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CONSTELAÇÕES FAMILIARES AULA 3 Profª Talita Camargo de Lima Seguin Conversa inicial Como visto anteriormente, uma das descobertas de Bert Hellinger que caracterizam as constelações familiares e que foram identificadas durante os estudos de caráter fenomenológico é a presença das três leis sistêmicas, também conhecidas como as ordens do amor. São leis que atuam dentro de uma concepção denominada consciência de grupo sobre as dinâmicas dos relacionamentos dentro dos sistemas, a fim de manter o equilíbrio e a sobrevivência daquele clã familiar. Sobre elas atuam também o vínculo e o amor. O vínculo diz respeito ao grau de integração dos relacionamentos e o amor é a ligação que promove o movimento das relações. Nesta aula, serão apresentadas com maiores descrições as três leis sistêmicas que são a base de reflexão para a Constelação Familiar e servem como bases diagnósticas de desequilíbrios relacionais. O objetivo principal é descrever com mais detalhes sobre as três leis sistêmicas ou as ordens do amor para que possa servir como uma análise e compreensão das dinâmicas dos nossos relacionamentos familiares e interpessoais. Conheceremos, também, as dinâmicas do amor envolvidas nessas leis ou ordens, denominados “amor que cura” e “amor que adoece”, sendo possível observarmos em nossos contextos diários a presença desse “amor” e para qual deles estamos dando mais ênfase em nossas vidas. Não tomemos nada como regra máxima para análise, lembremo-nos sempre de que as constelações familiares promovem reflexões para que possamos nos questionar sobre nossas dinâmicas de relacionamentos. Para que seja possível ampliar a nossa visão, é sempre prudente o auxílio de um acompanhamento individual. TEMA 1 – CONCEITO FUNDAMENTAL DAS LEIS OU ORDENS DO AMOR, REFERENCIADAS POR BERT HELLINGER Conforme pudemos observar em momentos anteriores, foi por meio da observação da existência de uma ordem dentro dos sistemas familiares que Bert Hellinger pôde conceber as constelações familiares. O trabalho conduzido por Bert Hellinger e suas descobertas estão pautadas no desenvolvimento empírico de estudo, ou seja, baseado em suas experiências do trabalho e na vida. Portanto, todos os embasamentos que hoje conhecemos referentes às constelações familiares foram observados e registrados de várias experiências em comum. Não é um estudo baseado em criação ou comprovação por meio de hipóteses. Por meio do reconhecimento de uma ordem atuante nos sistemas familiares, Hellinger observou a presença de leis, ou conforme ele mesmo denominou, ordens do amor, sendo elas: a. pertencimento; b. hierarquia; e c. equilíbrio de troca. De acordo com Hellinger e Heilmann, “essas leis nada têm a ver com ética ou moral, tampouco se orientam pela compreensão” (2020, p. 137), ou seja, estão muito além daquilo que pudemos racionalizar até o momento, pois ocupam uma esfera denominada consciência. Houve um processo gradual para o reconhecimento de cada uma delas, o que significa que primeiramente ele percebeu que existia um senso de pertencimento atuante; aos poucos, as outras leis puderam ser notadas. A premissa básica da dinâmica de atuação dessas leis em nossas relações é que, quando são negligenciadas, seja por qualquer motivo ou condição, o sistema familiar não consegue fluir de maneira saudável e produtiva. Assim, apresentará alguns sintomas de desequilíbrio para, em certo aspecto, chamarem a atenção para a resolução de um conflito. Não importa se conhecemos ou não, respeitamos ou não, acreditamos ou não nessas leis, parecem que elas seguem um ritmo muito pessoal que está acima de qualquer tentativa de manipulação ou controle. 1.1 Escalas de prioridade do sistema Observamos que os sistemas respeitam uma ordem de caráter universal e estão relacionados com as características estruturais baseadas no tempo de chegada, ou seja, quem chegou primeiro terá precedência sobre quem chegou depois. Porém, em relação ao sistema familiar de origem e ao sistema familiar atual, essa ordem é alterada, tendo prioridade o sistema familiar atual em relação ao sistema familiar de origem. Os membros mais antigos presentes no sistema devem receber o respeito dos mais novos; com irmãos, não há um nível de hierarquia como entre pais e filhos, mas de respeito pela ordem de chegada, sendo 1.