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CURSO DE PSICOLOGIA
PSICOPATOLOGIA
(SDE 0167)
TEXTOS DE APOIO
Professor ADELMO GOMES
adelmoprofessor20151@bol.com.br
1
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
CALENDÁRIO ACADÊMICO 2015.1 (6 º PERÍODO)
EMENTA DA DISCIPLINA
Unidade I - Introdução ao estudo da Psicopatologia e o diagnóstico em Psiquiatria
1.1 - Histórico e principais correntes em Psicopatologia;
1.2 - O normal e patológico em Psicopatologia;
1.3 - Conceituação de doença mental e transtorno psiquiátrico;
1.4 - Sistemas classificatórios: DSM IV e CID-10;
1.5 - Entrevista psiquiátrica e exame da doença mental; anamnese psiquiátrica; diagnóstico
pluridimensional.
Unidade II - Processos psíquicos e suas alterações
2.1 - Alterações da consciência (vigilância);
2.2 - Alterações da atenção;
2.3 - Alterações da orientação;
2.4 - Alterações nas vivências de tempo e espaço;
2.5 - Alterações da sensopercepção (alucinação);
2.6 - Alterações do pensamento;
2.7 - Alteração do juízo de realidade (delírio);
2.8 - Alterações da afetividade;
QUARTA-FEIRA SEXTA-FEIRA
FEV
11 13 Carnaval
18 Carnaval 20
25 27
MAR
04 06
11 13
18 20
25 27
ABR
01 03 Paixão
08 (AV 1) 10 (AV 1)
15 17
22 Descobrimento 24
29
MAI
06 01 Trabalhador
13 08
20 15
27 22
29
JUN
03 05
10 12
17 (AV 2) 19 (AV 2)
24 26
JUL
01 (AV 3) 03 (AV 3)
08 10 Fim
2
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
2.9 - Alterações da volição;
2.10 - Alterações do comportamento motor;
2.11 – Alterações da linguagem;
2.12 – Alterações da memória.
Unidade III - Transtornos de Ansiedade: A ansiedade normal e patológica
3.1 – Agorafobia;
3.2 - Transtorno do Pânico;
3.3 - Fobia Específica;
3.4 - Fobia Social;
3.5 - Transtorno de Ansiedade Generalizada;
3.6 - Transtorno de Estresse Pós-Traumático;
3.7 - Transtorno Obsessivo-Compulsivo;
Unidade IV - Transtornos Somatoformes;
4.1 - Transtorno de Somatização;
4.2 - Transtorno Conversivo;
4.3 - Transtorno de Dor Psicogênica;
4.4 - Transtorno Factício;
Unidade V - Transtornos de Personalidade e Transtornos de Ajustamento
5.1 - Transtornos de personalidade e psicopatias;
5.2 - Transtornos de ajustamento;
Unidade VI - Transtornos do Humor
6.1 – Distimia;
6.2 – Ciclotimia;
6.3 - Transtorno Bipolar;
6.4 - Transtorno Depressivo Maior;
Unidade VII - Transtornos Psicóticos
7.1 – Esquizofrenia;
7.2 - Outros transtornos psicóticos;
Unidade VIII - Transtornos relacionados ao uso de substâncias
8.1 - Conceitos gerais (uso social, abuso, dependência, síndrome de abstinência);
8.2 - Transtornos relacionados ao álcool;
8.2 - Transtornos relacionados à anfetamina e cocaína;
8.3 - Transtornos relacionados à cannabis e alucinógenos;
8.4 - Transtornos relacionados à cafeína e nicotina;
8.5 - Transtornos relacionados aos inalantes.
***
3
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Considerações preliminares
A expressão psicopatologia origina-se de três afixos gregos: “pshiché” –
psiquismo, psiquê, psíquico; “pathos” – paixão, sofrimento e, “logos” –
discurso, conhecimento.
[...] A psicopatologia pode ser definida como o conjunto de conhecimentos
referentes ao adoecimento mental do ser humano. É um conhecimento que se
esforça por ser sistemático, elucidativo e desmistificante. Como conhecimento que visa ser
científico, não inclui critérios de valor, nem aceita dogmas ou verdades a priori. O psicopatólogo
não julga moralmente o seu objeto, busca apenas observar, identificar e compreender os diversos
elementos da doença mental.
A psicopatologia estuda especialmente os transtornos, não a sua causa ou tratamento. Procura,
portanto, estudar as manifestações clínicas das doenças mentais.
É um estudo descritivo dos transtornos, então não é explicativo.
Nesse sentido, a psicopatologia possui uma natureza semiológica, ou seja, a de um estudo dos
sinais e sintomas dos transtornos mentais (ou patognomonia).
O que são doenças mentais?
Transtornos caracterizados por [signos] psicológicos, comportamentos anormais,
funcionamento prejudicado ou qualquer combinação destes. Tais transtornos podem
causar sofrimento clinicamente significativo e prejuízo em uma variedade de esferas
de funcionamento e podem ser devidos a fatores orgânicos, sociais, genéticos,
químicos ou psicológicos. (adaptado APA, 2010, p. 984-5)
As doenças mentais podem ter uma base orgânica (genética/neurológica/cerebral)
conhecida (por exemplo, as demências nas doenças de Alzheimer e de Parkinson), presumida (por
exemplo, a Esquizofrenia
1
e o Transtorno Afetivo Bipolar) ou desconhecida/inexistente (por
exemplo, nas neuroses). No entanto, no estudo das causas das doenças mentais a influência do
ambiente (relações familiares, traumas emocionais, condições socioeconômicas e culturais etc.)
deverá sempre ser levada em consideração, sob pena de se cair num discurso organicista de cunho
determinista.
Ou seja, ao se avaliar uma doença, a partir de uma perspectiva multidimensional, três fatores
precisam ser considerados. São eles: (1) as possíveis predisposições genéticas (temperamento,
doenças genéticas etc.), (2) as influências ambientais (relações de afeto, educação, socialização,
eventos ocorridos etc.) e, (3) as estruturas psicológicas constituídos e desenvolvidas (caráter,
inteligência, psicopatologias etc.).
1
Vide artigo sobre as causas genéticas da Esquizofrenia – pág. 195.
4
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Sinais e sintomas
Os sinais e os sintomas
2
representam os signos da psicopatologia [...]. Os
sintomas são subjetivos (vivências, sensações e impressões) e aparecem
nas queixas do paciente. Dor, o sentimento de tristeza e a escuta
alucinatória, por exemplo, são sintomas. Já os sinais são objetivos, ou seja
são verificáveis pela observação direta. Eles podem ser detectados por outra
pessoa, às vezes pelo próprio paciente. [...] uma fácies de tristeza e o solilóquio (falar sozinho) são
sinais. (CHENIAUX, 2013, p. 4). Síndrome é um agrupamento de sintomas e sinais que ocorrem
juntos e que constituem uma condição reconhecível com etiologias e mecanismos diversos.
3
Sintomas positivos e negativos
Sintomas Positivos – [...] estão relacionados diretamente ao surto psicótico4. Entende-se por surto
psicótico um estado mental agudo caracterizado por grave desorganização psíquica e fenômenos
delirantes e/ou alucinatórios, com perda do juízo crítico da realidade. A capacidade de perder a
noção do que é real e do que é fantasia, criação da mente da própria pessoa, é um aspecto muito
presente nos quadros agudos da esquizofrenia. [...]
Sintomas Negativos – [...] estão mais relacionados à fase crônica da esquizofrenia. Embora
possam ocorrer na fase aguda, eles se estendem por mais tempo e predominam a longo prazo. Esses
sintomas são chamados também de deficitários, como referência à deficiência de algumas funções
mentais, como a vontade e a afetividade.
(http://entendendoaesquizofrenia.com.br/website/?page_id=144)
Transfundos das Vivências Psicopatológicas e Sintomas Emergentes
5
Desenvolvendo o modelo sugerido por autores como Jaspers, Schineider e Weitbrecht, propõe-se
aqui situaras vivências psicopatológicas em duas perspectivas fundamentais: têm-se de um lado, os
transfundos das vivências psicopatológicas, espécie de palco, de contexto mais geral, em que
emergem os sintomas. De outro, reconhecem-se os sintomas específicos vivenciados, denominados
sintomas emergentes
6
. Eles são, portanto, vivências pontuais, que ocorrem sempre sobre
determinado transfundo. Esse transfundo, por sua vez, influencia basicamente o sentido, a direção, a
qualidade específica do sintoma emergente. Há uma relação dialética entre o sintoma emergente e
o transfundo, entre a figura e o fundo, a parte e o todo, o pontual e o contextual.
Nesse modelo, discriminam-se dois tipos básicos de transfundo: os estáveis e duradouros e os
mutáveis e momentâneos:
1. Os transfundos estáveis, pouco mutáveis, são a personalidade e a inteligência. Qualquer
vivência ganha conotação diferente a partir da personalidade específica do indivíduo.
Pacientes passivos, dependentes, astênicos e ‘largados’ tendem a vivenciar os sintomas de
modo também passivo; já indivíduos explosivos, hipersensíveis e muito reativos a diferentes
2
Do grego símptoma, significando acontecimento, o que ocorre.
3
Lowenkron, T. 2007.
Com relação aos signos psicopatológicos (sinais e sintomas), caberia a menção dos conceitos de simulação (forjar,
teatralizar, fingir algum sinal ou sintoma psicopatológico) e de dissimulação (encobrir, disfarçar, esconder algum sinal
ou sintoma psicopatológico).
4
Vide item na página 8 desta apostila.
5
Adaptado de DALGALARRONDO, 2008, p. 293-9. (Negritos e acréscimos foram feitos pelo professor da matéria)
6
Observe que no caso das psicoses, os sintomas emergentes são classificados como positivos e negativos, conforme
visto anteriormente.
5
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
estímulos tendem a responder aos sintomas de forma mais viva e ampla, e assim por diante.
A inteligência determina essencialmente os contornos, a diferenciação, a profundidade e a
riqueza de todos os sintomas. Pacientes muito inteligentes produzem, por exemplo, delírios
ricos e complexos, interpretam constantemente as suas vivências e desenvolvem as
dimensões conceituais das vivências de forma mais acabada. Sujeitos com inteligência
reduzida criam quadros psicopatológicos indiscriminados, sem detalhes, superficiais e
pueris.
2. Os transfundos mutáveis e momentâneos também atuam decisivamente na determinação
da qualidade e no sentido do conjunto das vivências psicopatológicas. O nível de
consciência estabelece a clareza e a precisão dos sintomas. Sob o estado de turvação, uma
alucinação auditiva ou visual, uma recordação, um sentimento específico são
experimentados em uma atmosfera mais onírica e confusa. O humor e o estado afetivo-
volitivo momentâneo influem decisivamente não apenas no desencadeamento de sintomas
(os chamados sintomas catatímicos
7
), mas também no colorido específico de sintomas não
diretamente deriváveis do estado afetivo. Uma ideia prevalente, em um contexto ansioso
intenso, pode ganhar dimensões muito próprias. Em um estado depressivo, qualquer
dificuldade cognitiva passa a ter uma importância enorme para o paciente.
Sintomas emergentes são todas aquelas vivências psicopatológicas mais destacadas,
individualizáveis, que o paciente experimenta. Incluem as esferas que não fazem parte dos
transfundos, como uma alucinação (sensopercepção), um sentimento (afetividade), um delírio
(juízo), uma paramnésia (memória), uma alteração do pensamento ou da linguagem, etc.
8
7
Catatimia - 1. Entidade psiquiátrica que se manifesta paroxisticamente como crises passageiras, ditas catatímicas, e
que se caracteriza por intensa alteração do humor, seja no sentido da depressão, da expansão ou da passividade, não
levando, contudo, à melancolia, à mania ou à esquizofrenia. 2. Influência que exerce o estado afetivo sobre as demais
funções psíquicas. (Aurélio)
8
DALGALARRONDO, p., 2008, p. 293-4)
6
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Transfundos e Sintomas Emergentes
Componentes do surgimento, da constituição e da manifestação dos sintomas e transtornos
Evolução Temporal dos Transtornos Mentais
CURSOS CRÔNICOS DOS TRANSTORNOS MENTAIS
9
9
Adaptado de DALGALARRONDO, 2008, p. 296-9. (Negritos e acréscimos foram feitos pelo professor da matéria)
PROCESSO
DESENVOLVIMENTO
(ou, EVOLUÇÃO)
Crises (ou, Ataques)
Episódios
Reação Vivencial Anormal
Fase
Surto
Fenômenos Agudos ou
Subagudos
- Personalidade pré-mórbida;
- Sinais prodrômicos;
- Remissão;
- Recuperação;
- Recaída ou Recidiva;
- Recorrência.
7
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Processo
Processo refere-se a uma transformação lenta e insidiosa da personalidade, decorrente de alterações
psicologicamente incompreensíveis, de natureza endógena. O processo irreversível, supostamente
de natureza corporal (neurobiológica), rompe a continuidade do sentido normal do desenvolvimento
biográfico de uma pessoa. Utiliza-se o termo processo, por exemplo, para caracterizar a natureza de
uma esquizofrenia de evolução insidiosa [doentia, maléfica], que lenta e radicalmente transforma a
personalidade do sujeito acometido.
Desenvolvimento (ou, Evolução)
Desenvolvimento refere-se à evolução psicologicamente compreensível de uma personalidade. Essa
evolução pode ser normal, configurando os distintos traços de caráter do individuo, ou anormal,
deter minando os transtornos da personalidade e as neuroses. Nesse caso, há uma conexão de
sentido, uma trajetória compreensível ao longo da vida do sujeito. Fala-se, então, em
‘desenvolvimento paranoide’, ‘desenvolvimento histriônico’, ‘desenvolvimento hipocondríaco’, etc.
Crise (ou, Ataque)
A crise, ou ataque, caracteriza-se, em geral, por surgimento e término abruptos, durando
segundos ou minutos, raramente horas. Utilizam-se os termos crise ou ataque para fenômenos
como: crises epilépticas, crises ou ataques de pânico, crises histéricas, crises de agitação
psicomotora, etc.
Episódio
O episódio tem geralmente a duração de dias até semanas. Tanto o termo crise como o termo
episodio nada especificam sobre a natureza do fenômeno mórbido. Os termos episodio e crise são
denominações referentes apenas ao aspecto temporal do fenômeno. Na pratica, é comum utilizar-
se o termo episodio de forma inespecífica, quando não há condições de precisar a natureza do
fenômeno mórbido. Assim, pode-se falar em episodio maniatimorfo, episodio paranoide, episodio
depressivo, etc.
Personalidade pré-mórbida e sinais pré-mórbidos
A personalidade pré-mórbida e os sinais pré-mórbidos são aqueles elementos identificados em
períodos da vida do paciente claramente anteriores ao surgimento da doença propriamente
dita, em geral na infância. Já pertencendo ao início do transtorno, fala-se em sinais e sintomas
prodrômicos10, que representam de fato a fase precoce, inicial do adoecimento.
A literatura psiquiátrica, principalmente a de língua inglesa, utiliza os seguintes termos em relação
ao curso dos episódios de transtornos mentais:
Remissão (remission). É o retorno ao estado normal tão logo acaba o episódio agudo. Fala-se em
remissão espontânea quando o paciente se recupera sem o auxílio de intervenção terapêutica.Recuperação (recovery). É o retorno e a manutenção do estado normal, já tendo passado um bom
período de tempo (geralmente se considera um ano) sem que o paciente apresente recaída do
quadro.
10
Pródromo - Fenômeno clínico que revela o início de uma doença; propatia.
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Recaída ou recidiva (relapse). É o retorno dos sintomas logo após haver ocorrido uma melhora
parcial do quadro clínico [...] (não tendo passado um ano do episódio agudo).
Recorrência (recurrence). É o surgimento de um novo episódio, tendo o indivíduo estado
assintomático por um bom período (pelo menos por cerca de um ano). Pode-se dizer que a
recorrência é um novo episódio da doença.
Reação Vivencial Anormal
A reação vivencial anormal caracteriza-se por ser um fenômeno psicologicamente compreensível,
desencadeado por eventos vitais significativos para o individuo que os experimenta. É designada
reação anormal pela intensidade muito marcante e duração prolongada dos sintomas. Ocorre
geralmente em personalidades vulneráveis, predispostas a reagir de forma anormal a certas
ocorrências da vida. Após a morte de uma pessoa próxima, da perda do emprego ou do divórcio, o
individuo reage, por exemplo, apresentando um conjunto de sintomas depressivos ou ansiosos,
sintomas fóbicos ou mesmo paranóides. A reação vivencial pode durar semanas ou meses,
eventualmente alguns anos. Passada a reação vivencial, o individuo retorna ao que era antes, sua
personalidade não sofre ruptura; pode empobrecer-se ou enriquecer-se, mas não se modifica
radicalmente.
Fase
Já a fase refere-se particularmente aos períodos de depressão e de mania dos transtornos
afetivos. Passada a fase, o individuo retorna ao que era antes dela, sem alterações duradouras na
personalidade, ou seja, não há sequelas na personalidade. A fase é, em sua gênese, incompreensível
psicologicamente, tendo um caráter endógeno. Uma fase pode durar semanas ou meses, menos
frequentemente, anos, havendo sempre (ou quase sempre) restitutio ad integrum
11
. Fala-se, então,
em fase depressiva, fase maníaca e período interfásico assintomático.
Surto
O surto, segundo a noção da patologia geral (mas assumida pela psicopatologia), é uma ocorrência
aguda, que se instala de forma repentina, fazendo eclodir uma doença de base endógena, não
compreensível psicologicamente. O característico do surto é que ele produz sequelas irreversíveis,
danos à personalidade e/ou à esfera cognitiva do individuo. Assim como, após o primeiro surto de
esclerose múltipla, o paciente ‘sai’ com alguma sequela sensitiva ou motora, após o primeiro surto
de esquizofrenia (com alucinações, delírios, percepção delirante, etc.), que pode durar de 3 a 4
meses, por exemplo, o individuo ‘sai diferente’, seu contato com os amigos torna-se mais
distanciado, o afeto modula menos, e ele tem dificuldades na vida social, as quais não consegue
explicar ou entender. É o ‘déficit pós-esquizofrênico’, devido àquilo que Bleuler afirmava: ‘A
esquizofrenia, de modo geral, não permite restitutio ad integrum’. Tem-se, portanto, como
possibilidades, um surto esquizofrênico agudo, um surto hebefrênico, um surto catatônico, etc.
Após vários anos de doença, nos quais vários surtos foram se sucedendo (ou um processo insidioso
foi se implantando de forma lenta), em geral o paciente encontra-se no chamado estado residual da
11
Restitutio ad integrum - Regresso ou retorno completo à normalidade ou à integridade.
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
doença, apresentando apenas sinais e sintomas que são sequelas desta, sintomas
predominantemente negativos.
Dessa forma, é incorreto falar em surto maníaco [pois o surto, no exemplo dado, é bipolar], fase
esquizofrênica [pois fase refere-se a períodos dos transtornos afetivos, conforme visto
anteriormente, e não à doença], crise maníaca [pois a crise, ou ataque, refere-se ao que foi visto
anteriormente]; tal uso revela o desconhecimento da terminologia e dos conceitos psicopatológicos
básicos.
Forma e conteúdo dos signos psicopatológicos
Em geral, quando se estudam os sintomas psicopatológicos, dois aspectos básicos costumam ser
enfocados: a forma dos sintomas, isto é, sua estrutura básica, relativamente semelhante nos
diversos pacientes (alucinação, delírio, ideia obsessiva, labilidade afetiva etc.), e seu conteúdo, ou
seja, aquilo que preenche a alteração estrutural (conteúdo de culpa, religioso, de perseguição, etc.).
Este último é geralmente mais pessoal, dependendo da história de vida do paciente, de seu universo
cultural e da personalidade prévia do adoecimento.
De um modo geral, os conteúdos dos sintomas estão relacionados aos temas centrais da existência
humana, tais como sobrevivência e segurança, sexualidade, temores básicos (morte, doença,
miséria, etc.), religiosidade, entre outros. Esses temas representam uma espécie de substrato, que
entra como ingrediente fundamental na constituição da experiência psicopatológica.
(DALGALARRONDO, 2008, p. 28)
Sistemas classificatórios: DSM 5 e CID-10
12
São dois os principais sistemas classificatórios:
1º) A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, da
Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente em sua 10ª revisão –
CID – 10 e,
2ª) A Diagnostic and Statiscal Manual of Mental Disorders, da American
Psychiatric Association atualmente em sua 5ª edição – DSM – V.
12
Toda classificação não é o resultado de um trabalho exclusivamente científico ou apenas um instrumento político; ela
é o conjunto, de modo geral, desses fatores. Cabe aos que produzem as classificações e aos que se utilizam delas que
estejam cientes desses propósitos, de suas finalidades e de seus limites. (Lowenkron, T. 2007)
10
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Classificação Geral das Doenças Mentais
Conceituação
a. Oligofrenias (ou, Retardos Mentais)
Oligofrenia é sinônimo de Deficiência ou Retardo Mental. A característica essencial do Retardo
Mental é um funcionamento intelectual significativamente inferior à média, acompanhado de
limitações significativas no funcionamento adaptativo em pelo menos duas das seguintes áreas de
habilidades: comunicação, autocuidados, vida doméstica, habilidades sociais/interpessoais, uso de
recursos comunitários, autossuficiência, habilidades acadêmicas, trabalho, lazer, saúde e segurança.
O início deve ocorrer antes dos 18 anos. O Retardo Mental possui muitas causas diferentes que
afetam o funcionamento do sistema nervoso central.
O funcionamento intelectual geral é definido pelo quociente de inteligência (QI ou equivalente)
obtido mediante avaliação com um ou mais testes de inteligência padronizados de administração
individual (por ex., Escalas Wechsler de Inteligência para Crianças — Revisada, Stanford-Binet,
Bateria Kaufman de Avaliação para Crianças). Um funcionamento intelectual significativamente
abaixo da média é definido como um QI de cerca de 70 ou menos (aproximadamente 2 desvios-
padrão abaixo da média).
Cabe notar que existe um erro de medição de aproximadamente 5 pontos na avaliação do QI,
embora este possa variar de instrumento para instrumento (por ex., um QI de 70 na escala Wechsler
é considerado como representando uma faixa de 65-75). Portanto, é possível diagnosticaro Retardo
Mental em indivíduos com QIs entre 70 e 75, que exibem déficits significativos no comportamento
adaptativo. Inversamente, o Retardo Mental não deve ser diagnosticado em um indivíduo com um
QI inferior a 70, se não existirem déficits ou prejuízos significativos no funcionamento adaptativo.
(http://www.psiqweb.med.br)
11
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
b. Demências
A demência não é apenas um tipo de doença, ela é considerada uma síndrome, ou
seja, é um grupo de sinais físicos e sintomas que a pessoa apresenta, estando
presente em várias doenças diferentes. Assim, como uma síndrome a Demência
apresenta três características principais.
Prejuízo da memória. Os problemas de memória podem ser desde um simples
esquecimento leve até um prejuízo severo a ponto de não se recordar da própria
identidade.
Problemas de comportamento. Normalmente se caracteriza por agitação, insônia, choro fácil,
comportamentos inadequados, perda da inibição social normal, alterações de personalidade.
Perda das habilidades. São as habilidades adquiridas durante a vida, tais como, organizar os
compromissos, dirigir, vestir a roupa, cuidar da vida financeira, cozinhar, etc.
Os sintomas iniciais de Demência variam, mas a perda de memória em curto prazo costuma ser a
característica principal ou única a ser trazida à atenção do médico na primeira consulta. Ainda
assim, nem todos os problemas cognitivos nos idosos são devidos a Demência. Perguntas
cuidadosas aos pacientes e aos familiares podem ajudar a determinar a natureza do
comprometimento cognitivo e a estreitar o diagnóstico.
Os sintomas mais comuns que aparecem nas Demências são:
1- déficit de memória;
2- dificuldades de executar tarefas domésticas;
3- problema com o vocabulário;
4- desorientação no tempo e espaço;
5- incapacidade de julgar situações;
6- problemas com o raciocínio abstrato;
7- colocar objetos em lugares equivocados;
8- alterações de humor de comportamento;
9- alterações de personalidade;
10- perda da iniciativa – passividade.
Existem muitas doenças ou alterações orgânicas capazes de levar a um quadro demencial. Muitas
dessas causas relacionadas à Demência são reversíveis, principalmente o uso prolongado de alguns
medicamentos, como por exemplo, drogas usadas para hipertensão arterial, diuréticos, alguns
hipnóticos. A depressão também pode esta associada à Demência. Muitas vezes, diferenciar a
Demência da depressão é uma tarefa difícil e que apresenta muitos obstáculos. Outras doenças
relacionadas com a Demência são:
doenças vasculares do sistema nervoso central – SNC,
doenças infecciosas,
hipotireoidismo,
deficiência de vitamina B12,
Síndrome de Wernic-Korsacoff,
sífilis e HIV no SNC,
doenças degenerativas do SNC (doenças inflamatórias, atrofias etc.)
(adaptado de http://www.psiqweb.med.br/)
12
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
c. Psicoses
Psicoses são distúrbios psiquiátricos graves onde o paciente perde contato
com a realidade, emite juízos falsos (delírios), podendo também apresentar
alucinações (ter percepções irreais quanto a audição, visão, tato), distúrbios
de conduta levando à impossibilidade de convívio social, além de outras
formas bizarras de comportamento.
O termo Psicose (e sintomas psicóticos) é empregado para se referir à perda do juízo da realidade e
um comprometimento do funcionamento mental, social e pessoal, normalmente levando a um
prejuízo no desempenho das tarefas e papéis habituais.
As Psicoses podem ter várias origens: por lesões cerebrais, tumores cerebrais, esquizofrenia,
tóxicos, álcool, infecções, traumas emocionais etc. Algumas Psicose são incuráveis, outras
apresentam cura completa. Quase sempre requer tratamento à base de psicotrópicos. Nem sempre é
necessária a internação. Nas psicoses agudas, as psicoterapias são pouco indicadas.
[No DSM-5, os Transtornos Psicóticos incluem: Transtorno Psicótico Breve, Transtorno
Esquizofreniforme, Esquizofrenia, Transtorno Esquizoafetivo, Transtorno Psicótico Induzido por
Substância/Medicamento, Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica, Catatonia13
Associada a Outro Transtorno Mental, Transtorno Catatônico Devido a Outra Condição Médica,
Catatonia Não Especificada, Outro Transtorno do Espectro da Esquizofrenia e Outro Transtorno
Psicótico Especificado, Transtorno do Espectro da Esquizofrenia e Outro Transtorno Psicótico Não
Especificado.]
Na CID.10 os Transtornos Psicóticos são classificados como (F20-F29) esquizofrenia, transtornos
esquizotípicos e transtornos delirantes. Este agrupamento reúne a esquizofrenia, a categoria mais
importante deste grupo de transtornos, o transtorno esquizotípico e os transtornos delirantes
persistentes e um grupo maior de transtornos psicóticos agudos e transitórios. Os transtornos
esquizoafetivos foram mantidos nesta seção, ainda que sua natureza permaneça controversa.”
(http://www.psiqweb.med.br/)
A perspectiva psicanalítica em relação às psicoses propõe existir um terrível conflito entre o ego
e o mundo externo. Incapaz de mediar satisfatoriamente tais circunstâncias o ego criaria uma nova
realidade, uma realidade delirante e alucinadamente de acordo com os impulsos do Id.
“O efeito patogênico depende do ego, numa tensão conflitual desse tipo, permanecer fiel à sua
dependência do mundo externo e tentar silenciar o id, ou se ele se deixar derrotar pelo id e,
portanto, ser arrancado da realidade.” Inicialmente, Freud propõe que na neurose existe uma luta
vitoriosa contra a perda da realidade, enquanto na psicose a perda é irremediável. Posteriormente,
através da observação clínica, ele conclui no texto “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose”
que tanto na neurose quanto na psicose existe uma perturbação da relação do sujeito com a
realidade. “Na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo que
na psicose ele é remodelado... a neurose não repudia a realidade, apenas a ignora: a psicose a
repudia e tenta substituí-la”. (Freud, 1924, pág. 231) [...]
Para Freud, o ponto central de sua observação é que em ambas as estruturas o mais importante não
13
Catatonia - Fenômeno esquizofrênico caracterizado por perda da iniciativa motora e certo grau de tensão muscular,
atitude fixa, fenômenos cinéticos e automáticos paradoxais, e, às vezes, estupor, mutismo e negativismo.
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
é a questão relativa à perda da realidade, mas sim os substitutos encontrados. Na neurose, o
substituto encontrado ocorre via mundo da fantasia; já na psicose, os substitutos são delírio e
alucinação.
14
d. Neuroses
[...] A neurose é uma reação exagerada do sistema emocional em relação a uma
experiência vivida (Reação Vivencial). Neurose é uma maneira da pessoa SER e
de reagir à vida. Quando se diz que a pessoa É neurótica e não ESTÁ neurótica,
está se tentando dizer que a neurose é uma maneira da pessoa ser, associada a
traços de sua personalidade. Essa maneira de ser neurótica significa que a pessoa
reage à vida através de reações vivenciais não normais; seja no sentido dessas
reações serem desproporcionais, seja pelo fato de serem muito duradouras, seja
pelo fato delas existirem mesmo sem que exista uma causa vivencial aparente.
Essa maneira exagerada de reagir leva a pessoa neurótica a adotar uma serie de comportamentos
compatíveis com o que está sentindo. Cada tipo de transtorno neurótico tem seus sintomas, suas
atitudes e sentimentos;o quadro das neuroses é muito variável.
Na realidade os quadros neuróticos estão descritos em várias seções, tais como Ansiedades e
Fobias, Depressão, Estresse, Histeria e afins, Obsessões e Compulsões e outros.
O neurótico tem plena consciência do seu problema e muitas vezes, sente-se impotente para
modificá-lo. [...]
(adaptado de http://www.psiqweb.med.br/)
Sob o ponto de vista psicanalítico, as neuroses corresponderiam, então, “numa divisão entre o
afeto e a ideia. O afeto permanece na esfera psíquica, enquanto a ideia passa a ser enfraquecida e
permanece na [recalcada no inconsciente], separada de qualquer associação. Para Freud, o afeto
apresenta um destino diferenciado.
15
‘Mas seu afeto, tornado livre, liga-se a outras ideias que não lhe sejam incompatíveis; e, graças a
essa ‘falsa conexão’, tais ideias desenvolvem-se como obsessivas. Essa é, em poucas palavras, a
teoria psicológica das obsessões e fobias...’ (Freud,1894, pág. 64)
Nesse texto encontra-se a afirmativa de que a histeria, as fobias e obsessões acham-se diretamente
relacionadas a ideias sexuais reprimidas.
No artigo “hereditariedade e a etiologia das Neuroses”, de 1896, Freud reafirma que a origem das
neuroses está vinculada à vida sexual:
‘Baseado em uma laboriosa observação dos fatos, devo sustentar que essa última suposição
concorda e muito com a realidade, pois cada uma das neuroses maiores que enumerei têm como sua
causa imediata um distúrbio particular da economia do sistema nervoso, e que essas modificações
patológicas funcionais têm como fonte comum a vida sexual do sujeito, sejam apoiadas em uma
perturbação de sua vida sexual contemporânea ou em fatos importantes do passado.’ (Freud,1896,
pág. 171/172)
16
14
Adaptado de OLIVEIRA, M.S.B., O conceito das estruturas clínicas neurose e psicose para a psicanálise. [s.d.],
p. 120.
15
Estas ideias correspondem ao que se conceitua em psicanálise de “Solução de Compromisso” nas neuroses.
16
OLIVEIRA, M.S.B., O conceito das estruturas clínicas neurose e psicose para a psicanálise. [s.d.], p. 120. As
chaves são do professor.
14
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
e. Transtornos de personalidade
Pessoas explosivas, teatrais, sistemáticas, meticulosas, obsessivas, cismadas,
muito emotivas e outros tipos difíceis de conviver sugerem, intuitivamente
para todos nós, tratar-se de uma maneira de SER assim e não de ESTAR
assim. Ao longo da vida essas pessoas podem melhorar, através de muito
empenho e vontade de morrer melhor do que nasceram. Outras estacionam,
petrificadas para sempre, sofrendo e fazendo sofrer.
Henri Ey considera algumas pessoas portadoras de um Ego Patológico, caracterizando não apenas
uma maneira de ESTAR no mundo, mas sobretudo, uma maneira de SER no mundo. Karl Jaspers
afirma serem anormais as personalidades que fazem sofrer, tanto a pessoa quanto quem a rodeia.
Para Jaspers, as personalidades anormais representam variações não-normais da natureza humana,
as quais podem perfeitamente ser entendidas como Transtornos de Personalidade (TP).
Diz a CID.10 que os transtornos de personalidade são estados e tipos de comportamentos
característicos que expressam maneiras da pessoa viver e de estabelecer relações consigo
mesma e com os outros. São distúrbios da constituição e das tendências comportamentais –
continua dizendo a CID.10 – não diretamente relacionados a alguma doença, lesão, afecção
cerebral ou a outro transtorno psiquiátrico. Isso tudo quer dizer que a pessoa simplesmente é
desse jeito e será sempre assim.
17
Habitualmente os transtornos da personalidade se acompanham de sofrimento e de
comprometimento no desempenho global da pessoa. Aparecem precocemente durante o
desenvolvimento individual sob a influência de múltiplos fatores, sejam constitucionais, sociais ou
existenciais.
18
Depois de solidificado este conjunto de traços pessoais, tal como uma
personalidade normal, persistirá indefinidamente.
Entretanto, dependendo da cognição, juízo crítico, conhecimento e disposição ao entendimento, tais
estados supostamente pétreos podem seguir por caminhos mais favoráveis e de menor sofrimento,
tanto para a pessoa deles portadora, quanto dos demais à sua volta. Sabendo lidar com essa questão
a pessoa poderá se adaptar perfeitamente a sua maneira de ser, poderá disciplinar pulsões, esquemas
de pensamentos, impulsos específicos desses transtornos, e tal manejo poderá ser de tal forma
eficiente que a qualidade da vida emocional será muito melhorada.
De fato, o que denomina, classifica ou dá o nome ao transtorno da personalidade é a
predominância de determinados traços, os quais todos nós os temos em dose diminuta. Todos
temos algo de histéricos, uma pitada de paranoia, traços de ansiedade, e assim por diante.
Entretanto, no transtorno da personalidade tais traços são predominantes e dominam tiranamente a
maneira de ração dessas pessoas de forma a causar sofrimento (na pessoa e/ou naqueles próximos) e
comprometer o desempenho.
[...] A Organização Mundial de Saúde (OMS) trata do assunto sob o titulo de Transtornos da
Personalidade e de Comportamento, especificando-os nos códigos F60 até F69 na CID-10. A OMS
descreve tais transtornos da seguinte maneira:
‘Estes tipos de condição abrangem padrões de comportamento permanentes e profundamente
arraigados no ser que se manifestam como respostas inflexíveis a uma ampla série de situações
17
Este trecho nos sugere uma causa genética/orgânica para os diversos Transtornos de Personalidade.
18
Observe que neste trecho, diferentemente dos demais, cogitam-se causas sociais e existenciais para os TP. Isto nos
sugere uma possível falta de consenso entre os autores psiquiátricos. Note-se, no entanto, que a tendência predominante
em psiquiatria, em relação às causas dos TP, é a de atribuir às causas genéticas/orgânicas.
15
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
pessoais e sociais. Elas representam desvios extremos ou significativos do modo como o
indivíduo médio, em uma dada cultura, percebe, pensa, sente e, particularmente, se relaciona
com os outros’.
Quando a OMS diz ‘...permanentes e profundamente arraigados no ser...’ ela quer dizer que se trata
de uma característica definitiva. Uma pessoa obsessiva, meticulosa, perfeccionista e rígida com
problemas de adaptação, por exemplo, pode mudar sua maneira de ser para melhor refazendo
algumas crenças pessoais e atitudes comportamentais no sentido de construir melhor relação
consigo mesma, com os outros e com a vida, embora continue sendo menos obsessiva, menos
meticulosa, menos perfeccionista e menos rígida. Acontecendo assim a pessoa deixará de ter um
transtorno de personalidade para ter apenas traços obsessivos, traços perfeccionistas e assim por
diante.
As características de personalidade por si só não caracterizam um Transtorno de
Personalidade, elas são os traços, ou seja, padrões duradouros de percepção, relação e
pensamento acerca do ambiente e de si mesmo, e são exibidos numa ampla faixa de contextos
sociais e pessoais importantes. É somente quando as características de personalidade são
inflexíveis e desadaptadas, causando um comprometimento significativo no desempenho da
pessoa é que elas podem constituir-se em Transtornos da Personalidade.
Os Transtornos de Personalidade, ainda segundo a CID-10, são condições do desenvolvimento da
personalidade que aparecem na infância ou adolescência e continuam pela vida adulta. Esta
condição constitucional e biológicade desenvolvimento diferencia o Transtorno da Alteração
da Personalidade. A Alteração da Personalidade ocorre durante a vida em consequência de
algum outro transtorno emocional, dependência química, traumatismo craniano, tumores,
infecções cerebrais, etc.
Enfatizando, os Transtornos de Personalidades são perturbações graves da constituição do
caráter e das tendências comportamentais [atitudes], portanto, não são adquiridas no meio tal
como as Alterações da Personalidade
19
. A CID-10 apresenta entre os títulos F60 e F69 uma
grande variedade de subtipos de Transtornos de Personalidade. [...]
A Associação Norte-americana de Psiquiatria, através de seus critérios de classificação e
diagnóstico de transtornos mentais, o DSM-5, fala sobre os Transtornos da Personalidade da
seguinte forma:
Os traços de personalidade constituem transtornos da personalidade somente quando são inflexíveis
e mal-adaptativos e causam prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo significativos. O aspecto
essencial de um transtorno da personalidade é um padrão persistente de experiência interna e
comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo e que se
manifesta em pelo menos duas das seguintes áreas: cognição, afetividade, funcionamento
interpessoal ou controle de impulsos (Critério A). Esse padrão persistente é inflexível e abrange
uma ampla faixa de situações pessoais e sociais (Critério B), provocando sofrimento clinicamente
significativo e prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da
vida do indivíduo (Critério C). O padrão é estável e de longa duração, e seu surgimento ocorre pelo
menos a partir da adolescência ou do início da fase adulta (Critério D). O padrão não é mais bem
explicado como uma manifestação ou consequência de outro transtorno mental (Critério E) e não é
atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento,
19
Este trecho nos sugere uma possível origem genética para tais transtornos. Tal posição da psiquiatria não é a
definitiva nas ciências que estudam a mente humana (por exemplo, a própria psicologia).
16
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
exposição a uma toxina) ou a outra condição médica (p. ex., traumatismo craniencefálico) (Critério
F).
E qual seria a diferença entre o Transtorno da Personalidade e a Doença Mental franca? As
doenças mentais ocorrem e se desenvolvem a partir de um momento definido da vida, tal como são
as crises, reações, processos, episódios e surtos
20
, enquanto os Transtornos da Personalidade, por
sua vez, são maneiras problemáticas de ser, constantes e perenes. As doenças mentais surgem e os
Transtornos da Personalidade são.
21
Na Esquizofrenia, por exemplo, assim como nos Transtornos do Humor e outros, a partir de um
determinado momento na vida a personalidade, que já era chamada pré-mórbida, envereda por uma
trajetória que se afasta mais e mais do normal resultando em um episódio agudo. Nos Transtornos
da Personalidade o rumo da personalidade está e sempre esteve algo distante do normal, embora não
tenha obrigatoriamente que piorar cada vez mais, como nos outros processos psicopatológicos.
Os Transtornos de Personalidade afetam todas as áreas da personalidade, o modo como o indivíduo
vê o mundo, a maneira como expressa as emoções, o comportamento social. Caracteriza um estilo
pessoal de vida mal adaptado, inflexível e prejudicial a si próprio e/ou aos que com ele convivem.
Essas características, no entanto, apesar de necessárias não são suficientes para identificação dos
Transtornos de Personalidade, pelo fato de serem muito vagas. A maneira mais clara como a
classificação deste problema vem sendo tratada é através da subdivisão em tipos de transtornos de
personalidade, com critérios de diagnóstico próprios e bem definidos, tanto pela CID.10, quanto
pelo DSM-5.
Convencionalmente os transtornos da personalidade foram divididos em três grupos:
1º. Grupo – Aqui estão as pessoas caracterizadas essencialmente por pensamentos estranhos,
comportamentos excêntricos e mórbida tendência ao isolamento. Estão classificadas aqui as
personalidades paranoides e esquizoides, as primeiras possuidoras de rígido padrão de suspeitas e
desconfianças infundadas, as segundas são emocionalmente distantes e com dificuldade em
estabelecer relações sociais.
2º Grupo – Os transtornos deste grupo têm em comum um comportamento com tendência à
dramaticidade, apelação e emoções que se expressam intensamente. Os indivíduos histriônicos
representam esse grupo, sendo muito excitáveis, demonstrativos, justificativos e egocêntricos.
Também está aqui a chamada Personalidade Antissocial, que manifesta expressiva incapacidade
geral de adaptação aos padrões sociais estabelecidos e para relações afetivas estáveis.
3º. Grupo – Estão neste grupo as personalidades com marcantes traços de dificuldade no controle
dos impulsos; transtorno explosivo ou impulsivo da personalidade, transtorno ansioso ou evitativo
da personalidade, transtorno anancástico ou obsessivo-compulsivo da personalidade.
22
20
Assim definidas, o conceito de Doença Mental assemelha-se ao de Alteração da Personalidade, anteriormente
estabelecido.
21
Este parágrafo nos sugere, portanto, que os TP não deveriam ser classificados, stricto-sensu, como “doenças
mentais”.
22
Adaptado de www.psiqweb.com.br.
17
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Introdução ao estudo da Psicopatologia e o diagnóstico em Psiquiatria
Histórico e principais correntes em Psicopatologia
CORRENTE DA PSICOPATOLOGIA
23
DESCRITIVA – “interessa-se
fundamentalmente pela forma das alterações
psíquicas, a estrutura dos sintomas, aquilo que
caracteriza a vivência patológica como sintoma
mais ou menos típico.”
Possui, portanto, características diagnósticas
e objetivas.
DINÂMICA – “interessa-se pelo conteúdo da
vivência, os movimentos internos de afetos,
desejos e temores do indivíduo, sua
experiência particular, pessoal, não
necessariamente classificável em sintomas
previamente descritos.
Possui, portanto, características pessoais e
subjetivas.
MÉDICO-NATURALISTA – “Trabalha com
uma noção de homem centrada no corpo, no
ser biológico como espécie natural e universal.
Assim, o adoecimento mental é visto como um
mau funcionamento do cérebro, uma
desregulação, uma disfunção de alguma parte
do “aparelho biológico”.
EXISTENCIAL – “O doente é visto
principalmente como “existência singular”,
como ser lançado a um mundo que é apenas
natural e biológico na sua dimensão elementar,
mas que é fundamentalmente histórico e
humano. O ser é construído por meio da
experiência particular de cada sujeito, na sua
relação com outros sujeitos, na abertura para a
construção de cada destino pessoal. A doença
mental, nessa perspectiva, não é vista tanto
como disfunção biológica ou psicológica, mas,
sobretudo, como um modo particular de
existência, uma forma trágica de ser no mundo,
de construir um destino, um modo
particularmente doloroso de ser com os
outros.”
COMPORTAMENTAL-COGNITIVISTA –
“o homem é visto como um conjunto de
comportamentos observáveis, verificáveis, que
são regulados por estímulos específicos e
gerais, e por certas leis e determinantes do
aprendizado. Associada a essa visão, a
perspectiva cognitivista centra atenção sobre
as representações cognitivasconscientes de
cada indivíduo. As representações conscientes
seriam vistas como essenciais ao
funcionamento mental, normal e patológico.
Os sintomas resultam de comportamentos e
representações cognitivas disfuncionais,
aprendidas e reforçadas pela experiência
sociofamiliar.”
PSICANALÍTICA – “o homem é visto como
ser “determinado”, dominado por forças,
desejos e conflitos inconscientes. A psicanálise
dá grande importância aos afetos, que, segundo
ela, dominam o psiquismo; o homem racional,
autocontrolado, senhor de si e de seus desejos,
é, para ela, uma enorme ilusão. Na visão
psicanalítica, [as] síndromes mentais são
consideradas formas de expressão de conflitos,
predominantemente inconscientes, de desejos
que não podem ser realizados, de temores aos
quais o indivíduo não tem acesso. O sintoma é
encarado, nesse caso, como uma “formação de
compromisso”, um certo arranjo entre o desejo
inconsciente, as normas e as permissões
culturais e as possibilidades reais de satisfação
desse desejo. A resultante desse emaranhado
23
Quadro montado a partir de DALGALARRONDO, 2008, p. 35-8)
18
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
de forças, dessa “trama conflitiva”
inconsciente, é o que se identifica como
sintoma psicopatológico.”
CATEGORIAL – “As entidades
nosológicas
24
ou transtornos mentais
específicos podem ser compreendidos como
entidades completamente individualizadas,
com contornos e fronteiras bem demarcados.
As categorias diagnósticas seriam “espécies
únicas”, tal qual espécies biológicas, cuja
identificação precisa constituiria uma das
tarefas da psicopatologia. Assim, entre a
esquizofrenia e os transtornos afetivos
bipolares e os delirantes, haveria, por exemplo,
uma fronteira nítida, configurando-os como
entidades ou categorias diagnósticas diferentes
e discerníveis na sua natureza básica.” [é o
modelo adotado pelo CID-10 e pelo DSM-5].
