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CARLOS GRACIE
INTRODUÇÃO AO
JIU-JITSU
Edição Eletrônica
2022
Venda proibida
Carlos Gracie. Introdução ao Jiu-Jitsu: Edição Eletrônica 2022.
Primeira edição: Rio de Janeiro, Pongetti, 1948.
Primeira edição eletrônica: Xanxerê, Guilherme Babo Editor, 2022.
Pesquisa, transcrição do texto original, revisão, diagramação e
digitalização das imagens por Guilherme Babo Sedlacek.
Dados Internacionais de Catalogação (CIP)
G731 Gracie, Carlos
Introdução ao Jiu-Jitsu: edição eletrônica 2022 [livro
eletrônico] / Carlos Gracie – 1. ed. rev. – Xanxerê, SC :
Guilherme Babo Editor, 2022.
102 p. ; PDF ; 14,8cm x 21cm.
ISBN 978-65-00-48412-0
1. Artes marciais - jiu-jitsu. 2. Defesa pessoal. 3.
Alcoolismo – prevenção 5. Cigarros – Hábitos –
Prevenção. I. Título.
22-117274 CDD 796.8152
Índice para catálogo sistemático:
1. Jiu-jitsu: Artes Marciais Asiáticas 796.8152
É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a
fonte e autoria, sendo proibido qualquer uso para fins comerciais.
iii
Nota à edição eletrônica - 2022
Esta publicação tem por objetivo disponibilizar de o
acesso de maneira gratuita aos pesquisadores, praticantes
ou professores de jiu-jitsu que queiram entrar em contato e
estudar aquele que – apesar de apresentado como uma
“introdução” e o primeiro de “uma série planejada” – foi o
único livro escrito e publicado por Carlos Gracie. Trata-se do
primeiro livro sobre jiu-jitsu publicado no Brasil e o primeiro
sobre o Jiu-Jitsu Gracie publicado em todo mundo.
O mais velho de cinco irmãos, primeiro a aprender o
jiu-jitsu com Maeda Mitsuyo, Carlos Gracie foi um dos
precursores das lutas de vale-tudo no Brasil, além de
competir contra outros lutadores de jiu-jitsu e judô brasileiros
e japoneses há cerca de um século. Foi o professor de seus
irmãos, bem como seu técnico, nutricionista, empresário e
guia espiritual. Pai de vinte e um filhos e filhas, foi
considerado o fundador de um clã de lutadores que até os
dias de hoje figuram com destaque no mundo das artes
marciais.
No presente livro, que nunca mais foi editado ou
reimpresso – o que em alguma medida contribuiu para que
fosse pouco conhecido – Carlos Gracie aborda os aspectos
físicos e mentais da prática do jiu-jitsu. Não são apresentados
elementos práticos para treinamento e execução de técnicas,
como em outras publicações posteriores de seu irmão Hélio,
seus filhos ou sobrinhos. A preocupação de Carlos Gracie é
demonstrar os benefícios da prática do jiu-jitsu para a
educação de crianças, evitando o complexo de inferioridade e
iv
aquilo que hoje chamamos de bullying a partir do treinamento
para a defesa pessoal. Também argumenta no sentido da
defesa de adultos contra situações de agressão e discorre
longamente sobre os malefícios do álcool e do fumo.
Como o objetivo desta edição é tornar acessível o
texto original, não foram feitas correções ou atualizações
ortográficas. Todos os erros de tipografia, bem como a
acentuação e ortografia utilizadas na publicação original
foram mantidos. Por isso, não deve-se estranhar que uma
mesma palavra seja grafada de diferentes maneiras – como
“vicio” e “vício” – ou ainda que a ocorrência da palavra
“jiu-jítsu” (com acento) seja encontrada somente na folha de
rosto do livro. As páginas em branco correspondem ao verso
das páginas ilustradas, como na edição original. Como única
alteração realizada no texto original, foram eliminados os
hífens separando palavras entre linhas da mesma página.
Para que a paginação original fosse preservada,
mantiveram-se apenas os hífens para separação de palavras
ao fim das páginas. Assim, as numerações indicadas nos
cantos superiores, correspondem às páginas originais.
Utilizou-se o exemplar do constante na Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro como fonte para a transcrição do texto.
Este trabalho de transcrição e edição eletrônica é
resultado do projeto de extensão “Essência do Jiu-Jitsu”, do
Instituto Federal de Santa Catarina – Câmpus Xanxerê,
realizado com auxílio do Edital PROEX n° 01/2019. Para o
trabalho de transcrição, contribuíram os estudantes bolsistas
Adalri Antonio Sabadin e Josué Porto Fornari.
Guilherme Babo Sedlacek
Xanxerê, julho de 2022
CARLOS GRACIE
INTRODUÇÃO AO
JIU-JÍTSU
Prefácio de
HENRIQUE PONGETTI
RIO DE JANEIRO
1948
DEDICATÓRIA
Seria êste pequeno trabalho demasiado incompleto
se não o dedicasse a
OSCAR SANTA MARIA
nosso excelente aluno e amigo incondicional de todas as
horas.
De tal forma se integrou êle nas subtilezas e recursos
do jiu-jitsu que, inspirado pela sua dedicação aos Irmãos
Gracie, quando tive de enfrentar um dos mais perigosos
adversários, chegou a ser o criador de um terrível e
inesperado golpe do qual me prevaleci para, sem
transgressão as leis da lealdade desportiva, deixar sem
sentidos no tablado o meu antagonista.
O AUTOR.
Carlos Gracie
Enquanto vocês vestem
o quimono
Na história dos nossos esportes os irmãos Gracie hão de
ocupar um capítulo isolado. O que êles fizeram para aclimatar
o jiu-jitsu ao Brasil, para comprovar a superioridade dêsse
método de defesa individual sôbre todos os outros, constitue
exemplo ímpar de perseverança e de bravura. Helio, Jorge,
Gastão e Oswaldo, orientados por seu irmão mais velho
Carlos, derrotaram mestres de luta livre e capoeiras temiveis,
boxeadores e “massas brutas" habituados a desmoralizar o
adversário com a simples apresentação do corpo
semi-despido. Isso seria notável, mas não seria tudo, se êles
não houvessem vencido professores nipônicos de jiu-jitsu,
nascidos na terra-berço da diabólica luta, criados na prática
dos seus golpes tão imprevistos, tão felinos, tão anatômicos,
tão humanos em seu objetivo de paralisar a ofensa sem ferir
o ofensor.
8 C a r l o s G r a c i e
Carlos Gracie tem olhos azuis de poeta e uma calma
de jogador de xadrez. Quem lhe observar o tipo não
desconfia da soma de virtudes combativas que se ocultam
debaixo daquela mascara de contemplador, daquele todo de
homem marginal, habituado a ver as lutas do alto do
palanque eburneo.
Carlos Gracie fez de seus irmãos lutadores
admiráveis, mas para o benefício nosso fez também deles
grandes instrutores de jiu-jitsu. Só conheço a escola de Hélio
– o mestre perfeito – frequentadissima por homens de todas
as idades e de alta situação social que ali vão buscar, mais
ainda do que uma incomparável arma de defesa: a saúde
física e moral. Hélio aprimorou-se no estudo profundo dos
golpes, tornando-se em certos casos um inovador; mas como
mestre ampliou seus conhecimentos de fisiologia humana
para resguardar seus alunos idosos de quaisquer surpresas.
Um espetáculo admirável da sua academia é a aula suave de
jiu-jitsu para êsses homens não mais jovens, mas jovens
bastante para reagir contra o poder dissolvente da vida
sedentária. O jiu-jitsu integral estará ao seu alcance pouco
depois quando
Introdução ao Jiu-Jitsu 9
a elasticidade dos membros e a circulação receberem o O. K.
Este livro é o primeiro de uma série planejada por
Carlos Gracie, a pedido dos entusiastas de jiu-jitsu no Brasil.
É por assim dizer o seu prefácio, mas de uma importância
capital. Reune as observações de um atleta que há anos põe
em rigorosa prática os conselhos que ministra. Carlos vive
em obediência aos ditames da natureza. Não bebe, não
fuma, segue uma esclarecida norma alimentar. Seu físico
nega a sua idade; os anos não conseguem fazer no seu
corpo e no seu espírito os estragos habituais. Leiam
atentamente êstes conselhos. São de um homem
excepcional que fez e faz tudo quanto nestas páginas nos
manda fazer.
HENRIQUE PONGETTI
Conhece-te a ti mesmo
Oxalá jamais houvesse oportunidade para utilizar os
conhecimentos do mais eficiente meio natural de defesa
pessoal – o jiu-jitsu – senão para fins exclusivamente
eugênicos e desportivos.
Todos entretanto, na tão falada luta pela vida, em vez
de olharmos para dentro de nós, onde os verdadeiros
conflitos se processam e donde se projetam para fora, sob a
forma de atritos de toda espécie,quando nos pareça oportuno vir novamente a público.
Os que tiverem, então, a complacência de procurar
conhecer mais a fundo o nosso ponto de vista sôbre a
matéria fazendo-o consciente e voluntariamente, hão de
proporcionar-nos, assim, o enorme conforto de verificarmos
que a orientação por que pugnamos sendo, pelo menos,
considerada digna de exame, não é semente perdida em
terra esteril.
Por hoje, já nos contentamos com que êsse algo do
que devemos evitar, aqui abordado à guisa de introito, convite
amigo à meditação e à prá-
92 C a r l o s G r a c i e
tica, como tal seja recebido. Fica para mais tarde, se for
cabível, voltarmos a este tema, que, em nossa mente e nosso
coração, insiste por uma explanação mais ampla.
Entre outras, por exemplo, e sem sairmos da parte
puramente física, não é das menos convidativas a questão
alimentar. Que sabemos nós verdadeiramente de como,
quando, quanto e o que comer em harmonia com as leis
naturais?
Mas, paremos por aqui, antes que se esgote querido
leitor, a tua já agora comprovada tolerância e, com justificada
ironia, nos perguntes: por falar nisso, e o jiu-jitsu?
