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Autoras: Profa. Crislaine Valéria de Toledo-Plaça Profa. Verônica Marques Rodrigues Colaboradoras: Profa. Amarilis Tudella Profa. Ronilda Iyakemi Ribeiro Relações Étnico-raciais no Brasil Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Professoras conteudistas: Crislaine Valéria de Toledo-Plaça / Verônica Marques Rodrigues Crislaine Valéria de Toledo‑Plaça Nascida na cidade de São Paulo, iniciou seus estudos na Universidade de São Paulo (USP) em 1989, formando-se em Ciências Sociais em 1994, onde também cursou licenciatura na mesma área. Durante seus anos de estudo, desenvolveu pesquisas na área de Sociologia, estando ligada, desde a iniciação científica, ao Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da Universidade de São Paulo (Nemge/USP), no qual pôde aprofundar-se na temática das relações de gênero, procurando compreender a condição feminina e as relações entre homens e mulheres nos mais diversos âmbitos sociais, como política, mercado de trabalho, movimentos sociais, direitos sociais, família, sexualidade e religião. Em 2002, concluiu o mestrado em Sociologia pela mesma universidade e passou a lecionar em diversas instituições de Ensino Superior na região da Grande São Paulo. Ao mesmo tempo, atuou em coordenação pedagógica e orientação educacional nos níveis fundamental e médio, ocasião em que ampliou seus estudos na área de Educação. Como professora da UNIP desde 2008, tem lecionado disciplinas nas áreas de Ciências Sociais, Metodologia Científica, Educação, História e Filosofia, principalmente para os cursos de Pedagogia e Enfermagem, nos campi de Alphaville e Cidade Universitária. A partir de 2010, passou a trabalhar também na UNIP Interativa, iniciando suas atividades na modalidade EaD no curso de Pedagogia, como líder da disciplina Relações Étnico-raciais e Afrodescendência. Verônica Marques Rodrigues A professora Verônica Marques Rodrigues atua no magistério desde a década de 1980, sempre atenta às concepções que fundamentam as atividades docentes, às metodologias e às ações que os professores desenvolvem com os alunos. Para dar conta dessa tarefa, fez o curso de Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde se graduou em 1993. Posteriormente, cursou mestrado em Filosofia e História da Educação na Universidade Estadual de Campinas, entre 2000 e 2003. Já no doutorado seus estudos se direcionam aos aspectos da sociologia da educação, como multiculturalismo, diversidade, reprodução e transformação social e cultural, questões com as quais sempre esteve envolvida, atuando como militante do movimento social. Está no Ensino Superior desde 2003, ministrando aulas nas disciplinas das áreas de Sociologia e Filosofia da Educação e na docência das disciplinas pedagógicas nas licenciaturas, sempre estabelecendo relação com sua atuação profissional na formação continuada dos professores da rede municipal de ensino de Campinas, onde trabalhou entre 1998 e 2012. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) T647r Toledo-Plaça, Crislaine Valéria de. Relações étnico-raciais no Brasil / Crislaine Valéria de Toledo- Plaça. - São Paulo: Editora Sol, 2019. 132 p. il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXV, n. 2-186/19, ISSN 1517-9230. 1. Etnia. 2. Identidade. 3. Diversidade. I. Título. CDU 301.01 U502.03 – 19 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice‑Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice‑Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice‑Reitor de Pós‑Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice‑Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Andréia Andrade Giovanna Oliveira Virgínia Bilatto Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Sumário Relações Étnico-raciais no Brasil APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 CONCEITOS INICIAIS: A QUESTÃO DE RAÇA E ETNIA ...........................................................................9 1.1 Raça ..............................................................................................................................................................9 1.2 Etnia ........................................................................................................................................................... 11 2 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL ................................................................................................ 14 2.1 O racismo científico ............................................................................................................................. 14 2.2 O racismo à brasileira e o mito da democracia racial ............................................................ 17 2.3 Mas, afinal, o que é racismo? .......................................................................................................... 19 2.3.1 Biologicamente, não existem “raças”: somos uma só raça humana ................................. 19 2.3.2 Raça é um conceito político ............................................................................................................... 21 2.3.3 Os pressupostos do racismo ............................................................................................................... 21 3 A CONDIÇÃO DOS AFRODESCENDENTES E INDÍGENAS NA SOCIEDADE BRASILEIRA ..................22 3.1 A questão da autoidentificação racial nos levantamentos brasileiros ........................... 23 3.2 Distribuição racial brasileira, desenvolvimento econômico e desigualdades no mercado de trabalho ............................................................................................................................ 25 3.3 Desigualdade racial no sistema educacional ............................................................................ 33 3.4 A questão de gênero e a condição da mulher negra ............................................................. 37 3.5 A condição social dos indígenas no Brasil ................................................................................. 43 4 MOVIMENTOS SOCIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: É POSSÍVEL ACELERAR O PROCESSO DE MUDANÇA? ............................................................................................................................. 47 4.1 Movimentos negros na luta contra o racismo: para uma nova condição afrodescendente ....................................................................................................................... 47 4.2 A especificidade das ações afirmativas ....................................................................................... 50 4.3 Movimentos indígenas na luta pelo reconhecimentosociedade brasileira, e disso trataremos especificamente quando abordarmos as ações afirmativas. Entretanto, os números que se apresentam, apesar do leve crescimento da participação dos negros nas grandes empresas e nos cargos de liderança, não são de modo algum condizentes com as demandas sociais que encontramos no Brasil. Fica claro, portanto, que todas as condições de desigualdade às quais os negros e indígenas estão sujeitos em nosso país demandam uma atuação mais efetiva por parte dos órgãos governamentais e também da iniciativa privada, visando favorecer a inclusão desses segmentos sociais que já pagaram tão caro por séculos de exclusão e racismo ao longo de nossa história. 33 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Exemplo de aplicação Foi possível perceber o que é o “teto de vidro” do qual falamos anteriormente? Sugerimos que aprofunde sua pesquisa sobre esse assunto, consultando a íntegra do relatório do Instituto Ethos sobre o Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas – pesquisa 2010, disponível em: . Investigue e responda: qual é a percepção dos presidentes das empresas sobre a presença do negro em seu quadro funcional? Quais são as três justificativas que eles apresentam para justificar o fato de a proporção de negros em seu quadro de trabalhadores ser menor do que o esperado? E você? Concorda com as explicações dadas pelos presidentes? Tire suas próprias conclusões a respeito. 3.3 Desigualdade racial no sistema educacional Todos os dados apresentados até este ponto estão diretamente ligados ao acesso à educação, assunto deste subtópico. Como futuro educador e, portanto, uma pessoa interessada em questões educacionais, você provavelmente já se perguntou por que os índices relativos à educação em nosso país são tão desfavoráveis. Apresentaremos agora um panorama recente da educação no Brasil, especialmente sob a perspectiva de cor/raça, conforme interesse de nossa disciplina. Vamos privilegiar a análise de disparidades entre brancos, negros e pardos, ficando o estudo sobre as populações indígenas para um ponto mais adiante, tendo em vista as especificidades culturais desse grupo. O primeiro traço da educação brasileira é o elevado analfabetismo ainda presente nas últimas pesquisas do IBGE, conforme a PNAD 2009. De acordo com [esses] dados [...] a taxa de analfabetismo entre negros e pardos, a partir de 15 anos de idade, é de 13,3% para os negros e de 13,4% para os pardos. Entre os brancos, esse número fica em 5,9%. A população branca de 15 anos ou mais tem, em média, 8,4 anos de estudo. Enquanto entre negros e pardos a média é de 6,7 anos. Mais uma vez, observamos claramente que o acesso aos direitos mais fundamentais, como a educação, ainda se apresenta como uma barreira para os negros (Tabela seguinte) e para os indígenas. Brancos estudam em média um ano e sete meses a mais do que pretos e pardos, e o analfabetismo entre os negros é mais que o dobro do observado entre os brancos. Tais diferenças acabam se desdobrando em desigualdades no mercado de trabalho, no acesso aos melhores empregos, em melhores salários e, portanto, nas condições de vida da população negra no Brasil, conforme já procuramos mostrar. 34 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Tabela 3 – Pessoas de 15 anos ou mais de idade, analfabetas, total e respectiva distribuição percentual, por grupos de idade e cor ou raça, segundo as grandes regiões - 2008 Grandes regiões Pessoas de 15 anos ou mais de idade, analfabetas Total (1000 pessoas) Distribuição percentual (%) Grupos de idade Cor ou raça Total 15 a 24 anos 25 a 39 anos 40 a 59 anos 60 a 64 anos 65 anos ou mais Total (1) Branca Preta ou parda Brasil 14247 100,0 5,1 17,9 35,8 9,8 31,5 100,0 31,0 67,8 Norte 1128 100,0 6,8 19,6 37,5 9,9 26,3 100,0 16,3 81,9 Nordeste 7500 100,0 5,9 21,2 37,1 8,9 26,8 100,0 23,4 75,8 Sudeste 3620 100,0 3,6 13,1 32,9 10,8 39,6 100,0 42,1 56,4 Sul 1159 100,0 3,9 12,1 33,1 12,5 38,5 100,0 60,8 37,2 Centro-oeste 840 100,0 3,5 13,8 37,1 10,1 35,5 100,0 29,2 68,3 Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2008. (1) Exclusive as pessoas de cor ou raça amarela e indígena. Nessa tabela, as diferenças regionais mantêm-se no quesito analfabetismo: nas regiões mais pobres do Brasil, o número é maior; e, em todas as regiões, a diferença entre brancos e negros analfabetos é, mais uma vez, marcadamente desfavorável à população afrodescendente. Quando falamos de educação, é preciso pensar não somente no acesso a esse direito social, mas também num outro aspecto complicador: a qualidade do ensino oferecido à população. Muitos são os fatores que poderíamos elencar para termos uma melhor compreensão desse quadro, o que não é nosso objetivo no momento. Mas nos importa compreender que uma de suas consequências mais graves é o chamado “analfabetismo funcional”: o aluno até aprende os códigos linguístico e numérico, ou seja, sabe ler, escrever e fazer contas, mas não consegue compreender textos, por menor que seja o grau de dificuldade. No Brasil, são considerados analfabetos funcionais aqueles que frequentaram menos de quatro anos a escola. Entretanto, estudos apontam que essa definição é questionável, como encontramos em Ribeiro et al. (2002, p. 53): De fato, o analfabetismo funcional é um conceito relativo, pois depende das demandas de leitura e escrita colocadas pela sociedade, assim como das expectativas educacionais que se sustentam politicamente. É por isso que, ao passo que nos países pobres se toma o critério de quatro anos de estudo, na América do Norte e na Europa, tomam-se oito ou nove anos como patamar mínimo para se atingir o alfabetismo funcional. Mesmo já tendo estendido a escolaridade de 8 ou até 11 anos para praticamente toda a população, muitos países norte-americanos e europeus estão preocupados com o nível de letramento dessas pessoas, tendo em vista, principalmente, as exigências de competitividade no mercado globalizado. 35 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Entretanto, a respeito desse debate sobre o conceito de analfabetismo funcional, o que se sabe é que tais indivíduos apresentam dificuldades enormes para se desenvolver profissional, cultural e socialmente, em especial perante as altas exigências do mercado globalizado. Por quê? Uma pessoa que domina a compreensão complexa de textos e cálculos estará mais apta a ocupar postos no mercado de trabalho que exijam maior responsabilidade e, portanto, menor possibilidade de erro. Já um analfabeto funcional, segundo apontam estudos nesse sentido (VIZOLLI, 2006), costuma resolver seus problemas e desafios a partir da tentativa e erro. Ou seja, como ele não domina as habilidades complexas para responder a tais desafios com base em conhecimentos científicos, acaba percorrendo longos caminhos de erros até conseguir um acerto, o que geralmente ocorre em decorrência de várias experiências frustradas. Fica fácil compreender porque as empresas rejeitam funcionários analfabetos funcionais, pois, no mundo corporativo, não há espaço nem tempo para tentativas e riscos de erros, mas sim para a eficiência, qualidade e certeza de ganhos e lucros. Além desse aspecto profissional, o analfabetismo funcional impede que as pessoas tenham um desenvolvimento pessoal pleno, uma vez que não terão oportunidade de usufruir bens culturais disponíveis, ou seja, cinemas, teatros, exposições, shows, concertos etc. Todos esses bens culturais aumentam, e muito, o repertório linguístico e cultural das pessoas, o que acaba limitando aqueles que não têm acesso a eles. Ainda nesse sentido, Ribeiro et al. (2002, p. 53) afirmam: A pesquisa sobreo alfabetismo funcional no Brasil revela um país onde a cultura letrada está amplamente disseminada, mas de forma muito desigual. Da população alfabetizada, um contingente significativo utiliza as habilidades de leitura e escrita em contextos restritos e, consequentemente, demonstra habilidades restritas no teste de leitura. [...] A escolaridade é o fator decisivo na promoção do letramento da população. A pesquisa revela como os déficits educacionais se traduzem em desigualdades quanto ao acesso a vários bens culturais, oportunidades de trabalho e desenvolvimento pessoal que caracterizam as sociedades letradas. Observação Tendo em mente todas essas informações, podemos verificar também que o índice de analfabetos funcionais entre os negros é bastante superior ao dos brancos. Segundo a PNAD 2009, são consideradas analfabetas funcionais as pessoas com mais de 15 anos e com menos de 4 anos completos de estudo, que, em 2009, constituíam 20,3% da população, sendo 15% brancos e 25,5% negros. Mais uma vez, é notável a diferença entre brancos e negros, dados que engrossam as tristes estatísticas dos levantamentos brasileiros. As desigualdades referentes ao acesso à educação por brancos e negros desdobram-se em todos os níveis de escolaridade, e, quanto mais elevado o nível de ensino, menor a presença de negros. 36 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Os dados da PNAD 2009 mostram que, no Ensino Superior, o percentual de brancos (62,6%) é o dobro do percentual de pretos (28,2%) e de pardos (31,8%). Quando observamos as pessoas que de fato concluem o Ensino Superior, os números são ainda mais desiguais: 15% de brancos e apenas 5% de negros com Ensino Superior no país, segundo o IBGE. O que se percebe é que muitos negros até conseguem ingressar no Ensino Superior, mas é muito difícil que concluam seus cursos, provavelmente por fatores financeiros, já que boa parte deles está nas instituições particulares. Você pode confirmar esses dados no gráfico a seguir: Proporção das pessoas de 25 anos ou mais de idade com ensino superior concluído, por cor ou raça, nas regiões Nordeste e Sudeste ‑ 1998/2008 Brasil Nordeste Sudeste 9,7 % 7,7 11,2 2,2 1,7 2,5 14,3 10,2 16,2 4,7 5,0 3,8 2008199820081998 (1) Branca Preta ou parda Figura 9 Considere que os números expressam sensíveis melhoras de 1998 para 2008, um fator positivo, sem dúvida, uma vez que a porcentagem de universitários negros dobrou nesse período, passando de 2,5% para 5%. Já entre os jovens brancos, esse percentual é mais do que o triplo (16,2% em 2008). O que esses dados nos mostram são índices bastante alarmantes no tocante ao acesso de pretos e pardos a melhores condições de vida. Em outro ponto desse mesmo relatório, vemos um quadro confirmando que, quanto mais anos de estudo a pessoa acumula, maiores são as suas possibilidades de ganho por hora, o que favorece sua ascensão social. 37 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Rendimento‑hora do trabalho principal das pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, com rendimento de trabalho, por cor ou raça, segundo os grupos de anos de estudo ‑ Brasil ‑ 2008 Branca Preta e parda 8,30 R$ 4,40 5,10 6,50 17,30 4,70 3,30 3,70 5,00 11,80 Total Até 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos 12 anos ou mais Figura 10 Conforme já tratamos no subtópico referente à renda, note que os negros ganham menos do que os brancos em qualquer nível de escolaridade, tenham eles mais ou menos anos de estudo. Porém, quando a pessoa consegue acesso ao Ensino Superior (12 anos ou mais de estudo), o nível de renda aumenta consideravelmente para ambos os grupos, chegando a mais que o dobro. Isso comprova que o Ensino Superior ainda é, sem dúvida, uma porta para o desenvolvimento pessoal, pois não só promove o desenvolvimento cognitivo e aumenta os conhecimentos gerais e científicos, como também dá acesso a melhores condições de trabalho e emprego. Para concluir esta parte, é importante atentar ao fato de que o investimento em educação pode ser considerado uma estratégia comprovadamente eficaz na promoção da igualdade racial no Brasil. Isso porque os levantamentos estatísticos feitos pelo IBGE demonstram que existe uma relação direta entre qualidade e acesso à educação e melhora dos níveis de vida da população afrodescendente, por meio de oportunidades de melhores salários e sua consequente ascensão social. 3.4 A questão de gênero e a condição da mulher negra Todos os índices apresentados sobre a condição dos afrodescendentes no Brasil atual mostraram claramente a posição desfavorável em que ainda se encontra esse segmento populacional: são os negros que moram nas regiões mais pobres, recebem os menores salários, ocupam os cargos mais baixos na hierarquia das organizações, têm acesso a uma educação de menor qualidade, ficando na escola por um período de tempo menor do que os brancos, entre outras condições adversas. Há, porém, um grupo que apresenta índices ainda mais desfavoráveis em todos esses quesitos: o de mulheres negras. 38 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Por isso, vamos discutir neste subtópico a perspectiva de gênero, especificamente a condição da mulher negra, que, em todas as estatísticas, é aquela que ocupa os piores lugares, desempenha as atividades mais desvalorizadas socialmente, recebe os piores tratamentos etc. Figura 11 Em primeiro lugar, falaremos sobre as condições de saúde das mulheres negras no Brasil. Sabendo-se que elas experimentam situações de exclusão, marginalidade e/ou discriminação socioeconômica maiores que as de mulheres brancas e de homens brancos e negros, tais restrições têm reflexos nas condições de saúde dessas mulheres e em seu acesso ao atendimento público de saúde. A pesquisadora Quessia Rodrigues fez um levantamento no serviço público de saúde na cidade de Salvador/BA, porém suas considerações são válidas para entendermos a situação das mulheres negras no Brasil como um todo: Além da classe social e do gênero, a raça tem sido outra característica social determinante na análise das situações de saúde. Com relação à população negra brasileira, sabe-se que esta vive a tripla desigualdade – social, econômica e racial –, que se expressa em seus corpos e na qualidade e quantidade de serviços sociais públicos a que tem acesso (RODRIGUES, 2009, p. 27). Para essa autora, todas as dificuldades e desigualdades enfrentadas pela população negra resultam “em vulnerabilidade para uma série de agravos à saúde” (2009, p. 28). Vejamos, por exemplo, o caso da mortalidade materna. Segundo Martins (2006, p. 2473), independentemente da questão de cor/raça, o problema da mortalidade materna atinge as mulheres no Brasil de maneira colossal, principalmente as mais pobres: No Brasil, a morte materna configura-se como um problema de saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde (MS), as altas taxas de mortalidade materna compõem um quadro de violação dos direitos humanos de mulheres e de crianças, atingindo desigualmente aquelas das classes sociais com menor ingresso e acesso aos bens sociais, nas várias regiões brasileiras. 39 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Entretanto, ainda segundo a autora (2006, p. 2475-6), o fator cor/raça deve receber toda a atenção dos pesquisadores, uma vez que altera muito os índices em relação às mulheres amarelas e brancas. Atente para os números apresentados em sua pesquisa: [...] utilizando o Censo do IBGE realizado em 1991, ao comparar a distribuição da população feminina e o número de mortes maternas por cor, para 1993, observou-se que o risco relativo de morte destas mulheres foi 7,4 vezes maior nas pretas e 5 vezes maior entre as amarelas,quando comparadas com as brancas. Ainda neste estudo, na população de mulheres negras, apenas 2,2% eram pretas, porém 8,2% dos óbitos maternos foram destas. As mulheres de raça/cor amarela apresentaram características socioeconômicas e demográficas melhores do que as brancas; as pretas, as piores. No entanto, o risco de morte de ambas foi muito elevado, sugerindo que deve existir relação entre raça, doença, condições de vida e mortalidade materna. Lembrete Quanto mais pobre, piores as condições de vida, menor o acesso aos serviços de saúde, bem como ao pré-natal e, consequentemente, maior o risco de doenças durante a gravidez; portanto, maior a incidência de mortalidade materna. Além das consequências sobre as mães, tal situação de “tripla desigualdade – social, econômica e racial”, segundo Rodrigues (2009, p. 27), também acomete de forma mais grave os bebês negros, que sofrem inúmeros problemas ao nascer: Cunha (2003) detectou em São Paulo uma maior percentagem de crianças negras com baixo peso ao nascer, característica que poderia indicar, além de problemas nutricionais da mãe e da criança, a possibilidade de maior prevalência de doenças maternas, como diabetes e hipertensão, não controladas durante a gravidez pelo acesso restrito aos serviços de saúde ou pela pior qualidade comparativa dos serviços utilizados pelas mães desse grupo. Observe que o que ocorre em São Paulo se confirma nos dados do IBGE, referentes ao país como um todo, em relação ao acesso aos serviços de saúde, de acordo com Rodrigues (2009, p. 29): [...] as mulheres negras apresentam menor acesso à assistência obstétrica, pois 61,3% delas realizaram o número mínimo de consultas pré-natais recomendado pelo Ministério da Saúde, seis consultas, enquanto para as mulheres brancas esse percentual foi de 76,6%. Outro diferencial encontrado foi o percentual de mulheres negras que não realizaram o pré-natal (12,8%) em comparação com as brancas (6%). 40 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Não há como justificar tais desigualdades, uma vez que sabemos que todas as mulheres deveriam, por direito, receber o mesmo tratamento nos aparelhos públicos de saúde. Entretanto, a única explicação que se apresenta é a presença do racismo também no atendimento à saúde em nosso país, recaindo mais uma vez sobre a mulher negra os custos dessas diferenças de tratamento e acompanhamento à saúde. Como parte da maior vulnerabilidade na saúde de mulheres negras, está também o fato de elas terem pior acesso à infraestrutura pública, saneamento básico e condições de moradia. Entre os moradores de favelas, estão em sua maioria famílias negras, sejam elas chefiadas por homens ou mulheres. O gráfico a seguir mostra essa distribuição: Distribuição de domicílios urbanos em favelas, segundo sexo e cor/raça do chefe ‑ Brasil ‑ 2007 26% 21,3% 11,7% 40,1% Famílias brancas chefiadas por homens Famílias brancas chefiadas por mulheres Famílias negras chefiadas por homens Famílias negras chefiadas por mulheres Figura 12 Figura 13 Sabe-se, segundo esses dados publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que, em 2007, apenas 3,6% dos domicílios brasileiros estavam em favelas. Entretanto, isso representa dois milhões de famílias, ou algo em torno de oito milhões de pessoas. Assim, o que nos interessa destacar nesse gráfico é o fato de que, entre as famílias moradoras de favelas no Brasil, praticamente dois terços são negras; portanto, uma “sobrerrepresentação da população negra vivendo em favelas, o que reforça, mais uma vez, sua maior vulnerabilidade social”, segundo esse mesmo relatório (PINHEIRO et al., 2008, p. 29). 41 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Há também estreita relação desses números com a falta de saneamento básico nesse tipo de moradia, o que traz consequências para a saúde dessas mulheres e de seus filhos, dados já discutidos anteriormente. Em outras palavras, mais uma vez, o que estamos comprovando é que o número elevado de negros concentrados nas favelas brasileiras não é coincidência ou obra do acaso, mas fruto de nossa herança colonial e da falsa libertação que os africanos escravizados e seus descendentes sofreram e sofrem durante nossa história. Por hora, vamos concluir esse quadro a respeito do lugar da mulher negra na sociedade brasileira, segundo os números das estatísticas oficiais. A esse respeito, mais dois aspectos serão destacados. O primeiro consta no gráfico a seguir, que mostra os dados da PNAD 2008, relativos às mulheres que trabalham na categoria de empregadas domésticas: é nítido que, em todas as regiões do Brasil, as mulheres negras continuam a desempenhar funções domésticas nos lares, ou seja, o número de mulheres negras ocupando cargo de empregada doméstica é sempre superior à média em cada região. Proporção das mulheres de cor ou raça preta e parda na população total e das mulheres de cor ou raça preta e parda na categoria de trabalhadoras domésticas segundo as Grandes Regiões ‑ 2008. Mulheres de cor ou raça preta e parda na população total Mulheres de cor ou raça preta e parda na categoria de trabalhadoras domésticas 51,5 77,9 71,9 42,9 21,4 56,7 % 60,9 81,6 77,6 57,1 31,9 58,5 Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Figura 14 Observação Não é exagero afirmar, a partir desses dados, que houve no Brasil uma espécie de “falsa libertação” das mulheres negras escravizadas, no sentido de que a partir de 1888, com a libertação oficial dos escravizados, as mulheres negras tornaram-se simplesmente funcionárias de seus antigos escravizadores, continuando a exercer as tarefas domésticas, função extremamente desvalorizada em uma sociedade desigual e hierarquizada como a brasileira. 42 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Para concluir este tópico, vamos a uma última análise sobre o lugar da mulher na família. No gráfico a seguir, vemos que o tempo empregado nos serviços domésticos pelas mulheres é, em todas as regiões do Brasil, muito superior ao dos homens. Isso porque, historicamente, essa foi uma função delegada sempre às mulheres, segundo uma estrutura familiar e cultural de raízes patriarcais que fixou as mulheres como “donas do lar”, subentendendo-se que elas se tornavam responsáveis por todo o trabalho doméstico da família, independentemente de trabalharem fora ou não. Observe os dados: Média de horas semanais gastas em afazeres domésticos, das pessoas ocupadas de 10 anos ou mais de idade, por sexo, segundo as Grandes Regiões ‑ 2008. Homens Mulheres 9,2 9,5 9,7 9,1 8,7 8,7 % 20,9 20,3 23,3 20,2 19,9 19,1 Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste Figura 15 A participação masculina nos trabalhos domésticos sempre foi considerada apenas uma “ajuda” às mulheres, já que quem se supõe responsável por toda organização, limpeza, provisão e cuidados com a casa é, tradicionalmente, a mulher. Em muitos casos, bastava ao marido sair para trabalhar, sustentando financeiramente sua família. Atualmente, esse posto da mulher como “rainha do lar” está sendo questionado, principalmente pela posição de destaque que ela vem ocupando na vida pública. A própria eleição de Dilma Rousseff para a presidência do Brasil certamente estabelece correspondências com essas questões e indica redefinições nesse sentido. Entretanto, os dados anteriores ainda mostram uma extrema rigidez na divisão do trabalho doméstico das famílias brasileiras, prevalecendo a participação feminina nessa esfera, especialmente na dedicação de seu tempo aos afazeres domésticos. Note que há uma relação entre esse quadro e o apresentado anteriormente, ou seja, nas famílias mais abastadas, quem acaba realizando os afazeres da casa são mulheres negras, na qualidade de empregadas domésticas, conforme mencionamos.Exemplo de aplicação Continue a refletir sobre essas questões tão contundentes. Para tanto, sugerimos que você pare um pouco e responda às seguintes questões: quem realiza o trabalho doméstico em sua casa? O homem ou 43 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL a mulher? E quem é responsável pela provisão financeira da família? Será que poderíamos pensar numa redefinição tanto da estrutura familiar como da divisão das tarefas domésticas? Esperamos que, a essa altura, você já tenha percebido quão frágil é o mito da democracia racial no Brasil, desmontado insistentemente pelas estatísticas oficiais, que nada mais revelam do que as dificuldades do dia a dia difícil dos afrodescendentes brasileiros, que sempre experimentam, na cor de sua pele, desigualdades nas esferas econômica, profissional, educacional, familiar, de moradia, de saúde etc. Trata-se, sim, de reafirmarmos a presença de um “racismo à brasileira”, dissimulado, escamoteado, negado, mas tão nítido nas conversas privadas, nas organizações públicas e nas publicações de dados. Apesar de partirem da mesma raiz, a discriminação contra negros e indígenas tem características e dinâmicas diferentes. No item a seguir, estudaremos um pouco sobre como vivem e se organizam os índios em nosso país. 3.5 A condição social dos indígenas no Brasil Desde o início do processo de colonização do Brasil pelos portugueses, o que vimos nas relações com os povos indígenas foram processos de exploração, extermínio e de exclusão dos povos nativos. No entanto, os diversos conflitos e as transformações ocorridas durante o século XX colocaram para a sociedade do século XXI questionamentos sobre como promover a diversidade cultural, superando o patamar da tolerância, do reconhecimento de uma história morta e da folclorização cultural. Como fazer para compreender a organização social desses povos sem cair na armadilha da anulação das diferenças culturais? Entendemos que o primeiro passo é saber sobre e com quem estamos falando, sabendo que no processo de constituição histórica e social do povo brasileiro também existe uma forte porção indígena. Como você já deve ter entendido, queremos demonstrar que a questão indígena não está desvinculada das questões globais do país; ao contrário, é parte destas. É nesse sentido que se vincula a questão étnica à discussão nacional. Segundo Polanco apud Silva (2005), [...] os sistemas étnicos são conformações sociais submetidas ao processo histórico, cujas bases socioculturais, condições de reprodução e formas de vinculação política sofrem constantes modificações; estes três planos relacionados e em permanente transformação são ponto de partida fundamental para a compreensão da problemática étnica e, ao mesmo tempo, para avaliar a força histórica que contém. 44 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Figura 16 É preciso reconhecer os índios como autores e atores da sua própria história, agentes ativos da sociedade, onde exercem um papel importante, contribuindo inclusive para colocação de valores diversos daqueles apontados como universais pela cultura ocidental. É necessário compreender que os grupos indígenas são parte da nossa sociedade, e não um segmento exterior a ela. Ou seja, é preciso ter uma compreensão dialética das relações raciais e étnicas em nossa sociedade. Superando a visão estigmatizada sobre os índios e colocando-os como cidadãos de direitos como outros brasileiros, mas com especificidades que precisam ser analisadas e consideradas. Para isso, torna-se importante conhecer e estudar alguns dados estatísticos. E é isso que faremos a seguir, tomando por base as informações colhidas no Censo de 2010 e publicadas pelo IBGE. Saiba mais A dialética é um conceito filosófico que aponta para a compreensão da realidade partindo do pressuposto de que tudo está em permanente movimento; sendo assim, tudo está em um estado também permanente de mudança. Nada é estático, nem os pensamentos, nem as estruturas sociais, nem nossa cultura. Você pode compreender melhor esse conceito pesquisando o livro O que é dialética (KONDER, 2008), disponível para leitura no site: Conforme já apontamos anteriormente, o Censo de 2010 trouxe algumas inovações em sua metodologia que permitiram conhecer melhor a composição dos povos indígenas, superando a visão tradicional que os colocava como um bloco único e ampliando a visão sobre esses grupos com a inclusão de itens sobre etnia e língua falada. Isso permitiu reconhecer a diversidade étnica e cultural de que são compostos esses povos. 