DIMENSIONAL – “Haveria, então,
dimensões como, por exemplo, o espectro
esquizofrênico, que incluiria desde formais
muito graves, tipo ‘demência precoce’ (com
grave deterioração da personalidade,
embotamento afetivo, muitos sintomas
residuais), formas menos deteriorantes de
esquizofrenia, formas com sintomas afetivos,
chegando até um outro polo, de transtornos
afetivos, incluindo formas com sintomas
psicóticos até formas puras de depressão
25
e
mania
26
(hipótese esta que se relaciona à antiga
noção de psicose
27
unitária).
Algumas polaridades dimensionais em
psicopatologia seriam, por exemplo:
Esquizofrenia deficitária / Esquizofrenia
benigna / Psicoses esquizoafetivas /
Transtornos afetivos com sintomas psicóticos /
Transtornos afetivos menores
Ou
Depressões graves (estupor
28
, psicótica) /
Depressão bipolar / Depressões moderadas /
Distimia / Personalidade depressiva /
Depressão subclínica.”
24
Nosologia – é o estudo das doenças.
25
Distimia – [...] em psicopatologia geral, é o termo que designa a alteração básica do humor, tanto no sentido da
inibição como no sentido da exaltação. Não se deve confundir o sintoma distímico com o transtorno depressivo
persistente (no DSM-5 também chamado de distimia), que, segundo as classificações da CID-10 e do DSM-5, é um
transtorno depressivo leve e crônico. (DALGALARRONDO, 2008, p. 164). Como transtorno, a distimia caracteriza-se
por ser um rebaixamento crônico do humor, persistindo ao menos por vários anos, mas cuja gravidade não é suficiente
ou na qual os episódios individuais são muito curtos para responder aos critérios de transtorno depressivo recorrente
grave, moderado ou leve.
26
Mania sem sintomas psicóticos - Presença de uma elevação do humor fora de proporção com a situação do sujeito,
podendo variar de uma jovialidade descuidada a uma agitação praticamente incontrolável. Esta elação se acompanha de
um aumento da energia, levando à hiperatividade, um desejo de falar e uma redução da necessidade de sono. A atenção
não pode ser mantida, e existe frequentemente uma grande distração. O sujeito apresenta frequentemente um aumento
do autoestima com ideias de grandeza e superestimativa de suas capacidades. A perda das inibições sociais pode levar a
condutas imprudentes, irrazoáveis, inapropriadas ou deslocadas. (CID 10)
Mania com sintomas psicóticos - Presença, além do quadro clínico descrito [anteriormente] de ideias delirantes (em
geral de grandeza) ou de alucinações (em geral do tipo de voz que fala diretamente ao sujeito) ou de agitação, de
atividade motora excessiva e de fuga de ideias de uma gravidade tal que o sujeito se torna incompreensível ou
inacessível a toda comunicação normal. (CID 10)
27
‘ [...] Uma psicose corresponde a uma perturbação primária da relação libidinal com a realidade. A oposição neurose-
psicose põe em jogo a posição intermediária do ego entre o id e a realidade. Enquanto na neurose o ego obedece as
exigências da realidade (e do superego), recalcando as reivindicações pulsionais, na psicose começar por se gerar uma
ruptura entre o ego e a realidade, que deixa o ego sob o domínio do id.” (CASTRO, 2006, p. 75)
28
Estupor – “estado mental no qual um indivíduo fica total ou quase totalmente insensível e imóvel e experimenta
desorientação”. (APA, 2010, p. 391)
19
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
BIOLÓGICA – “enfatiza os aspectos
cerebrais, neuroquímicos ou neurofisiológicos
das doenças e dos sintomas mentais. A base de
todo transtorno mental são alterações de
mecanismos neurais e de determinadas áreas e
circuitos cerebrais. [...] ‘doenças mentais são
(de fato) doenças cerebrais. Griesinger, 1845.”
SOCIOCULTURAL – “visa estudar os
transtornos mentais como comportamentos
desviantes que surgem a partir de certos fatores
socioculturais, como discriminação, pobreza,
migração, estresse ocupacional,
desmoralização sócio familiar etc. Os sintomas
e os transtornos devem ser estudados, segundo
essa visão, no seu contexto eminentemente
sociocultural, simbólico e histórico. É nesse
contexto de normas, valores e símbolos
culturalmente construídos que os sintomas
recebem seu significado, e, portanto, poderiam
ser precisamente estudados e tratados. Mais
que isso, a cultura, em tal perspectiva, é
elemento fundamental na própria determinação
do que é normal ou patológico, na constituição
dos transtornos e nos repertórios terapêuticos
disponíveis em cada sociedade.”29
OPERACIONAL-PRAGMÁTICA – “as
definições básicas de transtornos mentais e
sintomas são formuladas e tomadas de modo
arbitrário, em função de sua utilidade
pragmática, clínica ou orientada à pesquisa.
Não são questionados a natureza da doença ou
do sintoma e tampouco os fundamentos
filosóficos ou antropológicos de determinada
definição. Trata-se do modelo adotado pelas
modernas classificações de transtornos
mentais; o DSM-5, norte-americano, e a CID-
10, da OMS.”
FUNDAMENTAL – “o projeto de
psicopatologia fundamental, proposto pelo
psicanalista francês Pierre Fedida, visa centrar
a atenção da pesquisa psicopatológica sobre os
fundamentos de cada conceito psicopatológico.
Além disso, tal psicopatologia dá ênfase à
noção de doença mental como pathos, que
significa sofrimento, paixão e passividade. O
pathos, diz Berlin (1977), é um sofrimento-
paixão que, ao ser narrado a um interlocutor,
em certas condições, pode ser transformado em
experiênciae enriquecimento.”
29
Assim colocada, esta corrente assemelha-se à corrente Existencial, anteriormente estudada.
20
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
O normal e patológico em Psicopatologia
"Normalidade é a habilidade para se adaptar ao mundo exterior com satisfação e para dominar a
tarefa de aculturação". K. Meninge
Há vários critérios de normalidade e anormalidade em medicina e psicopatologia. A adoção de um
ou outro depende, entre outras coisas, de opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do
profissional [...]. Os principais critérios de normalidade utilizados em psicopatologia são:
1. Normalidade como ausência de doença
O primeiro critério que geralmente se utiliza é o de saúde como “ausência de sintomas, de
sinais ou de doenças”. Segundo expressiva formação de René Lerdice (1936): “a saúde é a
vida no silêncio dos órgãos”. Normal, do ponto de vista psicopatológico, seria então,
aquele indivíduo que simplesmente não é portador de um transtorno mental definido.
Tal critério é bastante falho e precário, pois, além de redundante, baseia-se em uma
“definição negativa”, ou seja, define-se a normalidade não por aquilo que ela supostamente
é, mas sim, por aquilo que ela não é, pelo que lhe falta [...].
2. Normalidade ideal
A normalidade aqui é tomada como uma certa “utopia”. Estabelece-se arbitrariamente uma
norma ideal, o que é supostamente “sadio”, mas “evoluído”. Tal norma é, de fato,
socialmente construída e referendada. Depende, portanto, de critérios socioculturais e
ideológicos arbitrários, e, às vezes, dogmáticos e doutrinários. Exemplos de tais conceitos de
normalidade são aqueles com base na adaptação do indivíduo às normas morais e políticas
de terminada sociedade (como no caso do macarthismo
30
nos EUA e do pseudodiagnóstico
de dissidentes políticos como doentes mentais da antiga União Soviética).
“[...] chamamos de mentalmente insanas as pessoas cujas condutas pessoais violam certas
normas éticas, políticas e sociais. Isso explica porque muitas figuras históricas, de Jesus a
Castro, e de Jó a Hitler, têm sido diagnosticadas como sofrendo desta ou daquela doença
psiquiátrica.” (SZASZ, 1980, p. 29)
3. Normalidade estatística
A normalidade estatística identifica norma e frequência. Trata-se de
um conceito de normalidade que se aplica especialmente a fenômenos
quantitativos, com determinada distribuição estatística na população
geral (como peso, altura, tensão arterial, horas de sono, quantidade de
sintomas ansiosos, etc.). O normal passa a ser aquilo que se observa com maior
frequência. Os indivíduos que se situam estatisticamente fora (ou no extremo) de uma curva
de distribuição normal passam, por exemplo, a ser considerados anormais ou doentes. É um
critério muitas vezes falho em saúde geral e mental, pois nem tudo o que é frequente é
necessariamente “saudável”, e nem tudo que é raro ou infrequente é patológico.
Tomem-se como exemplo fenômenos como as cáries dentárias, a presbiopia
31
, os sintomas
ansiosos e depressivos leves, o uso pesado do álcool, fenômenos estes que podem ser muito
30
Macarthismo (em inglês McCarthyism) é o termo que descreve um período de intensa patrulha anticomunista,
perseguição política e desrespeito aos direitos civis nos Estados Unidos que durou do fim da década de 1940 até meados
da década de 1950. Foi uma época em que o medo do Comunismo e da sua influência em instituições americanas
tornou-se exacerbado, juntamente ao medo de ações de espionagem promovidas pela OTAN. (Wikipedia)
31
Presbiopia - Distúrbio visual que se observa na velhice, e em que se perde, por baixa de elasticidade e por
diminuição da capacidade de acomodação do cristalino, o poder de distinguir, com nitidez, objetos próximos.
(AURÉLIO)
21
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
frequentes, mas que evidentemente não podem, a priori, ser considerados normais ou
saudáveis.
4. Normalidade como bem-estar
A Organização Mundial de Saúde (WHO, 1946) definiu, em 1946, a saúde como o completo
bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente como ausência de doença. É um
conceito criticável por ser muito vasto e impreciso, pois bem-estar é algo difícil de se definir
objetivamente. Além disso, esse completo bem-estar físico, mental e social é tão utópico que
poucas pessoas se encaixariam na categoria “saudáveis”.
5. Normalidade funcional
Tal conceito baseia-se em aspectos funcionais e não necessariamente quantitativos. O
fenômeno é considerado patológico a partir do momento em que é disfuncional, produz
sofrimento para o próprio indivíduo ou para o seu grupo social.
6. Normalidade como processo
Neste caso, mais que uma visão estática, consideram-se os aspectos dinâmicos do
desenvolvimento psicossocial, das desestruturações e das reestruturações ao longo do tempo,
de crises, de mudanças próprias a certos períodos etários. Esse conceito é particularmente
útil em psiquiatria infantil, de adolescentes e geriátrica.
7. Normalidade subjetiva
Aqui é dada maior ênfase à percepção subjetiva do próprio indivíduo em relação a seu
estado de saúde, as suas vivências subjetivas. O ponto falho desse critério é que muitas
pessoas que se sentem bem, “muito saudáveis e felizes”, como no caso de sujeitos em fase
maníaca, apresentam, de fato, um transtorno mental grave.
8. Normalidade como liberdade
Alguns autores de orientação fenomenológica e existencial propõem conceituar a doença
mental como perda da liberdade existencial (p.ex., Henry Ey). Dessa forma, a saúde mental
se vincularia às possibilidades de transitar com graus distintos de liberdade sobre o mundo e
sobre o próprio destino. A doença mental é constrangimento do ser, é fechamento,
fossilização das possibilidades existenciais. [...]
9. Normalidade operacional
Trata-se de um critério assumidamente arbitrário, com finalidades pragmáticas explícitas.
Define-se, a priori, o que é normal e o que é patológico e busca-se trabalhar
operacionalmente com esses conceitos, aceitando as consequências de tal definição prévia.
Portanto, de modo geral, pode-se concluir que os critérios de normalidade e de doença em
psicopatologia variam consideravelmente em função dos fenômenos específicos com os quais se
trabalha e, também, de acordo com as opções filosóficas do profissional. Além disso, em alguns
casos, pode-se utilizar a associação de vários critérios de normalidade ou doença, de acordo com o
objetivo que se tem em mente. De toda forma, essa é uma área da psicopatologia que existe postura
permanentemente crítica e reflexiva dos profissionais. (DALGALARRONDO, 2008, p. 31-4)
22
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Entrevista psiquiátrica e exame da doença mental; anamnese psiquiátrica; diagnóstico
pluridimensional
Principais conceitos:
Anamnese – (do grego anámnesis – ana = novo; mnesis = memória - rememoração; recordação).
Termo originalmente proposto por Platão para significar a
possibilidade de reconhecimento, de recordação da verdade, conhecida
pela alma quando da sua existência no mundo espiritual e esquecida
quando da sua encarnação material terrena. “[...] em psiquiatria, o
relato pessoal do paciente, de sua história desenvolvimental, familiar e
médica anterior ao início de um transtorno psicológico ou internação. [sugerido por Aldolf Meyer,
psiquiatra norte-americano nascido na Suíça (1866-1950), como um auxílio para o diagnóstico e a
exploração de possíveiscausas do transtorno do paciente.]” (APA, 2010, p. 74)
Diagnóstico – (do grego diagnostikós – “movimento através do conhecimento”; distinguir;
reconhecer) – “processo de identificar e determinar a natureza de uma doença ou distúrbio por seus
sinais e sintomas, mediante o uso de técnicas de avaliação. [...]” (APA, 2010, p. 283)
A entrevista psiquiátrica
32
A entrevista psiquiátrica possui três objetivos básicos: a formulação de um diagnóstico, a
formulação de um prognóstico
33
e o planejamento terapêutico. [...] No início é essencial que o
médico se apresente, explique o objetivo da entrevista e, se possível, obtenha o consentimento do
paciente. Se não há plena consciência de morbidade por parte do paciente, é fundamental que se
entrevistem os familiares – ou outras pessoas que possam prestar informações – de preferência com
a concordância (e a presença) do paciente.
A arte de entrevistar só pode ser adquirida mediante o treinamento com um supervisor e com a
prática. Aulas e manuais, contudo, também trazem algum auxílio. Ensina-se ao aluno como
trabalhar com as evidências apuradas, embora seja difícil mostrar como obtê-las. De qualquer
modo, há algumas regras básicas que devem ser seguidas:
- No começo, deve-se deixar o paciente falar livremente, e só depois perguntar de modo mais
específico temas ou pontos duvidosos.
- É preciso saber quando e como interromper o paciente: sem cortar o fluxo da comunicação, mas
sem deixar que a minuciosidade ou a prolixidade (alterações da forma do pensamento) prejudiquem
a obtenção da história clínica. Sempre controlar e dirigir a entrevista.
- Não formular as perguntas de maneira monótona ou mecânica. O diálogo deve ser tão informal
quanto possível.
- Evitar perguntas muito sugestivas, fechadas, que podem ser respondidas com um simples sim ou
não: é melhor perguntar ‘Como você está se sentido?’ do que ‘Você está ansioso?’
- Não aceitar jargões fornecidos pelos pacientes, como ‘nervoso’, ‘deprimido’, ‘tenho pânico’: pedir
para que ele explique o que quer dizer com essas palavras.
- Certificar-se de que o paciente compreende as perguntas: utilizar linguagem acessível, sem termos
médicos.
32
CHENIAUX, 2013, p. 5-13 – com adaptações.
33
Prognóstico - Juízo médico, baseado no diagnóstico e nas possibilidades terapêuticas, acerca da duração, evolução e
termo de uma doença. (AURÉLIO)
23
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Estrutura e conteúdo da anamnese [ou, avaliação] psiquiátrica
Os dois componentes da avalição psiquiátrica são: a anamnese e o exame psíquico. [...] A
anamnese psiquiátrica segue, em linhas gerais, o roteiro da anamnese em medicina. É preciso ter em
mente um roteiro de anamnese, mas este não pode perturbar a espontaneidade da entrevista.
A redação final de uma observação psiquiátrica precisa ser completa, sem ser sobrecarregada ou
repetitiva, mas nunca será totalmente completa e precisa. Dois examinadores jamais farão a mesma
anamnese do mesmo paciente. [...]
Itens da avaliação psiquiátrica
A redação da avaliação psiquiátrica – incluindo a anamnese e o exame psíquico – pode ser dividida
nos seguintes itens:
1) Identificação – A identificação é composta pelos seguintes itens: nome, data de nascimento,
sexo, estado civil, naturalidade, nível de instrução, profissão, etnia, religião, residência,
procedência, filiação.
A identificação pode ser de grande auxílio para a formulação do diagnóstico. Por exemplo, o
alcoolismo é mais comum em homens; esquizofrênicos em geral não são casados; pacientes
com retardo mental costumam apresentar um baixo nível educacional; etc.
Na apresentação pública de casos – como em sessões clínicas -, o nome pode ser
representado pelas iniciais, mas é preferível, para preservar o sigilo, usar um pseudônimo.
2) Queixa principal (QP)
A QP, que constitui o foco da história da doença atual, deve ser sucinta. Convém relacionar
no máximo três queixas, de preferência apenas uma.
A QP é redigida com as palavras do paciente (entre aspas, ou usando sic
34
), devendo ser
registrada mesmo que absurda. Caso o paciente não formule nenhuma queixa, isso também
tem que ser apontado.
3) Motivo do atendimento – O item motivo do atendimento só é necessário quando não há
consciência de morbidade por parte do paciente. O seu conteúdo é fornecido por outra
pessoa: um familiar, vizinho, bombeiro, policial, outro profissional de saúde, etc. São
reproduzidas literalmente as palavras do informante.
4) História da doença atual – (HDA)
A HDA consta de um relato sobre a época e modo de início da doença, a presença de fatores
desencadeantes, tratamentos efetuados e o modo de evolução, o impacto sobre a vida do
paciente, intercorrência de outros sintomas e as queixas atuais.
Ela é narrada pelo paciente, ou por informantes – no caso de pacientes psicóticos -, ou por
ambos. Faz-se necessário identificar sempre, para cada informação, qual foi a fonte. Na
redação da HDA, evitam-se termos técnicos: são utilizadas as palavras do paciente ou do
informante. Os quadros clínicos são descritos, porém não nomeados. A redação deve seguir
uma ordem cronológica, mesmo que a narrativa, por parte do paciente ou dos informantes,
não tenha sido assim.
São ainda incluídas na HDA informações (sobre alterações psíquicas e físicas) pesquisadas
ativamente pelo entrevistador, mesmo que não tenham sido trazidas espontaneamente pelo
paciente ou informante. Fazem parte também da HDA os negativos pertinentes, ou seja,
34
sic - Palavra que se pospõe a uma citação, ou que nesta se intercala, entre parênteses ou entre colchetes, para indicar
que o texto original é bem assim, por errado ou estranho que pareça. (AURÉLIO)
24
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
certos sintomas cuja ausência pode ser significativa para a identificação da doença ou da
fase evolutiva em que esta se encontra. Episódios psiquiátricos anteriores devem ser
relatados também aqui, já que estes devem estar relacionados ao atual, visto que os
transtornos mentais são, em geral, crônicos.
Em casos de transtorno de personalidade ou de retardo mental, será impossível separar HDA
e história pessoal, que podem ser fundidas.
5) História patológica pregressa (HPP)
A HPP refere-se a estados mórbidos passados, em geral não psiquiátricos, que não
mostrem possuir relação direta ou indireta de causa e efeito com a moléstia atual. Se existir
essa relação, eles são incluídos na HDA. São investigados principalmente as seguintes
ocorrências: enurese [incontinência urinária], sonilóquio, pesadelos frequentes, terror
noturno, sonambulismo, asma, tartamudez [dificuldades para falar, gagueira], fobia escolar,
na infância; convulsões
35
ou desmaios; doenças venéreas; outras doenças infecciosas,
tóxicas ou degenerativas; traumatismos cranianos; alergia; intervenções cirúrgicas; hábitos
tóxicos (álcool, tabaco, drogas ilícitas); uso de medicamentos. Faz parte também da HPP a
revisão de sistemas, isto é, o questionamento junto ao paciente relativo a cada aparelho de
seu organismo (cardiovascular, respiratório, etc.).
Na redação da HPP incluem-se todas as doenças importantes relatadas. Não se devem listar
doenças ausentes, já que é impossível citar todas as que existem, a não ser que tal ausência
seja significativa para a formulação do diagnóstico.
6) História fisiológica
São investigados os seguintes elementos relativos à história fisiológica: gestação (da mãe),
nascimento, aleitamento, desenvolvimentopsicomotor (andar, falar, controle esfincteriano),
menarca [primeira menstruação], catamênios [menstruação], atividade sexual, gestações,
partos, abortamentos, menopausa, padrões de sono e de alimentação.
7) História pessoal (Fatores Predisponentes)
Pode-se optar por fundir a HPP, a história fisiológica, a história pessoal e a história social,
sob a denominação de história pessoal. Caso se mantenha a história pessoal como um item
mais restrito, pesquisam-se as seguintes informações:
- Infância: personalidade, socialização, jogos e brincadeiras, aproveitamento escolar,
ansiedade de separação.
- Adolescência: desempenho escolar, uso de álcool e drogas, delinquência, relacionamentos
interpessoais.
- Sexualidade: iniciação, preferência, orientação, número de parceiros, frequência.
- Vida profissional: vocações; estabilidade no emprego; relacionamento com chefes,
subordinados e colegas; desempenho.
- Personalidade pré-mórbida: relacionamentos sociais, interesses, hábitos de lazer e
culturais, padrão de humor, agressividade, introversão/extroversão, egoísmo, altruísmo,
independência/dependência, atividade/passividade, valore, adaptação ao ambiente.
35
As convulsões generalizadas podem ser: De ausência: geralmente ocorrem em crianças. Como o nome implica, a
pessoa fica ausente do mundo consciente por um breve período. Clônicas: causam convulsões ou movimentos
involuntários em ambos os lados do corpo. Mioclônicas: envolvem o movimento involuntário da parte superior do
corpo e dos membros. Tônicas: resultam na contração súbita dos músculos. Essas convulsões são mais comuns durante
o sono. Atônicas: envolvem a perda do controle muscular, fazendo a pessoa desmaiar ou cair. Tônico-clônicas:
envolvem uma combinação dos sintomas das convulsões tônicas e clônicas.
25
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
8) História social
Fazem parte da história social informações relativas à moradia – condições sanitárias,
pessoas com quem convive, número de cômodos, privacidade, características sócio-
demográficas da região; situação socioeconômica; características socioculturais; atividade
ocupacional atual; situação previdenciária; vínculo com o sistema de saúde; atividades
religiosas e políticas; antecedentes criminais.
9) História familiar (Fator Predisponente)
A história familiar abrange dados relacionados a: doenças psiquiátricas e não psiquiátricas;
ter sido a gravidez desejada ou não pelos pais do paciente, separação dos pais, quem criou o
paciente; ordem de nascimento entre os irmãos, diferença de idade; características de
personalidade dos familiares, o relacionamento entre estes e destes com o paciente; atitude
da família diante da doença do paciente; relacionamento com o cônjuge e filhos.
O exame psíquico
O exame psíquico também é chamado de exame do estado mental, exame mental, exame
psicopatológico, exame psiquiátrico. Ele começa no primeiro contato com o paciente, antes de se
obterem os dados de identificação. O psiquiatra experiente será capaz de realizar a maior parte do
exame do estado mental ao mesmo tempo em que completa a tomada da história. [...]
No exame psíquico, são descritas apenas as alterações presenciadas durante a entrevista. Portanto,
na redação do exame psíquico, expressões como no momento ou durante a entrevista são
redundantes. De um momento para outro, a sintomatologia psiquiátrica pode mudar – como podem
mudar a frequência cardíaca, a pressão arterial, etc. -, constituindo assim um outro exame psíquico.
Nos casos em que a sintomatologia é intermitente, o que não é raro com alucinações e com
alterações do nível de consciência, um exame psíquico isolado pode ser pouco revelador. Uma
possível solução seria tornar o exame psíquico mais amplo, compreendendo mais de uma
observação, com intervalos de horas ou dias entre uma e outra.
Na redação, é conveniente a descrição das condições nas quais se realizou ou exame: se no
domicílio do paciente, em consultório ou ambulatório, em quarto de hospital, ou numa enfermaria;
se havia mais alguém presente.
Há uma influência mútua entre as funções mentais. Na verdade, qualquer subdivisão das funções
mentais é artificial, e as diversas funções psíquicas são avaliadas de forma praticamente simultânea.
As funções psíquicas podem alterar-se quantitativa ou qualitativamente.
Além do registro das alterações psicopatológicas, faz parte do exame psíquico a descrição das
funções mentais preservadas. Não devem ser consideradas as possíveis causas dos fenômenos: são
apontadas todas as alterações presentes, mesmo que, por exemplo, se acredite que elas sejam
devidas à medicação em uso. Para a avaliação de algumas funções, como memória, orientação,
inteligência, etc., são necessárias perguntas mais específicas ou mesmo testes. A redação do exame
psíquico deve restringir-se a uma descrição dos fenômenos observados, sem o uso de termos
técnicos.
Súmula psicopatológica
Os itens que compõem a súmula psicopatológica são: (1) aparência; (2) atitude; (3) consciência; (4)
atenção; (5) sensopercepção; (6) memória; (7) fala e linguagem; (8) pensamento; (9) inteligência;
26
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
(10) imaginação; (11) conação
36
; (12) psicomotricidade; (13) pragmatismo
37
; (14) humor e
afetividade; (15) orientação
38
; (16) consciência do eu; (17) prospecção
39
; (18) consciência de
morbidade.
Esses mesmos elementos são examinados no exame psíquico. A súmula psicopatológica e o exame
psíquico possuem o mesmo conteúdo, sendo a súmula um resumo do exame psíquico: a partir de
um exame psíquico bem feito, qualquer outra pessoa terá que formular a mesma súmula
psicopatológica. Além disso, na súmula torna-se explícita a subdivisão das funções mentais e são
utilizados termos técnicos.
Não há uma uniformidade quanto a uma configuração ideal da súmula, nem quanto ao número ou
ordem de apresentação dos itens. [...]
Diagnóstico psiquiátrico
[...] As doenças são apenas conceitos, abstrações criadas pelo homem, que podem ser a qualquer
momento modificadas ou descartadas. Constituem condições relacionadas a desconforto, dor,
incapacitação ou morte, mas que só vão ser consideradas doenças em função de muitos fatores
(sociais, econômicos, biológicos, etc.).
São levantadas algumas objeções à formulação de diagnósticos. Uma delas está relacionada à ideia
de que cada pessoa é uma realidade única e inclassificável: ‘não existem doenças, mas doentes.’
Afirma-se ainda que o diagnóstico é estigmatizante, e que ele apenas serviria para rotular as pessoas
diferentes, permitindo e legitimando o poder médico, o controle social sobre o indivíduo
desadaptado ou questionador.
Mas, entre diagnosticar e reduzir a pessoa que recebeu o diagnóstico a um rótulo, há uma grande
diferença. Embora possua algumas desvantagens e possa ser usado indevidamente, o diagnóstico
36
Conação – “[...] conjunto de atividades psíquicas direcionadas para a ação. Incluem-se as funções conativas os
impulsos e a vontade.” (CHENIAUX, 2013, p.117)
37
Pragmatismo – “[...] capacidade de colocar em prática, de realizar de forma eficaz, aquilo que se deseja ou que foi
planejado. Portanto, ele não pode ser avaliado se a conação está diminuída: se o paciente nada quer, o distúrbio não está
na transposição do querer para a realização. De certa forma, o pragmatismo serve como uma medida do grau de eficácia
das funções psíquicas em seu conjunto (Motta, 1995). O pragmatismo só pode se alterar quantitativamente,e para
menos: hipopragmatismo e apragmatismo. O exame do pragmatismo implica, em primeiro lugar, identificar os
interesses e objetivos do paciente, e, em segundo, avaliar a adequação do comportamento quanto à realização de tais
objetivos. Todos os transtornos mentais levam a acerto grau de hipopragmatismo, uns mais, outros menos. O maníaco,
apesar da hiperbullia (intensificação da vontade), está hipopragmático: seus objetivos mudam constantemente e ele não
consegue terminar nada que inicia.” (CHENIAUX, 2013, p.130)
38
Orientação – “é a capacidade de se situar em relação a si mesmo e ao ambiente. Não é propriamente uma função
psíquica; consiste, de fato, no resultado dos rendimentos e da integração de diversas funções psíquicas – como a
percepção, a atenção, a memória, o pensamento, a inteligência e o afeto. A orientação resulta especialmente da
apercepção (ou apreensão, compreensão intelectual). A apercepção representa a capacidade de relacionar entre si as
percepções para alcançar a significação do contexto. Por exemplo, na tela do televisor vemos um extenso gramado com
algumas marcações brancas e duas traves, além de um bola e homens uniformizados correndo, e, através da apercepção,
concluímos que se trata de uma partida de futebol.” (CHENIAUX, 2013, p.152)
39
Prospecção – “[...] consiste no planejamento que o indivíduo faz quanto à própria vida, e reflete a expectativa que ele
tem em relação ao futuro. O exame da prospecção se faz perguntando-se diretamente ao paciente o que ele planeja
fazer, por exemplo, quando tiver alta hospitalar – se estiver internado -, ou mesmo num futuro mais distante. Os planos
para o futuro podem estar ausentes ou presentes. Se estão presentes, podem ser adequados e exequíveis, ou então
inadequados e inexequíveis – incompatíveis com a realidade do paciente. Pacientes delirantes costumam formular
planos absurdos e inexequíveis: por exemplo, eliminar todas as doenças do mundo. Os deprimidos em geral são
pessimistas, e nada esperam do futuro. Os maníacos, ao contrário, são muito otimistas, e muitas vezes formulam planos
cuja execução está além de suas possibilidades. Em alguns indivíduos com demência ou retardo mental, em função do
prejuízo intelectivo, noções abstratas como a de tempo podem estar ausentes, e a vida psíquica se limita à realidade
imediata, sendo impossível a prospecção.” (CHENIAUX, 2013, p.168)
27
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
representa uma necessidade prática na medicina e na ciência. As finalidades principais do
diagnóstico são: comunicação – permitir uma linguagem comum – e previsão (‘diagnóstico e
prognóstico’). Além disso, o diagnóstico favorece a investigação científica e fundamenta as
medidas terapêuticas e preventivas.” (CHENIAUX, 2013, p. 5-11)
A entrevista com o paciente
40
"Harry Stack Sullivan (1983) afirmava que o domínio da técnica de realizar entrevistas é o que
qualifica especificamente o profissional habilidoso. Nesse sentido, por exemplo, ele define o
psiquiatra (poderia ser um psicólogo clínico ou enfermeiro em saúde mental) como “um perito do
campo das relações interpessoais”, ou seja, um expert em realizar entrevistas que sejam realmente
úteis, pelas informações que fornecem e pelos efeitos terapêuticos que exercem sobre os pacientes.
Assim, a técnica e a habilidade em realizar entrevistas são atributos fundamentais e insubstituíveis
do profissional de saúde em geral e de saúde mental em particular. Tal habilidade é, em parte,
aprendida e, em outra, intuitiva, patrimônio da personalidade do profissional, de sua sensibilidade
nas relações pessoais. É a respeito dos aspectos passíveis de serem desenvolvidos, aprendidos,
corrigidos e aprofundados que trata este capítulo. [...]
De início, pode-se afirmar que a habilidade do entrevistador se revela pelas perguntas que formula,
por aquelas que evita formular e pela decisão de quando e como falar ou apenas calar. Também é
atributo essencial do entrevistador a capacidade de estabelecer uma relação ao mesmo tempo
empática [rapport] e tecnicamente útil do ponto de vista humano.
É fundamental que o profissional possa estar em condições de acolher o paciente em seu
sofrimento, de ouvi-lo realmente, escutando-o em suas dificuldades e idiossincrasias. Além de
paciência e respeito, o profissional necessita de certa têmpera e habilidade para estabelecer limites
aos pacientes invasivos ou agressivos, e, assim, proteger-se e assegurar o contexto da entrevista. Às
vezes, uma entrevista bem-conduzida é aquela na qual o profissional fala muito pouco e ouve
pacientemente o enfermo. Outras vezes, o paciente e a situação “exigem” que o entrevistador seja
mais ativo, mais participante, falando mais, fazendo muitas perguntas, intervindo mais
frequentemente. Isso varia muito em função:
1. Do paciente, da sua personalidade, do seu estado mental e emocional no momento, das suas
capacidades cognitivas, etc. Às vezes, o entrevistador precisa ouvir muito, pois o paciente “precisa
muito falar, precisa desabafar”; outras vezes, o entrevistador deve falar mais para que o paciente
não se sinta muito tenso ou retraído.
2. Do contexto institucional da entrevista (caso a entrevista se realize em pronto-socorro,
enfermaria, ambulatório, centro de saúde, CAPS, consultório, etc.).
3. Dos objetivos da entrevista (diagnóstico clínico; estabelecimento de vínculo terapêutico inicial
[rapport]; entrevista para psicoterapia, tratamento farmacológico, orientação familiar, conjugal,
pesquisa, finalidades forenses, trabalhistas, etc.).
4. E, finalmente, mas não menos importante, da personalidade do entrevistador. Alguns
profissionais são ótimos entrevistadores, falam muito pouco durante a entrevista, sendo discretos e
introvertidos; outros só conseguem trabalhar bem e realizar boas entrevistas sendo espontaneamente
falantes e extrovertidos.
Deve-se ressaltar que, de modo geral, algumas atitudes são, na maior parte das vezes, inadequadas e
improdutivas, devendo o profissional, sempre que possível, evitar:
40
DALGALARRONDO, P., 2008, p. 66-84. As chaves e destaques são do professor da matéria.
28
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
1. Posturas rígidas, estereotipadas, fórmulas que o profissional acha que funcionaram bem com
alguns pacientes e, portanto, devem funcionar com todos. Assim, ele deve buscar uma atitude
flexível, que seja adequada à personalidade do doente, aos sintomas que apresenta no momento, à
sua bagagem cultural, aos seus valores e à sua linguagem.
2. Atitude excessivamente neutra ou fria, que, muito frequentemente em nossa cultura, transmite ao
paciente sensação de distância e desprezo.
3. Reações exageradamente emotivas ou artificialmente calorosas, que produzem, na maioria das
vezes, uma falsa intimidade. Uma atitude receptiva e calorosa, mas discreta, de respeito e
consideração pelo paciente, é o ideal para a primeira entrevista. Criar um clima de confiança
para que a história do doente surja em sua plenitude tem grande utilidade tanto diagnóstica como
terapêutica.
4. Comentários valorativos ou emitir julgamentos sobre o que o paciente relata ou apresenta.
5. Reações emocionais intensas de pena ou compaixão. O paciente desesperadamente transtornado,
aos prantos, em uma situação existencial dramática, beneficia-se mais de um profissional que
acolhe tal sofrimento de forma empática, mas discreta, que de um profissional que se desespera
junto com ele.
6. Responder com hostilidade ou agressão às investidas hostis ou agressivasde alguns pacientes. O
profissional deve se esforçar por demonstrar serenidade e firmeza diante de um doente agressivo ou
muito hostil. Também deve ficar claro que, na entrevista, há limites. O profissional procura
responder, ao paciente que eleva a voz e se exalta, sempre em voz mais baixa que ele. Em algumas
situações, apesar de não revidar às agressões, o profissional deve mostrar ao paciente que ele está
sendo inadequadamente hostil e que não aceita agressão física ou verbal exagerada. Querelas e
discussões acirradas costumam ser inúteis no contato com os pacientes.
7. Entrevistas excessivamente prolixas, nas quais o paciente fala, fala, fala, mas, no fundo, não diz
nada de substancial sobre seu sofrimento. Fala, às vezes, para se esconder, para dissuadir a si
mesmo e ao entrevistador. Nesse sentido, o profissional deve ter a habilidade de conduzir a
entrevista para termos e pontos mais significativos, interrompendo a fala do paciente quando julgar
necessário.
8. Fazer muitas anotações durante a entrevista, pois, em alguns casos, isso pode transmitir ao
paciente que as anotações são mais importantes que a própria entrevista (o profissional precisa
observar se o paciente se sente incomodado enquanto anota).
Uma dificuldade comum nas entrevistas realizadas em serviços públicos é a falta de tempo dos
profissionais, excesso de trabalho, estresse e condições físicas (arquitetônicas) de atendimento
precárias. Assim, muitas vezes o profissional de saúde está impaciente para ouvir pessoas com
queixas pouco precisas (os “poliqueixosos”), rejeita aqueles doentes que informam de forma vaga
ou que estão muito desorganizados psiquicamente. Entretanto, no atendimento em saúde, a
paciência do entrevistador é fundamental. Às vezes, o profissional dispõe de não mais que 5 ou 10
minutos (p. ex., no pronto-socorro ou em um ambulatório repleto de pacientes à espera), mas, se
nesse pouco tempo, puder ouvir e examinar o doente com paciência e respeito, criando uma
atmosfera de confiança e empatia, mesmo com as restrições de tempo, isso poderá propiciar o início
de um trabalho de boa qualidade. Muitas vezes, não é a quantidade de tempo com o paciente que
mais conta, mas a qualidade da atenção que o profissional consegue lhe oferecer.
Assim, o profissional, ao entrar em contato com cada novo paciente, deve preparar seu espírito para
encarar o desafio de conhecer essa pessoa, formular um diagnóstico, entender, quando possível,
29
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
algo do que realmente se passa em seu interior. Aqui, a paciência é um dos elementos mais
fundamentais. Não é possível saber quantas entrevistas e quanto tempo serão necessários para
conhecer adequadamente o paciente. A experiência e a atitude do profissional, curiosa, atenta e
receptiva, determinam o quão profundo e abrangente será o conhecimento extraído das entrevistas.
A(s) primeira(s) entrevista(s)
A entrevista inicial é considerada um momento crucial no diagnóstico e no tratamento em saúde
mental. Esse primeiro contato, sendo bem-conduzido, deve produzir no paciente uma sensação de
confiança e de esperança em relação ao alívio do sofrimento. Entrevistas iniciais desencontradas,
desastrosas, nas quais o profissional é, involuntariamente ou não, negligente ou hostil com o
paciente, em geral são seguidas de abandono do tratamento.
Logo no início, o olhar e, com ele, toda a comunicação não-verbal, já tem sua importância: é o
centro da comunicação, que inclui toda a carga emocional do ver e ser visto, do gesto, da postura,
das vestimentas, do modo de sorrir ou expressar sofrimento. Mayer-Gross, Slater e Roth (1976)
assinalam, nesse sentido, que: ‘A primeira impressão tem o seu valor próprio e dificilmente poderá
ser recapturada em ocasiões posteriores...’.
E prosseguem:
[...] com maior frequência, essa impressão é correta, mesmo que desapareça aos poucos ou passe a ser considerada
como enganosa, quando a atenção estiver voltada para os detalhes, as ideias e as informações fornecidas pelo paciente.
Em um trabalho clássico sobre o diagnóstico em psiquiatria, Sandifer, Hordern e Grenn (1970)
observaram por meio de pesquisas empíricas que, em profissionais com alguma experiência clínica,
a entrevista em psiquiatria não funciona como uma “máquina de somar simples”, na qual o passar
do tempo vai acrescentando informações, em progressão linear. De fato, esses pesquisadores
verificaram que os primeiros três minutos da entrevista são extremamente significativos, sendo
muitas vezes úteis tanto para a identificação do perfil dominante de sintomas do paciente como para
a formulação da hipótese diagnóstica final.
A primeira impressão que o paciente produz no entrevistador é, na verdade, o produto de uma
mescla de muitos fatores, como a experiência clínica do profissional, a transferência que o paciente
estabelece com ele, aspectos contratransferenciais do entrevistador e valores pessoais e preconceitos
inevitáveis que o profissional, querendo ou não, carrega consigo. Além disso, há grande dose de
intuição que, lapidada pelo estudo e amadurecida pela prática clínica, pode se tornar instrumento
valioso de conhecimento e ação.
30
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Aspecto global do paciente
Um fator importante nas fases iniciais da avaliação do paciente é notar e descrever o aspecto global
do paciente, expresso pelo corpo e pela postura corporal, pela indumentária (roupas, sapatos, etc.),
pelos acessórios (colares, brincos, piercing, etc.), por detalhes como maquiagem, perfumes, odores,
marcas corporais (tatuagens, queimaduras, etc.), porte e atitudes psicológicas específicas e globais
do paciente. A aparência do paciente, suas vestes, seu olhar, sua postura, revela muito de seu
estado mental interior e é recurso fundamental para o diagnóstico. Nesse sentido, o Quadro 8.2,
organizado a partir dos trabalhos de Betta (1972) e de Cheniaux (2005), visa resumir os principais
padrões observados no consultório.
Além disso, para descrever a aparência do paciente, convém relatar o que se observou de forma
detalhada, objetiva e precisa, mas sem precipitações ou inferências indevidas. O Quadro 8.3
apresenta os termos descritivos relativos à aparência física do paciente (Carlat, 2007).
31
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
(continua)
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Apresentação
Logo no início da entrevista, é conveniente que o profissional se apresente, dizendo seu nome, se
necessário, sua profissão e especialidade e, se for o caso, a razão da entrevista. A confidencialidade,
a privacidade e o sigilo poderão ser explicitamente garantidos caso se note o paciente tímido ou
desconfiado ou se o contexto da entre- vista assim o exigir. Para isso, em alguns casos, é importante
que o profissional garanta explicitamente o que segue:
1. A entrevista e o tratamento ocorrerão com sigilo e discrição. O profissional esclarece ao paciente
(e aos familiares, quando necessário) que aquilo que for relatado durante as entrevistas não será
revelado a ninguém. Caso isso se faça necessário por exigência do próprio tratamento
(encaminhamento a um outro profissional, carta à alguma instituição, informação à família para
proteger o paciente, etc.), só será feito apósconsulta e anuência do entrevistado. O sigilo poderá ser
rompido no caso de ideias, planos ou atos seriamente auto ou heterodestrutivos.
2. Em qualquer caso, é preciso ressaltar a necessidade de colaboração mútua entre o profissional e o
paciente. Ambos devem trabalhar ativamente para que o processo terapêutico tenha bons resultados.
Na primeira entrevista, o profissional deve inicialmente colher os dados sociodemográficos básicos,
como nome, idade, data de nascimento, naturalidade e procedência, estado civil, com quem reside,
profissão, atividade profissional, religião, etc. Após colher tais informações, que de fato situam
quem é o paciente que chega ao serviço de saúde, deve-se solicitar que o paciente relate a queixa
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
básica, o sofrimento, a dificuldade ou o conflito que o traz à consulta. Esse primeiro relato deve
ocorrer de forma predominantemente livre, para que o paciente expresse de forma espontânea seus
sintomas e sinais. O profissional ouve o relato e observa, além do conteúdo daquilo que o
paciente conta, como esse relato é feito, o “estilo” do paciente, sua aparência e suas atitudes
básicas. O profissional deve, nesse momento, muito mais ouvir que falar. Suas intervenções
objetivam facilitar o prosseguimento da fala do paciente. O psiquiatra espanhol Vallejo Nágera
(1944) aconselhava ao jovem profissional:
El explorador hablará poco y dejará que hable mucho el enfermo; la regla más importante del interrogatorio es que el
alienista hable muy poco, para que sea locuaz el alienado.
Cabe lembrar, entretanto, que, embora a atitude básica do entrevistador na fase inicial da avaliação
seja de escuta, isso não significa colocar-se em posição totalmente passiva. Bem ao contrário, pois,
como enfatizado por Sullivan (1983), os dados essenciais da clínica psicopatológica emergem
basicamente de uma observação participativa, da interação intensa entre paciente e
profissional. Nesse sentido, Sullivan (1983) afirmava que
[...] o entrevistador desempenha um papel muito ativo na introdução de interrogações, não para mostrar que é
inteligente ou cético, mas literalmente para ter certeza que ele sabe o que está sendo dito. [...] Quase toda vez que se
pergunta, ‘Bem, você quer dizer assim e assado?’, o paciente é um pouco mais claro sobre o que ele quer dizer...
O entrevistador deve lembrar que, nas fases mais iniciais da entrevista, o paciente pode estar muito
ansioso e usar manobras e mecanismos defensivos como riso, silêncio, perguntas inadequadas,
comentários circunstanciais sobre o profissional, etc. Por exemplo: “O senhor é jovem, não?”; ou
‘A senhora é casada, tem filhos?”; ou, ainda, “Por que será que todo psiquiatra é tão sério (ou tem
barba, etc.)...?’. São estratégias involuntárias ou propositais que podem estar sendo utilizadas
para que o paciente evite falar de si, de seu sofrimento, de suas dificuldades. O profissional
deve lidar com tais manobras, lembrando polidamente ao paciente que a entrevista tem por
finalidade identificar seu problema para, assim, poder melhor ajudá-lo. Ele também deve deixar
claro para o paciente que a pessoa do entrevistador não é o tema da entrevista.
Nos primeiros encontros, o entrevistador deve evitar pausas e silêncios prolongados, que possam
aumentar muito o nível de ansiedade do paciente e deixar a entrevista muito tensa e improdutiva.
Alguns procedimentos podem facilitar a entrevista no momento em que o entrevistador lida com o
silêncio do paciente:
1. O entrevistador deve fazer perguntas e colocações breves que assinalem a sua presença efetiva e
mostrem ao paciente que ele está atento e tranquilo para ouvi-lo.
2. O entrevistador deve evitar perguntas muito direcionadas, fechadas, que possam ser respondidas
com um sim ou um não categóricos; também deve evitar perguntas muito longas e complexas,
difíceis de serem compreendidas pelo paciente.
3. É sempre melhor intervenções do tipo ‘Como foi isso?’, ‘Explique melhor’, ‘Conte um pouco
mais sobre isso’, que questões como ‘Por quê?’ ou ‘Qual a causa?’. Estas últimas estimulam o
paciente a fechar e encerrar a sua fala.
4. O entrevistador deve buscar para cada paciente em particular o tipo de intervenção que facilite a
continuidade de sua fala.
