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Hábitos em Ortodontia A criança ao nascer é avaliada através de testes neurológicos e deverá responder positivamente aos impulsos aos quais for submetida. Entre esses impulsos o mais importante é o da sucção. Se lhes oferecermos o dedo, ela inicia a fazer sucções como que treinando para fins nutritivos. Quando lhe é oferecido o seio materno ela o apreende e faz sucções mesmo quando ainda não existe leite. Um certo número de sucções fornece um volume de leite na boca que desencadeia um outro reflexo, o da deglutição, sendo o alimento levado ao estômago. Esse volume acumula-se no estomago até a criança atingir a sensação de plenitude alimentar. Isto leva a um outro reflexo dirigido aos centros nervosos superiores para que a sucção cesse. A criança está satisfeita no aspecto nutricional e também, há uma sensação de prazer, conduzindo a um êxtase emocional profundo. Outro aspecto que se inicia desde o primeiro instante de vida é a respiração. A mãe deve tomar cuidado no momento da amamentação, para que o recém-nascido possa ter a respiração nasal e, ao mesmo tempo, observar a sua postura no berço para que não venha a assumir posições que possam trazer obstáculos à sua função respiratória normal. Com o crescimento e desenvolvimento da criança, o impulso da sucção aos poucos vai sendo substituído pela apreensão. Neste mesmo período começam a irromper os primeiros dentes decíduos. Vem, então, a necessidade de morder, que também conduz a uma sensação prazerosa. A medida que a dentadura decidua se completa, define-se o padrão mastigatorio e inicia-se o aprendizado das palavras. Tudo isso faz parte do ciclo natural evolutivo da criança. No entanto, dificilmente hoje em dia a mãe reúne condições para a amamentação. Lança mão de recursos artificiais como a mamadeira, que deixa passar um fluxo bem maior de leite, fazendo com que a criança atinja em apenas alguns minutos a sensação de plenitude alimentar que, por meio da amamentação natural, levaria cerca de meia hora. O bebê, no entanto, não faz sucções suficientes para obter o êxtase emocional, procurando, desta maneira, um substituto que pode ser a chupeta, o dedo, etc. Como o volume de leite a cada sucção de mamadeira é grande, irá implicar num treinamento errado da deglutição, podendo ocorrer desvios da posição da língua e consequentemente a instalação do hábito da deglutição atipica. Alem disso, quando a sucção é feita no peito materno, a força exercida é muito maior do que a sucção na mamadeira, ocasionando um maior desenvolvimento e maturação dos músculos periorais. A postura da criança ao alimentar-se com mamadeira deverá ser mais verticalizada, para evitar dificuldades respiratórias, o que faria com que ela passasse a respirar pla cavidade bucal. A postura no berçõ também é importante, devendo-se evitar que a criança fique com o pescoço fletido, tendo dificuldade para respirar normalmente, instalando-se o hábito da respiração bucal. Fisiologia da deglutição normal A deglutição é uma função biológica e coordenada, havendo uma conexão neurológica e um mecanismo sinérgico e antagônico de ações musculares regidas por arcos reflexos. É um ato contínuo e de execução rápida, mas para fins descritivos e didáticos é geralmente dividida em três fases: 1. Fase bucal – consciente e voluntária 2. Fase faríngea – consciente e involuntária 3. Fase esofágica – não abordada nos estudos ortodônticos. É inconsciente e involuntária. Fase Bucal A mandíbula, no início da deglutição, está em posição de descanso, ligeiramente separada do maxilar superior e um pouco adiante. A língua descansa passivamente na cavidade bucal, com a ponta apoiada contra os incisivos inferiores ou apoiada na região da papila palatina. Lábios em contato passivo. O palato mole está inclinado para baixo e apoiado contra o dorso da língua. A passagem nasal se encontra aberta. Ao deglutir os dentes entram em contato. Os lábios continuam em contato passivo somente selando a entrada da cavidade bucal. A mandíbula é estabilizada pela contração dos músculos elevadores que são inervados pelo quinto par craniano. Pode-se sentir, com as pontas dos dedos, que o músculo temporal se contrai quando a mandíbula é elevada e os dentes entram em oclusão. Quando o paciente não oclui os dentes durante a deglutição não observamos a contração do temporal. A ponta da língua, para colecionar a saliva, faz um contato rápido com as faces linguais dos incisivos inferiores e levanta-se logo em seguida para se apoiar contra as rugosidades do palato duro. As bordas laterais da língua tocam levemente as faces linguais dos dentes posteriores. A saliva é levada para trás em movimentos ondulatórios da língua, ao mesmo tempo que seu dorso abaixa. Para manter o contato com a língua, o palato mole abaixa mais. Quando a saliva