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Saúde Mental UNIDADE 2 Objetivos Definição Explicando Melhor Você Sabia? Acesse Resumindo Nota Importante Saiba Mais Reflita Atividades Testando Para o início do desenvolvimento de uma nova competência Houver necessidade de apresentar um novo conceito Algo precisa ser melhor explicado ou detalhado Curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias. Se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast. Quando for preciso fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens Quando necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento As obsevações escritas tiveram que ser priorizadas para você Textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do se conhecimento. Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada Quando uma compeência for concluída e questões forem explicadas. Sumário Dispositivos da saúde mental O que são dispositivos da saúde mental Unidades Básicas de Saúde Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) Centros de Convivência e Cultura Programa “De Volta para Casa” Serviço Residencial Terapêutico (SRT) Hospital-Dia Leitos de retaguarda em Hospitais Gerais (noturno/feriado/final de semana) Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) Integração e redes sociais em saúde mental Conceito de redes sociais Mapa de redes sociais Redes sociais em saúde mental Importância das redes sociais em saúde mental Rede social no auxílio ao tratamento 6 CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO 17 Sumário Atenção e cuidado em saúde mental A relação familiar no passado A importância da relação familiar Dificuldades na inserção da família no cuidado O cuidado com o cuidador Matriciamento em saúde mental O que é matriciamento em saúde mental Instrumentos do processo de matriciamento em saúde mental Elaboração do projeto terapêutico singular no apoio matricial de saúde mental Interconsulta como instrumento do processo de matriciamento Dificuldades na implantação da equipe de apoio matricial 29 41 CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO 1 Dispositivos da saúde mental Saúde Mental Capítulo 1 Dispositivos da saúde mental Objetivos O movimento pela luta antimanicomial levou a uma progressiva substituição por uma rede de atenção em saúde mental composta de uma série de serviços e ações de saúde mental no Sistema de Saúde. Neste capítulo, vamos conhecer melhor essas ações, como são realizadas, de que forma são integradas ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à Estratégia de Saúde da Família (ESF) e como substituem a internação por longa permanência. Pronto para aprofundar seu conhecimento? Então vamos lá! O que são dispositivos da saúde mental A Reforma Psiquiátrica no Brasil aconteceu, e ainda acontece, de forma lenta, porém, tendo a desinstitucionalização como principal vertente levando à construção de outras estruturas para tratamento das pessoas com sofrimento psíquico. Este processo foi viabilizado pela Lei n.º 10.216/2001 garantindo a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, redirecionando o modelo assistencial em saúde mental. Com esse redirecionamento se tornou necessário modificar as ações e os serviços de saúde mental, por meio de um conjunto de atividades capazes de oferecer condições amplas à recuperação dos indivíduos, para neutralizar os efeitos da doença e das internações psiquiátricas sucessivas. A reabilitação acontece por meio de uso de recursos individuais, familiares e da comunidade, dando ao indivíduo oportunidade para a restituição da identidade pessoal, social e a autonomia. A Lei n.º 10.216/2001 estabelece que essa reabilitação deve acontecer em base comunitária e próximo ao convívio com a família e a sociedade. Para isso, foram criados equipamentos e dispositivos em saúde mental ou serviços substitutivos, os quais são chamados os serviços de atendimento em saúde mental na comunidade, formando Dispositivos da saúde mental Capítulo 1 uma rede de atendimento psicossocial. Cada município deve determinar suas ações e seus serviços de saúde mental baseados em processos coletivos garantindo o direito ao acesso à atenção em saúde mental e aos programas existentes. Esses serviços fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), responsável pela articulação desses serviços. Entre eles estão: Unidades Básicas de Saúde; Centros de Atenção Psicossocial (Caps); Centros de Convivência e Cultura; Unidades de Pronto-Atendimento (UPA); Serviço Residencial Terapêutico (SRT); leitos de retaguarda em Hospitais Gerais (noturno/feriado/ final de semana); Programa “de Volta para Casa”; Hospital-Dia; grupos de Produção; ações intersetoriais; mobilização; controle social e a desconstrução do Hospital Psiquiátrico. Entendendo quais são os dispositivos e como eles funcionam, conseguimos entender melhor o processo de cuidado do paciente com transtornos mentais. Por isso, vamos conhecer os principais dispositivos da saúde mental (FIGUEIREDO; CAMPOS, 2009; ZAMBENEDETTI, 2009). Saúde Mental Definição Esses serviços substitutivos são um conjunto de dispositivos sanitários e socioculturais para a integração das várias áreas da vida do indivíduo, como educação, assistencial e de reabilitação. I I M A G E M 1 Atendimento psicossocial F O N T E Freepik Capítulo 1 Unidades Básicas de Saúde A Atenção Básica teve, e ainda tem, um papel importante no processo da Reforma Psiquiátrica, pois, é por meio dela que se estrutura a rede de atendimento à saúde mental principalmente em municípios pequenos. Isso porque municípios com menos de 20 mil habitantes não dispõem de serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico, tais como: os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), leitos em hospitais gerais e Ambulatórios. Dessa forma, a Atenção Básica se torna responsável por organizar e desenvolver o atendimento a esses pacientes com o objetivo de acolher e estabelecer vínculos terapêuticos. Nesses casos, o médico da equipe de ESF deve ser generalista com capacitação em saúde mental e deve dispor de um técnico de saúde mental, de nível superior, para desenvolvimento do apoio matricial que é essencial no acompanhamento do paciente. atendimento central da Atenção Básica acontece nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), e o acompanhamento dos pacientes com transtornos mentais está vinculado às ações e aos serviços das equipes de Estratégia de Saúde da Família (ESF), isso para se fazer um acompanhamento não apenas de consultas, mas também verificando o convívio desse indivíduo com a família e a sociedade. Dessa forma, torna-se um campo de práticas e de produção de novos modelos de cuidado em saúde mental, tendo como proposta os cuidados dentro dos princípios da integralidade, da interdisciplinaridade, Nos casos mais graves, a equipe presta o atendimento ao paciente e é responsável pelo controle e, algumas vezes, pela aplicação da medicação juntamente com a avaliação Dispositivos da saúde mentalSaúde Mental Reflita Sabemos da necessidade do acompanhamento dos pacientes com transtornos mentais e que a ESF é de extrema importância, mas, sabendo que este perfil de paciente deve ter um cuidado mais especializado como o CAPS, será que a ESF dos municípios pequenos tem estrutura para isso? Em contrapartida, será que em uma população pequena ter essa estrutura não afetaria financeiramente as demais ações e serviços de saúde? Dispositivos da saúde mental Capítulo 1 médica e acompanhamento psicológico. Nos demais casos, o controle e aplicação são responsabilidade do próprio paciente ou responsável, isso porque entende-se que ele é capaz desse autocuidado. Entre as atividades da equipe, está a visita domiciliar, a qual é definida como instrumento de realização da assistência domiciliar,mais graves ou crônicos. O matriciamento visa a dar suporte técnico a essas equipes, bem como a estabelecer a corresponsabilização. (GAZIGNATO; SILVA, 2014, p. 298) O Apoio Matricial às equipes da atenção básica deve partir dos Caps, dado que são serviços que ocupam lugar central na proposta da reforma psiquiátrica e seus dispositivos principais. São considerados ordenadores da rede de saúde mental, direcionando o fluxo e servindo de retaguarda tanto para as residências terapêuticas como para a atenção básica (DIMENSTEIN et al., 2009). O matriciamento pode ser entendido como uma estratégia de trabalho em rede, ou seja, mediante a integralidade dos serviços de saúde, uma das diretrizes do SUS. (GAZIGNATO; SILVA, 2014, p. 298) Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 • Para integração do nível especializado com a atenção primária no tratamento de pacientes com transtorno mental, apoiando na adesão ao projeto terapêutico de pacientes com transtornos mentais graves e persistentes em atendimento especializado em um Caps. • Quando a equipe de referência sente necessidade de apoio para resolver problemas relativos ao desempenho de suas tarefas, como dificuldades nas relações pessoais ou nas situações especialmente difíceis encontradas na realidade do trabalho diário. (AOSANI; NUNES, 2013; SILVA, 2014; CHIAVERINI, 2011; CAMPOS; DOMITTI, 2007). Assim, uma das principais estratégias desenvolvidas pelo Caps para o desenvolvimento de uma rede de atenção é a implantação do matriciamento ou apoio matricial, entendido como “um novo método de geração de saúde em que duas ou mais equipes, em processo de construção conjunta, criam uma proposta de intervenção terapêutica educativa” (CHIAVERINI et al., 2011, p. 13). Pegoraro, Cassimiro e Leão (2014, p. 622) afirmam que: No campo da saúde, a palavra matricial indica a possibilidade de “sugerir que profissionais de referência e especialistas mantenham uma relação horizontal e não vertical, como recomenda a tradição dos sistemas de saúde” (CAMPOS; DOMITTI apud Penido et al. 2010, p. 472). Por sua vez, o termo apoio indica uma relação horizontal, sem autoridade, baseada em procedimentos dialógicos. Os mesmos autores destacam que o apoio matricial pode ser desenvolvido através da troca de conhecimentos, do fornecimento de orientações, de intervenções conjuntas e de intervenções complementares realizadas pelo apoiador, mas sempre com a equipe de referência com a responsabilidade pelo caso, ainda que apoio especializado se faça necessário em diferentes momentos. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 Instrumentos do processo de matriciamento em saúde mental Os instrumentos utilizados pelos profissionais da equipe de apoio para a realização do matriciamento consistem na elaboração do projeto terapêutico singular no apoio matricial de saúde mental, a interconsulta, a visita domiciliar conjunta, o contato a distância, o genograma, o ecomapa, a educação permanente em saúde mental e a criação de grupos na atenção primária à saúde. Por meio do matriciamento, a ESF passa a ter instrumentos e conhecimento suficientes para a assistência em situações de crise atuando além dos cuidados básicos de prevenção aos agravos em saúde. Vamos conhecer alguns desses instrumentos (AOSANI; NUNES, 2013; SILVA, 2014; CHIAVERINI et al., 2011; CAMPOS; DOMITTI, 2007). Elaboração do projeto terapêutico singular no apoio matricial de saúde mental Os projetos elaborados podem ser territoriais, coletivos, familiares ou até o individual, exigindo um foco abrangente incluindo o entorno. Chiaverini et al. (2011) descreve um guia prático de matriciamento em saúde mental, é possível encontrar um roteiro para a discussão de casos para orientar a coleta de informações com a equipe da ESF. O autor recomenda aos matriciadores abordarem a equipe referência reforçando as atitudes positivas, além disso, é importante que as discussões busquem formulação diagnóstica, mas principalmente compreendam a situação em suas várias faces de maneira a abrir uma agenda interdisciplinar. Importante No momento da interação entre as equipes, os profissionais da ESF podem descrever sintomas que não chegam a configurar diagnósticos psiquiátricos, mas a equipe de apoio deve reforçar a capacidade da equipe referência de identificar quadros mesmo sem precisão psicopatológica potencializando o que pode ser feito dentro da atenção primária. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 Na construção do projeto terapêutico singular, deve conter: • Abordagens biológica e farmacológica. • Abordagens psicossocial e familiar. • Apoio do sistema de saúde. • Apoio da rede comunitária. • Trabalho em equipe: quem faz o quê. Esse projeto auxilia e direciona a equipe referência, mas não busca a total autossuficiência dela, tendo a retomada periódica para atualizar o caminhar de cada caso para repactuar e reformular novos projetos terapêuticos e avaliar o que deu certo e o que deixou a desejar (AOSANI; NUNES, 2013; SILVA, 2014; CHIAVERINI et al., 2011; CAMPOS; DOMITTI, 2007). Interconsulta como instrumento do processo de matriciamento A interconsulta é considerada o principal instrumento do apoio matricial na atenção primária; por definição, é uma prática interdisciplinar para a construção do modelo integral do cuidado, isto é, uma ação colaborativa entre profissionais de diferentes áreas. Essa modalidade envolve desde discussão de caso por parte da equipe como consulta e visitas domiciliares conjuntas permitindo a construção de uma compreensão integral do processo saúde-doença devido à interdisciplinaridade da equipe. As discussões de casos são uma das etapas do processo que sempre devem estar presente, deve-se entender o motivo pelo qual aquele caso deve ser discutido, a situação atual analisa o contexto e verifica os recursos positivos disponíveis além do principal objetivo do cuidado (AOSANI; NUNES, 2013; SILVA, 2014; CHIAVERINI et al., 2011; CAMPOS; DOMITTI, 2007). Dificuldades na implantação da equipe de apoio matricial Entre as dificuldades que a equipe de apoio matricial pode encontrar, uma das mais relevantes está no fato de as equipes referência não possuírem uma definição clara sobre o apoio matricial, apresentando dúvidas referentes ao conceito e dificuldades para empregar a metodologia. Isso porque, sem entender o que é o apoio matricial, não é possível identificar a percepção e as experiências com o matriciamento. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 Além disso, a falta de entendimento de como funciona o matriciamento faz com que a equipe de ESF compreenda que a atividade da equipe de apoio esteja relacionada a trocas de favores, mas a real função é suporte às atividades da equipe referência. Entre os desafios encontrados pela equipe de apoio, está a política de saúde mental infanto-juvenil, pois, historicamente, a criança ainda possui pouca visibilidade no cenário da saúde mental, além dos profissionais da ESF não possuírem formação para atuar com problemas de saúde mental nessa faixa etária aparecendo dificuldades de identificar casos que seriam importantes de ser estudados (CHIAVERINI et al., 2011; SALVADOR; PIO, 2016). Resumindo E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o matriciamento é uma ferramenta de auxílio para a atenção básica que contribui para identificar e acompanhar pacientes com transtornos mentais. Além disso, é considerado de grande importância, mas, muitas vezes, é desconhecido pelos próprios profissionais da equipe referência que não conseguem atuar de formar eficaz. Saúde Mental Referências AOSANI, T.; NUNES, K. A saúde mental na atenção básica: a percepção dos profissionais de saúde. Revista Psicologia e Saúde, [s. l.], v. 5, p. 71-80, jul./dez. 2013. Disponívelem: http:// pepsic.bvsalud.org/pdf/rpsaude/v5n2/v5n2a02.pdf. Acesso em: 3 jun. 2023. BARROS, R.; TUNG, T.; MARI, J. Serviços de emergência psiquiátrica e suas relações com a rede de saúde mental brasileira. Revista Brasileira de Psiquiatria, [s. l.], v. 32, 2010. Disponível em: http:// www.scielo.br/pdf/rbp/v32s2/v32s2a03.pdf. Acesso em: 3 jun. 2023. BORBA, L. de O. et al. 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Saúde Mentalsendo constituída pelo conjunto de ações para viabilizar o cuidado às pessoas com algum nível de alteração no estado de saúde (dependência física ou emocional) ou para realizar atividades vinculadas aos programas de saúde. Para isso, à equipe de saúde da família cabe reconhecer quando o núcleo familiar precisa de apoio, além de entender que a família tem o papel fundamental para o bom desenvolvimento do cuidado ao paciente (AOSANI; NUNES, 2013; CORREIA, 2011). Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) Segundo o Ministério da saúde, os CAPS podem ser definidos como: Esses centros têm como objetivos não apenas o atendimento médico e psicológico, mas também a atenção na rede de cuidados à saúde mental garantindo o acesso e a equidade, levando direito e autonomia aos pacientes por meio da assistência realizada por equipe multidisciplinar. Dessa forma, essa equipe é baseada em um trabalho comunitário, humanizador e reintegrador do ser humano no contexto social, trazendo novo significado individual e social para os usuários desses serviços. Saúde Mental Definição São pontos de atenção estratégicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): serviços de saúde de caráter aberto e comunitário constituído por equipe multiprofissional e que atua sobre a ótica interdisciplinar e realiza prioritariamente atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, em sua área territorial, seja em situações de crise ou nos processos de reabilitação psicossocial e são substitutivos ao modelo asilar. Capítulo 1 As atividades são desenvolvidas por intermédio de Projeto Terapêutico Singular (PTS) estando relacionados com a equipe, o indivíduo e a família, assim, o PTS acaba sendo individualizado de acordo com as necessidades do paciente. É importante que a estrutura do CAPS, independente da modalidade, seja acolhedor, remetendo ao convívio em casa e com a família, para que seja atrativo ao paciente para ser possível acompanhar o usuário, em sua história, cultura, projetos e vida cotidiana indo além do próprio serviço, sendo também um suporte social, saberes e recursos dos territórios. Apesar de serem individualizadas, não são, necessariamente, individuais, algumas dessas ações são coletivas, outras junto com as famílias e ainda ações voltadas para as famílias. Até aqui entendemos de forma superficial as ações e os serviços do CAPS, mas posteriormente aprofundaremos este tema com mais detalhes, por isso, vamos agora conhecer os próximos dispositivos da saúde mental (LEAL; ANTONI, 2013; BRASIL, 2015; RIBEIRO, 2018). Centros de Convivência e Cultura A partir de uma avaliação dos profissionais responsáveis pelo paciente, é importante que o tratamento tenha continuidade em outros dispositivos, e o Centro de Convivência e Cultura é considerado um dispositivo potente e efetivo na inclusão social dos pacientes Dispositivos da saúde mentalSaúde Mental Definição Os Centros de Convivência e Cultura foram definidos pela Portaria n.