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Descrição morfológica do perfil de solo Apresentação O perfil do solo se constitui de uma janela de observação que permite conhecer as características dos solos e, assim, identificá-los. A descrição do perfil refere-se à avaliação de características que fornecem as informações essenciais para sua classificação. O processo de descrição do perfil considera os aspectos internos e externos ao mesmo. A descrição externa refere-se ao local onde o perfil está situado, levando em conta parâmetros como o relevo, a altitude e a presença de vegetação. Estes estão intimamente relacionados com as características morfológicas internas do perfil, que permitem inferir sobre aspectos físicos, químicos e biológicos do solo, tais como a presença de matéria orgânica, a drenagem do perfil e seu uso agrícola. Já a descrição interna do perfil é realizada por meio do estímulo dos sentidos, sendo necessário exercitar a sensação tátil e visual para identificar cor, textura e estrutura dos horizontes do solo. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá como as características visualizadas na avaliação do perfil são relevantes na etapa de classificação do tipo de solo, bem como aprenderá como se dá a descrição dos horizontes do solo, além de saber como proceder para realizar a escolha e descrição do local para visualizar o perfil. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Importância da descrição morfológica para a classificação do solo.• Identificar os passos para realizar a descrição morfológica interna.• Distinguir os passos para a descrição morfológica externa.• Desafio A observação do perfil do solo e a análise de suas características morfológicas permitem inferir sobre as suas atribuições agrícolas e sobre o manejo que deve ser tomado para se evitar processos de degradação do solo. As características internas do perfil, como a cor, a textura, a estrutura e consistência são necessárias para a classificação dos solos, bem como o estudo da paisagem a que pertence o perfil (morfologia externa). Analise a situação a seguir: De acordo com a imagem obtida do perfil desse solo, responda ao questionamento: qual seria a sua análise técnica a respeito da morfologia do solo e com relação ao uso? Infográfico O perfil do solo apresenta características distintas em função dos processos que envolveram a sua formação, denominados processos pedogenéticos. Para identificar os solos, é realizado o estudo da morfologia dos horizontes ou camadas do solo. Os parâmetros avaliados permitem concluir sobre diferentes aspectos relacionados à origem dos solos, sua drenagem, fertilidade natural, presença de matéria orgânica e resistência à penetração das raízes, entre outras propriedades físicas, químicas e biológicas. Neste Infográfico, você acompanhará o passo a passo para realizar a descrição morfológica interna do perfil do solo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/f2e133bc-b1a7-432f-81c8-73d78046e480/a6177c80-8d93-4801-9fb4-fc89d28e0d19.jpg Conteúdo do livro Os solos são formados por diferentes camadas, denominadas horizontes, são originados pelos processos pedogenéticos do solo e apresentam características distintas. Os horizontes ou camadas do solo se organizam um acima do outro e seu conjunto forma o perfil do solo. As características de cada horizonte que compõem o perfil do solo possibilitam identificar o tipo de solo ao qual pertencem, além de conhecer suas propriedades físicas, químicas e biológicas, as quais têm ação direta em sua classificação. O perfil do solo é analisado quanto às características morfológicas internas (dos horizontes) e externas, que devem relatar quais são as condições do ambiente no qual o solo está localizado, já que influi sobre os atributos internos do perfil. No capítulo Descrição morfológica do perfil do solo, da obra Morfologia e gênese do solo, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você conhecerá a relevância da caracterização da cor, textura, estrutura e consistência do solo. Além disso, aprenderá os passos para realizar as avaliações internas do perfil do solo e descobrirá como descrever o local no qual o perfil do solo pertence. Boa leitura. MORFOLOGIA E GÊNESE DO SOLO Camila Schwartz Dias Descrição morfológica do perfil de solo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer a importância da descrição morfológica para a classifi- cação dos solos. � Identificar os passos para a realização da descrição morfológica interna do perfil do solo. � Distinguir os passos para a realização da descrição morfológica externa do perfil do solo. Introdução Os horizontes ou camadas do solo são originados a partir dos processos pedogenéticos. Tais processos são responsáveis pelas diferenças entre os horizontes e, para avaliar essas diferenças, é necessário examinar o perfil do solo. O perfil do solo é a sequência paralela dos horizontes em relação à superfície do solo. A descrição morfológica interna do perfil possibilita identificar os horizontes do solo quanto aos atributos cor, textura, es- trutura, consistência, material de origem, entre outros. Já a descrição morfológica externa busca caracterizar a paisagem na qual o perfil do solo está localizado. Essas duas descrições são fundamentais para a clas- sificação dos solos. Neste capítulo você vai estudar a descrição morfológica do perfil de solo e sua importância na classificação dos solos. Também vai ver quais são os passos para descrever as características morfológicas internas e externas do perfil do solo. 1 Descrição morfológica para a classificação dos solos A formação dos solos ocorre por um lento processo, denominado intemperismo, que atua sobre a rocha matriz. Esse processo está intimamente relacionado com o clima de uma região e a ação dos organismos, os quais darão origem aos diferentes tipos de solos, que apresentam minerais e propriedades químicas distintas ao longo do tempo (PEREIRA et al., 2019). Os solos estão estruturados na forma de horizontes ou camadas, localizados ao longo do perfil do solo, de forma relativamente paralela à superfície (SCHROEDER, 2017). Os horizontes do solo são originados a partir dos processos de formação do solo, como adição, perda, translocação e transformações, e por isso apresentam características diferentes. Esses fenômenos ocorrem ao mesmo tempo, em diferentes intensidades, originando horizontes distintos, que podem ser iden- tificados por meio de suas propriedades morfológicas (PEREIRA et al., 2019). O conjunto de atributos morfológicos presentes nos horizontes que formam o perfil do solo o classificam. Dessa forma, o estudo de tais características é fundamental para conhecer e caracterizar os solos (PEREIRA et al., 2019). A partir