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Regina Maria Bueno Bacellar Teoria Geral do Direito UNICURITIBA No século XVIII emerge o positivismo, teoria sistematizada por Augusto Comte, que alinhado com o seu tempo considera ser necessário estabelecer leis gerais capazes de fazer a sociedade evoluir ao ponto das ciências e da indústria. Para tanto, a educação era o meio capaz de alcançar o estado positivo, pois somente um bom direcionamento do ensino libertaria o indivíduo gradativamente dos estados teológico e metafísico chegando ao estado último com a reforma total das instituições sociais. O positivismo é uma corrente estruturada por Augusto Comte (1798-1895) durante a hegemonia do período moderno que influenciou significativamente os séculos XIX e XX. O empirismo, onde o positivismo se aloca, em entendimento diverso ao idealismo acredita que é necessário apartar-se da metafísica tradicional, pois sua conceituação sem verificação é desprovida de cunho científico. “Desta forma o pensamento metafísico é desbancado do centro das preocupações da Filosofia Moderna e Contemporânea e substituída pelos chamados conhecimentos objetivos e neutros formulados e apresentados pela teoria científica” (MARTINAZZO, 2000) O pensamento positivo é organizado por Augusto Comte, entretanto a ciência social como modelo de ciência natural foi idealizada por outros, como Saint- Simon (1760-1825) do qual se tornou secretário e sofreu influências diretas. Nascido em Montpellier, na França, no ano de 1798, anos após a Revolução Francesa, Comte viveu a ideologia revolucionárias e alimentou-se da filosofia iluminista. Estudou, a partir dos dezesseis anos, na Escola Politécnica de Paris, modelo de educação que considerou exemplar para a educação superior, pois conjugava ciência e técnica. Essa instituição teve considerável importância nos pensamentos de Comte, pois lá tomou contato com escritos da época, tais como os do cientista Sadi Carnot (1796-1832) e Pierre Simon de Laplace (1749-1827). (COMTE, 1991). A necessidade de reorganizar a sociedade por meio do positivismo consiste na superação de outros dois estados, quais sejam o teológico e o metafísico. Assim, há uma progressão da ciência e do espírito humano verificados histórica e educacionalmente. Teológico, é característico do primeiro espírito, neles as causas e fins dos fenômenos tem origem sobrenatural o que possibilita a coesão social fundamentando a moral. Este estado mostra-se em três fases subsequentes sendo elas o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. Metafísico, possibilita a passagem do estado primeiro, o teológico, ao estado último, o positivo. No estado metafísico o sobrenatural é substituído por forças abstratas que se consideram capazes de, por si só, de conhecer os fenômenos observados atribuindo para cada um uma entidade, uma ideia. Por fim, tem-se na Lei dos Três Estados, o estado positivo. Nesta fase há uma despreocupação com os polos do universo, sua origem e destino, para se deter as suas leis efetivas alcançadas pela comunhão da razão e observação conhecendo sua relação invariável de similitude e sucessão. A argumentação e a imaginação subordinam-se a observação (COMTE, 1991). Na concepção Comteana há duas leis fundamentais que apresentam a sociedade, sendo elas a estática social e a dinâmica social. A primeira garante a ordem necessária para a evolução da sociedade mediante a ausência de caos. Já a dinâmica social sucede a estática social, pois dela é dependente, assim, somente em ordem à sociedade pode alcançar o progresso e ganhar qualidade. As ideias positivistas foram inseridas no Brasil durante o Segundo Império (1840- 1889) quando os estudiosos brasileiros retornaram da França após completarem seus estudos. Esse período definido pela regência do Imperador Dom Pedro II descontentava a todos, pois somente nele se concentrava o poder triunfando a arbitrariedade, assim, políticos, intelectuais e clero encontravam-se restritos pelo domínio do Imperador que sempre neutralizava seus opositores (TORRES, 1957). O marco inaugural da influência positivista no Brasil deu-se em 1850, momento em que foi apresentada, na Escola Militar, a tese de doutoramento de Miguel Joaquim Pereira de Sá cujo título era “Dissertação sobre os princípios da estática” e tinha em sua fundamentação o pensamento Comteano. Personagem importante para a introdução e disseminação do positivismo no Brasil foi Benjamin Constant (1836-1891) que, dentre outras