º 396/2005 como “dispositivos componentes da rede de atenção substitutiva em saúde mental, onde são oferecidos às pessoas espaços de sociabilidade, produção e intervenção na cidade” e, posteriormente, pela Portaria nº 3.088 de 2011/2014 como “unidade pública, articulada às Redes de Atenção à Saúde, em especial à Rede de Atenção Psicossocial, onde são oferecidos, em geral, espaços de sociabilidade, produção e intervenção na cultura e na cidade”. Dispositivos da saúde mental Capítulo 1 Nestes centros, as pessoas da comunidade têm a liberdade para se reunir livremente, com a finalidade de socialização para construírem, juntas, espaços de lazer, trabalho, saúde, cultura, entretenimento, inclusão social, além da possibilidade de discussões sobre problemas de sua comunidade, dessa forma, é uma alternativa de socialização para as pessoas com transtornos mentais, base do conceito da Reforma Psiquiátrica. Esse espaço permite a interação de grupos muitas vezes discriminados pela sociedade, como dependentes químicos, idosos, pessoas com algum tipo de deficiência física e pessoas com transtornos mentais, tendo como característica a participação voluntária sem controle de frequência ou prontuários médicos. Programa “De Volta para Casa” Esse programa, criado pelo Ministério da Saúde, tem como seu objetivo a “inserção social de pessoas acometidas de transtornos mentais, incentivando a organização de uma Saúde Mental Saiba Mais É possível encontrar dissertações e teses que descrevem um mapa territorial da quantidade de Centros de Convivência e o número de pessoas que utilizam esse espaço, além de estudos descrevendo a implantação desses centros em algumas cidades. Entre eles, está a dissertação de Ferreira (2014), utilizada como referência neste capítulo. Vale a pena a leitura! Saiba Mais O Ministério da Saúde, na cartilha “Mostra Fotográfica Programa De Volta para Casa”, elaborada em 2008, descreve que o Programa de Redução de Leitos Hospitalares de Longa Permanência em conjunto com os Serviços Residenciais Terapêuticos e o Programa De Volta para Casa formam o tripé essencial para o efetivo processo de desinstitucionalização e resgate da cidadania das pessoas acometidas por transtornos mentais submetidas à privação da liberdade nos hospitais psiquiátricos brasileiros. Capítulo 1Dispositivos da saúde mental Para que o município possa participar desse programa, deve ser acompanhado por meio de Comissão de Acompanhamento do Programa “De Volta para Casa”, constituída pelo Ministério da Saúde, cujas responsabilidades são: • Elaborar e pactuar as normas aplicáveis ao programa e submetê-las ao Ministério da Saúde. • Pactuar a definição de municípios prioritários para habilitação no programa. • Ratificar o levantamento nacional de clientela de beneficiários em potencial do programa. • Acompanhar e assessorar a implantação do programa. A Lei n.º 10.708/2003 regulamenta o auxílio-reabilitação psicossocial para pacientes acometidos de transtornos mentais egressos de internações, atualmente esse valor pago mensalmente é de R$ 412,00, por um ano, podendo ser renovado pelo tempo necessário para a reintegração social do paciente. Para que o paciente possa ser incluído no programa e se beneficiar com o auxílio- reabilitação, é necessário que esteja de alta hospitalar, sendo acompanhado por um CAPS ou outro serviço de saúde do município onde passará a residir, além do acompanhamento por uma equipe de profissionais encarregada de prover e garantir a atenção psicossocial e apoiá-lo em sua integração ao ambiente familiar e social. Entre os serviços do CAPS que esse paciente pode participar, há o Serviço Terapêutico que vamos ver a seguir (BRASIL, 2003b; BRASIL, 2003a). Serviço Residencial Terapêutico (SRT) Segundo a Portaria nº 3.588, de 21 de dezembro de 2017, entende-se como Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT): Saúde Mental Definição Moradias inseridas na comunidade, destinadas a cuidar dos portadores de transtornos mentais crônicos com necessidade de cuidados de longa permanência, prioritariamente egressos de internações psiquiátricas e de hospitais de custódia, que não possuam suporte financeiro, social e/ Dispositivos da saúde mental Capítulo 1 Esse serviço surge com a proposta de acolher os egressos ou não de hospitais psiquiátricos, em geral sem suporte familiar, que não têm condições de garantia de espaço adequado de moradia. Tem por objetivo ajudar o paciente a ressocializar, resgatar a autonomia e incentivá-lo a assumir uma posição de agente ativo de produção de vida. Essas moradias, inseridas em espaço urbano, podem alojar de um a oito pacientes necessitando de um profissional de nível médio capacitado por uma equipe de referência como cuidador, além de ter suporte garantido pelo CAPS, pela ESF ou outros serviços de saúde, caracterizando a interdisciplinaridade. Na transição entre a hospitalização de longa permanênciae a luta antimanicomial, esse serviço foi essencial como serviço intermediário dos pacientes que já estavam por anos internados e iniciariam seu convívio com a sociedade novamente. Essa reestruturação levou à diminuição do repasse de recursos aos hospícios e ao aumento de recursos para os serviços residenciais terapêuticos. De acordo com o descrito na Portaria n.º 106/2000, “a cada transferência de paciente do Hospital Especializado para o Serviço de Residência Terapêutica, deve-se reduzir ou descredenciar do SUS igual nº de leitos naquele hospital”. Dessa forma, é considerado um facilitador do processo de desospitalização e um operador da substituição da hospitalização (FONSÊCA, 2018; MASSA; MOREIRA, 2019; WEBER, 2018). Hospital-Dia Definição Regime de Hospital Dia prevê a assistência intermediária entre a internação e o atendimento ambulatorial, para realização de procedimentos clínicos, cirúrgicos, diagnósticos e terapêuticos, que requeiram a permanência do paciente na Unidade por um período máximo de 12 horas (BRASIL, 2001a). /ou laços familiares que permitam outra forma de reinserção. Saúde Mental Capítulo 1Dispositivos da saúde mental Para se implantar esse programa, é necessário que haja uma área específica, independente da estrutura hospitalar, com áreas para atividades em grupo, área externa, leitos para repouso eventual e ambiente para refeições. Deve ter uma equipe multiprofissional atuando cinco dias na semana (segunda a sexta-feira) com carga horária de oito horas por dia de forma que atenda à população de uma área geográfica definida, para facilitar o acesso do paciente à unidade assistencial sendo integrada à rede hierarquizada de assistência à saúde mental (BRASIL, 2001b). Com uma equipe multiprofissional avalia a necessidade de cada paciente e inclui atividades como: • Atendimento individual (medicamentoso, psicoterápico, de orientação, entre outros). • Atendimento grupal (psicoterapia, grupo operativo, atendimento em oficina terapêutica, atividades socioterápicas, entre outras). • Visitas domiciliares. • Atendimento à família. • Atividades comunitárias visando trabalhar a integração do paciente mental na comunidade. • Inserção social. Leitos de retaguarda em Hospitais Gerais (noturno/feriado/final de semana) Os leitos de Saúde Mental em Hospitais Gerais são componentes da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), porém, não devem ser considerados como um ponto de atenção isolado, mas complementar aos demais serviços da Atenção à Saúde Mental. Trata- se de um componente de urgência e emergência para garantir acesso dos usuários à tecnologia hospitalar, particularmente no manejo do cuidado às intercorrências clínicas, pois os serviços extra-hospitalares nem sempre dispõem de uma estrutura que ofereça agilidade para esse tipo de atendimento. São considerados um ponto estratégico para fortalecimento da Raps, devendo ser bem localizados em vários municípios, de fácil acesso, com propostas de intervenções breves e acesso a recursos clínicos multidisciplinares diferentemente do que ocorre no Hospital Psiquiátrico. Contribuem para a diminuição do estigma do transtorno mental e propiciam práticas de cuidado mais transparentes, associadas a uma integração efetiva entre as Saúde Mental Dispositivos da saúde mental Capítulo 1 s equipes de profissionais, sendo utilizados principalmente para o manejo do paciente com transtorno mental em crises que necessitem de internamento (BARROS; TUNG; MARI, 2010; PARANÁ, 2016). Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) A procura pelas Unidades de Pronto-Atendimento tem como principal motivo o atendimento psiquiátrico de emergência, em geral, com sintomas de agitação psicomotora e/ou agressividade. Casos em que é indispensável a intervenção imediata da equipe multiprofissional, adequadamente treinada, com o intuito de evitar maiores prejuízos à saúde do indivíduo, ou possíveis riscos à sua vida ou a de terceiros. No momento do atendimento, é realizado uma triagem para verificar a necessidade e a duração de internamento, ou se é possível estabilizar e instituir o tratamento de casos agudos, isso de forma rápida e ágil, buscando caracterizar aspectos diagnósticos, etiológicos e psicossociais do quadro apresentado pelo paciente. Além disso, proporcionam suporte psicossocial, podem ser consideradas uma porta de entrada do paciente da rede de atenção à saúde mental, organizando o fluxo das internações e reduzindo as admissões hospitalares desnecessárias, além de possibilitarem uma melhor comunicação entre as diversas unidades do sistema de saúde (BARROS; TUNG; MARI, 2010; SOUZA, 2017). Resumindo E então? Gostou do tema trabalhado? Vimos os principais serviços e ações voltados à saúde mental, com foco principal na substituição das instituições de longa permanência por atividades que incluam este paciente na sociedade a partir de uma Rede de Atenção em Saúde Mental. Mas é importante destacar que isto vai além do simples deslocamento dos espaços de cuidado, está relacionado a uma complexa mudança de paradigmas e de práticas no campo da saúde mental. Saúde Mental 2 Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 Integração e redes sociais em saúde mental Objetivos Neste capítulo, vamos conhecer o conceito de redes sociais, refletir sobre sua importância nos cuidados da saúde mental e como pode auxiliar o tratamento do paciente com transtornos mentais. Além disso, vamos discutir acerca da importância dessa rede social do indivíduo participar de ações e serviços voltados ao tratamento deste transtorno. Motivado para ampliar seu repertório? Então vamos lá! Importante Na literatura, não há um consenso quanto à utilização do termo “rede social”, por isso, quando você for aprofundar seus conhecimentos nesta área, pode deparar-se com termos como “rede social