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<p>Ana	Beatriz	Barbosa	Silva</p><p>MENTES	PERIGOSAS	-	o</p><p>psicopata	mora	ao	lado</p><p>copyright	©	2014	by	Ana	Beatriz	Barbosa	Silva</p><p>copyright	©	2014	by	Abbs	Cursos	e	Palestras	Eireli	Todos	os	direitos	reservados.	Nenhuma	parte	desta	edição	pode	ser	utilizada	ou</p><p>reproduzida	–	em	qualquer	meio	ou	forma,	seja	mecânico	ou	eletrônico,	fotocópia,	gravação	etc.	–	nem	apropriada	ou	estocada	em</p><p>sistema	de	banco	de	dados,	sem	a	expressa	autorização	da	editora.</p><p>Texto	fixado	conforme	as	regras	do	Novo	Acordo	Ortográfico	da	Língua	Portuguesa	(Decreto	Legislativo	nº	54,	de	1995)	Editor</p><p>responsável:	Carla	Fortino	Editor	assistente:	Sarah	Czapski	Simoni	Editor	digital:	Erick	Santos	Cardoso	Preparação	de	texto:	Luciana</p><p>Garcia	Revisão	de	texto:	Ana	Maria	Barbosa	e	Isabel	Jorge	Cury	Projeto	gráfico:	Mateus	Valadares	Paginação:	Linea	Editora	Ltda.</p><p>Capa:	Adriana	Bertolla	Silveira	Imagens	da	capa:	Dimitri	Otis/Getty	Images	2ª	edição,	2014</p><p>CIP-Brasil.	Catalogação	na	Publicação</p><p>Sindicato	Nacional	dos	Editores	de	Livros,	RJ</p><p>S578m</p><p>Silva,	Ana	Beatriz	B.	(Ana	Beatriz	Barbosa)</p><p>Mentes	perigosas	:	o	psicopata	mora	ao	lado	/	Ana	Beatriz	Barbosa	Silva.	–	2.	ed.	–	São	Paulo	:	Globo,	2014.</p><p>ISBN	978-85-250-5783-9</p><p>1.	Psicologia	criminal.	2.	Psicopatologia.	I.	Título.</p><p>CDD:	364.3</p><p>14-12841	CDU:	364.634:159.9.019.4</p><p>Direitos	de	edição	em	língua	portuguesa	para	o	Brasil	adquiridos	por	Editora	Globo	S.A.</p><p>Av.	Jaguaré,	1485	–	05346-002	–	São	Paulo	/	SP</p><p>www.globolivros.com.br</p><p>Sumário</p><p>Capa</p><p>Folha	de	rosto</p><p>Créditos</p><p>Dedicatória</p><p>Dedicatória	2</p><p>Prefácio</p><p>Introdução</p><p>Epígrafe</p><p>1	-	Razão	e	sensibilidade	-	Um	sentido	chamado	consciência</p><p>Epígrafe</p><p>2	-	Os	psicopatas	-	Frios	e	sem	consciência</p><p>Epígrafe</p><p>3	-	Pessoas	no	mínimo	suspeitas</p><p>Epígrafe</p><p>4	-	Psicopatas	-	Uma	visão	mais	detalhada	—	Parte	1</p><p>Epígrafe</p><p>5	-	Psicopatas	-	Uma	visão	mais	detalhada	—	Parte	2</p><p>Epígrafe</p><p>6	-	Os	psicopatas	no	mundo	profissional</p><p>Epígrafe</p><p>7	-	Foi	manchete	nos	jornais</p><p>Epígrafe</p><p>8	-	Psicopatas	perigosos	demais</p><p>Epígrafe</p><p>9	-	Menores	perigosos	demais</p><p>Epígrafe</p><p>10	-	De	onde	vem	isso	tudo?</p><p>Ilustração</p><p>Epígrafe</p><p>11	-	O	que	podemos	fazer?</p><p>Epígrafe</p><p>12	-	Manual	de	sobrevivência</p><p>Epígrafe</p><p>13	-	Alguma	coisa	está	fora	da	ordem</p><p>kindle:embed:0002?mime=image/jpg</p><p>ANEXO	A</p><p>ANEXO	B</p><p>ANEXO	C</p><p>Sites	úteis</p><p>Telefones	úteis</p><p>Bibliografia</p><p>Contatos	da	Dra.	