desse ponto, é possível identificar a capacidade de uso de um solo e possíveis variações no desenvolvimento de plantas, diagnosticar propriedades do solo que foram degradadas, etc. (STRECK et al., 2008). A descrição morfológica demonstra as características do solo em seu local de origem a campo, identificadas pela visualização e também pela manipulação das amostras (STECK et al., 2008). Dessa forma, a identificação de um solo e sua classificação têm início no campo, na descrição do perfil do solo com seus horizontes detalhados, delimitados e identificados. Vejamos, a seguir, alguns dos atributos morfológicos que podem ser ob- servados nos solos. Cor A cor do solo tem relação com suas propriedades, sendo um indicativo de seu comportamento. Solos que apresentam um maior conteúdo de matéria orgânica exibem uma coloração escura, a qual está relacionada à decomposição de restos vegetais e animais por microrganismos presentes no solo. A matéria orgâ- nica, ao se decompor, recobre as partículas minerais do solo, escurecendo-as.A coloração escura também pode indicar presença de umidade no solo, já que Descrição morfológica do perfil de solo2 os solos úmidos têm coloração mais escura do que os solos secos. A umidade tem relação com a presença de oxigênio nos solos, que, por sua vez, influi sobre a presença de matéria orgânica no solo (BRADY; WEIL, 2013). Veja um exemplo de coloração escura do solo na Figura 1. Figura 1. Perfil de organossolo. Fonte: Santos et al. (2018, p. 352). A cor de um solo também pode revelar aspectos relacionados a sua dre- nagem. Solos identificados com coloração avermelhada e marrom intensa apresentam uma boa drenagem. Essa coloração é relacionada à oxidação de ferro (Fe) e manganês (Mn) presentes no solo. Já para os mal drenados, a coloração identificada é a cinzenta e azulada, que ocorre devido à redução dos compostos de ferro. Em ambientes onde predomina condições de excesso 3Descrição morfológica do perfil de solo de água no perfil e esse excesso permanece um período em anaerobiose, o ferro presente no solo é reduzido e demonstra a coloração cinza-claro. A redução e remoção do ferro cores cinzas, sendo essa uma característica dos solos de- nominados gleizados (BRADY; WEIL, 2013). Observe exemplos na Figura 2. Figura 2. Drenagem do perfil do solo: (a) gleissolo (drenagem insuficiente); (b) argissolo (boa drenagem). Fonte: (a) Santos et al. (2018); (b) Streck et al. (2008). Solos que têm coloração variada, como a presença dos mosqueados ama- relos e vermelhos no solo, refletem uma zona de oscilação do lençol freático no solo, característica encontrada em solos classificados como planossolos. Veja o exemplo da Figura 3. As cores claras ou esbranquiçadas que você vê na Figura 3 refletem a cor dos minerais do solo, principalmente o quartzo, e se devem à ausência de materiais pigmentantes, como a matéria orgânica e os óxidos de ferro. Dessa forma, as cores predominantes nos horizontes do perfil do solo são infor- mações importantes no que diz respeito ao ambiente de cada solo (STRECK et al., 2008). Descrição morfológica do perfil de solo4 Figura 3. Perfil de plintossolo argilúvico. Fonte: Santos et al. (2018, p. 353). Textura Assim como a cor, a análise morfológica da textura do solo é uma importante característica dos solos, e representa a quantidade de areia, silte e argila que ele apresenta. Assim, solos que apresentam uma quantidade de areia acima de 70% são denominados arenosos; solos que apresentam entre 15–35% de argila são de textura média; os que apresentam entre 35–60% são de textura argilosa; e solos com concentração maior do que 60% de argila são denominados de textura muito argilosa (COELHO et al., 2019 ). 5Descrição morfológica do perfil de solo A textura do solo é avaliada por meio da sensação tátil de uma amostra. Para a identificação dos componentes, deve-se comprimir o solo buscando a sensação de aspereza para identificar a areia; a sedosidade não pegajosa para identificar o silte; e a sedosidade plástica e pegajosa para identificar a argila. A identificação da textura dos horizontes ao longo do perfil do solo tem como objetivo identificar as variações que ocorrem entre os horizontes, as quais compõem os critérios de classificação de alguns solos. Alguns podem apresen- tar textura uniforme ao longo do perfil, a exemplo dos latossolos e nitossolos. Outros demonstram uma transição em sua textura, como o que ocorre nos argissolos, plintossolos e planossolos, os quais apresentam um horizonte A com textura arenosa e um horizonte B com maior presença de argila; a esse fenômeno dá-se o nome de gradiente textural (SANTOS et al., 2015). Os solos podem apresentar um gradiente textural caracterizado pela tran- sição acentuada e abrupta, a qual pode ser observada no horizonte B textural (Bt), como o mostrado na Figura 4. Figura 4. Perfil de argissolo vermelho distrófico. Fonte: Streck et al. (2008, p. 22). Descrição morfológica do perfil de solo6 Um horizonte A pouco espesso e com a presença de um horizonte com transição textural abrupta pode caracterizar um impedimento físico ao cresci- mento das raízes ao longo do perfil do solo, prejudicando o desenvolvimento das culturas. Dessa forma, outras implicações podem ser observadas, como escorrimento superficial, erosão hídrica, deficiência temporária de oxigênio, que prejudicam e podem ocasionar a morte de plantas (STRECK et al., 2008). Estrutura A estrutura dos solos compreende a forma como a fração sólida está organizada, podendo estar solta na forma de grão simples, como a areia, ou formando os agregados. Os agregados podem ser do tipo laminar, granular, blocos angulares ou subangulares, prismático e colunar. A presença de estruturas específicas em determinados horizontes, como a presença de agregados do tipo prismá- tico e colunar, são identificadas em horizontes B de solos classificados como planossolos e luvissolos (STRECK et al., 2008). A presença de estruturas no solo está relacionada à presença de poros, bem como à capacidade de armazenamento e infiltração da água no solo. Algumas estruturas conferem maior suscetibilidade à erosão. A presença de blocos subangulares no horizonte B confere maior infiltração e armaze- namento de água no solo, além de menor possibilidade de erosão, quando comparada com solos que apresentam estrutura laminar (STRECK et al., 2008). 