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As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo PR IN CÍ PI O S D O P RO JE TO D E CU RR ÍC U LO (P RI N CI PL ES O F CU RR IC U LU M D ES IG N ) - E D U 50 0 - 3 .2 As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 2/16 Objetivos de Aprendizagem • Compreender como ocorre a inserção das tecnologias nos currículos. • Conhecer alguns programas de inclusão de tecnologia nos currículos. As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo Conteúdo organizado por Natasha Young Buesa em 2022 do livro Convergências entre Currículo e Tecnologias, publicado em 2019 por Siderly do Carmo Dahle de Almeida. https://player.vimeo.com/video/734134695 As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 3/16 Introdução Estamos estudando, e vivenciando, que as tecnologias da informação e comunicação transformaram as formas de se relacionar, e claro, de se comunicar, dos seres humanos. A possibilidade de uso dos telefones móveis, o rápido e fácil acesso às informações (hoje em nossas mãos, literalmente), a digitalização cada vez mais crescente de documentos, substituindo os arquivos físicos em papel, o acesso à literatura digital e a automação de ações cotidianas, como transferir dinheiro, fazer compras, passar por uma teleconsulta, são exemplos que deixam clara a passagem do século XX para o século XXI, período que ficará gravado como de passagem do mundo analógico para o digital. Nos dias atuais, as redes sociais são fundamentais para a transmissão e divulgação rápida de informações, encurtando (ou eliminando) as distâncias (ainda que não sejam físicas) e modificando sobremaneira os modos de ser e de agir. (Wunsch, 2018) Diante desse contexto, as instituições de ensino e seus agentes não poderiam ficar de fora. Portanto, vamos estudar as influências e benefícios das tecnologias no processo educativo, mas principalmente nos currículos. Vejamos primeiro como ocorreu o processo de inserção das tecnologias digitais de informação e comunicação no currículo escolar. Inserção das tecnologias nos currículos A inserção das TICs no currículo escolar no Brasil ocorreu antes do boom no uso da internet como conhecemos hoje. Foi no início da década de 1980, atendendo às recomendações advindas dos encontros realizados pelo Ministério da Educação (MEC), no Projeto Educom. Nele, surgiu a ideia de distribuir em 5 instituições de ensino superior públicas, centros de informática em educação. São elas: a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 4/16 A escolha deveu-se ao fato de elas já desenvolverem pesquisas sobre o uso de computadores como recurso para melhorar a aprendizagem. Cada uma delas organizava seus projetos partindo de problemas, encontrando soluções. Essa proposta inovadora procurava desenvolver um currículo que fomentasse uma formação crítica, empregando a tecnologia para a escolha, aquisição e compartilhamento de informações de forma a construir novos conhecimentos e modificar os antigos, colocando em evidência a mudança necessária no papel do professor, que precisaria ser menos conteudista para ser mais questionador, mostrando aos seus alunos a importância da pesquisa, da descoberta e da dúvida, estimulando a busca pelo saber. (Almeida, 2019) Do início de 1980 até o final de 1990, os softwares educacionais ofereciam programas que pareciam com instruções programadas ou com linguagem de programação, que empregavam a linguagem Logo. Os softwares vinham em disquetes, e mais adiante, em CD-ROM, a cada nova mídia que surgia proporcionava mais interatividade e simultaneidade, principalmente a partir do uso de recursos de hipermídia. Quem se lembra de usar aqueles disquetes enormes e com pouco armazenamento para salvar arquivos ou baixar informações? As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 5/16 Castells (2005, como citado em Tezani 2017), a respeito do uso das novas tecnologias de telecomunicações de 1980 a 1990, explica que elas passaram por 3 estágios: ○ a automação de tarefas; ○ as experiências de usos; e ○ a reconfiguração das aplicações. No caso dos dois primeiros estágios, o processo baseou-se no ‘aprender usando’, e no terceiro no ‘aprender fazendo’, o que causou uma reconfiguração das redes e a descoberta de novas formas de aplicação e uso. (Tezani, 2017) Continuando com nossa trajetória da inserção das TICs no currículo, um docente do Massachusetts Institute of Technology (MIT) chamado Seymour Papert, que tinha trabalhado com Jean Piaget, organizou um movimento que procurava realizar transformações significativas nas práticas pedagógicas, usando computadores para o ensino. Antes, porém, em 1967, junto com Marvin Minsky, um especialista em inteligência artificial (IA), desenvolveu a linguagem de programação chamada Logo, que possibilitava que o usuário executasse seus programas de forma lúdica e fácil. Do ponto de vista da