adquirir essa postura, o terapeuta pode realizar uma breve psicoeducação, ensinando ao jovem o que é ser assertivo, quais as posturas que são esperadas em determinadas situações e como estas posturas o ajudarão efetivamente no seu dia a dia (MONTEIRO; RIZO, 2013). Caballo (2003) enfatiza que é importante o desenvolvimento de um sistema de crenças que mantenha um grande respeito pelos direitos dos demais e pelos próprios direitos, o que facilitaria a determinação de limites ao outro. Após, o terapeuta pode realizar a dessensibilização ou imaginário. Consiste em pedir para o paciente imaginar situações temidas que considera difícil enfrentar, nesse caso por exemplo, enfrentar os agressores na sala de aula. Assim, ele cria estratégias de enfrentamento para essas situações e as memoriza. Voltar na situação e se imaginar reagindo diferente, quando vivenciar essas situações novamente já terá um repertório de como responder a elas (BECK, 2014). Caballo (2003) denomina essa técnica de ensaio do comportamento. No ensaio de comportamento, o paciente representa curtas cenas que simulam situações da vida real, com o objetivo de aprender a modificar modos de resposta não-adaptativos, substituindo-os por novas respostas. Se ainda sentir dificuldade, o paciente deve observar uma pessoa que sirva de modelo que mostre corretamente o modo de atuação e aprenda com a observação. Segundo Caballo (2003) esse modelo costuma ser representado pelo terapeuta ou por algum membro do seu convívio e pode apresentar-se ao vivo ou apenas no ensaio. Por meio de tal procedimento, representam-se maneiras apropriadas e concretas de colocar-se frente as situações da vida real que são problemáticas para o paciente para que depois o mesmo reproduza o que observou e aprendeu. No manejo da raiva e da ansiedade, pode-se apresentar ao paciente o Treino em Respiração Diafragma. Nessa técnica, pede-se que o indivíduo preste atenção em sua própria respiração e identifique os movimentos de inspirar e expirar colocando a mão sobre o abdômen e a região peitoral. Em seguida, pede-se que respire lenta e pausadamente, inspirando por três segundos, segurando a respiração por mais três segundos e soltando a respiração pela boca por seis segundos. Essa respiração impede a hiperventilação dos pulmões diminuindo sintomas involuntários do corpo e 29 a tensão muscular. Por conseguinte, há uma diminuição da raiva e ansiedade (OLIVEIRA; DUARTE, 2004). Outra técnica bastante eficaz para manejo da raiva é do termômetro. Segundo Stallard (2008) apud Monteiro e Rizo (2013), consiste em ajudar o paciente a identificar seu estado de raiva imaginando que sua raiva é o “líquido vermelho” do termômetro e que ele expresse que temperatura esse líquido atinge. Assim, passa a identificar quais são os sinais de raiva que seu corpo expressa, se a nuca fica quente, se a visão fica turva, etc. para que quando reconhecer os sinais, realize a respiração diafragmática. Outro relaxamento que pode ser ensinado, informa Monteiro e Rizo (2013), é o Relaxamento Muscular, que poderá ser realizado pelo jovem após enfrentar a situação que lhe gera ansiedade e também todos os dias quando chegar do colégio, para que ele consiga relaxar e não “acumule” no corpo a tensão das situações vivenciadas. Consiste em contrair o músculo e depois descontrai-lo de formalenta e gradual, enquanto se inspira e expira profundamente. Além das estratégias anteriores, podem ser utilizadas também técnicas de relaxamento e atenção como o treino em mindfulness (atenção plena) a fim de que essa seja mais uma estratégia de prevenir reações explosivas da vítima frente a situações que possam caracterizar o bullying (MARTINS; FAUST, 2018). De acordo com Kabat-Zinn (1990) apud Vandenberghe e Sousa (2006), mindfulness é a atenção plena no momento presente, ou seja, concentrar os pensamentos inteiramente no aqui e agora sem se envolver com lembranças passadas ou com pensamentos sobre o futuro. Como exercita a atenção, a pessoa sempre precisa raciocinar antes de agir. Assim, essa prática evita que a pessoa reaja ás situações de forma impulsiva ou rígida, com explosões de raiva por exemplo. O último passo é manter o comportamento. Para isso o paciente deve obter reforço. Conforme diz Caballo (2003), o reforço tem lugar relevante ao longo das sessões e serve tanto para adquirir novos comportamentos, recompensando aproximações sucessivas, como para aumentar determinados comportamentos adaptativos no paciente. As recompensas sociais por exemplo são reforços efetivos para a maioria das pessoas por meio do elogio, de expressão facial feliz, aplausos, palmadas nas costas, entre outros. 