º irmão, 2.º irmão, e assim por diante, sendo contados vivos e mortos, natimortos ou abortos (espontâneo ou provocado), não importa. A cada nova formação de sistema familiar atual, por exemplo, na situação de um divórcio ou um novo casamento, os vínculos são enfraquecidos, e o primeiro vínculo acaba tendo precedência em relação ao segundo casamento. A lógica aqui é pensar que um novo casamento só foi possível em razão do término de um casamento passado, e a dor de finalizar um primeiro relacionamento sempre será mais complexa de ser enfrentada. Porém, a nova formação familiar tem preferência em relação à primeira. O equilíbrio no sistema familiar é estabelecido quando cada membro ocupa o seu lugar. Ninguém é excluído por julgamentos racionais, como bom e mau, vítima e agressor, entre outros. Quando os mais novos do sistema respeitam e concordam com a história vivenciada por cada um dos membros do sistema familiar, entendendo que cada um tem a sua própria biografia e que o sentido da vida é continuar e preservar a nossa evolução e desenvolvimento, e que somente após uma nova perspectiva será possível construir novas histórias com respeito às relações, eles podem ter sucesso e paz em suas vidas. TEMA 2 – LEI DO PERTENCIMENTO Podemos definir a lei do pertencimento como a necessidade que um sistema tem de contar com todos os integrantes daquele grupo. Este não é restrito somente aos integrantes, mas também aos seus fatos, traumas e acontecimentos vivenciados ao longo da história. Mesmo as pessoas que já falecerem devem fazer parte desse sistema e precisam ser considerados, pois todas as pessoas do sistema familiar exercem influências, o que não é desfeito ou se acaba com o falecimento do membro. A lei do pertencimento é inclusiva, ela não faz julgamentos nem tem a preocupação em classificar se uma pessoa, fato ou evento são bons ou maus, ou as consequências que trouxeram para o sistema, ela simplesmente é inclusiva, visa apenas à continuidade daquele sistema familiar e, por isso, está em constante movimento para restaurar o equilíbrio. Qualquer tentativa de exclusão é sentida pelo sistema. “Assim, sempre que se nega a algum membro o direito de pertencer, existe no grupo familiar uma pressão irresistível para restaurar a integridade perdida e para compensar a injustiça cometida, no sentido de que o membro excluído seja representado e imitado” (Hellinger, 2006, p. 102). A necessidade do pertencimento a um grupo ou sistema é tão forte que muitas vezes a pessoa coloca a sua vida em risco ou sofre consequências muito difíceis para se manter vinculado. O que influencia dentro das leis sistêmicas são sempre as dinâmicas de relacionamento que acabamos por conduzir durante a nossa vida, portanto, sempre quando falamos de constelações familiares devemos nos ater a essas dinâmicas e não somente ao que conseguimos observar de forma nua e crua. Uma dinâmica comum, mas que traz impacto dentro da lei do pertencimento é excluir um pai ou mãe da vida de um filho em razão dos julgamentos econômicos, políticos ou sociais. Quando uma pessoa apresenta um destino que pode ser considerado um pouco mais difícil pelas orientações sociais, por exemplo, problemas com vícios diversos, uma deficiência, nível social diferente da maioria da família, ou no caso de adoção, quando os pais biológicos não são respeitados pela família adotante, essas pessoas acabam sendo excluídas e, por vezes, nem sendo consideradas como parte da família. No entanto, essa dinâmica de exclusão acaba por afetar todo o sistema familiar. Quando vamos observando esses fatos e olhando essas pessoas com mais respeito e inclusão dentro de nossos corações, trabalhando os nossos próprios julgamentos em relação a esses fatos e pessoas, poderemosdesenvolver novas dinâmicas de relacionamento por meio de uma nova postura interna. Aqui, a frase “quem não é visto, não é lembrado” não funciona. Frequentemente, queremos esquecer ou achamos que por não falar em determinado assunto ou tema ou mesmo os chamados segredos familiares estamos os “poupando” ou as pessoas que dele fazem parte. Pois esses fatos e acontecimentos de alguma forma serão trazidos à tona para encontrar uma possível solução, seja na geração atual ou na futura. 