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<p>Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>MENTES PERIGOSAS - o</p><p>psicopata mora ao lado</p><p>copyright © 2014 by Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>copyright © 2014 by Abbs Cursos e Palestras Eireli Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou</p><p>reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada ou estocada em</p><p>sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora.</p><p>Texto fixado conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995) Editor</p><p>responsável: Carla Fortino Editor assistente: Sarah Czapski Simoni Editor digital: Erick Santos Cardoso Preparação de texto: Luciana</p><p>Garcia Revisão de texto: Ana Maria Barbosa e Isabel Jorge Cury Projeto gráfico: Mateus Valadares Paginação: Linea Editora Ltda.</p><p>Capa: Adriana Bertolla Silveira Imagens da capa: Dimitri Otis/Getty Images 2ª edição, 2014</p><p>CIP-Brasil. Catalogação na Publicação</p><p>Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ</p><p>S578m</p><p>Silva, Ana Beatriz B. (Ana Beatriz Barbosa)</p><p>Mentes perigosas : o psicopata mora ao lado / Ana Beatriz Barbosa Silva. – 2. ed. – São Paulo : Globo, 2014.</p><p>ISBN 978-85-250-5783-9</p><p>1. Psicologia criminal. 2. Psicopatologia. I. Título.</p><p>CDD: 364.3</p><p>14-12841 CDU: 364.634:159.9.019.4</p><p>Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo S.A.</p><p>Av. Jaguaré, 1485 – 05346-002 – São Paulo / SP</p><p>www.globolivros.com.br</p><p>Sumário</p><p>Capa</p><p>Folha de rosto</p><p>Créditos</p><p>Dedicatória</p><p>Dedicatória 2</p><p>Prefácio</p><p>Introdução</p><p>Epígrafe</p><p>1 - Razão e sensibilidade - Um sentido chamado consciência</p><p>Epígrafe</p><p>2 - Os psicopatas - Frios e sem consciência</p><p>Epígrafe</p><p>3 - Pessoas no mínimo suspeitas</p><p>Epígrafe</p><p>4 - Psicopatas - Uma visão mais detalhada — Parte 1</p><p>Epígrafe</p><p>5 - Psicopatas - Uma visão mais detalhada — Parte 2</p><p>Epígrafe</p><p>6 - Os psicopatas no mundo profissional</p><p>Epígrafe</p><p>7 - Foi manchete nos jornais</p><p>Epígrafe</p><p>8 - Psicopatas perigosos demais</p><p>Epígrafe</p><p>9 - Menores perigosos demais</p><p>Epígrafe</p><p>10 - De onde vem isso tudo?</p><p>Ilustração</p><p>Epígrafe</p><p>11 - O que podemos fazer?</p><p>Epígrafe</p><p>12 - Manual de sobrevivência</p><p>Epígrafe</p><p>13 - Alguma coisa está fora da ordem</p><p>kindle:embed:0002?mime=image/jpg</p><p>ANEXO A</p><p>ANEXO B</p><p>ANEXO C</p><p>Sites úteis</p><p>Telefones úteis</p><p>Bibliografia</p><p>Contatos da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>Notas</p><p>A todas as pessoas “de bem” que acreditam e lutam por um mundo menos</p><p>violento e mais justo.</p><p>A todos aqueles que de alguma forma me ajudaram a colocar as ideias no papel.</p><p>Prefácio</p><p>Um livro perturbador</p><p>Gloria Perez</p><p>escritora e novelista</p><p>A gente resiste muito a acreditar na existência do MAL enquanto prática humana!</p><p>Mas ele está aí, vizinho, rondando cada um de nós, e nem damos conta! O que</p><p>assusta nessas pessoas é que elas parecem tão comuns, tão gente igual à gente.</p><p>E, no entanto, a incapacidade de ter empatia pelo outro revela claramente que</p><p>elas não são como a gente: psicopata não tem semelhante. Ele nem sabe o que é</p><p>isso.</p><p>Este é um livro perturbador, porque nos faz descobrir que estamos sempre</p><p>correndo o risco de ser a próxima vítima. Mas, ao mesmo tempo, nos dá as</p><p>únicas armas possíveis para nos defendermos deles: a possibilidade de</p><p>reconhecê-los para sair de perto!</p><p>Tem o mérito de tirar o psicopata do terreno do crime, onde o senso comum o</p><p>confina, para mostrar que a maioria deles não chega ao assassinato, ainda que</p><p>todos vivam de matar: sonhos, esperanças, a confiança que os outros depositam</p><p>neles.</p><p>E ainda os diferencia, no meio carcerário, daquela maioria que realmente é</p><p>recuperável e merece uma segunda chance.</p><p>A boa notícia, como diz a Ana Beatriz, é que eles são uma proporção muito</p><p>pequena da população, de modo que podemos continuar apostando na</p><p>humanidade!</p><p>Panorama detalhado do comportamento dos</p><p>psicopatas</p><p>Arthur Lavigne</p><p>advogado criminalista</p><p>É com satisfação que me vejo convidado para tecer algumas considerações sobre</p><p>o livro Mentes perigosas, obra tão oportuna quanto erudita que, ao se aprofundar</p><p>no estudo científico e teórico do psicopata, traça os caminhos “para reconhecer e</p><p>se proteger das pessoas frias e perversas, sem sentimento de culpa, que estão</p><p>muito perto de nós”.</p><p>Este livro, tão minucioso e detalhado, é de grande importância para a</p><p>sociedade. Ele proporciona ao leitor um panorama pormenorizado do</p><p>comportamento dos psicopatas, delineando prevenções, resguardos e defesas das</p><p>pessoas que eventualmente venham a se relacionar com eles.</p><p>Sem dúvida, a par do rigor técnico e do desembaraço com que a autora</p><p>discorre nesta obra sobre a psicopatia, podemos verificar a utilidade do trabalho</p><p>no sentido de estabelecer, de forma mais compreensível e útil, os meios com que</p><p>os desavisados podem identificar e, por conseguinte, melhor se defender das</p><p>investidas dos psicopatas.</p><p>Um livro de essência autenticamente psiquiátrica demonstra que a psicopatia</p><p>decorre da própria natureza do ser. Nas hipóteses dos casos enunciados neste</p><p>magnífico livro da dra. Ana Beatriz, naqueles em que há ação delituosa há de se</p><p>aplicar o Código Penal.</p><p>Mas o direito evidentemente não se omite quanto aos demais casos. A própria</p><p>Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, trouxe inúmeros institutos</p><p>cautelares, para que o juiz possa não só punir o autor como tomar determinadas</p><p>medidas.</p><p>Não são poucas as medidas judiciais na esfera cível que instrumentaram nossa</p><p>legislação, visando minimizar o sofrimento da vítima e fazer com que o autor do</p><p>dano seja punido dentro de determinado limite, a ponto de desencorajá-lo a</p><p>reincidir. Assim, entre outras ações, o ressarcimento por danos morais e</p><p>materiais é um tipo de punição, conforme for o caso.</p><p>Dessa forma, mais uma vez, parabenizo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa</p><p>Silva pelo seu admirável trabalho, útil a toda a sociedade. Mas, acima de tudo,</p><p>cumprimento-a por trazer a lume uma questão que há muito vem preocupando a</p><p>psiquiatria e o direito.</p><p>Normais na aparência, perigosos nas atitudes</p><p>Talvane M. de Moraes</p><p>psiquiatra forense</p><p>No momento em que recebi o convite da dra. Ana Beatriz Barbosa Silva para</p><p>comentar o teor do seu novo livro, disse à autora que era louvável e</p><p>corajosamente desafiadora a sua disposição de abordar um assunto tão complexo</p><p>e controverso em psiquiatria: falar sobre os psicopatas.</p><p>A controvérsia sobre o tema é histórica, conhecida dos profissionais de saúde</p><p>mental, sendo que alguns até evitam tratar do assunto porque a discussão poderá</p><p>cair em terreno movediço e cheio de dúvidas técnicas.</p><p>O livro aborda, com grande profundidade e clareza didática, a questão dos</p><p>transtornos de personalidade que são capazes de resultar em comportamentos</p><p>antissociais graves.</p><p>Transitando por uma exposição clara e cientificamente bem fundamentada, a</p><p>dra. Ana Beatriz faz um criterioso estudo de tais pessoas, que tanto preocupam</p><p>cada um de nós, pois têm aparência de indivíduos normais, mas são perigosas</p><p>em suas ações e atitudes. Enganosas em sua conduta, tornam-se de alto risco</p><p>para aqueles com quem convivem, em razão do que se passa em sua mente.</p><p>Podem estar próximas a nós, imperceptíveis até o momento do ataque final.</p><p>Podemos, numa cilada da vida, ser vítimas desses anormais.</p><p>Trata-se de uma obra indispensável àqueles que desejam se aprofundar no</p><p>mundo das diferenças psicológicas entre as pessoas, pois a diversidade do ser</p><p>humano estabelece o desafio sobre o conhecimento interpessoal. Não somente os</p><p>profissionais da área da saúde mental, mas todas as pessoas que desejam</p><p>compreender a natureza humana devem ler este livro.</p><p>Eu poderia falar muito mais, mas você, leitor, tem o direito de descobrir as</p><p>revelações do livro, caminhando pelos meandros dos desafios de Mentes</p><p>perigosas: o psicopata mora ao lado.</p><p>Introdução</p><p>O escorpião aproximou-se do sapo, que estava à beira do rio. Como não</p><p>o choro de uma pessoa que</p><p>amamos, o centro da afetividade entra em “ebulição”.</p><p>Com base nesses estudos, os cientistas puderam começar a responder a uma</p><p>série de perguntas sobre o comportamento social das pessoas. Entre essas</p><p>perguntas, destaco algumas: existe de fato algum mecanismo mental na espécie</p><p>humana responsável por nossos atos generosos ou solidários? Caso esse</p><p>mecanismo exista, ele, conforme a pessoa, nasce “ativado” ou “desativado”?</p><p>Esse processo de ligar/desligar é algo que aprendemos a partir do convívio social</p><p>ou trazemos conosco?</p><p>Com a utilização da ressonância magnética funcional, muitos pesquisadores</p><p>do comportamento humano passaram a utilizar o termo “cérebro social”. O</p><p>cérebro social pode ser definido como o somatório de todos os mecanismos</p><p>neurais (materiais e funcionais) envolvidos na orquestração de nossas interações</p><p>sociais. Assim, ele é responsável pelos pensamentos e sentimentos que</p><p>apresentamos quando nos relacionamos com outras pessoas.</p><p>O cérebro social nos possibilita a percepção do “Eu sei como você se sente”.</p><p>E isso ficou muito claro em um estudo com casais de namorados realizado da</p><p>seguinte forma: na primeira parte do experimento, um de cada vez foi colocado</p><p>no aparelho de ressonância magnética funcional e submetido a sensações</p><p>dolorosas classificadas como leves. Antes de receber o estímulo doloroso, o</p><p>voluntário era avisado. O simples aviso desencadeou a ativação de alguns</p><p>circuitos cerebrais, especialmente daqueles ligados ao medo e à ansiedade.</p><p>Ocorria uma espécie de antecipação à sensação dolorosa.</p><p>Na segunda parte, o voluntário era avisado de que, a partir daquele momento,</p><p>somente o(a) parceiro(a) receberia uma descarga dolorosa. O resultado foi</p><p>surpreendente. Mesmo sabendo que não sentiria mais dor, o voluntário passou a</p><p>ativar as mesmas áreas cerebrais ao ser avisado de que seu par sofreria. Isso</p><p>aponta para a existência de uma “ponte neural” (cérebro-cérebro) capaz de</p><p>promover alterações no funcionamento cerebral e, consequentemente, reações</p><p>fisiológicas nas pessoas com as quais interagimos.</p><p>Alguns animais também apresentam certo nível de conexão mental. Eles</p><p>conseguem, até certo ponto, sincronizar-se com os sentimentos alheios e</p><p>entender suas intenções. No entanto, nenhum ser tem esse sistema cerebral tão</p><p>aprimorado quanto o ser humano. Os cientistas acreditam que é justamente por</p><p>meio dessa conexão (cérebro-cérebro) estabelecida nos nossos relacionamentos</p><p>interpessoais que aflora a moralidade inata.</p><p>Ambas as teorias apontam para a mesma direção: somos seres sociais e, de</p><p>alguma forma, estamos fadados a estabelecer relações com pessoas ao nosso</p><p>redor. Se o nosso destino é a conexão com “o outro”, fica claro que o senso de</p><p>justiça e a compaixão são instrumentos poderosos para que relações amigáveis e</p><p>saudáveis se desenvolvam. Talvez esse seja o principal motivo para explicar por</p><p>que os seres humanos “já vêm de fábrica” com um dispositivo para distinguir o</p><p>certo do errado.</p><p>De alguma forma, o senso moral inato que os humanos apresentam parece</p><p>confirmar o velho dito popular “A união faz a força”. E, quando essa união se</p><p>estabelece por meio de sentimentos altruístas e comportamento éticos, a espécie</p><p>e sua perpetuação ganham um reforço significativo na corrida biológica da</p><p>evolução.</p><p>E a cultura, onde entra nisso?</p><p>É obvio que não podemos atribuir somente à genética e à evolução biológica</p><p>a nossa capacidade de solidariedade e de compaixão. A cultura à qual somos</p><p>expostos em determinada sociedade também nos influencia em diversos aspectos</p><p>de nossa personalidade.</p><p>É fundamental não confundir a nossa capacidade inata de distinguir o certo do</p><p>errado com a capacidade de tomarmos as atitudes corretas ao invés das erradas.</p><p>Uma coisa é saber o que deve ser feito; a outra é agir de acordo com esse</p><p>preceito.</p><p>Somos dotados não só do senso inato de moralidade, mas também de</p><p>inteligência para análise estratégica. Dessa forma, podemos, infelizmente, usar</p><p>nossa capacidade racional para “tapear” a moral inata e, com isso, tirar proveito</p><p>de determinadas situações.</p><p>As guerras talvez sejam o exemplo mais cruel dessa habilidade dos seres</p><p>humanos em driblar o inato senso moral. Para que um grupo enfrente o outro, é</p><p>necessária uma causa aparentemente justa ou moralmente correta. Como não</p><p>existe guerra moral, sempre haverá uma liderança habilidosa em manipular</p><p>mentalmente as diferenças culturais de forma a colocar uns contra os outros. A</p><p>manipulação moral acaba por despertar os instintos humanos relacionados à luta</p><p>pela sobrevivência. Monta-se, assim, o cenário perfeito para uma guerra</p><p>politicamente correta e moralmente maquiada. Todas as guerras são assim:</p><p>injustificáveis. O que ocorre de fato é a sórdida manipulação moral por parte de</p><p>uma pequena minoria humana.</p><p>Ao longo da nossa história, podemos observar incontáveis exemplos da</p><p>manipulação bélica da moral: ora legitimando suas ações por meio da</p><p>desqualificação étnica de determinados grupos humanos (perseguição aos judeus</p><p>na Alemanha nazista, por exemplo), ora pela utilização de motivos religiosos</p><p>(tais como as ações terroristas da Al-Qaeda), ou ainda pelo combate à opressão</p><p>em nome da liberdade (a invasão do Iraque pelos Estados Unidos).</p><p>A cultura influencia diretamente os valores morais de uma sociedade e cria</p><p>também os parâmetros que estabelecem o status hierárquico de cada membro</p><p>social. Sem dúvida alguma, a posse de bens materiais sempre foi algo valorizado</p><p>nas vitrines sociais. Mas já existiram tempos em que o status intelectual e a</p><p>retidão de caráter também eram características bastante valoradas entre os</p><p>membros de nossa sociedade.</p><p>O “saber” e o “ser” já foram bens de alto valor moral social. Hoje, vivemos os</p><p>tempos do “ter”, em que não importa o que uma pessoa saiba ou faça, mas sim</p><p>que ela tenha dinheiro (de preferência, muito) para pagar por sua ignorância e</p><p>por suas falhas de caráter.</p><p>Nesse cenário propício surge a cultura da “esperteza”: temos que ser ricos,</p><p>bonitos, etiquetados, sarados, descolados e muito invejados. O pior dessa cultura</p><p>é que seus membros sociais não se contentam apenas com o “ter”; é necessário</p><p>exibir e ostentar todos os seus bens. Assim ninguém esquece, nem sequer por um</p><p>minuto, quem são os donos da festa.</p><p>E é exatamente essa cultura que faz com que determinados jovens bem-</p><p>nascidos optem por caminhos rápidos, como a venda de drogas e produtos</p><p>contrabandeados, para obter o status social dos bem-sucedidos. Para esses</p><p>rapazes e moças, o caminho dos estudos, do saber e do “ser” é longo demais;</p><p>eles querem tudo, aqui e agora.</p><p>Vivemos em meio a uma cultura que privilegia o indivíduo em detrimento da</p><p>humanidade como um todo. Basta ver o que está acontecendo com o problema</p><p>da emissão acentuada de gases tóxicos, causando o efeito estufa e o aquecimento</p><p>global. Esse fato, entre tantos outros, mostra que equivocados valores como</p><p>esses começam a comprometer o futuro da espécie humana. Chegamos até aqui</p><p>por nossas habilidades sociais, e não por força física. Se quisermos manter nossa</p><p>supremacia biológica no mundo natural, teremos que rever nossos próprios</p><p>conceitos, criando uma nova cultura que se baseie na solidariedade e no sucesso</p><p>da coletividade.</p><p>A maldade original de fábrica</p><p>Se existe de fato um kit de moralidade instalado em nosso “hardware”</p><p>cerebral (nossa composição biológica), como explicar o comportamento</p><p>desumano dos psicopatas? Tudo indica que esses indivíduos apresentam uma</p><p>“desconexão” dos circuitos cerebrais relacionados à emoção. Só podemos ter</p><p>senso moral quando manifestamos um mínimo de afeto em relação</p><p>às pessoas e</p><p>às coisas ao nosso redor. Dessa maneira, o comportamento frio e perverso dos</p><p>psicopatas não pode ser atribuído simplesmente a uma má criação ou educação.</p><p>No meu entender, a origem da psicopatia está na incapacidade que essas</p><p>criaturas têm de sentir, e não de agir de forma correta.</p><p>Uma parcela significativa da população se recusa a acreditar nessa</p><p>“desumanidade de fábrica” que os psicopatas apresentam. Para entendermos</p><p>como uma mente pode funcionar sem emoção, é preciso conhecer os aspectos</p><p>neurofuncionais da emoção e da razão.</p><p>Emoção e razão</p><p>São as funções mais complexas produzidas pelo cérebro humano. Em nosso</p><p>cotidiano, ativamos operações mentais que envolvem sempre uma e outra (às</p><p>vezes, mais uma do que a outra). Apesar de elas serem parceiras constantes, os</p><p>mecanismos neurais geradores da emoção e da razão são distintos.</p><p>As emoções negativas são mais estudadas e compreendidas do que as</p><p>positivas, e a mais conhecida de todas é o medo. Este surge quando algo nos</p><p>ameaça, desencadeando uma ação de luta ou fuga. Outro exemplo de emoção</p><p>importante é a raiva. Ela se apresenta frequentemente como mecanismo de</p><p>defesa ou, ainda, como um meio de garantia de sobrevivência. Animais</p><p>costumam agredir seus semelhantes como forma de defender seu território,</p><p>disputar as fêmeas e estabelecer hierarquias sociais.