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PARTE IV Remendo do modelo em meio à crise mundial e retorno ao baixo crescimento (2007-2010)Capítulo 1 o segundo mandato de Lula: remendo do modelo em meio à crise mundial (2007-2008) 1. Os (LIMITADOS) DE FLEXIBILIZAÇÃO DO MODELO Os primeiros movimentos da política econômica no início do segundo mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva passaram a impressão, e essa tese disseminou-se e foi vendida com velocidade de cruzeiro, de que um novo modelo que tivesse como prioridades o crescimento sustentado e a inclusão social começaria, finalmente, a ter o seu edifício erguido. Havia bons motivos para acreditar que esse deveria e seria, de fato, o caminho a ser percorrido. Os bons ventos que sopravam da economia mun- dial continuavam fortes e permitiram ao Brasil colher uma taxa de cresci- mento de 2006, com uma grande vantagem: o mercado interno, puxado pelo consumo e investimentos, foi o grande responsável por este desempenho, tendo a contribuição do setor externo se tornado negativa, indicando menores limitações pelo lado da oferta, redução das pressões inflacionárias e menor dependência do mercado externo. Ademais, todas as projeções realizadas para 2007 confirmavam, de uma maneira geral, a repe- tição deste cenário, com uma taxa de expansão ainda mais robusta. De outro lado, a vulnerabilidade externa da economia brasileira, que vinha operando como trava do crescimento desde a década de 1980, e que se agra- vara com o Plano Real, parecia ter sido sepultada: tendo registrado um supe- rávit recorde na balança comercial de R$ 46,5 bilhões em 2006 e de US$ 13,6 bilhões na de conta-corrente (1,27% do PIB), o Brasil conseguira acumular 307 3 Cmais de US$ 100 bilhões de reservas externas, no conceito de liquidez interna- cional, e melhorar expressivamente todos os indicadores de sustentabilidade externa, o que o forte candidato ao recebimento do cobiçado "grau de investimento" (investment grade) pelas agências internacionais de rating. Para completar o quadro, o Banco Central conseguira manter a taxa de inflação, em 2006, abaixo do centro da meta estabelecida para este ano (3,14% contra 4,5%) e mesmo a relação dívida/PIB, ainda que em nível elevado (47,3%), vinha se mantendo em persistente trajetória de ligeiro declínio. 8 Persistiam, no entanto, neste cenário favorável, vários desafios que pre- cisavam ser vencidos para pavimentar caminhos mais sólidos para o cres- cimento e para consolidar a reputação e credibilidade que a política econômica conquistara junto à comunidade elevada e crescente carga tri- butária, que alimentava a dos gastos públicos e dificultava melhores resultados no campo fiscal; a apreciação excessiva do câmbio que, compen- sado pelos preços em ascensão das commodities, ainda não comecara a com- solden prometer seriamente balança comercial e de conta-corrente; dos investimentos públicos, devido aos compromissos assumidos com a geração de elevados superávits primários, prejudicando a infraestrutura econômica e mantendo elevado o as altas taxas reais de juros, inibidoras do investimento privado, do consumo e da expansão do mercado interno Confiando que o bom momento vivido pelo país se prolongaria por tempo suficiente para que alguns desses problemas fossem corrigidos, pois não se avistavam nuvens turvas no horizonte externo, o governo, logo no início do segundo mandato começou a flexibilizar algumas peças do mo- delo especialmente a que se refere à meta do superávit fiscal, dele procurando drenar maiores recursos para financiar o Projeto Photo de Investimentos (PPIs), visando aumentar os investimentos em infraes- trutura econômica e dar maior consistência e credibilidade ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um programa de governo, lançado em janeiro de 2007, com qual se projetavam, originalmente, investimentos da ordem de R$ 503,9 bilhões para um período de quatro anos nas áreas de energia (incluindo infraestrutura social e urbana e logística (rodo- 308PAC vias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrovias), com o objetivo anunciado de "romper barreiras e superar limites do crescimento econômico", de forma a sustentar uma taxa de crescimento de 5% ao ano. Dos investimentos nele contemplados, R$ 67,8 bilhões (13,5% do to- tal) viriam do Orçamento Fiscal e da Seguridade Social, R$ 219,2 bilhões 216,5 (43,5%) das empresas estatais federais e R$ bilhões (43%) do setor privado. Os setores beneficiados com estes investimentos seriam os de energia (incluindo que receberia R$ 274,8 bilhões (54,5% do to- o de com R$ 170,8 bilhões (33,9%) e o com investimentos previstos de R$ 58,3 bilhões (11,6%). Embora espelhasse, de fato, uma importante mudança em relação à po- lítica de curto prazo cm vigor desde a década de 1980 já que introduzia cena preócupações estratégicas e uma perspectiva planejamento de longo prazo, bem como enfrentamento de questões decisivas para o desenvolvi- mento mais sustentado, o fato é que o PAC não podia ser mais do que visto como um instrumento de centralização e de coordenação de recursos que já se encontravam, em sua maior parte, previamente decididos e alocados nos orçamentos das empresas estatais e previstos no orçamento da União (Fiscal e Seguridade), acrescidos da ampliação da quota da meta do superávit primá- no destinado ao PPI (cerca de R$ 11 bilhões em 2007) e de apostas de que o setor privado se mostraria disposto a realizar os investimentos pretendidos, neste da ordem de mais de R$ 200 bilhões. De qualquer forma, pelo que poderia representar em termos de mudança de perspectiva da política econômica que vinha sendo implementada, foi saudado, inclusive pelo em- presariado, embora com as rotineiras ressalvas, como um passo importante ao desenvolvimento, já que se propunha a remover alguns de seus principais obstáculos, principalmente na área de infraestrutura econômica 1 do meta em 2007 A redução do superávit fiscal de 4,25% para 3,75%, juntamente com o 1 Dos 16,5 bilhões de recursos reservados no OGU para o PAC, em 2007, R$ 16 bilhões foram empenhados, mas apenas 7,3 bilhões foram efetivamente pagos, e mesmo assim, R$ 2,8 bilhões referiam-se a despesas de exercícios anteriores, um possível indicador da baixa prioridade conferida ao programa que foi criado para superar as dificuldades e os limites do crescimento do país. 309do a + lançamento do a interpretações apressadas de alguns analis- tas de que a política econômica abandonara a rigidez da ortodoxia que fora a marca registrada dos anos anteriores e de que se preparava para permitir ao país dar "o grande depois de atender e as exigências dos ajustes que lhe foram imposto) e, por isso, considerar-se credenciado e me- recedor de ingressar no paraíso dos países considerados confiáveis para o mercado. Não poucos analistas apontaram que Lula estava convencido de que o "ajuste exigido" já havia sido realizado e de que, agora, o país se en- contrava "livre", com liberdade para trilhar firme o caminho do crescimen- to sustentado. Para usar uma imagem muito difundida, à época, "chegara o momento de o país colher os frutos de um trabalho competentemente realizado pela política econômica, como nunca se vira em sua história". Mas enquanto parecia ousar, de um lado para eliminar algumas travas colocadas pela política macroeconômica de estabilização ao crescimento econômico, tornava-se evidente, por outro, que esta seguiria sua trajetória de forma independente, sem submeter-se à essa "nova" orientação. Isso ficaria claro no gradualismo e acomodação de interesses com que as demais questões foram tratadas, condicionando seus resultados às pretensões do governo com os objetivos da "nova" política fiscal. No caso da reforma tributária, o governo sinalizou que encaminharia para o Congresso uma proposta que, diferentemente da que apresentara em 2003, teria maior preocupação com a simplificação do sistema, com a extinção de alguns impostos cumulativos e com a desoneração da produção e dos investimentos, além de um novo formato federativo, em que estariam presentes preocupações com maior autonomia de seus entes e mecanismos de redução das desigualdades regionais. 