atividades, foi professor da Escola Politécnica e da Escola Militar. O positivismo alcançou significância tamanha no Brasil a ponto de ser ostentado na bandeira brasileira com o lema “Ordem e Progresso”, máxima política positivista, surgida a partir da divisa Comteana “O Amor por princípio, e a Ordem por Base; o Progresso por fim”. Influenciou ainda a confecção da Constituição de 1891 a modo que “A primeira vista poderia parecer que o Congresso Constituinte da República, reunido em 15 de novembro de 1890, fosse uma assembleia positivista A educação é uma ciência social e como tal é delineada pelo positivismo em três concepções: Descobrimento de leis naturais invariáveis dos fenômenos sem admitir a racionalidade humana quanto aos apures mistérios explicados pela teologia; Instituição do método das ciências naturais, abstratas que tem por objeto a descobertas de leis que regem outras classes de fenômenos para conhecer as ciências sociais Objeto destas como observações de fenômenos de forma objetiva e imparcial (COMTE, 1991). Com a proclamação da República Brasileira, em 1889, e a subsistente divergência entre os idealistas liberais moderados e conservadores, necessitou-se formar uma identidade ao novo Estado e para isso usaram-se das faculdades jurídicas como meio de estruturação e difusão do modelo estatal (WOLKMER, 2003). O acadêmico de Direito tinha uma formação direcionada ao que corresponderia a essência do país, pois seria servidor público certo na administração política do poder. No período imperial brasileiro teve-se uma confecção quantitativamente considerável de códigos e leis, citando-se como exemplo a Constituição Federal de 1824, o Código Criminal, o Código de Processo Criminal e o Código Comercial o que evidencia a tendência normativa que tomava a seara do Direito como resultado inevitável da influência do positivismo. Assim, o Direito era a ciência das leis. A primeira reforma ocorrida no ensino de Direito deu-se em 1879 quando foi determinada a segregação do Curso de Ciências Jurídicas do Curso de Ciências Sociais, pois somente assim se conseguiria otimizar a profissionalização dos bacharéis a partir do estabelecimento do currículo único para todos os cursos de Direito (RODRIGUES, 1993) "O positivismo é uma corrente teórica inspirada no ideal de progresso contínuo da humanidade. O pensamento positivista postula a existência de uma marcha contínua e progressiva e que a humanidade tende a progredir constantemente. O progresso, que é uma constatação histórica, deve ser sempre reforçado, de acordo com o que Auguste Comte, criador do positivismo, chamou de Ciências Positivas. As Ciências Positivas teriam a sua mais forte expressão na Sociologia, ciência da qual Comte é considerado o fundador.” "O positivismo também incorporou, na teoria de Comte, elementos políticos e ganhou, nos trabalhos de John Stuart Mill, um escopo mais ético e moral. Isso acabou reforçando o molde de uma teoria política positivista, fundada na ordem e no conhecimento para se alcançar o progresso” "O positivismo foi uma corrente filosófica que nasceu na França, no século XIX, derivada do pensamento iluminista. Pode-se dizer que o seu fundador foi o filósofo e também criador da Sociologia, Auguste Comte (1798 – 1857). Outro nome importante para o positivismo é John Stuart Mill (1806 – 1873), que adaptou o pensamento positivista ao utilitarismo moral inglês, que teria surgido com Jeremy Bentham, jurista, filósofo e professor de Mill. Com a adaptação ao utilitarismo, opositivismo ganhou um tom mais voltado para a filosofia moral, delineando os preceitos éticos da teoria de Mill. "Auguste Comte apostava no progresso moral e científico da sociedade por meio da ordem social e do desenvolvimento das ciências. O pensador estabeleceu uma espécie de hierarquia das sete grandes ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Moral, Biologia e Sociologia, sendo essas duas últimas superiores. O filósofo acreditava que a Sociologia deveria basear-se nas ciências da natureza, sobretudo na Biologia e na Física, que tentam descobrir e decodificar as leis naturais. O sociólogo deveria fazer um trabalho análogo na sociedade: descobrir e decodificar as leis sociais. O sociólogo deveria ser um cientista observador, apoiando-se no conteúdo de sua análise e nos fatos. "O método positivista também originou uma teoria historiográfica, inspirada nas ideias do conde de Saint Simon (1760-1825), filósofo francês para quem a humanidade