35
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Mesmo realizando entrevistas abertas, nos primeiros encontros, o profissional deve ter a estrutura
da entrevista em sua mente, permitindo ao mesmo tempo que o paciente conte sua própria versão.
Falar de forma livre permite que o entrevistador avalie melhor a personalidade e, por vezes, alguns
conflitos do paciente. A fala livre também tem frequentemente uma dimensão catártica, de
‘desabafo’, que pode ser muito útil e servir de alívio para o paciente.
À medida que o relato feito pelo doente progride, tal relato vai sendo ‘encaixado’ em determinada
estrutura de história, que está na mente do entrevistador. Surgirão lacunas nessa história, que
saltarão à mente deste. Após a fase de exposição livre, ele fará as perguntas que faltam para
completar e esclarecer os pontos importantes da história e da anamnese de modo geral.
A duração e o número de entrevistas iniciais, com fins diagnósticos e de planejamento terapêutico
não são fixos, dependendo do contexto institucional onde se dá a prática profissional, da
complexidade e da gravidade do caso e da habilidade do entrevistador.
Transferência e contratransferência
O conceito de transferência, introduzido por Freud, é um elemento
fundamental que o profissional deve conhecer para realizar as
entrevistas de forma mais habilidosa, entendendo e tratando seus
pacientes de modo menos ingênuo, mais profundo e sensível.
A transferência compreende atitudes e sentimentos cuja origem são
basicamente inconscientes para o paciente. Inclui tanto sentimentos
positivos (como confiança, amor e carinho) quanto negativos (como
raiva, hostilidade, inveja, etc.). Esses sentimentos são uma repetição inconsciente do passado; o
analista (ou médico, profissional de saúde, professor, etc.) passa a ocupar, no presente, o lugar que o
pai ou a mãe ocupavam no passado. O paciente não se dá conta, dizia Freud [1926] (1986), da
natureza de tais sentimentos, e os considera como novas experiências reais, em vez de identificar o
que eles realmente são, ou seja, reflexos, repetições de sentimentos do passado. O próprio Freud
assim descreveu a transferência:
Eles desenvolvem com seu médico relações emocionais, tanto de caráter afetuoso como hostil, que não se baseiam na
situação real, sendo antes derivadas de suas relações com os pais (o complexo de Édipo). A transferência é a prova de
que os adultos não superaram sua dependência infantil.
Assim, para Dewald (1981), a transferência é
uma forma de deslocamento que dirige para um objeto presente todos aqueles impulsos, defesas, atitudes, sentimentos
e respostas que experimentou e desenvolveu no relacionamento com os primeiros objetos de sua vida.
Segundo Jung (1999), a transferência não é mais que o processo comum de projeção: o paciente
tende a projetar inconscientemente no médico os afetos básicos que nutria (e nutre) pelas figuras
significativas de sua vida. Trata-se, então, de um fenômeno geral, não apenas exclusivo da relação
analítica. Para Jung, pode-se observar a transferência sempre que uma relação íntima entre duas
pessoas se estabelece. O paciente projeta inconscientemente, no profissional de saúde, ossentimentos primordiais que nutria por seus pais na infância. Sente o seu médico atual como o pai
poderoso e onipotente (ou cruel e autoritário) da infância, ou a enfermeira como a mãe carinhosa e
preocupada (ou omissa e negligente) de seus primeiros anos.
36
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
A contratransferência é, em certo sentido, a transferência que o profissional estabelece com seus
pacientes. Da mesma forma que o paciente, o profissional de saúde projeta inconscientemente, no
paciente, sentimentos que nutria no passado por pessoas significativas de sua vida. Sem saber por
que, este ou aquele paciente desperta no profissional sentimentos de raiva, medo, piedade, carinho,
repulsa, etc. Ao identificar tais reações contratransferenciais e conscientizar-se que estas têm a ver
com seus próprios conflitos, o profissional poderá lidar de forma mais racional e objetiva com o que
está ocorrendo na relação profissional.
[...]
Entrevista e dados fornecidos por um “informante
[...] muitas vezes faz-se necessária a informação de familiares, amigos, conhecidos e outros. Os
dados fornecidos pelo ‘informante’ também padecem de certo subjetivismo, que o entrevistador
deve levar em conta. A mãe, o pai ou o cônjuge do(a) paciente, por exemplo, têm a sua visão do
caso, e não ‘a visão’ (correta e absoluta) do caso. De qualquer forma, muitas vezes as informações
fornecidas pelos acompanhantes podem revelar dados mais confiáveis, claros e significativos.
Pacientes com quadro demencial, déficit cognitivo, em estado psicótico grave e em mutismo
geralmente não conseguem informar dados sobre sua história, sendo, nesses casos, fundamental a
contribuição do acompanhante.
Sobre a confiabilidade dos dados obtidos: simulação e dissimulação
O profissional com alguma experiência em psicopatologia aprende prontamente que os dados
obtidos em uma entrevista podem estar subestimados ou superestimados. Não é raro o paciente
esconder deliberadamente um sintoma que vem apresentando, às vezes, de forma intensa; ou relatar
um sintoma ou vivência que de fato não apresenta. O profissional deve exercer toda a sua
habilidade para buscar diferenciar as informações verdadeiras, confiáveis e consistentes das falsas e
inconsistentes.
Denomina-se dissimulação o ato de esconder ou negar voluntariamente a presença de sinais e
sintomas psicopatológicos. Ao ser questionado sobre se tem algum temor, se tem cismas ou acredita
que alguém quer prejudicá-lo, o paciente, mesmo tendo ideação paranóide ou delírio persecutório,
nega terminantemente experimentar tais vivências. Em geral, tal negativa ocorre por medo de ser
internado, de receber medicamentos ou de ser rotulado como louco. O paciente nega alucinações
auditivas, mas cochicha frequentemente com um ser imaginário que está ao seu lado, ou seja, apesar
de dissimular as alucinações para o profissional, revela indícios de sua presença por meio de
comportamento que é incapaz de dissimular.
Já a simulação é a tentativa do paciente de criar, apresentar, como o faria um ator, voluntariamente,
um sintoma, sinal ou vivência que de fato não tem (Turner, 1997). O paciente diz ouvir vozes, estar
profundamente deprimido ou ter fortes dores nas costas, tudo isso no sentido de obter algo.
Geralmente, o paciente que simula sintomas está buscando obter algum ganho com isso: dispensa
do trabalho, aposentadoria, internação para não ser encontrado por traficantes de drogas, etc. Deve-
se ressaltar que a simulação é, por definição, um ato voluntário e consciente, não se incluindo
aqui os sintomas psicogênicos (como paralisia histérica) sem base orgânica, mas com suas raízes
em processos e conflitos inconscientes.
37
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Crítica do paciente e insight em relação a sintomas e transtornos
Em psicopatologia, um aspecto característico da clínica é que parte dos pacientes, apesar de
apresentar sintomas graves que comprometem profundamente suas vidas, não os reconhece como
tal (Lewis, 1934- 2004). Foi proposto que o insight não é um fenômeno categorial e
unidimensional, mas inclui vários níveis de intensidade e distintas dimensões (Dantas; Banzato,
2004). Por exemplo, David (1990) propôs ser o insight composto por três componentes:
1. consciência da doença;
2. modo de nomear ou renomear os sintomas;
3. adesão a tratamentos propostos.
Em particular, pacientes graves, como psicóticos (Dantas; Banzato, 2007), bipolares em quadro
maníaco, alguns dependentes químicos, com retardo mental, síndromes autísticas ou demências,
apresentam graves prejuízos quanto ao insight (Antoine et al., 2004).
Perspectiva transversal versus longitudinal
A avaliação psiquiátrica possui uma dimensão longitudinal (histórica, temporal) e outra
transversal (momentânea, atual) da vida do paciente. Ao se colher a dimensão longitudinal, deve-
se buscar descrever relações temporais de forma clara e compreensível e observar como o paciente
relata, sente e reage aos eventos passados.
Sem a dimensão longitudinal, a transversal fica obscura e incompleta, sendo difícil a sua devida
apreciação. Assim, as relações temporais ficam perdidas.
38
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Relato do caso por escrito
Ao final da entrevista, forma-se o esboço do caso na mente do entrevistador. O estado mental foi
observado durante toda a coleta dos dados, surgindo, dessa forma, a síntese do estado mental do
paciente para o profissional. O relato do caso por escrito deve conter, de preferência, as próprias
palavras que o paciente e os informantes usaram ao descrever os sintomas mais relevantes. O uso de
termos técnicos deve ser sóbrio e proporcional ao grau de conhecimento que o profissional obteve
do caso. Já a caligrafia deve ser legível, e o estilo, claro, preciso, com frases e parágrafos curtos.
Deve-se evitar terminologia por demais tecnicista que geralmente revela a insegurança do
profissional, que busca compensar, na linguagem rebuscada, os vácuos de sua ignorância sobre o
caso, ou que quer demonstrar de modo exibicionista sua erudição e seu saber médico. Além disso, o
profissional deve evitar a interpretação precoce dos dados, seja ela psicológica, psicanalítica,
sociológica ou biológica. Uma interpretação precoce, feita muitas vezes de modo apressado e
excessivo pelo profissional que quer logo ver um sentido em tudo, pode impedir que se enxergue o
paciente que está à sua frente.
É preciso lembrar que, apesar de serem descritos fenômenos irracionais em uma história
psicopatológica, muitas vezes de forma desorganizada e caótica, o relato deve ser organizado e
coerente, facilitando o estabelecimento de hipóteses diagnósticas e o planejamento terapêutico
adequado. O paciente tem o direito de ser confuso, contraditório, ilógico; já o profissional, ao
relatar o caso, não.
Além do aspecto médico essencial, que é o diagnóstico clínico, a entrevista e o seu relato devem
fornecer uma compreensão suficientemente ampla da personalidade do paciente, da dinâmica de sua
família e de seu meio sociocultural imediato.
O relato escrito de um caso tem, além de valor médico, importante valor legal. É um documento
que, sendo bem redigido, poderá ser decisivo em questões legais futuras, impensáveis no momento
em que a avaliação está sendo feita.
No momento em que o entrevistador redige os dados que coletou, deve lembrar que a história
clínica deve ser redigida com uma linguagemsimples, precisa e compreensível. O relato deve ser
pormenorizado, mas não prolixo, detalhado naquilo que é essencial ao caso e conciso naquilo que é
secundário.
Não será enfocada aqui a entrevista de crianças e adolescentes. Um bom protocolo de avaliação
psicopatológica desses grupos etários é o sugerido pela American Academy of Child and
Adolescent Psychiatry (1997). Também são recomendados os trabalhos de Shaffer, Lucas e Richters
(1999), o livro de Michael Rutter e Eric Taylor (2002), assim como a obra acessível e didática de
Robert Goodman e Stephen Scott (2004).
39
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
N E U R O S E S
FÓBICA
HISTÉRICA
OBSESSIVA
DEPRESSIVA
ANSIEDADE
HIPOCONDRÍACA TRANSFERÊNCIA
P S I C O S E S
ESQUIZOFRENIA
TRANSTORNO BIPOLAR
DO HUMOR
MELANCOLIA
TRANSTORNOS INTERMEDIÁRIOS
BORDERLINES SOCIOPATIAS
DISSOCIAÇÃO DA REALIDADE
(ORIENTAÇÃO A PARTIR DOS JUÍZOS DE REALIDADE)
N O R M A I S
___________________________________________________________________________________________________
40
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Processos psíquicos e suas alterações
ALTERAÇÕES DA CONSCIÊNCIA (VIGILÂNCIA)
41
Consciência psicológica – [...] soma total das experiências conscientes de um
indivíduo em determinado momento. Nesse sentido, a consciência é o que se
designa campo da consciência. É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do
sujeito que se volta para a realidade. Na relação do Eu com o meio ambiente a
consciência é a capacidade de o indivíduo entrar em contato com a realidade,
perceber e conhecer os seus objetos. (DALGALARRONDO, 2008, p. 88)
Segundo Jaspers, consciência é ‘o todo momentâneo da vida psíquica.’ Em outras palavras,
constitui uma síntese ou integração de todos os processos mentais em determinado momento.
As características da consciência psicológica são as seguintes:
- trata-se de uma vivência interna e atual;
- está relacionada à distinção eu/não eu;
- é o conhecimento (o dar-se conta) que o indivíduo tem de suas vivências internas, de seu corpo e
do mundo externo – podendo ser didaticamente dividida em consciência do eu [autopsíquica] e
consciência dos objetos [alopsíquica];
- segundo a fenomenologia, possui intencionalidade (‘toda consciência é sempre consciência de
algo’ [Husserl], é doadora de significado às coisas.
- é reflexiva, ou seja, o indivíduo tem consciência de que tem consciência, e assim pode refletir
sobre os seus conteúdos psíquicos. (CHENIAUX, 2013, p. 20-1)
Alterações quantitativas patológicas da consciência
Rebaixamento do nível de consciência
A expressão rebaixamento do nível de consciência refere-se a um nível de consciência entre a
lucidez e o coma. Constitui uma perda da clareza da consciência: a percepção do mundo externo
torna-se vaga e imprecisa (aumenta o limiar para a captação de estímulos externos), havendo ainda
uma dificuldade para a introspecção, para a apreensão do próprio eu.
O rebaixamento do nível de consciência está relacionado a um comprometimento difuso,
generalizado, do funcionamento cerebral. Sempre possui uma etiologia orgânica. Ocorre um déficit
cognitivo global. Estão especialmente afetadas as funções de atenção, orientação alopsíquica,
pensamento, inteligência, sensopercepção, memória, afeto e psicomotricidade. [...]
Obnubilação
42
simples e oniróide
“O doente revela-se indiferente, apático, sem iniciativa e sem espontaneidade.” (PAIM, 1993,
p.201)
41
Tópico construído a partir de recortes e adaptações de: CHENIAUX, 2013, p. 20-32; DALGALARRONDO, 2008, p.
88-101; PAIM, 1993, p. 193-218.
42
Obnubilação vem do latim, ob + nubilare, que significa ‘por uma nuvem na frente’, ‘enevoar’. Em psicopatologia, o
turvamento da consciência.
41
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
A obnubilação simples caracteriza-se pela ausência de sintomas psicóticos. O paciente apresenta,
além de intensa sonolência, hipoprosexia (diminuição global da atenção), desorientação no tempo e
no espaço, pensamento empobrecido e alentecido (às vezes, mutismo), dificuldades de compreensão
e de raciocínio, hipoestesia (alteração quantitativa da sensopercepção), hipomnesia de fixação e de
evocação (distúrbio da memória), apatia e inibição psicomotora (às vezes, estupor).
A obnubilação oniróide
43
caracteriza-se pela presença de sintomas psicóticos, especialmente
ilusões e pseudoalucinações
44
visuais (menos frequentemente, de outras modalidades sensoriais)
[...], além de ideias deliróides (muitas vezes, persecutórias). Há ainda dificuldade de concentração
(com exacerbação da atenção espontânea), desorientação têmporo-espacial, desagregação do
pensamento, dificuldade de compreensão e de raciocínio, amnésia de fixação e de evocação,
exaltação afetiva (muitas vezes, ansiedade), perplexidade e agitação psicomotora. Esse quadro
corresponde à amência [ou, confusão mental], termo introduzido por Meynert em l890.
O delirium tremens
45
, um quadro grave de abstinência alcóolica, costuma cursar com obnubilação
oniróide. O indivíduo encontra-se agitado e assustado, sem saber onde está e não conseguindo
43
Oniroide – do grego oneiros, que significa ‘sonhos’.
44
Pseudoalucinação – “percepção falsa que, ao contrário das alucinações, se reconhece como irreal. Kandinsky, que a
descreveu pela primeira vez em 1885, a denomina como a percepção que prescinde de ‘corporeidade’ que aparece no
‘espaço’ subjetivo interno’ e, no entanto, ‘se apresenta com toda a adequação perceptiva dos elementos sensíveis’.
(DORSCH, 2001, p. 711) “Resultam de atividade muito intensa da imaginação, em virtude da qual a imagem adquire o
aspecto de percepção real. É comum, normalmente, depois de uma viagem a bordo, nos sentirmos, em terra, como se
estivessemos navegando. Observa-se, por exemplo, como sintoma patológico, no delírio espírita episódico.”
(http://www.psiquiatriageral.com.br/psicopatologia/01percepcao.htm)
45
Delirium – “Síndrome cerebral orgânica sem etiologia específica caracterizada pela presença simultânea de
perturbações da consciência e da atenção, da percepção, do pensamento, da memória, do comportamento psicomotor,
das emoções e do ritmo vigília-sono. A duração é variável e a gravidade varia de formas leves a formas muito graves.
(CID -10)
A característica essencial de um delirium consiste de uma perturbação da consciência acompanhada por uma alteração
na cognição que não pode ser melhor explicada por uma Demência preexistente ou em evolução. A perturbação
desenvolve-se em um curto período de tempo, geralmente de horas a dias, tendendo a flutuar no decorrer do dia.
Existem evidências, a partir da anamnese, exame físico ou testes laboratoriais, de que o delirium é uma consequência
fisiológica direta de uma condição médica geral, Intoxicação ou Abstinência de Substância, uso de um medicamento ou
exposição a uma toxina, ou uma combinação desses fatores.
A perturbação na consciência manifesta-se por uma redução da clareza da consciência em relação ao ambiente. A
capacidade para focalizar, manter ou deslocar a atenção está prejudicada. As perguntas precisam ser repetidas porque a
atenção do indivíduo se dispersa, ou o indivíduo pode perseverar na resposta a uma pergunta anterior, ao invés de
deslocar adequadamente o foco de sua atenção.
A pessoase distrai facilmente com estímulos irrelevantes. Em vista desses problemas, pode ser difícil (ou impossível)
engajá-la em uma conversação.
Há uma alteração concomitante na cognição (que pode incluir comprometimento da memória, desorientação ou
perturbação da linguagem) ou desenvolvimento de uma perturbação da percepção.
O comprometimento da memória é evidente, acomete com maior frequência a memória recente e pode ser testado
pedindo-se que a pessoa memorize vários objetos sem relação entre si ou uma frase curta e os repita após alguns
minutos de distração. A desorientação é habitualmente manifestada por desorientação temporal (por ex., pensa ser de
manhã no meio da noite) ou espacial (por ex., pensa estar em casa, não em um hospital). No delirium leve, a
desorientação temporal pode ser o primeiro sintoma a aparecer.
A desorientação autopsíquica é menos comum. A perturbação na linguagem pode se evidenciar como disnomia (isto é,
prejuízo na capacidade de nomear objetos) ou disgrafia (isto é, prejuízo na capacidade de escrever). Em alguns casos, o
discurso é dispersivo e irrelevante; em outros, compulsivo e incoerente, com mudanças imprevisíveis de assunto.
O profissional pode ter dificuldade para avaliar alterações na função cognitiva, pois o indivíduo pode mostrar-se
desatento e incoerente. Sob essas circunstâncias, é útil rever cuidadosamente a sua história e obter informações a partir
de outros informantes, particularmente membros da família.
As perturbações na cognição podem incluir interpretações errôneas, ilusões ou alucinações. O bater de uma porta, por
exemplo, pode ser interpretado pela pessoa como um tiro (interpretação incorreta); as dobras nas roupas de cama podem
42
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
identificar corretamente as pessoas ao seu redor. Com grande frequência, ele vê ou sente sobre sua
pele pequenos animais repugnantes – como baratas, aranhas, lagartixas ou ratos -, os quais não estão
realmente presentes.
Coma
O termo coma vem do grego e significa sono profundo. O quadro caracteriza-se
por abolição da consciência. Nesse estado, o indivíduo não pode ser despertado
nem por estímulos dolorosos muito intensos. Ocorre perda total da motricidade
voluntária e da sensibilidade. Embora a vida somática prossiga, não há sinal de
atividade psíquica.”46
Sopor
Segundo o dicionário Aurélio, sopor significa “modorra, sonolência; sono pesado.
Estado comatoso, letargia.” Em psicopatologia, refere-se a um estado de marcante
turvação da consciência no qual o paciente pode ser apenas despertado por estímulos
enérgicos, sobretudo de natureza dolorosa.
Embora o indivíduo ainda possa apresentar
reações de defesa ele é incapaz de qualquer
ação espontânea. O paciente sempre se
mostra evidentemente sonolento. A
psicomotricidade encontra-se mais inibida
do que nos estados de obnubilação. O
traçado eletroencefalográfico acha-se
globalmente lentificado, podendo surgir as
ondas mais lentas, do tipo delta e teta.
47
parecer-lhe objetos animados (ilusão); ou o indivíduo pode "ver" um grupo de pessoas pairando sobre a cama, quando
na verdade não há ninguém ali (alucinação).
Embora as interpretações sensoriais incorretas sejam habitualmente do tipo visual, elas podem afetar também outras
modalidades sensoriais. As percepções errôneas variam de simples e uniformes até altamente complexas. O indivíduo
pode ter uma convicção delirante do caráter de realidade das alucinações e apresentar respostas emocionais e
comportamentais congruentes com seu conteúdo.
A perturbação desenvolve-se em um curto período de tempo e tende a apresentar flutuações no decorrer do dia. Durante
a ronda hospitalar matinal, por exemplo, a pessoa pode mostrar-se coerente e cooperativa, mas à noite pode insistir em
arrancar o equipamento intravenoso e voltar à casa dos pais já falecidos. (DSM-IV) A abstinência e várias outras
condições médicas não relacionadas ao alcoolismo podem causar esse problema. Como dentro do estado de delirium da
abstinência alcoólica são comuns os tremores intensos ou mesmo convulsão, o nome ficou como Delirium Tremens.
Um traço comum no delírio tremens, mas nem sempre presente são as alucinações táteis e visuais em que o paciente
"vê" insetos ou animais asquerosos próximos ou pelo seu corpo [Síndrome de Ekbom, Delírio Parasitário ou Delírio
Dermatozóico, é uma condição na qual o paciente apresenta a crença inabalável de que está infestado por parasitas,
sejam sobre sua pele, ou mesmo percorrendo o interior do seu corpo]. Esse tipo de alucinação pode levar o paciente a
um estado de agitação violenta para tentar livrar-se dos animais que o atacam. Pode ocorrer também uma forma de
alucinação induzida, por exemplo, o entrevistador pergunta ao paciente se está vendo as formigas andando em cima da
mesa sem que nada exista e o paciente passa a ver os insetos sugeridos. O Delirim Tremens é uma condição
potencialmente fatal, principalmente nos dias quentes e nos pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre é devida
ao desequilíbrio hidro-eletrolítico do corpo.”( http://www.psicosite.com.br)
46
Adaptado de CHENIAUX, 2013, p. 22-3.
47
Adapatado de DALGALARRONDO, 2008, p.96.
43
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Estados crepusculares
48
ou estreitamento da consciência
Outra alteração da qualidade da consciência é o Estado Crepuscular ou, conforme preferem alguns o
Estreitamento da Consciência. Neste estado o paciente parece estar totalmente voltado para dentro.
Perambula como que ausente psiquicamente, automático e sem objetivos claramente definidos. O
pensamento pode ser comparado a uma vivência onírica, pouco clara e da qual as lembranças são
embasadas e turvas, não raras vezes nada é lembrado depois de passado o episódio do Estado
Crepuscular.
Pode manifestar-se um pavor irracional ou uma agressividade extremada durante a crise. Entre as
patologias que comumente proporcionam o Estado Crepuscular a Epilepsia tem lugar destacado mas
não monopoliza todos os pacientes que apresentam este quadro. Situações psicotiformes reativas
49
e
vivências muito traumáticas podem "empurrar" o paciente para este estado de afastamento
momentâneo de uma realidade sofrível.
Portanto, o Estado Crepuscular é um estreitamento transitório da consciência, com a
conservação de uma atividade mais ou menos coordenada, mais ou menos automática.
Normalmente há falsa aparência de que o paciente está compreendendo a situação. Em geral, a
percepção do mundo exterior é imperfeita ou de todo inexistente.
Em alguns casos de Estado Crepuscular, é possível observar a presença de alucinações e ideias
deliróides, mas isso não é a regra. A conduta do enfermo durante o episódio, à primeira vista, pode
parecer ordenada mas, na realidade, a maioria de suas atitudes é automática.
Durante o Estado Crepuscular o paciente pode estar dominado por impulsos e, uma vez conservada
sua capacidade de decisão e de ação, pode praticar atos incompreensíveis, agressivos, impulsivos e
violentos contra pessoas. Essa espécie de automatismo resulta que o doente pode executar uma série
de atos coordenados e com certa finalidade, embora inconscientes, tais como andar sem destino,
enfrentar situações complexas como o sistema de transportes de uma grande cidade e até mesmo
adquirir passagens e realizar viagens de longo percurso.
Os Estados Crepusculares costumam desaparecer rapidamente, mas, em algunscasos, podem durar
muitos dias. Apresentam-se e terminam de modo súbito, acompanhando-se de amnésia em relação
às vivências acessuais [por acessos].” (http://www.psiqweb.med.br). Os estados crepusculares
podem ocorrer associados com despertar do sono [consciência hipnopômpica
50
], à epilepsia, ao
sonambulismo, terror noturno, quadros alucinatórios, intoxicação alcoólica e delirium.
48
De crepúsculo, “luminosidade, de intensidade crescente ao amanhecer (crepúsculo matutino) e decrescente ao
anoitecer (crepúsculo vespertino), proveniente da iluminação das camadas superiores da atmosfera pelo Sol, quando,
embora escondido, está próximo do horizonte: Figura: Decadência, declínio; ocaso. (AURÉLIO)
49
Ou seja, formas psicóticas reativas à determinados eventos. P.ex., uma grave depressão, produzida pela morte de ente
querido, com manifestações delirantes.
50
Convém diferenciar duas condições da consciência relacionadas ao sono/vigília: 1ª. a hipnagógica. Ou seja, a
condição de sonolência, precedente ao sono e, 2ª. hipnopômpica. Ou seja, a condição anterior à vigília, logo após o
sono.
44
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Onirismo
“Estado semelhante a sonho em uma condição de vigília.” (APA, 2010,
p. 664)
O termo Onirismo é empregado para designar os estados de sonho
patológico. O Onirismo se caracteriza pela predominância das
representações imaginárias, resultando em perturbações sensoriais e
sensitivas. Nesta situação, muitas imagens aparecem como nitidamente
alucinatórias e tais representações compõem o fenômeno intelectual
inicial, daí adquirem a forma de percepção, colocando em atividade os
centros sensoriais das zonas sensitivas e sensoriais terminais.
Henri Ey comenta esse tema e diz que as lembranças e as imagens que participam da composição
fantástica do Onirismo são, elas próprias, dotadas de forte coeficiente de realidade, de tal sorte que
o conjunto adquire um perfeito caráter de nitidez e de realidade cênica. Será exatamente essa
realidade cênica que constitui o material imaginário do qual, pelo menos em certos momentos, o
paciente toma consciência.
Muitos autores estudaram esses casos de perturbações do sonhar, relatados como sonhos intensos e
vivenciados por uma consciência em Estado Crepuscular, o que determina uma profunda alteração
do imaginário e do próprio ato de sonhar. A descrição desses casos de Onirismo mostra a existência
de uma obnubilação da consciência durante um Estado Crepuscular, onde as cenas oníricas
desenroladas durante este Estado Crepuscular pudessem ser relembradas ao retornar o paciente às
condições de normalidade. (http://www.psiqweb.med.br)
45
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Alterações da consciência do eu
51
52
[...] As alterações da consciência do eu normalmente estão relacionadas ao fato do indivíduo sentir-
se possuído por entidades sobrenaturais, especialmente espíritos e demônios. No grupo das
Alterações da Consciência do Eu incluem-se os seguintes transtornos:
Estado de Êxtase
Estado mental transitório, no qual o indivíduo perde todo contato com o mundo
sensível e experimenta um profundo sentimento de beatitude ou de graça, por
encontrar-se absorvido na contemplação mística e/ou espiritual. Algumas
pessoas com prática em meditação podem experimentar estados de êxtases de
duração muito variável. Portanto, para se atingir voluntariamente o estado de
êxtase, é necessário um treinamento especial ou preparação através de
exercícios espirituais.
Também alguns estados psicopatológicos, como por exemplo na histeria, em
alguns casos de esquizofrenia ou em crises de mania podemos observar Estados de Êxtase. Nesses
casos a consciência fica polarizada ao objeto da meditação e a pessoa abstêm-se voluntariamente de
contatar o restante da realidade, tal como ocorreria numa auto-hipnose.
53
Transitivismo
Transitivismo é o fenômeno onde o enfermo sente-se transformado em
outra pessoa, como se fosse uma despersonalização
54
. Em
psicopatologia, o transitivismo consiste no desaparecimento da relação
entre o corpo e os objetos do meio exterior, como uma impossibilidade
de estabelecer a distinção entre aquilo que é próprio do indivíduo e
aquilo que pertence ao meio exterior, havendo um apagamento dos
limites entre a pessoa e o exterior.
Apesar do fenômeno poder aparecer sob a influência de severa angústia
55
, na maioria das vezes
prenuncia o desenvolvimento de uma psicose ou, quando não, ocorre na vigência de uma lesão dos
51
Tópico construído a partir de recortes e adaptações de: CHENIAUX, 2013, p. 159-67; DALGALARRONDO, 2008,
p. 245-56; PAIM, 1993, p. 193-218.
52
“[...] De maneira muito geral, ele [o Ego/Eu] define a pessoa enquanto unidade distinta. Deve-se assinalar uma
ambiguidade fundamental: o ego/eu se baseia numa experiência subjetiva (consciência de si), que garante sua unidade, e
ao mesmo tempo é o agente que governa as relações da pessoa com o mundo. [...] [Em psicanálise] O ego/eu aparece,
com efeito, como uma instância dentro da personalidade, cujas principais funções são a adaptação ao real e a
manutenção da coerência interna. O ego/eu é, ao mesmo tempo, uma instância integrada onde se forjam as
representações conscientes, especialmente a representação de si, e a agência defensiva que, para corresponder às duas
exigências do princípio da realidade e da coerência interna, deve, diante de qualquer sinal de ameaça em relação a esses
dois princípios (proveniente das representações internas ou das percepções), instalar mecanismos de recalque. O ego/eu
é, portanto, ao mesmo tempo, a sede da consciência e o agente de operações conscientes e inconscientes. (DORON;
PAROT, 2006, p. 270)
53
O Estado do Êxtase é também considerado uma alteração do humor.
54
Vide página 52.
55
Cabe aqui fazer algumas diferenciações importantes: “O termo angústia relaciona-se diretamente à sensação de
aperto no peito e na garganta, de compressão, sufocamento. Assemelha-se muito à ansiedade, mas tem conotação mais
corporal e mais relacionada ao passado. Do ponto de vista existencial, a angústia tem significado mais marcante, é algo
que define a condição humana, é um tipo de vivência mais ‘pesada’, mais fundamental que a experiência da ansiedade.
Ansiedade, por seu turno, é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro,
inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou
dilatação, tensão muscular, parestesias (sensações anormais - formigamento, picada, queimadura - não causadas por
46
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
hemisférios cerebrais ou alguma outra da maturação neurológica. Por falta dessa maturação o
fenômeno pode ser observado como manifestação patológica em crianças entre 4 e 8 anos de idade.
No curso da esquizofrenia o Transitivismo, se apresenta como sintoma de primeira ordem, quando
então o enfermo situa em seu corpo um objeto exterior; seus órgãos se transformaram ou se
comunicam uns com os outros, sem consideração as realidades anatômicas. Nessa situação as ações
parecem comandadas de fora e acompanhadas da sensação de influência.
Possessão
O fenômeno da possessão tem caráter universal e a psicopatologia tenta
explicá-lo em termos de sugestão ou autossugestão ou como resultado
de desdobramentos do eu. Evidentemente a crença cultural em espíritos
desempenhapapel importante no aparecimento dessas possessões.
Oesterreich acha que através da provocação da possessão, o ser humano
primitivo procurou voluntariamente a presença consciente do metafísico
e o desejo da presença divina, ambos oferecendo forte incentivo para
continuar a cultivar estados de possessão.
Também os desejos de comunicação com ancestrais e outros parentes mortos desempenham
importante papel na possessão do moderno espiritismo. Em seu estudo, Oesterreich procurou
destacar as relações da possessão com as condições socioculturais existentes entre os povos onde o
fenômeno é observado e, pode-se dizer que, na sociedade humana, a possessão começa a
desaparecer assim que a crença nos espíritos vai perdendo influência. A partir do momento em que
não se leva a sério a possibilidade da possessão, começa a faltar a necessária autossugestão.
Na clínica psiquiátrica a possessão é sempre acompanhada do sentimento de desdobramento da
personalidade e se manifesta em sua forma típica no delírio de possessão demoníaca ou no
Transtorno de Possessão. Há também um evidente aspecto de contaminação (normalmente entre
pacientes histéricos) desses fenômenos de possessão, onde ocorrem "epidemias" de possuídos.
Licantropia
Podem ser observados também os casos de delírio de possessão por
animais, dos quais os mais célebres são as possessões por lobos,
neste caso chamado de Licantropia (Lobisomem). A Licantropia foi
uma das manifestações muito comuns na Idade Média. Os pacientes
com este quadro se achavam transformados em lobo, ou tinham uma
serpente dentro do corpo, ou outros animais.
Na manifestação completa de Licantropia o paciente se torna "corpo
e alma" do animal. Com frequência, a possessão é vivida não como a inclusão de um corpo em
outro corpo, mas como a animação do corpo por um espírito do animal.
Convicção de inexistência
Trata-se de uma convicção de inexistência do próprio corpo ou de certos órgãos, ou de que o
enfermo não se encontra vivo e sim morto. O paciente apresenta uma forma de anulação da própria
corporalidade ou existência.” (http://www.psiqweb.med.br)
estímulo exterior ao corpo), tremores, sudorese, tonturas, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna,
apreensão, desconforto mental, etc.). [...] (DALGALARRONDO, 2008, p. 166)
47
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA ATENÇÃO
56
Atenção (ou, direção da consciência) – estado de consciência em que os sentidos estão
seletivamente focados em aspectos do ambiente e o sistema nervoso central
está em estado de prontidão para responder a estímulos. Uma vez que os
seres humanos não possuem uma capacidade infinita de prestar atenção a
todas as coisas – focalizam certos aspectos às custas de outros -, grande parte
da pesquisa nesse campo investiga os fatores que influenciam a atenção e
procura compreender os mecanismos neurais envolvidos no processamento seletivo da informação.
Por exemplo, a experiência passada afeta a experiência perceptiva (percebemos coisas que têm
significado para nós) e algumas atividades (p.ex., leitura) requerem participação consciente (i.e.,
atenção intencional). Entretanto, a atenção também pode ser capturada (i.e., dirigida
involuntariamente) por qualidades de estímulos do ambiente, tais como intensidade, movimento,
repetição, contraste e novidade. (APA, 2010, p. 107)
Em função da atividade predominante, distinguem-se várias formas de atenção: sensorial, motora e
intelectual.
A atenção sensorial está relacionada aos nossos cinco sentidos (visão, audição, olfato, tato e
paladar). Por exemplo, ao provarmos uma bebida, concentramos nossa percepção (atenção) no
paladar a fim de discernirmos o gosto da bebida.
“Na atenção motora, a consciência está concentrada na execução de uma atividade: o exemplo
típico é encontrado na aprendizagem de exercícios físicos e, mais comumente, na formação
intencional dos hábitos. O papel da atenção, nesse caso, consiste em limitar o campo aos seus
movimentos voluntários, à exclusão dos elementos automáticos e a reduzir os elementos intelectuais
do próprio movimento. (PAIM, 1993, p. 164)
Atenção intelectual – “Representa o ato de reflexão, quando necessitamos resolver qualquer
problema em que se encontre implicado o raciocínio. [...]” (PAIM, 1993, p. 164)
Distração – Chama-se distração a dois estados diferentes. Em primeiro lugar é uma incapacidade
quase completa de fixar a atenção. Bleuler cita como exemplo a falta de
tenacidade e a supervigilância observada no escolar, que desvia a todo
instante a atenção de seus deveres para os mais simples ruídos do meio
exterior. No segundo caso, trata-se de uma concentração muito forte em
determinado assunto, que impede a apreensão de tudo aquilo que não se
refere ao motivo particular de atenção: é a distração do sábio, do
estudioso que se acha interessado vivamente por uma ideia ou por uma
pesquisa científica. Os efeitos, nos dois casos, são idênticos, pois a consciência não focaliza,
suficientemente, as impressões que a atingem. [...] (PAIM, 1993, p. 170)
Alguns autores referem-se a distraibilidade, um estado patológico que se exprime por instabilidade
marcante e mobilidade acentuada da atenção voluntária, com dificuldade ou incapacidade para
56
Tópico construído a partir de recortes e adaptações de: CHENIAUX, 2013, p. 33-40; DALGALARRONDO, 2008, p.
102-08; PAIM, 1993, p. 161-72.
48
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
fixar-se ou deter-se em qualquer coisa que implique esforço produtivo. A atenção do indivíduo é
muito facilmente desviada de um objeto para outro.
Hiperprosexia – refere-se ao aumento quantitativo da atenção. Refere-se a uma superatividade da
atenção espontânea. Caracteriza-se, essencialmente, por uma extrema habilidade de atenção, o que
leva o indivíduo a atender, simultaneamente, às mais variadas impressões sensoriais, sem que fixe a
atenção sobre um objeto determinado. [...]
Nas síndromes maníacas, os enfermos são levados a prestar atenção forçada aos deferentes
estímulos sensoriais. [...] (PAIM, 1993, p. 171)
Hipoprosexia – Consiste no enfraquecimento acentuada da atenção em todos os seus aspectos. É
observada nos estados infecciosos acompanhados de obnubilação da consciência, na embriaguez
alcoólica aguda, em casos de transtornos mentais tóxicos, na amência e em certas reações vivenciais
anormais. Os estados depressivos sempre se acompanham de diminuição da capacidade de
concentrar a atenção, particularmente nos quadros de depressão ansiosa, que podem chegar, em
casos de estupor melancólicos, a um diminuição acentuada da capacidade de concentrar a atenção.
(PAIM, 1993, p. 171)
Aprosexia – É a falta absoluta de atenção, dependendo esse tipo de transtorno de acentuada
deficiência intelectual ou de inibição cortical. Esse estado difere da insuficiente capacidade de
concentração de origem afetiva e das manifestações de negativismos esquizofrênico. O sintoma foi
descrito por Chavigny como sequela da confusão mental de guerra. Observa-se a aprosexia na
amência, no estupor e nos estados demenciais. (PAIM, 1993, p. 172)
No transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) o paciente “apresenta atenção ou vigilância excessiva
e desregulada. O paciente demonstra alterações no controle executivo (funções frontais), na
memória de trabalho (intimamente relacionadaà atenção e na seleção de respostas.
Na esquizofrenia, o déficit de atenção é central. A filtragem de informação irrelevante geralmente
consiste em uma dificuldade importante dos sujeitos acometidos. Pacientes esquizofrênicos
costumam ter dificuldades em anular adequadamente estímulos sensoriais irrelevantes enquanto
realizam determinada tarefa; são muito suscetíveis de distrair-se com estímulos visuais e auditivos
externos.[...]
No transtorno do déficit de atenção/hiperatividade
57
(TDAH) - A característica essencial do
transtorno de déficit de atenção/hiperatividade é um padrão
persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que
interfere no funcionamento ou no desenvolvimento. A desatenção
manifesta-se comportamentalmente no TDAH como divagação em
tarefas, falta de persistência, dificuldade de manter o foco e
desorganização – e não constitui consequência de desafio ou falta de
57
TDAH - O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas
genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por
sintomas de desatenção, inquietude (hiperatividade) e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do
Déficit de Atenção). (http://www.tdah.org.br)
49
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
compreensão. A hiperatividade refere-se a atividade motora excessiva (como uma criança que corre
por tudo) quando não apropriado ou remexer, batucar ou conversar em excesso. Nos adultos, a
hiperatividade pode se manifestar como inquietude extrema ou esgotamento dos outros com sua
atividade. A impulsividade refere-se a ações precipitadas que ocorrem no momento sem
premeditação e com elevado potencial para dano à pessoa (p. ex., atravessar uma rua sem olhar). A
impulsividade pode ser reflexo de um desejo de recompensas imediatas ou de incapacidade de
postergar a gratificação [baixo limiar de frustração]. Comportamentos impulsivos podem se
manifestar com intromissão social (p. ex., interromper os outros em excesso) e/ou tomada de
decisões importantes sem considerações acerca das consequências no longo prazo (p. ex., assumir
um emprego sem informações adequadas).
O TDAH começa na infância. A exigência de que vários sintomas estejam presentes antes dos 12
anos de idade exprime a importância de uma apresentação clínica substancial durante a infância. Ao
mesmo tempo, uma idade de início mais precoce não é especificada devido a dificuldades para se
estabelecer retrospectivamente um início na infância. As lembranças dos adultos sobre sintomas na
infância tendem a não ser confiáveis, sendo benéfico obter informações complementares.
Manifestações do transtorno devem estar presentes em mais de um ambiente (p. ex., em casa e na
escola, no trabalho). A confirmação de sintomas substanciais em vários ambientes não costuma ser
feita com precisão sem uma consulta a informantes que tenham visto o indivíduo em tais ambientes.
É comum os sintomas variarem conforme o contexto em um determinado ambiente. Sinais do
transtorno podem ser mínimos ou ausentes quando o indivíduo está recebendo recompensas
frequentes por comportamento apropriado, está sob supervisão, está em uma situação nova, está
envolvido em atividades especialmente interessantes, recebe estímulos externos consistentes (p. ex.,
através de telas eletrônicas) ou está interagindo em situações individualizadas (p. ex., em um
consultório).
Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico
Atrasos leves no desenvolvimento linguístico, motor ou social não são específicos do TDAH,
embora costumem ser comórbidos. As características associadas podem incluir baixa tolerância a
frustração, irritabilidade ou labilidade do humor. Mesmo na ausência de um transtorno específico da
aprendizagem, o desempenho acadêmico ou profissional costuma estar prejudicado.
Comportamento desatento está associado a vários processos cognitivos subjacentes, e indivíduos
com TDAH podem exibir problemas cognitivos em testes de atenção, função executiva ou
memória, embora esses testes não sejam suficientemente sensíveis ou específicos para servir como
índices diagnósticos. No início da vida adulta, o TDAH está associado a risco aumentado de
tentativa de suicídio, principalmente quando em comorbidade com transtornos do humor, da
conduta ou por uso de substância.
Não há marcador biológico que seja diagnóstico de TDAH. Como grupo, na comparação com pares,
crianças com TDAH apresentam eletrencefalogramas com aumento de ondas lentas, volume
encefálico total reduzido na ressonância magnética e, possivelmente, atraso na maturação cortical
no sentido póstero-anterior, embora esses achados não sejam diagnósticos. Nos raros casos em que
há uma causa genética conhecida (p. ex., síndrome do X-frágil, síndrome da deleção 22q11), a
apresentação do TDAH ainda deve ser diagnosticada. (DSM-5)
50
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA ORIENTAÇÃO
58
Denomina-se orientação o complexo de funções psíquicas em virtude das
quais temos consciência, em cada momento de nossa vida, da situação
real em que nos encontramos.
A orientação se encontra intimamente ligada às noções de espaço e de
tempo.
Tipos de orientação
A orientação divide-se em autopsíquica e alopsíquica, classificação essa proposta por Wernicke. A
orientação autopsíquica refere-se à própria pessoa, e consiste num dos elementos da consciência do
eu. A orientação alopsíquica refere-se ao mundo externo e poder ser subdividida em: orientação
temporal (‘saber o dia da semana, o dia do mês, o mês e o ano em que se está. [...]’), orientação
espacial (‘significa exatamente onde se está – por exemplo, se estiver internado, saber que se está
num hospital, e o nome deste -, incluindo a rua, o bairro, a cidade etc.’), orientação quanto às
outras pessoas (‘estar orientado quanto as outras pessoas significa poder reconhece-las, identifica-
las corretamente’) e orientação situacional (‘significa saber a razão pela qual se está em
determinado lugar e que tipo de relação se tem com as pessoas ali presentes. Por exemplo, o
indivíduo saber que está num hospital como paciente, e que está sendo examinado por um médico.
A orientação situacional está estreitamente relacionada com as outras formas de orientação
alopsíquica e também com a orientação autopsíquica.’) (CHENIAUX, 2013, p. 152-3)
Examinar a orientação, tanto a auto quanto a alopsíquica, estamos avaliando as noções do paciente
sobre si mesmo, sobre seu estado atual e sobre suas relações com o restante do ambiente. Tendo em
vista a complexidade funcional da orientação, os quadros onde esta se encontra alterada não devem
ser considerados como sintomas autônomos, senão como consequência de vários fatores
psicopatológicos.
Na desorientação autopsíquica total, o indivíduo não sabe quem é. Normalmente esse
desconhecimento da própria identidade se verifica nas amnésias totais traumáticas, nos estados de
acentuada obnubilação da consciência ou na evolução extremas dos processos demenciais. Bem
mais frequente é a chamada falsa orientação autopsíquica. É a que acomete os enfermos delirantes,
quando se auto atribuem uma nova identidade ou quando assimilam a personalidade de figuras
fantasiosas de seus delírios.
Nos esquizofrênicos pode ocorrer ainda uma dupla orientação, isto é, uma orientação verdadeira ao
lado de uma falsa. É o caso, por exemplo,do paciente que responde encontrar-se numa igreja,
escola ou prisão, porque se delira acreditando incumbido de alta missão moral ou educativa, ou
porque se supõe prisioneiro, sequestrado, vítima da polícia, de associações secretas, de organizações
políticas internacionais mas, ao mesmo tempo ou logo a seguir, mostra saber que se acha no
hospital e que está diante do médico.
