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INSERÇÃO ECONÔMICA INTERNACIONAL DO BRASIL AULA 2 Prof. Itamir Caciatori Junior 2 CONVERSA INICIAL NOVO COMÉRCIO MUNDIAL Nesta etapa, iremos tratar do comércio mundial, suas vantagens, desvantagens e o papel do Brasil nesse contexto. Dessa forma, a etapa está dividida nos seguintes tópicos: (i) Impacto das tarifas e subsídios no comércio exterior; (ii) Barreiras não tarifárias e novas formas de comércio internacional; (iii) Economias externas de escala; (iv) Comércio intraindustrial e índice Grubel- Lloyd; e (v) Cadeias globais de valor no Brasil. CONTEXTUALIZANDO A liberdade de comércio é cerceada por algumas práticas que podem ser estipuladas pelos governos. Iremos responder às seguintes questões: o que são tarifas e subsídios? Qual é o impacto positivo e negativo das tarifas e dos subsídios na vida cotidiana? A visão dos exportadores e importadores é diferente quanto ao impacto das tarifas e subsídios? Como a agressividade nas políticas de tarifas e subsídios altera o padrão de comércio? Quais as novas rotas de comércio que se estabeleceram nos últimos tempos? TEMA 1 – IMPACTO DAS TARIFAS E SUBSÍDIOS NO COMÉRCIO EXTERIOR Créditos: tony4urban/ Shutterstock. 3 T O D Tarifa Q1 Q2 Q3 Q4 Quantidade Preço Pe Pm P*m 0 A liberdade de comércio entre os países pode ser reduzida por meio de fatores específicos criados pelos governos. Esses fatores podem ou não onerar as contas públicas ou mesmo gerar receitas. Neste tópico, vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre o papel das tarifas e os subsídios. 1.1 Tarifas Tarifas são impostos sobre importações cobrados pelos Governos. Elas podem ser específicas, quando cobradas por tonelada / litro / etc. (ex.: R$ 10,00 por tonelada), ad valorem, quando calculadas como porcentagem do preço do produto (ex.: 3% do valor total dos produtos), ou mistas, sendo uma união dos dois (ex.: R$ 50,00 por tonelada mais 6% por valor unitário do bem). O sistema ad valorem é o mais utilizado no comércio internacional. Vale ressaltar que, no caso do Brasil, os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) cobram uma Tarifa Externa Comum (TEC) sobre as importações. A estrutura tarifária aprovada no Mercosul apresenta alíquotas crescentes de dois pontos percentuais de acordo com o grau de elaboração ao longo da cadeia produtiva para as seguintes categorias de produtos: matérias- primas - 0 a 12%; bens de capital - 12 a 16% e; bens de consumo: 18 a 20%. Os efeitos das tarifas sobre os mercados são demonstrados no exemplo da Figura 1, demonstrado por Silva e Carvalho (2017). Figura 1 – Efeitos da tarifa sobre o mercado de M Fonte: Silva; Carvalho, 2017, p. 81. Efeitos sobre Livre comércio Tarifa Preço P*m Pm Produção Q1 Q3 Consumo Q2 Q4 Importação Q2-Q1 Q4-Q3 Receita pública nenhum área T 4 Sob liberdade de comércio, o preço da mercadoria M é P*m, os produtores domésticos ofertam a quantidade Q1 e os consumidores demandam a quantidade Q2. Assim, a produção é insuficiente para atender à demanda e a diferença é complementada com a importação da quantidade Q2-Q1. Porém, em uma situação de total liberdade de comércio, o preço internacional da mercadoria é igual ao preço no mercado doméstico. Com a tarifa t sobre a importação, o preço doméstico de M é alterado e fica mais elevado do que o preço internacional. No exemplo da Figura 1, a receita é igual à área T. Porém, se as tarifas causam elevação dos preços, por que elas são adotadas? O principal motivo é a proteção do mercado interno contra a importação das mercadorias internacionais. Essa pressão é causada, em grande parte, por pressões políticas de determinados grupos (ex.: produtores de veículos e fabricantes de alimentos). Assim, cada consumidor acaba pagando um pouco da tarifa (perdas