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CARLOS GRACIE INTRODUÇÃO AO JIU-JITSU Edição Eletrônica 2022 Venda proibida Carlos Gracie. Introdução ao Jiu-Jitsu: Edição Eletrônica 2022. Primeira edição: Rio de Janeiro, Pongetti, 1948. Primeira edição eletrônica: Xanxerê, Guilherme Babo Editor, 2022. Pesquisa, transcrição do texto original, revisão, diagramação e digitalização das imagens por Guilherme Babo Sedlacek. Dados Internacionais de Catalogação (CIP) G731 Gracie, Carlos Introdução ao Jiu-Jitsu: edição eletrônica 2022 [livro eletrônico] / Carlos Gracie – 1. ed. rev. – Xanxerê, SC : Guilherme Babo Editor, 2022. 102 p. ; PDF ; 14,8cm x 21cm. ISBN 978-65-00-48412-0 1. Artes marciais - jiu-jitsu. 2. Defesa pessoal. 3. Alcoolismo – prevenção 5. Cigarros – Hábitos – Prevenção. I. Título. 22-117274 CDD 796.8152 Índice para catálogo sistemático: 1. Jiu-jitsu: Artes Marciais Asiáticas 796.8152 É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e autoria, sendo proibido qualquer uso para fins comerciais. iii Nota à edição eletrônica - 2022 Esta publicação tem por objetivo disponibilizar de o acesso de maneira gratuita aos pesquisadores, praticantes ou professores de jiu-jitsu que queiram entrar em contato e estudar aquele que – apesar de apresentado como uma “introdução” e o primeiro de “uma série planejada” – foi o único livro escrito e publicado por Carlos Gracie. Trata-se do primeiro livro sobre jiu-jitsu publicado no Brasil e o primeiro sobre o Jiu-Jitsu Gracie publicado em todo mundo. O mais velho de cinco irmãos, primeiro a aprender o jiu-jitsu com Maeda Mitsuyo, Carlos Gracie foi um dos precursores das lutas de vale-tudo no Brasil, além de competir contra outros lutadores de jiu-jitsu e judô brasileiros e japoneses há cerca de um século. Foi o professor de seus irmãos, bem como seu técnico, nutricionista, empresário e guia espiritual. Pai de vinte e um filhos e filhas, foi considerado o fundador de um clã de lutadores que até os dias de hoje figuram com destaque no mundo das artes marciais. No presente livro, que nunca mais foi editado ou reimpresso – o que em alguma medida contribuiu para que fosse pouco conhecido – Carlos Gracie aborda os aspectos físicos e mentais da prática do jiu-jitsu. Não são apresentados elementos práticos para treinamento e execução de técnicas, como em outras publicações posteriores de seu irmão Hélio, seus filhos ou sobrinhos. A preocupação de Carlos Gracie é demonstrar os benefícios da prática do jiu-jitsu para a educação de crianças, evitando o complexo de inferioridade e iv aquilo que hoje chamamos de bullying a partir do treinamento para a defesa pessoal. Também argumenta no sentido da defesa de adultos contra situações de agressão e discorre longamente sobre os malefícios do álcool e do fumo. Como o objetivo desta edição é tornar acessível o texto original, não foram feitas correções ou atualizações ortográficas. Todos os erros de tipografia, bem como a acentuação e ortografia utilizadas na publicação original foram mantidos. Por isso, não deve-se estranhar que uma mesma palavra seja grafada de diferentes maneiras – como “vicio” e “vício” – ou ainda que a ocorrência da palavra “jiu-jítsu” (com acento) seja encontrada somente na folha de rosto do livro. As páginas em branco correspondem ao verso das páginas ilustradas, como na edição original. Como única alteração realizada no texto original, foram eliminados os hífens separando palavras entre linhas da mesma página. Para que a paginação original fosse preservada, mantiveram-se apenas os hífens para separação de palavras ao fim das páginas. Assim, as numerações indicadas nos cantos superiores, correspondem às páginas originais. Utilizou-se o exemplar do constante na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro como fonte para a transcrição do texto. Este trabalho de transcrição e edição eletrônica é resultado do projeto de extensão “Essência do Jiu-Jitsu”, do Instituto Federal de Santa Catarina – Câmpus Xanxerê, realizado com auxílio do Edital PROEX n° 01/2019. Para o trabalho de transcrição, contribuíram os estudantes bolsistas Adalri Antonio Sabadin e Josué Porto Fornari. Guilherme Babo Sedlacek Xanxerê, julho de 2022 CARLOS GRACIE INTRODUÇÃO AO JIU-JÍTSU Prefácio de HENRIQUE PONGETTI RIO DE JANEIRO 1948 DEDICATÓRIA Seria êste pequeno trabalho demasiado incompleto se não o dedicasse a OSCAR SANTA MARIA nosso excelente aluno e amigo incondicional de todas as horas. De tal forma se integrou êle nas subtilezas e recursos do jiu-jitsu que, inspirado pela sua dedicação aos Irmãos Gracie, quando tive de enfrentar um dos mais perigosos adversários, chegou a ser o criador de um terrível e inesperado golpe do qual me prevaleci para, sem transgressão as leis da lealdade desportiva, deixar sem sentidos no tablado o meu antagonista. O AUTOR. Carlos Gracie Enquanto vocês vestem o quimono Na história dos nossos esportes os irmãos Gracie hão de ocupar um capítulo isolado. O que êles fizeram para aclimatar o jiu-jitsu ao Brasil, para comprovar a superioridade dêsse método de defesa individual sôbre todos os outros, constitue exemplo ímpar de perseverança e de bravura. Helio, Jorge, Gastão e Oswaldo, orientados por seu irmão mais velho Carlos, derrotaram mestres de luta livre e capoeiras temiveis, boxeadores e “massas brutas" habituados a desmoralizar o adversário com a simples apresentação do corpo semi-despido. Isso seria notável, mas não seria tudo, se êles não houvessem vencido professores nipônicos de jiu-jitsu, nascidos na terra-berço da diabólica luta, criados na prática dos seus golpes tão imprevistos, tão felinos, tão anatômicos, tão humanos em seu objetivo de paralisar a ofensa sem ferir o ofensor. 8 C a r l o s G r a c i e Carlos Gracie tem olhos azuis de poeta e uma calma de jogador de xadrez. Quem lhe observar o tipo não desconfia da soma de virtudes combativas que se ocultam debaixo daquela mascara de contemplador, daquele todo de homem marginal, habituado a ver as lutas do alto do palanque eburneo. Carlos Gracie fez de seus irmãos lutadores admiráveis, mas para o benefício nosso fez também deles grandes instrutores de jiu-jitsu. Só conheço a escola de Hélio – o mestre perfeito – frequentadissima por homens de todas as idades e de alta situação social que ali vão buscar, mais ainda do que uma incomparável arma de defesa: a saúde física e moral. Hélio aprimorou-se no estudo profundo dos golpes, tornando-se em certos casos um inovador; mas como mestre ampliou seus conhecimentos de fisiologia humana para resguardar seus alunos idosos de quaisquer surpresas. Um espetáculo admirável da sua academia é a aula suave de jiu-jitsu para êsses homens não mais jovens, mas jovens bastante para reagir contra o poder dissolvente da vida sedentária. O jiu-jitsu integral estará ao seu alcance pouco depois quando Introdução ao Jiu-Jitsu 9 a elasticidade dos membros e a circulação receberem o O. K. Este livro é o primeiro de uma série planejada por Carlos Gracie, a pedido dos entusiastas de jiu-jitsu no Brasil. É por assim dizer o seu prefácio, mas de uma importância capital. Reune as observações de um atleta que há anos põe em rigorosa prática os conselhos que ministra. Carlos vive em obediência aos ditames da natureza. Não bebe, não fuma, segue uma esclarecida norma alimentar. Seu físico nega a sua idade; os anos não conseguem fazer no seu corpo e no seu espírito os estragos habituais. Leiam atentamente êstes conselhos. São de um homem excepcional que fez e faz tudo quanto nestas páginas nos manda fazer. HENRIQUE PONGETTI Conhece-te a ti mesmo Oxalá jamais houvesse oportunidade para utilizar os conhecimentos do mais eficiente meio natural de defesa pessoal – o jiu-jitsu – senão para fins exclusivamente eugênicos e desportivos. Todos entretanto, na tão falada luta pela vida, em vez de olharmos para dentro de nós, onde os verdadeiros conflitos se processam e donde se projetam para fora, sob a forma de atritos de toda espécie,quando nos pareça oportuno vir novamente a público. Os que tiverem, então, a complacência de procurar conhecer mais a fundo o nosso ponto de vista sôbre a matéria fazendo-o consciente e voluntariamente, hão de proporcionar-nos, assim, o enorme conforto de verificarmos que a orientação por que pugnamos sendo, pelo menos, considerada digna de exame, não é semente perdida em terra esteril. Por hoje, já nos contentamos com que êsse algo do que devemos evitar, aqui abordado à guisa de introito, convite amigo à meditação e à prá- 92 C a r l o s G r a c i e tica, como tal seja recebido. Fica para mais tarde, se for cabível, voltarmos a este tema, que, em nossa mente e nosso coração, insiste por uma explanação mais ampla. Entre outras, por exemplo, e sem sairmos da parte puramente física, não é das menos convidativas a questão alimentar. Que sabemos nós verdadeiramente de como, quando, quanto e o que comer em harmonia com as leis naturais? Mas, paremos por aqui, antes que se esgote querido leitor, a tua já agora comprovada tolerância e, com justificada ironia, nos perguntes: por falar nisso, e o jiu-jitsu? Tens, em parte, razão. Embora não tenhamos procurado iludir-te mascarando êste opúsculo com um título pretensioso ou menos adequando, é natural que o termo jiu-jitsu, que nele figura constitua o motivo inspirador da tua sã curiosidade. É, por isso, nosso propósito esforçar-nos por satisfazê-la, no que for