Os distúrbios da orientação podem manifestar-se de modo global ou atingir, preferentemente,
apenas uma das facetas da orientação. É, por exemplo, o que acontece no delirium tremens, onde se
observa conservada a orientação autopsíquica, junto com a mais completa desorientação alopsíquica
58
Tópico construído a partir de recortes e adaptações de: CHENIAUX, 2013, p.152-58; DALGALARRONDO, 2008, p.
109-13; PAIM, 1993, p. 181-92.
51
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
(no tempo, no espaço e nas relações do enfermo com o ambiente). Em geral, nos doentes mentais,
verifica-se que, em primeiro lugar, há perda da orientação no tempo, depois no espaço e, por último,
em relação à própria pessoa.
Também pode ocorrer desorientação temporo-espacial completa diante de extremo desinteresse,
como acontece em esquizofrênicos, ou dependente de insuficiente apreensão e fixação de estímulos
sensoriais por desatenção e desinteresse nos depressivos mais graves (estupor depressivo). Pode
ainda ocorrer ofuscação geral da consciência, logo, desorientação global, nos estados crepusculares
epilépticos e histéricos, ou nas síndromes confusionais das psicoses tóxicas e infecciosas agudas.
Examinar a orientação, embora seja relativamente simples e acessível, pode ser considerada como a
investigação da essência estrutural da consciência. Portanto, para bem avaliar suas perturbações,
não basta nos limitarmos às perguntinhas costumeiras da rotina hospitalar mas sim, nos dedicarmos
à uma entrevista mais completa, demorada e minuciosa.
Desorientação Apática
[...] a Desorientação Apática depende de alterações da percepção, ou seja, de alterações decorrentes
da vida instintivo-afetiva. Embora o paciente esteja lúcido e perceba com clareza sensorial o que se
passa no ambiente à sua volta, existe enorme falta de interesse, expressiva inibição psíquica e
insuficiente energia psíquica para a elaboração da representação e do raciocínio. O paciente percebe
todas as particularidades do ambiente mas não tem capacidade para integrar essas informação e
formar um juízo sobre a própria situação. A Desorientação Apática ocorre nos estados de profunda
e grave depressão.
Desorientação Amnéstica
As perturbações da memória, que se acompanham de deficiência ou incapacidade de fixação
resultam numa desorientação no tempo e no espaço denominada de Desorientação Amnéstica.
Caracteriza-se pela incapacidade que o enfermo demonstra para fixar os acontecimentos e,
consequentemente, para orientar-se no tempo, no espaço e em suas relações com as pessoas do
ambiente.
Desorientação Amencial e Desorientação Delirante
Tanto os casos de obnubilação da consciência quanto os estados delirantes se acompanham de
dificuldades da compreensão e, por consequência, de alterações da síntese perceptiva. As
alucinações e a impressão das percepções, observadas nesses casos, influem também no
aparecimento da Desorientação Amencial. Fala-se em Desorientação Amencial para aquela que se
observa no delirium tremens e nas psicoses orgânicas, onde se verificam alucinações e transtornos
da compreensão que dificultam a orientação.
Nas psicoses esquizofrênicas falamos em Desorientação Delirante, onde, apesar da completa
lucidez da consciência, observa-se um tipo de desorientação resultado da adulteração da situação no
tempo e no espaço. Nesses casos, é muito frequente observar também uma dupla orientação, a
delirante ao lado da orientação normal, como dissemos acima. De sorte que os pacientes possam
estar orientados no tempo e no espaço mas, por outro lado, podem acreditar que se encontram numa
prisão ou no inferno.
52
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Desdobramento da Personalidade
Hoje em dia os casos de Desdobramento da Personalidade são considerados como dependentes de
autossugestão, tratando-se em geral de pessoas histriônicas (histéricas), mas, de qualquer forma, há
uma evidente desorientação autopsíquica onde o paciente, desdobrando-se em outra personalidade,
perde a orientação da original.
Despersonalização
O fenômeno conhecido como Despersonalização pode ser observado
em alguns casos de reações afetivas muito intensas, em casos de
acessos febris toxi-infecciosos e em certas intoxicações exógenas.
Trata-se de um estado mental particular, de natureza paroxística, de
rápida ou longa duração, caracterizado por um inexplicável
sentimento de estranheza. Essa sensação de estranheza é
inicialmente relacionada com o meio exterior e se estende,
progressivamente, até a própria personalidade.
Nessa situação o paciente assiste inerte ao desenrolar de sua vida psíquica, como se aquilo não
estivesse relacionado com sua pessoa. Concomitantemente ele conserva um incrível estado de
apatia. (adaptado de www.psiqweb.med.br)
“Experiências de irrealidade, distanciamento ou de ser um observador externo dos próprios
pensamentos, sentimentos, sensações, corpo ou ações (p. ex., alterações da percepção, senso
distorcido do tempo, sensação de irrealidade ou senso de si mesmo irreal ou ausente, anestesia
emocional e/ou física).” (DSM-5)
53
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES NAS VIVÊNCIAS DE TEMPO E ESPAÇO
59
De modo geral, a passagem do tempo é percebido como lenta e vagarosa nos estados depressivos, e
rápida e acelerada nos estados maníacos. O ritmo psíquico também é oposto nesses dois transtornos:
na mania, há o taquipsiquismo geral, com aceleração de todas as funções psíquicas (pensamento,
psicomotricidade, linguagem, etc.), e, na depressão, ocorre o bradipsiquismo, com lentificação de
todas as atividades mentais.
Ilusão sobre a duração do tempo
Trata-se de deformação acentuada da percepção da duração temporal. Ocorre, sobretudo, nas
intoxicações por alucinógenos ou psicoestimulantes (cocaína, anfetamina, etc.), nas fases agudas
e iniciais das psicoses e em situações emocionais especiais e intensas. Ocorre também quando são
recebidas, por exemplo, muitas informações novas; o tempo pode parecer transcorrer de modo
extremamente veloz ou comprimido, ou de forma muito lenta e dilatada.
Atomização do tempo
Vivemos no tempo presente, em um agora que vincula intimamente aos acontecimentos passados e
às possibilidades do porvir. A alteração ou a falta dessa experiência subjetiva natural de fluir
temporal, decorrente da perda ou do enfraquecimento de ambas as margens do tempo (passado e
futuro), produz uma redução quase puntiforme ou atomizada do tempo, fazendo-o parecer uma
sucessão de pontos presentes que não se articulam entre si. O indivíduo não consegue inserir-se
naturalmente na continuidade do devir, adere a momentos quase descontínuos. Esse fenômeno
ocorre nos estados de exaltação e agitação maníaca, geralmente acompanhados da chamada fuga
de ideias e de distraibilidade intensa.
Inibição da sensação de fluir do tempo (inibição do devir subjetivo)
A experiência normal do tempo implica a ampliação de um agora que se estende ao passado e se
dirige ao porvir. Implica também um movimento mental que integra o fluir dos acontecimentos
objetivos e externos à dimensãotemporal subjetiva, ou seja, ao devir da vida subjetiva. A
anormalidade da sensação do fluir do tempo corresponde à falta da sensação do avançar subjetivo
do tempo, na qual o sujeito perde o sincronismo entre o passar do tempo objetivo, cronológico, e o
fluir de seu tempo interno. Isso ocorre em síndromes depressivas graves. Certos pacientes
depressivos expressam a sua vivência do tempo dizendo que o tempo encolheu, que não passa,
deixou de fluir, ou que está passando muito mais devagar que o normal.
Alguns pacientes esquizofrênicos experimentam certa passividade em relação ao fluir do tempo;
sentem que a sua percepção do tempo é controlada por uma instância exterior ao seu Eu. Outros
pacientes esquizofrênicos, geralmente mais graves, sofrem verdadeira desintegração da sensação do
tempo e do espaço.
Pacientes muito ansiosos descrevem uma pressão do tempo, como se o tempo de que dispõem fosse
sempre insuficiente; ‘sinto que nunca vou dar conta de fazer o que devo fazer em determinado
período’. Pacientes obsessivo-compulsivos graves ocasionalmente experimentam uma lentificação
enorme de todas as atividades, sobretudo quando devem completar alguma tarefa.
59
Tópico construído a partir de recortes e adaptações de: CHENIAUX, 2013, p. 152-58; DALGALARRONDO, 2008,
p. 114-18; PAIM, 1993, p. 181-92.
54
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Anormalidades da vivência do espaço
No estado de êxtase, há perda das fronteiras entre o eu e o mundo exterior. Nesse caso (que
também pode ser classificado como transtorno da consciência do eu), o sujeito sente como se
estivesse fundido ao mundo exterior [...].
A vivência do espaço no indivíduo em estado maníaco é a de um espaço extremamente dilatado e
amplo, que invade o das outras pessoas. O maníaco desconhece as fronteiras espaciais e vive como
se todo o espaço exterior fosse seu. Esse espaço não oferece resistências ao seu eu.
Nos quadros depressivos, o espaço exterior pode ser vivenciado como muito encolhido, contraído,
escuro e pouco penetrável pelo indivíduo e pelos outros.
O indivíduo com quadro paranoide vivencia o seu espaço interior como invadido por aspectos
ameaçadores, perigosos e hostis do mundo. O espaço exterior é, em princípio, invasivo, fonte de
perigos e ameaça. No caso do indivíduo com agorafobia, o espaço exterior é percebido como
sufocante, pesado, perigoso e potencialmente aniquilador.
60
60
DALGALARRONDO, 2008, p. 114-7)
55
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA SENSOPERCEPÇÃO (ALUCINAÇÃO)
61
Conceitos básicos
Sensação
Define-se sensação como o fenômeno elementar gerado por estímulos físicos,
químicos ou biológicos variados, originados fora ou dentro do organismo, que
produzem alterações nos órgãos receptores, estimulando-os. Os estímulos
sensoriais fornecem a alimentação sensorial aos sistemas de informação do
organismo. As diferentes formas de sensação são geradas por estímulos sensoriais
específicos, como visuais, táteis, auditivos, olfativos, gustativos,
proprioceptivos
62
e cinestésicos
63
.
Percepção
Por percepção, entende-se a tomada de consciência, pelo indivíduo, do estímulo
sensorial. Arbitrariamente, então, se atribui à sensação a dimensão neuronal, ainda
não plenamente consciente, no processo de sensopercepção. Já a percepção diz
respeito à dimensão propriamente neuropsicológica e psicológica do processo, à
transformação de estímulos puramente sensoriais em fenômenos perceptivos
conscientes. Piéron (1996) define percepção como a tomada de conhecimento
sensorial de objetos ou de fatos exteriores mais ou menos complexos.
A sensação é considerada, portanto, um fenômeno passivo; estímulos físicos (luz, som, pressão) ou
químicos atuam sobre sistemas de recepção do organismo. Já a percepção seria fenômeno ativo; o
sistema nervoso e a mente do sujeito constroem um percepto (ou seja, um conteúdo significativo)
por meio da síntese dos estímulos sensoriais, estímulos esses confrontados com experiências
61
Tópico construído a partir de recortes e adaptações de: CHENIAUX, 2013, p. 41-53; DALGALARRONDO, 2008, p.
119-36; PAIM, 1993, p. 25-70.
62
Proprioceptivos ou Cenestésicos - estímulos originados no interior do próprio organismo. Segundo o dicionário
Aurélio, as cenestesias corresponderiam a “sensação que o indivíduo experimenta, conscientemente, de sua existência;
sensação que tem o indivíduo de que todas as suas funções orgânicas estão normais.”
63
Cinestésicos - Sentido pelo qual se percebem os movimentos musculares, o peso e a posição dos membros.
56
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
passadas registradas na memória e com o contexto sociocultural em que vive o sujeito e que atribui
significado às experiências. Tal percepto, ou seja, a percepção final, é, dessa forma, apreendido pelo
sujeito consciente.
Analise o quadro abaixo:
Imagem (ou imagem perceptiva real)
O elemento básico do processo de sensopercepção é a imagem perceptiva real, ou simplesmente
imagem. A imagem se caracteriza pelas seguintes qualidade:
- Nitidez (a imagem é nítida, seus contorno são precisos);
- Corporeidade (a imagem é viva, corpórea, tem luz, brilho e cores vivas);
- Estabilidade (a imagem percebida é estável, não muda de um momento para outro);
- Extrojeção (a imagem, provinda do espaço exterior, também é percebida nesse espaço);
- Ininfluenciabilidade voluntária (o indivíduo não consegue alterar voluntariamente a imagem
percebida)
- Completitude (a imagem apresenta desenho completo e determinado, com todos os detalhes
diante do observador).
A imaginação é uma atividade psíquica, geralmente voluntária, que consiste na evocação de
imagens percebidas no passado (imagem mnêmica) ou na criação de novas imagens (imagem
criada). A imaginação, ou processo de produção de imagens, geralmente ocorre na ausência de
estímulos sensoriais.
A fantasia, ou fantasma, é uma produção imaginativa, produto minimamente organizado da
imaginação. No sentido psicanalítico, a fantasia pode ser consciente ou inconsciente. Ela se origina
de desejos, temores e conflitos tanto conscientes como inconscientes. A produção de fantasias é
muito frequente e intensa em crianças. Às vezes, é dominante em certos tipos de personalidades,
como nas personalidades histéricas. A produção de fantasias tem uma importante função
psicológica: ajudar o indivíduo a lidar com frustrações, com o desconhecido e, de modo geral, com
os seus conflitos. Muitas pessoas encontram grande prazer em suas atividades fantasmáticas, e os
profissionais da criatividade (artistas, inventores, poetas, etc.) dependem basicamente de sua
capacidade de produzir, desenvolver e elaborar fantasias. [...]
57
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Representação é a reapresentação de uma imagem na consciência, sem a presença real, externa,
do objeto que, em um primeiro momento, gerou uma imagem sensorial. (“A representação é a
reprodução na consciência de percepções passadas.
64
)
A imagem representativa ou mnêmica (representação) se caracteriza por:
- Pouca nitidez (os contornos, geralmente, são borrados);
- Pouca corporeidade (a representação não tem a vida de uma imagem real);
- Instabilidade (a representação aparece e desaparece facilmente do campo da consciência);- Introjeção (a representação é percebida no espaço interno);
- Incompletude (a representação demonstra um desenho indeterminado, apresentando-se
geralmente incompleta e apenas com alguns detalhes).
Existem alguns subtipos de imagem representativa:
- Imagem eidética (eidetismo). É a evocação de uma imagem guardada na memória, ou seja, de
uma representação, de forma muito precisa, com características semelhantes à percepção. A
imagem eidética é experimentada por alguns indivíduos que, por uma capacidade excepcional,
conseguem ver um objeto com muita nitidez e clareza (uma cadeira, a face de uma pessoa, etc.). A
evocação de uma imagem eidética é voluntária e não representa necessariamente sintoma de
transtorno mental.
- Pareidolias. São as imagens visualizadas voluntariamente a partir de
estímulos imprecisos do ambiente. Ao olhar uma nuvem e poder ver
nela um gato ou um elefante, a criança está experimentando o que se
denomina pareidolia. Da mesma forma,
ocorre pareidolia ao se olhar uma folha
com manchas imprecisas e, por meio de
esforço voluntário, visualizar nessas
manchas determinados objetos
65
. Ambas as formas de percepção
artificialmente modificadas devem ser classificadas como pareidolias.
[...]
É preciso distinguir o fenômeno imagem do fenômeno representação. Ao contrário da imagem
perceptiva real, a imagem representativa ou mnêmica (representação) se caracteriza por ser
apenas uma revivescência de uma imagem sensorial determinada, sem que esteja presente o objeto
original que a produziu.
[...]
A diferença entre a experiência vívida da sensopercepção e as experiências da imaginação e da
representação é bem descrita pelo criador da psicologia empírica, o filósofo inglês David Hume
(1711- 1776):
Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente
quando o homem sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e
64
PAIM, 1993, p. 25.
65
O conhecido teste de personalidade Rorschach utiliza tais manchas.
58
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
quando relembra mais tarde essa sensação ou a antecipa pela imaginação. Essas faculdades
podem remedar ou copiar as percepções dos sentidos, mas jamais atingirão a forma e a vivacidade
do sentimento original. O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando operam com todo o seu
vigor, é que representam o seu objeto de maneira tão viva que quase se poderia dizer que os vemos
ou sentimos. [...] O mais vivo pensamento é ainda inferior à mais embotada das sensações (1973,
p. 134)
Alterações da sensopercepção
Alterações quantitativas da sensopercepção
Nas alterações quantitativas, as imagens perceptivas têm intensidade anormal, para mais ou para
menos, configurando hiperestesias, hiperpatias, hipoestesias, anestesias e analgesias.
Eventualmente, esses termos são empregados em neurologia com um sentido um pouco diverso do
utilizado em psicopatologia.
A hiperestesia, no sentido psicopatológico, é a condição na qual as percepções encontram-se
anormalmente aumentadas em sua intensidade ou duração. Os sons são ouvidos de forma muito
amplificada; um ruído parece um estrondo; as imagens visuais e as cores tornam-se mais vivas e
intensas. A hiperestesia ocorre nas intoxicações por alucinógenos, como o LSD
66
(eventualmente
também após a ingestão de substâncias como cocaína, maconha, harmina e harmalina, estas duas
últimas contidas na beberagem [ou, chá] de uso ritual nas religiões Santo Daime e União do
Vegetal), em algumas formas de epilepsia, na enxaqueca, no
hipertireoidismo, na esquizofrenia aguda e em certos quadros
maníacos. Denomina-se hiperpatia, no sentido neurológico,
quando uma sensação desagradável (geralmente de queimação
dolorosa) é produzida por um leve estímulo da pele. A hiperpatia
ocorre tipicamente nas síndromes talâmicas.
Já a hipoestesia, no sentido psicopatológico, é observada em
alguns pacientes depressivos, nos quais o mundo circundante é
percebido como mais escuro; as cores tornam-se mais pálidas e
sem brilho; os alimentos não têm mais sabor; e os odores perdem a
sua intensidade. As hipoestesias táteis, com sentido neurológico, são alterações localizadas em
territórios cutâneos de inervação anatomicamente determinada, compondo as chamadas síndromes
sensitivas de interesse à neurologia clínica. As mais comuns são decorrentes de lesões da medula,
66
O LSD, acrônimo de dietilamida do ácido lisérgico, produz grandes alterações no cérebro, atuando diretamente sobre
o sistema nervoso e provocando fenômenos psíquicos, como alucinações, delírios e ilusões. É uma substância sintética,
produzida em laboratório, que adquiriu popularidade na década de 60, quando não era vista como algo prejudicial à
saúde. Pode ser consumida por via oral, injeção ou inalação, e se apresenta em forma de barras, cápsulas, tiras de
gelatina e líquida; seus efeitos duram de oito a doze horas. Os efeitos físicos dessa droga são: dilatação das pupilas,
sudorese, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, aumento da temperatura, náuseas, vômitos. Os sintomas
psíquicos são alucinações auditivas e visuais, sensibilidade sensorial, confusão, pensamento desordenado, perda do
controle emocional, euforia alternada com angústia, dificuldade de concentração. É importante destacar que os efeitos
do LSD dependem do ambiente, da qualidade da droga e da personalidade da pessoa. O LSD é mais usado por
adolescentes e jovens, que querem experimentar visões e sensações novas e coloridas, pois as formas, cheiros, cores e
situações se modificam, levando a pessoa a criar ilusões e delírios, como por exemplo, paredes que escorregam, mania
de grandeza e perseguição. Pode ocorrer também um “flashback”, fenômeno no qual são sentidos os efeitos da droga
após um período de semanas ou meses sem usá-la. O LSD é conhecido também com outros nomes como doce, ácido,
gota, papel e microponto. (http://www.brasilescola.com/drogas/lsd.htm)
59
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
das raízes medulares dos nervos (hipoestesia em faixa) e dos neurônios periféricos (hipoestesia ‘em
bota’ e ‘em luva’ das clássicas polineuropatias).
Por sua vez, as anestesias táteis implicam a perda da sensação tátil em determinada área da pele.
Usa-se, com frequência, o termo anestesia para indicar também analgesias (perda das sensações
dolorosas) de áreas da pele e partes do corpo. Anestesias, hipoestesias e analgesias em áreas que
não correspondem a territórios de nervos anatomicamente definidos, em geral são de causas
psicogenéticas. Tais alterações ocorrem mais em pacientes com transtornos histéricos, em sujeitos
com alto grau de sugestionabilidade e em alguns quadros depressivos e psicóticos graves. [...]
Alterações qualitativas da sensopercepção
As alterações qualitativas da sensopercepção são as mais importantes em psicopatologia.
Compreendem as ilusões, as alucinações, a alucinose e a pseudoalucinação.
O fenômeno descrito como ilusão se caracteriza pela percepção
deformada, alterada de um objeto real e presente. Na ilusão, há sempre um
objeto externo real, gerador do processo de sensopercepção, mas tal
percepção é deformada, adulterada, por fatores psicológicos diversos.
A ilusão é a percepção deformada de um objeto real e presente.
As ilusões ocorrem basicamente em três condições:
1. Estados de rebaixamento do nível de consciência. Por turvação da consciência, a
percepção torna-seimprecisa, fazendo com que os estímulos sejam percebidos de forma
deformada.
2. Estados de fadiga grave ou inatenção marcante. Podem ocorrer ilusões transitórias e sem
muita importância clínica.
3. Alguns estados afetivos. Por sua acentuada intensidade, o afeto deforma o processo de
sensopercepção, gerando as chamadas ilusões catatímicas.
Agnosias associativas e seus diversos tipos
As agnosias associativas caracterizam um prejuízo, uma deterioração, na capacidade de reconhecer
as características dos objetos por meio dos sentidos: tato, gosto, olfato, visão e audição. Ou seja,
refere-se ao déficit de formação do percepto. Na agnosia visual o paciente não é capaz de
identificar objetos, formas, cor e espaço. Enxerga-os, pode descrevê-los, mas não sabe o que
realmente são. Na agnosia tátil o paciente é incapaz de reconhecer objetos mediante o sentido do
tato, apesar da sensibilidade se encontrar conservada no fundamental. Na agnosia auditiva o
enfermo ouve sons e ruídos, porém não o pode identificar; não compreende. Por exemplo: não pode
reconhecer um relógio pelo tique-taque ou um chaveiro pelo tilintar das chaves. Nas agnosias
olfativa e gustativa ocorrem, respectivamente, a incapacidade de discernir odores e gostos, sem
que os respectivos órgãos sensoriais estejam prejudicados. “Esta está normalmente associada a
danos cerebrais ou doenças neurológicas, particularmente a lesões do lobo temporal e do lobo
parcial, onde se armazena a memória e a importância dos objetos conhecidos. Muitas vezes, a
agnosia aparece subitamente depois de um traumatismo craniano. Pode, no entanto, ser também
60
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
resultado de uma vida com muito stress onde a saúde em si é deixada em segundo plano em relação
às atividades do dia-a-dia.”67
Tipos de ilusão
As ilusões mais comuns são as visuais, nas quais o paciente geralmente vê pessoas, monstros,
animais, entre outras coisas, a partir de estímulos visuais como móveis, roupas, objetos ou figuras
penduradas nas paredes. Também não são raras as ilusões auditivas, nas quais, a partir de estímulos
sonoros inespecíficos, o paciente ouve seu nome, palavras significativas ou chamamentos.
As alucinações
Define-se alucinação como a percepção de um objeto, sem que este esteja presente, sem o estímulo
sensorial respectivo. [...]
A alucinação é a percepção clara e definida de um objeto (voz, ruído,
imagem) sem a presença do objeto estimulante real.
Embora as alucinações sejam mais comuns em indivíduos com
transtornos mentais graves, podem ocorrer em pessoas que não os
apresentam. Um estudo de Tien (1991) revelou que alucinações de
qualquer tipo ocorrem na população normal com incidência anual de 4 a 5%, sendo as visuais mais
comuns que as auditivas. Dessa forma, indivíduos sem transtornos mentais podem ter visões ou
ouvir vozes [odores], sobretudo a de parentes próximos já mortos, devido ao desejo intenso de
reencontrá-los. [...]
Tipos de alucinações
ALUCINAÇÕES
Alucinações auditivas são as mais frequentes e as mais importantes. Apresentam-se sob a forma
elementar: ruídos, zumbidos, murmúrios, estalidos; e sob a forma complexa: como ‘vozes’ que
censuram e ameaçam, como melodias, toques de campainha. O enfermo pode ouvir uma única voz,
que repete uma palavra ou diz frases completas, ou muitas vozes que mantêm entre si uma
conversação. Em alguns casos, são quase imperceptíveis, como sussurradas. As vozes podem ser
masculinas, femininas ou de crianças. A direção de onde provêm é variável; podem vir de longe ou
de perto, do teto, do quarto ao lado ou da rua. Alucinações liliputianas foram descritas por Bierre
de Boismont e Ziehen. Trata-se de um tipo especial de alucinação visual no qual, ao lado da
percepção normal dos objetos e pessoas que o rodeiam, o enfermo divisa uma série de personagens
67
http://doencasneurologicas.blogs.sapo.pt
- Auditiva;
- Visuais (Liliputianas, Autoscópica; Extracampinas);
- Táteis e de contato;
- Olfativas;
- Gustativas;
- Cinestésicas;
- Cenestésicas (ou, Proprioceptivas);
- Psíquicas;
61
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
minúsculos, isolados ou acompanhados de pequenos animais em movimento. Alucinações
autoscópica, é uma variedade visual em que o enfermo percebe a sua imagem corporal como se
estivesse diante de si próprio. Alucinações extracampinas – Bleuler descreveu[...] os casos em que
as visões se localizam fora do campo sensorial correspondente. O paciente ‘vê’ pessoas que estão
atrás de sua cabeça. Alucinações táteis e de contato – As primeiras são encontradas nas
perturbações mentais tóxicas. Os enfermos sentem sobre a pele pequenos animais. Encontram-se
com mais frequência nos transtornos psicóticos tóxicos, especialmente no delirium tremens e no
cocainismo. [...] As alucinações de contato estão, em sua maioria, localizadas nas zonas erógenas e
aparecem com mais frequência no sexo feminino. As enfermas se queixam de serem vítimas da
prática de relações sexuais, de defloramento, de masturbação. Nas alucinações olfativas o enfermo
é perseguido por sensações repugnantes de mau odor: de cadáver, de carne deteriorada, de pano
queimado, de lixo, de mofo e de cheiro pútrido de fezes. Em alguns casos, ao doente parece que o
mau odor provém dele próprio. Nos casos em que os pacientes se julgam influenciados por gases
tóxicos, trata-se de interpretações delirantes de percepções normais. As alucinações gustativas
consistem, segundo informações dos enfermos, em que o alimento tem um sabor estranho, metálico,
um sabor de droga que não pode ser identificado. Queixam-se os doentes de sentir um gosto
desagradável na boca, que permanece durante todo o dia. A sitiofobia (medo patológico de se
alimentar) pode resultar de alucinações do paladar, quando o enfermo ‘percebe’ gosto de veneno na
comida. Nas alucinações cinestésicas alguns enfermos têm a impressão de que o seu corpo realiza,
espontaneamente, determinados movimentos. Outros admitem que os seus músculos se contraem,
que um dos braços se levanta ou um das pernas se encolhe, sem que, na realidade, se observe
qualquer movimento na parte indicada. Nas alucinações cenestésicas muitos enfermos fazem
referência a sensações estranhas em outros órgãos: algo pressiona os olhos, na parte interna, de
modo que, ao olharem-se no espelho, percebem atemorizados que os olhos estão projetados para
fora das órbitas; outros referem-se a sensações estranhas no cérebro, como se ali tive colocado uma
pedra de gelo. Sentem, em alguns momentos, ‘as veias correrem dentro do corpo’; ‘uma bala girar
em espiral dentro do crânio, subindo da base para a parte superior’. Sensações relativas à cabeça são
referidas como se algo pressionasse o cérebro, que aumenta de forma desmedida a ponto de
espedaçar-se o crânio. Especialmente, no início da enfermidade, os pacientes se queixam de dores
internas, que o ‘o couro cabeludo está tão sensível que o menor toque no cabelo produz dores
lancinantes’; têm sensações de frio ou de calor intenso; sentem dentro do corpo como se tivessem
colocado ali óleo fervendo; seus olhos e seus cabelos expelem chamas. Insuflam ar em seus
pulmões, o que produz uma sensação desagradável de sufocação e de morte iminente. Nas
alucinações psíquicas as imagens alucinatórias não têm um verdadeiro caráter sensorial, objetivo.
Os enfermos fazem referência a ‘palavras sem som’, dizem, por exemplo, que falam com indivíduos
estranhos por ‘direta comunicação do pensamento’,por uma espécie de ‘linguagem dos espíritos’,
feita de ‘vozes sem ruído’, de ‘palavras secretas e interiores que não soam’.”68
Alucinose – “A alucinação denominada alucinose é o fenômeno pelo qual o paciente percebe tal
alucinação como estranha a sua pessoa. [...] o característico das alucinoses é serem adequada e
imediatamente criticadas pelo sujeito, reconhecendo o seu caráter patológico. [...]
Na alucinose, embora o doente veja a imagem ou ouça a voz ou o ruído, fala a crença que
comumente o alucinado tem em sua alucinação. O indivíduo permanece consciente de que aquilo é
68
Adaptado de PAIM, 1993, p.41-60)
62
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
um fenômeno estranho, patológico, não tem nada a ver com a sua pessoa, estabelecendo
distanciamento entre si e o sintoma. Diz-se que a alucionose é um fenômeno periférico ao Eu,
enquanto a alucinação é central ao Eu.
A alucinose ocorre com maior frequência em
quadros psico-orgâncos; por isso, foram também
denominadas alucinações neurológicas.
A alucinose em sua modalidade visual ocorre com
maior frequência em pacientes com intoxicações
por substâncias alucinógenas, com LSD,
psilobicina, mescalina, anticolinérgicos, ayahuasca,
etc. Pode ocorrer devido a tumores do pendúnculo
cerebral, sendo então denominada alucinose
penduncular de Lhermitte, [...].”69
Pseudoalucinações
As pseudo-alucinações são produtos patológicos da atividade representativa. [...] Constituem-se de
imagens dotadas de clareza sensorial, as quais, ao contrário das alucinações verdadeiras, são
percebidas numa espécie de espaço subjetivo. Distinguem-se das alucinações pelo fato de que as
imagens visuais e as vozes serem localizadas no interior da cabeça ou na parte interna do corpo.
Kandinski empregou a expressão pseudo-alucinações para designar os casos em que as imagens
percebidas careciam de objetividade. Nas alucinações verdadeiras, as imagens visuais e auditivas
são projetadas para o exterior, para o espaço objetivo. A nitidez sensorial e a impressão de realidade
são de tal ordem que dão ao enfermo uma irresistível força de convicção. Nas pseudo-alucinações,
ao contrário, o paciente não desconhece o caráter falso dos fenômenos. (PAIM, 1993, p. 59-60)
69
DALGALARRONDO, 2008, p. 129-30)
63
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DO PENSAMENTO
70
O que é o pensamento?
A palavra pensar vem do verbo latino pendere, que significa ficar
em suspenso, examinar, pesar, ponderar.
Comportamento cognitivo no qual ideias, imagens, representações
mentais ou outros elementos hipotéticos da reflexão são
experimentados ou manipulados. Nesse sentido pensamento inclui
imaginação, lembrança, solução de problema, devaneio, livre associação, formação de conceito e
muitos outros processos. Pode-se dizer que o pensamento tem duas características definidoras: (a)
Ele é velado, ou seja, não é diretamente observável, mas deve ser deduzido a partir de
comportamentos ou autorrelatos; (b) ele é simbólico, ou seja, parece envolver operações sobre
símbolos ou representações mentais, cuja natureza permanece obscura e controversa.
71
O que caracteriza o pensamento normal é ser regido pela lógica formal e orientar-se segundo a
realidade e os princípios de racionalidade da cultura na qual o indivíduo se insere.
Atividades fundamentais do pensamento
As atividades fundamentais do pensamento são: a elaboração de conceitos, a formação de juízos e
o raciocínio.
Um conceito identifica os atributos ou qualidades mais gerais e essenciais de um objeto ou
fenômeno. É expresso por uma palavra. Está relacionado a abstração e generalização. Por exemplo:
céu e azul são conceitos.
O juízo estabelece uma relação entre dois ou mais conceitos. Consiste no ato da consciência de
afirmar ou negar algum atributo ou qualidade a um objeto ou fenômeno. É composto por um sujeito,
um verbo de ligação e um predicado. Por exemplo: ‘O céu é azul.’
Raciocínio representa uma operação mental que relaciona juízos, levando à formação de novos
juízos (ou conclusões). Por exemplo: ‘Todo homem é mortal’; ‘Sócrates é um homem’, portanto,
‘Sócrates é mortal’ [neste caso, um raciocínio dedutivo]. Um raciocínio pode ser indutivo (do
particular para o geral)
72
, dedutivo (do geral para o particular) ou analógico (de um particular para
outro particular)
73
. [...]
Aspectos do pensamento
Curso, forma e conteúdo constituem os aspectos do pensamento. O curso refere-se à velocidade e
ritmo do pensamento, à quantidade de ideias ao longo do tempo. A forma, por sua vez, está
70
O texto de todo esse tópico foi extraído e adaptado de: CHENIAUX, 2013, p. 82-106; PAIM, 1993, p. 87-114;
DALGALARRONDO, 2008, p. 193-231.
71
APA, 2010, p. 692
72
Exemplo de raciocínio indutivo: Um cientista observa a cor de milhares de cisnes. Verificar que todos os cisnes
observados por ele são brancos (regularidade na cor dos cisnes). Formula, então, a partir desses dados empíricos uma
teoria a respeito da cor dos cisnes: “Todos os cisnes são brancos” (generalização).
73
Exemplo de raciocínio analógico: “A árvore é um ser vivo. Tem metabolismo e reproduz-se. O ser humano também.
Nisto, são semelhantes. Ora, se são semelhantes nestas coisas e a árvore cresce podemos concluir que o ser humano
também cresce.”
64
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
relacionada à estrutura do pensamento, à relação entre as ideias. Já o conteúdo diz respeito à
temática do pensamento, às qualidades ou características das ideias.
Alterações do pensamento
[...]
Aqui é proposta a seguinte classificação das alterações do pensamento:
- Quantitativas – curso (aceleração, alentecimento, interrupção);
- Qualitativas – forma (fuga de ideias, desagregação, prolixidade, minuciosidade, perseveração) e,
conteúdo (concretismo; ideias delirantes, deliroides e sobrevaloradas).
Analise o esquema a seguir:
O Exame do pensamento
A fala do paciente é o único meio de acesso ao seu pensamento. Não é possível, portanto, avaliar o
pensamento de um paciente em mutismo.
Quando se quer examinar a forma do pensamento, deve-se deixar o paciente falar livremente
durante algum tempo, evitando interrompê-lo.
ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS (CURSO DO PENSAMENTO)
Aceleração do curso
Na aceleração do curso do pensamento (ou taquipsiquismo), o paciente fala mais rápido; há uma
maior produtividade ideativa e uma maior velocidade no processo associativo. Isso ocorre na mania,
na intoxicação por cocaína ou anfetamina e nos estados de ansiedade ou agitação psicomotora.
65
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Alentecimento do curso (ou inibição)
No alentecimento do curso do pensamento (ou retardo, ou inibição do pensamento, ou
bradipsiquismo), o paciente fala mais devagar; há uma redução no número de ideias e
representações, e inibição do processo associativo. Esse fenômeno – [...] – é tipicamente observado
na depressão, ocorrendo também na demência e no estupor (abolição da psicomotricidade) do
delirium ou da esquizofrenia catatônica.
Interrupção do curso (ou, bloqueio; ou, interceptação do pensamento; ou roubo do
pensamento)
A interrupção do curso (ou bloqueio do pensamento) foi descrita por Bleuler, sendo considerada
uma alteraçãoquase exclusiva da esquizofrenia. Kraepelin empregava o termo interceptação para
esse mesmo fenômeno.
Abruptamente, e sem qualquer motivo aparente, o paciente interrompe a sua fala, deixando de
completar uma ideia. Algumas vezes a interrupção se dá no meio de uma frase, ou mesmo de uma
palavra. Após um intervalo, que varia entre alguns poucos minutos e várias horas, o paciente pode
completar o pensamento interrompido ou, o que é mais frequente, inicia um outro ciclo de
pensamento, inteiramente diverso do anterior. A vivência do paciente é a de que o fluxo do seu
pensamento cessou ou rompeu-se, resultando num branco, num vazio, em sua mente. Tal
experiência é muitas vezes atribuída pelo paciente a um roubo do seu pensamento. [...]
ALTERAÇÕES QUALITATIVAS (FORMA DO PENSAMENTO)
Fuga de ideias
A fuga de ideias – [...] – caracteriza-se pela variação rápida e incessante de tema, com preservação
da coerência do relato e da lógica na associação de ideias. A tendência dominante do pensamento
está enfraquecida e, consequentemente, há um progressivo afastamento da ideia-alvo.
Alternativamente, pode-se considerar que diversas ideias-alvo se sucedem em um pequeno espaço
de tempo. O pensamento é facilmente desviado por estímulos externos; e as associações muitas
vezes se dão por assonância (rimas) ou aliteração (repetição de consoantes) das palavras.
A fuga de ideias está quase sempre associada a logorreia e aceleração do curso do pensamento.
Trata-se de uma manifestação típica da síndrome maníaca primária, sendo ainda observada na
intoxicação por cocaína ou anfetamina, na embriaguez alcoólica, na sífilis cerebral etc.
Exemplo: ‘Você foi o médico do meu marido. Ele voou pela janela. Minha irmã também se matou.
Também pulou pela janela. Ela se tratava com o doutor Pitta. Ele devia se chamar doutor ‘Apita’.
Aí ele apitava, e todos os doentes pulavam pela janela.’
Desagregação do pensamento (ou confusional, ou ainda dissociado)
A desagregação do pensamento caracteriza-se por uma perda do sentido lógico na associação de
ideias. Há a formação de associações novas, que são incompreensíveis, irracionais e extravagantes.
Como consequência, altera-se a sintaxe
74
do discurso, que se torna incoerente, fragmentado e,
muitas vezes, ininteligível. A desagregação do pensamento ocorre na esquizofrenia, no delirium, na
demência avançada e, ocasionalmente, em casos de extrema agitação maníaca.
74
Sintaxe - Parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e a das frases no discurso, bem como a
relação lógica das frases entre si; construção gramatical (Aurélio).
66
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Pensamento desagregado, pensamento dissociado, pensamento incoerente, pensamento confuso,
pensamento descarrilado, pensamento disparatado, pensamento vago ou afrouxamento dos enlaces
associativos possuem significado basicamente semelhantes, embora alguns autores, de maneira não
uniforme, tentem estabelecer diferenças quantitativas ou qualitativas entres eles. Os termos
desagregado (Bleuler), dissociado (Bleuler), descarrilado (Carl Scheider) e disparatado (Carl
Scheider) são mais usados na esquizofrenia; já termos incoerente e confuso são empregados mais
frequentemente nos quadros de delirium.
[...]
Alguns autores propõem um subtipo que seria o pensamento confusional – ‘devido à turvação da
consciência, [verifica-se] um pensamento incoerente, de curso tortuoso, que impede que o indivíduo
apreenda de forma clara e precisa os estímulos ambientais e possa, assim, processar seu raciocínio
adequadamente. Há marcante dificuldade em estabelecer vínculos entre conceitos e juízos devido às
alterações de consciência, de atenção e de memória imediata, impedindo a formação adequada do
raciocínio e lançando o indivíduo em estado de perplexidade e impotência. Ocorre principalmente
nas síndromes confusionais agudas.
Prolixidade
A prolixidade, que foi descrita por Lipmann e Edel, caracteriza-se por um
discurso repleto de detalhes irrelevantes, o que o torna tedioso; a ideia-alvo
jamais e alcançada ou só o é tardiamente. Decorre de uma incapacidade de
síntese, de distinguir o essencial do acessório.
É encontrada basicamente nos quadros em que há comprometimento intelectivo,
como retardo mental e na demência. Também é observada no transtorno de
personalidade associado à epilepsia do lobo temporal e na esquizofrenia.
Alguns autores preferem utilizar os termos circunstancialidade e tangencialidade para designar
esse tipo de pensamento. O que diferencia um do outro é que, só no caso da circunstancialidade, a
ideia-alvo seria atingida.
Um paciente prolixo apresenta dificuldades em responder de forma direta e objetiva uma pergunta.
Se questionado sobre, por exemplo, onde mora, ele, em vez de fornecer de imediato o seu endereço,
vai dar um monte de informações desnecessárias. Pode comentar que reside num local muito bonito,
que lá faz muito calor, citar todas as linhas de ônibus que circulam por lá etc. Quando pressionado a
ir direto ao ponto, muitas vezes vai dizer algo como ‘calma, que eu chego lá!’.
Minuciosidade
A minuciosidade caracteriza-se por um discurso com um número
excessivo de detalhes relevantes. Estes são introduzidos para enriquecer a
comunicação e, ansiosamente, para evitar quaisquer possíveis omissões. É
encontrada no transtorno obsessivo-compulsivo e no transtorno de
personalidade obsessiva (anancástica). Perguntado pelo médico sobre
como tem passado, um paciente minucioso vai fazer um relatório pormenorizado de tudo o que
sentia a cada dia desde a última consulta, descrevendo as características e a cronologia completa dos
sintomas.
67
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Perseveração
A perseveração, descrita por Pick, caracteriza-se por uma recorrência excessiva e inadequada no
discurso do mesmo tema, ou uma dificuldade em abandonar determinado tema. Consiste numa
perda da flexibilidade do pensamento. Há a fixação persistente de uma única ideia-alvo e um
empobrecimento dos processos associativos.
A perseveração ocorre na demência, retardo mental, delirium, epilepsia, esquizofrenia. Muitas
vezes, num transtorno psicótico, um delírio (alteração do conteúdo do pensamento) assume tal
importância na vida do paciente que, em seu discurso, a temática se torna perseverante (alteração da
forma do pensamento).
As ideias obsessivas (ou obsessões) podem ser consideradas uma forma especial de perseveração do
pensamento. Elas possuem as seguintes características:
- São ideias tidas pelos próprios pacientes como absurdas, irracionais, sem sentido, repulsivas,
desagradáveis ou ansiogênicas;
- que o indivíduo reconhece como próprias;
- que são repetitivas ou persistentes;
- que se impõem à sua consciência contra a sua vontade;
- e que levam a violenta luta interna, isto é, o indivíduo se esforça para afastá-la de sua mente ou
realiza cerimoniais preventivos ou expiatórios.
São exemplos de conteúdos de ideias obsessivas: dúvidas torturantes, [...], tentações censuráveis,
presságios quanto a tragédias ou morte relacionadas a familiares ou a si próprio. [...]
As ideias obsessivas, [...], são encontradas principalmente no transtorno obsessivo-compulsivo, mas
também na depressão e na esquizofrenia.
Pensamento mágico
É o tipo de pensamento que fere frontalmente os princípios da lógica formal, bem como os
indicativos e imperativos da realidade. O pensamento mágico segue os desígnios dos desejos, das
fantasias e dos temores, conscientes e inconscientes,do sujeito, adequando a realidade ao
pensamento, e não o contrário.
Pensamento dereístico
O pensamento dito dereístico, algo semelhante ao pensamento mágico, é um tipo de pensamento
que se opõe marcadamente ao pensamento realista, o qual se submete à lógica e à realidade. Aqui, o
pensamento só obedece à lógica e à realidade naquilo que interessa ao desejo do indivíduo,
distorcendo a realidade para que esta se adapte aos seus anseios. No pensamento dereístico, o
pensar volta-se muito mais ao mundo interno do sujeito, suas fantasias e seus sonhos, manifestando-
se como um devaneio, no qual tudo é possível e favorável ao indivíduo. [...]
Na língua inglesa, utiliza-se o termo wishful thinking (tomar o desejo pela realidade) para indicar a
identificação errônea dos próprios desejos com a realidade, o conjunto de crenças adotadas pelo
indivíduo, crenças estas baseadas mais nos desejos que em fatos, ou seja, um aspecto do
pensamento dereístico. Pode ocorrer nos transtornos de personalidade (esquizotípica, histriônica,
borderline, narcisista, etc.), na esquizofrenia, na histeria e, eventualmente, em crianças e
adolescentes (e mesmo em adultos) normais.
68
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Pensamento vago
As relações conceituais, a formação dos juízos e a concatenação destes em raciocínios são
caracterizadas pela imprecisão. O paciente expõe um pensamento muito ambíguo, podendo mesmo
parecer obscuro. Não há propriamente o empobrecimento do pensamento, mas, antes, a marcante
falta de clareza e precisão do raciocínio. O pensamento vago pode ser um sinal inicial de
esquizofrenia ou ocorrer em quadros demenciais iniciais, transtornos de personalidade (p.ex.,
esquizotípica) e neuroses
75
graves.
Pensamento obsessivo
Aqui, predominam ideias ou representações que, apesar de terem conteúdo absurdo
ou repulsivo para o indivíduo, se impõem à consciência de modo persistente e
incontrolável. Isso determina uma luta constante entre as ideias obsessivas, que
voltam de forma recorrente à consciência, e o indivíduo, que se esforça por bani-las
de sua consciência, gerando um estado de angústia constante. Com certa frequência, em pacientes
gravemente obsessivos, aspectos do pensamento mágico também estão presentes (p.ex., ‘Se eu tocar
na roupa de uma prostituta ficarei contaminado’, ou ‘Se eu repetir a palavra santo cinquenta vezes
impedirei que meu pai morra’).