45 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL O levantamento de dados considerou como indígena: • a pessoa, residente ou não em terras indígenas, que se declarou indígena, na investigação sobre cor ou raça; ou • a pessoa, residente em terras indígenas, que não se declarou indígena, na investigação sobre cor ou raça, mas se considerava indígena, de acordo com as suas tradições, costumes, cultura, antepassados etc. (IBGE, 2012, p. 41). Para os indígenas também foi perguntado qual a língua falada, se era falado o português no domicílio; nos casos de mais de uma língua, foram captados os nomes de até duas línguas indígenas que falavam no domicílio. De acordo com o levantamento do Censo de 2010: O total de população indígena residente no território nacional passou a 896,9 mil pessoas, o que corresponde a um acréscimo de 78,9 mil indígenas. Desses, 36,2% residiam na área urbana e 63,8% na rural. Enquanto na área urbana a Região Sudeste deteve o maior percentual de indígenas (80%), a Região Norte, com 82%, foi o maior percentual da área rural (IBGE 2012, p. 54). Essa informação permite-nos perceber uma maior busca dos índios pela vida nos centros urbanos, muitos fugindo das péssimas condições de vida nas aldeias. Os dados demonstram altas taxas de natalidade e de mortalidade nas terras indígenas: A população indígena residente nas terras indígenas é predominantemente jovem, concentrando grande parte desta população até os 24 anos de idade, portanto em 93,6% das terras a concentração de pessoas com até 24 anos de idade está acima de 50%. O Censo Demográfico 2010 não detectou em seis TI declarações de idades de pessoas acima de 50 anos (IBGE, p. 69). Já os dados colhidos entre os índios no item sobre educação apontam que entre as pessoas de mais de 50 anos ainda persistem níveis de analfabetismo superiores aos de alfabetização, com taxas acima de 50%. Nas áreas fora das terras, em todas as faixas etárias, os níveis de alfabetização são superiores aos do analfabetismo. Também nesse item de análise sobre os dados dos indígenas, cabe destacar algumas observações, pois é considerado o processo de alfabetização em sua língua materna, que, cabe-nos lembrar, não é o português. Assim, de acordo com as propostas vigentes nas escolas indígenas, o processo de alfabetização ocorre inicialmente na língua do grupo indígena em que está instalada. Portanto, mesmo que não saiba ler e escrever em português, o indígena se apropriou da língua materna na modalidade escrita. Essa postura tem como princípio o que nos coloca Baniwa (2006, p. 122): 46 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I A diversidade linguística é extremamente relevante para a diversidade cultural, na medida em que significa não só variedade de tradições culturais e de desenvolvimento histórico dos povos, mas também diversidade humana na elaboração de conceitos sobre as relações dos homens entre si e com a natureza, refletindo experiências milenares distintas do Ocidente europeu. Por esta razão, a discriminação linguística acarreta consequências muitograves. Por um princípio pedagógico aceito mundialmente, a língua materna deve ser utilizada para alfabetizar e educar as crianças, sobretudo nos primeiros anos. Para analisarmos os dados sobre rendimentos, também é preciso destacar alguns aspectos específicos da cultura indígena, na qual o trabalho tem valor de uso, ou seja, está no resultado que promove para a comunidade. Esse é outro ponto importante, o valor coletivo do trabalho: na cultura indígena, o sujeito só existe ao fazer parte de e ser útil ao coletivo, visto que sua constituição identitária é coletiva e não individualista, como a que vigora em nossa sociedade. No entanto, as identidades, como já vimos, são processos abertos e flexíveis, vemos um processo de reconfiguração da cultura apontado por Paes (2005, p. 458): São diferentes as configurações dos mais de duzentos grupos indígenas espalhados pelo território brasileiro, sendo que um grande número destes já vive sob forma híbrida, embora nem por isso deixem de ser legalmente índios. O processo de contato com a sociedade não índia inseriu novos costumes e novas formas de utilização de utensílios de uso rotineiro, assim como trouxe novos instrumentos para uso nas aldeias, inventados e utilizados pela sociedade envolvente. Onde antigamente havia somente casas construídas de materiais retirados da natureza, em dias atuais é comum as casas serem construídas de madeira ou mesmo de tijolos. Atualmente também utensílios domésticos industrialmente manufaturados são adquiridos no comércio das cidades e levados para as aldeias. Dessa forma, vemos a questão dos “rendimentos” ganhar uma nova conotação nas sociedades indígenas. E os dados do Censo de 2010 mostram a quase totalidade da população indígena, cerca de 96%, na idade acima de 10 anos, vivendo em terras indígenas; quando tinha rendimento, esse era inferior a um salário mínimo. Entre os índios vivendo fora das terras indígenas e com algum rendimento, esse percentual é de mais de 50%. Devemos atentar ao fato de que 97% dos índios vivendo em terras indígenas não têm nenhum tipo de rendimento e, entre os que vivem fora dessas terras, o percentual sem nenhum rendimento é de 68,7% (dados do Censo 2010). Com essas informações, é possível construir um pequeno panorama sobre a condição dos indígenas em nosso país, assim como ter uma rápida dimensão sobre os desafios que estão colocados e as lacunas de conhecimento sobre nosso próprio povo que ainda precisam ser preenchidas. Nos próximos itens, vamos estudar esse assunto. 47 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL 4 MOVIMENTOS SOCIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: É POSSÍVEL ACELERAR O PROCESSO DE MUDANÇA? Após números e mais números comprovando a condição desfavorável em que se encontram os negros e índios na sociedade brasileira, você deve estar se perguntando: mas, afinal, será possível reverter esse processo perverso? Nossa tese é: sim, isso é possível. A partir deste tópico, começaremos a apresentar algumas dessas possibilidades. Na próxima unidade, trataremos das legislações vigentes no Brasil no combate ao racismo e na promoção da igualdade racial, bem como faremos um retorno histórico a fim de compreender mais profundamente as raízes desse racismo. Por fim, terminaremos com a última unidade, em que discutiremos exclusivamente questões educacionais e estratégias para nós que queremos colaborar para a igualdade racial em nossas escolas e na sociedade de modo geral. 4.1 Movimentos negros na luta contra o racismo: para uma nova condição afrodescendente Muitos de nós, ao longo de nossa trajetória escolar, já devemos ter-nos deparado com algumas das seguintes explicações para a escravização do negro e para a posição que este ocupa até os dias atuais em nossa sociedade. • Durante o processo de colonização do Brasil feito pelos portugueses, a escravização do negro foi “preferível” à do índio, pois aquele sempre fora mais “passivo”, “aceitando” de forma mais mansa sua própria escravização. • O negro, por ser mais “preguiçoso”, acomodava-se à sua condição de escravo, o que fez com que permanecesse nela por quase quatrocentos anos. São ideias que sustentam ideologicamente concepções naturalizantes da condição do negro como escravo, como se os africanos já tivessem nascido escravos, numa tentativa de apagar todo o processo econômico e social de escravização de pessoas negro-africanas por escravizadores portugueses brancos. • Os negros estão na situação em que estão atualmente porque querem, porque não têm “competência” para “conquistar” o que os brancos conquistaram. Essas são explicações esdrúxulas e indignantes, mas que infelizmente todos nós já ouvimos pelo menos uma vez na vida. Para que a crítica que estamos realizando fique mais clara, é necessário que se reflita sobre os seguintes questionamentos: • Será mesmo que alguém pode se “acomodar” à condição de escravizado ou toda a história da resistência negra sempre foi propositalmente esquecida pelos historiadores? • Será que o negro realmente “aceitou passivamente” sua escravização ou se organizou em inúmeros movimentos ao longo da história colonial, imperial e republicana brasileira, movimentos esses nunca citados nos livros de história? 48 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I • Será que as estatísticas que insistentemente mostramos anteriormente confirmam a “superioridade” e a “competência” do branco em relação à “falta de capacidade” do negro ou são o reflexo da sociedade desigual, aristocrática e racista na qual vivemos? É facilmente perceptível que nossa tese nesta disciplina procura confirmar sempre a segunda parte das perguntas anteriores. Por razões didáticas, deixaremos as formulações históricas, necessárias para a compreensão das raízes de algumas dessas proposições, para serem tratadas na próxima unidade. Neste ponto do livro-texto, queremos reforçar o papel do movimento negro contemporâneo na luta contra as desigualdades raciais no Brasil, bem como na promoção de outra condição para os afrodescendentes, a partir, principalmente, de uma tomada de consciência dessas questões e da implantação de políticas de ações afirmativas, das quais falaremos em seguida. Lembrete Desde já, esclarecemos que o tratamento dessas questões neste livro-texto não poderá ser exaustivo, tendo em vista nossa limitação de tempo e espaço para o desenvolvimento de cada assunto. Nossa intenção é sinalizar algumas possibilidades de análise, a fim de que o aluno seja incentivado a continuar suas pesquisas na área, aprofundando, assim, as explicações possíveis para questões tão complexas como as que tratamos. Figura 17 49 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Muitos dos movimentos negros em ação atualmente são resultado de um longo processo de lutas, muitas delas remontando ao período pré-abolicionista, no século XIX, ou até muito antes, desde o século XVI, no início da colonização brasileira e da escravização de africanos por portugueses. A questão aqui é afirmar veementemente que os africanos nunca foram “passivos”, “pacíficos” ou “acomodados”. Há muitos episódios em que os negros se colocaram como resistentes ao modelo colonial. Até mesmo a organização dos chamados “quilombos” é uma importante demonstração de que eles pretendiam construir, no Brasil, outro modelo de sociedade, aberta a todos e que pudesse desmontar a estrutura escravocrata, implantando em seu lugar, “outra forma de vida, outra estrutura política na qual se encontraram todos os tipos de oprimidos” (MUNANGA; GOMES, 2006, p. 71). Outros movimentos negros, entretanto, remontam a períodos posteriores à abolição, dado que as desigualdades sociais entre brancos e negros continuaram a existir, mesmo após a “libertação” dos escravizados. Munanga e Gomes (2006, p. 107) assimexplicam esse fenômeno: O fato de serem libertados por força da lei não garantia aos negros os mesmos direitos de fato e todas as oportunidades dadas aos brancos em nosso país, sobretudo às camadas mais ricas da população. Por isso, além da libertação oficial, instituída na lei, os negros brasileiros após a abolição tiveram que implementar um longo e árduo processo de construção de igualdade e de acesso aos diversos setores sociais. [...] [assim,] É importante lembrar que a movimentação, a reação e a resistência que fazem parte da história do negro brasileiro constituem momentos importantes na história do Brasil. Por isso é tão importante que as crianças aprendam na escola outra história do Brasil, recontada; dessa vez, levando em consideração esse personagem que, mesmo tão importante, foi tão estigmatizado em nossos livros tradicionais, sendo tomado apenas como “escravo”. Observação Você notou que estamos utilizando ao longo de todo nosso livro-texto as palavras “escravizados” e “escravizadores”, no lugar das usuais “escravos” e “senhores”? Pois saiba que esta não é uma escolha casual. Trata-se de um posicionamento teórico e político que visa enfatizar, no estudo da história do Brasil, os processos de exploração das populações africanas trazidas por portugueses para o continente americano, com a única intenção de transformá-los em mercadorias no contexto daquela economia capitalista comercial. Além disso, o uso das expressões “escravizados e escravizadores” ajuda a desmontar a ideologia dominante da naturalização do negro como escravo, processo fortemente reforçado por boa parte da literatura disponível sobre a história do Brasil colônia, que sempre mostrou em suas páginas os negros apenas na figura de 50 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I escravos, dando a impressão, inclusive, de que esta seria sua condição original, natural, como se todos os africanos já tivessem nascido escravos na África. A escola, como espaço de formação, é um excelente lugar para se promover ações afirmativas, a começar pela reformulação de conceitos sobre as populações negras, seu papel na formação do Brasil, suas trajetórias, lutas e conquistas. Portanto, urge colocarmos em prática a Lei nº 10.639/2003 e ensinarmos nas aulas esse outro lado da história. Saiba mais Há milhares de possibilidades de pesquisa, com livros na íntegra, artigos e revistas de toda espécie, sites educativos, para professores, alunos e qualquer pessoa acessar uma infinidade de conteúdos e informações. Uma sugestão é esta leitura: MAZRUI, A. A. História geral da África: África desde 1935. v. I –VIII. Brasília: UNESCO, 2010. , que disponibiliza mais de 1.200 páginas, divididas em oito volumes, sobre a história geral da África desde 1935. Sobre a história dos negros no Brasil, nossa sugestão são as publicações do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), da Universidade Federal da Bahia, disponíveis em: . 4.2 A especificidade das ações afirmativas A força do movimento negro contra todas as formas de discriminação por raça ou cor e pela garantia de direitos sociais fundamentais da população afro-brasileira acabou se traduzindo basicamente em duas formas na legislação antirracista vigente no Brasil: de um lado, por meio de uma legislação penal que pune todo ato discriminatório; por outro, a partir da promoção de igualdade de oportunidades a grupos desfavorecidos socialmente, pelas chamadas ações afirmativas. Neste subtópico, vamos nos aprofundar apenas nesta última questão, procurando mostrar um pouco da discussão em torno de um tema ainda tão polêmico no Brasil, que altera os ânimos de intelectuais, ativistas e políticos, tanto de esquerda quanto de direita, com negros, brancos e amarelos, com as pessoas de modo geral, professores, alunos, profissionais, donas de casa etc. O debate em torno das ações afirmativas é capaz de mobilizar opiniões em qualquer âmbito social ou contexto cultural, principalmente porque fazem parte delas algumas políticas que procuram garantir cotas para afrodescendentes em universidades e empresas, visando à inclusão justa desse segmento populacional. 51 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Figura 18 Mas, afinal, o que são as ações afirmativas? De acordo com Bernardino (2002, p. 256-257): [...] são entendidas como políticas públicas que pretendem corrigir desigualdades socioeconômicas procedentes de discriminação, atual ou histórica, sofrida por algum grupo de pessoas. Para tanto, concedem-se vantagens competitivas para membros de certos grupos que vivenciam uma situação de inferioridade a fim de que, num futuro estipulado, esta situação seja revertida. Assim, as políticas de ação afirmativa buscam, por meio de um tratamento temporariamente diferenciado, promover a equidade entre os grupos que compõem a sociedade. A discussão sobre as ações afirmativas procede dos Estados Unidos, onde o movimento negro lutou e conseguiu a garantia de leis que promovessem, ao mesmo tempo: um “ressarcimento” às perdas de oportunidades vividas pelos negros naquele país em consequência de políticas segregacionais e uma “aceleração” do lento processo histórico, para a inclusão social a curto prazo desse segmento populacional, bem como a ascendência de minorias étnicas, raciais e sexuais. Em ambos os casos, segundo Guimarães (2009, p. 170), são ações “para remediar uma situação considerada socialmente indesejável”. Claro que “remediar” não é o ideal de nenhuma realidade verdadeiramente democrática. Assim, é preciso considerar as ações afirmativas como uma medida paliativa, transitória e, portanto, temporária, devendo ser extinta assim que as condições sociais estiverem mais equilibradas para grupos sociais em desvantagem, como negros, indígenas e mulheres, por exemplo. 52 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Lembrete Por que são necessárias tais ações para “remediar” a situação dos negros no Brasil? Por que os negros não poderiam, “por suas próprias pernas”, conquistar tais direitos e acesso às mesmas oportunidades que os brancos? Essa discussão é bastante delicada e requer cuidados. Em primeiro lugar, as ações afirmativas buscam acelerar um processo histórico que, por si só, talvez demorasse décadas, séculos ou até milênios para acontecer, tendo em vista a “inércia histórica”, ou seja, a força de oposição que o passado de discriminações, desigualdades e racismo tem e que gera resistências aos esforços advindos de ações individuais. Em outras palavras, trata-se, segundo Guimarães (2009, p. 172), de assumir o “racismo institucional”, ou seja, afirmar que “há mecanismo de discriminação inscrito na operação do sistema social e que funciona, até certo ponto, à revelia dos indivíduos”. No Brasil, temos uma dificuldade a mais na implantação de políticas de ações afirmativas: o mito da democracia racial, que insiste em negar a existência de raças no país (raças no sentido político, e não biológico, conforme temos assumido neste livro-texto), afirmando, portanto, que o racismo não existe no Brasil. Assim, é primordial que entendamos de uma vez por todas que o racismo é, sim, uma realidade na sociedade brasileira e que, portanto, pede medidas de reparação ou aceleração na inclusão dos afrodescendentes em todas as esferas sociais. Ações afirmativas são, nesse sentido, uma espécie de “discriminação ao contrário”, também denominada como “discriminação positiva”, no sentido de proporcionar algumas vantagens aos grupos historicamente em desvantagem (e por isso considerados minorias), como negros, idosos, mulheres, indígenas, crianças, adolescentes etc., oferecendo-lhes facilidades temporárias para um acesso mais rápido aos direitossociais básicos que lhes foram, por tanto tempo, sistematicamente negados. Para o Direito, esse recurso é denominado “mitigação de danos”, previsto na legislação brasileira, inclusive. Um exemplo dessas ações afirmativas são os sistemas de cotas para negros, deficientes físicos e mulheres, que torna obrigatória a universidades, empresas e partidos políticos a inclusão de uma porcentagem mínima de determinados grupos sociais tradicionalmente excluídos dessas instâncias. Claro que a questão das cotas traz um sem-número de argumentos favoráveis e desfavoráveis, discussões inflamadas e também muito desconhecimento e preconceito. Os estudantes universitários são os que, de forma direta, se envolveram nesse debate, pois cotas para negros foram assumidas em várias universidades públicas e privadas no país. Para alguns desses jovens, tal medida seria “discriminatória”, pois deixaria de fora estudantes “bem preparados” para as provas de vestibular, que seriam substituídos por estudantes negros, muitas vezes advindos de escolas públicas e, supostamente, menos “competentes” que os brancos, contrariando as noções de mérito e valor individual, tão caras às nossas democracias liberais. 53 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Observação Você é a favor ou contra a obrigatoriedade das cotas, seja para estudantes universitários afrodescendentes, trabalhadores com necessidades especiais ou mulheres em cargos políticos? O que esperamos deixar claro é que esse tipo de argumentação advém de uma compreensão deturpada de nossos sistemas de educação, bem como do acesso via vestibulares. Como se esses sistemas e mecanismos de acesso fossem oferecidos a todos os grupos sociais de forma justa e igualitária, ou seja, baseia-se na crença de que bastaria ao negro ter um pouco mais de “força de vontade” para garantir sua vaga nos cursos mais concorridos das universidades públicas do país. Infelizmente, bem sabemos que a realidade não é essa. Ao contrário, os jovens “bem nascidos” já são desde muito cedo preparados para essa inserção via vestibular, em escolas de alto nível, graças a investimentos educacionais, geralmente feitos pelas próprias famílias. Por outro lado, o ensino reservado aos grupos de crianças e jovens desfavorecidos, na rede pública, não chega perto das altas exigências de desempenho dos vestibulares mais concorridos, o que deixa inevitavelmente tais jovens excluídos mais uma vez de um dos direitos fundamentais do cidadão, o Ensino Superior. E, conforme dados estatísticos já apresentados, os negros são negativamente mais atingidos por esse processo de exclusão, uma vez que se encontram em maioria nos estratos mais pobres da população. 4.3 Movimentos indígenas na luta pelo reconhecimento Darcy Ribeiro em seu livro O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995, p. 44) descreve de forma bem interessante como deve ter sido o primeiro encontro entre os primeiros portugueses que aqui chegaram e os habitantes locais: Esse foi o primeiro efeito do encontro fatal que aqui se dera. Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros tal qual eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções, não só diferentes mas opostas, do mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Os navegantes, barbudos, hirsutos, fedentos de meses de navegação oceânica, escalavrados de feridas do escorbuto, olhavam, em espanto, o que parecia ser a inocência e a beleza encarnadas. Os índios, vestidos da nudez emplumada, esplêndidos de vigor e de beleza, tapando as ventas contra a pestilência, viam, ainda mais pasmos, aqueles seres que saíam do mar. É possível a partir desse trecho perceber uma descrição bem mais próxima do que realmente deve ter acontecido no encontro entre duas culturas tão diversas. Daquele momento em diante, as relações que se estabeleceram foram as mais diversas. Logo de início, foram mediadas por conflitos, assim descritos: Embora minúsculo, o grupelho recém-chegado de além-mar era superagressivo e capaz de atuar destrutivamente de múltiplas formas. 54 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Principalmente como uma infecção mortal sobre a população preexistente, debilitando-a até a morte. Esse conflito se dá em todos os níveis, predominantemente no biótico, como uma guerra bacteriológica travada pelas pestes que o branco trazia no corpo e eram mortais para as populações indenes. No ecológico, pela disputa do território, de suas matas e riquezas para outros usos. No econômico e social, pela escravização do índio, pela mercantilização das relações de produção, que articulou os novos mundos ao velho mundo europeu como provedores de gêneros exóticos, cativos e ouros (RIBEIRO, 1995, p. 30). A curiosidade mútua inicial entre europeus e nativos foi sendo transformada paulatinamente, à medida que se estabeleciam relações mais próximas e se familiarizavam com os costumes uns dos outros. Inicialmente os índios eram vistos como uma gente bela e inocente, mas logo viraram objeto de curiosidade e discussão entre teólogos e outros estudiosos dos séculos XVI e XVII. Num primeiro momento, prevaleceu uma visão salvacionista, assim descrita por Ribeiro (1195, p. 59): De todo o debate, só reluzia, clara como o sol, para a cúpula real e para a Igreja, a missão salvacionista que cumpria à cristandade exercer, a ferro e fogo, se preciso, para incorporar as novas gentes ao rebanho do rei e da Igreja. Esse era um mandato imperativo no plano espiritual. Uma destinação expressa, uma missão a cargo da Coroa, cujo direito de avassalar os índios, colonizar e fluir as riquezas da terra nova decorria do sagrado dever de salvá-los pela evangelização. Daí decorre a tutela dos índios pela Igreja Católica, por meio principalmente das irmandades franciscanas e jesuítas, que viam nos indígenas a possibilidade de expansão dos seus rebanhos e domínios, numa busca de recuperação do espaço perdido para os protestantes na Europa. Os religiosos viam nas novas terras a possibilidade de fazer da expansão europeia a universalização da cristandade. Viam nos nativos a expressão de uma sociedade utópica, solidária, igualitária, orante, pia e cristã, passando por cima de toda a tradição cultural dos índios, a qual consideravam a expressão do paganismo. Para garantir a implantação de seus projetos religiosos, usaram de toda a sua influência e poder econômico para proteger os índios das investidas dos colonizadores. Entretanto, essa proposta dos religiosos contrapunha-se ao projeto colonial, levando à instauração de inúmeros conflitos, veja o que diz Ribeiro (1995, p. 61): De um lado, o colono, querendo pôr os braços índios a produzir o que os enricasse, ajudados por mundanos curas regulares dispostos a sacramentar a cidade terrena, dando a Deus o que é de Deus e ao rei o que ele reclamava. Foi um desastre, mesmo onde as missões se implantaram produtivas e até rentáveis para a própria Coroa – como ocorreu com as dos Sete Povos, no sul, e ao norte, na missão tardia da Amazônia – prevaleceu a vontade do colono, que via nos índios a força de trabalho de que necessitava para prosperar. 55 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Essa contradição de interesses abriu espaço para o avanço do extermínio e a escravização dos nativos, pois os atos administrativos que regiam a escravização eram dúbios, enganosos, casualísticos, dependendo dos interesses momentâneos do governante. Os regulamentos ao mesmo tempo em que proibiam o cativeiro de índios o instituíam, conforme relato: Os atos administrativos que regiam a escravidão dos índios são igualmente um vaivém de engodos e chicanas que, proibindo o cativeiro, de fato o instituíam. O índio podia ser legalmente escravizado porque aprisionadonuma guerra justa; ou porque obtido num justo resgate; ou porque capturado num ataque autorizado; ou porque libertado do cativeiro de alguma tribo que ameaçava comê-lo; ou ainda porque compunha um lote de que se pagara o quinto ao governo local (RIBEIRO, 1995, p. 101). E, finalmente, os religiosos capitularam e aliaram-se aos colonizadores, justificando suas consciências com o argumento de que, quanto mais escravos fossem capturados, mais almas entrariam para a Igreja e seriam “salvas”. Para dar essa justificação religiosa, os missionários passaram a acompanhar as tropas de captura dos índios. Outro instrumento para subjugar os índios foi a “escravização voluntária” de índios maiores de 21 anos, que poderiam vender a si mesmos a quem fizesse o “ato bondoso” de comprá-los, desde que eles fossem esclarecidos sobre o que significava a escravidão. Ribeiro (1995, p. 102) descreve outras formas de escravização dos índios: Era lícito, também, a compra de meninos índios a seus pais para criá-los e treiná-los para o trabalho, o que representa o cúmulo da desfaçatez, uma vez que não há gente mais extremosamente apegada aos filhos do que as sociedades fundadas no parentesco. Era também legal e até meritório comprar meninos trazidos por bugreiros ou regatões, para instruí-los na fé cristã, o que sucede até hoje nos cafundós da Amazônia. Era igualmente lícito reter como cativo o índio que se acasalava com uma escrava e ainda registrar como escravo o filho gerado desse casamento. À medida que a colonização avançava para o interior do país, os índios iam sendo empurrados mais para a região central, tendo que abandonar o que antes era um território sob seu domínio, o litoral cheio de rios e farta vegetação. Isso significou, entre outras coisas, impor às comunidades indígenas escassez de alimentos, longas jornadas com idosos e crianças, disputa de terras com outros grupos, gerando guerras interétnicas, além de outros problemas que levaram ao extermínio de etnias inteiras em nome de levar uma ocupação “civilizada” às novas terras. Sobre isso, vejam o que relata Amantino (2006): Os índios do Sertão Oeste Mineiro – área considerada pelas autoridades no século XVIII como sendo despovoada de elementos civilizados – foram, em sua maioria, encarados como inimigos e acusados de dificultarem o povoamento e desenvolvimento da região. Daí, segundo os governantes, surgiu a necessidade de enviar expedições para atacar suas aldeias, a fim 56 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I de conseguir a pacificação e consequente a aceitação dos ensinamentos religiosos e trabalhistas. Havia ainda a possibilidade de extermínio dos grupos com o objetivo de liberar a área para novos ocupantes. Desta maneira, durante o século XVIII, ocorreram inúmeras expedições preparadas para estes fins. Em 1734, uma bandeira liderada por Matias Barbosa, que contava com 70 homens e 50 escravos, atacou grupos de Botocudos e liberou a região do Sertão Leste até as Escadinhas da Natividade para os colonos. Nessa mesma região, foi fundado o Presídio do Abre Campo. Em 1748, o coronel Antonio Pires de Campos criou vários aldeamentos de Bororos para controlar e atacar os Caiapós que circulavam na área; em 1769, Antonio Cardoso de Souza recebeu do Conde de Valadares ordens precisas para a conquista do gentio nas imediações do Cuieté. Em 1775, D. Antonio de Noronha, governador de Minas Gerais, decretou guerra aos Botocudos que atacavam o aldeamento do Pomba e atrapalhavam a conquista do Cuieté. Em 1782, João Pinto Caldeira liderou uma expedição que tinha por objetivo liquidar os quilombolas e os Caiapós que fossem encontrados no Campo Grande. Como vemos, os colonos aliavam-se a determinados grupos, alimentando suas disputas e, quando não lhes interessava mais aquela aliança, abatiam esses grupos para atender aos seus interesses econômicos e políticos. A justificativa ideológica para essas expedições pautava-se na ideia de que era preciso colonizar e povoar o sertão para promover seu desenvolvimento. As colocações de Ribeiro e Amantino rompem com a visão romanceada que nossos livros didáticos apresentam de convivência pacífica e colaborativa entre brancos e índios no processo de colonização. A partir dali, as formas de luta dos povos indígenas variam muito durante a nossa história e a consequência dessa disputa nós já conhecemos: a redução da população e o extermínio de diversos grupos. Saiba mais A história de resistência e de luta dos povos indígenas na América do Sul só foi objeto de pesquisa e sistematização acadêmica a partir dos anos 1980, por isso as produções são tão recentes e aquelas lacunas do nosso conhecimento, a que nos referimos anteriormente, só agora começam a ser preenchidas. Para ter uma melhor compreensão sobre a história da composição étnica do Brasil, você pode assistir ao documentário: O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro. 57 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Tendo em vista os limites colocados pela condição deste livro-texto, vamos focar nossos estudos no movimento indígena mais recente, a partir do início do século XX. Baniwa (2006, p. 70-74) divide o movimento indígena contemporâneo em três períodos: • Indigenismo governamental tutelar – com duração de quase um século, caracterizou-se pela criação e forte presença do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), criado em 1910, sob forte influência positivista, que posteriormente foi reformulado para se tornar a Fundação Nacional do Índio (Funai), criada em 1967 e atuante até os dias de hoje. • Indigenismo não governamental – teve início em 1970, caracterizando-se pela introdução de dois novos atores nas relações com os grupos indígenas: a Igreja Católica renovada e as organizações civis ligadas a setores progressistas da academia (grupos de pesquisa ligados às universidades). • Indigenismo governamental contemporâneo – após 1988, ocorreu a ampliação da relação do Estado com os povos indígenas, a partir da criação de diversos órgãos em vários ministérios para atuarem junto aos povos indígenas, quebrando a hegemonia da Funai. A SPI foi fortemente marcada pela ideia vigente da “relativa incapacidade dos índios”, razão pela qual eles deveriam ficar sob a “tutela” do Estado. A tutela aqui não é entendida como necessidade de proteção e assistência social aos índios, como de forma comum e errônea é definida pelos defensores do princípio da tutela oficial, mas como a incapacidade civil e intelectual dos índios. Baniwa (2006, p. 71) destaca aspectos marcantes das ideias vigentes naquele período: Paralelamente à atuação do SPI, havia em curso um processo conhecido por “integração e assimilação cultural” dos povos indígenas sob a tutela do Estado, o que na prática significava a efetiva e inexorável apropriação de suas terras e a negação de suas etnicidadades e identidades. Os índios deveriam, o mais rápido possível, ser integrados à sociedade nacional, ou seja, precisariam viver de maneira igual a dos brancos, nas cidades ou nas vilas, deixando de ser índios para abrir caminho à ocupação de suas terras pelos não índios, sob o argumento e a justificativa da necessidade de expansão das fronteiras agrícolas para o desenvolvimento econômico do país. Em 1970, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) instituiu a pastoral do índio como uma resposta às históricas críticas de ter sido cúmplice do Estado brasileiro durante os séculos de extermínio das populações indígenas. Seu papel foi sempre de assistência às necessidades básicas dos grupos indígenas atendidos. A Igreja Católica, ainda em 1970, criou também o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que, com um papel muito mais político, atuou na articulação, no apoio, na divulgação e na denúncia de questões relativas à violação dos direitos indígenas, tornando-se um importante aliado dos movimentos indígenas.A partir de 1970, no bojo de outros movimentos sociais, surgem várias organizações não governamentais atuando junto aos povos indígenas, quebrando o monopólio do Estado e da Igreja. Essas organizações participam ativamente da mobilização dos índios por seus direitos. 