atinge a faringe, começa a ação reflexa. Fase Faríngea Neste momento o palato mole se levanta, fechando a passagem da nasofaringe. O dorso da língua se inclina mais e desliza a saliva para a nasofaringe. A ação peristáltica da musculatura da faringe, mais a atividade do dorso da língua, transporta a saliva para a laringofaringe. A atividade muscular fecha a laringe e as epiglotes se colocam horizontalmente, obliterando a laringe na sua parte superior. Por uma fração de segundo a respiração é interrompida. Este mecanismo de deglutição-respiração tem que ser perfeitamente coordenado para que não ocorra a penetração de uma partícula alimentar pela laringe, indo alojar-se no pulmão. Para abrir a luz da faringe, que é mais estreita que a laringe, esta última faz movimentos para a frente e para cima (elevação do hióide por ação dos músculos supra-hióideos). Por diferenças de pressão e pela ação dos movimentos peristálticos a saliva se dirige ao esôfago. A epiglote volta passivamente à sua posição original, o palato mole se abaixa e com isto a passagem aérea se abre novamente. Equilíbrio muscular Durante uma deglutição normal é importante que haja um perfeito equilíbrio, ou um equilíbrio com forças que se anulem, entre os músculos dos lábios, bochecha e língua. Qualquer ruptura deste equilíbrio, causada pelos lábios, língua, ou ainda pelo músculo da bochecha, irá originar as deglutições atípicas e como consequência a má oclusão. O osso, embora pareça uma estrutura dura, é um tecido bastante plástico, moldando-se às pressões musculares e é sobre este princípio que se baseia toda a ortodontia. Deglutição Atípica Como já foi dito, a deglutição atípica se origina basicamente de um desequilíbrio da musculatura entre a cinta muscular perioral e a língua. 1. Causas As causas mais prováveis das deglutições atípicas são: a) Desequilíbrio do controle nervoso – são crianças que, por um problema neurológico, não tem controle sobre a musculatura nem coordenação motora; consequentemente também não mantêm o equilíbrio muscular durante a deglutição. b) Tonsilas inflamadas – amigdalites consequentes fazem com que, a cada deglutição, a criança coloque a língua numa posição mais anterior dentro da cavidade bucal, com o intuito de que a língua não toque nas amígdalas, causando dor. c) Macroglossia – são raras e ocorrem normalmente em pacientes portadores de cretinismo. São línguas com aspecto volumoso, ondulados, dando a impressão de que não cabem dentro da cavidade bucal. Quando pedimos ao paciente para colocar a língua para fora, ele não consegue “fazer ponta” e, sim, joga a língua flacidamente. Este sintoma denota não uma macroglossia, mas sim uma língua hipotônica, flácida, que não vai ser corrigida com cirurgia, mas com exercícios musculares específicos. d) Anquiloglossia – língua anquilosada que não consegue realizar os corretos movimentos de uma deglutição. e) Freio lingual anormal– ou língua presa. A correção se faz cirurgicamente. f) Perdas precoces dentais e diastemas anteriores – faz com que a criança comece a colocar a ponta da língua nesses espaços, desenvolvendo o hábito da deglutição com interposição lingual anterior. g) Desnutrição – ocasiona um quadro de distúrbio neurológico. h) Fatores simbióticos – sucção de dedo, respiração bucal, etc. i) Hábitos alimentares inadequados na primeira infância. 2. Diagnóstico Para diagnosticar uma deglutição atípica, tem-se que observar alguns aspectos no paciente durante o ato da deglutição, tais como: a) Posicionamento atípico da língua. b) Ausência de contração dos masseteres. c) Participação da musculatura perioral com pressionamento do lábio e movimentos com a cabeça. d) Sopro ao invés de sucção. e) Tamanho e tonicidade da língua. f) Cuspir ou acumular saliva ao falar. g) Baba noturna. h) Dificuldades na ingestão de alimentos sólidos. i) Desvios na fonação. A deglutição atípica caracteriza-se por uma participação ativa da musculatura perioral. Observa-se mimica com os músculos dos lábios, pressão das comissuras e participação muitas vezes dos músculos do mento. Nota-se inclusive, movimentos para trás com a cabeça, principalmente na ingestão de alimentos sólidos. Algumas crianças, como não conseguem selamento anterior correto, deixam escapar saliva pelo canto dos lábios. Se colocarmos as mãos sobre os masseteres não notamos contração dos mesmos, indicando que a deglutição está sendo feita sem a oclusão dos dentes. O cliente pode relatar baba noturna, o que indica também uma respiração bucal. Todos estes aspectos levam normalmente a sérios desvios na fonação. 