Afrouxamento das associações
Neste caso, embora ainda haja concatenação lógica entre as ideias, nota-se já o afrouxamento dos
enlaces associativos [...]. As associações parecem mais livres, não tão bem articuladas. Manifesta-se
nas fases iniciais da esquizofrenia e em transtornos da personalidade (sobretudo no da
personalidade esquizotípica).
Descarrilhamento do pensamento
O pensamento passa a extraviar-se de seu curso normal, toma atalhos colaterais, desvios,
pensamentos supérfluos, retornando aqui e acolá ao seu curso original. Geralmente está associado a
marcante distraibilidade. Se o descarrilhamento for muito acentuado, e os desvios, muito frequentes
e longos, pode-se não mais captar a sequência lógica do pensamento. O descarrilhamento é
observado na esquizofrenia e, eventualmente, nos transtornos maníacos.
ALTERAÇÕES QUALITATIVAS (CONTEÚDO DO PENSAMENTO)
Concretismo (ou deficitário, ou oligofrênico)
O concretismo (ou pensamento empobrecido) caracteriza-se por um discurso pobre em conceitos
abstratos, em metáforas e analogias. Há uma intensa adesão ao nível sensorial e imediato da
experiência. Ocorre na demência, no delirium, no retardo mental e na esquizofrenia.
Uma forma especial de concretismo seria a reificação (res = coisa), que consiste na utilização de
expressões e símbolos, não com algo representativo, mas com coisa substantiva, concreta. Um
esquizofrênico, por exemplo, que diz que roubaram seu pensamento o está vivenciando como um
objeto físico.
75
Uma neurose, em sentido amplo, caracteriza uma afecção psicogênica cujos sinais e sintomas são, segundo a teoria
psicanalítica, uma expressão simbólica de conflitos psíquicos, normalmente inconscientes, que têm suas raízes na
história infantil do indivíduo e constituem compromissos entre o desejo e as defesas.
69
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Pensamento demencial
Trata-se também de pensamento pobre, porém tal empobrecimento é desigual, ao contrário do que
ocorre no pensamento deficitário, no qual o empobrecimento é mais homogêneo. Em certos pontos,
o pensamento demencial pode revelar elaborações mais ou menos sofisticadas, embora de forma
geral seja imperfeito, irregular, sem unidade ou congruência. Em relação aos conceitos abstratos e
aos raciocínios diferenciados e complicados, podem-se observar seus resquícios no pensamento
demencial, embora, com o progredir da síndrome demencial, vá predominando mais e mais o
pensamento pobre, concreto e desorganizado. É frequente o fato de o indivíduo dementado, nas
fases iniciais, tentar dissimular suas dificuldades cognitivas. Ao se deparar com a dificuldade em
encontrar as palavras (aspecto característico no início das demências), procura termos mais
genéricos, evita os adjetivos e os substantivos específicos. Por exemplo, ‘Não consigo encontrar
aquela coisa, o meu... (batom), aquilo para pintar a boca...’; ‘Vou pedir ao...àquele homem (o
guarda), que me ajude a atravessar... aqui (a rua).
Ideias delirantes
A palavra delirar é derivada do latim delirare (de = fora; liros = sulcos),
que significa literalmente lavrar fora do sulco. Apofania é a apresentação
do delírio.
De acordo com Karl Jaspers (1987), ideias delirantes (ou delírios) são
juízos patologicamente falsos, que possuem as seguintes características
externas: acompanham-se de uma convicção extraordinária, não são
susceptíveis à influência e possuem um conteúdo impossível.
Os delírios, constituindo uma alteração do conteúdo do pensamento, são, por conseguinte,
detectados no discurso do paciente. Todavia, com frequência o paciente irá dissimular sua atividade
delirante ou não terá interesse ou possibilidade (nos casos de estupor, por exemplo) de verbaliza-la.
Nessa situação, torna-se fundamental a avaliação da atitude (desconfiança, medo, arrogância, etc.).
O delírio constitui uma alteração relacionada à formação de juízos. Através dos juízos,
discernimos a verdade do erro. Através do juízo de realidade, distinguimos o que é real do que é
fruto de nossa imaginação. [...]
O delírio caracteriza-se por uma certeza subjetiva absoluta, por uma firmeza irremovível da
convicção, por uma impossibilidade de modificação diante do desmentir dos fatos ou da refutação
rigorosa: é incorrigível. [...]
A impossibilidade do conteúdo é um critério bastante criticado, pois considera-se que a maior parte
dos delírios tem um conteúdo possível, embora improvável; e, em alguns casos, o conteúdo do
delírio é, por mero acaso, verdadeiro.
O juízo falso é impossível e irracional quando está relacionado a um erro lógico, quando o
raciocínio subverte os princípios lógicos: tornar existente o que não existe e não pode existir. Por
exemplo: acreditar estar na Terra e na Lua ao mesmo tempo. Trata-se de uma impossibilidade
lógica.
O juízo falso é impossível e racional quando está relacionado a um erro gnosiológico
76
– tornar
existente o que não existe mas pode vir a existir – e, no raciocínio, os princípios lógicos são
preservados. Por exemplo: antes de 1969, afirmar ter estado na Lua. Trata-se de uma
impossibilidade real.76
Gnosiologia – teoria do conhecimento.
70
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
O juízo falso é possível e improvável quando está relacionado a um erro gnosiológico mas também
a uma possibilidade real, embora pequena, de ser verdadeiro (Chalub, 1977). Um exemplo de um
delírio com essas características é o seguinte: Senhora de mais de 50 anos morava sozinha desde sua
separação conjugal. Havia alguns anos que ela não tinha mais contato com o ex-marido, que estava
agora casado com uma mulher bem mais jovem que ela. A paciente, quando chegava em casa do
trabalho, notava que alguns objetos estavam fora de lugar. Ela acreditava que, quando saía de casa,
o ex-marido entrava em seu apartamento (sem ser visto por ela) e tirava de lugar tais objetos, para
que ela pensasse que estava perdendo a memória e ficando ‘maluca’. Segundo ela, o porteiro estava
envolvido nesse plano, pois ele avisava a seu ex-marido quando ela saía, assim como um chaveiro,
que tinha feito uma cópia da chave de seu apartamento para o invasor. Também faziam parte da
trama o síndico do edifício e diversas outras pessoas, todos judeus. O objetivo deles era fazer com
que ela ficasse nervosa e desesperada, e, assim, vendesse seu apartamento por um baixo preço para
um dos conspiradores, que então teria um grande lucro financeiro. Nenhuma das ideias formuladas
pela paciente era absurda, todavia as chances de todas elas terem sido verdadeiras eram, na prática,
desprezíveis. [...]
O delírio constitui uma vivência individual, idiossincrática
77
. Com isso, distingue-se das crenças
culturalmente compartilhadas, como os dogmas religiosos, os quais podem possuir as mesmas
características apontadas por Jaspers em relação ao delírio.
Todo delírio é de certa forma autorreferente, no sentido de que o seu conteúdo está direta ou
indiretamente relacionado ao enfermo. O delírio se transforma no eixo em torno do qual passa a
girar a vida do indivíduo.
Em função de sua convicção extraordinária, o delirante não sente a necessidade de comprovar
objetivamente a veracidade de seu juízo e pode não achar importante convencer as outras pessoas
de que está certo.
Muitas vezes há uma discrepância entre o delírio e a conduta do paciente: ou este não muda em
nada seu comportamento, ou age de forma diferente do que se esperaria de alguém que realmente
estivesse na sua situação.
Delírios são experimentados subjetivamente com características mais de saber do que acreditar
(Sedler, 1995), o que também os distingue das crenças religiosas.
Delírio primário
O delírio primário é a ideia delirante autêntica. Ele é autóctone, isto é, não deriva de nenhuma outra
manifestação psíquica. É incompreensível: não pode ser seguido psicologicamente até a sua origem,
é algo de ‘último e derradeiro’ (Jaspers). Está relacionado a uma profunda transformação da
personalidade, sendo expressão de um processo: o surgimento de algo novo, duradouro e
irreversível na vida mental. Classicamente, seria exclusivo da esquizofrenia.
K. Jaspers incluiu sob a denominação de vivências delirantes primárias as percepções delirantes, as
representações delirantes e as cognições delirantes. K. Schneider criou o conceito de ocorrências
delirantes, que englobaria as representações delirantes e cognições delirantes [ou, delírio intuitivo].
A percepção delirante consiste na atribuição de um significado novo, anormal, a uma percepção
normal de um objeto real. Essa significação se dá de forma simultânea ao ato perceptivo. O
significado é para o observador algo ilógico, absurdo e incompreensível, ou seja, parece não haver
77
Idiossincrasia - 1. Disposição do temperamento do indivíduo, que o faz reagir de maneira muito pessoal à ação dos
agentes externos. 2. Maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada pessoa.
71
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
qualquer relação entre o que foi percebido e a conclusão a que se chegou. Para o doente, o
significado é em geral autorreferente; tem o caráter de um aviso, mensagem ou revelação; é algo
especial, de grande importância, que é sentido como imposto. Um exemplo seria o seguinte: o
indivíduo vê um cachorro urinando na rua e sabe que o mundo vai acabar. A percepção delirante é
um dos sintomas de primeira ordem de Kurt Schneider para o diagnóstico da esquizofrenia. [...]
Na representação delirante, um significado anormal é dado a uma recordação normal. Por exemplo:
‘Eu podia muito bem ser filho do Rei Luis’ – uma recordação clara, de como o imperador, ao passar
a cavalo, na parada, vista há alguns anos, olhou justamente para ele, o confirma’ (Jasper, 1987).
A cognição delirante [ou, delírio intuitivo] consiste em uma convicção patológica intuitiva, uma
certeza súbita, uma revelação imediata, que prescinde por completo de conexões significativas com
quaisquer dados perceptivos ou representativos. Por exemplo, o indivíduo de repente sabe que é
Jesus Cristo, mas isso não está relacionado com nada que ele tenha visto, ouvido ou se lembrado. A
cognição delirante ocorre mais em quadros psicóticos mais agudos do que crônicos. Ao contrário da
percepção delirante e da representação delirante, constituídas por 2 membros – a percepção ou
recordação normal + a significação anormal –, a cognição delirante possui um único membro
(Schneider, 1978).
Delírio secundário (ou, ideia deliroide)
O delírio secundário também é chamado de ideia deliroide. Ele se origina de forma compreensível
psicologicamente de outras manifestações psíquicas patológicas, tais como alterações do humor, da
sensopercepção e da consciência.
São exemplos de delírios secundários: as ideias de culpa na depressão – a tristeza vital é
considerada primária -, as ideias de grandeza na mania, as ideias de influência relacionadas a
alucinações cenestésicas, as ideias de perseguição no delirium tremens, etc. [...]
Ideia sobrevalorada
Na definição de Nobre de Melo (1981), a ideia sobrevalorada (ou supervalorada, ou prevalente, ou
sobrevalente) é uma ideia errônea por superestimação afetiva. O erro decorre do fato de a ideia estar
relacionada a uma carga afetiva muito intensa, que influencia o julgamento da realidade (influência
catatímica) tornando-o pouco racional. Essa ideia ganha preponderância em relação às demais e
orienta unilateralmente a conduta do indivíduo.
Na ideia sobrevalorada, o erro é compreensível psicologicamente em função da vivência emocional
ou de traços de personalidade do indivíduo. A convicção é menor do que no delírio: a ideia é mais
influenciável.
A ideia sobrevalorada pode ocorrer em pessoas normais. Por exemplo, convicções apaixonadas em
relação a questões científicas, filosóficas, políticas e religiosas, assim como as ideias dos
enamorados sobre o objeto do seu amor. Ocorre ainda em alguns transtornos mentais, como na
hipocondria (a ideia de sofrer de uma doença), no transtorno dismórfico corporal (ter um defeito na
aparência), na anorexia nervosa (precisar emagrecer), no transtorno obsessivo-compulsivo (ter que
limpar, contar, verificar ou tocar) e no transtorno de personalidade paranoide (estar sendo enganado
ou prejudicado).
72
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Os temas dos delírios
- Delírio de perseguição (ou persecutório) – O doente acredita que o estão vigiando, querem
prejudica-lo ou mesmo mata-lo.
- Delírio de prejuízo – Seria uma forma atenuada de delírio persecutório: o indivíduo pensa que as
outras pessoas são hostis em relação a ele, zombam dele ou o menosprezam.
- Delírio de reivindicação(ou querelante) – Seria um subtipo de delírio persecutório. O indivíduo
se julga vítima de terríveis injustiças ou discriminações, e, em função disso, envolve-se em disputas
legais e querelas.
- Delírio de influência ou controle (também chamado de Vivências de Influência) – Seria um
outro tipo de delírio persecutório. O paciente acredita que alguém ou alguma força externa controla
(literalmente) sua mente ou seu corpo. Pode, por exemplo, dizer que um pensamento que apareceu
em sua mente não é seu, que foi colocado lá por outra pessoa; ou então afirmar que está se sentido
fraco porque um ímã está sugando suas energias.
- Delírio de grandeza (de enormidade) – O doente acredita ser muito rico e poderoso, ou possuir
habilidades e talentos especiais. Tal conteúdo de delírio é típico da mania.
- Delírio de ciúmes e delírios de infidelidade – O indivíduo acredita que seu cônjuge ou amante
está sendo infiel a ele. Esse quadro está especialmente associado ao alcoolismo crônico e ao
transtorno delirante, sendo mais comum no sexo masculino.
- Delírio erotomaníaco (ou erótico)
78
– O indivíduo crê ser amado, a distância, por uma outra
pessoa. Essa outra pessoa é tipicamente mais velha e possui uma situação socioeconômica mais
elevada que a do paciente. Muitas vezes trata-se de uma pessoa famosa. O indivíduo pode atribuir a
78
O delírio erotomaníaco é típico da chamada Síndrome de Clèrambault, que se caracteriza na convicção delirante,
por parte do paciente, de que alguém de posição social mais elevada o ama. Nas descrições clássicas, o surgimento dos
delírios é abrupto, o que nem sempre é observado na prática clínica.
De Clèrambault descreveu a erotomania como uma síndrome de emoções patológicas que segue uma evolução
ordenada, passando pelos estágios de esperança, despeito e rancor. Essa evolução foi considerada por ele como
invariável, sendo a fase de rancor a mais importante delas e, na verdade, o que mais bem caracteriza toda a síndrome, ao
invés do estágio de amor.
Então o portador da erotomania acredita que o seu objeto de amor declarou-se para ele, de alguma maneira: por sinais ,
telepaticamente, ou frases ditas ao público mas que o portador acredita ter sido direcionadas a ele.
Depois disto, o portador que inicialmente poderia não corresponder ao amor que acredita ter sido declarado
primeiramente pelo outro, passa interessar-se e corresponder e tentar demonstrar este amor, seduzindo seu objeto
amado, declarando-se, etc.. O paciente pode desejar ter relações sexuais com o objeto de seu amor delirante, pode tentar
seduzi-lo para esse fim ou passar a acreditar, inclusive, que está gestando um filho dele. Os homens tendem mais à
perseguição de seus objetos que as mulheres.
Embora atos físicos ou sexuais sejam incomuns, esses pacientes podem trazer significativo impacto psicológico e social
à vida de suas vítimas, em consequência de perseguições por períodos prolongados, que variam de chamadas telefônicas
a declarações de amor em ambientes públicos e movimentados.
Diante da percepção do envolvimento do ser amado com terceiros surge o despeito e diante de sua rejeição, o rancor.
Quando o paciente erotomaníaco alcança o estágio de rancor, depois de repetidas rejeições que sofre, não raro exerce
retaliações contra seu objeto de amor ou contra terceiros.
O típico portador da erotomania pode ser homem ou mulher, leva uma vida reservada, socialmente inexpressiva; poucos
são casados, muitos são privados de contato sexual por anos, a maioria ocupa cargos subalternos, e alguns são muito
pouco atraentes. Esse comportamento pode resultar de traços de personalidade hipersensível, desconfiança acentuada ou
assumida superioridade em relação às outras pessoas. Por outro lado, os objetos de amor delirante, na realidade ou em
fantasia, são sempre superiores em inteligência, posição social, aparência física, autoridade ou uma combinação destes
atributos. Quase sempre, o paciente sente-se como que livrado de sua solidão pelo amor que o objeto supostamente lhe
dedica. Esta síndrome pode apresentar-se em diversos transtornos mentais: transtorno delirante persistente,
esquizofrenias, transtorno afetivo bipolar. (http://dicionariodesindromes.blogspot.com.br/2006/10/sndrome-de-
clrambault.html)
73
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
não aproximação por parte da outra pessoa à malevolência de terceiros. O delírio erotomaníaco é
mais comum no sexo feminino e pode ocorrer no transtorno delirante.
- Delírio de referência (de alusão ou de auto-referência) – O doente atribui a fatos fortuitos ou
acidentes do cotidiano uma relação direta com a sua pessoa. Por exemplo: ele vê dois
desconhecidos conversando, e, mesmo sem nada ouvir, sabe que estão falando sobre ele. Ou então:
ele acredita que o enredo da novela da TV foi baseado na sua vida.
- Delírio de relação – O indivíduo delirante constrói conexões significativas (delirantes) entre os
fatos normalmente percebidos. Essas conexões novas surgem geralmente sem motivação
compreensível. Por exemplo, o paciente agora sabe que tudo faz sentido, os fatos se relacionam (as
chuvas do verão passado, o inverno atual mais frio, etc.), indicando “que realmente a guerra dos
seres alienígenas irá começar”. Tal tipo de delírio também apresenta colorido persecutório.
(DALGALARRONDO, 2008, p. 219)
- Delírio de ruína (ou niilista) – É comum na depressão. Para o paciente, sua vida está repleta de
desgraça, sofrimento, fracassos e perdas: tornou-se financeiramente miserável, seus familiares o
abandonaram, etc. Os delírios somáticos (ruína da saúde física), de culpa (ruína moral) e de negação
(ruína total) poderiam ser considerados subtipos do delírio de ruína.
79
- Delírio somático (ou hipocondríaco) – o paciente acredita estar sofrendo de uma doença muito
grave e incurável, como AIDS, câncer, tumor cerebral, etc., ou ter o corpo terrivelmente deformado.
- Delírio de infestação (Síndrome de Ekbom) – O indivíduo acredita que seu corpo
(principalmente sua pele e/ou cabelos) está infestado por pequenos (mas macroscópicos)
organismos. Relata, no mais das vezes, que há ‘bichinhos’ sob a pele’, insetos nos cabelos,
vermezinhos, aranhas, etc. Acompanhando o delírio, podem ocorrer alucinações táteis
(correspondentes aos ‘pequenos insetos’). Esse tipo de delírio ocorre em pacientes esquizofrênicos,
deprimidos, no delirium tremens, em intoxicações por cocaína ou alucinógenos e em indivíduos
obcecados pela higiene corporal. (DALGALARRONDO, 2008, p. 223)
- Delírio de culpa (ou autoacusação) – Característico da depressão. O paciente acredita que
cometeu pecados terríveis, ou mesmo crimes, em seu passado, e que merece ser punido. Ele
supervaloriza pequenas falhas que cometeu, ou pensa ter influenciado o acontecimento de grandes
catástrofes.
- Delírio de negação de órgãos – O indivíduo experimenta profunda alterações corporais. Relata
que seu corpo está destruído ou morto, que não tem mais um ou vários órgãos, como o coração, o
fígado ou o cérebro, suas veias ‘estão secas’, não tem mais nem uma gota de sangue, seu corpo
secou ou apodreceu, seus braços e pernas estão se ‘esfarelando’. Denomina-se síndrome ou delírio
de Cottard quando o delírio de negação de órgãos vem acompanhado de delírio de imortalidade e
de enormidade (‘Não vou morrer nunca mais, vou sofrer para o resto da eternidade’) e, mais
raramente, de delírio de enormidade (o paciente vivencia o corpo se expandido, tomando conta de
todo o quarto, crescendo até proporções gigantescas). [...] O delírio de negação de órgãos e a
síndrome de Cottard são típicos das depressões graves com marcante componenteansioso. Podem
ocorrer também em quadros psico-orgânicos crônicos e na esquizofrenia. (DALGALARRONDO,
2008, p. 221-2)
79
Alguns autores fazem menção a uma variação relativa a este delírio: a chamada Síndrome de Cotard também
chamada de delírio de Cotard, síndrome do cadáver ambulante1, delírio niilista ou delírio de negação. É uma síndrome
rara de fundo psicológico onde a pessoa acredita estar morta, não reagindo a estímulos exteriores nem a outras pessoas.
Também pode acreditar que está com seus órgãos internos podres ou apodrecendo. (adaptado de Wikipédia)
74
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
- Delírio místico ou religioso – Envolve temas religiosos, espíritos, etc. O indivíduo diz que é Jesus
Cristo, que pode fazer milagres, que Deus lhe deu uma missão, ou que vai fundar uma nova
religião. No delírio de possessão, que pode ser aqui incluído, o doente julga que um espírito entrou
em seu corpo e assumiu o controle de sus atos.
- Delírio de reforma (ou salvacionismo) – Ocorre entre indivíduos que se sentem destinados a
salvar, reformar, revolucionar ou redimir o mundo ou a sociedade. Tal plano revolucionário ou
salvacionista está muitas vezes fundamentado em dogma ou sistema religioso ou político,
desenvolvido pelo próprio delírio. Esses delirantes têm convicção plena de que seu sistema religioso
ou político é absolutamente o único capaz de salvar de fato a humanidade. (DALGALARRONDO,
2008, p. 223)
- Delírio fantástico (ou mitomaníaco) – Envolve temas extraordinários, ou de extrema
grandiosidade. Por exemplo: uma paciente que afirma ter parido todas as pessoas que existem no
mundo.
- Delírio de identificação – O paciente julga que uma pessoa familiar foi substituída por uma sósia.
Este é fisicamente idêntico à primeira, mas psicologicamente distinto.
- Delírio de conteúdo depressivo – são aqueles que têm temática de colorido marcadamente triste,
como ruína ou miséria, culpa ou auto-acusação, doenças e mesmo o desaparecimento de partes do
corpo (negação dos órgãos). São tipos de delírios intimamente associados a estados depressivos
profundos. Esses delírios são o inverso dos delírios de grandeza ou daqueles em que o sujeito
acredita ser alguém muito especial (verificados em certos quadros de mania). Além disso, diz-se
que, nos transtornos de humor que cursam com ideias delirantes, o delírio é congruente com o
humor quando, em episódios de depressão psicótica, se observam delírios de ruína, culpa, negação
dos órgãos ou hipocondríacos (e, no caso da mania, delírios de grandeza). Quando os conteúdos dos
delírios não estão coerentes com a alteração do humor, diz-se que eles são “incongruentes com o
humor” ou humor-incongruentes (delírio persecutório em quadro depressivo, sem a ideia de
‘merecer’ ser perseguido, ou delírio de controle80 em quadro de mania). Os principais delírios de
conteúdo depressivo são os de ruína, de culpa e de auto-acusação, de negação de órgãos e
hipocondríacos.” (DALGALARRONDO, 2008, p. 221)
- Delírio de invenção ou descoberta – Aqui o indivíduo, mesmo completamente leigo na ciência
ou na área tecnológica em questão, revela ter descoberto a cura de uma doença grave (de AIDS, do
câncer, etc.), ou ter desenvolvido um aparelho moderno fantástico; enfim, descobertas ou invenções
que irão mudar o mundo. Verifica-se principalmente nos transtornos delirantes (antiga paranoia), na
esquizofrenia e na mania. (DALGALARRONDO, 2008, p. 222-3)
80
O delírio de controle é típico na Síndrome de Kandinsky-Clèrambault. Nesta síndrome seu portador acredita que
sua mente esta sendo controlada por alguém ou por forças externas. O portador crê, portanto, que seu pensamento, suas
sensações e seus comportamentos estão sendo controlados por outra pessoa, gerando o que se chama em psicopatologia
"automatismos".
Assim, segundo o primeiro psiquiatra a descrever o fenômeno, Dr. Kandinsky na Rússia, poderia haver automatismos
cognitivos, sensitivos e motores, combinados com delírios de influência física ou mental, tais como roubo ou inserção
do pensamento.
Mais adiante, Dr. Clèrambault na França, dividiu os automatismos de modo semelhante em três tipos:
1.Tipo associativo: inclui afrouxamento de associações, bloqueio do pensamento, fuga de ideias, delírios de influência,
publicação do pensamento etc.
2.Tipo sensitivo: delírios de influência física com sensações desagradáveis vindas de órgãos internos, provocadas por
terceiros.
3.Tipo motor: envolve o delírio de que outra pessoa é responsável por movimentos e ações.
Esta síndrome é frequentmente observada no contexto das Esquizofrenias.
75
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
- Delírio hipocondríaco - O paciente crê com convicção extrema que tem uma doença grave,
incurável e que irá morrer brevemente.
76
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA AFETIVIDADE
81
Afetividade – Definições:
[...] grau de resposta da pessoa ou sua suscetibilidade a prazer, dor e
outros estímulos emocionais. [...] (APA, 2010, p. 40)
[...] refere-se a um tom emocional momentâneo que acompanha o que
dizemos ou fazemos. (BARLOW, 2010, p. 62)
[...] termo introduzido por Bleuler para designar o conjunto dos processos
emocionais da vida dos sentimentos, da vida emotiva. Em sentido amplo,
designa o conjunto dos sentimentos de uma pessoa. (DORCSH, 2001, p.
19)
Chama-se afetividade a capacidade de experimentar sentimentos e emoções. A afetividade
compreende o estado de ânimo ou humor, os sentimentos, as emoções e as paixões. (PAIM, 1993, p.
219)
[...] Afeto vem do latim afficere, que significa influenciar, afetar. Esse termo pode ser usado para
designar genericamente os elementos da afetividade, incluindo emoções, sentimentos e humor; mas,
outras vezes, é empregado como sinônimo de emoção.
O termo emoção corresponde ao francês emouvoir, que significa comover, emocionar; e está ligado
a uma ideia de movimento. Emoção em geral representa um estado afetivo súbito, de curta duração
e grande intensidade, que se acompanha de alterações corporais, relacionadas a uma hiperatividade
autonômica.
Sentimento deriva-se do latim sentire, que significa sensação, perceber através dos sentidos, dar-se
conta. Esse termo em geral se refere a um estado afetivo menos intenso e mais prolongado que as
emoções, e sem as alterações fisiológicas encontradas nestas. Talvez se possa dizer que os
sentimentos resultem de um processamento cognitivo maior do que haveria nas emoções.
As paixões têm a intensidade das emoções, porém uma duração maior. Elas monopolizam e
direcionam os pensamentos e ações do indivíduo.
O humor (ou estado de ânimo, ou tônus afetivo) representa um somatório ou síntese dos afetos
presentes na consciência em um dado momento. Constitui o estado afetivo basal e fundamental, que
se caracteriza por ser difuso, isto é, não relacionado a um objeto específico, e por ser em geral
persistente e não reativo. O humor oscila entre os polos da alegria, da tristeza e da
irritabilidade, assim como entre a calma e a ansiedade. [...]
Não é necessário que o paciente nos conte como está se sentido para podermos avaliar a sua
afetividade: o afeto é expresso através da mímica, do olhar, dos gestos da postura e do tom de voz.
A afetividade é avaliada empaticamente. É como se o observador dissesse para si mesmo, por
exemplo: ‘Se eu estivesse me sentido como aquele indivíduo aparenta estar – pela sua expressão
facial, gestos, etc. -, eu me sentiriamuito alegre, portanto, ele está alegre.
81
O texto deste item foi retirado e adaptado, principalmente, de: CHENIAUX,2013, p. 139-151; DALGALARRONDO,
2008, p. 155-173 e, PAIM, 1993, p. 219-236
77
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Alterações do humor
Analise o esquema a seguir:
Hipertimia – [...] ou estado de ânimo morbidamente elevado, distinguem-se a euforia e a exaltação
afetiva patológica.
A euforia simples se traduz por um estado de completa satisfação e felicidade. Verificam-se
elevação do estado de ânimo, aceleração do curso do pensamento, loquacidade, vivacidade da
mímica facial, aumento da gesticulação, riso fácil e logorreia. A euforia simples é observada nos
indivíduos predispostos constitucionalmente e, em sua forma pura, na fase maníaca, nos estados
hipomaníacos, na embriaguez alcoólica, na demência senil. Na epilepsia, podem-se verificar estados
de euforia simples, [...].
Na exaltação patológica há não só a euforia, mas, também, aumento da convicção do próprio valor
e das aspirações. (‘[...] há, além da alegria patológica, a expansão do eu, uma sensação subjetiva de
grandeza e de poder. O Eu vai além dos seus limites, ganhando o mundo’). Vai acompanhada de
aceleração do curso do pensamento, que pode chegar à fuga de ideias, desviabilidade da atenção e
certa facilidade para passar rapidamente do pensamento à ação. A instabilidade afetiva desses
enfermos se traduz pela extrema facilidade com que eles passam da euforia à tristeza ou à cólera. O
estado de ânimo é o da distimia expansiva. Nos estados de exaltação patológica os enfermos dão a
impressão de mais jovens, há aumento do turgor vitalis
82
, manifestações de apetite voraz e de
excitação sexual, insônia, grande facilidade dos movimentos expressivos e tendência irresistível à
ação.
Hipotimia ou, depressão/ tristeza patológica; ou distimia hipotímica – Verifica-se o aumento da
reatividade para os sentimentos desagradáveis, podendo variar desde o simples mal-estar até o
estupor melancólico. Caracteriza-se, essencialmente, por uma tristeza profunda e imotivada, que se
acompanha de lentidão e inibição de todos os processos psíquicos. Em suas formas leves, a
depressão se revela por um sentimento de mal-estar, de abatimento, de tristeza, de inutilidade e de
82
Turgor vitalis – expressão latina que significa força, pressão de vida ou vital; disposição; estado de espírito.
78
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
incapacidade para realizar qualquer atividade. Nas formas mais graves, os doentes apresentam um
estado de profundo abatimento: fisionomia triste, traços contraídos, [...]. Os enfermos estão
dominados por um profundo sentimento de tristeza imotivada. No doente deprimido, as percepções
são acompanhadas de uma tonalidade afetiva desagradável: tudo lhe parece sombrio. Os doentes
perdem completamente o interesse pela vida. Nada lhes interessa do presente nem do futuro e, do
passado, são rememorados apenas os acontecimentos desagradáveis. As percepções são lentas,
monótonas, descoloridas. Ao enfermo parece que os alimentos perderam o sabor habitual. Nos
estados depressivos, as ilusões são mais frequentes do que as alucinações. As ideias deliroides são
comuns, expressando geralmente ideias de culpabilidade, de indignidade e de autoacusação. O
pensamento é lento e o próprio ato-de-pensar é acompanhado de um sentimento desagradável. O
conteúdo do pensamento exprime motivações dolorosas. O doente não pode livrar-se de suas ideias
tristes.
O quadro clínico da depressão patológica é caracterizado pela inibição, refletida na lentidão e
pobreza de movimentos, na mímica apagada, na linguagem lenta, monótona, algumas vezes
expressa numa voz sussurrada. Em alguns casos, a inibição motora acompanha-se de um estado de
tensão da musculatura voluntária, quadro clínico esse denominado pelos antigos autores de ‘estado
atônito’.
Os sintomas somáticos são evidentes. As alterações vasomotoras se revelam pelas mãos frias e
cianosadas, pela cianose dos lábios e pela hipotermia. São frequentes espasmos vasculares, com
elevação da pressão arterial, palidez da face e diminuição do turgor vitalis. Os doentes dão a
impressão de mais velhos. As perturbações digestivas são constantes: língua saburrosa (mucosa),
inapetência, prisão de ventre. As perturbações circulatórias ocasionam um sentimento subjetivo de
opressão na região cardíaca, determinando a chamada angústia precordial
83
.
Disforia – [...] diz respeito à distimia acompanhada de uma tonalidade afetiva desagradável, mal-
humorada. Quando se fala em depressão disfórica ou mania disfórica, está sendo designado um
quadro de depressão ou de mania acompanhado de forte componente de irritação, amargura,
desgosto ou agressividade.
Puerilidade – É uma alteração do humor que se
caracteriza pelo aspecto infantil, simplório,
regredido. O indivíduo ri ou chora por motivos
banais; sua vida afetiva é superficial, sem afetos
profundos, consistentes e duradouros. Verifica-se
especialmente na esquizofrenia hebefrênica, em
indivíduos com déficit intelectual, em alguns
quadros histéricos e em personalidades imaturas de
modo geral. Assemelhando-se à puerilidade, a
moria é uma forma de alegria muito pueril,
ingênua, boba, que ocorre principalmente em
pacientes com lesões extensas dos lobos frontais, em deficientes mentais e em indivíduos com
quadros demenciais acentuados. Nesses casos os enfermos fazem bufonarias, caretas, não
83
Precordial - Relativo ou pertencente à região que fica adiante do coração, ou nela situado. (Aurélio)
79
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
permanecem quietos um só instante; o humor é extremamente instável; tornam-se cada vez mais
exuberantes, loquazes, riem às gargalhadas.
Êxtase – [...] há uma experiência de beatitude, uma sensação de dissolução do Eu no todo, de
compartilhamento íntimo do estado afetivo interior com o mundo exterior, muitas vezes com
colorido hipertímico e expansivo. Está frequentemente associado a experiências circunscritas a um
contexto religioso ou místico, não sendo aqui considerado como fenômeno psicopatológico, mas
cultural. Entretanto, o êxtase também pode estar presente em condições psicopatológicas, como no
transe histérico, na esquizofrenia ou na mania.
Irritabilidade patológica – [...] há a hiper-reatividade desagradável, hostil e, eventualmente,
agressiva a estímulos (mesmo leves) do meio exterior. Qualquer estímulo é sentido como
perturbador, e o indivíduo reage prontamente de forma disfórica. Qualquer ruído (de crianças, da
televisão, de carros, etc.), a presença de muitas pessoas no local, qualquer crítica à pessoa doente,
enfim, tudo é vivenciado com muita irritação. A irritabilidade é sintoma bastante frequente e
inespecífico, indicando, não raramente, quadro de natureza orgânica. Também ocorre a
irritabilidade patológica nas síndromes depressivas, nos quadros maníacos, nos transtornos ansiosos
e na esquizofrenia. O clínico sempre deve procurar diferenciar a irritabilidade primária, oriunda
diretamente de um transtorno do humor psico-orgânico, de uma irritabilidade secundária, associada
a vivências psicóticas (delírios persecutórios, alucinações ameaçadoras, etc.) ou neuróticas
(conflitos inconscientes, insegurança, dificuldade em tomar decisões existenciais importantes, etc.).
Paratimia – A paratimia caracteriza-sepor uma inadequação do afeto: uma incongruência entre o
afeto expresso e a situação vivenciadas, ou entre o afeto expresso e aquilo que o indivíduo
verbaliza. Por exemplo: o paciente, rindo, conta que foi torturado na noite anterior; ou então o
doente afirma estar alegre, mas sua mímica é de tristeza.
A paratimia reflete uma desarmonia entre a afetividade e o pensamento. Ocorre na esquizofrenia.
Ambitimia – A ambitimia também chamada de ambivalência afetiva, segundo a denominação de
Bleuler, [...] Representa a presença de sentimentos opostos ou contraditórios que simultâneos e que
se referem ao mesmo objeto, pessoa ou situação. Por exemplo: ao mesmo tempo amar e odiar a
mesma pessoa.
Neotimia – [...] consiste em uma vivência inteiramente nova, extravagante e inusitada. São afetos
qualitativamente diferentes de todos os que o paciente havia experimentado em sua vida. Podem ter
esse caráter de neotimia alguns sentimentos místicos, de êxtase, de elação, de desolação e de terror.
A neotimia é observada na esquizofrenia – especialmente no trema84 -, na intoxicação por
alucinógenos e em algumas auras
85
epiléticas.
84
Trema – [...] estado de tensão peculiar em que o ator fica antes de entrar em cena e que o professor experimenta antes
de iniciar a aula. Poderá ser de maior ou menor intensidade. Esta é uma palavra tirada do argot, da gíria do teatro.
85
Aura - Fenômeno ou sensação especial que, nos indivíduos epilépticos, surge imediatamente antes do início do
ataque. “O paciente sente pronunciado cheiro de terra molhada e experimenta várias outras sensações peculiares.
Involuntariamente, emite um urro animalesco, conhecido como “grito do leão” ou “grito do pavão”. Seguem-se
normalmente, a queda ao chão e o início das convulsões. Durante as crises o paciente pode ser tomado de grande
80
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Outras alterações da afetividade
Labilidade afetiva – São estados nos quais ocorrem mudanças súbitas e imotivadas de humor,
sentimentos ou emoções. O indivíduo oscila de forma abrupta, rápida e inesperada de um estado
afeito para outro. O paciente está falando de algo ameno e começa a chorar convulsivamente,
passando, logo a seguir, a sorrir de forma tranquila. Pode ocorrer em quadros de depressão ou
mania, estados graves de ansiedade e esquizofrenia.
Incontinência afetiva – Na incontinência afetiva, o indivíduo não consegue conter de forma
alguma suas reações afetivas. A resposta afetiva ocorre geralmente em consequência a estímulos
apropriados, mas é sempre muito desproporcional. Pode ocorrer em quadros de depressão ou mania,
estados graves de ansiedade e esquizofrenia.
Fobias – São medos determinados psicopatologicamente, desproporcionais e incompatíveis com as
possibilidades de perigo real oferecidas pelos desencadeantes, chamados de objetos ou situações
fobígenas
86
.
Pânico – É uma reação de medo intenso, de pavor, relacionado geralmente ao perigo imaginário de
morte iminente, descontrole ou desintegração. O pânico se manifesta quase sempre como crises de
pânico. Estas são crises agudas e intensas de ansiedade, acompanhadas por medo intenso de morrer
ou de perder o controle e de acentuada descarga autonômica (taquicardia, sudorese, etc.). As crises
caracterizam-se pelo início abrupto de uma sensação de grande perigo e desejo de fugir ou escapar
da situação. [...]
Tenacidade afetiva – [...] consiste na persistência anormal de certos estados afetivos, como
ressentimento, o ódio e o rancor. Em virtude dessa fixação prolongada de sentimentos
desagradáveis, o enfermo está sempre de mau humor e encara todos os acontecimentos da vida
através de um prima pessimista. [...] A tenacidade afetiva é própria dos epilépticos, conforme
assinalou Kleis, a perseveração dos epilépticos é um fenômeno geral, semelhante à sonolência ou ao
estupor, e abrange também os processos afetivos. Daí a persistência anormal dos sentimentos
observada nesses enfermos.
Sugestibilidade patológica – É uma alteração de ordem tanto afetiva quanto volitiva. Trata-se de
uma predisposição psíquica especial, que determina uma receptividade e uma submissão muito
fáceis às influências estranhas exercidas sobre o indivíduo. No terreno puramente psíquico,
encontra-se a sugestibilidade nos histéricos, razão pela qual se tornam esses enfermos muito
favoráveis à produção de estados hipnóticos, de sintomas somáticos e até mesmo de sintomas
psicóticos – as chamadas perturbações mentais induzidas ou por contágio mental. [...]
A sugestibilidade é também muito comum nos deficientes mentais e nos estados demenciais, nos
quais é uma consequência da insuficiência intelectual. Na demência senil a sugestibilidade adquire
grande significação do ponto de vista médico-legal (Justiça), em virtude de estarem esses enfermos
agressividade. Fora do surto a consciência e a vontade são restabelecidas plena ou parcialmente” (FUHRER, R.E.,
2000, p. 58)
86
Vide descrição clínica e relação das principais fobias na página 113 desta apostila.
81
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
sujeitos a explorações prejudiciais a seus interesses pessoais, extorsão de dinheiro, captação de
herança.
A sugestibilidade pode também ser observada nos estados de excitação maníaca e nos alcoolistas.
No delirium de abstinência alcoólica, por exemplo, podem-se sugerir facilmente várias coisas ao
enfermo, inclusive alucinações.
Na catatonia, a sugestibilidade é predominantemente motora. [...]
82
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA VOLIÇÃO
87
88
Principais conceitos:
Impulso (em inglês, drive - tendência – “necessidade repentina e inegável de agir imediatamente,
muitas vezes resultando em ação sem deliberação para um propósito que não pode ser lembrado.
Também denominado impulsão.” (APA, 2010, p.503) Comportamento súbito, brusco, inesperado e
irracional, muitas vezes perigoso, vivenciado pelo sujeito como uma necessidade imperiosa. Sua
carga afetiva é geralmente intensa, mas de diversas naturezas, por exemplo, sexual ou destrutiva;
[...] (DORON; PAROT, 2008, p. 416). A impulsividade compõe o temperamento
89
de um
indivíduo.
O conceito de impulso corresponde à tradução do termo psicanalítico pulsão (em alemão, trieb –
impulso, ímpeto, força impelente, força que coloca em movimento) cujo melhor sentido, em
psicanálise, seria o de uma pressão interna, totalmente inconsciente, “[...] algo incômodo, que
incita, algo intrinsecamente incessante e impelente que não é eliminado, pode apenas ficar em
estado de impedimento, bloqueado, latente. [...] [...] “Trieb é a força responsável pelas
necessidades, vontades, impulsos e desejos, assumindo a forma de impulso fisiológico, pensamento
etc..” (FREUD, 2004, p. 48) “Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga
energética, fator de motricidade) que faz tender o organismo para um alvo. Segundo Freud, uma
pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu alvo é suprimir o estado de
tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir o seu
alvo.” (LAPLANCHE; PONTALIS, 1986, p. 506). Em psicanálise são distinguidos vários tipos de
pulsão (p.ex., pulsões sexuais, pulsões agressivas etc).
Vontade – A vontade constitui um processopsíquico de escolha de uma entre várias possibilidades
de ação, uma atividade consciente de direcionamento da ação. Trata-se de uma elaboração cognitiva
realizada a partir dos impulsos, sendo influenciada por fatores intelectivos e socioculturais.
Desejo – [...] é um querer, um anseio, um apetite, de natureza consciente ou inconsciente, que visa
sempre algo, que busca sempre a sua satisfação. Os desejos se diferenciam das necessidades, pois
estas são fixas e inatas, independentes da cultura e da história individual, enquanto aqueles são
móveis, moldados e transformados social e historicamente.
‘[...] Foi no contexto da psicologia do sonho que S. Freud elaborou sua teoria do desejo. As
condições de possibilidade da formação do desejo são dispostas no decorrer da experiência de
satisfação [prazer]. Esta ocorre quando a excitação proveniente de uma necessidade interior é
87
A expressão volição caracteriza o “ato pelo qual a vontade se determina.” (Aurélio). Entre os autores de
psicopatologia há termos distintos sobre esse mesmo tema. Por exemplo, vontade (“sentimento que incita alguém a
atingir o fim proposto por esta faculdade; aspiração; anseio; desejo” – Aurélio), conação (“tendência consciente para
atuar” – Aurélio), atividade voluntária etc.
88
Este item foi construído a partir de adaptações dos seguintes autores: CHENIAUX, 2013, p. 117-29;
DALGALARRONDO, 2008. p. 174-84.
89
Temperamento (do latim temperare que significa “equilíbrio”) – corresponde aos aspectos (traços) geralmente
inconscientes da personalidade relacionados às reações emocionais bem como de sua rapidez e intensidade. O
temperamento poderá ser alterado, até certos limites, por influências médicas (medicações, tratamentos etc) bem como
no decurso da aprendizagem e das experiências de vida. A impulsividade, a sensibilidade, a intempestividade etc. são
características de temperamento.
83
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
amainada pela obtenção do objeto específico. S. Freud traz o exemplo de um bebê faminto que
recebe seu alimento: um elemento essencial dessa experiência é o aparecimento de certa percepção
(o alimento, no exemplo escolhido), cuja imagem mnésica ficará associada com o traço mnésico da
excitação da necessidade. Desde o momento em que a necessidade se apresentar novamente, haverá,
graças à relação estabelecida, desencadeamento de uma impulsão psíquica, que de novo investirá a
imagem mnésica dessa percepção na memória e provocará de novo a percepção, ou seja,
reconstituirá a situação de primeira satisfação. Essa moção [movimento] chama-se desejo; o
reaparecimento da percepção é realizada pelo desejo. O desejo inconsciente e, portanto, definido
como visando primitivamente a uma repetição alucinatória de uma percepção anteriormente
associada à satisfação, o que explica sua propensão a manifestar-se no sonho ou na fantasia.’
(DORON; PAROT, 2006, p. 227 – as chaves são do professor)
Inclinação – [...] é a tendência a desejar, buscar, gostar, etc., intimamente relacionada à
personalidade do indivíduo, duradoura e estável, que inclui tanto aspectos afetivos como volitivos.
Trata-se de algo constitutivo do indivíduo e é, em certa proporção, de natureza genética.
Instinto – [...] é definido como um modo relativamente organizado, fixo e complexo de resposta
comportamental de determinada espécie, que, por meio dela, pode sobreviver melhor em seu
ambiente natural. Geralmente envolve um conjunto de respostas e comportamentos herdados que,
apenas com modificações superficiais, serve sempre à adaptação do organismo (p.ex., as reações e
os comportamentos associados à fome, os instintos de sobrevivência, etc.). Há uma expressão
proveniente da etologia, que é a pesquisa científica em relação aos hábitos dos animais e da sua
acomodação às condições do ambiente, ‘padrão fixo de ação’, que para em alguns casos, assemelha-
se ao de instinto. Sua definição é a de um ‘comportamento caracterizado como específico de uma
espécie, altamente estereotipado, completado uma vez que iniciado, resistente à modificação e
frequentemente desencadeado por um estímulo específico.’ (DAVIDOFF, 2001, p.767)
Processo volitivo
O processo volitivo divide-se em quatro etapas: (1) intenção ou propósito; (2) deliberação (ou
análise); (3) decisão; e, (4) execução.