significativa”, “rede social de apoio”, “redes comunitárias” ou “redes de suporte”, todos eles possuem a mesma ideia de relação entre indivíduos na sociedade. Conceito de redes sociais Desde o início da vida, o ser humano participa de grupo social, uma trama interpessoal que os molda e contribui para moldar a seu grupo social futuro. Trata-se do conjunto de pessoas com quem esse indivíduo interage, conversa e troca sinais regularmente. Essa experiência ajuda a constituir a própria identidade, que se constrói e reconstrói constantemente durante a vida com base na interação com os outros, tornando-se parte intrínseca da identidade de cada indivíduo. Como afirma Brusamarello et al. (2011, p. 34) Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 As redes sociais são definidas como teias de relações que circundam o indivíduo e, desta forma, permitem que ocorra união, comutação, troca e transformação. Ao integrá-la, existe a possibilidade de se organizar socialmente como uma estrutura descentralizada, em que todos podem, simultaneamente, ocupar diferentes e distintas posições, dependendo dos interesses e dos temas tratados. Importante O termo “redes sociais” é encontrado hoje como “estruturas virtuais” em que pessoas ou empresas se relacionam por meio de conteúdos e mensagens diretas ou postadas na internet, mas vale lembrar que esse conceito é mais amplo e vai além da web. Rede no seu conceito amplo pode designar comunicar, interligar ou distribuir, e, quando falamos de rede social, estamos descrevendo a comunicação ou interligação entre os indivíduos da sociedade. Apenas para não confundir: em nosso estudo, estamos falando da comunicação direta entre os indivíduos da sociedade. A rede microssocial que o indivíduo integra contribui de maneira significativa para gerar suas práticas sociais e a visão do mundo e de si, também é parte crucial da própria identidade e evolui ao longo da vida. Além disso, as mudanças nas redes sociais são consideradas um marcador para os diversos períodos do ciclo da vida, sendo causa e efeito das contínuas transformações do indivíduo. Dessa forma, podemosdizer que a rede social é um grupo de pessoas, membros da família, amigos, vizinhos e outras pessoas, com capacidade de ajudar e apoiar a um indivíduo ou família. Correspondendo, assim, ao nicho interpessoal da pessoa e contribuindo para seu próprio reconhecimento como indivíduo e para sua autoimagem. As pessoas que compõem essa rede, são todas as pessoas que o indivíduo considera significativas no universo relacional no qual está inserido (MORE, 2005; UBER; BOECKEL, 2014). Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 O cuidado em saúde mental tem evidenciado a necessidade de focar a atenção para intervenções que ofereçam alternativas de se trabalhar a realidade social a fim de promover suporte mútuo, democracia participativa e movimentos sociais. Nessa perspectiva, as redes sociais são de extrema significância “tanto do ponto de vista da reconstrução de um cotidiano, muitas vezes perdido pelo sofrimento psíquico, como importante suporte no tratamento a partir dos diversos dispositivos de apoio e de solidariedade. Dessa forma, elas ganham relevância na reinserção e reabilitação do portador de transtorno mental na sociedade, bem como no resgate de sua autonomia. (BRUSAMARELLO et al., 2011, p. 34) Nos últimos anos, como parte da Reforma Psiquiátrica brasileira, os padrões da atenção psiquiátrica hospitalar têm sido questionados, levando a novas formas de cuidar das pessoas com transtornos mentais, pautadas na inclusão e na reabilitação psicossocial. O atual modelo de atuação visa substituir o atendimento exclusivo que tem levado ao abandono e à marginalização por uma rede de saúde mental inclusiva que promova a integração social e familiar das pessoas com transtornos mentais. O apoio social que as pessoas recebem e percebem é essencial para a manutenção da saúde mental, pois redes sociais aprimoradas ajudam os indivíduos a lidarem com situações estressantes, como ter um membro da família com transtorno mental ou que foi diagnosticado com uma doença crônica. Nesse sentido, quanto mais diversa e contextual for uma relação, maiores e mais diversos serão os recursos psicossociais à disposição da pessoa. Uma rede social que é pessoal e consegue ser estável, ativa e confiável pode proteger a vida diária de uma pessoa, promover a construção e manutenção da autoestima e acelerar o processo de recuperação. Como tal, é essencial para promover o bemestar físico, mental e emocional. Por outro lado, existe uma rede que não oferece suporte suficiente, portanto, sua fragilidade e inadequação são fatores de fragilidade da saúde, Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 Compreender o modo de viver das pessoas, reconhecer suas percepções acerca do mundo e identificar seus relacionamentos possibilita aos profissionais de enfermagem, na organização e na prestação do cuidado, contribuir para o alcance do bem-estar destes sujeitos. Com esta investigação pretende-se contribuir para a ampliação do conhecimento científico da equipe de enfermagem com vistas à qualificação do cuidado a pessoas com transtorno mental e familiares. Assim, considerasse importante que o enfermeiro e demais profissionais da área da saúde conheçam as redes sociais de pessoas com transtorno mental e familiares e as utilizem para proporcionar um cuidado a essa população de acordo com suas necessidades e realidades cotidianas. o que contribui para o aumento dos níveis de transtornos emocionais e físicos como depressão, hipertensão e obesidade. É importante observar que a rede social de um indivíduo é um reflexo do contexto histórico, cultural, social e político em que as pessoas têm interesses, aspirações, intenções e desejos. Por isso, a respeito deste aspecto, Brusamarello et al. (2011, p. 34) afirma: Mapa de redes sociais A rede social de um indivíduo pode ser registrada em forma de “mapa mínimo” o qual inclui todos os indivíduos que determinada pessoa interage. É constituído por um diagrama formado por três círculos concêntricos dividido em quatro quadrantes: • Família. • Amizades. • Relações de trabalho ou escolares (companheiros de trabalho e ou de estudos). • Relações comunitárias, de serviços (exemplo, serviços de saúde) ou de credos. Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 O círculo interno representa as relações mais íntimas consideradas pelo indivíduo, seja da família ou de amizades. O círculo intermediário registra as relações com menor grau de relacionamento (relações sociais ou profissionais ou familiares), e o círculo externo as relações ocasionais (tais como conhecidos de escola ou trabalho, familiares mais distantes, vizinhos). Esse registro é específico do momento atual ou situação vivenciada pelo indivíduo e só terá importância se realizado e avaliado da forma correta. Para isso, pode-se observar os seguintes aspectos: • Tamanho – quantidade de pessoas que constituem a rede. Redes muito pequenas são menos efetivas quando o indivíduo se sente sobrecarregado ou em situações de tensão de longa duração, a fim de poupar-se pode evitar contatos; da mesma forma, redes muito numerosas podem não ser efetivas, pois parte-se do pressuposto de que o “outro” está cuidando do problema, dessa forma, as redes de maior efetividade são as de tamanho médio. • Densidade – qualidade da relação entre seus membros e o quanto de influência que podem exercer no indivíduo. • Composição ou distribuição – qual posição que cada membro ocupa nos quadrantes. I I M A G E M 2 Mapa de rede social F O N T E Freepik Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 • Dispersão – distância geográfica entre a pessoa e os membros de sua rede. • Homogeneidade/heterogeneidade – variáveis como idade, sexo, cultura e nível socioeconômico, que podem favorecer trocas ou evidenciar tensões entre os membros e o indivíduo. Outra análise que pode ser feita, diz respeito às funções dos vínculos estabelecidos, como de companhia social, de apoio emocional, de guia cognitivo e de conselhos, de regulação social, de ajuda material e de serviços e de acesso a novos contatos. Cada membro pode estar relacionado a mais de um desses vínculos. Dessa forma, é possível perceber o tipo de interação que o indivíduo acompanhado tem com sua rede social, entender quais são relevantes efetivamente e de que forma esses membros podem auxiliar no tratamento e nas atividades do indivíduo. Redes sociais em saúde mental Sempre que falamos sobre o cuidado de pacientes com transtornos mentais, comparamos os modelos atuais com os utilizados antes da Reforma Psiquiátrica, pois é a necessidade de fazer diferente que nos impulsiona à melhoria dos novos modelos de cuidados. Por isso, vamos lembrar que a Reforma Psiquiátrica propõe substituir o modelo asilar por um modelo de atenção baseado no convívio com a comunidade, tendo o acompanhamento do tratamento dentro do Sistema de Saúde, e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) sãos seus dispositivos estratégicos com prioridade na reinserção social e no fortalecimento de vínculo dos usuários com a sociedade, incentivando-o na busca da construção da autonomia e cidadania. Quando utilizamos o termo “redes sociais” na saúde mental, estamos falando sobre o conjunto de todas as relações que circundam o indivíduo e levam a interações interpessoais, não apenas na questão de tratamento, mas de reconhecimento enquanto sujeito, para a construção de identidade, para o sentimento de bem-estar, pertença e autonomia. No momento em que integramos essas redes sociais, possibilitamos que se organizem socialmente como uma estrutura descentralizada, em que todos podem Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 ocupar diferentes e distintas posições, dependendo dos interesses e dos temas tratados. Para isso, é importante que essa rede seja diversificada para