2.1 Exceção: o sistema exige uma exclusão Encontramos uma exceção no direito de pertencimento ao sistema familiar quando há um assassinato: o membro da família que cometeu o assassinato deve perder o seu direito de pertencer. Outros fatos que deverão contar com a exclusão de uma pessoa do grupo familiar são as pessoas que fazem ameaça de morte ou que tentaram assassinar. Essa exclusão deve ser feita como um meio de promover o equilíbrio para o sistema familiar, sobre a permanência e permissão de assassinos em um sistema familiar. Hellinger (2006, p. 102) afirma que “se ele permanece no grupo familiar, geralmente uma criança, vai embora em seu lugar. Assim, a brandura com um assassino implicará o rigor com uma criança inocente”. TEMA 3 – LEI DA HIERARQUIA Aqueles que vieram antes tem precedência perante o sistema familiar e, por esse motivo, necessitam ser reconhecidos e respeitados. Se analisarmos todas as facilidades que o mundo moderno nos permite, vamos perceber que houve um processo gradual nesse desenvolvimento e devemos todos esses avanços às gerações passadas. Não precisamos ir muito longe, apenas voltar a 3 ou 4 gerações passadas: não havia sistema de esgoto, os banheiros eram fora da casa de dormir, com condições precárias de higiene. Hoje, acordamos e nos dirigimos a um banheiro dentro da nossa casa para escovar os dentes e realizar nossas necessidades de higiene; logo depois, nos dirigimos para a cozinha para iniciar nossa alimentação. Essas evoluções possibilitaram que os destinos de muitas pessoas mudassem, de certa forma, para melhor: mais saúde, segurança, qualidade e expectativa de vida, entre outros. Os antepassados fizeram o que foi possível, com os recursos que conseguiram para que todas essas transformações pudessem acontecer ao longo do tempo, de modo que agora possamos ter o conforto que temos. As leis sistêmicas da hierarquia apresentam uma dinâmica do maior para o menor, em que o maior no sistema dá e o menor do sistema recebe, por assim dizer, e quem é mais impactado por não reconhecer essa ordem são os que ocupam um lugar menor perante o sistema. Por exemplo, um avô tem precedência perante um neto, um pai tem precedência perante o filho, mas somente o neto e o filho sofrerão impactos negativos caso queiram assumir uma responsabilidade ou um destino de um avô ou de um pai. Em uma organização, quem está há mais tempo deve ser visto com precedência em relação aos que chegaram depois e, assim, os que chegaram depois e toda a organização pode alcançar o sucesso. 3.1 Exceção: a relação pais e filhos segue a ordem da hierarquia Quando há ordem, não há espaço para o equilíbrio de troca. Por isso, muitos filhos acabam encontrando barreiras e muita dificuldade nessa relação, pois querem trocar ou ocupar o mesmo nível hierárquico dos pais, ou ainda, encontram-se em uma posição de superioridade em relação aos seus pais, ousando decidir e “resolver” as questões deles. Segundo Hellinger (2006, p. 97), “quando um filho infringe a hierarquia do dar e do tomar, ele se pune com severidade, frequentemente com o fracasso e o declínio, sem tomar consciência da culpa e da conexão”. Esses podem ser um dos sintomas que a vida pode nos apresentar para nos alertamos de que estamos negligenciando a lei da hierarquia perante nossos pais. 3.2 Exceção: quem vem depois tem preferência em relação a quem veio antes A família atual tem prioridade em relação à família de origem, sendo assim, quando há um casamento, ambos os parceiros precisam considerar a família atual que estão formando como prioridade. Caso haja novas formações familiares após o divórcio ou separação de um casal que gerou pelo menos um filho, a nova família formada deverá ocupar o lugar de prioridade e os filhos devem ocupar o lugar da hierarquia de nascimento. O filho do primeiro relacionamento tem preferência e ordem em relação ao segundo, terceiro, quarto filho, e assim por diante. Nesse caso, também atua o vínculo, após a formação de um relacionamento com a presença de pelo menos um filho. A vinculação gerada é muito profunda, afinal, um novo