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MUST UNIVERSITY MASTER OF SCIENCE IN HEALTHCARE MANAGEMENT PAULO GABRIEL NUNES MARIN IMPACTOS DO USO DE DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS E DO SEDENTARISMO NA SAÚDE FÍSICA E MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: UM ESTUDO NO CONTEXTO ESCOLAR FLORIDA-USA 2024. PAULO GABRIEL NUNES MARIN IMPACTOS DO USO DE DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS E DO SEDENTARISMO NA SAÚDE FÍSICA E MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: UM ESTUDO NO CONTEXTO ESCOLAR Trabalho de Conclusão Final apresentado como requisito parcial para obtenção do título de MESTRE no Curso de MASTER OF SCIENCE IN HEALTHCARE MANAGEMENT da MUST UNIVERSITY – Florida USA. Orientador (a): Prof. (a) Dr. (a) MIRIANE FERNANDES FLORIDA-USA 2024. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APA - Associação Americana de Psicologia BDTD - Biblioteca Digital de Teses e Dissertações BNCC - Base Nacional Comum Curricular CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CGI.br - Comitê Gestor da Internet no Brasil COVID-19 - Doença por Coronavírus de 2019 DC-GO Documento Curricular para Goiás Ampliado EF - Educação Física ERIC - Education Resources Information Center EUA - Estados Unidos da América FOMO - Medo de Perder IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística LILACS - Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde NIH - Institutos Nacionais de Saúde OMS - Organização Mundial da Saúde PeNSE - Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar SciELO - Scientific Electronic Library Online RESUMO Este estudo analisa os impactos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos e do comportamento sedentário na saúde física e mental de crianças e adolescentes no contexto escolar de Goiânia. Objetivou-se compreender quais são os principais efeitos do excesso de tela principalmente em crianças e adolescentes e como a Educação Física escolar pode contribuir para mitigar efeitos negativos do seu uso. Utilizou-se uma revisão integrativa da literatura, analisando estudos nacionais e internacionais publicados entre 2013 e 2024. Os resultados indicam que o tempo, a luz da tela e o tipo de conteúdo consumido estão associados a problemas físicos, como distúrbios posturais, obesidade, distúrbios do sono e problemas oculares, além de impactos psicológicos, incluindo sintomas de depressão, ansiedade e dificuldades de socialização. A Educação Física escolar demonstra ser uma ferramenta crucial para promover a atividade física regular em níveis adequados, desenvolvimento motor e cognitivo, e incentivar hábitos de vida saudáveis. Contudo, desafios como a influência do ambiente familiar, falta de conscientização sobre os riscos do tempo excessivo de tela e limitações na infraestrutura escolar podem dificultar a implementação de intervenções eficazes. O estudo conclui que políticas educacionais que integrem estratégias pedagógicas inovadoras na Educação Física, aliadas a ações de conscientização envolvendo famílias e comunidade, são essenciais para promover o bem-estar integral de crianças e adolescentes. A pesquisa contribui para o entendimento dos impactos multifacetados do uso das telas e reforça a importância da escola como agente promotor de saúde no combate ao sedentarismo e aos efeitos negativos associados ao tempo de tela. Palavras-chave: Dispositivos eletrônicos, Sedentarismo, Saúde física, Saúde mental, Educação física escolar. ABSTRACT This study analyzes the impacts of excessive use of electronic devices and sedentary behavior on the physical and mental health of children and adolescents within the school context in Goiânia. The objective was to understand the main effects of excessive screen time, particularly on children and adolescents, and how school-based Physical Education can help mitigate the negative effects of its use. An integrative literature review was conducted, analyzing national and international studies published between 2013 and 2024. The results indicate that screen time, screen light exposure, and the type of content consumed are associated with physical issues such as postural disorders, obesity, sleep disturbances, and eye problems, as well as psychological impacts, including symptoms of depression, anxiety, and socialization difficulties. School-based Physical Education proves to be a crucial tool for promoting regular physical activity at appropriate levels, motor and cognitive development, and encouraging healthy lifestyle habits. However, challenges such as the influence of the family environment, lack of awareness about the risks of excessive screen time, and limitations in school infrastructure can hinder the implementation of effective interventions. The study concludes that educational policies integrating innovative pedagogical strategies in Physical Education, combined with awareness initiatives involving families and the community, are essential to promoting the overall well-being of children and adolescents. This research contributes to understanding the multifaceted impacts of screen use and reinforces the importance of schools as health-promoting agents in combating sedentary behavior and the negative effects associated with screen. Keywords: Electronic devices, Sedentary behavior, Physical health, Mental health, School physical education. IMPACTOS DO USO DE DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS E DO SEDENTARISMO NA SAÚDE FÍSICA E MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: UM ESTUDO NO CONTEXTO ESCOLAR SUMÁRIO 1. Introdução ..................................................................................................................... 8 2. Metodologia ................................................................................................................ 10 2.1. Etapas da Revisão Integrativa .................................................................................... 11 2.2. Formulação da Pergunta de Pesquisa ......................................................................... 12 2.3. Critérios de Inclusão e Exclusão ................................................................................ 12 2.4. Busca na Literatura ..................................................................................................... 13 2.5. Seleção e Avaliação dos Estudos ............................................................................... 14 2.6. Extração e Síntese dos Dados ..................................................................................... 14 2.7. Limitações da Pesquisa .............................................................................................. 15 2.8. Considerações Metodológicas Finais ......................................................................... 15 3. Impactos do Uso Excessivo de Dispositivos Eletrônicos em Crianças e Adolescentes: Saúde Física, Mental, Cognitiva e Social ................................................................... 16 3.1. Problemas Físicos Associados ao Uso Excessivo de Telas ........................................ 17 3.1.2. Obesidade Infantil e Condições Associadas ............................................................... 18 3.1.3. Saúde Ocular .............................................................................................................. 18 3.1.4. Impactos no Sono ....................................................................................................... 19 3.1.5. Ergonomia e Postura .................................................................................................. 19 3.2. Problemas Cognitivos e Desenvolvimento Cerebral .................................................. 19 3.3. Problemas de Saúde Mental ....................................................................................... 