7Descrição morfológica do perfil de solo Resistência A resistência dos solos demonstrada pela característica morfológica de consis- tência, indicada pelas forças de coesão e adesão que um solo pode apresentar, está relacionada à textura, à presença de matéria orgânica, aos argilominerais e também ao manejo do solo. Sobre este último, a pegajosidade, demonstrada quando o solo está úmido, é uma das características que tem implicações diretas na execução das práticas de manejo do solo, pois o solo permanece aderido aos equipamentos agrícolas. Outra implicação é a umidade excessiva, a qual contribui para a compactação do solo (STRECK et al., 2008). A importância da descrição das características morfológicas é revelada na caracterização e classificação do solo. Algumas delas são indispensáveis para este fim, a exemplo do atributo cor, que deve ser avaliado em solo seco e úmido nos horizontes superficiais (H ou O, A e AB). As cores em solo úmido dos horizontes subsuperficiais, a textura, a estrutura, a cerosidade, a consistência, entre outras, são atributos indispensáveis na identificação dos solos, de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS) (SANTOS et al., 2018). A classificação dos solos deve seguir as recomendações do SiBCS. O sistema se utiliza das características morfológicas observadas no perfil do solo e serve de referência para as análises e a identificação dos solos do Brasil, por isso é de grande importância na classificação dos solos. Se quiser consultar o SiBCS na íntegra, pesquise “Sistema Brasileiro de Classificação de Solos” em seu navegador da internet. Os primeiros resultados da busca serão do site da Embrapa — clicando em um deles, você chegará no manual do SiBCS. Classificar os solos de acordo com a seus atributos morfológicos possibilita desenvolver estratégias de manejo e cultivo adequado para os diferentes tipos de solo. Dessa forma, os solos são preservados da degradação e erosão, além de proporcionarem um ambiente favorável para o desenvolvimento das culturas. Descrição morfológica do perfil de solo8 2 Descrição morfológica interna do perfil do solo A descrição morfológica dos solos tem como passo inicial, que é a observação das características ambientais onde o perfil está localizado. Essas particularida- des irão contribuir com a classificação do solo e estão intimamente relacionadas com os atributos morfológicos a serem avaliados. Esses atributos, por sua vez, devem ser descritos conforme a metodologia estabelecida em manuais de coleta e descrição de solos (SANTOS et al., 2018). Essas características permitemque se faça inferências sobre o comportamento dos solos em relação ao seu uso agrícola (manejo e uso sustentável do solo, práticas agrícolas, erodibilidade etc.) (SANTOS et al., 2015). Os parâmetros normalmente avaliados na morfologia dos solos são obser- vados por meio da sensação do tato e da visualização do perfil. Tais sentidos são empregados para avaliar cor, textura, estrutura, porosidade, consistência e transição entre horizonte e/ou camadas. Essas avaliações são realizadas a campo e são imprescindíveis para a classificação dos solos, visto que algumas características têm sua avaliação prejudicada ou perdida quando se retiram amostras. Isso se deve ao fato de o solo ser descrito como um corpo dinâmico, com atributos que se modificam com o tempo, como a umidade, a temperatura, a população e a atividade microbiana, além de vegetação, raízes, organização estrutural, entre outros. Isso demonstra a importância desta etapa, a qual será complementada com as análises em laboratório (SANTOS et al., 2015). Para observarmos o perfil do solo, é necessário a abertura de uma trincheira, que permitirá avaliar as características, retirar amostras e fotografias. A aber- tura da trincheira é realizada manualmente e, por isso, são necessárias algumas ferramentas, como as mostradas na Figura 5. O tamanho da trincheira pode ser variado, porém usualmente se utilizam as medidas de 1,20 m de largura, 2,00 m de comprimento e 2,00 m de profundidade, semelhante à trincheira mostrada na Figura 6 (SANTOS et al., 2015; IBGE, 2015). 9Descrição morfológica do perfil de solo Figura 5. Ferramentas utilizadas para abertura do perfil: (a) trado holandês; (b) trado de caneco; (c) facão; (d) ponteira de trado holandês; (e) martelo de borracha; (f) pá reta; (g) pá redonda grande; (h) picareta; (i) pá redonda pequena; (j) enxadão. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). (a) (b) (c) (d) (e) (f ) (g) (h) (j) (i) Figura 6. Abertura de trincheira. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). Descrição morfológica do perfil de solo10 Para a abertura de trincheiras, podem ser utilizados barrancos, voçorocas e sulcos de erosão para realização de exames rápidos, como também para os exames em detalhe. Dessa forma, deve-se proceder à separação dos horizontes do perfil e à identificação das características necessárias para classificar o solo, além da coleta de amostras para o exame em laboratório. O aproveitamento dessa estrutura requer que sejam observados alguns pontos, como a deposição de material externo, resultado da escavação ou de outro processo. Dessa forma, é recomendado que se retire em torno de 40 cm de solo da face do perfil, a fim de expor uma camada mais interna sem ações externas (SANTOS et al., 2015; IBGE, 2015). A abertura de trincheiras manualmente é indicada quando não há pos- sibilidade de ser aproveitado um barranco ou uma beira de estrada para se observar o perfil do solo. Após a abertura da trincheira, inicia-se o processo de descrição morfológica interna, com o perfil do solo exposto. Nesta etapa, o primeiro passo é a separação do perfil em horizontes, sub-horizontes e camadas, os quais são diferenciados pelas características morfológicas (cor, textura, estrutura, consistência...) e devem ser avaliados de forma simultânea (SANTOS et al., 2015). A utilização de instrumentos como faca e martelo auxilia na avaliação. É indicado que sejam retiradas pequenas amostras ao longo do perfil e sejam feitas comparações quanto à cor, forma das estruturas e consistência das amostras, assim identificando os diferentes horizontes. A observação das amostras do perfil permite reconhecer as diferenças de cores e transições entre os horizontes. Por meio da sensação do tato ao manusear uma amostra, é possível avaliar a sua consistência (SANTOS et al., 2015). A descrição deve ser complementada com informações que possam ser visualizadas no momento da descrição, como presença de raízes nos horizontes e a sua distribuição no perfil, atividade biológica, presença de linha de pedra (stone line), concreções ou nódulos, acúmulo de sais minerais, compactação, etc. (SANTOS et al., 2015). Os horizontes e camadas principais do solo são escritos em letra maiúscula e são oito ao total: O, H, A, E, B, C, F e R. Entre esses, A, E B, são sempre definidos como horizontes. As designações O, H, C e F referenciam a evolução pedogenética, ou seja, qualificam as camadas e horizontes. A letra R identifica unicamente uma camada (PEREIRA et al., 2019) 11Descrição morfológica do perfil de solo