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MICROBIOLOGIA, 
IMUNOLOGIA E 
PARASITOLOGIA 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Catalina Yumi Masuda Nishi 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
A Parasitologia é a ciência que estuda o parasitismo. O parasitismo é uma 
forma de simbiose (literalmente vivendo juntos), uma relação associativa 
complexa entre duas diferentes espécies, composta por três subsistemas: o 
parasita, o hospedeiro e o meio ambiente. Por definição, considera-se um 
parasita um organismo capaz de viver e se reproduzir, o qual encontra seu nicho 
ecológico em outro organismo vivo (hospedeiro), do qual retira os meios para 
sua sobrevivência, prejudicando-o ou vivendo a expensas dele. A relação é 
frequentemente de longa duração para o parasita, o qual não sobrevive sem seu 
hospedeiro ou é incapaz de completar seu ciclo de vida. Não existe organismo 
que não possa ser parasitado. Assim, todo e qualquer ser vivo pequeno, que viva 
em associação com outro organismo, provocando ou não doenças em pessoas 
e animais, é considerado um parasita, independentemente se é um vírus, 
bactéria, fungo, protozoário, helminto ou artrópode. Para efeitos de estudo, ficou 
convencionado que, na parasitologia, seria dado destaque à biologia dos 
protozoários, helmintos e artrópodes; à ecologia do parasitismo com ênfase nas 
interações hospedeiro – parasita e parasita – meio ambiente; assim como 
também no controle e na prevenção das doenças. 
Nesta aula abordaremos alguns aspectos da história da parasitologia e a 
parasitologia no Brasil, para entender sua evolução como ciência no nosso país 
e no mundo. Ademais, estudaremos algumas características da relação parasita, 
hospedeiro e meio ambiente; os ciclos biológicos dos principais parasitas 
humanos e os conceitos de epidemia, endemia e pandemia. Para isso, o 
objetivo geral aqui é compreender o desenvolvimento da parasitologia no Brasil 
e no mundo, bem como os ciclos de vida dos parasitas e suas relações com as 
epidemias, endemias e pandemias. Estes são os objetivos específicos: 
identificar os principais aspectos do desenvolvimento da Parasitologia no Brasil 
e no mundo; caracterizar um parasita, um hospedeiro e um vetor em suas 
relações ecológicas; reconhecer os principais ciclos biológicos de parasitas 
humanos; classificar os parasitas de interesse clínico no Brasil e seus 
respectivos grupos; diferenciar a ação de parasitas em epidemias, endemias e 
pandemias. 
 
 
 
3 
TEMA 1 – HISTÓRIA DA PARASITOLOGIA E A PARASITOLOGIA NO BRASIL 
Durante a relativa curta história dos humanos na Terra, os seres humanos 
têm adquirido um número surpreendente de parasitas, helmintos e protozoários, 
muitos dos quais de forma acidental. Entretanto, alguns parasitas são 
causadores de doenças mundialmente importantes. A evolução humana e as 
infecções parasitárias caminham lado a lado, desde o início dos tempos no 
aparecimento do Homo sapiens; suas migrações, práticas agrícolas e 
assentamentos facilitaram as transmissões das infecções e a disseminação dos 
parasitas. Com o tráfico de escravos para o novo mundo, foram trazidos também 
novos parasitas. Os resultados de estudos arqueológicos em artefatos e múmias 
mostraram a presença de ovos de helmintos e cistos de protozoários em 
coprólitos, fato que deu início a uma nova disciplina, a paleoparasitologia. 
 Os primeiros relatos de indicações sobre infecções parasitárias vêm do 
período da medicina egípcia nos papiros de Ebers, seguidos pelos relatos dos 
médicos gregos com descrições detalhadas de febres e outras moléstias, de 
infecções por vermes (Ascaris, Enterobius, Taenia, Dracunculus) coletadas por 
Hipócrates. Há também relatos de outras civilizações incluindo China, Índia e 
das arábias. Mas a primeira visualização foi feita por Antony van Leeuwenhoek 
no seu microscópio, quando observou e descreveu o protozoário Giardia, que 
denominou animacules. Louis Pasteur investigou a doença pébrine do bicho da 
seda e identificou o protozoário Microsporidian, sendo este estudo o primeiro que 
levou ao controle e prevenção da doença. Com o advento do colonialismo, o 
interesse pelas doenças parasitárias aumentou para poder penetrar nos países 
tropicais após o controle incipiente de infecções como a malária, Kala-azar, 
doença do sono e outras. Por volta de 1860, os fundamentos da ciência 
denominada Parasitologia foram estabelecidos, inicialmente como ramo da 
história natural. Foi nessa época que os parasitas agentes etiológicos da 
hidatidose (Echinococcus granulosus) e a trichinelose (Trichinella spiralis) foram 
descritos. 
A Parasitologia se desenvolveu ao longo dos séculos XIX e XX nos 
laboratórios das universidades e nos hospitais do exército por médicos e 
estudiosos como Laveran, na Argélia; Bunch, na África do Sul; Ross, na Índia; 
Manson, na China; Bancroft, Queensland e Wucherer no Brasil. Em 1872, Timoty 
Lewis descreveu o agente da filariose, o Filaria sanguinis hominis; Bancroft 
 