3. Terapêutica da deglutição atípica A. Métodos funcionais – realizados normalmente por fonoaudiólogos, visando reeducar a musculatura envolvida na deglutição. B. Métodos psicológicos – feitos por psicólogos através de condicionamento e hipnose. C. Métodos mecânicos – executados por ortodontistas através de aparelhos que visam impedir ou direcionar a posição da língua durante a deglutição. Alguns também agem sobre o posicionamento labial e músculos do mento, ativando ou liberando sua atividade. D. Métodos mistos – são os mais indicados aliando os aparelhos a exercícios mioterápicos específicos. 4. Tipos de deglutição atípica COM PRESSÃO ATÍPICA DE LÁBIO (Interposição labial) Ocorre em pacientes que, aguarda em repouso, os lábios não entram em contato. Na ocasião da deglutição, o selamento da parte anterior da cavidade não é feito pelo simples contato do lábio superior com o inferior, mas através de uma forte contração do lábio inferior interpondo-se entre os incisivos superiores e inferiores. Os incisivos inferiores, portanto, vão se inclinando para lingual e apinhando, enquanto os incisivos superiores vão vestibularizando-se. O lábio superior, como não participa da deglutição torna-se cada vez mais hipotônico, dando um aspecto de lábio curto. O lábio inferior, no entanto, pela sua grande participação, torna-se cada vez mais hipertônico, assim como também os músculos do mento. A perda do contato funcional anterior favorece a extrusão dental, aumentando a sobressaliência e a sobremordida. O deslocamento vestibular dos incisivos superiores rompe o ponto de contato entre incisivos laterais e caninos, favorecendo a migração dos segmentos posteriores. O quadro final é uma má oclusão de Classe II, divisão 1 com sobremordida profunda. COM PRESSÃO ATÍPICA DE LÍNGUA Em pacientes com este tipo de problema, no momento de deglutir, os dentes não entram em contato. A língua se aloja entre os incisivos, podendo ás vezes se interpor entre pré-molares e molares. Nota-se também contração dos lábios das comissuras, o que acarreta um estreitamento do arco à altura dos caninos e do musculo mentoniado. Os músculos elevadores da mandíbula não mostram nenhuma contração. As deglutições com pressão atípica de língua classificam- se em: Tipo I – não causam deformidade Tipo II – com pressão lingual anterior A língua, durante a deglutição, exerce pressão nos dentes anteriores por lingual ou entre eles. As deformidades são: Mordida aberta anterior: a pressão é realizada na região anterior e a deglutição é efetuada com os dentes desocluídos, ficando a língua numa posição como se fosse ser mordida. Como consequência, tem- se uma mordida aberta anterior. Mordida aberta e vestibuloversão: a língua além de se interpor entre os dentes na região anterior, também exerce uma pressão anterior, fazendo com que os incisivos superiores e/ou inferiores exibam uma severa inclinação vestibular (vestibuloversão). Mordida aberta anterior, vestibuloversão e mordida cruzada posterior: o mesmo quadro anterior, associado a uma mordida cruzada posterior unilateral ou bilateral à altura dos molares, devido à quebra do equilíbrio muscular entre língua e músculos da bochecha. Tipo III – com pressão lingual lateral A pressão lingual é realizada na região lateral do arco, a nível de pré-molares, sendo o apoio obtido entre esses dentes do arco superior e inferior. As deformidades resultantes são: Mordida aberta lateral: a deglutição é realizada com depressão da mandíbula, ficando a língua presa na região dos pré-molares. Ocorre mordida aberta lateral. Mordida aberta lateral e mordida cruzada: ocorre mordida aberta na região de apoio, associada a uma mordida cruzada posterior do lado oposto, também devido a uma quebra do equilíbrio muscular deste lado. Tipo IV – pressão lingual anterior e lateral As más oclusões resultantes são: Mordida aberta anterior e lateral. Mordida aberta anterior e lateral com vestibuloversão. Mordida aberta anterior e lateral com vestibuloversão e mordida cruzada posterior. Hábito de postura As deformidades dos arcos podem ser causadas também pelas pressões anormais de posturas ao dormir ou sentar-se. O mais comum é o hábito de apoiar o rosto sobre a mão ou descansar o rosto sobre o antebraço durante o sono. O tipo de má oclusão causado por este hábito geralmente é unilateral e localizado no arco superior. O peso da cabeça passa aos tecidos da região maxilar e se localiza ali por ação da mão ou braço. As estruturas da mandíbula não são afetadas, pois este osso é móvel e escapa das pressões, deslizando. Os dentes da maxila, portanto, sofrem uma inclinação para palatino, ocasionando uma mordida cruzada posterior. Outro hábito frequente é o de apoiar as mãos, ao ler ou estudar, com a eminência e base do polegar, descansando contra os pré-molares e molares superiores, provocando, com esta pressão, um deslocamento lingual dos dentes. Nem todos os que praticam este hábito de postura tem desvios da oclusão, pois muitas vezes dependem da prática constante do hábito. O hábito de postura, portanto, resulta em uma mordida cruzada posterior