possível, em publicações futuras. Por se tratar, entretanto, de tarefa dificil, senão impossivel, em sua total amplitude, não fugiremos ao dever de, lealmente e desde já, te advertir de que pretender, apenas por meio de lei- Introdução ao Jiu-Jitsu 93 tura, conhecer de maneira profunda os segredos dessa tradicional arte de defesa e ataque, é o mesmo que querer estudar canto por correspondência. Não obstante, como no que se refere à prática que preconizamos muito se pode assimilar ou consolidar através da palavra escrita, a parte própriamente descritiva terá de nós, a seu tempo, o especial cuidado que exige. Antes, porém, de a iniciarmos, desejamos manifestar o nosso agradecimento a Hélio Gracie, nosso irmão mais moço, que com tôda boa vontade acedeu em figurar fotográficas que hão de ilustrar o nosso trabalho. Havendo êle adquirido e praticado em nossa academia – da qual chegou a ser precioso instrutor – os seus conhecimentos de jiu-jitsu, atingiu pelo seu esfôrço, observação, experiência, tenacidade e inteligência, um grau de aperfeiçoamento técnico, didático e pedagógico, neste particular verdadeiramente notável e raro no mundo ocidental. Êstes fatores, aliados à sua excepcional fibra de lutador, Ihe valeram o título de invicto que muito merecidamente ostenta até hoje, apesar de 94 C a r l o s G r a c i e haver enfrentado em sua carreira, por várias vêzes e sob as mais diversas modalidades, profissionais e amadores, inclusive nipônicos, de classe e valor ampla e pacificamente reconhecidos. A ti, também, leitor e amigo, o meu muito obrigado, e até a próxima. Se não te satisfiz que te não haja, ao menos, irremediàvelmente decepcionado. Introdução ao Jiu-Jitsu 95 ÍNDICE Dedicatória ……..…………………………………………….………. 5 Enquanto vocês vestem o quimono ……………………………….. 7 CONHECE-TE A TI MESMO Olhemos para dentro de nós mesmos – Esforcemo-nos por ser e não apenas por saber ………………………………………….. 11 MENTE SÃ A preparação para a defesa e não para o ataque – O homem produto da hereditariedade, meio e educação – O desporto como fator do aperfeiçoamento moral e psíquico – O medo – mal generalizado. Evitemo-lo na vida e educação da criança. – O jiu-jitsu desporto para todos …………………………………... 12 CORPO SÃO O jiu-jitsu defesa natural do fraco contra e forte – A saude mental e os cuidados com o corpo – Respeitemos as leis da saude .. 55 ALCOOL O grande inimigo – Estatísticas macabras – Citando um criminalista – A influência de alcool sôbre o cérebro – A ilusão da “falsa alegria” – Nem desperdiçar nem guardar usurariamente ..... 61 O FUMO Um veneno mais lento mas não menos perigoso do que o álcool – O ridículo de um vício “elegante” – Fumar é realmente um prazer? – Quanto nos custa esse "prazer"? – Um cortejo de males e perigos, em troca de uma efêmera e falsa distração ……….… 71vivemos a ver no nosso semelhante a causa de contrariedades, privações e sofrimentos que, a cada passo, surgem em nosso caminho. Daí as até agora inevitadas agressões, da mais variada natureza, as quais, pelas imperfeições que, nos indivíduos, dão origem às contendas isoladas, causam, entre povos, as catástrofes coletivas que, século atrás século, se vêm periodicamente manifestando - as guerras. 12 C a r l o s G r a c i e Todos sabemos disto, mas é mistér pôr em prática os nossos bons conhecimentos. Como o problema é individual, como toda reforma coletiva só pode ser estável e progressista si começar pelo indivíduo, como nenhum organismo é mais forte que o mais fraco de seus orgãos, cumpre a cada um de nós esforçar-se por ser e não, apenas, por saber. Mas, dirá o paciente leitor, a que propósito vêm estas considerações, num trabalho que, pelo menos ostensivamente, se propõe a preparar a divulgação dos segredos do jiu-jitsu? MENTE SÃ… Nada mais estamos sendo senão coerentes. Que o digam os que já tiveram oportunidade de cursar a nossa escola, que o comprovem os que por ela, estamos certos, ainda hão de passar. Não poderiamos, através da palavra escrita, divorciar-nos da orientação invariavelmente seguida em nossas aulas. Nunca tivemos em mira acirrar ânimos, provocar rixas, excitar temperamentos e adestrar corpos humanos para finali- MENINOS DE HOJE, HOMENS DE AMANHÃ Não deixe que seu filho entre na luta pela vida em condições desiguais e de inferioridade. O jiu-jitsu fará do seu filho um pequeno gigante. Introdução ao Jiu-Jitsu 15 dades que reduziriam os nossos discípulos a lamentaveis êmulos de galos de briga. Ao contrário, pensando convictamente que, em qualquer setor das lícitas atividades humanas, é sempre possivel construir, orientamo-nos neste último sentido. E, assim, preparando os nossos alunos para se defenderem eficientemente de qualquer ataque físico, nunca nos cansamos nem cansaremos de repetir que evitar as causas das agressões é sempre muito melhor do que revidar estas, embora com a indubitavel superioridade de meios naturais que o jiu-jitsu nos proporciona. Si, como até certo ponto se pode admitir, homem é, sob o aspéto bio-social, produto de hereditariedade, meio e educação, não vemos como, afetando êste último fator, poderiamos, em consciência reduzir a nossa tarefa ao campo puramente físico. Mais ainda se impõe a diretriz que adotamos si se levar em linha de conta que não encaramos a hereditariedade no sentido relativamente restrito que em geral se lhe empresta. Vemos no homem um herdeiro de si mesmo: colhe hoje o que ontem semeou; planta agora o que colherá amanhã. 16 C a r l o s G r a c i e Neste suceder de trocas, a exemplo do que se verifica com a natureza, pode a criatura humana ver o seu labor fartamente recompensado pelo segundo fator – o meio – que o acolhe, o alimenta, o aproxima cada vez mais da criatura integral, e a que deverá legar um dia, com suas verdadeiras realizações, a influência de sua vida. Sendo o homem um ser eminentemente social, é nas formas de se manifestar esta indisfarçavel interdependência que constitue elemento preponderante o terceiro fator – a educação. Fugiriamos ao nosso programa si, quanto a esta, fossemos pois unilaterais. * * * Jamais o saneamento mental deixou de constituir escopo relevante em nossa escola. E, dizemo-lo jubilosos, tem sido, quando se oferece ocasião, objetivo mais ou menos satisfatoriamente alcançado, mesmo em casos de início desanimadoramente rebeldes. Em verdade, qualquer desporto, quando devidamente praticado, sem desvirtuamento de qual- CASTIGADO! Um curso de jiu-jitsu livrará seu filho da escravidão imposta por meninos mal orientados. Introdução ao Jiu-Jitsu 19 quer de suas finalidades, pode e deve trazer ao indivíduo não somente benefícios físicos mas tambem psíquicos e morais. – Respeitadas essas condições, trata-se de matéria por demais pacífica para que nos alonguemos desnecessariamente buscando provar, por assim dizer, um axioma. No que respeita ao jiu-jitsu, então, essa verdade se torna de tal forma evidente que, quando o seu ensinamento é bem orientado, podem-se operar surpreendentes progressos no sentido propriamente educacional. Temos verificado que, em indoles aparentemente inacessíveis aos simples conselhos da ponderação, da experiência alheia, aos incentivos verbais, com o continuar das práticas e oportunas considerações, se vai operando uma subtil infiltração de sãos princípios que acabam por determinar uma verdadeira transformação benéfica de mentalidade e temperamento. O praticante, sem que se aperceba, muitas vezes, de como isto se dá, vai aos poucos se convencendo de que é sempre preferível aplicar “chaves” nos seus imponderados impulsos do que ter de usá-las contra os seus semelhantes, porque, com estas, evitam-se ou diminuem-se as conse- 20 C a r l o s G r a c i e quências do mal ao passo que, com aquelas, pode-se cortar o mal pela raiz. * * * Uma das criações negativas mais prejudiciais ao progresso humano é o mêdo. No entanto, lamentavelmente, é uma deficiência que quasi todos os que interferem na educação da criança procuram incutir-lhe nalma. Para reprimir expansões que, afinal, na maioria dos casos, – são perfeitamente naturais na primeira idade, procura-se – e pelas formas mais inconvenientes – intimidar o pseudo-faltoso, com fantasias, imagens, ameaças e até castigos corporais, sempre desaconselháveis e não raro crueis, que constituem a causa real de uma vida de fracassos. A criatura humana é, por assim dizer, obrigada a ver o desabrochar de sua consciência num ambiente que faz questão de se apresentar hostil ou tirano, que lhe mostra, desde o seu despertar para a vida, a adversidade e a agressão, que lhe impõe derrotas inexplicadas, desarmando-a de início na luta que vai empreender, incapacitando-a, muitas vezes, QUANDO ELES NÃO SABEM DEFENDER-SE O jiu-jitsu dá personalidade às crianças despertando-lhes o senso da responsabilidade. Introdução ao Jiu-Jitsu 23 para a conquista de uma felicidade mesmo relativa. Não é da nossa competência procurar aqui desvendar os refolhos da alma do homem, “êsse desconhecido”. Além disso, a Ciência, sobretudo nos últimos tempos, bastante se tem empenhado nesse sentido e não faltam trabalhos publicados, até em forma de divulgação deliberadamente popular, para que quem se interesse pelo assunto possa facilmente ficar a par de suas conclusões. Sem que, por essas razões, nós abalancemos a enumerar as várias modalidades dos chamados traumas psíquicos, expor sua gênese, como ocorrem, de que maneira evitá-los, que efeitos produzem, de