difusas) e a concentração da receita fica com o governo, de forma concentrada. O maior perdedor, nesse caso, acaba sendo o consumidor, que paga um preço mais elevado pelos produtos importados. Por outro lado, os maiores beneficiados são o governo, em primeiro lugar, e os produtores e trabalhadores do setor protegido, que têm garantidos um preço maior para a competitividade. Dessa forma, caso o mercado doméstico seja concorrencial e adote-se tarifas que elevem os preços dos importados, ainda assim haverá algum grau de competitividade entre os fabricantes dos produtos nacionais. Porém, se o mercado interno operar em um regime de oligopólio (concentração em poucos produtores) ou monopólio (concentração em um produtor), a elevação dos preços via tarifas reduz a competitividade e não incentiva a redução dos preços e a melhoria na qualidade dos produtos. Um exemplo disso ocorreu antes dos anos 1990, quando o país não tinha forte abertura comercial. Com essa abertura, muitas empresas que operavam de forma ineficiente, ao serem confrontadas com os importados, sofreram perdas e fecharam as portas ou foram compradas por empresas estrangeiras. Dentre os principais setores afetados, os que mais tiveram aquisições foram as indústrias farmacêutica, higiene e limpeza, eletroeletrônica e química (Castro, 2021). Quanto aos efeitos sobre a renda dos consumidores, os protecionistas argumentam que, em um quadro de recessão, as tarifas podem ser utilizadas para estimular a renda e o emprego porque protegem o produto nacional. No 5 a balanço de pagamentos, a imposição de tarifas auxilia a reduzir o déficit externo porque reduz as importações. Em outras palavras, aumentos de tarifas aos produtos externos forçam a compra de produtos nacionais pelo incentivo do preço final, evitando o vazamento de receita para o exterior. Porém, essa redução do déficit pode ser obtida por outras medidas econômicas, como a desvalorização cambial, que estimula as exportações. 1.2 Subsídios Existe outra maneira de desencorajar as importações, via subsídios. Essa alternativa consiste em um instrumento de política comercial na forma de pagamentos, diretos ou indiretos, feitos pelo governo aos produtores para estimular as exportações e desestimular as importações. Esses pagamentos aos produtores são uma forma de imposto negativo, gerando uma redução de custo para o produtor. Os subsídios também podem ser dados via redução de impostos ou de taxas de juros inferiores às de mercado (Silva; Carvalho, 2017). A Figura 2 demonstra o impacto da implantação de subsídios sobre a produção. Figura 2 – Efeitos do subsídio sobre a oferta e demanda Fonte: Silva; Carvalho, 2017, p. 82. 1. A implantação dos subsídios gera um deslocamento da curva de oferta de O1 para O2; 2. Em um cenário inicial, o preço internacional é igual a P*m, a produção é igual a Q1 e os consumidores domésticos demandam Q2, resultando em importação de Q2 - Q1 por insuficiência de oferta; b Pm P*m O1 D Q1 Preço Quantidade Q2 Q3 0 Subsídio O2 6 3. Quando o governo adota uma política de subsídio ad valorem, de taxa s, para desestimular importações, o produtor passa a receber Pm = (1 + s)P*m; 4. Isso leva a um deslocamento da curva de oferta para S2, a um aumento da produção local para Q3 e a uma redução da importação para Q2 - Q3; 5. A redução nas importações é igual ao aumento na produção local (Q3 – Q1). Apesar de o subsídio não alterar os preços cobrados dos consumidores, os custos recaem sobre estes, que pagam mais pelo produto e sobre o governo, que banca o subsídio. Essa é uma tática bastante adotada pelos países porque aumenta a receita das exportações que, se for elástica, excede à redução do preço e aumenta a receita das exportações. Se o governo estiver em uma política de redução de gastos, o subsídio