unilateral, sem desvio da linha média (mordida cruzada posterior unilateral verdadeira). Quando houver desvio da linha média, a etiologia da mordida cruzada não será o hábito de postura e sim um desvio mandibular causando possivelmente por um contato prematuro dos caninos decíduos (mordida cruzada posterior unilateral falsa ou funcional). Hábito de onicofagia O hábito de roer as unhas geralmente é uma substituição ao ato da sucção do dedo ou da chupeta. Não se deve repreendê-lo, pois normalmente está relacionado a graves distúrbios emocionais e não causam problemas de oclusão, uma vez que produz pressão só no longo eixo dos dentes. Alguns autores, no entanto, acreditam que a onicofagia interfere no desenvolvimento normal da face, muitas vezes podendo, dependendo da frequência e intensidade, provocar uma predominância do componente vertical do crescimento da face, dando como resultado,juntamente com a deglutição atípica, a instalação de mordida aberta anterior. Hábito de respiração bucal A respiração bucal normalmente se associa a pacientes com interposição de língua e de lábio. As causas da respiração bucal podem ser: obstruções das vias aéreas superiores, desvios do septo, inflamação da membrana basal, cornetos inflamados, adenoides, etc. O que ocorre, portanto, é que durante a inspiração e expiração o ar só passa pela cavidade bucal, dando como consequência um aumento da pressão aérea intrabucal. O palato, portanto, vai se modelando e aprofundando e, ao mesmo tempo, como o ar não transita pela cavidade nasal, deixa de penetrar nos seios maxilares que ficam atrésicos, dando um aspecto característico ao paciente. Nota-se também uma atresia transversa no maxilar superior, com consequente mordida cruzada posterior bilateral óssea. Numa visão extrabucal o paciente possui “faces adenoideanas”, ou seja, rosto alongado e estreito, olhos caídos, olheiras profundas, sulcos genianos marcados, lábios entreabertos, hipotônicos e ressecados e sulco nasolabial profundo. Esses pacientes frequentemente possuem deglutição atípica e postura de língua e lábios incorretos. Hábitos de sucção A sucção do polegar provoca, na grande maioria das vezes, uma mordida aberta anterior e distalização da mandíbula, ocasionada por pressão exercida pela mão e braço. O hábito de sucção resulta em um estreitamento dos arcos superior e inferior nas regiões de caninos, molares decíduos ou pré-molares e em menor grau na região de molares superiores. Este hábito não somente produz deformação por pressão sobre os arcos, como também prejudica a estabilidade do osso alveolar, impedindo o contato funcional dos planos inclinados dos dentes. Tem-se, portanto, uma vestibularização dos dentes superiores anteriores, e uma mordida aberta originada da interferência do polegar entre os arcos. O não contato dos dentes provoca uma rotação de mandíbula no sentido horário. A pressão do dedo não se faz somente sobre os dentes, mas também sobre o osso alveolar e palato, provocando uma pressão negativa intrabucal e, como consequência, o palato se estreita e aproxima. A língua, durante a deglutição, ocupa uma posição projetada no intuito de promover o selamento anterior. O posicionamento da mão e do braço sobre a mandíbula funciona ortopedicamente, agravando ainda mais a rotação mandibular. Nem todos os que praticam uma sucção anormal apresentam arcos deformados e os dentes em má oclusão. Isto depende da posição que ocupam os dedos usados neste ato, da duração e frequência da repetição do hábito e do tipo de tecido ósseo sobre a qual atua. O hábito da sucção também pode ser com a mamadeira e/ou chupeta. Não devemos confundir hábito de sucção anormal com uma fase normal do desenvolvimento da criança, que é a fase bucal, onde sua maior percepção e tato estão na boca. Se a criança tem realmente o hábito da sucção é porque tem necessidade psicoemocional deste ato, pelo menos inicialmente. Os hábitos bucais estão intimamente relacionados com o estado emocional da criança e ela o executa nos momentos de angústia ou ansiedade. Deve-se tomar cuidado na remoção do hábito, pois, do ponto de vista freudiano, a abrupta interferência pode induzir ao aparecimento de tendências anti-sociais muito mais difíceis de conviver do que o próprio hábito. Métodos agressivos como: espeto na extremidade do dedo, gesso, tala para o braço, amarrar a criança ao dormir, etc., hoje em dia são totalmente condenáveis. A simples colocação de uma placa de Hawley irá impedir o contato do dedo com o palato, perdendo com isto o prazer da sucção e aos poucos a criança vai eliminando o hábito. Pode-se também incluir nesta placa uma grade que servirá simplesmente como um lembrete, desde que a criança esteja conscientizada da função do aparelho. Em casos de ofertas de chupeta, o ideal é que seja até o 3 aos e dar preferência a chupetas ortopédicas.