</p><p>Nos seres humanos, as reações de medo e raiva se manifestam de forma</p><p>bastante semelhante àquela observada nos animais. No entanto, entre os seres</p><p>humanos, as emoções são moduladas pela razão. Doses certas de razão e emoção</p><p>é que fazem com que tenhamos comportamentos tipicamente humanos.</p><p>O sistema límbico, formado por estruturas corticais e subcorticais, é</p><p>responsável por todas as nossas emoções (alegria, medo, raiva, tristeza etc.).</p><p>Uma das principais estruturas do sistema límbico chama-se amígdala (ver figura</p><p>na página 178). Localizada no interior do lobo temporal, essa pequena estrutura</p><p>funciona como um “botão de disparo” de todas as emoções.</p><p>A razão, por sua vez, envolve diversas operações mentais de difícil definição</p><p>e classificação. Entre elas, podemos citar: raciocínio, cálculo mental,</p><p>planejamentos, solução de problemas, comportamentos sociais adequados.</p><p>A principal região envolvida nos processos racionais é o lobo pré-frontal</p><p>(região da testa): uma parte dele (córtex dorsolateral pré-frontal) está associada a</p><p>ações cotidianas do tipo utilitárias, como decorar o número de um telefone ou</p><p>objetos. A outra parte (córtex medial pré-frontal) recebe maior influência do</p><p>sistema límbico, definindo de forma significativa as ações tomadas nos campos</p><p>pessoais e sociais.</p><p>A interconexão entre a emoção (sistema límbico) e a razão (lobos pré-</p><p>frontais) é que determina as decisões e os comportamentos socialmente</p><p>adequados.</p><p>Razão de mais, emoção de menos</p><p>Um caso histórico ocorrido em meados do século XIX em Vermont, Estados</p><p>Unidos, evidenciou de forma muito clara essa estreita associação entre</p><p>comportamento moral e lesão cerebral:</p><p>Phineas Gage trabalhava em uma estrada de ferro. Era um sujeito benquisto</p><p>por todos, bom trabalhador e ótimo chefe de família. Em 1848, uma explosão no</p><p>local de trabalho fez com que uma barra de ferro perfurasse seu cérebro na</p><p>região denominada córtex pré-frontal (ver figura na página 178). De forma</p><p>espantosa, Gage não perdeu a consciência e sobreviveu ao ferimento sem</p><p>nenhuma sequela aparente. Ele caminhava normalmente e suas memórias</p><p>estavam preservadas. Contudo, com o passar do tempo, Gage se tornou outra</p><p>pessoa: indiferente afetivamente, sujeito a ataques de ira e sem nenhuma</p><p>educação com as pessoas ao seu redor. Gage nunca mais foi o homem que todos</p><p>admiravam, o homem “pré-acidente”. Embora ele nunca tenha assassinado</p><p>ninguém, sua vida foi uma patética sucessão de subempregos, brigas, bebedeiras</p><p>e pequenos golpes.</p><p>Tal história teve um papel decisivo no estudo do comportamento humano,</p><p>pois foi uma prova viva de que alterações no senso moral podem ocorrer quando</p><p>o cérebro sofre lesões em áreas específicas (nesse caso, o lobo pré-frontal). A</p><p>partir desse episódio, os cientistas passaram a pesquisar as raízes cerebrais do</p><p>comportamento amoral.</p><p>É importante sublinhar que os estudos clínicos sobre a psicopatia sempre</p><p>apresentaram grandes dificuldades de ser realizados. A investigação clínica</p><p>sobre a personalidade psicopática é uma tarefa extremamente complicada, pois</p><p>as testagens realizadas para esse fim dependem dos relatos dos avaliados. Os</p><p>psicopatas não têm interesse nenhum em revelar algo significante para os</p><p>pesquisadores e tentam sempre manipular a verdade para obter vantagens.</p><p>Tudo indica que o uso sistemático das novas técnicas de neuroimagens (RMf e</p><p>PET-SCAN) ajuda a reforçar o diagnóstico da psicopatia, uma vez que os estudos</p><p>recentemente realizados apontam para alterações características do</p><p>funcionamento cerebral de um psicopata. Pessoas sem nenhum traço psicopático</p><p>revelaram intensa atividade da amígdala e do lobo frontal (neste, de menor</p><p>intensidade) quando estimuladas a se imaginarem cometendo atos imorais ou</p><p>perversos. No entanto, quando os mesmos testes foram realizados num grupo de</p><p>psicopatas criminosos, os resultados apontaram para uma resposta débil nos</p><p>mesmos circuitos.</p><p>Se considerarmos que a amígdala é o nosso “coração cerebral”, entenderemos</p><p>que os psicopatas são seres sem “coração mental”. O cérebro deles é gelado e,</p><p>assim, incapaz de sentir emoções positivas, como o amor, a amizade, a alegria, a</p><p>generosidade, a solidariedade... Essas criaturas possuem grave “miopia</p><p>emocional”, e, ao não sentir emoções positivas, sua amígdala deixa de transmitir,</p><p>de forma correta, as informações para que o lobo frontal possa desencadear</p><p>ações ou comportamentos adequados. Chegam menos informações do sistema</p><p>afetivo/límbico para o centro executivo do cérebro (lobo frontal), o qual, sem</p><p>dados emocionais, prepara um comportamento lógico, racional, mas desprovido</p><p>de afeto.</p><p>Se partirmos da premissa de que a alteração primária dos psicopatas é uma</p><p>amígdala hipofuncionante, poderemos considerar as seguintes situações:</p><p>1. Psicopatas pensam muito e sentem pouco. Suas ações são racionais, e a razão</p><p>tende sempre a escolher, de maneira objetiva, o que leva à sobrevivência e ao</p><p>prazer. De forma primitiva, a razão usa sempre a “lei da vantagem”. Esse</p><p>modo de pensar privilegia o indivíduo, e nunca o outro ou o social.</p><p>2. Como espécie, os homens evoluíram muito mais por sua capacidade de</p><p>cooperação social do que por seus atributos individuais. Assim, podemos</p><p>perceber que os psicopatas são seres cuja tomada de decisão privilegia sempre</p><p>os interesses individuais e/ou oligárquicos mesquinhos, e nunca o social e/ou o</p><p>coletivo de conteúdo solidário.</p><p>3. Sem conteúdo emocional em seus pensamentos e em suas ações, os psicopatas</p><p>são incapazes de considerar os sentimentos do outro em suas relações e de se</p><p>arrependerem por seus atos imorais ou antiéticos. Dessa forma, não aprendem</p><p>a partir da experiência e, por isso, são intratáveis, sob o ponto de vista da</p><p>ressocialização.</p><p>Montando o quebra-cabeça</p><p>Não há dúvida de que os psicopatas apresentam um déficit na integração das</p><p>emoções com a razão e o comportamento. Mas é importante destacar que eles</p><p>não possuem uma lesão nos córtex pré-frontais e na amígdala, como observado</p><p>no caso Gage. Os pacientes que têm essas lesões provocadas por tumores,</p><p>hemorragias, isquemias ou traumatismos apresentam comportamentos que nos</p><p>lembram os dos psicopatas pela indiferença com que se relacionam com os</p><p>outros e consigo mesmas. Além disso,</p><p>os pacientes de lesão cerebral mostram-se</p><p>incapazes de se adaptar, de forma conveniente, a um trabalho, a sua família e a</p><p>seus amigos.</p><p>Já os psicopatas apresentam esses desajustes em graus bem variáveis: alguns</p><p>deles estudam com interesse; outros trabalham durante anos com sucesso; há</p><p>aqueles que cometem delitos desde pequenos; e ainda existem os que podem</p><p>levar uma vida aparentemente integrada, mas, paralelamente, vivem executando</p><p>crimes bárbaros e repugnantes.</p><p>As diversas manifestações das condutas psicopáticas nos levam</p><p>necessariamente a uma avaliação da importância que o meio ambiente pode ter</p><p>na apresentação desse transtorno. O ambiente social no qual a violência e a</p><p>insensibilidade emocional são “ensinadas” no dia a dia pode levar uma pessoa</p><p>propensa à psicopatia a ser um perigoso delinquente. Por outro lado, um</p><p>ambiente social favorável e uma educação mais rigorosa e menos</p><p>condescendente às transgressões pode levar essa mesma propensão a se</p><p>manifestar na forma de um desvio social leve ou moderado.</p><p>Podemos, então, concluir que a psicopatia apresenta dois elementos causais</p><p>fundamentais: uma disfunção neurobiológica e o conjunto de influências sociais</p><p>e educativas que o psicopata recebe ao longo da vida.</p><p>A engrenagem psicopática funcionaria desta maneira: a predisposição</p><p>genética ou a vulnerabilidade biológica se concretiza em uma criança que</p><p>apresente o déficit emocional. Uma criança assim possui um sistema mental</p><p>deficiente na percepção das emoções e dos sentimentos, na regulação da</p><p>impulsividade e na experimentação do medo e da ansiedade. Nos casos em que</p><p>os pais (família) realizam de forma muito competente suas tarefas educacionais,</p><p>essas características biológicas podem ser compensadas ou canalizadas para</p><p>atividades socialmente aceitas. No entanto, quando o ambiente não é capaz de</p><p>fazer frente a tal bagagem genética — por falhas educacionais por parte dos pais,</p><p>por uma socialização deficiente ou ainda pelo fato de essa bagagem genética ser</p><p>muito marcada —, o resultado será um indivíduo psicopata sem nenhum limite.</p><p>É mais sensato falarmos em ajuda e tratamento para as vítimas dos psicopatas do</p><p>que para eles mesmos.</p><p>11</p><p>O QUE PODEMOS FAZER?</p><p>Senhoras e senhores, não trago boas-novas. Com raras exceções, as terapias</p><p>biológicas (medicamentos) e as psicoterapias em geral se mostram, até o</p><p>presente momento, ineficazes para a psicopatia. Para os profissionais de saúde,</p><p>esse é um fator intrigante e, ao mesmo tempo, desanimador, uma vez que não</p><p>dispomos de nenhum método eficaz que mude a forma de um psicopata se</p><p>relacionar com os outros e perceber o mundo ao seu redor. É lamentável dizer</p><p>que, por enquanto, tratar um deles costuma ser uma luta inglória.</p><p>Temos que ter em mente que as psicoterapias são direcionadas às pessoas que</p><p>estejam em intenso desconforto emocional, o que as impede de manter uma boa</p><p>qualidade de vida. Por mais bizarro que possa parecer, os psicopatas parecem</p><p>estar inteiramente satisfeitos consigo mesmos e não apresentam</p><p>constrangimentos morais nem sofrimentos emocionais, como depressão,</p><p>ansiedade, culpas, baixa autoestima etc. Não é possível tratar um sofrimento</p><p>inexistente.</p><p>É no mínimo curioso, embora dramático, pensar que os psicopatas são</p><p>portadores de um grave problema, mas quem de fato sofre é a sociedade como</p><p>um todo. Em função disso, pouquíssimos profissionais se arriscam nessa</p><p>“empreitada”. Quando o fazem, chegam à triste constatação de que contribuíram</p><p>com uma ínfima parcela ou com absolutamente nada. É importante lembrar que,</p><p>de uma forma geral, todos estamos vulneráveis às ações desses predadores</p><p>sociais. Assim, é mais sensato falarmos em ajuda e tratamento para as vítimas</p><p>dos psicopatas do que para eles mesmos.</p><p>De mais a mais, só é possível ajudar aqueles que de fato querem e procuram</p><p>ajuda. Os psicopatas, além de achar que não têm problemas, não esboçam</p><p>nenhum desejo de mudança para se ajustarem a um padrão socialmente aceito.</p><p>Julgam-se autossuficientes, são egocêntricos, e suas ações predatórias são</p><p>absolutamente satisfatórias e recompensadoras para eles mesmos. Mudar para</p><p>quê?</p><p>Dessa forma, os psicopatas raramente procuram auxílio médico ou</p><p>psicológico. Quando chegam a um consultório, quase sempre é por pressões</p><p>familiares ou, então, com o intuito de se beneficiarem de um laudo técnico.</p><p>Frequentemente estão envolvidos com problemas legais, endividados e às voltas</p><p>com o sistema judicial. Por isso, tentam obter do profissional de saúde mental</p><p>algum diagnóstico ou alguma comprovação de problemas que os auxiliem a</p><p>minimizar as sanções que lhes foram impostas.</p><p>Estudos também demonstram que, em alguns casos, a psicoterapia pode até</p><p>agravar o problema. Para as pessoas “de bem”, as técnicas psicoterápicas sem</p><p>dúvida alguma são fundamentais para a superação das suas angústias ou dos seus</p><p>desconfortos. No entanto, para os psicopatas, as sessões terapêuticas podem</p><p>muni-los de recursos preciosos que os aperfeiçoam na arte de manipular e</p><p>trapacear os outros. Embora eles continuem incapazes de sentir boas emoções,</p><p>nas terapias, aprendem “racionalmente” o que isso pode significar e não poupam</p><p>tal conhecimento para usá-lo na primeira oportunidade. Além disso, acabam</p><p>obtendo mais subsídios para justificar seus atos transgressores, alegando que</p><p>estes são fruto de uma infância desestruturada. De posse dessas informações,</p><p>abusam de forma quase “profissional” do nosso sentimento de compaixão e da</p><p>nossa capacidade de ver a bondade em tudo.</p><p>O que os pais podem fazer?</p><p>Como já foi dito, podemos observar características de psicopatia desde a</p><p>infância até a vida adulta. Antes dos dezoito anos, como já vimos, por uma</p><p>questão de nomenclatura, o problema é chamado de transtorno da conduta.</p><p>Crianças ou adolescentes que são francos candidatos à psicopatia possuem um</p><p>padrão repetitivo e persistente que pode ser sintetizado pelas características</p><p>comportamentais descritas a seguir:</p><p>Mentiras frequentes (às vezes, o tempo todo).</p><p>Crueldade com animais, coleguinhas, irmãos etc.</p><p>Condutas desafiadoras às figuras de autoridade (pais, professores etc.).</p><p>Impulsividade e irresponsabilidade.</p><p>Baixíssima tolerância à frustração, com acessos de irritabilidade ou fúria</p><p>quando são contrariados.</p><p>Tendência a culpar os outros por erros cometidos por si mesmos.</p><p>Preocupação excessiva com seus próprios interesses.</p><p>Insensibilidade ou frieza emocional.</p><p>Ausência de culpa ou remorso.</p><p>Falta de empatia ou preocupação pelos sentimentos alheios.</p><p>Falta de constrangimento ou vergonha quando pegos mentindo ou em</p><p>flagrante.</p><p>Dificuldade em manter amizades.</p><p>Permanência fora de casa até tarde da noite, mesmo com a proibição dos</p><p>pais — muitas vezes, podem fugir e ficar dias sem aparecer em casa.</p><p>Faltas constantes sem justificativas na escola ou no trabalho (quando mais</p><p>velhos).</p><p>Violação às regras sociais que se constituem em atos de vandalismo, como</p><p>destruição de propriedades alheias ou danos ao patrimônio público.</p><p>Participação em fraudes (falsificação de documentos), roubos ou assaltos.</p><p>Sexualidade exacerbada, muitas vezes levando outras crianças ao sexo</p><p>forçado.</p><p>Introdução precoce no mundo das drogas ou do álcool.</p><p>Nos casos mais graves, podem cometer homicídio.</p><p>Vale ressaltar que essas características são apenas genéricas e que o</p><p>diagnóstico exato só pode ser firmado por especialistas no assunto. Além do</p><p>mais, o leitor deve atentar para a frequência e a intensidade com que essas</p><p>características se manifestam.</p><p>É muito comum e até compreensível que os pais de jovens com características</p><p>psicopáticas se perguntem quase sempre em um tom de desespero:</p><p>“O que nós</p><p>fizemos de errado para que nosso filho seja assim?”. Os pais se sentem culpados</p><p>por achar que falharam na educação dos seus filhos e que não souberam impor</p><p>limites. Isso é um grande equívoco! Não resta dúvida de que a educação, a</p><p>estrutura familiar e o ambiente social influenciam na formação da personalidade</p><p>de um indivíduo e na maneira como ele se relaciona com o mundo. No entanto,</p><p>esses fatores por si sós não são capazes de transformar ninguém em um</p><p>psicopata.</p><p>Não obstante, é muito importante que os pais tenham conhecimento pleno</p><p>sobre o assunto e que passem a reconhecer a disfunção em seus filhos,</p><p>dispensando ao problema a atenção que ele merece. Quando em grau leve e</p><p>detectada ainda precocemente, a psicopatia pode, em alguns casos, ser modulada</p><p>por meio de uma educação mais rigorosa. Um ambiente familiar mais</p><p>estruturado e com a vigilância constante em relação aos filhos “problemáticos”</p><p>certamente não evita a psicopatia, mas pode inibir uma manifestação mais grave</p><p>— e, então, fazer toda a diferença. É lógico que essas medidas estão longe de ser</p><p>ideais; são apenas paliativas e demandam muito esforço e empenho por parte dos</p><p>envolvidos na criação. No entanto, para salvaguardar a estrutura familiar e a</p><p>sociedade como um todo, não podemos desprezá-las. As posturas que devem ser</p><p>assumidas são as seguintes:</p><p>Procure conhecer bem o seu filho. A maioria dos pais não sabe como ele se</p><p>comporta longe dos seus olhos. Estabeleça contato com todas as pessoas do</p><p>convívio dele (professores, amigos, pais dos amigos etc.). Quanto mais</p><p>precocemente você identificar o problema, maiores serão as chances de que</p><p>ele se molde a um estilo de vida minimamente produtivo e socialmente</p><p>aceito.</p><p>Busque ajuda profissional. Isso é válido tanto para se certificar do</p><p>diagnóstico dessa criança quanto para receber orientações de como você</p><p>deve agir.</p><p>Não permita que seu filho controle a situação. Estabeleça um programa de</p><p>objetivos mínimos para obter alguns resultados positivos. Regras e limites</p><p>claros são necessários para evitar as condutas de manipulação, enganos e</p><p>falta de respeito para com os demais. Lembre-se de que uma criança com</p><p>perfil psicopático apresenta um talento extraordinário para distorcer as</p><p>regras estabelecidas e virar o jogo a favor dela. Por isso, não ceda! Se você</p><p>fraquejar, certamente ela ocupará todos os “espaços” deixados pela sua</p><p>desistência.</p><p>Não pretendo ser pessimista, no entanto não seria honesto da minha parte</p><p>afirmar que “a psicopatia” infantojuvenil atualmente apresenta uma solução</p><p>satisfatória. O máximo que podemos fazer é adotar posturas no trato com essas</p><p>crianças no intuito de melhorar a forma como o problema vai se manifestar no</p><p>futuro.