que forma curar ou suavizar as suas consequências – o que, aliás, uma simples compilação permitiria – somos, entretanto, forçados a aludir particularmente a uma espécie de traumatismo moral que muita relação pode ter com a arte de que somos sinceros adeptos e propagandistas. * * * 24 C a r l o s G r a c i e Não há quem não se desgoste si for chamado de medroso. No entanto, em gráo mais ou menos sensível, de forma mais ou menos dissimulada, todos nós temos mêdo. Provavelmente, o nosso tolerante leitor ao ouvir de nós essa asserção, está suficientemente distante, para que possamos estar tranquilos quanto a uma demonstração sua em contrário, pelo menos imediata… Não estamos nos referindo simplesmente ao mêdo, êsse “amor à pele” como vulgarmente se diz, máscara sob a qual a miùde pode manifestar-se o instinto de conservação. Aludimos à timidez que, em quasi todos nós, se arraigou em nosso ânimo desde tenra idade, em virtude de uma ou várias ameaças, agressões ou humilhações (ou tudo isso ao mesmo tempo) que meninos maiores ou mais fortes nos infligiram nas normais contingências de toda infância. Já não queremos falar nos sêres débeis, subnormais, que quando nestes casos são, além disso, injustiçados, se transformam mais tarde em revoltadose acérrimos inimigos da sociedade. Basta que nos limitemos aos nossos próprios casos, às rusgas infantis que degeneram em pancadaria, na qual tenhamos levado a pior em virtu- NÃO O DEIXE INDEFESO O seu filho deverá saber jiu-jitsu para evitar as futuras consequências de uma infância amedrontada. Introdução ao Jiu-Jitsu 27 de inferioridade de nossos recursos momentâneos ou condições físicas. Rememoremos as vezes em que, mesmo sem havermos sofrido castigos físicos, fomos forçados a reconhecer na razão do mais forte a mais forte razão para inapelavel e injustamente cedermos. Si, com espírito de paciente pesquiza, prosseguirmos nessa busca através do tempo, quanta explicação clara vamos encontrar para o mêdo, que sob os mais variados disfarces, tão influente participação tem nos insucessos de nossa vida! Ora a dúvida, a indecisão, a timidez, o receio, levando-nos a um recuo no momento precisamente indicado para o avanço; ora o desespêro atirando-nos ao abismo de uma solução precipitada, absurda ou até criminosa; aqui, a revolta recalcada que explode; adiante, o pavor que, forçando-nos a uma fuga, nos leva à derrota quando uma simples expectativa serena nos conduziria vitória; a inveja, o despeito, a maledicência e o derrotismo; o desânimo, a apatia e o pessimismo; a cólera, o ódio, a vingança; um cortejo, enfim, de males morais, psiquicos, nervosos e propriamente físicos, que muitas vezes a psicanálise consegue tão bem interpretar. E as iniquidades que praticamos e que inutil- 28 C a r l o s G r a c i e mente procuramos justificar a nós mesmos com as de que teríamos sido vítimas anteriormente? Inutilmente, sim, porque o sofisma que às vezes consegue convencer multidões, tornando-se sempre inoperante ante a consciência do seu autor, não nos livra, além disso, das consequências do sofrimento que causamos ao nosso semelhante. Entretanto, por mais ousada ou ingênua que possa parecer a nossa afirmativa, para o desaparecimento dêstes e outros flagelos, tantas vezes oriundos de uma educação mal concebida e piormente aplicada, poderia contribuir enormemente a simples difusão da prática do jiu-jitsu. Mas, objetar-se-á com aparente razão e quiçá irônica dúvida: que remédio maravilhoso deve ser o jiu-jitsu, que tantos males poderiam ter os seus dias contados à simples aplicação dessa panacéia!... No entanto, rigoroso leitor amigo, o teu cépticismo não procede. Em geral, as verdades simples são as que com mais ligeireza regeitamos ou pomos de quarentena por não satisfazerem a complexidade ou não poderem acompanhar os malabarismos que costumamos imprimir aos nossos processos mentais. E, si nos permites uma permites uma pe- SACRIFIQUE TUDO ... mas não deixe que seu filho seja humilhado, pois tais Impressos refletem-se na vida adulta. O jiu-jitsu dará ao seu filho o mais elevado grau de confiança própria. Introdução ao Jiu-Jitsu 31 quena digressão, é essa uma das razões por que a Verdade, una, imutavel, mau grado manifestar-se sempre e em toda parte, através da infinita diversidade de formas e maneiras, ainda assim tão raramente consegue fazer-se compreender ou mesmo, perceber... Vivemos a confundir o que a nossa razão repele com aquilo que a mesma razão, apenas, não alcança em determinado momento. Daí a nossa cegueira voluntária – que, como sabemos, é a pior – a qual, atrofiando-nos o raciocínio, desestimulando-o ao desenvolvimento, não lhe permite em certos assuntos abranger amanhã mais do que ontem alcançava. Retomemos, entretanto, o fio. Podem manifestar-se no homem defeitos de natureza parasitária, perfeitamente comparáveis a certas hervas chamadas daninhas, cuja existência cria obstáculos a que as boas árvores – as virtudes humanas – cresçam, se expandam, frutifiquem. Enquanto as árvores são pequenas e a herva muita, a destruição desta, às vezes penosa, exige vigilância atenta, cuidado perseverante, trabalho renovado. A medida, porém, que aquelas vão subindo e ficando copadas, a limpeza do terreno vai se tornando mais suave, porque ao lado da resis- 32 C a r l o s G r a c i e tência que adquirem, a própria sombra que projetam vai privando a herva dos elementos de que carece para poder vingar. E, destarte, as frondes irmãs acabam por tocar-se, entrelaçar-se, proteger-se reciprocamente, monopolizar os benefícios da luz do sol; passam a manifestar, nos frutos que oferecem, nos encantos que dão à vista, o resultado do esfôrço protetor; demonstram, enfim, na opulência do pomar, os íntimos laços de solidariedade fraternal que a todas ligam para a vida. Assim são as virtudes humanas. Nenhuma se cultiva isoladamente, sem auxílio ou com prejuízo das demais. Não é possível evoluir realmente, progredindo num sentido e regredindo noutros. A exemplo do que sucede pelo universo em fora, analogicamente com o que se passa com o microcosmo humano, no qual se refletem sempre os benefícios ou malefícios feitos em qualquer de suas partes, assim no campo moral, a coesão e solidariedade afirmam-se de tal forma que, do Sol Espiritual, que não tem preferências, que não nasce apenas para alguns porque não conhece ocasos, não podem virtudes isoladas, como se vivessem em compartimentos estanques, receber, num exclusivismo im- EVITE O COMPLEXO DE INFERIORIDADE Mande ensinar Jiu-jitsu ao seu filho para que êle evite as recordações que o possam prejudicar futuramente. Introdução ao Jiu-Jitsu 35 possível, a luz sublime de uma imortalidade cada vez mais consciente. * * * O jiu-jitsu é um desporto praticavel em qualquer idade, desde que se o faça de modo adequado. Assim, seja qual fôr o sexo, desde a época escolar até a velhice, qualquer ser humano pode e deve familiarizar-se com os seus segredos. O praticante, desde as primeiras lições, começa a vislumbrar para depois convencer-se que, por mais estranho que isto antes Ihe pudesse parecer, também no mundo físico, a exemplo do que sucede na esfera espiritual, “tamanho não é documento”; que, portanto, não mais se justifica que, daí em diante, torne, volta e meia, a sentir-se anão num mundo às vezes adverso de gigantes! E se, depois de adultos, podemos assim libertar-nos de certos complexos de inferioridade, que benefícios não seria lícito e lógico esperar para uma geração nova, de cuja alma jamais tivesse sido alijada a fé, a confiança, a coragem, a lealdade, a noção do justo, enfim, todas as virtudes e atributos do Bem, sempre disposto a manifestar-se desde 36 C a r l o s G r a c i e o íntimo de toda criatura? Ninguém nasce ou é definitivamente mau. Os que se apresentam ou vemos sob êste aspecto são cegos ou transviados, cuja rota pode a cada instante ser alterada para melhor. O mal, pela sua natureza, é sempre de duração efêmera. Potencialmente, todos somos bons. A questão é falar a cada um a linguagem que possa entender, é estabelecer as condições propícias a que possa germinar a milagrosa semente guardada em todo coração humano. Não há quem nasça acovardado ou covarde. No entanto, qual de nós, na infância, frente a um hipotético ou real contendor, não se sentiu “menor” ou “maior”? E quantas vezes, pela vida em fora, em situações semelhantes, não experimentou a mesma sensação, não viu no seu semelhante um homem mais forte ou mais fraco, como argumento decisivo na forma de orientar a sua atitude? Seja por simples reminiscência ou porque, em determinadas circunstâncias, na maioria nos mostremos crianças de diferentes idades, o certo é que o “complexo do tamanho” nos acompanha e se torna avassalante sobretudo quando começam a decrescer as fôrças da mocidade. * * * UM MENINO QUE SABE JIU-JITSU… … sabe também que não deve agredir. Certo da sua superioridade, limita-se apenas a defender-se. Introdução ao Jiu-Jitsu 39 Por que não, pois, impedir que surja, por que não destruí-lo, si está ao nosso alcance fazê-lo? Por outro lado, criou-se a lenda de que os chamados malfeitores e valentões são homens de coragemacima do normal. Examinada friamente, porém, a sua atuação, verificamos que essa errônea suposição provém do fato de lhes caber a iniciativa de provocar ou agredir e porque agem na presunção de que a vítima não reagirá ou não se defenderá resoluta e eficientemente, inhibida