poder atender, ao menos, a maioria dessas demandas. Por ser um sistema aberto, permiteao paciente, aos membros da família ou à própria comunidade o benefício das múltiplas relações, estabelecendo e favorecendo seu desenvolvimento (BRUSAMARELLO et al., 2011; UBER; BOECKEL, 2014). Importância das redes sociais em saúde mental O convívio social, em geral, leva o paciente ao entendimento da sua inserção como indivíduo e sua importância para o desenvolvimento da sociedade na qual está inserido. Entendendo que desempenha funções essenciais na vida dos sujeitos e na sociedade, auxiliando nas soluções de problemas e oferecendo orientações e companhia. Dessa forma, as redes sociais se tornam um dos principais recursos que um sujeito dispõe referente ao apoio recebido e percebido, havendo associação entre desenvolvimento humano saudável e qualidade das redes sociais que um sujeito mantém. São uma das chaves centrais da experiência individual de identidade, competência, bem-estar e autoria, incluindo os hábitos de cuidado de saúde e a capacidade de adaptação em uma crise. Muitas vezes, o sofrimento psíquico afasta o indivíduo do convívio social, por isso, a reconstrução de um cotidiano com convívio social torna-se um imprescindível suporte no tratamento a partir dos diversos dispositivos de apoio e de solidariedade. A reinserção e reabilitação do portador de transtorno mental na sociedade, bem como o resgate de Importante Vale ressaltar que as redes sociais incluem o conjunto de vínculos interpessoais que abrangem a vida de uma pessoa contribuindo para a autoimagem do indivíduo. Dessa forma, podemos perceber a relevância da desinstitucionalização do tratamento psiquiátrico para o autoconhecimento do paciente perante sua real situação e seu processo de autocuidado. Com isso, notamos que os dispositivos de saúde mental são fundamentais para a integração e permanência do paciente nas redes sociais. Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 sua autonomia são essenciais. Assim, os suportes sociais percebidos e recebidos das pessoas significativas são primordiais para a manutenção da saúde mental, pois uma rede social fortalecida ajuda o indivíduo a enfrentar situações estressantes, como uma doença própria ou de algum familiar. Quando essa rede social é estável, ativa e confiável o indivíduo se sente protegido em sua vida diária, além de favorecer a construção e manutenção da autoestima, acelerando os processos de recuperação da saúde. Em contrapartida, se esse indivíduo permanece em uma rede social que não proporciona suporte adequado, sua fragilidade e seu sentimento de insuficiência contribuem para a vulnerabilidade do indivíduo podendo elevar o nível de doenças emocionais e físicas como depressão, hipertensão arterial e obesidade (BRUSAMARELLO et al., 2011; UBER; BOECKEL, 2014). O apoio da rede social é um aspecto fundamental da inclusão social de pessoas com transtornos mentais. Em situações em que muitas vezes encontram dificuldades de inserção no mercado de trabalho, outros meios de promover a inclusão social são ainda mais valorizados. O conceito de redes implica um processo de construção permanente, individual e coletivamente. É um sistema aberto que permite a utilização dos recursos existentes por meio da troca dinâmica de seus membros com outros grupos sociais. Salles e Barros (2013, p. 2130) afirmam: As redes sociais são de extrema importância para todos, elas proporcionam a organização da identidade através do olhar e das ações de outras pessoas. A rede de relações que oferece suporte a uma pessoa na sociedade não se restringe à família, mas incluem todos os vínculos interpessoais significativos do sujeito: amigos, relações de trabalho, de estudo e na comunidade. Na construção das redes sociais é importante que o sujeito possa estabelecer relações de trocas não apenas com sua família, mas também com outras pessoas, compondo uma rede social ampliada e diversificada e sem sobrecarregar o núcleo familiar. Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 Um indivíduo não faz parte apenas de uma comunidade, mas de várias comunidades. Sua identidade é expressa nesta propriedade. Na comunidade à qual pertence, o indivíduo se reconhece, percebe seus interesses e comunica seus afetos. Essas interações podem ser formalizadas em bairros, igrejas e locais de trabalho. Mas também podem não ser formalizadas, ainda assim, são essas interações que medem a participação e a inclusão social. Você pode obter uma imagem refletida de si mesmo a partir de suas interações com os outros. Este autorretrato baseia-se em ter algo a oferecer aos outros. Os relacionamentos na comunidade permitem que as pessoas, independentemente do transtorno mental, redefinam-se. A maioria das pessoas com esses transtornos precisa de encorajamento e da oportunidade de fazer amigos. Na prática, a inclusão social significa que a sociedade deve acolher e aceitar as pessoas com transtornos mentais. Este não é apenas um trabalho para famílias e serviços de saúde mental, é preciso adotar uma atitude de engajamento ativo de toda a comunidade. Isso indica que a maneira como essas pessoas se veem como “outros” precisa mudar. Apesar da importância das redes sociais na vida cotidiana das pessoas, nem sempre aquelas com transtornos mentais têm acesso a novos contatos, ou não conseguem manter e formar as redes, devido ao contexto social em que imperam a discriminação e o preconceito. A forma como os usuários se relacionam com os outros reflete a maneira da sociedade aceitar e incluir essa população, e tem efeitos em como as pessoas com transtornos mentais se percebem acolhidas e pertencendo a sociedade. Considerando a importância das redes sociais para a inclusão social das pessoas com transtornos mentais, esta é uma questão que deve ser tratada pelos profissionais e serviços de saúde mental. (SALLES; BARROS, 2013, p. 2130) Com o processo da Reforma Psiquiátrica e as novas possibilidades de tratamento para as pessoas com transtornos mentais, a sociedade se depara com a questão de como se relacionar Saúde Mental Integração e redes sociais em saúde mental Capítulo 2 Rede social no auxílio ao tratamento Quando o indivíduo com transtorno mental se conscientiza de sua rede social de apoio e do seu papel nas suas relações, tende a mudar de comportamentos, ampliar sua capacidade de enfrentar situações dolorosas e difíceis, além de melhorar sua autoestima, isso ajuda a aumentar a possibilidade de uma vida melhor, contribui para a promoção da saúde, favorece a autonomia desse indivíduo e seus familiares, bem como modifica sua posição em relação às intervenções. Porém, vale ressaltar que a rede social pode gerar benefícios ao indivíduo, mas isso depende da postura dos membros, pois, mesmo querendo dar suporte ao indivíduo, podem não ter conhecimentos e habilidade para isso. Nesses casos, é de extrema importância o acompanhamento desses membros, que em geral são familiares, para garantir a melhora do paciente e evitar problemas aos demais membros da família. Nos casos de pacientes envolvidos com drogas ilícitas e álcool, os membros de sua rede, em geral, estão relacionados com o problema e, dessa forma, acabam levando o indivíduo a recaídas, nesses casos, ou ocorre o afastamento do indivíduo, ou o tratamento dos demais membros. com essa população. Algumas vezes velhos modelos são retidos, mas também ocorre a reinvenção de novas formas de ver, tratar, se aproximar, colocar limites, ajudar, se afastar; enfim, de lidar no dia a dia com as pessoas com transtornos mentais que estão a sua volta, em um processo dialético de exclusão e inclusão social. (SALLES; BARROS, 2013, p. 2130) Você Sabia? Estudos mostram que indivíduos com transtornos mentais severos são quatro vezes mais propensos a não terem um amigo mais próximo, e mais de um terço deles relatam não ter ninguém a quem recorrer em um momento de crise (MURAMOTO; MÂNGIA, 2011). Saúde Mental Integração e redes sociais em saúdemental Capítulo 2 Nas intervenções terapêuticas desenvolvidas pelos profissionais de saúde mental, é imprescindível a presença e o acionamento das redes sociais do indivíduo. Primeiro porque o modelo existente não atende somente o paciente, mas também auxilia a família com ações e intervenções terapêuticas. Em segundo lugar, pela intervenção nas redes de suporte social, organizadas no âmbito comunitário, o que tem um papel de destaque no contexto de programas de reabilitação, prevenção e promoção da saúde dos indivíduos. A variabilidade dos tipos de atendimento possíveis para pacientes com transtornos mentais, como psicoterapia, visita domiciliar, atividades de apoio social etc., vai depender da necessidade de cuidados à saúde mental do paciente, das condições concretas de intervenção da equipe multiprofissional e dos recursos terapêuticos disponíveis. O que permite que os atendimentos sejam realizados de forma complementares é a interligação profissional entre eles (VIEIRA; NÓBREGA, 2004; MORE; CREPALDI, 2012; MURAMOTO; MÂNGIA, 2011). Resumindo Esse capítulo foi muito importante, certo? Vimos que redes sociais compreendem os membros que fazem parte do convívio de indivíduos na sociedade, como a família, os amigos, vizinhos, colegas de trabalho, colegas de estudos, entre outros. Vimos, também, a importância de uma rede social sólida e disponível para apoiar o paciente com transtornos mentais e a necessidade de acompanhamento desses indivíduos também. Além disso, aprendemos que a relação entre as pessoas auxilia no desenvolvimento do paciente, e por esta razão as ações e atividades em grupo são tão importantes quanto a desinstitucionalização do tratamento psiquiátrico. Saúde Mental 3 Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 Atenção e cuidado em saúde mental Objetivos O cuidado em saúde mental não se restringe ao cuidado do profissional da saúde. A família, como parte da reinserção