2 2 Encaminhada para apreciação do Congresso no final de fevereiro de 2008, a nova de reforma do governo Lula (PEC 233/08), apesar de mais consistente e mais completa do que a que terminou sen- do aprovada em 2003, nem por isso conseguiu de deixar a desejar na simplificação do sistema, na extinção de alguns impostos e contribuições cumulativos, em algumas medidas de desoneração da produção dos investimentos e em limitadas para pôr cobro à guerra fiscal travada entre não contemplou nenhuma medida importante para atenuar o elevado nivel de regressividade do sistema para diminuir o tamanho da carga tributária, nem para redesenhar modelo de federa- 310No caso dos juros, concordava-se com a trajetória de redução gradual das taxas de juros nominais definida pelo Banco Central, o que aparentemente parecia colocar o Banco Central em sintonia com a nova estratégia desenha- da pelo governo, mas condicionava-se esse movimento ao comportamen to da inflação, o que de fato ocorreu, tendo-se promovido seis modestos cortes em seu nível entre janeiro de 2007 e setembro de 2007, com a Selic caindo de 13,25% para 11,25% (tabela IV.1), apesar da desaceleração mais rápida da inflação e do declinante risco-país como resultado da melhoria geral dos fundamentos econômicos, sob a perspectiva do mercado. Mas entre as questões mais preocupantes, nenhum cuidado foi dedi- cado ao com o Real continuando progressivamente a apreciar-se o dólar e a uma cesta de moedas, como mostra a tabela IV2 apesar das episódicas compras feitas pelo Banco Central no mercado, insuficientes para compensar o fruxo de capitais externos que ingressava no país, atraídos taxas de juros, pela tendência de valorização do Real (o que magnificava cupom cambial) e pelos aindaCelevados saldos que vi- nham sendo obtidos na balança comercial. De qualquer forma, com o preço das commodities em ascensão, mais que compensando a perda progressiva de competitividade do câmbio, e contando com reservas externas em rápida expansão (ver tabela IV.2), governo simplesmente continuou ignorando o problema que este movimento poderia acarretar/e em vários mo- mentos, o compromisso assumido de "manter cambio flutuante e deixar para o mercado definir o seu ponto de equilíbrio". portanto, lismo no país, transferindo essa tarefa para 0 futuro, além de ter ficado no meio do caminho na proposta de criação de um Imposto sobre o Valor Agregado (IVA), de base ampla, já que tanto o IPI como o ISS permaneceram nos campos de competência dos governos federal e municipais, respectivamente. Aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Congresso, no dia 02 de abril, com algumas pequenas modificações em relação ao texto original, a proposta seguiu para a Comissão Especial de Reforma Tributária, que teve como relator 0 deputado Sandro Mabel (PR-GO), cujo substitutivo só viria a ser aprovado no final de 2008. Pelas discordâncias e polêmicas que permaneceram em várias questões, principalmente no tocante às mudanças nas regras federativas, acordou-se com o adiamento de seu enca- minhamento para o plenário do Congresso para o ano de 2009, indicando para sua votação pelos problemas remanescentes e pelo calendário político, o que, se viesse a acontecer, representaria a segunda morte da reforma tributária do governo Para uma boa visão crítica de vários aspectos da proposta, consultar o trabalho elaborado pelo CESTI/IE/UNICAMP (2008) sobre o tema. 311nessa perspectiva, a certeza de que a externa era coisa do pas- sado e de que caberia apenas ao país, daqui para frente, definir seus rumos, Tabela IV.1 Evolução da meta da taxa Selic 2007-2008 Meta da taxa Ano Prazo de Vigência Selic 01/01 24/01 13,25 2007 25/01 07/03 13,00 08/03 18/04 12,75 2% 2007 19/04 06/06 12,50 07/06 18/07 12,00 19/07 05/09 11,50 Fim 06/09 31/12 11,25 01/01 16/04 11,25 abril 17/04 04/06 2008 05/06 23/07 12,25 24/07 10/09 13,00 ) 11/09 21/01/09 13,75 Fonte: Banco Central das taxas de juros fixadas pelo COPOM e evolução da taxa SELIV 2008. A rigor, portanto, a par da ligeira flexibilização realizada na política fiscal, com a pequena redução do superávit primário para acomodar, no orçamento maiores recursos para investimentos públicos no PAC, modelo econômico estruturado em 1999, continuou intacto: um modelo ortodoxo, para a atividade econômica, combinando câmbio baixo e ajuste fiscal frouxo, especialmente num contexto em que o governo, diante da melhora do quadro macroeconômico, passou a demonstrar maior disposição em aumentar os gastos públicos. Mantidas essas mesmas bases, as mudanças nele introduzi- das não teriam passado de um mero "remendo" no modelo de desenvolvimen- to que, implantado no Brasil desde a década de 1990, continuou mantendo o crescimento econômico dependente dos humores do comportamen- to da economia e das finanças internacionais E esses não tardaram a azedar, em meio a discursos ufanistas do governo que comparavam o Brasil atual "aos anos dourados do fim da década de 1950, do governo de Juscelino Kubitschek". 312Tabela IV.2 IPCA, Taxa de Câmbio Real e Reservas Internacionais Jan. 2007/dez.2008 Taxa de Taxa de Reservas Inflação: câmbio câmbio Internacionais Mês IPCA/ nominal efetiva real (*) (liquidez IBGE (venda) Média: internacional) (R$/US$) 2000=100 (US$ milhões) 2007 Janeiro. 0,44 2,12 77,80 91.086,1 Fevereiro 0,44 2,11 76,98 101.069,7 Março 0,37 2,05 77,91 109.538,3 Abril 0,25 2,03 77,21 121.830,4 Maio 0,28 1,92 76,22 136.419,0 Junho 0,28 1,92 74,70 147.101,0 Julho 0,24 1,87 73,96 155.909,5 Agosto 0,47 1,96 75,70 161.096,5 Setembro 0,18 1,83 73,43 162.962,2 Outubro 0,30 1,74 70,77 167.866,7 Novembro 0,38 1,78 70,93 177.059,6 Dezembro 0,74 1,77 70,77 180.333,6 Ano 4,46 1,77 2008 Janeiro 0,54 1,76 71,28 187.507,2 Fevereiro 0,49 1,68 70,66 192.901,8 Março 0,48 1,74 72,73 195.231,6 Abril 0,55 1,68 72,71 195.766,9 Maio 0,79 1,62 71,50 197.906,3 Junho 0,74 1,59 69,82 200.827,0 Julho 0,53 1,56 70,07 203.561,5 Agosto 0,28 1,63 64,44 205.116,1 Setembro 0,26 1,91 64,63 207.493,9 Outubro 0,45 2,11 71,81 203.178,7 Novembro 0,36 2,33 71,24 206.377,1 Dezembro 0,28 2,33 73,45 206.805,8 Ano 5,90 2,33 Fonte: IBGE, IPEADATA (em 22/01/2009), FGV e Banco Central. (*) Medida de competitividade das exportações brasileiras calculada pela média ponderada do índice de paridade do poder de compra dos 16 maiores parceiros comerciais do Brasil. A paridade poder de compra é definida pelo quociente entre a taxa de câmbio nominal unidade da moeda estrangeira) e a relação entre o Indice de Preço por Atacado (IPA) do país em caso e o Índice de Preços por Atacado Oferta Global (IPA OG/FGV) do Brasil. As ponderações utilizadas são as participações de cada parceiro no total das exportações brasileiras. 3132. Os SINAIS DA CRISE MUNDIAL E os DILEMAS INTERNOS DE DO MODELO 2.1. As dificuldades frente aos primeiros sinais da crise e à atuação do Banco Central Enquanto o cenário da economia mundial se manteve benigno e favo- rável para o Brasil no ano de 2007, permitindo ao país continuar colhen- do importantes frutos para fortalecer os fundamentos de sua economia, 1 pareceu ser possível, de fato, conciliar compromisso assumido com a 2 ortodoxia com o objetivo de de um crescimento mais firme e sustentado, apenas explorando a brecha propiciada pelo comportamento favorável das variáveis fiscais e externas. Se bem sucedida, a estratégia poderia representar a confirmação da tese de que, bem feito o "dever de ditado pela ortodoxia, seriam automaticamente abertas as portas para o ingresso do país no paraíso da prosperidade. Confiante de que esse cenário se manteria, o governo não hesitou, assim, em trilhar este caminho em que, sem descuidar-se de continuar "beijando a cruz da ortodoxia", poderia ousar mais na busca do cres- cimento, com a transferência de alguns frutos da política fiscal para a economia. Contando, portanto, com condições excepcionais no primeiro semestre de 2007 e com a trajetória de crescimento do RIB ainda mais robusta a alcançada em 2006 ignorou, inclusive, os problemas po- tenciais que a excessiva valorização do Real frente ao dólar colocava para as contas externas, mesmo porque compensada pela explosão dos preços 2 das commodities, e também as consequências que a progressiva expansão do consumo poderia representar para a inflação. Mesmo o início da crise mundial, oficialmente datada de agosto de 2007, não foi capaz, neste iní- cio, de o otimismo e confiança que o governo passou a depositar na sua estratégia de "encaixar" o crescimento dentro das regras do jogo estabelecidas pela ortodoxia. A crise mundial tornou-se clara, em agosto de 2007, quando os títulos de hipotecas do mercado subprime (de alto risco) começaram a se defrontar 314com elevados e crescentes níveis de inadimplência, derrubando os preços dos imóveis, e a impor perdas às instituições financeiras envolvidas nes- te mercado. Inicialmente restrita aos EUA, a securitização destes títulos seu uso como lastro de novos produtos financeiros e às carteiras de outras instituições e aos mercados de derivativos, opções e de swaps, espalhando-se pelo mundo financeiramente globaliza- do. Por isso, quando as instituições financeiras começaram a sofrer pre- juízos com o estouro da "bolha imobiliária" que se criara, a crise ganhou o mundo e indicou que poderiam ser grandes os prejuízos para o sistema financeiro e não pequenos os riscos de contaminação da economia real, com perspectivas de instalar se uma brutal recessão no mundo capitalista. Diante deste fato, 'pacotes de salvamento" do sistema financeiro e de reanimação do setor produtivo, bem ao estilo keynesiano, começaram a ser desovados pelos EUA, que também deu início a segui- dos das taxas de juros da de redesconto bancário, depois pelos bancos centrais dos países desenvolvidos e por diversos países da Europa, com o objetivo de impedir uma "crise sistêmica" e reverter a recessão global anunciada. Este processo, inicialmente circunscrito, portanto, à economia norte- americana e a algumas instituições europeias que haviam se envolvido com os negócios de papéis "tóxicos" hipotecários do subprime, agravou-se até o final do ano é explodiu, em 2008, conduzindo a economia mundial para uma crise financeira e econômica que só encontraria precedentes na grande depressão da década de 1930. De qualquer forma, ao emitir, de forma mais visível seus primeiros_sinais, começou, já no segundo semestre de 2007, a reverter os ventos favoráveis que vinham sendo soprados para o Brasil, ao a economia mundial numa rota de e de provável recessão. Essa seria a primeira vez, em todo seu mandato, que o governo Lula teria a oportunidade para ver testada, na prática, a política econômica, que conside- rava não somente diante de uma crise externa de grande profundidade Ao invés, entretanto, de começar a dedicar-lhe atenção, simplesmente tratando-a como um problema exclusivamente dos 315EUA, diante do bom momento vivido pela economia brasileira. Tabela IV.3 Balança comercial e saldo em conta-corrente (em US$ milhões) Jan. 2007/ dez. 2008 Balança Comercial Transações Correntes % do PIB