Tens, em parte, razão. Embora não tenhamos
procurado iludir-te mascarando êste opúsculo com um título
pretensioso ou menos adequando, é natural que o termo
jiu-jitsu, que nele figura constitua o motivo inspirador da tua
sã curiosidade. É, por isso, nosso propósito esforçar-nos por
satisfazê-la, no que for possível, em publicações futuras.
Por se tratar, entretanto, de tarefa dificil, senão
impossivel, em sua total amplitude, não fugiremos ao dever
de, lealmente e desde já, te advertir de que pretender,
apenas por meio de lei-
Introdução ao Jiu-Jitsu 93
tura, conhecer de maneira profunda os segredos dessa
tradicional arte de defesa e ataque, é o mesmo que querer
estudar canto por correspondência.
Não obstante, como no que se refere à prática que
preconizamos muito se pode assimilar ou consolidar através
da palavra escrita, a parte própriamente descritiva terá de
nós, a seu tempo, o especial cuidado que exige.
Antes, porém, de a iniciarmos, desejamos manifestar
o nosso agradecimento a Hélio Gracie, nosso irmão mais
moço, que com tôda boa vontade acedeu em figurar
fotográficas que hão de ilustrar o nosso trabalho. Havendo
êle adquirido e praticado em nossa academia – da qual
chegou a ser precioso instrutor – os seus conhecimentos de
jiu-jitsu, atingiu pelo seu esfôrço, observação, experiência,
tenacidade e inteligência, um grau de aperfeiçoamento
técnico, didático e pedagógico, neste particular
verdadeiramente notável e raro no mundo ocidental.
Êstes fatores, aliados à sua excepcional fibra de
lutador, Ihe valeram o título de invicto que muito
merecidamente ostenta até hoje, apesar de
94 C a r l o s G r a c i e
haver enfrentado em sua carreira, por várias vêzes e sob as
mais diversas modalidades, profissionais e amadores,
inclusive nipônicos, de classe e valor ampla e pacificamente
reconhecidos.
A ti, também, leitor e amigo, o meu muito obrigado, e
até a próxima. Se não te satisfiz que te não haja, ao menos,
irremediàvelmente decepcionado.
Introdução ao Jiu-Jitsu 95
ÍNDICE
Dedicatória ……..…………………………………………….………. 5
Enquanto vocês vestem o quimono ……………………………….. 7
CONHECE-TE A TI MESMO
Olhemos para dentro de nós mesmos – Esforcemo-nos por ser e
não apenas por saber ………………………………………….. 11
MENTE SÃ
A preparação para a defesa e não para o ataque – O homem
produto da hereditariedade, meio e educação – O desporto como
fator do aperfeiçoamento moral e psíquico – O medo – mal
generalizado. Evitemo-lo na vida e educação da criança. – O
jiu-jitsu desporto para todos …………………………………... 12
CORPO SÃO
O jiu-jitsu defesa natural do fraco contra e forte – A saude mental e
os cuidados com o corpo – Respeitemos as leis da saude .. 55
ALCOOL
O grande inimigo – Estatísticas macabras – Citando um criminalista
– A influência de alcool sôbre o cérebro – A ilusão da “falsa
alegria” – Nem desperdiçar nem guardar usurariamente ..... 61
O FUMO
Um veneno mais lento mas não menos perigoso do que o álcool – O
ridículo de um vício “elegante” – Fumar é realmente um prazer? –
Quanto nos custa esse "prazer"? – Um cortejo de males e
perigos, em troca de uma efêmera e falsa distração ……….… 71vivemos a ver no nosso
semelhante a causa de contrariedades, privações e
sofrimentos que, a cada passo, surgem em nosso caminho.
Daí as até agora inevitadas agressões, da mais variada
natureza, as quais, pelas imperfeições que, nos indivíduos,
dão origem às contendas isoladas, causam, entre povos, as
catástrofes coletivas que, século atrás século, se vêm
periodicamente manifestando - as guerras.
12 C a r l o s G r a c i e
Todos sabemos disto, mas é mistér pôr em prática os
nossos bons conhecimentos.
Como o problema é individual, como toda reforma
coletiva só pode ser estável e progressista si começar pelo
indivíduo, como nenhum organismo é mais forte que o mais
fraco de seus orgãos, cumpre a cada um de nós esforçar-se
por ser e não, apenas, por saber.
Mas, dirá o paciente leitor, a que propósito vêm estas
considerações, num trabalho que, pelo menos
ostensivamente, se propõe a preparar a divulgação dos
segredos do jiu-jitsu?
MENTE SÃ…
Nada mais estamos sendo senão coerentes. Que o
digam os que já tiveram oportunidade de cursar a nossa
escola, que o comprovem os que por ela, estamos certos,
ainda hão de passar.
Não poderiamos, através da palavra escrita,
divorciar-nos da orientação invariavelmente seguida em
nossas aulas. Nunca tivemos em mira acirrar ânimos,
provocar rixas, excitar temperamentos e adestrar corpos
humanos para finali-
MENINOS DE HOJE,
HOMENS DE AMANHÃ
Não deixe que seu filho entre na luta pela vida em
condições desiguais e de inferioridade. O jiu-jitsu fará do seu
filho um pequeno gigante.
Introdução ao Jiu-Jitsu 15
dades que reduziriam os nossos discípulos a lamentaveis
êmulos de galos de briga. Ao contrário, pensando
convictamente que, em qualquer setor das lícitas atividades
humanas, é sempre possivel construir, orientamo-nos neste
último sentido. E, assim, preparando os nossos alunos para
se defenderem eficientemente de qualquer ataque físico,
nunca nos cansamos nem cansaremos de repetir que evitar
as causas das agressões é sempre muito melhor do que
revidar estas, embora com a indubitavel superioridade de
meios naturais que o jiu-jitsu nos proporciona.
Si, como até certo ponto se pode admitir, homem é,
sob o aspéto bio-social, produto de hereditariedade, meio e
educação, não vemos como, afetando êste último fator,
poderiamos, em consciência reduzir a nossa tarefa ao campo
puramente físico.
Mais ainda se impõe a diretriz que adotamos si se
levar em linha de conta que não encaramos a hereditariedade
no sentido relativamente restrito que em geral se lhe
empresta. Vemos no homem um herdeiro de si mesmo: colhe
hoje o que ontem semeou; planta agora o que colherá
amanhã.
16 C a r l o s G r a c i e
Neste suceder de trocas, a exemplo do que se
verifica com a natureza, pode a criatura humana ver o seu
labor fartamente recompensado pelo segundo fator – o meio
– que o acolhe, o alimenta, o aproxima cada vez mais da
criatura integral, e a que deverá legar um dia, com suas
verdadeiras realizações, a influência de sua vida.
Sendo o homem um ser eminentemente social, é nas
formas de se manifestar esta indisfarçavel interdependência
que constitue elemento preponderante o terceiro fator – a
educação.
Fugiriamos ao nosso programa si, quanto a esta,
fossemos pois unilaterais.
* * *
Jamais o saneamento mental deixou de constituir
escopo relevante em nossa escola. E, dizemo-lo jubilosos,
tem sido, quando se oferece ocasião, objetivo mais ou menos
satisfatoriamente alcançado, mesmo em casos de início
desanimadoramente rebeldes.
Em verdade, qualquer desporto, quando devidamente
praticado, sem desvirtuamento de qual-
CASTIGADO!
Um curso de jiu-jitsu livrará seu filho da escravidão
imposta por meninos mal orientados.
Introdução ao Jiu-Jitsu 19
quer de suas finalidades, pode e deve trazer ao indivíduo não
somente benefícios físicos mas tambem psíquicos e morais.
– Respeitadas essas condições, trata-se de matéria por
demais pacífica para que nos alonguemos
desnecessariamente buscando provar, por assim dizer, um
axioma.
No que respeita ao jiu-jitsu, então, essa verdade se
torna de tal forma evidente que, quando o seu ensinamento é
bem orientado, podem-se operar surpreendentes progressos
no sentido propriamente educacional. Temos verificado que,
em indoles aparentemente inacessíveis aos simples
conselhos da ponderação, da experiência alheia, aos
incentivos verbais, com o continuar das práticas e oportunas
considerações, se vai operando uma subtil infiltração de sãos
princípios que acabam por determinar uma verdadeira
transformação benéfica de mentalidade e temperamento.
O praticante, sem que se aperceba, muitas vezes, de
como isto se dá, vai aos poucos se convencendo de que é
sempre preferível aplicar “chaves” nos seus imponderados
impulsos do que ter de usá-las contra os seus semelhantes,
porque, com estas, evitam-se ou diminuem-se as conse-
20 C a r l o s G r a c i e
quências do mal ao passo que, com aquelas, pode-se cortar
o mal pela raiz.
* * *
Uma das criações negativas mais prejudiciais ao
progresso humano é o mêdo. No entanto, lamentavelmente, é
uma deficiência que quasi todos os que interferem na
educação da criança procuram incutir-lhe nalma. Para
reprimir expansões que, afinal, na maioria dos casos, – são
perfeitamente naturais na primeira idade, procura-se – e
pelas formas mais inconvenientes – intimidar o
pseudo-faltoso, com fantasias, imagens, ameaças e até
castigos corporais, sempre desaconselháveis e não raro
crueis, que constituem a causa real de uma vida de
fracassos. A criatura humana é, por assim dizer, obrigada a
ver o desabrochar de sua consciência num ambiente que faz
questão de se apresentar hostil ou tirano, que lhe mostra,
desde o seu despertar para a vida, a adversidade e a
agressão, que lhe impõe derrotas inexplicadas,
desarmando-a de início na luta que vai empreender,
incapacitando-a, muitas vezes,
QUANDO ELES NÃO SABEM
DEFENDER-SE
O jiu-jitsu dá personalidade às crianças
despertando-lhes o senso da responsabilidade.
Introdução ao Jiu-Jitsu 23
para a conquista de uma felicidade mesmo relativa.