 
4 
relatou o aparecimento dos parasitas adultos; Manson desvendou parte do ciclo 
da filária e a participação dos mosquitos. Laveran descobre o parasita da malária 
(Plasmodium) e Ross demonstra a sua transmissão pelo mosquito (Anopheles). 
Essas descobertas levaram à criação de escolas de medicina e hospitais para 
estudo dos parasitas tropicais. Na escola de medicina tropical em Liverpool, 
Dutton identificou o primeiro tripanossomo humano, o Trypanossoma 
gambiense, e posteriormente o T. rhodesiense. Depois, foi criada a Escola de 
Medicina Tropical de Londres, e na França, o Instituto de Medicina Colonial e o 
Instituto Pasteur. 
 No Brasil, o histórico da parasitologia caminha ao lado da medicina 
tropical, com a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, com estudos 
voltados para o meio ambiente, criando um amplo programa de saneamento; há 
também a Escola Tropicalista Baiana com identidade própria, integrada por 
vários parasitologistas como Otto Wucherer, John L Paterson e José Francisco 
da Silva Lima, os quais enfatizaram os estudos na etiologia parasitária e não 
mais no ambiente. Foi Wucherer e suas pesquisas relacionadas à 
ancilostomíase, filariose e malária que deram identidade aos Tropicalistas. Em 
1880, após a morte prematura de Wucherer, seus estudos sobre a biologia e 
hábitos dos parasitas encontrados por ele foram retomados por Adolfo Lutz, em 
São Paulo. Em seguida, Oswaldo Cruz criou uma nova escola de medicina 
voltada à saúde pública. Em 1906, na filial do Instituto Manguinhos, em Belo 
Horizonte, Carlos Chagas tornou-se o primeiro pesquisador da história da 
medicina a identificar o vetor (o inseto barbeiro – Triatoma) o agente etiológico 
(o protozoário - Trypanosoma cruzi) e a doença (doença de Chagas), fato que 
consolidou a protozoologia como área de pesquisa e inseriu o instituto O. Cruz 
na comunidade científica internacional. No século XX, no velho mundo, W. B. 
Leishman e C. Donovan descreveram um novo protozoário, o qual Laveran 
denominou Leishmania donovani como o causador do Kala-azar (Leishmaniose 
visceral - LV); C Nicolle encontrou a Leishmania infantum em outros casos de 
LV, e depois Comte encontrou o parasita em cães, mostrando os canídeos como 
um importante reservatório da doença. No Brasil, A.C. Lindenberg descreveu os 
parasitas leishmaniais como L. tropica, mas Gaspar Viana mostra as diferenças 
e propõe o nome de L. braziliensis. No novo mundo, para a LV, encontrou-se 
uma Leishmania ligeiramente diferente ao descrito anteriormente, a qual foi 
denominada de L chagasi. Por último, em 1923, apareceram os primeiros casos 
 