Período Exportações Importações Saldo Saldo (últimos 12 meses) 2007 Janeiro 10.984,0 8.468,4 2.515,5 369,58 1,23 Fevereiro 10.129,0 7.230,3 2.899,2 377,63 1,19 Março 12.889,0 9.584,6 3.304,4 232,52 1,07 Abril 12.446,0 8.262,4 4.183,8 1.798,64 1,19 Maio 13.647,0 9.793,0 3.854,3 -160,32 1,13 Junho 13.118,0 9.298,6 3.819,5 542,28 1,10 Julho 14.119,0 10.775,5 3.334,0 -745,89 0,77 Agosto 15.100,0 11.558,1 3.541,9 1.323,00 Setembro 14.166,0 10.694,2 3.471,5 548,11 Outubro 12.336,1 3.431,7 -147,93 0,55 15.768,0 0,40 Novembro 14.051,0 12.028,5 2.022,8 -1.349,64 0,19 Dezembro 14.231,0 10.592,3 3.638,5 -498,10 0,12 Ano 160.649,1 120.620,9 40.028,2 1.550,72 0,12 2008 Janeiro 13.277,0 12.354,4 922,6 -4.028,31 -0,15 Fevereiro 12.800,0 11.950,4 849,6 -0,32 Março 12.613,0 11.618,4 994,6 -4.344,84 -0,64 Abril 14.058,0 12.320,7 1.737,3 -3.083,00 .0,97 Maio 19.303,0 15.233,5 4.069,5 -788,73 -1,00 Junho 20.453,0 15.875,7 2.718,3 -2.785,73 -1,22 Julho 20.451,0 17.133,7 3.317,3 -2.168,10 -1,29 Agosto 19.747,0 17.472,2 2.274,8 -1.098,98 -1,44 Setembro 20.017,0 17.262,9 2.754,1 -2.767,06 -1,63 Outubro 18.512,0 17.305,1 1,206,9 -1.454,60 -1,69 Novembro 14.753,0 13.140,0 1.613,0 -976,37 -1,65 Dezembro 13.818,0 11.517,0 2.301,0 -2.921,97 -1,78 Até junho 90.645,0 79.353,1 11.291,9 -16.912,40 -1,22 Ano 197.943,0 173.184,0 24.759,0 -1,78 Fonte: Banco Central/Ipeadata (acesso em 27/01/2009) Isso fica claro na forma como se comportaram várias das autoridades 316governamentais ao comentarem os efeitos e consequências que a crise poderia acarretar para o Brasil: desde o "não venha o Bush jogar a crise americana no colo do Brasil" do presidente Lula, ao "estamos blindados contra a crise, com a montanha de reservas externas que possuímos", de Meirelles e Mantega, ou ainda à tese defendida de "que o Brasil conseguira se descolar dos EUA", sem riscos de, portanto, ser afetado pela crise, não foram poucas as frases humoradas, sarcásticas e levianas que desfilaram pela imprensa sobre os riscos que representava a crise para o país. Apesar dessa aparente confiança, e diante das incertezas sobre os desdobramentos da crise, o Banco Central interrompeu, a partir de 06 de setembro de 2007, desfazendo aparentemente sintonia que vinha mantendo com o Ministério da Fazenda, o processo de redução da taxa SELIC, mantendo-a fixa em 11,25% até 17 de abril de 2008 pagando, em termos reais, os juros mais altos do planeta. Nessas condições, inten- sificaram-se ainda mais os de capitais para o Brasil em busca de maior rentabilidade, os quais, reforçados com os ainda expressivos saldos na balança fizeram com que as reservas externas atingissem o nível de US$ 180 em dezembro de 2007. Em contrapartida, dada essa abundância de dólares, o que aumentava sobremaneira o custo fiscal, o Real continuou em franca trajetória de o dólar e a uma cesta de moedas externas, como mostra tabela IV2 forma, no embalo do ritmo do crescimento anterior, com o superaquecido pela expansão do (emprego, da\renda e dd cré- dito, que crescia a taxas espetaculares, bem superiores às do PIB, o Brasil 200# 2007 conseguiu fechar o ano com uma expansão econômica de 6,1% nível muito elevado para um país que avançava sem corrigir seus problemas, inclusive com o investimento privado em reduzidos patamares, ainda que em trajetória de crescimento. Com as pressões do consumo e a continui- dade da aceleração dos preços das, commodities no internacional, pressionados também pela migração de recursos dos fundos de inves- timentos para os mercados agrico as futuros, a inflação interna voltou a mostrar força, atingindo 4,46% (contra 3,14% em 2006), justificando 2007 2006 2007 COM 31704 o conservadorismo do BC na manutenção do nível da taxa SELIC em 11,25%. No campo fiscal, ainda se conseguiu colher uma nova redução DLSP da relação dívida/PIB, que caiu de 47,3%, em 2006, para 45,5% neste PIB ano, beneficiada principalmente pela maior expressividade do crescimen- to econômico. Mas, de outro lado, a progressiva valorização do Real começava a mi- nar a bonança das contas externas, especialmente num quadro de desace- leração da economia mundial: no ano, o saldo da balança comercial para US$ 40 bilhões (contra US$ 46 bilhões em 2006) e o superávit em conta-corrente viu-se reduzido a US$ 1,55 bilhão (0,12% do PIB), distan- te dos US$ 13,5 bilhões registrados em 2005 e 2006. Embora saudado como benéfico para o país, devido ao maior vigor das importações favorecidas pelo câmbio este movimento começava a sinalizar que, mantida a trajetória de apreciação do Real, futu- ros nas contas externas se anunciavam, podendo comprometer uma das maiores conquistas do governo Lula, que fora a drástica redução da vul- nerabilidade externa da economia brasileira. Mas com reservas externas próximas de US$ 200 bilhões, intensos fluxos de capitais para o país (em 2007, o fluxo cambial atingiu US$ 88 bilhões), superávits es- petaculares na balança comercial, alertas que vinham sendo feitos por várias analistas sobre a situação do cambio continuaram, como no reinado de FHC a ser tratados apenas com ironias No entanto, os germes da crise global demarrada em agosto do ano anterior estavam apenas no estágio inicial de EVA enfraquecimento da economia norte-americana, acompanhado da rápida redução dos juro pelo FED, para mitigar a situação, acentuou a fraqueza do dólar e alimenton um movimento de maior alta dos preços das commodities em geral petróleo, metálicas, agrícolas nadas pela demanda da China e da Índia e pelà migração de recursos dos fundos de investimentos para os mercados futuros desses produtos. Como consequência, à que se avizinhava somou-se a inflação mundial de commodities, praticamente obrigando os EUA a inter- 318romper processo de redução das taxas de juros e os países europeus a promoverem elevações nas suas, alimentando forças da econômica. Para os países exportadores de commodities, este movimento seria alta- mente positivo do ponto de vista das contas externas, mas como os demais, passaram a se defrontar também com pressões inflacionárias, obrigando-os a acompanhar o movimento geral de elevação dos juros: no BC Brasil, cujo consumo se encontrava fortemente aquecido, devido a expan- a são do ano anterior e de sua continuidade no primeiro trimestre de 2008, 2008 o Banco Central deu início, em abril, a uma nova rodada de elevação da SELIC, aumentando-a de 11,25% para 11,75%, para 12,25% em e para 13% a de 24 de julho, com o propósito de garantir a con- 2008 vergência para centro da meta estabelecida em A essa nova puxada dos juros, que acentuaria a valorização do Real, 2008 se somariam outros fatores para aprofundar essa trajetória: em fevereiro, o país se credor líquido do resto do mundo, significando que a diferença entre a externa e os créditos brasileiros no exterior (re- oredito servas externas e aplicações de empresas em bancos no sistema financeiro internacional) havia se tornado positiva, registrando um saldo, à época, de US$ 4 No final de abril como prêmio pelo desempenho ma croeconômico que vinha apresentando, recebeu o selo de grau de mento (investment grade) da agência Standard & Poor's, status em tese, abriria ainda mais a para receber maiores investimentos do res- to do mundo, principalmente de fundos institucionais, cujas aplicações só podem ser realizadas em países que apresentam essas condições. E, no final de maio este mesmo status lhe seria atribuído pela agência Fitch, abril Standard Provis /2003 Fitch 3 impediu que o passivo externo líquido brasileiro continuasse em crescimento, devi- do dos investimentos estrangeiros em portfólio, de ações brasileiras e à de títulos públicos, que, em conjunto, expandiram-se 71%, e também aumento do investimento direto (crescimento de 62%), movimento explicado pela melhoria dos fundamen- tos da economia brasileira. De acordo com o Banco Central, o passivo externo líquido que re- presentava, em 2006, 36% do PIB, saltou para 44% em 2007, o equivalente a US$ 574 bilhões. 319Fitch 2003 de reforçando a sua condição de país confiável para o investidor estrangeiro. Comemorado com grande entusiasmo pelo governo e visto como o reconhecimento da competência da política econômica implementada, tais eventos escondiam, se gerassem os efeitos esperados, uma armadilha para o país: a par do alto dusto fiscal que representava, a intensificação do flu- XO de capitais tenderia a acelerar a trajetória de maior valorização do Real, com grandes prejuízos para as contas da balança comercial e de transações correntes. De fato, comparada a uma cesta de moedas externas, a taxa de câmbio efetiva real já conhecera uma apreciação de 30% em junho de 2008 em relação ao ano de enquanto a taxa nominal, cotada em dólar, se aproximava da média de 1999, oscilando entre R$ 1,55/1,60. Iniciada em 2007, a deterioração das contas externas se acentuaria em 2008, tornando preocupantes seus resultados para que o país continuasse trilhando o caminho do crescimento no ritmo do ano anterior. De fato, como mostra a tabela IV.3, o saldo da balança comercial conheceria, até ju- nho, uma redução de 45%, e, mais preocupante, o conta-corrente atingiria US$ 17,0 bilhões, com as projeções oficiais indicando que poderia superar US$ 25 bilhões no ano, enquanto para 2009, as estimativas situavam esse em US$ 34 bilhões. A combinação de pressões inflacionárias com deterioração das contas ex- ternas, mesmo com reservas no nível de US$ 200 criou um dilema 34.0 para a política econômica: para deter o avanço da apreciação do Real e reverter a situação de progressiva deterioração das contas externas, a melhor alternati- 2009 va seria a de dar prosseguimento (à redução dos juros, mesmo porque, em ter- dilem mos reais, estes se encontravam entre mais altos do mundo. As pressões in- 4 Das três agências de risco mais importantes, a Moody's não chegou a conceder este status por ver, Brasil, ainda com alta vulnerabilidade no campo fiscal, especialmente no que diz respeito dos encargos da dívida, a sua estrutura temporal e dos gastos Por outro lado, essa pela Standard & Poor's e pela Fitch apenas sancionou a avaliação que o mercado já fazia da economia brasileira, traduzida no risco mais baixo do país (em torno de 200 pontos-base). deste status era o de que os investimentos diretos na produção poderiam aumentar, reforçando outros determinantes que as empresas levam em conta para aplicar recursos no país. lado ruim, de que o câmbio poderia se valorizar ainda mais, aumentando os prejuízos para as 320 + Comdilemo Conte de LD da flacionárias obstavam, contudo, este movimento, pois poderia dar ainda mais forças à demanda interna (consumo das famílias, do governo e investimentos) e acentuar o ritmo de fuga da taxa de inflação do centro da meta estabelecida. Por isso, o Banco Central, cujo papel restringe-se, de acordo com seu presi- dente, Henrique Meirelles, a "cuidar da inflação", conseguiu fazer prevalecer seu conservadorismo, não importando suas consequências para o câmbio, as contas públicas e para a própria atividade produtiva, e retornou à trajetória de a de elevação dos juros, apesar de internas encontradas entre membros do próprio governo sobre essa questão, especialmente por parte de quadros pertencentes ao Ministério da Fazenda e até mesmo do presidente Lula, preo cupado em assegurar condições para a continuidade do crescimento. 2.2. Ensaios de heterodoxia para neutralizar a ação do Banco Central e a leniência com os gastos públicos Neste contexto, com o objetivo de segurar ou atenuar 8 movimento altista dos juros e minorar os problemas do câmbio, a ala dita mais desenvolvimen- tista do governo (Mantega, Paulo Bernardo, Dilma Rousseff, por exemplo) passou a propor e a adotar uma série de medidas nessa direção. Em ? 1 foram anunciadas três medidas importantes para estancar este processo. brança de 1,5% do IOF sobre os ganhos do capital estrangeiro em aplicações de renda fixa, reduzindo sua a isenção das operações de câmbio dos do IOF sobre elas a autorização para a perma- nência no exterior das receitas para reduzir fluxo de dólares 354 para o ao foram suficientes para deter a entrada de capitais para o país e nem para reverter a trajetória de apreciação do câmbio. Na mesma linha, entre marco e maio foi divulgada a proposta de uma nova política industrial (chamada o PAC da indústria), cujas principais medidas foram encaminhadas para apreciação do Congresso Nacional na forma da Medida Provisória n° 428, de 12/05/2008, criando-se o que foi RDP chamado de Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP), o que re- forçou a percepção de que uma efetiva reorientação da política econômica encontrava em curso. PAC do (PDD) 321 PAC 2007Mclos PND Comparado pelo presidente Lula ao Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-1960) e ao II Plano Nacional de Desenvolvimento maio 2008 (II PND), do governo Ernesto Geisel (1974-1978) o PDP, na esteira do PAC, colocou, como principais apoiar le estimular as exporta- PNP PDP 2 ções e incentivar o processo de substituição de importações de setores dependentes de equipamentos importados (saúde, serviços de tecnologia e informação, visando minimizar os impactos da valo- rização Real afastar os riscos de retorno da vulnerabilidade externa, além de aumentar a capacidade da produção nacional, ampliando a taxa de investimento fixo da economia, de forma a garantir um crescimento sustentado de 5% ao ano. 2008 (nova Para tanto, o PDP elencou quatro macrometas para serem atingidas até 2010: a) aumento da taxa de investimentos de 17,6% em 2007 para 21% do PIB; b) aumento dos gastos em pesquisas e inovação de 0,51% (2006) para 0,65% do PIB; c) aumento de 1,18%, em 2007, para 1,25% da participação das exportações brasileiras no mercado internacional; e d) aumento de 10% no número de micro e pequenas empresas exportadoras. Para viabilizar sua contemplou-se a concessão de deso nerações fiscais às empresas alvo programa no valor de R$ 21,4 bilhões (média de R$ 5 e financiamentos do BNDES no montante de R$ 210,4 bilhões até 2010, com redução da taxa de juro (a TJLP) cobrada 28.4 pelo banco. Este esquema completava-se com a promessa do governo de 243.8 assegurar, para os setores em expansão (como a indústria naval, 6 por exemplo), por meio inclusive das empresas estatais, gompras equivalen- tes a R$ 12 Entre os setores contemplados no seis foram considerados como estratégicos para os objetivos pretendidos (saúde, energia, tecnologias de informação e comunicação, defesa, nanotecnologia biotecnologia); outros seis considerados mais relevantes para consolidação de suas estruturas e mercados (aeronáutica, mineração, siderurgia, papel e celulose, petroquími- ca e carnes); e os demais, necessitando apoio para o aumento de competi- tividade: automotivo, plásticos, agroindústria, indústria naval e cabotagem, 32219 Politico MP do Bem 2003 29 11 PDP 2008 (maio) calçados e artefatos, bens de capital (sob encomenda e seriados), madeira e móyeis, entre outros. O PDP foi orientado, portanto, para: a) contrapor-se aos prejuízos provocados pela excessiva valorização do Real, fortalecendo o setor ex- portador, principalmente por meio da ampliação de linhas de financia- entra mento e pela desoneração de impostos, e ainda pela promoção de uma onda substitutiva de importações de setores com grande dependência de insumos e equipamentos estrangeiros; expandir a capacidade da pro- dução nacional, com o aumento dos investimentos privados, reduzindo o descompasso entre a oferta e a demanda e fortalecendo o mercado interno c) em sintonia com o PAC, assegurar a expansão da infraestrutura econômica requerida para viabilizá-lo. MP do 2003 Embora mais abrangente do que a primeira proposta de política indus- trial do governo Lula, esboçada em 2003, que acabou se reduzindo à MP do Bem, que beneficiou com cortes de impostos alguns setores como o da construção civil, apesar de saudada com algum entusiasmo por algumas lideranças empresariais, PDP não passou incólume a diversas críticas. 10 A mais importante a de que a política anunciada não se encontrava articulada com a politica de estabilização, sob o comando do Banco Central, PDP e que, tal como formulada não seria suficiente para compensar a valoriza- ção excessiva do Real nem as altas taxas de juros praticadas, na ausência des- sa coordenação. Sem isso, a resposta do setor privado ao aumento esperado do investimento poderia frustrar seu objetivo. 2:- A é que, embora reconhecendo avanços na proposta com a inclusão de setores prejudicados com a valorização do Real (indústrias têxtil, mobiliário, micro e pequenas empresas etc.), criação de um seguro de crédito para as exportações destes setores e de um fundo de pesquisas e inovação não enxergaram mais do que um ajunta- mento e prorrogação de medidas fiscais já existentes contidas na MP do Bem de 2003 - casos de desonerações fiscais e da depreciação acelerada dos bens de capital Credução do prazo de aproveitamento do crédito do PIS/COFINS na compra de equipamentos -, com a extensão destes be- 323FSB 350 nefícios para outros setores, acompanhada de uma pequena redução nos juros do BNDES para viabilizá-lo. De qualquer forma, para um país carente de políticas de longo prazo des- de a década de 1980, depois varridas, de vez, como instrumentos de interven- ção do Estado pela onda neoliberal a partir da década de 1990, os projetos do PAC e do PDP surgiram como fortes indícios de que uma nova etapa para a política econômica. Para faltava, contudo, los com a política macroeconômica de estabilização, cujo comando se encontrava em outras mãos. Este seria o verdadeiro teste para provar que, de fato, caminhava-se em direção à construção de um novo modelo. Entre outras sugestões, que foram anunciadas para essa finalidade, a que também ganhou importante espaço na imprensa foi a de criação de um Fundo Soberano do país (FSB) que seria alimentado com do go- verno correspondentes a 0,5% do PIB, sendo o superávit elevado neste caso, de 3,8% para 4,3% do Na lógica da proposta, isso contribuiria para reduzir a forca da demanda interna, daria melhores condições para o Banco Central intervir no mercado, comprando maior volume de e atenuando a do Real, com os recursos do Fundo sendo desti- nados para o financiamento de empresas brasileiras no exterior, evitando, assim, sua remonetização. A proposta de criação do FSB, que originalmente surgiu com a sugestão apresentada pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo, de aumento do supe- rávit primário para 5% do PIB, visando sofrear o aquecimento da deman- da agregada, e que fo1 encampada pelos ministros do Planejamento, Paulo Bernardo, e da Fazenda, Guido Mantega, teve como principal motivação dar argumentos consistentes a esta ala da política tanto para se 1 contrapor às ameaças que vinham sendo feitas pelo Banco Central de dar 5 A proposta de criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB) foi encaminhada à Câmara dos Deputados, no início de julho, sob a forma do projeto de lei n° 3.674, de 2008, com previsão de aporte inicial de recursos de 14,2 bilhões (0,5% do PIB), extraídos do orçamento da União e aprovado pelo Congresso no dia 18 de dezembro, mas sem a garantia, no Orçamento de 2009, dos 14,2 bilhões com que esperava contar para suas operações. 