58 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I No contexto das mudanças políticas que ocorreram com a promulgação da Constituição de 1988, houve uma ampliação dos órgãos públicos com políticas de atendimento voltadas para os grupos indígenas, isso tornou possível a diversificação das orientações e metodologias das políticas propostas; desde então, não é mais cabível pensar em programas para os povos indígenas sem sua participação e controle social. Segundo Baniwa (2006, p. 76): Esse período foi marcado por importantes conquistas políticas e de direitos, como a ratificação de alguns convênios internacionais, como a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 1993. A Convenção determina o controle social e a participação indígena nas instâncias decisórias, sobretudo nas que lhes dizem respeito, mas que se encontram muito distantes de qualquer possibilidade de efetivo respeito e implementação de seus preceitos, os quais poderiam ajudar no encaminhamento de soluções para muitos problemas enfrentados pelas comunidades e pelos povos indígenas. A Convenção também ajuda a superar um problema conceitual e de cidadania indígena, reconhecendo a categoria de povos aos índios, admitindo com isso o direito de autodeterminação sociocultural e étnica nos marcos do Estado brasileiro (desde que não signifique soberania territorial). Figura 19 Atualmente, as organizações indígenas formam uma rede de entidades articuladas nacional e internacionalmente, utilizando meios políticos e tecnológicos disponibilizados pelo mundo moderno. No próximo tópico, faremos uma investigação sobre as principais ações afirmativas presentes na legislação antirracista brasileira, começando pela Constituição Federal de 1988. Mais uma vez, lembramos que esse recorte temporal se faz necessário dadas as limitações desta disciplina. Antes de prosseguirmos para a próxima unidade, sugerimos que você faça os exercícios a seguir, procurando aprofundar suas pesquisas sobre os temas selecionados. Em seguida, verifique as propostas de resolução das questões e veja se você conseguiu atingir os objetivos pretendidos e compreender de modo mais complexo as problemáticas apresentadas. 59 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Resumo Nesta unidade, foram muitas as teorias, conceitos, informações, críticas, dados estatísticos e atividades a serem desenvolvidas. Para que todo esse conteúdo fique ainda mais claro no processo de aprendizagem, vamos resumir os principais tópicos abordados e convidamos você a retomar suas anotações e estudos, voltando a consultar o texto completo quando necessário. Os conceitos de raça e etnia são essenciais para o estudo das relações étnico-raciais. Entretanto, o de raça deve ser compreendido com certo cuidado, para não recair em concepções biologizantes. Nossa abordagem adota a perspectiva política, no sentido de que as populações de africanos e seus descendentes se apropriem e ressignifiquem o uso da palavra raça na luta contra toda forma de racismo e discriminação. Já o conceito de etnia requer uma opção, escolha, posicionamento, daquele que pretende fazer parte de certo grupo étnico. Não se trata de um processo simples, mas que implica atribuição endógena ou exógena, que considera a dimensão relacional e de fronteira, a busca de uma origem comum e o processo de realce ou saliência de determinados aspectos, configurando-se num processo simbólico, político e social. O racismo científico, teoria formulada no século XIX na Europa, sob influência das teorias evolucionistas de Charles Darwin, produziu uma ideologia que define uma ordem natural da realidade social, considerando homens e mulheres como “naturalmente” superiores uns aos outros. Os desdobramentos e as consequências dessa teoria se fizeram perceber ao longo de toda a história do século XX, tanto na Europa como no Brasil, até ser assimilada no contexto brasileiro, influenciando a formação de um mito de democracia racial. Essa concepção das nossas relações étnico-raciais como harmoniosas, a partir da mistura de brancos, negros e indígenas, serviu para encobrir nosso racismo à brasileira, que, não menos do que em outros países, pressupõe hierarquização, inferiorização, preconceito, discriminação e desigualdade. Esse racismo se confirma nos levantamentos estatísticos oficiais, produzidos pelo IBGE, dados esses que foram cuidadosamente analisados por nós, demonstrando que a condição dos afrodescendentes na sociedade brasileira ainda é desvantajosa quando comparada à de outros segmentos da população, nos mais diversos âmbitos sociais: distribuição racial por 60 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I região, desenvolvimento econômico, mercado de trabalho, renda familiar, distribuição de renda, analfabetismo, desigualdade educacional em todos os níveis de ensino (do Básico ao Superior), condição feminina com relação à saúde, acesso à infraestrutura pública, saneamento e moradia, estrutura familiar e dedicação aos afazeres domésticos. Para terminar esta primeira unidade, procuramos defender a tese de que esse quadro pode e já está sendo transformado por meio dos movimentos sociais e das ações afirmativas, na luta contra o racismo, na promoção da igualdade racial e na conquista de uma nova condição para as populações afrodescendentes e indígenas. Exercícios Questão 1. Observe atentamente os dados contidos na tabela a seguir: Tabela 4 – Pessoas de 15 anos ou mais de idade, analfabetas, total e respectiva distribuição percentual, por grupos de idade e cor ou raça, segundo as grandes regiões - 2008 Grandes regiões Pessoas de 15 anos ou mais de idade, analfabetas Total (1000 pessoas) Distribuição percentual (%) Grupos de idade Cor ou raça Total 15 a 24 anos 25 a 39 anos 40 a 59 anos 60 a 64 anos 65 anos ou mais Total (1) Branca Preta ou parda Brasil 14247 100,0 5,1 17,9 35,8 9,8 31,5 100,0 31,0 67,8 Norte 1128 100,0 6,8 19,6 37,5 9,9 26,3 100,0 16,3 81,9 Nordeste 7500 100,0 5,9 21,2 37,1 8,9 26,8 100,0 23,4 75,8 Sudeste 3620 100,0 3,6 13,1 32,9 10,8 39,6 100,0 42,1 56,4 Sul 1159 100,0 3,9 12,1 33,1 12,5 38,5 100,0 60,8 37,2 Centro-oeste 840 100,0 3,5 13,8 37,1 10,1 35,5 100,0 29,2 68,3 Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2008. (1) Exclusive as pessoas de cor ou raça amarela e indígena. Os dados reunidos nessa tabela dão a conhecer: I. Ao estudarmos a questão do analfabetismo no Brasil, constatamos a ocorrência de expressivas diferenças regionais. Comparando dados percentuais derivados do recorte “cor ou raça”, identificamos que a região Norte abriga a população afrodescendente que sofre os maiores prejuízos. II. Os afrodescendentes com idade entre 15 e 24 anos são aqueles que sofrem os menores prejuízos nesse contexto geral. 61 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL III. Utilizando o jargão do Censo, observamos que, na região Sul, os brancos apresentam prejuízos maiores do que os pretos e pardos. IV. Os amarelos e indígenas sofrem prejuízos análogos aos sofridos por pretos e pardos. Considerando as afirmativas, assinale a alternativa correta: A) É verdadeiro apenas o que se afirma em I e II. B) É verdadeiro apenas o que se afirma em I, II e III. C) É verdadeiro apenas o que se afirma em II e IV. D) É verdadeiro apenas o que se afirma em I e III. E) É verdadeiro apenas o que se afirma em II e III. Resposta correta: alternativaD. Análise das afirmativas I. Afirmativa correta. Justificativa: os dados contidos na última coluna da tabela informam que a porcentagem de pessoas maiores de 15 anos de idade pertencentes ao segmento populacional pretos/pardos varia de região para região: no Norte, 81,9%; no Nordeste, 75,8%; no Sudeste, 56,4%; no Sul, 37,2% e no Centro-Oeste, 68,3%. Assim sendo, a região Norte é a que abriga a população afrodescendente que sofre os maiores prejuízos. II. Afirmativa incorreta. Justificativa: observemos que a coluna da tabela que reúne informações sobre o analfabetismo nos diversos grupos de idade não informa absolutamente nada sobre diferenças relativas aos segmentos de brancos e de pretos/pardos. III. Afirmativa correta. Justificativa: os dados contidos na penúltima coluna da tabela informam que a porcentagem de pessoas maiores de 15 anos de idade pertencentes ao segmento populacional de brancos varia de região para região: no Norte, 16,5%; no Nordeste, 23,4%; no Sudeste, 42,1%; no Sul, 60,8%; e, no Centro-Oeste, 29,2%. Assim sendo, a região Sul é a que abriga a população branca que sofre os maiores prejuízos. 62 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I IV. Afirmativa incorreta. Justificativa: os dados reunidos na tabela não oferecem informações relativas ao analfabetismo de pessoas que compõem os segmentos populacionais amarelo e indígena, conforme se pode constatar na observação feita logo abaixo da tabela: “Exclusive as pessoas de cor ou raça amarela e indígena”. Questão 2. Leia atentamente o texto apresentado a seguir: Com o objetivo de contribuir para o conhecimento dos programas de ação afirmativa de inserção da população negra no ensino público superior brasileiro, Santos (2006) desenvolveu uma pesquisa na Universidade Estadual de Campinas. Os dados por ele obtidos advêm de estudos recentes e de grupos de pesquisa sobre o tema. Os estudos mostram que os PAAs têm contribuído para (1) o aumento do número de candidatos inscritos nos vestibulares pertencentes aos grupos-alvo dos programas; (2) o aumento do número de matriculados desses grupos nos cursos de graduação; (3) a melhora no desempenho acadêmico; (4) o fortalecimento da identidade étnico-racial dos alunos dos programas; (5) a ampliação do interesse pelo tema das relações étnico-raciais no corpo docente e discente das universidades. Quanto aos grupos de pesquisa sobre o tema, o foco de investigação tem privilegiado a avaliação de políticas e programas de promoção da igualdade racial e a investigação da legislação brasileira que trata da discriminação e dos direitos de minorias. O estudo de Santos: I. Atende, entre outros, ao propósito de evidenciar que o debate sobre Políticas de Ação Afirmativa (PAAs) não pode, nem deve, ser confundido com o debate sobre cotas para negros, pois, enquanto as PAAs visam corrigir desigualdades socioeconômicas procedentes de discriminação, atual ou histórica, sofrida por algum grupo de pessoas, as cotas são apenas um dos recursos utilizados por essas políticas. II. Conduziu a resultados que evidenciam efeitos positivos da adoção de PAAs em instituições de Ensino Superior. III. Trata da adoção de políticas de ação afirmativa nos diversos graus de ensino no Brasil. IV. Reafirma o fato de que a implantação de PAAs no Brasil e o debate sobre esse tema não são, de modo algum, justificáveis. Afinal de contas, temos o privilégio de viver num país livre do racismo e internacionalmente reconhecido como uma democracia racial. Considere as afirmativas anteriores para assinalar, a seguir, a alternativa correta: A) É verdadeiro apenas o que se afirma em I e II. B) É verdadeiro apenas o que se afirma em III e IV. 63 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL C) É verdadeiro apenas o que se afirma em I e III. D) É verdadeiro apenas o que se afirma em I. E) É verdadeiro apenas o que se afirma em III. Resolução desta questão na plataforma. 64 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II 5 O ANTIRRACISMO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA É comum no Brasil nos orgulharmos de nossas leis como sendo as mais modernas e avançadas do mundo. Temos uma das constituições mais progressistas e igualitárias do planeta. Promulgamos estatutos específicos de proteção a várias minorias: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Estatuto do Idoso, do Índio, da Igualdade Racial e a Lei Maria da Penha, que combate a violência contra as mulheres. Todos esses são exemplos de que, em termos de legislação, o Brasil possui um referencial de primeiro mundo. Entretanto, por que é necessário termos legislações que regulem tanto as relações sociais e os interesses desses grupos? Para tentar responder, pense nas seguintes situações: • Por que seria necessária uma lei proibindo e punindo a discriminação racial? • Por que temos um estatuto que obriga o Estado e a sociedade a garantirem às crianças e aos adolescentes direitos fundamentais como educação, alimentação e lazer? • Por que precisamos de uma lei que trate especificamente da violência contra idosos e mulheres? Infelizmente, as respostas a essas perguntas são desoladoras: • Precisamos de leis que punam atitudes racistas porque o racismo está presente em nosso cotidiano, de maneira dissimulada, mas evidente. • As crianças precisam de um estatuto porque lhes são negados no Brasil seus direitos mais fundamentais, como educação, alimentação e o direito a brincar. • Idosos e mulheres precisam da proteção da lei no Brasil porque são sistematicamente violentados, em números alarmantes, todos os dias. Conclusão: o que nossas leis tentam fazer é corrigir uma realidade desigual, violenta e injusta, de maneira artificial, como se “a força da lei” fosse suficiente para mudar comportamentos e mentalidades, o que de fato não ocorre. Ao contrário, sabemos que, infelizmente, no Brasil, poucas pessoas são de fato condenadas e punidas por crimes de racismo, maus‑tratos a idosos e crianças, violência contra mulheres e indígenas, apenas para mencionar alguns exemplos. Unidade II 65 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Observação Você saberia contar algum episódio em que uma determinada lei, apesar de estar no papel, tenha sido descumprida, em favor de grupos privilegiados? Reflita sobre as possíveis explicações para fatos como esse. Entretanto, vivemos num país democrático e, para mudar nossa realidade, por mais complexa que seja, precisamos sem dúvida de leis que amparem essas minorias, fortalecendo, assim, os movimentos sociais na garantia de proteção e equidade de direitos e oportunidades. No caso das relações étnico‑raciais (que nos interessam nesta disciplina), precisamos de uma legislação antirracista, que ajude a coibir atitudes discriminatórias e sirva de base para uma ampla discussão popular capaz de transformar comportamentos e mentalidades, por mais profundas que sejam suas raízes e as resistências enfrentadas. Leis para isso nós já temos, e vamos conhecê‑las agora. Resta‑nos, como educadores, encontrar as melhores estratégias para colocá‑las em prática e, assim, promover as mudanças sociais necessárias, assunto que abordaremos mais adiante. 5.1 A Carta Maior: a Constituição brasileira de 1988 No dia 5 de outubro de 1988, foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil, com um amplo processo de mobilização popular, resultado da abertura democrática experienciada a partir de 1985, que colocou fim aos vinte anos de ditadura militar no Brasil. Figura 20 Em seu artigo 20, inciso XI, a Constituição Federal define que as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são bens da União, isso significa que o Estado detém o direito sobre a propriedade desses territórios, por isso assistimos a diversas manifestações.......................................................... 53 Unidade II 5 O ANTIRRACISMO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA ................................................................................ 64 5.1 A Carta Maior: a Constituição brasileira de 1988 ................................................................... 65 5.2 Estatutos específicos ........................................................................................................................... 67 5.2.1 Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/90 .......................................................... 67 5.2.2 Estatuto da Igualdade Racial, Lei nº 12.288/2010 ..................................................................... 69 5.2.3 Estatuto do índio .................................................................................................................................... 70 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 5.3 Leis e diretrizes educacionais .......................................................................................................... 72 5.3.1 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/96............................ 72 5.3.2 Lei nº 10.639/2003 e Lei nº 11.645/2008 ....................................................................................... 73 5.3.3 Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana de 2004 – Parecer CNE 003/2004 ............................................................................................ 75 6 AFRICANIDADES BRASILEIRAS E ALGUNS ASPECTOS DA HISTÓRIA AFRICANA DOS NEGROS NO BRASIL ................................................................................................................................. 77 6.1 Pegando o fio da história: a África antes de 1500 ................................................................. 78 6.2 Heranças coloniais africanas e a formação de um país chamado Brasil ....................... 81 6.3 Diáspora, travessia dos escravizados e o constrangimento de seres humanos à condição de objetos ............................................................................................................................... 84 6.4 Resistência negra e movimento abolicionista: antes e depois da Lei Áurea ............... 88 7 IDENTIDADE, INTERAÇÃO E DIVERSIDADE: POR UMA EDUCAÇÃO CIDADÃ ........................... 92 7.1 O processo de construção da identidade na infância e na juventude: a igualdade jurídica em meio a uma sociedade hierárquica ..................................................... 97 7.2 Diversidade e currículo: desafios para a prática educativa...............................................102 8 EDUCAÇÃO E PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL: ESTRATÉGIAS E POSSIBILIDADES ............106 7 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 APRESENTAÇÃO O(a) aluno(a) tem em mãos o livro-texto que servirá de base para seus estudos na disciplina Relações étnico-raciais no Brasil. Trata-se de uma oportunidade para que se conheça um pouco da formação racial de nosso país, seus problemas, preconceitos e estruturas autoritárias. E como não poderia deixar de ser, veremos o quanto esses assuntos estão diretamente ligados à prática em sala de aula e de que forma podemos nos comprometer com a promoção de iniciativas para a igualdade racial e o respeito às diferenças. Nesse sentido, buscamos contribuir para a formação de uma consciência crítica em relação às questões étnico-raciais no Brasil; para a compreensão dos elementos da cultura e da educação indígena; para o estudo das principais correntes teóricas brasileiras acerca dos temas africanidades e relações étnico-raciais; e para uma futura prática pedagógica de promoção da igualdade racial na escola e na comunidade. A partir do contato com tais temas, espera-se que o aluno, por meio dessa disciplina, seja capaz de adotar uma postura crítica diante das diferenças culturais e étnicas, bem como interpretá-las e compreendê-las, minimizando a geração de preconceitos, etnocentrismos e todas as formas de discriminação. Também se espera que, com esses estudos, o aluno consiga avaliar situações de conflitos interétnicos e promover ações que incentivem a igualdade e o respeito à diversidade no contexto escolar. Além disso, que ele possa compreender a relevância do papel da escola na promoção da igualdade racial, envolvendo-se pessoalmente nesse projeto. INTRODUÇÃO Neste livro-texto, vamos procurar discutir questões bastante delicadas, especialmente para nós brasileiros, sobre as relações étnico-raciais no país, tocando em aspectos de um racismo que se apresenta de forma velada, escamoteada, nas entrelinhas dos discursos mais cotidianos, de nossas conversas e relações do dia a dia. Para começar, é necessário refletir sobre as seguintes questões: negros e brancos são tratados igualmente em nossa sociedade? Negros, brancos e índios possuem as mesmas oportunidades de acesso a emprego, educação, saúde e outros direitos sociais? Qual a contribuição dos povos indígenas para a formação do Brasil nos diferentes aspectos? Afinal, somos um povo racista ou não? Por que precisamos de uma lei que afirme que o “racismo é crime inafiançável?” E como podemos realizar uma educação das relações étnico-raciais? Neste início, vale esclarecer que o ano de 2011 foi definido como o Ano Internacional dos Afrodescendentes pela Organização das Nações Unidas (ONU), fato amplamente divulgado pela grande mídia no final de 2010. Uma das intenções desse lançamento, segundo o secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, é despertar na comunidade internacional a necessidade de um empenho conjunto para garantir aos afrodescendentes direitos fundamentais como saúde e educação. 8 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Figura 1 Com esse tipo de iniciativa, certamente o interesse pela questão das relações étnico-raciais deverá aumentar consideravelmente, a começar pelos cursos (graduação) de formação de professores, que já estão colocando em prática a Lei Federal nº 11.645, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena. Daí, justifica-se o estudo dessa disciplina durante a formação acadêmica. É possível perceber como questões complexas estão envolvidas nas relações étnico-raciais? Esta será nossa preocupação neste livro-texto: desvendar os porquês da permanência do racismo, suas causas e consequências, bem como as múltiplas implicações na promoção da igualdade racial na escola e na comunidade. Desejamos aos(às) alunos(as) excelentes momentos de estudo e crescimento. 9 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL 1 CONCEITOS INICIAIS: A QUESTÃO DE RAÇA E ETNIA 1.1 Raça Desde o século XVI, o termo raça recebeu inúmeros tratamentos, reforçando preconceitos e discriminações pelo mundo afora. Por isso, é preciso desenvolver esse conceito, a fim de se perceber como essa construção foi lenta, paulatina e extremamente “eficaz” ao longo de nossa trajetória histórica. Esse detalhamento será dado nos próximos tópicos, quando trataremos do racismo científico e do mito da democracia racial no Brasil. Neste momento, nossa primeira abordagem sobre o termo raça deve enfatizar que não se trata de diferenciar biologicamente os seres humanos, uma vez que as vertentes teóricas construídas a partir do século XVI já foram superadas pela perspectiva de que somos uma só raça humana. Nossa constituição genética indica isso. Portanto, vamos deixar claro: não existem “raças humanas”. Corroborando essa afirmação, Flores (2008, p. 24) escreve: As mais recentes pesquisas dos especialistas no assunto, os geneticistas, demonstram que nos genese movimentos em busca da demarcação de terras indígenas, problema que se arrasta há séculos no Brasil. E o artigo 49, inciso XVI, afirma que cabe exclusivamente ao Congresso Nacional autorizar a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais em terras indígenas, o que autoriza o Congresso a definir a construção de usinas hidrelétricas naquelas terras, por exemplo. 66 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Como vemos, as questões indígenas foram mantidas sob o controle do governo federal, o que é uma tentativa de garantir, por meio dos órgãos centrais, uma política específica para essas populações em geral. Mas também gera contradições, à medida que mantém a tutela política, negando maior autonomia aos grupos ou etnias mais organizados. Mesmo assim, essa constituição apresenta grandes avanços no que tange ao campo dos direitos das chamadas “minorias sociais”, como índios, negros, crianças e idosos, entre outros. Ela tem um capítulo inteiro dedicado aos índios, o capítulo VIII, que reconhece os direitos desses grupos e atribui à União o dever de zelar por eles, protegê‑los e fazê‑los respeitar. Outro importante avanço a ser destacado é o fato de que é nessa constituição que a prática de racismo passa a ser considerada crime, de acordo com o seguinte artigo: Art 5º, XLII – A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito a pena de reclusão, nos termos da lei (BRASIL, 1988). Perceba que, segundo o texto, se trata de um crime que não é passível de fiança, ou seja, só pode ser punido por prisão; além disso, não prescreve, quer dizer, pode ser punido mesmo depois de passados muitos anos do ocorrido. Isso, sem dúvida, foi um importante instrumento para a ampliação do alcance das ações até então desenvolvidas pelo movimento negro. A esse respeito, observam De Paula e Heringer (2009, p. 9): A partir dos anos 1990, observou‑se a emergência de novos atores na luta antirracista. Começam a se constituir nas favelas e periferias urbanas brasileiras grupos de jovens ligados a iniciativas de cultura e arte, com um discurso de enfrentamento da violência, afirmação de pertencimento a esses territórios e um indiscutível orgulho racial, marca importante de suas mensagens à sociedade. Para que se compreenda a profundidade dessa citação e a enorme importância que a Constituição teve na luta antirracista, na ampliação do enfrentamento da violência e na afirmação do orgulho racial, leia também a afirmação de Guimarães (2009, p. 61): Apenas para os afro‑brasileiros, para aqueles que chamam a si mesmos de “negros”, o antirracismo deve significar, antes de tudo, a admissão de sua “raça”, isto é, a percepção racializada de si mesmo e do outro. Desse momento em diante, o movimento negro se fortalecia no Brasil, principalmente por sua autovalorização, sua “percepção racializada de si mesmo e do outro”, de suas raízes africanas, suas influências latino‑americanas, sua cultura e religião, sua música e sua arte, sua história e heranças deixadas. A partir disso, a promulgação de outras legislações específicas foi um passo rápido, sobre o qual comenta Silva (s.d.): Após a criminalização de práticas racistas pela Constituição Federal de 1988, foi promulgada a Lei nº 7.716/89, que trata dos crimes resultantes 67 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 de preconceito de raça ou cor. Esta lei foi posteriormente modificada em alguns artigos contidos na Lei nº 9.459/97. A injúria qualificada também foi tipificada, especificamente no art. 140, § 3º do Código Penal brasileiro. Devemos salientar que o Brasil foi o primeiro país em todo o continente americano a regular práticas racistas através de legislação específica. O que esse autor confirma é que, de fato, somos um país com leis avançadas em relação a nossos vizinhos latino‑americanos. Além dessas mudanças no Código Penal de 1940, tínhamos agora uma legislação específica qualificando e punindo a prática de racismo. Vejamos, segundo Guimarães (2004, p. 19), quais são os significados de racismo cobertos pela legislação brasileira atual: (a) o preconceito racial, expresso verbalmente através de ofensas pessoais; (b) a discriminação racial, ou seja, o tratamento desigual de pessoas, nos mais diversos âmbitos da vida social, baseado na ideia de raça, restringindo o seu amplo e líquido direito constitucional e legal à isonomia de tratamento; (c) a expressão doutrinária do racismo ou a incitação pública do preconceito. Um aspecto fica claro e ainda incomoda nessa citação: toda forma de racismo manifesto publicamente merece, nos termos da lei, a devida punição; entretanto, as ações de racismo praticadas no âmbito privado não podem ser enquadradas na lei vigente. Isso nos leva mais uma vez à reflexão acerca da necessidade de ações educativas na transformação das relações étnico‑raciais no Brasil. Observação Você já presenciou algum episódio de demonstração de racismo? Como se deu a situação, em local público ou privado? Você acha que seria possível registrar formalmente tal episódio? De que maneira? O que seria preciso fazer ou providenciar? Percebeu como é longo o caminho entre a lei, os fatos da realidade e o cumprimento da lei? 5.2 Estatutos específicos O Brasil tem, entre suas legislações, uma série de estatutos específicos que visam proteger grupos de minorias, bem como promover sua inclusão social e a garantia de acesso a direitos fundamentais. Segundo o Portal Brasil (BRASIL, s. d.), “um estatuto é um regulamento ou código com significado e valor de lei ou de norma”. É o caso, por exemplo, do Estatuto do Idoso, do Estatuto do Índio, do ECA e do Estatuto da Igualdade Racial. Neste tópico, trataremos desses três últimos, que mostram relação com nossa disciplina. 5.2.1 Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/90 Após a promulgação da nova Constituição brasileira, em 1988, esta foi a legislação mais importante para crianças e adolescentes no Brasil, e que trouxe reflexos também sobre as políticas de assistência 68 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II social e educacionais a partir de então. Sobre a questão étnico‑racial, o único artigo que faz alusão à discriminação é: Art. 5º. Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais (BRASIL, 1990). Figura 21 Dessa forma, pela primeira vez, crianças e adolescentes passam a ser tratados como cidadãos de direitos, fruto de um intenso debate internacional em voga nas últimas décadas, conforme indicam as autoras Lima e Veronese (2009, p. 7‑8): Diversos instrumentos internacionais são representativos da luta por melhores condições de vida e proteção aos direitos da população infantojuvenil. É oportuno registrar que, além de dar uma atenção especial aos direitos de crianças e adolescentes, as normativas internacionais também têm em comum a preocupação com a não discriminação fundada na raça, sexo, origem, cor e reconhece os seres humanos como livres e iguais em atenção ao princípio da dignidade da pessoa humana. A respeito dos instrumentos internacionais de que tratam, elas afirmam: [Entre] os instrumentos normativos internacionais destacamos: a Declaração de Genebra de 1924, a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948, a Declaração dos Direitos da Criança de 1959 (ONU) e a Convenção Internacional dos Direitos da Criança 1989 (ONU). Importante pontuar que a Declaração Universal dos 69 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da Organizaçãodas Nações Unidas (ONU) em 1948, é representativa do avanço nos direitos e liberdades individuais do ser humano e no reconhecimento do princípio da dignidade da pessoa humana, reconhecendo que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos independentemente de sua raça ou cor (art. 1º e 2º) (LIMA; VERONESE, 2009, p. 23). Não restam dúvidas de que as ideias desses instrumentos internacionais influenciaram também um sem‑número de debates no Brasil, principalmente entre juristas, educadores, sociólogos e outros profissionais interessados na questão da infância e da adolescência. Podemos afirmar que há estreita relação entre o ECA, aprovado em 1990, e a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que seria aprovada em 1996. Nesse sentido, os debates desencadeados por influência do ECA acabaram norteando as diretrizes adotadas pelas políticas educacionais brasileiras a partir de então, conforme veremos a seguir. 