educação, o Logo era simples, porque apresentava características que permitiam aos usuários de diversas áreas e níveis de escolaridade, usá-lo. Do ponto de vista da computação, era uma linguagem complexa, porque apresentava características de 3 paradigmas computacionais diferentes: o procedural, o orientado a objetos e o funcional. Porém, o Logo é mais conhecido pelo primeiro paradigma, o procedural, especialmente o Logo Gráfico, caracterizado pela presença de uma tartaruga no cursor, que se deslocava pela tela com alguns comandos. Esse comando da tartaruga auxiliava os alunos no aprendizado de importantes conceitos matemáticos ligados à geometria, que ficaram conhecidos como ‘geometria da tartaruga’. Vale ressaltar que essa abordagem, denominada ‘construcionista’ (fundamentada no construtivismo de Piaget), visava causar uma intensa mudança no processo de ensino e aprendizagem. As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 6/16 Essa abordagem foi muito utilizada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que se preocupavam com as dificuldades que os alunos do ensino fundamental apresentavam no estudo da matemática, nas escolas públicas. Em 1990, quando Paulo Freire foi Secretário da Educação no município de São Paulo, originou-se o ‘Projeto Gênese’ que procurava unir a tecnologia aos currículos como ferramenta interdisciplinar. Em algumas escolas, iniciou-se uma disciplina voltada para o desenvolvimento de competências de domínio básico dos equipamentos de informática, o que propiciou a inserção no currículo dos conteúdos ministrados nessa disciplina. No entanto, após a inserção de computadores em algumas escolas como apenas ‘mais um recurso disponível’, percebeu-se que essa inserção tinha sido feita da mesma forma que outrora ocorrera com os recursos audiovisuais, sem uma análise anterior sobre as possibilidades de colaboração significativa, de fato, ou seja, sem preparo. De forma a articular as diferentes áreas de ensino com a tecnologia, as instituições tentaram usar o computador no desenvolvimento de projetos. Assim, a informática seria usada pelos estudantes como uma ferramenta para solucionar um problema ou implementar um projeto, percebendo-se que para ter sucesso nesse feito, seria necessário o apoio político pedagógico institucional, bem como redefinir os conceitos de conhecimento, de ensino e de aprendizagem. Saiba Mais Para conhecer um pouco mais sobre a Geometria da Tartaruga, leia os seguintes textos: Atractor. (2010) No rastro da tartaruga. https://www.atractor.pt/ publicacoes/270.pdf Acessado em 06 de outubro de 2023. Motta, M. S. (2008). Contribuições do superlogo ao ensino de geometria do sétimo ano da educação básica[Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais]. https:// bit.ly/pdf Acessado em 08 de abril de 2025. https://www.atractor.pt/publicacoes/270.pdf https://www.atractor.pt/publicacoes/270.pdf https://www.pucminas.br/pos/ensino/Dissertacoes/Motta,%20Marcelo%20Souza.pdf As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 7/16 A partir de então, foram surgindo diversos programas dos governos federal, estadual e municipal, e estímulos das instituições privadas de ensino que fomentaram a inserção das tecnologias de informação e comunicação nos currículos, atraindo a atenção dos estudantes de todos os níveis de ensino, mas preocupando-se, também com a formação e preparo dos professores para essa nova realidade. (Almeida, 2019) Programas de inclusão de tecnologia nos currículos A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), de 1997 a 1998, em uma parceria com a Secretaria de Estado de Educação de São Paulo (SEE/SP), criou o subprojeto ‘Informática na Educação’ (inserido no Programa de Educação Continuada - PEC), voltado para a formação docente, de forma a conseguirem inserir o computador nos conteúdos curriculares, com novas propostas para a formação e conhecimento sobre esse equipamento como ferramenta para que os estudantes fossem capazes de aprender sozinhos, realizando pesquisas e descobertas. Foi nessa época que surgiu o Programa Nacional de Informática na Educação, o ProInfo, que implantou 119 núcleos de tecnologia educacional em 26 Estados e no Distrito Federal, desenvolvendo cursos de especialização em informática que foram oferecidos a 1419 multiplicadores desses núcleos. https://player.vimeo.com/video/734135070 As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 8/16 Para o ano de 1999, a proposta era de entrega de 30 mil computadores a escolas e outros 100 núcleos e a previsão para 2002 era a de atender 6 mil escolas. (Almeida, 2019) Figura 1 - ProInfo - planejado x realizado Fonte: Valente, 2016, p. 61, como citado em Almeida, 2019, p. 97 Percebe-se que poucas metas foram superadas. Há que se reforçar que até então ainda não tinha sido possível a convergência entre as TICs e os conteúdos inseridos nos currículos. A partir de 