progrediria continuamente, indo sempre adiante e nunca regredindo. Segundo a historiografia positivista, o progresso histórico deveria ser constantemente aferido, tomando por base apenas os fatos que são constantemente registrados.” "Ainda no século XIX e no século XX, o termo positivismo ganhou outros significados, tendo surgido o positivismo jurídico, no âmbito do direito, e o positivismo lógico, entre os filósofos da linguagem, que seria uma crença de que a análise lógica da linguagem seria o caminho para solucionar todos os problemas filosóficos” Doutrina filosófica baseada em teorias e leis Doutrina sociológica Doutrina política Aposta nas ciências e na industrialização Religião positiva O Positivismo Jurídico encontra-se como método de compreensão do direito que busca dar respostas concretas acerca de sua validade e aplicabilidade das normas jurídicas. Toda a análise é voltada para a compreensão do ordenamento jurídico e as normas que a compõe, que determinarão o caráter sui generis atribuído ao direito enquanto ciência autônoma, intitulado pelos seus adeptos. O positivismo jurídico teve grande influência indireta dos outros positivismos existentes na filosofia e nas ciências, mas, seus traços se tornaram peculiares e distintos. Pode-se obter que existe um campo amplo e abrangente denominado de positivismo em que a partir do mesmo observa-se a sua construção específica em cada área de atuação como na sociologia, o positivismo sociológico, na filosofia, o positivismo lógico e no âmbito jurídico, o positivismo jurídico. Para entender a formação histórica da teoria do positivismo no âmbito jurídico deve-se considerar a ligação direta com o jusnaturalismo, corrente dominante até o final do século XIX. As premissas dessa corrente constituem-se antecessoras ao positivismo, onde forneceu através de suas concepções de direito natural, bases de análise e refuta para a formação da teoria do positivismo jurídico. A base de ligação entre o jusnaturalismo e o positivismo jurídico deve ser observada a partir das distinções conceituais entre direito positivo e direito natural desde Platão e Aristóteles, passando pelos escritos medievais. Nessas concepções, que por ora percorreram um percurso histórico de mudanças, o direito positivo será considerado como um produto da vontade humana e o direito natural como produto da razão humana, superior ao homem ou transcendente a ele. “Por obra do positivismo jurídico ocorre a redução de todo direito a direito positivo, e o direito natural é excluído dessa categoria de direito: o direito positivo é direito, o direito natural não é direito”. (Bobbio ,1999) Em meados do século XVI e XVIII o direito torna-se cada vez mais escrito, constituindo-se em uma série de leis emanadas pelo poder constituído na época. Passou-se por uma sociedade pluralista verificada na sociedade medieval ingressando no Estado Moderno de estrutura monista, concentrando para si todo o processo de produção jurídica do direito [...] Este processo de monopolização da produção jurídica é estreitamente conexo à formação do Estado absoluto [...], da codificação começa a história do positivismo jurídico verdadeira e propriamente dito” (BOBBIO, 1999) Tem-se um período pós-Revolução, mudando a concepção da sociedade ao instituir que todo poder é de competência jurídica e até mesmo condicionando a própria criação do direito ao jurídico tendo seu fundamento ideológico desde Montesquieu, em o Espírito das Leis, com sua descrição da separação de poderes e seu pensamento a partir da lei até as ideias racionalistas de criação e aplicação do direito (BONAVIDES, 1980). Segundo Bobbio (1999), para Montesquieu a explicação, relacionada ao poder judiciário, fundamenta que sua decisão teria que ser uma reprodução fiel da lei. Nesse período que é voltado ao legalismo, tem-se o surgimento de um positivismo legalista, desenvolvido pela Escola da Exegese na França, baseadas em afirmações como todo direito é positivo e somente o direito positivo é direito. A Escola da Exegese debatia em torno da literalidade dos textos legais em que a atividade do intérprete seria de isolar o fato e identificar a norma jurídica a ele aplicável. Com a obtenção da lei escrita, o objetivo seria ater-se a ela de modo a transpor seu sentido com a interpretação literal dos textos. Os doutrinadores dessa época tinham a intenção de realizar uma simples “exegese”, isto é, uma interpretação estritamente gramatical e lógica (ou mesmo “mecânica”) do