 
5 
autóctones de esquistossomose (Schistosoma mansoni) em São Paulo. Mais 
tarde, encontraram a presença do B. glabrata (caramujo), o hospedeiro 
intermediário que contribuía para a manutenção dos focos da doença. 
 A história mostra que a relação entre as populações de homens, vetores 
e agentes etiológicos é complexa e, apesar dos avançoscientíficos, métodos de 
controle e tratamento, as infecções e infestações persistem e proliferam em 
grande parte pelas condições socioeconômicas, sanitárias e higiénicas 
deficientes encontradas nos países em desenvolvimento. Com o surgimento da 
imunodeficiência adquirida (AIDS), a globalização, os conflitos sociopolíticos e 
econômicos de vários países, o que aumenta a migração forçada, tem sido 
observado o aumento do reaparecimento das doenças parasitárias. 
TEMA 2 – CARACTERÍSTICAS DO PARASITA, HOSPEDEIRO E VETOR 
O parasitismo evoluiu junto como um sistema dinâmico com vários pontos 
de equilíbrio, tornando difícil traçar os limites entre o prejuízo e o benefício. O 
fenômeno ecológico do parasitismo apareceu com o aparecimento da vida no 
planeta, sendo essencial para a diversificação da vida na terra. Essa associação 
tem vantagens sobre a vida independente para os parasitas; há o benefício de 
não precisar procurar por alimento, abrigo, transporte e poder concentrar toda a 
energia na reprodução e na evasão dos mecanismos de defesa do hospedeiro. 
Câmbios em quaisquer dos subsistemas (o parasita, o hospedeiro e o meio 
ambiente) que o compõem causa distúrbios que podem levar à manifestação da 
doença. Ao parasita, interessa a sobrevivência do hospedeiro, pois a morte do 
hospedeiro implica em sua morte também. O sistema busca o equilíbrio, a 
harmonia e a adaptabilidade, mesmo com vantagens de forma unilateral para o 
parasita. 
Assim sendo, nem sempre as infecções parasitárias são responsáveis por 
grandes epidemias, as quais levam à morte um grande número de pessoas em 
curto tempo; algumas infecções não são imediatamente mortais, mas podem 
afetar um grande número de indivíduos, deixando sua condição de vida 
prejudicada por um longo período de tempo, causando problemas na saúde 
pública. Uma dessas doenças foi descoberta no Brasil (a doença de Chagas). 
Na evolução para o parasitismo, os parasitas foram modificando-se para 
proporcionar um melhor relacionamento e adaptação ao hospedeiro. As 
adaptações podem ser morfológicas (perda de órgãos e sistemas); fisiológicas 
 