sistema familiar é formado. Para que todos possam ocupar seus devidos lugares e seja possível que os sistemas familiares atuem em harmonia, seus integrantes devem ser respeitados e incluídos de igual forma. TEMA 4 – LEI DO EQUILÍBRIO DE TROCA Existe uma consciência maior que regula os sistemas que se baseia na lei do equilíbrio de troca. Assim, quando somos beneficiados por alguém, somos pressionados por essa consciência, a fim de equilibrar esse benefício com a pessoa e manter o nosso relacionamento em ascensão. É um movimento tão sutil que, na maioria das vezes, não percebemos, mas quando vemos estamos lá fazendo algo de bom para essa pessoa. De toda forma, quando somos prejudicados por alguém, também somos pressionados por essa consciência para que esse equilíbrio seja mantido, mas aqui muitas pessoas experimentam de maneira diferente, seja por questão social, política ou religiosa, e não conseguem estabelecer a troca necessária. Nesse caso, as crenças de que temos que ser o tempo todo “bonzinhos” e perdoar o mal recebido de outrem nos prejudica, impactando não somente na relação em questão, como em nosso sistema familiar. Se temos interesse em manter esse relacionamento que nos gerou algum dano, precisamos de certa forma equilibrar essa troca má, mas aqui precisamos devolver de forma um pouco mais harmoniosa e até honrosa àqueles que nos prejudicaram. Quando temos essa postura, de amor e de equilíbrio, podemos reestabelecer o equilíbrio para essa relação e continuar a troca. Quem ocupa o lugar de bonzinho ocupará sempre um lugar de arrogância. A lei do equilíbrio, no entanto, está atuante em grupos pequenos, principalmente, na relação do sistema familiar e algumas relações interpessoais, por exemplo, as de amizades. Para grandes grupos ou nação, o equilíbrio dessa relação de troca não pode ser aplicado, pois não há como defender as causas de outras pessoas. Quando observamos essa necessidade de equiparação em grandes grupos, esse efeito torna-se nocivo. E por que não devemos tomar partido de outros acontecimentos ou querer equiparar situações de outra ou outras pessoas? Hellinger (2007, p. 47) nos lembra de que “cada um de nós está emaranhado de uma determinada forma”, cada um é o que é, possui suas qualidades e suas limitações que são heranças próprias de cada sistema familiar. Com essa visão, torna-se mais fácil olharmos para as coisas como são, acolhendo bem e mal com a mesma harmonia. 4.1 Exceção de equilíbrio de troca Nas relações entre pais e filhos não há equilíbrio de troca, pois a ordem está presente. Quem veio antes tem precedência no sistema, com isso, os pais dão e os filhos recebem, simples assim. Por isso, quando olhamos para a relação com nossos pais, temos que olhar com essa consciência para que possamos nos abster dos julgamentos sobre os pais, pelo o que fizeram, se foram “bons” ou “maus”. Nessa relação, o que se torna maior do que todos os feitos ou não feitos pelos nossos pais é a nossa vida. Os pais são uma composição de 50% vindo de pai e 50% vindo da mãe, nos permitiram a vida. A vida é algo muito maior do que qualquer checklist de erro e acerto que conseguimos tirar de nossos pais e, portanto, por estarmos aqui, hoje, podendo construir as nossas histórias, isso já nos demonstra o quanto nossos pais cumpriram com seus deveres perante a vida. Um filho nunca consegue devolver aos pais a vida que recebeu, por mais que, em muitos momentos, a pressão inconsciente de equilibrar essa relação venhanos visitar. TEMA 5 – AMOR E VÍNCULO OBSERVADOS PELA CONSTELAÇÃO FAMILIAR Quando falamos de constelações familiares, é importante saber que sempre estamos falando de vínculos em nível da consciência e que estão relacionados ao amor. Talvez, não o amor que estamos acostumados a descrever sob a nossa ótica de conceituação, mas o que é maior que a nossa descrição consegue definir, é um amor em nível de uma grande alma que é responsável pela nossa interconexão dentro do grupo. Somos unidos por um vínculo amoroso ao nosso sistema familiar e aos sistemas de relacionamento dos quais fazemos parte. Esses vínculos se manifestam de maneira inconsciente, ou seja, muitas vezes não temos noção de que esse vínculo foi gerado dentro de um