texto normativo. Excluía-se da tarefa interpretativa qualquer consideração subjetiva ou construção conceitual feita pela doutrina. Bobbio (1999) dispõe algumas ideias tratadas pelo autor Beccaria que trouxe para os estudos da época a “teoria do silogismo”, onde este, analisa que o juiz ao aplicar a lei deve fazer a dedução a conclusão de um silogismo, não criando nada de novo, somente explicitando as premissas compostas pela norma. A Escola da Exegese deve seu nome à técnica adotada pelos seus primeiros expoentes no estudo e exposição do Código de Napoleão, a mesma, limitava a “interpretação passiva e mecânica do Código.” Ainda, no século XIX, cabe destacar a importância do surgimento de outro movimento distinto do positivismo jurídico e de crítica a Escola da Exegese, o da Escola Histórica do Direito representada por Savigny, na Alemanha, que foi precursora também de críticas radicais ao direito natural, tornando-o mero instrumento filosófico do direito positivo (BOBBIO,1999). A Escola Histórica também irá se conceber juntamente com o processo de codificação, surgindo como alternativa de esclarecimentos da regeneração da essência e da função do direito. Terá por objetivo analisar o direito como um resultado histórico, onde o direito será reconhecido em virtude de uma análise de historicidade e não por abstrações do direito racional, no jusnaturalismo ou dos ditames do legislador, no processo de codificação. “Logo, o direito se mostra como um fenômeno orgânico cuja fonte criadora, [...] se encontra no interior da consciência e da cultura da nação”. Em meados do século XX pode-se notar a versão de análise do positivismo jurídico analítico, não sendo mais coerente a sua classificação nas deduções mencionadas pelo positivismo legalista, devido aos importantes debates sobre o direito e o funcionamento dos sistemas jurídicos até às soluções interpretativas dadas pelo aplicador do direito (DIMOULIS, 2006). Para esses novos rumos de concepção jurídica situa-se como influência decisiva no pensamento jurídico a Escola Analítica, na Inglaterra, representada pelo filósofo do direito John Austin, considerado fundador da mesma. A Escola Analítica tratará de conceitos fundamentais para o conceito de direito, como por exemplo, a fonte do direito, a matéria do direito, o dever legal, a norma jurídica e a sanção legal procurando analisá-los e defini-los (ROOS, 2000) O objetivo do positivismo jurídico, nesse período, representado por lendáriosautores como Hans Kelsen e Herbert Hart é tornar a ciência do direito uma ciência autônoma de explicações racionais para seu objeto de estudo, dentro de seu próprio sistema normativo, incluindo os métodos interpretativos e assumindo uma posição descritiva na análise de um conjunto de regras, observando o fenômeno jurídico de forma metodológica de forma a afastar do mesmo a interferência moral e política de seus conceitos. Divisão entre positivismo stricto sensu e lato sensu trazida por Dimitri Dimoulis que utilizará a refuta ao direito natural como meio de distinção. Nesses termos pode-se notar que os autores positivistas lato sensu são aqueles que em seus conceitos rejeitam o direito natural, apresentando uma oposição a essa corrente e, os positivistas stricto sensu rejeitam não só o direito natural como também qualquer tipo de vinculação a outros fenômenos não normativos, sendo portanto mais radicais. O positivismo lato sensu é composto por autores que consideravam o direito como um conjunto de normas postas em vigor pelos seres humanos, sendo o direito constituído dos atos de vontade, baseados em fatos sociais empíricos por exemplo, advindos de uma autoridade legislativa. O PJ lato sensu define o direito com base em elementos empíricos e, necessariamente, mutáveis no tempo. Fazendo depender o direito de tais elementos contingentes, o PJ lato sensu rejeita a dependência do ordenamento jurídico de elementos metafísicos e tendencialmente imutáveis, tais como mandamentos divinos ou imperativos das razões humanas. (DIMOULIS, 2006, p. 79) Assim, não seria fundamento das normas jurídicas terem sua validade por haver um poder divino criador ou advindo da natureza humana, como intitularia o direito natural, mas sim, os próprios fatos sociais e nestes poder-se-ia apropriar ser a validade do ordenamento jurídico. Essa característica seria a chamada tese dos fatos sociais ou fontes sociais que “decorrem evidentemente de condutas humanas (individuais e coletivas) e criam as normas, isto