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5483 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 Percepção materna no processo de hospitalização em uma enfermaria pediátrica Maternal perception in the hospitalization process in a pediatric ward DOI: 10.55905/revconv.17n.1-327 Recebimento dos originais: 22/12/2023 Aceitação para publicação: 26/01/2024 Maria Luiza Maués de Sena Mestranda de Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: maria.sena@ics.ufpa.br José Maurício Pinheiro Bechir Graduado em Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: pinheirobechir@gmail.com Bruna Damasceno Marques Graduada em Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: enfbrunamarques@gmail.com Auxiliadora Pantoja Ferreira de Vilhena Especialista em Enfermagem Neonatal Instituição: Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: auxipanto@gmail.com Thamyles da Silva Dias Mestranda de Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: thamyles.dias@gmail.com Marie Gesna Damefils Mestranda de Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: gesnasolanje95@gmail.com mailto:maria.sena@ics.ufpa.br mailto:enfbrunamarques@gmail.com mailto:auxipanto@gmail.com 5484 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 Diego Pereira Rodrigues Doutor em Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: diego.pereira.rodrigues@gmail.com Andressa Tavares Parente Doutora em Ciências Ambientais Instituição: Universidade Federal do Pará Endereço: Belém – Pará, Brasil E-mail: andressatp@ufpa.br RESUMO Compreender a percepção das mães acerca da internação dos filhos em uma enfermaria pediátrica. Trata-se de um estudo descritivo-exploratório e qualitativo, que ocorreu em um hospital de referência materno-infantil do estado do Pará. Foram entrevistadas quinze mulheres com seus filhos internados no setor de pediatria, que contemplassem os critérios de pesquisa, com um roteiro de entrevista semi-estruturada, e os discursos analisados através da técnica de Bardin. A partir da análise das falas, destacou-se cinco categorias, contemplando os aspectos referentes à hospitalização e aos sentimentos vivenciados, modificação da rotina, rede de apoio, carência de um olhar individualizado para as particularidades existentes no meio hospitalar, especialmente dos cuidados em enfermagem e os desafios quanto a adversidade e rotinas da internação do paciente infantil. As falas maternas sinalizaram a necessidade de uma assistência pediátrica baseada no binômio criança e cuidador no processo de internação, compreendendo a mãe e a criança como um único conjunto, e que a acompanhante precisa ser inserida nas intervenções da equipe hospitalar como um todo, pela relação intrínseca existente entre mães e filhos. Palavras-chave: criança hospitalizada, mães, relações mãe-filho, enfermagem pediátrica, enfermagem. ABSTRACT To understand mothers' perceptions of their children's hospitalization in a pediatric ward. This is a descriptive-exploratory and qualitative study that took place in a maternal and child reference hospital in the state of Pará. Fifteen women with children admitted to the paediatric ward who met the research criteria were interviewed using a semi-structured interview script, and the discourses were analyzed using the Bardin technique. From the analysis of the speeches, five categories were highlighted, covering aspects relating to hospitalization and the feelings experienced, changes to the routine, the support network, the lack of an individualized look at the particularities existing in the hospital environment, especially nursing care, and the challenges of adversity and the routines of hospitalization of child patients. The mother's statements pointed to the need for pediatric care based on the binomial child and caregiver in the hospitalization process, understanding the mother and child as a single whole, and that the companion needs to be included in the interventions of the hospital team as a whole, due to the intrinsic relationship between mothers and children. Keywords: hospitalized child, mothers, mother-child relations, pediatric nursing, nursing. mailto:diego.pereira.rodrigues@gmail.com mailto:andressatp@ufpa.br 5485 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 