5.2.2 Estatuto da Igualdade Racial, Lei nº 12.288/2010 Em maio de 2003, o Senador Paulo Paim (PT‑RS) apresentou o projeto de lei no Senado que instituía o Estatuto da Igualdade Racial. Desde então, o projeto tramitou na Câmara e no Senado, até ser finalmente aprovado com emendas no dia 20 de julho de 2010, validando, por meio da Lei nº 12.288, o Estatuto da Igualdade Racial. O documento versa sobre os principais direitos garantidos à população afrodescendente no Brasil, bem como busca combater toda forma de discriminação e intolerância étnica. Figura 22 O estatuto, já em seu artigo 1º, faz alusão aos principais focos dessa lei, a saber: (a) combater a discriminação racial ou étnico‑racial; (b) promover a igualdade racial, nos campos político, econômico, social, cultural e outros da vida pública ou privada; (c) combater as assimetrias de gênero e raça, dando condições de inclusão 70 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II às mulheres negras; (d) valorizar a autodefinição de cor ou raça às pessoas que se autodeclararem pretas e pardas, conforme critérios definidos pelo IBGE; (e) abrir caminhos para a implantação de políticas públicas adotadas pelo Estado com o objetivo da promoção da igualdade racial; (f) incentivar as ações afirmativas, adotadas pelo Estado ou pela iniciativa privada, para a promoção da igualdade de oportunidades. Essas definições iniciais se estendem até o artigo 5º, quando o estatuto passa a definir capítulos específicos para cada direito fundamental a ser defendido: saúde, educação, cultura, esporte e lazer, liberdade de consciência e de crença, livre exercício dos cultos religiosos, acesso à terra e à moradia adequada, direito ao trabalho e valorização da herança cultural da população negra na história do país pelos meios de comunicação. Por fim, institui o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), um órgão criado para organizar e articular as estratégias para implantação do “conjunto de políticas e serviços destinados a superar as desigualdades étnicas existentes no país, prestados pelo poder público federal”, segundo seu artigo 47 (BRASIL, 2010), entre eles, a implantação de ouvidorias permanentes em defesa da igualdade racial e o investimento em financiamentos de iniciativas de promoção de igualdade racial. Observação Perceba que, entre os pontos destacados, o mais polêmico está na política de cotas nas universidades públicas, cuja obrigatoriedade foi retirada do texto final da lei. Conforme já havíamos discutido na unidade anterior, há muito debate em torno da questão das cotas raciais, e até mesmo dentro do movimento negro há grupos favoráveis e contrários às cotas para negros nas universidades como parte dos critérios de seleção de candidatos nos vestibulares, talvez razão pela qual esse artigo tenha sido retirado da versão final do documento. Esperamos que o aluno já tenha feito suas análises a respeito e seja capaz de argumentar com propriedade sobre os prós e contras dessa ação afirmativa. 5.2.3 Estatuto do índio Esse documento é conhecido como Lei nº 6.001. Promulgada em 1973, ela dispõe sobre as relações do Estado e da sociedade brasileira com os índios e coloca que estes sendo “relativamente incapazes”, devendo ser tutelados por um órgão indigenista estatal – de 1910 a 1967, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI); atualmente, a Fundação Nacional do Índio (Funai) –, até que fossem integrados à sociedade. Chamamos essa visão de assimilacionista, pois entende que os índios devem ser integrados à sociedade vigente, abrindo mão de sua organização social e cultural, vista como primitiva, e assimilando os valores sociais dos brancos. A Constituição Federal de 1988 rompe com essa visão e, como já apontado anteriormente, reconhece o direito dos índios de manter e preservar sua própria cultura, numa perspectiva mais multiculturalista. Apesar de não tratar de maneira expressa da capacidade civil, a Constituição reconheceu, no seu artigo 232, a capacidade processual ao dizer que “os índios, suas comunidades e organizações, são 71 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 partes legítimas para ingressar em juízo, em defesa dos seus direitos e interesses”. Significa que os índios podem, inclusive, entrar em juízo contra o próprio Estado, o seu suposto tutor. O novo Código Civil retira os índios da condição de “relativamente incapazes” e estipula que sua condição específica será regulamentada em legislação própria, o que ainda não foi realizado. Também o Estatuto do Índio está sendo objeto de reformulação desde a promulgação da Constituição. Está em tramitação no Congresso Nacional um projeto de Estatuto das Sociedades Indígenas, mas que caminha lentamente. No entanto, pelo título do estatuto já é possível reconhecer uma perspectiva mais avançada, na medida em que trata as nações indígenas como “sociedades”, mudando o patamar das relações. Há diversos pontos polêmicos na lei, mas o que se destaca na questão indígena é a posse da terra. Para ter uma breve dimensão do seu significado, veja o que diz o documento do IBGE (2012, p. 16) sobre as características gerais dos indígenas: A posse, o usufruto e o controle efetivo da terra pelos índios têm sido reconhecidos como condição sine qua non para a sobrevivência dos povos indígenas. A ausência ou pouca disponibilidade de terras tem, reconhecidamente, enormes impactos sobre o cotidiano das sociedades indígenas, afetando não somente os padrões de subsistência como também dimensões de caráter simbólico no plano da etnicidade. A garantia do acesso à terra constitui, atualmente, um elemento central da política indigenista do Estado brasileiro. O processo de demarcação é o meio administrativo para explicitar os limites do território tradicionalmente ocupado pelos povos indígenas. Busca‑se, assim, resgatar uma dívida histórica com esse segmento da população brasileira e propiciar as condições fundamentais para as sobrevivências física e cultural dos indígenas. Figura 23 72 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Lembrete Durante o século XX, prevaleceu a perspectiva assimilacionista na relação com os índios. Já a partir da década de 1980, temos o crescimento da visão multiculturalista, que respeita e valoriza a diversidade étnica e racial. Podemos compreender algumas das diferenças e especificidades dos povos indígenas que nós, educadores ou profissionais afins, temos o dever de conhecer e contribuir para garantir o seu direito à diversidade e respeito à manutenção de sua história e de sua cultura. E nesse campo a educação é fundamental, como veremos a seguir. 5.3 Leis e diretrizes educacionais Já fizemos alusão à influência que o ECA teve nos debates educacionais quando foi publicado, em 1990. A questão étnica também passou a ocupar importante espaço na legislação brasileira, como vimos no tópico anterior,chegando à instituição do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, vinte anos mais tarde. Assim, é importante verificar neste tópico sobre a legislação e o antirracismo no Brasil que os processos sociais de conquistas de direitos são lentos, graduais e integrados, isto é, uma demanda social não surge de um momento para o outro, repentinamente; ao contrário, é fruto de um amplo e longo debate entre grupos e movimentos que se unem em defesa de seus interesses. Lembrete Vale também destacar que a igualdade racial não pode ser encarada como uma necessidade apenas do movimento negro, mas de todos os brasileiros que buscam encontrar suas verdadeiras raízes históricas e culturais e querem viver numa sociedade mais justa e igualitária. 5.3.1 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/96 O Brasil tem uma das legislações mais modernas do mundo, no que diz respeito às suas diretrizes para a educação. Em 1996, foi aprovada a Lei nº 9.394, que ficou mais conhecida como nova LDB. Este é, sem dúvida, um documento importantíssimo para a população negra no Brasil, pois fornece pressupostos importantes para a ampliação do debate sobre relações étnico‑raciais e afrodescendência. Veja o que diz o seu artigo 26: O ensino de História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia (BRASIL, 1996). 73 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Figura 24 Aqui, portanto, está o início do debate que “preparou o terreno” para a aprovação da Lei nº 10.639/2003, dando mais um passo para a afirmação, o reconhecimento e a valorização dos negros no quadro da diversidade da cultura brasileira. Observação Após a leitura do trecho dessa lei, qual seria, em sua opinião, o papel dos cidadãos nesse processo de mudança no sistema educacional brasileiro? 5.3.2 Lei nº 10.639/2003 e Lei nº 11.645/2008 No dia 9 de janeiro de 2003, foi sancionada a Lei nº 10.639, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 e inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro‑Brasileira. Apesar de imprescindível e de extremamente relevante, esta é uma lei de enunciado bastante breve, que vem acrescentar à LDB somente os artigos 26‑A, 79‑A e 79‑B, reproduzidos a seguir: Art. 26‑A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna‑se obrigatório o ensino sobre história e cultura afro‑brasileira. § 1º. O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. 74 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II § 2º. Os conteúdos referentes à história e cultura afro‑brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História brasileiras. § 3º. (Vetado) Art. 79‑A. (Vetado) Art. 79‑B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra” (BRASIL, 2003). Em poucas linhas, essa legislação consegue chamar a atenção das autoridades, dos educadores e da sociedade para a importância da inclusão no currículo escolar da perspectiva étnico‑racial, instituindo, inclusive, o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra. Alguns anos depois, em 10 de março de 2008, foi aprovada a Lei nº 11.645, que modifica o texto da Lei nº 10.639/2003 e inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro‑Brasileira e Indígena”, passando a vigorar a seguinte redação: Art. 26‑A. Nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e de Ensino Médio, públicos e privados, torna‑se obrigatório o estudo da história e cultura afro‑brasileira e indígena. § 1º. O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. § 2º. Os conteúdos referentes à história e cultura afro‑brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. Observação Não se esqueça de que esta é a lei que determinou o estudo da disciplina Relações Étnico‑Raciais no Brasil. Uma vez obrigatório o ensino da história e da cultura afro‑brasileira e indígena, faz‑se necessária a formação dos professores para as transformações necessárias às práticas educativas e pedagógicas. Por isso, continue se aprofundando no estudo dessa temática. 75 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Para incentivar e promover a implantação dessa lei no sistema de ensino brasileiro, o Ministério da Educação (MEC) publicou no Diário Oficial da União, no dia 19 de maio de 2004, as “Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico‑raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro‑Brasileira e Africana”. Esse é um documento que, como o próprio nome diz, traz todas as diretrizes para que a Lei nº 10.639/2003 possa ser finalmente colocada em prática. É sobre esse parecer que trataremos a seguir. 5.3.3 Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação das relações étnico‑raciais e para o ensino de história e cultura afro‑brasileira e africana de 2004 – Parecer CNE 003/2004 Esse parecer é um documento que todo educador deveria conhecer na íntegra e estudar seu conteúdo a fundo, pois seu texto é claro e eficaz no estímulo ao reconhecimento da importância de promovermos ações para a igualdade racial. Como não é possível reproduzi‑lo por inteiro, selecionamos dois trechos que nos dão uma ideia bastante clara sobre seus propósitos. O primeiro traz uma apresentação do público ao qual o texto se dirige: Destina‑se o parecer aos administradores dos sistemas de ensino, de mantenedoras de estabelecimentos de ensino, aos estabelecimentos de ensino, seus professores e a todos implicados na elaboração, execução, avaliação de programas de interesse educacional, de planos institucionais, pedagógicos e de ensino. Destina‑se, também, às famílias dos estudantes, a eles próprios e a todos os cidadãos comprometidos com a educação dos brasileiros, para nele buscarem orientações, quando pretenderem dialogar com os sistemas de ensino, escolas e educadores, no que diz respeito às relações étnico‑raciais, ao reconhecimento e valorização da história e cultura dos afro‑brasileiros, à diversidade da nação brasileira, ao igual direito à educação de qualidade, isto é, não apenas direito ao estudo, mas também à formação para a cidadania responsável pela construção de uma sociedade justa e democrática (BRASIL, 2004, p. 2). De acordo com o que temos defendido, essas diretrizes interessam não somente ao poder público ou aos educadores e gestores educacionais, mas a todo cidadão brasileiro que, de alguma forma, esteja interessado em uma educação de qualidade para todos. No segundo trecho, que escolhemos para demonstrar um pouco do conteúdo do parecer, vemos claramente a importância que a Lei nº 10.639/2003 assume no contexto de construção de uma sociedade igualitária e verdadeiramente democrática: O parecerprocura oferecer uma resposta, entre outras, na área da educação, à demanda da população afrodescendente, no sentido de políticas de ações afirmativas, isto é, de políticas de reparações, e de reconhecimento e valorização de sua história, cultura, identidade. Trata, ele, de política curricular, fundada em dimensões históricas, sociais, antropológicas oriundas da realidade brasileira, e busca combater o racismo e as discriminações que atingem particularmente os negros. Nesta perspectiva, propõe a divulgação e produção de conhecimentos, a formação de atitudes, posturas e valores 76 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico‑racial – descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada (BRASIL, 2004). O grande auxílio desse parecer foi, portanto, identificar as contribuições da Lei nº 10.639 para o reconhecimento e a valorização da diversidade étnico‑racial brasileira, passo fundamental para uma sociedade de fato igualitária e livre do racismo. Mas, passados seis anos, podemos afirmar que pouca coisa avançou na direção de colocar em prática o que determina a Lei nº 10.639/2003, ou seja, poucas escolas de fato incluíram em seus currículos a temática da História e Cultura Afro‑Brasileira e Africana. Por isso, mais uma vez, o Ministério da Educação (MEC), junto com a Subsecretaria de Políticas de Ações Afirmativas da Seppir (Subaa), tomou a iniciativa de publicar, em 13 de maio de 2009, o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico‑raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro‑brasileira e Africana. Esse é um documento que detalha cada uma das responsabilidades dos poderes públicos, seja no âmbito federal, estadual ou municipal, além de enfatizar três problemáticas principais em relação à implantação da Lei nº 10.639/2003: a formação dos professores para o trabalho em sala de aula na perspectiva das relações étnico‑raciais; a produção de material didático adequado, que desfaça os estereótipos de raça/ cor/gênero; e a sensibilização de todos os agentes envolvidos nesse processo para um compromisso efetivo com a implantação da igualdade racial na escola e em nosso país. Ainda em complemento a essa lei, foi promulgada em 10 de março de 2008 a Lei nº 11.645, que insere no texto anterior também a matriz indígena, estabelecendo, portanto, que “os conteúdos referentes à história e cultura afro‑brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras”. Saiba mais Sabemos da importância de conhecer nossas leis e diretrizes educacionais, a fim de ampliar nossa compreensão a respeito de nossa prática educativa, bem como de nosso papel no processo de promoção da igualdade racial. Nesse sentido, sugerimos que seja feita uma pesquisa e que se consultem, na íntegra, alguns desses materiais com os quais acabamos de trabalhar. Procure estudar as legislações que você ainda não teve oportunidade em outras disciplinas, isto é, aquelas que tratam especificamente das relações étnico‑raciais, como o Estatuto da Igualdade Racial e a Lei nº 10.639/2003, por exemplo. Consulte os links: 77 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Ministério da Educação e Cultura: Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Disponível em: . ___. Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Estatuto da Igualdade Racial. Disponível em: . ___. Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico‑Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro‑Brasileira e Africana. Brasília, mar. 2004. Disponível em: . 6 AFRICANIDADES BRASILEIRAS E ALGUNS ASPECTOS DA HISTÓRIA AFRICANA DOS NEGROS NO BRASIL Neste tópico, começaremos trabalhando o conceito de africanidades brasileiras, com sua especificidade e paradigma. Em seguida, faremos uma abordagem histórica, fundamental para compreendermos a inserção dos negros africanos no processo de colonização brasileira, as raízes de nossa construção nacional e os fundamentos de nosso racismo velado. Figura 25 Em primeiro lugar, cabe‑nos definir o conceito de africanidades brasileiras. Trata‑se de um processo de valorização e resgate da história e cultura africana e afro‑brasileira, a fim de desfazer os estereótipos raciais construídos pelos grupos dominantes (brancos, homens, proprietários, livres e ricos). Assim, podemos dizer que esse é um paradigma que considera a perspectiva dos negros brasileiros na formação da cultura e da sociedade brasileira. Significa enxergar o mundo através de uma lente, sob a perspectiva dos afrodescendentes, segundo define Silva (2003, p. 26): 78 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II A expressão africanidades brasileiras refere‑se às raízes da cultura brasileira que têm origem africana. Dizendo de outra forma, queremos nos reportar ao modo de ser, de viver, de organizar suas lutas, próprio dos negros brasileiros e, de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia a dia. [...] Então, estudar africanidades brasileiras significa estudar um jeito de ver a vida, o mundo, o trabalho, de conviver e lutar por sua dignidade, próprio dos descendentes de africanos que, ao participar da construção da nação brasileira, vão deixando nos outros grupos étnicos com que convivem suas influências, e, ao mesmo tempo, recebem e incorporam as daqueles. A partir dessas concepções, é mister que façamos essa reconstrução histórica por meio de uma perspectiva diferente daquela que temos utilizado em nossas escolas durante tanto tempo. Uma perspectiva que reconheça a grande participação dos africanos na formação do Brasil, que os apresente não apenas em sua condição de escravizados, mas como personagens participantes da construção histórica, que, com suas culturas, línguas, formas de organização e economia, participaram expressivamente da construção disso que somos atualmente. 6.1 Pegando o fio da história: a África antes de 1500 Aproveitando a expressão “o fio da história”, presente no livro de Cunha Júnior (2010), pretendemos, neste tópico, chamar a atenção para a história da África antes da chegada dos portugueses à América. Isso porque fomos ensinados a pensar a partir de uma série de concepções bastante deturpadas ou incompletas sobre o continente africano e sua população, concepções essas, em geral, propagadas pelo pensamento conservador, responsável em grande medida pela formulação do chamado racismo científico (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 10): Esta indução errônea tem motivos e consequências, e elas despolitizam a população negra, tornam as identidades negras fragilizadas e permitem a realização de uma ampla desqualificação social das populações negras. As ideias permitem a prática da produção de uma hierarquia social, na qual nada produzido pela população negra parece ter importância, tudo que é produzido pela população branca é bom e necessário. É nesse sentido que toda a história da África passou a ser sistematicamente distorcida, esquecida ou menosprezada nos livros de história e assim foi transmitida a nós e aos nossos alunos há tantas gerações. Vamos começar a rever um poucotudo isso, primeiro com um trecho de Salum (2005): Para compreendermos a cultura material das sociedades africanas, a primeira questão que se impõe é a imagem que até hoje perdura da África, como se até sua “descoberta” fosse esse continente perdido na obscuridade 79 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 dos primórdios da civilização, em plena barbárie, numa luta entre homem e natureza. De fato, a história dos povos africanos é a mesma de toda humanidade: a da sobrevivência material, mas também espiritual, intelectual e artística. A impressão que temos com o que estudamos em nossa vida escolar é de que a África, antes do início da exploração portuguesa, era um território “perdido no mapa”, com povos “primitivos”, sem cultura escrita e com tribos selvagens que guerreavam e se escravizavam mutuamente. Atualmente, nosso conhecimento sobre esse continente é tão parco que chegamos a pensar nele como um único país, “a África”. Oliva (2003, p. 423) inicia seu artigo, intitulado “A história da África nos bancos escolares: representações e imprecisões na literatura didática”, fazendo a seguinte pergunta: “O que sabemos sobre a África?”. Repare como sua resposta nos parece infelizmente bastante familiar: Quantos de nós estudamos a África quando transitávamos pelos bancos das escolas? Quantos tiveram a disciplina História da África nos cursos de História? Quantos livros, ou textos, lemos sobre a questão? Tirando as breves incursões pelos programas do National Geographic ou Discovery Channel, ou ainda pelas imagens chocantes de um mundo africano em agonia, da AIDS que se alastra, da fome que esmaga, das etnias que se enfrentam com grande violência ou dos safáris e animais exóticos, o que sabemos sobre a África? Paremos por aqui. Ou melhor, iniciemos tudo aqui. Temos de reconhecer que sabemos nada ou quase nada sobre a África. Feita essa constatação, cabe a nós, educadores, a responsabilidade de sanar tal deficiência em nossa formação e procurar nos apropriar dos conteúdos sobre a história da África e dos negros no Brasil, disponíveis na íntegra para downloads na internet, conforme já indicamos. Neste ponto do livro‑texto, a intenção é apenas sinalizar alguns elementos importantes sobre a história da África, tendo em vista o volume enorme de conteúdos passíveis de serem estudados. Observação Pare um momento e observe no mapa a seguir os países que compõem o continente africano. É possível que você nunca tenha ouvido falar sobre alguns deles. 80 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Figura 26 Segundo a bibliografia indicada ao final do livro‑texto, o desenvolvimento do continente africano foi superior ao do europeu até o século XVI, quando Portugal iniciou um dos maiores genocídios culturais (também chamado de etnocídio) jamais vistos na história da humanidade. Segundo Cunha Junior (2010), as populações africanas já dominavam inúmeras tecnologias quando foram incorporadas à empresa colonial portuguesa no Brasil: a começar pela importação de mão de obra especializada, principalmente nas áreas têxteis, de construção, de materiais como madeira e sabão, fato que influenciaria decisivamente a economia colonial brasileira em relação à África. A compreensão do fio da história africana é necessária para entendimento do desenvolvimento de conhecimentos técnicos, profissionais e científicos nas diversas regiões africanas, que constituíram um capital cultural significativo e fundamental para a colonização do Brasil, sob o domínio português na forma do escravismo criminoso da mão de obra africana. 81 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 O acervo de conhecimentos que possibilitou a empresa de produção colonial portuguesa no Brasil é majoritariamente africano. [...] Devemos também acrescentar que muitas regiões do continente africano foram destruídas pelos europeus durante 400 anos de guerras para imposição da dominação ocidental, política, cultural e econômica. A imposição do comércio europeu de produtos africanos e do comércio de seres humanos, cativos africanos transformados em escravizados nas Américas, foi a que produziu maior devastação no continente africano. Hoje existe uma desigualdade social e econômica entre a África e a Europa em razão de o europeu ter subdesenvolvido o continente africano (CUNHA JUNIOR, 2010, p. 15). O que queremos reafirmar aqui é a riqueza histórica e cultural dos países africanos, a começar pelo Egito, que pode ser considerado uma das civilizações mais desenvolvidas e antigas do mundo. Portanto, a história da África não começa no ano de 1500 e não pode ser resumida ao episódio da escravidão de suas populações durante quatrocentos anos de história do Brasil. Lembrete Nunca é demais incentivá‑lo a prosseguir seus estudos na área de cultura e história da África e dos negros no Brasil. Afinal, esse conteúdo será necessário para colocar em prática o que dita a Lei nº 10.639/2003, em suas aulas, no futuro. Vejamos então, de forma específica, como as populações africanas se inseriram no processo de formação do nosso país. Esse será o assunto do próximo tópico. 6.2 Heranças coloniais africanas e a formação de um país chamado Brasil Primeiro, acompanhe esta breve revisão histórica: sabemos que o Brasil é resultado de um longo processo de exploração colonial promovido por Portugal, com apoio financeiro da burguesia de então, que, apesar de ainda não deter o poder político no século XVI, já era proprietária de boa parte das riquezas disponíveis na época, reservas suficientes para servirem de investimentos às empresas colonizadoras portuguesas rumo às Américas. Assim, é importante ficar claro que já estávamos em pleno capitalismo moderno e que o Brasil nada mais era do que um negócio bastante interessante e promissor, tanto para os monarcas portugueses, que comandavam politicamente a empreitada colonizadora, quanto para os burgueses e homens de negócio da Europa, que patrocinavam tais empreendimentos. Existe uma linha de raciocínio que já faz parte de nosso senso comum, segundo a qual os problemas do Brasil estão diretamente ligados à formação de sua população, uma vez que teriam sido mandados 82 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II para cá os “piores cidadãos” portugueses, indesejados na Europa, quase “deportados” para uma terra onde poderiam “fazer do seu jeito” todas as coisas reprováveis que antes faziam em Portugal. Daí vem também uma das explicações correntes sobre o nosso “jeitinho brasileiro”, no sentido de que as leis não funcionam aqui porque, desde a formação do Brasil, foram trazidos para cá somente ladrões, bandidos, vagabundos, prostitutas e desocupados de todo tipo. Isso não é verdade, e a explicação fundamental está no fato de sermos, naquela época, a empresa mais rentável de Portugal. Observação Pense: alguém mandaria para o comando de sua empresa pessoas desqualificadas, desonestas e incapazes de fazer aquela empresa crescer e ser ainda mais lucrativa? Ou algum empresário, em sã consciência, seria leviano o bastante para entregar um projeto tão ambicioso como a colonização do Brasil a bandidos e vagabundos que levariam tudo a perder? Tínhamos, portanto, aqui, uma base importante para o sustento da monarquia portuguesa, que já enfrentava problemas sérios, tanto políticos quanto econômicos, para se manter nas relações capitalistas europeias daquele momento. É nesse sentido que homens e mulheres passam a ser enviados ao Brasil com a incumbência de fazer esse país‑continente fornecer riquezas suficientes para sustentar os luxos e as extravagâncias da família real e sua aristocracia e, ao mesmo tempo, para pagar os investimentos feitos pela burguesia de então, elite econômicadurante aquele período. Foi com essa mentalidade que os portugueses começaram a explorar de todas as formas o território brasileiro, retirando de nossos solos e florestas todas as matérias‑primas que tivessem algum valor no mercado capitalista europeu. A primeira matéria‑prima a ser transformada em mercadoria valiosa foi o pau‑brasil. Para isso, os portugueses fizeram, nas três primeiras décadas de colonização, uma interessada aliança com povos indígenas. Por estarem em pequeno número, os portugueses podiam ser incorporados às aldeias sem causar grandes problemas ao cotidiano das tribos, sujeitando‑se à vontade dos nativos. Não que tenha havido uma convivência pacífica entre brancos e índios. Ao contrário, como afirma Olivieri (s.d.): O caráter beligerante das sociedades indígenas brasileiras desmente a versão da história segundo a qual os índios se limitaram a assistir à ocupação da terra pelos europeus, sofrendo os efeitos da colonização passivamente. Ao contrário, nos limites das suas possibilidades resistiram à ocupação territorial, lutando bravamente por sua segurança e liberdade. Entretanto, o contato inicial entre índios e brancos não chegou a ser predominantemente conflituoso. Como os europeus estavam em pequeno número, podiam ser incorporados à vida social do índio, sem afetar a unidade e a autonomia das sociedades tribais. 83 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Muito cedo, entretanto, os portugueses perceberam que um dos grandes problemas que teriam em sua missão de exploração brasileira seria a escassez de mão de obra para realizar um trabalho de tão grande monta como o que precisava ser feito por aqui. A esse respeito, Olivieri (s.d.) continua: Posteriormente, quando o processo de colonização promoveu a substituição do extrativismo pela agricultura como principal atividade econômica, o padrão de convivência entre os dois grupos raciais sofreu uma profunda alteração: o índio passou a ser encarado pelo branco como um obstáculo à posse da terra e uma fonte de mão de obra barata. A necessidade de terras e de trabalhadores para a lavoura levou os portugueses a promoverem a expulsão dos índios de seu território, bem como a sua escravização. Assim, a nova sociedade que se erguia no Brasil impunha ao índio uma posição subordinada e dependente. Apesar de serem aproximadamente cinco milhões no século XVI (população reduzida a cerca de 700 mil nos dias de hoje), no início da exploração portuguesa, os índios não foram uma boa fonte de mão de obra escrava, ao contrário do que pretendiam os colonizadores, devido principalmente às guerras que se travaram a partir de 1530 entre brancos e índios e ao extermínio em massa, que praticamente dizimou milhões de indígenas nos primeiros séculos de colonização do Brasil. Além do fato de não ser da cultura indígena o trabalho agrícola em grande produção, sua cultura baseava‑se na caça, na pesca, na extração e em pequenas plantações. Não fazia sentido para os grupos indígenas um sistema de trabalho que visava à acumulação da produção. Uma solução encontrada foi trazer negros africanos, vindos de Angola e do Congo, para trabalharem na agricultura, tendo em vista que aqueles povos já eram grandes produtores agrícolas e dominavam as tecnologias do plantio. Como os portugueses já dominavam a arte das navegações, não foi difícil forçar populações africanas a se transferirem para o Brasil, submetendo‑as a uma das condições de vida e trabalho mais desumanas que a história já assistiu. É interessante que, mais uma vez, o que aprendemos em nossos bancos escolares a respeito das justificativas sobre o tráfico negreiro aponta os índios como seres acostumados à liberdade e que se recusaram ao trabalho escravo; já os negros, por estarem acostumados à escravidão já existente no continente africano, teriam se submetido mais passivamente à condição de objeto, coisa. Novamente, essas são explicações que não fazem qualquer sentido lógico. Assim, comentam Munanga e Gomes (2006, p. 24): Dizer que o colonizador português foi para a África buscar escravos que ele adquiria, comprando‑os pela troca de fumo da Bahia e de outras mercadorias, graças à cumplicidade dos reis e príncipes africanos, não deixa dúvida sobre a crença na existência dos escravos como categoria natural, ou seja, na existência de seres humanos que nasceram escravos na África. A partir dessa crença, podemos já suscitar uma dúvida e fazer uma primeira indagação. Algumas pessoas podem nascer escravas, ou todos nascem livres até que algum sistema os escravize no decorrer de suas vidas? 84 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Lembrete Você se lembra do tópico em que tratamos do racismo científico, que procurou relacionar características naturais às diferentes raças? Você consegue enxergar a correspondência entre aquela teoria do racismo científico e o que estamos abordando aqui? Mais uma vez, podemos verificar como esse processo, cujas raízes são profundas, perdura até os dias de hoje, sendo que tais representações ainda aparecem na maioria dos livros didáticos disponíveis para nossos alunos e professores. 6.3 Diáspora, travessia dos escravizados e o constrangimento de seres humanos à condição de objetos A partir de 1550, começam a chegar ao Brasil os primeiros africanos escravizados. Trata‑se de uma recriação da escravidão antiga, já extinta na história europeia há séculos, agora a serviço de um capitalismo moderno, baseado na exploração colonial, na economia monopolista mercantil e no trabalho não assalariado dos escravizados. Durante mais de três séculos, estima‑se que tenham sido trazidos para o Brasil cerca de 3,6 milhões de pessoas, provocando uma verdadeira diáspora entre os povoados africanos. Segundo Schwarcz (2001, p. 38‑39): No Brasil, país de larga convivência com a escravidão, o cativeiro vigorou durante mais de três séculos, e sabe‑se que a diáspora foi de tal vulto que um terço da população africana deixou, compulsoriamente, seu continente de origem rumo às Américas. Um deslocamento dessa monta acabou alterando cores, costumes e a própria estrutura da sociedade local. A escravidão, em primeiro lugar, como regime que supõe a posse de um homem por outro, legitimou com sua vigência a hierarquia social, naturalizou o arbítrio e inibiu toda discussão sobre cidadania. A intenção aqui não é apenas recontar nosso passado, mas mostrar outras explicações para o nosso presente, ainda autoritário, hierarquizado e com tantas dificuldades para a efetivação da cidadania plena de sua população. Nota‑se que, numa sociedade que viveu tantos séculos de escravidão, a ideia de servidão e senhorio acabou se naturalizando em nossa mentalidade, como se fossem relações “normais”, aceitas socialmente, reforçando a ideia sugerida por DaMatta (1987, p. 76) sobre a formação do Brasil, segundo a qual “cada coisa tem um lugar e cada lugar tem uma coisa”. O que isso significa? Numa palavra, a ausência de valores igualitários. Num meio social como o nosso, onde “cada coisa tem um lugar demarcado e, como corolário, – cada lugar tem sua coisa”, índios e negros têm uma posição demarcada num sistema de relações sociais concretas, sistema que é orientado de modo vertical: para cima e para baixo, nunca para os lados. 