</p><p>A psicopatia não tem cura; é um transtorno da personalidade, e não uma fase</p><p>de alterações comportamentais momentâneas. Porém, temos que ter sempre em</p><p>mente que tal transtorno apresenta formas e graus diversos de se manifestar e</p><p>que apenas os casos mais graves apresentam barreiras de convivência</p><p>intransponíveis. Segundo o DSM-IV-TR, a psicopatia tem um curso crônico, porém</p><p>pode se tornar menos evidente à medida que o indivíduo envelhece —</p><p>particularmente, a partir dos quarenta anos de idade.</p><p>Não negocie com o mal. Jamais concorde, por pena, chantagem ou qualquer</p><p>outro motivo, em ajudar um psicopata a ocultar o seu verdadeiro caráter.</p><p>12</p><p>MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA</p><p>Como vimos até aqui, pouco ou nada podemos fazer para mudar a forma de</p><p>ser de um psicopata. A maioria esmagadora da população está ao sabor de suas</p><p>ações predatórias. Então, o que pode ser feito para que não sejamos presas tão</p><p>fáceis?</p><p>Sem sombra de dúvida, a melhor estratégia é não se envolver com nenhum</p><p>deles em campo algum de sua vida (profissional, afetivo ou social). Mas isso não</p><p>é tão simples assim. Afinal, eles estão infiltrados em todos os setores, são</p><p>habilidosos em descobrir os pontos fracos das pessoas e sabem muito bem como</p><p>explorá-los. A grande verdade é que estamos todos na mesma situação: de</p><p>vulnerabilidade.</p><p>Assim, pensei ser relevante listar algumas dicas que você pode seguir para se</p><p>proteger, ou, em última análise, para ajudá-lo a minimizar os estragos que um</p><p>psicopata pode ocasionar em sua vida.</p><p>Dicas gerais para lidar com os psicopatas</p><p>1 — Saiba com quem você está lidando.</p><p>Esta primeira e importante regra se traduz no “remédio amargo” de aceitar</p><p>que os psicopatas existem de fato e que eles literalmente não possuem</p><p>consciência genuína. Ou seja, eles são incapazes de experimentar o amor ou</p><p>algum outro tipo de ligação positiva com os outros seres humanos. Eles podem</p><p>ser encontrados em todos os segmentos da sociedade, e existe uma grande</p><p>probabilidade de você ter um encontro doloroso com um deles. Nunca</p><p>menospreze o poder destruidor de um psicopata. Todas as pessoas, incluindo os</p><p>especialistas, podem ser manipuladas e enganadas por eles, mesmo que tenham</p><p>um conhecimento razoável sobre o assunto. Por isso, sua melhor defesa é</p><p>entender e, principalmente, aceitar que existem pessoas com essa natureza fria e</p><p>devastadora.</p><p>2 — As aparências enganam!</p><p>Todo cuidado é pouco! Como disse Saint-Exupéry em O pequeno príncipe:</p><p>“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.</p><p>Tenha sempre em mente que a maioria dos psicopatas não tem “pinta” de</p><p>assassino. Eles costumam ter um sorriso cativante, linguagem corporal</p><p>interessante e uma boa lábia. Não caia nessa cilada! Ao conhecer novas pessoas,</p><p>procure enxergar o que está por trás de tantos atrativos. Não se distraia com os</p><p>olhares sedutores, a demonstração de poder, os gestos atraentes, a voz suave ou o</p><p>traquejo verbal característicos de um psicopata. Todos esses artifícios são</p><p>utilizados com extrema habilidade exatamente para encobrir as verdadeiras</p><p>intenções dele.</p><p>Também não se esqueça do poder do olhar desses indivíduos. Pessoas</p><p>normais mantêm contato visual com as outras por uma gama de razões, na</p><p>maioria das vezes, por educação, mas o olhar intenso e frio do psicopata é mais</p><p>um exercício de poder e de manipulação do que simplesmente interesse ou</p><p>empatia pelo outro.</p><p>Em suma, da próxima vez que conhecer alguém que pareça ser uma pessoa</p><p>muito extraordinária, tente não se iludir com o “evento teatral” à sua frente.</p><p>Desvie seu olhar para as outras pessoas e se atenha ao que está sendo dito no</p><p>conteúdo do discurso. É um exercício de separar a letra da melodia em uma</p><p>canção.</p><p>3 — Não se esqueça de considerar a voz da sua intuição.</p><p>Sem perceber, todos nós estamos constantemente observando o</p><p>comportamento das pessoas. Muitas das impressões captadas por nosso cérebro</p><p>podem se acumular em nossa memória de forma inconsciente, ou seja, sem que</p><p>tenhamos conhecimento racional disso. Essas informações por vezes</p><p>“guardadas” se manifestam na forma de intuição — como se fosse um instinto</p><p>protetor do nosso organismo —, sinalizando perigos “invisíveis”. Embora</p><p>aparentemente estranhas, essas informações, traduzidas na forma de sensações,</p><p>podem ajudar você se assim o permitir.</p><p>Então, lembre-se: quando estiver num dilema entre seguir o que manda o seu</p><p>coração (intuição) e valorizar uma pessoa apenas por seu status, charme ou</p><p>sedução, não vacile: siga sua intuição. Ela pode tirar você de uma grande</p><p>enrascada!</p><p>4 — Abra os olhos com pessoas maravilhosas ou</p><p>excessivamente bajuladoras.</p><p>No início de qualquer relacionamento, todos nós tentamos esconder aquele</p><p>“lado meio sombrio”, mostrando apenas o que temos de melhor. Para a maioria</p><p>dos psicopatas, isso também não é diferente, muito embora com consequências</p><p>infinitamente maiores. Eles tendem a impressionar suas</p><p>vítimas com elogios,</p><p>cuidados especiais, gentilezas excessivas e histórias falsas sobre seu status social</p><p>e/ou financeiro. Devemos ter uma “dose” extra de cautela quando alguma pessoa</p><p>aparenta ser “tudo de bom”. Evidentemente, não estou propondo que você</p><p>contrate um detetive particular cada vez que conhecer alguém que lhe desperte</p><p>algum interesse profissional ou afetivo, mas apenas sugerindo que você avalie</p><p>muito bem quem é a pessoa com a qual está lidando.</p><p>Na medida do possível, procure lhe fazer perguntas sobre seus familiares,</p><p>amigos, emprego, residência, projetos futuros. Os psicopatas geralmente dão</p><p>respostas vagas, evasivas ou até inconsistentes quando questionados sobre sua</p><p>própria vida. Suspeite de tais respostas e, se puder, procure confirmá-las.</p><p>Cuidado também para não cair no golpe da pessoa perfeita, que fica horas a fio</p><p>ouvindo seus problemas sem se preocupar em falar de si mesma. Na realidade,</p><p>esses falsos “terapeutas” estão colhendo informações para usá-las mais tarde</p><p>contra você.</p><p>Outra situação para manter os olhos bem abertos é quanto à bajulação. A</p><p>maioria de nós gosta de receber elogios. Eles são sempre muito bem-vindos,</p><p>principalmente quando sinceros. Em contrapartida, a bajulação excessiva, o</p><p>agradar afetado e pouco realista é uma das táticas dos psicopatas para nos cegar,</p><p>seduzir e encobrir suas verdadeiras intenções: manipulação e controle. Por isso,</p><p>desconfie dos famosos “puxa-sacos”!</p><p>E aqui é importante esclarecer que a regra da bajulação se aplica tanto para os</p><p>indivíduos quanto para os grupos e nações. Da mesma forma que um indivíduo</p><p>se empolga com a adulação de um manipulador, uma nação inteira pode se</p><p>“hipnotizar” por lideranças políticas que se utilizam desses mesmos recursos. A</p><p>história da humanidade está recheada de estadistas tiranos que, ao engrandecer</p><p>seu povo, fazem dele uma “presa coletiva” com um único objetivo: o desejo de</p><p>poder. A exaltação do patriotismo, por exemplo, muitas vezes vem apenas como</p><p>uma camuflagem para legitimar a necessidade de realização das guerras.</p><p>Discursos com apelos de que as guerras devem ser travadas para o bem da</p><p>humanidade ou para a construção de um mundo melhor são extremamente</p><p>perigosos e suspeitos. Guerras são guerras, e todas elas são injustificáveis!</p><p>5 — Certas situações merecem atenção redobrada.</p><p>Determinados lugares encaixam-se como luvas para a ação plena dos</p><p>psicopatas: bares, clubes sociais, boates, resorts, cruzeiros, aeroportos. Nesses</p><p>locais, eles fazem verdadeiros plantões. Suas vítimas preferenciais são os</p><p>solitários que buscam companhia ou diversão. Os psicopatas, à espreita,</p><p>observam-nas atentamente e depois partem para o ataque. Os viajantes</p><p>desacompanhados também são alvos fáceis, pois são prontamente identificados</p><p>como perdidos e sozinhos num aeroporto ou num ponto turístico qualquer.</p><p>Então, fique esperto!</p><p>6 — Autoconhecimento é fundamental.</p><p>Os psicopatas são experts em detectar e explorar nosso lado mais vulnerável.</p><p>Eles identificam as “feridas” certas e não perdem a chance de tocá-las quando</p><p>podem. Assim, uma ótima forma de defesa é entender a si mesmo, saber</p><p>verdadeiramente quais são seus pontos fracos. Desconfie de qualquer pessoa que</p><p>os aponte com frequência, seja em particular, seja em situações públicas e pouco</p><p>apropriadas. Tenha cuidado com pessoas muito críticas e que vivem atentas às</p><p>suas vulnerabilidades e às dos outros.</p><p>O autoconhecimento nem sempre é fácil de ser alcançado; por vezes, a ajuda</p><p>de um profissional especializado pode ser muito útil nesse sentido.</p><p>7 — Não entre no jogo das intrigas.</p><p>A intriga é uma das ferramentas poderosas de um psicopata. No ambiente de</p><p>trabalho, a intriga pode levar a consequências devastadoras. A princípio, o</p><p>psicopata se mostra um ótimo colega de trabalho, com espírito de colaboração e</p><p>um especial interesse em oferecer seu ombro a quem necessita de uma força. Em</p><p>pouco tempo, ele é capaz de se tornar seu “melhor amigo de infância”. Logo</p><p>depois, entretanto, começará a utilizar as informações colhidas no ombro amigo</p><p>para fazer intrigas. E isso ele fará com você e com todos aqueles que</p><p>inicialmente acreditaram em sua “amizade”.</p><p>Sem mais nem por quê, a confusão está armada! Funcionários começam a se</p><p>desentender e todos acabam fazendo mexericos. Somente o psicopata, perante o</p><p>chefe, está fora de tanta “baixaria”.</p><p>Resista à tentação de entrar no jogo das intrigas: fale diretamente com seu</p><p>colega sobre os fatos ou, se possível, com o próprio chefe. Não deixe ninguém</p><p>intermediar desentendimentos por você. Se entrar nesse joguinho, você pode</p><p>acabar se igualando ao psicopata e se distraindo em relação ao mais importante:</p><p>proteger-se.</p><p>8 — Cuidado com o jogo da pena e da culpa.</p><p>É muito importante você entender que o sentimento de pena ou de compaixão</p><p>deve ser reservado às pessoas generosas, de bom coração e que estejam em</p><p>sofrimento verdadeiro. Temos a virtude de sentir tristeza diante da aflição alheia</p><p>e nos compadecemos com essa dor. A compaixão faz que nos sintamos mais</p><p>humanos, pois enxergamos nosso semelhante como a nós mesmos.</p><p>Mas, afinal, devemos dispensar um sentimento tão nobre a alguém frio e</p><p>cruel? Decididamente não!</p><p>Para início de conversa, um psicopata não sofre de fato. No máximo, ele</p><p>conseguirá sentir frustração por algo que não conseguiu concretizar. Também é</p><p>muito importante ter em mente que os psicopatas se alimentam dos nossos</p><p>sentimentos mais nobres, da nossa compaixão, para se tornarem cada vez mais</p><p>fortes e poderosos. Sentir pena de um deles é como dar o alimento preciso para</p><p>ele continuar com suas atitudes inescrupulosas. Não tenha pena de um psicopata;</p><p>não gaste suas reservas de compaixão com uma pessoa desprovida de empatia</p><p>Ela sugará você até que se sinta vazio e fragilizado.</p><p>Por outro lado, um psicopata também “brinca” com o nosso sentimento de</p><p>culpa — outra virtude. Qualquer que seja o motivo pelo qual tenha se envolvido</p><p>com um psicopata, é muito importante ter em mente o seguinte: nunca aceite que</p><p>ele culpe você por suas próprias atitudes. Tenha a plena convicção de que a</p><p>vítima é você, e não ele. Os psicopatas são habilidosos em inverter papéis e</p><p>fingem sofrer. De algozes, passam por vítimas com a maior tranquilidade.</p><p>Maridos que agridem fisicamente sua esposa costumam responsabilizá-la por</p><p>seus atos agressivos. Uma de minhas pacientes passou anos se culpando pelos</p><p>descontroles agressivos do marido: ele a convenceu, durante muito tempo, de</p><p>que a espancava porque a amava demais e por ela utilizar roupas que</p><p>valorizavam sua beleza. Perceba o disparate!</p><p>Os psicopatas não amam seus cônjuges, isso não existe! Eles os possuem</p><p>como uma mercadoria ou um troféu, com os quais reforçam seus desejos de</p><p>manipulação, controle e poder.</p><p>De forma muito parecida, pais de filhos psicopatas sofrem e se culpam porque</p><p>se sentem responsáveis pelo desenvolvimento da personalidade de seus filhos.</p><p>No entanto, tudo indica que esses pais não cometeram erros tão graves assim —</p><p>se é que os tenham cometido de fato. Os estudos sobre a personalidade</p><p>psicopática revelam que a educação fornecida pelos pais pode, no máximo,</p><p>exacerbar o problema, mas não existe nenhum indício de que a maneira de</p><p>educar seja capaz de originar a psicopatia.</p><p>Filhos psicopatas se utilizam muito do jogo da culpa. Eles costumam</p><p>justificar os seus atos transgressores como consequência de comportamentos</p><p>inadequados de seus pais quando ainda eram crianças. E, infelizmente, é muito</p><p>difícil convencer esses pais de que nada disso é verdade. Os pais são as maiores</p><p>vítimas do jogo da culpa.</p><p>9 —</p><p>Não tente mudar o que não pode ser mudado.</p><p>Deus, conceda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar</p><p>aquelas que posso e sabedoria para reconhecer a diferença entre elas.</p><p>“Oração da serenidade”</p><p>Em algum momento, a maioria de nós precisa aprender uma importante e</p><p>decepcionante lição de vida: mesmo que nossas intenções de ajudar um</p><p>psicopata sejam as melhores possíveis, não devemos nem podemos controlar o</p><p>comportamento dele. Por isso, ignore os repetidos pedidos de chances</p><p>teatralmente implorados pelo psicopata. Chances são para as pessoas que</p><p>possuem consciência, indivíduos de bom coração.</p><p>Se você está convencido de que não pode controlar ninguém, mas, mesmo</p><p>assim, deseja ajudar pessoas de forma geral, procure apenas as que realmente</p><p>querem ser ajudadas. Logo, logo você vai descobrir que esse grupo que merece</p><p>ajuda não inclui as pessoas sem consciência. E lembre-se: o comportamento do</p><p>psicopata não é culpa sua, e muito menos ajudá-lo constitui sua missão de vida.</p><p>Quando se trata especificamente de filhos psicopatas, o caso se torna mais</p><p>sério. Isso porque os pais tentam desesperadamente entender o comportamento</p><p>transgressor de seus filhos. Além de passarem anos a fio livrando-os de</p><p>encrencas, também costumam fazer uma verdadeira via crucis a diversos</p><p>especialistas. Ao final, amargam a certeza de que muito pouco podem fazer para</p><p>controlar seus filhos.</p><p>10 — Nunca seja cúmplice de um psicopata.</p><p>Não negocie com o mal! Jamais concorde, por pena, chantagem ou qualquer</p><p>outro motivo, em ajudar um psicopata a ocultar o seu verdadeiro caráter.</p><p>Cuidado com os velhos chavões do tipo “Não conte nada disso a ninguém”,</p><p>“Você me deve uma”, “Em nome dos velhos tempos”, “Amanhã eu limpo a sua</p><p>barra”, “Uma mão lava a outra”, que geralmente são proferidos aos prantos ou</p><p>sussurros cautelosos. Intervenções desse tipo são muito utilizadas pelos</p><p>psicopatas para convencer alguém a encobrir suas transgressões. Ignore todos</p><p>esses apelos. As outras pessoas precisam saber desses segredos para que não</p><p>caiam na mesma armadilha.</p><p>11 — Evite-os a qualquer custo.</p><p>Se você já identificou um psicopata na sua vida, o único método</p><p>verdadeiramente eficaz de lidar com ele é mantê-lo longe, bem longe de você.</p><p>Os psicopatas vivem completamente fora das regras sociais; por isso, incluí-los</p><p>em seus relacionamentos é sempre perigoso. Fique com sua consciência limpa e</p><p>tranquila, pois você não estará ferindo os sentimentos de ninguém. Por mais</p><p>bizarro que isso possa parecer, os psicopatas não se importam se serão magoados</p><p>ou não. Isso por uma razão muito simples: eles não têm sentimentos para ser</p><p>feridos. E, se demonstrarem tristeza, tenha a convicção de que tudo não passa de</p><p>encenação, puro teatro.</p><p>É possível que os seus familiares, amigos ou pessoas do seu convívio nunca</p><p>entendam por que você está evitando alguém em particular. Isso ocorre pelo fato</p><p>de a psicopatia ser um transtorno surpreendentemente difícil de ser detectado e</p><p>muito mais difícil de ser aceito. Não se espante se amigos e parentes muito bem-</p><p>intencionados promoverem encontros inesperados para resgatar seus laços com o</p><p>“coitado excluído”. Isso acontece por puro desconhecimento sobre a</p><p>personalidade psicopática. Mantenha-se firme e evite essa pessoa de todas as</p><p>formas.</p><p>12 — Busque ajuda profissional.</p><p>Os danos causados pela passagem (ou permanência) de um psicopata na vida</p><p>de alguém são devastadores e imensuráveis. Sua vida emocional, física,</p><p>profissional (ou financeira) e até mesmo sua dignidade podem ser sumariamente</p><p>destruídas por um deles. Assim, na medida do possível, os familiares e as</p><p>vítimas de psicopatas devem buscar ajuda médica, psicológica e até mesmo</p><p>jurídica. É recomendado que esses profissionais tenham profundo conhecimento</p><p>sobre a natureza da personalidade psicopática. A união profissional em favor da</p><p>vítima é que poderá fazer com que ela possa se reconstruir.</p><p>13 — Dê valor à sua capacidade de ser consciente.</p><p>Não se esqueça de que você possui o bem mais valioso que um ser humano</p><p>pode alcançar: a sua consciência, que lhe confere o dom de amar a própria vida,</p><p>o planeta e a humanidade como um todo. Por isso é tão importante desenvolver e</p><p>aperfeiçoar a nossa consciência. O desenvolvimento da consciência provoca</p><p>experiências transformadoras em nós. Mudamos a nossa forma de ver, viver,</p><p>sentir e nos relacionar com o mundo. Com o aperfeiçoamento da consciência,</p><p>aumentamos a nossa capacidade de amar e, com isso, temos o privilégio de</p><p>praticar o amor incondicional. Exercer esse amor de forma realista e madura é</p><p>ter o bem pulsando dentro de nós.