1 INTRODUÇÃO A internação é um episódio complexo na existência de qualquer ser humano, sendo ainda mais desafiador para a criança, por ser impactada pelas mudanças psicossociais de ambiente como: a nova rotina, exames e procedimentos realizados (Aranha et al., 2020). Caracterizando- se em um momento crítico, com grandes repercussões para o binômio mãe/criança, com a retirada de seu círculo social e inserção em um novo espaço cercado de procedimentos técnicos, em grande maioria, invasivos, que podem causar incômodos. Visto que, a criança pode sofrer com ansiedade, perda de peso, alterações de humor, diminuição da capacidade cognitiva, perda de autoestima, desenvolvimento de fobias, inseguranças e dificuldades na adaptação (Rodrigues; Fernandes; Marques, 2020). As genitoras que acompanham seus filhos vivenciam um novo ambiente diferente do seu lar, trazendo à tona a vivência da doença que representa uma mudança do cotidiano (Torres et al., 2022). A família da criança hospitalizada vê a internação como um acontecimento repentino e incerto. Assim, quando ocorre o adoecimento, a família fica vulnerável frente os possíveis agravantes da doença e da internação. Com a explicação dos profissionais em termos técnicos, torna-se difícil para as mães compreenderem e aceitarem emocionalmente o ocorrido (Bazzan et al., 2020). A realidade materna de acompanhar a hospitalização de um filho implica em suportar as inseguranças da enfermidade e consequentemente seu tratamento que pode vir a ser prolongado, provocando um desgaste físico e emocional (Innecco; Figueiredo, 2019). Portanto, a assistência de enfermagem e a equipe de saúde como um todo, devem proporcionar uma escuta ativa, que respeite as crenças e singularidades, levando em conta as opiniões da família e integrando o acompanhamento familiar no cuidado assistencial, contribuindo na melhora do processo de hospitalização até a alta hospitalar (Claus et al., 2021). O olhar e a dedicação no cuidado devem ser focados para o binômio mãe/filho, onde o olhar dos profissionais de enfermagem e equipe multiprofissional de saúde deve ir além do processo de saúde e doença, fundamentando a assistência de forma integral e humanizada aos familiares, diminuindo angústias e preocupações com seus filhos pela internação (Correio et al., 2022; Ferreira et al., 2022). Deste modo, o presente estudo tem como objetivo compreender a percepção das mães acerca da internação dos filhos em uma enfermaria pediátrica. 5486 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 2 METODOLOGIA Este estudo se refere a uma pesquisa do tipo descritiva-exploratória, com abordagem qualitativa, guiada pelo Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) (Souza et al., 2021). Realizou-se uma entrevista semiestruturada, conduzida por dois graduandos de enfermagem com quinze mulheres selecionadas por conveniência, acompanhantes dos filhos hospitalizados no setor de pediatria de um hospital de referência em saúde materno infantil do estado do Pará. Os critérios de inclusão foram mães que acompanhavamseus filhos no período mínimo de quinze dias na enfermaria pediátrica. O critério de exclusão foram outros familiares que acompanhassem a criança internada. Não houve recusa materna. A coleta de dados se deu após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, e conforme a saturação das entrevistas, sendo utilizado como ferramenta um roteiro de entrevista semiestruturado com base em perguntas abertas pré-definidas, onde todas as entrevistas foram áudio gravadas com duração média de 15 minutos. O momento de realização da entrevista de forma presencial foi definido de acordo com disponibilidade das entrevistadas, nos turnos da manhã e tarde nas enfermarias pediátricas. Para a análise dos discursos, adotou-se a análise de conteúdo, seguindo critérios de Bardin (Bardin, 2016), onde na primeira etapa da pré-análise, por meio das informações coletadas, ocorreu a caracterização da amostra e, posteriormente, as falas foram individualmente analisadas e denominados com os códigos alfanuméricos (M1, M2, M3…), a fim de manter o sigilo de identidade. Após exploração do material com organização e leitura flutuante do material, foi possível sistematizar as ideias iniciais do estudo, entrando na