fica mais difícil, ocasião na qual o governo pode adotar outras políticas de proteção comercial. Assim como as tarifas,o subsídio também garante reserva de mercado aos produtores domésticos. Saiba mais Conceito – Elasticidade: a elasticidade é a relação entre as diferentes quantidades de oferta e demanda de certas mercadorias, em função de alterações realizadas em seus respectivos preços. Uma relação elástica entre receita de exportações e seus respectivos preços (relação inversa) significa que, a cada redução percentual nos preços, o aumento na receita das exportações é mais do que proporcional a essa redução. Por exemplo, uma redução de 10% nos preços causa um aumento de 15% na receita de exportações. Os bens de demanda inelástica são aqueles de primeira necessidade, indispensáveis ao cotidiano da população (ex.: sal). Os bens de demanda elástica são aqueles que não são indispensáveis à subsistência da população, tais como artigos de luxo. 7 TEMA 2 – BARREIRAS NÃO TARIFÁRIAS E NOVAS FORMAS DE COMÉRCIO INTERNACIONAL Créditos: Lightspring/ Shuterstock. Barreiras não tarifárias são mecanismos de comércio exterior que não estipulam políticas de tarifas especificamente, e sim de quantidades. Dentre elas estão as cotas de importação, controles cambiais, monopólio estatal, provisões de conteúdo doméstico e políticas domésticas adicionais. 2.1 Cotas de importação Cotas de importação são caracterizadas como a imposição de restrições quantitativas sobre o volume ou valor das importações. Por exemplo, um país pode limitar a importação de um modelo específico de veículos a 2 mil unidades anuais. Essas quotas podem ocorrer de forma unilateral ou em comum acordo entre os países. Quanto aos seus impactos, as quotas afetam a oferta de mercadorias, uma vez que “fecham” o mercado internacional para aquele produto após a importação do produto atingido ter alcançado seu limite. Dessa forma, a insuficiência de oferta tem um impacto semelhante ao das tarifas, o que causa aumento nos preços e redução na demanda do produto protegido. Nesse sentido, a diferença entre as tarifas e as cotas de importação é que estas últimas não geram receita para o governo. 8 2.2 Controles cambiais Esses controles são restrições administrativas sobre transações que envolvam divisas (moeda estrangeira). Uma das formas de controle cambial mais adotadas é a dificuldade de importação por meio de licenças para compra de moeda estrangeira. Também podem ser empregadas taxas múltiplas de câmbio. Nesse caso, quanto maior o interesse em proteger um produto específico, maior a taxa de câmbio fixada para sua importação. Esses mecanismos fizeram parte da política de substituições brasileira. No início dos anos 1950, o Brasil implementou um sistema de controles cambiais com promessas de venda de câmbio. Essas promessas davam ao importador o direito de adquirir certo montante de moeda ao valor estipulado. Assim, entre 1953 e 1955, enquanto a taxa oficial de venda da moeda estrangeira era Cr$ 18,82/US$, para produtos considerados supérfluos os importadores chegaram a pagar mais de Cr$ 100,00/US$. Para produtos como papel e trigo, as importações eram subvencionadas, com venda de moeda estrangeira a um preço ainda menor do que a moeda oficial (Silva; Carvalho, 2017). 2.3 Monopólio estatal O monopólio estatal ocorre quando o próprio governo impede a atuação de outros agentes na importação de um produto e centraliza esse processo. Esse monopólio pode ser concedido a alguma empresa específica, mediante pagamento e sob certas regras. O objetivo desse monopólio é controlar o volume importado por meio de uma decisão administrativa, sendo um método antigo e bem disseminado. No Brasil, um exemplo disso é a importação de petróleo, monopolizada pela Petrobras. 