 
6 
(digestão intracelular, sistemas de osmorregulação, aumento do potencial 
reprodutivo, hipertrofia de órgãos de fixação); nutricionais (otimização para 
máxima absorção de nutrientes); comportamentais (respostas químicas para 
ambientes favoráveis, mudanças comportamentais no hospedeiro intermediário, 
favorecendo seu contato com o hospedeiro definitivo); imunológicas (evasão da 
resposta imune do hospedeiro). 
O hospedeiro, no fenômeno ecológico do parasitismo, refere-se ao 
parceiro provedor de alimento e abrigo aos parasitas, o qual, de certa forma, é 
prejudicado nessa associação. O hospedeiro pode ser definitivo (hospedeiro no 
qual o parasita chega à maturidade sexual ou são recuperados os parasitas na 
fase adulta ou em que ocorre a reprodução sexuada); intermediário (hospedeiro 
que apresenta os parasitas em fase larvária sem maturidade sexual, reproduz-
se de forma assexuada); paratênico ou de transporte (um tipo de hospedeiro 
intermediário que serve de refúgio por tempo indefinido, sem desenvolvimento 
do parasita, até atingir o hospedeiro definitivo, geralmente por predação); 
reservatório (habitat de um agente etiológico, local onde vive, se multiplica e do 
qual é capaz de atingir outros hospedeiros. Pode ser reservatório o ambiente, os 
humanos, animais, plantas, ou a combinação desses). 
O parasita, nessa associação, é o parceiro que vive a expensas do outro 
organismo do qual se beneficia e de certa forma prejudica seu parceiro. Os 
parasitas estudados na parasitologia pertencem ao reino Protista (os 
protozoários) e reino Animalia (Vermes e artrópodes). Os protozoários são 
microrganismos unicelulares eucariontes, e os parasitas animais são 
pluricelulares, invertebrados. Os parasitas podem ser classificados por vários 
critérios: a) segundo o lugar de residência em: ectoparasitas (sobre o 
hospedeiro), endoparasitas (dentro do hospedeiro, podendo ser intracelulares ou 
extracelulares), e hemoparasitas (tipo de endoparasita que se aloja na corrente 
sanguínea do hospedeiro); b) segundo a ecologia (parasitismo) em: obrigatórios 
(só consegue sobreviver no parasitismo, dependência total do hospedeiro), 
facultativos (não dependem de um hospedeiro para sobreviver, pode colonizar 
um organismo ou permanecer em vida livre); facultativo proteliano (é obrigatório 
na fase larval e facultativo na fase adulta); acidentais (parasita outro hospedeiro 
que não seja o seu normal em condições especiais); oportunistas (causam 
doença em pacientes imunodeprimidos); c) segundo a duração do parasitismo 
em: permanentes (passam a vida em todos os seus estágios parasitando o 
 
 
7 
hospedeiro), periódicos ou provisórios (somente são parasitas em uma fase do 
desenvolvimento) e temporários ou intermitentes (utilizam o hospedeiro 
periodicamente para alimentação ou abrigo); d) segundo o habitat em normal 
(parasita se encontra em determinado órgão, tecido do hospedeiro e somente 
assim completa seu ciclo biológico) e extraviado (ocorre em outro hospedeiro 
fora do seu habitat natural); e) segundo o número de hospedeiros em: 
monóxenos (necessitam um único hospedeiro para completar seu ciclo 
biológico) e heteróxeno (quando o desenvolvimento exige uma passagem por 
dois ou mais hospedeiros para completar seu ciclo biológico). 
O vetor pode ser definido como ser vivo (usualmente artrópode) com 
capacidade de carregar e transmitir o parasita, direta ou indiretamente para um 
hospedeiro vertebrado, incluindo os humanos. Os três maiores tipos de vetores 
para as infecções parasitárias são os artrópodes, os caramujos e os roedores. 
Vetores biológicos, em que o parasita de um hospedeiro infectado é ingerido pelo 
vetor, no qual muda e se multiplica na forma infectante. Vetores mecânicos 
transmitem a doença transportando o agente causador de material contaminado 
nas patas e na boca, espalhando os parasitas nos alimentos, água, no rosto e 
nos olhos. A transmissão pode ocorrer via picada (mosquitos, moscas), 
penetração (verme da guiné) ou via gastrointestinal (água e alimentos 
contaminados). 
TEMA 3 – TIPOS DE CICLOS BIOLÓGICOS DOS PARASITAS HUMANOS 
 Por definição, o ciclo de vida, ciclo biológico ou ciclo evolutivo descreve 
a ontogênese, desenvolmiento e reprodução do parasita, reunindo a série de 
transformações que este sofre durante a sua vida nas fases parasítica e não 
parasítica. O conhecimento desse ciclo leva ao entendimento da transmissão do 
parasita, o que é necessário para as medidas de controle e tratamento das 
doenças parasitárias. De forma geral, um ciclo envolve: uma fase no humano 
(ligado à patogenicidade, instalação, crescimento, maturação); fase de liberação 
ou saída (que permite o diagnóstico); fase de desenvolvimento fora do 
hospedeiro (ligada à transmissão); e a fase infecciosa (formas infectivas). Os 
ciclos de vida dos parasitas mostram uma impressionante diversidade em forma 
e complexidade. Alguns parasitas conseguem completar seu ciclo de vida 
infectando um único hospedeiro (monóxenos), ciclo denominado simples ou 
direto (Ascaris lumbricoides, Giardia lambia, Entamoeba histolytica). 
 