é, as tornam juridicamente existentes” O positivismo jurídico stricto sensu rejeita a tese da existência de um direito natural somado a ideia da separação necessária entre direito e a moral, diferentemente da tese defendida pelos moralistas que defendem a união das mesmas em uma ligação necessária. Este último ponto, constitui-se como fato gerador de parte das críticas feitas ao positivismo ao tentar explicar o direito em si mesmo desprendendo-se de tal instituto. Dimoulis (2006) leciona que da tese da separação entre o direito e a moral “no debate mundial em torno do PJ stricto sensu, cristalizam-se, a partir da década de 1980, duas correntes: o positivismo exclusivo e o positivismo inclusivo” Da tese da separação entre o direito e moral surgiram na verdade três tendências diferentes, o positivismo inclusivo, exclusivo e ainda o positivismo ético. Positivismo exclusivo possui como tese central, a visão de que o direito não pode depender de critérios ou argumentos morais (TAVARES, 2008) Positivismo inclusivo, “a identificação do que é o direito não depende necessariamente de critérios ou argumentos morais, embora possa circunstancialmente fazê-lo” Positivismo ético “a identificação do que é direito não deve depender de critérios morais” A histórica da escola da exegese segundo Bobbio pode ser dividida em três fases: os primórdios (1804 a 1830), apogeu (1830 a 1880), e declínio (1880 a 1900), possuindo então seus expoentes como Alexandre Duranton, Charles Aubry e Frédéric Charles Rau, Jean Ch. F. Demolombe e, Troplong. A Escola Histórica do Direito, que protagonizou a Ciência do Direito Positivo, fundou-se em uma metodologia desmembrada entre elementos históricos e sistemáticos, segundo elucubrou o seu grande idealizador, Friedrich Carl von Savigny (1779-1861) Formulação de um Direito Positivo conforme a filosofia kantiana da autonomia da vontade individual e da ordem jurídica como instrumento garantidor da liberdade. Buscava-se, concomitantemente, a promoção das características idiossincráticas do espírito popular alemão (Volksgeist), manifestadas sobretudo nos costumes e fontes não legislativas, promovendo o nacionalismo em um período em que a Alemanha se encontrava desmembrada em diversos Estados. A denominada dimensão sistemática designou a dogmática jurídico-científica, cujo foco era o direito privado. Romanistas e Germanistas disputavam a posição de reais detentores dessa ciência. Aqueles procederam a uma sistematização da Ciência Pandectística e esses, intensamente conectados ao Romantismo, devotavam-se ao Direito Germânico como ciência da antiguidade alemã e os domínios relegados pela Pandectística . O movimento de sistematização pautado no Direito Romano foi nominado de Pandektenwissenschaft ou Pandektismus (Pandectística). Sua origem se encontra no alindamento do método sistemático pelos juristas conceituais , culminando na aplicação prática do Direito Romano justinianeu, como direito comum alemão de proveniência romana, Engendrou-se um Direito abstrato, formulado em categorias lógicas, desprovido de contingências fáticas, em um sistema lógico-dedutivo, organicamente coerente e composto de primordiais conceitos jurídicos A unidade do sistema poderia ser exprimida de duas formas distintas. Por um lado, poder-se-ia entender como unidade de um organismo e, por outro, como conceito abstrato, lógica formal. No primeiro caso, concatenando filosoficamente as doutrinas de Hegel e Schelling, os elementos integrantes do sistema seriam conduzidos em torno de um centro, fundado em si próprio, em uma relação circular. No segundo, seguir-se-ia uma formulação piramidal, havendo um conceito supremo e geral, ocupante de seu vértice, que subsumiria todos os demais, em espécies e subespécies Puchta, que foi discípulo de Savingy e seu sucessor na universidade de Berlin (Humboldt), adotou a ideia da imprescindibilidade dos métodos histórico e sistemático, destacando especialmente o último, no modelo da pirâmide conceitual, “Begriffspyramide” Puchta identificava três fontes jurídicas dessemelhantes e autônomas, não compreendendo a prevalência do direito consuetudinário. Haveria o direito do costume, derivado diretamente do povo (Gewohnheitsrecht), o direito legislado (promulgirtes Recht ou Gesetzesrecht) e o direito da ciência legal dos juristas (Juristenrecht ou Professorenrecht) Rudolf von Jehring, também era adepto da jurisprudência dos conceitos, porém, elaborou-a mediante o aludido sistema como