Não é da nossa competência procurar aqui
desvendar os refolhos da alma do homem, “êsse
desconhecido”. Além disso, a Ciência, sobretudo nos últimos
tempos, bastante se tem empenhado nesse sentido e não
faltam trabalhos publicados, até em forma de divulgação
deliberadamente popular, para que quem se interesse pelo
assunto possa facilmente ficar a par de suas conclusões.
Sem que, por essas razões, nós abalancemos a
enumerar as várias modalidades dos chamados traumas
psíquicos, expor sua gênese, como ocorrem, de que maneira
evitá-los, que efeitos produzem, de que forma curar ou
suavizar as suas consequências – o que, aliás, uma simples
compilação permitiria – somos, entretanto, forçados a aludir
particularmente a uma espécie de traumatismo moral que
muita relação pode ter com a arte de que somos sinceros
adeptos e propagandistas.
* * *
24 C a r l o s G r a c i e
Não há quem não se desgoste si for chamado de
medroso. No entanto, em gráo mais ou menos sensível, de
forma mais ou menos dissimulada, todos nós temos mêdo.
Provavelmente, o nosso tolerante leitor ao ouvir de nós essa
asserção, está suficientemente distante, para que possamos
estar tranquilos quanto a uma demonstração sua em
contrário, pelo menos imediata…
Não estamos nos referindo simplesmente ao mêdo,
êsse “amor à pele” como vulgarmente se diz, máscara sob a
qual a miùde pode manifestar-se o instinto de conservação.
Aludimos à timidez que, em quasi todos nós, se arraigou em
nosso ânimo desde tenra idade, em virtude de uma ou várias
ameaças, agressões ou humilhações (ou tudo isso ao mesmo
tempo) que meninos maiores ou mais fortes nos infligiram
nas normais contingências de toda infância.
Já não queremos falar nos sêres débeis, subnormais,
que quando nestes casos são, além disso, injustiçados, se
transformam mais tarde em revoltadose acérrimos inimigos
da sociedade. Basta que nos limitemos aos nossos próprios
casos, às rusgas infantis que degeneram em pancadaria, na
qual tenhamos levado a pior em virtu-
NÃO O DEIXE INDEFESO
O seu filho deverá saber jiu-jitsu para evitar as futuras
consequências de uma infância amedrontada.
Introdução ao Jiu-Jitsu 27
de inferioridade de nossos recursos momentâneos ou
condições físicas. Rememoremos as vezes em que, mesmo
sem havermos sofrido castigos físicos, fomos forçados a
reconhecer na razão do mais forte a mais forte razão para
inapelavel e injustamente cedermos. Si, com espírito de
paciente pesquiza, prosseguirmos nessa busca através do
tempo, quanta explicação clara vamos encontrar para o
mêdo, que sob os mais variados disfarces, tão influente
participação tem nos insucessos de nossa vida! Ora a dúvida,
a indecisão, a timidez, o receio, levando-nos a um recuo no
momento precisamente indicado para o avanço; ora o
desespêro atirando-nos ao abismo de uma solução
precipitada, absurda ou até criminosa; aqui, a revolta
recalcada que explode; adiante, o pavor que, forçando-nos a
uma fuga, nos leva à derrota quando uma simples
expectativa serena nos conduziria vitória; a inveja, o despeito,
a maledicência e o derrotismo; o desânimo, a apatia e o
pessimismo; a cólera, o ódio, a vingança; um cortejo, enfim,
de males morais, psiquicos, nervosos e propriamente físicos,
que muitas vezes a psicanálise consegue tão bem interpretar.
E as iniquidades que praticamos e que inutil-
28 C a r l o s G r a c i e
mente procuramos justificar a nós mesmos com as de que
teríamos sido vítimas anteriormente? Inutilmente, sim, porque
o sofisma que às vezes consegue convencer multidões,
tornando-se sempre inoperante ante a consciência do seu
autor, não nos livra, além disso, das consequências do
sofrimento que causamos ao nosso semelhante.
Entretanto, por mais ousada ou ingênua que possa
parecer a nossa afirmativa, para o desaparecimento dêstes e
outros flagelos, tantas vezes oriundos de uma educação mal
concebida e piormente aplicada, poderia contribuir
enormemente a simples difusão da prática do jiu-jitsu.
Mas, objetar-se-á com aparente razão e quiçá irônica
dúvida: que remédio maravilhoso deve ser o jiu-jitsu, que
tantos males poderiam ter os seus dias contados à simples
aplicação dessa panacéia!...
No entanto, rigoroso leitor amigo, o teu cépticismo
não procede. Em geral, as verdades simples são as que com
mais ligeireza regeitamos ou pomos de quarentena por não
satisfazerem a complexidade ou não poderem acompanhar
os malabarismos que costumamos imprimir aos nossos
processos mentais. E, si nos permites uma permites uma pe-
SACRIFIQUE TUDO
... mas não deixe que seu filho seja humilhado, pois
tais Impressos refletem-se na vida adulta. O jiu-jitsu dará ao seu
filho o mais elevado grau de confiança própria.
Introdução ao Jiu-Jitsu 31
quena digressão, é essa uma das razões por que a Verdade,
una, imutavel, mau grado manifestar-se sempre e em toda
parte, através da infinita diversidade de formas e maneiras,
ainda assim tão raramente consegue fazer-se compreender
ou mesmo, perceber... Vivemos a confundir o que a nossa
razão repele com aquilo que a mesma razão, apenas, não
alcança em determinado momento. Daí a nossa cegueira
voluntária – que, como sabemos, é a pior – a qual,
atrofiando-nos o raciocínio, desestimulando-o ao
desenvolvimento, não lhe permite em certos assuntos
abranger amanhã mais do que ontem alcançava.
Retomemos, entretanto, o fio. Podem manifestar-se
no homem defeitos de natureza parasitária, perfeitamente
comparáveis a certas hervas chamadas daninhas, cuja
existência cria obstáculos a que as boas árvores – as virtudes
humanas – cresçam, se expandam, frutifiquem. Enquanto as
árvores são pequenas e a herva muita, a destruição desta, às
vezes penosa, exige vigilância atenta, cuidado perseverante,
trabalho renovado. A medida, porém, que aquelas vão
subindo e ficando copadas, a limpeza do terreno vai se
tornando mais suave, porque ao lado da resis-
32 C a r l o s G r a c i e
tência que adquirem, a própria sombra que projetam vai
privando a herva dos elementos de que carece para poder
vingar. E, destarte, as frondes irmãs acabam por tocar-se,
entrelaçar-se, proteger-se reciprocamente, monopolizar os
benefícios da luz do sol; passam a manifestar, nos frutos que
oferecem, nos encantos que dão à vista, o resultado do
esfôrço protetor; demonstram, enfim, na opulência do pomar,
os íntimos laços de solidariedade fraternal que a todas ligam
para a vida.
Assim são as virtudes humanas. Nenhuma se cultiva
isoladamente, sem auxílio ou com prejuízo das demais. Não
é possível evoluir realmente, progredindo num sentido e
regredindo noutros. A exemplo do que sucede pelo universo
em fora, analogicamente com o que se passa com o
microcosmo humano, no qual se refletem sempre os
benefícios ou malefícios feitos em qualquer de suas partes,
assim no campo moral, a coesão e solidariedade afirmam-se
de tal forma que, do Sol Espiritual, que não tem preferências,
que não nasce apenas para alguns porque não conhece
ocasos, não podem virtudes isoladas, como se vivessem em
compartimentos estanques, receber, num exclusivismo im-
EVITE O COMPLEXO DE INFERIORIDADE
Mande ensinar Jiu-jitsu ao seu filho para que êle evite
as recordações que o possam prejudicar futuramente.
Introdução ao Jiu-Jitsu 35
possível, a luz sublime de uma imortalidade cada vez mais
consciente.
* * *
O jiu-jitsu é um desporto praticavel em qualquer
idade, desde que se o faça de modo adequado. Assim, seja
qual fôr o sexo, desde a época escolar até a velhice, qualquer
ser humano pode e deve familiarizar-se com os seus
segredos.
O praticante, desde as primeiras lições, começa a
vislumbrar para depois convencer-se que, por mais estranho
que isto antes Ihe pudesse parecer, também no mundo físico,
a exemplo do que sucede na esfera espiritual, “tamanho não
é documento”; que, portanto, não mais se justifica que, daí
em diante, torne, volta e meia, a sentir-se anão num mundo
às vezes adverso de gigantes!
E se, depois de adultos, podemos assim libertar-nos
de certos complexos de inferioridade, que benefícios não
seria lícito e lógico esperar para uma geração nova, de cuja
alma jamais tivesse sido alijada a fé, a confiança, a coragem,
a lealdade, a noção do justo, enfim, todas as virtudes e
atributos do Bem, sempre disposto a manifestar-se desde
36 C a r l o s G r a c i e
o íntimo de toda criatura? Ninguém nasce ou é
definitivamente mau. Os que se apresentam ou vemos sob
êste aspecto são cegos ou transviados, cuja rota pode a cada
instante ser alterada para melhor. O mal, pela sua natureza, é
sempre de duração efêmera. Potencialmente, todos somos
bons. A questão é falar a cada um a linguagem que possa
entender, é estabelecer as condições propícias a que possa
germinar a milagrosa semente guardada em todo coração
humano.
Não há quem nasça acovardado ou covarde. No
entanto, qual de nós, na infância, frente a um hipotético ou
real contendor, não se sentiu “menor” ou “maior”? E quantas
vezes, pela vida em fora, em situações semelhantes, não
experimentou a mesma sensação, não viu no seu semelhante
um homem mais forte ou mais fraco, como argumento
decisivo na forma de orientar a sua atitude? Seja por simples
reminiscência ou porque, em determinadas circunstâncias, na
maioria nos mostremos crianças de diferentes idades, o certo
é que o “complexo do tamanho” nos acompanha e se torna
avassalante sobretudo quando começam a decrescer as
fôrças da mocidade.
* * *
UM MENINO QUE SABE JIU-JITSU…
… sabe também que não deve agredir. Certo da sua
superioridade, limita-se apenas a defender-se.