Após a separação dos horizontes ou camadas, inicia-se o processo de tomar as medidas de profundidade do perfil e espessura de cada horizonte. Para isso é necessário a utilização de uma régua, trena ou fita métrica, que deverá ser posicionada verticalmente no perfil. O “zero” deverá coincidir com a camada ou horizonte superior do perfil, e proceder à leitura de cima para baixo. Deve-se anotar a leitura correspondente ao limite superior e inferior que cada camada ou horizonte identificado ocupa dentro do perfil do solo (IBGE, 2015). Na mensuração de solos que apresentam em sua superfície um horizonte orgânico (O), o zero da fita deverá coincidir com a superfície do horizonte A (mineral), e deve-se proceder à leitura de baixo para cima, ou seja, do horizonte A para a superfície. A presença de horizonte orgânico O ou H é um item de classificação para identificar os organossolos; neste caso, deve-se proceder às medições normalmente, conforme é para os horizontes minerais. Da mesma forma é realizada a medição do horizonte H, encontrado acima do horizonte Cg nos solos classificados como gleissolos (SANTOS et al., 2015). Quando a transição entre os horizontes for ondulada, irregular, descontí- nua ou quebrada, deve-se ponderar a profundidade predominante e anotar as variações máximas e mínimas. Caso a medição da profundidade do horizonte não seja completa, deve-se proceder à anotação do valor obtido e acrescentar o sinal “+” no limite inferior, como mostra a Figura 7, para indicar que o horizonte apresenta uma maior profundidade (SANTOS et al., 2015). Figura 7. Tomada de profundidade e espessura de um perfil de solo. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). Profundidade dos horizontes Espessura dos horizontes A — 0–28 cm E — 28–56 cm EB — 56–78 cm B — 78–110 cm+ A — 28 cm E — 28 (22–50 cm) EB — 22 (16–28 cm) B — 32 cm+ Descrição morfológica do perfil de solo12 A descrição da transição dos horizontes deverá ser feita com relação a sua nitidez (Quadro 1) ou contraste e a sua topografia (Figura 8). Fonte: Adaptado de IBGE (2015). Nitidez Espessura da faixa de separação Abrupta 2,5 cm e 7,5 cm e 12,5 cm Quadro 1. Classificação quanto à nitidez da transição dos horizontes Figura 8. Diferentes transições entre horizontes. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). 13Descrição morfológica do perfil de solo A transição entre os horizontes pode ser classificada ainda da seguinte maneira (IBGE, 2015): � Plana: quando a faixa que separa os horizontes apresenta-se horizontal e paralela à superfície do perfil. � Ondulada: quando a separação é sinuosa, com presença de desníveis, que se apresentam mais largos que profundos. � Irregular: quando os desníveis são maiores em profundidade e menores em largura. � Descontínua: quando ocorrem falhas na transição, ou apresentam partes desconectadas no horizonte. A transição entre os horizontes está relacionada à origem dos solos e tam- bém aos fatores que afetam o uso agrícola dos mesmos, como a erodibilidade, a organização dos poros ao longo do perfil e o desenvolvimento das raízes das plantas (SANTOS et al., 2015). Cor A cor é uma das características de maior facilidade na execução de identifica- ção de um solo, sendo um importante indicativo do comportamento químico, físico e biológico dos solos (SANTOS et al., 2015). Para a determinação da cor do horizonte ou camada, é importante que haveruma boa iluminação e inclinação dos raios solares, para que não se formem sombras e se tenha uma melhor percepção das cores que compõem o solo (IBGE, 2015). A cor de uma camada ou horizonte é determinada por comparação da amostra com a carta de cores denominada Carta de Cores Munsell (Figura 9). A nomenclatura da coloração deverá ser composta pelo código correspondente da carta, o qual é composto pela designação da matiz, valor e croma e a umi- dade em que a amostra se encontrava (IBGE, 2015). O matiz corresponde ao espectro dominante da cor (vermelho, amarelo, azul, verde e púrpura), o valor indica a tonalidade da cor e o croma, a saturação da cor (SANTOS et al., 2015). Descrição morfológica do perfil de solo14 Figura 9. Carta de Cores de Munsell e esquema demonstrando croma, matiz e valor. Fonte: Pereira et al. (2019, documento on-line). A cor de uma amostra é variável com relação ao grau de umidade e, por- tanto, deve ser indicada no momento de classificar a cor do horizonte — por exemplo, amarelo-brunado (10YR 6/8, úmida). O procedimento adequado para avaliar a coloração do horizonte é o seguinte (IBGE, 2015): 1. Realizar a determinação da cor com a amostra úmida para todos os horizontes que compõem o perfil. 2. No horizonte A, registrar a cor em amostra úmida e seca. 3. Na determinação da coloração em horizonte E, quando em dúvida, proceder a avaliação em amostra seca também. 4. Em horizontes hísticos, a avaliação com a mostra úmida é suficiente. 5. Restringir ao máximo a interpolação de cores. Os solos podem apresentar manchas, as quais são denominadas mosque- ados ou variegados. Geralmente ocorrem em horizontes ou camadas do solo, quando o material de origem do solo se faz presente, podendo ter sofrido o processo de intemperismo ou não. Os mosqueados também podem estar as- sociados a drenagem imperfeita ou acúmulo de material orgânico ou mineral. O mosqueado apresenta uma cor predominante ou pode demonstrar várias machas sem haver uma cor predominante. Para sua avaliação, é considerada a quantidade e o tamanho das manchas, conforme os parâmetros do Quadro 2, e o contraste, o qual pode ser caracterizado como (SANTOS et al., 2015): 15Descrição morfológica do perfil de solo � Difuso: quando o mosqueado é indistinto, sem variar muito com relação à cor principal. � Distinto: quando é possível verificar o mosqueado facilmente. � Proeminente: quando a diferença de coloração do mosqueado é várias unidades distinta da predominante. Fonte: Adaptado de IBGE (2015). Quanto à quantidade Pouco > 2% do volume Comum 2 a 20% do volume Quanto à forma Pequeno Eixo maior inferior a 5 mm Médio Eixo maior do que 5 a 15 mm Grande Eixo maior superior a 15 mm Quadro 2. Classificação dos mosqueados do solo Textura A textura do solo é caracterizada pela presença das partículas que constituem o solo, que são separadas por tamanho, como mostra o Quadro 3. As classes texturais indicam a presença do conteúdo das frações areia, silte e argila, sendo sua classificação obtida por meio do triângulo textural, apresentado na Figura 10. Descrição morfológica do perfil de solo16 Fonte: Adaptado de IBGE (2015). ArgilaFigura 16. Classe da estrutura prismática. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). 