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Histórico da Implantodontia e Osseointegração Prof.ª MS. Ana Clara Portela 1 Introdução Definição de Implantodontia “A implantodontia é a especialidade odontológica dedicada à reposição de dentes perdidos através da instalação cirúrgica de implantes que se integram ao osso maxilar ou mandibular, servindo como suporte para próteses dentárias fixas ou removíveis.” Importância na Odontologia Moderna Representa uma revolução no tratamento reabilitador, permitindo devolver aos pacientes função mastigatória, estética e conforto de maneira muito mais eficaz. Atualmente, é uma das áreas com maior evidência científica e previsibilidade de resultados na Odontologia. 2 Perdas dentárias A perda dentária resulta em diversos problemas como perda estética, deterioração da eficiência mastigatória e dificuldades de fala. Perdas dentárias -Doença periodontal -Trauma -Cáries Doença Periodontal Trauma Dental Cáries avançadas Perdas dentárias Prótese fixa x Prótese removível Primórdios da Implantodontia 1 Egito Antigo (3000 a.C.) Múmias egípcias foram encontradas com dentes artificiais feitos de marfim e madeira fixados com fios de ouro. Estes representam as primeiras tentativas documentadas de substituir dentes perdidos com materiais externos. 2 China (2000 a.C.) Registros mostram o uso de pinos de bambu talhados e fixados no osso para substituir dentes, demonstrando que diversas civilizações buscavam soluções para o edentulismo. 3 Fenícios (800 a.C.) Desenvolveram técnicas para estabilizar dentes soltos utilizando fios de ouro, um princípio que seria a base para futuros conceitos de fixação de elementos dentários artificiais. 10 Idade Média e Renascimento Transplantes Dentários Durante a Idade Média, era comum a prática de transplantes dentários entre indivíduos. Dentes extraídos de cadáveres ou vendidos por pessoas pobres eram implantados em pacientes ricos, com resultados geralmente desastrosos devido a infecções e rejeição. Ambroise Paré (1536) O cirurgião francês documentou tentativas de reimplantação de dentes avulsionados acidentalmente, estabelecendo princípios rudimentares de fixação dentária que influenciariam futuras técnicas de implante. Pierre Fauchard (1728) Considerado o pai da odontologia moderna, descreveu em seu livro "Le Chirurgien Dentiste" diversas técnicas para substituição de dentes, incluindo o uso de estruturas metálicas fixadas a dentes remanescentes para sustentar próteses. 11 Década de 1930 Estudos com Novos Materiais Pesquisadores começaram a testar diversos materiais como ouro, platina, prata, irídio e aço inoxidável, buscando melhor biocompatibilidade e durabilidade para implantes dentários. 1 Implantes Parafusados Surgiram os primeiros desenhos de implantes em formato de parafuso, tentando imitar a raiz dentária natural e proporcionar melhor estabilidade no osso maxilar. 2 Introdução do Vitálio A liga metálica de cobalto-cromo-molibdênio começou a ser utilizada em implantes, demonstrando menor rejeição e maior resistência que materiais anteriores. 3 Primeiros Estudos Histológicos Iniciaram-se investigações microscópicas da interface entre implante e tecido ósseo, buscando entender melhor o processo de integração dos materiais implantados. 4 12 Década de 1950 Implantes Subperiostais Implantes Transósseos Implantes Intra ósseos Implantes que eram estruturas metálicas personalizadas posicionadas sobre o osso, sob o periósteo. Este tipo de implante era indicado para pacientes com reabsorção óssea severa, embora apresentasse complicações frequentes. Jacques Scialom desenvolveu o sistema de agulhas de implante, que atravessavam completamente a mandíbula, emergindo na borda inferior. Estas agulhas forneciam boa estabilidade, mas eram limitadas à região anterior da mandíbula. Surgiram os primeiros desenhos de implantes em formato de parafuso, tentando imitar a raiz dentária natural e proporcionar melhor estabilidade no osso maxilar. Implantes Subperiostais Implantes Transósseos Implantes Intra