Introdução ao Jiu-Jitsu 39
Por que não, pois, impedir que surja, por que não
destruí-lo, si está ao nosso alcance fazê-lo?
Por outro lado, criou-se a lenda de que os chamados
malfeitores e valentões são homens de coragemacima do
normal. Examinada friamente, porém, a sua atuação,
verificamos que essa errônea suposição provém do fato de
lhes caber a iniciativa de provocar ou agredir e porque agem
na presunção de que a vítima não reagirá ou não se
defenderá resoluta e eficientemente, inhibida como deve ficar
ante a ameaça de uma agressão geralmente armada.
Uma vez, porém, que encontram a resposta
conveniente e imprevista, a sua arrogância e ousadia como
que se desfazem por encanto.
Para essas criaturas basta, quasi sempre, um dos
muitos e espetaculares tombos que o praticante de jiu-jitsu
sabe infligir, para que a sua razão seja colocada nos eixos.
Aos que desconhecem por completo esta tão perfeita
arte de defesa, custa admitir que, em certas situações
críticas, a vítima possa ter o auto domínio para defender-se
racionalmente. Puro engano.
Quando não existe o mêdo, a mudança de uma
40 C a r l o s G r a c i e
disposição integralmente pacífica para uma atitude de defesa
e ataque faz-se sem dificuldades. O mêdo que, em tantas
ocasiões nos põe estarrecidos, não é nada mais que um
estado nascido no momento em que o homem duvida de
suas fôrças, de seu poder.
Quanto mais perfeita seja, portanto, a consciência de
nossas possibilidades e recursos, mais confiantes
enfrentaremos as situações.
Por outro lado, além de não ser o conhecedor do
jiu-jitsu afetado pela emotividade que pode dominar o leigo
quando êste se vê em aperturas dêsse gênero, o
automatismo que pode adquirir na preparação e aplicação
das chaves é tal que a amnésia receiada, ou esquecimento
do que aprendeu e exercitou, é praticamente impossível.
Isto, aliás, pode ser facilmente compreendido com um
exemplo. Já pensou o leitor na série de atitudes e
providências subitamente tomadas quando, ao dirigirmos um
automóvel, surge abruptamente à nossa frente um incauto
transeunte ou outro veículo? Quanta coisa se faz, então, ao
mesmo tempo, para evitar o desastre? Entretanto, vínhamos,
às vezes, completamente distraídos, sendo a ocorrência
inteiramente inesperada.
NÃO HÁ CRIANÇAS COVARDES
A timidez é produto de uma educação defeituosa. As
crianças que aprendem jiu-jitsu são corajosas e leais.
Introdução ao Jiu-Jitsu 43
Por que razão, nas agressões, quasi sempre 100 por
cento esperadas, não poderemos agir guiados também pelo
sub-consciente e, até, pensadamente?
Ademais, em muitas defesas, os movimentos iniciais
dos contragolpes coincidem com os que instintivamente
fazemos ao sermos atacados; o leigo, todavia, não sabe
como prosseguir, ao passo que o praticante completa
vitoriosamente o gesto começado.
O praticante adiantado, como em inúmeras
oportunidades comprovámos em nossa escola, pode, de
olhos vendados, desde que estabeleça contácto com um
adversário leigo, vencê-lo de maneira inapelavel e, para êste
último, surpreendente.
Casos temos tido em que, por inverossimil que
pareça, em competições amistosas, praticantes adestrados,
lutando de pés e mãos amarrados, têm dominado
contendores inexpertos.
Si, com uma particula de fé, podemos remover
montanhas por que não seremos capazes de fazê-lo com os
obstáculos criados por um semelhante mal orientado?
Quando temos confiança em nós e, sobretudo, êsse
estado foi alcançado depois de compro-
44 C a r l o s G r a c i e
vação de nossa experiência, mais facilmente somos senhores
de nós mesmos. Não precisamos mais atiçar-nos ou
dominar-nos mas tão sómente conduzir-nos, verificado que já
teremos, então, que as tendências podem impelir-nos mas
nunca compelir-nos. Não nos deixamos tão facilmente
arrebatar pela cólera, sintoma de fraqueza que, se
observarmos bem, mais frequentemente se manifesta nos
caracteres débeis, nas crianças, velhos, doentes ou
desequilibrados. Vem a serenidade, a branda firmeza, a
impassibilidade racional, baseadas no sentimento de
proteção.
Pensando antes de agir, embora com a rapidez
imensuravel do pensamento, não seremos arrastados, sem
reflexão, pelas palavras e atos de quem quer que seja, por
contingências que a nossa retidão, não podendo criar, não
poderá também alimentar ou temer.
Com espírito superior e positivo, sem peias
convencionais ou recalques deturpantes, a tolerância, a
indulgência, a complacência serão as faces do prisma
cristalino através do qual o nosso discernimento será cada
vez mais esclarecido pela luz da realidade.
PROTEJA SEU FILHO ...
... contra as torturas da inferioridade,
proporcionando-lhe com o jiu-Jitsu meios seguros de se
defender.
Introdução ao Jiu-Jitsu 47
Dificilmente voltaremos a ficar à mercê de
circunstâncias que antes faziam perdêssemos o sangue frio,
joguetes que nos tornavam de impulsos insensatos,
nervosismos infundados, emotividade doentia, angústia
torturante, incontinência verbal.
Passando a respeitar cada vez mais aos outros e a
nós mesmos, pelo hábito da honesta e justa apreciação,
iremos substituindo pela moderação a violência, as atitudes
selvagens.
“Semeia um pensamento e colherás uma ação;
semeia uma ação e colherás um hábito; semeia um hábito e
colherás um caráter; semeia um caráter e serás senhor do
teu próprio destino”.
É uma verdade. E não há também dúvida que os
benefícios que o jiu-jitsu proporciona são harmônicos, isto é,
não somente físicos mas também psíquicos e morais. O seu
exercitamento bem dirigido se reflete num aumento de
perspicácia, de sagacidade, dessa penetração de espírito que
prevê e pressente os embaraços, para evitá-los ou vencê-los
sempre que possível. Numa competição desportiva entre
técnicos, as atitudes táticas, as posições estratégicas se
sucedem às vezes com
48 C a r l o s G r a c i e
tal rapidez que a luta constitue uma verdadeira sequência de
"tests".
Apesar de todas as vantagens que inegavelmente o
jiu-jitsu proporciona, lamentavelmente se verifica que, por
ignorarem em que consiste verdadeiramente essa arte, os
que mais dela necessitam são os que se mostram refratários
a estudar e praticar os seus ensinamentos, tão uteis e neces-
sários à fracos e fortes, pelas razões facilmente
compreensíveis e, sobretudo, aos de temperamento belicoso,
os quais, frequentemente por falta de uma educação
conveniente, recorrem a processos intempestivos, perigosos
e tantas vezes nocivos.
* * *
Chegados que somos a êste ponto, que dizer do
porte de armas, uso tão arraigado em certos lugares e
pessoas, que as leis quando o proíbem não conseguem
evitar radicalmente?
O condenável hábito de andar armado (apelamos
para a sinceridade dos que o tiveram ou ainda o têm)
deprime de tal forma o indivíduo que este quando, por
circunstância alheia ao seu desejo, não tem em seu poder o
que considera a sua insepara-
VALE A PENA APRENDER JIU-JITSU
Uma simples queda soluciona casos que poderiam
trazer muitas complicações.
Introdução ao Jiu-Jitsu 51
vel garantia, sente-se de tal maneira desprotegido,
desamparado, que a sua angústia sobrepuja qualquer prazer
que o mais pacífico e elevado ambiente lhe possa oferecer.
Além dessa auto-sugestão de fraqueza, de incapacidade,
dessa confissão de tendências, propósitos ou disposições
lamentaveis, que ao invés de afastadas são assim
alimentadas, dêsse menosprêzo preconcebido pela vida de
nossos irmãos, não se pode, também, classificar êste
costume, às vezes ostentado, como uma ameaça, uma
provocação permanente ou, ainda, um insulto, à
tranquilidade, aos justos brios, aos bons sentimentos e
intenções dos nossos semelhantes ?
E, se tudo isto não bastasse, haverá quem, de boa fé,
possa negar o grande número de crimes que teriam sido
impossíveis, si, no mau momento, a mão executora não
tivesse ao seu alcance imediato a arma maléfica? E quantas
vezes outras, a vítima, si conhecesse as defesas que o
jiu-jitsu ensina, não teria evitado a desgraça, beneficiando-se
a si mesma, ao desvairado atacante, às respectivas famílias,
à própria sociedade?
* * *
52 C a r l o s G r a c i e
Caro amigo e quasi discípulo: não sabemos si
quando te dispuzestea ler êste livro o fizeste por qualquer
dos estados ou situações a que fazemos alusão nesta
primeira parte. Certo é, porém, que, pelo menos em tese,
qualquer uma ou várias das considerações aqui expendidas,
ou outras semelhantes que longo e desnecessário seria
enumerar, foram a causa real do teu interêsse por êste
assunto. Si êsse interêsse é tal que não te foi fastidioso ou
contrário às tuas concepções o que estas linhas contêm, é
que as nossas mentalidades e maneiras de sentir em tal grau
se harmonizam que não temo errar aconselhando-te a
aprender e praticar o jiu-jitsu com a elevação de vistas e
finalidades que certamente te animam. Êle nunca será em
tuas mãos um recurso prejudicial para os teus semelhantes
bem orientados, nem perigoso para os demais.
Si não for esta a hipótese, preferível é que não
prossigas até que te convenças profundamente, até que
compreendas, oxalá sem sofrimento, que todo poder mal
usado se volta, invariavelmente, mais cêdo ou mais tarde,
contra quem dele se valeu abusivamente.
Em qualquer caso, entretanto, convictos como
PREPARE-SE PARA A VIDA
Adquira as qualidades físicas, psíquicas e morais que o
jiu-jitsu proporciona sob as formas de confiança coragem,
precisão e saude.