</p><p>Os heróis do passado estão se tornando os otários dos tempos modernos.</p><p>13</p><p>ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA</p><p>ORDEM</p><p>Uma breve revisão na história da humanidade é capaz de revelar duas</p><p>questões importantes no que tange à origem da psicopatia. A primeira delas se</p><p>refere ao fato de o problema sempre ter existido entre nós. Um exemplo dessa</p><p>situação é destacado pelo psiquiatra americano Hervey Cleckley, ao citar que o</p><p>general grego Alcebíades, no século V a.C., já preenchia todos os requisitos para</p><p>ser considerado um psicopata “de carteirinha”.</p><p>A segunda questão aponta para a presença da psicopatia em todos os tipos de</p><p>sociedades, desde as mais primitivas até as mais modernas. Esses fatos reforçam</p><p>a participação de um importante substrato biológico na origem do transtorno. No</p><p>entanto, eles não invalidam, de forma alguma, a participação significativa que os</p><p>fatores culturais podem ter na modulação desse quadro, ora favorecendo, ora</p><p>inibindo o seu desenvolvimento.</p><p>Isso fica claro quando observamos a prevalência de psicopatas em culturas</p><p>diversas. Nas sociedades ocidentais, a conduta psicopática tem-se incrementado</p><p>de maneira assustadora nas últimas décadas. Cotidianamente nos deparamos com</p><p>jornais e revistas que estampam homicidas cruéis, assassinos em série, políticos</p><p>corruptos, terroristas, pedófilos, pessoas que maltratam crianças, torturadores de</p><p>mulheres, líderes religiosos inescrupulosos, estelionatários e profissionais</p><p>desleais.</p><p>Tenho a convicção de que todos esses problemas têm se agravado, de modo</p><p>extraordinário, por causa da ação dos psicopatas e de pessoas que vêm adotando</p><p>formas “psicopáticas” de convívio. Se isso ocorre, é porque nossa sociedade está</p><p>fundamentada em valores e práticas que, no mínimo, favorecem a maneira</p><p>psicopática de ser e viver. De certa forma, estamos contribuindo para promover</p><p>uma cultura na qual a psicopatia encontra um campo bastante favorável para</p><p>florescer.</p><p>A cultura dos tempos modernos</p><p>A ideologia sobre a qual se alicerça a cultura dos nossos tempos é baseada em</p><p>três princípios básicos: 1) o individualismo; 2) o relativismo; 3) o</p><p>instrumentalismo.</p><p>De forma compreensível e sem, contudo, aprofundar-me na esfera da</p><p>filosofia, os três princípios podem ser avaliados da seguinte maneira:</p><p>1) O individualismo prega a busca do melhor tipo de vida a se usufruir. Entende-</p><p>se como o melhor tipo de vida aquele que abrange o autodesenvolvimento, a</p><p>autorrealização e a autossatisfação. De acordo com essa concepção, o</p><p>indivíduo tem a obrigação moral de buscar sua felicidade em detrimento de</p><p>qualquer outra obrigação para com os demais.</p><p>2) Segundo o relativismo, todas as escolhas são igualmente importantes, pois</p><p>não há um padrão de valor objetivo que nos permita estabelecer uma</p><p>hierarquia de condutas. Assim, qualquer ação que leva o indivíduo a atingir a</p><p>autossatisfação é válida e não pode ser questionada.</p><p>3) O instrumentalismo afirma que o valor de qualquer coisa fora de nós é apenas</p><p>um valor instrumental, ou seja, o valor das pessoas e das coisas se resume no</p><p>que elas podem</p><p>fazer por nós.</p><p>Na verdade, tudo está implícito no primeiro e principal componente da cultura</p><p>moderna: o individualismo. Assim, o nosso principal objetivo são a realização e</p><p>a satisfação pessoal. As obrigações que temos para com as demais pessoas são</p><p>meramente secundárias, prevalecendo a obrigação de desfrutarmos a vida da</p><p>maneira que escolhermos. Dessa forma, as outras pessoas se transformam em</p><p>simples meios para chegarmos a um fim.</p><p>O objetivo maior da ideologia moderna era preservar a liberdade individual.</p><p>No entanto, essa ênfase sobre a liberdade criou a grande contradição de nossos</p><p>tempos: como estabelecer valores morais e éticos num mundo que prioriza as</p><p>escolhas individuais?</p><p>A modernidade foi responsável por uma série de mudanças na nossa forma de</p><p>ver e sentir o mundo. A revolução tecnológica inundou de conforto nossa vida.</p><p>Dispomos de uma imensa variedade de coisas que facilitam nosso dia a dia,</p><p>porém não encontramos tempo disponível para cultivar o nosso lado afetivo. O</p><p>convívio reconfortante com a família, os amigos e o amor romântico parecem ser</p><p>coisas do passado, algo lembrado com nostalgia mas avaliado como utopia nos</p><p>dias atuais. O desenvolvimento econômico nos tempos modernos fundamenta-se</p><p>na crença cega de que não podemos parar nunca: há sempre o que aprender,</p><p>conquistar, possuir, descobrir, experimentar... Nada nem ninguém é capaz de nos</p><p>satisfazer plenamente, pois sempre há novas possibilidades para serem testadas</p><p>na conquista da tal realização pessoal.</p><p>A realização proposta por nossa sociedade só pode ser de aspecto material,</p><p>pois afetos verdadeiros não podem ser adquiridos nem substituídos na</p><p>velocidade que nossos tempos preconizam. A cultura do individualismo e o</p><p>desejo de conseguir bem-estar material a qualquer custo têm provocado a erosão</p><p>dos laços afetivos dentro da nossa sociedade. Com isso, virtudes como a</p><p>honestidade, a reciprocidade e a responsabilidade para com os demais caem em</p><p>total descrédito. E assim, repletos de conforto e tecnologia, acabamos por nos</p><p>tornar cada vez mais sozinhos e menos comprometidos com os nossos</p><p>semelhantes.</p><p>Sem sombra de dúvida, o cenário social dos nossos tempos favorece o estilo</p><p>de vida do psicopata. Ele reflete de forma precisa esse “novo homem”, voltado</p><p>somente para si mesmo, preocupado apenas com o que é seu e desvinculado da</p><p>realidade vital dos que estão ao redor.</p><p>A expansão da cultura moderna, repleta de traços psicopáticos, modificou de</p><p>forma drástica as nossas relações familiares e sociais. Estamos perdendo o senso</p><p>de responsabilidade compartilhada no campo social e de vinculação significativa</p><p>nas relações interpessoais. O aumento implacável da violência é uma resposta</p><p>lógica e previsível a toda essa situação.</p><p>A cultura psicopática está no ar</p><p>No campo da ficção, os psicopatas também têm conquistado valorosos</p><p>espaços. Até bem pouco tempo atrás, nas novelas, nos romances e nos filmes,</p><p>nós nos identificávamos com os personagens do bem, que, em geral, eram</p><p>vitimados pelas diversas circunstâncias dos enredos, mas se mantinham éticos e</p><p>triunfavam ao final, e torcíamos por eles. Hoje, ficamos fascinados e atraídos</p><p>pelos vilões, e é para eles que dirigimos nossa torcida. Além disso, quando esses</p><p>bandidos são ricos e poderosos, acabam por se transformar em sedutores de</p><p>primeira grandeza. Assim, de forma quase natural, estamos abandonando os</p><p>mocinhos e seus ideais morais de justiça e solidariedade. Os heróis dos novos</p><p>tempos são maldosos, inescrupulosos e isentos de qualquer sentimento de culpa.</p><p>Já os personagens bonzinhos despertam em nós um sentimento de pena e até de</p><p>certa intolerância com seus discursos utópicos e ingênuos. Os heróis do passado</p><p>estão se tornando os otários dos tempos modernos.</p><p>O desrespeito, a frieza, a luxúria e a perversidade dos psicopatas estão</p><p>ganhando espaço nas telinhas e nas telonas, arrebatando espectadores, críticos</p><p>especializados e atores que buscam fama e reconhecimento profissional ao</p><p>interpretar personagens de “psiquismo tão complexo”. Se não tomarmos muito</p><p>cuidado, acabaremos adotando a conduta psicopática como um estilo de vida</p><p>eficiente para alcançar a autossatisfação, ou então como um comportamento</p><p>adaptativo de sobrevivência.</p><p>É hora de parar e realizar uma profunda reflexão coletiva e individual.</p><p>Precisamos definir em que proporções estamos contribuindo para a promoção de</p><p>uma cultura psicopática. Temos que unir forças para efetuar um combate efetivo</p><p>das ações psicopáticas em todas as suas manifestações. Para começar,</p><p>precisamos rever a nossa tolerância em relação às pequenas transgressões do dia</p><p>a dia, como jogar papel no chão, buzinar em frente ao hospital, urinar em postes,</p><p>cuspir nas calçadas, estacionar em locais proibidos, não recolher os dejetos dos</p><p>animais de estimação, e por aí vai.</p><p>E o que dizer de nossa tolerância para com a corrupção? Chegamos ao ponto</p><p>absurdo de concordar com frases do tipo: “Fulano rouba mas faz”. Isso</p><p>representa a mais pura acomodação política que experimentamos em nossa vida</p><p>social. Será que acreditamos realmente na existência da corrupção benigna?</p><p>Evidentemente, sabemos que não, mas tentamos criar justificativas idiotas para</p><p>abrandar nossa turva consciência. Sabemos distinguir claramente o certo do</p><p>errado, no entanto preferimos relativizar essa questão para nos beneficiarmos das</p><p>vantagens materiais das “pequenas” transgressões sociais.</p><p>Precisamos reestruturar, de forma urgente, os processos pelos quais nossas</p><p>crianças e nossos jovens aprendem os valores e os comportamentos sociais. Para</p><p>que isso ocorra, todas as instituições, tanto públicas quanto privadas, terão que</p><p>dar a sua parcela de contribuição. Somente uma educação pautada em sólidos</p><p>valores altruístas poderá fazer surgir uma nova ética social capaz de conciliar</p><p>direitos individuais com responsabilidades interpessoais e coletivas. A</p><p>aprendizagem altruísta é o único caminho possível para combatermos a cultura</p><p>psicopática pautada na insensibilidade interpessoal e na ausência da</p><p>solidariedade coletiva.</p><p>É fundamental destacar que não se trata de cair na velha argumentação da</p><p>perda da virtude em troca do conforto e do progresso. Não é nada disso! Bem-</p><p>vindas sejam as conquistas dos novos tempos, como os avanços científicos e</p><p>tecnológicos, a liberdade de escolha e de expressão. No entanto, nada disso pode</p><p>se transformar em justificativa para a aceitação ou a tolerância para com uma</p><p>sociedade constituída de indivíduos desvinculados dos direitos e das</p><p>necessidades vitais dos que estão ao redor.</p><p>A construção de uma sociedade mais solidária é, a meu ver, o grande desafio</p><p>dos nossos tempos. E, para tal empreitada, teremos que harmonizar o</p><p>desenvolvimento tecnológico com uma consciência que não faça nenhum tipo de</p><p>concessão ao estilo psicopático de ser ou de viver. A luta contra as condutas</p><p>psicopáticas é a luta pelo que há de mais humano em cada um de nós. É a luta</p><p>por um mundo mais ético e menos violento, repleto de “gente fina, elegante e</p><p>sincera”.</p><p>ANEXO A</p><p>DSM-IV-TR — (301.7)</p><p>Critérios Diagnósticos para Transtorno da</p><p>Personalidade Antissocial A. Um padrão global de</p><p>desrespeito e violação dos direitos dos outros, que</p><p>ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo</p><p>menos três dos seguintes critérios: (1) incapacidade de</p><p>adequar-se às normas sociais com relação a</p><p>comportamentos lícitos, indicada pela execução</p><p>repetida de atos que constituem motivo de detenção.</p><p>(2) propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os</p><p>outros para obter vantagens pessoais ou prazer.</p><p>(3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro.</p><p>(4) irritabilidade</p><p>e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas.</p><p>(5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia.</p><p>(6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento</p><p>laboral consistente ou de honrar obrigações financeiras.</p><p>(7) ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou</p><p>roubado alguém.</p><p>B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.</p><p>C. Existem evidências de transtorno da conduta com início antes dos 15 anos de idade.</p><p>D. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de</p><p>esquizofrenia ou episódio maníaco.</p><p>ANEXO B</p><p>CID-10 — (F60.2) Transtorno de</p><p>Personalidade Dissocial Transtorno</p><p>de personalidade caracterizado por</p><p>um desprezo das obrigações sociais,</p><p>falta de empatia para com os outros.</p><p>Há um desvio considerável entre o</p><p>comportamento e as normas sociais</p><p>estabelecidas. O comportamento não</p><p>é facilmente modificado pelas</p><p>experiências adversas, inclusive pelas</p><p>punições. Existe uma baixa tolerância</p><p>à frustração e um baixo limiar de</p><p>descarga da agressividade, inclusive</p><p>da violência. Existe uma tendência a</p><p>culpar os outros ou a fornecer</p><p>racionalizações plausíveis para</p><p>explicar um comportamento que leva</p><p>o sujeito a entrar em conflito com a</p><p>o sujeito a entrar em conflito com a</p><p>sociedade.</p><p>Personalidade (transtorno da):</p><p>amoral</p><p>antissocial</p><p>associal</p><p>psicopática</p><p>sociopática</p><p>Exclui: transtorno (de) (da):</p><p>conduta (F91.-)</p><p>personalidade do tipo instabilidade emocional (F60.3)</p><p>ANEXO C</p><p>DSM-IV-TR — (312.8)</p><p>Critérios Diagnósticos para Transtorno da Conduta</p><p>A. Um padrão repetitivo e persistente de comportamento no qual são violados os direitos individuais</p><p>dos outros ou normas ou regras sociais importantes próprias da idade, manifestado pela presença de</p><p>três (ou mais) dos seguintes critérios nos últimos 12 meses, com presença de pelo menos um deles</p><p>nos últimos seis meses:</p><p>Agressão a pessoas e animais</p><p>(1) provocações, ameaças e intimidações frequentes</p><p>(2) lutas corporais frequentes</p><p>(3) utilização de arma capaz de infligir graves lesões corporais (por exemplo, bastão, tijolo, garrafa</p><p>quebrada, faca, revólver)</p><p>(4) crueldade física para com pessoas</p><p>(5) crueldade física para com animais</p><p>(6) roubo em confronto com a vítima (por exemplo, bater carteira, arrancar bolsa, extorsão, assalto à</p><p>mão armada)</p><p>(7) coação para que alguém tivesse atividade sexual consigo</p><p>Destruição de patrimônio</p><p>(8) envolveu-se deliberadamente na provocação de incêndio com a intenção de causar sérios danos</p><p>(9) destruiu deliberadamente a propriedade alheia (diferente de provocação de incêndio)</p><p>Defraudação ou furto</p><p>(10) arrombou residência, prédio ou automóvel alheios</p><p>(11) mentiras frequentes para obter bens ou favores ou para esquivar-se de obrigações legais (isto é,</p><p>ludibriar pessoas)</p><p>(12) roubo de objetos de valor sem confronto com a vítima (por exemplo, furto em lojas, mas sem</p><p>arrombar e invadir; falsificação)</p><p>Sérias violações de regras</p><p>(13) frequente permanência na rua à noite, contrariando proibições por parte dos pais, iniciando antes</p><p>dos 13 anos de idade</p><p>(14) fugiu de casa à noite por pelo menos duas vezes, enquanto vivia na casa dos pais ou em lar</p><p>adotivo (ou uma vez, sem retornar por um extenso período)</p><p>(15) gazetas frequentes, iniciando antes dos 13 anos de idade</p><p>B. A perturbação do comportamento causa prejuízo clinicamente significativo do funcionamento</p><p>social, acadêmico ou ocupacional.</p><p>C. Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, não são satisfeitos os critérios para o transtorno da</p><p>personalidade antissocial.</p><p>ESPECIFICAR TIPO COM BASE NA IDADE DE INÍCIO:</p><p>312.81 Tipo com início na infância: início de pelo menos um critério característico do transtorno da</p><p>conduta antes dos dez anos de idade.</p><p>312.82 Tipo com início na adolescência: ausência de quaisquer critérios característicos do</p><p>transtorno da conduta antes dos dez anos de idade.</p><p>312. 89 Transtorno da conduta, início inespecificado: a idade do início não é conhecida.</p><p>ESPECIFICAR GRAVIDADE:</p><p>LEVE: poucos problemas de conduta, se existem, além dos exigidos para fazer o diagnóstico, sendo</p><p>que os problemas de conduta causam apenas um dano pequeno a outras pessoas.</p><p>MODERADO: um número de problemas de conduta e o efeito sobre outros são intermediários, entre</p><p>“leve” e “grave”.</p><p>GRAVE: muitos problemas de conduta além dos exigidos para fazer o diagnóstico ou problemas de</p><p>conduta que causam dano considerável a outras pessoas.</p><p>Sites úteis</p><p>AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION (APA) www.psych.org</p><p>ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (ABP)</p><p>www.abpbrasil.org.br CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV)</p><p>www.cvv.com.br</p><p>DISQUE DENÚNCIA</p><p>www.disquedenuncia.org.br ASSOCIAÇÃO DE PARENTES E AMIGOS DE</p><p>VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA (APAVV) www.apavv.org.br</p><p>CENTRAL NACIONAL DE DENÚNCIAS DE CRIMES CIBERNÉTICOS — SAFERNET BRASIL</p><p>www.denunciar.org.br SECRETARIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL — RJ</p><p>www.rio.rj.gov.br/smas</p><p>WITHOUT CONSCIENCE — ROBERT HARE’S WEB SITE DEVOTED TO THE STUDY OF</p><p>PSYCHOPATHY</p><p>www.hare.org</p><p>WORLD HEALTH ORGANIZATION</p><p>www.who.int</p><p>BLOG DA ATRIZ DANIELLA PEREZ</p><p>http://daniellafperez.blogspot.com/</p><p>VÍDEOS DE ENTREVISTAS DA ESCRITORA ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA</p><p>youtube.com/anabeatrizbsilva VÍDEOS POSTADOS PELA ESCRITORA GLORIA</p><p>PEREZ</p><p>youtube.com/gfperez</p><p>Telefones úteis ASSOCIAÇÃO</p><p>BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA</p><p>(21) 2199-7500</p><p>CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV) RIO DE JANEIRO: (21) 2233-9191</p><p>CAMPINAS: (19) 3272-7777</p><p>BRASÍLIA: (61) 3326-4111</p><p>SALVADOR: (71) 3322-4111</p><p>CURITIBA: (41) 3342-4111</p><p>DELEGACIA DA MULHER</p><p>RIO DE JANEIRO: (21) 3399-3690</p><p>SÃO PAULO: (11) 3241-3328</p><p>BRASÍLIA: (61) 3242-4300</p><p>SALVADOR: (71) 3116-7000</p><p>CURITIBA: (41) 3223-5323</p><p>DISQUE DENÚNCIA</p><p>RIO DE JANEIRO: (21) 2253-1177</p><p>SÃO PAULO: 181</p><p>BRASÍLIA: (61) 3323-8855</p><p>SALVADOR: (71) 3235-0000</p><p>TELEFONE NACIONAL: 100</p><p>SECRETARIAS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL</p><p>RIO DE JANEIRO: (21) 2293-0393</p><p>SÃO PAULO: (11) 3291-9666</p><p>Bibliografia</p><p>ADOLPHS, R. “Is the human amygdale specialized for processing social information?”