ósseos Em 1952, Per-Ingvar Brånemark, professor de Anatomia da Universidade de Gotemburgo (Suécia), conduzia estudos sobre a microcirculação sanguínea e reparação óssea utilizando uma técnica de microscopia vital em coelhos. Para visualizar o processo de cicatrização, Brånemark desenvolveu pequenas câmaras ópticas fabricadas em titânio, que eram inseridas na tíbia dos animais. Ao final do experimento, Brånemark observou que não conseguia remover as câmaras de titânio do osso dos coelhos. Análises microscópicas revelaram que o metal havia se integrado completamente ao tecido ósseo, sem encapsulamento fibroso ou reação de corpo estranho. Esta observação acidental levou Brånemark a redirecionar suas pesquisas para o estudo desta interação entre titânio e tecido ósseo, fenômeno que ele posteriormente denominaria "osseointegração". Biocompatibilidade do Titânio em tíbia de coelho Propriedades do Titânio Biocompatibilidade Excepcional O titânio apresenta excepcional biocompatibilidade devido à formação espontânea de uma camada estável de óxido de titânio (TiO₂) em sua superfície quando exposto ao ar ou aos fluidos teciduais. Esta camada, com espessura entre 3-10nm, funciona como barreira protetora, impedindo a corrosão e a liberação de íons metálicos nos tecidos. Propriedades Mecânicas O titânio possui excelente relação resistência/peso, sendo mais leve que aço inoxidável porém com resistência comparável. Sua resistência à fadiga é fundamental para suportar cargas mastigatórias cíclicas. O módulo de elasticidade relativamente baixo (comparado a outras ligas) proporciona melhor distribuição de tensões ao osso circundante. Resistência à Corrosão A camada de óxido confere extraordinária resistência à corrosão, mesmo em ambiente oral hostil com variações de pH e presença de enzimas. Esta propriedade previne degradação do material e reações teciduais adversas, contribuindo para a longevidade dos implantes. Osseofilicidade O titânio demonstra propriedade única de promover adesão, proliferação e diferenciação de células osteogênicas em sua superfície. Esta característica, denominada osseofilicidade, é determinante para o processo de osseointegração e não é observada com mesma intensidade em outros materiais. 22 Conceito de Osseointegração Definição Brånemark definiu a osseointegração como "uma conexão estrutural e funcional direta entre osso vivo ordenado e a superfície de um implante submetido a carga funcional, sem interposição de tecido fibroso, permitindo a transferência e distribuição de carga do implante ao osso". Este conceito revolucionário substituiu a ideia de "fibroencapsulamento", anteriormente considerada inevitável. Importância Clínica A osseointegração possibilitou superar o principal desafio da implantodontia: obter fixação duradoura e funcional de dispositivos artificiais ao tecido ósseo vivo. Implantes osseointegrados são capazes de transmitir cargas mastigatórias diretamente ao osso, sem micromovimentação, proporcionando estabilidade em longo prazo. Esta descoberta transformou completamente a previsibilidade dos tratamentos com implantes, elevando as taxas de sucesso de aproximadamente 50% para mais de 90% em dez anos. 23 Primeiros Implantes Osseointegrados 1965 Primeiro Paciente Larsson, com deformidade congênita, recebeu os primeiros implantes osseointegrados para fins protéticos, mantendo-os funcionais por mais de 40 anos. 4 Implantes Iniciais Brånemark inseriu quatro implantes na mandíbula de Larsson, utilizando protocolo cirúrgico meticuloso em duas fases com período de cicatrização sem carga. 99% Titânio Puro Os implantes eram fabricados em titânio comercialmente puro, escolhido por sua excepcional biocompatibilidade e capacidade de integração com o tecido ósseo. 35 Anos de Estudos Entre a descoberta acidental (1952) e a aplicação clínica em humanos (1965), Brånemark realizou extensos estudos com diversos modelos animais e desenvolveu protocolos específicos. 