2.4 Provisões de conteúdo doméstico As provisões de conteúdo doméstico são reservas de mercado de parte do valor agregado e alguma parte das vendas dos componentes de produtos aos fornecedores domésticos (Appleyard et al., 2010). Como exemplo, isso ocorre quando um governo estipula que um percentual das peças de um produto produzido no país deve ser de origem nacional. 9 2.5 Políticas domésticas adicionais que afetam o comércio Exigências adicionais implantadas pelos governos e suas instituições também afetam a importação de determinados produtos. Essas exigências podem ser padrões de saúde, ambiente e segurança, são aplicados por governos, tanto para produtos domésticos quanto para estrangeiros. Porém, a crítica de economistas é que essas políticas contêm certo grau de protecionismo (Appleyard et al., 2010). Uma política que restrinja a importação de produtos transgênicos pelo Brasil de produtores estrangeiros é um exemplo de aplicação de uma política adicional. TEMA 3 – ECONOMIAS EXTERNAS DE ESCALA Créditos: ImageFlow/ Shutterstock. As economias externas de escala pertencem às teorias alternativas de comércio internacional e são uma forma de aumentar o retorno de uma empresa via inclusão em uma indústria que apresente ganhos de escala. 3.1 Economias de escala As economias de escala, também chamadas de aumento de retornos, baseiam-se no conceito de que o aumento dos custos não é proporcional ao aumento da produção. Com esse conceito, as produções serão mais eficientes quanto maiores foram suas escalas (quantidades) em que se situam. Ou seja, quanto maior a quantidade produzida por uma empresa ou indústria em que ela 10 esteja enquadrada, maior a sua eficiência. A Tabela 1 demonstra como, utilizando apenas o fator de produção mão de obra, a produção cresce em um ritmo maior do que o aumento desse fator. Tabela 1 – Relação de entrada para produção em uma indústria hipotética Produção Total de mão de obra Média de horas da mão de obra 5 10 2 10 15 1,5 15 20 1,333333 20 25 1,25 25 30 1,2 30 35 1,166667 Fonte: Krugman et al., 2015, p. 136. O exemplo da Tabela 1 demonstra que a quantidade necessária de mão de obra para cada produto diminui conforme aumenta a produção, passando de duas horas extras por produto, no momento inicial, para 1,17 horas extras por unidade na maior produção registrada. No momento inicial, com 10 horas empregadas na produção, eram fabricadas cinco unidades, resultando em uma média de duas horas para produzir cada uma. Quando a produção triplica de 5 para 15 unidades, a necessidade de horas extras não triplica na mesma proporção. Ou seja, são necessárias apenas 1,33 hora para produzir cada uma delas, ou seja, redução de 0,66 hora em relação à produção inicial de cinco unidades. Essa linha de raciocínio é aplicada em relação ao incentivo ao comércio internacional. Imagine que, em um momento inicial, a produção de 15 unidades esteja espalhada entre cinco países, com cada um deles produzindo cinco unidades. Cada um desses países, conforme a Tabela 1, demandará um total de duas horas extras para fabricar cada unidade do produto. Caso a produção desse item específico seja concentrada em apenas um país, com uma produção total de 25 unidades, a necessidade de mão de obra cai de 2 horas para 1,2 horas por unidade. É nesse ponto que entra em cena a necessidade do comércio internacional. Como cada país começa a se especializar na fabricação de itens 11 específicos, por exemplo, o país A produz os itens 1 e 4, e o país B produz os itens 2 e 3. Uma vez que a demanda dos consumidores do país A abrange os produtos 1, 2, 3 e 4, esse país precisara importar os itens 2 e 3, fabricados pelo país B. Para avançar nos conceitos, precisamos saber a diferença entre economias externas de escala e economias internas de escala. As economias externas de escala