 
8 
No ciclo do endoparasita, como no caso do helminto nematódeo A. 
lumbricoides, a infecção ocorre com a ingestão dos ovos embrionados maduros, 
os quais eclodem no duodeno; a larva migra para o pulmão, traqueia e esófago, 
voltando para o intestino delgado, passando para a fase adulta produzindo novos 
ovos imaturos, os quais são eliminados nas fezes, chegando a sua forma 
infectante, reiniciando assim o ciclo. A Giardia lamblia um protozoário flagelado 
binucleado, também possui um ciclo direto ou simples com um único hospedeiro 
para completar seu ciclo que compreende dois estágios: trofozoito e cisto. A 
contaminação ocorre na ingestão de alimentos contaminadoscom cistos viáveis 
do protozoário que, ao atingirem o estómago e duodeno, se rompem pela ação 
das enzimas gástricas e pancreáticas, liberando os trofozoitos (cada cisto libera 
2 trofozoitos), colonizando o intestino delgado, transformando-se novamente em 
cistos que são eliminados nas fezes, contaminando novos hospedeiros ou 
rompendo-se no interior do individuo, aumentando a colonização. 
Figura 1 – Ciclo de vida do Ascaris lumbricoides 
 
Créditos: DESIGNUA/Shutterstock. 
 
 
 
9 
Figura 2 – Ciclo de vida da Giardia Lamblia 
 
Créditos: BULAN WONGHONKAN/Shutterstock. 
Outros parasitas devem negociar sua vida através de várias espécies de 
hospedeiros numa sequência particular para conseguir sucesso na reprodução 
(heteroxeno), ciclo denominado indireto ou complexo (Plasmodium, Taenia, 
Leishmania, Schistosoma mansoni,Trypanosoma, Filaria). 
O ciclo de vida do protozoário Plasmodium, parasita causador da Malaria, 
transmitido pelo mosquito Anopheles, acontece em 2 hospedeiros alternados 
(ciclo indireto ou complexo) e gerações alternadas, assexuada e sexuada. O 
homem é o hospedeiro intermediário, no qual ocorre o estágio assexuado 
(esquizonte e merozoitos), e o mosquito é o hospedeiro definitivo, com o estágio 
sexuado (esporozoitos). O mosquito adquire o parasita ao se alimentar de um 
indivíduo infectado. Dentro do mosquito, ocorre a esporogonia, produzinto os 
esporozoitos. Estes migram e alcançam as glândulas salivares do mosquito que, 
ao se alimentar novamente, transmitirá o esporozoito ao novo hospedeiro, 
transportados via corrente sanguínea até o fígado e infectando os eritrócitos, 
produzindo merozoitos, os quais outro mosquito pode adquirir e reiniciar o ciclo. 
 
 
10 
Outro exemplo de ciclo indireto é o ciclo do platelminto Taenia, parasita 
causador de duas doenças diferentes: a teníase (infecção pelo consumo de 
carnes mal cozidas contendo cisticercos – larvas do parasita) e cisticercose 
(infecção pelo consumo de alimentos contaminados com ovos do parasita). O 
homem é o hospedeiro definitivo, e o boi e o porco são os hospedeiros 
intermediarios. Na teníase, as larvas (cisticerco) evoluem para forma adulta no 
intestino delgado, local onde se fixam e começam a produzir ovos e proglótides 
(segmentos do parasita), os quais são excretados nas fezes e podem contaminar 
o solo, água e alimentos. Na ingestão de ovos, ao chegarem no estómago, estes 
liberam o embrião por via sanguínea, alcançando diferentes tecidos, onde 
desenvolve o cisticerco. 
Figura 3 – Ciclo de vida do Plasmodium 
 
Créditos: DESIGNUA/Shutterstock. 
 