organismo vivo. Existiria um conjunto orgânico de conceitos, que poderia ser apanhado pela observação e indução, recorrendo-se à metodologia característica das ciências naturais. Jhering divulgou nos quatro volumes de Geist des römischen Rechts (1852-1865) a percepção de que cada época tem sua originalidade, não se limitando a uma cópia do passado. Na verdade, o projeto de Jehring visava à absorção da essência do Direito Romano, seu espírito e não de sua substância, para aplicá-la a uma ciência natural do Direito. A jurisprudência conceitual (Begriffjurisprudenz) dominou a ciência jurídica alemã a partir da metade do século XIX, representando o prestígio assumido pela teoria original de Savigny. Haviam sido absorvidos os fundamentos desta, como o enfoque na lei positiva, o esforço no estudo do passado e o sistema jurídico de estruturas inerentes. Nesse sentido, a Ciência do Direito Positivo alemão integrava a Escola Histórica, ainda que a maioria dos juristas romanistas não mais conjuntamente perseguisse a metodologia histórica e sistemática. As doutrinas de Jhering e Puchta causaram uma ruptura dessa unidade, dividindo os estudos em jurídicodogmáticos e de história do direito Bernhard Windscheid foi um dos últimos a sintetizar a Pandectística e a viver o período cultural decorrente da composição entre o Iluminismo e o Romanitismo, apresentando em seus trabalhos, como em Gesammelte Reden und Abhandlungen (1904), um sentidoético- jurídico. O Direito não seria um fato, como uma determinação legislativa, mas algo reconhecido previamente pela comunidade jurídica e decorrente da “razão dos povos”, desenvolvido racionalmente na história. A teoria da interpretação de Windscheid exprime a sua compreensão de sistema, já que o verdadeiro sentido de uma norma seria revelado pelos conceitos jurídicos. Esses seriam apreendidos em sua completude na sua desarticulação e reagrupamento, revelando as relações intrínsecas das proposições jurídicas50. Destarte, sistema seria irremediavelmente lógico, composto de conceitos elementares e decorrentes em uma ordem hierárquica, em cujo cume estaria, assim como em Puchta, ainda que com conteúdo diverso, o direito subjetivo. A orientação germânica se conectou com maior evidência à filologia alemã e ao ideal romântico da pesquisa do particular e característico da nação. Obteve destaque também em áreas do direito privado relegadas pela Pandectística. Conquanto, por insistir em considerar o Direito Romano uma criação estrangeira antiquada e, em certa medida, anacrônica, o embate com os romanistas foi implacável. O paulatino distanciamento da Pandectística com a sensibilidade e exigências dos novos fenômenos sociais, conjuntamente, contribuiu para que a Germanística se detivesse na conformação de um sistema jurídico moderno, assentado no direito genuinamente alemão. Karl Friedrich Eichhorn (1781-1853) foi um dos precursores do germanismo alemão. Nos quatro tomos de Deutsche Staats- und Rechtsgeschichte (1808-1823), que já indicava uma não restrição do movimento ao direito privado, sintetizou-se os estudos históricos do Direito Alemão até então procedidos. Concomitantemente, aventava a concreção de um sistema orgânico formal, apoiado nas normas históricas do Direito Alemão, para a prática do direito privado da atualidade John Austin (1790-1859) foi um jurista inglês que buscou determinar o escopo da ciência do direito por meio da combinação do utilitarismo de Jeremy Bentham com os desenvolvimentos teóricos do pandectismo alemão no estudo do direito romano. Fundador da jurisprudência analítica anglo-saxã, é geralmente entendido como uma das principais figuras do positivismo jurídico do século XIX, especialmente nos países de língua inglesa. O objetivo da teoria é identificar as características específicas do direito positivo, de forma que possa ser corretamente entendido. Para isso John Austin adota o método da análise lógica pelo qual decompõe seu objeto de estudo em vários aspectos, distinguindo aqueles necessários daqueles acidentais, e, dentre os necessários, os que são característicos do direito daqueles que são comuns a outros campos. A posição de J. Austin é de que a identificação das especificidades do direito positivo seria um requisito de esclarecimento conceitual, a fim de que se pudesse compreender sua relação com as outras áreas. Seria preciso separar conceitualmente o direito da moral para poder entender como, de fato, esses campos estão interligados. Austin parte