20 3.3.3. Vícios Comportamentais e Dependência Digital .......................................................671-696. Madigan, S., Browne, D., Racine, N., Mori, C., & Tough, S. (2019). Associação entre tempo de tela e desempenho de crianças em um teste de triagem de desenvolvimento. JAMA Pediatrics, 173(3), 244–250. https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2018.5056 https://doi.org/10.1080/00140139.2021.1948617 https://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/PENSE_Saude%20Escolar%202015.pdf https://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/PENSE_Saude%20Escolar%202015.pdf https://www.ibge.gov.br/ https://doi.org/10.1016/j.smrv.2019.101226 https://doi.org/10.1186/s12966-021-01189-6 https://doi.org/10.3390/ijerph16203840 https://doi.org/10.1111/cdev.12353 https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2018.5056 43 Maras, D., Flament, M. F., Murray, M., Buchholz, A., Henderson, K. A., & Obeid, N. (2015). O tempo de tela está associado à depressão e ansiedade em jovens canadenses. Preventive Medicine, 73, 133–138. https://doi.org/10.1016/j.ypmed.2015.01.029 Montagni, I., Guichard, E., & Kurth, T. (2016). 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Introdução 2. Metodologia 2.1. Etapas da Revisão Integrativa 2.2. Formulação da Pergunta de Pesquisa 2.3. Critérios de Inclusão e Exclusão 2.4. Busca na Literatura 2.5. Seleção e Avaliação dos Estudos 2.6. Extração e Síntese dos Dados 2.7. Limitações da Pesquisa 2.8. Considerações Metodológicas Finais 3. Impactos do Uso Excessivo de Dispositivos Eletrônicos em Crianças e Adolescentes: Saúde Física, Mental, Cognitiva e Social 3.1. Problemas Físicos Associados ao Uso Excessivo de Telas 3.1.2. Obesidade Infantil e Condições Associadas 3.1.3. Saúde Ocular 3.1.4. Impactos no Sono 3.1.5. Ergonomia e Postura 3.2. Problemas Cognitivos e Desenvolvimento Cerebral 3.3. Problemas de Saúde Mental 3.3.3. Vícios Comportamentais e Dependência Digital 3.4. Impactos no Comportamento Social e Desenvolvimento Emocional 3.5. Doenças Degenerativas e Impactos no Desenvolvimento a Longo Prazo 3.6. A Interseção de Educação Física e Saúde Digital 3.7. O Ciclo Vicioso 4. Estratégias Educacionais e Comunitárias no Combate ao Uso Excessivo de Telas 4.1. A Interdisciplinaridade no Ambiente Escolar 4.2. Políticas Escolares e Regras de Uso de Dispositivos 4.3. O Papel da Família na Promoção de Hábitos Saudáveis 4.4. Parcerias Comunitárias para a Promoção da Saúde 4.5. Considerações sobre o Contexto Regional 5. Contexto sociocultural e educacional de Goiânia 5.1. Contexto Educacional 5.2. Sedentarismo entre Adolescentes em Goiânia 5.3. Uso de Tecnologias Digitais entre Adolescentes 5.4. Impactos Sociais, Cognitivos e Afetivos das Tecnologias Digitais 5.5. Exposição a Sons em Alta Intensidade 5.6. Desafios Educacionais e de Saúde 6. Conclusão: Educação Física, Uso de Telas e o Contexto de Goiânia 7. Referências Bibliográficas21 3.4. Impactos no Comportamento Social e Desenvolvimento Emocional ........................ 21 3.5. Doenças Degenerativas e Impactos no Desenvolvimento a Longo Prazo ................. 22 3.6. A Interseção de Educação Física e Saúde Digital ...................................................... 23 3.7. O Ciclo Vicioso .......................................................................................................... 25 4. Estratégias Educacionais e Comunitárias no Combate ao Uso Excessivo de Telas .. 26 4.1. A Interdisciplinaridade no Ambiente Escolar ............................................................ 26 4.2. Políticas Escolares e Regras de Uso de Dispositivos ................................................. 27 4.3. O Papel da Família na Promoção de Hábitos Saudáveis ............................................ 28 4.4. Parcerias Comunitárias para a Promoção da Saúde ................................................... 30 4.5. Considerações sobre o Contexto Regional ................................................................. 31 5. Contexto sociocultural e educacional de Goiânia ...................................................... 33 5.1. Contexto Educacional ................................................................................................. 33 5.2. Sedentarismo entre Adolescentes em Goiânia ........................................................... 34 5.3. Uso de Tecnologias Digitais entre Adolescentes ....................................................... 35 5.4. Impactos Sociais, Cognitivos e Afetivos das Tecnologias Digitais ........................... 36 5.5. Exposição a Sons em Alta Intensidade .................................................................. 36 5.6. Desafios Educacionais e de Saúde ............................................................................. 37 6. Conclusão: Educação Física, Uso de Telas e o Contexto de Goiânia ........................ 38 7. Referências Bibliográficas ........................................................................................ 40 8 1. INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, a revolução digital transformou profundamente os hábitos e comportamentos das pessoas em todo o mundo. O uso intensivo de dispositivos eletrônicos, como smartphones, tablets e computadores, desempenha agora um papel central no trabalho, lazer e nas interações sociais. No entanto, o uso excessivo de telas tem sido amplamente associado a problemas de saúde física, mental e social, incluindo distúrbios posturais e visuais, aumento do comportamento sedentário, alterações no sono e desenvolvimento de transtornos psicológicos e doenças degenerativas (Neophytou, Manwell & Eikelboom, 2021; Janssen et al., 2020). Embora a tecnologia traga benefícios educacionais e sociais, o uso excessivo de dispositivos eletrônicos levanta preocupações significativas em saúde pública. A exposição prolongada às telas tem sido associada a uma série de problemas, como distúrbios posturais (Suhag et al., 2016), dificuldades de sono (Janssen et al., 2020), problemas de visão e aumento de sintomas de ansiedade e depressão (Neophytou et al., 2021). Além disso, o comportamento sedentário decorrente do tempo excessivo em frente às telas reduz a prática de atividades físicas, essenciais para o desenvolvimento saudável na infância e adolescência. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE, 2016), apenas 20% dos adolescentes brasileiros seguem as recomendações de atividade física diária. Preocupadas com esses efeitos, grandes organizações de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), American Psychological Association (APA) e National Institutes of Health (NIH), emitiram diretrizes para limitar o tempo de uso de dispositivos eletrônicos, buscando mitigar esses riscos. No Brasil, dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br, 2023) mostra que crianças estão usando a internet cada vez mais cedo: aproximadamente 24% 9 das crianças com menos de seis anos já acessam a rede. Entre jovens de 9 a 17 anos, esse índice é de 92%, sendo o celular o dispositivo mais utilizado. Esses números sugerem que, incluindo o uso de dispositivos não conectados à internet, o tempo total de exposição a telas pode ser ainda maior. Diante desse cenário, este estudo busca entender como as aulas de Educação Física podem contribuir para reduzir as consequências adversas do uso excessivo de dispositivos eletrônicos e do comportamento sedentário na saúde física, mental e social de crianças e adolescentes em Goiânia. A Educação Física escolar se apresenta como uma ferramenta promissora para promover a prática de atividade física regular e incentivar hábitos de vida saudáveis, mitigando os efeitos adversos do uso excessivo de telas (Costigan et al., 2013). Entretanto, há uma lacuna na literatura sobre a eficácia das aulas de Educação Física nesse contexto, especialmente em Goiânia, o que dificulta o desenvolvimento de políticas e intervenções educacionais adaptadas às necessidades locais. Em Goiânia, embora dados específicos sobre o uso de telas entre jovens sejam escassos, as características urbanas da cidade apontam para um cenário semelhante ao do resto do país. O crescimento urbano e a falta de espaços de lazer em algumas regiões contribuem para que crianças e adolescentes passem mais tempo em frente às telas e menos tempo em atividades físicas ao ar livre. Esses fatores tornam relevante investigar a relação entre o comportamento sedentário e o uso excessivo de telas no contexto local. Este estudo visa, portanto, identificar os principais impactos físicos e psicológicos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos, além de analisar como a Educação Física escolar pode contribuir para reverter ou minimizar esses impactos. A pesquisa também pretende identificar 10 estratégias pedagógicas que possam ser aplicadas em sala de aula, com o objetivo de promover um uso equilibrado da tecnologia entre crianças e adolescentes. Para atingir esses objetivos, o estudo realizou uma ampla revisão bibliográfica de metodologia integrativa buscando estudos nacionais e internacionais, com ênfase em pesquisas voltadas para o contexto brasileiro e, quando possível, específicas de Goiânia. Espera-se que este trabalho forneça subsídios importantes para intervenções educacionais que promovam a saúde e o bem-estar dos jovens, além de contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas eficazes no contexto local. 