Introdução ao Jiu-Jitsu 55
estamos de que a necessidade e as vantagens de uma
mente sã não são, sem justo fim, abordadas num trabalho
desta natureza, alimentamos a esperança de que
compreenderás porque, antes de entrarmos propriamente na
matéria que constitue objeto ostensivo desta publicação,
coerentemente nos detenhamos também um pouco em
pensar como adquirir, conservar e empregar os benefícios
decorrentes de um
CORPO SÃO
O jiu-jitsu constitue a defesa natural do fraco contra o
forte. É uma espécie de processo nivelador pelo qual a força
bruta, enfrentada e dominada pela sábia aplicação da
mecânica racional, é levada a admitir que o ser humano, em
lugar de ser encarado apenas como um corpo que dispõe de
uma alma, deverá, antes, ser considerado como uma alma
que possue um corpo. Isto, entretanto, seja qual for a
orientação filosófica ou religiosa que sigamos, não deverá
jamais significar menosprêso ou simples desatenção pelo
corpo com que viemos a êste mundo. Não com-
56 C a r l o s G r a c i e
prendemos, mesmo, como para aspirar à sabedoria, amar,
adorar, sentir e servir a Deus, respeitando as suas leis, seja
necessário ou permitido prejudicar uma de suas mais belas e
perfeitas creações.
Si é certo que as desharmonias de nossos
pensamentos e sentimentos podem gerar males físicos, não
é menos verdade que os cuidados que tenhamos com o
nosso corpo se refletirão não somente neste, mas também na
saúde mental de que todos carecemos para uma vida
harmoniosa, alegre e feliz.
É claro que não são necessárias aptidões especiais
para que se possa ficar senhor de certos recursos do jiu-jitsu,
que nos habilitem a uma defesa eficiente. Não percamos,
porém, de vista que, além de o nosso programa, como a
princípio dissemos, não se limitar a um restrito adestramento,
seja qual fôr o objetivo visado será sempre melhor alcançado
si nos valermos das nossas máximas possibilidades
espirituais e físicas. O jiu-jitsu, não podendo escapar a esta
regra geral, não é outra coisa que a sua aplicação à nossa
defesa.
Sendo, além do mais, um desporto, e dos mais
Introdução ao Jiu-Jitsu 57
completos, como poderia desinteressar-se do preparo físico?
Por que, pois, não nos esforçarmos por dotar o nosso
corpo com elementos que facilitem as suas múltiplas e, por
vezes, duras tarefas?
Nenhum homem é suficientemente grande para se
sobrepor às leis da natureza; ninguém é tão pequeno que
possa ser esquecido pela mãe natura.
Quanto mais, portanto, conheçamos as leis da vida, e
com elas caminhemos em harmonia, tanto melhor será a
nossa existência.
Si, para o comum das criaturas, é ambição
demasiada levar vida perfeita, não é, todavia, para todos nós,
aspiração descabida ir-nos alijando de certos êrros, evidentes
ao mais superficial exame; si nos parecer, portanto, difícil sa-
ber tudo o que seja acertado fazer, certamente não será
impossivel conhecer algo do que deva ser evitado.
Sem saúde, no seu total significado, não pode haver
felicidade completa. No entanto, por via de regra, em vez de
estudarmos as leis que cumpre respeitar para evitar as
doenças, preocupamo-nos mais em saber quais os
medicamentos ou pro-
58 C a r l o s G r a c i e
cessos indicados para debelar as consequências da nossa
ignorância ou das nossas infrações conscientes. Como,
geralmente, trazem sofrimento físico ou moral, não é raro
emprestar-se às doenças o carater de punição ou castigo
divino. São, no entanto, creação essencialmente humana,
cuja ligação com a Lei Suprema consiste em servirem de
veículo a paternais conselhos, como benéficos chamamentos
à razão. Quando compreendidos a tempo, de muitas e
maiores penas nos libertam, sobretudo na velhice, nos dias
em que a paz passa a ser, por várias razões, anhélo mais
acentuado em todo ser humano – nirvana somente possivel si
somos sãos de alma e corpo.
É, por êsse mesmo motivo, que as guerras, a que já
aludimos de passagem, e outros males coletivos, constituem
meios de evolução. Longe de nós, porém, indicá-los como
remédio ou manifestações inevitáveis do progresso ou da
civilização, em suas acepções verdadeiras. Olhamos a
humanidade, em seu conjunto, como um corpo no qual, a
exemplo do que sucede com o humano, se verificam por
vezes perturbações ou erupções internas ou externas, locais
ou generalizadas. São avisos ou advertências tendentes a
não nos deixar
Introdução ao Jiu-Jitsu 59
indefinidamente à mercê da sequência ilógica dos nossos
desacertos, e que se valem dos consequentes efeitos dêstes
para induzir-nos a meditar elevadamente e a corrigir-nos.
Desafortunadamente, passado o período agudo – e
apesar de cicatrizes remanescentes – nem sempre a lição
nos serviu e reincidimos ou persistimos nas mesmas faltas. E
as consequências só se fazem, então, esperar, quando estão
reunindo argumentos mais convincentes…
Dentro, pois, dêste ponto de vista, em uma
humanidade mais perfeita, evidentemente, nem sequer
pensaríamos em admitir sofrimentos coletivos, da mesma
forma que a uma criatura razoavelmente sã não iriamos
"aconselhar" uma furunculose.
* * *
Sem dúvida, após as crises, pode verificar-se a cura,
com a eliminação de elementos nocivos. Mas o que
interessa, seja ao individuo, seja à coletividade, é ter nos
sintomas um guia e não objetivo primordial. Não significa
dissimular, expulsar, transferir ou, ainda, destruir apenas os
60 C a r l o s G r a c i e
efeitos. Temos de remontar às próprias causas, anulando-as;
temos de respeitar as leis da saúde ao invés de concentrar a
nossa inteira atenção e esforços em doenças mais ou menos
terminais.
Destruamos em nós a idéia errônea de que velhice e
doença são irmãs inseparaveis e substituamo-la pela de que
somente aquela deveria ser causa de nossa morte física, a
qual tão suavemente se deveria processar “como o fruto
maduro se desprende da árvore” que o sustinha e alimentava
e retorna à terra para novas manifestações da vida.
Para termos, entretanto, o direito de aspirar a uma
morte normal, esforcemo-nos por que natural seja igualmente
a nossa passagem pela terra, pois que, também no bom
sentido, se pode dizer que o que se leva desta vida é a vida
que se leva. Do contrário, no silogismo de nossa existência,
não será uma sequência de premissas falsas que nos há de
conduzir a uma conclusão verdadeira.
Alcool
É um dos nossos piores inimigos. Atuando
prejudicialmente, de forma direta e imediata, sôbre aquele
que o ingere, pode ainda levá-lo aos mais hediondos crimes
contra os seus semelhantes. Outras vezes, por motivos os
mais pueris, ou mesmo sem estes, é o promotor dos mais
descabidos conflitos entre sêres que, em estado normal,
podem até dedicar-se reciprocamente estima ou respeito
profundos. Perpetuando,além disso, os seus malefícios
através da hereditariedade, evidencia-se também um terrível
inimigo da espécie humana.
Permitamo-nos, em refôrço desta conhecida tese, e
sem ultrapassar os limites do nosso objetivo, aludir, para os
que nunca tenham tido qualquer contacto com a criminologia,
à história daquela família de degenerados, acompanhada du-
rante seis gerações seguidas, nas quais a ação do
62 C a r l o s G r a c i e
alcool ora se manifestou abertamente como causa, ora como
preparatória do campo propício à degenerescência.
O relato abrange 1.200 pessoas, das quais 300
morreram na infância. Das 900 restantes 310 foram
socorridas por instituições de caridade; 440 foram fisicamente
vítimas de sua perversidade doentia; mais de metade das
mulheres prostituiu-se; 130 foram criminosos confessos; 60
gatunos profissionais e 6 morreram assassinados.
Perdôe-nos o bom leitor evocarmos tão triste quadro;
fazemo-lo, tão somente, porque, reconhecendo a nossa falta
de autoridade oficial, não nos pareceu acertado, em tão
relevante capítulo, afirmar pura e simplesmente, sem o
amparo de qualquer argumento oriundo de fonte fidedigna.
Assim, estamos certos, não somente seremos relevados,
mas também serão sem dúvida levados a pensar sôbre o
assunto ainda mesmo os que jamais tenham tido desejo ou
oportunidade de fazê-lo.
Dir-se-nos-á, talvez: “não argumentemos com os
exageros; há uma grande diferença entre
Introdução ao Jiu-Jitsu 63
ser-se alcoolatra e beber-se com moderação, embora
diariamente.”
Si, como se costuma dizer, “comer e coçar é questão
de começar”, no que respeita ao hábito da bebida, então,
ditado se aplica às maravilhas.
A não ser os que herdaram o vício, e que por
conseguinte, atestam a verdade da tese, ninguém, de início,
é alcoolatra. Mesmo os que se mostram sob êsse aspecto,
começando, em virtude dos chamados fracassos da vida, por
onde outros acabam, si examinados devidamente não fogem
à regra da predisposição hereditária. Uma vez, porém, que,
como todo mundo admite, ser ébrio habitual, tomar
bebedeiras semanais, ou, ainda, mais espaçadas, constituem
abusos gritantemente nocivos, deixemos um pouco de lado
os alcoolatras para fixar a nossa atenção nos que bebericam,
naqueles que bebem “moderadamente”, cuja verdadeira
denominação pena é não seja mais conhecida – os
alcoolistas.
Pondo de parte as teorias sobre o alcoolismo, que
melhor cabem em estudos especializados, o que nenhuma
contesta é que grande parte de todo alcool ingerido
permanece no organismo por mais de 24 horas. E como por
alcoolista se en-
64 C a r l o s G r a c i e
tende todo aquele que bebe uma nova dose de alcool antes
que a anterior tenha sido totalmente eliminada, pode-se
concluir que o número de alcoolistas é lamentavelmente bem
maior do que geralmente se supõe.