23Descrição morfológica do perfil de solo A terceira avaliação quanto à estrutura é com relação ao seu grau de desenvolvimento. Os graus de estrutura podem ser divididos nos seguintes: � Sem estrutura: são identificados com relação à coesão entre as unidades, podendo ser grão simples quando não apresenta coesão e maciça em presença de coesão. � Com estrutura: esta característica é avaliada com relação a maior ou menor facilidade em separar as unidades estruturais, variando conforme o grau de desenvolvimento, que você pode ver no Quadro 4. Fonte: Adaptado de IBGE (2015). Grau de desenvolvimento Características Fraca Agregados pouco nítidos, de difícil percepção tanto in loco (no barranco) quanto em amostra destacada e com proporção muito inferior a de material não agregado. Exemplo: alguns horizontes B incipientes e alguns horizontes B texturais de textura média. Moderada Nitidez dos agregados intermediária ou razoável tanto in loco (no barranco) quanto em amostra destacada e com percentual equivalente entre unidades estruturais (agregados) e material não agregado. Forte Agregação nítida, com separação fácil dos agregados e praticamente inexistência de material não agregado. Exemplo: estrutura tipo “pó de café” do horizonte B de alguns latossolos vermelhos e estrutura tipo “grãos de milho” de nitossolos. Quadro 4. Grau de desenvolvimento de agregados A avaliação dos graus de desenvolvimento dos agregados a campo é rea- lizada indicando-se a proporção de estruturas agregadas e não agregadas na superfície do horizonte (SANTOS et al., 2015). Descrição morfológica do perfil de solo24 Porosidade Esta avaliação é caracterizada pela descrição do tamanho e da quantidade de poros presentes. Quanto ao tamanho, a porosidade da amostra pode ser classificada da seguinte maneira: � Sem poros visíveis: não é possível visualizar mesmo com lupa de au- mento de 10×. � Poro muito pequeno: menos que 1 mm de diâmetro. � Poro pequeno: 1–2mm de diâmetro. � Poro médio: 2–5mm de diâmetro. � Grande: 5–10mm de diâmetro. � Muito grande: maior do que 10mm de diâmetro. De modo a facilitar a classificação com relação à quantidade de poros, ela está associada aos horizontes, acompanhe: � Poucos poros: horizonte B de planossolo nátrico, Bf de plintossolo e Cg de gleissolo. � Poros comuns: horizonte B textural de textura argilosa. � Muitos poros: alguns horizontes B latossólicos e solos arenosos. Cerosidade A cerosidade é uma avaliação que indica a presença de material inorgânico, ou seja, argilominerais ou óxidos de ferro, que confere aspecto lustroso e brilho à amostra do solo (PEREIRA et al., 2019). A campo, a presença de cerosidade deve ser observada na face dos agregados ou em partículas primárias grosseiras, pela observação direta na superfície da fração. Deve-se considerar cor, brilho e textura da porção interna dos agregados, comparando-os com a face super- ficial, e assim proceder à sua classificação quanto à quantidade e ao grau de desenvolvimento, conforme você pode visualizar no Quadro 5 (IBGE, 2015). 25Descrição morfológica do perfil de solo Fonte: Adaptado de IBGE (2015). Caracterização quanto ao grau de desenvolvimento Fraca Pouco nítida e difícil percepção de contraste em relação à cor da matriz do solo, geralmente diagnosticada com o auxílio de lupa (10× ou mais). Moderada Percepção razoável e bom contraste em relação à matriz do solo, geralmente perceptível a olho nu. Forte Contraste e nitidez perceptíveis a olho nu com grande facili- dade, não deixando qualquer tipo de dúvida para o examinador. Caracterização quanto à quantidade Pouca Ocorrência inexpressiva no horizonte, sendo a proporção de elementos ou agregados estruturais recobertos por cerosidade bem inferior à de elementos não recobertos. Comum Ocorrência de quantidade considerável, sendo a proporção de elementos/agregados estruturais recobertos por cerosidade equivalente à de elementos não recobertos. Abundante Presença ostensiva no horizonte, sendo a proporção de elementos ou agregados recobertos por cerosidade muito superior à de elementos/agregados não recobertos. Quadro 5. Caracterização da cerosidade Consistência Na determinação da consistência do solo, devem ser retirados das camadas ou horizontes torrões ou porções de amostras. A consistência é variável conforme a umidade do material, sendo necessária a avaliação em solo seco, úmido e molhado. A consistência da amostra em estado seco deverá ser determinada pela compressão do torrão com os dedos polegar e indicador. De acordo com a força aplicada, a classificação poderá ser a seguinte (IBGE, 2015): � Solta: quando a amostra não adere aos dedos. � Macia: quando fracamente coerente e frágil, originando grãos indivi- duais ou materiais pulverizados. Descrição morfológica do perfil de solo26 � Ligeiramente dura: fracamente resistente à pressão, facilmente quebrável. � Dura: moderadamente resistente à pressão, quebrável nas mãos, mas difícil de quebrar com os dedos. � Muito dura: muito resistente à pressão, difícil de quebrar com as mãos. � Extremamente dura: extremamente resistente à pressão, não podendo ser quebrada com as mãos. A consistência de um solo úmido deverá ser obtida com o solo em um nível intermediário entre seco ao ar e a capacidade de campo. A forma correta de analisar a consistência de uma amostra úmida é tentar desmanchar a amostra entre os dedos polegar e indicador; a análise pode resultar na seguinte clas- sificação (IBGE, 2015): � Solta: não coerente. � Muito friável: o material desliza sob leve pressão, agregando-se por compressão posterior. � Friável: a amostra desliza facilmente sob pressão moderada, porém apresenta resistência perceptível. � Muito firme: quando a amostra desliza sobre fácil pressão. Dificilmente esmagável entre os dedos. � Extremamente firme: a amostra somente desliza se ocorrer pressão muito forte. Não pode ser esmagada com os dedos, devendo ser fragmentada pedaço por pedaço. A consistência de uma amostra molhada deve ser determinada com a amos- tra ligeiramente acima da capacidade de campo. A amostra deve ser coletada do horizonte ou camada e, estando em mãos, deve ser molhada aos poucos e ser pressionada ao mesmo tempo, com o objetivo de desfazer os agregados. É necessário ter atenção para não adicionar muita água e encharcar a amostra. O grau de plasticidade do material do solo deve ser modelado em formato de fio ou cilindro e classificado de acordo com o diâmetro e o comprimento do cilindro, como mostra o Quadro 6. 