2. METODOLOGIA Este estudo utilizou a revisão integrativa como abordagem metodológica, com o objetivo de analisar de forma abrangente e interdisciplinar os impactos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos e do comportamento sedentário em crianças e adolescentes. A escolha por essa metodologia permitiu integrar achados de diferentes áreas do conhecimento, promovendo uma visão holística e detalhada do tema. Para garantir a abrangência necessária, foram exploradas as seguintes áreas do saber: • Neurociência, para compreender os efeitos no desenvolvimento cerebral e na cognição; • Psicologia, analisando os impactos na saúde mental, como ansiedade e depressão; • Oftalmologia, avaliando as consequências para a saúde ocular, como fadiga visual e miopia; • Pediatria, enfocando o impacto no desenvolvimento físico e comportamental; • Ciências do Comportamento, investigando o papel dos dispositivos eletrônicos nos padrões de uso e vícios digitais; • Sociologia, abordando os efeitos sociais, como isolamento e desigualdade digital; 11 • Epidemiologia, examinando a prevalência e os fatores de risco associados ao uso excessivo de telas; • Educação Física, explorando o papel de intervenções escolares na promoção de hábitos saudáveis. Essa abordagem interdisciplinar foi fundamental para mapear os diferentes aspectos do problema e propor soluções que abrangemmúltiplas dimensões do desenvolvimento infantil e juvenil. A abordagem é especialmente adequada para investigar problemas complexos em saúde pública, como os efeitos do uso prolongado de dispositivos eletrônicos e do sedentarismo na saúde física, mental, social e cognitiva. Além disso, ela permite explorar o papel de intervenções educacionais, especialmente no âmbito da Educação Física escolar, como meio de promover hábitos saudáveis entre os jovens. 2.1. Etapas da Revisão Integrativa Para garantir a sistematização e o rigor científico, a revisão integrativa foi conduzida seguindo as etapas propostas por Souza, Silva e Carvalho (2010): 1. Identificação do problema e formulação da pergunta de pesquisa; 2. Estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; 3. Busca na literatura; 4. Avaliação dos estudos selecionados; 5. Análise e síntese dos dados; 6. Apresentação dos resultados e discussão. 12 2.2. Formulação da Pergunta de Pesquisa A questão norteadora deste estudo foi: ● Como o uso excessivo de dispositivos eletrônicos e o comportamento sedentário afetam a saúde física, mental e social de crianças e adolescentes, e de que maneira a Educação Física escolar pode contribuir para minimizar esses impactos? Essa pergunta foi elaborada com o intuito de identificar evidências sobre os efeitos adversos do uso prolongado de dispositivos eletrônicos e do sedentarismo, bem como explorar possíveis intervenções educacionais no âmbito da Educação Física escolar que promovam hábitos de vida mais saudáveis entre os jovens. 2.3. Critérios de Inclusão e Exclusão Critérios de Inclusão: ● Estudos que abordassem os impactos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos na saúde física, mental e social de crianças e adolescentes. ● Pesquisas publicadas em periódicos revisados por pares, com metodologia científica clara e rigorosa. ● Publicações no período de 2013 a 2024, garantindo a atualidade e relevância dos dados. ● Artigos disponíveis nos idiomas português, inglês ou espanhol. Critérios de Exclusão: ● Estudos cujo foco não estivesse diretamente relacionado ao tema central do estudo. ● Revisões literárias superficiais ou sem metodologia definida. ● Publicações duplicadas em diferentes bases de dados. ● Materiais não científicos. 13 2.4. Busca na Literatura A pesquisa bibliográfica foi realizada nas seguintes bases de dados: ● Google Acadêmico ● SciELO (Scientific Electronic Library Online) ● PubMed ● Periódicos CAPES ● LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) ● Redalyc ● BDTD (Biblioteca Digital de Teses e Dissertações) ● ERIC (Education Resources Information Center) Os descritores utilizados foram combinados com operadores booleanos (AND, OR) para refinar a busca, os termos foram procurados em português e inglês: ● "Uso de dispositivos eletrônicos" AND "saúde física" OR "Electronic Device Use" AND "Physical Health" ● "Tempo de tela" OR "sedentarismo" AND "crianças e adolescentes" OR"Screen time" OR "sedentary lifestyle" AND "children and adolescents" ● "Educação Física escolar" AND "impactos na saúde" OR "School Physical Education" AND "impacts on health" ● "Comportamento sedentário" AND "intervenções educacionais" OR Sedentary behavior" AND "educational interventions" A busca foi limitada ao período de 2013 a 2024, correspondendo a duas décadas de intensificação no uso de dispositivos móveis e expansão da tecnologia digital. 14 2.5. Seleção e Avaliação dos Estudos Inicialmente, foram identificados mais de 100.000 artigos nas bases de dados selecionadas. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a leitura de títulos e resumos resultou na seleção de 205 estudos potencialmente relevantes. Esses estudos foram lidos na íntegra para confirmar sua pertinência ao tema e sua qualidade metodológica. Cada artigo foi avaliado quanto aos seguintes aspectos: ● Objetivos e relevância do estudo; ● Metodologia empregada (tipo de estudo, amostra, instrumentos de coleta de dados); ● Resultados e conclusões; ● Limitações apontadas pelos autores. 2.6. Extração e Síntese dos Dados Para a extração dos dados, foi elaborada uma matriz de análise contendo: ● Autores e ano de publicação; ● País de origem; ● Objetivo do estudo; ● Metodologia ● Principais achados; ● Conclusões e recomendações. Os dados foram agrupados de acordo com os temas centrais: ● Impactos na saúde física (problemas posturais, obesidade, distúrbios do sono, problemas oculares); 15 ● Impactos na saúde mental e social (sintomas de depressão, ansiedade, dificuldades de socialização); ● Intervenções na Educação Física escolar (estratégias pedagógicas, programas de atividade física, uso consciente da tecnologia). A síntese dos resultados permitiu identificar padrões, convergências e divergências entre os estudos, bem como lacunas na literatura que podem orientar futuras pesquisas. 2.7. Limitações da Pesquisa Reconhece-se que o estudo apresenta algumas limitações: ● Disponibilidade de Estudos Específicos: Houve escassez de pesquisas específicas sobre o contexto de Goiânia, o que limitou a análise contextualizada para a região. ● Heterogeneidade Metodológica: A diversidade nas metodologias dos estudos selecionados dificultou comparações diretas e a generalização dos resultados. ● Publicações Recentes: Alguns estudos relevantes podem ter sido publicados após o período de busca estabelecido, não sendo incluídos nesta revisão. 2.8. Considerações Metodológicas Finais A opção pela revisão integrativa possibilitou uma compreensão ampla e aprofundada dos impactos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos e do comportamento sedentário na saúde de crianças e adolescentes. Essa metodologia permitiu integrar conhecimentos de diferentes abordagens, oferecendo uma base sólida para a discussão dos achados e para a proposição de estratégias educativas no âmbito da Educação Física escolar. 16 Ao reunir evidências científicas atualizadas, o estudo contribui para a reflexão sobre práticas pedagógicas que promovam a saúde e o bem-estar dos jovens, além de subsidiar a elaboração de políticas públicas e intervenções educacionais eficazes. 