como deve ficar ante a ameaça de uma agressão geralmente armada. Uma vez, porém, que encontram a resposta conveniente e imprevista, a sua arrogância e ousadia como que se desfazem por encanto. Para essas criaturas basta, quasi sempre, um dos muitos e espetaculares tombos que o praticante de jiu-jitsu sabe infligir, para que a sua razão seja colocada nos eixos. Aos que desconhecem por completo esta tão perfeita arte de defesa, custa admitir que, em certas situações críticas, a vítima possa ter o auto domínio para defender-se racionalmente. Puro engano. Quando não existe o mêdo, a mudança de uma 40 C a r l o s G r a c i e disposição integralmente pacífica para uma atitude de defesa e ataque faz-se sem dificuldades. O mêdo que, em tantas ocasiões nos põe estarrecidos, não é nada mais que um estado nascido no momento em que o homem duvida de suas fôrças, de seu poder. Quanto mais perfeita seja, portanto, a consciência de nossas possibilidades e recursos, mais confiantes enfrentaremos as situações. Por outro lado, além de não ser o conhecedor do jiu-jitsu afetado pela emotividade que pode dominar o leigo quando êste se vê em aperturas dêsse gênero, o automatismo que pode adquirir na preparação e aplicação das chaves é tal que a amnésia receiada, ou esquecimento do que aprendeu e exercitou, é praticamente impossível. Isto, aliás, pode ser facilmente compreendido com um exemplo. Já pensou o leitor na série de atitudes e providências subitamente tomadas quando, ao dirigirmos um automóvel, surge abruptamente à nossa frente um incauto transeunte ou outro veículo? Quanta coisa se faz, então, ao mesmo tempo, para evitar o desastre? Entretanto, vínhamos, às vezes, completamente distraídos, sendo a ocorrência inteiramente inesperada. NÃO HÁ CRIANÇAS COVARDES A timidez é produto de uma educação defeituosa. As crianças que aprendem jiu-jitsu são corajosas e leais. Introdução ao Jiu-Jitsu 43 Por que razão, nas agressões, quasi sempre 100 por cento esperadas, não poderemos agir guiados também pelo sub-consciente e, até, pensadamente? Ademais, em muitas defesas, os movimentos iniciais dos contragolpes coincidem com os que instintivamente fazemos ao sermos atacados; o leigo, todavia, não sabe como prosseguir, ao passo que o praticante completa vitoriosamente o gesto começado. O praticante adiantado, como em inúmeras oportunidades comprovámos em nossa escola, pode, de olhos vendados, desde que estabeleça contácto com um adversário leigo, vencê-lo de maneira inapelavel e, para êste último, surpreendente. Casos temos tido em que, por inverossimil que pareça, em competições amistosas, praticantes adestrados, lutando de pés e mãos amarrados, têm dominado contendores inexpertos. Si, com uma particula de fé, podemos remover montanhas por que não seremos capazes de fazê-lo com os obstáculos criados por um semelhante mal orientado? Quando temos confiança em nós e, sobretudo, êsse estado foi alcançado depois de compro- 44 C a r l o s G r a c i e vação de nossa experiência, mais facilmente somos senhores de nós mesmos. Não precisamos mais atiçar-nos ou dominar-nos mas tão sómente conduzir-nos, verificado que já teremos, então, que as tendências podem impelir-nos mas nunca compelir-nos. Não nos deixamos tão facilmente arrebatar pela cólera, sintoma de fraqueza que, se observarmos bem, mais frequentemente se manifesta nos caracteres débeis, nas crianças, velhos, doentes ou desequilibrados. Vem a serenidade, a branda firmeza, a impassibilidade racional, baseadas no sentimento de proteção. Pensando antes de agir, embora com a rapidez imensuravel do pensamento, não seremos arrastados, sem reflexão, pelas palavras e atos de quem quer que seja, por contingências que a nossa retidão, não podendo criar, não poderá também alimentar ou temer. Com espírito superior e positivo, sem peias convencionais ou recalques deturpantes, a tolerância, a indulgência, a complacência serão as faces do prisma cristalino através do qual o nosso discernimento será cada vez mais esclarecido pela luz da realidade. PROTEJA SEU FILHO ... ... contra as torturas da inferioridade, proporcionando-lhe com o jiu-Jitsu meios seguros de se defender. Introdução ao Jiu-Jitsu 47 Dificilmente voltaremos a ficar à mercê de circunstâncias que antes faziam perdêssemos o sangue frio, joguetes que nos tornavam de impulsos insensatos, nervosismos infundados, emotividade doentia, angústia torturante, incontinência verbal. Passando a respeitar cada vez mais aos outros e a nós mesmos, pelo hábito da honesta e justa apreciação, iremos substituindo pela moderação a violência, as atitudes selvagens. “Semeia um pensamento e colherás uma ação; semeia uma ação e colherás um hábito; semeia um hábito e colherás um caráter; semeia um caráter e serás senhor do teu próprio destino”. É uma verdade. E não há também dúvida que os benefícios que o jiu-jitsu proporciona são harmônicos, isto é, não somente físicos mas também psíquicos e morais. O seu exercitamento bem dirigido se reflete num aumento de perspicácia, de sagacidade, dessa penetração de espírito que prevê e pressente os embaraços, para evitá-los ou vencê-los sempre que possível. Numa competição desportiva entre técnicos, as atitudes táticas, as posições estratégicas se sucedem às vezes com 48 C a r l o s G r a c i e tal rapidez que a luta constitue uma verdadeira sequência de "tests". Apesar de todas as vantagens que inegavelmente o jiu-jitsu proporciona, lamentavelmente se verifica que, por ignorarem em que consiste verdadeiramente essa arte, os que mais dela necessitam são os que se mostram refratários a estudar e praticar os seus ensinamentos, tão uteis e neces- sários à fracos e fortes, pelas razões facilmente compreensíveis e, sobretudo, aos de temperamento belicoso, os quais, frequentemente por falta de uma educação conveniente, recorrem a processos intempestivos, perigosos e tantas vezes nocivos. * * * Chegados que somos a êste ponto, que dizer do porte de armas, uso tão arraigado em certos lugares e pessoas, que as leis quando o proíbem não conseguem evitar radicalmente? O condenável hábito de andar armado (apelamos para a sinceridade dos que o tiveram ou ainda o têm) deprime de tal forma o indivíduo que este quando, por circunstância alheia ao seu desejo, não tem em seu poder o que considera a sua insepara- VALE A PENA APRENDER JIU-JITSU Uma simples queda soluciona casos que poderiam trazer muitas complicações. Introdução ao Jiu-Jitsu 51 vel garantia, sente-se de tal maneira desprotegido, desamparado, que a sua angústia sobrepuja qualquer prazer que o mais pacífico e elevado ambiente lhe possa oferecer. Além dessa auto-sugestão de fraqueza, de incapacidade, dessa confissão de tendências, propósitos ou disposições lamentaveis, que ao invés de afastadas são assim alimentadas, dêsse menosprêzo preconcebido pela vida de nossos irmãos, não se pode, também, classificar êste costume, às vezes ostentado, como uma ameaça, uma provocação permanente ou, ainda, um insulto, à tranquilidade, aos justos brios, aos bons sentimentos e intenções dos nossos semelhantes ? E, se tudo isto não bastasse, haverá quem, de boa fé, possa negar o grande número de crimes que teriam sido impossíveis, si, no mau momento, a mão executora não tivesse ao seu alcance imediato a arma maléfica? E quantas vezes outras, a vítima, si conhecesse as defesas que o jiu-jitsu ensina, não teria evitado a desgraça, beneficiando-se a si mesma, ao desvairado atacante, às respectivas famílias, à própria sociedade? * * * 52 C a r l o s G r a c i e Caro amigo e quasi discípulo: não sabemos si quando te dispuzestea ler êste livro o fizeste por qualquer dos estados ou situações a que fazemos alusão nesta primeira parte. Certo é, porém, que, pelo menos em tese, qualquer uma ou várias das considerações aqui expendidas, ou outras semelhantes que longo e desnecessário seria enumerar, foram a causa real do teu interêsse por êste assunto. Si êsse interêsse é tal que não te foi fastidioso ou contrário às tuas concepções o que estas linhas contêm, é que as nossas mentalidades e maneiras de sentir em tal grau se harmonizam que não temo errar aconselhando-te a aprender e praticar o jiu-jitsu com a elevação de vistas e finalidades que certamente te animam. Êle nunca será em tuas mãos um recurso prejudicial para os teus semelhantes bem orientados, nem perigoso para os demais. Si não for esta a hipótese, preferível é que não prossigas até que te convenças profundamente, até que compreendas, oxalá sem sofrimento, que todo poder mal usado se volta, invariavelmente, mais cêdo ou mais tarde, contra quem dele se valeu abusivamente. Em qualquer caso, entretanto, convictos como PREPARE-SE PARA A VIDA Adquira as qualidades físicas, psíquicas e morais que o jiu-jitsu proporciona sob as formas de confiança coragem, precisão e saude. Introdução ao Jiu-Jitsu 55 estamos de que a necessidade e as vantagens de uma mente sã não são, sem justo fim, abordadas num trabalho desta natureza, alimentamos a esperança de que compreenderás porque, antes de entrarmos propriamente na matéria que constitue objeto ostensivo desta publicação, coerentemente nos detenhamos também um pouco em pensar como adquirir, conservar e empregar os benefícios decorrentes de um CORPO SÃO O jiu-jitsu constitue a defesa natural do fraco contra o forte. É uma espécie de processo nivelador pelo qual a força bruta, enfrentada e dominada pela