relacionamento. Dependendo do grau desse vínculo e da forma com a qual ele está sendo reproduzido ou manifestado, gerará uma condição do amor que em algum momento pode ser considerada saudável ou nociva para o fluir em nossas vidas. Os vínculos mais profundos estão relacionados aos integrantes do nosso sistema familiar de origem e ao nosso sistema familiar atual (quando já temos essa nova formação), parceiros de relacionamentos amorosos ou pessoas que nos beneficiaram em amplo aspecto e garantiram a nossa sobrevivência. Conforme explica Hellinger (2007, p. 83), “o amor no seio da família tanto pode provocar doenças como restabelecer a saúde. Não é a família que provoca doenças, mas a profundidade dos vínculos”, e assim podemos observar que não é o amor que causa os desequilíbrios dos sistemas, mas a forma com a qual nos vinculamos a esses relacionamentos. Estarmos mais atentos às dinâmicas de relacionamentos que construímos ao longo dos anos com a nossa família e também no âmbito social. Isso pode nos trazer reflexões e pontos de partidas para conduzir mudanças. Vamos observar como esse amor pode ser manifestado em forma de “amor que adoece” e “amor que cura”. 5.1 Amor que adoece O “amor que adoece” é quando uma pessoa segue um ente relacionado ao seu sistema familiar, que porventura teve um destino difícil ou quando procura de alguma forma compensar as histórias vividas pelos seus pais. Denomina-se esse movimento de emaranhamento: quando algum descendente se coloca à disposição para compensar o desequilíbrio do sistema, deixa de viver a sua própria biografia para se envolver em outras biografias. E quando isso geralmente acontece? Geralmente quando não conseguimos lidar de boa maneira com os fatos vivenciados ou quando nos sentimos culpados de alguma forma pelo acontecimento e, às vezes, pela própria exclusão do acontecimento ou fato vivenciado em alguma geração passada. Então, para promover equilíbrio dentro do sistema, geralmente um descendente mais fraco, que em geral é uma criança, se coloca à disposição de forma inconsciente e por amor ao sistema, para que esse equilíbrio seja reestabelecido. Era e ainda é muito comum as famílias procurarem esconder contextos familiares, a fim de preservar algo mais profundo, com a ideia de que excluindo ou não falando sobre o assunto, este, de certa forma, seria esquecido para sempre e não causaria mais incômodo. Às vezes, são eventos que geraram muita dor e sofrimento para aquele sistema familiar, como a morte de uma mãe no parto ou de um bebê. As constelações familiares observam que esses movimentos, na verdade, promovem um adoecimento do sistema, ou seja, não é porque aconteceu em uma geração passada ou mesmo distante de nós ou da geração analisada que não vamos ser impactados. Agora, já é possível compreendermos que o padrão “o que os olhos não veem o coração não sente” não pode ser aplicado, pois o coração sente, sim, e ainda, tenta compensar de todas as formas, sem sucesso, até que a reparação na alma aconteça. 5.2 Amor que cura O “amor que cura” é quando trazemos o que antes era oculto para a superfície e para a realidade e que cada um possa lidar com a sua realidade tal como ela se apresenta, entendendo que os acontecimentos fazem parte do desenvolvimento natural da vida humana e que, em vias gerais, seguem uma sequência de início, meio e fim que não é estabelecida pela nossa própria vontade pessoal. É o dizer sim para a vida, tal como ela se apresenta, ao passo que as constelações familiares também observam que, quando trazemos à tona e conseguimos olhar para esses fatos e acontecimentos e damos um espaço para que seja incluído e visto, podemos alcançar um movimento de solução ou atenuação das dinâmicas que fazem adoecer. Esse movimento é uma nova forma de nos relacionarmos com esses momentos vivenciados em nosso sistema familiar, promovendo benefícios para todos os integrantes, não importando sua ordem na geração. Quando um descendente consegue assumir uma nova postura, esse benefício poderá ser percebido pelo sistema. Às vezes, vivenciamos muitas fantasias atreladas à vida, por exemplo, que podemos salvar alguém que amamos ou que somos responsáveis pela felicidade de alguém, ou que podemos de todas as formas ser melhores e diferentes. Quando olhamos e concordamos com a realidade e com as nossas limitações pessoais, liberamos mais espaço para que o amor que cura possa se fazer presente e atuante em nossa vida. Na prática Agora, vamos construir seu próprio sistema familiar e, inicialmente, encontrar nosso lugar atual, e depois uma nova dinâmica possível dentro desse sistema, encontrando o nosso lugar dentro do amor que cura. Constituiremos em duas fases, para que a prática seja bem aproveitada. Primeiramente, realize a primeira fase da prática e, após finalizar, realize a segunda fase. · 1.