3. IMPACTOS DO USO EXCESSIVO DE DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES: SAÚDE FÍSICA, MENTAL, COGNITIVA E SOCIAL O desenvolvimento acelerado das tecnologias de comunicação e informação tem provocado uma transformação significativa na dinâmica social e cultural, especialmente entre crianças e adolescentes, que estão expostos a dispositivos eletrônicos desde os primeiros anos de vida. A prevalência do uso de telas é um fenômeno recente na história humana, com avanços exponenciais desde o telefone (1876) e a televisão (1927) até a criação dos smartphones (1992). Tecnologias que antes eram raras se tornaram parte integrante da vida cotidiana (Madigan et al., 2019). Essa rápida adoção, especialmente das redes sociais e plataformas de entretenimento digital, trouxe benefícios, mas também provocou uma série de consequências adversas para a saúde física, mental, social e cognitiva de crianças e adolescentes e adultos (Adelantado-Renau et al., 2019), gerando problemas como sintomas de depressão, alterações de comportamento e problemas de autoestima (Domoff et al., 2019; Fairclough, 2021). Os motivos para tanto uso de telas são variados. O trabalho e a educação remotos, o fácil acesso a dispositivos eletrônicos (Domoff et al., 2019) e o entretenimento digital extremamente atrativo impulsionam o uso cotidiano. As redes sociais incentivam o uso prolongado e promovem a comparação social, intensificando o impacto psicológico (Fairclough, 2021), 17 enquanto pressões culturais reforçam a necessidade de estar sempre online e o medo de “perder algo” (FOMO, "fear of missing out") (Adelantado-Renau et al., 2019).Em áreas urbanas, o uso de telas é preferido por questões de segurança, e muitos pais recorrem a dispositivos para entreter as crianças em casa (Costigan et al., 2013). As exigências acadêmicas e a busca por alívio do estresse também elevam o uso prolongado de dispositivos (Hoare et al., 2016), contribuindo para um ciclo de dependência digital. A urbanização acelerada e a falta de espaços apropriados para atividades ao ar livre limitam as opções de atividades físicas e recreativas para as crianças (Lambert et al., 2019). Além disso, a insegurança pública leva muitos pais a manterem seus filhos em casa, reduzindo as oportunidades de interação social e atividades físicas fora de casa. Outros aspectos, como o trânsito intenso e a falta de infraestrutura para pedestres e ciclistas, também dificultam o acesso a espaços de lazer (Janssen et al., 2020). Para o entendimento deste trabalho vamos relacionar os principais motivos de uso e os principais problemas causados pelo uso desses dispositivos. 3.1. Problemas Físicos Associados ao Uso Excessivo de Telas 3.1.1. Distúrbios musculoesqueléticos O uso prolongado de dispositivos eletrônicos, muitas vezes em posições aparentemente convenientes e estáticas, mas incorretas, é uma causa significativa de problemas musculoesqueléticos entre crianças e adolescentes. A manutenção de posturas confortáveis, como a cabeça inclinada para frente e a perda da curvatura natural da lombar, resulta em aumento de dores na coluna cervical e lombar, além de hipercifose torácica e retificação da lordose cervical (Neophytou et al., 2021; Costigan et al., 2013). A permanência em posturas incorretas por períodos prolongados está associada ao desenvolvimento de dores crônicas que 18 podem persistir até a idade adulta (Janssen et al., 2020). Estudos indicam ainda, que adolescentes do sexo feminino e estudantes de ensino médio apresentam uma prevalência maior de sintomas musculoesqueléticos em comparação com adolescentes do sexo masculino e alunos do ensino fundamental (Queiroz, 2018). 3.1.2. Obesidade Infantil e Condições Associadas O comportamento sedentário, intensificado pelo tempo excessivo de tela, é uma das principais causas do aumento dos índices de obesidade infantil. O uso prolongado de videogames e smartphones reduz a prática de atividades físicas. Além disso, esses tipos de mídias estão associados ao aumento da ansiedade e a ingestão de alimentos ultraprocessados e hipercalóricos (Janssen et al., 2020). Esse comportamento impacta a saúde cardiovascular, elevando os riscos de doenças crônicas, como diabetes tipo 2 e hipertensão, além do colesterol alto e intolerância à glicose, com efeitos significativos na qualidade de vida (Hoare et al., 2016; Jones et al., 2021). Tais efeitos não ficam restritos à infância e podem ter sequelas por toda vida. 3.1.3. Saúde Ocular A saúde dos olhos também é afetada pelo uso excessivo de dispositivos eletrônicos, resultando em sintomas como fadiga ocular e dores de cabeça, conhecidos como Síndrome da Visão do Computador. Holden et al. (2016) projetaram um aumento significativo da prevalência de miopia global até 2050, atribuído em parte à maior exposição a telas e à diminuição do tempo em ambientes externos. Esse crescimento foi antecipado já que durante a pandemia de COVID- 19, a intensificação do uso de telas agravou esses sintomas, aumentando significativamente a prevalência de miopia em crianças e adolescentes (Adelantado-Renau et al., 2019; Christakis et al., 2018). 19 3.1.4. Impactos no Sono A qualidade do sono entre crianças e adolescentes é especialmente prejudicada pela exposição noturna às telas, que afeta a liberação de melatonina, essencial para a regulação do ciclo circadiano. Esse impacto no sono gera um quadro de privação crônica de sono, associado a dificuldades de concentração, déficit de atenção e piora no desempenho escolar (Hoare et al., 2016). A privação de sono, causada pelo uso excessivo de telas, também pode resultar em problemas de saúde mental a longo prazo, incluindo depressão e ansiedade (Lambert et al., 2019). 3.1.5. Ergonomia e Postura A manutenção de posturas inadequadas durante o uso de dispositivos eletrônicos é um fator significativo de problemas musculoesqueléticos. Estudos sugerem que intervenções ergonômicas, como ajustes na altura do dispositivo e pausas regulares, podem reduzir dores crônicas e prevenir condições como hipercifose torácica e retificação da lordose cervical (Neophytou et al., 2021). 3.2. Problemas Cognitivos e Desenvolvimento Cerebral 3.2.1. Atrasos no Desenvolvimento Cognitivo O uso excessivo de dispositivos eletrônicos durante a infância é um fator de risco para atrasos no desenvolvimento cognitivo, com efeitos observados no aprendizado, na memória e na capacidade de resolução de problemas. Crianças que passam mais de duas horas diárias em frente às telas apresentam menor desempenho em tarefas de cognição e linguagem, além de uma diminuição na espessura cortical, essencial para o desenvolvimento de funções cognitivas complexas (Madigan et al., 2019; Lee, 2015). O tempo prolongado de tela reduz as 20 oportunidades de aprendizado em ambientes reais, fundamentais para o desenvolvimento pleno de habilidades sociais e cognitivas (Christakis et al., 2018). 3.2.2. Dificuldades de Memória e Atenção Estudos indicam que o uso prolongado de telas, especialmente em atividades de multitarefa digital, prejudica a memória de longo prazo e a atenção sustentada. Crianças e adolescentes expostos a mais de sete horas diárias de tela apresentam comprometimento no desenvolvimento do córtex pré-frontal, região responsável pelo controle da atenção e pelas funções executivas (Glass & Kang, 2019). A exposição excessiva à mídia digital pode afetar diretamente o desempenho acadêmico, com impactos no desenvolvimento cognitivo que podem durar até a idade adulta (Neophytou et al., 2021). 3.3. Problemas de Saúde Mental 3.3.1. Sintomas de Ansiedade e Depressão O uso de redes sociais, uma das principais razões para o uso prolongado de dispositivos eletrônicos entre adolescentes, está associado ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão. Estudos sugerem que a comparação social, intensificada pelas redes sociais, gera sentimentos de inadequação e baixa autoestima, contribuindo para o desenvolvimento de distúrbios emocionais (Fairclough, 2021; Domoff et al., 2019). A manifestação conhecida como “FOMO” (Fear of Missing Out) aumenta a necessidade de se manter conectado, exacerbando os sintomas de ansiedade social (Adelantado-Renau et al., 2019). 3.3.2. Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade A exposição prolongada à mídia digital está associada a um risco elevado de transtornos de atenção e hiperatividade (TDAH), especialmente entre crianças em idade pré-escolar. 21 Crianças que iniciam o uso de telas antes dos 2 anos de idade apresentam maior probabilidade de desenvolver problemas de atenção e comportamentais, o que pode comprometer seu desempenho acadêmico e desenvolvimento social (Maras et al., 2015). Além dos efeitos comportamentais, a neurociência identifica alterações no córtex pré-frontal, diretamente relacionadas ao controle da atenção e funções executivas. Glass e Kang (2019) observaram que o uso excessivo de dispositivos afeta o desenvolvimento dessa região, levando a dificuldades de regulação emocional e comportamental. 