sábia aplicação da mecânica racional, é levada a admitir que o ser humano, em lugar de ser encarado apenas como um corpo que dispõe de uma alma, deverá, antes, ser considerado como uma alma que possue um corpo. Isto, entretanto, seja qual for a orientação filosófica ou religiosa que sigamos, não deverá jamais significar menosprêso ou simples desatenção pelo corpo com que viemos a êste mundo. Não com- 56 C a r l o s G r a c i e prendemos, mesmo, como para aspirar à sabedoria, amar, adorar, sentir e servir a Deus, respeitando as suas leis, seja necessário ou permitido prejudicar uma de suas mais belas e perfeitas creações. Si é certo que as desharmonias de nossos pensamentos e sentimentos podem gerar males físicos, não é menos verdade que os cuidados que tenhamos com o nosso corpo se refletirão não somente neste, mas também na saúde mental de que todos carecemos para uma vida harmoniosa, alegre e feliz. É claro que não são necessárias aptidões especiais para que se possa ficar senhor de certos recursos do jiu-jitsu, que nos habilitem a uma defesa eficiente. Não percamos, porém, de vista que, além de o nosso programa, como a princípio dissemos, não se limitar a um restrito adestramento, seja qual fôr o objetivo visado será sempre melhor alcançado si nos valermos das nossas máximas possibilidades espirituais e físicas. O jiu-jitsu, não podendo escapar a esta regra geral, não é outra coisa que a sua aplicação à nossa defesa. Sendo, além do mais, um desporto, e dos mais Introdução ao Jiu-Jitsu 57 completos, como poderia desinteressar-se do preparo físico? Por que, pois, não nos esforçarmos por dotar o nosso corpo com elementos que facilitem as suas múltiplas e, por vezes, duras tarefas? Nenhum homem é suficientemente grande para se sobrepor às leis da natureza; ninguém é tão pequeno que possa ser esquecido pela mãe natura. Quanto mais, portanto, conheçamos as leis da vida, e com elas caminhemos em harmonia, tanto melhor será a nossa existência. Si, para o comum das criaturas, é ambição demasiada levar vida perfeita, não é, todavia, para todos nós, aspiração descabida ir-nos alijando de certos êrros, evidentes ao mais superficial exame; si nos parecer, portanto, difícil sa- ber tudo o que seja acertado fazer, certamente não será impossivel conhecer algo do que deva ser evitado. Sem saúde, no seu total significado, não pode haver felicidade completa. No entanto, por via de regra, em vez de estudarmos as leis que cumpre respeitar para evitar as doenças, preocupamo-nos mais em saber quais os medicamentos ou pro- 58 C a r l o s G r a c i e cessos indicados para debelar as consequências da nossa ignorância ou das nossas infrações conscientes. Como, geralmente, trazem sofrimento físico ou moral, não é raro emprestar-se às doenças o carater de punição ou castigo divino. São, no entanto, creação essencialmente humana, cuja ligação com a Lei Suprema consiste em servirem de veículo a paternais conselhos, como benéficos chamamentos à razão. Quando compreendidos a tempo, de muitas e maiores penas nos libertam, sobretudo na velhice, nos dias em que a paz passa a ser, por várias razões, anhélo mais acentuado em todo ser humano – nirvana somente possivel si somos sãos de alma e corpo. É, por êsse mesmo motivo, que as guerras, a que já aludimos de passagem, e outros males coletivos, constituem meios de evolução. Longe de nós, porém, indicá-los como remédio ou manifestações inevitáveis do progresso ou da civilização, em suas acepções verdadeiras. Olhamos a humanidade, em seu conjunto, como um corpo no qual, a exemplo do que sucede com o humano, se verificam por vezes perturbações ou erupções internas ou externas, locais ou generalizadas. São avisos ou advertências tendentes a não nos deixar Introdução ao Jiu-Jitsu 59 indefinidamente à mercê da sequência ilógica dos nossos desacertos, e que se valem dos consequentes efeitos dêstes para induzir-nos a meditar elevadamente e a corrigir-nos. Desafortunadamente, passado o período agudo – e apesar de cicatrizes remanescentes – nem sempre a lição nos serviu e reincidimos ou persistimos nas mesmas faltas. E as consequências só se fazem, então, esperar, quando estão reunindo argumentos mais convincentes… Dentro, pois, dêste ponto de vista, em uma humanidade mais perfeita, evidentemente, nem sequer pensaríamos em admitir sofrimentos coletivos, da mesma forma que a uma criatura razoavelmente sã não iriamos "aconselhar" uma furunculose. * * * Sem dúvida, após as crises, pode verificar-se a cura, com a eliminação de elementos nocivos. Mas o que interessa, seja ao individuo, seja à coletividade, é ter nos sintomas um guia e não objetivo primordial. Não significa dissimular, expulsar, transferir ou, ainda, destruir apenas os 60 C a r l o s G r a c i e efeitos. Temos de remontar às próprias causas, anulando-as; temos de respeitar as leis da saúde ao invés de concentrar a nossa inteira atenção e esforços em doenças mais ou menos terminais. Destruamos em nós a idéia errônea de que velhice e doença são irmãs inseparaveis e substituamo-la pela de que somente aquela deveria ser causa de nossa morte física, a qual tão suavemente se deveria processar “como o fruto maduro se desprende da árvore” que o sustinha e alimentava e retorna à terra para novas manifestações da vida. Para termos, entretanto, o direito de aspirar a uma morte normal, esforcemo-nos por que natural seja igualmente a nossa passagem pela terra, pois que, também no bom sentido, se pode dizer que o que se leva desta vida é a vida que se leva. Do contrário, no silogismo de nossa existência, não será uma sequência de premissas falsas que nos há de conduzir a uma conclusão verdadeira. Alcool É um dos nossos piores inimigos. Atuando prejudicialmente, de forma direta e imediata, sôbre aquele que o ingere, pode ainda levá-lo aos mais hediondos crimes contra os seus semelhantes. Outras vezes, por motivos os mais pueris, ou mesmo sem estes, é o promotor dos mais descabidos conflitos entre sêres que, em estado normal, podem até dedicar-se reciprocamente estima ou respeito profundos. Perpetuando,além disso, os seus malefícios através da hereditariedade, evidencia-se também um terrível inimigo da espécie humana. Permitamo-nos, em refôrço desta conhecida tese, e sem ultrapassar os limites do nosso objetivo, aludir, para os que nunca tenham tido qualquer contacto com a criminologia, à história daquela família de degenerados, acompanhada du- rante seis gerações seguidas, nas quais a ação do 62 C a r l o s G r a c i e alcool ora se manifestou abertamente como causa, ora como preparatória do campo propício à degenerescência. O relato abrange 1.200 pessoas, das quais 300 morreram na infância. Das 900 restantes 310 foram socorridas por instituições de caridade; 440 foram fisicamente vítimas de sua perversidade doentia; mais de metade das mulheres prostituiu-se; 130 foram criminosos confessos; 60 gatunos profissionais e 6 morreram assassinados. Perdôe-nos o bom leitor evocarmos tão triste quadro; fazemo-lo, tão somente, porque, reconhecendo a nossa falta de autoridade oficial, não nos pareceu acertado, em tão relevante capítulo, afirmar pura e simplesmente, sem o amparo de qualquer argumento oriundo de fonte fidedigna. Assim, estamos certos, não somente seremos relevados, mas também serão sem dúvida levados a pensar sôbre o assunto ainda mesmo os que jamais tenham tido desejo ou oportunidade de fazê-lo. Dir-se-nos-á, talvez: “não argumentemos com os exageros; há uma grande diferença entre Introdução ao Jiu-Jitsu 63 ser-se alcoolatra e beber-se com moderação, embora diariamente.” Si, como se costuma dizer, “comer e coçar é questão de começar”, no que respeita ao hábito da bebida, então, ditado se aplica às maravilhas. A não ser os que herdaram o vício, e que por conseguinte, atestam a verdade da tese, ninguém, de início, é alcoolatra. Mesmo os que se mostram sob êsse aspecto, começando, em virtude dos chamados fracassos da vida, por onde outros acabam, si examinados devidamente não fogem à regra da predisposição hereditária. Uma vez, porém, que, como todo mundo admite, ser ébrio habitual, tomar bebedeiras semanais, ou, ainda, mais espaçadas, constituem abusos gritantemente nocivos, deixemos um pouco de lado os alcoolatras para fixar a nossa atenção nos que bebericam, naqueles que bebem “moderadamente”, cuja verdadeira denominação pena é não seja mais conhecida – os alcoolistas. Pondo de parte as teorias sobre o alcoolismo, que melhor cabem em estudos especializados, o que nenhuma contesta é que grande parte de todo alcool ingerido permanece no organismo por mais de 24 horas. E como por alcoolista se en- 64 C a r l o s G r a c i e tende todo aquele que bebe uma nova dose de alcool antes que a anterior tenha sido totalmente eliminada, pode-se concluir que o número de alcoolistas é lamentavelmente bem maior do que geralmente se supõe. Não vem sem propósito aqui repetir as palavras de um criminalista patrício: "Não raro, o alcoólico se desconhece e é desconhecido. Muita gente com quem lidamos, muita gente que não escandaliza o meio social com atitudes grotescas dos bêbados cambaleantes, ou perturbadores da ordem pública, é mais alcoolica do que estes infelizes. Primeiramente, porque não dão mostras de estar alcoolizadas: há creaturas que, quasi sem o sentir, Se intoxicam e são capazes de praticar crimes em estado de aparente normalidade. Tais são os que