social do paciente, torna- se essencial para a evolução da condição de saúde do indivíduo. Neste capítulo, vamos entender como a família era vista em relação aos transtornos mentais e qual sua importância atuando com os profissionais da saúde para a atenção e o cuidado do paciente. A relação familiar no passado Nem sempre a família foi vista como uma instituição capaz de acolher e cuidar de um indivíduo que está mentalmente adoecido. Antes do capitalismo, o cuidado com o indivíduo era responsabilidade da família, quando não havia quem o amparasse, esse indivíduo era considerado uma questão pública, ficando sob responsabilidade do rei e seus auxiliares. Borba et al. (2011, p. 443) afirmam: A família historicamente foi excluída do tratamento dispensado às pessoas com transtorno mental, pois os hospitais psiquiátricos eram construídos longe das metrópoles, o que dificultava o acesso dos familiares a essas instituições. Outro fator que permeava a relação da família com o portador de transtorno mental era o entendimento de que ela era a produtora da doença, uma vez que o membro que adoecia era considerado um bode expiatório, aquele que carregava todas as mazelas do núcleo familiar e deveria ser afasta do daqueles considerados responsáveis pela sua doença. Desse modo, restava à família o papel de Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 encaminhar seu familiar à instituição psiquiátrica para que os técnicos do saber se incumbissem do tratamento e da cura. Importante Existe outra vertente histórica, que justifica o procedimento de isolamento como necessário para proteger a família da loucura e prevenir possíveis contaminações do outros membros. Reflita Quem nunca olhou uma criança fazendo “birra” e disse, ou pelo menos pensou: “Cadê os pais dessa criança?”; ou “Nossa, esses pais de hoje em dia são muito ‘frouxos’ na educação dessa criança”; ou ainda “Se fosse meu filho não estaria fazendo isso”. Se você já tem filho talvez compreenda melhor, mas é importante lembrar que o entendimento sobre os sentimentos acontece aos poucos, o que nós adultos chamamos de birra é, na verdade, a forma que a criança encontra de mostrar que tem algo errado, assim, ela ainda não sabe expressar em palavras, o que está sentindo pode ser sono, fome, tristeza, raiva etc. Além disso, o sentimento de frustração é um dos últimos a ser entendido pela criança, Com os avanços e as transformações da Psicanálise no século XX, a família começa a ser vista de forma negativa sendo culpabilizada pelo surgimento de um portador de transtorno mental. Dessa forma, o saber psiquiátrico procura afastar o paciente do ambiente familiar por entender que esse ambiente, responsável pelo surgimento de sua doença, irá adoecê-lo ainda mais, iniciando a cultura do isolamento social. Ainda no século XX, principalmente com a influência das teorias freudianas, a família entra para o rol das intervenções dos especialistas por se destacar a importância das relações familiares sobre o psiquismo dos sujeitos. Ao conhecer o universo familiar, esses especialistas buscam identificar e determinar a causa da doença na maneira como os pais conduzem a educação dos seus filhos, entendendo que o inadequado comportamento da criança como má educação ou o próprio transtorno mental acontecem por culpa dos pais. Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 por isso, quando não consegue o que quer, tende a chorar descontroladamente para demonstrar que está insatisfeita. Percebe que, neste caso, estamos falando de um processo natural de desenvolvimento psicoemocional e mesmo após anos de estudos sobre o funcionamento da mente humana, ainda colocamos a culpa nos pais para justificar o comportamento de seus filhos? A observação sistemática da família começa a acontecer nos anos 1950, pela pesquisa e intervenção direta no meio familiar, ganhando destaque o papel da mãe. Para alguns autores, há a importância da função da patologia dentro do grupo familiar e o paciente com transtorno mental passa a ser considerado o porta-voz da enfermidade de toda a família tendo, agora, um papel positivo, pois é considerado um agente catalizador que adoece para proteger o grupo familiar e manter sua homeostase. Mas essa caracterização do indivíduo sendo invalidado impede os processos de mudanças nos padrões de relacionamento do grupo. Os estudos inserindo a família no contexto de saúde mental ganham visibilidade no Brasil na década de 1970, quando surgem as terapias familiares que favorecem as mudanças nos padrões de relacionamento e comunicação dentro do sistema familiar. A partir da Reforma Psiquiátrica no Brasil, é que esses conceitos são incorporados ao trabalho dos profissionais de saúde, dando maior atenção à relação da família com o portador de sofrimento psíquico. Além disso, o processo de desinstitucionalização atribui à família a responsabilidade do cuidado do indivíduo. Inserida como objeto de estudos, surgem diferentes visões sobre a família, conforme sua relação com o paciente, entre elas, podemos destacar: • A família como mais um recurso, uma estratégia de intervenção. • A família como provedora de cuidado, com auxílio dos serviços de saúde, principalmente nos momentos de crise. • A família como um lugar de possível convivência para o paciente, mas não exclusivo e nem obrigatório. • A família como sofredora necessitando de suporte e assistência social. • A família como um sujeito de ação política e coletiva, construtor de cidadania e avaliador dos serviços de saúde. Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 A inserção do paciente na sociedade e o apoio familiar no provimento de cuidados do indivíduo são um dos focos da atenção à saúde mental elaborado nos Caps, fazendo parte da estratégia de cuidado da equipe multidisciplinar (SANTIN; KLAFKE, 2011; CARDOSO; GALERA, 2011; ROSA, 2005). Borba et al. (2011, p. 443) afirmam: A importância da relação familiar O novo modelo de cuidado em saúde mental volta seu olhar para o indivíduocomo um todo, como um ser que sofre e enfrenta momentos desestabilizadores, como separação, perda de emprego, luto, carência afetiva, entre outros problemas cotidianos que podem levá-lo a procurar ajuda. Por isso, a atenção à saúde está voltada à integração social do sujeito, procurando mantê-lo em seu contexto familiar e comunitário, servindo como suporte fundamental para que o sujeito mantenha vínculos, principalmente afetivos, revertendo o modelo manicomial. Com isso, o cuidado envolve também questões pessoais, emocionais, financeiras e sociais, relacionadas à convivência do paciente levando em consideração as inúmeras dificuldades vivenciadas tanto pelos pacientes Esse distanciamento da família esteve presente na relação sujeito-loucura até aproximadamente a década de 80 do século passado, quando emergem novas possibilidades referentes ao papel e ao relacionamento da família com o portador de transtorno mental. Essas perspectivas ocorrem em face das novas políticas na área da saúde mental, consequência do movimento da reforma psiquiátrica que acontece no país e orienta a transição dos espaços de tratamento da instituição coercitiva e restritiva para serviços comunitários de atenção à saúde. Definição A família é considerada o conjunto de pessoas ligadas por laços de sangue, parentesco ou dependência, que estabelecem entre si relações de solidariedade e tensão, conflito e afeto, entre outros aspectos, e (se Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 Essa nova perspectiva em relação à saúde mental leva a confirmar a importância e a necessidade da participação familiar no cuidado de seus parentes com transtornos mentais. Dessa forma, a família passa a ser posicionada como parceira no tratamento nos novos ambientes de atendimento, sendo inserida como unidade de atenção e cuidado. Borba et al. (2011, p. 443) destacam que: Para isso, é necessária a capacitação de todos os sujeitos envolvidos nesse processo (pacientes, familiares, profissionais e sociedade) para entender melhor os transtornos mentais, quebrando as barreiras e restaurando de acordo com os recursos disponíveis a autonomia desse indivíduo para viver em sociedade. Na fase inicial do transtorno mental, a família tem um papel fundamental na construção de uma nova trajetória para o paciente, mas seus recursos emocionais, temporais e econômicos, além de seus conhecimentos têm que ser bem direcionados; é função essencial dos trabalhadores e dos serviços psiquiátricos fornecer orientação à família. Vale ressaltar que a busca pelos serviços em saúde mental acontece nas crises do paciente, momento em que a família está fragilizada e mais acessível às informações prestadas pela equipe e com facilidade para manter o tratamento, apesar de existir receio de os psicofármacos produzirem dependência. A família, portanto, deve ser considerada como ator social indispensável para a efetividade da assistência psiquiátrica e entendida como um grupo com grande potencial de acolhimento e ressocialização de seus integrantes. Exemplos de transformação no campo da saúde mental que tem exigido a inclusão da família no plano de cuidados são a criação e ampliação de uma rede comunitária de atendimento às pessoas com transtorno mental e a redução do tempo de internação em instituição psiquiátrica. Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 Saiba Mais O que caracteriza o cuidador: ser uma pessoa, membro ou não da família, que, com ou sem remuneração, cuida do doente ou dependente no exercício das suas atividades diárias, tais como alimentação, higiene pessoal, medicação de rotina, acompanhamento aos serviços de saúde e demais serviços requeridos no cotidiano como a ida a bancos ou farmácias, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas, particularmente na área da enfermagem. A atenção e o cuidado em saúde mental é decorrente de uma intrínseca relação entre os serviços de saúde, seus profissionais, o paciente e sua família, considerando as particularidades de cada contexto cultural, social e econômico. Em muitos casos, o cuidador está inserido no núcleo familiar deste paciente, por isso, é primordial conhecer melhor quem são estes familiares cuidadores, uma vez que se tornam parceiros da assistência em saúde mental. Apesar do aspecto positivo da promoção dos laços familiares e sociais, a responsabilidade pelo cuidado do paciente é marcada, muitas vezes, pela sobrecarga do cuidador, em geral, devido à falta de orientação e de apoio necessários para o desempenho do papel que assumem no dia a dia. Observa-se ainda que as associações de familiares são compostas preponderantemente por mães, em geral, com idade em que também podem estar precisando de cuidados. O que leva ao desgaste emocional e a consequente necessidade de cuidado com o cuidador (SANTIN; KLAFKE, 2011; CARDOSO; GALERA, 2011; MARTINS; LORENZI, 2016; ROSA, 2005). Portanto, a família deve ser vista como ator social fundamental para a efetividade da psicoterapia e compreendida como um grupo com grande potencial para acolher e reassentar seus membros. Exemplos de transformações da saúde mental que exigem o envolvimento da família no planejamento do cuidado incluem a criação e expansão de redes comunitárias para cuidar de pessoas com transtornos mentais e a redução de internações em instituições mentais. Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 Dificuldades na inserção da família no cuidado Alguns pesquisadores argumentam sobre a inclusão da família em tratamentos terapêuticos como sendo decisiva e essencial para a resposta de pacientes psiquiátricos. Entretanto, é um processo que ocorre com tensões e contradições, pois, em alguns casos, há a simples devolução do paciente para a família, em razão da desarticulação dos manicômios, sem que tenha havido a criação efetiva de recursos de assistência substitutivos e sem considerar adequadamente a estrutura social para a qual se devolviam os pacientes. Uma dificuldade encontrada nesse modelo é deixar claro para os familiares e cuidadores os benefícios das mudanças em curso, pelo temor de terem que assumir sozinhos as sobrecargas no ambiente doméstico. Além disso, o familiar, exausto e estigmatizado, muitas vezes teme tornar pública a condição de sua família, sendo exposto como representante da “saúde mental” e conviver com o rótulo de “familiar de louco”. Esse estereótipo sobre os transtornos mentais, muitas vezes, leva a família a tentar resolver o problema internamente primeiro e, quando não consegue, chega a um serviço psiquiátrico com sentimento de impotência, exaustão, culpa e desespero. Outra dificuldade encontrada vem da própria equipe de saúde sobre a forma de inclusão da família e o lugar que ela poderia ocupar que nem sempre corresponde ao seu desejo e às possibilidades reais principalmente nos casos de famílias com possibilidades limitadas. Além disso, poucos profissionais são capacitados academicamente para trabalhar com a família, e os que são, na grande maioria, estão preparados para lidar com famílias de classe média não com famílias de baixa renda, em geral, com baixa escolaridade e dificuldade de relatar os acontecimentos. Esse profissional está pouco Importante Os avanços da assistência à saúde mental são consideráveis, porém, a dificuldade dos familiares em conviver com o indivíduo leva a um processo de sucessivas internações, esse fenômeno é conhecido como porta giratória. Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 habilitado para entender códigos culturais, comportamentais e linguísticos dessa população, confundindo, muitas vezes, pobreza econômica e material com pobreza cultural (SANTIN; KLAFKE, 2011; CARDOSO; GALERA, 2011; MARTINS; LORENZI, 2016; ROSA, 2005). Além disso, deve-se ter em mente que a convivência de uma família com uma pessoa com transtorno mental nem sempre é harmoniosa, caracteriza-se por tensõese conflitos, pois nesse espaço é mais fácil expressar sentimentos. Como um grupo vivo, a família requer, portanto, a capacidade de seus membros de repensar e reajustar continuamente suas estratégias e dinâmicas internas. Isso exige respeito à individualidade do sujeito, afinal, as pessoas existem no mundo, pensam, interpretam os fatos e agem de forma diferente mesmo morando na mesma casa. O cuidado com o cuidador Quando se identifica o aparecimento de um paciente com transtorno mental na família, A família é uma unidade social complexa e fundamental para o processo de viver de todo ser humano, que se concretiza por meio da vivência, que é dinâmica e singular. Ela não é formada apenas por um conjunto de pessoas, mas pelas relações e ligações entre elas. E, ao longo da trajetória familiar, seus integrantes passam por situações de crise, sejam estas previsíveis ou não, ligadas aos processos de transição como nascimento, mudança de emprego, casamento, saída de casa dos filhos, ou a situações adversas, como a doença. A capacidade da família de ajustar-se a novas situações, como a de conviver com um membro com doença crônica, depende das fortalezas que possui, dos laços de solidariedade que agrega e da possibilidade de solicitar apoio das outras pessoas e instituições. (BORBA et al., 2011, p. 443) Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 acontece um momento de crise, modificação da rotina familiar e até conflito entre os membros. Além disso, o cuidado com uma pessoa adulta, principalmente se for considerado líder da família (pai ou mãe, por exemplo), gera a necessidade da reconstrução da unidade familiar, tornase importante que todos os membros aprendam a se relacionar com o transtorno mental, com os serviços de saúde mental e com a linguagem dos profissionais que, muitas vezes, não estão preparados para conversar com a população sem a educação na área e, muitas vezes, com baixo grau de instrução. Entre as ações e os serviços realizados pelos Centros de Atenção Psicossocial, está o acompanhamento dos familiares do paciente. Em geral, há reuniões semanais nas quais se trocam experiências com familiares de outros pacientes, e eles recebem suporte para tirarem dúvidas sobre o tratamento e o manejo do paciente, além de este ser um momento para que o familiar (em geral o cuidador) possa desabafar acerca de suas angustias e seu cansaço e também falar sobre si enquanto pessoa. Normalmente, esses grupos não têm número de participantes definidos por não ser uma obrigação relacionada ao tratamento. É importante ressaltar que a sobrecarga do cuidador pode implicar em graves consequências ao cuidador e até mesmo ao paciente e toda a família. Essa sobrecarga caracteriza-se como uma experiência de fardo a carregar descrita por mudanças no cotidiano relacionadas ao processo de cuidado, implementação de hábitos e principalmente às maiores responsabilidades. Estas mudanças, muitas vezes, exigem Saiba Mais Existem dois tipos de cuidadores: os cuidadores formais que são profissionais de saúde, geralmente enfermeiros ou técnicos de enfermagem com competências centradas na manutenção deste perfil de paciente, que são pagos, geralmente, pela própria família, para cuidarem do paciente. Já os cuidadores informais são, muitas vezes, familiares, principalmente do sexo feminino, não remunerados, orientados pelos serviços de saúde. Mas em ambos os casos, a sobrecarga emocional é evidente devido à proximidade com o paciente emocionalmente instável. Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 adaptações de toda a família e podem interferir nas necessidades do cuidador, gerando acúmulo de responsabilidades que levam ao estresse e até ao adiamento de planos pessoais do cuidador. As maiores dificuldades que os cuidadores informais relatam são relativas a condições financeiras, pois, muitas vezes, o cuidador tem que parar de trabalhar para cuidar de seu parente. Mas também são relatadas dificuldades como falta de suporte social, baixo nível de funcionamento dos pacientes, baixa escolaridade dos pacientes e familiares, estratégias ineficientes de enfrentamento, entre outras. Uma característica marcante encontrada por Cardoso (2015), quando fez uma análise de vários estudos sobre o perfil do cuidador de paciente em saúde mental, é a presença feminina no papel de cuidador principal. Mostrando que o cuidado à saúde está ligado a questões socioculturais que incorporam à mulher o papel de principal provedora de cuidados à família e aos necessitados, o que muitas vezes é entendido como uma obrigação moral. Nesse estudo, o autor descreve que a sobrecarga relacionada ao cuidado favorece o adoecimento do próprio cuidador o qual negligencia o autocuidado a favor do cuidado ao próximo; é observada menor qualidade de vida do cuidador com maior risco de desenvolvimento de doenças emocionais como depressão, diretamente relacionadas à dependência do paciente, além da redução da atenção com os demais membros da família. Cardoso (2015) relata que a atenção ao cuidador ainda necessita de maiores estudos para observar suas necessidades e intervenções por parte dos profissionais e serviços da área da saúde. Resumindo E então? Conseguiu compreender mais profundamente as temáticas relacionadas à atenção e ao cuidado em saúde mental? Vimos até aqui a importância da família como suporte social para o paciente, e a necessidade, principalmente do cuidador, da integração e participação das ações e dos serviços de saúde para conseguir entender melhor o processo da doença e do cuidado sendo um elemento adicional no tratamento. Aprendemos que outro aspecto importante é a saúde física e mental do cuidador, para que ele esteja bem para poder exercer sua Saúde Mental Atenção e cuidado em saúde mental Capítulo 3 função de cuidador sem sobrecarregar-se. Saúde Mental 4 Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 Matriciamento em saúde mental Objetivos Entendendo que a atenção básica, em geral, é a porta de entrada dos indivíduos para o atendimento no Sistema Único de Saúde, vamos aprender neste capítulo sobre a equipe de apoio matricial. Essa equipe foi criada para dar suporte para a unidade básica para que ela possa identificar casos que necessitam de um acompanhamento mais específico e especializado. Então, animado para conhecer mais acerca desta temática? Definição O matriciamento, também chamado de apoio matricial, é um novo modelo de produzir saúde em que duas ou mais equipes, em um processo de construção compartilhada, criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica. O que é matriciamento em saúde mental Tradicionalmente, o Sistema Único de Saúde se organizava de uma forma vertical (hierárquica), com diferença de autoridade entre quem encaminha um caso e quem o recebe, e consequente transferência de responsabilidade ao encaminhar. A comunicação entre os níveis hierárquicos ocorre, muitas vezes, de forma precária e irregular sem uma boa resolubilidade. A nova proposta integradora, conhecida como Redes de Atenção à Saúde, traz um novo modelo horizontalizado no qual a Unidade de Saúde é, em geral, porta de entrada, responsável pelo fluxo e contrafluxo de cada paciente, integrando os componentes e seus saberes nos diferentes níveis assistenciais. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 DEFINIÇÃO: O matriciamento, também chamado de apoio matricial, é um novo modelo de produzir saúde em que duas ou mais equipes, em um processo de construção compartilhada, criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica. Na horizontalização decorrente do processo de matriciamento, o sistema de saúde se reestrutura em dois tipos de equipes: • Equipe de referência; • Equipe de apoio matricial. Nessa estrutura, a Atenção Primária à Saúde (APS), por exemplo, a equipe de Estratégia em Saúde da Família (ESF), funciona como equipes de referência interdisciplinares, atuando com uma responsabilidade,incluindo o cuidado longitudinal, além do atendimento especializado que realiza concomitantemente. Quanto à estas equipes, Gazignato e Silva (2014, p. 297) afirmam que: O Programa de Saúde da Família (PSF) foi criado em 1994 pelo Ministério da Saúde, visando a modificar a prática da atenção básica. O PSF passa a ser denominado Estratégia de Saúde da Família (ESF) quando deixa de ser apenas um programa para se tornar a estratégia principal de organização da atenção básica. Assim, trabalha numa perspectiva de saúde ampliada e integral, com equipes multiprofissionais responsabilizadas por um número de pessoas de uma região delimitada. A ESF foi elaborada como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial à saúde, baseado até então no modelo biomédico, na prática hospitalo cêntrica e no uso inapropriado dos recursos tecnológicos disponíveis. Nessa estratégia, propõe-se que a atenção básica se configure como porta de entrada do sistema de saúde. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 E a equipe de apoio matricial é uma equipe específica de saúde mental, caracterizada como um suporte técnico especializado ofertado a uma equipe interdisciplinar em saúde a fim de ampliar seu campo de atuação e qualificar suas ações como o Caps. Gazignato e Silva (2014, p. 297) ressaltam: Os profissionais matriciadores em saúde mental na atenção primária podem ser psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, assistentes sociais e enfermeiros de saúde mental. Dessa forma, existem áreas de atuação específicas de cada especialidade ou profissão (área de saber e de prática profissional), chamada de núcleo, e um espaço de limites imprecisos em que cada disciplina ou profissão buscaria em outras o apoio para cumprir suas tarefas teóricas e práticas, chamada de campo. Portanto, o processo de cuidado não é monopólio nem ferramenta exclusiva de nenhuma especialidade, pertencendo a todo o campo da saúde, assim, o matriciamento é um processo multidisciplinar por natureza para a construção do conhecimento. Conforme a perspectiva da inserção da pessoa com transtorno mental nos equipamentos comunitários, num contexto de rede social, aos poucos, começa a implantação dos equipamentos substitutivos: os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), as Residências Terapêuticas, os Centros de Convivência, as Oficinas de Trabalho e as Enfermarias Psiquiátricas em Hospital Geral (GAMA; CAMPOS, 2009). O Caps é um serviço estratégico para promover a desospitalização e a reinserção social, compatíveis com os princípios da Reforma Psiquiátrica e com as diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental. Porém, os Caps e os outros equipamentos substitutivos não são, ainda, suficientes para a cobertura da demanda de saúde mental nas diversas realidades do País. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 A inserção das práticas de saúde mental na atenção primária à saúde demonstra a busca pela regionalização da atenção à saúde e seu direcionamento para as questões de acordo com a integralidade e humanização do cuidado, conectando-se a especialistas e serviços já localizados nas regiões. Gazignato e Silva (2014, p. 298) destacam que: Nunes et al. (2007) identificaram os princípios da integralidade e da participação social, além das propostas de ampliação do conceito de saúde- doença, da interdisciplinaridade no cuidado e da territorialização das ações, como questões que orientam tanto o modelo psicossocial da saúde mental como a ESF. Esta última funcionaria como um importante articulador da rede de saúde mental, na tentativa de superar o modelo hospitalocêntrico e centrar o cuidado na família. Entretanto, a implementação de ações de saúde mental na saúde da família ainda está em processo de consolidação, uma vez que a ESF pode ser entendida como uma tecnologia de produção do cuidado em saúde mental a ser explorada e mais bem desenhada como possibilidades de atenção comunitária. Importante A equipe de apoio não é responsável pelo encaminhamento ao especialista, nem pela intervenção psicossocial coletiva ou atendimento individual, pois isso faz parte da atividade da equipe de referência. Funciona como a retaguarda especializada da assistência e um suporte técnico pedagógico para maior qualificação do cuidado na unidade básica sendo um dispositivo para a formação continuada, por meio de discussões de textos, casos e situações, contribuindo para a ampliação da clínica. Assim, torna-se possível compartilhar casos e situações com a equipe de saúde local, favorecendo a corresponsabilização, a horizontalização do cuidado. Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 A saúde mental é um tema bastante complexo e pouco desenvolvido pelas equipes da ESF, principalmente, junto às famílias, devido à falta de treinamento ou conhecimento específico dos profissionais sobre o assunto. Entretanto, a ESF constitui uma estratégia ideal para trabalhar a saúde mental, pois, suas equipes apresentam-se engajadas no dia a dia da comunidade, com a perspectiva de melhorar as condições de vida da população, incorporando ações de promoção e educação para a saúde. Para isso, o suporte técnico e de conhecimento da equipe de apoio matricial se torna uma ferramenta eficaz para o acompanhamento dos pacientes com transtornos mentais e seus familiares. Seguindo este caminho, o Ministério da Saúde conseguiu propor uma estratégia do Apoio Matricial (AM), ou Apoio Matricial em Saúde Mental, para facilitar o direcionamento do fluxo na rede e facilitar a integração entre os equipamentos de saúde mental e a ESF. De acordo com a Unidade Coordenadora de Saúde Mental, nos documentos apresentados às conferências regionais sobre a reforma dos serviços de saúde mental, o AM é: “um arranjo organizacional que viabiliza o suporte técnico em áreas específicas para equipes responsáveis pelo desenvolvimento de ações básicas de saúde” (BRASIL, 2008, p. 34). É a partir deste arranjo que a equipe de saúde mental consegue compartilhar alguns casos com a equipe de cuidados primários. Esse compartilhamento se dá na forma de corresponsabilização dos casos, seja por meio de revisões conjuntas de casos, intervenções conjuntas com famílias e comunidades, ou cuidado compartilhado, podendo ser na forma de supervisão e treinamento. O Apoio Matricial surgiu a partir da constatação de que a reforma psiquiátrica não pode avançar se a atenção básica não for incorporada ao processo. Concentrar esforços somente na rede substitutiva não é suficiente, é preciso estender o cuidado em saúde mental para todos os níveis de assistência, em especial, da atenção básica. Entretanto, sabe- se que as equipes de atenção básica se sentem desprotegidas, sem capacidade de enfrentar as demandas em saúde mental que chegam Saúde Mental Matriciamento em saúde mental Capítulo 4 Uma equipe de referência de profissionais da ESF são responsáveis pela gestão individual, familiar ou comunitária, com uma metodologia de trabalho voltada para garantir o suporte profissional tanto na enfermagem quanto na educação profissional e apoiadores. Especialistas agregam conhecimento às equipes de referência e contribuem para intervenções que melhoram as habilidades de resolução de problemas. O matriciamento constitui-se em uma ferramenta de transformação, não só do processo de saúde e doença, mas de toda a realidade dessas equipes e da comunidade. A equipe de apoio matricial pode ser acionada para participar ativamente do projeto terapêutico: • Nos casos em que a equipe de referência percebe a necessidade de apoio da saúde mental para conduzir e abordar um caso que exige esclarecimento de diagnóstico, estruturação de um projeto terapêutico e abordagem da família. • Quando há necessidade de suporte para realizar intervenções psicossociais específicas da atenção primária, como grupos de pacientes com transtornos mentais. cotidianamente ao serviço, especialmente os casos