A fase de intenção ou propósito, na qual se esboçam as tendências básicas do indivíduo, suas
inclinações e interesses. Nesse momento, impulsos, desejos e temores inconscientes exercem
influência decisiva sobre o ato volitivo, muitas vezes imperceptíveis para o próprio indivíduo.
A fase de deliberação, que diz respeito à ponderação consciente, levando-se em conta tanto os
motivos como os móveis implicados no ato volitivo. O indivíduo faz uma análise básica do que
seria positivo ou negativo, favorável ou desfavorável, benéfico ou maléfico em sua decisão. É um
momento de apreciação, consideração dos vários aspectos e das implicações de determinada
decisão.
A fase de decisão propriamente dita é o momento culminante do processo volitivo, instante que
demarca o começo da ação, no qual os móveis e os motivos vencidos dão lugar aos vencedores.
A fase de execução constitui a etapa final do processo volitivo, na qual os atos psicomotores
simples e complexos decorrentes da decisão são postos em funcionamento, a fim de realizar e
consumar aquilo que mentalmente foi decidido e aprovado pelo indivíduo.
84
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
O ato de vontade pautado por essas quatro fases, em que ponderação, análise e reflexão precedem a
execução motora, é denominado ação vonluntária.
Alterações da vontade
Hipobulia/abulia – significam, respectivamente, diminuição e abolição da atividade conativa. A
hipobulia e a abulia caracterizam-se por uma sensação de indisposição, fraqueza, desânimo ou falta
de energia; perda da iniciativa, da espontaneidade e do interesse pelo mundo externo; indecisão;
dificuldade de transformar as decisões em ações; e inibição da psicomotricidade.
Ocorrem na depressão, na esquizofrenia, no delirium sem psicose, em alguns casos de demência ou
retardo mental e no uso crônico de neurolépticos
90
.
Enfraquecimento de impulsos específicos
Distúrbios como a diminuição ou perda do apetite (anorexia), da sede e da libido, além de insônia,
representam um enfraquecimento dos impulsos, um debilitamento das tendências naturais à
satisfação das necessidades corporais.
A anorexia é observada na depressão, na anorexia nervosa, em alguns quadros de ansiedade e em
diversas condições médicas gerais. A anorexia deve ser distinguida da sitiofobia
91
, na qual a recusa
alimentar se deve a manifestações fóbicas ou delirantes, não havendo uma real redução do apetite.
A insônia pode ser classificada em: inicial, quando há dificuldade para adormecer; intermediária,
caracterizada por diversos despertares noturnos; e terminal, quando o paciente acorda muito cedo e
não consegue voltar a dormir. A insônia aparece na depressão (podendo ser inicial ou terminal), nas
síndromes de ansiedade (em geral, inicial ou intermediária), na mania, nos quadros de agitação
psicomotora, nas intoxicações por psicoestimulantes (anfetamina, cocaína, cafeína, etc) e em
quadros de abstinência a algumas drogas psicoativas (opiáceos, benzodiazepínicos, álcool, etc).
A perda da libido é observada na depressão e no uso de substâncias antiandrogênicas
92
, de
neurolépticos e de alguns antidepressivos (especialmente os tricíclicos e os serotoninérgicos
93
).90
Neurolépticos - Os antipsicóticos ou neurolépticos são medicamentos inibidores das funções psicomotoras, a qual
pode encontrar-se aumentada em estados, por exemplo, de excitação e de agitação. Paralelamente eles atenuam também
os sintomas neuro-psíquicos considerados psicóticos, tais como os delírios e as alucinações. São substâncias químicas
sintéticas, capazes de atuar seletivamente nas células nervosas que regulam os processos psíquicos no ser humano e a
conduta em animais. (http://www.psiqweb.med.br)
91
Sitiofobia - Medo de se alimentar.
92
Antiandrogênicas são drogas que inibem o hormônio testosterona. Geralmente são utilizadas no tratamento de
doenças da próstata.
93
Serotonina - A serotonina é um neurotransmissor que atua no cérebro regulando o humor, sono, apetite, ritmo
cardíaco, temperatura corporal, sensibilidade a dor, movimentos e as funções intelectuais.
Quando ela se encontra numa baixa concentração, pode levar ao mau humor, dificuldade para dormir e vontade de
comer o tempo todo, por exemplo. Uma das formas de aumentar a concentração de serotonina na corrente sanguínea é
consumindo alimentos ricos em triptofano, outra forma é praticando exercícios físicos com regularidade.
(http://www.tuasaude.com)
85
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Intensificação de impulsos específicos
A bulimia (ou sitiomania, ou sitiofilia) consiste num
aumento patológico do apetite. Pode ocorrer em distúrbios
hipotalâmicos, na síndrome de abstinência relacionada à
anfetamina, em alguns casos de depressão, no transtorno
disfórico pré-menstrual e em quadros de ansiedade. Está
relacionada à hiperfagia
94
– ingestão excessiva de alimentos –
e à obesidade.
A sede excessiva é denominada potomania; a ingestão
exagerada de água, polidipsia. Esta é observada no diabetes
melito, no diabetes insípidus
95
e na síndrome de ansiedade.
Hipersonia (ou letargia) significa sono em excesso. Ela é observada em alguns deprimidos; pode
ser um efeito colateral de medicamentos como benzodiazepínicos, antipsicóticos e antidepressivos;
e ocorre de forma paroxística na narcolepsia
96
.
O desejo sexual patologicamente aumentado no homem é chamado de satiríase e, na mulher,
ninformania. O aumento da libido é uma alteração típica da mania.
Hiperbulia – [...] caracteriza-se por um sentimento subjetivo de força, de energia, de disposição;
observa-se um aumento da iniciativa, da espontaneidade e do interesse em relação ao mundo
externo; costuma haver desinibição e aumento da psicomotricidade. Ocorre principalmente na
síndrome maníaca.
Atos impulsivos – [...] caracterizam-se por serem súbitos, incoercíveis e incontroláveis. São atos
desprovidos de finalidade consciente. Pulam-se as etapas de deliberação e decisão do processo
volitivo, indo-se direto da intenção para a ação. Presumivelmente, os atos impulsivos ocorrem em
função de um aumento da intensidade dos impulsos ou de um enfraquecimento dos mecanismos de
inibição e refreamento.
Os atos impulsivos tornam-se patológicos quando são empaticamente incompreensíveis para o
observador. Alguns comportamentos heteroagressivos, autoagressivos e suicidas, a frangofilia, a
piromania, a dromomania, a dipsomania e os ataques de hiperingestão alimentar (da bulimia
nervosa) podem ter as características de um ato impulsivo.
Os comportamentos heteroagressivos impulsivos ocorrem de forma não premeditada, sendo
muitas vezes imotivados. Podem algumas vezes resultar em homicídio.
A frangofilia representa uma forma especial de comportamento agressivo. Nesse caso, a ação é a
de destruir objetos – deixa-los em frangalhos -, como roupas, móveis, colchões, etc.
A piromania constitui uma propensão a atear fogo, provocar incêndio. Muitas vezes trata-se de
uma reação agressiva a uma contrariedade.
94
Sobre hiperfagia, vide página 193.
95
A diabetes insipidus (DI) é uma doença caracterizada pela sede pronunciada e pela excreção de grandes quantidades
de urina muito diluída. Esta diluição não diminui quando a ingestão de líquidos é reduzida. Isto denota a incapacidade
renal de concentrar a urina. A DI é ocasionada pela deficiência do hormônio antidiurético (vasopressina) ou pela
insensibilidade dos rins a este hormônio.
96
Narcolepsia - Manifestação caracterizada pela necessidade mórbida de dormir, ou por ataques repentinos de sono,
que ocorrem com intervalos; sono paroxístico; hipnolepsia.
86
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Os impulsos heteroagressivos, a frangofilia e a piromania são observados nos transtornos de
personalidade antissocial, borderline
97
e explosiva, assim como na mania, na esquizofrenia, no
retardo mental, na demência e no estado crepuscular epiléptico.
A dromomania (poriomania, automatismo ambulatório ou fuga) consiste numa necessidade de
afastar-se, de mudar de lugar, que se manifesta como uma deambulação sem finalidade ou como
uma corrida súbita e imotivada. A fuga proporciona alívio para um estado de disforia relacionado a
circunstância do ambiente. Ocorre nos estados crepusculares histérico e epiléptico, na esquizofrenia,
na demência e no retardo mental.
A dipsomania representa uma tendência periódica para a ingestão de grande quantidade de álcool,
afetando pessoas que estão, em geral, abstêmias. Após o início da ingestão alcoólica, o indivíduo
perde inteiramente o controle sobre esta, e a bebe até cair inconsciente.
Na bulimia nervosa, ocorrem ataques de hiperingestão alimentar, que se caracterizam pelo
comportamento de comer rapidamente uma grande quantidade de alimentos e, principalmente, pela
sensação de perda de controle sobre a ingestão.
Atos compulsivos (ou compulsões)
As compulsões, [...], são atos que o indivíduo se sente compelido a realizar. Todavia, ao contrário
do que ocorre nos atos impulsivos, a execução não se dá de imediato, e sim somente após alguma
deliberação consciente, havendo, com frequência, luta ou resistência contra a sua execução.
Também diferentemente dos atos impulsivos, os atos compulsivos nem sempre levam a uma
sensação de prazer; muitas vezes produzem apenas certo alívio, em geral temporário, para uma
vivência disfórica.
No transtorno obsessivo-compulsivo, as compulsões podem ser secundárias a ideias obsessivas,
uma forma de combater essas ideias, de reduzir a ansiedade provocada por elas; ou, então,
consistem em comportamentos repetitivos que requerem um padrão rígido de realização, e que
muitas vezes assumem a forma de verdadeiros rituais. Por exemplo: vem à mente do paciente a
ideia de que seu pai vai morrer, e ele se vê impelido a bater com a colher na xícara de café cinco
vezes para evitar que tal tragédia ocorra; lavar as mãos dezenas de vezes ao dia em função do medo
de contaminação por germes; conferir se desligou o gás inúmeras vezes ao sair de casa. [...] O
paciente com transtorno obsessivo-compulsivo reconhece o caráter absurdo de suas compulsões e
tenta resistir a elas. Compulsões são comuns também na depressão e na síndrome de Tourette
98
.
97
Sobre o tipo borderline vide página 142.
98
Síndrome de Tourette (Transtorno de Tourette ou Doença de Gilles de La Tourette) é um distúrbio
neuropsiquiátrico caracterizado por tiques múltiplos, motores ou vocais, que persistem por mais de um ano e geralmente
se instalam na infância.
Na verdade, alguns destes movimentos, sua intensidade, podem ser controlados parcialmente, à custa de muita tensão.
Assim, na presença de pessoas desconhecidas ou com quemnão se tem intimidade, a pessoa com a síndrome certamente
se esforçará para conter ao máximo os tiques.
Classificação dos Tiques:
•Simples
1.Motores: Piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os ombros, fazer caretas, trincar os dentes, mover os dedos das
mãos, etc.
2.Vocais: “coçar” a garganta (Pigarrear, limpar a garganta), grunhidos, uivos, zumbidos, latidos, estalidos com a língua,
fungar, gritar, assobiar...
•Complexos. Os tiques complexos geralmente são precedidos por algum pensamento que direta ou indiretamente os
desencadeia, como obsessões, gerando ansiedade.
1.Motores: Pular, tocar pessoas ou coisas, cheirar, retorcer-se e, embora muito raramente, atos de autoagressão, tais
como machucar-se ou morder a si próprio...
87
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Possuem igualmente um caráter compulsivo o padrão de uso de drogas psicoativas na dependência
química (toxicofilia), o comportamento alimentar na obesidade hiperfágica comum (em que não há
ataques de hiperingestão), o jogo patológico, a cleptomania e certos padrões de comportamentos
relativos ao comprar e ao envolvimento amoroso.
O comportamento de um indivíduo em relação à comida, ao jogo e ao objeto sexual pode possuir
os mesmos aspectos observados nos quadros de dependência química em relação à droga: avidez
(ânsia por comida, pelo jogo ou pelo parceiro sexual), pensamentos recorrentes (quanto aos
mesmos), negação da dependência, sintomas de abstinência e a ocorrência de prejuízos
psicossociais significativos.
Na cleptomania, o indivíduo, mais frequentemente uma mulher, vê-se impelido a furtar
determinado objeto, do qual na verdade não necessita e cujo valor financeiro é irrelevante. O ato de
roubar é precedido de ansiedade e acompanha-se de um alívio dessa ansiedade, além de certa
excitação e prazer. A compulsão por comprar (ou oniomania, prodigalidade
99
) tem
características semelhantes.
Comportamentos desviantes em relação aos impulsos
Os comportamentos de automutilação e suicida podem ser considerados desvios dos impulsos de
autopreservação. Formas leves e moderadas de automutilação ocorrem mais em pacientes com
retardo mental ou transtorno de personalidade borderline. Já formas mais graves são mais comuns
na esquizofrenia. O suicídio é um risco importante especialmente na depressão, no alcoolismo e na
esquizofrenia, embora nem sempre esteja relacionado a uma doença mental.
A alotriofagia representa um desvio dos impulsos de nutrição, uma perversão do apetite, como se
chamava antigamente. Consiste na ingestão de coisas estranhas ou inadequadas. Por exemplo:
comer animais repugnantes (lagartixa, barata, minhoca), excrementos (coprofagia), substâncias
nocivas e objetos perigosos (tinta, botões, alfinetes, sabão, etc). [...] Ocorre mais frequentemente no
retardo mental e na demência, e, ainda, na esquizofrenia residual e na mania. Comum também é a
tricotilomania, impulso a arrancar os cabelos podendo ser seguido da tricofagia, comê-los.
A malácia caracteriza uma tendência do indivíduo a comer coisas extravagantes, como comer terra,
cinza, madeira, papel, sabão, parafina, animais pequenos repugnantes como lagartixas, baratas,
minhocas, vermes e outros pequenos animais vivos, substâncias orgânicas em decomposição,
excrementos (croprofagias) etc. Essa alteração é comum nos casos de deficiência mental grave e
nos dementes senis.
As parafilias
100
(ou Transtornos da Preferência Sexual) constituem um desvio do
comportamento sexual. Consistem na preferência por objetos ou situações sexuais não usuais, que
2.Vocais: Frases fora de contexto, frases ou sons ouvidos recentemente que têm que ser repetidos (ecolalia), e mais
raramente obscenidades.
Apesar de não haver cura, há tratamento e a indicação para fazê-lo depende muito do quão incomodado o "Touréttico"
se sente. Sim, porque muitas vezes os tiques incomodam mais quem os observa, do que quem os têm.
99
A prodigalidade também pode ser entendida não só pelo impulso descontrolado (patológico, portanto) à compra,
como também o impulso descontrolado ao desperdício, às doações e à dilapidação do patrimônio pessoal ou familiar
(comum por exemplo, em alguns casos da demência, da compulsão ao jogo, da dependência química etc.). É comum,
nessas circunstâncias, que tais pessoas, por iniciativa de suas próprias famílias, sejam interditadas civilmente na Justiça.
100
Alguns autores preferem a denominação ‘atos impulsivos e compulsivos de natureza sexual; outros as chamam de
perversões sexuais. “Uma perversão representa um desvio em relação ao ato sexual ‘normal’, definido este como coito
que visa a obtenção do orgasmo pela penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto. Diz-se que existe perversão
88
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
se tornam uma condição necessária para a excitação sexual e o orgasmo. Na quase totalidade das
vezes, as parafilias acometem pessoas do sexo masculino. No fetichismo, o interesse sexual se
concentra sobre partes não genitais do corpo feminino (pés, cabelos, nuca, etc) ou peças do
vestuário (sapatos, roupas íntimas, meias, etc.). No fetichismo transvéstico o indivíduo veste-se
com roupas do sexo oposto a fim de excitar-se sexualmente. No exibicionismo, o comportamento
consiste na exposição dos órgãos genitais, geralmente contra a vontade da pessoa que observa. Na
escopofilia (ou voyeurismo), o prazer provém basicamente da observação de uma pessoa que está
tento uma relação sexual ou que está nua ou tirando a roupa. No sadomasoquismo, o prazer está
vinculado à dor, humilhação, ou dominação e submissão. Na coprofilia, a excitação depende do uso
de excrementos no ato sexual. Na pedofilia o desejo sexual é por crianças ou púberes do sexo
oposto. Na pederastia o desejo sexual é por crianças ou púberes do mesmo sexo. Na gerontofilia o
desejo sexual é por idosos. Na zoofilia é por animais e na necrofilia os objetos sexuais são
cadáveres. Na compulsão à masturbação há uma intensa necessidade de realizar atividades
masturbatórias repetitivas, até mesmo praticada com desprazer. Na compulsão a utilizar
clisteres
101
o paciente introduz objetos, como lâmpadas, podes vidro, garrafas, etc., no ânus ou na
vagina. No frotteurismo o indivíduo toca ou esfrega-se em uma pessoa sem o seu consentimento.
Ambitendência
A ambitendência também é denominada ambivalência volitiva. Consiste numa incapacidade para
decidir, em função da presença na consciência de tendências volitivas opostas. Por exemplo, querer
ficar perto de alguém e, ao mesmo tempo, não querer, e temer tal aproximação. A ambitendência
pode ocorrer na esquizofrenia.
Um fenômeno dessa natureza ocorre nos pacientes obsessivos. Nestes há um excesso de
deliberação, ou seja, todas as alternativas possíveis de conduta são minuciosa e repetidamente
examinadas, o que impede que se chegue à etapa de decisão do processo volitivo.
Negativismo
O negativismo, [...], consiste numa resistência não deliberada, imotivada e incompreensível às
solicitações externas. No negativismo passivo, o paciente simplesmente não faz o que lhe é pedido;
no ativo, ele faz o oposto ao solicitado. Podem ser manifestações de negativismo passivo o
mutismo (a recusa a falar) e a sitiofobia (recusa de alimentos). [...] O negativismo é observado em
quadros catatônicos, como na esquizofrenia e na depressão.
É uma ‘tendência permanente e instintiva a reagir contra toda solicitação do mundo exterior,quaisquer que seja a sua natureza.’ (Kahlbaum). Essa tendência a resistir às influências externas,
chamada pelos antigos autores loucura de oposição, manifesta-se não só em relação às ordens
transmitidas ao paciente como ainda aos movimentos que se procura imprimir aos seus membros.
Se o médico manda o enfermo levantar-se, deitar-se, vestir-se ou andar, ele não obedece ou faz
exatamente o contrário daquilo que se lhe ordena.
O negativismo também é classificado como uma alteração do comportamento motor ou da
psicomotricidade (vide página 96).
quando o orgasmo é obtido através de objeto sexuais ou por outras zonas corporais, e quando o orgasmo é subordinado
de forma imperiosa a certas condições extrínsecas. De forma geral, tem-se por perversão o conjunto de comportamento
psicossexual que acompanha tais atipias na obtenção do prazer sexual.” (adaptado de CASTRO, 2006, 76)
101
Clister - Injeção, no reto, de água, de líquido medicamentoso ou de substância para contraste radiológico.
89
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Reação do último momento
[...] consiste no desaparecimento súbito de uma conduta negativista justamente no momento em que
o examinador desiste do seu empenho de fazer com que o paciente atenda à sua solicitação. Por
exemplo, o indivíduo se recusa a responder a qualquer pergunta por mais de uma hora, e permanece
o tempo todo em silêncio, sem sequer olhar para o examinador. Mas, quando este vai se retirar, o
doente começa a cooperar. Todavia, a falta de cooperação em geral se reinicia logo em seguida.
Sugestionabilidade volitiva ou patológica
[...] é um sintoma oposto ao negativismo. Consiste numa tendência exagerada a atender às
solicitações vindas do exterior. Ocorre nos transtornos dissociativos e conversivos
(autossugestão); e nos estados hipnóticos e no transtorno psicótico compartilhado
(heterossugestão). Num transtorno dissociativo, por exemplo, o paciente se convence de que
perdeu a memória. Num transtorno conversivo, ele pode passar a acreditar, por si próprio, que está
paralítico ou cego. Já no transtorno psicótico compartilhado, um indivíduo primariamente delirante,
que sofre, por exemplo, de esquizofrenia, ‘contagia’ um segundo indivíduo, mais crédulo e ingênuo,
com sua ideação patológica. Os fenômenos em eco – ecopraxia, ecomimia e ecolalia102 –
representam casos mais graves de sugestionabilidade e ocorrem na síndrome catatônica.
Obediência automática
A obediência automática representa um exemplo de sugestionabilidade patológica. Caracteriza-se
pelo cumprimento passivo e imediato, sem qualquer reflexão ou elaboração, de quaisquer ordens ou
solicitações, mesmo que a ação realizada seja perigosa ou danosa para o próprio paciente. Se se
disser para o indivíduo pular do vigésimo andar, ele o fará ‘sem pestanejar’. O obediência
automática ocorre na síndrome catatônica.
Poriomania – É o impulso e o comportamento de andar a esmo, viajar, ‘desaparecer de casa’,
‘ganhar o mundo’, como se diz na linguagem popular. Ocorre em pacientes esquizofrênicos (às
vezes, por imaginar que está sendo perseguido e precisar ‘sumir do mapa’), em pessoas com quadro
psico-orgânicos e nos deficientes mentais, etc.
Jogo patológico
É a compulsão por jogos de azar, fazer apostas, especular com dinheiro, apesar de prejuízos
financeiros e sociais percebidos pelo sujeito.
Compulsão por internet e vídeos-games
Recentemente um número crescente de pessoas passou a apresentar dependência grave pela internet
(jogos, salas de bate-papo, sites eróticos e de compra, [sms] etc.). Parecem ser jovens com baixa
autoestima, tímidos e com baixa proatividade.
O exame da conação
102
Ecopraxia – consiste na repetição automática e despropositada das ações motoras executadas por outra pessoa, que
está diante do paciente. São imitados gestos, posturas, a fala (ecolalia) ou as expressões fisionômicas (ecomimia).
90
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
A exploração da conação dá-se, basicamente, pela observação do comportamento do paciente:
observa-se se ele demonstra iniciativa, espontaneidade e interesse, e ainda a capacidade de tomar
decisões.
Em geral, o grau de cooperação do paciente numa simples entrevista já fornece elementos para a
identificação de alterações, como negativismo e sugestionabilidade patológica.
Para a detecção de obediência automática, são dada, sem prévias explicações, ordens simples que
pareceriam às pessoas em geral estranhas ou inadequadas para a situação de um exame médico:
‘Levante os braço...Abaixe os braços...Sente-se... fique de pé... Dê três pulinhos...Dê três voltas em
torno da cadeira...’
As variações quantitativas da linguagem e da psicomotricidade costumam estar correlacionadas
diretamente com a conação. A hiperbulia quase sempre se acompanha de logorreia e de agitação
psicomotora; e a hipobulia, de oligolalia
103
ou mutismo e de inibição psicomotora.
103
Oligolalia ou laconismo – refere-se a uma expressão verbal diminuída, mas não abolida. Consiste no oposto da
logorreia. É observada nas mesmas situações em que o mutismo pode ocorrer.
91
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DO COMPORTAMENTO MOTOR (ou, PSICOMOTRICIDADE)
104
A motilidade
Nem todos os movimentos corporais se encontram no âmbito da psicologia e da psicopatologia, mas
somente as ações psicomotoras. Aqueles movimentos corporais involuntários e independentes do
psiquismo interessam apenas à neurologia.
As ações psicomotoras possuem um conteúdo psicológico, são uma expressão do psiquismo. São
voluntárias, isto é, conscientes quanto à motivação e finalidade. Representam a quarta etapa do
processo volitivo: a execução.
A motilidade consiste na via final de todo evento psíquico e é a única forma de acesso que temos ao
psiquismo de uma outra pessoa.
Na psicomotricidade está incluída a fala, mas esta faz jus a um capítulo à parte. Os movimentos
expressivos da mímica – embora estejam diretamente relacionados ao psiquismo, particularmente à
afetividade – não são estudados aqui, por não serem, segundo Jaspers, voluntários nem intencionais.
Apraxia – [...] consiste na dificuldade ou impossibilidade de realizar atos motores intencionais,
voluntários, na ausência de paresia
105
ou paralisia, de déficit sensorial e de incoordenação motora. A
apraxia representa a perda do movimento aprendido.
As apraxias estão relacionadas a lesões corticais, geralmente no hemisfério dominante, envolvendo
doenças vasculares cerebrais, processos demenciais e neoplasia
106
.
[As formas da apraxia são: a ideomotora, a ideativa, a construcional, a de vestimenta e a da
marcha.] A apraxia ideomotora é a perda da capacidade de realizar movimentos simples em
resposta à solicitação do examinador: por exemplo, bater num prego com um martelo; fazer um
aceno significando adeus; escovar os dentes; etc. O paciente pode conseguir executar o mesmo ato
de forma espontânea. A apraxia ideativa, por sua vez, é a perda da capacidade de realizar
movimentos sequenciais: por exemplo, dobrar uma carta, coloca-la em um envelope, lacrar o
envelope e, em seguida, colocar um selo. Os pacientes conseguem executar individualmente os
movimentos que integram a sequência. A apraxia construcional é aincapacidade de construir
figuras geométricas, montar quebra-cabeças ou desenhar um cubo ou outras formas geométricas. A
apraxia de vestimenta é a perda da capacidade para vestir-se, mantendo-se as capacidades motoras
simples e a cognição global. Tanto a apraxia construcional como a de vestimenta resultam
geralmente de lesões do hemisfério direito. A apraxia da marcha é a incapacidade de iniciar o
movimento espontaneamente e organizar a atividade gestual da marcha, ocorrendo com frequência
a marcha em pequenos passos (petit pas). A apraxia da marcha resulta de lesões dos lobos frontais e
subcorticais e de alterações associadas à hidrocefalia de pressão normal.
Para avaliar a presença de apraxia ideomotora, podem ser dadas ao paciente ordens como as
seguintes: ‘Mostre-me como você faz um aceno de adeus’; ‘Mostre-me como você cortaria com
uma tesoura; ‘Mostre-me como você escovaria seus dentes com uma escova’. Deve-se frisar para o
104
Este tópico foi elaborado a partir de recortes e adaptações dos seguintes autores: CHENIAUX, 2013, p.131-38;
DALGALARRONDO, 2008, p. 184-92; PAIM, 1993, p. 237-48.
105
Paresia - Diminuição da força em um ou mais grupos musculares. É um grau menor de paralisia.
106
Neoplasia - Termo que denomina um conjunto de doenças caracterizadas pelo crescimento anormal e em certas
situações pela invasão de órgãos à distância (ver metástases). As neoplasias mais frequentes são as de mama, cólon,
pele e pulmões.
92
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
paciente, por exemplo, que ele não deve fazer o movimento como se seus dedos fossem a escova de
dentes, e sim como se ele estivesse segurando uma escova.
Para avaliar a presença de apraxia ideativa, podem ser dadas as seguintes ordens, que se referem a
tarefas sequenciais: ‘Eu vou lhe dar um pedaço de papel. Quando eu fizer isso, pegue o papel com a
sua mão direita, dobre-o ao meio, com ambas as mãos, e coloque-o no chão’.
Hipocinesia (ou lentificação psicomotora)
A hipocinesia (ou inibição psicomotora) caracteriza-se pela diminuição acentuada e generalizada
dos movimentos voluntários. Os movimentos tornam-se lentos e são realizados com grande
dificuldade. Em geral, há inibição do pensamento e da fala, empobrecimento da mímica
(hipomimia), e diminuição da vontade (hipobulia). [Tal quadro reflete a lentificação de toda a
atividade psíquica (bradipsiquismo).]
Acinesia (ou estupor)
Na acinesia há abolição dos movimentos voluntários. O paciente pode ficar por longo período
restrito ao leito, sem qualquer reação ao ambiente, apresentando mutismo, abolição da expressão
facial (amimia), recusa de alimentos (sitiofobia) e incontinência urinária e fecal (gatismo), além de
abulia (normalmente o nível de consciência está aparentemente preservado e de capacidade
sensório-motora para reagir ao ambiente).
Tanto o estupor quanto a hipocinesia podem ocorrer na esquizofrenia catatônica, na depressão
grave, nos quadros de delirium não psicóticos, em estados dissociativos histéricos, no
parkinsonismo, na encefalite letárgica e, mais raramente, em estados demenciais avançados, no
retardo mental e em ataques de pânico (reações de congelamento).
Quando o estupor se acompanha de rigidez muscular,
com redução da mobilidade passiva e manutenção da
postura corporal, trata-se de catalepsia, que também é
uma forma de estereotipia. Nesse caso, o paciente pode
assumir espontaneamente posições bastante incômodas
por um tempo prolongado: por exemplo, manter os braços
elevados; ficar deitado com as pernas para o ar; ou ainda
permanecer com a cabeça inclinada para a frente, como se
estivesse apoiada em um travesseiro imaginário
(travesseiro psíquico).
Na flexibilidade cerácea, o indivíduo, ou uma parte de seu corpo (braço, perna, cabeça), é colocado
pelo examinador em determinada posição (mesmo posições muito desconfortáveis), e assim
permanece, como se fosse um homem de cera, moldável por uma outra pessoa. A catalepsia e a
flexibilidade cerácea são sintomas frequentes na esquizofrenia catatônica. As paralisias da
conversão histérica constituem um estado de acinesia localizada, restrita a um ou mais membros.
Uma variação interessante desse tipo é a cataplexia que é a perda abrupta do tônus muscular,
geralmente acompanhada de queda ao chão. Está presente na narcolepsia (crises recorrentes de sono
tipo REM
107
no indivíduo desperto).
107
Sono REM (Rapid Eye Moviment). É a fase do sono em que sonhamos.
93
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Hipercinesia (ou exaltação psicomotora, ou agitação psicomotora)
A hipercinesia caracteriza-se por um aumento patológico da atividade motora voluntária. Essa
exaltação da psicomotricidade pode se dar em três níveis de gravidade: inquietação, agitação e
furor (do menos para o mais intenso).
Comumente a hipercinesia acompanha-se de logorreia (fala excessiva) e de heteroagressividade.
Trata-se de uma alteração psicopatológica bastante comum e inespecífica, podendo ser observada
na esquizofrenia catatônica, na mania, na depressão ansiosa, em quadros de delirium com sintomas
psicóticos, em estados crepusculares histéricos e epilépticos, em síndromes de ansiedade, em
síndromes delirantes, em alguns pacientes com retardo mental ou demência e no transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), quadros psico-orgânicos agudos (por intoxicação com
substâncias, síndromes de abstinência, traumas cranioencefálicos, encefalites metabólicas, etc).
Estereotipias motoras
São repetições automáticas e uniformes de determinado ato motor complexo, indicando geralmente
marcante perda do controle voluntário sobre a esfera motora. O paciente repete o mesmo gesto com
as mãos (gestos esses desprovidos de finalidade e sentido, inclusive para o próprio doente) dezenas
ou centenas de vezes em um mesmo dia. As estereotipias podem ser movimentos (desde simples
movimentos de dedos até marchas), de posição (estereotipia acinética ou catalepsia – a manutenção
de uma postura corporal, geralmente extravagante, durante longo tempo), de lugar (a busca
reiterada, sem razão plausível, de um mesmo local) ou de palavras e frases (chamada de
verbigeração). Observam-se as estereotipias motoras na esquizofrenia, sobretudo nas formas
crônicas e catatônicas, assim como na deficiência mental.
Ecopraxia
Consiste na repetição automática e despropositada das ações motoras executadas por outra pessoa,
que está diante do paciente. São imitados gestos, a postura, a fala (ecolalia) ou a expressão
fisionômica (ecomimia).
A ecopraxia está relacionada à sugestionabilidade patológica. Pode ser observada principalmente na
síndrome catatônica e, ainda, no retardo mental, no delirium e em processos demenciais.
Maneirismo
São movimentos expressivos – isto é, movimentos que servem a um propósito de comunicação, tais
como gestos, mímicas, vocalizações – que se tornam exagerados quanto à sua amplitude, tornam-se
afetados, rebuscados, estilizados ou desarmônicos, perdem sua graça natural e parecerem
extravagantes ao observador.
Observavam-se maneirismos na esquizofrenia catatônica ou hebefrênica, no retardo mental, na
histeria, em doenças cerebrais orgânicas e no homossexualismo.
O comportamento de um paciente que, toda vez em que vê seu médico, ajoelha-se e beija as mãos
deste pode ser considerado amaneirado. Um outro exemplo de maneirismo é o de um aperto de mão
que dura mais de um minuto, com movimentos excessivamente vigoroso. O paciente pega acolher
de modo muito próprio e realiza gestos bizarros para levar a comida à boca. Ao falar com o
enfermeiro, gesticula, faz caretas, encolhe os ombros de modo peculiar, faz rodopios com as mãos e
movimenta a cabeça de forma afetada.
94
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Tiques
Os tiques são movimentos de defesa ou movimentos de expressão que acabaram
por degenerar em atos automáticos. São semiconscientes e só em determinado grau
dependem da vontade. São atos coordenados, repetitivos, resultantes de contrações
súbitas, breves e intermitentes, envolvendo geralmente um grupo de músculos que
atua em suas relações sinérgicas normais. Acentuam-se muito com a ansiedade. Os
tiques geralmente são reflexos condicionados, os quais surgiram associados a
determinados estímulos emocionais ou físicos, mantendo-se de forma estereotipada, como um
movimento involuntário. Podem ocorrer no indivíduo sem qualquer outra alteração mental e entre
crianças ansiosas, submetidas a estresse. Tiques múltiplos, motores e/ou vocais, podem indicar a
presença do Transtorno de Tourette. Os tiques ocorrem com mais frequência em crianças que
adultos.
Interceptação cinética
Consiste numa interrupção brusca e incompreensível de uma ação motora já iniciada, que para no
meio. O paciente muitas vezes atribui a impossibilidade de completar o movimento a uma
influência externa.
A interceptação cinética é algo equivalente ao roubo do pensamento (alteração da consciência do
eu), podendo também ocorrer na esquizofrenia catatônica.
Perseveração motora
Representa uma repetição sem sentido de uma ação motora de início executada adequadamente. Por
exemplo: solicita-se ao paciente que coloque a língua para fora, o que ele faz, e, em seguida, que ele
a coloque para dentro, o que ele também faz; todavia, o paciente agora passar a realizar
repetidamente os mesmos movimentos com a língua sem que haja uma nova solicitação por parte
do examinador.
Conversão
Na conversão há o surgimento abrupto de sintomas físicos (paralisias, anestesias, parestesias
108
,
cegueira, etc), de origem psicogênica. A conversão motora (paralisias, contraturas conversivas,
ataxias
109
psicogênicas, etc.) ocorre geralmente em situação estressante, de ameaça ou conflito
intrapsíquico ou interpessoal significativos para o indivíduo. Por exemplo, após discussão violenta
com o marido, a esposa passa a apresentar-se paraplégica, não conseguindo mais andar, ou o
marido, após ser descoberta a sua infidelidade conjugal, passa abruptamente a apresentar
hemiplegia
110
psicogênica.
Alterações da marcha
A marcha do paciente histérico é descrita como irregular, mutável, bizarra, podendo ter elementos
de ataxia, espasticidade
111
e outras alterações, mas raramente revela um padrão preciso e estável de
108
Parestesia - Sensação de formigamento ou de ardência na pele, não-causadas por estímulo exterior ao corpo.
109
Ataxia - Perda da faculdade de coordenar os movimentos voluntários.
110
Hemiplegia - Paralisia da metade do corpo. Compromete a metade da face, braço e pernas do mesmo lado.
Relaciona-se a infartos, hemorragias ou tumores do sistema nervoso central.
111
Espasticidade - é a rigidez muscular que dificulta ou impossibilita o movimento, em especial dos braços e das
pernas.
95
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
determinada marcha neurológica. Há muitos movimentos supérfluos e balancear exagerado de um
lado para outro, arremessos das pernas e tremores das extremidades. Tem-se a impressão de que o
paciente está prestes a cair, mas raramente ele cai, a não ser na presença de outros. Quando cai, em
geral não se machuca gravemente. O exame neurológico para tônus, força muscular, coordenação
motora e reflexos (estes principalmente) pode estar normal.
Alguns pacientes histéricos apresentam a camptocormia, que é o caminhar com o tronco fletido
para a frente. Na hemiplegia histérica, o paciente em geral arrasta o pé ‘paralisado’ sobre o solo,
diferentemente da marcha ceifante do hemiplégico orgânico (que tem de fato uma paralisia
espástica).
Os termos astasia e abasia foram muito utilizados no passado, no contexto da histeria. A abasia é a
impossibilidade ou dificuldade para a marcha; e a astasia, a impossibilidade de ficar de pé quando
não há razão orgânica para isso (utiliza-se atualmente também o termo disbasia histérica).
Apresenta, então, astasia-abasia aquele paciente, em geral com histeria, que revela total ou parcial
incapacidade de levantar-se e andar, apesar de não apresentar qualquer paralisia ou ataxia de origem
orgânica.
A marcha de alguns pacientes esquizofrênicos é marcadamente bizarra, com maneirismos e
estereotipias motoras variadas. Quando estão usando neurolépticos tradicionais, alguns pacientes
psicóticos apresentam distonias de tronco ou membros, revelando marcha bizarra pelo componente
distônico de sua postura. Alguns pacientes gravemente deprimidos apresentam marcha lentificada e
difícil.
O padrão de marcha do paciente psiquiátrico deve ser comparado, a título de diagnóstico
diferencial, com os principais padrões de marchas alteradas das doenças neurológicas.
Hiperventilação psicogênica
Nesse tipo a respiração se acelera, fica quase imperceptível e é marcada por suspiros não
obstrutivos. Ocorre associada à ansiedade ou à situação estressante. Observa-se esse problema em
portadores de transtornos de pânico, em pacientes histéricos e, de modo geral, em indivíduos muito
ansiosos. [...]
Apragmatismo (ou hipopragmatismo)
Caracteriza a dificuldade ou incapacidade de realizar condutas volitivas e psicomotoras
minimamente complexas, como cuidar da higiene pessoal, limpar o quarto, participar de trabalhos
domésticos, envolver-se em qualquer tipo de atividade produtiva para si ou para seu meio. O
apragmatismo resulta de alteração básica das esferas volitivas e afetivas (está geralmente associada
à hipobulia, apatia e desorganização psíquica geral), não havendo incapacidade neuropsicológica de
realizar os atos motores complexos. Não deve, portanto, ser confundido com a apraxia (perda da
atividade gestual complexa por lesão neuronal). O hipopragmatismo é uma alteração frequente em
pacientes psicóticos crônicos, representando um desafio à reabilitação. No caso de alguns pacientes
esquizofrênicos crônicos e graves, já ao cumprimenta-los, nota-se que seu aperto de mão é
‘sintomático’, pois não apertam propriamente a mão do outro, tocam-na apenas com a ponta dos
dedos (mão ateleiótica, de atelès, no grego; sem fim, inacabado, imperfeito).
Negativismo (vide página 88)
96
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA LINGUAGEM
112
A linguagem, particularmente na sua forma verbal, é uma atividade
especificamente humana, talvez a mais característica de nossas atividades
mentais. É o principal instrumento de comunicação dos seres humanos. Além
disso, é fundamental na elaboração e na expressão do pensamento. Alterações da
linguagem, embora de definição e delimitação difíceis, sempre foram de grande
interesse para a psicopatologia. [...]
Especificamente em relação à língua, é preciso diferenciar ainda três elementos essenciais de
qualquer língua ou idioma: o fonético, que se refere aos sons, aos elementos materiais da fala; o
semântico, relacionado à significação dos vocábulos utilizados em determinada língua, e o
sintático, que diz respeito à relação e à articulação lógica das diversas palavras.
Além disso,é possível descrever as seguintes funções da linguagem:
1. A função comunicativa, que garante a socialização do indivíduo.
2. A linguagem como suporte do pensamento, particularmente de sua forma evoluída, como
pensamento lógico e abstrato.
3. A linguagem como instrumento de expressão dos estados emocionais, das vivências
internas, subjetivas.
4. A linguagem como afirmação do eu e de instituição das oposições eu/mundo, eu/tu,
eu/outros.
5. A linguagem na sua dimensão artística e/ou lúdica, como elaboração e expressão do belo,
do dramático, do sublime ou do terrível, isto é, a linguagem como poesia, como literatura.
[...]
A linguagem é ainda um sistema de signos arbitrários, o signo linguístico, as palavras. Esses signos
ganham seus significados específicos por meio de um sistema de convenções historicamente dado.
A linguagem é, portanto, uma criação social de cada um e de todos os grupos humanos.
Linguagem e pensamento estão intimamente relacionados, não podendo ser facilmente separados,
mas são dois fenômenos distintos. Podem ocorrer perturbações de pensamento não associadas a
perturbações da fala, e vice-versa. Podem existir pensamentos sem linguagem, como nos devaneios;
assim como palavras não associadas a pensamentos, como frases sem sentido usadas puramente
para a interação social – por exemplo, ‘olá!’, ‘tudo bem?’
O estudo da linguagem tem como objeto as palavras, enquanto o estudo do pensamento se refere às
ideias. A linguagem molda o pensamento e é fundamental para a sua elaboração e expressão. Só
com a aquisição da linguagem, e a consequente utilização de conceitos, é que se desenvolve na
criança o pensamento abstrato.
Além do componente cognitivo, a linguagem possui ainda um componente afetivo, que a prosódia.
Esta é constituída pela musicalidade, entonação e inflexões da fala, além da gesticulação.
Não faz parte da psicopatologia o estudo dos distúrbios restritos ao aparelho fonador, isto é, as
perturbações no processo mecânico da fala. Estas não interferem na compreensão da linguagem e,
principalmente, podem ocorrer na ausência de um transtorno mental. Assim, não estudaremos as
112
Este tópico foi elaborado a partir de recortes e adaptações dos seguintes autores: CHENIAUX, 2013, p.72-81;
DALGALARRONDO, 2008, p. 232-44; PAIM, 1993, p. 259-74.
97
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
disartrias (dificuldade mais ou menos geral na articulação da palavras, prejudicando especialmente
a pronúncia de consoantes), as dislalias (deformação, omissão ou substituição restrita a
determinadas consoantes), as disfemias (como a tartamudez ou gagueira) e as disfonias
(perturbação da voz, atingindo principalmente as vogais).
Por outro lado, a distinção entre distúrbios orgânicos e distúrbios psíquicos (ou funcionais) da fala,
encontrada em diversos textos de psicopatologia, é bastante criticável, por basear-se na presunção
da existência de uma separação mente-corpo.
O exame da linguagem
A expressão oral e a compreensão auditivo-verbal são avaliadas de forma informal durante toda a
entrevista. Todavia, alguns testes podem ser necessários, [...].
- A compreensão pode ser avaliada através de ordens transmitidas oralmente ao paciente, como
‘Toque sua orelha direita com sua mão esquerda.’; perguntas simples, como ‘Os bairros são maiores
do que as cidades?’; ou ordens por escrito, como ‘Feche os olhos’.
- Capacidade de nomeação: mostra-se ao paciente uma caneta e um relógio, por exemplo, e pede-
se que diga como se chamam esses objetos. Ou então pede-se que ele, em um minuto, cite todos os
nomes de animais que puder.
- Capacidade de repetição: pede-se ao paciente que repita frases como ‘Nem aqui, nem ali, nem
lá.’, ou “Sem quês, nem mas, nem porquês.’
- Expressão: solicita-se ao paciente que escreva uma frase (com sujeito, verbo e objeto).
Afasias e disfasias
Os termos afasia e disfasias são, com frequência,
usados de forma intercambiáveis, todavia, mais
precisamente, o primeiro se refere a uma perda, e o
segundo, a um prejuízo ou dificuldade quanto à
linguagem.
As afasias são distúrbios adquiridos da capacidade
linguística – na compreensão ou expressão -, sem que
haja um déficit auditivo ou incapacidade motora do
órgão fonador. Estão relacionadas a lesões corticais –
causadas principalmente por distúrbios vasculares,
tumores e processos degenerativos, como a doença de
Alzheimer.
As afasias podem ser classificadas como: motora
(expressiva, ou de Broca), sensorial (receptiva, ou de
Wernicke), de condução, global, transcortical e anômica (semântica, amnéstica).
Afasia motora
Constitui uma apraxia verbal. Os pacientes conseguem utilizar os músculos fonadores para outros
fins que não a fala.
Trata-se de uma forma de afasia não fluente. O discurso, emitido com grande dificuldade,
caracteriza-se por frases curtas ou simplesmente fragmentos de palavras, e pela perda da estrutura
gramatical (agramatismo: ausência de artigos, preposições, conjunções, advérbios de lugar e
98
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
verbos auxiliares). Além disso, os pacientes cometem erros parafásicos
113
literais, e há perda da
prosódia. A compreensão da linguagem, assim com a capacidade de nomeação, está preservada,
mas a capacidade de repetição (do que o examinador fala) está comprometida.
A afasia motora está relacionada a lesões na região posteroinferior do lobo frontal esquerdo (área de
Broca).
Afasia sensorial
Corresponde a uma agnosia verbal. Há perda da capacidade de compreender a linguagem, e a
audição, por definição, não está prejudicada. É uma afasia fluente, mas o paciente tem dificuldades
em compreender a própria fala. As palavras são pronunciadas de forma defeituosa – há parafasias
literais e semânticas – e a sintaxe pode estar bastante alterada (paragramatismo). As capacidades
de repetição e de nomeação também estão comprometidas.