3.3.3. Vícios Comportamentais e Dependência Digital O design persuasivo das plataformas digitais desempenha um papel crucial no aumento da dependência digital. Interfaces que utilizam recompensas frequentes e notificações intermitentes estimulam o sistema de recompensa cerebral, intensificando o comportamento compulsivo. Anderson et al. (2017) destacam que essas estratégias prolongam o tempo de uso e dificultam a desconexão, resultando em impactos negativosna saúde mental e nas interações sociais. 3.4. Impactos no Comportamento Social e Desenvolvimento Emocional Isolamento Social e Redução da Empatia O uso de dispositivos eletrônicos desde a infância afeta o desenvolvimento de habilidades sociais e empatia, uma vez que reduz o tempo de interação social real. A exposição a dispositivos em momentos de socialização, como refeições em família, compromete a qualidade das relações e limita as oportunidades de aprendizagem emocional (Hood, R.et al, 2021). Além disso, uma superestimulação sensorial provocada pelo uso de telas pode interferir na capacidade de autorregulação emocional, aumentando a impulsividade e reduzindo a tolerância à frustração (Madigan et al., 2019). 22 3.4.1. Aumento da Agressividade e Problemas de Comportamento Estudos sugerem que o conteúdo violento em jogos e mídia digital está associado ao aumento de comportamentos agressivos entre crianças e adolescentes (Montagni et al., 2016). O consumo de conteúdo digital com alto grau de violência e pouco incentivo à reflexão crítica contribui para um desenvolvimento emocional desequilibrado, no qual a empatia é comprometida e o comportamento agressivo é intensificado (Gommans et al., 2015). O isolamento social decorrente do uso excessivo de telas não é apenas uma questão de interação reduzida, mas também de desigualdade digital. Livingstone e Helsper (2007) apontam que crianças de menor poder aquisitivo têm menos acesso a conteúdo educativos e interativos de qualidade, perpetuando desigualdades sociais e limitando o desenvolvimento de habilidades interpessoais. 3.5. Doenças Degenerativas e Impactos no Desenvolvimento a Longo Prazo 3.5.1. Efeitos no Córtex e Desenvolvimento Neurológico O uso excessivo de dispositivos eletrônicos tem sido associado a alterações neurológicas de longo prazo, incluindo o afinamento do córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisões e controle da impulsividade. Esse afinamento cortical, observado especialmente em adolescentes, relatórios com relatórios em jogos eletrônicos, compromete a função executiva, dificultando a regulação do comportamento e a habilidade de planejar a longo prazo (Hong et al., 2013). Pesquisas indicam que a superestimação do cérebro por meio da mídia digital pode estar ligada a sintomas degenerativos prematuros, apontando uma maior vulnerabilidade ao declínio cognitivo com o avanço da idade (Glass & Kang, 2019). 23 3.5.2. Vícios Comportamentais e Dependência Digital O vício comportamental em jogos e redes sociais é um problema emergente, que afeta adolescentes de maneira semelhante aos transtornos de dependência química. Esse tipo de vício provoca alterações nas estruturas de recompensa do cérebro, impactando o desenvolvimento neurológico e gerando comportamentos compulsivos, como o uso descontrolado de dispositivos eletrônicos (Purcell, 2013; Gommans et al., 2015). A exposição constante a esses estímulos dificulta a concentração e a manutenção de relacionamentos saudáveis, impactando a qualidade de vida dos jovens (Madigan et al., 2019). 3.6. A Interseção de Educação Física e Saúde Digital A Educação Física desempenha um papel estratégico na promoção da saúde integral de crianças e adolescentes, especialmente no contexto atual, marcado pelo uso abusivo de dispositivos eletrônicos e pelo comportamento sedentário. Mais do que uma disciplina voltada apenas para o condicionamento físico, a Educação Física tem o potencial de atuar como um agente de conscientização sobre o uso equilibrado da tecnologia, promovendo não apenas o bem-estar físico, mas também o mental, social e cognitivo. No cenário contemporâneo, as aulas de Educação Física podem incorporar abordagens inovadoras que integram a conscientização sobre saúde digital. Programas pedagógicos têm demonstrado que práticas que mesclam atividades físicas tradicionais com momentos de reflexão sobre o uso de dispositivos eletrônicos são eficazes na redução do sedentarismo e no estímulo a hábitos saudáveis. Além disso, iniciativas que utilizam tecnologias, como aplicativos de monitoramento de atividades físicas e jogos educativos, podem incentivar o uso consciente 24 das telas, tornando a tecnologia uma aliada no combate ao comportamento sedentário (Tremblay et al., 2011). Uma estratégia relevante é a promoção de "desafios de desconexão digital" durante as aulas, incentivando os estudantes a refletirem sobre os efeitos do tempo excessivo de tela em suas rotinas. Ao mesmo tempo, a Educação Física pode explorar os benefícios do tempo em ambientes externos, como parques e áreas verdes, promovendo atividades que estimulem a socialização, a criatividade e a interação direta com o ambiente. O papel do professor de Educação Física é central nesse processo, atuando como mediador entre os benefícios da prática esportiva e os desafios do mundo digital. Ao introduzir discussões sobre ergonomia, saúde ocular e o impacto do sono na performance esportiva, o docente contribui para uma formação integral do aluno, ampliando o alcance das aulas para além da atividade física. Essas práticas também favorecem a inclusão social, especialmente em contextos urbanos, onde muitas crianças têm acesso limitado a espaços de lazer. Em um estudo de caso conduzido por Tremblay et al. (2011), escolas que implementaram programas de Educação Física voltados à saúde digital observaram uma redução significativa no tempo de tela relatado pelos estudantes e um aumento no tempo dedicado a atividades físicas extracurriculares. Esses resultados evidenciam o potencial transformador de programas educativos que integram abordagens físicas e digitais, promovendo uma cultura de equilíbrio e bem-estar. Portanto, a interseção entre Educação Física e saúde digital é uma área de grande potencial para intervenções escolares. Ao oferecer oportunidades de aprendizado prático e reflexivo, a Educação Física escolar não apenas contribui para a saúde física, mas também desempenha um papel crucial na formação de hábitos digitais mais conscientes, reduzindo os impactos adversos do uso abusivo de dispositivos eletrônicos. 25 3.7. O Ciclo Vicioso Como observado a sequência de uso das telas gera uma espécie de “ciclo vicioso” que são compostas por etapas que se reforçam mutuamente, impactando a saúde física, mental e emocional de crianças e adolescentes. Inicialmente, o uso prolongado de telas para trabalho, estudo e lazer causa fadiga postural, ocular, mental e interfere na qualidade do sono, levando à perda de horas essenciais de descanso. No dia seguinte, esses fatores se manifestam em dores musculares, cansaço, sonolência e estresse, criando um ambiente propício para a busca de “pequenos prazeres” que aliviam momentaneamente o desconforto, como alimentação compulsiva, uso de estimulantes e mais tempo nas telas para acessar conteúdo que libera endorfinas (Christakis et al., 2018; Madigan et al., 2019). Com o passar do tempo, a repetição desse ciclo leva a uma série de efeitos mais profundos. As dificuldades cognitivas se acentuam, com atrasos no desenvolvimento, problemas de memória e atenção. Em paralelo, sintomas de ansiedade, depressão e até mesmo transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) começam a surgir. O comportamento também é impactado, com aumento da agressividade e outros problemas emocionais. Em um estágio mais avançado, esses hábitos podem culminar em doenças degenerativas e impactos no desenvolvimento neurológico de longo prazo. No próximo capítulo veremos como a Educação Física escolar pode contribuir com a promoção da saúde, oferecendo oportunidades para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes e incentivando hábitos de vida mais ativos e saudáveis (Andermo et al., 2020). 