2007, o ProInfo se transforma em ProInfo Integrado, propondo fornecer infraestrutura e treinamento, assim como a criação de comunidades virtuais e o oferecimento de conteúdos e recursos digitais para conectar tecnologia e educação. Por meio do ProInfo Integrado, o Ministério da Educação (MEC) desenvolveu várias estratégias para implementar as tecnologias nos currículos. Seguem algumas das que vêm sendo implementadas há pouco mais de 10 anos e que podem ser encontradas no Portal do Ministério da Educação: ● Cursos de extensão do ProInfo Integrado: são cursos que articulam as tecnologias no dia a dia do sistema escolar, distribuindo equipamentos nas escolas e oferecendo conteúdos e recursos tecnológicos pelo Portal do Professor, pela TV Escola, pelo Domínio Público e pelo Banco Internacional de Objetos de Aprendizagem. São cursos dos mais básicos aos mais avançados para que os professores possam inserir as tecnologias em suas práticas. As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 9/16 ● Mídias na Educação: são cursos de extensão, aperfeiçoamento e especialização, oferecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), desde 2009, aos professores da educação básica. ● Projeto UCA (um computador por aluno): desenvolvido desde 2007, é a primeira real iniciativa governamental de integração da tecnologia ao currículo para a educação como um todo e não apenas como um projeto de inserção de laboratórios exclusivamente para aulas de informática. Os dados do projeto indicam que, em 2009, foram inseridos 150 mil laptops em 350 escolas públicas do Rio de Janeiro, São Paulo, Tocantins, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. ● Banda larga nas escolas: foi um programa lançado em 2008 pelo governo, com gestão do MEC, em parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o Ministério das Comunicações, mais o Ministério do Planejamento e as Secretarias de Educação dos Estados e municípios, para oferecer infraestrutura e levar a internet às escolas públicas, com manutenção até o ano de 2025. Considerando que este último projeto não foi desenvolvido a contento, em 2015, ao ocorrer o ‘Seminário Escolas Conectadas: equidade e qualidade na educação brasileira’, escolas públicas e privadas propuseram a universalização das tecnologias nas escolas, com disponibilidade de ferramentas e equipamentos acessíveis e interativos, o fomento técnico-profissional para os docentes, o suporte necessário para as áreas de infraestrutura, para os desenvolvedores e para os próprios docentes. (Conselho Nacional de Secretários de Educação - Consed, 2015, como citado em Almeida, 2019) Vale ressaltar que a implantação de projetos e programas por parte do governo deixa muito a desejar no que se refere à integração dos programas que são oferecidos. Há um grande esforço sendo feito para se oferecer um produto de qualidade, no entanto, o que se observa é que não existe um envolvimento dos estados e municípios, portanto o engajamento da comunidade escolar quase não existe, e termina sendo ouvida apenas quando da implantação dos projetos, causando insatisfação nos alunos e professores. Uma pena! As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 10/16 Em Resumo Pudemos aprender, ao longo desta aula, que a inserção das TICs no currículo escolar brasileiro ocorreu antes do boom no uso da internet como conhecemos hoje em dia, mais precisamente, no início da década de 1980, atendendo às recomendações advindas dos encontros realizados pelo Ministério da Educação (MEC), no Projeto Educom. Também acompanhamos algumas estratégias que foram sendo implementadas ao longo do tempo. No entanto, ainda percebe-se que para que exista, realmente um verdadeiro vínculo entre tecnologia e educação é necessário criarmos, a cada dia, possibilidades de ensino significativo, e não apenas empregar recursos tecnológicos para transmitir os conteúdos de uma forma ‘digital’, sem inovação, sem novas metodologias, sem motivar os estudantes do século XXI que são hiperativos e que precisam de novos tipos de motivação. Saiba Mais Para conhecer um pouco mais sobre os projetos do Ministério da Educação do Brasil acesse o portal: https://www.gov.br/mec/pt-br Acessado em 06 de outubro de 2023. https://www.gov.br/mec/pt-br As tecnologias digitais de informação e comunicação e o currículo • 11/16 Na ponta da língua Referências Bibliográficas Almeida, Siderly do Carmo Dahle de. (2019). Convergências entre currículo e tecnologias. [livro eletrônico]. Curitiba: InterSaberes. Tezani, Thaís. (2017) Tecnologias da Informação e comunicação no ensino. São Paulo: Pearson Education. Wunsch, Luana Priscila. (2018) Tecnologias na Educação: conceitos e práticas. Curitiba: InterSaberes. https://player.vimeo.com/video/734135400 Im ag en s: Sh utt er st oc k LIVRO DE REFERÊNCIA: Convergências entre Currículo e Tecnologias Siderly do Carmo Dahle de Almeida. Intersaberes