Não vem sem propósito aqui repetir as palavras de
um criminalista patrício:
"Não raro, o alcoólico se desconhece e é
desconhecido. Muita gente com quem lidamos,
muita gente que não escandaliza o meio social com
atitudes grotescas dos bêbados cambaleantes, ou
perturbadores da ordem pública, é mais alcoolica do
que estes infelizes. Primeiramente, porque não dão
mostras de estar alcoolizadas: há creaturas que,
quasi sem o sentir, Se intoxicam e são capazes de
praticar crimes em estado de aparente normalidade.
Tais são os que matinalmente substituem ou
acompanham o café com genebra, cognac,
aguardente portugueza ou cachaça, ou outro tóxico
qualquer; antes do almoço, tomam uma abrideira,
mais usualmente o vermouth;
Introdução ao Jiu-Jitsu 65
almoçam com uma garrafa de vinho; ingerem
alguns chopps no decurso do dia; tornam a tomar
aperitivo antes do jantar; jantam bebendo vinho,
rebatem o café com licores e continuam pela noite a
ingerir bebidas."
Não importa que o regime adotado seja ou não
integralmente êsse, para se poder afirmar que as bebidas
alcoolicas são sempre prejudiciais, variando, é claro, a sua
ação tóxica com a quantidade e gráo de concentração, a
temperatura ambiente, a idade, constituição, saúde e hábito
do indivíduo.
Os maus efeitos do alcool podem até fazer-se sentir
pela simples absorção através da pele, razão pela qual as
fricções desta natureza, repetidas ou extensas, são
desaconselháveis. Não esqueçamos a experiência clássica
dos ovos submetidos simplesmente aos vapores do álcool,
dos quais nasceram sêres horrivelmente deformados.
* * *
Embora causando os mais variados prejuizos à
criatura humana, em seu conjunto, pode a
66 C a r l o s G r a c i e
nocividade do álcool mostra-se mais acentuadamente em um
ou vários órgãos e respectivas funções.
Assim, por exemplo, o estômago, o figado, o coração,
os pulmões, os rins, o sistema glandular, isolada ou
combinadamente, mais cedo ou mais tarde, de forma até
mortal, não deixam de acusar os estragos sofridos. O cortêjo
de enfermidades, perturbações e deficiências que, direta ou
indiretamente, decorrem do uso (e ainda mais do abuso) das
bebidas aludidas é enorme. Entre elas muitas há cuja simples
citação nada adiantaria aos que não estivessem
familiarizados com a nomenclatura científica. Os que mais se
queiram convencer dos malefícios invocados, si não lhes
bastar a experiencia própria e o que da alheia podem tirar
com observação bem intencionada, com facilidade
encontrarão leitura que os oriente devidamente.
Não podemos, entretanto, passar adiante, sem aludir,
embora superficialmente aqui, a outras consequências do
alcoolismo.
O cérebro, por exemplo, e suas funções são
particularmente afetados pelo vício da bebida. Quando o
povo diz que o “alcool sobe à cabeça”
Introdução ao Jiu-Jitsu 67
mostra mais uma vez como despretensiosa e humilde é a sua
sabedoria calcada comumente em profundas realidades. De
todo o nosso organismo é o cérebro a parte que mais
rapidamente atrai o alcool e o conserva por mais tempo. As
inflamações, congestões, e lesões decorrentes, os focos de
amolecimento (miolo mole, como se diz vulgarmente), etc.,
com as consequentes perturbações mentais, devem, por si
sós, bastar para animar-nos a uma luta sem tréguas contra
tão declarado inimigo da raça.
Os males causados ao sistema nervoso, ao sangue,
ao metabolismo não devem igualmente ser esquecidos,
assim como a influência degradante e destrutiva exercida
sôbre os órgãos e funções sexuais, em que a sua ação se faz
particularmente sentir, quer na criatura propriamente, quer na
descendência, como já vimos mas não é demais repetir.
À ilusão de artificial alegria, aumento de força
muscular e sexual descontroladas, estados mais ou menos
passageiros, uma vez cessada a exaltação, sucede
inevitavelmente a triste realidade de uma depressão
acabrunhante. Para vencer esta, a vítima apela para novas
doses e, numa ca-
68 C a r l o s G r a c i e
dência cada vez mais acelerada, numa intoxicação constante
e crescente, ao lado de toda sorte de sofrimentos físicos,
pode ir até o “delirium tremens”, macabro epílogo das
psicoses alcoolicas.
* * *
Não nos enganemos com a fugaz euforia ou com os
efêmeros prazeres do sensualismo provocados por excitantes
de qualquer espécie. Estes, muito embora possam
apresentar-se sob a máscara de tonificantes, nada mais
fazem do que concentrar e esbanjar em curtos momentos
energias de que, em todo o nosso conjunto, carecemos
permanentemente para uma vida harmônica. A sobrecarga a
que é submetido o organismo para refazer as reservas e os
desgastes afeta, por via de regra de forma irreparavel, a sua
própria capacidade. E a decadência, o envelhecimento pre-
coce, a morte prematura são corolários certos.
Há sêres que, pela sua resistência acima do normal,
parecem desmentir a regra. No entanto, nem siquer
constituem exceção à mesma. Pudéssemos nós observar
através de uma penetrante
Introdução ao Jiu-Jitsu 69
clarividência no espaço e no tempo, e a analogia entre a sua
trajetória e a dos conhecidos perdulários seria flagrante.
Quando vemos dois indivíduosgastadores, sempre
nos parece mais rico aquele que mais ostenta, ainda que
disponham ambos de igual fortuna. Todavia, além de não ser
essa a verdade na hipótese que formulamos, bem pode o que
gasta mais (ou de mais) estar desbaratando os seus bens
enquanto o outro esteja, apenas, se utilizando dos próprios
rendimentos. Sómente quando os fatos ou as aparências
indicam o empobrecimento do que desperdiçou é que nos
apercebemos da sua orientação errada. Uma pergunta que
frequentemente nos acode: por que os homens que, com
louvavel compreensão, já concordaram em não “dopar” os
cavalos, não estendem a si mesmos, coerentemente, num
lógico humanismo, tão justa e benéfica proteção?...
Defendamo-nos, pois. Nada de alcool e de quaisquer
excessos. E si bem que, tanto seja êrro desperdiçar como
guardar usurariamente, si tivermos de infringir a Lei, dos
males o menor. Reconhecendo, embora, que a virtude está
sempre no meio termo, a ter de agir menos acertada-
70 C a r l o s G r a c i e
mente no campo que, por óbvias razões, veladamente
estamos abordando, antes nos aproximemos mais do
avarento que do perdulário.
Cremos bastar o que já vimos e concluimos sôbre o
principal causador inconteste de superlotação dos hospitais,
manicômios e prisões, e reconhecido como perturbador da
ordem social, destruidor das reservas defensivas físicas e
morais do indivíduo, deformador da própria personalidade
humana, para que sejamos dispensados de alongar mais
êste capítulo.
Contentemo-nos, portanto, na sinalização da estrada
do aperfeiçoamento individual, em colocar um bem visivel
aviso de perigo no desvio que, mostrando-se, embora,
atraente a passos desprevenidos, fatalmente conduz ao
abismo de inexoraveis quedas.
O fumo
Constitue outro grande veneno, mais lento e subtil,
mas, por isso mesmo, muito perigoso. Como si não
bastassem as impurezas e deficiências que a vida moderna
causa, sobretudo nas grandes cidades, ao ar que respiramos,
valemo-uso dêste, ainda como veículo dos vários tóxicos
contidos no tabaco.
Si fôsse “feio” fumar, por vaidade, quando mais não
fôra, fumariamos menos.
Mas, para nosso mal, convencionou-se que é
“bonito”, e até requintadamente elegante, ter um tição
fumarento pendurado nos labios e, enquanto o nosso senso
estético não for reconduzido ao bom caminho, nada
poderemos esperar do bom gosto como entrave a êsse
hábito, tão desagradavel aos que dele estão libertos e nocivo
a toda a gente.
No entanto, examinadas friamente, as atitudes do
fumante são simplesmente ridículas; de
72 C a r l o s G r a c i e
um cômico tal que aos olhos das gentes de outras épocas em
que esse vício era completamente desconhecido não
poderiam deixar de causar, no minimo, a mais espontânea
hilaridade. Si pensarmos bem, mesmo, esse riso teria mais
fundamento do que aquêle com que hoje manifestariamos a
nossa surpresa si vissemos um indivíduo a fumar com o
nariz, isto é, com um ou dois cigarros, direta ou
“piteiramente”, espetados nas ventas. Temos para nós que
logo procurariamos justificar o disparate como uma
estilização do rapé…
Que esta imagem não vá, todavia, servir como
lançamento de moda. Mas, como primeiro argumento – aliás,
o menor de todos – contra costume infelizmente tão
generalizado, que o grotesco a que nos referimos não deixe
de pesar na meditação de cada um. Estamos certos de que,
depois de um sereno exame, à luz da razão e das bôas
maneiras, o uso de chupeta por todos nós, ainda depois de
adultos, nos pareceria, por muitos motivos, bem mais
admissivel que o do tal tiçãosinho, sob qualquer das suas
formas, côres e tamanhos.
Introdução ao Jiu-Jitsu 73
Não seria imprescindivel apelar para os graves
malefícios desse vício para poder-se encontrar argumentos
contrários ponderaveis. Entre êstes, por exemplo, figura a
alteração desordenada do ritmo respiratório, com todos os
efeitos imediatos ou consequentes. Si atentarmos a que, para
fumar, digamos, um cigarro, imprimimos à nossa respiração
uma quantidade de inspirações, retenções e expirações, das
mais arbitrárias e irregulares profundidades e durações,
interrompidas, cortadas ou prolongadas sem qualquer regra,
iniciando umas quando não terminadas outras, e vice-versa;
si multiplicarmos pelo número de cigarros fumados
diariamente, e através de meses e anos, esta desritmada
cadência de paradas bruscas e arrancadas violentas, de
continuadas contrações e distensões musculares, de
irregulares compressões e dilatações, a cada passo, sem
norma e finalidade consciente e bôa, afetando delicados
sistemas, aparelhos, órgãos, tecidos e funções tão
necessários a um bom estado físico e mental, concluiremos
que também a ação mecânica decorrente do hábito de fumar
constitue, por si só, uma razão capaz de nos induzir à
escolha de melhor caminho.