 
 
11 
Figura 4 – Ciclo de vida da Taenia 
 
Créditos: DESIGNUA/Shutterstock. 
Os ciclos de vida dos parasitas, principalmente os complexos, dependem 
da integração de comunidades biodiversas, ao requererem vários hospedeiros e 
vetores diferentes para sua transmissão. Estudos têm mostrado que os ciclos de 
vida dos parasitas são flexíveis (uso de hospedeiros paraténicos, a capacidade 
de truncamento do ciclo, de cambio de número de hospedeiros). A especificidade 
por um hospedeiro decorreu dos esforços do parasita em adaptar a infectividade 
e longevidade num particular hospedeiro. Os parasitas zoonóticos mostram 
variedade de especificidade de hospedeiro devido às vias de transmissão 
usando ciclo selvático, doméstico e antroponótico. O conhecimento das 
estrategias de sobrevivência dos parasitas abre posibilidades para uma melhoria 
nos programas de controle das infecções causadas nos humanos e animais. 
 
 
 
12 
TEMA 4 – PRINCIPAIS PARASITAS E SEUS RESPECTIVOS GRUPOS NO 
BRASIL 
Figura 5 – Parasitas 
 
Créditos: AMPLION/Shutterstock. 
Os protozoários são eucariontes, unicelulares, alguns de vida livre, dentre 
os quais há os que lembram plantas, com plastídios verdes sendo 
fotossintetizantes. Os protozoários evoluíram para se adaptar a todas as 
condições ambientais. Os protozoários parasitas se adaptaram a diferentes 
espécies de hospedeiros. Estes exibem vários tamanhos, formas e estruturas; 
mesmo assim, possuem características essenciais em comum. O protozoário 
típico é limitado por uma membrana trilaminar, sustentado por folhas de fibrilas 
contráteis que permitem a célula mudar de forma e se mover. O citoplasma 
diferencia-se em ectoplasma (serve como órgão de locomoção, para ingestão 
dos alimentos, para respiração celular, para excretar os produtos de descarte e 
proteção) e endoplasma (dentro do qual se encontram o núcleo que pode ser um 
ou vários, com um ou vários nucléolos, e todas as organelas presentes nos 
eucariontes). Existem quatro grupos principais classificados com base na forma 
 
 
13 
de locomoção usando características especializadas subcelulares e do 
citoesqueleto: (1) Amoebae (pseudópodes para movimentação e ingestão de 
nutrientes), como a Entamoeba histolytica, Entamoeba coli, os de vida livre e 
potencialmente patogênicos, como a Ancanthamoeba, Naegleria; (2) Flagelados 
(flagelo com características específicas similares a um chicote; se apresenta 
ligado à membrana, denominando-se membrana ondulante, com centro interno 
de microtúbulos arranjados em configuração específica de 2 microtúbulos 
centrais rodeados por 9 pares periféricos), alguns com um único flagelo e 
cinetoplasto, como Trypanosomas, Leishmanias e sem o cinetoplasto com 
múltiplos flagelos, como Giardia, Trichomonas; (3) Ciliados, com numerosos 
pequenos cílios que ondulam em ondas permitindo as células nadar, com 
estrutura similar aos flagelos, porém com elementos basais interconectados para 
o movimento sincronizado. A maioria dos ciliados são de vida livre, mas alguns, 
como o Balantidium coli, habita o intestino de mamíferos; (4) Sporozoa 
(produzem esporos como fase de transmissão. Estudos recentes mostraram que 
na fase pré-esporos eles se locomovem por pequenas ondulações ou ondas na 
membrana celular, dando um movimento por deslizamento), como o 
Plasmodium, Toxoplasma, Criptosporidium, Pneumocystis carinii. 
Figura 6 – Organismos unicelulares 
 