26 4. ESTRATÉGIAS EDUCACIONAIS E COMUNITÁRIAS NO COMBATE AO USO EXCESSIVO DE TELAS O uso abusivode dispositivos eletrônicos e o comportamento sedentário representam desafios significativos para a saúde de crianças e adolescentes. A escola emerge como um espaço estratégico para a implementação de intervenções que promovam hábitos saudáveis, integrando disciplinas e adotando políticas escolares que incentivem um equilíbrio digital. Estudos demonstram que intervenções multidisciplinares no ambiente escolar podem contribuir significativamente para a redução do tempo de tela e o aumento da atividade física entre os jovens (Tremblay et al., 2011; Livingstone & Helsper, 2007). Além da Educação Física, que tem papel central na promoção da saúde física, outras disciplinas podem contribuir para ampliar a conscientização e oferecer estratégias práticas aos alunos. Por exemplo, disciplinas como Ciências podem abordar os efeitos da luz azul sobre a saúde ocular e os impactos do sedentarismo sobre o corpo humano, conectando esses temas com os conceitos teóricos do currículo escolar (Cain & Gradisar, 2010). 4.1. A Interdisciplinaridade no Ambiente Escolar No ambiente escolar, a integração entre disciplinas é essencial para abordar os efeitos do uso abusivo de dispositivos eletrônicos de maneira ampla e eficaz. A Educação Física, por exemplo, é particularmente eficaz em estimular hábitos de vida ativos, mas sua efetividade aumenta quando combinada a outras áreas do conhecimento. Cain e Gradisar (2010) destacam que os programas escolares que integram discussões sobre o impacto do uso noturno de dispositivos eletrônicos no sono podem resultar em maior conscientização e mudanças comportamentais. 27 Além disso, Livingstone e Helsper (2007) apontam que a inclusão de conteúdos sobre desigualdade digital e comportamento online em disciplinas como Sociologia e Tecnologia pode preparar os alunos para navegar de forma mais consciente pelos ambientes virtuais. Essa abordagem permite que as escolas atuem como agentes de transformação social, promovendo um aprendizado que vai além dos conteúdos tradicionais. Estudos mostram que projetos interdisciplinares em escolas são particularmente eficazes. Por exemplo, Tremblay et al. (2011) analisaram programas que combinavam aulas práticas de Educação Física com conteúdo teóricos sobre saúde digital, resultando em maior adesão às práticas esportivas e menor tempo de tela reportado pelos estudantes. Esses resultados reforçam a importância de uma abordagem integrada, que combina diferentes perspectivas para alcançar resultados mais abrangentes. 4.2. Políticas Escolares e Regras de Uso de Dispositivos As políticas escolares desempenham um papel crucial na regulação do uso de dispositivos eletrônicos no ambiente educacional, promovendo um equilíbrio entre as práticas digitais e atividades que favorecem o bem-estar físico, mental e social. Estudos mostram que escolas que implementam regras claras e diretrizes relacionadas ao tempo de tela observam uma melhora no engajamento dos alunos em atividades presenciais e um impacto positivo no desempenho acadêmico (Anderson et al., 2017). Uma abordagem eficaz para limitar o uso abusivo de telas é o estabelecimento de "zonas livres de dispositivos", como durante as refeições escolares, recreios e aulas práticas. Essas zonas incentivam a interação social e reduzem os efeitos negativos associados ao uso prolongado de telas, como a falta de atenção e o isolamento social. Segundo Anderson et al. 28 (2017), estratégias desse tipo contribuem para um ambiente escolar mais equilibrado e inclusivo. Outro aspecto importante é o desenvolvimento de programas de alfabetização digital, que educam os alunos sobre os riscos associados ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos. Cain e Gradisar (2010) destacam que essas iniciativas, quando integradas ao currículo escolar, não apenas ajudam a reduzir o tempo de tela, mas também promovem um uso mais consciente e seguro da tecnologia. Por exemplo, aulas de tecnologia podem incluir conteúdos sobre ergonomia, saúde ocular e gestão do tempo digital. Além disso, é fundamental o envolvimento da família na implementação dessas políticas. Parcerias entre escolas e famílias, com workshops e campanhas informativas, têm se mostrado eficazes na ampliação da conscientização e na criação de ambientes domésticos que favorecem a redução do uso de dispositivos. Livingstone e Helsper (2007) apontam que a colaboração entre pais e educadores fortalece as políticas escolares e amplia seu impacto para além do ambiente educacional. Estudos como o de Tremblay et al. (2011) demonstram que as políticas escolares são mais eficazes quando combinadas com intervenções práticas, como a promoção de atividades extracurriculares que substituem o tempo de tela por alternativas saudáveis. Essas iniciativas destacam o potencial transformador das escolas ao liderar esforços comunitários para combater os danos potenciais do uso excessivo de dispositivos eletrônicos. 4.3. O Papel da Família na Promoção de Hábitos Saudáveis A família é um dos principais agentes na formação de hábitos e comportamentos em crianças e adolescentes. No contexto do uso abusivo de dispositivos eletrônicos, o papel dos 29 pais e cuidadores torna-se ainda mais crucial, uma vez que eles exercem influência direta sobre a gestão do tempo de tela e a promoção de atividades alternativas. Estudos indicam que práticas familiares equilibradas e consistentes, como o estabelecimento de regras para o uso de dispositivos, têm impacto significativo na redução dos efeitos negativos associados ao comportamento sedentário e ao uso excessivo de telas (Livingstone & Helsper, 2007; Anderson et al., 2017). Uma das estratégias mais eficazes é a implementação de limites claros para o uso de dispositivos, como horários específicos para desconexão digital. Essas regras, quando aplicadas de forma consistente, ajudam a regular o tempo de tela e incentivam as crianças a se envolverem em atividades físicas e sociais. Anderson et al. (2017) destacam que famílias que restringem o uso de dispositivos durante as refeições e momentos de interação social promovem melhores relações interpessoais e maior engajamento das crianças em atividades offline. Além disso, o exemplo dado pelos pais é essencial. Crianças cujos cuidadores demonstram um uso equilibrado da tecnologia são mais propensas a replicar esses comportamentos. Tremblay et al. (2011) enfatizam que práticas familiares saudáveis, como a participação conjunta em atividades ao ar livre e esportes, não apenas incentivam a prática de exercícios, mas também fortalecem os vínculos familiares e reduzem o uso de dispositivos eletrônicos. Workshops e programas de educação para pais também têm se mostrado eficazes na conscientização sobre os riscos do uso abusivo de telas. Cain e Gradisar (2010) sugerem que campanhas educativas, promovidas por escolas e organizações comunitárias, podem ajudar os pais a identificar os sinais de dependência digital e adotar estratégias para mitigar seus efeitos. Essas iniciativas fornecem ferramentas práticas para que as famílias criem ambientes 30 domésticos mais saudáveis, nos quais o tempo de tela seja equilibrado com outras atividades essenciais para o desenvolvimento infantil. Por fim, a colaboração entre escolas e famílias é essencial para o sucesso de políticas de saúde digital. Quando pais e educadores trabalham juntos para promover o uso consciente da tecnologia, o impacto das intervenções escolares se multiplica, alcançando não apenas os alunos, mas também a comunidade como um todo (Livingstone & Helsper, 2007). Essa parceria fortalece o papel da família como protagonista na promoção de hábitos saudáveis e no enfrentamento dos desafios impostos pela era digital. 