. 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Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>Homepage: www.draanabeatriz.com.br</p><p>E-mail: contato@draanabeatriz.com.br</p><p>abcomport@gmail.com</p><p>Twitter: twitter.com/anabeatrizpsi</p><p>Facebook: facebook.com/anabeatriz.mcomport</p><p>YouTube: youtube.com/anabeatrizbsilva</p><p>[1]. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 4. ed. Texto revisado. Vide Anexo A.</p><p>[2]. Classificação internacional das doenças. Vide Anexo B.</p><p>[3]. Jornal O Globo, 15 nov. 2006.</p><p>[4]. Revista Época, ed. 259, Globo, 5 maio 2003; Revista Ciência Criminal — Especial Mentes Criminosas;</p><p>Segmento, 2007; Portal R7 Vídeos: “Exclusivo: Marcelo Rezende entrevista criminoso que matou mais</p><p>de cem pessoas”. Acesso em 11 jun. 2012.</p><p>[5]. Revista Veja, ed. 2.021, ano 40: “Sem culpa e sem vergonha”. Abril, 15 ago. 2007.</p><p>[6]. Revista Veja, ed. 1.993, ano 40. Abril, 31 jan. 2007.</p><p>[7]. Revista Veja, ed. 1.744. Abril, 27 mar. 2002.</p><p>[8]. Revista Veja, ed. 2.053. Abril, 26 mar. 2008; programa Fantástico, Rede Globo de Televisão, exibido</p><p>em 23 mar. 2008; Procuradoria da República de Goiás: <http://www.prgo.mpf.mp.br>. Acesso em 2 fev.</p><p>2014.</p><p>[9]. G1: O Portal de Notícias da Globo, <www.g1.com.br>. Acesso de 22 ago. 2007 a 3 abr. 2009; programa</p><p>Fantástico, Rede Globo de Televisão, exibido em 26 ago. 2007; Folha de S.Paulo Online. Acesso em</p><p>29 maio 2011; Glamurama, <http://glamurama.uol.com.br>. Acesso em 18 maio 2014.</p><p>[10]. O Globo Online: <www.oglobo.com.br>. Acesso entre 30 set. 2006 e 30 nov. 2007; G1: O Portal de</p><p>Notícias da Globo: <www.g1.com.br>. Acesso entre 9 out. 2004 e 10 dez. 2013.</p><p>[11]. Revista Época, ed. 234. Globo, 11 nov. 2002</p><p>[12]. Revista Época, ed. 234. Globo, 11 nov. 2002; revista IstoÉ Gente, ed. 172. Três, 18 nov. 2002; revista</p><p>Fantástico, no 1, Globo, dez. 2006; programa Fantástico, Rede Globo de Televisão, exibido em 9 abr.</p><p>2006 e 29 nov. 2009; Revista Consultor Jurídico: <www.conjur.com.br>. Acesso em 20 nov. 2009; O</p><p>quinto mandamento: caso de polícia, Ilana Casoy, 2006.</p><p>[13]. Programa Fantástico, Rede Globo de Televisão, exibido em 24 fev. 2007; G1: O Portal de Notícias da</p><p>Globo: <www.g1.com.br>. Acesso em 25 fev. 2007.</p><p>[14].</p><p>Programa Linha direta — “Inimiga íntima”, Rede Globo de Televisão, exibido em 29 nov. 2007 e 6</p><p>dez. 2007. Disponível em: <http://redeglobo.globo.com/Linhadireta>. Acesso em 29 nov. 2007 e em 6</p><p>dez. 2007.</p><p>[15]. Entrevista concedida ao programa Mais você (Rede Globo de Televisão), durante o julgamento de</p><p>Lindemberg Alves Fernandes. Disponível em: <http://gshow.globo.com/programas/mais-voce/>.</p><p>Acesso em 15 fev. 2012.</p><p>[16]. “As pessoas não aceitam que o mal existe. Infelizmente, ele existe”, Márcia Vieira, jornal O Estado de</p><p>S. Paulo. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso%2cas-pessoas-nao-aceitam-</p><p>que-o-mal-existe-infelizmente-ele-existe%2c266665%2c0.htm>. Acesso em 26 out. 2008.</p><p>[17]. “As tintas do inferno”, revista Veja, ed. 2.083, 22 out. 2008; revista Veja, ed. 2.084, 29 out. 2008;</p><p>Veja.com, sobre o caso Eloá. Disponível em: <http://veja.abril.com.br>. Acesso de 13 jan. 2012 a 4 jun.</p><p>2013.</p><p>[18]. Programa Fantástico, Rede Globo de Televisão, exibido em 20 abr. 2008; Revista Veja, ed. 2.058.</p><p>Abril, 30 abr. 2008; Jornal Nacional, Rede Globo de Televisão, exibido em 1o maio 2008; Jornal do</p><p>Terra, 9 maio 2008; G1: O Portal de Notícias da Globo: <www.g1.com.br>. Acesso de 30 abr. 2008 a</p><p>16 maio 2008. A prova é a testemunha, Ilana Casoy, 2010.</p><p>[19]. Programa Sem censura, TVE Brasil, exibido em 4 jan. 1993.</p><p>[20]. Programa Sem censura, TVE Brasil, exibido em 4 jan. 1993.</p><p>[21]. Jornal O Globo, 23 jan. 1997; jornal O Dia, 24 jan. 1997.</p><p>[22]. Revista Veja. Abril, 28 ago. 1996; Jornal nacional, Rede Globo de Televisão, exibido em 29 dez. 1992,</p><p>vídeo capturado do YouTube. <www.youtube.com.br/ricardozanon>. Acesso em 3 nov. 2007; programa</p><p>http://glamurama.uol.com.br</p><p>http://gshow.globo.com/programas/mais-voce/</p><p>http://www.g1.com.br</p><p>Fantástico, Rede Globo de Televisão, exibido em 25 ago. 1996, vídeo capturado do YouTube.</p><p><www.youtube.com.br/ricardozanon>. Acesso em 15 nov. 2007; programa Fantástico, Rede Globo de</p><p>Televisão, exibido em 30 dez. 2007, vídeo capturado do YouTube. <www.youtube.com.br/madlovis>.</p><p>Acesso em 30 dez. 2007; vídeos capturados do YouTube e postados por Gloria Perez</p><p><www.youtube.com.br/gfperez>. Acesso entre 12 jan. 2007 e 12 abr. 2008; autos do processo;</p><p>entrevista de Guilherme de Pádua à repórter Lucileia Cordovil, no presídio de Água Santa; entrevista de</p><p>Guilherme de Pádua a Jorge Tavares: jornal O Dia, 7 jan. 1993, e jornal O Globo, 8 jan. 1993.</p><p>[23]. “Biography: Ted Bundy”, RealCrazyWoman2, History Channel. Disponível em</p><p><http://www.youtube.com/watch?v=_rNVwBl_bFw>. Acesso em 21 jan. 2012; “Serial killers: A última</p><p>entrevista de Ted Bundy”, Aprendiz Verde [Legendado]. Disponível em</p><p><http://www.youtube.com/watch?v=nVain2j_uK0>. Acesso em 24 maio 2013.</p><p>[24]. Revista Veja, ed. 1.559. Abril, 12 ago. 1998; Veja em Dia, disponível em</p><p><www.vejaonline.abril.com.br>. Acesso em 24 jun. 2008.</p><p>[25]. Revista IstoÉ Independente, ed. 2.150. Disponível em</p><p><http://www.istoe.com.br/reportagens/121068_A+MARIA+DA+PENHA+ME+TRANSFORMOU+NUM+MONSTRO+>.</p><p>Acesso em 21 jan. 2011.</p><p>[26]. G1: O Portal de Notícias da Globo: <www.g1.com.br>. Acesso entre 18 jun. 2006 e 13 mar. 2008;</p><p>Jornal nacional, Rede Globo de Televisão, exibido em 7 jul. 2008.</p><p>[27]. Ver Anexo C.</p><p>Folha de rosto</p><p>Créditos</p><p>Dedicatória</p><p>Dedicatória 2</p><p>Prefácio</p><p>Introdução</p><p>Epígrafe</p><p>1 - Razão e sensibilidade - Um sentido chamado consciência</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>3 - Pessoas no mínimo suspeitas</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>10 - De onde vem isso tudo?</p><p>Ilustração</p><p>Epígrafe</p><p>11 - O que podemos fazer?</p><p>Epígrafe</p><p>12 - Manual de sobrevivência</p><p>Epígrafe</p><p>13 - Alguma coisa está fora da ordem</p><p>ANEXO A</p><p>ANEXO B</p><p>ANEXO C</p><p>Sites úteis</p><p>Telefones úteis</p><p>Bibliografia</p><p>Contatos da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>Notas</p><p>sabia</p><p>nadar, pediu uma carona para chegar à outra margem.</p><p>Desconfiado, o sapo respondeu:</p><p>— Ora, escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar,</p><p>soltar o seu veneno, e eu vou morrer.</p><p>Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que, se picasse</p><p>o sapo, ambos morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo</p><p>cedeu, acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar.</p><p>Ao final da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão mortal no sapo e saltou</p><p>ileso em terra firme.</p><p>Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo, desesperado, quis</p><p>saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente:</p><p>— Porque essa é a minha natureza!</p><p>Vez por outra, essa fábula surge em minha mente, seja no cotidiano</p><p>profissional, seja por meio do acompanhamento das notícias diárias, pelos</p><p>jornais e pela TV. Trata-se de uma história arquetípica, que ilustra exemplarmente</p><p>a natureza das pessoas que serão analisadas e descritas ao longo deste livro.</p><p>A ideia de escrever sobre psicopatas surgiu em razão do momento violento,</p><p>desumano e marcado por escândalos que nos abate, mas também serve como um</p><p>alerta aos desprevenidos quanto à ação destruidora desses indivíduos. Devo</p><p>admitir minha ousadia, mas não pude resistir às inúmeras solicitações dos meus</p><p>leitores, pacientes, conhecidos e amigos.</p><p>Quando pensamos em psicopatia, logo nos vem à mente um sujeito com cara</p><p>de mau, truculento, de aparência descuidada, pinta de assassino e desvios</p><p>comportamentais tão óbvios que poderíamos reconhecê-lo sem pestanejar. Isso é</p><p>um grande equívoco!</p><p>Para os desavisados, reconhecê-los não é uma tarefa tão fácil quanto se</p><p>imagina. Os psicopatas enganam e representam muitíssimo bem! Seus talentos</p><p>teatrais e seu poder de convencimento são tão impressionantes que eles chegam</p><p>a usar as pessoas com a única intenção de atingir seus sórdidos objetivos. Tudo</p><p>isso sem nenhum aviso prévio, em grande estilo, doa a quem doer.</p><p>Mas quem são essas criaturas tão nocivas? São pessoas loucas ou</p><p>perturbadas? O que fazem? O que sentem? Como e onde vivem? Todos são</p><p>assassinos?</p><p>Este livro discorre sobre pessoas frias, insensíveis, manipuladoras, perversas,</p><p>transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem consciência e</p><p>desprovidas de sentimento de compaixão, culpa ou remorso. Esses “predadores</p><p>sociais” com aparência humana estão por aí, misturados conosco, incógnitos,</p><p>infiltrados em todos os setores sociais. São homens, mulheres, de qualquer etnia,</p><p>credo ou nível social. Trabalham, estudam, fazem carreiras, casam, têm filhos,</p><p>mas, definitivamente, não são como a maioria das pessoas: aquelas a quem</p><p>chamaríamos de “pessoas do bem”.</p><p>Em casos extremos, os psicopatas matam a sangue-frio, com requintes de</p><p>crueldade, sem medo nem arrependimento. Porém o que a sociedade desconhece</p><p>é que os psicopatas, em sua grande maioria, não são assassinos e vivem como se</p><p>fossem pessoas comuns.</p><p>Eles podem arruinar empresas e famílias, provocar intrigas, destruir sonhos,</p><p>mas não matam. E, exatamente por isso, permanecem por muito tempo, ou até</p><p>uma vida inteira, sem ser descobertos ou diagnosticados. Por serem charmosos,</p><p>eloquentes, inteligentes, envolventes e sedutores, não costumam levantar a</p><p>menor suspeita de quem realmente são. Podemos encontrá-los disfarçados de</p><p>religiosos, bons políticos, bons amantes, bons amigos. Visam apenas o benefício</p><p>próprio, almejam o poder e o status, engordam ilicitamente suas contas</p><p>bancárias, são mentirosos contumazes, parasitas, chefes tiranos, pedófilos,</p><p>líderes natos da maldade.</p><p>A realidade é contundente e cruel; entretanto, o mais impactante é que a</p><p>maioria esmagadora está do lado de fora das grades, convivendo diariamente</p><p>com todos nós. Eles transitam tranquilamente pelas ruas, cruzam nossos</p><p>caminhos, frequentam as mesmas festas, dividem o mesmo teto, dormem na</p><p>mesma cama...</p><p>Apesar de mais de vinte anos de profissão, ainda fico muito surpresa e</p><p>sensibilizada com a quantidade de pacientes que me procuram com sua vida</p><p>arruinada, totalmente em frangalhos, alvejada por esses “seres bípedes” que</p><p>sugam o nosso sangue e vampirizam a nossa alma.</p><p>É importante ressaltar que os psicopatas possuem níveis variados de</p><p>gravidade: leve, moderado e grave. Os primeiros se dedicam a trapacear, aplicar</p><p>golpes e pequenos roubos, mas provavelmente não “sujarão as mãos de sangue”</p><p>nem matarão suas vítimas. Já os últimos botam verdadeiramente a “mão na</p><p>massa”, com métodos cruéis sofisticados, e sentem um enorme prazer com seus</p><p>atos brutais. Mas não se iluda! Qualquer que seja o grau de gravidade, todos,</p><p>invariavelmente, deixam marcas de destruição por onde passam, sem piedade.</p><p>Além de psicopatas, eles também recebem as denominações de sociopatas,</p><p>personalidades antissociais, personalidades psicopáticas, personalidades</p><p>dissociais, personalidades amorais, entre outras. Embora alguns estudiosos</p><p>prefiram diferenciá-los, no meu entendimento, esses termos se equivalem e</p><p>descrevem o mesmo perfil. No entanto, por uma questão de foro íntimo, e</p><p>visando facilitar a compreensão, o termo psicopata será o utilizado neste livro.</p><p>A parte racional ou cognitiva dos psicopatas é perfeita e íntegra, por isso</p><p>sabem perfeitamente o que estão fazendo. Quanto aos sentimentos, porém, são</p><p>absolutamente deficitários, pobres, ausentes de afeto e de profundidade</p><p>emocional. Assim, concordo plenamente quando alguns autores dizem, de forma</p><p>metafórica, que os psicopatas entendem a letra de uma canção, mas são</p><p>incapazes de compreender a melodia.</p><p>Com base nessa premissa, optei por não inserir trechos de letras de canções</p><p>brasileiras na abertura dos capítulos, recurso narrativo que costumo adotar em</p><p>minhas obras. Música é emoção, sentida com a alma. Entendo que repetir a</p><p>mesma fórmula ao descrever o comportamento de criaturas desprovidas de</p><p>afetividade seria, no mínimo, um contrassenso.</p><p>Aqui não me proponho, sob nenhuma hipótese, a oferecer ajuda terapêutica</p><p>aos indivíduos com esse perfil. Ao contrário, o meu objetivo é informar o</p><p>público em geral, para que fique de olhos e ouvidos bem abertos, despertos e</p><p>prevenidos. Suas vítimas prediletas são as pessoas mais sensíveis, mais puras de</p><p>alma e de coração...</p><p>Também tenho como propósito expor parâmetros para que possamos avaliar</p><p>em que escala cada um de nós está contribuindo para promover uma cultura</p><p>social na qual a psicopatia encontra um terreno fértil para prosperar.</p><p>Esta obra contém histórias reais que me foram relatadas por vítimas de</p><p>psicopatas, direta ou indiretamente, e casos tratados com destaque na imprensa.</p><p>Não estou afirmando que os exemplos aqui citados representam autênticos</p><p>psicopatas, e sim que ilustram de forma bastante didática comportamentos que</p><p>um psicopata típico teria. Além disso, todos os casos apresentados se prestam</p><p>muito bem à exemplificação dos mais diversos níveis de psicopatia, desde os</p><p>mais leves até os moderados e graves.</p><p>Dessa forma, tentei esquadrinhar e tornar o tema o mais abrangente possível,</p><p>a fim de responder a uma série de perguntas que, na maioria das vezes, nos deixa</p><p>absolutamente confusos. Assim, espero contribuir para que as pessoas se</p><p>previnam contra as ameaças que nos rondam de forma silenciosa. Estou</p><p>convencida de que falhas em nossas organizações familiares, educacionais e</p><p>sociais são dados importantes e merecem estudos aprofundados e toda a nossa</p><p>atenção, mas esses fatores por si sós não são suficientes para explicar o</p><p>fenômeno da psicopatia.</p><p>A natureza dos psicopatas é devastadora, assustadora, e, aos poucos, a ciência</p><p>começa a se aprofundar e a compreender aquilo que contradiz a própria natureza</p><p>humana.</p><p>O conteúdo aqui exposto é denso e intrigante. As páginas percorrem a mente</p><p>sombria de criaturas cuja vida parece não ter se desenvolvido totalmente. Saber</p><p>identificá-las pode ser um antídoto (talvez o único) contra seu veneno paralisante</p><p>e mortal. Infelizmente, a desinformação nos torna vulneráveis, indefesos como</p><p>sapos tolos fisgados pelas habilidades camaleônicas dos escorpiões.</p><p>Prepare-se, porque certamente você conhece, já ouviu falar ou convive com</p><p>um deles.</p><p>Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>Qualquer história sobre consciência é relativa à conectividade que existe entre</p><p>todas as coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente, alegramo-</p><p>nos diante da natureza gentil dos atos de amor.</p><p>1</p><p>RAZÃO E SENSIBILIDADE</p><p>Um sentido chamado consciência</p><p>Lembro como se fosse hoje. Fecho os olhos e lá estamos, eu e meus colegas,</p><p>no anfiteatro principal do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. Aquilo que</p><p>a princípio deveria ser mais uma das palestras do nosso vasto currículo do curso</p><p>de medicina foi fundamental na minha vida profissional.</p><p>Era sexta-feira, nove horas da manhã, e eu me encontrava sonolenta e</p><p>exausta, em função do plantão que havia feito na noite anterior. Confesso que</p><p>por uns dez a quinze minutos quase rezei para que o palestrante faltasse ao</p><p>compromisso. Dessa forma, poderia ir para casa, tomar um belo banho e dormir</p><p>o sono dos justos sem nenhuma pontinha de culpa.</p><p>Por volta das 9h15, um homem franzino e muito branco, que trajava uma</p><p>calça jeans e um discreto blusão azul, adentrou o auditório repleto de alunos,</p><p>subiu no tablado e desenhou na lousa o seguinte gráfico:</p><p>Em tom provocador e entusiasmado, ele entonou em voz firme e forte a</p><p>seguinte questão: “O que é consciência?”.</p><p>Ainda sob o impacto daquela estranha presença, que nem sequer havia se</p><p>apresentado, a turma entreolhava-se de forma discreta, na expectativa de que</p><p>alguém quebrasse o silêncio constrangedor que inundava o anfiteatro.</p><p>Por mais estranho que possa parecer, aquele silêncio me despertou, ou</p><p>melhor, toda aquela situação me intrigou de alguma forma. Sentime desafiada</p><p>pelo questionamento que aquele homem havia jogado no ar!</p><p>Rapidamente, ajeitei-me na cadeira, esfreguei os olhos e impulsivamente</p><p>disparei: “Bom dia, mestre. Sou estudante do terceiro ano desta faculdade (UERJ)</p><p>e gostaria de saber o seu nome, a sua especialidade e uma pequena explicação</p><p>sobre o gráfico na lousa”.</p><p>Por uma fração de segundo, percebi que tinha sido ligeiramente indelicada e</p><p>também desafiadora. Quando deparei com o professor à minha frente, pude</p><p>observar certo bom humor em sua fisionomia, o que foi confirmado por suas</p><p>palavras: “Bom dia a todos os acadêmicos aqui presentes! Meu nome é Osvaldo</p><p>e sou médico psiquiatra, professor assistente da cadeira de psiquiatria desta</p><p>faculdade”.