ocorrem quando esse aumento na produtividade, ou seja, o custo por unidade depende do tamanho do setor como um todo, e não do tamanho de uma empresa específica. Nesse conceito, o foco de atenção é a indústria em si, como um conjunto de empresas, a responsávelpelas economias de escala. No caso das economias internas de escala, o aumento na produção via economia de escala ocorre pela produção de uma empresa individual, e não do conjunto dessas empresas refletidas em uma indústria. Esses conceitos também alteram a estrutura das indústrias ou setores. Nas economias externas de escala, muitas pequenas empresas podem operar e, juntas, auferirem benefícios de escala. Com isso, cria-se uma estrutura de mercado concorrencial, composta por diversas pequenas empresas. Nas economias internas de escala ocorre o contrário, ou seja, a produção é concentrada em uma ou poucas empresas para auferir os benefícios. Dessa forma, o mercado tende a ser mais concentrado em um modelo de monopólio ou oligopólio, o que é prejudicial para a concorrência. Baseado nos estudos do Economista Alfred Marshall, Krugman et al. (2015) destacam três razões principais para que um conjunto de empresas seja mais eficiente do que uma empresa operando de forma individual: • a habilidade de um aglomerado em dar apoio a fornecedores especializados; • a maneira que uma indústria geograficamente concentrada permite um agrupamento do mercado de mão de obra; e • a maneira como as indústrias geograficamente concentradas ajudam a promover o transbordamento de conhecimento. 12 Figura 3 – Economias externas antes do comércio Fonte: Krugman et al., 2015, p. 141. A análise das economias externas de escala via oferta e demanda pode ser resumida em uma situação. Imagine que o Brasil produz, de forma fechada, celulares. Em outro local, a Argentina também produz celulares, porém a um custo maior por unidade. A Figura 3 demonstra como se dá essa distribuição, os custos e o preço dos celulares. O primeiro gráfico demonstra a curva de demanda por celulares no Brasil, representada por DBrasil, e a curva descendente a oferta desses celulares, em razão das economias de escala, representada por ACBrasil. O segundo gráfico apresenta a demanda de celulares na Argentina como DArg, e a oferta de celulares na Argentina como ACArg. Repare que o preço dos celulares na Argentina é maior do que no Brasil, porque este último possui maior eficiência na produção. Figura 4 – Comércio e preços Fonte: Krugman et al., 2015, p. 141. PArg Produção e consumo argentinos de celulares Preço, custo por celular ACArg DArg PBrasil Produção e consumo chineses de celulares Preço, custo por celular ACBrasil DBrasil Quantidade de celulares produzida, demandada DBrasil ACChina Dmundo Preço, custo por celular P1 P2 Q1 13 Quando o comércio é aberto, o Brasil começa a produzir celulares para todo o mercado mundial (Brasil + Argentina) e a curva de demanda dos dois países se torna a curva de demanda mundial, demonstrada por Dmundo, conforme demonstra a Figura 4. Dessa forma, pode-se verificar como o preço dos produtos é reduzido, sendo menor do que aquele apresentado por ambos os países antes do comércio. Então, como são obtidas as economias externas de escala? Por meio da concentração geográfica de empresas em distritos ou complexos industriais, por exemplo. No Brasil, isso ocorre em algumas regiões específicas, por exemplo: calçados masculinos em Franca – São Paulo; cerâmica e decoração em Porto Ferreira – SP; jeans em Toritama – Pernambuco; indústria têxtil no Vale do Itajaí – Santa Catarina e; bonés em Apucarana – Paraná. No exterior, os exemplos são o Vale do Silício (Califórnia) e a indústria do entretenimento, concentrada em Hollywood. Esses locais são caracterizados por concentrarem muitas empresas do setor, as quais também são exportadoras e obtêm ganhos de escala provenientes da concentração industrial. TEMA 4 – COMÉRCIO INTRAINDUSTRIAL E ÍNDICE GRUBEL-LLOYD Créditos: Vector FX/ Shutterstock. No decorrer do tempo, as pesquisas sobre comércio exterior iniciaram a descoberta de aspectos peculiares sobre os padrões de comércio. O comércio intraindustrial, mensurado pelo índice Grubel Looyd, é um desses exemplos. 