Ana	Beatriz	Barbosa	Silva</p><p>Notas</p><p>A	todas	as	pessoas	“de	bem”	que	acreditam	e	lutam	por	um	mundo	menos</p><p>violento	e	mais	justo.</p><p>A	todos	aqueles	que	de	alguma	forma	me	ajudaram	a	colocar	as	ideias	no	papel.</p><p>Prefácio</p><p>Um	livro	perturbador</p><p>Gloria	Perez</p><p>escritora	e	novelista</p><p>A	gente	resiste	muito	a	acreditar	na	existência	do	MAL	enquanto	prática	humana!</p><p>Mas	ele	está	aí,	vizinho,	rondando	cada	um	de	nós,	e	nem	damos	conta!	O	que</p><p>assusta	nessas	pessoas	é	que	elas	parecem	tão	comuns,	tão	gente	igual	à	gente.</p><p>E,	no	entanto,	a	incapacidade	de	ter	empatia	pelo	outro	revela	claramente	que</p><p>elas	não	são	como	a	gente:	psicopata	não	tem	semelhante.	Ele	nem	sabe	o	que	é</p><p>isso.</p><p>Este	 é	 um	 livro	 perturbador,	 porque	 nos	 faz	 descobrir	 que	 estamos	 sempre</p><p>correndo	 o	 risco	 de	 ser	 a	 próxima	 vítima.	 Mas,	 ao	 mesmo	 tempo,	 nos	 dá	 as</p><p>únicas	 armas	 possíveis	 para	 nos	 defendermos	 deles:	 a	 possibilidade	 de</p><p>reconhecê-los	para	sair	de	perto!</p><p>Tem	o	mérito	de	tirar	o	psicopata	do	terreno	do	crime,	onde	o	senso	comum	o</p><p>confina,	 para	mostrar	 que	 a	maioria	deles	não	 chega	 ao	 assassinato,	 ainda	que</p><p>todos	vivam	de	matar:	sonhos,	esperanças,	a	confiança	que	os	outros	depositam</p><p>neles.</p><p>E	 ainda	 os	 diferencia,	 no	meio	 carcerário,	 daquela	maioria	 que	 realmente	 é</p><p>recuperável	e	merece	uma	segunda	chance.</p><p>A	boa	notícia,	como	diz	a	Ana	Beatriz,	é	que	eles	são	uma	proporção	muito</p><p>pequena	 da	 população,	 de	 modo	 que	 podemos	 continuar	 apostando	 na</p><p>humanidade!</p><p>Panorama	detalhado	do	comportamento	dos</p><p>psicopatas</p><p>Arthur	Lavigne</p><p>advogado	criminalista</p><p>É	com	satisfação	que	me	vejo	convidado	para	tecer	algumas	considerações	sobre</p><p>o	livro	Mentes	perigosas,	obra	tão	oportuna	quanto	erudita	que,	ao	se	aprofundar</p><p>no	estudo	científico	e	teórico	do	psicopata,	traça	os	caminhos	“para	reconhecer	e</p><p>se	 proteger	 das	 pessoas	 frias	 e	 perversas,	 sem	 sentimento	 de	 culpa,	 que	 estão</p><p>muito	perto	de	nós”.</p><p>Este	 livro,	 tão	 minucioso	 e	 detalhado,	 é	 de	 grande	 importância	 para	 a</p><p>sociedade.	 Ele	 proporciona	 ao	 leitor	 um	 panorama	 pormenorizado	 do</p><p>comportamento	dos	psicopatas,	delineando	prevenções,	resguardos	e	defesas	das</p><p>pessoas	que	eventualmente	venham	a	se	relacionar	com	eles.</p><p>Sem	 dúvida,	 a	 par	 do	 rigor	 técnico	 e	 do	 desembaraço	 com	 que	 a	 autora</p><p>discorre	nesta	obra	sobre	a	psicopatia,	podemos	verificar	a	utilidade	do	trabalho</p><p>no	sentido	de	estabelecer,	de	forma	mais	compreensível	e	útil,	os	meios	com	que</p><p>os	 desavisados	 podem	 identificar	 e,	 por	 conseguinte,	 melhor	 se	 defender	 das</p><p>investidas	dos	psicopatas.