27Descrição morfológica do perfil de solo Fonte: Adaptado de IBGE (2015). Classes de plasticidade Ligeiramente plástica Plástica Muito plástica Não plástica Diâmetro dos cilindros (mm) 6 4 2 Nenhum cilindro se forma Compri- mento do cilindro 4 cm Quadro 6. Critério para determinação da plasticidade Pegajosidade A pegajosidade expressa a aderência da amostra de solo, sendo uma avaliação realizada em amostra molhada e homogeneizada. A amostra é classificada da seguinte maneira quanto à pegajosidade: � Não pegajosa: quando é cessada a pressão, a amostra não apresenta aderência entre polegar e indicador. � Ligeiramente pegajosa: após cessar a pressão, a amostra adere aos dedos, porém de desprende por completo. � Pegajosa: após a pressão, o material é aderido aos dedos, tendendo a se alongar um pouco quando os dedos são afastados. � Muito pegajosa: depois da compressão, o material fica aderido aos de- dos e se alonga quando os dedos são espaçados, demorando a se romper. Descrição morfológica do perfil de solo28 Cimentação Esta avaliação se refere à consistência quebradiça ou dura do material do solo que age como cimentante. O material pode ser classificado quanto à cimentação da seguinte maneira: � Fracamente cimentado: quando a massa é quebradiça, tenaz ou dura e quebrável com asmãos. � Fortemente cimentado: quando a massa é quebradiça e dura, não quebrável com as mãos, mas facilmente com o martelo. � Extremamente cimentado: quando a massa é quebradiça, sem alteração sob umedecimento, quebrável com uso de martelo e força. Outras avaliações Nódulos e concreções minerais Refere-se à presença de corpos cimentados de composição variada que podem ser removidos da matriz do solo sem alterar sua estrutura. Os nódulos podem ser distinguidos das concreções por apresentarem organização interna ordenada. Podem ser classificados quanto a quantidade, tamanho, dureza, forma, cor e natureza (SANTOS et al., 2015). Presença de minerais magnéticos Para esta avaliação é necessário que se tenha um imã de bolso. A classificação é realizada com base na atração da amostra pelo imã, que pode ser forte, moderada ou fraca (SANTOS et al., 2015). Presença de carbonatos Para identificar a presença de carbonatos, é necessário colocar algumas gotas do reagente HCl 10% e classificar a reação em ligeira, forte ou muito forte (SANTOS et al., 2015). Presença de sulfetos Algumas áreas úmidas associadas a rochas sedimentares podem dar origem aos sulfetos (SANTOS et al., 2015). 29Descrição morfológica do perfil de solo Eflorescências Referem-se à presença de sais cristalinos na superfície de elementos estruturais, que estão associados a um longo período seco (SANTOS et al., 2015). Coesão Esta avaliação ocorre no perfil do solo, sendo necessário que a umidade esteja inferior à capacidade de campo. O perfil é avaliado quanto ao grau de coesão em moderadamente coeso e fortemente coeso (SANTOS et al., 2015). Conhecer os passos para a avaliação da morfologia do solo auxilia no desenvolvimento do trabalho a campo. As características morfológicas per- mitem que os técnicos realizem importantes inferências sobre os solos, o que possibilita um rápido diagnóstico a campo sobre os aspectos agrícolas dos solos. 3 Descrição externa do perfil do solo O solo é o resultado da interação do fator ambiental que atua sobre a rocha matriz; sendo assim, os fatores do ambiente influenciam diretamente na for- mação do solo. A interferência do ambiente revela características do perfil do solo e por isso a descrição do local onde o perfil do solo está localizado é de suma importância (PEREIRA et al., 2019). De maneira geral, a descrição do perfil deve ser iniciada pela identificação do perfil por número, data e a classificação utilizada. No Brasil, a classificação dos solos a campo deve seguir as normas estabelecidas no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, como você já viu (SANTOS et al., 2015). A locali- zação deve abordar as coordenadas obtidas por GPS, além do município e do país a qual pertence. Deve-se também adicionar informações que auxiliem no direcionamento ao local de observação do perfil, como estradas, rios e pontos de referência (IBGE, 2015). O próximo passo é identificar o perfil quanto à situação em que ele se encontra. Aqui deve ser abordado o tipo de paisagem e sua posição com relação a encosta, como explica a Figura 17 e o Quadro 7. Essas informações contribuem para indicar a evolução do solo (IBGE, 2015). Descrição morfológica do perfil de solo30 Figura 17. Posição do solo em relação à encosta. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). Fonte: Adaptado de IBGE (2015). Tipo de paisagem Colina/morro Planalto/chapada Depressão Planície Escarpa Planície de inundação Patamar Terraço fluvial Posição na encosta Terço inferior Terço superior Terço médio Topo Quadro 7. Aspectos da situação do perfil do solo 31Descrição morfológica do perfil de solo A declividade do terreno deverá ser tomada, fazendo parte da caracteriza- ção do relevo. A inclinação com a superfície do terreno deve ser classificada como declive ou aclive, e sua medição é feita por um instrumento chamado de clinômetro, que fornece os dados para preencher a seguinte equação (IBGE, 2015): D(%) = 100 · EV / EH onde: � D: declividade. � EV: distância vertical. � EH: distância horizontal. A presença de cobertura vegetal deve ser mencionada e identificada, assim como deve ser mencionado o uso atual do solo. Os dados referentes à altitude devem ser obtidos com auxílio de GPS, e o clima da região deve ser identificado de acordo com a classificação de Köppen. Devem ser abordadas a litologia da rocha ou sedimento que forma o substrato do perfil, bem como o período geo- lógico e a formação geológica das rochas do substrato (SANTOS et al., 2015). A rocha que dá origem ao solo tem uma íntima relação com o material de origem do solo, e essa relação é mais evidente em solos menos evoluídos. Portanto a observação mais a fundo de sua composição química, física e mineralógica auxilia na interpretação dos solos que se originaram a partir daquelas rochas. O material de origem se refere à natureza do material que originou o solo, que pode ser classificado em autóctone, pseudoautóctone (solo influenciado pelo material externo) ou alóctone (solo transportado) (IBGE, 2015). A presença de linhas de pedra com formato arredondado ou subarredondado, como o exemplo da Figura 18, geralmente indica a descontinuidade entre os solos e as rochas, porém pode ser consequência de outro condicionante, sendo necessário observar outras análises para comprovação da informação (IBGE, 2007). Descrição morfológica do perfil de solo32 Figura 18. Stone line (pedras subarredon- dadas) em perfil de argissolo vermelho- -amarelo eutrófico típico (Anápolis, GO). Fonte: IBGE (2007, documento on-line). Quando o solo apresentar linhas de pedra, estas deverão ser descritas quanto a sua espessura, profundidade, constituição e formato. Também deve-se informar quando houver cobertura de origem coluvial, aluvial e influência marinha ou lacustre (SANTOS et al., 2015). A pedregosidade se refere à presença de frações do tamanho de calhaus (2–20 cm) e matacões (20–100 cm) ao longo da superfície ou subsuperfície. As frações são classificadas em (IBGE, 2015): � Não pedregosa: quando em ausência de calhaus e matacões. � Ligeiramente pedregosa: quando 0,01–0,1% da superfície apresenta calhaus e/ou matacões. � Moderadamente pedregosa: quando calhaus e/ou matacões ocupam de 0,1–3% do solo ou superfície. � Pedregosa: quando ocupam 3–15% da massa do solo ou superfície. � Muito pedregosa: quando ocupam de 15–50% da massa do solo ou superfície do terreno. � Extremamente pedregosa: quando ocupam de 50–90% da superfície ou massa do solo, como o exemplo da Figura 19. 