Créditos: NASKY/Shutterstock. 
Os helmintos são eucariontes, multicelulares, invertebrados com corpos 
cilíndricos ou planos e bilateralmente simétricos; a palavra helminto vem do 
grego helmins – “verme”. Estes podem se diferenciar em Nematódeos (do grego 
 
 
14 
nematos – “filamento”), com o corpo cilíndrico e afilado nos extremos; e 
Platelmintes (do grego platy – “achatado”), com o corpo achatado. Eles possuem 
uma cobertura protetora externa, a cutícula ou tegumento, armada com 
resistentes espinhos e ganchos. A boca pode ter dentes ou placas cortantes. 
Muitos possuem estruturas que atuam como ventosas ou ganchos para adesão 
aos tecidos do hospedeiro. Sem órgão de locomoção, alguns utilizam as 
ventosas para se movimentar. Podem ser hermafroditas ou com sexos 
separados. Muitos são de vida livre, em ambientes aquáticos e terrestres, 
enquanto outros são parasitas de animais e plantas. Os principais helmintos 
conhecidos são: (1) nematelmintos ou nematódeos (cilíndricos, não 
segmentado, alongado com boca anterior e trato digestivo longitudinal, adultos 
com sexos separados e sistema reprodutor desenvolvido) Trichuris trichiura, 
Ancylostoma duodenale, Ascaris lumbricoides, Wuchereria, Onchocerca, (2) 
cestódeos ou taenias (corpo plano como fitas, segmentado, sem sistema de 
alimentação, a cabeça possui ventosas e alguns possuem ganchos, são 
hermafroditas) Diphylobothrium, Taenia, Echinococcus, Hymenolepis, 
Dipylidium; (3) trematódeos (corpo em forma de folha plana, não segmentada, 
com ventosa oral e ventral, canal de alimentação incompleto sem anus, a maioria 
são hermafroditas e alguns apresentam sexos separados) Schistosoma, 
Fasciola, Echinostoma. 
Figura 7 – Helmintos: platelmintos e nematódeos 
 
Créditos: MAROCHKINA ANASTASIIA/Shutterstock. 
 
 
15 
Os parasitas artrópodes possuem simetria bilateral, com esqueleto 
externo, o exoesqueleto,formado pelo tegumento; os principais artrópodes 
incluem os crustáceos, aracnídeos e insetos; a maioria dos parasitas artrópodes 
pertencem a duas classes. Os insetos e os aracnídeos são importantes em 
parasitologia humana como veiculadores de endoparasitas. Alguns também 
conseguem causar moléstias por infestação; são os ectoparasitas. Os principais 
parasitas são o piolho (Pediculus humanus capitis), ácaro (Sarcoptes scabiei) e 
a pulga (Tunga penetrans) 
Figura 8 – Ectoparasitas de interesse em parasitologia humana 
 
Créditos: KITTYVECTOR/Shutterstock. 
TEMA 5 – CONCEITOS DE EPIDEMIA, ENDEMIA E PANDEMIA 
No campo da saúde pública, as palavras endemia, epidemia e pandemia 
denotam a disseminação de uma doença infecciosa; porém, a extensão da 
propagação difere para cada uma. A endemia refere-se às doenças que ocorrem 
 