74 C a r l o s G r a c i e
* * *
Ademais, todos sabemos, embora nem sempre de
maneira perfeita, a falta que nos faz o oxigênio. Entretanto,
por mais pobre que dêle seja o meio ambiente,
principalmente nos lugares populosos, dotados, além de tudo,
de vegetação deficiente, achamos maneira de debilitá-lo
ainda mais dêsse indispensavel elemento vital, consumindo,
para alimentar a combustão do tabaco, parte do que
deveríamos receber para as nossas necessidades. Dir-se-ia
que, no combate multiforme que movemos à nossa própria
vitalidade, poude a nossa malícia obstinada inventar uma
espécie de maligno filtro incandescente, à guisa de pôsto
aduaneiro nas fronteiras externas das nossas vias
respiratórias, no qual o precioso oxigênio é considerado
perigoso contrabando…
Independente, pois, dos males de que é positivo
portador, o vício de fumar já seria fundadamente condenavel
pelo grande bem de que nos priva.
* * *
Introdução ao Jiu-Jitsu 75
Todavia, nem são êsses somente os inconvenientes
do vício, nem tão pouco são os piores. Inintoxicando e
embrutecendo o indivíduo, entorpecendo-lhe a vontade e a
inteligência, são bem mais profundos os distúrbios do
tabagismo. Diversos são os tóxicos que o tabaco contém e
que, inhalados ou deglutidos são depois absorvidos. No que
respeita à nicotina, por exemplo, a absorção (cêrca de 1
miligr. por cigarro) é tão rápida que si uma mulher que
amamenta se põe a fumar, o leite apresenta imediatamente o
tóxico citado!
E que dizer do verdadeiro crime que tantas futuras
mães praticam ao se entregarem ao vicio de fumar (ou ao
hábito das bebidas alcoolicas) até em pleno período de
gestação?
Que harmonia será lícito esperar em sêres que, afora
possíveis encargos hereditários, são, desde o ventre
materno, submetidos a venenos que mesmo às creaturas
completamente formadas causam indeléveis estragos?
* * *
Quando os pessimistas (que, em geral, são
fumantes) afirmam que uma desgraça nunca
76 C a r l o s G r a c i e
vem só, deveriam – e aí com toda razão – aplicar o ditado à
nicotina, sempre acompanhada de outros elementos nocivos,
inhalados ou deglutidos, como o amoniaco, cianurêto de
amonea, potassa, cal, litina, óxidos de manganês, de ferro,
de carbono, silício, ácidos sulfúrico, clorídrico, fosfórico,
azótico, carbônico, cianídrico e prússico, combinados com
bases e princípios aromáticos muito tóxicos, aldeído fórmico,
resinas, cêra ou gordura, nicotianina, derivados da piridina,
parvolina, “et-coetera”, sem esquecer a colidina, da qual meia
gota é suficiente para matar uma rã.
Si é numeroso o séquito de elementos malfeitores,
muito maior é o número dos males que causam, pois, cada
um daqueles, isoladamente, pode dar origem a vários dêstes.
As perturbações cardiacas, respiratórias e nervosas,
por desgraça nem sempre alarmantes ou imediatas,
frequentemente disfarçando a sua causa, mas que
invariavelmente se estabelecem nos fumantes, ainda não
induziram, infelizmente, as criaturas humanas a destruir a
praga que insensatamente criaram e cultivam.
Introdução ao Jiu-Jitsu 77
É verdade que, no passado, nos domínios de certo sultão,
quem fosse pegado afumar teria os lábios cortados ou o
nariz – si pilhado a tomar rapé; sabe-se, tambem, que em
alguns paises os fumantes já foram punidos com multas,
pena de prisão, duzias de pauladas e até com a própria
morte; os plantadores, comerciantes e importadores do ramo
já estiveram, em determinada época, sujeitos a variados e,
por vezes, duríssimos castigos físicos, confiscação de bens e
também pena de morte. Já um papa excomungou os
fumantes. Mas esta coação de nada adiantou. Antes pelo
contrário. Tentadoramente atraido pelo fruto proibido, o
homem foi procurar na literatura e na falsa ciência
justificativas para o seu êrro.
Com efeito, já se definiu o tabaco como “herva
perfumada, muito salubre para fazer distilar e consumir os
humores supérfluos do cérebro; que faz passar a fome e a
sêde”; já foi considerado como “planta divina”, vulgarmente
conhecida como herva santa, herva de todos os males e
antídoto da desgraça; as suas “estupendas propriedades
medicamentosas e aromáticas” correram mundo e, em
relativamente pouco tempo, foi o fumo ministrado em pílulas,
xaropes, in-
78 C a r l o s G r a c i e
fusões, fumigações e banhos, com indicação especial nos
casos de asma, escrófulas, cancer, epilepsia, hidropsia, etc.;
já se escreveu mesmo que “quem vive sem tabaco não é
digno de viver; alegra e purifica os cérebros humanos e
educa as almas para a virtude”...
Com fundamento nesta última asserção, tão absurda
quanto às demais e tantas outras parvoices do mesmo jaez, é
que o fumo chegou a ser introduzido nos conventos, como
grandemente util aos que fazem voto de castidade, em razão
dos seus reconhecidos efeitos profundamente depressivos
sobre a função sexual, Como si, pelo caminho do vicio, se
pudesse sensatamente aspirar a qualquer virtude ou, para
servir à obra do Creador, fosse justamente adequado
procedimento transgredir as suas sábias leis!
No que respeita a êste ponto, é hoje também sabido
que os efeitos maléficos do tabaco (como os do alcool) não
param aí, nem, ainda, na abolição da energia viril, mas se
fazem sentir através da própria descendência, podem
provocar a esterilidade e o abôrto e tém contribuído para que,
com o suceder das gerações, a gestação e o parto, que
deveriam continuar, como nos animais, a
Introdução ao Jiu-Jitsu 79
constituir normalmente processos naturais, cada vez mais se
tenham transformado em períodos exageradamente
incômodos, dificeis e por vezes perigosos na sagrada missão
da maternidade. Não é, pois, arbitrariamente que em
modernas legislações se veda às mulheres de menos de 50
anos o trabalho nas fábricas de indústria verdadeiramente tão
prejudicial à raça.
Porque certos sintomas, como tonteiras, náuseas,
vômitos, enxaquecas, etc., com que a natureza evidencia a
sua repulsão quando fumamos os primeiros cigarros, deixam
de manifestar-se tão gritantemente quando já estamos
intoxicados (embora para dar lugar a consequências mais
graves), concluimos cômoda e sofisticamente pela inocuidade
do vicio.
E, no entanto, quantas dispepsias crónicas, hipo ou
hiperpsias, irregularidades intestinais, gastralgias,
emagrecimentos rápidos ou persistentes não encontram nele
a mais fácil e acertada explicação?
Sem sairmos do aparelho digestivo, desde a boca até
os intestinos, não há tabagista que não apresente qualquer
dêsses ou dos males que a se seguir enumeramos: gengivo-
estomatites, lesões
80 C a r l o s G r a c i e
dentárias, leucoplasias, máu hálito, cancer dos fumantes,
faringite catarral crônica, faringite atrófica, úlceras, aerofagia,
diarréas de origem tabágica, males hepáticos, tais como:
modificações estruturais do parênquima, degenerescência
gordurosa, desequilibrio da função glicogênica. A diminuição
das secreções gástricas é coisa comprovada como também o
são as perturbações que à função digestiva acarreta o
simples fato de trabalhar o indivíduo em manufaturas de
fumo.
Ainda no que respeita a esta tão importante função
não tem o fumante como deixar de prejudicá-la, ao se colocar
permanentemente num beco sem saída para enfrentar o
ptialismo constante: ou lança fora a saliva que lhe é indispen-
sável ou a engole com a indesejável carga de venenos já
mencionados.
No tocante ao aparelho respiratório, a coloração
característica que passa a apresentar a mucosa nasal, o
consequente entumecimento, o não raro corrimento mucoso
ou mucoso-purulento não vão aqui citados com caráter de
novidade. A irritação da laringe alteração do timbre de voz, pi-
garro, tosse e bronquite crônicos são decorrências por
demais reconhecidas para exigirem de nós ar-
Introdução ao Jiu-Jitsu 81
gumentação probante. A paralisia dos centros respiratórios
do bulbo nas intoxicações fortes é fato cientificamente
comprovado.
Si o fumante pudesse, por alguns instantes, ter a
visão perfeita do estado lastimável das suas vias
respiratórias, talvez a simples repugnância o levasse a
abandonar o máu hábito. Entretanto, a expectoração dos que
se libertam dele não deixa a menor dúvida sôbre isto, às
vezes durante meses a fio: uma autêntica e surpreendente
limpeza de chaminé…
A lentidão com que se elimina esta parte mais
grosseira deveria fazer-nos pensar no que ocorre com a parte
mais subtil e, assim, compreender porque não desaparecem
instantaneamente os efeitos do manhoso envenenamento
uma vez cessada a causa. Desta forma, não desanimariamos
tão facilmente quando, após somente oito dias do abandono
do cigarro, não temos consciência de qualquer diferença
sensível para melhor.
Se lançarmos nossas vistas para o aparelho
circulatório, outra não será também a evidente conclusão em
tantos e tantos casos de hipertonia, aceleração ou
retardamento do pulso, claudicação
82 C a r l o s G r a c i e
intermitente, arritmia, palpitações, angústia precordial,
palidez, anemia, sensação de grande fraqueza e
resfriamento, hipertensão arterial, arteriosclerose e acessos
de angina do peito.
Não temos receio de errar afirmando, ainda, que em
inúmeras ocasiões em que a transfusão de sangue se torna
recurso inútil ou acarreta distúrbios mais ou menos graves,
deve-se a ocorrência menos ao estado do paciente do que à
circunstância – em geral não considerada – de ser o doador
um grande fumante. Sobretudo si, nesta hipótese, acontece
que o socorrido não tem o hábito de fumar, é certo que
acentuadas perturbações se verificam, a começar pelo
sistema nervoso. E relativamente a este importantíssimo sis-
tema, que dizer dos males do tabagismo?