85 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Fazendo uma pesquisa no site Domínio Público, encontram‑se algumas fotografias de famílias da elite do século XIX registrando alguns de seus “escravos”. É possível perceber nessas imagens esse lugar “naturalizado” do negro como escravizado, conforme se observa nas fotos a seguir: uma mulher negra somente identificada como “ama de leite Mônica”, ao lado do menino de nome composto, “Artur Gomes Leal”; e um homem negro, denominado simplesmente de “escravoBelisário”. Figura 27 Figura 28 86 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Lembrete Percebeu onde está a raiz da nossa sociedade extremamente hierarquizada? Justamente nessa estratégia de transformar seres humanos em simples objetos, coisas a serem usadas, exploradas e depois descartadas. Você já deve ter ouvido falar destas questões: das tristes condições dos navios negreiros; das situações deploráveis às quais africanos eram submetidos, já em terras brasileiras, para se alimentar, dormir, trabalhar e viver; e aos castigos e suplícios que sofriam por qualquer motivo que fosse ou até sem motivo algum. Evidentemente, tanto sofrimento é capaz de acabar com qualquer resquício de humanidade e dignidade que possa restar em um ser humano. Entretanto, outra forma de transformar seres humanos em coisas é apagar definitivamente toda sua herança cultural e histórica, o bem mais precioso que temos em nossa construção como pessoa, como afirma Schwarcz (2001, p. 39): Desterrados de seu continente, separados de seus laços de relação pessoal, ignorantes da língua e dos costumes, os recém‑chegados se transformavam em boçais (na época, boçal queria dizer “aquele que não conhece a língua” e era o termo oposto a ladino, que se referia aos cativos já ambientados ou nascidos no país). Entendido como propriedade, uma peça ou coisa, o escravo perdia sua origem e sua personalidade. Servus non habent personam: “o escravo não tem pessoa”, é um sujeito sem corpo, sem antepassados, nomes ou bens próprios. É nesse sentido que toda a história da África foi sendo apagada da vida dos negros, agora escravizados no Brasil e, futuramente, dos livros, que passaram a contar a história apenas sob a perspectiva do branco colonizador. E é nesse sentido que a instituição de uma lei que obrigue as escolas a inserir em seus currículos a temática da História e Cultura Afro‑Brasileira e Africana, como a Lei nº 10.639/2003, torna‑se um fator de tanta relevância para a promoção da igualdade racial em nosso país, ainda tão marcado pelas desigualdades e relações hierarquizadas entre as diferentes raças/etnias. Conforme já foi dito há pouco, foram quase 4 milhões de negros africanos trazidos ao Brasil e escravizados por mais de três séculos. Com base nesses dois dados, não se pode negar as muitas influências que a cultura brasileira, em formação, recebeu como herança africana. Observação Há uma variedade de livros sobre a história dos negros do Brasil que podem nos demonstrar com detalhes quais foram esses aspectos da cultura e história africanas que ajudaram na formação do país. Alguns já foram citados neste livro‑texto e estão disponíveis na íntegra para consulta na internet. 87 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Figura 29 Para o momento, basta destacarmos três aspectos da forte presença africana na formação do Brasil, segundo Munanga e Gomes (2006): no campo econômico, os negros serviram como força de trabalho não remunerado, ajudando a construir as riquezas que deram sustentação econômica à empresa colonial portuguesa; no campo demográfico, sem dúvida, esse elevado número de africanos agora fazia parte da população brasileira, colaborando no trabalho de povoamento desse novo país; e, no campo cultural, podemos destacar a influência linguística, por meio de inúmeras palavras africanas incorporadas à língua portuguesa falada no Brasil, as religiões de matriz africana, entre as quais o candomblé e a umbanda, que atualmente compõem o campo religioso brasileiro, além das inúmeras heranças deixadas no campo das artes, por meio de instrumentos musicais, ritmos, danças, entre tantos outros elementos que ajudaram a construir parte da identidade cultural brasileira. A esse respeito, afirma Narloch (2009, p. 71): Esses fenômenos certificam uma boa metáfora que Joaquim Nabuco usa no livro O Abolicionismo, clássico do movimento brasileiro pelo fim da escravidão. Nabuco dizia que o tráfico negreiro provocou uma união das fronteiras brasileiras e africanas, como se a África tivesse aumentado seu território alguns milhares de quilômetros. “Lançou‑se, por assim dizer, uma ponte entre a África e o Brasil, pela qual passaram milhões de africanos, e estendeu‑se o habitat da raça negra das margens do Congo e do Zambeze às do São Francisco e do Paraíba do Sul.” É preciso que se lembre, entretanto, que, durante toda a história do Brasil, essa união de fronteiras foi relegada ao descaso e tudo o que se associasse ao povo africano era considerado ruim, inferior e até demoníaco. É recente o movimento de valorização e resgate da cultura e da 88 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II história dos negros africanos e afro‑brasileiros como parte de um projeto de igualdade racial para o Brasil, conforme é possível perceber por meio das legislações antirracistas vigentes atualmente no país e expostas anteriormente. 6.4 Resistência negra e movimento abolicionista: antes e depois da Lei Áurea Uma primeira pergunta que trazemos do livro de Olivier Pétré‑Grenouilleau, A história da escravidão, é a seguinte: “Os escravos contribuíram para a sua libertação?”. A resposta do autor é bastante direta: “Sem dúvida nenhuma. [...] Sabemos atualmente que, sempre e por toda parte, os escravos tentaram resistir” (PÉTRÉ‑GRENOUILLEAU, 2009, p. 130). Alguns historiadores, entretanto, fazem uma distinção entre dois tipos de resistência: a passiva, cujas ações não utilizam violência direta, como recusa a trabalhar, trabalhos malfeitos, fugas e faltas; e a ativa, que remete a movimentos mais coletivos e violentos, seja com a organização dos quilombos, seja por meio das insurreições, guerrilhas, entres outros movimentos realizados durante todo o regime escravista no Brasil. Já para Pétré‑Grenouilleau (2009, p. 135), essa distinção não parece pertinente: Violenta ou não, individual ou coletiva, qualquer forma deliberada de resistência por parte de um escravo é digna de ser reconhecida. Ela revela, na verdade, a capacidade do escravo de escapar do tacão ideológico que o “senhor” tenta lhe impor. Dizer que algumas formas de resistência são passivas e outras são ativas leva forçosamente à desvalorização das passivas. É nesse sentido que queremos enfatizar o caráter extremamente conflituoso da relação escravizador/ escravizado. Durante toda a história da escravidão no Brasil, os negros se colocaram de maneiras diversas na luta contra sua condição desumana de escravo e, portanto, de objeto. Segundo Munanga e Gomes (2006, p. 98): Podemos dizer que a escravidão sempre foi acompanhada de um forte movimento de resistência e várias revoltas tiveram a presença negra como personagem central, na luta pelo fim deste regime desumano e cruel. Exemplos dessas ações e reações foram a Revolta dos Alfaiates (Bahia, 1798), a Cabanagem (Pará, 1835‑1840), a Sabinada (Bahia, 1837‑1838) e a Balaiada (Maranhão, 1838‑1841), conhecidas como revoltas urbanas. Além das revoltas, a organização dos quilombos também contribuiu como força de resistência negra durante esse período. Já trabalhamos um pouco sobre temas relativos ao que eram os quilombos naquele contexto de escravidão e resistência. Vamos acrescentar o seguinte, de acordo com a visão de Moura (1992, p. 24‑25): O quilombo foi, incontestavelmente, a unidade básica de resistência do escravo. Pequeno ou grande, estável ou de vida precária, em qualquer região onde existia a escravidão, lá se encontrava ele como elemento de 89 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 desgaste do regime servil. O fenômeno não era atomizado, circunscrito a determinada área geográfica [...]. Muitas vezes surpreende pela capacidade de organização, pela resistência que oferece; [...] Nelese incluem não apenas negros fugitivos, mas também índios perseguidos, mulatos, pessoas perseguidas pela polícia em geral, devedores do fisco, brancos pobres, mulheres sem profissão ou prostitutas. Era um cadinho de perseguidos pelo sistema colonial. Foram centenas de quilombos espalhados por todos os estados e regiões do país, que tiveram duração mais curta ou continuam ativos até os dias de hoje. Conforme já havíamos citado, Munanga e Gomes (2006, p. 71) afirmam: “na África, a palavra quilombo refere‑se a uma associação de homens, abertas a todos. [...] Sendo assim, os quilombos brasileiros podem ser considerados uma inspiração africana”. Seu principal objetivo era a implantação de uma nova forma de vida e organização social, diferente daquelas próprias da estrutura política colonial e escravista. É nesse sentido que fariam parte dos quilombos todas as pessoas consideradas oprimidas pelo sistema colonial e imperial reinantes na época. Mas todo esse movimento de resistência negra pouco se relaciona ao movimento abolicionista, organizado a partir do século XIX, em prol da abolição oficial da escravidão no Brasil. Isso porque o abolicionismo foi um movimento considerado conservador pelos historiadores, sendo organizado pela classe política da ocasião, que procurou trazer pouco ou nenhum prejuízo aos senhores de escravo nesse processo de “libertação”. A preocupação da elite da época era que a abolição se desse de forma pacífica, sem sustos nem revoluções. Daí as três grandes leis abolicionistas – Ventre Livre (1871), Sexagenários (1885) e Áurea (1888) – terem oferecido muito mais benefícios aos próprios senhores do que uma nova condição à população negra. Não houve qualquer planejamento do poder público no sentido de incorporar a mão de obra negra recém‑liberta ao novo mercado de trabalho nacional naquele momento, tampouco se pensou em qualquer forma de indenização aos escravos pelos anos (e séculos) de exploração sem qualquer tipo de remuneração. Ao contrário, as leis abolicionistas garantiam aos senhores, donos dos escravos, altas indenizações quando da libertação de cada um de seus trabalhadores. Sobre isso, comenta Schwarcz (2001, p. 46): O resultado imediato dessa versão organizada e pretensamente cordata de nossa libertação dos escravos foi jogar uma imensa população, despreparada e pouco instruída, num processo de competição desigual, sobretudo com a mão de obra imigrante que afluía ao país desde os anos de 1870. De toda maneira, atrasada ou não, o certo é que a abolição era “vendida” como um presente e, enquanto tal, uma dádiva não negociada. O problema foi que se dissimulou um processo de confronto, para se investir numa imagem de superação lenta, ordenada, gradual e controlada pelo Estado. 90 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Observação Vale destacar que essa foi uma das bases para a sustentação do mito da democracia racial no Brasil, como se o processo abolicionista tivesse sido capaz de acabar com todos os conflitos anteriores existentes entre senhores e escravos e, a partir da abolição, o país tivesse passado a experimentar o estabelecimento de uma relação cordial e amistosa entre esses segmentos. Aliás, o que a ideologia construída a partir de então procurou fortalecer foi o fato de que todos agora seriam pertencentes a um mesmo grupo, a uma mesma classe (à de homens e mulheres livres), com as mesmas condições de competição e inserção no mercado de trabalho em relação aos recém‑chegados imigrantes brancos. Sobre isso, aliás, vamos precisar nos aprofundar um pouco, principalmente sobre essas novas relações e suas principais consequências. O fato é que o processo de abolição da escravidão teve, no Brasil, características muito singulares. Primeiro, como já mencionamos antes, porque não preparou nenhuma condição para que os negros recém‑libertos obtivessem igualdade de direitos e oportunidades no mercado de trabalho. Ao contrário, milhares de imigrantes brancos foram trazidos a partir principalmente do início do século XX, a fim de promover o chamado projeto nacional de branqueamento. Na citação de Moura (1992, p. 57), esse momento histórico fica bastante claro: A crise do sistema escravista [...] irá culminar com a Guerra do Paraguai, na qual os negros serão envolvidos na sua grande maioria compulsoriamente, nela morrendo cerca de 90.000. [...] Essa grande sucção de mão de obra negra, provocada pela Guerra do Paraguai, abriu espaços ainda maiores para que o imigrante fosse aproveitado como trabalhador. Essa tática de enviar negros à guerra serviu, de um lado, para branquear a população brasileira e, de outro, para justificar a política imigrantista que era patrocinada por parcelas significativas do capitalismo nativo e pelo governo de D. Pedro II. Em segundo lugar, tal situação trouxe como consequência a marginalização social das populações negras, uma vez que, sem possibilidade de trabalho remunerado, elas acabaram se instalando nas periferias das cidades, nas regiões mais pobres do Brasil, dados que ainda são confirmados pelos levantamentos estatísticos atuais, conforme pudemos comprovar no tópico sobre as condições de vida dos afrodescendentes na atualidade. Um último aspecto que queremos destacar sobre o ideal de branqueamento é que, por meio desse processo, se desenvolveram as chamadas “ideologias raciais do negro e mulato e do branco”, segundo argumenta Ianni (2004, p. 322‑323): 91 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 A ideologia racial do branco atua no sentido de promover ou facilitar o ajustamento e o predomínio dos brancos às situações sociais em que se apresentam também negros e mulatos [...]. A ideologia do branco só é inteligível como componente de uma consciência social de dominação em que o próprio branco se representa superior aos outros, isto é, com direito de dispor dos outros. As avaliações estereotipadas sobre o negro e o mulato, com base em supostos atributos morais ou intelectuais inferiores – em comparação com o branco – refletem aspectos de uma consciência de dominação, que concebe de modo abstrato e absurdo as relações entre as pessoas. [...] A ideologia racial do negro, por seu lado, fundada numa relação de inferioridade em face do branco, que detém presumivelmente o poder, exprime uma consciência de submissão. Nela o negro se imagina, em especial, a partir dos termos em que é concebido pelo branco. Nesse sentido, a alienação do negro é mais acentuada, pois que ele se vê a partir das abstrações falsas engendradas na mente do branco. Essa citação é elucidativa no sentido de percebermos o alcance que tiveram as políticas de branqueamento no Brasil. O professor Octavio Ianni realizou suas pesquisas no período de 1955 a 1984 e conseguiu mostrar que o preconceito continuava arraigado na sociedade brasileira, com entrevistas que trazem algumas das abstrações sobre os estereótipos construídos por brancos, negros e mulatos a respeito das diferenças de cor e de raça. Suas pesquisas são minuciosas e conseguem demonstrar com clareza como essas abstrações foram sendo formuladas, sustentando até os dias de hoje tais estereótipos. Exemplo de aplicação Sugerimos a seguir uma relação de filmes para que você possa aprofundar seu olhar sobre as relações étnico‑raciais. Após assistir cada filme, você pode desenvolver atividades como: debater os conteúdos com seus colegas em grupos de discussão; escrever resenhas críticas; criar fóruns de discussão na internet; preparar planos de aulas e atividades para serem desenvolvidas futuramente com seus alunos etc. O importante é exercitar e estimular o olhar para a questão étnica e transformar a prática educativa. ALÉM da lousa: culturas juvenis, presente! Dir. Denise Martha. Brasil: 2000. 14 minutos. ENCONTRANDO Forrester. Dir. Gus Van Sant. EUA: Sean Connery; Laurence Mark, 2000.KIRIKU e a feiticeira. Dir. Michel Ocelot. França/Bélgica/Luxemburgo: Les Amateurs/Odec Kid Cartoons, 1998. 74 minutos. LIXO Extraordinário. Dir. Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley. Brasil/Reino Unido: Angus Aynsley; Hank Levine, 2010. 99 minutos. MARCHA Zumbi dos Palmares contra o racismo, pela cidadania e a vida (1695‑1995). Dir. Edna Cristina. Brasil: 1995. 115 minutos. 92 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II O FIO da memória. Dir. Eduardo Coutinho. Brasil: Cinefilmes, Funarte,1991. 115 minutos. O RAP do pequeno príncipe contra as almas sebosas. Direção: Paulo Caldas e Marcelo Luna. Brasil: Luis Vidal, 2000. 75 minutos. OLHOS Azuis. Dir. Bertram Verhaag e Jane Elliott. EUA: Denkmal Filmgesellschaft, 1996. 90 minutos. QUANDO crioulo dança? Dir. Dilma Lóes. Brasil: Ministério da Educação e do Desporto – Secretaria de Educação Fundamental, 1989. 28 minutos. SEGREDOS e mentiras. Dir. Mike Leigh. Grã‑Bretanha: Simon Channing Williams, 1996. 142 minutos. VISTA a minha pele. Dir. Joel Zito Araújo. Brasil: Centro de Estudos e Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), 2004. 15 minutos. A seguir, começaremos nossa abordagem retomando a questão dos estereótipos raciais, passando à análise de imagens e representações do negro na literatura e na mídia, trazendo a discussão para o campo da educação, a fim de pensarmos estratégias para uma educação que promova a igualdade racial. 7 IDENTIDADE, INTERAÇÃO E DIVERSIDADE: POR UMA EDUCAÇÃO CIDADÃ Após um tópico no qual procuramos, em traços muito gerais, recontar um pouco da história a partir da perspectiva dos africanos, indígenas e seus descendentes, esperamos ter esclarecido quantas dificuldades essas populações enfrentaram e ainda enfrentam para romper com sua condição de desigualdade e subordinação em relação à hierarquia social estabelecida, que valoriza e empodera as pessoas com características de fenótipo branco. Os estereótipos que justificam essa situação socialmente hegemônica pelos brancos foram sendo lentamente construídos com base em uma ideologia que procurava reforçar a ideia de que o país precisava passar necessariamente pelo processo de branqueamento, a fim de se igualar ao modelo liberal europeu, que pregava as máximas da Revolução Francesa: “liberdade, igualdade, fraternidade”. Nesse sentido, era preciso “apagar” tudo o que remetia ao “nosso passado negro”, já que os índios estavam em franco processo de extermínio. Segundo nos conta Schwarcz (2001, p. 48‑49): Em 14 de dezembro de 1890, Rui Barbosa (então ministro das Finanças) ordenou que todos os registros nacionais fossem apagados, em meio a um duplo ato falho: afinal, o ministro teria dito que pretendia apagar “nosso passado negro”. Se a empreitada não teve sucesso absoluto, o certo é que procurava dissimular um determinado passado e que o presente significava um começo a partir do zero. [...] [Assim,] Quanto mais branco, melhor; quanto mais claro, superior. Aí está uma máxima difundida que vê no branco não só uma cor, mas também uma qualidade social. Conforme o conflito passa para o terreno subentendido, fica cada vez mais complicado desvendar 93 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 o problema. Ao contrário, ele se esconde nas brechas do cotidiano, cuja decodificação é, no mínimo, passível de dúvidas. Está posto, portanto, o mito da democracia racial, fazendo com que o nosso racismo se torne cada vez mais escamoteado, escondido, escorregadio nas relações sociais e étnico‑raciais no Brasil, isto é, uma ideologia cada vez mais difícil de se detectar, desvendar e decodificar, segundo afirma Schwarcz. Como já vimos nos itens anteriores, o racismo e o mito da democracia racial se configuram ideologias e como tal estão presentes nos mais diferentes espaços e formas de expressão. São incontáveis as pesquisas realizadas pela comunidade acadêmica sobre o tema das imagens e representações do negro nos diversos âmbitos da vida social, estudados em seu uso para justificar a hegemonia social dos brancos. Assim, vamos fornecer um rápido panorama dessa produção, visando apenas abrir algumas janelas para que cada aluno desenvolva suas próprias pesquisas no futuro. Importa destacar, inicialmente, que os resultados do processo de construção da ideologia do branqueamento continuam a marcar as imagens e representações feitas sobre negros e índios, seja na mídia, na literatura ou no ambiente escolar. Comecemos analisando mais de perto como a literatura apresenta essa questão. Há um estudo, realizado por Lúcia Barbosa (2004), que analisa a imagem do negro presente nas personagens de algumas obras da literatura brasileira. Apenas para tomarmos um exemplo, a autora, ao estudar os textos de Monteiro Lobato, conclui que seus livros trazem uma visão extremamente preconceituosa sobre o negro, apesar de terem sido escritos após a abolição da escravidão. Essa é uma crítica corrente entre os estudiosos e militantes do movimento negro, que veem nos textos de Monteiro Lobato a reprodução dos estereótipos do negro como submisso e subserviente, visto que, “embora liberto, não poderia sobreviver sem a tutela do senhor, pois era hereditariamente predisposto ao trabalho servil e desprovido de qualquer autonomia enquanto pessoa” (BARBOSA, 2004, p. 56); além disso, em suas descrições físicas de negros, os traços africanos se comparam muito aos de animais, fato que, inclusive, foi objeto de fortes críticas a um de seus livros escolhido pelo MEC para ser distribuído aos alunos da rede pública. O parecer foi dado no final de 2010 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) a respeito do livro Caçadas de Pedrinho, proibindo sua distribuição nas escolas públicas do país. Nesse sentido, as conclusões daquela autora nos trazem elementos interessantes para essa análise: Não nos surpreende, portanto, a per manência dos estereótipos citados em nossos dias, a literatura encarregou‑se de agregá‑los à figura do negro. Talvez por isso considera mos naturais algumas atitudes, piadas e ditos populares de cunho preconceituosos. Derivam dessas ideias cristalizadas, no âmbito da nossa sociedade, os “pretos de alma branca” e muitos outros que se perpetuaram e criaram raiz em nossa sociedade historicamente racista. Como vimos, a literatura, respeitadas as exceções, implantou, difundiu e materializou pedagogicamente fortes mecanismos de exclusão social, na tentativa de escamotear as nuanças (BARBOSA, 2004, p. 57). 94 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Assim, se a literatura clássica brasileira ajudou a manter intactos os estereótipos de cunho racista, com a mídia atual não é diferente. Observando os papéis interpretados por negros, percebe‑se uma reprodução dos papéis tradicionais de subserviência e servidão: eles ocupam posições subalternas, próprias daqueles que estão numa escala inferior da hierarquia social. Araújo destaca ainda que tais representações acabam sendo internalizadas pelos próprios negros, num processo bem‑sucedido de “aceitação passiva”: No entanto, o inconsciente racial coletivo brasileiro não acusa nenhum incômodo em ver tal representação da maioria do seu próprio povo e provavelmente de si mesmo, na televisão ou no cinema. A internalização da ideologia do branqueamento provoca uma “naturalidade” na produção e recepção dessas imagens e uma aceitação passiva e concordância de que esses atores realmente não merecem fazer parte da representação do padrão ideal de beleza do país (ARAÚJO, 2008, p. 984). Um autor que explicou muito bem como se dão esses processos foi Helio Santos (2001). Em seu livro A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso, ele defende a ideia de que o racismo no Brasil ocorre segundo uma metáfora, a da “centopeia de duas cabeças”. Imagine a pequena lacraia que, em vezde ter a cabeça de um lado e rabo de outro, teria então duas cabeças, sendo uma a do branco, e outra a do negro. Vamos explicar melhor o raciocínio com as palavras do próprio autor: A centopeia é um bicho conhecido também pelo nome de lacraia e costuma ser inofensivo. A inovação que a nossa teoria traz à anatomia desse bichinho é incluir outra cabeça, onde deveria estar seu rabo. Com duas cabeças, imaginamos que ela possa mover‑se em sentidos opostos. Usamos essa alegoria para poder explicar o que se dá no campo racial em nosso país. Em um sentido, a sociedade, fortalecida pelos meios de comunicação, destila seu racismo e constrói os seus preconceitos contra os negros e seus valores. Os valores do negro são a sua cultura. Em um sentido contrário, temos o próprio negro‑descendente vindo e assumindo (em sua cabeça), como se fosse verdade, aquelas ideias armadas contra si (SANTOS, 2001, p. 148‑149). Se nos lembrarmos daquilo que já examinamos nas unidades anteriores, de que os negros correspondem a mais de 50% da população brasileira atualmente, não é difícil compreendermos que, como integrante da sociedade civil, mesmo não fazendo parte da sociedade dominante, os negro‑descendentes também colaboram na visão corrente em nossa sociedade, ao mesmo tempo em que passam a introjetar contra si aspectos desfavoráveis. Hélio Santos tem certeza em afirmar que se trata de uma “monumental contradição” (2001, p. 149) e, por isso, um processo não tão simples de ser compreendido, como já deve ter sido percebido. Em primeiro lugar, a sociedade que discrimina a população de ascendência negra se supõe branco‑europeia. Contudo, não o é. Em segundo lugar, essa sociedade discriminadora é marcadamente negra em termos culturais. Vive, 95 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 consome e tem internalizados em sua cultura valores negros. Estranho, não? Flagramos agora uma ironia peculiar da terra brasilis: aqui, os brancos (ou supostos), quando agridem os negros, ofendem a si mesmos. Isso porque eles também são meio negros/meio brancos, curtindo e vivenciando a cultura negra (SANTOS, 2001, p.149). Lembrete Esperamos que, neste ponto da leitura, você já tenha conseguido fazer conexões entre o que esse autor está nos dizendo e tantos outros aspectos de igual importância já tratados anteriormente neste livro‑texto, como o mito da democracia racial, o racismo à brasileira e nossas heranças do passado colonial português. Como sugestão, faça uma retrospectiva dos conteúdos e tire suas primeiras conclusões. Baseados nessas concepções, podemos dizer que somos historicamente mestiços. Para compreender essa ideia, basta pensarmos: onde poderíamos verdadeiramente encontrar um “branco‑europeu‑puro”? Se a própria história de conquistas e revoluções ocorridas nos últimos milênios na Europa é fruto de intensa miscigenação (talvez possamos até dizer que o povo mais mestiço da terra seja o próprio europeu), é possível acreditar que essa verdade histórica da miscigenação europeia tenha sido apagada de maneira tão eficaz e definitiva? E mais grave ainda, que nós (em especial, os brasileiros brancos) tenhamos uma percepção absolutamente imaginária (e ilusória) de que somos, de alguma forma, descendentes de uma “linhagem europeia pura”? Trata‑se de um engano tão cristalizado e enraizado em nossa “cultura de povo colonizado” que já tomou ares de verdade. É preciso atentar, de uma vez por todas, para o fato de que não podemos separar os seres humanos em brancos, negros, amarelos etc. Historicamente (e geneticamente) somos o resultado da infinita mistura de uma única raça, a raça humana. Portanto, como já afirmamos outras vezes ao longo deste livro‑texto, as diferenças são construídas social e politicamente, ou seja, são fruto do processo identitário. Assim, se construímos para nós uma cultura hierarquizada e dividida imaginariamente entre brancos, negros e índios, estamos marchando contra nós mesmos, visto que somos, todos, um pouco branco, um pouco negro, um pouco índio e assim por diante. Esse é o sentido da centopeia de duas cabeças da qual falava Helio Santos. É como se todas as cabeças pensassem num único sentido: contra nós mesmos. A teoria de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, oferece‑nos outra forma de compreender a configuração desse racismo à brasileira, por meio do que ele denominou violência simbólica. Bourdieu entende os mecanismos sutis de dominação social utilizados por indivíduos, grupos ou instituições e impostos sobre outros. Nesse sentido, por meio da violência simbólica, a construção da identidade brasileira enraíza‑se na interiorização por todos os brasileiros (todos mestiços, afinal), de normas enunciadas pelos discursos dos estrangeiros que nos colonizaram (tipificado pelo “branco‑homem‑eu ropeu‑capitalista”). Explicando melhor, seria assumir o universo simbólico de outro sem perceber que 96 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II essa “transferência” é feita na forma de uma dominação no plano simbólico. Para o autor, na escola também se realiza a violência simbólica, quando esta passa a tratar como iguais indivíduos que são desiguais, isto é, procura encobrir as diferenças de raça, cor, classe, origem etc., dando a todos os alunos um único tratamento, favorecendo, assim, aqueles que já estão na condição de favorecidos (apud CHARTIER, 1995, p. 40). A ênfase deve, assim, ser colocada sobre os dispositivos que asseguram a eficácia desta violência simbólica que, como escreveu Pierre Bourdieu (1989), “só triunfa se aquele(a) que a sofre contribui para a sua eficácia; ela só o submete na medida em que ele(ela) é predisposto por um aprendizado anterior a reconhecê‑la”. Dessa forma, podemos afirmar que os estereótipos a respeito do negro na escola também são alimentados por atitudes cotidianas, independentemente de as pessoas serem brancas ou negras. O que Bourdieu advoga é que a interiorização desses discursos dominantes é um longo processo de aprendizado, que, uma vez absorvido pelos grupos desfavorecidos (como no caso de todos nós brasileiros), exerce a eficácia dessa violência simbólica, ou seja, é capaz de manter “cada coisa em seu lugar e cada lugar com sua coisa”, segundo já estudamos com DaMatta (1987). Por que isso acontece? O caso é que uma criança negra, por exemplo, que assiste a essas cenas cotidianamente, percebe e interioriza a mensagem transmitida pelas atitudes da professora: “não estou sendo elogiada porque não sou tão bonita, não tenho um corte de cabelo tão bonito, não estou tão bem vestida, não sou tão inteligente...”, isto é, esses estereótipos vão sendo assimilados como verdades pela criança, que é vítima dessa violência simbólica ao ponto de, quando crescer um pouco, querer alisar seus cabelos e pintá‑los de loiro, por exemplo, reproduzindo então os discursos construídos anteriormente a partir de um referencial branco. A esse respeito, comenta Menezes (apud MIRANDA, 2010, p. 15): A criança negra poderá incorporar esse discurso e sentir‑se marginalizada, desvalorizada e excluída, sendo levada a falso entendimento de que não é merecedora de respeito ou dignidade, julgando‑se sem direitos e possibilidades. Esse sentimento está pautado pela mensagem transmitida às crianças de que, para ser humanizado, é preciso corresponder às expectativas do padrão dominante, ou seja, ser branco. Perceba que não é somente a criança negra quem incorpora esse discurso pautado por uma referência branca (e, portanto, não brasileira). Todos nós, em alguma medida, temos muita dificuldade em nos definirmos por nossa cor, afinal, não podemos dizer que somos nem brancos puros, nem negros puros; nem totalmente brancos, nem totalmente negros. Mas já vimos que a realidade e a estrutura social e econômica que ela nos impõe encarrega‑se de deixar muito claro o que significa nos fazermos brancosnão se comprovam as teorias das raças humanas. A genética, com vigor para se tornar a principal ciência do século 21, tem afirmado que não há motivos para acreditar que a espécie à qual pertencemos, Homo sapiens, possa ser dividida em grupos biológicos distintos e separados. A diversidade biológica é, incomparavelmente, pequena quando analisada com as experiências e as situações ambientais e culturais. Por isso, quando afirmamos que as raças não existem, queremos chamar a atenção para o fato de que somos todos parentes e também somos todos diferentes. Observação Pense nestas perguntas, muito comuns entre alunos de graduação: “mas se as raças não existem, por que essa palavra continua a ser usada?”; “toda pessoa que utiliza o termo raça é racista?”; “os(as) ativistas antirracistas que usam esse termo também são racistas?” Siga em frente com seus estudos e encontre as respostas. Assim, a palavra raça será tomada aqui a partir de uma perspectiva sócio-histórica, segundo preconizam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Unidade I 10 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, aprovadas em junho de 2004 pelo Ministério da Educação: É importante destacar que se entende por raça a construção social forjada nas tensas relações entre brancos e negros, muitas vezes simuladas como harmoniosas, nada tendo a ver com o conceito biológico de raça cunhado no século XVIII e hoje sobejamente superado. Cabe esclarecer que o termo raça é utilizado com frequência nas relações sociais brasileiras para informar determinadas características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, entre outras, influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar social dos sujeitos no interior da sociedade brasileira (BRASIL, 2004). Podemos, portanto, assumir o uso do termo raça quando quisermos nos referir aos aspectos físicos (à aparência exterior herdada e transmitida hereditariamente), que mostram repercussões negativas nas relações entre brancos, negros e índios, ou seja, quando for necessário demonstrar as tensões existentes a partir das diferenças na cor de pele, olhos, tipos de cabelo etc., a partir de um padrão estético branco e europeu, que estabelece também relações de dominação. Saiba mais Se você quiser aprofundar seus estudos sobre as características físicas das pessoas e suas repercussões em suas relações sociais, sugerimos que faça uma pesquisa sobre os termos fenótipo e genótipo no site: . Complementando essa concepção, contemplamos também a problemática de raça sob uma perspectiva política, ou seja, a partir do uso que os movimentos negros e indígenas fazem desse termo nas lutas contra o racismo e contra toda forma de discriminação. Veja o que diz a militante do movimento negro Nilma Bentes (apud MUNANGA; GOMES, 2006, p. 176): [...] podemos compreender que a identificação de raças é, na realidade, uma construção social, política e cultural produzida no interior das relações sociais e de poder ao longo do processo histórico. Não significa, de forma alguma, um dado da natureza. É no contexto da cultura que nós aprendemos a enxergar as raças. Isso significa que aprendemos a ver negros e brancos como diferentes na forma como somos educados e socializados, a ponto dessas ditas diferenças serem introjetadas em nossa forma de ser e ver o outro, na nossa subjetividade, nas relações sociais mais amplas. [...] É preciso, portanto, saber em que situação, por quê, para que e por quem está sendo utilizado o conceito raça, para distinguir seu significado. Temos que distinguir se a conotação empregada lhe atribui um caráter negativo e 11 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL racista, ou se está sendo atribuído um caráter positivo para a compreensão da história e o reconhecimento da presença do negro em nossa sociedade. Lembrete Aqui se encontra uma das respostas às perguntas feitas anteriormente: a utilização da palavra raça tem uma conotação política, visando enfatizar os aspectos negativos atribuídos a determinadas características fenotípicas, como cor dos olhos e da pele e traços do rosto e dos cabelos, por exemplo. Percebe-se que, aqui, a ênfase é dada às circunstâncias em que o conceito raça é utilizado, se positiva ou negativamente, daí o uso político do termo pelo movimento negro para definir seus anseios e lutas na sociedade brasileira. Dessa maneira, de forma corrente, a palavra raça acabou sendo fortemente associada aos negros no Brasil, a despeito da presença de outros grupos em nossa população. Isso mostra a apropriação política que o conceito acabou sofrendo pelo movimento negro brasileiro. Lembrete Foi possível compreender porque a simples utilização da palavra “raça” não pode ser considerada de antemão uma atitude racista? Mas atenção, pois tudo depende da circunstância em que é usada. Saiba mais Vale a pena ler o livro O negro no Brasil de hoje, de Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, da Coleção Para Entender, Global Editora, 2006. O livro mostra-nos, de maneira didática, como o negro, com suas especificidades e história próprias, deve ser visto e reconhecido como parte integrante da sociedade e cultura brasileiras. 