30 O próprio terapeuta ou paciente pode reforçar o comportamento desejado. De acordo com Caballo (2003), uma boa estratégia é o paciente se auto recompensar com reforços próprios - serve também para manter comportamentos que não são recompensados pelo ambiente externo. Uma forma de ajudar o processo de auto reforço é associa-lo a um reforço secundário, como algo que goste ou autoelogios. Por exemplo, depois de uma resposta assertiva ele reconhece e se faz um elogio ou se presenteia com um sorvete. Por fim, é importante ver o feedback das pessoas a volta sobre as novas atitudes tomadas. O feedback, afirma Caballo (2003), proporciona informações especificas essenciais para desenvolvimento e melhora de uma habilidade. Também pode ser dada pelo terapeuta ou outros membros do grupo de convívio social. Se o feedback é oferecido por outros membros do grupo, estes devem ser orientados para que ofereçam devolutivas de tal modo que seja benéfica para o paciente. De forma geral, declaram Monteiro e Rizo (2013), os jovens que vivenciaram bullying precisam passar por um trabalho de promoção de resiliência. Resiliência, de acordo com Taboada et. al. (2006) significa capacidade de se adaptar de forma saudável frente as adversidades da vida, ou seja, sem que causem impactos negativos e desequilibre o estado emocional. Esse trabalho é importante para que o paciente deixe de focar na experiência negativa e comece a se concentrar na lição que a experiência proporciona, assim como nas atitudes ele pode tomar para que da próxima vez tenha um resultado mais agradável. Ser resiliente permite, segundo Monteiro e Rizo (2013), o jovem se desprender do momento que experenciou o estresse emocional, sem adquirir “sequelas psicológicas”. Isso não significa tentar apagar da memória momentos estressantes ou deixar de vivenciar e ignorar as situações, mas sim passar por estas de forma mais assertiva que conseguir. Por fim, Monteiro e Rizo (2013) mencionam que durante todo o tratamento deve-se manter um foco nas potencialidades do indivíduo, na sua capacidade de enfrentamento, mostrando sempre como ele é capaz de se tornar um agente ativo no processo de mudança, sem precisar adotar comportamentos considerados disfuncionais para lidar com as situações de agressões por ele vivenciadas. Cada caso demandará procedimentos diferentes, mas as técnicas descritas servem como um norte e podem ser aplicadas tanto no tratamento como na prevenção do bullying. 31 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS O desenvolvimento do presente estudo possibilitou alcançar os objetivos propostos inicialmente. Entretanto o trabalho, por ser bibliográfico, não permite verificar in loco as informações aqui discutidas e, portanto, as informações se restringem apenas à pesquisa literária. Observou-se que estar exposto a situações constantes de violência, como o bullying, é capaz de distorcer as cognições dos jovens sobre si mesmos, o mundo e em relação ás pessoas a sua volta, provocando desequilíbrios emocionais e comportamentais que podem perdurar até a vida adulta. Apresentam um desenvolvimento pouco saudável que implicam em prejuízos determinantes nas relações interpessoais, na autoestima e na vida escolar. A terapia cognitivo-comportamental tem como foco o contexto atual do paciente e possui diversas técnicas que colaboram de forma efetiva no tratamento de adolescentes vítimas de bullying, bem como na prevenção do mesmo. São procedimentos que visam trabalhar as crenças do jovem sobre a situação vivenciada e ajuda-lo a adotar percepções mais realistas e adaptativas, que o leva ter uma melhora nos sintomas, além de auxilia-lo na aprendizagem de novo repertório cognitivo e comportamental. No entanto, é importante considerar que a adolescência é um período de mudanças físicas, hormonais, de autoestima, identidade que exercem grande influência sobre seu psicológico. O terapeuta deve compreender que durante todo o processo terapêutico essas particularidades estarão presentes e podem dificultar o uso das técnicas. Cada caso demandará recursos de enfrentamento diferentes, juntamente com técnicas de relaxamento para regulação das emoções. Contudo, empenhar-se na prevenção de práticas violentas ainda é a melhor atitude. Deve-se trabalhar, tanto em casa quanto na escola, o respeito pelo próximo independe de suas diferenças físicas, personalidade ou de ideias, visão de mundo. As escolas podem promover atividades que preparem os professores, demais membros da equipe escolar e os pais, orientando-os a identificar e intervir em situações de bullying. 32 REFERÊNCIAS BANACO, Roberto Alves. Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. 2*ed. Santo André, SP: Arbytes, 1999. BECK, Aaron T. O poder integrador da terapia cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. – 2. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2014. CABALLO, Vicente E. Manual de Avaliação e Treinamento das Habilidades Sociais. São Paulo: Livraria Santos Editora, 2003. CARVALHOSA, S. Prevenção da violência e do bullying em contexto escolar. KNAPP, Paulo; BECK, Aaron T. Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva. Rev. Bras. Psiquiatr. 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