matinalmente substituem ou acompanham o café com genebra, cognac, aguardente portugueza ou cachaça, ou outro tóxico qualquer; antes do almoço, tomam uma abrideira, mais usualmente o vermouth; Introdução ao Jiu-Jitsu 65 almoçam com uma garrafa de vinho; ingerem alguns chopps no decurso do dia; tornam a tomar aperitivo antes do jantar; jantam bebendo vinho, rebatem o café com licores e continuam pela noite a ingerir bebidas." Não importa que o regime adotado seja ou não integralmente êsse, para se poder afirmar que as bebidas alcoolicas são sempre prejudiciais, variando, é claro, a sua ação tóxica com a quantidade e gráo de concentração, a temperatura ambiente, a idade, constituição, saúde e hábito do indivíduo. Os maus efeitos do alcool podem até fazer-se sentir pela simples absorção através da pele, razão pela qual as fricções desta natureza, repetidas ou extensas, são desaconselháveis. Não esqueçamos a experiência clássica dos ovos submetidos simplesmente aos vapores do álcool, dos quais nasceram sêres horrivelmente deformados. * * * Embora causando os mais variados prejuizos à criatura humana, em seu conjunto, pode a 66 C a r l o s G r a c i e nocividade do álcool mostra-se mais acentuadamente em um ou vários órgãos e respectivas funções. Assim, por exemplo, o estômago, o figado, o coração, os pulmões, os rins, o sistema glandular, isolada ou combinadamente, mais cedo ou mais tarde, de forma até mortal, não deixam de acusar os estragos sofridos. O cortêjo de enfermidades, perturbações e deficiências que, direta ou indiretamente, decorrem do uso (e ainda mais do abuso) das bebidas aludidas é enorme. Entre elas muitas há cuja simples citação nada adiantaria aos que não estivessem familiarizados com a nomenclatura científica. Os que mais se queiram convencer dos malefícios invocados, si não lhes bastar a experiencia própria e o que da alheia podem tirar com observação bem intencionada, com facilidade encontrarão leitura que os oriente devidamente. Não podemos, entretanto, passar adiante, sem aludir, embora superficialmente aqui, a outras consequências do alcoolismo. O cérebro, por exemplo, e suas funções são particularmente afetados pelo vício da bebida. Quando o povo diz que o “alcool sobe à cabeça” Introdução ao Jiu-Jitsu 67 mostra mais uma vez como despretensiosa e humilde é a sua sabedoria calcada comumente em profundas realidades. De todo o nosso organismo é o cérebro a parte que mais rapidamente atrai o alcool e o conserva por mais tempo. As inflamações, congestões, e lesões decorrentes, os focos de amolecimento (miolo mole, como se diz vulgarmente), etc., com as consequentes perturbações mentais, devem, por si sós, bastar para animar-nos a uma luta sem tréguas contra tão declarado inimigo da raça. Os males causados ao sistema nervoso, ao sangue, ao metabolismo não devem igualmente ser esquecidos, assim como a influência degradante e destrutiva exercida sôbre os órgãos e funções sexuais, em que a sua ação se faz particularmente sentir, quer na criatura propriamente, quer na descendência, como já vimos mas não é demais repetir. À ilusão de artificial alegria, aumento de força muscular e sexual descontroladas, estados mais ou menos passageiros, uma vez cessada a exaltação, sucede inevitavelmente a triste realidade de uma depressão acabrunhante. Para vencer esta, a vítima apela para novas doses e, numa ca- 68 C a r l o s G r a c i e dência cada vez mais acelerada, numa intoxicação constante e crescente, ao lado de toda sorte de sofrimentos físicos, pode ir até o “delirium tremens”, macabro epílogo das psicoses alcoolicas. * * * Não nos enganemos com a fugaz euforia ou com os efêmeros prazeres do sensualismo provocados por excitantes de qualquer espécie. Estes, muito embora possam apresentar-se sob a máscara de tonificantes, nada mais fazem do que concentrar e esbanjar em curtos momentos energias de que, em todo o nosso conjunto, carecemos permanentemente para uma vida harmônica. A sobrecarga a que é submetido o organismo para refazer as reservas e os desgastes afeta, por via de regra de forma irreparavel, a sua própria capacidade. E a decadência, o envelhecimento pre- coce, a morte prematura são corolários certos. Há sêres que, pela sua resistência acima do normal, parecem desmentir a regra. No entanto, nem siquer constituem exceção à mesma. Pudéssemos nós observar através de uma penetrante Introdução ao Jiu-Jitsu 69 clarividência no espaço e no tempo, e a analogia entre a sua trajetória e a dos conhecidos perdulários seria flagrante. Quando vemos dois indivíduosgastadores, sempre nos parece mais rico aquele que mais ostenta, ainda que disponham ambos de igual fortuna. Todavia, além de não ser essa a verdade na hipótese que formulamos, bem pode o que gasta mais (ou de mais) estar desbaratando os seus bens enquanto o outro esteja, apenas, se utilizando dos próprios rendimentos. Sómente quando os fatos ou as aparências indicam o empobrecimento do que desperdiçou é que nos apercebemos da sua orientação errada. Uma pergunta que frequentemente nos acode: por que os homens que, com louvavel compreensão, já concordaram em não “dopar” os cavalos, não estendem a si mesmos, coerentemente, num lógico humanismo, tão justa e benéfica proteção?... Defendamo-nos, pois. Nada de alcool e de quaisquer excessos. E si bem que, tanto seja êrro desperdiçar como guardar usurariamente, si tivermos de infringir a Lei, dos males o menor. Reconhecendo, embora, que a virtude está sempre no meio termo, a ter de agir menos acertada- 70 C a r l o s G r a c i e mente no campo que, por óbvias razões, veladamente estamos abordando, antes nos aproximemos mais do avarento que do perdulário. Cremos bastar o que já vimos e concluimos sôbre o principal causador inconteste de superlotação dos hospitais, manicômios e prisões, e reconhecido como perturbador da ordem social, destruidor das reservas defensivas físicas e morais do indivíduo, deformador da própria personalidade humana, para que sejamos dispensados de alongar mais êste capítulo. Contentemo-nos, portanto, na sinalização da estrada do aperfeiçoamento individual, em colocar um bem visivel aviso de perigo no desvio que, mostrando-se, embora, atraente a passos desprevenidos, fatalmente conduz ao abismo de inexoraveis quedas. O fumo Constitue outro grande veneno, mais lento e subtil, mas, por isso mesmo, muito perigoso. Como si não bastassem as impurezas e deficiências que a vida moderna causa, sobretudo nas grandes cidades, ao ar que respiramos, valemo-uso dêste, ainda como veículo dos vários tóxicos contidos no tabaco. Si fôsse “feio” fumar, por vaidade, quando mais não fôra, fumariamos menos. Mas, para nosso mal, convencionou-se que é “bonito”, e até requintadamente elegante, ter um tição fumarento pendurado nos labios e, enquanto o nosso senso estético não for reconduzido ao bom caminho, nada poderemos esperar do bom gosto como entrave a êsse hábito, tão desagradavel aos que dele estão libertos e nocivo a toda a gente. No entanto, examinadas friamente, as atitudes do fumante são simplesmente ridículas; de 72 C a r l o s G r a c i e um cômico tal que aos olhos das gentes de outras épocas em que esse vício era completamente desconhecido não poderiam deixar de causar, no minimo, a mais espontânea hilaridade. Si pensarmos bem, mesmo, esse riso teria mais fundamento do que aquêle com que hoje manifestariamos a nossa surpresa si vissemos um indivíduo a fumar com o nariz, isto é, com um ou dois cigarros, direta ou “piteiramente”, espetados nas ventas. Temos para nós que logo procurariamos justificar o disparate como uma estilização do rapé… Que esta imagem não vá, todavia, servir como lançamento de moda. Mas, como primeiro argumento – aliás, o menor de todos – contra costume infelizmente tão generalizado, que o grotesco a que nos referimos não deixe de pesar na meditação de cada um. Estamos certos de que, depois de um sereno exame, à luz da razão e das bôas maneiras, o uso de chupeta por todos nós, ainda depois de adultos, nos pareceria, por muitos motivos, bem mais admissivel que o do tal tiçãosinho, sob qualquer das suas formas, côres e tamanhos. Introdução ao Jiu-Jitsu 73 Não seria imprescindivel apelar para os graves malefícios desse vício para poder-se encontrar argumentos contrários ponderaveis. Entre êstes, por exemplo, figura a alteração desordenada do ritmo respiratório, com todos os efeitos imediatos ou consequentes. Si atentarmos a que, para fumar, digamos, um cigarro, imprimimos à nossa respiração uma quantidade de inspirações, retenções e expirações, das mais arbitrárias e irregulares profundidades e durações, interrompidas, cortadas ou prolongadas sem qualquer regra, iniciando umas quando não terminadas outras, e vice-versa; si multiplicarmos pelo número de cigarros fumados diariamente, e através de meses e anos, esta desritmada cadência de paradas bruscas e arrancadas violentas, de continuadas contrações e distensões musculares, de irregulares compressões e dilatações, a cada passo, sem norma e finalidade consciente e bôa, afetando delicados sistemas, aparelhos, órgãos, tecidos e funções tão necessários a um bom estado físico e mental, concluiremos que também a ação mecânica decorrente do hábito de fumar constitue, por si só, uma razão capaz de nos induzir à escolha de melhor caminho. 