</p><p>Um	livro	de	essência	autenticamente	psiquiátrica	demonstra	que	a	psicopatia</p><p>decorre	 da	 própria	 natureza	 do	 ser.	 Nas	 hipóteses	 dos	 casos	 enunciados	 neste</p><p>magnífico	livro	da	dra.	Ana	Beatriz,	naqueles	em	que	há	ação	delituosa	há	de	se</p><p>aplicar	o	Código	Penal.</p><p>Mas	o	direito	evidentemente	não	se	omite	quanto	aos	demais	casos.	A	própria</p><p>Lei	nº	11.340,	conhecida	como	Lei	Maria	da	Penha,	 trouxe	 inúmeros	 institutos</p><p>cautelares,	para	que	o	juiz	possa	não	só	punir	o	autor	como	tomar	determinadas</p><p>medidas.</p><p>Não	são	poucas	as	medidas	judiciais	na	esfera	cível	que	instrumentaram	nossa</p><p>legislação,	visando	minimizar	o	sofrimento	da	vítima	e	fazer	com	que	o	autor	do</p><p>dano	 seja	 punido	 dentro	 de	 determinado	 limite,	 a	 ponto	 de	 desencorajá-lo	 a</p><p>reincidir.	 Assim,	 entre	 outras	 ações,	 o	 ressarcimento	 por	 danos	 morais	 e</p><p>materiais	é	um	tipo	de	punição,	conforme	for	o	caso.</p><p>Dessa	 forma,	 mais	 uma	 vez,	 parabenizo	 a	 psiquiatra	 Ana	 Beatriz	 Barbosa</p><p>Silva	pelo	seu	admirável	 trabalho,	útil	a	 toda	a	sociedade.	Mas,	acima	de	tudo,</p><p>cumprimento-a	por	trazer	a	lume	uma	questão	que	há	muito	vem	preocupando	a</p><p>psiquiatria	e	o	direito.</p><p>Normais	na	aparência,	perigosos	nas	atitudes</p><p>Talvane	M.	de	Moraes</p><p>psiquiatra	forense</p><p>No	momento	 em	que	 recebi	 o	 convite	 da	 dra.	Ana	Beatriz	Barbosa	Silva	para</p><p>comentar	 o	 teor	 do	 seu	 novo	 livro,	 disse	 à	 autora	 que	 era	 louvável	 e</p><p>corajosamente	desafiadora	a	sua	disposição	de	abordar	um	assunto	tão	complexo</p><p>e	controverso	em	psiquiatria:	falar	sobre	os	psicopatas.</p><p>A	controvérsia	sobre	o	tema	é	histórica,	conhecida	dos	profissionais	de	saúde</p><p>mental,	sendo	que	alguns	até	evitam	tratar	do	assunto	porque	a	discussão	poderá</p><p>cair	em	terreno	movediço	e	cheio	de	dúvidas	técnicas.</p><p>O	 livro	 aborda,	 com	 grande	 profundidade	 e	 clareza	 didática,	 a	 questão	 dos</p><p>transtornos	 de	 personalidade	 que	 são	 capazes	 de	 resultar	 em	 comportamentos</p><p>antissociais	graves.</p><p>Transitando	por	uma	exposição	clara	e	cientificamente	bem	fundamentada,	a</p><p>dra.	Ana	Beatriz	faz	um	criterioso	estudo	de	tais	pessoas,	que	tanto	preocupam</p><p>cada	um	de	nós,	 pois	 têm	aparência	de	 indivíduos	normais,	mas	 são	perigosas</p><p>em	 suas	 ações	 e	 atitudes.	 Enganosas	 em	 sua	 conduta,	 tornam-se	 de	 alto	 risco</p><p>para	 aqueles	 com	 quem	 convivem,	 em	 razão	 do	 que	 se	 passa	 em	 sua	 mente.