1.2 Etnia O conceito de etnia tem recebido grande destaque na literatura disponível sobre as relações étnico-raciais no Brasil, e é nele que vamos nos aprofundar agora. Inicialmente, vale destacar que a palavra etnia pode ser empregada de maneira ampla e irrestrita, visto que não provoca o mesmo desconforto produzido pelas conotações físicas e pelos pensamentos biologizantes do conceito de raça. Trata-se de uma concepção que compreende as relações sociais estabelecidas entre sujeitos que, entre outras coisas, se reconhecem possuidores de uma origem comum, 12 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I em contraste com outros, integrantes de grupos diferentes, na sociedade abrangente. Vejamos o verbete “etnia” apresentado no Dicionário de Relações Étnicas e Raciais (apud CASHMORE, 2000, p. 196): Um grupo possuidor de algum grau de coerência e solidariedade, composto por pessoas conscientes, pelo menos em forma latente, de terem origens e interesses comuns. Um grupo étnico não é mero agrupamento de pessoas ou de um setor da população, mas uma agregação consciente de pessoas unidas ou proximamente relacionadas por experiências compartilhadas. Fica claro, portanto, que etnia implica, por um lado, posicionamento, pertencimento, opção, escolha, autodenominação do sujeito tendo por referência determinado grupo étnico. Nesse sentido, a atribuição de pertença de determinada pessoa a determinado grupo étnico é, em primeiro lugar, endógena, ou seja, parte do próprio sujeito, devendo ser necessariamente a decisão de pertencimento dele, que se afirma como parte daquele grupo étnico. Entretanto, a definição da identidade étnica não é somente endógena, mas diz respeito também aos significados atribuídos por outros grupos, ou seja, também é exógena. Nesse sentido, afirmam Poutignat e Streiff-Fenart (1998, p. 142): “É esta relação dialética entre as definições exógena e endógena da pertença étnica que transforma a etnicidade em um processo dinâmico sempre sujeito à redefinição e à recomposição”. Observação Sabendo que a definição da identidade étnica pode ser exógena ou endógena, você consegue diferenciar essas duas formas de identificação? Faça uma breve anotação pessoal a esse respeito para reforçar seus estudos. Ainda nesse contexto, vejamos como podemos associar o conceito de etnia ao de etnicidade. De acordo com Eriksen (apud OLIVEIRA, 2006, p. 89): [...] etnicidade é uma propriedade de uma formação social e um aspecto de interação;ou negros. Ou seja, construirmos ou assumirmos nossa identidade étnico‑racial significa também ocuparmos (ou não) o “lugar‑social” (status social) reservado a cada um dos grupos étnicos, conforme comprovado por tantos dados estatísticos na unidade I. 97 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Retomando Bourdieu, a violência simbólica só é eficaz quando aquele que a sofre interioriza e reproduz os discursos dominantes, ou seja, quando contribui para manter atitudes de submissão. É o que acontece com a garotinha do nosso exemplo. 7.1 O processo de construção da identidade na infância e na juventude: a igualdade jurídica em meio a uma sociedade hierárquica Após esta incursão por um emaranhado conceitual de complexidade sem dúvida reveladora, podemos perceber que não deveria haver no Brasil qualquer visão dicotômica das relações étnico‑raciais. A teoria do círculo vicioso, ou da centopeia de duas cabeças, de Helio Santos, certamente nos elucidou sobre em que medida esses processos obedecem a um dinamismo complexo, que intencionalmente produz e reproduz o racismo na cultura brasileira. Não é possível, portanto, compreender essa questão por meio de um raciocínio bipolarizado; afinal, não somos uma sociedade de brancos (puros) e de negros (puros). A melhor opção para elucidar essa “trilha do círculo vicioso” do racismo no Brasil seria pensarmos numa série de aspectos que se entrecruzam e se autodeterminam, dando o tom da especificidade do nosso racismo e, ao mesmo tempo, colaborando para sua perpetuação. Mais uma vez, é Helio Santos quem nos ajuda a elucidar essa concepção (SANTOS, 2001, p. 30): O mais grave, contudo, é saber que, no Brasil, o apartheid se mantém, precisamente, por ser na realidade do tipo que é. Isto é, aqui, o abismo que separa os privilegiados dos demais vem se perpetuando ao longo do tempo em virtude das mazelas sociais recaírem sempre sobre a mesma maioria. A insensibilidade para a gravidade do problema decorre muito desse particular aspecto. A causa verdadeira dessa política – quase todos negam – é o racismo. [...] É por isso que se diz que aqui temos uma pobreza cristalizada. Isto é: dura, antiga, difícil de quebrar, pois foi construída ao longo de muitos séculos. Para que se compreenda a complexidade do que estamos tratando, vamos investigar como se dão os processos identitários, segundo a perspectiva das Ciências Sociais, para, então, passarmos a entender como ocorre essa construção entre crianças e adolescentes brasileiros, dos quais falávamos há pouco. Figura 30 98 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Pensando do ponto de vista das Ciências Sociais, precisamos considerar que o conceito de identidade só pode ser entendido em sua intersecção com dois outros conceitos, de grupo social e cultura. Quando uma pessoa nasce, encontra uma série de traços culturais presentes em seu grupo familiar e social, que já existiam, segundo uma determinada “ordem” ou “lógica”, antes de sua chegada. Aos poucos, essa criança vai percebendo o mundo que a rodeia, passa a compreender suas regras, linguagens, hábitos, proibições etc. e também é capaz de interiorizar alguns desses elementos culturais, no processo de sua constituição como indivíduo, sujeito de sua própria identidade. Esse processo, denominado pelas Ciências Sociais de socialização ou endoculturação, tem por base a educação, realizada formal ou informalmente por indivíduos que integram os grupos sociais de pertença daquela criança (LARAIA, 2008; KEMP, 2009). A partir de certo momento de sua vida, esse indivíduo pode negociar com essas limitações descritas anteriormente, uma vez que a cultura é algo dinâmico. Isso significa que cabe a cada um selecionar, entre as coisas previamente dadas pelo ambiente social, aquilo que para ele faz maior ou menor sentido, ou seja, é preciso a cada momento ressignificar experiências, relações, representações; enfim, todas as situações cotidianas: [...] as experiências cotidianas nunca cessam de proporcionar situações que nos demandam escolhas e posicionamentos em relação a condutas e valores, tanto os pessoais como os alheios. Nós e os outros, os semelhantes e os diferentes: as noções que construímos socialmente de igualdade e diferença são a moeda de jogo de construção das identidades (KEMP, 2009, p. 65‑66). É nesse sentido que deixamos de pensar a cultura como algo estático e dotado de uma “essência” acabada e final para assumirmos a perspectiva do movimento incessante de diálogo e inter‑relação entre os sujeitos, bem como da importância do respeito às diferenças, necessários à construção identitária e às trocas simbólicas realizadas. A construção da identidade brasileira precisa passar necessariamente pela realidade da miscigenação e da constituição de nossa cultura, a partir de nossas raízes negras, indígenas e europeias, ao mesmo tempo e em igual relevância, é importante que se diga. Lembrete Sabemos que essas não são teorias simples, mas você já deve ter estudado tais conceitos em suas disciplinas introdutórias de Ciências Sociais nos primeiros semestres de seu curso. Então, após esta breve revisão, podemos adentrar na questão específica da construção da identidade negra (Universidade Federal de São Carlos, 2004b, p. 45): Munanga (2003) considera que a identidade negra não surge da tomada de consciência de uma diferença na cor da pele. Ela resulta, conforme o autor, de um longo processo histórico que se inicia com a chegada dos navegantes portugueses ao continente africano. Dito de outra forma, o processo de colonização e escravização do continente africano e de seus povos é o contexto histórico no qual devemos pensar a construção da chamada identidade negra no Brasil. [...] 99 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 A identidade negra é entendida, aqui, como um processo construído historicamente em uma sociedade que padece de um racismo ambíguo e do mito da democracia racial. Como qualquer processo identitário, ela se constrói no contato com o outro, na negociação, na troca, no conflito e no diálogo. [...] ser negro no Brasil é tornar‑se negro. Para que seja possível entender o que significa “tornar‑se negro” segundo essa perspectiva, é preciso considerar que a identidade se constrói no plano simbólico, isto é, no conjunto de significações, valores, crenças e gostos que vão sendo assumidos em uma relação aos outros, relações essas permeadas por estereótipos raciais, preconceitos e desigualdades. Temos também as dificuldades das populações indígenas para manter sua identidade numa sociedade onde cresce o avanço dos homens brancos sobre suas terras, a proximidade entre as aldeias e as ocupações urbanas, o estabelecimento de relações comerciais diversas entre brancos e índios, entre outras formas de relação. Precisamos, ainda, destacar o desconhecimento dos profissionais da educação sobre a cultura e história dos povos indígenas, fator reforçado pela organização dos livros didáticos, que privilegia uma única vertente histórica, contada pelo grupo dominante. Essas e outras questões criam dificuldade para crianças e adolescentes indígenas manterem sua identidade cultural. Segundo Baniwa (2006, p. 53): A consciência de uma cultura própria é em si um ato libertador, na medida em que vence o sentimento de inferioridade diante da cultura opressora. As culturas indígenas são concretas, como concretos são os que dão vida a elas. Os índios conservam suas línguas, suas experiências e sua relação com a natureza e com a sociedade. Eles mantêm a tradição oral e os rituais como manifestação artística e maneira de vinculação com a natureza e o sobrenatural. Mantêm o papel socializador e educador da família, aplicam os sábios conhecimentos milenares e praticam o respeito à natureza.Com isso, as culturas indígenas seguem manifestando sua personalidade coletiva e de alteridade, seja no trabalho ou na festa, e por isso são democráticas e populares. Esses são valores e formas de organização que, nas relações com as populações não indígenas, os índios não vêm reconhecidos. Ao ingressarem nas escolas, as crianças são educadas para reprodução de um conhecimento branco, numa língua que não lhe é conhecida, com tradições que não são do seu povo. Por isso a urgente necessidade de fazer garantir o direito ao ensino bilíngue e o acesso a materiais didáticos específicos nas escolas indígenas. Pois, como afirma Baniwa (2006, p. 51): A interculturalidade é uma prática de vida que pressupõe a possibilidade de convivência e coexistência entre culturas e identidades. Sua base é o diálogo entre diferentes, que se faz presente por meio de diversas linguagens e expressões culturais, visando à superação da intolerância e da violência entre indivíduos e grupos sociais culturalmente distintos. 100 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Conforme aludimos anteriormente, a identidade é um processo construído da interação entre os sujeitos, que, na contraposição de suas diferenças e no respeito a essa diversidade, atribuem significados ao universo simbólico que passa a compor sua visão de mundo, influindo em suas escolhas e nos caminhos que irá percorrer. Uma importante professora, Ronilda Iyakemi Ribeiro, de suas análises da tese de Helio Santos, sobre a qual tratamos no item anterior, afirmou o seguinte: Às implicações do rebaixamento da autoestima nas esferas de poder econômico, político e social tem sido dada importância inferior à merecida: autoestima rebaixada e autoimagem negativa inibem qualquer movimento reivindicatório, seja no âmbito intelectual, seja no afetivo. Príncipes encantados em sapos creem‑se capazes apenas de coaxar até que se quebre o encantamento e seja então possível reapropriar‑se da realeza. Por exemplo, a força advinda da (re) apropriação dos valores de origem certamente propicia a passagem do medo e vergonha de não ser branco ao orgulho de ser negro e estimula o impulso de reivindicação de direitos humanos, entre os quais os de cidadania. [...] [daí a importância de pensarmos] o uso de recursos que possibilitem a ressignificação de conceitos como negro, África, africanos, de modo a transformar, no imaginário coletivo, representações negativas em positivas (RIBEIRO, 1998, p. 64). Na vida da criança e do jovem, a escola certamente será um desses caminhos que deverão ser percorridos para a construção de si, até que se tornem sujeitos autônomos e capazes de fazer sua própria história. Sendo assim, uma das principais figuras nessa mediação é o professor, cujo trabalho exige persistência e intencionalidade, bem como a opção por valores éticos. Somente assim se poderão realizar ações educativas que promovam a igualdade racial no ambiente escolar e favoreçam aos alunos o reconhecimento de sua origem étnico‑racial e a construção saudável e feliz de sua identidade negra. Daí a enorme dificuldade enfrentada por crianças e adolescentes, brancos e negros brasileiros, para construírem sua identidade numa sociedade tão paradoxal, em que as leis lhes garantem igualdade de direitos e oportunidades, mas cujas relações sociais revelam uma estrutura claramente hierarquizada e encharcada com um racismo às escondidas, negado e escamoteado, como já afirmamos algumas vezes. Como educadores ou profissionais da saúde, por exemplo, cabe‑nos o papel de mudar esse contexto, propiciando um ambiente escolar ou institucional de respeito às diferenças e desenvolvendo uma prática condizente com os valores de justiça e equidade étnico‑racial. Esse será o assunto do último tópico. Exemplo de aplicação A construção da identidade negra não é uma trajetória fácil para crianças e adolescentes, tampouco para professores, coordenadores e para toda a comunidade escolar. Vimos que, muitas vezes, o primeiro entrave é reconhecer‑se negro e, assim, colocar‑se nesse lugar tão desfavorável socialmente. Pensando nisso, sugerimos uma série de músicas que também podem ser utilizadas como ferramentas pedagógicas, visando à reflexão, questionamento e crítica de cada um dos envolvidos nesse complexo processo. A música, ao nosso ver, por ser uma linguagem que esbarra na esfera das emoções, pode servir 101 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 de elemento de sensibilização tanto em sala de aula quanto em reuniões pedagógicas e empresariais, ou até mesmo em sessões de terapia, por exemplo. Estas são apenas algumas sugestões: • BOSCO, J. O mestre‑sala dos mares. Intérprete: João Bosco. In: Novo Millennium. São Paulo: Universal Music, 2005. CD. Faixa 4. • BUARQUE, C. Não existe pecado ao sul do equador. Intérprete: Chico Buarque. In: Ao vivo: Paris. Paris: BMG, 1990. CD. Faixa 16. • CAYMMI, D. Retirantes. Intérprete: Dorival Caymmi. In: Novo Millennium: Dorival Caymmi. São Paulo: Universal, 2005. CD. Faixa 1. • CAYMMI, D.; PINHEIRO, P. C. Flor da Bahia. Intérprete: Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. In: Brazilian Serenata. São Paulo: Warner Music, 1991. CD. Faixa 7. • CONTINO, G. Lavagem cerebral. Intérprete: Gabriel, o Pensador. In: Gabriel, o Pensador. Rio de Janeiro: Sony Music, 1993. CD. Faixa 5. • DUARTE, M.; PINHEIRO, P. C. O canto das três raças. Intérprete: Clara Nunes. In: Brasil de A a Z: Clara Nunes. 2007. CD. Faixa 1. • GIL, G. A Mão da limpeza. Intérprete: Gilberto Gil. In: Raça Humana. São Paulo: Warner Music, 1984. CD. Faixa 9. • GONZAGA, L.; TEIXEIRA, H. Assum preto. Intérprete: Luiz Gonzaga. In: Volta pra curtir: ao vivo. São Paulo: Sony Music, 2006. CD. Faixa 6. • PEREIRA, P. P. S. Negro drama. Intérprete: Racionais Mc’s. In: Nada como um dia após o outro. São Paulo: Unimar Music, 2002. CD. Faixa 5. • SOARES, E. A carne. Intérprete: Elza Soares. In: Do coccix até o pescoço. São Paulo: Tratore; Maianga, 2002. CD. Faixa 6. • SILVA, B. Preconceito de cor. Intérprete: Bezerra da Silva. In: Justiça social. São Paulo, BMG, 1987. CD. Faixa 11. • VELOSO, C.; GIL, G. Haiti. Intérprete: Caetano Veloso. In: Noites do Norte: ao vivo. São Paulo: Universal Music, 2002. CD. Faixa 6. Para que se possam perceber as possibilidades pedagógicas dessas canções, sugerimos que seja feita uma busca na internet sobre as letras das composições, tendo em vista promover a interpretação e a análise, a reflexão e a sensibilização, quanto às questões étnico‑raciais e da africanidade no Brasil. 102 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II 7.2 Diversidade e currículo: desafios para a prática educativa Desenvolver um trabalho pedagógico ou profissional que leve em conta a diversidade étnico‑racial e cultural é uma das tarefas mais difíceis a serem enfrentadas pela escola e pelas instituições brasileiras. Todos os envolvidos no processo educacional direta e indiretamente precisam estar atentos à desconstrução de estereótipos de raça/cor, para a desmistificação dos mitos raciais existentes na sociedade brasileira e para a demonstração prática, em suas atitudes com os alunos, de relações não discriminatórias e equitativas em sala de aula. Além disso, atentemos para o fato de que, em muitos momentos, os próprios funcionários, professores e coordenadores afrodescendentes não se percebem como negros, e sim como brancos. Nesse sentido, um importante instrumento utilizado por professores e alunos para colaborar com o aprendizado é o livro didático. Em muitas comunidades, ele é a única fonte de leitura dos alunos e de sua família, dada a escassez de livros e revistas em algumas classes sociais e regiões do país. Em certos casos, torna‑se também a única referência para o professor no preparo de sua aula e das atividades didáticas que irá realizarcom seus alunos. Figura 31 Inúmeras pesquisas têm sido produzidas pelas universidades no sentido de verificar de que forma os livros didáticos abordam a questão das diversidades, sejam as de gênero, étnico‑raciais, socioculturais, religiosas, de papéis sociais, profissões etc. Os resultados demonstram que a maioria traz uma representação muito simplificada dos fatos históricos, acabando por estigmatizar ou caricaturar segmentos sociais como mulheres, negros, idosos e trabalhadores, por exemplo. Essa simplificação colabora também com o reforço de estereótipos, assunto que já abordamos fartamente nos tópicos anteriores. Além da questão da simplificação, outro grande problema dos livros didáticos é a invisibilidade desses segmentos sociais desfavorecidos, que aparecem representados no conjunto dos conteúdos didáticos numa relação desproporcional àquela existente na sociedade brasileira. Explicando de outro modo, basta observarmos, em um livro didático, quantas figuras aparecem de homens, de mulheres, de brancos, de negros e de índios. É fácil verificar que mulheres, homens negros, índios, pobres ou idosos aparecem numa proporção muito menor que homens brancos e provenientes da classe média, o que traz um problema para as crianças que consomem esse material: a falta de representatividade negra e indígena ou de figuras de pessoas negras desempenhando os mais diversos 103 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 papéis sociais, por exemplo, faz com que a criança afrodescendente não tenha parâmetros de igualdade e diversidade para a construção de sua identidade étnico‑racial. Ou mesmo dos índios fora da visão estigmatizada de uma cultura parada no século XVI, quando os portugueses aqui chegaram. Figura 32 Como ilustração, leia o relato de Maia (2006, p. 17), que retrata bem a desvalorização social da cultura indígena: Ao chegar, pela primeira vez, na aldeia do PI Xambioá, já estudava a língua Karajá há algum tempo, tendo defendido no ano anterior minha dissertação de mestrado sobre aspectos da gramática dessa língua. Por isso, arrisquei‑me a tentar conversar em Karajá com as crianças que vieram em um bando alegre me receber, quando o jipe da FUNAI, que me trazia, parou no posto indígena, próximo à aldeia. — “Aõhe!” saudei em Karajá. “Dearã Marcus Maia wanire”, me apresentei. Imediatamente cessou a algazarra e fez‑se um silêncio pesado entre os indiozinhos. Entreolhavam‑se desconfiados e sérios. “Kaiboho aõbo iny rybè tieryõtenyte?” Vocês não sabem a língua Karajá, perguntei. A meninada, então, se afastou em retirada estratégica. Fui, em seguida, à casa de uma líder da comunidade, a Maria Floripes Txukodese Karajá, a Txukó, me apresentar. Lá, um dos meninos me respondeu: – “A gente não fala essa gíria não, moço!” Outro, maiorzinho, concordou: – “Na cidade, a gente diz que nem sabe de índio, que nem fala o indioma, senão o povo mexe com a gente”. Em contraponto a essa desvalorização, observe nas fotografias a seguir como é fácil para uma criança branca se imaginar em profissões socialmente valorizadas, como médico ou engenheiro; mas o mesmo não é verdade para as outras crianças, uma vez que não encontram nem nos livros didáticos, nem no meio social em que vivem, pessoas não brancas ocupando tais cargos e que possam servir de referência no processo de construção da identidade diversa dessa na infância, conforme já abordamos no tópico anterior. 104 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Figura 33 Figura 34 Vejamos o que Silva (2005, p. 22) afirma: A invisibilidade e o recalque dos valores históricos e culturais de um povo, bem como a inferiorização dos seus atributos adscritivos, através de estereótipos, conduz esse povo, na maioria das vezes, a desenvolver comportamentos de autorrejeição, resultando em rejeição e negação dos seus valores culturais e em preferência pela estética e valores culturais dos grupos sociais valorizados nas representações. Observação Espera‑se que esteja claro, neste momento, que todos os problemas, conceitos e teorias expostos nos diversos tópicos deste livro‑texto mantêm entre si uma relação constante e não podem, portanto, ser compartimentalizados. Procure pensar de maneira complexa, integrada e multifocada, ou seja, considerando em cada situação ou análise uma variedade de aspectos, fenômenos, causas e explicações, que se complementem e se cruzem para 105 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 uma compreensão da realidade segundo a perspectiva da diversidade cultural e das relações étnico‑raciais. Por causa de todas essas conclusões das pesquisas realizadas é que as professoras e professores não podem se manter passivos na utilização dos livros didáticos; ao contrário, devem trabalhar ativamente na desconstrução de estereótipos, na representatividade de todos os segmentos sociais e na valorização das diversidades étnico‑raciais. Outra importante discussão a ser feita para uma educação pela igualdade racial é a relação entre o currículo e a diversidade. Como educadores, precisamos estar sempre alertas ao fato de que os currículos são fruto de escolhas políticas, debates calorosos e que compete a nós incluir ou excluir assuntos, disciplinas ou aspectos que servem ou não ao propósito de formação da criança e do jovem. O poder público brasileiro já reconheceu, a partir das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que há a necessidade urgente de incluir de uma vez por todas em nossos currículos a problemática das relações étnico‑raciais, por meio do estudo da história e da cultura africana, afro‑brasileira e indígena, em todos os níveis escolares, chegando também à formação universitária dos professores. Acreditamos que já argumentamos aqui o suficiente a respeito da importância dessa mudança nos currículos para a promoção de uma sociedade que respeite as diferenças e garanta a todos os seus cidadãos as mesmas condições e oportunidades. Nesse sentido, se quisermos compreender a complexa trama entre diversidade cultural e currículo, teremos que enfrentar o debate sobre as desigualdades sociais e raciais em nosso país. Teremos que entender o que é a pobreza e como ela afeta de maneira trágica a vida de uma grande parcela da população. E ainda deveremos refletir sobre o fato de que, ao fazermos um recorte étnico/racial, veremos que as pessoas negras e pobres enfrentam mais e maiores preconceitos e dificuldades em nosso país. Isso nos obriga a nos posicionar politicamente dentro desse debate e construir práticas efetivas e democráticas que transformem a trajetória escolar dos nossos alunos e alunas negros e brancos em uma oportunidade ímpar de vivência, aprendizado, reconhecimento, respeito às diferenças e construção de autonomia (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, 2004b, p. 7). Para terminar este subtópico, gostaríamos apenas de enfatizar: é imperativo que cada um dos envolvidos no processo educacional brasileiro – a começar pelos professores, é claro, mas também os coordenadores, diretores, gestores e administradores do poder público e do setor privado – tomem uma decisão política pela igualdade nas relações étnico‑raciais. A partir da instituição da Lei nº 10.639/2003, todos esses agentes estão convocados a instituir mudanças estruturais no ensino, abarcando a reformulação dos currículos, dos projetos pedagógicos, dos planos de aula, de materiais didáticos e paradidáticos; enfim, de toda a prática educativa de modo geral, a fim de promover o reconhecimento, o respeito e a garantia das diversidades culturais e, de forma especial, da população afrodescendente no Brasil. 