4.1 Conceito e definições O comércio intraindustrial ocorre quando um país exporta e importa itens da mesma categoria de classificação do produto (Appleyard et al., 2010). Esse comércio é mais importante para bens manufaturados do que para não 14 manufaturados. Porém, uma vez que importar e exportar em grande volume produtos de mesma categoria pode soar algo peculiar, as análises de comércio intraindustrial postulam que ele ocorre pelos seguintes motivos (Appleyard et al., 2010). • Diferenciação do produto: tentativas de fabricantes em criar uma diferenciação na mente dos consumidores por lealdade à marca ou pela demanda de variedades pelos consumidores. • Custos de transporte: dependendo da extensão do país, pode ser mais vantajoso fazer comércio com o vizinho do que no próprio país, principalmente para itens de grande volume em relação ao seu valor. • Economias dinâmicas de escala: geradas pela redução nos custos na produção de um bem específico pela experiência na produção desse bem. • Grau de agregação do produto: algumas categorias de produtos incluem mais de um tipo de item, por exemplo, bebidas e tabaco. Quando esses itens são comercializados, pode ser que não se esteja falando apenas de um deles, mas da importação de um e exportação de outro. • Distribuições de renda diferentes entre países: diferentes tipos do mesmo produto podem ser comercializados para diferentes níveis de renda. Um país produzindo itens para o nível de renda mais baixa pode não atender os consumidores de um item semelhante direcionado para as pessoas com maior poder aquisitivo. • Diferentes dotações de fatores e variedade de produto: um país que é apenas intensivo em trabalho pode importar os bens intensivos em capital, enquanto pode exportar os bens de mesma categoria intensivos em trabalho. 4.2 O índice de Grubel Lloyd O índice de Grubel e Lloyd (GL) utiliza o grau de sobreposição entre importações entre exportações e importações como medida de análise. A Figura 5 demonstra a metodologia de cálculo do índice GL. 15 Figura 5 – Metodologia de cálculo do índice de Grubel-Lloyd 𝐺𝐺𝐺𝐺𝑗𝑗 = 𝑋𝑋𝑗𝑗 + 𝑀𝑀𝑗𝑗 − �𝑋𝑋𝑗𝑗 − 𝑀𝑀𝑗𝑗� 𝑋𝑋𝑗𝑗 + 𝑀𝑀𝑗𝑗 = 1 − �𝑋𝑋𝑗𝑗 − 𝑀𝑀𝑗𝑗� 𝑋𝑋𝑗𝑗 + 𝑀𝑀𝑗𝑗 Sendo que X e M são, respectivamente, exportações e importações do país j. Fonte: Castellano et al., 2022, p. 9. Esse índice pode variar entre 0 e 1. Por exemplo, para um país que apresenta um índice igual a 0,7 significa que 70% do comércio desse país é intraindustrial, e os outros 30% são devidos ao comércio interindustrial. 4.3 Aplicação no Brasil Quanto à sua aplicação no Brasil, em estudo realizado entre o nosso país e os países da Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE – 35 países membros) entre 2001 e 2016, Castellano et al. (2022) descobriram algumas particularidades, das quais destacamos duas. Em primeiro lugar, a maior parte do comércio intraindustrial realizado entre o Brasil e esses países é de produtos verticalmente diferenciados. Além disso, 85% dessas negociações são realizadas com apenas seis membros da OCDE. Produtos verticalmente diferenciados são aqueles mais bem avaliados pelos consumidores de forma objetiva (preço e qualidade) em relação a outros de mesma categoria (ex.: queijo de qualidade inferior x queijo de qualidade superior). Produtos horizontalmente diferenciados são aqueles avaliados utilizando medidas subjetivas de avaliação (ex.: cor). Com relação à qualidade dos produtos, o Brasil é majoritariamente um país exportador líquido de produtos de baixa qualidade. Porém, essa característica tem algumas consequências, como a transposição das barreiras comerciais por países concorrentes de forma mais fácil do que pelo Brasil. A Tabela 2 demonstra o índice de comércio intraindustrial entreo Brasil e dez países da OCDE para o período de 2001 a 2016. 