4.4. Parcerias Comunitárias para a Promoção da Saúde Além do papel desempenhado pela escola e pela família, as parcerias comunitáriasemergem como uma estratégia essencial para enfrentar os desafios impostos pelo uso abusivo de dispositivos eletrônicos e pelo comportamento sedentário. Essas parcerias incluem colaborações entre escolas, organizações não governamentais (ONGs), instituições de saúde e órgãos públicos, promovendo iniciativas que ampliem o acesso a atividades saudáveis e educativas. Estudos mostram que atividades comunitárias regulares, como eventos esportivos, feiras de saúde e campanhas de conscientização, podem contribuir significativamente para a redução do tempo de tela e o aumento da interação social entre crianças e adolescentes (Livingstone & Helsper, 2007; Tremblay et al., 2011). Essas ações fortalecem a conexão entre os jovens e a comunidade, oferecendo alternativas ao uso excessivo de dispositivos. Um exemplo prático são os programas de extensão universitária, que muitas vezes envolvem alunos de cursos de Educação Física, Psicologia e Ciências da Saúde na organização 31 de atividades físicas, oficinas educativas e atendimentos em comunidades locais. Essas iniciativas têm demonstrado sucesso na promoção de hábitos saudáveis, integrando conhecimentos acadêmicos com a prática comunitária (Cain & Gradisar, 2010). Além disso, políticas públicas que incentivam a criação e manutenção de espaços de lazer, como parques e centros esportivos, desempenham um papel crucial na promoção da saúde. Tremblay et al. (2011) destacam que ambientes externos bem estruturados e acessíveis não apenas incentivam a prática de atividades físicas, mas também reduzem a dependência de dispositivos eletrônicos, especialmente entre crianças que vivem em áreas urbanas densamente povoadas. As ONGs também têm contribuído significativamente para o combate ao uso abusivo de telas. Muitas organizações promovem campanhas educativas que ensinam crianças e adolescentes a equilibrar o uso da tecnologia com outras atividades importantes, como leitura, esportes e interação social. Essas campanhas, quando realizadas em parceria com escolas, ampliam o alcance das intervenções e criam um impacto mais duradouro. Por fim, a colaboração entre comunidades locais, escolas e governos municipais pode resultar em projetos sustentáveis que incentivem estilos de vida ativos. Parcerias como essas demonstram que o enfrentamento do uso abusivo de telas exige um esforço coletivo, onde cada agente – escola, família e comunidade – desempenha um papel complementar e indispensável. 4.5. Considerações sobre o Contexto Regional O contexto regional desempenha um papel determinante na implementação de estratégias voltadas à redução do uso abusivo de dispositivos eletrônicos e à promoção de hábitos saudáveis. Em Goiânia, características urbanas como a falta de espaços públicos 32 adequados para lazer e a insegurança em algumas áreas limitam as oportunidades de prática de atividades físicas ao ar livre, intensificando a dependência de dispositivos eletrônicos para o entretenimento e a socialização. Estudos mostram que crianças e adolescentes residentes em áreas urbanas têm maior probabilidade de apresentar comportamentos sedentários em comparação com aqueles que vivem em regiões rurais, devido à limitação de espaços abertos e seguros (Tremblay et al., 2011). Essa realidade se aplica ao contexto de Goiânia, onde a expansão urbana acelerada tem reduzido o acesso a áreas de lazer e esporte comunitárias, reforçando a necessidade de intervenções locais específicas. Outro aspecto relevante é a desigualdade de acesso à tecnologia entre diferentes classes sociais. Enquanto famílias de maior poder aquisitivo têm acesso a dispositivos de qualidade e podem equilibrar seu uso com atividades externas em espaços particulares, famílias de baixa renda muitas vezes enfrentam desafios como o uso compartilhado de dispositivos e a falta de orientação sobre os riscos associados ao tempo excessivo de tela (Livingstone & Helsper, 2007). Essa desigualdade digital impacta diretamente a saúde física e mental dos jovens, bem como seu desempenho acadêmico. No contexto escolar, muitas instituições públicas em Goiânia não dispõem de programas estruturados de educação digital ou de atividades físicas integradas que promovam a conscientização sobre os impactos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos. Cain e Gradisar (2010) apontam que a ausência de políticas escolares voltadas para a saúde digital agrava o problema, deixando estudantes expostos a práticas que comprometem seu desenvolvimento. Para mitigar esses desafios, iniciativas regionais têm buscado soluções criativas. Projetos locais, como parcerias entre escolas e parques municipais, oferecem oportunidades para que estudantes participem de atividades físicas fora do ambiente escolar, incentivando um 33 maior contato com a natureza e a redução do tempo de tela. Além disso, campanhas educacionais realizadas em comunidades urbanas vulneráveis têm buscado conscientizar pais e educadores sobre a importância de equilibrar o uso da tecnologia com práticas saudáveis. As políticas públicas municipais também desempenham um papel crucial. Em Goiânia, a implementação de programas que incentivam o uso de praças e áreas esportivas públicas, juntamente com campanhas sobre saúde digital, poderia ajudar a combater o comportamento sedentário e promover hábitos saudáveis entre os jovens. Essas ações reforçam a importância de um esforço coordenado que leve em consideração as especificidades locais para alcançar mudanças efetivas e sustentáveis. 5. CONTEXTO SOCIOCULTURAL E EDUCACIONAL DE GOIÂNIA Goiânia, capital do estado de Goiás, localizada na região Centro-Oeste do Brasil, é uma cidade que, nas últimas décadas, tem experimentado um rápido crescimento populacional e urbano. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, a cidade possuía uma população de 1.302.001 habitantes, sendo que 34,1 milhões de pessoas no Brasil estavam na faixa etária entre 10 e 19 anos. Em Goiânia, essa população jovem representa uma parcela significativa da sociedade local, influenciando diretamente aspectos educacionais, sociais e de saúde pública. 5.1. Contexto Educacional De acordo com os dados do portal QEdu (2024), que compila informações educacionais de todo o Brasil, é possível traçar um perfil dos estudantes goianienses nos anos iniciais, finais do ensino fundamental e no ensino médio. Os dados a seguir referem-se ao 5º ano, 9º ano do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio em Goiânia: 34 ● Língua falada em casa: 98% dos estudantes do 5º ano, 9º ano e 3º ano do ensino médio falam português em casa, descendo uma homogeneidade linguística na região. ● Cor ou raça: A maioria dos estudantes se autodeclara parda (50% no 5º ano e 51% no 9º e 3º anos). A segunda maior representação é de brancos (24% no 5º ano e cerca de 28% no 3º ano). ● Composição familiar: A maioria dos estudantes mora com a mãe (89% no 5º e 9º anos, 85% no 3º ano) e com o pai (74% no 5º ano e 9º anos, 67% no 3º ano), indicando uma possível redução da presença paterna conforme avançam nos estudos. ● Escolaridade dos pais: Há um aumento da escolaridade dos pais conforme o avanço dos anos escolares dos filhos, porém, uma parcela significativa dos estudantes não sabe informar a escolaridade dos pais, especialmente no 5º ano (62% não sabem a escolaridade da mãe; 68 % do pai). ● Hábitos de leitura e tempo de lazer: Observar um aumento no tempo dedicado ao lazer, como TV e internet, especialmente no 9º ano (64% dedicado mais de 2 horas por dia) e uma redução na frequência de leitura de notícias. Esses dados evidenciam desafios educacionais, como a necessidade de maior envolvimento dos pais na educação dos filhos e na promoção de hábitos saudáveis de estudo e lazer. 5.2. Sedentarismo entre Adolescentes em Goiânia Um estudo realizado por Ferreira et al., (2011) com 623adolescentes de 14 a 18 anos de escolas estaduais da região leste de Goiânia encontraram uma prevalência de sedentarismo de 40,3%. O sedentarismo foi definido como uma prática de atividade física moderada e/ou vigorosa por menos de 300 minutos semanais, conforme recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). 35 Fatores Associados ao Sedentarismo: ● Gênero: As meninas tiveram maior prevalência de sedentarismo (44,7%) em comparação aos meninos (36,7%). Fatores socioculturais podem influenciar essa diferença, como menor incentivo à prática esportiva entre as meninas. ● Idade: Houve tendência de aumento do sedentarismo com o avanço da idade, especialmente entre as meninas. Adolescentes com 18 anos apresentaram prevalência de sedentarismo de 54,5%. ● Turno Escolar: Estudantes do período noturno tiveram maior prevalência de sedentarismo (78,1%) em relação aos períodos vespertino (47,3%) e matutino (36,9%). Isso pode estar relacionado à maior carga de trabalho ou compromissos diários que limitam a prática de atividades físicas. ● Consumo de Bebidas Alcoólicas: Adolescentes que consumiram bebidas alcoólicas tiveram maior prevalência de sedentarismo (57,7%) do que aqueles que não consumiram (37,2%), demonstrando uma associação entre comportamentos de risco. ● Uso de Televisão: Não foram encontradas diferenças importantes entre o tempo assistido na TV e o sedentarismo. Entretanto, 77,8% dos adolescentes assistem TV por mais de 2 horas por dia, o que pode contribuir para um estilo de vida sedentário. 