Deveriam, inquestionavelmente, merecer maior
atenção os ensinamentos extraidos das experiências a que
têm sido submetidos os animais. Já que o homem se valeu
de tais meios, convenhamos que não o fez movido por
qualquer insensata curiosidade ou desejo de divertir-se com
os sintomas resultantes do envenenamento de inofensivos
irracionais. Vamos, pois, ao encontro das louváveis
finalidades dos pesquisadores bem in-
Introdução ao Jiu-Jitsu 83
tencionados, tendo sempre presente que, em todos os casos
de intoxicação crônica, se averiguaram lesões da cortex
cerebral, congestão da medula e do encéfalo.
Afora os fenômenos gerais que se verificam ou
podem ocorrer na criatura humana, como o estado
vertiginoso, enfraquecimento da memória ambliopia ou
perturbações da visão, predisposição à surdez, paralisia
muscular, tremores, crises epileptiformes, convulsões, às
vezes seguidas de paralisia, devido à ação tetanisante sôbre
o sistema nervoso, soluços, falsa asma e tudo o que possa
decorrer da excitação ou inibição que o fumo causa ao
vago-simpático, as perturbações podem chegar até a
alienação mental. E si, felizmente, não é esta a hipótese mais
comum, não há como negar que se contam às centenas de
milhares as insônias, cefaléas, neuroses e psicoses
depressivas que o tabagismo causa ou agrava. Tudo o que
foi dito sôbre o medo, suas gradações, modalidades e
consequências, viria adequadamente repetido aqui.
Já foi também o fumo definido como o veneno do
pneumo-gástrico.84 C a r l o s G r a c i e
Inimigo incontestável da inteligência, cujo
embotamento promove, dando, sobretudo, aos tabagistas
intelectuais, momentânea ilusão de maior capacidade pela
excitação cerebral que provoca, acarreta depois depressões
cada vez maiores em intensidade e duração. Um suceder
alternado de altos e baixos, de artificial euforia e descabida
tristeza, como no caso do alcool. Permanente ambivalência.
Dúvida. Sequência interminável de encruzilhadas, a princípio;
de labirintos, depois. Neurastenia. Crescente e incontrolável
emotividade e angústia. Enfraquecimento da vontade.
Complexos, enfim.
Si considerarmos que não há fumante que não
apresente qualquer dos males citados neste capítulo ou – o
que é mais frequente – vários deles ao mesmo tempo; si não
julgarmos absurdo que, consoante o que asseguram autores
espiritualistas dignos de acatamento, ainda depois da morte
se fazem sentir as danosas consequências do tabagismo (e
do alcoolismo também), que cômodo sofisma nos poderá
desviar do caminho acertado?
* * *
Introdução ao Jiu-Jitsu 85
Os malefícios do tabaco, embora já até certo ponto
admitidos, ainda não são devidamente aquilatados. Quando a
dura lição da experiência, através das gerações, nos tiver
convencido da triste verdade, então o assunto provocará as
medidas universais já adotadas com relação a outros tóxicos
perfeitamente identificados como causadores de
depauperamento e degenerescência.
E preciso, sem dúvida, libertar a humanidade dêste
flagelo. Que as nossas relações com êle, si tiverem de ser
mantidas, se restrinjam à sua aplicação contra aqueles
aderentes bichinhos que às vezes nos atacam quando vamos
ao campo ou, então, contra aqueles outros que tanto
costumam atormentar as galinhas "deitadas".
Felizmente o tempo do obscurantismo já passou e,
com êle, a éra do tabaco como remédio. Para bem nosso, por
outro lado, a mocidade de agora, quando convenientemente
orientada nos desportos, não encontra muita dificuldade em
desinteressar-se ou libertar-se de tão pernicioso hábito. É,
porém, imprescindível que a infância e a adolescência, no lar
e na escola, sejam igualmente conduzidas nêsse sentido.
86 C a r l o s G r a c i e
Nada de pressão ou castigos violentos que
despertando a idéia do “fruto proibido” a que já aludimos,
antes constituem incentivo à reincidência do que acertado
corretivo. Atitudes inteligentemente protetoras e amigas,
esclarecedoras e conselheiras e, sobretudo, o exemplo.
Desde que se adquire o uso da razão, o livre arbítrio é uma
realidade. Embora essa realidade se apresente menos
evidente em uns seres do que em outros, jamais deve ser
anulada ou sufocada mas tão somente condicionada. Ao
invés de resolvermos pelos que já atingiram êsse estado,
devemos esforçar-nos por que resolvam êles por si mesmos,
acertadamente, inspirando-lhes nós as suas decisões.
Não constitui novidade que a criança começa a fumar
por espírito de imitação, para se parecer aos adultos. Na
mentalidade em formação do menino, principalmente,
instala-se a presunção de que o cigarro lhe confere não só a
aparência mas também as prerrogativas de rapazinho, pelo
menos. O cigarro é uma espécie de símbolo de liberdade,
ostentado, sempre que possível, como a tão ambicionada
chave da porta.
Introdução ao Jiu-Jitsu 87
É necessário destruir habilmente essas fantasias.
De que argumentos e autoridade, entretanto, se
poderão valer eficientemente professores, sacerdotes,
médicos, pais e até mães que são inveterados fumadores? Si
aqueles em quem o jovem é naturalmente levado a ver a
imagem da perfeição não se acham em condições de
proporcionar o mais eficaz dos ensinamentos – o são
exemplo – que resultados poderão esperar de verdades
razoavelmente expostas, embora, mas que, qual corpo sem
alma, porque não são vividas intimamente, não passam, na
realidade, de natimortas, num mundo agreste de curiosidade,
anceios, inclinações, desejos e instintos em constante
turbilhonar?
* * *
Si nos fosse permitido opinar, diríamos que o vício
deve sair como entrou: paulatinamente. A natureza não dá
saltos, mesmo quando estes sejam para a salvação. Assim
como ninguém começa por fumar vinte cigarros diariamente,
de
88 C a r l o s G r a c i e
igual modo poucos são os que conservam vontade e
organização suficientemente fortes para enfrentar os penosos
distúrbios de um abrupto e intransigente repúdio aos tóxicos
que, quasi sempre através de longos anos, se Ihes tenham
tornado familiares.
Aos que tenham contraido o hábito depois de adultos
menos dificil se tornará, é de supôr, uma providência radical.
Mas, salvo aquelas muIheres cuja tendência à imitação e
incontida curiosidade e "saliência" tanto têm de comum com o
que se passa com as crianças, não é isso o que realmente
sucede. No sexo masculino, quando se é razoavelmente
normal sob o ponto de vista glandular, dificilmente se contrai
o vício depois de homem feito. Deixando, pois, de parte as
raríssimas exceções, não avançaremos demasiado afirmando
que, por mais antigo e inveterado o vício, não há quem possa
sinceramente obtemperar que si diminuir, digamos,
mensalmente, um cigarro na sua “ração” diária isto Ihe
causará as torturas de uma insatisfação quase insuportável…
Conforme as condições peculiares a cada um, a redução
poderá ser mesmo semanal.
Introdução ao Jiu-Jitsu 89
Si, por conseguinte, leltor amigo, a sugestão pode
aplicar-se ao teu caso pessoal, que a campanha seja iniciada
desde já. Só a simples circunstância de te haveres
interessado por este livro demonstra evidentemente que és
um espírito de lutador.
Por isso, não te deves importar com o número de
“rounds” que possa durar a peleja: ao começá-la, ao chamar
ti a iniciativa do ataque, sentirás logo que estão contados os
dias de um dos teus maiores inimigos e a vitória, afinal,
legitimamente te pertencerá.
Abaixo, pois, mais esse pernicioso elemento
“quinta1colunistaú que, em teu organismo, só faz
traiçoeiramente preparar o terreno para as invasões mórbidas
e ajudá-las em sua obra nefasta!
* * *
Não é lógico que o homem, o ser mais perfeito que
habita a Terra, tenha vida mais curta que certos animais.
Somos dos que acreditam convictamente que
deveriamos viver mais do que qualquer irracional. Por isso, si
comparamos a atual duração média da vida humana com a
do papagaio, digamos, não
90 C a r l o s G r a c i e
compreendemos porque, quando um de nós se lembra de
viver 100 anos, o caso corre mundo, quasi semelhantemente
ao das cinco gêmeas americanas.
Imagine-se si, como qualquer cágado ou elefante que
não tenham ainda sido sujeitos ao regime imposto pelos
civilizados, cometesse alguem a extravagância de atingir os
200 anos!
Que amargurados não passariam a ser os seus dias
de múmia ambulante, si a descoberta arqueológica fosse
divulgada…
No entanto, a nosso vêr tudo isto seria normalissimo
si, através das gerações, com estranha perseverança, não
nós viéssemos afastando das leis naturais – Êsse
afastamento é de tal ordem, são tais as infrações que
ininterruptamente cometemos que si, apesar delas, ainda
conseguimos viver 80 anos e mais (Deus sabe como, às
vezes...), seria perfeitamente admissivel a média de 250 anos
si o homem vulgar conseguisse libertar-se de tantos hábitos
anti-naturais que obstinadamente vem cultivando séculos a
fio. Passariamos, então, a viver muito e bem, ao invés de
pouco e geralmente mal, como hoje em dia. A média atual
passaria a representar para a verda-
Introdução ao Jiu-Jitsu 91
deira ciência o que presentemente significa a mortalidade
infantil.
Não é, portanto, exagero afirmar-se que mesmo
aqueles que nos parecem morrer "de veIhos" nada mais são
do que vítimas, realmente, de velhice prematura.
* * *
Não pretendemos, com êste trabalho, porém,
reformar, de um golpe, o mundo. Não viria também
adequadamente aqui uma completa exposição das razões
por que assim pensamos. Deixamo-lo, por isto, para ocasião
futura,

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