74 C a r l o s G r a c i e * * * Ademais, todos sabemos, embora nem sempre de maneira perfeita, a falta que nos faz o oxigênio. Entretanto, por mais pobre que dêle seja o meio ambiente, principalmente nos lugares populosos, dotados, além de tudo, de vegetação deficiente, achamos maneira de debilitá-lo ainda mais dêsse indispensavel elemento vital, consumindo, para alimentar a combustão do tabaco, parte do que deveríamos receber para as nossas necessidades. Dir-se-ia que, no combate multiforme que movemos à nossa própria vitalidade, poude a nossa malícia obstinada inventar uma espécie de maligno filtro incandescente, à guisa de pôsto aduaneiro nas fronteiras externas das nossas vias respiratórias, no qual o precioso oxigênio é considerado perigoso contrabando… Independente, pois, dos males de que é positivo portador, o vício de fumar já seria fundadamente condenavel pelo grande bem de que nos priva. * * * Introdução ao Jiu-Jitsu 75 Todavia, nem são êsses somente os inconvenientes do vício, nem tão pouco são os piores. Inintoxicando e embrutecendo o indivíduo, entorpecendo-lhe a vontade e a inteligência, são bem mais profundos os distúrbios do tabagismo. Diversos são os tóxicos que o tabaco contém e que, inhalados ou deglutidos são depois absorvidos. No que respeita à nicotina, por exemplo, a absorção (cêrca de 1 miligr. por cigarro) é tão rápida que si uma mulher que amamenta se põe a fumar, o leite apresenta imediatamente o tóxico citado! E que dizer do verdadeiro crime que tantas futuras mães praticam ao se entregarem ao vicio de fumar (ou ao hábito das bebidas alcoolicas) até em pleno período de gestação? Que harmonia será lícito esperar em sêres que, afora possíveis encargos hereditários, são, desde o ventre materno, submetidos a venenos que mesmo às creaturas completamente formadas causam indeléveis estragos? * * * Quando os pessimistas (que, em geral, são fumantes) afirmam que uma desgraça nunca 76 C a r l o s G r a c i e vem só, deveriam – e aí com toda razão – aplicar o ditado à nicotina, sempre acompanhada de outros elementos nocivos, inhalados ou deglutidos, como o amoniaco, cianurêto de amonea, potassa, cal, litina, óxidos de manganês, de ferro, de carbono, silício, ácidos sulfúrico, clorídrico, fosfórico, azótico, carbônico, cianídrico e prússico, combinados com bases e princípios aromáticos muito tóxicos, aldeído fórmico, resinas, cêra ou gordura, nicotianina, derivados da piridina, parvolina, “et-coetera”, sem esquecer a colidina, da qual meia gota é suficiente para matar uma rã. Si é numeroso o séquito de elementos malfeitores, muito maior é o número dos males que causam, pois, cada um daqueles, isoladamente, pode dar origem a vários dêstes. As perturbações cardiacas, respiratórias e nervosas, por desgraça nem sempre alarmantes ou imediatas, frequentemente disfarçando a sua causa, mas que invariavelmente se estabelecem nos fumantes, ainda não induziram, infelizmente, as criaturas humanas a destruir a praga que insensatamente criaram e cultivam. Introdução ao Jiu-Jitsu 77 É verdade que, no passado, nos domínios de certo sultão, quem fosse pegado afumar teria os lábios cortados ou o nariz – si pilhado a tomar rapé; sabe-se, tambem, que em alguns paises os fumantes já foram punidos com multas, pena de prisão, duzias de pauladas e até com a própria morte; os plantadores, comerciantes e importadores do ramo já estiveram, em determinada época, sujeitos a variados e, por vezes, duríssimos castigos físicos, confiscação de bens e também pena de morte. Já um papa excomungou os fumantes. Mas esta coação de nada adiantou. Antes pelo contrário. Tentadoramente atraido pelo fruto proibido, o homem foi procurar na literatura e na falsa ciência justificativas para o seu êrro. Com efeito, já se definiu o tabaco como “herva perfumada, muito salubre para fazer distilar e consumir os humores supérfluos do cérebro; que faz passar a fome e a sêde”; já foi considerado como “planta divina”, vulgarmente conhecida como herva santa, herva de todos os males e antídoto da desgraça; as suas “estupendas propriedades medicamentosas e aromáticas” correram mundo e, em relativamente pouco tempo, foi o fumo ministrado em pílulas, xaropes, in- 78 C a r l o s G r a c i e fusões, fumigações e banhos, com indicação especial nos casos de asma, escrófulas, cancer, epilepsia, hidropsia, etc.; já se escreveu mesmo que “quem vive sem tabaco não é digno de viver; alegra e purifica os cérebros humanos e educa as almas para a virtude”... Com fundamento nesta última asserção, tão absurda quanto às demais e tantas outras parvoices do mesmo jaez, é que o fumo chegou a ser introduzido nos conventos, como grandemente util aos que fazem voto de castidade, em razão dos seus reconhecidos efeitos profundamente depressivos sobre a função sexual, Como si, pelo caminho do vicio, se pudesse sensatamente aspirar a qualquer virtude ou, para servir à obra do Creador, fosse justamente adequado procedimento transgredir as suas sábias leis! No que respeita a êste ponto, é hoje também sabido que os efeitos maléficos do tabaco (como os do alcool) não param aí, nem, ainda, na abolição da energia viril, mas se fazem sentir através da própria descendência, podem provocar a esterilidade e o abôrto e tém contribuído para que, com o suceder das gerações, a gestação e o parto, que deveriam continuar, como nos animais, a Introdução ao Jiu-Jitsu 79 constituir normalmente processos naturais, cada vez mais se tenham transformado em períodos exageradamente incômodos, dificeis e por vezes perigosos na sagrada missão da maternidade. Não é, pois, arbitrariamente que em modernas legislações se veda às mulheres de menos de 50 anos o trabalho nas fábricas de indústria verdadeiramente tão prejudicial à raça. Porque certos sintomas, como tonteiras, náuseas, vômitos, enxaquecas, etc., com que a natureza evidencia a sua repulsão quando fumamos os primeiros cigarros, deixam de manifestar-se tão gritantemente quando já estamos intoxicados (embora para dar lugar a consequências mais graves), concluimos cômoda e sofisticamente pela inocuidade do vicio. E, no entanto, quantas dispepsias crónicas, hipo ou hiperpsias, irregularidades intestinais, gastralgias, emagrecimentos rápidos ou persistentes não encontram nele a mais fácil e acertada explicação? Sem sairmos do aparelho digestivo, desde a boca até os intestinos, não há tabagista que não apresente qualquer dêsses ou dos males que a se seguir enumeramos: gengivo- estomatites, lesões 80 C a r l o s G r a c i e dentárias, leucoplasias, máu hálito, cancer dos fumantes, faringite catarral crônica, faringite atrófica, úlceras, aerofagia, diarréas de origem tabágica, males hepáticos, tais como: modificações estruturais do parênquima, degenerescência gordurosa, desequilibrio da função glicogênica. A diminuição das secreções gástricas é coisa comprovada como também o são as perturbações que à função digestiva acarreta o simples fato de trabalhar o indivíduo em manufaturas de fumo. Ainda no que respeita a esta tão importante função não tem o fumante como deixar de prejudicá-la, ao se colocar permanentemente num beco sem saída para enfrentar o ptialismo constante: ou lança fora a saliva que lhe é indispen- sável ou a engole com a indesejável carga de venenos já mencionados. No tocante ao aparelho respiratório, a coloração característica que passa a apresentar a mucosa nasal, o consequente entumecimento, o não raro corrimento mucoso ou mucoso-purulento não vão aqui citados com caráter de novidade. A irritação da laringe alteração do timbre de voz, pi- garro, tosse e bronquite crônicos são decorrências por demais reconhecidas para exigirem de nós ar- Introdução ao Jiu-Jitsu 81 gumentação probante. A paralisia dos centros respiratórios do bulbo nas intoxicações fortes é fato cientificamente comprovado. Si o fumante pudesse, por alguns instantes, ter a visão perfeita do estado lastimável das suas vias respiratórias, talvez a simples repugnância o levasse a abandonar o máu hábito. Entretanto, a expectoração dos que se libertam dele não deixa a menor dúvida sôbre isto, às vezes durante meses a fio: uma autêntica e surpreendente limpeza de chaminé… A lentidão com que se elimina esta parte mais grosseira deveria fazer-nos pensar no que ocorre com a parte mais subtil e, assim, compreender porque não desaparecem instantaneamente os efeitos do manhoso envenenamento uma vez cessada a causa. Desta forma, não desanimariamos tão facilmente quando, após somente oito dias do abandono do cigarro, não temos consciência de qualquer diferença sensível para melhor. Se lançarmos nossas vistas para o aparelho circulatório, outra não será também a evidente conclusão em tantos e tantos casos de hipertonia, aceleração ou retardamento do pulso, claudicação 82 C a r l o s G r a c i e intermitente, arritmia, palpitações, angústia precordial, palidez, anemia, sensação de grande fraqueza e resfriamento, hipertensão arterial, arteriosclerose e acessos de angina do peito. Não temos receio de errar afirmando, ainda, que em inúmeras ocasiões em que a transfusão de sangue se torna recurso inútil ou acarreta distúrbios mais ou menos graves, deve-se a ocorrência menos ao estado do paciente do que à circunstância – em geral não considerada – de ser o doador um grande fumante. Sobretudo si, nesta hipótese, acontece que o socorrido não tem o hábito de fumar, é certo que acentuadas perturbações se verificam, a começar pelo sistema nervoso. E relativamente a este importantíssimo