terceira etapa da análise, definindo as unidades de contexto, de registro e categoria central das entrevistas, com uma análise crítica/reflexiva dos dados obtidos. O presente estudo seguiu as recomendações da Resolução no. 510/2016 (Brasil, 2016) e Resolução no 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde com a garantia ao participante do anonimato, sendo aplicado previamente às entrevistas o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e de Autorização de Gravação de Voz. De acordo com os aspectos éticos da resolução, se faz importante que os participantes estejam cientes quanto aos procedimentos adotados durante toda a pesquisa, ciente quanto a todos os riscos e benefícios (Brasil, 2012). Sendo assim, esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos sob número do CAAE: 95798318.0.0000.5171. 5487 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 3 RESULTADOS Os dados foram estruturados em cinco categorias para melhor compreensão dos resultados alcançados e atendimento do objetivo: Figura 1: Categorias elencadas conforme análise de Bardin. Fonte: Elaboração própria, 2023. 3.1 SENTIMENTOS VIVENCIADOS DURANTE A INTERNAÇÃO Para as mães que participam da internação de um filho, é de praxe ter que vivenciar o filho realizando procedimentos hospitalares, recebendo diagnósticos, passando por um tratamento mais complexo ou uma intervenção cirúrgica, qualquer ocorrência relacionada à condição de saúde de seu filho, é muito dolorosa para uma mãe, pois brotam naturalmente diversas emoções, como medo e ansiedade, devido circunstâncias como a insegurança do futuro, principalmente pelos riscos de cirurgia, prognóstico da doença e possível óbito, assim observado nas seguintes falas: “Em alguns momentos tive medo de perder ele, me deu um sentimento de desespero [...].” (M6) “Tristeza, bastante. No momento das cirurgias tive sensação de perda (Choro). É difícil, a gente planeja e tudo pra chegar aqui e ele ter que ficar internado até hoje é complicado.” (M3) Também há sentimento de tristeza e angústia derivados de situações onde as mães presenciaram o sofrimento dos filhos, mediante o quadro clínico que se encontra. Evidenciando Resultados Mudanças no cotidiano materno no ambiente hospitalar Sentimentos vivenciados durante a internação Redes de apoio aos acompanhantes Adversidades vivenciadas durante hospitalização Práticas assistenciais à acompanhante 5488 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 sentimento de culpa, devido atrelarem a saúde da criança diretamente à imagem da mãe, como exclusivamente responsável, assim a mulher se frustra pelos julgamentos se culpabilizando pela patologia. São manifestações presentes nas seguintes falas: “[...] É um sentimento de medo, tristeza, solidão, pelo filho da gente tá internado. (choro) Nenhuma mãe quer isso para seu filho [...].” (M10) “[...] ela teve um quadro de infecção muito grande, então foi muito difícil, foi angustiante, foi triste por que eu vi o quanto ela sofreu [...].” (M11) “[...] é uma tristeza, é um sentimento de culpa ao mesmo tempo, tipo como se eu pudesse fazer mais [...].” (M7) A solidão também é recorrente nas falas das mulheres, uma vez que ocorre o afastamento do convívio familiar e a ausência do seu lar, bem explícito nas falas: “[...]A gente fica longe da família né, apesar deles virem visitar, é complicado, às vezes eu fico deprimida.” (M3) “[...]é um pouco confuso ainda pra mim. Mas é impossível não ter sentimento de medo, perda, de se sentir só, longe da família, com desconhecidos, cidade nova e tudo.” (M4) Foi possível observar que mesmo com as adversidades relatadas pelas mães durante a internação, ainda há a presença de otimismo e confiança neste momento, reconhecido nos discursos a seguir: “A gente tenta manter a esperança de que tudo vai dar certo, esperança eu acho que é a palavra que rege tudo aqui, a fé e a esperança.” (M13) “É um sentimento de esperança né, de que ele possa vir a melhorar [...] Eu peço muito ajuda pra Deus, pra ele me dar força pra lutar pra ele ficar bom, a gente procura não se desesperar [...].” (M14) Os sentimentos positivos estão muito relacionados aos atos de fé cristã, sendo a figura de Deus um grande refúgio para a busca de alívio do sofrimento e para impulso para reagir mesmo às dificuldades. 