ª Fase da prática: 1. Escolha seus objetos para a representação (almofadas, mobiles, bonecos, canetas, entre outros. 2. Escolha o n.º de objetos de acordo com sua família de origem (quem faz parte da família de origem?). 3. Separe um objeto para cada personagem do seu sistema de origem. 4. Sente-se em um lugar tranquilo para esse exercício e faça uma respiração consciente: inalando pelas narinas e soltando o ar levemente pela boca por alguns minutos. 5. Quando sentir-se mais relaxado(a), comece a montar a sua família de origem, deixando nas posições conforme vai sentindo que é assim que o seu sistema de origem está funcionando. 6. Anote suas percepções, emoções, quem está ao lado de quem, como você percebe que esses personagens estão. Procure sempre manter a referência dessas percepções sempre em relação a você. Figura 1 – Exemplo Fonte: Seguin, 2021. · 2.ª Fase da atividade: 1. Sobre a imagem formada do seu sistema de origem, trace duas linhas imaginárias e paralelas. A linha de traz da imagem formada está relacionada com a vida no passado (incluindo ancestralidades) e a linha da frente está relacionada com a vida no futuro. 2. Observe nessa imagem formada por meio das linhas imaginárias se você ficou mais perto da linha da vida relacionada com o passado ou com o futuro. Lembre-se de que não existe certo ou errado, apenas anote suas percepções. 3. Assim que finalizar a coleta das percepções sobre a imagem inicial, veja se é possível organizar o seu sistema atual colocando os pais mais próximos da linha do passado e você e seus irmãos (vivos ou mortos), por ordem de nascimento, mais próximos da linha da vida no futuro. Figura 2 – Organizando o seu sistema atual Fonte: Seguin, 2021. 4. Em caso de adoção, insira nessa imagem os pais biológicos (mesmo que você não os tenha conhecido) ao lado de seus pais adotivos. 5. Após a formação dessa nova imagem configurada, anote novamente as suas percepções sobre você em um novo lugar em sua família, e promova uma reflexão sobre as outras informações coletas desde o início da prática. FINALIZANDO Nesta aula, contextualizamos as leis sistêmicas observando seus principais aspectos e entendemos um pouco mais sobre as prioridades que o sistema familiar obedece. Compreendemos com maior peculiaridade cada uma das leis sistêmicas ou ordens do amor, o que agora nos possibilita uma maior percepção de observação dessas leis em nossos principais relacionamentos. Aprendemos que o pertencimento não faz julgamentosentre bom e mau, ele apenas inclui; a hierarquia define que quem veio antes nos sistemas precisa ser visto com o olhar de precedência e o equilíbrio de troca está presente em todas as nossas relações. Precisamos respeitá-la para que a relação cresça, exceto na relação com nossos pais, pois nunca conseguiremos equilibrar a vida que recebemos de cada um deles. Verificamos a dinâmica de atuação do amor e do vínculo dentro dos sistemas familiares e como essas dinâmicas podem promover o “amor que adoece” ou o “amor que cura”, o que nos auxilia a olhar para vida com novas perspectivas e direcionamentos. REFERÊNCIAS HELLINGER, B. No centro sentimos leveza: conferências e histórias. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. _____. Ordens do amor: um guia para o trabalho com constelações familiares. São Paulo: Cultrix, 2007. HELLINGER, B.; HEILMANN, H.-L. Bert Hellinger, meu trabalho, minha vida: a autobiografia do criador da constelação familiar. São Paulo: Cultrix, 2020. HELLINGER, B.; TEN HÖVEL, G. Constelações familiares: o reconhecimento das ordens do amor. São Paulo: Cultrix, 2007. image1.png image2.png