sis- tema, que dizer dos males do tabagismo? Deveriam, inquestionavelmente, merecer maior atenção os ensinamentos extraidos das experiências a que têm sido submetidos os animais. Já que o homem se valeu de tais meios, convenhamos que não o fez movido por qualquer insensata curiosidade ou desejo de divertir-se com os sintomas resultantes do envenenamento de inofensivos irracionais. Vamos, pois, ao encontro das louváveis finalidades dos pesquisadores bem in- Introdução ao Jiu-Jitsu 83 tencionados, tendo sempre presente que, em todos os casos de intoxicação crônica, se averiguaram lesões da cortex cerebral, congestão da medula e do encéfalo. Afora os fenômenos gerais que se verificam ou podem ocorrer na criatura humana, como o estado vertiginoso, enfraquecimento da memória ambliopia ou perturbações da visão, predisposição à surdez, paralisia muscular, tremores, crises epileptiformes, convulsões, às vezes seguidas de paralisia, devido à ação tetanisante sôbre o sistema nervoso, soluços, falsa asma e tudo o que possa decorrer da excitação ou inibição que o fumo causa ao vago-simpático, as perturbações podem chegar até a alienação mental. E si, felizmente, não é esta a hipótese mais comum, não há como negar que se contam às centenas de milhares as insônias, cefaléas, neuroses e psicoses depressivas que o tabagismo causa ou agrava. Tudo o que foi dito sôbre o medo, suas gradações, modalidades e consequências, viria adequadamente repetido aqui. Já foi também o fumo definido como o veneno do pneumo-gástrico.84 C a r l o s G r a c i e Inimigo incontestável da inteligência, cujo embotamento promove, dando, sobretudo, aos tabagistas intelectuais, momentânea ilusão de maior capacidade pela excitação cerebral que provoca, acarreta depois depressões cada vez maiores em intensidade e duração. Um suceder alternado de altos e baixos, de artificial euforia e descabida tristeza, como no caso do alcool. Permanente ambivalência. Dúvida. Sequência interminável de encruzilhadas, a princípio; de labirintos, depois. Neurastenia. Crescente e incontrolável emotividade e angústia. Enfraquecimento da vontade. Complexos, enfim. Si considerarmos que não há fumante que não apresente qualquer dos males citados neste capítulo ou – o que é mais frequente – vários deles ao mesmo tempo; si não julgarmos absurdo que, consoante o que asseguram autores espiritualistas dignos de acatamento, ainda depois da morte se fazem sentir as danosas consequências do tabagismo (e do alcoolismo também), que cômodo sofisma nos poderá desviar do caminho acertado? * * * Introdução ao Jiu-Jitsu 85 Os malefícios do tabaco, embora já até certo ponto admitidos, ainda não são devidamente aquilatados. Quando a dura lição da experiência, através das gerações, nos tiver convencido da triste verdade, então o assunto provocará as medidas universais já adotadas com relação a outros tóxicos perfeitamente identificados como causadores de depauperamento e degenerescência. E preciso, sem dúvida, libertar a humanidade dêste flagelo. Que as nossas relações com êle, si tiverem de ser mantidas, se restrinjam à sua aplicação contra aqueles aderentes bichinhos que às vezes nos atacam quando vamos ao campo ou, então, contra aqueles outros que tanto costumam atormentar as galinhas "deitadas". Felizmente o tempo do obscurantismo já passou e, com êle, a éra do tabaco como remédio. Para bem nosso, por outro lado, a mocidade de agora, quando convenientemente orientada nos desportos, não encontra muita dificuldade em desinteressar-se ou libertar-se de tão pernicioso hábito. É, porém, imprescindível que a infância e a adolescência, no lar e na escola, sejam igualmente conduzidas nêsse sentido. 86 C a r l o s G r a c i e Nada de pressão ou castigos violentos que despertando a idéia do “fruto proibido” a que já aludimos, antes constituem incentivo à reincidência do que acertado corretivo. Atitudes inteligentemente protetoras e amigas, esclarecedoras e conselheiras e, sobretudo, o exemplo. Desde que se adquire o uso da razão, o livre arbítrio é uma realidade. Embora essa realidade se apresente menos evidente em uns seres do que em outros, jamais deve ser anulada ou sufocada mas tão somente condicionada. Ao invés de resolvermos pelos que já atingiram êsse estado, devemos esforçar-nos por que resolvam êles por si mesmos, acertadamente, inspirando-lhes nós as suas decisões. Não constitui novidade que a criança começa a fumar por espírito de imitação, para se parecer aos adultos. Na mentalidade em formação do menino, principalmente, instala-se a presunção de que o cigarro lhe confere não só a aparência mas também as prerrogativas de rapazinho, pelo menos. O cigarro é uma espécie de símbolo de liberdade, ostentado, sempre que possível, como a tão ambicionada chave da porta. Introdução ao Jiu-Jitsu 87 É necessário destruir habilmente essas fantasias. De que argumentos e autoridade, entretanto, se poderão valer eficientemente professores, sacerdotes, médicos, pais e até mães que são inveterados fumadores? Si aqueles em quem o jovem é naturalmente levado a ver a imagem da perfeição não se acham em condições de proporcionar o mais eficaz dos ensinamentos – o são exemplo – que resultados poderão esperar de verdades razoavelmente expostas, embora, mas que, qual corpo sem alma, porque não são vividas intimamente, não passam, na realidade, de natimortas, num mundo agreste de curiosidade, anceios, inclinações, desejos e instintos em constante turbilhonar? * * * Si nos fosse permitido opinar, diríamos que o vício deve sair como entrou: paulatinamente. A natureza não dá saltos, mesmo quando estes sejam para a salvação. Assim como ninguém começa por fumar vinte cigarros diariamente, de 88 C a r l o s G r a c i e igual modo poucos são os que conservam vontade e organização suficientemente fortes para enfrentar os penosos distúrbios de um abrupto e intransigente repúdio aos tóxicos que, quasi sempre através de longos anos, se Ihes tenham tornado familiares. Aos que tenham contraido o hábito depois de adultos menos dificil se tornará, é de supôr, uma providência radical. Mas, salvo aquelas muIheres cuja tendência à imitação e incontida curiosidade e "saliência" tanto têm de comum com o que se passa com as crianças, não é isso o que realmente sucede. No sexo masculino, quando se é razoavelmente normal sob o ponto de vista glandular, dificilmente se contrai o vício depois de homem feito. Deixando, pois, de parte as raríssimas exceções, não avançaremos demasiado afirmando que, por mais antigo e inveterado o vício, não há quem possa sinceramente obtemperar que si diminuir, digamos, mensalmente, um cigarro na sua “ração” diária isto Ihe causará as torturas de uma insatisfação quase insuportável… Conforme as condições peculiares a cada um, a redução poderá ser mesmo semanal. Introdução ao Jiu-Jitsu 89 Si, por conseguinte, leltor amigo, a sugestão pode aplicar-se ao teu caso pessoal, que a campanha seja iniciada desde já. Só a simples circunstância de te haveres interessado por este livro demonstra evidentemente que és um espírito de lutador. Por isso, não te deves importar com o número de “rounds” que possa durar a peleja: ao começá-la, ao chamar ti a iniciativa do ataque, sentirás logo que estão contados os dias de um dos teus maiores inimigos e a vitória, afinal, legitimamente te pertencerá. Abaixo, pois, mais esse pernicioso elemento “quinta1colunistaú que, em teu organismo, só faz traiçoeiramente preparar o terreno para as invasões mórbidas e ajudá-las em sua obra nefasta! * * * Não é lógico que o homem, o ser mais perfeito que habita a Terra, tenha vida mais curta que certos animais. Somos dos que acreditam convictamente que deveriamos viver mais do que qualquer irracional. Por isso, si comparamos a atual duração média da vida humana com a do papagaio, digamos, não 90 C a r l o s G r a c i e compreendemos porque, quando um de nós se lembra de viver 100 anos, o caso corre mundo, quasi semelhantemente ao das cinco gêmeas americanas. Imagine-se si, como qualquer cágado ou elefante que não tenham ainda sido sujeitos ao regime imposto pelos civilizados, cometesse alguem a extravagância de atingir os 200 anos! Que amargurados não passariam a ser os seus dias de múmia ambulante, si a descoberta arqueológica fosse divulgada… No entanto, a nosso vêr tudo isto seria normalissimo si, através das gerações, com estranha perseverança, não nós viéssemos afastando das leis naturais – Êsse afastamento é de tal ordem, são tais as infrações que ininterruptamente cometemos que si, apesar delas, ainda conseguimos viver 80 anos e mais (Deus sabe como, às vezes...), seria perfeitamente admissivel a média de 250 anos si o homem vulgar conseguisse libertar-se de tantos hábitos anti-naturais que obstinadamente vem cultivando séculos a fio. Passariamos, então, a viver muito e bem, ao invés de pouco e geralmente mal, como hoje em dia. A média atual passaria a representar para a verda- Introdução ao Jiu-Jitsu 91 deira ciência o que presentemente significa a mortalidade infantil. Não é, portanto, exagero afirmar-se que mesmo aqueles que nos parecem morrer "de veIhos" nada mais são do que vítimas, realmente, de velhice prematura. * * * Não pretendemos, com êste trabalho, porém, reformar, de um golpe, o mundo. Não viria também adequadamente aqui uma completa exposição das razões por que assim pensamos. Deixamo-lo, por isto, para ocasião futura,