Na afasia sensorial, há lesão na região posterosuperior do lobo temporal esquerdo (área de
Wernicke).
Afasia da condução
Nessa forma de afasia há fluência, a compreensão é normal, mas a capacidade de repetição e a de
nomeação estão comprometidas. Esse tipo de afasia está relacionado a lesões no fascículo arqueado,
que conecta a área de Wernick com a de Broca.
Afasia global
Esta afasia está relacionada a lesões das áreas de Broca e de Wernick – a expressão, a compreensão
e a repetição estão comprometidas.
Afasia transcortical
A principal característica dessa afasia é a preservação da capacidade de repetição. Trata-se de uma
afasia não fluente, podendo estar a capacidade de compreensão comprometida ou não.
Afasia anômica
Nesse tipo de afasia há dificuldade de nomear objetos. A expressão, a compreensão e a repetição
são normais.
Agrafia
Caracteriza-se pela incapacidade isolada para escrever. Pode também estar associada às afasias.
Alexia
Nesse tipo, perde-se a capacidade para a leitura. Pode ocorrer isoladamente ou associada às afasias
e às agrafias.
Aprosódia (hipoprosódia)
Na aprosódia ou na hipoprosódia há, respectivamente, perda ou diminuição da modulação afetiva da
fala, que se torna monocórdica, monótona. Pode haver também perda (ou diminuição) da
113
Vide parafasias – pág. 101 desta apostila.
99
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
capacidade de compreender a prosódia da fala das outras pessoas. Esse distúrbio relaciona-sea
lesões no hemisfério direito.
Hiperprosódia
Caracteriza-se por uma acentuação da inflexão verbal; uma fala enfática, loquaz. Ocorre na mania.
Mutismo
Significa ausência da fala. Pode expressar negativismo (silencia deliberado) ou inibição psíquica
(no estupor esquizofrênico, depressivo, histérico ou do delirium).
Logorreia (ou verborreia, ou verborragia)
Refere-se a uma expressão verbal aumentada. O paciente fala o tempo todo e é difícil interrompê-lo.
Ela é observada tipicamente nos estados maníacos.
Oligolalia (ou laconismo)
Refere-se a uma expressão verbal diminuída, mas não abolida. Consiste no oposto da logorreia. É
observada nas mesmas situações em que o mutismo pode ocorrer.
Hiperfonia
Representa uma elevação do volume da voz, isto é, falar excessivamente alto.
Hipofonia
Representa uma redução do volume da voz, isto é, falar excessivamente baixo, o que às vezes torna
impossível entender o que se está dizendo.
Taquilalia (ou taquifasia) e bradilalia (ou bradifasia)
Referem-se respectivamente, a um aumento e a uma diminuição da velocidade da expressão verbal.
Correspondem às alterações do curso do pensamento.
Latência da resposta
Refere-se ao tempo que o paciente demora para responder às perguntas do examinador, podendo
estar aumentada ou diminuída. O aumento pode expressar uma inibição psíquica (como na
depressão), negativismo ou suspicácia (suspeita). A diminuição pode estar relacionada a uma
síndrome maníaca ou a ansiedade.
Ecolalia
Consiste na repetição, como um eco, da últimas ou últimas palavras faladas pelo entrevistador (ou
outra pessoa do ambiente), dirigidas ou não ao paciente. Corresponde, na linguagem, ao que são a
ecomimia e a ecopraxia na psicomotricidade. Ocorre na síndrome catatônica, no autismo
114
e na
demência. Por exemplo, o examinador pergunta ‘qual é o seu nome?’, e o paciente responde ‘qual é
o seu nome?’
114
Vide página 202.
100
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Palilalia
Consiste na repetição involuntária da última ou últimas palavras que o próprio paciente falou.
Ocorre na demência. Por exemplo, o examinador pergunta ‘qual o seu nome?’, e o paciente
responde ‘eu me chamo João...João’.
Logoclonia
Este tipo é semelhante à palilalia, só que a repetição é apenas das últimas silabas. É encontrada
tipicamente na demência. Por exemplo, o examinador pergunta ‘qual é o seu nome?’, e o paciente
responde ‘eu me chamo João...ão’.
Estereotipia verbal (ou Verbigeração)
Consiste numa repetição monótona, inadequada e sem sentido comunicativo de palavras ou frases.
Ocorre na síndrome catatônica e na demência.
Um paciente ficava o dia inteiro gritando ‘É uma coisa! É uma coisa!’. Não pronunciava
praticamente nenhuma outra palavra.
Mussitação
Nesse tipo o paciente fala com uma voz sussurrada, em volume muito baixo e tom monótono, quase
sem mover os lábios; fala para si próprio, e de forma incompreensível. Esse distúrbio ocorre na
esquizofrenia.
Neologismos
Consiste em palavras novas, criadas pelos pacientes, ou palavras já existentes às quais é atribuído
um novo significado. Podem ser resultado de uma fusão de conceitos, ou consistir numa tentativa de
expressar vivências extraordinárias que o vocabulário comum não conseguiria expressar. São
encontrados principalmente na esquizofrenia. [...]
Paim (1998) refere-se a um paciente cujo discurso era repleto de neologismos:
‘Não é solteiro nem casado, é ‘sindorá’; seu pai não está vivo, é ‘simprizatos’; e sua mãe chama-se
Maria do ‘Silenciale’. [...]
Jargonofasia (ou salada de palavras, ou esquizofasia, ou confusão de linguagem)
Representa uma completa desorganização da linguagem, cuja sintaxe se torna inteiramente
incoerente. Palavras reconhecíveis, em geral articuladas corretamente, são emitidas numa ordem
caótica e ilógica, podendo ainda ser misturadas com neologismos, o que torna o discurso sem
qualquer sentido, ininteligível. Ocorre na esquizofrenia e na afasia sensorial. O discurso de um
paciente, recolhido por Pio Abreu (1997), exemplifica a jargonofasia:
‘Alviela de seporte antantá da cédula de emigração delitianos de poupador de alter cor de várias
entidades oficiais tite as insígnias desmercocoloie de bat anglo bater dulpagi de armas glomirais
de briquet dos regimentos de Lisboa.’
Parafasias
Referem-se à deformação ou troca de palavras, podendo ser literais ou verbais. A parafasia literal
(ou fonêmica) caracteriza-se pela substituição de uma palavra por outra de som semelhante, como
faca por vaca, cadeira por cameila. Ocorre nas afasias motora e sensorial. A parafasia verbal (ou
101
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
semântica), por sua vez, é caracterizada pela substituição de uma palavra por outra semanticamente
relacionada, como faca por garfo. Ocorre na afasia sensorial.
Solilóquio
Refere-se ao comportamento de falar sozinho. É uma manifestação indicativa de alucinação
auditiva, mas pode ocorrer também em pessoas normais.
Coprolalia
Neste tipo o discurso é caracterizado pela presença de palavras obscenas, vulgares ou relativas a
excrementos. Quando se constitui num tique verbal, é uma manifestação típica da síndrome de
Tourette.
Glossolalia
O indivíduo expressa-se como se falando em outra língua. Ele produz sons ininteligíveis, mantendo
os aspectos prosódicos da fala normal.
Maneirismos
Nesse tipo a fala torna-se pouco natural, afetada, seja quanto à escolha das palavras (rebuscamento,
uso de palavras difíceis, formalismo exagerado, assim como o uso excessivo de diminutivos, gírias
ou jargões), à pronúncia, ao sotaque ou à inflexão verbal (disprosódia ou paraprosódia
115
).
Quando um indivíduo refere-se a si mesmo na terceira pessoa, isso representa um maneirismo. Com
frequência o ex-jogador de futebol Pelé conta episódios de sua carreira sem usar o pronome eu,
preferindo usar a expressão o Pelé. [...]
Pedolalia
O paciente fala com uma voz infantilizada.
Pararrespostas
São respostas totalmente disparatadas em relação às perguntas. Por exemplo: ‘Qual o seu nome?’ –
Resposta: ‘Acho que vai chover’. São encontradas na esquizofrenia e na demência.
Respostas aproximadas
[...] O paciente, embora compreenda perfeitamente a pergunta e conheça a resposta correta,
deliberadamente dá uma resposta errada, mas que está relacionada à pergunta. Por exemplo:
‘Quantas patas tem um cachorro?’ – Resposta: ‘Cinco’; ou então: ‘Quantos são 3 X 3’? – Resposta:
‘Dez’.
Respostas aproximadas ocorrem num quadro de pseudodemência (dissociativa) conhecido como
síndrome de Ganser [...].
115
Disprosódia ou paraprosódia - Distúrbio da fala em que há maior demora na silabação das palavras, e anomalia em
sua entonação, ritmo e altura.
102
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES DA MEMÓRIA
116
A memória é a capacidade de registrar, manter e evocar as experiências e os
fatos já ocorridos. A capacidade de memorizar relaciona-se intimamente
com o nível de consciência, com a atenção e com o interesse afetivo.
Tudo o que uma pessoa aprende [e conhece – cognição] em sua vida
depende intimamente da capacidade de memorização.
O processo de memorização possui três etapas principais: fixação (ou engramação), conservação
(ou retenção) e evocação.
Do ponto de vista psicológico,a engramação depende de:
- Nível de consciência e estado geral do organismo (o indivíduo deve estar desperto, não muito
cansado, bem-nutrido, calmo, etc);
- Atenção global e capacidade de manutenção de atenção concentrada sobre o conteúdo a ser fixado
(capacidade do indivíduo concentrar-se);
- Sensopercepção preservada;
- Interesse e colorido emocional relacionado ao conteúdo mnêmico a ser fixado, assim como do
empenho do indivíduo em aprender (vontade e afetividade);
- Conhecimento anterior (elementos já conhecidos ajudam a adquirir elementos novos);
- Capacidade de compreensão do conteúdo fixado;
- Organização temporal das repetições (distribuição harmônica e ritmada no tempo auxilia na
fixação de novos elementos);
- Canais sensoperceptivos envolvidos na percepção, já que, quanto maior o número de canais
sensoriais, mais eficaz a fixação (p.ex., o método audiovisual de ensino de línguas).
A conservação dos elementos mnêmicos depende de:
- Repetição (pois, de modo geral, quanto mais se repete um conteúdo, mais facilmente este se
conserva);
- Associação com outros elementos (cadeia de elementos mnêmicos);
A evocação é a capacidade de recuperar e atualizar os dados fixados. Esquecimento, por sua vez, é
a denominação que se dá à impossibilidade de evocar e recordar. O reconhecimento é a capacidade
de identificar o conteúdo mnêmico como lembrança e diferenciá-la da imaginação e de
representações atuais.
Em relação ao processo temporal de aquisição e evocação de elementos mnêmicos, a
neuropsicologia moderna divide a memória em três fases ou tipos [...]:
1. Memória imediata ou de curtíssimo prazo (de poucos segundos até 1 a 3 minutos)
Este tipo de memória confunde-se com a atenção e com a memória de trabalho
117
, pois é a
capacidade de reter o material (palavras, números, imagens, etc) imediatamente após ser percebida.
116
Este item foi redigido a partir de recortes de CHENIAUX, 2013, p.54-71; DALGALARRONDO, 2008, p. 137-54;
PAIM, 1993, p. 141-60.
117
Memória de trabalho – [...] é, na verdade, a combinação de habilidades de atenção (capacidade de prestar atenção e
de concentração) e da memória imediata. São exemplos de memória de trabalho ouvir um número telefônico, retê-lo na
mente, para, em seguida, discar, assim como, quando ao dirigir em uma cidade desconhecida, perguntar sobre um
endereço, receber a informação e a sugestão do trajeto e, mentalmente, executar o itinerário de forma progressiva. [...]
103
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
A memória imediata tem capacidade limitada e depende
da concentração, da fatigabilidade e de certo treino. As
memórias imediatas e de trabalho dependem sobretudo
da integridade das áreas pré-frontais.
2. Memória recente ou de curto prazo (de poucos
minutos até 3 a 6 horas)
Refere-se à capacidade de reter a informação por curto
período. Também é um tipo de memória de capacidade
limitada. A memória recente depende de estruturas
cerebrais das partes mediais dos lobos temporais, como a
região CA1 do hipocampo, do córtex entorrinal, assim
como do córtex parietal posterior. [...]
3. Memória remota ou de longo prazo (de meses até
muitos anos)
É a capacidade de evocação de informações e acontecimentos ocorridos no passado, geralmente
após muito tempo do evento (pode durar por toda a vida). É um tipo de memória de capacidade bem
mais ampla que a imediata e a recente. Acredita-se que a memória remota relaciona-se tanto ao
hipocampo (no processo de transferência de memórias recentes para remotas) como as amplas e
difusas áreas corticais, principalmente frontais, incluindo todos os outros lobos cerebrais, sobretudo
em suas áreas corticais de associação.
O termo priming diz respeito a um fenômeno normal e importante do processo de recordação e
evocação. Fragmentos de um conteúdo mnêmico amplo são evocados e, a partir deles, todo o resto é
gradativamente recuperado. Assim, um músico toca ou ouve os primeiros dois ou três acordes de
uma canção aparentemente esquecida, e, de forma gradativa, a canção toda (e sua sequência de
acordes e melodias) começa a surgir para o sujeito. O priming pode ser traduzido como dicas
evocadoras de lembranças mais amplas. Ele sugere que a lembrança de alguns fragmentos da
memória e conjuntos mnêmicos maiores seriam armazenados de forma parcialmente independentes.
O priming é um fenômeno predominantemente neocortical, participando dele as áreas pré-frontais e
corticais associativas temporoparietooccipitais.
O esquecimento (o oposto da evocação) se dá por três vias:
1. O esquecimento normal, fisiológico: ou por desinteresse do indivíduo ou por desuso.
2. O esquecimento por repressão: quando se trata de conteúdo desagradável ou pouco importante para
o indivíduo, podendo, no entanto, o sujeito, por esforço próprio, voltar a recordar certos conteúdos
reprimidos (que ficam estocados nos pré-consciente).
3. Esquecimento por recalque: certos conteúdos mnêmicos, devido ao fato de serem emocionalmente
insuportáveis, são banidos da consciência, podendo ser recuperados apenas em circunstâncias
especiais (ficam estocados no inconsciente).
104
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DA MEMÓRIA
Hipermnésias
As representações (elementos mnêmicos) afluem rapidamente, em tropel, ganhando em número,
perdendo, porém, em clareza e precisão. [...] A hipermnésia traduz mais a aceleração geral do ritmo
psíquico que um alteração propriamente da memória.
Amnésia (ou hipomnésia)
Denomina-se amnésia, de forma genérica, a perda da memória, seja a da capacidade de fixar ou a da
capacidade de manter e evocar antigos conteúdos mnêmicos. Diferenciam-se os seguintes tipos de
amnésias:
1. Amnésia psicogênica. Nesse tipo há perda de elementos mnêmicos focais, os quais têm valor
psicológico específico (simbólico e afetivo). O indivíduo esquece, por exemplo, um evento
de sua vida (que teve um significado especial para ele), mas consegue lembrar de tudo que
ocorreu ao seu ‘redor’. Tal amnésia pode ser superada por um estado hipnótico (na hipnose,
o indivíduo consegue lembrar do que, estado de consciência, não recorda).
2. Amnésia orgânica. Trata-se de amnésia menos seletiva (em relação ao conteúdo do material
esquecido) que a psicogênica. Em geral, perde-se primeiramente a capacidade de fixação
(memórias imediatas e recentes); em estados avançados da doença, o indivíduo começa a
perder conteúdos antigos. [...]
Amnésia anterógrada e retrógrada
Na amnésia anterógrada, o indivíduo não consegue mais fixar elementos mnêmicos a partir do
evento que lhe causou o dano cerebral. Por exemplo, o indivíduo não lembra do que ocorreu nas
semanas (ou meses) depois de um trauma cranioencefálico. Esse tipo de amnésia é um distúrbio-
chave e bastante frequente na maior parte dos distúrbios neurocognitivos. Já na amnésia
retrógrada, o indivíduo perde a memória para fatos ocorridos antes do início da doença (ou
trauma). Sua ocorrência sem amnésia anterógrada pode ser observada em quadros dissociativos
(psicogênicos), como a amnésia dissociativa e a fuga dissociativa. [...]
De um modo geral, é comum, após trauma cranioencefálico, a ocorrência de amnésias
retroanterógradas (ou total), ou seja, déficits de fixação para o que ocorreu dias, semanas ou
meses antes e depois do evento. A amnésia pode ainda ser transitória (ou breve) e lacunar
(relacionada a determinados períodos de tempo). Os casos mais típicos e mais de amnésia
transitória observa-se na convalescença de enfermidades infecciosasgraves (por exemplo,
meningites) e de amnésia lacunar nos casos de traumatismos cranioencefálicos.
Alomnésia (ou ilusão mnêmica ou ilusão de memória)
É uma alteração análoga à que ocorre na sensopercepção. Aqui as recordações de um evento real
são deturpadas, distorcidas pelo indivíduo de forma involuntária.
Ocorre no delirium, na demência, no transtorno amnéstico e nos estados crepusculares, associada a
alterações quantitativas da memória; na mania e na melancolia
118
, por influência do afeto
118
A melancolia representa uma das formas da psicose. “A depressão melancólica é um diagnóstico psiquiátrico de
história de vida, geralmente com episódios recorrentes. Melancolia é uma síndrome com longa duração e características
específicas de psicopatologia, insuficientemente diferenciada de depressão maior por um especificador no DSM-5 e
105
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
dominante; e, ainda, na esquizofrenia e no transtorno delirante, com expressão do conteúdo dos
delírios.
Paramnésia (ou alucinação de memória)
Trata-se de recordação de algo que de fato não ocorreu, de uma falsa lembrança, embora para o
paciente ela seja verdadeira.
Pode ocorrer na esquizofrenia, em virtude da atividade delirante.
A fabulação (ou confabulação) seria um tipo especial de paramnésia. Fabulação é um termo em
geral utilizado para designar as alucinações de memória que ocorrem em quadros amnésticos de
origem orgânica, como no transtorno amnéstico, na demência e no delirium.
Déjà vu e Jamais vu
No déjà vu (já visto), o indivíduo tem uma sensação de familiaridade diante de uma situação (ou
objeto) inteiramente nova, como se ele já a houvesse vivenciado anteriormente. É muito comum,
quando vamos a um lugar pela primeira vez, a sensação de que estivemos lá. No jamais vu (nunca
visto) ocorre o oposto: há uma ausência da sensação de familiaridade diante de uma situação já
vivenciada um ou mais vezes no passado. Um exemplo seria o de não ser capaz de reconhecer a
mãe, o pai ou um amigo íntimo. [...] O dèjá vu e o jamais vu podem ocorrer na epilepsia do lobo
temporal, na esquizofrenia, em síndromes de ansiedade em pessoas normais.
Criptomnésia
Termo criado por Freud. Consiste numa falha relativa ao reconhecimento como pretérito.
Recordações voltam à mente do indivíduo, mas não são reconhecidas como tais, parecendo a ele
ideias novas, criações originais suas. É o mecanismo dos casos de plágio involuntário. O próprio
Freud reconheceu que havia, inconscientemente, tomado para si a autoria de uma hipótese
psicanalítica, relativa à bissexualidade humana, que seu então amigo Fliess lhe comunicara algum
tempo antes.
Ecmnésia
[...] representa também um distúrbio quanto ao reconhecimento como pretérito. Trata-se de uma
presentificação do passado: a recordação é tão intensa, quase alucinatória, que o paciente se
comporta como se o evento pretérito estivesse ocorrendo naquele momento, como se ele estivesse
vivendo em uma época anterior de sua vida.
Ocorre em estados crepusculares histéricos e epilépticos, em estados de obnubilação oniróide (como
no delirium ocupacional), na intoxicação por alucinógenos e na demência.
Um exemplo de ecmnésia, de natureza dissociativa, foi o de uma senhora de mais de 60 anos que,
após a morte súbita do marido, passou a agir como criança, brincava o dia inteiro e ficava
chamando pelos pais, falecidos havia muito tempo.
parcialmente descrito nos critérios da Classificação Internacional de Doenças-10ª Edição. Dentro da classificação atual,
é frequentemente vista em pacientes gravemente doentes com depressão e transtorno bipolar. No entanto, a melancolia
possui uma homogeneidade psicopatológica e biológica distinta na experiência clínica e nos marcadores de testes
laboratoriais, e é diferencialmente sensível às intervenções terapêuticas específicas.” (adaptado de JURUENA, et al.,
Rev. Bras. Psiq., vol. 33, mai/2011.)
106
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Transtornos de Ansiedade: A ansiedade normal e patológica
Ansiedade normal
A ansiedade é uma reação em geral normal do ser humano. É um sentimento que acompanha
mudanças na vida da pessoa; separação da criança dos pais ao ir para escola, rompimento de
relacionamentos, espectativa para fazer provas ou testes, e assim por diante.
A ansiedade é um sintoma primariamente psíquico, ou seja, a pessoa se sente ansiosa e conta isso
aos outros, por exemplo, mas há uma série de sinais que acompanham a sensação mental que
incluem: tontura, diarréia, pressão alta, palpitação, tremor, sudorese excessiva, etc. As reações
variam de indivíduo a outro.
Assim ela se divide em dois aspectos:
1) sua percepção de alterações fisiológicas (como sudorese e palpitação)
2) a consciência de estar nervoso ou amedrontado.
A ansiedade tem como função adaptativa básica o alerta a perigos internos (dor) ou externos
(ameaça de lesão corporal). Desta maneira, pode vir acompanhada de medo (medo de morrer frente
à um assalto), e visa a preparar o indivíduo para reações imediatas ou evitar tais ameaças, ou pelo
menos atenuar os seus danos.
“Estresse” geralmente depende do estímulo e do indivíduo que recebe o estímulo. Assim, um
desbalanço entre o interno (capacidade de a pessoa manter-se calma, estruturação psicológica, e
assim por diante) e o externo (sobrecarga emocional e/ou física) gera o estresse.
Ansiedade patológica
A ansiedade passa a ser patológica na medida em que ela aparece sem que haja um estímulo, ou
seja, na medida em que a pessoa fique ansiosa sem ter um motivo aparente. Palpitações, sudorese,
“aperto no peito” surgem com uma frequência razoável sem que haja uma causa imediata que possa
ser identificada por ele.
Outro critério que geralmente é usado é quando a reação ansiosa é desproporcional ao estímulo.
Reações muito drásticas a estímulos que normalmente teriam de desencadear respostas menores por
parte do indivíduo.
As causas são as mais variadas; as teorias psicológicas falam e repressão de desejos (Freud), de
condicionamento de respostas ansiosas (teorias comportamentais) e de vazios existenciais (teorias
existenciais).
As teorias biológicas falam em hiper-excitação do sistema nervoso autônomo (aquele que é
responsável por respostas como taquicardia, dor de cabeça e aceleração da respiração, por exemplo)
e desequilíbrio de hormônios como a serotonina e a noradrenalina, além de fatores genéticos que
contribuem para isso.
(http://www.psiq.med.br/index.php?opcao=ver_tema&id_tema=19&id_cat=3)
107
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Transtornos de Ansiedade
Agorafobia
CID-10 DSM-5
Grupo relativamente bem definido de fobias
relativas ao medo de deixar seu domicílio,
medo de lojas, de multidões e de locais
públicos, ou medo de viajar sozinho em trem,
ônibus ou avião. A presença de um transtorno
de pânico é frequente no curso dos episódios
atuais ou anteriores de agorafobia. Entre as
características associadas, acham-se
frequentemente sintomas depressivos ou
obsessivos, assim como fobias sociais.
As condutas de evitação comumente são
proeminentes na sintomatologia e certos
agorafóbicos manifestam pouca ansiedade
dado que chegam a evitar as situações
geradoras de fobia.
A característica essencial daagorafobia é o
medo ou ansiedade acentuado ou intenso
desencadeado pela exposição real ou prevista a
diversas situações [...]. O diagnóstico requer que
os sintomas ocorram em pelo menos duas das
cinco situações seguintes:
1) uso de transporte público, como automóveis,
ônibus, trens, navios ou aviões;
2) permanecer em espaços abertos, como áreas
de estacionamento, mercados ou pontes;
3) permanecer em locais fechados, como lojas,
teatros ou cinemas;
4) permanecer em uma fila ou ficar em meio a
uma multidão; ou
5) sair de casa sozinho.
Os exemplos de cada situação não são
exaustivos; outras situações podem ser temidas.
Quando experimentam medo e ansiedade
acionada por essas situações, os indivíduos
geralmente experimentam pensamentos de que
algo terrível possa acontecer [...]. Acreditam
com frequência que escapar dessas situações
poderia ser difícil (p. ex., “não consigo sair
daqui”) ou que o auxílio pode não estar
disponível (p. ex., “não há ninguém para me
ajudar”) quando ocorrem sintomas do tipo
pânico ou outros sintomas incapacitantes ou
constrangedores. “Sintomas do tipo pânico” se
referem a algum dos 13 sintomas inclusos nos
critérios para ataque de pânico, como tontura,
desmaio e medo de morrer. “Outros sintomas
incapacitantes ou constrangedores” incluem
sintomas como vomitar e sintomas inflamatórios
intestinais, bem como, em adultos mais velhos,
medo de cair ou, em crianças, uma sensação de
desorientação e de estar perdido.
A quantidade de medo experimentada pode
variar com a proximidade da situação temida e
pode ocorrer em antecipação ou na presença real
da situação agorafóbica. Além disso, o medo ou
ansiedade pode assumir a forma de um ataque
de pânico com sintomas completos ou sintomas
limitados (i.e., um ataque de pânico esperado).
O medo ou ansiedade é evocado quase todas as
vezes em que o indivíduo entra em contato com
a situação temida [...]. Assim, alguém que fica
ansioso apenas ocasionalmente em uma situação
108
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
agorafóbica (p. ex., fica ansioso quando
permanece em uma fila ou em apenas uma a
cada cinco ocasiões) não seria diagnosticado
com agorafobia. O indivíduo evita ativamente a
situação, ou, se não consegue ou decide não
evitá-la, a situação evoca medo ou ansiedade
intenso [...]. Esquiva ativa significa que o
indivíduo está, no momento, comportando-se de
formas intencionalmente concebidas para
prevenir ou minimizar o contato com situações
agorafóbicas. A esquiva pode ser
comportamental (p. ex., mudar as rotinas
diárias, escolher um emprego próximo para
evitar o uso de transporte público, organizar a
entrega de alimentos para evitar ter de entrar em
lojas e supermercados), bem como cognitiva por
natureza (p. ex., usando a distração para passar
por situações agorafóbicas). Pode tornar-se tão
grave a ponto de a pessoa ficar completamente
confinada à sua casa. Com frequência, um
indivíduo é mais capaz de enfrentar uma
situação temida quando acompanhado por
alguém como um parceiro, amigo ou
profissional da saúde.
O medo, ansiedade ou esquiva deve ser
desproporcional ao perigo real apresentado
pelas situações agorafóbicas e ao contexto
sociocultural [...]. A diferenciação de medos
agorafóbicos clinicamente significativos de
medos razoáveis (p. ex., sair de casa durante
uma forte tempestade) ou de situações que são
consideradas perigosas (p. ex., caminhar em
uma área de estacionamento ou usar o transporte
público em uma área de alta criminalidade) é
importante por inúmeras razões. Primeiramente,
o que constitui esquiva pode ser difícil de julgar
entre as culturas e nos contextos socioculturais
(p. ex., é culturalmente apropriado que as
mulheres muçulmanas ortodoxas em certas
partes do mundo evitem sair de casa sozinhas, e
assim essa esquiva não seria considerada
indicativa de agorafobia). Segundo, adultos
mais velhos provavelmente superestimam a
relação entre seus medos e as restrições
relacionadas à idade e, de modo semelhante,
podem não julgar seus medos como
desproporcionais ao risco real. Terceiro, os
indivíduos com agorafobia têm probabilidade de
superestimar o perigo em relação aos sintomas
do tipo pânico ou outros sintomas corporais. A
agorafobia deve ser diagnosticada somente se
109
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
persiste o medo, ansiedade ou esquiva [...] e se
ele causa sofrimento clinicamente significativo
ou prejuízo no funcionamento social,
profissional ou em outras áreas importantes da
vida do indivíduo [...]. A duração de “mais de
seis meses” significa excluir os indivíduos com
problemas transitórios de curta duração. No
entanto, o critério de duração deve ser usado
como um guia geral, com a possibilidade de
algum grau de flexibilidade.
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
Nas suas formas mais graves, a agorafobia pode
levar os indivíduos a ficar completamente
restritos à sua casa, incapazes de sair e
dependentes de outra pessoa para serviços ou
assistência até mesmo às suas necessidades
básicas. A desmoralização e os sintomas
depressivos, bem como o abuso de álcool e
medicamentos sedativos como estratégias
inadequadas de automedicação, são comuns.
Transtorno do pânico (ou Ansiedade Paroxística Episódica)
CID-10 DSM-5
A característica essencial deste transtorno são
os ataques recorrentes de uma ansiedade grave
(ataques de pânico), que não ocorrem
exclusivamente numa situação ou em
circunstâncias determinadas mas de fato são
imprevisíveis.
Como em outros transtornos ansiosos, os
sintomas essenciais comportam a ocorrência
brutal de palpitação e dores torácicas,
sensações de asfixia, tonturas e sentimentos de
irrealidade (despersonalização ou
desrealização
119
). Existe, além disso,
frequentemente um medo secundário de
morrer, de perder o autocontrole ou de ficar
louco.
Não se deve fazer um diagnóstico principal de
transtorno de pânico quando o sujeito
apresenta um transtorno depressivo no
momento da ocorrência de um ataque de
pânico, uma vez que os ataques de pânico são
provavelmente secundários à depressão neste
caso.
Transtorno de pânico se refere a ataques de
pânico inesperados recorrentes [...]. Um ataque
de pânico é um surto abrupto de medo ou
desconforto intenso que alcança um pico em
minutos e durante o qual ocorrem quatro ou
mais de uma lista de 13 sintomas físicos e
cognitivos. O termo recorrente significa
literalmente mais de um ataque de pânico
inesperado. O termo inesperado se refere a um
ataque de pânico para o qual não existe um
indício ou desencadeante óbvio no momento da
ocorrência – ou seja, o ataque parece vir do
nada, como quando o indivíduo está relaxando
ou emergindo do sono (ataque de pânico
noturno). Em contraste, os ataques de pânico
esperados são ataques para os quais existe um
indício ou desencadeante óbvio, como uma
situação em que os ataques de pânico ocorrem
geralmente. A determinação de os ataques de
pânico serem esperados ou inesperados é feita
pelo clínico, que faz esse julgamento com base
na combinação de um questionamento
cuidadoso quanto à sequência dos eventos que
119
Desrealização: Experiências de irrealidade ou distanciamento em relação ao ambiente ao redor (p. ex., indivíduos ou
objetos são vivenciados como irreais, oníricos, nebulosos, inertes ou visualmente distorcidos). DSM-5
110
“[...] e conhecereis a verdade,e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
precederam ou conduziram ao ataque e do
próprio julgamento do indivíduo do quanto o
ataque lhe pareceu ocorrer sem razão aparente.
As interpretações culturais podem influenciar a
designação do ataque de pânico como esperado
ou inesperado [...]. Nos Estados Unidos e na
Europa, aproximadamente metade dos
indivíduos com transtorno de pânico tem
ataques de pânico esperados tanto quanto
ataques inesperados. Assim, a presença de
ataques de pânico esperados não exclui o
diagnóstico de transtorno de pânico. [...]
A frequência e a gravidade dos ataques de
pânico variam de forma considerável. Em
termos de frequência, pode haver ataques
moderadamente frequentes (p. ex., um por
semana) durante meses, pequenos surtos de
ataques mais frequentes (p. ex., todos os dias)
separadas por semanas, meses sem ataques ou
ataques menos frequentes (p. ex., dois por mês)
durante muitos anos. As pessoas que têm
ataques de pânico infrequentes se parecem com
as pessoas com ataques de pânico mais
frequentes em termos de sintomas do ataque,
características demográficas, comorbidade com
outros transtornos, história familiar e dados
biológicos. Em termos de gravidade, os
indivíduos com transtorno de pânico podem ter
ataques com sintomas completos (quatro ou
mais sintomas) ou com sintomas limitados
(menos de quatro sintomas), e o número e o tipo
de sintomas do ataque de pânico frequentemente
diferem de um ataque de pânico para o seguinte.
No entanto, é necessário mais de um ataque de
pânico completo inesperado para o diagnóstico
de transtorno de pânico.
As preocupações acerca dos ataques de pânico
ou de suas consequências geralmente rela-
cionam-se a preocupações físicas, como a
preocupação de que os ataques de pânico
reflitam a presença de doenças ameaçadoras à
vida (p. ex., doença cardíaca, transtorno
convulsivo); preocupações pessoais, como
constrangimento ou medo de ser julgado
negativamente pelos outros devido aos sintomas
visíveis de pânico; e preocupações acerca do
funcionamento mental, como" "“enlouquecer”
ou perder o controle [...]. As mudanças
desadaptativas no comportamento representam
as tentativas de minimizar ou evitar os ataques
de pânico ou suas consequências. Os exemplos
111
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
incluem a esquiva de esforço físico,
reorganização da vida diária para garantir que
haja ajuda disponível no caso de um ataque de
pânico, restrição das atividades diárias habituais
e esquiva de situações agorafóbicas, como sair
de casa, usar transporte público ou fazer
compras. Se a agorafobia está presente, um
diagnóstico adicional de agorafobia é
estabelecido.
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
Um tipo de ataque de pânico inesperado é o
ataque de pânico noturno (i.e., acordar do sono
em um estado de pânico, que difere de entrar em
pânico depois de completamente acordado). Nos
Estados Unidos, foi estimado que esse tipo de
ataque de pânico ocorre pelo menos uma vez em
aproximadamente um quarto a um terço dos
indivíduos com transtorno de pânico, dos quais
a maioria também tem ataques de pânico
durante o dia. Além da preocupação acerca dos
ataques e de suas consequências, muitos
indivíduos com o transtorno relatam
sentimentos constantes ou intermitentes de
ansiedade que são mais amplamente
relacionados a preocupações com a saúde em
geral e com a saúde mental em específico. Por
exemplo, indivíduos com transtorno de pânico
com frequência preveem um resultado
catastrófico a partir de um sintoma físico leve
ou efeito colateral de medicamento (p. ex.,
pensar que pode ter um infarto agudo do
miocárdio ou que uma dor de cabeça significa a
presença de um tumor cerebral). Essas pessoas
em geral são relativamente intolerantes aos
efeitos colaterais de medicamentos. Além disso,
pode haver preocupações acerca da capacidade
de concluir as tarefas ou suportar os estressores
diários; pode haver uso excessivo de drogas (p.
ex., álcool, medicamentos de prescrição ou
drogas ilícitas) ou comportamentos extremos
que visam controlar os ataques de pânico (p. ex.,
restrições severas na ingestão de alimentos ou
evitação de alimentos ou medicamentos
específicos devido a preocupa- ções acerca dos
sintomas físicos que provocam ataques de
pânico).
112
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Fobia específica
CID-10 DSM-5
Fobias limitadas a situações altamente
específicas tais como a proximidade de
determinados animais [cinofobia], locais
elevados [acrofobia], trovões [brontofobia],
escuridão [nictofobia], viagens de avião
[Ptesiofobia], espaços fechados [claustrofobia],
utilização de banheiros públicos
[molismofobia], ingestão de determinados
alimentos [sitiofobia], cuidados odontológicos,
visão de sangue [hemo/hemafobia ou
hematofobia] ou ferimentos. Ainda que a
situação desencadeante seja inofensiva, o
contato com ela pode desencadear um estado
de pânico como na agorafobia ou fobia social.
Uma característica essencial desse transtorno é
que o medo ou ansiedade está circunscrito à
presença de uma situação ou objeto particular
[...], que pode ser denominado estímulo fóbico.
As categorias das situações ou objetos temidos
são apresentadas como especificadores. Muitos
indivíduos temem objetos ou situações de mais
de uma categoria, ou estímulo fóbico. Para o
diagnóstico de fobia específica, a resposta deve
ser diferente dos medos normais transitórios que
comumente ocorrem na população. Para
satisfazer os critérios para um diagnóstico, o
medo ou ansiedade deve ser intenso ou grave
(i.e., “acentuado”) [...]. O grau do medo
experimentado pode variar com a proximidade
do objeto ou situação temida e pode ocorrer
com a antecipação da presença ou na presença
real do objeto ou situação. Além disso, o medo
ou ansiedade pode assumir a forma de um
ataque de pânico com sintomas completos ou
limitados (i.e., ataque de pânico esperado).
Outra característica das fobias específicas é que
o medo ou ansiedade é evocado quase todas as
vezes que o indivíduo entra em contato com o
estímulo fóbico [...]. Assim, um indivíduo que
fica ansioso apenas ocasionalmente ao ser
confrontado com a situação ou objeto (p. ex.,
fica ansioso apenas em um de cada cinco voos
que faz) não seria diagnosticado com fobia
específica. Entretanto, o grau de medo ou
ansiedade expresso pode variar (desde a
ansiedade antecipatória até um ataque de pânico
completo) nas diferentes ocasiões de encontro
com o objeto ou situação fóbica devido a vários
fatores contextuais, como a presença de outra
pessoa, a duração da exposição, e a outros
elementos ameaçadores, como turbulência em
um voo para indivíduos que têm medo de voar.
O medo e a ansiedade são com frequência
expressos de formas diferentes entre crianças e
adultos. Além disso, o medo ou ansiedade
ocorre tão logo o objeto ou situação fóbica é
encontrado (i.e., imediatamente, em vez de ser
retardado).
O indivíduo evita ativamente a situação, ou, se
não consegue ou decide não evitá-la, a situação
ou objeto evoca temor ou ansiedade intensos
[...]. Esquiva ativa significa que o indivíduo
113
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
intencionalmente se comporta de formas
destinadas a prevenir ou minimizar o contato
com objetos ou situações fóbicas (p. ex., pega
túneis em vez de pontes em sua ida diária para o
trabalho devido ao medo de alturas;evita entrar
em um quarto escuro pelo medo de aranhas;
evita aceitar um trabalho em um local em que
um estímulo fóbico é mais comum). Os
comportamentos de esquiva são com frequência
óbvios (p. ex., um indivíduo que tem medo de
sangue recusando-se a ir ao médico), mas às
vezes são menos óbvios (p. ex., um indivíduo
que tem medo de cobras recusando-se a olhar
para figuras que se assemelham ao contorno ou
à forma de cobras). Muitas pessoas com fobias
específicas sofreram durante muitos anos e
alteraram suas circunstâncias de vida com o
objetivo de evitar o objeto ou situação fóbica o
máximo possível (p. ex., uma pessoa
diagnosticada com fobia específica, animal, que
se muda a fim de residir em uma área
desprovida do animal temido em particular).
Consequentemente, elas não mais experimentam
medo ou ansiedade em sua vida diária. Em tais
circunstâncias, os comportamentos de esquiva
ou a recusa persistente de se engajar em
atividades que envolveriam exposição ao objeto
ou situação fóbica (p. ex., recusa repetida em
aceitar ofertas para viagens a trabalho devido ao
medo de voar) podem ser úteis para a
confirmação do diagnóstico na ausência de
ansiedade ou pânico explícito.
O medo ou ansiedade é desproporcional em
relação ao perigo real apresentado pelo objeto
ou situação ou mais intenso do que é
considerado necessário [...]. Embora os
indivíduos com fobia específica com frequência
reconheçam que suas reações são
desproporcionais, tendem a superestimar o
perigo nas situações temidas, e assim o
julgamento do caráter desproporcional é feito
pelo clínico. O contexto sociocultural do
indivíduo também deve ser levado em conta.
Por exemplo, o medo do escuro pode ser
razoável em um contexto de violência constante,
e o medo de insetos pode ser mais
desproporcional em contextos onde insetos são
consumidos na dieta. O medo, a ansiedade ou a
esquiva é persistente, geralmente durando mais
de seis meses [...], o que ajuda a distinguir o
transtorno de medos transitórios que são
114
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
comuns na população, em particular entre
crianças. No entanto, o critério de duração deve
ser usado como um guia geral, com a
possibilidade de algum grau de flexibilidade. A
fobia específica deve causar sofrimento
clinicamente significativo ou prejuízo no
funcionamento social, profissional ou em outras
áreas importantes da vida do indivíduo para que
o transtorno seja diagnosticado [...].
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
Os indivíduos com fobia específica geralmente
experimentam aumento na excitabilidade
autonômica pela antecipação ou durante a
exposição a um objeto ou situação fóbica.
Entretanto, a resposta fisiológica à situação ou
ao objeto temidos varia. Enquanto os indivíduos
com fobias específicas situacionais, de ambiente
natural e de animais têm probabilidade de
apresentar excitabilidade aumentada do sistema
nervoso simpático, aqueles com fobia específica
a sangue-injeção-ferimentos frequentemente
demonstram uma resposta de desmaio ou quase
desmaio vasovagal
120 que é marcada por breve
aceleração inicial do ritmo cardíaco e elevação
da pressão arterial seguida por desaceleração do
ritmo cardíaco e queda na pressão arterial. Os
modelos atuais dos sistemas neurais para fobia
específica enfatizam a amígdala e estruturas
relacionadas, assim como em outros transtornos
de ansiedade.
120
Vasovagal - Relativo aos vasos e ao nervo vago; síndrome caracterizada por mal-estar epigástrico e cardíaco,
sensação de constrição respiratória, até falsa angina de peito, palidez, extremidades frias, cefaléia, durante minutos.
115
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
RELAÇÃO DAS PRINCIPAIS FORMAS DE FOBIAS
Ablutofobia — medo de tomar banho;
Acarofobia — medo de ter a pele infestada por pequenos
organismos (ácaros);
Acrofobia — medo de altura;
Acusticofobia — medo relacionado aos ruídos de alta
intensidade;
Aerodromofobia — medo de viagens aéreas;
Agliofobia — medo de sentir dor, sinônimo de algofobia;
Afefobia — medo de ser tocado;
Agrafobia — medo de abuso sexual;
Agrizoofobia — medo de animais selvagens;
Agirofobia — medo de ruas ou cruzamento de ruas;
Aicmofobia — medo de agulhas de injeção ou objetos
pontudos;
Ailurofobia — medo de gatos. Idem galeofobia ou gatofobia;
Aletrorofobia — medo de galinhas (ornitofobia);
Algofobia — medo de dor. Idem agliofobia;
Amaxofobia — medo mórbido de se encontrar ou viajar
dentro de qualquer veículo de transporte;
Ambulofobia — medo de andar;
Amnesifobia — medo de perder a memória;
Androfobia — medo de homens;
Antofobia — medo de flores;
Antropofobia — medo de pessoas ou da sociedade;
Anuptafobia — medo de ficar solteiro (a);
Apifobia — medo de abelhas;
Aracnefobia ou Aracnofobia — medo de aranhas;
Astenofobia — medo de desmaiar ou ter fraqueza;
Astrofobia ou astrapofobia — medo de trovões e relâmpagos;
Ataxofobia — medo de desordem;
Autofobia — medo de si mesmo ou de ficar sozinho
(Monofobia, Isolofobia);
Bacilofobia ou Bacteriofobia — medo de bactérias
(Microbiofobia);
Basofobia ou basifobia — medo de andar ou cair (inabilidade
de ficar em pé);
Batofobia — medo de profundidade;
Botanofobia — medo de plantas;
Batracofobia — medo de anfíbios (como sapos, salamandras,
rãs etc.);
Belonofobia — medo de alfinetes e agulhas (aiquimofobia);
Brontofobia — medo de trovões e relâmpagos;
Biofobia — medo da vida.
Cacorrafiofobia — medo de fracasso ou falhar;
Caetofobia — medo de pêlos;
Cainofobia ou cainotofobia — medo de novidades;
Catagelofobia — medo do ridículo (estar ou ser);
Catoptrofobia — medo de espelhos;
Catsaridafobia — medo de baratas;
Cimofobia — medo de ondas ou de movimentos parecidos
com ondas;
Cinetofobia ou cinesofobia — medo de movimento;
Cinofobia — medo de cães;
Cipridofobia, ciprifobia, ciprianofobia, ou ciprinofobia —
medo de prostitutas ou doença venéreas;
Ceraunofobia — medo de trovão;
Corofobia — medo de dançar;
Coitofobia — medo ou aversão à sexo;
Coniofobia — medo de poeira (amatofobia);
Cromofobia ou cromatofobia — medo de cores;
Cronofobia — medo do tempo;
Cronomentrofobia — medo de relógios;
Claustrofobia — medo de espaços confinados ou lugares
fechados ou seja, o oposto da agorafobia;
Cleitrofobia ou cleisiofobia — medo de ficar trancado em
lugares fechados;
Cleptofobia — medo de ser roubado;
Climacofobia — medo de degraus (subir ou cair de degraus);
Clinofobia — medo de ir para cama;
Colpofobia — medo de órgãos genitais;
Coimetrofobia — medo de cemitérios;
Contreltofobia — medo de abuso sexual;
Coprofobia — medo de fezes;
Coulrofobia — medo de palhaços;
Criofobia — medo de frio intenso, gelo ou congelamento;
Demonofobia — medo de demônios;
Demofobia ou enoclofobia — medo de multidão
(agorafobia);
Dendrofobia — medo de árvores;
Dermatosiofobia, dermatofobia ou dermatopatofobia —
medo de doenças de pele;
Dipsofobia — medo de beber;
Disabiliofobia — medo de se vestir na frente de alguém;
Dismorfofobia — medo de deformidade;
Distiquifobia — medo de acidentes;
Dorafobia — medo de pele de animais;
Dromofobia — medo de cruzar ruas.