</p><p>Podem	 estar	 próximas	 a	 nós,	 imperceptíveis	 até	 o	 momento	 do	 ataque	 final.</p><p>Podemos,	numa	cilada	da	vida,	ser	vítimas	desses	anormais.</p><p>Trata-se	 de	 uma	 obra	 indispensável	 àqueles	 que	 desejam	 se	 aprofundar	 no</p><p>mundo	 das	 diferenças	 psicológicas	 entre	 as	 pessoas,	 pois	 a	 diversidade	 do	 ser</p><p>humano	estabelece	o	desafio	sobre	o	conhecimento	interpessoal.	Não	somente	os</p><p>profissionais	 da	 área	 da	 saúde	 mental,	 mas	 todas	 as	 pessoas	 que	 desejam</p><p>compreender	a	natureza	humana	devem	ler	este	livro.</p><p>Eu	poderia	 falar	muito	mais,	mas	você,	 leitor,	 tem	o	direito	de	descobrir	 as</p><p>revelações	 do	 livro,	 caminhando	 pelos	 meandros	 dos	 desafios	 de	 Mentes</p><p>perigosas:	o	psicopata	mora	ao	lado.</p><p>Introdução</p><p>O	escorpião	aproximou-se	do	sapo,	que	estava	à	beira	do	 rio.	Como	não</p><p>o	 choro	 de	 uma	 pessoa	 que</p><p>amamos,	o	centro	da	afetividade	entra	em	“ebulição”.</p><p>Com	base	nesses	estudos,	os	cientistas	puderam	começar	a	responder	a	uma</p><p>série	 de	 perguntas	 sobre	 o	 comportamento	 social	 das	 pessoas.	 Entre	 essas</p><p>perguntas,	destaco	algumas:	existe	de	fato	algum	mecanismo	mental	na	espécie</p><p>humana	 responsável	 por	 nossos	 atos	 generosos	 ou	 solidários?	 Caso	 esse</p><p>mecanismo	 exista,	 ele,	 conforme	 a	 pessoa,	 nasce	 “ativado”	 ou	 “desativado”?</p><p>Esse	processo	de	ligar/desligar	é	algo	que	aprendemos	a	partir	do	convívio	social</p><p>ou	trazemos	conosco?</p><p>Com	a	utilização	da	 ressonância	magnética	 funcional,	muitos	pesquisadores</p><p>do	 comportamento	 humano	 passaram	 a	 utilizar	 o	 termo	 “cérebro	 social”.	 O</p><p>cérebro	 social	 pode	 ser	 definido	 como	 o	 somatório	 de	 todos	 os	 mecanismos</p><p>neurais	(materiais	e	funcionais)	envolvidos	na	orquestração	de	nossas	interações</p><p>sociais.	 Assim,	 ele	 é	 responsável	 pelos	 pensamentos	 e	 sentimentos	 que</p><p>apresentamos	quando	nos	relacionamos	com	outras	pessoas.</p><p>O	cérebro	social	nos	possibilita	a	percepção	do	“Eu	sei	como	você	se	sente”.</p><p>E	 isso	 ficou	muito	 claro	 em	um	estudo	com	casais	de	namorados	 realizado	da</p><p>seguinte	forma:	na	primeira	parte	do	experimento,	um	de	cada	vez	foi	colocado</p><p>no	 aparelho	 de	 ressonância	 magnética	 funcional	 e	 submetido	 a	 sensações</p><p>dolorosas	 classificadas	 como	 leves.	 Antes	 de	 receber	 o	 estímulo	 doloroso,	 o</p><p>voluntário	 era	 avisado.	 O	 simples	 aviso	 desencadeou	 a	 ativação	 de	 alguns</p><p>circuitos	 cerebrais,	 especialmente	 daqueles	 ligados	 ao	 medo	 e	 à	 ansiedade.