 
16 
com frequência em uma região delimitada. De acordo com o CDC (Center for 
Disease Control and Prevention), endemia é a constante presença e/ou 
prevalência usual de uma doença ou agente infeccioso numa população dentro 
de uma dada área geográfica. A endemia também pode ser sazonal. Dentro das 
doenças endêmicas do Brasil, encontra-se a doença de chagas, a 
esquistossomose, leishmaniose, tuberculose, dengue e ancilostomose. A 
epidemia refere-se às doenças infecciosas transmissíveis que se disseminam 
em um curto espaço de tempo entre as populações e para outros locais, 
causando um surto, que usualmente é o ponto de partida para uma epidemia, ou 
a propagação rápida entre um grande número de pessoas em uma região ou 
país, em particular fazendo todos ficarem doentes ao mesmo tempo. Pode 
ocorrer quando uma doença nativa começa a afetar grande porcentagem da 
população ou uma doença nova para a região ou país. 
Exemplos recentes de epidemias são o ebola na África ocidental, em 2014 
e 2018, e a sífilis e o sarampo atualmente no Brasil. As epidemias podem 
acontecer em vários níveis; municipal (vários bairros), estadual (várias cidades) 
e nacional (várias regiões). As epidemias que marcaram a história da 
humanidade são a peste negra, a cólera e a gripe espanhola. A pandemia refere-
se às doenças infecciosas e transmissíveis que se espalham por um ou mais 
continentes ou por todo o mundo. É uma epidemia que fugiu dos limites e atingiu 
todo o planeta. Os exemplos são a gripe A (gripe suína), em 2009, e a AIDS, que 
desde seu aparecimento, em 1981, continua se espalhando. O departamento de 
pandemias e epidemias da OMS listou algumas infecções com potencial 
epidémico e pandémico: doenças transmitidas pelo ar – influenza, síndrome 
respiratório agudo severo (SARS), síndrome respiratório por coronavírus do 
oriente médio (MERS-CoV); doenças transmitidas por roedores – plaga ou peste, 
leptospirose, hantavírus, febre de Lassa, tifo murino; doenças transmitidas pela 
água – shiguelose, febre tifóidea, cólera; doenças transmitidas por vetores – 
chikungunya, febre amarela, febre do Nilo, Zika, dengue; febres hemorrágicas – 
ebola e marburg. 
NA PRÁTICA 
Pesquise os ciclos biológicos específicos de Entamoeba histolytica, 
Acanthamoeba, Trypanosoma cruzi, Toxoplasma gondii, Trichuris trichiura, 
Ancilostoma duodenale, Dipylidium caninum, Schistosoma mansoni, 
 
 
17 
determinando se é ciclo direto ou indireto, se é um protozoário ou helminto, se é 
endoparasita ou ectoparasita. 
Saiba mais 
Leia o artigo “Ectoparasitoses e saúde pública no Brasil: desafios para 
controle”, disponível em , e 
reflita se em sua cidade as ectoparasitoses também são um desafio para saúde 
pública. 
 
 
Leituras recomendadas 
 “Doença de Chagas: a construção de um fato científico e de um problema de 
saúde pública no Brasil”, disponível em: 
; 
 “Espécies neotropicais de Leishmania: uma breve revisão histórica sobre sua 
descoberta, ecologia e taxonomia”, disponível em: 
. 
FINALIZANDO 
 Trabalhamos, neste momento, os fundamentos históricos da parasitologia 
no mundo e no Brasil, o fenômeno ecológico do parasitismo, sistema dinâmico 
com os subsistemas hospedeiro, parasita e médio ambiente, as características 
dos principais grupos de parasitas de interesse humano e animal, assim como 
os conceitos de endemia, epidemia e pandemia. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
ARAÚJO, A. et al. Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arq 
Neuropsiquiatr, v. 71, n. 9b, p. 722-726, 2013. 
ARAÚJO, A. et al. Parasitism, the Diversity of life, and Paleoparasitology. Mem. 
Inst. Oswaldo Cruz, v. 98, n. 1, p. 5-11, 2003. 
CABEL, J. et al. Global change, parasite transmission and disease control: 
Lessons from ecology. Phil. Trans R Soc, B 372 20160088. Disponível em: 
. 
Acesso em: 6 out. 2019. 
MASCARINI, L. M. M. Uma abordagem histórica da trajetória da parasitologia. 
Ciência e & Saúde Coletiva, v. 8, n. 3, p. 809-814, 2003.

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