5.3. Uso de Tecnologias Digitais entre Adolescentes Conforme Silva e Silva (2017), cerca de 81% dos adolescentes brasileiros acessam a internet todos os dias, evidenciando a abrangência das tecnologias digitais. Em Goiânia, não é diferente; os jovens estão cada vez mais conectados, utilizando dispositivos eletrônicos para comunicação, entretenimento e estudo. 36 5.4. Impactos Sociais, Cognitivos e Afetivos das Tecnologias Digitais O uso envolvido das tecnologias digitais pode trazer consequências negativas: ● Relações Familiares: Há um distanciamento entre adolescentes e familiares devido ao tempo excessivo dedicado às tecnologias, diminuindo o diálogo e a interação familiar. ● Relações Sociais: As interações virtuais podem ser superficiais, causando dificuldades no estabelecimento de relacionamentos profundos no mundo real e aumentando o isolamento social. ● Desenvolvimento Cognitivo: A sobrecarga de informações e estímulos pode afetar a capacidade de atenção, memória e aprendizado, prejudicando o desempenho escolar. ● Saúde Mental: Sintomas como ansiedade, depressão e transtornos de atenção têm sido associados ao uso excessivo de tecnologias digitais. 5.5. Exposição a Sons em Alta Intensidade O estudo de Santana et al. (2015) investigou os hábitos de 50 jovens usuários de dispositivos eletrônicos individuais em Goiânia: ● Frequência e Duração de Uso : 44% usavam dispositivos eletrônicos sete vezes por semana e 46% os utilizavam por mais de 2 a 3 horas diárias. ● Intensidade do Som : 54% ouviram música no volume máximo, com níveis de pressão sonora entre 91 a 118 decibéis (dB), excedendo os limites seguros estabelecidos pela NR-15, que é de 85 dB para uma exposição diária de 8 horas. ● Tipo de Fone de Ouvido : 86% usavam fones de inserção, que amplificam o som diretamente no canal auditivo, aumentando o risco de danos auditivos. 37 ● Sintomas Relatados : Cefaleia e otalgia foram relatadas por 44% dos jovens, zumbido por 38% e prurido por 32%, indicando sintomas auditivos e extra auditivos decorrentes da exposição a barulhos intensos. Apesar de 86% dos participantes terem certeza dos riscos auditivos associados ao uso de dispositivos em volumes altos, a maioria continuou com os mesmos hábitos, indicando uma falta de preocupação ou de medidas preventivas efetivas. 5.6. Desafios Educacionais e de Saúde Os dados do QEdu (2024), mostram que, embora haja uma infraestrutura escolar relativamente adequada em Goiânia, com alto percentual de escolas com ruas pavimentadas, proteção de água e iluminação pública, há desafios a serem enfrentados: ● Reprovação e Abandono Escolar : Há índices de reprovação e abandono escolar que precisam ser reduzidos para melhorar a continuidade e o sucesso educacional dos adolescentes. ● Envolvimento Familiar : A participação dos pais na vida escolar dos filhos diminui conforme avançam nos anos escolares, sendo essencial promover maior envolvimento para apoiar o desenvolvimento dos adolescentes. ● Hábitos de Lazer: O aumento do tempo dedicado às atividades sedentárias, como assistir TV e usar a internet, está associado a comportamentos sedentários e possíveis impactos na saúde física e mental. A contextualização de Goiânia em relação aos adolescentes revela uma combinação de fatores que impactam a saúde e o desenvolvimento dos jovens. O sedentarismo, o uso excessivo de tecnologias digitais representa uma questão central com relação à saúde pública. É fundamental que educadores, profissionais de saúde, famílias e gestores públicos trabalhem em conjunto para promover estilos de vida saudáveis, conscientizem-se sobre os 38 riscos associados aos comportamentos contratados e ofereçam alternativas positivas que contribuam para o bem-estar e desenvolvimento integral dos adolescentes goianienses. 6. CONCLUSÃO: EDUCAÇÃO FÍSICA, USO DE TELAS E O CONTEXTO DE GOIÂNIA O uso excessivo de dispositivos eletrônicos e o comportamento sedentário destacam-se como problemas globais com impactos profundos na saúde física, mental e social de crianças e adolescentes. No contexto urbano de Goiânia, esses desafios assumem características particulares devido a fatores como urbanização acelerada, insegurança pública e limitações na infraestrutura de lazer. Esta pesquisa buscou compreender como a Educação Física escolar pode ser uma ferramenta estratégica para mitigar os efeitos adversos dessa realidade, partindo de uma análise integrativa da literatura e das especificidades regionais. Ao longo do estudo, identificou-se uma correlação evidente entre o tempo de tela e a falta de atividade física, resultando em consequências preocupantes como distúrbios musculoesqueléticos, obesidade, transtornos do sono, dificuldades cognitivas e problemas de socialização. A literatura analisada revela que crianças e adolescentes expostos a longos períodos diante de dispositivos eletrônicos estão mais suscetíveis a sintomas de ansiedade e depressão, agravados pela redução de interações sociais presenciais e pelo sedentarismo. Esses desafios são ainda mais críticos em Goiânia, onde a ausência de espaços públicos adequados e a insegurança restringem as oportunidades para atividades ao ar livre, reforçando a dependência de dispositivos digitais. Nesse cenário, a Educação Física escolar surge como uma resposta prática e multidimensional. Mais do que apenas uma disciplina, ela é uma ferramenta transformadora capaz de integrar o desenvolvimento motor, cognitivo e social. Práticas pedagógicas bem 39 planejadas têm o potencial de estimular hábitos saudáveis e promover reflexões críticas sobre o uso equilibrado da tecnologia, ajudando os jovens a compreenderem os impactos do tempo excessivo de tela em suas vidas. Por meio de atividades diversificadas e interativas, a Educação Física pode oferecer alternativas envolventes que combatem o sedentarismo, ao mesmo tempo em que fortalecem os vínculos sociais e ampliam a consciência sobre saúde integral. No contexto específico de Goiânia, a implementação dessas práticas exige adaptação às realidades locais. Estratégias pedagógicas que aproveitem o potencial dos poucos espaços públicos disponíveis, bem como modalidades esportivas inovadoras, podem ampliar o engajamento dos estudantes e reduzir a dependênciade dispositivos eletrônicos. Além disso, o envolvimento das famílias e da comunidade é essencial para consolidar os benefícios dessas intervenções escolares, estendendo seu impacto para além do ambiente educacional. Dessa forma, este artigo conclui que a Educação Física escolar ocupa um papel central na promoção da saúde integral de crianças e adolescentes, especialmente em tempos de desafios impostos pela modernidade digital. Ao conectar corpo, mente e comunidade, ela se estabelece como um agente de mudança que não apenas combate os efeitos negativos do uso abusivo de telas e do sedentarismo, mas também inspira uma geração a buscar equilíbrio, movimento e bem-estar. Por fim, este estudo reforça a necessidade urgente de políticas públicas que valorizem a Educação Física como um eixo essencial no enfrentamento dos desafios contemporâneos. Investir nessa disciplina significa não apenas cuidar da saúde física dos jovens, mas também promover seu desenvolvimento cognitivo e emocional, preparando-os para uma vida mais saudável, consciente e integrada com a comunidade. 40 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Adelantado-Renau, M., Moliner-Urdiales, D., Cavero-Redondo, I., Beltran-Valls, M. R., Martínez-Vizcaíno, V., & Álvarez-Bueno, C. (2019). Associação entre uso de mídia de tela e desempenho acadêmico entre crianças e adolescentes: uma revisão sistemática e meta-análise. JAMA Pediatrics, 173(11), 1058–1067. https://doi.org/10.1001/jamapediatria.2019.3176 Andermo, S., Hallgren, M., Nguyen, T. T. D., Jonsson, S., Petersen, S., Friberg, M., Romqvist, A., Stubbs, B., & Elinder, L. S. (2020). 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