324FFC FE 2 continuidade à elevação das taxas de juros,como para reverter a supervalo- rização da moeda nacional. Na verdade, a não ser ela-dimensão de suas reservas externas (cerca de US$ 200 bilhões) o Brasil não apresentava as condições que justificaram Funds criação outros países, como, por exemple nos Emirados Árabes Unidos, na Arábia Saudita, na China e Rússia: superávits em transações cor- rentes e superávit fiscal. Em 2008, o país vira reverter-se, devido ao câmbio e à desaceleração da economia mundial, sua situação privilegiada de ostentar 2008 superávits em desde 2003 e já registrava, até junho, um défi- cit de US$ 17 bilhões nessa Além disso, apesar de todo esforço fiscal que vinha sendo realizado, o déficit fiscal conceito nominal) andava por volta de 2-3% do PIB. Por isso, não foram poucas as críticas endereçadas à proposta: pelo alto custo fiscal que representaria a medida (compra de dólares no mercado FSB e empréstimos a empresas brasileiras no exterior, cobrando taxa de juros internacionais, de cerca de 3%), considerava-se mais sensato utilizar o su- perávit excedente para o abatimento da dívida pública, com o que se redu- ziria seus encargos, criando condições para a redução das taxas de juros. Na mesma linha, a proposta de formação de um Fundo de Estabilização Cambial para ser usado com o objetivo de conter a volatilidade do câmbio e a supervalorização da moeda nacional, que era um de seus principais obje- tivos, além, obviamente, de se contrapor à política conservadora do Banco Central de elevação dos juros. FSB+FEC que revelavam recuperação da preocupação o Essas a com crescimento explicitado no PAC que, ao mesmo se apre- sentar, se bem sucedidas, como contraponto ao do Banco Central apegado ao mantra de "estabilizar", comecaram a ver "desafinar", ao longo de 2008, a própria política fiscal considerada indispensável para tornar convincente um caminho alternativo ao defendido pela autoridade monetária. Se no primeiro semestre de 2008, o governo logrou alcançar al- gum êxito na gestão de suas contas, como prometido no PAC, restringindo os gastos correntes, as perspectivas para o segundo semestre, e mais ainda FSB + FEC 325 alternpara 2009, já não se apresentavam para à política fiscal, dar a sua contribuição para conter o rigor do Banco Central no manejo dos juros para assegurar a estabilidade monetária. De fato, a Carta do IBRE, de agosto de 2008, saudaria o início do pro- cesso de contenção dos gastos com pessoal pelo governo federal no pr- meiro semestre de 2008, acompanhado de maior crescimento dos gastos ?? com investimentos pela União, em cumprimento às promessas realizadas no lançamento do PAC: o aumento das despesas com salários em relação ao primeiro semestre de 2007 foi, em termos reais, de 4,5%, o gasto com/a Previdência Social de 2,9%, e de 4,4% com os gastos primários totais, taxas que indicavam ser inferiores à da expansão do PIB no mesmo período. De outro lado, os investimentos do governo federal conheceriam um cresci- cmento real de 40,3% também no primeiro semestre de 2008 comparado ao de 2007, coerente com a proposta do de abrir espaço no orçamento para garantir maiores recursos para a infraestrutura o que esta Evide ria sinalizando, ainda de acordo com a Carta do IBRE "um sinal animador de que o longo período de expansão da despesa pública acima do PIB, ini do ciado na década de 1990, pode estar chegando ao fim" (p. Mas no dia 24 de agosto de 2008, o jornal de S. Paulo (p. B5) se encarregaria de começar a desfazer esse sonsiderando a aprova- ção de dois pacotes do governo de reajustes salariais generalizados para o funcionalismo público, beneficiando 1,75 milhão de servidores dos três po- deres, projetou os gastos com pessoal em R$ 133,3 bilhões (contra R$116,4 bilhões em 2007) e um aumento de sua participação no PIB de 4,55% para 4,6% (projetava-se inicialmente 4,4%) Mais grave ainda, para 2009, de acor- do com a Carta do IBRE é que "a regra acordada entre governo e as centrais sindicais, de elevação do mínimo pelo IPC mais mento do PIB com dois anos de defasagem, sinaliza uma forte elevação do gasto público (neste ano), que pode abortar a saudável tendência das contas públicas na primeira metade de 2008". Os espaços para os investimentos prometidos no PAC estariam, assim, sendo progressivamente restringidos com o maior das despesas correntes no orçamento, assim como o 326pelo politic gover tomo perspectivo a crescimento. "espírito do crescimento", como apontou Delfim Netto em artigo de con- e as propostas e argumentos construídos para se opor à ação do Banco Central. Antes que internamente fosse encontrada uma adequada solu- ção para conciliar objetivo do crescimento com a estabilidade objetivo que começou a ser prejudicado pela "leniência" com a politica fis- cal, e exatamente quando o Brasil se preparava para colher os frutos por seu bom comportamento no cumprimento das regras prescritas pelo pen- samento ortodoxo, mas ainda procurando respostas para os seus dilemas, do "avo da serpente", até então apenas relativamente "adormecido" e ignora- do pelas autoridades governamentais, se rompeu com a quebra do Lehman 2008 Brothers, no dia 15 de setembro; derrubando, em cadeia, a partir daí, outras poderosas instituições financeiras globais e dando início à contaminação da 15/09/08 economia real em todo o mundo capitalista. Se ainda havia alguma dúvida de que a crise não passava de um problema exclusivamente da economia norte-americana e de outros países desenvolvidos, e a certeza de que as eco- nomias emergentes se encontravam blindadas contras os seus efeitos, in- cluindo o Brasil, essas se desfizeram com a gravidade e velocidade com que aquela se apresentou, não restando alternativa às autoridades econômicas de finalmente reconhecer sua existência e à política econômica de redirecionar seu rumo para mitigar seus efeitos sobre o país. 3.A CRISE MUNDIAL E SEUS IMPACTOS NO 3.1. A crise financeira e econômica mundial: um breve relato Para resumir, em pouco espaço, as origens, a natureza e as consequ- ências da crise mundial, que se manifestou mais claramente nos EUA, em agosto de 2007, espalhando-se rapidamente para o resto do mundo, numa no mudo am 2008 - do 6 Netto, Delfim A nova conjuntura. São Paulo, Folha de S. Paulo, 03/09/2008, p.A2. Lehanan 7 Uma análise detalhada do dia a dia da crise se encontra em Gontijo e Oliveira (2009). 3271% de 2003 JUL ate 2004 velocidade de cruzeiro, é necessário restringir o relato de seu surgimento e evolução à cronologia dos principais acontecimentos. Não poucos analistas identificam o início da formação da "bolha imobi- liária" no surgimento do crédito farto, fácil e barato patrocinado pela política monetária do FED, após o estouro da bolha da internet, em 2000, que o levou a reduzir, em poucos meses, a taxa básica de juros de 6,5% para 3,5%. Depois 1% 06/20 dos ataques terroristas nos EUA ao WTC, em 11 de setembro de 2001, taxa continuou em queda, com o objetivo de reanimar a economia, até atingir 1% 65% julho de 2003, nível em que seria mantida até maio de 2004 (Soros, 2008). Foi este crédito farto e barato, com juros negativos, que deu origem à 1,0% bolha imobiliária ao ser estendido, em boa medida, ao financiamento de imóveis residenciais, provocando um boom de novas construções, e também ao financiamento de automóveis, cartões de crédito e outras modalidades 2004 de consumo. Devido à pressão da demanda por imóveis, o valor de mercado das casas residenciais cresceu mais de 50% e isso alimentou o mercado de refinanciamento de hipotecas, seja para o consumidor adquirir um segundo imóvel (ou um terceiro) ou simplesmente para usar o dinheiro obtido e aumentar e/ou melhorar seus níveis de consumo. A condição para a "bo- lha" prosseguir e continuar sustentando o "paraíso do consumo" que os americanos desfrutavam, era a de que os valores dos imóveis continuassem 3 ascendentes. mas, ao contrário, seus preços, em algum momento, embica- ram para baixo e castelo desmoronou, deflagrando a crise. Pelo menos três causas podem ser apontadas para explicar a inflexão ocorrida: a) com o crédito abundante e barato, os critérios adotados pelas do instituições financeiras para a concessão de empréstimos foram relaxados e a eles começaram a ter acesso pessoas com histórico duvidoso de crédito (subprime), também conhecidos como Ninjas (tomadores de empréstimos sem renda, emprego ou bens) b) dos financiamentos passou a ser fei- ta a taxas reajustáveis, significando que na eventualidade de um aumento da taxa de juros, as prestações acompanhariam este aumento; c) ignorando os 8 Em inglês, Ninja representa a abreviatura de "No income, jobs ou assets". 