5489 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 3.2 MUDANÇAS NO COTIDIANO MATERNO NO AMBIENTE HOSPITALAR Nesta categoria, evidenciou-se que as mães são as principais cuidadoras e pilares de apoio para as crianças hospitalizadas e que esse papel desenvolvido implica em algumas limitações em outros quesitos do cotidiano, como exemplificado abaixo: “Ah eu não tenho mais isso [vida social], meu limite é até bem alí no supermercado quando ela tá precisando de alguma coisa e voltar, nem pra casa mais eu fui desde que ela adoeceu [...]” (M1) “[...] afetou mais em relação a nós 3 juntos, porque ele vem e quer ficar o tempo todo junto e aqui eles não permitem, é só até certo horário [...], meu marido vem de 3 em 3 meses, fica só uma semana, e ainda não pode ficar aqui com a gente.” (M3) “[...]só tá a casa lá, minhas coisas estão aqui já em Belém. Eu vivo junto com o pai dele, tem grandes dificuldade devido à distância, ele trabalha lá, não tem como ele vir” (M4) São discursos onde se percebe o afastamento da família, pois como trata-se de um hospital de referência, muita criança internada advém do interior do Estado. Culminado em uma ausência maior, pois essa criança e sua mãe dificilmente recebem visita, pois tem uma barreira física e muitas vezes financeira como a despesa e tempo de viagem. Também, a aproximação da família somente é permitida conforme horário de visitação, visto na seguinte fala: “[...] eles [família] não podem vir com frequência [...] por causa do horário da visita porque não dá, que é de 16 às 17h, aí esse horário geralmente tá todo mundo trabalhando, aí é difícil.” (M1) Outra condição que preocupa as mães são as que possuem mais de um filho, pois o cuidado das outras crianças é delegado para outros familiares, motivando o surgimento de sentimentos de angústia e saudade. Sendo essa situação prejudicial ao bem-estar da mãe que frisado nas seguintes falas: “Elas [filhas] sempre me ligam, e falam: mãe quando é que a senhora vem? Quando a senhora vai sair? Meu irmão tá bem? Porque a senhora tá demorando? Então tudo isso ela pergunta às vezes paramim, a senhora não vem mais para cá para casa?” (M12) “[...]o meu outro filho fica com a minha mãe, ele ainda é um bebê, vai fazer dois anos, [...] a segunda vez que ela internou ele tinha um mês e meio só, aí tive que vir para cá para ficar com ela, aí ficava indo e vindo, aí ele já criou essa rotina, já não tem aquela dependência, fica bem com qualquer pessoa, [...] mas acho que para mim é bem mais doído está longe dele, com certeza, por causa dessa ida e vinda dela no hospital ele quase não amamentou direito, a gente não tem aquele vínculo assim [...]” (M13) Estas falas se caracterizaram como as mais difíceis de serem abordadas, porque para as mães se torna difícil deixar o outro filho em casa, por um período indeterminado, sem poderem 5490 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 revezar os cuidados do filho internado com outro familiar. Outras problemáticas significativas na vida das mães entrevistadas são relacionadas ao trabalho e/ou educação, que são deixados de lado pela hospitalização da criança, observado nos discursos: “Eu tô desempregada, [...] estava de licença maternidade, [...] aí tô no processo de negociação com eles pra ver como é que vai ficar a minha rescisão. [...] terminou minha licença então terminou a obrigação deles comigo, eu também não pude dar entrada no auxílio doença porque não sou eu que to doente, é ela, aí não existe benefício pra acompanhante [...]” (M1) “[...] Quando ela tava com 6 meses eu parei de estudar porque ela começou a dar febre, aí não pude ir pra escola e passei o resto do ano sem ir pra escola. Esse ano que eu tava voltando de novo ela foi e deu essa obstrução de válvula dela e não deu mais pra eu ir de novo.” (M2) “Eu ficava na fruteira (trabalho dela), [...] agora meu marido que fica na fruteira e de tarde ele vem nos visitar, [...] cortou o trabalho pela metade e junto a renda também.” (M10) As alterações também interrompem os avanços nos estudos, necessários para alcançar um emprego melhor e conquistar uma estabilidade financeira, e esse tempo afastadas pode vir a abalar a vida profissional das mães. 3.3 REDES DE APOIO AOS