</p><p>Sem pestanejar, o professor Osvaldo, dirigindo-se a mim, fez valer a lei da</p><p>ação e reação: “Vejo que você está muito interessada no tema de hoje. Então,</p><p>vamos iniciar nossa aula com a sua descrição sobre a consciência”.</p><p>Naquele momento, percebi que o ditado “Quem está na chuva é pra se</p><p>molhar” era inteiramente verdadeiro e, sem possibilidades de fuga, falei:</p><p>“Professor, quando ouço a palavra consciência, dois sentimentos me vêm à</p><p>cabeça: um de ordem prática, ou seja, se estou acordada ou não; e outro de</p><p>ordem subjetiva, que me remete ao fato de eu ter consciência de quem sou e qual</p><p>o meu papel no mundo”.</p><p>Com um sorriso de aprovação nos lábios, o professor continuou: “Em parte,</p><p>você já explicou o gráfico aqui colocado. De certa forma, seu ponto de vista está</p><p>correto. Mas vamos nos aprofundar um pouco mais nessas questões”.</p><p>Apontando para o desenho na lousa, ele prosseguiu:</p><p>“ESTAR consciente é fazer uso da razão ou da capacidade de raciocinar e de</p><p>processar os fatos que vivenciamos. ESTAR consciente é ser capaz de pensar e ter</p><p>ciência das nossas ações físicas e mentais. Na clínica médica, podemos averiguar</p><p>o estado de alerta ou lucidez que uma pessoa apresenta em determinado</p><p>momento. Assim, podemos perceber, num exame clínico, o estado ou nível de</p><p>consciência, que podemos identificar como: lúcido, vígil, hipovígil, hipervígil,</p><p>confuso, em coma profundo etc. Todos os termos atestam o nível de percepção</p><p>que temos em relação ao mundo.</p><p>“Alguém que utilize certas doses de álcool, por exemplo, pode apresentar o</p><p>seu nível de consciência reduzido (hipovígil) ou até mesmo atingir o estado de</p><p>coma. De forma inversa, as anfetaminas (estimulantes) — muito utilizadas em</p><p>dietas de emagrecimento — costumam fazer o cérebro trabalhar mais depressa,</p><p>deixando as pessoas mais ‘acesas’, ‘elétricas’, com a fala rápida, e podem</p><p>provocar insônia e muita irritabilidade. Esse estado é conhecido como</p><p>hipervigilância.”</p><p>Finalmente alguém falava de forma clara como deveríamos iniciar um exame</p><p>clínico dos nossos futuros pacientes. Entusiasmados e atentos às explicações do</p><p>professor, fizemos inúmeras perguntas sobre acidentes automobilísticos,</p><p>traumatismos cranianos, substâncias tóxicas e tantas outras situações que podem</p><p>alterar nossos níveis de consciência.</p><p>A segunda parte da aula não se tratava mais de identificar o estado ou nível de</p><p>consciência de alguém, mas sim de algo muito mais complexo. Agora a questão</p><p>era “SER ou não SER”.</p><p>“Ser consciente não é um estado momentâneo em nossa existência, como dito</p><p>anteriormente. Ser consciente refere-se à nossa maneira de existir no mundo.</p><p>Está relacionado à forma como conduzimos nossa vida e, especialmente, às</p><p>ligações emocionais que estabelecemos com as pessoas e as coisas em nosso dia</p><p>a dia. Ser dotado de consciência é ser capaz de amar!”, concluiu o professor.</p><p>Ao soar o sinal, a maioria da turma se levantou, esvaziando o anfiteatro. Por</p><p>alguns minutos, fiquei ali, pensativa, como se algo tivesse me atingido de forma</p><p>estranha e paralisante. Vi o professor Osvaldo saindo; de longe, ele fez um gesto</p><p>discreto de despedida ao qual, sem querer, não consegui responder. Na minha</p><p>mente, duas palavras ecoavam estridentes: consciência e amor! Eu não sabia</p><p>explicar o porquê, mas, naquele momento, fui tomada por duas inquestionáveis</p><p>certezas: eu estava lúcida (vígil) e experimentava uma emoção maravilhosa e</p><p>transcendente de ser uma pessoa consciente.</p><p>De lá para cá, muitos anos se passaram, mas aquela aula — em especial, a sua</p><p>parte final — foi decisiva na minha vida. A partir daquele dia, exercer a</p><p>psiquiatria passou a ser parte inseparável da minha existência. Eu tinha a</p><p>consciência de que a minha profissão seria um canal por onde emoções muito</p><p>boas transitariam por toda a vida.</p><p>Ser consciente é ser capaz de amar</p><p>Como visto na aula do professor Osvaldo, o termo consciência é ambíguo,</p><p>sugerindo dois significados totalmente distintos. E por isso mesmo é</p><p>compreensível que, a esta altura, o leitor esteja confuso. Na realidade, a</p><p>consciência é um atributo que transita entre a razão e a sensibilidade.</p><p>Popularmente falando, entre a cabeça e o coração.</p><p>Falar sobre consciência pode ser uma tarefa fácil e difícil ao mesmo tempo. O</p><p>fácil são as explicações científicas sobre o desenvolvimento da consciência no</p><p>cérebro, que envolvem engrenagens como atenção, memória, circuitos neuronais</p><p>e estruturas cerebrais, as quais só serviriam para confundir um pouco mais. Nada</p><p>disso vem ao caso agora; pelo menos não é esse o meu propósito. Portanto,</p><p>esqueça! Aqui, vou considerar o lado difícil, subjetivo e relativo ao sentido ético</p><p>da existência humana: o SER consciente.</p><p>Mostrar apreço pelas condutas louváveis, ser bondoso ou educado, ter um</p><p>comportamento exemplar</p><p>e cauteloso, preocupar-se com o que os outros pensam</p><p>a nosso respeito nem de longe pode ser definido como consciência de fato.</p><p>Afinal, a consciência não é um comportamento em si; nem mesmo é algo que</p><p>possamos fazer ou em que pensamos. A consciência é algo que sentimos. Ela</p><p>existe, antes de tudo, no campo da afeição ou dos afetos. Mais do que uma</p><p>função comportamental ou intelectual, a consciência pode ser definida como</p><p>uma emoção.</p><p>Peço licença e vou um pouco além: no meu entender, a consciência é um</p><p>senso de responsabilidade e generosidade baseado em vínculos emocionais, de</p><p>extrema nobreza, com outras criaturas (animais, seres humanos) ou até mesmo</p><p>com a humanidade e o universo como um todo. É uma espécie de entidade</p><p>invisível, que possui vida própria e que independe da nossa razão. É a voz</p><p>secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho</p><p>do bem.</p><p>A consciência nos impulsiona a tomar decisões totalmente irracionais e até</p><p>mesmo com implicações de risco à vida. Ela permeia as nossas atitudes</p><p>cotidianas (como perder uma reunião de negócios porque seu filho está ardendo</p><p>em febre) e até as nossas ações de extrema bravura e de autossacrifício (como</p><p>suportar a dor de uma tortura física e psicológica em função de um ideal).</p><p>Assim, a consciência nos abraça e nos conduz pela vida afora, porque está em</p><p>plena comunhão com o mais poderoso combustível afetivo: o amor.</p><p>De forma bem prosaica, imagine a seguinte situação: você está no aconchego</p><p>do seu apartamento, depois de um dia exaustivo de trabalho e reuniões.</p><p>Momentos depois, o interfone toca anunciando a visita inesperada de uma</p><p>grande amiga. Ela está grávida de sete meses e chegou abarrotada de sacolas</p><p>com as últimas compras do enxoval. Apesar do cansaço, você fica</p><p>verdadeiramente feliz com a presença dela.</p><p>Por alguns momentos, vocês conversam alegremente sobre o bebê e os planos</p><p>para o futuro e colocam as fofocas em dia. Lá pelas tantas da noite, sua amiga</p><p>diz que precisa ir embora.</p><p>Em frações de segundo, você pensa: “Preciso tomar um banho e dormir; será</p><p>que ela vai entender se eu não a acompanhar até a portaria do prédio?”, “Mas ela</p><p>está grávida e tem tanta coisa pra carregar!”, “É melhor eu ir junto: foi isso o que</p><p>me ensinaram”.</p><p>Bem, essa tagarelice mental, que azucrina tal qual um crime cometido, sem</p><p>dúvida não é imoral. É absolutamente humana, natural e foge ao nosso controle.</p><p>Mas também não é a sua consciência soprando em seu ouvido.</p><p>Ao contrário do “Vou ou não vou?”, você é imediatamente tomado por um</p><p>impulso generoso e se flagra no elevador com sua amiga, carregando as bolsas e</p><p>as sacolas. Chama um táxi, abre a porta do carro, diz ao motorista para ir com</p><p>cuidado e se despedem felizes.</p><p>Hum! A consciência é assim mesmo: chega sem avisar e não complica:</p><p>apenas faz!</p><p>Uma história mais comovente:</p><p>São Paulo, domingo, novembro de 2007. Cerca de três minutos após ter decolado do aeroporto</p><p>Campo de Marte, um Learjet 35 caiu de bico sobre uma residência, onde moravam catorze pessoas de</p><p>uma mesma família. No acidente morreram o piloto, o copiloto e seis pessoas que estavam na casa.</p><p>Os vizinhos Airton, de dezesseis anos, e seu pai, o sr. Ângelo, de 75, correram para o sobrado da</p><p>família Fernandes assim que ouviram o barulho da queda do avião. Pai e filho conseguiram salvar</p><p>Cláudia Fernandes, de dezesseis anos. Eles ouviram o choro da garota, que tem autismo e brincava</p><p>com sua amiga Laís na hora do acidente. Airton, emocionado, descalço e com a blusa suja de sangue</p><p>e cinzas, lamentava ter conseguido salvar apenas uma única vida. O sr. Ângelo queimou a mão ao</p><p>salvar Cláudia e, após ser atendido por médicos no local, permaneceu na rua tentando furar o</p><p>bloqueio policial para voltar aos escombros.</p><p>Sem nenhuma sombra de dúvida, podemos afirmar que Airton e Ângelo</p><p>possuem consciência. E, naquela tarde de domingo, eles não pensaram;</p><p>simplesmente agiram: isso é pura consciência em exercício.</p><p>Todas as pessoas portadoras de consciência se emocionam ao testemunhar ou</p><p>tomar conhecimento de um ato altruísta, seja ele simples ou grandioso. Qualquer</p><p>história sobre consciência é relativa à conectividade que existe entre todas as</p><p>coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente (sem nos darmos</p><p>conta), alegramo-nos diante da natureza gentil dos atos de amor.</p><p>A consciência genuína</p><p>No decorrer da nossa história, muitos estudos e teorias se formaram em torno</p><p>da consciência e das inevitáveis polêmicas sobre o bem e o mal. Com o passar</p><p>dos séculos, a consciência foi — e ainda é — alvo de discussões entre teólogos,</p><p>filósofos, sociólogos e, mais recentemente, desafia e intriga cientistas e juristas.</p><p>De fato, conceituar ou definir consciência é algo extremamente complexo que</p><p>pode gerar controvérsias por anos a fio. Isso porque ela está acima de teorias</p><p>religiosas ou mesmo psicológicas e científicas.</p><p>A meu ver, ter consciência ou ser consciente trata-se de possuir o mais</p><p>sofisticado e evoluído de todos os sentidos da vida humana: o sexto sentido.</p><p>Atrevo-me a afirmar que tal sentido foi o último a se desenvolver na história</p><p>evolutiva da espécie humana. Nossa humanidade, benevolência e</p><p>condescendência devem ser atribuídas a esse nobre sentido. A consciência é</p><p>criadora do significado de nossa existência e, de forma subjetiva, também é</p><p>criadora do significado da vida de cada um de nós. Ela influencia e determina o</p><p>papel que cada um terá na sociedade e no universo.</p><p>Como eu disse, a consciência é tão espetacular que só podemos senti-la, e</p><p>talvez esteja aí toda a sua grandeza. Se existe alguma coisa de divino em nós,</p><p>entendo que a nossa consciência seja essa expressão e, quem sabe, uma fração</p><p>incalculável do tão falado e pouco praticado amor universal ou incondicional. Na</p><p>verdade, esse sexto sentido é essencialmente baseado na compaixão e na</p><p>verdadeira prática do amor.</p><p>Uma vez que a consciência está profundamente alicerçada em nossa</p><p>habilidade de amar, em criar vínculos afetivos e nos abastecer dos mais nobres</p><p>sentimentos, ela nos faz subjetivamente únicos, porém integrados e sincrônicos</p><p>com o TODO maior e transcendente (tenha ele o nome que tiver, nos diversos</p><p>povos ao redor do mundo).</p><p>A consciência genuína nos impulsiona a ir ao encontro do outro, colocando-</p><p>nos em seu lugar e entendendo a sua dor. Somos tomados por gestos simples,</p><p>como desejar bom dia àqueles que não conhecemos ou ligar para um amigo só</p><p>para dizer: “Olá, como vai? Estou aqui para o que der e vier!”.</p><p>Inundados de consciência, pedimos desculpas sinceras àqueles que magoamos</p><p>ou ferimos num momento de equívoco. Agradecemos aos nossos pais pela</p><p>oportunidade da vida e pelos ensinamentos de retidão. Vibramos e nos</p><p>emocionamos com a superação de um atleta, que derrama lágrimas ao subir no</p><p>degrau mais alto do pódio.</p><p>Esse sexto sentido é que nos comove com as situações trágicas e também com</p><p>a felicidade do encontro de irmãos separados desde a infância. Ele nos traz</p><p>indignação diante do preconceito, do desrespeito às regras sociais, da</p><p>intolerância ao próximo, da falta de educação, da corrupção e da impunidade.</p><p>A consciência nos inspira a zelar pelo nosso animal de estimação e a nos</p><p>desesperarmos pelo desaparecimento dele. Inspira-nos a chorar copiosamente</p><p>com o nascimento de um filho e a acompanhá-lo rumo à descoberta do mundo ao</p><p>seu redor. Permite-nos sentir a profundidade de uma bela melodia, apreciar a</p><p>exuberância de uma flor e exclamar: “Nossa, que linda!”.</p><p>A consciência gera movimentos de extrema grandeza pela paz e leva milhares</p><p>de pessoas às ruas para protestar contra a violência; impulsiona</p><p>o sacrifício</p><p>voluntário e incondicional de pessoas que lutam em prol da humanidade. Ela</p><p>alegra nosso coração com os primeiros raios de sol, anunciando que o dia será</p><p>mais colorido, e também com a chuva que faz brotar a plantação, garantindo o</p><p>nosso pão de cada dia.</p><p>É a consciência que nos impele a doar órgãos em momentos de extrema dor e</p><p>a torcer por um final feliz. Impulsiona indivíduos a salvar muitas vidas, mesmo</p><p>sabendo que pode ser o seu próprio fim. Leva-nos às preces, às orações e às</p><p>correntes do bem, na esperança de dias melhores. Movimenta-nos contra a seca,</p><p>a fome, o desmatamento das florestas e a destruição da camada de ozônio, que</p><p>colocam em risco o rumo do planeta e o futuro das novas gerações.</p><p>Enfim, nos pequenos ou nos grandes gestos, a consciência genuína — e</p><p>somente ela — é capaz de mudar o mundo para melhor.</p><p>Como animais predadores, vampiros ou parasitas humanos, esses indivíduos</p><p>sempre sugam suas presas até o limite improvável de uso e abuso. Na</p><p>matemática desprezível dos psicopatas, só existe o acréscimo unilateral e</p><p>predatório, e somente eles são os beneficiados.</p><p>A piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma</p><p>folha de papel em branco assinada nas mãos de um psicopata. Quando sentimos</p><p>pena, estamos vulneráveis emocionalmente, e é essa a maior arma que eles</p><p>podem usar contra nós.</p><p>3</p><p>PESSOAS NO MÍNIMO</p><p>SUSPEITAS</p><p>Acredito que todo mundo conheça uma pessoa meio imprestável, encostada</p><p>no outro e vivendo folgadamente à custa dele. Vamos lá, faça um esforço e</p><p>vasculhe os “arquivos” salvos em suas pastinhas mentais; certamente você</p><p>encontrará um amigo ou uma amiga, um cunhado, um parente distante, um</p><p>conhecido, ou, em última instância, lembrará uma história que lhe contaram.</p><p>Essas pessoas estão sempre com desculpas esfarrapadas na ponta da língua,</p><p>justificando que os tempos estão “bicudos” e que arrumar emprego não está nada</p><p>fácil. Também existe aquela velha história de que a saúde não anda lá essas</p><p>coisas, dói aqui, dói acolá, e enfrentar o batente não vai dar. Pois é: então analise</p><p>comigo esse comportamento aparentemente inofensivo e que pode ser</p><p>encontrado ao nosso redor.</p><p>Maria se formou em odontologia antes de completar 22 anos e deu seu grito</p><p>de independência. Arrumou seu primeiro emprego dentro da área que escolheu e</p><p>alugou um pequeno apartamento no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, Carla,</p><p>uma conhecida do interior de Santa Catarina e dois anos mais jovem, entrou em</p><p>contato. Papo vem, papo vai, Carla perguntou se poderia passar uns tempos na</p><p>casa de Maria, já que as chances de emprego e estudos eram bem maiores.</p><p>Maria não viu nada de mais naquele pedido. Ao contrário, deu a maior força,</p><p>na intenção de ajudá-la. Para Maria, dar apoio a uma amiga era absolutamente</p><p>natural, e, de mais a mais, ela estava morando sozinha. O que custava acolher</p><p>alguém por alguns meses em sua casa? Carla chegou de mala e cuia e se</p><p>acomodou no apartamento pequeno, mas bem equipado.</p><p>Maria trabalhava o dia todo e estudava com afinco para dar conta do seu</p><p>curso de pós-graduação que iniciara havia alguns meses. Carla ficava em casa,</p><p>assistindo TV, recebendo amigos e assaltando a geladeira. Se havia alguma coisa</p><p>que Carla sabia fazer muito bem era conquistar pessoas e conduzir com</p><p>habilidade uma conversa agradável. Isso era um verdadeiro dom. Levava quem</p><p>quisesse no bico e desfrutava do bom e do melhor, sem pagar absolutamente</p><p>nada por isso.</p><p>Meses a fio se passaram e nada de estudos ou emprego à vista. De todas as</p><p>oportunidades que surgiam, Carla dizia que não era exatamente aquilo que</p><p>estava procurando. Comia, bebia, pendurava-se ao telefone, ia à praia quando</p><p>Deus mandava bom tempo e passeava com os amigos. Vez por outra ligava para</p><p>seus pais, mentia que estava trabalhando e pedia algum dinheiro para ajudar nas</p><p>despesas. Maria trabalhava, estudava, fazia as compras, chegava exausta e</p><p>olhava ao redor: os copos sujos no mesmo lugar, as roupas espalhadas, os tocos</p><p>de cigarros infestando o ambiente, as tarefas por fazer e a panela vazia.</p><p>Convenhamos: por quanto tempo você, leitor, aguentaria</p><p>tamanho abuso?</p><p>O tempo passou e esse “chove não molha” se arrastou por quase um ano. À</p><p>beira de um ataque de nervos, Maria conversou uma, duas e sei lá quantas vezes</p><p>mais com Carla para que ela procurasse um emprego e seguisse o seu caminho.</p><p>Carla ouvia tudo, abaixava a cabeça e dava uma desculpa básica: “Pensei que</p><p>você fosse minha amiga; eu não tenho para onde ir. Voltar para a casa dos meus</p><p>pais é o mesmo que amargar uma derrota. Não sou capaz de suportar”.