328 Prime: 6% (2010) 1% (06/2003) 5,25% (06/2006) /2008Sub subprime Param prime) riscos inerentes aos empréstimos Ninja, as instituições que venderam estes papéis, os mesclaram com os créditos prime (de boa qualidade), securitizan- do-os e vendendo-os ao mercado como-Obrigações de Dívidas Garantidas (CDOs, em inglês), classificadas agências de rating como isentas de ris- CO. Com o mercado financeiro sendo inundado por estes papéis, com o aval dessas agências, o poder de multiplicação do sistema financeiro, via alavan- cagem, e sua propagação principalmente para os países desenvolvidos, deu origem a uma riqueza financeira (virtual) que se sustentava, em boa medida, nos empréstimos Quando faltaram as condições que mantinham ? guido este edifício da especulação, este desmoronou,carregando consigo os agentes envolvidos nessa aventura. As bases deste edifício começaram a ser minadas quando o novo pre- % sidente do FED, Ben Bernanke, pôs em movimento, diante da aceleração da inflação, um ciclo de alta da taxa básica de juros, aumentando-a de 1% alf em 2004 para 5,25% em julho de 2006, o que tornou muitas dívidas im- pagáveis, sobretudo as da faixa do crédito subprime e as de contrato com taxas de juros reajustáveis. Com o surgimento e aumento da inadimplência e o encarecimento do crédito (devido à elevação dos juros pelo FED), a demanda do setor imobiliário retraiu, derrubando o preço dos imóveis, que representavam a garantia dos títulos securitizados que compunham a cartei- ra de muitas instituições financeiras, e fechou a porta que vinha garantindo a multiplicação (e os fabulosos ganhos) dessa riqueza virtual. Com isso, foram inevitáveis as baixas que passaram a ocorrer nas ins- tituições envolvidas com os negócios do em março de 2007, a New Century Financial, uma das maiores fornecedoras de crédito subprime century dos EUA, teve suspensos os negócios com suas ações na bolsa de valores, devido à queda de 89% de seu valor em um único mês, tendo sido obrigada, em abril, a pedir proteção contra os credores pela Lei de Falência america- na, apos comprar bilhões de dólares em empréstimos perdidos, em 16 de março, a Accredited Home Lenders Holding anunciaria a venda de US$ Home 2,7 bilhões em emprestimos com grande desconto para poder continuar Venders operando; em 15 de junho, o Bear Stearns anunciaria problemas em dois century Financial 329 Home Lenders Bencan Home wide Financial grandes fundos de hedge com grande exposição a empréstimos imobiliários de alto risco. Foram situáções vistas, no entanto, como fenômenos isolados pelo próprio presidente do FED, Ben Bernanke, que estimaria, ainda em 7 2007 julho, em apenas US$ 100 bilhões as perdas do subprime (Soros, 2008:20). 2007 Só no começo de agosto; a gravidade, embora não a dimensão da crise, agosto 2007 começou a se manifestar e a ser mais bem percebida: no dia 6, American Home Mortgage, uma das maiores empresas de financiamento imobili- ário e de hipotecas dos EUA pediu concordata, após demitir a de seus funcionários; no 9, o BNP Paribas, da França, suspendeu a retirada de recursos pelos de três fundos por ele geridos, no valor de 2 bilhões de euros, alegando não conhecer o valor real de seus ativos diante da situação do mercado; no dia 16 a Countrywide Financial maior originadora de hipotecas dos EUA, sacou integralmente sua linha de crédito de US$ 11,5 bilhões; e em 13 de setembro, o banco de crédito 13 imobiliário britânico, o Northern Rock, conheceu uma corrida bancária, após notícias veiculadas pelo público de que caminhava para a insolvência (Soros, 2008:12-13). 2007 O que era visto como um "fenômeno isolado" até junho, transformou- se, em apenas dois meses, numa crise financeira de grandes exigindo a intervenção dos bancos centrais para superá-la: até o final db ano, o FED promoveria três cortes na taxa básica de juros (em setembro, outubro e dezembro), reduzindo-a de 5,25% para 4,25%; ainda em agos- to, o Banco Central Europeu (BCE), o do Japão e o FED injetariam, no mercado, mais de US$ 350 bilhões de capital monetário e de empréstimos para resolver o que vinha sendo entendido como uma "crise de liquidez" do sistema e reverter a onda de pessimismo que vinha tomando conta dos investidores, com a queda contínua das cotações das ações nas bolsas de valores. Em conjunto, essas medidas acalmaram os mercados, mas o fato é que a crise apenas fazia, naquele momento, uma espécie de "parada técnica" para retornar com toda força em 2008. O ano de 2008 começaria com uma safra de más notícias: à divulga- ção de balanços negativos, registrando vultosos prejuízos de instituições 330 emdoo EUA no Fr - Froudo Liquides financeiras norte-americanas de grande porte, como o Citibank (US$ 9,83 bilhões), o Merrill Lynch (US$ 8,7 bilhões) e o JPMorgan (US$ 1,3 bi- lhão), seguiu-se a divulgação da fraude bilionária de US$ 7,2 bilhões no banco francês, o Societé Générale, provocando pânico nas finanças mun- diais e quedas vertiginosas nas bolsas de valores do mundo. Era a evidên- cia de enfraquecimento das duas pernas responsáveis pela sustentação do sistema financeiro - a liquidez e a confiança do investidor -, o que levou o FED a fazer dois novos cortes na taxa básica de juros, reduzindo-a de 4,25% para 3% ainda em janeiro. 2008 2008 Em março, entretanto, a situação voltou a piorar: próximo da falência, o Bear Stearns, o quinto maior banco de investimento dos foi com- prado, a preço de liquidação, pelo JPMorgan, com a ajuda do FED. Com sua queda, dava-se início ao desabamento de outras instituições financeiras ícones do capitalismo norte-americano, exigindo novos cortes dos juros pelo FED em março redução para 2,25%) e abril (para 2%). Seguindo o mesmo caminho do Bear, a IndyMac, um dos maiores bancos do país, só foi salva pela intervenção do Federal Deposit Insurance Corporation A Fannie Mae e a Freddie Mac, gigantes do ramo imobiliário, tiveram de receber o socorro de US$ 100 cada uma do Tesouro americano para manterem suas atividades. Enquanto os cofres do governo americano se mantiveram abertos para salvar instituições financeiras da bancarrota, o sistema vinha conseguindo, ainda que tropegamente, manter-se em pé. Mas quando o cofre se e o governo, juntamente com outras não se dispôs a salvar um dos gigantes do mundo dos negócios, o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA, faltou oxigênio para os que ainda resis- tiam e a sua queda, em efeito dominó, foi rápida e vertiginosa, espalhando- se por toda a Europa e transformando-se em crise sistêmica. Se, como afirma Soros (2008:12), "o(início da atual crise financeira ser oficialmente fixado em agosto de 2007", , foi com a queda do Lehman, no dia 15 de setembro de 2008, que o sistema começou a entrar em colapso) Não apenas por ser um dos gigantes do mundo financeiro do + WTC 6,5% 315% 331 315% 2004 (boths decom sugerindo que outros bancos poderiam se encontrar nas mesmas condições, acirrando a desconfiança do investidor, mas porque, com seu fechamento, o mercado de commercial papers, papéis dos quais dependiam os demais de investimentos para financiar suas operações, também entrou em colapso, impulsionando a aversão ao risco e provocando o congelamento do crédito, oxigênio da atividade produtiva e do consumo. Daí, para as demais institui- ções financeiras, que ainda resistiam à crise, começarem a ir à lona, foi ques- tão de dias, com o Merrill Lynch sendo comprado na mesma ocasião pelo Bank of América por cerca de US$ 50 bilhões, o equivalente a um terço de seu valor de mercado. ??!! Com a aversão ao risco e a desconfiança crescente dos próprios bancos em seus parceiros, o crédito praticamente congelado, dada a desconfiança que se instalou no sistema, nem mesmo as bilionárias injeções de liquidez que passaram a ser realizadas pelos bancos centrais dos países desenvolvi- dos foram capazes de restaurar a confiança no mercado, destravar os canais de crédito e proteger a economia real dos efeitos da crise financeira: nessa onda, outros bancos dos EUA (Washington Mutual, Wachovia) e da Euro- (Halifax Bank of Scotland - HBOS -, inglês; FORTIS, Bradford & Bringley, do Reino Unido; Hypo Real State, da Alemanha, entre outros) não conseguiram escapar ilesos, de alguma forma, da "carnificina" a que foi submetido o sistema financeiro internacional. Em meio ao pânico e instabilidade, que tal situação provocou, dois planos de resgate do sistema, embora com conteúdos distintos, foram apresentados e aprovados num prazo inferior a um mês, visando restau- rar a do investidor, destravar os canais do crédito e reerguer a economia: um, aprovado pelo Congresso americano, que ficou conhecido como "Plano Paulson", porque apresentado pelo secretário do Tesou- ro dos EUA, Henry Paulson, consistia em utilizar o pacote aprovado de US$ 700 bilhões para comprar papéis "podres" de hipotecas que, no seu entendimento, "entupiam os canais normais de crédito para empresas e consumidores". Não foi bem recebido pelos analistas, de uma maneira geral, não atacar o principal problema por eles apontado que dizia 332 doBrown do mo (Eslado) do parte dov respeito à baixa capitalização do sistema bancário por não criar con- dições para impedir que 9s preços dos imóveis continuassem em queda, interrompendo o número de hipoteca executadas; outro, "Plano Bro- wn", apresentado em outubro pelo governo britânico, por meio de seu Gordon Brown, que, ao contrário do plano americano, priorizava Brown medidas de recapitalização do sistema bancário, através da aquisição, pelo governo, de parte das ações dos bancos, estatizando-os, na prática, ainda que temporariamente. O "Plano Brown" acabaria recebendo o apoio e adesão dos demais pa- da Europa, e mesmo os EUA, poucos dias depois, concordaria em 1/3 destinar parcela substancial (até US$ 250 bilhões) do pacote de US$ 700 bilhões, que havia sido aprovado, para essa finalidade, conduzindo à estati- zação, parcial, de várias instituições financeiras nestes países: no Reino Uni- do, as do Royal Bank of Scotland, do Lloyds TBS e do HBOS; nos EUA, do Citigroup, do Bank of América, do JPMorgan e do Wells Fargo, entre outros bancos de maior porte. Aliados a uma catarata de outras medidas que vinham sendo adotadas em conjunto pelos países mais atingidos pela crise para restaurar a confiança no sistema financeiro e destravar o crédito - maciças de recursos pelos bancos centrais; ampliação quase generalizada das garantias oferecidas para os depósitos bancários; prestação de socorro, através de empréstimos, a instituições que continuavam enfrentando dificuldades; garantias