ACOMPANHANTES A rede de apoio materna significa ajudá-la a sentir-se confortada e acolhida no ambiente hospitalar. Proporcionando um sentimento positivo que ajude no momento difícil pelo qual está passando, como confirmada nas falas: “A minha família me ajuda muito, tanto eu quanto ela, minha mãe e minhas irmãs me ajudam bastante. [...] o meu companheiro trabalha, faz faculdade, mas a noite ele tá sempre aqui para trazer alguma coisa, aí eu desço porque ele já chega num horário que não pode mais entrar. Eu tenho uma irmã que sempre troca comigo no fim de semana [...]” (M13) “Tive bastante da minha família. Amigos não, da família mesmo, da mamãe e do papai, ficaram do meu lado, vinham no acompanhamento do pré natal, e eles vem sempre visitar também, sempre quando podem, às vezes a mamãe fica aqui pra mim descansar.” (M3) Outro ponto trazido à tona seria a rede de apoio vinda de outros familiares durante o período de hospitalização da criança, mostrando como é importante uma fonte de apoio, evidenciadas nas falas: “Tenho ajuda da família, meu marido, o tio dele (irmão do marido), vem pra ficar revezando, ficar com ele.” (M10) 5491 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 “Tive muita ajuda de toda a minha família, a família do meu esposo, sempre nos apoiou, sempre esteve do nosso lado independente do problema.” (M11) “Minha mãe, a gente se ajuda em tudo, dando palavras de conforto, financeiro, no que eu precisar.” (M15) A maternidade demanda seus cuidados, sendo muito importante que os profissionais compreendam as demandas da mãe e sejam capazes de promover esclarecimentos na assistência prestada, empoderando-a para realizar a sua função de pai e mãe ao mesmo tempo. Com isso, obtiveram-se falas que retratam a ausência de apoio dos pais: “[...] Quase não mantenho contato com o pai dela, ele viu ela a primeira vez mês retrasado, ela já tava com um ano quando ele viu ela, mas nem ajudar assim, é muito raro assim ele mandar as coisas, quem ajuda era papai, mas agora a gente tá correndo atrás do benefício dela.” (M2) “[...] A relação com o pai dela (da criança) é bem complicada, nunca me ajudou com nada. Levei a minha gravidez sozinha [...] Ele dizia que as filhas não eram dele, que eu queria dar um golpe nele. Aí eu deixei isso pra lá, porque o que mais me importava eram as minhas filhas.” (M7) “Por parte do pai dele não. Tem vinte e um dias que a gente tá internado aqui e o pai dele nunca nem perguntou se ele ta bem [...]. Fico chateada com a situação do pai dele, porque ele ignora a existência do filho.” (M8) Identificou-se falas voltadas para os aspectos religiosos, com discursos enraizados em sua cultura, onde Deus tem poder para intervir e solucionar a situação em que se encontram, pois sentem-se em paz, com fé e esperança. “Deus até agora tá me dando o entendimento e a sabedoria, pra mim cuidar dele [...]” (M6) “As vezes eu peço muita graça pra Deus, pedindo paciência, porque às vezes eu tô cansada e ela não quer acalmar [...]” (M7) “[...] eu peço muito ajuda pra Deus, pra ele me dar força pra lutar pra ele ficar bom, a gente procura não se desesperar.” (M14) 3.4 ADVERSIDADES VIVENCIADAS DURANTE HOSPITALIZAÇÃO Algumas falas foram voltadas à rotina hospitalar, como as problemáticas vivenciadas no cotidiano da enfermaria: “Acho que o maior deles é conseguir ficar aqui, porque é horrível, a gente fica muito tenso, muito. E aqui é ruim porque a gente não tem nada, nem sequer televisão pra gente se distrair, a gente fica totalmente alienada se não tiver um celular pra olhar [...] já pensou tu passar 24h aqui dentro só olhando teu filho, reparando teu filho, não tem direito nem de se distrair com alguma coisa vendo notícia, televisão.” (M1) “É o de tá aqui, permanecer, ficar aqui 24h por dia é horrível, [...] é muito difícil, mexe muito com a gente, não tem uma distração [...]” (M3) 5492 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 “[...] é muito difícil a gente tá no hospital, a gente não dorme direito, não se alimenta bem, e também manter ele bem, porque preciso conversar com ele, eu tenho que tá bem pra manter ele bem, converso bastante com ele, procuro explicar que se faz necessário, quando ele chama às vezes o sono tá bem pesado, mas tem que levantar, tem que ir