33Descrição morfológica do perfil de solo Figura 19. Classe extremamente pedregosa. Fonte: Adaptada de IBGE (2015). Quanto à presença de rochosidade, caracterizada como sendo a exposição do substrato rochoso, a superfície do solo pode ser classificada em (IBGE, 2015): � Não rochosa: quando a ocorrência for de 0–2%. � Ligeiramente rochosa: 2–10% da superfície. � Moderadamente rochosa: 10–25% da superfície. � Rochosa: 25–50% da superfície. � Muito rochosa: 50–90% da superfície, como o exemplo da Figura 20. � Extremamente rochosa:comprometer seus atributos (SANTOS et al., 2015). De acordo com o relevo local e regional, o relevo pode ser separados em (IBGE, 2015): � Plano: quando a topografia é lisa, os desníveis são pequenos e a decli- vidade é menor do que 2%. � Suave ondulado: topografia ligeiramente movimentada, presença de colinas e vales e declividade de 3–8%. � Ondulado: topografia ondulada, colinas, vales encaixados, declividade de 8–20%. � Forte ondulado: topografia movimentada, presença de morros e vales profundos, desníveis e declives maiores do que 20–45%. 35Descrição morfológica do perfil de solo � Montanhoso: topografia vigorosa, presença de morros e montanhas, desníveis grandes e declives fortes ou muito fortes, maiores do que 45–75%. � Escarpado: presença de superfícies íngremes superiores a 75%, vértices inclinados e fortes. A erosão do solo também deve ser avaliada, pois é uma informação rele- vante para inferir sobre a tendência do solo a sofrer esse processo (SANTOS et al., 2015). Com relação à presença de erosão em que se encontra o perfil do solo, ela é classificada de acordo com a porcentagem de remoção do horizonte A, podendo ser não aparente; ligeira (menos de 25%); moderada (25–75%); forte (mais de 75%); muito forte (horizonte A e parte do B comprometidos); extremamente forte (horizontes A e B removidos e C comprometido) (IBGE, 2015). A avaliação da drenagem do solo indica o comportamento da água no perfil do solo. Quando o perfil apresenta má drenagem, acumulando água por um período, favorece as reações de redução, enquanto a boa drenagem do solo favorece a reação de oxidação. Essas reações são percebidas no solo visual- mente pela coloração do perfil, como você já viu. De acordo com a drenagem do solo, é possível classificar o solo conforme a presença de água e o tempo de permanência da água no perfil do solo da seguinte maneira (IBGE, 2015): � Excessivamente drenado: a água é drenada muito rapidamente. � Fortemente drenado: a água é drenada rapidamente, há presença de muitos poros, que são muito permeáveis. � Acentuadamente drenado: a água é removida rapidamente, há presença de muitos poros permeáveis. � Bem drenado: a água é removida facilmente. � Moderadamente drenado: a drenagem é lenta. � Imperfeitamente drenado: a água é drenada lentamente, permanecendo o perfil molhado por tempo significativo. � Mal drenado: a água é drenada lentamente e o solo permanece úmido grande parte do ano. � Muito mal drenado: a água é drenada lentamente e o lençol freático fica próximo à superfície ou na superfície grande parte do ano. Descrição morfológica do perfil de solo36 A última etapa é a inserção do nome dos participantes da descrição do solo no campo “Descrito e coletado”, onde é adicionado o nome do técnico que realizou a descrição. A descrição externa do perfil possibilita a identificação das características internas do solo, estando intimamente relacionada com os atributos morfológi- cos, como cor, textura, estrutura, entre outras. Isso a tornando indispensável para a classificação dos solos. Eduardo é engenheiro agrônomo e atua como consultor comercial de uma empresa de fertilizantes na região de Pato Branco, Paraná. Eduardo foi solicitado por um produtor rural a identificar um possível problema de morte de plântulas de milho por “queima” do fertilizante. Ao chegar na área onde o produtor havia relatado a morte de plântulas, Eduardo verificou que o relevo do local era levemente ondulado e que a morte das plântulas se concentrava em locais baixos; nas regiões mais altas, as plantas tinham germinado bem e já estavam desenvolvidas. Curioso com o fato, Eduardo solicitou ajuda do produtor rural para escavar uma trincheira e observar o perfil do solo. Nos primeiros horizontes, Eduardo avaliou a drenagem do perfil e verificou, pela cor dos horizontes, que o solo apresentava uma drenagem imperfeita, e logo visualizou um horizonte com a presença de mosqueados de cor amarela, característico da reação de oxirredução decorrente de problemas de drenagem do perfil. Eduardo explicou ao produtor que a morte das plântulas ocorreu devido à falta de oxigênio no solo e recomendou a construção de drenos para diminuir o problema na área. O conhecimento de Eduardo sobre as características morfológicas do perfil o ajudaram a identificar problemas e propor soluções para auxiliar o produtor rural. BRADY, N. C.; WEIL, R. R. Elementos da natureza e propriedades dos solos. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. IBGE. Manual técnico de pedologia: guia prático de campo. Rio de Janeiro: IBGE, 2015. IBGE. Manual técnico de pedologia. 2. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. (Manuais Técnicos em Geociência, 4). Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/ liv37318.pdf. Acesso em: 11 jun. 2020. 37Descrição morfológica do perfil de solo Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. PEREIRA, M. G. et al. Formação e caracterização de solos. [S. l.], 2019. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/202369/1/Formacao-e-carac- terizacao-de-solos-2019.pdf. Acesso em: 11 jun. 2020. SANTOS, H. G. et al. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 5. ed. Brasília, DF: Embrapa, 2018. SANTOS, R. D. et al. Manual de descrição e coleta de solo no campo. 7. ed. Viçosa, MG: SBCS, 2015. SCHROEDER, D. Solos: fatos e conceitos. São Paulo: ANDA, 2017. Disponível em: http:// www.ufla.br/dcom/wp-content/uploads/2018/03/Solos-Fatos-e-Conceitos-final- -final-1-1.pdf. Acesso em: 11 jun. 2020. STRECK, E. V. et al. Solos do Rio Grande do Sul. 2. ed. Porto Alegre: Emater/RS, 2008. Leitura recomendada BLAYA, S. N.; GARCIA, G, N. Quimica agrícola: el suelo y los elementos químicos esenciales para la vida vegetal. 