106 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II 8 EDUCAÇÃO E PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL: ESTRATÉGIAS E POSSIBILIDADES Nesteúltimo tópico do livro‑texto, pretendemos indicar algumas estratégias, especialmente ao professor, que demonstrem de maneira bastante prática como podemos de fato realizar uma educação cidadã, livre de racismos, dos estereótipos e de qualquer forma de discriminação. Além das mudanças no sistema de ensino, por meio de revisões curriculares, nos planejamentos, nas aulas e nos materiais pedagógicos de toda sorte, cabe também a todos os agentes do processo de aprendizagem se colocar mais próximos da realidade sociocultural de seus alunos. Isso significa conhecer a comunidade escolar, seu perfil socioeconômico, o entorno da escola, os principais problemas do bairro, da cidade, bem como as principais manifestações culturais da comunidade, arte, música, religiosidade e outros aspectos que aproximem os educadores dos alunos e de seus familiares. Figura 35 São também inúmeras as pesquisas realizadas a esse respeito mostrando que, quando a escola se coloca ao lado da comunidade, os projetos pedagógicos são realizados de maneira mais tranquila, efetiva, e os objetivos traçados são atingidos com maior sucesso. Um bom exemplo é o artigo de Silva (2003), no qual a autora sugere aos professores algumas estratégias bastante úteis para uma mudança de paradigma, partindo da compreensão e aplicação do que sabemos sobre africanidades brasileiras. Segundo a autora, os professores devem: • buscar conhecer as concepções prévias de seus alunos a respeito do que é estudado, ouvindo‑os falar sobre elas; • ajudar os alunos a compreender que ninguém constrói sozinho as concepções a respeito de fatos, fenômenos, pessoas; que as concepções resultam do que ouvimos outras pessoas dizerem, resultam também de nossas observações e estudos; • lançar desafios para que os alunos ampliem e/ou reformulem suas concepções prévias, incentivando‑os a pesquisar, debater, trocar ideias, argumentando com ideias e dados; 107 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 • incentivar a observação da vida cotidiana, observações no contexto da sala de aula, a elaboração de conclusões, a comparação entre concepções construídas tanto a partir do senso comum como a partir do estudo sistemático. Em se tratando de africanidades brasileiras, é preciso acrescentar que [os professores]: • [...] devem combater os próprios preconceitos, os gestos de discriminação tão fortemente enraizados na personalidade dos brasileiros, desejando sinceramente superar sua ignorância relativa à história e à cultura dos brasileiros descendentes de africanos; • devem organizar seus planos de trabalho, as atividades para seus alunos, [...] que os levem a pôr “a mão na massa”, sempre informados e apoiados pelos mais experientes. Dizendo de outra maneira, aprender realmente o que se vive e muito pouco sobre o que se ouve falar (SILVA, 2003, p. 27‑28). Para concluir, a autora resume em três pontos os princípios da pedagogia antirracista, a saber: respeito, reconstrução do discurso pedagógico e estudo da recriação das diferentes raízes da cultura brasileira. Também contribui com as disciplinas específicas, como música e dança, matemática, psicologia, sociologia, educação física, história, literatura e língua portuguesa, sugerindo práticas que cada um desses professores especialistas podem adotar para abordar o tema “africanidades brasileiras” em sala de aula (SILVA, 2003, p. 28‑29). Ao buscarmos em outras fontes novas possibilidades para estimular a igualdade racial na escola, encontramos, no Projeto São Paulo Educando pela Diferença para a Igualdade, um texto que, a nosso ver, representa de forma bastante genuína o encaminhamento que estamos pretendendo dar a esta conclusão. Leia com calma e atenção: O que fazer? Urgente! Precisamos, no nosso trabalho cotidiano, incorporar o discurso das diferenças não como um desvio, mas como algo enriquecedor de nossas práticas e das relações entre as crianças, possibilitando desde cedo o enfrentamento de práticas de racismo e a construção de posturas mais abertas às diferenças e, consequentemente, à construção de uma sociedade mais plural. Essa seria uma postura que reclama novos afetos, uma nova forma de se relacionar com o diferente, com o estrangeiro, ou seja, com a diversidade, com o outro que não é mais um “mesmo” de mim. Uma vez que é na relação com o outro que constituímos nossa subjetividade, nossas diferenças, é na urgência da constituição de subjetividades outras, 108 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II livres da clausura causada pelo modelo dito “ideal”, que buscamos outras formas de vida, já que as opções que nos são dadas encontram‑se por vezes pobres e sem possibilidades. Precisamos, de alguma forma, repensar a preponderância desse modelo hegemônico de vida (de ser), questionando‑nos a que perspectiva tal modelo corresponde e com que interesses, para, a partir daí, “forjarmos asas” que nos permitam escapar de toda essa homogeneização a partir da qual fomos produzidos e com a qual nos acostumamos. É uma luta diária contra as formas de “assujeitamento” (uma maneira de modelar as pessoas de uma mesma forma), uma luta contra as forças que nos querem fracos, tolos e servos, além de racistas. Precisamos recriar novos sentimentos que englobam o encantamento de si e a volta do prazer em se reconhecer a partir da perspectiva de um novo olhar, que não mais é o de “dominador”, para, então, verdadeiramente, nos encontrar por meio da pluralidade e diferenciação, livrando‑nos dessa clausura subjetiva (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, 2004b, p. 32). Essa perspectiva é imprescindível para compreendermos a urgência da implementação das escolas bilíngues nas terras indígenas, conforme estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, já vista anteriormente, além da produção de material específico para as escolas que atendem aos alunos indígenas e seus descendentes, garantindo o respeito, a valorização e a manutenção de sua diversidade cultural. Silva (2012, p. 8) aponta pistas para efetivar uma educação que atenda a essa concepção: O ponto de partida para o ensino crítico da temática indígena é pensar sempre na atualidade dos povos indígenas. Ou seja, por meio de usos de mapas para localização dos povos indígenas atuais, desvincular a ideia de um passado colonial em que todos os índios supostamente foram exterminados. O Censo do IBGE/2010 contabilizou a população indígena no Brasil em cerca de 900 mil indivíduos, sendo que Pernambuco possui a 3ª maior população indígena no Brasil, cerca de 61 mil índios, em 12 povos que habitam no Agreste e Sertão do estado. Um segundo ponto é a ênfase nas sociodiversidades indígenas, desmistificando imagens genéricas do “índio”, da “cultura indígena”. Discutir as diferentes expressões socioculturais indígenas no passado e no presente, questionando a clássica dicotomia “Tupi” x “Tapuia”. Uma sugestão é utilizar fotografias para demonstrar a diversidade dos povos indígenas no Brasil. Um terceiro aspecto a ser estudado é evidenciar a participação efetiva dos povos indígenas nos diversos momentos históricos ao longo da História do Brasil, desnaturalizando a ideia equivocada da presença do “índio” apenas na época do “Descobrimento” ou somente na “formação do Brasil”, problematizando o lugar pensado e o ocupado pelos povos indígenas na história do país. 109 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Promover momentos de intercâmbios entre os povos indígenas e os estudantes durante o calendário letivo, por meio de visitas previamente preparadas do alunado às aldeias, bem como de indígenas às escolas. É nesse sentido que procuramos conduzir os estudos desta disciplina, por meio, principalmente, dos seguintes reposicionamentos: mudança de discursos e de práticas; respeito à pluralidade;novas relações interpessoais, mais afetuosas, profundas e significativas; uma subjetividade livre de clausuras e modelos preestabelecidos; crítica ao atual modelo hegemônico de homogeneização e “assujeitamento”; recriação de novos sentimentos e reconhecimentos, especialmente em relação a si mesmo, num movimento de respeito a toda forma de diversidade. Saiba mais Nesta unidade, preparamos uma lista de sites de instituições que, de alguma forma, trabalham com a problemática racial. São organizações não governamentais (ONGs), núcleos de pesquisa, movimentos sociais, órgãos públicos etc. Claro que, com as infinitas possibilidades proporcionadas pela internet, se trata apenas de uma sugestão para incentivar sua curiosidade por meio de sites confiáveis, com um rico conteúdo escrito e audiovisual, que podem ser bastante úteis a todas as pessoas interessadas na questão das relações étnico‑raciais e na educação para a igualdade. Arquivo Nacional: . Associação Criola: . Bamidelê – Organização de Mulheres Negras da Paraíba: . Casa de Cultura da Mulher Negra: . Centro de Estudos Afro‑Asiáticos (CEAA) – Universidade Cândido Mendes: . Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP): . Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT): . Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN): . 110 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II Educação e cidadania de afrodescendentes e carentes (Educafro): . Fórum Social Mundial: . Fundação Cultural Palmares: . Instituto da Mulher Negra (Geledés): . Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA): . Mulheres Negras – do umbigo para o mundo: . Resumo Sobre a legislação antirracista brasileira, vimos que detemos uma das leis mais modernas do mundo em relação às relações étnico‑raciais. Entretanto, nosso grande desafio está em fazer com que tais direitos sejam cumpridos de fato na vida de cada brasileiro e brasileira. Conhecer as nossas diretrizes legais é uma das demonstrações possíveis de nosso exercício de cidadania e, no caso dos profissionais envolvidos na área educacional, uma necessidade na prática educativa. Por isso, convidamos você a retomar suas consultas aos textos originais da Constituição; dos Estatutos da Criança e do Adolescente, Indígena e da Igualdade Racial; e de nossas Leis de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional, bem como a Lei nº 10.639/2003, Lei nº 11.645/2008 e seus planos de implementação já publicados. Em relação aos fundamentos históricos, é imperativo que tenhamos o compromisso com a busca do conhecimento, em primeiro lugar, sabendo que inúmeras são as fontes disponíveis de consulta e estudo sobre a história da África, das populações africanas, dos indígenas e seus descendentes no Brasil. Em segundo lugar, importa posicionarmo‑nos como coprodutores de africanidades brasileiras, promovendo as experiências necessárias para a valorização e o resgate das heranças africanas no processo de construção da identidade e da cultura brasileiras. A partir desse novo paradigma, é possível enxergar a História da África e dos povos indígenas e suas implicações para a História do Brasil de maneira bastante diferente daquela utilizada nos bancos escolares. Assim, a apropriação que fazemos de cada fato histórico, recontextualizado 111 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 segundo essa nova perspectiva, abrirá possibilidades e potencialidades na ação/relação educativa, capazes de refazer nossas raízes autoritárias e racistas e promover, por fim, uma realidade de igualdade entre todos. Procuramos focar em aspectos pedagógicos da implantação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, bem como suas implicações para a prática educativa. A respeito das imagens e representações do negro na literatura, fizemos uma incursão pela obra infantil de Monteiro Lobato, discutindo o comprometimento de alguns de seus livros no trabalho pedagógico, visando ao cumprimento da referida lei. Também observamos que a mídia continua a ser um meio de produção, reprodução e reforço de estereótipos raciais, segundo uma lógica conservadora da elite econômica, patrocinadora dessas instituições da indústria de entretenimento. Todo esse caldo de cultura permeia também o ambiente escolar, promovendo o que Pierre Bourdieu definiu como violência simbólica, um processo de apropriação pelos grupos desfavorecidos da sociedade dos padrões e referenciais simbólicos das elites dominantes, dificultando o processo de construção da identidade afrodescendente na infância e na juventude. Trabalhamos os mecanismos de construção da identidade e da diversidade no ambiente escolar, inicialmente de uma utilização crítica e consciente por parte dos professores dos livros didáticos e dos currículos definidos pelas políticas educacionais. As estratégias e possibilidades, portanto, capazes de promover a igualdade racial na escola e na sociedade como um todo só poderão se efetivar a partir de um novo olhar e de um novo posicionamento dos educadores, gestores e de toda a comunidade escolar, visando à construção de identidades negras positivamente afirmadas e à valorização das africanidades brasileiras. Exercícios Questão 1. O Parecer CNE 003/2004, relativo às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico‑Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro‑brasileira e Africana, elaborado especialmente para bem informar os educadores e as agências educacionais, é um documento útil a toda e qualquer ação profissional e a todo cidadão. Isso porque o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento favoreceram a construção e a manutenção de um imaginário coletivo carregado 112 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II de estereótipos negativos no que tange à África, aos africanos e a tudo o que lhes diz respeito. Assim sendo, não compete exclusivamente aos agentes da educação formal a tarefa de reconstrução desse imaginário e a constituição de uma sociedade verdadeiramente democrática. Além de propor a adoção de políticas de ação afirmativa, o parecer busca estimular a formação de identidades positivamente afirmadas, estimular a passagem da vergonha ao orgulho de ser negro. Certamente uma proposta de renovação dessa natureza produziria resistências: a implementação da Lei nº 10.639/2003 não vem ocorrendo com facilidade. A resistência à mudança é verificável nas mais diversas instâncias: na ação de professores, de administradores escolares e de gestores do poder público e privado, entre outras. A Lei Federal 10.639/2003 determina a inclusão da temática História e Cultura Afro‑brasileira no currículo oficial da rede de ensino. O Parecer CNE 003/2004 detalha as responsabilidades que competem aos poderes públicos – federal, estadual e municipal – e prioriza algumas ações relativas à implementação da referida lei. A seguir, apresentamos algumas ações imprescindíveis nos estabelecimentos de ensino. Entre elas, assinale a afirmativa que não é verdadeira: A) Formar professores para o trabalho em sala de aula na perspectiva das relações étnico‑raciais. B) Produzir material didático adequado, que desfaça os estereótipos de raça/cor/gênero. C) Servir‑se abundantemente de recursos analógicos que favoreçam o processo de elevação da autoestima de alunos afrodescendentes. D) Não admitir a abordagem dessa temáticafora da sala de aula. E) Sensibilizar todos os agentes envolvidos nesse processo para um compromisso efetivo com a implantação da igualdade racial na escola e em nosso país. Resposta correta: alternativa D. Análise das alternativas A) Afirmativa verdadeira. Justificativa: a formação de professores para o trabalho em sala de aula na perspectiva das relações étnico‑raciais constitui uma das ações prioritárias. Uma longa história de silêncio a respeito de tudo o que concerne à África, aos africanos e a seus descendentes impossibilitou a adequada formação identitária e profissional dos cidadãos em geral e dos educadores em particular. Trata‑se agora de preencher lacunas formidáveis nos currículos dos cursos de Pedagogia e na formação continuada de professores. B) Afirmativa verdadeira. Justificativa: a produção de material didático que favoreça a desconstrução de estereótipos negativos de raça e etnia é outra prioridade a qual é preciso atender com urgência. A análise de 113 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 livros didáticos e paradidáticos que vêm sendo adotados nas escolas brasileiras permite identificar facilmente boa parte da raiz de problemas nas relações inter‑raciais: textos e ilustrações colaboram para gerar e manter estereótipos negativos, que por sua vez determinam atitudes e comportamentos preconceituosos e discriminatórios. C) Afirmativa verdadeira. Justificativa: os recursos analógicos que podem ser utilizados no ensino – contos, poemas e representações gráficas, entre outros – favorecem muito o processo de elevação da autoestima de alunos afrodescendentes. A linguagem analógica, ao servir‑se de abundantes expressões metafóricas, atinge dimensões afetivas que dificilmente seriam mobilizadas por recursos da linguagem lógico‑causal. Daí a importância da narrativa oral – contos, fábulas, lendas e mitos – para que se atinjam os objetivos educacionais desejados, quando tratamos das questões étnico‑raciais. D) Afirmativa falsa. Justificativa: é preciso que todos os agentes educacionais estejam mobilizados para a tarefa em questão, e não apenas os professores em sala de aula. Não admitir a abordagem dessa temática fora da sala de aula seria uma conduta absolutamente inapropriada. Pelo contrário: todo tempo e lugar podem oferecer oportunidade para que se trabalhem essas questões. E) Afirmativa verdadeira. Justificativa: a tarefa de superação do racismo é coletiva e demanda a ação de todos. Para que isso ocorra no espaço escolar, é preciso sensibilizar todos. Somente assim se poderá contar com um compromisso efetivamente assumido com o projeto geral de conquista de igualdade étnico‑racial. Questão 2. Helio Santos, um dos maiores expoentes nacionais da luta contra o racismo, doutor em Economia e presidente do Instituto Brasileiro de Diversidade, produziu vasto e respeitável material bibliográfico sobre a questão das relações raciais em nosso país. Sua visão lúcida a respeito dessa questão acha‑se bem representada na obra A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso. Trata‑se de um texto de compreensão possível para os mais diversos públicos, pois o autor não quis restringir apenas ao mundo acadêmico seus conhecimentos. Partindo da constatação de que a desigualdade social no Brasil se explica pela desigualdade racial, Helio retoma a questão da identidade nacional e nos convida a acompanhá‑lo numa incursão pela complexa realidade brasileira. Para melhor análise do quadro socioeconômico brasileiro, o autor formula uma teoria, a qual denomina “trilha do círculo vicioso”, cujas principais características estão descritas a seguir: a dinâmica das relações sociais, caracterizada por complexos processos de inclusão/exclusão, determina um jogo cujos perdedores e vencedores têm cartas marcadas: aprisionados num inteligente circuito de exclusão para o qual concorrem agências educacionais, de trabalho, de comunicação, de saúde, todas elas apoiadas em representações sociais negativamente estereotipadas da África, dos africanos e 114 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade II de seus descendentes e impostas para serem compartilhadas por brancos e negros, os afrodescendentes encontram poucas chances – quando encontram – de inserção sócio‑político‑econômica e de (re) construção de uma autoimagem positiva que lhes possibilite experimentar sentimentos de autoestima elevada. As forças que agem nessa “trilha” são mais facilmente compreendidas se observamos atentamente o gráfico apresentado na obra citada: A forma como se deu a abolição 1º Passo 6º Passo 2º Passo 5º Passo 4º Passo 3º PassoRetroalimentação Retroalim entação Retroalimentação Invisibilidade Violência Meios de comunicação Repressão policial Manutenção das dificuldades Visão da sociedade: Não brancos são incapazes por natureza Negro‑descendentes (preto e pardo) Introjeção do racismo e dos preconceitos Incapacidade para alterar a situação Desmotivação Desmotivação Não indentidade racial Baxa renda Piores empregos/salários Escolaridade inferior Dificuldades educacionais Modestas condições de investir em educaçãoDificuldades econômicas Fluxo da trilha Retroalimentação das dificuldades Dificuldades estruturais e psicológicas Figura 36 Chamamos a atenção para o fato de que as identidades individuais, em contínua metamorfose, sofrem o impacto, igualmente contínuo, das forças assinaladas no quadro apresentado. Como constituir identidades negras positivamente afirmadas em tais circunstâncias? Essa é uma pergunta que demanda resposta por parte de cada um de nós. No campo educacional, encontram‑se formidáveis potenciais de ação. Daí, a importância do debate amplo, geral e irrestrito nesse campo. A partir desses dados, considere as afirmativas a seguir: I. Um debate – amplo, geral e irrestrito – sobre relações étnico‑raciais não é necessário num país como o Brasil, onde todos os segmentos populacionais são igualmente beneficiados pelas políticas públicas. II. O racismo no Brasil assemelha‑se a uma centopeia de duas cabeças, para usar uma expressão de Helio Santos: além da conjuntura externa desfavorável, o afrodescendente compartilha representações negativas inscritas no imaginário coletivo. 115 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 III. O processo contínuo de sujeição a um bombardeio de imagens negativas de tudo o que se refere à África e o entorpecimento da consciência determinam que brancos e não brancos interiorizem como “naturais” esses estímulos. IV. Com pouca ou nenhuma possibilidade de (re)conhecimento dos valores tradicionais de seu povo de origem, os afrodescendentes veem‑se na condição de desenvolver a própria identidade a partir de modelos ideais de ego brancos, de realização impossível dada a condição biológica e de realização indesejável, por implicar afastamento e negação da riqueza e da beleza da cultura de origem. V. Às implicações do rebaixamento da autoestima nas esferas de poder econômico, político e social tem sido dada importância inferior à merecida: autoestima rebaixada e autoimagem negativa inibem qualquer movimento reivindicatório, seja no âmbito intelectual, seja no afetivo. VI. O esquema gráfico traçado por Santos oferece uma visão sistêmica do problema e possibilita constatar o fato de que transformações nas relações raciais brasileiras demandam ação afirmativa em muitos campos, entre os quais o da educação, da comunicação social e do mercado de trabalho. Pondere sobre as afirmativas anteriores e assinale a alternativa correta: A) Somente as afirmativas II e IV são incorretas. B) Somente a afirmativa I é incorreta. C) Somente a afirmativa V é incorreta. D) Somente as afirmativas I e V são incorretas. E) Somente as afirmativas III e VI são incorretas. Resoluçãodesta questão na plataforma. 116 FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 1 ÁFRICA.JPG. Disponível em: Acesso em: 30 out. 2011. Figura 2 342_2.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 3 IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida. Rio de Janeiro: 2009. p. 185. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 6 IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida. Rio de Janeiro: 2009. p. 187. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 8 BUSINESSMAN‑FT.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 9 IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida. Rio de Janeiro: 2009. p. 186. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 10 IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida. Rio de Janeiro: 2009. p. 187. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 11 DSC_018.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. 117 Figura 13 711223. JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 14 IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida. Rio de Janeiro: 2009. p. 206. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 15 IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida. Rio de Janeiro: 2009. p. 207. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 16 MUNDURUKUANTONIOCRUZABR.JPG. Disponível em: . Acesso em: 10 ago. 2013. Figura 17 024.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 18 HAND04.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 19 BRAZIL‑69588_640.JPG. Disponível em: . Acesso em: 09 ago. 2013. Figura 20 HAND_2.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 21 MENINOÍNDIODEMATOGROSSO(BRASIL)‑1896.JPG. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2013. 118 Figura 22 HAND08.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 23 DANÇADOSÍNDIOSTUPINAMBÁS.JPG. Disponível em: . Acesso em: 10 ago. 2013. Figura 24 DSC_0207.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 25 STAMPA_5_COPIA_2.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 26 PC000445.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2011. Figura 27 JN002502.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2011. Figura 28 JN006019.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 29 BAHIA‑191615‑m.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 30 DSC__007.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. 119 Figura 31 DSC_044.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 32 ÍNDIOS.JPG. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2013. Figura 33 BOY‑69751_1280.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 34 AUGENMASKH.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 35 DSC_0048.JPG. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2011. Figura 36 SANTOS, H. A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso. São Paulo: Senac, 2001. p. 44. REFERÊNCIAS Audiovisuais Filmes ALÉM da lousa: culturas juvenis, presente! Dir. Denise Martha. Brasil: 2000. 14 minutos. ENCONTRANDO Forrester. Dir. Gus Van Sant. EUA: Sean Connery; Laurence Mark, 2000. KIRIKU e a feiticeira. Dir. Michel Ocelot. França/Bélgica/Luxemburgo: Les Amateurs/Odec Kid Cartoons, 1998. 74 minutos. LIXO Extraordinário. Dir. Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley. 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Essa é a perspectiva política do conceito de etnicidade, em que os agentes envolvidos investem-se de uma determinada identidade étnica a fim de se colocarem num jogo de forças e conquistas sociais, políticas, econômicas, legais etc. A etnicidade apresenta uma intencionalidade na prática do sujeito, segundo um caráter dinâmico e processual, não podendo ser definida de maneira estática ou definitiva, mas dependendo sempre das inter-relações entre os sujeitos envolvidos. De acordo com Flores (2008, p. 27), 13 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL [...] o sentimento de pertencimento a uma etnia pode ser expresso pela palavra etnicidade. As crenças em uma identidade comum, especialmente por parte dos grupos sociais que foram historicamente subordinados aos imperialismos universalistas (romano, europeu, norte-americano etc.). Observação O pertencimento a um grupo étnico é sempre um processo dinâmico, nunca algo pronto ou definitivo. Fica clara a definição de etnicidade como um processo simbólico, que adquire valores, conteúdos significativos e compartilhados, a partir das experiências e inter-relações experienciadas pelos sujeitos envolvidos. Para que fique mais claro o que é exatamente esse processo simbólico, pense em tudo o que se experimenta, se sente e se aprende ao longo da vida. Cada uma dessas experiências recebe um determinado significado, dependendo do teor de tais vivências; se negativo, temos a tendência a esquecer ou desvalorizar; se positivo, vamos guardando como uma espécie de herança por toda nossa vida. Todo esse conteúdo significativo é legitimado e definido pelo que chamamos de universo simbólico, isto é, todas as regras, saberes, valores, crenças de determinada cultura, que se desdobram e se refletem diretamente na definição de nossa identidade cultural, ou seja, daquilo que nós somos ou desejamos ser. Observação Por isso, alguns autores afirmam que o homem é um “animal simbólico”, ou seja, que atribui valor e significado a todas as coisas e experiências que o cercam, relações e aprendizados que são a cada momento significados e ressignificados, valorizados ou desvalorizados, aprendidos ou esquecidos, guardados ou descartados. Esse é o processo simbólico do qual estamos tratando. Por fim, vejamos um último aspecto da etnicidade, a saber, a questão do realce. Trata-se de uma apropriação de acordo com a situação na qual o sujeito encontra-se e em relação a quem ele está posicionado. Mas não pense que, por causa dessa “elasticidade” da etnicidade, ela seja “falsa” ou “mentirosa”. Para esclarecer essa questão, vejamos o que Poutignat e Streiff-Fenart (1998, p.166) dizem a respeito: A noção de saliência ou realce (...) exprime a ideia de que a etnicidade é um modo de identificação em meio a possíveis outros: ela não remete a uma essência que se possua, mas a um conjunto de recursos disponíveis para a ação social. De acordo com as situações nas quais ele se localiza e as 14 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I pessoas com quem interage, um indivíduo poderá assumir uma ou outra das identidades que lhes são disponíveis. Foi possível perceber como se dá esse processo de realce na definição das identidades étnicas? É por meio dessa possibilidade que o sujeito pode manipular sua própria identidade, salientando os aspectos que lhe sejam mais vantajosos naquele contexto. Observação Ainda de acordo com Poutignat e Streiff-Fenart (1998), os principais aspectos que definem a identidade étnica são: • atribuição categorial: os atores identificam-se ou são identificados pelos outros (endógena ou exógena); • dimensão relacional e de fronteira: implica a dicotomia nós/eles (processo político); • origem comum: intencionalidade dos atores em demonstrar uma ancestralidade com seu grupo étnico, por meio de símbolos identitários (processo simbólico); • realce ou saliência: possibilidade de os sujeitos se posicionarem conforme a situação de interação social na qual se encontram (processo social). 2 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL 2.1 O racismo científico Vamos examinar agora a doutrina que passou a empregar o conceito de raça como base de justificação das desigualdades, bem como de naturalização das hierarquias sociais. Foi no século XIX que a ciência, por meio da teoria positivista, produziu uma ampla explicação que colocava os seres humanos organizados hierarquicamente, partindo do princípio de que há diferenças entre as raças, que o coloca naturalmente superiores uns aos outros. É importante frisar que a palavra “naturalmente” é tomada aqui no seu sentido mais estrito, trazendo para o plano da natureza a lógica e a organização dos grupos sociais. A esse respeito, afirmam Lima e Vala (2004, p. 402): O racismo constitui-se num processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base em alguma marca física externa (real 15 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL ou imaginada), a qual é ressignificada em termos de uma marca cultural interna que define padrões de comportamento. Por exemplo, a cor da pele sendo negra (marca física externa) pode implicar a percepção do sujeito (indivíduo ou grupo) como preguiçoso, agressivo e alegre (marca cultural interna). É neste sentido que [...] o racismo é uma redução do cultural ao biológico, uma tentativa de fazer o primeiro depender do segundo. Uma vez que a ciência passou a definir uma ordem natural da realidade social, todas as diferenças dos traços exteriores, como cor de pele, cabelo, fisionomia, serviriam apenas para colocar homens e mulheres “naturalmente” como superiores uns aos outros e, contra essa “verdade inquestionável”, nada nem ninguém poderia se contrapor ou fazer algo a respeito. Observação Tente se lembrar de uma situação em que, numa dada ordem social, algum aspecto acabou sendo tomado como “natural”, ou seja, foi “naturalizado”. Após a leitura deste conceito, você é capaz de diferenciar o que seria “natural” e o que seria “cultural” em nossa realidade? Toda essa ideologia serviu para explicar, por exemplo, porque alguns indivíduos são pobres e outros ricos, a partir do raciocínio de que a uns são dadas qualidades e virtudes – que os colocam numa posição social privilegiada – e a outros, desprovidos dessas características, restam apenas as posições subalternas na hierarquia social. A visão de que homens e mulheres são biologicamente diferentes, sendo os homens dotados de habilidades ligadas à força física, razão, e as mulheres, mais propensas a aspectos como sensibilidade, emoção e acolhimento, apesar de não encontrar nenhuma comprovação científica, continua a habitar o mundo de muitas pessoas, talvez da maioria delas. Observação Pense um pouco se você mesmo(a) nunca se viu imaginando algo como “isso é coisa de mulher...”, ou “os homens são todos iguais...”. Perceba como é fácil cairmos em interpretações “naturalizantes”, que trazem para o plano da “natureza” aspectos que são absolutamente socioculturais. Da mesma forma, dividir e classificar os seres humanos em “raças” fazia parte de um projeto científico que tinha como missão justificar as diferençassociais, escondendo suas causas reais e as relações de poder, estas sim determinantes, que configuravam as desigualdades sociais. Perceba que, até o início do século XX, essas concepções científicas chamadas de “racialistas” foram utilizadas por grupos poderosos de países europeus para sustentar ideologicamente suas políticas racistas e de exclusão. 16 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I É o caso, por exemplo, do nazismo, que assumiu na Alemanha, em pleno século XX, concepções baseadas nessas “explicações científicas”, que colocavam de um lado, os arianos, brancos, denominados “raça pura”, detentores de características que os posicionavam hierarquicamente como superiores e capazes de dominar as demais “raças”; e, de outro, os judeus, nesse caso, considerados como a “raça inferior”, devendo ser exterminados. Lembrete Vale lembrar que o nazismo, apesar de muito comentado, tendo em vista principalmente o seu impressionante poder de extermínio em massa, não é a única manifestação de racismo na história do século XX. Para aprofundar sua compreensão sobre esse assunto, amplie suas leituras sobre os temas: xenofobia, políticas anti-imigração, fundamentalismo, terrorismo, conservadorismo, sexismo, homofobia, islamofobia, entre outros. Perceba que em todos, há um raciocínio comum: a justificativa para a discriminação ou a exclusão baseia-se sempre em características ou traços definidos pela natureza, seja em relação à nacionalidade, raça, sexo, religião ou orientação sexual. É por isso que, neste tópico, enfatizamos a importante colaboração que a ciência teve no estabelecimento e na manutenção de várias formas de racismo. Esse será o assunto da nossa próxima unidade. Por enquanto, basta compreendermos que a ciência foi utilizada para legitimar a ideia de que diferenças sociais podem ser explicadas e justificadas por características naturais. Saiba mais Em julho de 2011, assistimos a mais um massacre com motivações racistas, promovido por Andrew Behring Breivik, na Noruega. Um manifesto de 1516 páginas, cuja autoria foi atribuída a Andrew, traz várias referências ao Brasil e aos supostos problemas enfrentados por nós, devido principalmente à nossa mistura de raças. Leia um trecho do manifesto publicado pelo Portal G1, em 25 de julho de 2011(MISTURA..., 2011), disponível no link: . Portanto, não é exagero pensar que as tais teorias racialistas permanecem muito vivas atualmente, permeando o imaginário de grupos radicais espalhados pelo mundo, ideias estas que continuam a justificar ações violentas e extremistas por meio de um raciocínio eugenista (ou seja, de limpeza racial) e de supremacia branca e europeia. 