16 Tabela 2 – Índice anual médio de comércio intraindustrial e proporção do CIIH e CIIV (em %) entre o Brasil e dez países da OCDE para o período entre 2001 e 2016 País CII CIIH CIIV México 20,92 13,35 86,65 Estados Unidos 14,32 12,34 87,66 Alemanha 13,5 26,11 73,89 Suécia 11,13 5,31 94,69 França 11,02 11,9 88,1 Itália 8,01 10,19 89,81 Dinamarca 7,31 7,56 92,44 Hungria 6,25 8,56 91,44 Reino Unido 6,18 8,34 91,66 Espanha 6,09 14,15 85,85 Legenda: CII = índice de comércio intraindustrial; CIIH = comércio intraindustrial horizontal; CIIV = comércio intraindustrial horizontal. Fonte: Castellano et al., 2022. Sobre a Tabela 2, é importante ressaltar que na mensuração do CII é utilizada a metodologia de Grubel e Lloyd, sendo que para a decomposição entre CII horizontal (CIIH) e CII vertical (CIIV) foi utilizado o método de Greenaway e Milner (1994) . TEMA 5 – CADEIAS GLOBAIS DE VALOR NO BRASIL Créditos: Sasirin Pamai/ Shutterstock. 17 Cadeias Globais de Valor (CGVs) são um fenômeno inerente ao capitalismo moderno, que representam a divisão das etapas de produção pelo mundo. Nessa seção, demonstraremos um pouco desse conceito, como ele ocorre pelo mundo e o papel do Brasil nas CGVs 5.1 Conceito / vantagens e desvantagens As CGVs são um fenômeno derivado da fragmentação de processos de produção e sua dispersão geográfica com diversos estágios localizados em diversos países (Fleury; Fleury, 2020). Isso significa que as CGVs representam a distribuição da produção entre diferentes países, com nenhum deles centralizando todas as etapas do processo produtivo. Com essa distribuição da produção, as CGVs são resultado das transformações ocorridas na estrutura produtiva mundial, com o redirecionamento da produção às redes regionais e globais de valor (Gomes; Diegues, 2021), e fazem parte da trajetória da economia mundial do capitalismo (Aguiar, 2022). A expansão global das CGVs ocorreu de forma acentuada a partir da década de 1990, com o crescimento do comércio internacional possibilitando o crescimento dos países pobres e sua aproximação com os mais ricos. Eventos marcaram essa época, como a integração da China à Europa Oriental, e os acordos comerciais, como a Rodada Uruguai e o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Porém, esse fenômeno teve sua ocorrência reduzida desde a crise financeira mundial de 2008, uma vez que o comércio global ficou mais lento (Banco Mundial, 2020). A distribuição global da produção é um resultado da ampliação do fenômeno da empresa em rede. Ele ocorre com a fragmentação da produção e, atualmente, envolve um fluxo dos países industrializados em direção aos países de baixo custo, com destaque principalmente para os países do leste e sudeste asiático. Com isso, as atividades de pesquisa e desenvolvimento são realizadas pelos países desenvolvidos (Gomes; Diegues, 2021). 5.2 As CGVs pelo mundo Segundo o Banco Mundial (2020) , o crescimento das CGVs de valor pelo globo está concentrado nos segmentos de máquinas, eletrônicos e transportes. Quanto às regiões que participam desse processo estão a América do Norte, 18 Europa Ocidental e Leste Asiático. Os países da África, América Latina e Ásia Central possuem perfil de produtores de commodities para processamento posterior em outros países. A Figura 1 mostra a distribuição das CGVs. Figura 6 – Participação global nas CGVs em 2015 de acordo com o nível de inserção Fonte: Banco Mundial, 2020. 