2. ed. Madrid: Mundi-Prensa Livros, 2003. Descrição morfológica do perfil de solo38 Dica do professor As propriedades morfológicas do solo podem ser utilizadas como ferramentas para identificá-los e têm relação com suas características físicas, químicas e biológicas. Além disso, pode ser um indicativo de problemas que podem ser verificados no perfil, como acúmulo de água, problemas de drenagem, erosão, entre outros. A avaliação da cor dos solos permite inferir sobre vários aspectos dos solos. Na Dica do professor, você aprenderá sobre a cor do solo, a importância da descrição dessa propriedade morfológica e os passos para realizar sua avaliação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/0a5ebd07290e538f0bae89dde2232db5 Exercícios 1) Os horizontes do solo são formados por processos que incluem adição, perda, translocação e transformações, que confere características distintas a cada um deles. Os processos pedogenéticos interferem nas características morfológicas do solo; dentre elas, é possível citar: A) Solos que são formados na parte alta do relevo têm horizontes com cores mais claras, as quais refletem a coloração mineral do solo. B) Solos localizados na parte baixa do relevo apresentam cores avermelhadas, devido à oxidação dos argilominerais presentes nos horizontes. C) A presença de manchas amareladas nos horizontes subsuperficiais demonstra que o solo tem drenagem ineficiente. D) O material de origem, quando presente nos horizontes ou camadas, indica que o solo sofreu intensos processos pedogenéticos. E) Colorações claras revelam que o solo apresenta uma textura arenosa, que propicia uma intensa redução dos minerais de ferro. 2) As características morfológicas dos solos devem ser descritasde acordo com o sistema de classificação de solos do Brasil. Algumas características são particulares e os identificam. Um solo que apresenta uma transição textural entre os horizontes superficiais, com presença de mosqueados ao longo do perfil e agregados do tipo prismático e colunar no horizonte B, é característico de: A) Gleissolos. B) Neossolos. C) Latossolos. D) Planossolos. E) Organossolos. 3) Na abertura de uma trincheira para avaliação e identificação dos solos várias avaliações podem ser executadas. Uma dessas avaliações é a de coloração do solo. Assinale a alternativa que corresponde a essa prática e como é realizada: A) Deve pegar 500 gramas de solo e enviar para o laboratório e solicitar a análise química e física do solo. B) Deve se tomar uma amostra do solo umedecer, fazer uma ‘’minhoca’’ com o solo e observar se é moldável ou não. C) Deve se tomar uma amostra de um torrão do solo umedecido e abrir a cartilha de cores com o matiz que se assemelha ao torrão. Na página que contém a matiz se abre a página da cartilha e se verifica o valor referente a tonalidade do solo através de um dos números nela descrita e se busca então o croma que diz respeito a intensidade da cor. D) Deve se tomar uma amostra somente dos 20 centímetros que corresponde a camada arável, pois se estiver rico em matéria orgânica ficará de coloração extremamente avermelhada. E) Deve se tomar uma amostra e saturar a mesma com agua e com base na cor encontrada na solução, capturamos uma imagem e analisamos na cartilha de Magnus. 4) A morfologia externa, ou seja, o ambiente no qual o perfil está localizado, possibilita fazer diversas relações sobre suas características internas e agrícolas. Sobre essas características, é correto afirmar que: A) O relevo pode inferir sobre o lençol freático e está relacionado à drenagem do perfil. B) A altitude tem uma relação direta com o número de horizontes do solo, ou seja, quanto maior o número de horizontes, maior é a altitude onde está localizado o perfil. C) O clima atua como condicionador do processo de intemperismo e, por isso, solos intemperizados apresentam uma maior proporção de material de origem em seus horizontes. D) A maior declividade do solo favorece a acumulação de matéria orgânica e argila no horizonte A. E) A presença de horizontes de O e H pode ser identificada em solos que apresentam vegetação primária típica de clima temperado, que é de baixa umidade e altas temperaturas. 5) A porosidade do solo se refere ao espaço ocupado por ar e água, condições essenciais para o desenvolvimento de raízes e da vida no solo. A porosidade está relacionada a outras características morfológicas e tem implicações diretas no manejo do solo. Sobre a porosidade, avalie as alternativas e assinale a correta. A) Está relacionada à densidade do solo, onde uma maior densidade indica a presença de mais poros. B) Tem relação com a textura dos horizontes, onde uma maior proporção de argila e silte aumentam a quantidade e distribuição dos poros no solo. C) A depender da estrutura do solo, é possível observar uma maior ou menor razão entre macro e microporos, onde os macroporos favorecem a percolação de água e os microporos costumam reter água, garantindo maior umidade D) A drenagem do perfil tem uma relação inversamente proporcional à porosidade do solo. E) A plasticidade e a pegajosidade proporcionam uma maior porosidade ao solo. Na prática O estudo das propriedades morfológicas possibilita conhecer as características dos solos pela avaliação da cor, textura, estrutura e consistência dos mesmos. Os tipos de solo estão relacionados às práticas de manejo, às limitações do cultivo agrícola e à interferência na fertilidade natural. Veja, Na Prática, o trabalho da engenheira agrônoma Sandra, que trabalha como consultora comercial de uma empresa de sementes e utilizou os conhecimentos de morfologia do solo para identificar o problema de uma lavoura. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/63ce7d1d-9d0f-4d17-b4b8-a73fc88a8e19/4d7f490d-4a14-4f8b-8769-6bd185f74155.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Solos - efeito de plantas de cobertura na agregação do solo No vídeo a seguir, você vai encontrar informações sobre as características morfológicas do solo e sua relação com o desenvolvimento das plantas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Descrição do perfil de solos O vídeo a seguir mostra aspectos práticos de como realizar a descrição morfológica do solo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Carta de Munsell (cores do solo) No vídeo a seguir, você encontrará um passo a passo de como utilizar a Carta de Munsell para determinar a cor do solo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/AbGqExXAfmQ https://www.youtube.com/embed/La7a94xnU4c https://www.youtube.com/embed/rbXKimZx14k