Eisoptrofobia — medo de espelhos ou de se ver no espelho;
Electrofobia — medo de eletricidade;
Eleuterofobia — medo da liberdade;
Elurofobia — medo de gatos (ailurofobia);
Emetofobia — medo de vomitar;
Enosiofobiaou enissofobia — medo de ter cometido um
pecado ou crítica imperdoável;
Entomofobia — medo de insetos;
Epistaxiofobia — medo de sangrar do nariz;
Epistemofobia — medo do conhecimento;
Equinofobia — medo de cavalos;
Eremofobia — medo de ficar só;
Ergofobia — medo do trabalho;
Eretofobia — medo mórbido de sentir dor durante relações
sexuais;
Esciofobia ou esciafobia — medo de sombras
Escolecifobia — medo de vermes;
Escopofobia ou escoptofobia — medo de estar sendo olhado;
Escotofobia — medo de escuro;
Escotomafobia — medo de cegueira;
Esfecsofobia — medo de marimbondos;
Espectrofobia — medo de fantasmas ou espectros;
Estasibasifobia ou estasifobia — medo de ficar de pé ou
andar (ambulofobia);
Estenofobia — medo de lugares ou coisas estreitas;
116
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Fagofobia — medo de engolir ou de comer;
Falacrofobia — medo de tornar-se careca;
Farmacofobia — medo de tomar remédios;
Febrifobia, fibrifobia ou fibriofobia — medo de febre;
Fengofobia — medo da luz do dia ou nascer do sol;
Felinofobia — medo de gatos (ailurofobia, elurofobia,
galeofobia, gatofobia);
Filemafobia ou filematofobia — medo de beijar;
Filofobia — medo de apaixonar-se;
Filosofobia — medo de filosofia;
Fobia social — medo de estar sendo avaliado negativamente
(socialmente);
Fonofobia — medo de barulhos ou vozes ou da própria voz
de telefone;
Fotoaugliafobia — medo de luzes muito brilhantes;
Fotofobia — medo de luz;
Fronemofobia — medo de pensar;
Flatusfobia — medo de liberar flatos a valer.
Galeofobia ou gatofobia — medo de gatos, mesmo que
Ailurofobia;
Gamofobia — medo de casar;
Gefirofobia, gefidrofobia ou gefisrofobia — medo de cruzar
pontes;
Geliofobia — medo de rir;
Geniofobia — medo de manter a cabeça erguida;
Gerascofobia — medo de envelhecer;
Gerontofobia — medo de pessoas idosas;
Geumafobia ou geumofobia — medo de sabores;
Ghostfobia — Medo de fantasmas;
Gimnofobia — medo de nudez;
Ginofobia, ginefobia ou ginecofobia — medo de mulheres;
Glossofobia — medo de falar ou tentar falar em publico;
Gnosiofobia — medo do conhecimento.
Hagiofobia — medo de santos ou coisas santas;
Hamartofobia — medo de pecar;
Hafefobia ou haptefobia — medo de ser tocado ou de tocar
em alguém ou em alguma coisa;
Harpaxofobia — medo de ser roubado;
Hedonofobia — medo de sentir prazer;
Heliofobia — medo do sol;
Hemofobia, hemafobia ou hematofobia — medo de sangue;
Heresifobia ou hereiofobia — medo de desafiar a doutrina
oficial (governo);
Herpetofobia — medo de répteis ou coisa que arrastam;
Heterofobia — etimologicamente medo do sexo oposto, uso
comum: medo da heterossexualidade;
Hidrofobia — medo de água;
Hidrofobofobia — medo de contrair hidrofobia;
Hielofobia ou hialofobia — medo de vidro;
Hierofobia — medo de padres ou coisas sacras;
Higrofobia — medo de líquidos ou umidade;
Hilefobia — medo de materialismo ou de epilepsia;
Hilofobia — medo de florestas;
Hipengiofobia ou hipegiafobia — medo de responsabilidade;
Hipnofobia — medo de dormir ou ser hipnotizado;
Hipofobia — medo de casas;
Hipsifobia — medo de altura;
Hobofobia — medo de bêbados ou mendigos;
Hodofobia — medo de atravessar estradas;
Hormefobia — medo de ficar abalado ou chocado;
Homiclofobia — medo de neblina;
Hominofobia — medo de homens, mesmo que androfobia;
Hoplofobia — medo de armas de fogo;
Homofobia — etimologicamente medo do semelhante, uso
comum: medo da homossexualidade;
Humilhofobia — medo de ser humilhado.
Iatrofobia — medo de ir ao médico;
Ictiofobia — medo de peixe;
Ideofobia — medo de ideias;
Ilingofobia — medo de vertigem ou sentir vertigem quando
olha para baixo;
Iofobia — medo de veneno;
Insetofobia — medo de insetos;
Isolofobia — medo da solidão, de estar sozinho, o medo de
ficar isolado (Autofobia, Monofobia);
Isopterofobia — medo de cupins.
Katsaridafobia ou Catsaridafobia — medo de baratas.
Lachanophobia ou lachanofobia — medo de vegetais;
Lactofobia — medo de leite;
Laliofobia ou lalofobia — medo de falar;
Lesbofobia — medo de mulheres lésbicas;
Leprofobia ou leprafobia — medo de lepra;
Ligirofobia — medo de barulhos;
Ligofobia — medo de escuridão;
Lilapsofobia — medo de furacões;
Limnofobia — medo de lagos;
Lissofobia — medo de ficar louco;
Locquiofobia — medo de nascimento (criança);
Logizomecanofobia — medo de computadores;
Logofobia — medo de palavras;
Luefobia — medo de sífilis (lues).
Mageirocofobia — medo de cozinhar;
Maieusiofobia — medo da infância;
Malaxofobia — medo de amar (sarmassofobia);
Maniafobia — medo de insanidade;
Mastigofobia — medo de punição;
Mecanofobia — medo de máquinas;
Megalofobia — medo de coisas grandes;
Melanofobia — medo de cor preta;
Melissofobia — medo de abelhas;
Melofobia — medo ou ódio de música;
Meningitofobia — medo de doença nervosa;
Merintofobia — medo de ficar amarrado;
Metalofobia — medo de metal;
Metatesiofobia — medo de mudar;
Metifobia — medo de álcool;
Metrofobia — medo ou ódio de poesia;
Microbiofobia — medo de micróbios (bacilofobia);
Mictofobia — medo de escuridão;
Mirmecofobia — medo de formigas;
Misofobia — medo de germes, contaminação ou sujeira;
Mitofobia — medo de mitos, histórias ou declarações falsas;
Molismofobia ou molisomofobia — medo de sujeira ou
contaminação;
Monofobia — medo de solidão ou ficar só (Autofobia,
Isolofobia);
Monopatofobia — medo de doença incurável;
Motefobia — medo de borboleta e mariposa;
117
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Motorfobia — medo de automóveis;
Musofobia ou murofobia — medo de ratos.
Narigofobia — medo de narizes;
Nebulafobia — medo de neblina (homiclofobia);
Necrofobia — medo de morte ou coisas mortas;
Nelofobia — medo de vidro;
Neofarmafobia — medo de medicamentos novos;
Neofobia — medo de qualquer coisa nova;
Nefofobia — medo de nevoeiros;
Nictofobia — medo da escuridão ou da noite;
Noctifobia — medo da noite;
Nictohilofobia — medo de florestas escuras ou a noite;
Ninfofobia — medo do sexo;
Nosocomefobia — medo de hospital;
Nosofobia ou nosemafobia — medo de ficar doente;
Nostofobia — medo de voltar para casa;
Nudofobia — medo de nudez.
Obesofobia — medo de ganhar peso (pocrescofobia);
Oclofobia — medo de multidão;
Ocofobia — medo de veículos;
Odinofobia ou odinefobia — medo da dor (algofobia);
Odontofobia — medo de dentista ou cirurgia odontológica;
Oenofobia — medo de vinhos;
Ofidiofobia — medo de cobras;
Oftalmofobia — medo de estar sendo vigiado;
Olfactofobia — medo de cheiros;
Ombrofobia — medo de chuva ou de estar chovendo;
Ometafobia ou omatofobia — medo de olhos;
Oneirofobia — medo de sonhos;
Onomatofobia — medo de ouvir certas palavras ou nomes;
Ornitofobia — medo de passaros;
Pantofobia — medo de tudo ou de todas as fobias;
Pedofobia — medo das crianças;
Penterofobia — medo da sogra;
Pirofobia — medo do fogo;
Ptesiofobia — medo de viajar de avião.
Quemofobia — medo de substâncias químicas ou de
trabalhar com elas;
Quenofobia — medo de espaços vazios;
Quifofobia — medo de parar;
Quimofobia — medo de ondas;
Quionofobia — medo de neve;
Quinofobia — medo de raiva (doença);
Quiraptofobia — medo de ser tocada(o);
Quilofobia — medo de esquilos ou qualquer um roedor.
Rabdofobia — medo de ser severamente punido;
Radiofobia — medo de radiação, Raio—X;
Ripofobia — medo de defecar;
Ritifobia — medo de ficarenrugado;
Rupofobia — medo de sujeira.
Sarmassofobia — medo de seduzir e de participar de jogos de
sedução;
Satanofobia — medo de satã (demônio);
Selafobia — medo de flashes (luzes);
Selachofobia — medo de tubarões;
Selenofobia — medo da lua;
Seplofobia — medo de material radiativo;
Sesquipedalofobia — medo de palavras grandes;
Sexoafobia — medo de fazer sexo;
Sexofobia — medo do sexo oposto (heterofobia);
Siderodromofobia — medo de trem ou viagem de trem;
Siderofobia — medo de estrelas;
Sinistrofobia — medo de coisas do lado esquerdo, mão
esquerda;
Sitofobia ou Sitiofobia — medo de comida ou comer
(cibofobia);
Socerafobia — medo de padrasto ou madrasta;
Sociofobia — medo da sociedade ou de pessoas em geral;
Somnifobia — medo de dormir;
Simmetrofobia — medo de simetria;
Singenesofobia — medo de parentes;
Sifilofobia — medo de sífilis;
Sofofobia — medo de aprender;
Soteriofobia — medo de dependência dos outros;
Surifobia — medo de camundongo (rato);
Simbolofobia — medo de símbolos.
Tacofobia ou Tachofobia — medo de velocidade;
Taeniofobia ou Teniofobia — medo de solitária (tênia);
Tafofobia ou tafefobia — medo de ser enterrado vivo;
Talassofobia — medo do mar;
Tanatofobia ou tantofobia — medo da morte ou de morrer;
Tapinofobia - medo de ser contagioso;
Taurofobia — medo de touro;
Teatrofobia — medo de teatro;
Tecnofobia — medo de tecnologia;
Telefonofobia — medo de telefone;
Teleofobia — medo de definir planos ou de cerimônias
religiosas;
Teofobia — medo de Deus ou de religião;
Teologicofobia — medo de teologia;
Teratofobia — medo de crianças ou pessoas deformadas;
Termofobia — medo de calor;
Testofobia — medo de fazer provas (escolares);
Tiranofobia — medo de tiranos;
Tocofobia — medo de gravidez;
Tomofobia — medo de cirurgia;
Tonitrofobia — medo de trovão;
Topofobia — medo de certos lugares ou situações, que dão
medo ou pavor;
Toxifobia, toxofobia ou toxicofobia — medo de se
envenenar;
Traumatofobia — medo de traumas (físicos);
Transfobia — medo de transexuais;
Tripanofobia — medo de injeções;
Tropofobia — medo de mudar ou fazer mudanças.
Unatractifobia — medo de pessoas feias;
Uranofobia — medo do céu;
Urifobia — aversão e medo mórbido irracional,
desproporcional persistente e repugnante a fenômenos
paranormais;
Urofobia — medo de urina ou do ato de urinar;
Uiofobia — medo dos próprios filhos; medo da prole.
Vacinofobia — medo de vacinação;
Verbofobia — medo de palavras;
Verminofobia — medo de vermes;
Virginitifobia — medo de estupro;
Vitricofobia — medo do padrasto.
Xenofobia — medo de estrangeiros ou estranhos;
118
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Xerofobia — medo de secura, aridez;
Xilofobia — medo de objetos de madeira ou de floresta.
Zelofobia — medo irracional do ciúme;
Zoofobia — medo de animais.
Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social)
CID-10 DSM-5
Medo de ser exposto à observação atenta de
outrem e que leva a evitar situações sociais. As
fobias sociais graves se acompanham
habitualmente de uma perda da autoestima e de
um medo de ser criticado.
As fobias sociais podem se manifestar por
rubor, tremor das mãos, náuseas ou desejo
urgente de urinar, sendo que o paciente por
vezes está convencido que uma ou outra destas
manifestações secundárias constitui seu
problema primário. Os sintomas podem evoluir
para um ataque de pânico.
A característica essencial do transtorno de
ansiedade social é um medo ou ansiedade
acentuados ou intensos de situações sociais nas
quais o indivíduo pode ser avaliado pelos
outros. Em crianças, o medo ou ansiedade deve
ocorrer em contextos com os pares, e não
apenas durante interações com adultos [...].
Quando exposto a essas situações sociais, o
indivíduo tem medo de ser avaliado
negativamente. Ele tem a preocupação de que
será julgado como ansioso, débil, maluco,
estúpido, enfadonho, amedrontado, sujo ou
desagradável. O indivíduo teme agir ou aparecer
de certa forma ou demonstrar sintomas de
ansiedade, tais como ruborizar, tremer,
transpirar, tropeçar nas palavras, que serão
avaliados negativamente pelos demais [...].
Alguns têm medo de ofender os outros ou de ser
rejeitados como consequência. O medo de
ofender os outros – por exemplo, por meio de
um olhar ou demonstrando sintomas de
ansiedade – pode ser o medo predominante em
pessoas de culturas com forte orientação
coletivista. Um indivíduo com medo de tremer
as mãos pode evitar beber, comer, escrever ou
apontar em público; um com medo de transpirar
pode evitar apertar mãos ou comer alimentos
picantes; e um com medo de ruborizar pode
evitar desempenho em público, luzes brilhantes
ou discussão sobre tópicos íntimos. Alguns têm
medo e evitam urinar em banheiros públicos
quando outras pessoas estão presentes (i.e.,
parurese, ou “síndrome da bexiga tímida”)121.
As situações sociais quase sempre provocam
medo ou ansiedade [...]. Assim, um indivíduo
121
Parurese, também chamada de bexiga tímida, é um transtorno psicológico em que o parurético não consegue urinar
na presença real ou imaginária de outras pessoas. Afeta mais os homens, porém as mulheres podem ser afetadas
também.
A Parurese varia de pessoa para pessoa, mas há certas coisas em comum. Ocorre principalmente em banheiros públicos,
mas pode ocorrer na casa de amigos ou familiares ou mesmo na própria casa quando há alguém perto do banheiro
enquanto o parurético está lá. Há várias intensidades, desde leve, quando consegue urinar em banheiros públicos com
certas condições, à grave quando a pessoa só pode urinar quando estiver sozinha em casa.
Uma pessoa que de vez em quando tem que esperar dois ou três segundos para conseguir urinar não tem Parurese. A
Parurese é uma condição ao longo da vida caracterizada pela hesitação excessiva ou uma incapacidade de urinar. A
maioria dos paruréticos exigem certo conforto pessoal para conseguir urinar. Em uma situação particular, onde há
ruídos, odores, falta de privacidade visual, muitas pessoas no banheiro ou pressa para urinar, a Parurese entra em ação,
pois geralmente o parurético imagina que há alguém esperando, ouvindo enquanto urina ou zombando dele. (Wikipedia)
119
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
que fica ansioso apenas ocasionalmente em
situação(ões) social(is) não seria diagnosticado
com transtorno de ansiedade social. Entretanto,
o grau e o tipo de medo e ansiedade podem
variar (p. ex., ansiedade antecipatória, ataque de
pânico) em diferentes ocasiões. A ansiedade
antecipatória" "pode ocorrer às vezes muito
antes das próximas situações (p. ex., preocupar-
se todos os dias durante semanas antes de
participar de um evento social, repetir
antecipadamente um discurso por dias). Em
crianças, o medo ou ansiedade pode ser
expresso por choro, ataques de raiva,
imobilização, comportamento de agarrar-se ou
encolher-se em situações sociais. Os indivíduos
com frequência evitarão as situações sociais
temidas ou então as suportarão com intenso
medo ou ansiedade. A esquiva pode ser
abrangente (p. ex., não ir a festas, recusar a
escola) ou sutil (p. ex., preparando
excessivamente o texto de um discurso,
desviando a atenção para os outros, limitando o
contato visual).
O medo ou ansiedade é julgado desproporcional
ao risco real de ser avaliado negativamente ou
às consequências dessa avaliação negativa. Às
vezes, a ansiedade pode não ser julgada
excessiva porqueestá relacionada a um perigo
real (p. ex., ser alvo de bullying ou atormentado
pelos outros). No entanto, os indivíduos com
transtorno de ansiedade social com
frequência superestimam as consequências
negativas das situações sociais, e, assim, o
julgamento quanto a ser desproporcional é
feito pelo clínico. O contexto sociocultural do
indivíduo precisa ser levado em conta quando
está sendo feito esse julgamento. Por exemplo,
em certas culturas, o comportamento que de
outra forma parece socialmente ansioso pode ser
considerado apropriado em situações sociais (p.
ex., pode ser visto como um sinal de respeito).
A duração do transtorno é geralmente de pelo
menos seis meses [...]. Esse limiar de duração
ajuda a diferenciar o transtorno dos medos
sociais transitórios comuns, particularmente
entre crianças e na comunidade. Contudo, o
critério de duração deve ser usado como um
guia geral, com a possibilidade de algum grau
de flexibilidade. O medo, a ansiedade e a
esquiva devem interferir significativamente na
rotina normal do indivíduo, no funcionamento
120
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
profissional ou acadêmico ou em atividades
sociais ou relacionamentos ou deve causar
sofrimento clinicamente significativo ou
prejuízo no funcionamento social, profissional
ou em outras áreas importantes de sua vida [...].
Por exemplo, alguém que tem medo de falar em
público não receberia um diagnóstico de
transtorno de ansiedade social se essa atividade
não é rotineiramente encontrada no trabalho ou
nas tarefas de classe e se o indivíduo não tem
um sofrimento significativo a respeito disso.
Entretanto, se evita ou ignora o trabalho ou
educação que realmente deseja ter devido aos
sintomas de ansiedade social, [o critério] é
satisfeito.
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
Os indivíduos com transtorno de ansiedade
social podem ser inadequadamente assertivos ou
muito submissos ou, com menos frequência,
muito controladores da conversa. Podem
mostrar uma postura corporal excessivamente
rígida ou contato visual inadequado ou falar
com voz extremamente suave. Podem ser
tímidos ou retraídos e ser menos abertos em
conversas e revelar pouco a seu respeito. Podem
procurar emprego em atividades que não
exigem contato social, embora esse não seja o
caso para indivíduos com transtorno de
ansiedade social somente desempenho. Podem
sair da casa dos pais mais tarde. Os homens
podem retardar o casamento e a paternidade,
enquanto as mulheres que gostariam de
trabalhar fora de casa podem viver uma vida
inteira como donas de casa. A automedicação
com substâncias é comum (p. ex., beber antes de
ir a uma festa). A ansiedade social entre adultos
mais velhos também pode incluir a exacerbação
de sintomas de doenças médicas, como tremor
aumentado ou taquicardia. O rubor é a resposta
física característica do transtorno de ansiedade
social.
Transtorno de ansiedade generalizada
CID-10 DSM-5
Ansiedade generalizada e persistente que não
ocorre exclusivamente, nem mesmo de modo
preferencial, numa situação determinada (a
ansiedade é ‘flutuante’). Os sintomas
essenciais são variáveis, mas compreendem
As características essenciais do transtorno de
ansiedade generalizada são ansiedade e
preocupação excessivas (expectativa
apreensiva) acerca de diversos eventos ou
atividades. A intensidade, duração ou frequência
121
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
nervosismo persistente, tremores, tensão
muscular, transpiração, sensação de vazio na
cabeça, palpitações, tonturas e desconforto
epigástrico. Medos de que o paciente ou um de
seus próximos irá brevemente ficar doente ou
sofrer um acidente são frequentemente
expressos.
da ansiedade e preocupação é desproporcional à
probabilidade real ou ao impacto do evento
antecipado. O indivíduo tem dificuldade de
controlar a preocupação e de evitar que
pensamentos preocupantes interfiram na atenção
às tarefas em questão. Os adultos com
transtorno de ansiedade generalizada
frequentemente se preocupam com
circunstâncias diárias da rotina de vida, como
possíveis responsabilidades no trabalho, saúde e
finanças, a saúde dos membros da família,
desgraças com seus filhos ou questões menores
(p. ex., realizar as tarefas domésticas ou se
atrasar para compromissos). As crianças com o
transtorno tendem a se preocupar
excessivamente com sua competência ou a
qualidade de seu desempenho. Durante o curso
do transtorno, o foco da preocupação pode
mudar de uma preocupação para outra.
Várias características distinguem o transtorno de
ansiedade generalizada da ansiedade não
patológica. Primeiro, as preocupações
associadas ao transtorno de ansiedade
generalizada são excessivas e geralmente
interferem de forma significativa no
funcionamento psicossocial, enquanto as
preocupações da vida diária não são excessivas
e são percebidas como mais manejáveis,
podendo ser adiadas quando surgem questões
mais prementes. Segundo, as preocupações
associadas ao transtorno de ansiedade
generalizada são mais disseminadas, intensas e
angustiantes; têm maior duração; e
frequentemente ocorrem sem precipitantes.
Quanto maior a variação das circunstâncias de
vida sobre as quais a pessoa se preocupa (p. ex.,
finanças, segurança dos filhos, desempenho no
trabalho), mais provavelmente seus sintomas
satisfazem os critérios para transtorno de
ansiedade generalizada. Terceiro, as
preocupações diárias são muito menos
prováveis de ser acompanhadas por sintomas
físicos (p. ex., inquietação ou sensação de estar
com os nervos à flor da pele). Os indivíduos
com transtorno de ansiedade generalizada
relatam sofrimento subjetivo devido à
preocupação constante e prejuízo relacionado ao
funcionamento social, profissional ou em outras
áreas importantes de sua vida.
A ansiedade e a preocupação são acompanhadas
por pelo menos três dos seguintes sintomas
122
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
adicionais: inquietação ou sensação de estar
com os nervos à flor da pele, fatigabilidade,
dificuldade de concentrar-se ou sensações de
“branco” na mente, irritabilidade, tensão
muscular, perturbação do sono, embora apenas
um sintoma adicional seja exigido para crianças.
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
Pode haver tremores, contrações, abalos e dores
musculares, nervosismo ou irritabilidade
associados a tensão muscular. Muitos
indivíduos com transtorno de ansiedade
generalizada também experimentam sintomas
somáticos (p. ex., sudorese, náusea, diarreia) e
uma resposta de sobres- salto exagerada.
Sintomas de excitabilidade autonômica
aumentada (p. ex., batimentos cardíacos
acelerados, falta de ar, tonturas) são menos
proeminentes no transtorno de ansiedade
generali- zada do que em outros transtornos de
ansiedade, tais como o transtorno de pânico.
Outras con- dições que podem estar associadas
ao estresse (p. ex., síndrome do intestino
irritável, cefaleia) frequentemente acompanham
o transtorno.
Transtornos relacionados a traumas e a estressores
Transtorno de Estresse Pós-traumático
CID-10 DSM-5
Este transtorno constitui uma resposta
retardada ou protraída a uma situação ou
evento estressante (de curta ou longa duração),
de natureza excepcionalmente ameaçadora ou
catastrófica, e que provocaria sintomas
evidentes de perturbação na maioria dos
indivíduos. Fatores predisponentes, tais como
certos traços de personalidade (por exemplocompulsiva, astênica) ou antecedentes do tipo
neurótico, podem diminuir o limiar para a
ocorrência da síndrome ou agravar sua
evolução; tais fatores, contudo, não são
necessários ou suficientes para explicar a
ocorrência da síndrome. Os sintomas típicos
incluem a revivescência repetida do evento
traumático sob a forma de lembranças
invasivas ("flashbacks"), de sonhos ou de
pesadelos; ocorrem num contexto durável de
"anestesia psíquica" e de embotamento
emocional, de retraimento com relação aos
outros, insensibilidade ao ambiente, anedonia,
Obs.: No DSM-5 esse transtorno não é mais
classificado como Transtorno de Ansiedade e
sim como um Transtornos Relacionados a
Trauma e a Estressores.
A característica essencial do transtorno de
estresse pós-traumático é o desenvolvimento de
sintomas característicos após a exposição a um
ou mais eventos traumáticos. [...] A
apresentação clínica do TEPT varia. Em alguns
indivíduos, sintomas de revivência do medo,
emocionais e comportamentais podem
predominar. Em outros, estados de humor
anedônicos ou disfóricos e cognições negativas
podem ser mais perturbadores. Em alguns
outros, a excitação e sintomas reativos
externalizantes são proeminentes, enquanto em
outros, sintomas dissociativos predominam. Por
fim, algumas pessoas exibem combinações
desses padrões de sintomas.
Os eventos traumáticos [...] sofridos diretamente
123
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
e de evitação de atividades ou de situações que
possam despertar a lembrança do traumatismo.
Os sintomas precedentes se acompanham
habitualmente de uma hiperatividade
neurovegetativa, com hipervigilância, estado
de alerta e insônia, associadas frequentemente
a uma ansiedade, depressão ou ideação suicida.
O período que separa a ocorrência do
traumatismo do transtorno pode variar de
algumas semanas a alguns meses. A evolução é
flutuante, mas se faz para a cura na maioria dos
casos. Em uma pequena proporção de casos, o
transtorno pode apresentar uma evolução
crônica durante numerosos anos e levar a uma
alteração duradoura da personalidade.
incluem, mas não se limitam a, exposição a
guerra como combatente ou civil, ameaça ou
ocorrência real de agressão física (ataque físico,
assalto, furto, abuso físico infantil), ameaça ou
ocorrência real de violência sexual (p. ex.,
penetração sexual forçada, penetração sexual
facilitada por álcool/droga, contato sexual
abusivo, abuso sexual sem contato, tráfico
sexual), sequestro, ser mantido refém, ataque
terrorista, tortura, encarceramento como
prisioneiro de guerra, desastres naturais ou
perpetrados pelo homem e acidentes
automobilísticos graves. Para crianças, eventos
sexualmente violentos podem incluir
experiências sexuais inapropriadas em termos
do estágio de desenvolvimento sem violência
física ou lesão. Uma doença potencialmente
fatal ou uma condição clínica debilitante não
são consideradas necessariamente eventos
traumáticos. Incidentes médicos que se
qualificam como eventos traumáticos incluem
eventos súbitos e catastróficos (p. ex., despertar
durante uma cirurgia, choque anafilático122).
Eventos testemunhados incluem, mas não se
limitam a, observação de ameça de lesão ou
lesão real grave, morte natural, abuso físico ou
sexual de outra pessoa em virtude de agressão
violenta, violência doméstica, acidente, guerra
ou desastre ou catástrofe médica envolvendo um
filho (p. ex., uma hemorragia potencialmente
fatal). A exposição indireta por ter
conhecimento do evento está limitada a
experiências que afetam parentes ou amigos
próximos e experiências violentas ou acidentais
(p. ex., morte por causas naturais não se
qualifica). Esses eventos incluem ataque pessoal
violento, suicídio, acidente grave e lesão grave.
O transtorno pode ser especialmente grave ou
duradouro quando o estressor é interpessoal e
intencional (p. ex., tortura, violência sexual).
O evento traumático pode ser revivenciado de
diversas maneiras. É comum que a pessoa tenha
lembranças recorrentes, involuntárias e
intrusivas do evento [...]. As lembranças
intrusivas no TEPT são distintas das ruminações
depressivas no sentido de que só se aplicam a
122
O choque anafilático, ou anafilaxia, é uma reação alérgica, de hipersensibilidade imediata e severa, que afeta o
corpo todo. A sua manifestação mais grave é quando provoca inchaço e obstrução de vias aéreas superiores e/ou
hipotensão, que pode ser fatal.
A falta de ar pode ser fatal, a menos que o indivíduo receba o tratamento de emergência prontamente.
124
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
recordações angustiantes involuntárias e
intrusivas. A ênfase é nas lembranças
recorrentes do evento, as quais normalmente
incluem componentes comportamentais
sensoriais, emocionais ou fisiológicos. Um
sintoma comum de revivência são sonhos
angustiantes que repetem o evento em si ou são
representativos ou relacionados tematicamente
às ameaças principais envolvidas no evento
traumático [...]. A pessoa pode sofrer estados
dissociativos que duram desde alguns segundos
até várias horas ou até mesmo dias, durante os
quais aspectos do evento são revividos e a
pessoa se comporta como se o evento estivesse
ocorrendo naquele momento [...]. Esses eventos
ocorrem em um continuum desde intrusões
visuais ou sensoriais breves de parte do evento
traumático sem perda de senso de realidade até
a perda total de percepção do ambiente ao redor.
Esses episódios, conhecidos como flashbacks,
são geralmente breves, mas "podem estar
associados a sofrimento prolongado e excitação
elevada. No caso de crianças pequenas, a
reencenação de eventos relacionados ao trauma
pode aparecer na brincadeira ou em estados
dissociativos. Frequentemente ocorre
sofrimento psicológico intenso [...] ou
reatividade fisiológica [...] quando o indivíduo é
exposto a eventos precipitadores que se
assemelham a ou simbolizam algum aspecto do
evento traumático (p. ex., dias ventosos depois
de um furacão; ver alguém parecido com o
criminoso). O fator desencadeante pode ser uma
sensação física (p. ex., tontura para
sobreviventes de traumatismo craniano;
frequência cardíaca acelerada para uma criança
previamente traumatizada), particularmente para
indivíduos com quadros altamente somáticos.
Estímulos associados ao trauma são evitados de
maneira persistente (p. ex., sempre ou quase
sempre). O indivíduo costuma fazer esforços
deliberados para evitar pensamentos,
lembranças, sentimentos ou diálogos a respeito
do evento traumático (p. ex., utilizando técnicas
de distração para evitar recordações internas)
[...] e para evitar atividades, objetos, situações
ou pessoas que desencadeiem lembranças do
evento [...].
Alterações negativas em cognições ou no humor
associadas ao evento surgem ou pioram depois
da exposição a ele. Essas alterações negativas
125
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
podem assumir várias formas, incluindo
incapacidade de recordar algum aspecto
importante do evento traumático; esse tipo de
amnésia deve-se essencialmente a amnésia
dissociativa, e não a lesão craniana, álcool ou
drogas [...]. Outra forma são expectativas
negativas exageradas e persistentes (i.e., sempre
ou quase sempre) a respeito de aspectos
importantes da vida que se aplicam à vítima, a
outras pessoas ou ao futuro (p. ex., “Sempre tive
pouco discernimento”; “Não se pode confiarem
figuras de autoridade”) que podem se manifestar
como uma mudança negativa na identidade
percebida desde o trauma (p. ex., “Nunca mais
poderei confiar em alguém”; [...]). Indivíduos
com TEPT podem ter cognições errôneas
persistentes a respeito das causas do evento
traumático que as levam a se culpar ou a culpar
os outros (p. ex., “É culpa minha ter sido
abusada pelo meu tio”) [...]. Um estado de
humor negativo persistente (p. ex., medo,
horror, raiva, culpa, ver- gonha) surge ou piora
depois da exposição ao evento [...]. O indivíduo
pode apresentar interesse ou participação
notadamente menor em atividades que antes
eram prazerosas [...], sentindo-se alheio ou
isolado de outras pessoas [...], ou incapacidade
persistente de sentir emoções positivas
(especialmente felicidade, alegria, satisfação ou
emoções associadas a intimidade, ternura e
sexualidade) [...].
Indivíduos com TEPT podem irritar-se
facilmente e até mesmo adotar um
comportamento físico e/ou verbal agressivo com
pouca ou nenhuma provocação (p. ex., gritar
com os outros, envolver-se em brigas, destruir
objetos) [...]. Eles podem também adotar um
comportamento imprudente ou autodestrutivo,
como direção perigosa, uso excessivo de álcool
ou drogas, ou um comportamento automutilante
ou suicida [...]. O TEPT é com frequência
caracterizado por hipersensibilidade a ameaças
potenciais, incluindo as relacionadas à
experiência traumática (p. ex., depois de um
acidente automobilístico, ficar especialmente
sensível à ameaça potencial representada por
carros ou caminhões) e as não relacionadas ao
evento traumático (p. ex., medo de sofrer infarto
agudo do miocárdio) [...]. Indivíduos com TEPT
podem mostrar-se bastante reativos a estímulos
inesperados, exibindo uma resposta de
126
“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
sobressalto intensa ou tensão/nervosismo a
ruídos elevados ou movimentos inesperados (p.
ex., pulando de susto em resposta ao toque de
um telefone) [...]. Dificuldades de con-
centração, incluindo dificuldade para lembrar de
eventos diários (p. ex., esquecer o número do
próprio telefone) ou participar de tarefas que
exigem concentração (p. ex., acompanhar uma
conversa por um determinado período), são
comumente relatadas [...]. Problemas para
iniciar e manter o sono são comuns e podem
estar associados a pesadelos e preocupações
com a segurança ou a hiperexcitação
generalizada, que interfere no sono adequado
[...]. Alguns indivíduos também sofrem
sintomas dissociativos persistentes de
distanciamento do próprio corpo
(despersonalização) ou do mundo ao redor
(desrealização); isso se reflete no especificador
“com sintomas dissociativos”.
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
A regressão do desenvolvimento, como a perda
da fala em crianças pequenas, pode ocorrer.
Pseudoalucinações auditivas, como ter a
experiência sensorial de escutar seus próprios
pensamentos ditos em uma voz ou em vozes
diferentes, bem como ideias paranoides, podem
estar presentes. Depois de eventos traumáticos
graves, prolongados e repetidos (p. ex., abuso
infantil, tortura), o indivíduo pode apresentar
também dificuldades na regulagem de emoções
ou para manter rela- cionamentos interpessoais
estáveis, ou ainda sintomas dissociativos.
Quando o evento traumático produz morte
violenta, sintomas de luto complicado e TEPT
podem estar presentes.
Transtornos de ajustamento (ou de adaptação)
CID-10 DSM-5
Esta categoria difere das outras na medida que
sua definição não repousa exclusivamente
sobre a sintomatologia e a evolução, mas
igualmente sobre a existência de um ou outro
dos dois fatores causais seguintes: um
acontecimento particularmente estressante
desencadeia uma reação de "stress" aguda, ou
uma alteração particularmente marcante na
vida do sujeito, que comporta consequências
desagradáveis e duradouras e levam a um
A presença de sintomas emocionais ou
comportamentais em resposta a um estressor
identificável é o aspecto essencial dos
transtornos de adaptação [...]. O estressor pode
ser um único evento (p. ex., o término de um
relacionamento afetivo), ou pode haver
múltiplos estressores (p. ex., dificuldades
profissionais acentuadas e problemas
conjugais). Os estressores podem ser recorrentes
(p. ex., associados a crises profissionais cíclicas,
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
transtorno de adaptação. Embora fatores de
"stress" psicossociais ("life events")
relativamente pouco graves possam precipitar a
ocorrência de um grande número de
transtornos classificados em outra parte neste
capítulo ou influenciar-lhes o quadro clínico,
nem sempre é possível atribuir-lhes um papel
etiológico, quanto mais que é necessário levar
em consideração fatores de vulnerabilidade,
frequentemente idiossincráticos, próprios de
cada indivíduo; em outros termos, estes fatores
não são nem necessários nem suficientes para
explicar a ocorrência e a natureza do transtorno
observado. Em contraste, para os transtornos
reunidos aqui sob F43, admite-se que sua
ocorrência é sempre a consequência direta de
um "stress" agudo importante ou de um
traumatismo persistente. O acontecimento
estressante ou as circunstâncias penosas
persistentes constituem o fator causal primário
e essencial, na ausência do qual o transtorno
não teria ocorrido. Os transtornos reunidos
neste capítulo podem assim ser considerados
como respostas inadaptadas a um "stress"
grave ou persistente, na medida em que eles
interferem com mecanismos adaptativos
eficazes e entravam assim o funcionamento
social.
relacionamentos sexuais insatisfatórios) ou
contínuos (p. ex., uma doença dolorosa
persistente com incapacidade crescente, morar
em área de alta criminalidade) e podem afetar
um único indivíduo ou uma família inteira, um
grupo maior ou uma comunidade (p. ex., um
desastre natural). Alguns estressores podem
acompanhar eventos específicos do
desenvolvimento (p. ex., ir para a escola, deixar
a casa dos pais, voltar para a casa dos pais,
casar-se, tornar-se pai/mãe, fracassar em metas
profissionais, aposentadoria).
Transtornos de adaptação podem ser
diagnosticados após a morte de um ente querido
quando a intensidade, a qualidade e a
persistência das reações de luto excedem o que
se esperaria normalmente, quando normas
culturais, religiosas e apropriadas à idade são
consideradas. Um conjunto mais específico de
sintomas relacionados ao luto foi designado
como transtorno do luto complexo persistente.
Os transtornos de adaptação estão associados a
um risco maior de tentativas e consumação de
suicídio.
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
Outros Transtornos Específicos
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
CID-10 DSM-5
Transtorno caracterizado essencialmente por
ideias obsessivas ou por comportamentos
compulsivos recorrentes. As ideias obsessivas
são pensamentos, representações ou impulsos,
que se intrometem na consciência do sujeito de
modo repetitivo e estereotipado. Em regra
geral, elas perturbam muito o sujeito, o qual
tenta, frequentemente resistir-lhes, mas sem
sucesso.
O sujeito reconhece, entretanto, que se trata de
seus próprios pensamentos, mas estranhos à
sua vontade e em geral desprazeirosos. Os
comportamentos e os rituais compulsivos são
atividades estereotipadas repetitivas. O sujeito
não tira prazer direto algum da realização
destes atos os quais, por outro lado,não levam
à realização de tarefas úteis por si mesmas.
O comportamento compulsivo tem por
finalidade prevenir algum evento
objetivamente improvável, frequentemente
implicando dano ao sujeito ou causado por ele,
que ele(a) teme que possa ocorrer. O sujeito
reconhece habitualmente o absurdo e a
inutilidade de seu comportamento e faz
esforços repetidos para resistir-lhes.
O transtorno se acompanha quase sempre de
ansiedade. Esta ansiedade se agrava quando o
sujeito tenta resistir à sua atividade
compulsiva.
O sintoma característico do TOC é a presença
de obsessões e compulsões (Critério A).
Obsessões são pensamentos repetitivos e
persistentes (p. ex., de contaminação), imagens
(p. ex., de cenas violentas ou horrorizantes) ou
impulsos (p. ex., apunhalar alguém). É
importante observar que as obsessões não são
prazerosas ou experimentadas como voluntárias:
são intrusivas e indesejadas e causam acentuado
sofrimento ou ansiedade na maioria das pessoas.
O indivíduo tenta ignorá-las ou suprimi-las (p.
ex., evitando os desencadeantes ou usando a
supressão do pensamento) ou neutralizá-las com
outro pensamento ou ação (p. ex., executando
uma compulsão). Compulsões (ou rituais) são
comportamentos repetitivos (p. ex., lavar,
verificar) ou atos mentais (p. ex., contar, repetir
palavras em silêncio) que o indivíduo se sente
compelido a executar em resposta a uma
obsessão ou de acordo com regras que devem
ser aplicadas rigidamente. A maioria das
pessoas com TOC tem obsessões [pensamentos]
e compulsões [comportamentos]. As
compulsões são geralmente executadas em
resposta a uma obsessão (p. ex., pensamentos
de contaminação levando a rituais de lavagem
ou pensamentos de que alguma coisa está
incorreta levando à repetição de rituais até
parecer “direita” [just right)]. O objetivo é
reduzir o sofrimento desencadeado pelas
obsessões ou evitar um evento temido (p. ex.,
ficar doente). Contudo, essas compulsões não
estão conectadas de forma realista ao evento
temido (p. ex., organizar itens simetricamente
para evitar danos a uma pessoa amada) ou são
claramente excessivas (p. ex., tomar banho
durante horas todos os dias). As compulsões não
são executadas por prazer, embora alguns
indivíduos experimentem alívio da ansiedade ou
sofrimento.
O Critério B enfatiza que as obsessões e
compulsões devem tomar tempo (p. ex., mais de
uma hora por dia) ou causar sofrimento ou
prejuízo clinicamente significativos para
justificar um diagnóstico de TOC. Esse critério
ajuda a distinguir o transtorno dos
pensamentos intrusivos ocasionais ou
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
comportamentos repetitivos que são comuns
na população em geral (p. ex., verificar duas
vezes se a porta está trancada). A frequência e a
gravidade das obsessões e compulsões variam
entre os indivíduos com TOC (p. ex., alguns têm
sintomas leves a moderados, passando 1 a 3
horas por dia com obsessões ou executando
compulsões, enquanto outros têm pensamentos
intrusivos ou compulsões quase constantes que
podem ser incapacitantes).
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico
O conteúdo específico das obsessões e
compulsões varia entre os indivíduos.
Entretanto, certos temas, ou dimensões, são
comuns, incluindo os de limpeza (obsessões por
contaminação e compulsões por limpeza);
simetria (obsessões por simetria e compulsões
por repetição, organização e contagem);
pensamentos proibidos ou tabus (p. ex.,
obsessões agressivas, sexuais ou religiosas e
compulsões relacionadas); e danos (p. ex., medo
de causar danos a si mesmo ou a outros e
compulsões de verificação). Algumas pessoas
também têm dificuldades em descartar e
acumulam objetos como uma consequência de
obsessões e compulsões típicas, como o medo
de causar danos a outras pessoas. Esses temas
ocorrem em diferentes culturas, são
relativamente consistentes ao longo do tempo
em adultos com o transtorno e podem estar
associados a diferentes substratos neurais. É
importante observar que os indivíduos com
frequência têm sintomas em mais de uma
dimensão.
As pessoas com TOC experimentam uma gama
de respostas afetivas quando confrontadas com
situações que desencadeiam obsessões e
compulsões. Por exemplo, muitos indivíduos
experimentam ansiedade acentuada que pode
incluir ataques de pânico recorrentes. Outros
relatam fortes sentimentos de nojo. Enquanto
executam as compulsões, algumas pessoas
relatam uma angustiante sensação de
“incompletude” ou inquietação até que as coisas
pareçam ou soem “direitas” (just right).
É comum que indivíduos com o transtorno
evitem pessoas, lugares e coisas que
desencadeiam obsessões e compulsões. Por
exemplo, indivíduos com preocupações com
contaminação podem evitar situações públicas
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“[...] e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jesus Cristo)
(p. ex., restaurantes, banheiros públicos) para
reduzir a exposição aos contaminantes temidos;
pessoas com pensamentos intrusivos sobre
causar danos podem evitar as interações
sociais.
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Outros tipos de Transtornos
Transtorno Dismórfico Corporal
CID-10 DSM-5
A CID-10 não descreve isoladamente o TDC,
colocando-a no item que fala sobre Transtorno
Hipocondríaco (F45.22).
“A característica essencial deste transtorno é
uma preocupação persistente com a presença
eventual de um ou de vários transtornos
somáticos graves e progressivos. Os pacientes
manifestam queixas somáticas persistentes ou
uma preocupação duradoura com a sua
aparência física. Sensações e sinais físicos
normais ou triviais são frequentemente
interpretados pelo sujeito como anormais ou
perturbadores. A atenção do sujeito se
concentra em geral em um ou dois órgãos ou
sistemas. Existem frequentemente depressão e
ansiedade importantes, e que podem justificar
um diagnóstico suplementar.
Dismorfofobia (corporal) (não-delirante)
Hipocondria
Neurose hipocondríaca
Nosofobia
Exclui:
dismorfofobia delirante (F22.8)
idéias delirantes persistentes sobre o
funcionamento ou a forma do corpo (F22.-)
Os indivíduos com transtorno dismórfico
corporal (anteriormente conhecido como
dismorfofobia) são preocupados com um ou
mais defeitos ou falhas percebidas em sua
aparência física, que acreditam parecer feia, sem
atrativos, anormal ou deformada [...]. As falhas
percebidas não são observáveis ou parecem
apenas leves para outros indivíduos. As
preocupações variam desde parecer “sem
atrativos” ou “não adequado” até parecer
“hediondo” ou “como um monstro”. Podem
focar em uma ou mais áreas do corpo, mais
comumente a pele (p. ex., percepção de acne,
cicatrizes, rugas, palidez), os pelos (p. ex.,
cabelo “escasso” ou pelo corporal ou facial
“excessivo”) ou o nariz (p. ex., o tamanho ou
formato). No entanto, qualquer área do corpo
pode ser foco de preocupação (p. ex., olhos,
dentes, peso, estômago, mamas, pernas,
tamanho ou formato do rosto, lábios, queixo,
sobrancelhas, genitais). Algumas pessoas são
preocupadas com a percepção de assimetria de
áreas corporais. As preocupações são intrusivas,
indesejadas, tomam tempo (ocorrendo, em
média, de 3 a 8 horas por dia) e geralmente são
difíceis de resistir ou controlar.
Os comportamentos repetitivos ou atos mentais
excessivos (p. ex., comparações) são executados
em resposta à preocupação [...]. O indivíduo se
sente compelido a executar esses
comportamentos, os quais não são prazerosos e
podem aumentar a ansiedade e a disforia. Eles
geralmente tomam tempo