ilimitadas dos empréstimos interbancários, entre outras -, a crise financeira pareceu se amainar e as bolsas de valores ingressaram num período de euforia: no dia 13 de outubro, o índice Dow Jones subiu 11,1%, praticamente o mesmo nível da Alemanha (11,4%) e da França (11,2%); na Espanha a alta atingiu 10,65% e, no Brasil, o Bovespa fechou em 14,66%. Os estragos que já haviam sido produzidos na atividade produtiva não puderam, contudo, ser revertidos com esses resultados e, a essa altura, os sinais de uma forte recessão em nível mun- dial começaram a indicar que essa caminhava a passos céleres. Depois de um longo período de forte crescimento da economia mun- dial, entre 2003 e 2007, a desaceleração parecia inevitável, como já apon- do 333tavam os indicadores do primeiro trimestre das economias desenvolvidas, devido aos crescentes desequilíbrios orçamentários e externos dos EUA, aos efeitos iniciais da crise do crédito subprime, à elevação dos preços das commodities e ao inflacionário registrado nos países da Europa. A crise financeira que se acentuou a partir da "segunda-feira negra" de 15 de setembro, com a queda do Lehman Brothers, cuidou de acelerar essa ten- dência, ao enfraquecer e derrubar parte do sistema financeiro, obstruir os canais do crédito e retirar o oxigênio da produção, dos investimentos e do consumo. Mas o que de fato surpreendeu muitos analistas foi a velocidade Brothe e intensidade de contaminação da economia real. Já a partir de uma profusão de dados negativos sobre a ati- do vidade produtiva nos EUA e demais países relativos a se- tembro começaram a ganhar as páginas dos jornais: nos EUA, o nível de desemprego subira para 6,1%, as vendas de casas conheceram um declínio de 34,5% e a indústria ingressara num período de retração, registrando um declínio de 4% e de 3,4% na vendas das montadoras; na Europa, um quadro de progressiva deterioração do mercado de trabalho confir- mava as tendências constatadas nos EUA de que a recessão começa a se transformar em realidade no mundo desenvolvido. O que foi confirmado, 2008 ainda no mês de pelo anúncio de que o PIB britânico encolhera 0,6% no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior e também de que a economia norte-americana conhecera uma retração de 0,5%, de- pois de um crescimento de 2,8% no segundo trimestre, o que levou o FED a promover uma nova redução na prime rate de 2% para 1,5%. Em 2009 a OCDE, por sua vez, anunciaria que a zona do euro entrara tecnicamente em recessão, com a confirmação da retração de seu PIB por dois trimestres consecutivos, o mesmo acontecendo com o Japão. E que as perspectivas que se desenhavam para 2009 para os países desenvolvi- dos era de agravamento da situação, projetando um cenário de recessão profunda e prolongada. Se alguém acreditava que havia algum exagero previsões se en- ganou: os números do desemprego só tenderam a aumentar, atingindo 334 700 bonusApos bancos gover no solvon Economin 6,5% nos EUA em outubro, 6,9% em novembro e 7,2% em dezembro, com a Europa reproduzindo a mesma trajetória; a atividade produtiva 2008 continuou desabando e, em dezembro, quase todo o mundo desenvolvido (incluindo os EUA) já era considerado tecnicamente em recessão, confir- mando-se também uma forte desaceleração do crescimento das econo- 20 mias emergentes, incluindo Brasil, Rússia e China para agravar a situação, o espectro do fenômeno da manifestou-se a partir de outubro na economia norte-americana e lançou olhares sedutores para a Europa, com o recuo da taxa de crescimento do nível de preços, Diante do fenômeno que Nouriel chamou de os governos, de modo geral, depois de terem gasto forte munição para salvar o sistema financeiro, deslocaram sua atenção para tentar salvar a economia real e barrar o avanço da recessão. Como se seguissem o mesmo script para enfrentar a situação, gover- nos de diversos países deram inicio: a) seguidos cortes das taxas de juros (nos EUA, a prime despencou de 1,5% em novembro para uma taxa flutu- prime ante entre 0% e 0,25% em b) ao lançamento de pacotes fiscais 0% de estímulo às empresas, famílias e consumidores, como nos EUA (US$ 800 bilhões), Europa (200 bilhões de euros), China (US$ 586 bilhões), para ficar com alguns exemplos; c) à embalagem de pacotes salvadores para os setores mais atingidos pela crise, como a indústria automobilística, as a construção civil e a infraestrutura, principais responsáveis pela geração de empregos e que, em dificuldades, se transformaram em fontes de sua destruição. Apesar de toda a munição que foi - - e continuou sendo - gasta para essa finalidade, não foi ela suficiente para restaurar a confiança dos agentes econô- micos no funcionamento dos mercados e garantir a recuperação do crédito para a retomada do consumo, do investimento e do emprego, com todas as projeções indicando que, com otimismo, a economia mundial poderia iniciar o processo de recuperação apenas em 2010. Mas que, mesmo assim, se isso se 9 Roubini, N. "Os horrores da Folha de S. Paulo, 04/12/2008. 335confirmasse, essa deveria ser lenta, pois não poderia contar com o apoio dos governos, que teriam de ajustar suas contas, aumentando impostos e cortan- do gastos, após a aventura keynesiana, na visão da ortodoxia, em que tiveram de se lançar para salvar o mercado de suas próprias mãos. n + 3.2 Os impactos da crise no Brasil Brown Enquanto desdenhava dos efeitos que a crise econômica mundial pode- ria provocar sobre a economia brasileira, quanto muito que estes não passariam de uma "marolinha", na expressão do presidente Lula no início de outubro, ou mesmo de uma "gripezinha", nas palavras da chefe da Casa Civil, Dilma a mesma crise estava minando as boas condições da economia, modificando a equação que propiciaria ao Brasil avançar a estratégia de flexibilização do modelo, enfraquecendo-a e alteran- do os dilemas que teriam de ser enfrentados. De um lado, a taxa de câmbio, cuja forte apreciação vinha constituindo uma das principais preocupações da ala mais desenvolvimentista do gover- no, infletiu-se e avançou num processo de rápida valorização do dólar: cota- da a R$ 1,56 no final de julho, avançou para R$ 1,63 em agosto, 1,91 em setembro, R$ 2,11 em outubro e chegou, em dezembro, cotada em RS 2,33 49.2% (tabela IV.2). O que as medidas que vinham sendo adotadas pelo governo para corrigir sua excessiva apreciação não haviam em poucos meses, e com uma velocidade surpreendente, a crise se encarregou de fazê- lo, promovendo uma desvalorização de 50%. Não foi, entretanto, apenas a 49,359 fuga de recursos externos de investidores para cobrir posições ou prejuízos em seus países de origem a responsável por essa rápida desvalorização do diante das incertezas colocadas para o câmbio com a crise, várias empresas brasileiras que haviam se aventurado em aplicações especulativas 10 A frase completa de Lula no dia 04/10: "Ela (a crise) é de lá (dos EUA), um tsunami, e aqui vai chegar uma marolinha, que não vai dar nem para esquiar (sic)". (Folha de S. Paulo, 22/10/2008). A de Dilma Rousseff: "Nós vamos ter alguns problemas momentâneos, mas temos robustez suficiente para superar essa mesma fase de contágio com uma pequenininha gripe". (Folha de S. Paulo, 06/10/2008).-P a do PE no mercado futuro (de derivativos), ou que nele haviam entrado simples- mente para se protegerem (hedge) ou ainda porque possuíam dívidas em dólar, procuraram precaver se de eventuais perdas, aumentando a demanda pela moeda Não sem razão, o "risco-país" deu um salto de 1)79 2008 pontos-base em maio (mês em que recebeu o selo de grau de investimento) para 419pb em novembro e mais de 500 no final do ano. 179 419 Aparentemente benéfica para a melhoria das contas externas, à medi- 500 da que implicava aumento da competitividade do para a produção nacional, a desvalorização do Real despertou o temor, na velocidade e in- tensidade com que ocorreu, nas autoridades monetárias, de aceleração da inflação, que já se encontrava, altura, com a meta (central) do ano isso, caminhando na contramão da política de redução dos juros que começava a ser adotada por vários países, o Banco Central 2008 elevou, no dia 10 de setembro, a taxa de juros básica (SELIC) em 0,75 and ponto percentual, aumentando-a para 13,75%, contrapondo-se às forças da aqui desvalorização do Real. (Fuga t Por outro lado, a desaceleração da economia mundial, seguida, em pou- CO tempo, da certeza de que se instalava no mundo uma recessão profunda GG e prolongada, começou a derrubar a demanda e os preços das commodities no mercado internacional, movimento impulsionado também pela saída dos fundos de investimentos dos mercados futuros para aplicações nos praticamente mais que anulando os ganhos que o Brasil poderia obter com a desvalorização do Com uma pauta. de exportações dependente de 60% das vendas de commodities, a progressiva deterioração das contas ex- ternas tornou-se de atingirem US$ 20 bilhões nos meses de junho e julho, as exportações embicaram para baixo a partir de outubro 2008 e fecharam no nível de US$ 13 bilhões; apenas o movimento, vs também de queda das importações, que caíram de US$ 17 bilhões em julho 2008 para US$ 11 bilhões em impediu uma diminuição ainda mais espetacular do saldo da balança comercial, que 38% em relação a 2007 e 54% a 2006; como consequência, o saldo de transações correntes, que 2007 ainda conseguira gerar um modesto superávit de US$ 1,55 bilhão (0,12% do 337 Saido de isdo 2008 PIB) em 2007, fechou o ano com um déficit de US$ 28,3 bilhões (1,78% do PIB), com o financiamento do balanço de pagamentos conseguindo ser com feito pelos ainda expressivos