de uma distinção inicial entre a descrição do direito como é e a descrição do direito como deve ser. A primeira dá a descrição do direito como é, tem caráter expositivo e visa explicar o funcionamento do direito vigente. A última corresponde ao campo da ciência da legislação, que visa a aprimorar o conteúdo do direito. No campo ciência do direito Austin distingue ainda a análise geral da análise particular. Enquanto esta se volta para a descrição do funcionamento de ordens jurídicas concretas existentes, como o direito inglês ou o direito francês, aquela visa a identificar aspectos do funcionamento do direito compartilhados por todas as ordens jurídicas existentes ou, ao menos, aquelas mais desenvolvidas, dentre as quais o autor inclui, especialmente, o direito inglês e o direito romano. A fim de especificar o conceito de direito positivo John Austin adota a noção de comando como conceito-chave. Em sua conhecida expressão, o comando é a chave para a ciência do direito. Para ele, é a partir dessa noção que se pode entender corretamente o direito. Comando é definido como a expressão de um desejo de que alguém faça ou não faça algo, acompanhado de um mal a ser imposto pelo emissor ao destinatário se descumprido esse desejo. A característica específica que diferencia o comando dos outros tipos de desejos é capacidade de o emissor punir o destinatário em caso de violação da ordem expressa. Dessa forma a definição austiniana de comando implica as noções de dever e sanção. A Escola de Chicago foi o berço da sociologia americana nos anos 30, tendo como objeto de estudo a cidade como ente vivo capaz de influenciar as condutas criminosas. Veio em franca oposição ao Positivismo, tentando trazer um novo marco, novas problemáticas e novos olhares em relação à criminalidade. A atenção da Escola não é com o criminoso em si, nem com a sua motivação para o crime; também não há preocupação com estudos anatômicos (Lombroso), sob o argumento de que existem aspectos mais relevantes a serem estudados, como, por exemplo, o crescimento urbano das grandes cidades, na qual a vida das pessoas é diferente, e precisam de um conjunto de valores e práticas distintas das zonas rurais, pois os delitos são diferentes, motivo pelo qual a forma de prevenção dos mesmos também deve ser diferente. https://pt.wikipedia.org/wiki/Cesare_Lombroso A realidade social estudada pela Escola de Chicago não se refere somente ao deslocamento que a pessoa tem de casa para o trabalho, mas na sua própria vida, pois há uma constante mudança. Não há tempo para criação de vínculos com a vizinhança. Ninguém é próximo de ninguém nos grandes centros, fazendo com que a ausência dos vínculos tenha influência nos freios inibitórios e, consequentemente, a prática do crime surja, uma vez que a probabilidade de se encontrar a pessoa que o criminoso furtou, verbi gratia, seja praticamente impossível. Por outro lado, o fato do delinquente não conhecer a sua vítima é um fator percursor para a conduta criminosa, ocasionando a perda dos freios informais, pois dificilmente ele furtaria um amigo íntimo, a quem se deve respeito, por exemplo. Zygmunt Bauman, grande pensador da era moderna, em sua obra O mal-estar da pós modernidade, conclui que todas as pessoas vivem como turistas de suas próprias cidades, possuindo relações epidérmicas, dando atenção somente aquilo que as interessam. Ao encontrar um mendigo com fome ou uma mulher sendo espancada na rua, as demais pessoas não se comovem, pois, no seu ponto de vista, não é problema delas. Slide 1: Positivismo/ Positivismo Jurídico Slide 2: Positivismo Slide 3 Slide 4 Slide 5 Slide 6 Slide 7 Slide 8 Slide 9 Slide 10 Slide 11 Slide 12 Slide 13 Slide 14 Slide 15 Slide 16 Slide 17 Slide 18 Slide 19 Slide 20 Slide 21 Slide 22: Características do Positivismo Slide 23: Positivismo Jurídico Slide 24 Slide 25 Slide 26 Slide 27 Slide 28 Slide 29 Slide 30: Escola da Exegese da França Slide 31: Escola da Exegese Slide 32 Slide 33: Escola Histórica do Direito Slide 34 Slide 35: Escola Analítica Slide 36 Slide 37 Slide 38 Slide 39 Slide 40 Slide 41 Slide 42 Slide 43 Slide 44: Escola Histórica do Direito Slide 45 Slide 46: Escola dos Pandectistas Slide 47 Slide 48 Slide 49 Slide 50 Slide 51 Slide 52 Slide 53 Slide 54 Slide 55 Slide 56: Escola Germanística Slide 57 Slide 58: Escola Analítica da Jurisprudência Slide 59 Slide 60 Slide 61 Slide 62 Slide 63: Escola Sociológica Americana Slide 64 Slide 65 Slide 66 Slide 67 Slide 68 Slide 69