lá, então é um desafio grande que eu enfrento.” (M14) Outras falas retratam os sentimentos de ausência dos entes queridos e a dificuldade de enfrentar este momento com vastas transformações, como exposto nas falas das seguintes mães: “Eu acho que é lidar com os meus sentimentos. Tem dia que eu tô bem e tem dia que eu não tô. Tipo assim de eu querer tirar ela e de não conseguir. Porque é muito ruim tu ver a tua filha assim. Tu perder uma filha e ver a outra assim [...]Então o meu maior desafio é esse, saber lidar com os meus sentimentos.” (M7) “Ficar longe do meu outro filho, porque as outras coisas a gente corre atrás depois.” (M13) “Acho que eu tenho que vencer essa angústia que tem dentro de mim, essa tristeza, porque eu deito e fico pensando na minha vida toda, mas depois passa. Não pela gente, mas por causa do meu filho que precisa de mim.” (M15) 3.5 PRÁTICAS ASSISTENCIAIS À ACOMPANHANTE Durante a hospitalização, as mulheres podem ser afetadas por vários estímulos estressantes devido ao tratamento de seus filhos, suscetíveis às fragilidades e vulnerabilidades da internação, como é revelado pelas falas das mães: “Durante eu estar aqui a equipe não se importou em saber como eu estou. Nem o psicólogo.”(M7) “Não, para mim nunca teve nada específico, agora que eu tô grávida um e outro pergunta como o bebê está, se eu estou tomando vitamina, essas coisas, mas nada muito específico não, uma coisa muito avulsa, é tudo mais para ela.” (M13) “Até agora não, só com o meu filho mesmo [...] Eu gostaria de ser assistida, vindo perguntar como eu estou, ajudar a aliviar o momento.” (M15) Os profissionais de enfermagem são os mais presentes durante o processo de internação, sendo os que mais se comunicam com as mães devido a convivência, fato este averiguado nas falas retratadas abaixo: “Só o psicólogo mesmo. O resto não, até porque eles vem, examinam a bebe, fala como ela está, mas em termo de assim, nesse sentido sobre mim, só os psicólogos mesmo.” (M1) “Tive bastante ajuda do psicólogo, elas sempre estão perto, conversando, pra gente desabafar. Na maioria das vezes é sobre o bebê, no caso sempre é sobre ele. É mais a psicóloga que vem mesmo, que pergunta se a gente tá bem, se o marido tá vindo visitar, se a família tá vindo visitar, se tá tendo apoio.” (M3) “Vem, quase todo dia vem a psicóloga e terapeuta, a assistente social. Elas vêm pra saber como é que tá, como eu tô, como tá ele.” (M10) 5493 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 Os cuidados de enfermagem devem ser integrais, visando proporcionar um cenário positivo durante a hospitalização, para impulsionar o bem-estar do binômio mãe e filho. Sendo constatado na fala o protagonismo do enfermeiro na assistência à criança, com a inclusão da mãe nos cuidados realizados: “Eles sempre dão instrução pra gente, eles sempre estão presentes, preocupados com a saúde das crianças [...] Eu também me sinto assistida pela equipe. Eles vêm, perguntam como eu estou. Se está bem, tudo tranquilo, dando certo.” (M8) Mediante o exposto, enfatiza-se a importância das mães em também serem assistidas pela equipe de modo geral, a fim de estabelecer um cuidado holístico à criança, de tal forma que o binômio mãe-filho seja foco central do cuidado. 4 DISCUSSÃO A hospitalização provoca nas crianças um distanciamento das suas atividades do cotidiano como frequentar a escola e brincar com os amigos. Portanto, a rotina do hospital é um ambiente totalmente novo, com regras e condutas dos profissionais de saúde, obrigatoriedade de exames, uma dieta diferenciada, horários de alimentação e repouso regrados (Souza et al., 2021). Assim, a inserção da criança em um ambiente distinto da sua realidade, pode provocar mudanças no comportamento, como sentimentos de medo, ansiedade e insegurança (Ferreira Júnior et al., 2023). Visto isso, tanto a família, quanto a equipe de saúde, têm a responsabilidade de proporcionar apoio à criança objetivando minimizar as experiências dolorosas durante o período de hospitalização (Barros Netto et al., 2022). É compreensível o aparecimento de emoções negativas como tristeza, medo, solidão e outros, devido às circunstâncias vivenciadas. Porém, também pode haver sentimentos positivos frente à melhora do paciente internado, em conjunto