17 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL 2.2 O racismo à brasileira e o mito da democracia racial O racismo que surge e se preserva na história do Brasil tem uma configuração muito própria, conforme veremos neste tópico. O fato de termos em nossa formação a presença inegável das chamadas “três raças” – o branco, o negro e o índio – produziu um sem-número de publicações que utilizaram positiva ou negativamente essa “mistura” como elemento constitutivo de nossa identidade nacional. Lembrete Conforme já estudamos no primeiro tópico, geneticamente somos uma única raça humana. Por isso, quando falamos em “mistura das três raças”, estamos tomando essa expressão de maneira crítica, para mostrar uma visão histórica de como o racismo se incorporou na cultura brasileira, tornando-se uma discriminação bastante dissimulada, conforme veremos a seguir. Em primeiro lugar, tivemos uma vertente que poderíamos chamar de negativa sobre as relações raciais no Brasil: sob influência das teorias racialistas e do racismo científico europeu, a mistura de raças no país era vista, no início do século XX, como um elemento problemático que explicaria, inclusive, o porquê de nossas mazelas sociais, de nosso fracasso político e de nossa dependência econômica. Saiba mais Como parte das teorias racialistas, vemos no Brasil uma grande influência de ideias eugenistas. Este é mais um assunto que renderia uma longa pesquisa. Apenas para provocar seu interesse, leia o artigo de Lilian de Lucca Torres (2008), disponível no link: . No texto, é possível perceber como a miscigenação, traço cultural e social do povo brasileiro, é tomada como elemento negativo da formação do Brasil, devendo ser “corrigida” por meio de políticas eugenistas, que incluem ações de esterilização, eutanásia, segregação e restrição à imigração de pessoas pobres ou não brancas. Entretanto, desde que Gilberto Freire, em 1933, escreveu com entusiasmo sobre as qualidades de um povo brasileiro miscigenado, misturado e mestiço, enfatizando a presença do negro e do índio em todos os aspectos da cultura brasileira, essa suposta “convivência harmoniosa” entre as três raças passou a habitar a ideologia corrente sobre o que se constituiria como a nossa identidade nacional. Assim, é a partir da publicação de Casa-grande & senzala que o racismo no Brasil toma outra configuração: a visão quase romântica de Gilberto Freire trouxe os 18 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I fundamentos do chamado “mito da democracia racial”, apontando que, no Brasil, não teríamos nem a presença de conflitos raciais, tampouco de racismos, tendo em vista nossa longa história de “harmonia” entre as três raças. Essa tese acabou sendo fortalecida pelo argumento de que o convívio amistoso entre senhores e escravos (no caso, escravas) – que gerou uma população mestiça numerosa – era o símbolo de que, em nosso país, a convivência harmoniosa entre brancos e negros era um fato não só inquestionável, como também capaz de confirmar a suposta democracia racial na qual estaríamos mergulhados. Observação Você concorda que ainda vivemos no Brasil o chamado “mito da democracia racial”? Para que você não fique com nenhuma dúvida, esclarecemos: nas pesquisas de opinião, cada brasileiro costuma afirmar que “pessoalmente” não se considera racista, mas todos concordam que em nossa sociedade ainda há uma relação bastante desigual entre brancos e negros, fruto de um racismo evidente, porém não assumido, dissimulado, e, o pior de tudo, negado cotidianamente. O que estamos querendo mostrar, portanto, é que a nossa história de quinhentos anos de exploração e colonização não demonstra essa convivência “pacífica” entre brancos, negros e índios; ao contrário, sabemos quantos conflitos ocorreram e quantas crueldades foram cometidas pelos brancos colonizadores, principalmente por meio do extermínio dos índios e da escravização dos negros. Aliás, o antropólogo Roberto DaMatta é um dos autores que nos chamam a atenção para nosso passado extremamente ambíguo, uma vez que vivíamos uma condição social fortemente hierarquizada e, ao mesmo tempo, precisávamos nos colocar no cenário internacional como uma nação dita moderna, democrática, de iguais. Voltaremos a essas questões históricas com maior cuidado na próxima unidade. Neste ponto da reflexão apresentada, queremos enfatizar o aspecto contraditório que até os dias atuais não foi resolvido em nosso meio. A esse respeito, vejamos o que nos diz DaMatta (1987, p. 69): Pode-se, pois, dizer que a “fábula das três raças” se constitui na mais poderosa força cultural do Brasil, permitindo pensar o país, integrar idealmente sua sociedade e individualizar sua cultura. Essa fábula hoje tem a força e o estatuto de uma ideologia dominante: um sistema totalizado de ideias que interpenetra a maioria dos domínios explicativos da cultura. Durante muito tempo, portanto, negamos o racismo em nossa sociedade, apoiadosnesses argumentos sobre a cordialidade do brasileiro e a fábula das três raças, atrasando, em muitas décadas, a inclusão de grupos excluídos ao longo de nossa história. Somente a partir do final dos anos 1990 é que passamos a adotar medidas legais de ações afirmativas para acelerar o acesso de grupos afrodescendentes aos direitos sociais fundamentais. 19 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Saiba mais Você pode se aprofundar no estudo sobre o homem cordial no livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Ao contrário do que parece, cordial aqui não é tomado como pacífico ou “educado”, mas vem da palavra latina cor, cordis, que significa coração. Assim, a cordialidade do homem brasileiro significa que seus atos são pautados pelas emoções (e não pela razão), pela informalidade nas relações sociais (e não pela atitude formalista, respeitadora e zelosa perante a lei) e pela falta de limites entre o público e o privado (o que gera atitudes próximas ao que se denominou “o jeitinho brasileiro”). Sobre o “jeitinho brasileiro”, inúmeras são as publicações, que procuram mostrar como as relações pessoais são mais decisivas em nossas ocorrências cotidianas do que a formalidade das leis universais. Para resolver nossos conflitos com a lei, sempre buscamos uma via intermediária, uma solução “mais ou menos”, um “jeitinho”. Seguem alguns títulos: BARBOSA, L. O jeitinho brasileiro. São Paulo: Campus-BB, 2005. BORGES, F. C. A filosofia do jeito: um modo brasileiro de pensar com o corpo. São Paulo: Summus, 2005. DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1990. ___. O que faz do Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1997. REGA, L. S. Dando um jeito no jeitinho: como ser ético sem deixar de ser brasileiro. São Paulo: Mundo Cristão, 2000. 2.3 Mas, afinal, o que é racismo? Já tratamos até aqui de diversos aspectos das relações étnico-raciais, sob os pontos de vista histórico, sociológico e antropológico. Gostaríamos, agora, de esclarecer aspectos pontuais importantes para continuarmos nossos estudos. 2.3.1 Biologicamente, não existem “raças”: somos uma só raça humana Os estudos mais recentes da genética já mostraram, desde o século XX, que não podemos dividir os seres humanos em raças de acordo com cor de pele, tipo de cabelo, altura e outras características exteriores. Tais diferenças não servem para classificarmo-nos, como fazem os biólogos com espécies animais. A esse respeito, afirma Munanga (2003, p. 2): 20 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Como homens, pertencemos ao filo dos cordados, ao subfilo dos vertebrados (como os peixes), à classe dos mamíferos (como as baleias), à ordem dos primatas (como os grandes símios) e à espécie humana (homo sapiens), como todos os homens e todas as mulheres que habitam nossa galáxia. Somos espécie humana porque formamos um conjunto de seres, homens e mulheres, capazes de constituir casais fecundos, isto é, capazes de procriar, de gerar outros machos e outras fêmeas. [...] [Portanto,] biológica e cientificamente, as raças não existem. A invalidação científica do conceito de raça não significa que todos os indivíduos ou todas as populações sejam geneticamente semelhantes. Os patrimônios genéticos são diferentes, mas essas diferenças não são suficientes para classificá-las em raças. Figura 2 Perceba que não se trata de negar nossas diferenças, afinal, cada ser humano é único em todos os aspectos de sua existência; mas, ainda assim, pertencente à raça humana. Como sugere Lilia Schwarcz (1997, p. 43), “talvez fosse melhor fazer coro com Lévi-Strauss e concluir que o grande desafio continua sendo o de ‘diferenciar, sim, mas sem hierarquizar’”. Afinal, somos todos iguais, porém diferentes! E esta afirmação passa a fazer um novo sentido para quem estuda as questões étnico-raciais, não mais figurando como uma simples contradição, mas como uma nova forma de compreender as relações humanas. Exemplo de aplicação Uma pesquisa bastante relevante na área de Genética, e amplamente noticiada em grandes veículos de comunicação, foi a dos pesquisadores Sérgio Danilo Pena, da UFMG, e Maria Cátira Bortolini, da UFRS, que procuraram investigar nossas diferenças genéticas em relação à porcentagem de herança e a nossas origens ameríndia, africana e europeia. Desta vez, consulte a segunda parte do artigo de Lilian de Lucca Torres (2008), disponível no link: . Perceba que a pesquisa serve como suporte para questionarmos conceituações baseadas apenas na cor da pele, o que significa que ela não pode ser tomada como sinal da herança racial de um indivíduo, representando somente uma característica exterior; porém, geneticamente, os 21 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL brasileiros são muito parecidos em sua ancestralidade ameríndia, africana e europeia, sempre demonstrando o resultado da miscigenação vivida ao longo de nossa história nos últimos quinhentos anos. Para compreender melhor o teor da pesquisa, leia também a matéria (LOPES, 2011) publicada num grande portal de notícias, o Folha.com: . Saiba mais Apesar de as informações publicadas pelo portal Folha.com mostrarem apenas um breve resumo da complexidade dessa pesquisa, para nós, parece ficar evidente a tese de que afinal “somos uma única raça humana”. Você concorda? O artigo completo (PENA, 2011), em inglês, encontra-se no link: . 2.3.2 Raça é um conceito político Conforme já tratamos anteriormente, precisamos reforçar que raça é, portanto, um conceito político, tomado por grupos étnico-raciais para fortalecer seus direitos e favorecer o processo de inclusão e de acesso a direitos fundamentais desses grupos. Importa entendermos o uso político que esses grupos sociais fazem do termo “raça”, a circunstância em que é aplicado, não para dividir ou cindir a sociedade em grupos estanques, mas para, assumindo as diferenças, garantir a igualdade de direitos para todos. Negar as diferenças étnico-raciais, conforme vimos no tópico sobre o mito da democracia racial, não é a solução. É necessário, entretanto, que esses grupos desfavorecidos, tanto social quanto economicamente, afirmem suas diferenças e especificidades étnico-culturais, e, na diferença, assumirmos que as oportunidades não são as mesmas para todos e que tal condição injusta precisa ser corrigida, por força da lei, dos movimentos sociais e da mudança de mentalidades e comportamentos. 2.3.3 Os pressupostos do racismo Para resumir as explicações dadas até aqui, falaremos de cinco principais pressupostos do racismo, ou seja, perspectivas, pensamentos e atitudes, muitas vezes inconscientes, que mantêm intactas as estruturas de desigualdades sociais e econômicas para brancos e negros no Brasil: • hierarquização: a doutrina racialista que prevê “a existência de raças humanas, com diferentes qualidades e habilidades, ordenadas de tal modo que as raças formem um gradiente hierárquico de qualidades morais, psicológicas, físicas e intelectuais” (GUIMARÃES, 2004, p. 17); • inferiorização: uma vez que os seres humanos são colocados num gradiente hierárquico, consequentemente, uns serão considerados superiores aos outros, criando por conseguinte a 22 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I inferiorização de certos grupos. Nesse sentido, pessoas que consideram os negros como feios, menos inteligentes ou menos trabalhadores podem ser chamadas de racistas; • preconceito: o movimento de inferiorizar grupos de pessoastraz uma concepção preconceituosa de mundo. Guimarães (2004, p.17) afirma que o preconceito é “um simples sistema difuso de predisposições [internas], de crenças e de expectativas de ação que não estão formalizadas ou expressas logicamente”. Portanto, o preconceito muitas vezes está na cabeça das pessoas, mas não necessariamente se manifesta em atitudes concretas, estas chamadas de discriminação. Assim, pode-se perfeitamente imaginar que uma pessoa preconceituosa refreie-se de cometer práticas discriminatórias em relação aos negros, ou não queira expressar publicamente seus pensamentos racistas, devido à pressão social que possa existir a esse respeito; • discriminação: são atitudes ou ações individuais concretas que diferenciam grupos ou pessoas segundo critérios raciais. Quando convicções preconceituosas são expressas publicamente, podem ser consideradas como discriminação; • desigualdade: para concluir essas considerações, segundo Guimarães (2004, p. 18), também pode ser considerado como racismo: o sistema de desigualdades de oportunidades, inscritas na estrutura de uma sociedade, que podem ser verificadas apenas estatisticamente através da estrutura de desigualdades raciais, seja na educação, na saúde pública, no emprego, na renda, na moradia etc. Com base nessa afirmação, precisamos compreender de uma vez por todas que o estado de desigualdade social em que se encontra a população negra no Brasil é uma demonstração evidente do racismo ainda vigente em nossa sociedade. Para nos aprofundarmos nessa questão, vamos passar a analisar a partir de agora as estatísticas brasileiras que mostram o status social em que os negros se encontram em nosso país, dados esses que tornarão mais clara a compreensão acerca do racismo inegável presente na sociedade brasileira contemporânea. 3 A CONDIÇÃO DOS AFRODESCENDENTES E INDÍGENAS NA SOCIEDADE BRASILEIRA Os dados do Censo 2010, publicados no Diário Oficial da União do dia 4/11/2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a população brasileira já atinge a soma de 185.712.713 habitantes. Entretanto, quando o assunto é a igualdade social entre brancos, índios e negros, os números são bastante desoladores e mostram que o país ainda precisa melhorar muito em relação à distribuição equitativa de direitos e oportunidades. Neste tópico, procuraremos trabalhar esses dados, alguns de maneira mais detida, a fim de confirmar a tese que estamos defendendo neste livro-texto: a de que o racismo é um traço perverso no tecido social brasileiro, demonstrado e confirmado pelos levantamentos estatísticos oficiais. 23 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL 3.1 A questão da autoidentificação racial nos levantamentos brasileiros Em primeiro lugar, vamos fazer um percurso histórico pelos censos produzidos no Brasil. Esses dados são produzidos pelo IBGE e levantados a cada dez anos, oficialmente, desde 1937, a partir da Lei nº 5534/68, que passou a obrigar a população a prestar informações ao censo, bem como assegurou o sigilo destas. Por tratar-se de um levantamento completo sobre a família brasileira, o censo é um importante recurso gerador de subsídios para a elaboração de políticas públicas voltadas para o propósito de encontrar as melhores soluções para nossos principais problemas sociais. Entretanto, é importante discutirmos as dificuldades que estão por trás da autodenominação de cor/raça nos levantamentos censitários brasileiros, visto que é o próprio entrevistado quem declara sua cor, escolhendo entre branco, preto, pardo, amarelo ou indígena. São considerados negros os entrevistados que se denominam pretos e pardos. A característica cor/raça nem sempre esteve dessa forma presente nos censos do Brasil. No primeiro censo de 1872 e no de 1890, o quesito “raça” era incorporado, contudo, como forma de separar a sociedade entre livres, escravos e libertos. Em 1900 e 1920, havia sido suprimido, retornando em 1940, agora sobre a ideia de cor. Em 1970, o quesito cor é retirado e, em 1980, retorna a compor os questionários. Em 1991, o quesito cor é reafirmado [...]. No censo 2000, cor e raça são colocadas como sinônimos (BAMIDELÊ, 2010). Observação Oracy Nogueira (1955) foi um importante sociólogo brasileiro que estudou com muita originalidade a relação étnico-racial brasileira. Em sua histórica apresentação no Simpósio Etnosociológico sobre Comunidades Humanas no Brasil, dentro da programação do XXXI Congresso Internacional de Americanistas, realizado em agosto de 1954 em São Paulo, Nogueira distinguiu duas formas de preconceito racial: de marca e de origem, diferenciando as manifestações de preconceito racial no Brasil (definido primordialmente pelo quesito cor ou “marca”) e nos Estados Unidos (marcado pela questão da origem, ou descendência). Esta é uma definição clássica na sociologia das relações étnicas no Brasil. Saiba mais A íntegra do artigo está publicada na revista Tempo Social (NOGUEIRA, 2007), disponível no link: . 24 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Entretanto, é importante que se diga que esse sistema de classificação racial no Brasil é bastante controverso e gerou um sem-número de debates e publicações acadêmicas a respeito. As discussões giram em torno do fato de que aqui essa autodenominação se dá por elementos da aparência (conforme primeiro estudo de Oracy Nogueira de 1955, em que ele denomina o “preconceito de marca” como traço mais marcante das relações étnico-raciais na sociedade brasileira), como cor da pele e traços corporais (formato do nariz, lábios, tipo e cor de cabelo), o que sem dúvida possibilita inúmeras interpretações e classificações (ROCHA & ROSEMBERG, 2007). Apenas para servir como exemplo, vejamos uma pesquisa realizada por Lilia M. Schwarcz (2001), em que ela analisa o levantamento de 1976 do IBGE, no qual segmentos da população brasileira autoatribuíram-se cerca de 136 cores diferentes, como: “moreno claro”, “moreno escuro”, “mulato”, “café com leite”, apenas para citar as mais comuns. Sendo assim, a pesquisa foi importante para demonstrar que as múltiplas representações do brasileiro em relação à sua cor, baseadas em aspectos de sua aparência, tornam essa classificação bastante imprecisa nos levantamentos oficiais realizados pelo IBGE. Depois dessas breves explicações iniciais, é possível perceber que a questão de cor/raça nos levantamentos censitários não é tão simples como parece? Por conta disso, muitas campanhas foram promovidas por organizações do movimento negro, visando incentivar a população negra a se autoidentificar dessa forma, tendo em vista a valorização da diversidade étnico-racial brasileira, o combate do mito da democracia racial (conforme já tratamos no tópico anterior) e a desconstrução, assim, “das bases constitutivas do racismo”, conforme declaração feita pela Organização de Mulheres Negras da Paraíba (BAMIDELÊ, 2010): A importância de afirmação da identidade étnico-racial tem um sentido político, histórico e valorativo, uma vez que, fazendo parte de um luta política, contribui para a desconstrução das bases constitutivas do racismo, mantenedora de uma cultura escravagista e colonialista de formação da sociedade brasileira. Reconhecer a heterogeneidade da população brasileira é valorizar uma cultura de respeito à diversidade, assim como reconhecer as particularidades de sua população, de forma a garantir direitos historicamente negados com a formulação de ações afirmativas. No censo de 1990, foi realizada a campanha “Não deixe sua cor passar em branco”, que procurou afirmar a importância da ressignificação positiva da autodenominação de cor/raça. Para o censo de 2010, a organização Bamidelê divulgou em seu site a seguinte campanha: “Censo 2010 – afirme sua negritude– moren@ não, eu sou negr@!”. Acreditando na força da mídia eletrônica para a formação da opinião pública, a Bamidelê buscou fortalecer a identidade negra por meio da autodenominação de raça/cor de forma consciente. Também os movimentos indígenas e seus parceiros, como organizações não governamentais e pesquisadores, exerceram pressão sobre o Estado para modificar as metodologias de coletas de dados junto às suas comunidades e àqueles que vivem fora das terras indígenas (TI). Como resultado, o IBGE (2012, p. 9): 25 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Aprimorou-se a investigação deste contingente populacional, introduzindo o pertencimento étnico, a língua falada no domicílio e a localização geográfica, que são considerados critérios de identificação de população indígena nos censos nacionais de diversos países. Essa mudança na metodologia, em conjunto com as campanhas conscientizadoras realizadas pelas diversas organizações, trouxe como resultado um levantamento mais realista sobre a população brasileira. Estas não são as únicas organizações a promover campanhas como essa, apresentamos aqui somente um exemplo, a fim de que se desperte para a importância desses movimentos. Se forem digitadas as palavras “movimento negro ONG” num site de busca da internet, será possível encontrar milhares de organizações mobilizadas pelo mundo todo. Saiba mais No link , você encontrará mais informações sobre a campanha “Onde você guarda o seu racismo?”, que reúne mais de quarenta organizações não governamentais. Procure entender qual é o objetivo da campanha, de que forma o movimento procura atuar. Pesquise um pouco mais sobre o assunto e tire suas conclusões: afinal, qual é a importância da organização e da mobilização da sociedade civil na luta pela igualdade racial no Brasil? 3.2 Distribuição racial brasileira, desenvolvimento econômico e desigualdades no mercado de trabalho Além do levantamento de dados feito pelo censo, que visita a todos os domicílios brasileiros a cada dez anos, temos também disponíveis nas bases de dados do IBGE as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Esta anualmente seleciona uma amostra dos domicílios brasileiros para um levantamento parcial, que, por critérios estatísticos, traz uma visão bastante representativa de nosso país. A partir daqui, vamos fazer uma ampla análise dos dados da PNAD referentes ao ano de 2009. Em primeiro lugar, é interessante observar que, segundo dados publicados pelo IBGE sobre o levantamento de 2008 da PNAD, a proporção de brasileiros que se declararam pretos e pardos cresceu em relação aos anos anteriores. 26 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I 54,0 % 5,7 Branca PardaPreta 1998 (1) 2003 (1) 2008 Indígena 0,8 39,5 52,1 5,9 0,6 41,4 48,4 6,8 0,9 43,8 Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1998/2008. (1) Exclusive a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Diatribuição percentual da população, segundo a cor ou raça Brasil – 1998/2008 Figura 3 Essa pesquisa demonstra que o número de pretos e pardos cresceu de um ano para o outro, chegando, em números absolutos, a um aumento de mais de um milhão de pessoas por ano. Por outro lado, o número de brancos e amarelos diminuiu. O que isso significa? Que, na verdade, o que aumentou foi o número de pessoas que se autodenominaram pretos e pardos, indicando que as campanhas das quais falamos no início deste tópico podem, de fato, ter trazido resultados diretos sobre os dados levantados pelo IBGE. Podemos observar também um pequeno crescimento no percentual de pessoas que se identificam como indígenas, cerca de 0,9% em 2008. Esse crescimento da população indígena pode ser atribuído a diversos fatores, como às campanhas de conscientização para a autoidentificação e à melhoria de acesso aos serviços de saúde por esses grupos populacionais. Vale destacar que o Brasil em 1500 (quando da chegada de Pedro Álvares Cabral) tinha pelo menos 5 milhões de índios, atualmente essa população está reduzida a cerca de 700 mil indígenas. Outro aspecto interessante a ser notado é que os negros já são maioria no Brasil, visto que a soma de pretos e pardos totalizou, em 2008, 51,1% da população. É possível perceber mais nitidamente essa constatação a partir do gráfico a seguir: 27 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Distribuição racial no Brasil em 2008 (porcentagem) Brancos Pardos Pretos Amarelos e indígenas 0,9 43,8 48,4 6,8 Figura 4 Quando verificamos a distribuição racial entre as diferentes regiões do Brasil, entretanto, os dados nos mostram que os negros concentram-se nas regiões mais pobres e menos desenvolvidas social e economicamente, como Norte e Nordeste. Já nas regiões Sul e Sudeste, onde as condições de vida são melhores e o desenvolvimento econômico é mais elevado, a maioria da população é branca, contrariando os dados nacionais, segundo os quais os brancos não chegam a 49% da população. Quanto aos indígenas, eles se espalham também pelas regiões Centro-Oeste e Sudeste, contrariando o senso comum que os imagina vivendo isolados na floresta amazônica. Saiba mais Faça uma pesquisa sobre onde estão demarcadas as reservas indígenas. Onde elas se concentram? Temos reservas nas regiões Sul e Sudeste do país? Como vivem os índios dessas regiões? Você vai perceber que a realidade das populações indígenas está muito distante dos estereótipos vigentes na sociedade e verá que eles estão vivendo em condições semelhantes a todo cidadão pobre do país. No entanto, seu acesso a políticas públicas como educação e saúde é ainda mais difícil. Visite o site de notícias Terra, no link: . Você verá que cerca de 40% dos índios brasileiros vivem fora das reservas indígenas; desses, cerca de 20% vivem em áreas urbanas. 28 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Brasil Sul Sudeste Centro‑ Oeste Norte Nordeste Brancos 48,2 78,5 56,7 41,7 23,6 28,8 Pretos 6,9 3,6 7,7 6,7 4,7 8,1 Pardos 44,2 17,3 34,6 50,6 71,2 62,7 Amarelos e indígenas 0,7 0,7 0,9 0,9 0,4 0,3 100,0 60,0 20,0 80,0 40,0 0,0 0,7 6,9 44,2 48,2 34,6 78,5 56,7 50,6 71,2 62,7 23,6 28,8 8,1 0,30,4 4,7 41,7 6,7 0,9 17,3 3,6 0,7 7,7 0,9 Distribuição racial por região brasileira – 2009 (porcentagem) Figura 5 Perceba como uma simples tabela ou um gráfico pode nos trazer tantas verdades sobre o Brasil: a população autodenominada branca pode variar de 78,5% na r egião Sul a 23,6% na região Norte, uma diferença enorme, portanto. Já a população parda que se concentra na região Norte, com 71,2%, se reduz a 17,3% na região Sul, numa inversão quase direta entre brancos e pardos nas regiões Norte e Sul do país. Quanto à população indígena, os dados do IBGE mostram que, como em outras partes do mundo, esses grupos se encontram numa situação mais desfavorecida com relação a diversos aspectos, além do fato de suas especificidades culturais exigirem do poder público políticas formuladas diretamente para esse público. Observação Você pode fazer outras tantas interpretações sobre os dados discutidos. Tente relacionar esses aspectos à sua realidade: em sua região, qual é a distribuição racial em comparação aos dados brasileiros? Há mais brancos ou pardos? E como é o desenvolvimento econômico de sua região em relação ao restante do país? A fim de ampliar nossa compreensão sobre população, raça e desenvolvimento no Brasil, daremos continuidade às análises dos dados do IBGE, tratando a seguir dodesenvolvimento econômico e das diferenças no mercado de trabalho entre brancos e negros. 29 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Se quisermos entender como é gerada a riqueza no país, devemos observar, em primeiro lugar, que o produto interno bruto (PIB) é produzido diferentemente em cada região, sendo as mais ricas, Sul e Sudeste, responsáveis por 72,5% de toda a produção econômica brasileira. O PIB é o total de riquezas produzidas em um país por todos os setores da economia. Observe o que nos mostra a tabela a seguir: Tabela 1 – Participação percentual das grandes regiões no produto interno bruto 2002-2008 Grandes Regiões Participação percentual no Produto Interno Bruto (%) 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Brasil 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Norte 4,7 4,8 4,9 5,0 5,1 5,0 5,1 Nordeste 13,0 12,8 12,7 13,1 13,1 13,1 13,1 Sudeste 56,7 55,8 55,8 56,5 56,8 56,4 56,0 Sul 16,9 17,7 17,4 16,6 16,3 16,6 16,6 Centro-Oeste 8,8 9,0 9,1 8,9 8,7 8,9 9,2 Fonte: IBGE, em parceria com os Órgãos Estaduais de Estatística, Secretarias Estaduais de Governo e Superintendência da Zona Franca de Manaus - SUFRAMA Como a variação de um ano para outro não é significativa, podemos comparar esses dados aos apresentados no item anterior, que trouxe o levantamento de 2009, segundo amostra de domicílios brasileiros. Assim, é possível fundamentar melhor as ideias que estávamos construindo anteriormente, e agora você já pode confirmar qual é a participação de sua região na produção econômica do país e comparar como a distribuição racial é desigual em cada uma dessas regiões. Além do PIB, para termos uma noção do nível de desenvolvimento econômico de um país, também devemos observar de que forma essa riqueza é distribuída entre a população. Esse é o cálculo feito para se obter a renda per capita, ou seja, dividindo-se o PIB pelo número total de habitantes. Per capita significa por cabeça e, portanto, essa é uma forma aproximada de sabermos quanto cada pessoa ganha por ano, o que, obviamente, pode variar bastante de região para região, conforme cada participação no PIB, assim como verificamos na tabela a seguir: Produto interno bruto per capita (em R$) por regiões brasileiras – 2008 Tabela 2 Brasil 15.989,75 Sul 18.257,79 Sudeste 21.182,68 Centro-Oeste 20.372,10 Norte 10.216,43 Nordeste 7.487,43 Fonte: IBGE, 2010. 30 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Para que se compreenda melhor a tabela, façamos algumas considerações: primeiro, pode-se verificar que, de fato, os estados mais ricos do Brasil estão localizados nas regiões Sul e Sudeste. No Centro-Oeste, o que aumenta a renda per capita é o Distrito Federal, onde a renda anual eleva-se para R$ 45.977,59 por habitante, valor muito superior ao restante do país; nos demais estados dessa região, a renda per capita é menor do que a média brasileira, que é de R$ 15.989,75, conforme o mesmo levantamento de dados do IBGE. Vamos aprofundar essa investigação, verificando agora como se dá a distribuição de renda entre brancos e negros, de acordo com dados do IBGE (2009, p. 187): Comparando a participação relativa dos brancos e de pretos e pardos, na apropriação do rendimento total das famílias, observa-se uma situação indiscutivelmente mais favorável aos brancos. Entre os 10,0% mais pobres, 25,4% se declararam brancos, enquanto 73,7% eram pretos e pardos. Essa relação se inverte entre o 1,0% mais rico: 82,7% eram pessoas brancas e apenas 15,0% eram de cor preta e parda. Vale a pena registrar que em 1998, entre o 1,0% mais rico, a proporção dos que se declararam pretos e pardos era muito menor (8,2%). Esses dados impressionam por registrar uma enorme desigualdade na distribuição da riqueza produzida no Brasil entre brancos e negros. Apesar dos avanços nos índices, se comparados com os dados de dez anos atrás, a distância ditada pela diferença de cor/raça ainda é uma marca no quadro de desigualdade social em nosso país. O gráfico a seguir deixa as informações anteriores ainda mais claras: Distribuição do rendimento familiar per capita das pessoas de 10 anos ou mais de idade, com rendimento, entre os 10% mais pobres e o 1% mais rico, em relação ao total de pessoas, por cor ou raça ‑ Brasil ‑ 1998/2008 72,2 8,2 73,7 15,0 27,4 89,3 25,4 82,7 % 10% mais pobres 1998 (1) 2008 10% mais pobres 1% mais rico 1% mais rico Branca Preta ou parda Figura 6 Tais dados deixam claro, portanto, que a pirâmide social brasileira apresenta cor claramente demarcada entre brancos e negros, infelizmente. Mais uma vez, estamos verificando o “racismo à brasileira”: apesar 31 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL de ele ser negado nos discursos e nas conversas do nosso dia a dia (que reforçam o mito da democracia racial), ele fica evidente a cada levantamento estatístico, em que podemos comprovar múltiplas formas de discriminação e desigualdade às quais pretos e pardos estão sujeitos em nosso país. Outro aspecto bastante relevante nessa análise sobre raça e mercado de trabalho é o fato de que, na maioria das empresas, existe uma espécie de “teto de vidro”, impedindo que negros ocupem os cargos mais altos nas organizações. O Instituto Ethos publicou em novembro de 2010 os resultados da pesquisa Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas, realizada desde 2001 e que “busca traçar o perfil dos funcionários e dirigentes das maiores empresas atuantes no país, observando sua representação em todos os níveis hierárquicos” (INSTITUTO ETHOS, 2010, p. 5). Na parte em que analisam a questão cor/raça, um quadro nos dá a exata dimensão do que estamos tentando dizer. Observe a composição dos cargos mais altos nas 500 maiores empresas do Brasil e, em seguida, a representatividade de negros no quadro geral de funcionários dessas organizações: Composição por cor ou raça (Instituto Ethos, 2010) Pesquisa 2010 Comparação 2001/2003/2005/2007/2010 Ex ec ut iv o Amarelos Negros 0,2% Pretos 5,1% Pardos Brancos 93,3% 1,4% 5,3% 2001 2003 2005 2007 2010 Brancos 95,2% 96,5% 94,4% 94,0% 93,3% Negros* 2,6% 1,8% 3,4% 3,5% 5,3% Amarelos 2,0% 1,7% 2,2% 2,1% 1,4% Indígenas 0,2% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% * A Classificação “negros” reúne “pretos” e “pardos” Ge rê nc ia Amarelos Negros 1,6% Pretos 11,6% Pardos Brancos Indígenas 84,7% 0,2%1,9% 13,2% 2003 2005 2007 2010 Brancos 89,0% 89,0% 81,0% 84,7% Negros 8,8% 9,0% 17,0% 13,2% Amarelos 2,1% 1,9% 1,8% 1,9% Indígenas 0,1% 0,1% 0,2% 0,2% Su pe rv is ão Amarelos Negros 3,1% Pretos 22,5% Pardos Brancos Indígenas 73,0% 0,1%1,3% 25,6% 2003 2005 2007 2010 Brancos 84,2% 84,1% 80,1% 73,0% Negros 13,5% 13,5% 17,4% 25,6% Amarelos 2,2% 2,3% 2,3% 1,3% Indígenas 0,1% 0,1% 0,2% 0,1% 32 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 23 /0 9/ 20 13 Unidade I Qu ad ro f un ci on al Amarelos Negros 7,1% Pretos 24,0% Pardos Brancos Indígenas 67,3% 0,3%1,3% 31,1% 2003 2005 2007 2010 Brancos 74,6% 68,7% 73,0% 67,3% Negros 23,4% 26,4% 25,1% 31,1% Amarelos 1,8% 4,2% 1,4% 1,3% Indígenas 0,2% 0,7% 0,5% 0,3% Figura 7 Apesar de os negros comporem mais de 50% da população brasileira, conforme já analisamos exaustivamente neste livro-texto, perceba que a representatividade dos deles nessas grandes empresas brasileiras é muito pequena e, quanto mais alta a hierarquia, menor é a presença deles, chegando a pouco mais de 5% entre os executivos que comandam tais organizações; muito longe, portanto, da proporção de negros na população nacional. Figura 8 A análise comparativa dos resultados de 2001 a 2010 também é um fator importante para compreendermos a fundo essa questão. Em dez anos, certamente houve avanços na inclusão de negros na