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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ NÚCLEO DE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA LICENCIATURA PLENA EM HISTÓRIA PROFª. ANTONIA VALTÉRIA MELO ALVARENGA TEORIA DA HISTÓRIA II ATIVIDADE I 1-Explique o que é a Teoria da História e discorra sobre como ela se relaciona com a Filosofia na construção do conhecimento histórico. Segundo Rüsen, a teoria da história é uma área de estudo que organiza, fundamenta e guia a prática da historiografia. Em outras palavras, ela não se limita a analisar a produção histórica, mas também cria bases racionais para que essa produção seja acessível, crítica e cuidadosa. Rüsen sugere uma teoria da história que foca no papel da narrativa histórica em direcionar a vivência humana ao longo do tempo. De acordo com sua perspectiva, a teoria histórica se organiza em três camadas fundamentais: Teoria da história enquanto epistemologia: Diz respeito à maneira como se elabora o conhecimento histórico. Abrange debates acerca de técnicas, fontes, critérios de veracidade e legitimidade. Mantém uma conexão direta com a filosofia da ciência. Abordagem histórica como método: Refere-se aos métodos e técnicas empregados por historiadores para compreender o passado, incluindo a análise de documentos, a avaliação de fontes e a estruturação de narrativas, entre outros aspectos. A teoria da história enquanto teoria da cultura histórica representa uma das contribuições mais significativas de Rüsen.Ele acredita que a história desempenha um papel cultural fundamental na orientação temporal. Em outras palavras, a narrativa histórica auxilia as comunidades a perceber sua situação no tempo, atribuindo significado ao presente a partir da análise do passado. A conexão com a filosofia, conforme Rüsen, a teoria histórica está intimamente ligada à filosofia, pois: O pensamento filosófico é essencial para analisar de forma crítica os conceitos de verdade, significado, tempo, causa e subjetividade. Pressuponha que o entendimento histórico não é imparcial, mas está imerso em contextos históricos e culturais, um assunto também abordado pela filosofia atual. Procura uma justificativa lógica para uma atividade (a historiografia) que, por sua natureza, envolve valores, interpretações e decisões. Adicionalmente, Rüsen é afetado por tradições filosóficas como a hermenêutica e o pensamento pós-crítico, sugerindo que a história deve ser vista como uma maneira de consciência histórica, que estrutura vivências temporais através de relatos. De acordo com Rüsen, a teoria da história é uma análise crítica de como os humanos interagem com o tempo através da história. Sua conexão com a filosofia é fundamental, não secundária, pois é a partir dessa fundamentação que o conhecimento histórico pode ser apreciado como uma forma legítima e direcional de saber. 2-Analise a natureza científica do conhecimento histórico, considerando os métodos utilizados pelos historiadores e as críticas filosóficas relacionadas à objetividade e subjetividade na História. A discussão sobre o conhecimento histórico como ciência traz complexidades que envolvem tanto os métodos usados pelos historiadores quanto as críticas baseadas na distinção existente em filosofia sobre a objetividade e subjetividade da disciplina. De fato, embora a História não seja considerada uma ciência exata, a disciplina busca “ciência” com riscos mais rigorosos, criados dentro de seus próprios critérios – ou seja, alicerçada sobre evidência e bem-humor, bem como coerência narrativa. Desde o método, o trabalho de intelectuais investigadores é guiado por procedimentos rígidos, seleção e crítica de fonte. De fato, é por meio da contextualização, comparação e formulação de hipóteses interpretativas que a disciplina obtém um caráter científico, pois seu conhecimento sempre será um saber provável, mas ancorado em dados e em uma argumentação lógica. Contudo, ela não se sustenta somente pela narração subjetiva ou pela mera acumulação de dados, mas por meio de análise crítica da fonte, esclarecendo pressupostos e trabalhando com a evidência plausível do humano ao longo do tempo. No entanto, mesmo assim, a pretensão científica que definitivamente adquiriu durante a modernidade ainda foi manchada por pontos opinativos. Em seguida, a história é confrontada com críticas filosóficas à sua objetividade. Correntes filosóficas como o pós-modernismo e a hermenêutica se opõem à afirmação objetiva sobre o passado. De acordo com elas, todo conhecimento historiográfico está “cheio” de linguagens, valores culturais e perspectivas contemporâneas, não apenas os valores dos próprios historiadores, mas até mesmo sua subjetividade. Em parte, isso ocorre porque o passado