</p><p>A gota d’água foi quando Carla embolsou o dinheiro do aluguel que Maria</p><p>havia entregado nas mãos dela para que fizesse o favor de pagá-lo na imobiliária.</p><p>E lá se foi sua “amiga”, de mala e cuia, para a casa de outra conhecida, com as</p><p>mesmas desculpas e o mesmo discurso. Maria sentiu descer garganta abaixo um</p><p>gosto misto de alívio, tristeza e culpa.</p><p>Poderíamos dizer que Carla é uma psicopata leve? Não, por enquanto. Isso</p><p>seria precipitado e imprudente. Afinal, temos que ter em mente a imaturidade de</p><p>Carla e que esse comportamento irresponsável pode ser fruto de sua própria</p><p>cultura. Em suma: uma malandragem “inocente” de uma pré-adulta perdida, que</p><p>ainda coloca a mochila nas costas e acampa na casa de quem lhe oferece abrigo.</p><p>Chorando suas pitangas</p><p>Mais de quinze anos se passaram e, mesmo com esses tropeços iniciais, Maria</p><p>e Carla eventualmente se encontravam. Nesse longo período, Maria se casou, sua</p><p>profissão deslanchou e ela manteve uma vida estável. Carla, por sua vez, viveu</p><p>por muito tempo pulando de galho em galho (em casa de amigos, namorados),</p><p>esfolando um e outro. Reclamava de tudo e de todos, jogava uma pessoa contra a</p><p>outra e não parava nos empregos. Ela sempre tinha razão, a culpa era do outro e</p><p>o mundo é que estava errado! Mas, paradoxalmente, ela era envolvente e, com</p><p>isso, sabia explorar muito bem os bons sentimentos que despertava nas pessoas.</p><p>Há alguns anos, Carla mora sozinha no seu próprio apartamento, que, diga-se</p><p>de passagem, foi comprado com o sacrifício de seus pais. Maria às vezes</p><p>questionava o comportamento da amiga, mas, no meio de tantos afazeres, isso</p><p>tudo se diluía; apenas seu coração amolecia cada vez que Carla chorava suas</p><p>pitangas. Carla, como quem não queria nada, chegava de mansinho, pedia um</p><p>dinheiro emprestado, usava o computador por longas horas, usufruía do telefone,</p><p>pegava emprestados livros e CDs, aproveitava a boquinha-livre, alugava o ouvido</p><p>de Maria...</p><p>Certa noite, elas comemoravam o aniversário de um amigo em comum num</p><p>agradável restaurante. Estavam todos por lá: familiares e conhecidos que a vida</p><p>lhes trouxe na bagagem. Carla acendeu um cigarro e baforou lentamente uma</p><p>bola de nuvem branco-azulada sobre a mesa. Maria discretamente falou ao pé do</p><p>ouvido dela: “Vamos até a varanda; ao seu lado tem uma amiga grávida de cinco</p><p>meses”. Carla deu de ombros, olhou bem nos olhos de Maria e sussurrou:</p><p>“Dane-se, aqui é uma área reservada para fumantes. Esse filho não está na minha</p><p>barriga e, se ela o perder, será um pirralho a menos no mundo”.</p><p>Maria estremeceu. A força fria e penetrante do olhar de Carla fez com que</p><p>todas as lembranças invadissem a sua mente: lembrou-se do dinheiro do aluguel,</p><p>das vezes que precisou da ajuda da amiga e ela nunca esteve presente, da falta de</p><p>carinho com as datas importantes de sua vida, da ausência de Carla quando</p><p>permaneceu vários dias hospitalizada, de tudo o que emprestou a ela e de que</p><p>nunca mais viu a cor, das mentiras e da falta de respeito da amiga pelos pais.</p><p>Lembrou-se também do dia em que um menino caiu na frente de Carla e,</p><p>enquanto ele chorava, ela ria e dizia: “Bem feito! Tomara que tenha quebrado o</p><p>braço”.</p><p>A partir de então, Maria refletiu: “Caramba, estou alimentando um</p><p>monstrengo!”. Ela se levantou e não olhou mais para trás. Foi a última vez que</p><p>Maria viu Carla...</p><p>Se analisarmos bem, Carla jamais teve consideração e afeto verdadeiros por</p><p>Maria nem por qualquer outra pessoa que tenha lhe estendido as mãos. Ela</p><p>mentiu, enganou, roubou e viveu na “aba do chapéu” de todos. Recebeu muito,</p><p>mas nunca deu nada em troca. Quanto a seus pais, está fazendo as contas e</p><p>esperando que morram para herdar o pouco que lhes resta. Agora tudo está mais</p><p>claro: aquela pessoa que, por muito tempo, parecia ser frágil, injustiçada e</p><p>levemente desonesta, na realidade, não tem consciência.</p><p>Como saber em quem confiar?</p><p>No exercício da minha profissão, a pergunta anterior é uma das mais ouvidas</p><p>em meu consultório. Isso é natural, pois muitas pessoas que buscam ajuda</p><p>psiquiátrica ou mesmo psicológica já foram vítimas de traumas provocados por</p><p>ações inescrupulosas de psicopatas nos diversos setores de sua vida. E,</p><p>surpreendentemente, essa questão não é a mais importante para tais pessoas, as</p><p>quais, de alguma forma, tiveram a vida arrasada por outros seres humanos. Em</p><p>geral, elas tentam entender desesperadamente onde erraram, na tentativa de</p><p>justificar os atos pouco éticos de seus parceiros, sejam eles cônjuges, sócios,</p><p>amigos, chefes, colegas de trabalho, funcionários etc.</p><p>No meu ponto de vista, a questão sobre em quem confiar deveria ser de suma</p><p>importância para a maioria de nós, incluindo aqueles que não tiveram perdas ou</p><p>traumas muito sérios. É preciso ter em mente que as pessoas não merecedoras de</p><p>nossa confiança não usam roupas especiais, não possuem um sinal na testa que</p><p>as identifique, tampouco apresentam algum perfil físico específico. Elas são</p><p>muito parecidas conosco e podem nos enganar durante uma longa existência.</p><p>Outro detalhe que dificulta muito essa análise interna é o fato de nos</p><p>basearmos, muitas vezes, em estratégias irracionais originadas da nossa própria</p><p>cultura e que acabam por criar crendices ou ditos populares com elevado grau de</p><p>senso comum: “Os homens são todos iguais; não dá pra confiar”, “As mulheres</p><p>são sempre interesseiras”, “Todo mundo é bom, até que se prove o contrário”,</p><p>“Todo mundo merece uma segunda chance” etc.</p><p>No íntimo, todos nós buscamos acreditar em fórmulas mágicas ou regras</p><p>claras que não deixem dúvidas sobre pessoas em quem podemos confiar. No</p><p>entanto, a confiabilidade é algo subjetivo, não existindo um padrão de atitudes</p><p>que nos impeça de cometer enganos ou até mesmo um teste que dê legitimidade</p><p>às pessoas dignas de confiança. Saber e aceitar esse fato é extremamente</p><p>importante para que sejamos mais observadores, cautelosos e, principalmente,</p><p>mais respeitosos conosco. A incerteza dessa condição (ser ou não ser confiável)</p><p>faz parte da natureza humana. Para ser sincera, jamais conheci alguém que tenha</p><p>realizado o feito extraordinário de nunca ter sido ludibriado por alguém mal-</p><p>intencionado. Quando se trata de confiarmos em outra pessoa, todos tropeçamos</p><p>e cometemos falhas. Algumas, infelizmente, podem trazer graves consequências;</p><p>outras, nem tanto, como vimos na história de Maria e Carla, descrita no início do</p><p>capítulo.</p><p>Voltando à pergunta inicial sobre em quem podemos confiar, tenho uma má e</p><p>uma boa notícia. A má é que verdadeiramente existem pessoas que não possuem</p><p>consciência nem sentimentos nobres e, por isso mesmo, não podemos confiar</p><p>nelas de maneira nenhuma. Por favor, acredite nisso!</p><p>Segundo a classificação norte-americana de transtornos mentais (DSM-IV-TR), a</p><p>prevalência geral do transtorno da personalidade antissocial ou psicopatia é de</p><p>cerca de 3% em homens e 1% em mulheres, em amostras comunitárias (aqueles</p><p>que estão entre nós). Taxas de prevalência ainda maiores estão associadas aos</p><p>contextos forenses ou penitenciários. Desse percentual, uma minoria</p><p>corresponderia aos psicopatas mais graves, ou seja, aqueles criminosos cruéis e</p><p>violentos cujos índices de reincidência criminal são elevados. A princípio, 4% da</p><p>população pode não parecer tão significativo, mas imagine uma grande cidade</p><p>como Rio de Janeiro ou São Paulo, por exemplo, onde milhares de pessoas se</p><p>esbarram o tempo todo. A cada cem pessoas que transitam para lá e para cá, três</p><p>ou quatro delas estão praticando atos condenáveis, em graus variáveis de</p><p>gravidade, ou estão indo em direção à próxima vítima. Imagine também o</p><p>estádio do Maracanã lotado numa decisão de campeonato de futebol, onde cerca</p><p>de 80 mil pessoas podem ser acomodadas: ali podem estar concentrados cerca de</p><p>3 mil psicopatas. Quando pensamos sob essa ótica, as estimativas tomam</p><p>proporções gigantescas!</p><p>A boa notícia é que quase 96% das pessoas são consideradas possuidoras de</p><p>uma base razoável de decência e responsabilidade. Isso significa que,</p><p>surpreendentemente, para um padrão comportamental considerado pró-social (a</p><p>favor das boas relações), nosso mundo deveria estar aproximadamente 96% a</p><p>salvo ou, pelo menos, mais humano ou consciente.</p><p>Essa boa notícia sem dúvida nos alegra o coração. No entanto, deixa-nos uma</p><p>sensação no mínimo estranha. Afinal, se a grande maioria da população mundial</p><p>é razoavelmente boa, por que o mundo nos parece tão assustador? Como</p><p>explicar os trágicos noticiários que nos colocam diariamente em contato com a</p><p>violência no trânsito, a contaminação ambiental, os genocídios, os homicídios</p><p>cruéis, a corrupção, os atentados terroristas...?</p><p>A menos que pensemos que tais fatos sejam fruto da evolução natural da</p><p>humanidade, teremos que considerar que a mão do homem encontra-se por trás</p><p>desses acontecimentos. Defendo a ideia de que tais problemas se agravam de</p><p>modo extraordinário por causa da ação dos psicopatas e de diversas outras</p><p>pessoas que, sem desenvolver plenamente essa condição, adotaram uma “forma</p><p>psicopática” de se relacionar com os demais. Os psicopatas representam a</p><p>minoria da população mundial, porém são responsáveis por um grande rastro de</p><p>destruição. Enquanto as pessoas “do mal” se unem ou colaboram entre si na</p><p>busca de interesses comuns, as “do bem” tendem a se dissipar. Ficam acuadas,</p><p>trancafiadas, perdem a sua função social e de organização e acabam por adoecer.</p><p>A “cultura da esperteza” também contribui para esse cenário. Deixa-nos</p><p>confusos e, muitas vezes, faz com que fraquejemos na luta pelo bem. A nossa</p><p>sociedade vem banalizando o mal e contribuindo para a inversão dos valores</p><p>morais. Isso cria um terreno fértil para que os psicopatas se sintam à vontade no</p><p>exercício de suas habilidades destrutivas. Todas essas questões são intrigantes e</p><p>acabam por nos impor uma profunda revisão dos nossos conceitos sobre a vida</p><p>em sociedade. E, nessa revisão, destaco a importância de cultivar um valoroso</p><p>senso de consciência, pois somente ele é capaz de assegurar a nossa qualidade de</p><p>vida e a do nosso planeta.</p><p>Excetuando-se raras circunstâncias, como surtos psicóticos (presença de</p><p>delírios e alucinações), privações severas, efeito tóxico de drogas, instinto de</p><p>sobrevivência ou a influência poderosa de autoridades tiranas, todas as pessoas</p><p>que possuem consciência genuína são incapazes de matar, estuprar ou torturar</p><p>outra pessoa de forma fria e calculada. Do mesmo modo, não conseguem roubar</p><p>as economias de alguém, enganar de forma arbitrária seu parceiro afetivo por</p><p>simples esporte e prazer, ou, ainda, por vontade própria, abandonar um filho</p><p>recém-nascido em plena rua. Pense bem: quem de nós conseguiria cometer</p><p>tamanha barbaridade? Ao contrário, sempre que ouvimos nos noticiários</p><p>situações parecidas, imediatamente nos questionamos sobre o porquê dessas</p><p>maldades. Os comentários do tipo: “Como pode uma</p><p>mãe abandonar o filho na</p><p>lixeira como um objeto qualquer?”, “Você viu que crime bárbaro aquele homem</p><p>cometeu sem, no entanto, mostrar arrependimento?”, “Meu sócio acabou com a</p><p>minha empresa, destruiu o meu casamento e, com a maior ‘cara de pau’, diz que</p><p>não teve culpa!”, são muito comuns no nosso cotidiano.</p><p>Embora tais fatos nos choquem como seres humanos normais, sem nenhuma</p><p>sombra de dúvida, as mais perversas ações que lemos nos jornais e,</p><p>implicitamente, atribuímos à “natureza humana” não são provenientes de uma</p><p>natureza humana normal. Estaríamos nos insultando ou mesmo nos</p><p>desmoralizando se presumíssemos que sim. Embora se mostre muito distante da</p><p>perfeição, a natureza humana apresenta-se muito mais governada por um senso</p><p>de responsabilidade e de interconectividade. Dessa forma, os horrores a que</p><p>assistimos na televisão ou, às vezes, em nossa própria vida em hipótese nenhuma</p><p>refletem a humanidade típica. Tais ações só são possíveis de ser realizadas por</p><p>uma característica que foge totalmente à nossa natureza humana genuína, e essa</p><p>particularidade é a frieza e a ausência completa de consciência.</p><p>Paradoxalmente, as pessoas do bem (que possuem uma consciência genuína)</p><p>tendem a acreditar que todos os seres humanos são capazes de “falhas</p><p>sombrias”. Elas tendem a acreditar que todos nós, em situações bizarras,</p><p>poderíamos nos transformar em assassinos cruéis de uma hora para outra. Essas</p><p>pessoas de bom coração julgam que a teoria do lado “sombrio humano” parece</p><p>algo mais democrático, menos condenável e, de certa forma, também menos</p><p>alarmante. Acreditar que todos somos um pouco sombrios é mais fácil do que</p><p>admitir a ideia real e perturbadora de que alguns seres humanos vivem</p><p>permanentemente em uma insensibilidade moral absoluta.</p><p>Entre tapas e beijos</p><p>Entre tapas e beijos</p><p>Laura, uma paciente, tem 31 anos e está se recuperando de um quadro</p><p>depressivo. Nós duas estamos nos empenhando para que a vida dela seja menos</p><p>cinza e volte a fazer sentido. Acompanhe um pouco de sua história, que pode</p><p>passar totalmente despercebida e certamente nunca sairá nos noticiários da TV.</p><p>Aos 23 anos, no frescor de sua exuberância e beleza, ela era inteligente e</p><p>estava prestes a se formar no curso de veterinária. Nessa época, conheceu</p><p>Ricardo, um jovem e atraente administrador de empresas.</p><p>Ele se mostrou um grande amigo e demonstrava ter os mesmos interesses de</p><p>Laura: cinema, praia, esportes, aventuras, MPB etc. Ricardo conversava sobre</p><p>qualquer assunto e detalhava suas aventuras em conversas envolventes. Entre as</p><p>suas histórias, também estavam os problemas: a tirania do pai, a mãe histérica</p><p>que na infância o ameaçou com uma faca e sua saúde frágil. “Na época, os</p><p>médicos lhe disseram que ele não teria uma vida muito longa, e Ricardo me</p><p>contou tudo isso com lágrimas nos olhos”, acrescentou Laura.</p><p>Aos poucos, Laura foi se envolvendo com as histórias tristes do rapaz e</p><p>experimentou um sentimento dúbio de compaixão e atração. Ela sucumbiu aos</p><p>encantos dele, uma grande paixão floresceu, e eles foram morar juntos.</p><p>Ricardo tinha uma carreira promissora numa empresa multinacional, mas não</p><p>quis que Laura exercesse sua profissão. Ele gostava de vê-la bem vestida e bela,</p><p>esperando-o para o jantar e com a casa impecável. “No início, eu até tentei</p><p>argumentar que a veterinária era o meu grande sonho, mas acabei aceitando</p><p>porque o amava verdadeiramente.”</p><p>Certo dia, Laura encontrou um cãozinho abandonado e muito doente no meio</p><p>da rua. Ela se sensibilizou e levou o cachorro para casa, a fim de tratar do</p><p>animal. Ricardo teve um ataque de fúria e quis devolvê-lo para o mesmo lugar.</p><p>Ela conseguiu persuadi-lo e cuidou do cão como se fosse um filho. Resolveu</p><p>chamá-lo de Pituca. Com dois meses de tratamento e muito carinho, Pituca já</p><p>esbanjava saúde, vitalidade e se tornara um vira-lata branco e peludo de dar</p><p>inveja a qualquer cachorro de raça.</p><p>“Que bom que ele está curado, agora podemos colocá-lo na rua”, disse</p><p>Ricardo. “Mas como? Eu tenho o maior amor por ele! Não posso abandoná-lo,</p><p>isso é desumano!” Ricardo não pensou duas vezes: deu vários pontapés no</p><p>animal, colocou-o no carro e desapareceu com Pituca.</p><p>Perguntei se Laura sabia para onde ele havia levado o cãozinho. Aos prantos,</p><p>ela respondeu: “Ele matou o Pituca! Disse que me amava demais e não queria</p><p>me ver doente cuidando de um simples cachorro. Você consegue imaginar o que</p><p>isso significou pra mim? Como é que ele foi capaz de fazer uma coisa dessas</p><p>depois de eu ter cuidado do Pituca e nutrido tanto afeto por ele?”.</p><p>Continuei indagando sobre o comportamento de Ricardo, desde a época em</p><p>que eles se conheceram. “Lembro-me de que, quando namorávamos, o pai dele</p><p>deixava alguns cheques em branco assinados para pagamentos das contas.</p><p>Ricardo sempre preenchia valores muito mais altos que o necessário e ficava</p><p>com o troco. Ele nunca escondeu isso de mim. Ao contrário, ria e comentava</p><p>satisfeito que, apesar da valentia do pai, ele não tinha o menor controle da sua</p><p>conta bancária”, ela me disse, encabulada.</p><p>O relacionamento também sempre foi muito instável. Ora ele era</p><p>extremamente delicado, romântico, mostrando-se orgulhoso em apresentar sua</p><p>bela companheira aos amigos, ora muito agressivo e temperamental, tratando-a</p><p>aos berros e com ameaças de “meter-lhe a mão”. Mas, segundo Laura,</p><p>invariavelmente ele pedia mil desculpas e a enchia de carinhos: “Puxa vida, não</p><p>sei onde estava com a cabeça!”, “Acho que estou muito estressado com as</p><p>responsabilidades do trabalho”, “Querida, você é tudo pra mim, a mulher mais</p><p>linda do mundo!”, “Isso nunca mais vai acontecer, eu prometo”, “Procure me</p><p>compreender, você sabe que eu tive uma infância muito difícil”.</p><p>E Laura prosseguiu: “Ricardo também era extremamente ciumento e dizia que</p><p>era por amor. Ficava furioso quando qualquer homem me olhava mais</p><p>diretamente. Uma vez discutiu seriamente com um rapaz porque cismou que ele</p><p>estava me paquerando. É lógico que sobrou pra mim também. Depois disso,</p><p>fiquei me perguntando se a culpa realmente não tinha sido minha. Eu não sei...