5.3 O papel e a participação do Brasil nas CGV As CGVs possuem três níveis de atuação: comando e controle (locais com sede de empresas multinacionais (EMNs)); exportação de peças e componentes (integração “para frente”); e processamento de exportação (integração “para trás”). Desses, o Brasil não pertence a nenhum deles, em razão de seu perfil de exportador de produtos primários (commmodities) e produtos naturais baseados em recursos naturais. No decorrer do tempo, as exportações de commodities tiveram um grande aumento entre os anos de 2003 e 2013, criando uma demanda por produtos manufaturados produzidos internamente. Porém, entre 2014 e 2019, o percentual do emprego na indústria caiu aproximadamente três pontos percentuais (TOTVS; CNI, 2021). Quanto à representatividade, três commodities (minério de ferro, soja e petróleo) representam quase um terço das exportações brasileiras. Dessas 19 exportações, a China foi responsável por 93% das exportações de soja, 66% das exportações de minério de ferro e 69% das exportações de petróleo. Quanto aos fluxos de saída e entrada, o Brasil está na 31ª posição mundial, com uma relação de 6% entre os fluxos de saída e entrada. Os países desenvolvidos possuem alta reação entre saída e entrada, geralmente superior a 100%. Como base de comparação para os anos de 2005 a 2020, nos EUA (primeiro lugar) essa relação é de 97%, com US$ 4,14 trilhões de entrada e US$ 4,01 trilhões de saída. O Brasil apresenta fluxo de saída de US$ 47 bilhões (TOTVS; CNI, 2021). Esse perfil primário-exportador do Brasil gera déficits comerciais baseados na importação de peças e componentes intermediários, e o Brasil ainda não tem uma indústria suficiente para atender a demanda. Assim, a inovação é desestimulada, uma vez que as principais empresas que operam nesse segmento são as EMNs, que mantêm centros de inovação em seus países-sede, e não nos países que operam com suas filiais. TROCANDO IDEIAS Discutir com seus amigos possíveis respostas para as seguintes questões: Quais os impactos que você enxerga nas tarifas dos produtos que você consome? Como isso poderia ser minimizado? Quais seriam seus benefícios caso não houvesse tarifas sobre importação ou essas tarifas fossem reduzidas? Um exemplo desse tipo de produto são os eletrônicos (ex.: celular) que, caso importados diretamente pelo comprador, sofrem uma alíquota de imposto de importação de 60% do valor do produto acrescido do valor do frete e do seguro. E você, consegue citar mais exemplos de produtos importados que sofrem altas alíquotas de importação? NA PRÁTICA O Monitor do Comércio Exterior Brasileiro é uma ferramenta que possui dados sobre o comércio exterior do Brasil com atualização mensal. Na ferramenta, as informações podem ser visualizadas por categorias de produtos (bens de capital, de consumo e intermediários), por destinação das exportações, origem das importações, dentre outros. O endereço é o que se segue: 20 (acesso em: 1 fev. 2023). FINALIZANDO Analisamos um pouco sobre o comércio internacional e o papel do Brasil nas cadeias globais de valor. Essa análise partiu de uma visão econômica de oferta e demanda e de prejuízos/benefícios de elementos como tarifas e subsídios. Esperamos que, dessa forma, você possa ter uma visão mais crítica dos benefícios do comércio internacional para uso em seu dia a dia como economista. 21 REFERÊNCIAS AGUIAR, T. V. de. Cadeias globais de valor e desenvolvimento econômico na América Latina / Global value chains and economic development in Latin America. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 3, p. 21910–21929, 2022. South Florida Publishing LLC. APPLEYARD, D. R.; FIELD JUNIOR, A.; COBB, S. L. Economia Internacional. 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