não tem material do qual pode ser extraído sem transformar sua estrutura. Rüsen expressou a idéia de que a história, embora uma disciplina científica, ainda significa necessariamente ações, baseia na validade e na importância atribuídas a interpretações, não na verdade. Para Rüsen, a História deve ser compreendida como forma de conhecimento segundo a função cultural fornecida pela narrativa histórica que acompanha a experiência temporal. Essa definição valida a concepção do histórico de ciência humana, cuja objetividade, alinhada ao caráter das fontes, é contrabalanceada pela subjetividade da interpretação. Assim, a História é científica na medida em que demanda execução de métodos rigorosos e um desenvolvimento lógico e racional de argumentos, mas essa característica coexiste com a subjetividade do cientista. Essa perspectiva continua a nos permitir conceber a História como uma ciência humana, porque considera como ela se movimenta entre a objetividade procurada nas fontes e a subjetividade inevitável na interpretação. Dessa maneira, a natureza científica da História é baseada no uso de métodos estritos e na construção racional de interpretações justificadas; contudo, a história difere das ciências naturais porque tratam de significados, contextos e ações humanas, o que pressupõe que você tenha que admitir os limites da objetividade e o papel produtivo da subjetividade na gênese do conhecimento histórico. 3-Discorra sobre como diferentes perspectivas filosóficas influenciaram as interpretações históricas ao longo do tempo, dando exemplos de como essas influências moldaram a compreensão de eventos históricos específicos. As diferentes perspectivas filosóficas tiveram um grande impacto na interpretação dos historiadores sobre os eventos do passado, não só os métodos usados, mas também os sentidos atribuídos à história. Cada escola filosófica, ao propor a sua visão do tempo, causalidade, a verdade e o sujeito, influenciou significativamente a historiografia e as narrativas históricas. Influência das vertentes filosóficas nas interpretações históricas Nesse âmbito, Mello argumenta que as interpretações históricas são profundamente influenciadas por concepções filosóficas, que moldam tanto o modo como o passado é concebido, como os eventos que são estudados. O idealismo histórico (Hegel) Entende-se a história como um processo razoável; o Espírito (Geist) se desenvolve a partir dos conflitos. A Revolução Francesa é interpretada como a realização de uma etapa do progresso razoável da humanidade – a realização da liberdade enquanto princípio abrangente. O materialismo histórico (Marx) As estruturas econômicas e sociais são percebidas como instrumentos da história, caracterizada pela luta de classes. A Revolução Industrial é vista como uma transformação estrutural do feudalismo ao capitalismo, marcada pela exploração do proletariado e a consolidação do poder burguês. Positivismo (Comte, Ranke) Pressupõe a objetividade, o uso metódico das fontes e a linearidade histórica dos acontecimentos. A expansão europeia na América tinha por muito tempo a narrativa de "descobrimento", acentuando o avanço civilizacional do europeu, sem questionar a violência colonial. Estruturalismo e Annales Influenciados, por Lévi-Strauss e pela linguística estruturalista, e pelos historiadores como Braudel,voltam o foco para estruturas de longa duração (economia, geografia, mentalidades). A Peste Negra do século XIV é entendida não como um evento, mas como parte do sistema das estruturas sociais e econômicas de longa duração. Pós-modernismo (Foucault, Derrida, Hayden White) Critica a possibilidade de se ter uma narrativa neutra em história, sendo a história uma construção discursiva, atravessada pela linguagem, pelo poder e pela ideologia. A escravidão no Brasil é lida como narrativas construídas para legitimar essas estruturas racistas assim como os silêncios da história oficial se tornam objeto de problematização. Essas diferentes visões mostram que a história não é só um amontoado de fatos, mas um trabalho de interpretação guiada por circunstâncias filosóficas e políticas. A cada mudança de ótica, novas vozes são alcançadas, novos temas se tornam importantes, e ocorrências anteriormente negligenciadas são agora entendidas. A análise proposta por Ricardo Mello aponta que a teoria da história, longe de ser um espaço da abstração, é ela mesma responsável por operar na maneira como o passado é entendido e narrado, em direta ligação com as correntes filosóficas que lhe possuem. A compreensão dos fenômenos históricos é, assim, um fenômeno dinâmico e depende de origem do “lugar de fala” do historiador, das questões do presente e dos referenciais teóricos escolhidos. image1.jpeg image2.png