</p><p>Ele me deixava completamente confusa...”.</p><p>Quanto ao casamento e filhos, ele alegava que ainda não estava preparado e</p><p>que ambos tinham uma vida pela frente. Cada vez que Laura tocava nesse</p><p>assunto, ele dava a mesma desculpa ou ficava enfurecido.</p><p>“Mesmo amando Ricardo, há alguns anos eu pensei em fazer minhas malas e</p><p>ir embora. Tivemos uma conversa séria e ele me respondeu que a vida dele</p><p>estava em minhas mãos. Como ele não viveria muito tempo, decidiu que se</p><p>mataria. Tremi da cabeça aos pés e voltei atrás na mesma hora.”</p><p>Quando isso foi mencionado, questionei qual era a doença de que Ricardo</p><p>sofria. “Eu nunca soube exatamente o que era. Ele não gostava de falar sobre</p><p>isso e eu respeitava. No início do nosso namoro, tentei conversar com a mãe dele</p><p>sobre o seu passado, mas parece que ela não entendeu muito bem o que eu queria</p><p>dizer. Achei melhor não mexer num assunto tão delicado e, além disso, Ricardo</p><p>parecia muito bem fisicamente. Ah... mas me lembro de ela ter dito que Ricardo</p><p>não era exatamente o homem que eu merecia. Antes mesmo de eu dizer alguma</p><p>coisa, ela mudou de assunto.”</p><p>O tempo passou e Ricardo não precisou mais de Laura: trocou-a por uma</p><p>mulher mais jovem e mais bonita. Ele simplesmente disse a Laura: “Precisamos</p><p>nos separar. Você é muito ciumenta e estou me sentindo enjaulado”. O mundo</p><p>desmoronou sobre a cabeça dela! “Chorei muito sem compreender o que estava</p><p>acontecendo. Será que eu fui ciumenta e possessiva durante esse tempo todo e</p><p>não percebi? Esse era um comportamento dele, não meu!”</p><p>De lá para cá, Laura descobriu</p><p>que ele teve várias amantes e que o discurso</p><p>sobre a doença grave, as ameaças da mãe e o pai tirano era um grande engodo.</p><p>Ao comentar sobre seu passado, Ricardo derramava lágrimas de crocodilo, tal</p><p>qual o animal que lacrimeja quando engole suas presas.</p><p>Eu não tinha a menor dúvida: Ricardo era um homem mau, um predador</p><p>afetivo. Laura havia sido apenas uma peça do seu jogo cruel. Ele tinha anulado</p><p>os prazeres dela apenas para ser servido e para exibi-la, impecavelmente, como</p><p>um objeto de vitória para alimentar seus instintos egocêntricos e narcisistas.</p><p>Agora eu precisava fazer com que Laura entendesse que espécie de homem</p><p>era aquele com quem ela tinha convivido por sete anos. Era importante que</p><p>Laura compreendesse que a separação, embora dolorosa, havia sido a melhor</p><p>coisa que poderia ter lhe acontecido: ela se livrou de um mal enorme e, dali para</p><p>a frente, poderia reconstruir sua vida.</p><p>Identificando os suspeitos</p><p>Ao falar sobre as mazelas de nosso mundo, certa vez, Einstein proferiu a</p><p>seguinte frase: “O mundo é um lugar perigoso para viver, não exatamente por</p><p>causa das pessoas más, mas por causa das pessoas que não fazem nada quanto a</p><p>isso”.</p><p>Se realmente quisermos fazer algo para reduzir o poder de destruição das</p><p>pessoas impiedosas, temos, antes de tudo, que aprender a identificá-las. Decidir</p><p>se alguém é digno de confiança requer conhecê-lo muito bem por determinado</p><p>período de tempo, além de tentar obter o maior número possível de informações</p><p>sobre sua vida pregressa. É claro que essas informações não devem e não podem</p><p>se restringir às histórias contadas pela pessoa que você deseja conhecer ou com a</p><p>qual pretende se relacionar. Se ela for um psicopata, provavelmente todas as suas</p><p>histórias estarão “maquiadas” com o intuito de manipulá-lo no preparo</p><p>cuidadoso para um posterior ataque predatório.</p><p>A história da vida de alguém é importantíssima, pois ninguém perde a</p><p>capacidade de ser consciente de uma hora para outra. Por outro lado, nem</p><p>sempre é fácil obtermos informações precisas ou confiáveis sobre pessoas que</p><p>entram em nossa vida. Além disso, estamos permanentemente correndo riscos de</p><p>conviver com alguém por muito tempo até chegarmos à conclusão de que se</p><p>trata de uma pessoa sem nenhum tipo de sentimento nobre. Na maioria das</p><p>vezes, se dependermos somente da convivência ou de informações pouco</p><p>confiáveis, só nos daremos conta de que estamos diante de um psicopata quando</p><p>nos depararmos com as inevitáveis perdas e os lamentáveis danos que essas</p><p>criaturas podem provocar em nossa vida.</p><p>Nos próximos capítulos, tentarei esmiuçar ao máximo todas as facetas dos</p><p>psicopatas. Mas, antes de chegarmos a essa etapa clínica sobre o comportamento</p><p>dessas criaturas maléficas, eu gostaria de compartilhar com você, leitor, uma</p><p>dica que julgo ser bastante preciosa: fique muito atento ao “jogo da pena” (do</p><p>coitadinho).</p><p>Durante todos esses anos de exercício profissional, ouvi muitas histórias</p><p>sobre psicopatia. Meus pacientes relataram (e até hoje o fazem) como essas</p><p>criaturas invadiram, feriram e arruinaram sua vida. Em cada caso, foi possível</p><p>identificar comportamentos suspeitos — uns mais característicos, outros menos;</p><p>tudo varia muito de pessoa para pessoa —, no entanto, precisamente em todos</p><p>pude identificar “o jogo da pena”. A meu ver, esse é um dos recursos mais</p><p>comuns e constantes das pessoas inescrupulosas. Muito mais que apelar para o</p><p>nosso sentimento de medo, os psicopatas, de forma extremamente perversa,</p><p>apelam para a nossa capacidade de ser solidários. Eles se utilizam de nossos</p><p>sentimentos mais nobres para nos dominar e controlar. Os psicopatas se</p><p>alimentam e se tornam poderosos quando conseguem nos despertar piedade.</p><p>Esse tipo de alimento tem um efeito extraordinário de poder para essas criaturas,</p><p>tal qual o espinafre para o personagem de Popeye dos desenhos infantis.</p><p>A piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma</p><p>folha de papel em branco assinada nas mãos de um psicopata. Quando sentimos</p><p>pena, estamos vulneráveis emocionalmente, e é essa a maior arma que eles</p><p>podem usar contra nós!</p><p>A piedade, a compaixão e a solidariedade são forças para o bem quando</p><p>direcionadas às pessoas que de fato merecem e precisam de tais sentimentos. No</p><p>entanto, quando esses mesmos sentimentos são direcionados a pessoas que</p><p>apresentam comportamentos inescrupulosos de forma consistente e repetitiva,</p><p>temos que considerar isso como um aviso de que algo está muito errado. É um</p><p>sinal de alarme que não podemos ignorar.</p><p>Se voltarmos à primeira história deste capítulo, observaremos que Carla se</p><p>utilizou o tempo todo do “jogo da pena” com sua amiga Maria, mesmo não</p><p>sendo nada camarada. Quanto a Ricardo, não foi diferente: Laura se envolveu e</p><p>se apaixonou porque, a princípio, se compadeceu da dor dele (infância difícil e</p><p>família desestruturada), e, posteriormente, com as falsas ameaças de suicídio. No</p><p>entanto, nem Carla nem Ricardo nutriam sentimentos bons por ninguém e</p><p>tampouco demonstraram sinal de arrependimento verdadeiro. Fizeram um apelo</p><p>cruel à solidariedade das pessoas do seu convívio, deixando-as confusas e</p><p>inseguras. E é justamente nesse momento, quando nos sentimos inseguros, que</p><p>as pessoas de mau caráter acabam fazendo conosco o que bem querem.</p><p>Exemplo parecido com a situação de Laura e de seu truculento parceiro</p><p>Ricardo pode ser observado naquela mulher que com frequência apresenta</p><p>hematomas porque seu marido a espanca quase que diariamente. No entanto, ele</p><p>sempre apela que a perdoe, pois seus “descontroles” são reflexos do excesso de</p><p>amor que sente por ela. Além disso, ela deve entender a grande dificuldade dele</p><p>em expressar carinho e afeto por causa das surras que levava do pai alcoólatra e</p><p>que também espancava sua mãe!</p><p>Não caia nessa cilada! Todas essas são histórias com mero intuito</p><p>manipulatório. Os psicopatas não levam em consideração as regras sociais, mas</p><p>sabem muito bem como utilizá-las a seu favor, além de se divertirem e sentirem</p><p>prazer com o nosso sofrimento.</p><p>Então não se esqueça</p><p>Quando tiver que decidir em quem confiar, tenha em mente que a combinação consistente de</p><p>ações maldosas com frequentes jogos cênicos por sua piedade praticamente equivale a uma</p><p>placa de aviso com um alerta. Pessoas cujos comportamentos reúnam essas duas características</p><p>não são necessariamente assassinas em série ou mesmo violentas. No entanto, não são</p><p>indivíduos com quem você deva ter amizade, relacionamentos afetivos, dividir segredos, a</p><p>quem confiar seus bens, seus negócios, seus filhos e nem sequer deve oferecer abrigo a eles!</p><p>Para os psicopatas, as outras pessoas são meros objetos ou coisas, que devem ser</p><p>usados sempre que necessário para a satisfação do seu bel-prazer.</p><p>Um psicopata, quando perde o controle, sabe exatamente até onde quer ir para</p><p>magoar, amedrontar ou machucar uma pessoa.</p><p>Os psicopatas não vão ao trabalho; vão à caça.</p><p>“Matou os pais e foi para o motel.”</p><p>Época, ed. 234. Ed. Globo, 11 nov. 2002</p><p>Existe uma fração minoritária de</p><p>psicopatas com uma insensibilidade</p><p>tamanha que suas condutas criminosas</p><p>podem atingir perversidades inimagináveis.</p><p>É estarrecedor observar que crianças que deveriam estar brincando ou folheando</p><p>livros nas escolas trafiquem drogas, empunhem armas e apertem gatilhos sem</p><p>nenhum vestígio de piedade.</p><p>Os psicopatas são seres sem “coração mental”. O cérebro deles é gelado.</p><p>10</p><p>DE ONDE VEM ISSO TUDO?</p><p>A capacidade humana de distinguir o certo do errado, a meu ver, é uma das</p><p>mais nobres de todas as nossas qualidades. É muito reconfortante saber que, de</p><p>alguma forma, cada ser humano, lá no íntimo, sempre sabe qual é “a coisa certa</p><p>a fazer”.</p><p>É esse senso moral que nos faz ajudar uma pessoa que leva um tombo na rua</p><p>ou uma criança que cai de sua bicicleta ou se perde de seus pais em meio à</p><p>multidão. Em relação a essas situações, lembro-me de uma que nunca mais saiu</p><p>da minha mente:</p><p>Era um domingo ensolarado, em pleno inverno carioca. Resolvi caminhar e</p><p>escolhi a lagoa Rodrigo de Freitas como cenário para minha atividade física</p><p>matinal. Com pouco mais de uma hora de caminhada, eu já ensaiava meus</p><p>passos finais quando avistei, em minha “contramão”, três pessoas trajadas com</p><p>uniformes do Flamengo em estado de total alegria — o pai no centro e um filho</p><p>em cada mão. Os três cantavam, a plenos pulmões, um samba que já virou um</p><p>hino clássico dos torcedores rubro-negros: “Domingo eu vou ao Maracanã, vou</p><p>torcer pelo time de que sou fã...”. De repente, pelas minhas costas, surgiu um</p><p>menino com uma bicicleta. A velocidade dele era tamanha que, ao me</p><p>ultrapassar, não conseguiu fazer a curva, e, em segundos, “voou” para dentro da</p><p>lagoa. Simultaneamente a essa cena, pude ver a face de angústia do pai</p><p>flamenguista e assistir a tudo: ele rapidamente soltou as mãos dos filhos, tirou a</p><p>camisa e mergulhou como se tivesse sido treinado para aquilo por toda a vida.</p><p>Menino salvo, bicicleta destruída nas pedras, surge, atrasado, o pai da vítima.</p><p>Abraça seu filho, promete-lhe uma bike nova e nem percebe que, a poucos</p><p>metros dali, o pai flamenguista já está com seus filhos lado a lado, seguindo seu</p><p>caminho.</p><p>Sem conter minha admiração pelo ato daquele homem, apressei o passo e fui</p><p>atrás deles. Aproximei-me, pedi licença e perguntei: “Como você conseguiu</p><p>fazer aquilo tão rapidamente?”.</p><p>E ele respondeu: “Fiz o que tinha que ser feito. Se não fosse eu, certamente</p><p>outra pessoa faria. É o certo!”.</p><p>Naquele domingo, retornei à minha casa com um sentimento bom de</p><p>esperança, desses que de vez em quando a gente sente por toda a humanidade.</p><p>De onde vem o nosso senso moral?</p><p>Até pouco tempo atrás, existia a convicção de que a capacidade humana de</p><p>distinguir o certo do errado era algo aprendido nas relações interpessoais. Dessa</p><p>forma, a única maneira de obtermos indivíduos morais seria educá-los e</p><p>condicioná-los socialmente. Assim, caberia à sociedade e à cultura estabelecer,</p><p>ao longo de toda a vida, o que os indivíduos podem ou não fazer. Não há como</p><p>negar que muitas das regras sociais direcionadas ao certo e ao errado precisam</p><p>ser aprendidas. É impossível nascer sabendo determinadas convenções sociais</p><p>que possuem forte apelo cultural. Um bom exemplo é o ato de arrotar. Em</p><p>alguns países orientais, arrotar à mesa é sinal de apreço para com a comida e</p><p>seus anfitriões gastronômicos. Já na maioria dos países ocidentais, isso é um</p><p>sinal de falta de educação, relacionado ao desleixo e à deselegância pessoal.</p><p>Os estudos mais recentes sobre o comportamento humano, entretanto,</p><p>revelam que as noções básicas de retidão comportamental e justiça dependem</p><p>muito menos do aprendizado social do que os psicólogos supunham no início do</p><p>século passado. As últimas pesquisas sobre o cérebro humano e as análises</p><p>comparativas de outros comportamentos animais revelam que a espécie humana</p><p>adquiriu a capacidade de avaliação moral com a própria seleção natural. Tudo</p><p>indica que as instruções necessárias na produção de um cérebro capacitado para</p><p>distinguir o certo do errado já vêm com certificado de fábrica, ou seja, elas estão</p><p>no DNA de cada um de nós.</p><p>Se a seleção natural tem participação ativa na construção do senso moral dos</p><p>humanos, é de esperar que o senso de justiça e a compaixão também estejam</p><p>presentes em outros segmentos do reino animal. E de fato estão —</p><p>especialmente entre os primatas.</p><p>Em 2007, Felix Werneken e seus colaboradores do Instituto Max Plank de</p><p>Antropologia Evolutiva, na Alemanha, realizaram o seguinte experimento:</p><p>colocaram um chimpanzé em uma jaula em que o animal pudesse observar duas</p><p>pessoas que simulavam uma discussão. Uma delas estava mais exaltada e, com</p><p>um tapa, derrubou um pequeno bastão que a outra tinha na mão. Esse objeto, ao</p><p>cair no chão, rolou e foi parar aos pés do chimpanzé, próximo à jaula. Sem</p><p>nenhum envolvimento com aquele conflito entre humanos e sem receber nada</p><p>em troca, o primata não hesitou em agir: pegou o bastão e o devolveu ao seu</p><p>dono. Tudo aconteceu de forma simples: para ele era a coisa certa a fazer!</p><p>Outros experimentos envolvendo primatas entre si e primatas e uma ave</p><p>também foram realizados. No primeiro caso, um macaco precisava acionar uma</p><p>alavanca localizada dentro de sua jaula para que a porta de outra jaula se abrisse</p><p>e desse passagem para que um “colega” pudesse alcançar seu alimento. Apesar</p><p>de não receber nenhuma recompensa com o ato, o macaco não poupou esforços</p><p>em praticar a boa ação e alimentar seu colega de espécie.</p><p>O segundo episódio está relatado no livro Eu, primata, de Frans de Wall</p><p>(primatólogo da Emory University, Atlanta, Estados Unidos): no zoológico de</p><p>Twycross (Reino Unido), uma fêmea de bonobo viu um passarinho se ferir ao se</p><p>chocar contra uma parede de vidro de sua jaula. Ao observar o pássaro no chão,</p><p>a primata tentou colocá-lo em pé, mas não obteve sucesso. Tentou, então, outra</p><p>estratégia: pegou o pássaro com muito cuidado, subiu numa árvore, abriu as asas</p><p>dele com os dedos e tentou fazê-lo voar tal qual um avião de papel. O pássaro,</p><p>ainda muito fraco, acabou por aterrissar dentro da jaula, sem conseguir se erguer.</p><p>Foi então que a fêmea de bonobo decidiu montar guarda ao lado do pássaro</p><p>simplesmente para protegê-lo de seus colegas de cativeiro. No final do dia, o</p><p>pássaro conseguiu se reerguer e saiu voando. Apenas nesse momento a primata</p><p>largou seu “posto de solidariedade”.</p><p>Senso de justiça, compaixão e evolução</p><p>Toda a teoria da evolução das espécies se baseia na competitividade e na</p><p>sobrevivência dos mais aptos. Como podemos entender que características de</p><p>bondade e altruísmo tenham se perpetuado e evoluído em meio à violência do</p><p>mundo natural? Teoricamente, os organismos “bonzinhos” deveriam ter ficado</p><p>pelo caminho nessa corrida biológica. No entanto, ao longo das últimas décadas,</p><p>os cientistas começaram a desvendar as vantagens evolutivas das “criaturas do</p><p>bem”.</p><p>Existem algumas teorias que tentam explicar o senso de justiça mais apurado</p><p>em determinados animais e nos humanos. Entre elas, eu gostaria de destacar a</p><p>teoria da mente (fundamentada nos estudos psicológicos) e a teoria do cérebro</p><p>social (desenvolvida com base nos estudos recentes das neurociências).</p><p>A teoria da mente se constitui, basicamente, na capacidade de um ser</p><p>biológico (humano ou não) imaginar que outros seres possam ter uma vida</p><p>mental similar à dele. Essa teoria pode ser facilmente compreendida quando nos</p><p>colocamos no lugar de outras pessoas para inferir como elas devem estar se</p><p>sentindo. Existe um ditado americano que diz o seguinte: “Antes de julgar</p><p>alguém, calce suas sandálias e caminhe por uma milha”. Em outras palavras:</p><p>antes de julgar alguém, coloque-se no lugar dessa pessoa, tente imaginar o que</p><p>ela sente, o que pensa, e, somente depois, aja. Isso é a teoria da mente em plena</p><p>ação.</p><p>A teoria do cérebro social pôde se desenvolver e avançar de forma</p><p>significativa nos últimos anos graças à utilização sistemática, por psicólogos e</p><p>neurocientistas, do exame denominado ressonância magnética funcional (RMf).</p><p>Esse exame é capaz de gerar um retrato extremamente detalhado das estruturas</p><p>cerebrais. Além disso, ele pode produzir o equivalente a um vídeo que mostra o</p><p>funcionamento de partes específicas do cérebro quando ativadas durante</p><p>algumas situações. Por exemplo, quando ouvimos</p>