com a fé das mães ou acompanhantes, visando permanecer otimista, a fim de passar tranquilidade para a criança e demais familiares, objetivando a evolução clínica (Bazzan et al., 2019). Uma vez que, a hospitalização desencadeia situações traumáticas e estressantes, estimuladas pelo afastamento do cotidiano e a exposição a um ambiente intimidador (Gomes et al., 2023). De modo geral, as mães se fazem mais presentes na internação dos filhos, pois o processo de adoecimento desencadeia nas crianças diversas queixas e carências, onde a mãe representa um “porto seguro” frente a várias dinâmicas da hospitalização. Porém, ela pode se sentir 5494 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 impotente pelo cenário das incertezas, além de se achar responsável pelo quadro clínico do filho. Paralelo à essa situação, ainda há uma instabilidade de suas atividades habituais mesmo que de forma passageira (Lima et al., 2020). Conforme as particularidades das internações, a religiosidade se torna uma forma de alcançar um melhor estado de espírito, seja qual for a religião ou a cultura daquele que a exerce. Pois para as mães, se firmarem em um ser supremo é um modo de se sentir mais empoderadas e demonstrar resistência frente às vivências das situações que enfrentam. Acreditar em algo maior traz melhores expectativas e torna-se uma forma de melhor aceitar passar por uma provação, acreditando que a fé é capaz de modificar uma realidade (Gomes et al., 2019). A assistência de enfermagem no contexto de pediatria deve desenvolver um vínculo com a família da criança que transcenda o tratamento clínico. Ou seja, a equipe de enfermagem não deve se firmar somente em prestar procedimentos técnicos, mas sim amparar a família de modo geral em seus questionamentos, apoiando e incentivando o desenvolvimento do autocuidado que considere os aspectos físicos, socioeconômicos, culturais e espirituais do enfermo (Silva et al., 2023). As mudanças ocorridas na vida do paciente ocasionadas por alguma patologia, acentuam- se mais quando se refere às crianças, pois o afastamento do seio familiar requer uma adequação a um novo cenário, que traz para as mães uma tarefa árdua de adaptação, acompanhada por anseios em não saber lidar com a nova fase na vida (Gouveia; Palladino, 2023 ). Por conseguinte, as mães são responsáveis não só pela gerência do processo familiar no hospital, mas também de organizar esse novo cotidiano. Logo, a equipe multiprofissional nem sempre está atenta às demandas e sobrecargas da acompanhante, e acabam de forma errônea tratando as mães como meramente figurantes no processo do cuidado, focando a assistência somente na criança (Lima et al., 2023; Ravanhani et al., 2022). 5495 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 5 CONCLUSÃO A pesquisa evidenciou que a hospitalização na pediatria carecia de uma atenção individualizada para as particularidades no meio hospitalar, como a ausência de amparo integral, com vários relatos acerca do cuidado multiprofissional e ênfase nos cuidados em enfermagem, onde as genitoras relataram serem excluídas do cuidado, e que as ações em saúde eram voltadas apenas aos filhos, isto é, o cuidado era fragmentado. Nessa perspectiva, no intuito de ofertar um cuidado integral, é necessário compreender como a internação afeta o binômio mãe-filho, e que a cuidadora necessita ser incluída nos procedimentos hospitalares pela enfermagem, sendo a categoria profissional com mais proximidade com os pacientes. Desse modo, o profissional deve compreender a importância do cuidado a esse binômio, identificando e articulando ações para promover o bem-estar na estadia. 5496 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.1, p. 5483-5497, 2024 jan. 2021 REFERÊNCIAS ARANHA, B. F. et al.. Using the instructional therapeutic play during admission of children to hospital: the perception of the family. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 41, p. e20180413, 2020. BARDIN, L. Análise de conteúdo [Internet]. São Paulo: Edições 70; 2016. BARROS NETTO, I. S. et al..A ludoterapia no tratamento oncológico infantil. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 15, n. 7, p. e10605, 6 jul. 2022. BAZZAN, J. S. et al.. 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