investimentos diretos que ingressaram no país no montante de US$ 45,06 bilhões, desobrigando o governo de ter de lan- çar mão das reservas externas para essa finalidade (tabela IV.3). d país voltou a contar com um câmbio mais competitivo para as exportações, começaram a faltar mercados externos para a colocação de seus produtos, dado o desfalecimento da demanda externa. Por outro lado, as contas públicas, que vinham apresentando resultados favoráveis, com consecutivos aumentos da carga tributária, e cujo desempenho era crucial para viabilizar a nova estratégia do governo de fle- 2008 xibilização do modelo, começaram a ser afetadas no final do ano com a que- da da arrecadação, devido à desaceleração interna que se manifestava. Ainda assim, a relação dívida/PIB conheceu uma melhora espetacular, caindo de 42,8% do PIB, em 2007, para 38,5%, devido ao elevado superávit primário obtido de 3,4% do PIB, ao do PIB e, sobretudo, rização do Real, a qual, ao contrário do que acontecia em períodos ante- riores, aumentou os ativos líquidos das contas externas, cotada em moeda nacional, por ter o Brasil se tornado credor líquido do mundo. Todavia, as perspectivas colocadas para 2009 não eram nada favoráveis: além da desa- celeração do crescimento, que mina as bases da arrecadação, o aumento dos 2 gastos correntes do governo, garantidos pelo reajuste do salário mínimo bem acima da inflação, pelos reajustes salariais do funcionalismo público e pela maior correção dos benefícios do programa indicavam que poderiam ingressar numa fase de progressiva deterioração, colocando em risco a geração dos superávits primários e a realização dos investimentos contemplados no PAC e no PDP do Apesar de tudo, no embalo do vigoroso crescimento que vinha ocor- rendo ao longo do ano, a divulgação dos resultados sobre o desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre de 2008 pareceram confirmar que o Brasil continuava imune à crise mundial como se esforçavam as autorida- des governamentais para convencer a população: comparado ao segundo 3382008 semestre do ano, PIB havia registrado uma expansão de de 6,8% em relação ao terceiro trimestre de 2007, indicando que, na ausência da crise externa, o crescimento poderia superar a barreira dos 6%, o que não ocorria desde 1995. Mas fato é que os indicadores da atividade produtiva e do emprego do último trimestre já revelavam, com nitidez, que o melhor mo- mento do governo Lula começava a ficar para trás e de que o país também caminhava, e de forma célere, para uma forte desaceleração. Além dos problemas mencionados, o que afetou mais imediatamente a economia brasileira, sem que isso tenha sido percebido claramente pelos que ainda apostavam em sua blindagem contra a crise mundial, foi cura imediata do crédito externo, dada a restrição de liquidez no mercado internacional, aversão ao risco de desconfiança reinante no sistema financeiroxe a revelação de quão dependente era o país desses recursos. Na ausência deste crédito, começaram a faltar recur- SOS para pequenos e médios bancos realizarem suas operações, para o exportador financiar suas vendas no exterior e para carros-chefe do crescimento, a indústria de bens duráveis, sobretudo a automobilística, e a de construção civil sustentarem seus níveis de produção e vendas para seus consumidores. Mesmo o esforço que passou a ser feito pelo Banco ?? Central, visando dar uma solução para este problema, com a liberação de compulsórios em montante superior a R$ bilhões e à venda de dólares no mercado, iniciativas limitadas para a dimensão do fluxo de re- cursos que simplesmente desaparecera do mercado, foi inevitável que a economia ingressasse numa trajetória de redução de seu ritmo no último 2008 trimestre do ano e caminhasse, a passos céleres, para uma forte desa- celeração, ou mesmo para uma recessão, como já começavam a indicar algumas projeções feitas por diversos institutos de pesquisa. Poderia não ser na profundidade da que vinha sendo projetada para os países desen- volvidos, devido às melhores condições que o país apresentava em vários fundamentos, mas fato é que, tudo indicava, não haveria como escapar, pelo menos em 2009 e, quiçá 2010, de um retorno a uma situação de baixo crescimento, que marcou período de 1980 a 2006. 26 3393.3. 2009: o retorno da situação de baixo crescimento A poucos dias da proximidade do Natal de 2008, depois de o governo ter adotado algumas medidas para reativar a atividade econômica, redu- zindo impostos liberando créditos para os setores mais afetados pela cri- se indústria automobilística e construção civil prometendo aprovar novos pacotes para minar as forças da desaceleração passou a haver, finalmente, consenso de a economia pudesse figurar entre as que seriam menos atingidas pela crise mundial, não haveria como escapar de seus efeitos, que já se apresentavam fortes. A maior resistência à crise devia-se, em boa medida, maior diversificação de seus mercados externos consumidores, à menor dependência da importação de commo- dities e à mais confortável de suas reservas externas, das contas e da beneficiada pela valorização do dólar, e mesmo de do suas contas externas, que não haviam registrado, até o final do ano, dete- Real rioração adicional importante, variáveis que, até então, haviam funcionado como amortecedores da crise. Parecia evidente, contudo, que todas essas condições poderiam piorar com o avanço e intensificação da crise mundial: a queda do crescimento econômico e do aumento do desemprego indicava redução da arrecada- ção, como já ocorrera em novembro, e de da tendência de redu- ção do déficit da previdência, num contexto de forte elevação dos gastos com pessoal ativo decorrente da elevação dos vencimentos do funcio- nalismo com as medidas que foram aprovadas em 2008 (MPs 431, 441 e 442), estreitando os horizontes do investimento público, do com a continuidade da política de geração de megassuperávits fiscais e de redução mais expressiva da taxa de da demanda externa, acompanhada do declínio dos preços das commodities, já confirmavam a Divida 11 Ainda em dezembro, o governo anunciaria que estava preparando um novo pacote para janeiro que aumentaria os investimentos públicos em R$ 6 bilhões, elevando-os para R$ 33 bilhões, com o objetivo de evitar uma desaceleração mais acentuada da economia no primeiro trimestre, considerado o mais delicado do ano, além de um novo pacote habitacional voltado para a população de baixa renda. 340BTC 1/2 desaceleração do ritmo de crescimento das exportações, com o saldo ofi- cial da balança comercial projetado para 2009, sendo reduzido para US$ 14 bilhões, apesar de se contar também com uma queda das importações, com o déficit em transações correntes podendo reeditar o nível de 2008, de cerca de US$ 30 O que, se ainda não era motivo de grandes ? preocupações para que os compromissos externos fossem cumpridos, de- vido ao volume de reservas externas e à expectativa ainda existente de ingresso de um volume considerável de investimento estrangeiro direto (IED), já indicava que o período de bonança da economia internacional ficara para trás e que o retorno a um período de baixo crescimento, que marcara o período 1980-2006, estava a a atividade produtiva continuava gerando em novem- bro seria registrado uma queda de 40,8 mil postos de trabalho no emprego formal (queda de 0,3%), a primeira neste mês desde 2002 e a maior desde 1998, número que evoluiria para impressionantes 634 mil em dezembro, e, no Estado de São Paulo, as vendas de imóveis despencariam 75% em outubro em comparação com o mesmo mês do ano anterior, depois de uma queda de 50% no mês de 2009 No final do ano, havia consenso de que se inúmeros pacotes lança- dos na economia poderiam minar as forças da desaceleração econômica no Brasil, eles não haviam sido suficientes para restaurar o elemento fun- damental que move o sistema: a confiança dos agentes econômicos no funciona- mento dos mercados e no futuro da economia. A recuperação desta dependia da melhoria das condições da economia internacional, o que, tudo indicava, não deveria ocorrer antes de 2010, e, também de ações mais 12 Para se ter uma ideia melhor da gravidade da situação, o fluxo cambial para o Brasil acumu- ? lado no ano de 2008 fechou (negativo em US$ 983 milhões, contra um fluxo positivo, em 2007, de impressionantes US$ 88 bilhões. 13 Passado o período de bravatas sobre o crescimento da economia brasileira, o governo Lula começou a adotar medidas para e a contentar-se com uma expansão de 4% do PIB em 2009, um nível ainda muito otimista: projeções do Banco Central indicavam, à mesma época, um crescimento de apenas 3,2% para manter a inflação dentro da meta no ano, enquanto o merca- do apostava numa taxa mais reduzida de 2,4%. 341proativas do geverno em duas frentes que vinham sendo mal ou pouco exploradas: na redução das taxas de juros e na realização, com maior for- ça, dos investimentos públicos. Certo, no entanto, para isso, é que seria necessário, de um reorientar a política de gastos do governo, redu- public zindo as despesas correntes, e, de outro, quebrar as resistências do conser- vadorismo do Banco Central para, semelhança dos países desenvolvidos, promover políticas anticíclicas mais arrojadas, com maior flexibilidade da política fiscal e monetária, diante da gravidade da crise que chegara e, tudo indicava, viera para ficar por um bom tempo. O que exigiria dar mais alguns passos, além dos que foram ensaiados no processo de "remendo" do modelo, cujos projetos poderiam ser ou esvaziados nessa situ- ação. desafio colocado para a política econômica em 2009. 0" now 342