24 Fatoresque Afetam a Osseointegração Fatores Relacionados ao Material Composição química do implante Topografia da superfície (lisa, rugosa, nanoestruturada) Tratamentos superficiais (jateamento, ataque ácido, anodização) Propriedades mecânicas (módulo de elasticidade, resistência) Desenho macroscópico (rosqueado, cilíndrico, cônico) Fatores Relacionados ao Paciente Quantidade e qualidade óssea disponível Condições sistêmicas (diabetes, osteoporose) Hábitos nocivos (tabagismo, alcoolismo) Idade e capacidade regenerativa Medicações em uso (bifosfonatos, imunossupressores) Fatores Relacionados à Técnica Trauma cirúrgico e controle térmico durante perfuração Estabilidade primária do implante Protocolo de carga (imediata, precoce, convencional) Contaminação bacteriana do sítio cirúrgico Experiência e habilidade do cirurgião 25 Evolução dos Materiais Primeiros Materiais (1930-1950) Os primeiros implantes modernos utilizavam principalmente vitálio (liga de cobalto-cromo-molibdênio), aço inoxidável e tântalo. Estes materiais apresentavam biocompatibilidade limitada, com frequentes reações teciduais adversas e encapsulamento fibroso, levando a altas taxas de falha em longo prazo. Era do Titânio (1960-1980) A introdução do titânio comercialmente puro por Brånemark revolucionou a implantodontia. Este material demonstrou excepcional biocompatibilidade, resistência à corrosão e capacidade de osseointegração. Ligas de Titânio (1980-1990) Desenvolvimento de ligas de titânio (principalmente Ti-6Al-4V) que ofereciam maior resistência mecânica, especialmente importante para implantes de menor diâmetro. Estas ligas mantinham boa capacidade de osseointegração, embora ligeiramente inferior ao titânio puro. Superfícies Modificadas (1990-Presente) Surgimento de tecnologias para modificação da superfície dos implantes, incluindo jateamento, ataque ácido, anodização e revestimentos bioativos. Estas modificações visavam acelerar e melhorar a qualidade da osseointegração, especialmente em osso de baixa densidade. 26 “Por melhor que o implante seja, ele ainda não substitui de maneira fiel o dente” 28 Componentes do Sistema de Implantes 1 Coroa/Prótese Restauração definitiva visível na boca 2 Pilar Protético Componente intermediário que conecta implante e prótese 3 Parafuso de Fixação Une o pilar ao implante, permitindo sua remoção quando necessário 4 Implante Dental Componente que se osseointegra ao tecido ósseo, substituindo a raiz Os sistemas de implantes modernos são compostos por múltiplos componentes que interagem entre si. O implante propriamente dito é a parte que se osseointegra ao tecido ósseo, geralmente em formato de parafuso. Sua porção superior apresenta uma conexão (externa tipo hexágono, cone morse ou hexágono interno) que permitirá a fixação dos componentes protéticos. O pilar protético (ou abutment) conecta o implante à prótese final, adaptando-se à conexão do implante inferiormente e oferecendo uma plataforma para fixação da coroa. Estes pilares podem ser retos ou angulados, pré-fabricados ou personalizados. O parafuso de fixação atravessa o pilar e se conecta à rosca interna do implante, permitindo fixação precisa e possibilidade de remoção quando necessário. A prótese é fixada sobre o pilar, podendo ser cimentada ou parafusada. 31 1 Cirurgia para instalação do implante 2 Componente protético que vai “receber”a prótese 3 Prótese Fase cirúgica + Fase protética image1.png image2.jpeg image3.png image4.jpeg image5.jpeg image6.jpeg image7.png image8.jpeg image9.jpeg image10.png image11.png image12.png image13.jpeg image14.png image15.png image16.png image17.png image18.png image19.png image20.jpeg image21.png image22.png image23.png image24.png image25.png image26.png image27.png image28.png image29.png image30.jpeg image31.png image32.jpeg image33.png image34.png image35.png image36.png image37.png image38.jpeg image39.png image40.png image41.png image42.png image43.png image44.png image45.png image46.png image47.png image48.png image49.png image50.png image51.png image52.png image53.png image54.png image55.jpeg image56.png image57.png image58.png