</p><p>Ocorria	uma	espécie	de	antecipação	à	sensação	dolorosa.</p><p>Na	segunda	parte,	o	voluntário	era	avisado	de	que,	a	partir	daquele	momento,</p><p>somente	 o(a)	 parceiro(a)	 receberia	 uma	 descarga	 dolorosa.	 O	 resultado	 foi</p><p>surpreendente.	Mesmo	sabendo	que	não	sentiria	mais	dor,	o	voluntário	passou	a</p><p>ativar	 as	 mesmas	 áreas	 cerebrais	 ao	 ser	 avisado	 de	 que	 seu	 par	 sofreria.	 Isso</p><p>aponta	 para	 a	 existência	 de	 uma	 “ponte	 neural”	 (cérebro-cérebro)	 capaz	 de</p><p>promover	 alterações	 no	 funcionamento	 cerebral	 e,	 consequentemente,	 reações</p><p>fisiológicas	nas	pessoas	com	as	quais	interagimos.</p><p>Alguns	 animais	 também	 apresentam	 certo	 nível	 de	 conexão	 mental.	 Eles</p><p>conseguem,	 até	 certo	 ponto,	 sincronizar-se	 com	 os	 sentimentos	 alheios	 e</p><p>entender	suas	 intenções.	No	entanto,	nenhum	ser	 tem	esse	sistema	cerebral	 tão</p><p>aprimorado	quanto	o	ser	humano.	Os	cientistas	acreditam	que	é	justamente	por</p><p>meio	dessa	conexão	 (cérebro-cérebro)	estabelecida	nos	nossos	 relacionamentos</p><p>interpessoais	que	aflora	a	moralidade	inata.</p><p>Ambas	as	 teorias	 apontam	para	 a	mesma	direção:	 somos	 seres	 sociais	 e,	 de</p><p>alguma	 forma,	 estamos	 fadados	 a	 estabelecer	 relações	 com	 pessoas	 ao	 nosso</p><p>redor.	Se	o	nosso	destino	é	a	conexão	com	“o	outro”,	fica	claro	que	o	senso	de</p><p>justiça	e	a	compaixão	são	instrumentos	poderosos	para	que	relações	amigáveis	e</p><p>saudáveis	se	desenvolvam.	Talvez	esse	seja	o	principal	motivo	para	explicar	por</p><p>que	os	seres	humanos	“já	vêm	de	fábrica”	com	um	dispositivo	para	distinguir	o</p><p>certo	do	errado.</p><p>De	 alguma	 forma,	 o	 senso	moral	 inato	 que	 os	 humanos	 apresentam	 parece</p><p>confirmar	o	velho	dito	popular	“A	união	faz	a	 força”.	E,	quando	essa	união	se</p><p>estabelece	por	meio	de	sentimentos	altruístas	e	comportamento	éticos,	a	espécie</p><p>e	 sua	 perpetuação	 ganham	 um	 reforço	 significativo	 na	 corrida	 biológica	 da</p><p>evolução.</p><p>E	a	cultura,	onde	entra	nisso?</p><p>É	obvio	que	não	podemos	atribuir	somente	à	genética	e	à	evolução	biológica</p><p>a	 nossa	 capacidade	 de	 solidariedade	 e	 de	 compaixão.	 A	 cultura	 à	 qual	 somos</p><p>expostos	em	determinada	sociedade	também	nos	influencia	em	diversos	aspectos</p><p>de	nossa	personalidade.</p><p>É	fundamental	não	confundir	a	nossa	capacidade	inata	de	distinguir	o	certo	do</p><p>errado	com	a	capacidade	de	tomarmos	as	atitudes	corretas	ao	invés	das	erradas.</p><p>Uma	 coisa	 é	 saber	 o	 que	 deve	 ser	 feito;	 a	 outra	 é	 agir	 de	 acordo	 com	 esse</p><p>preceito.</p><p>Somos	 dotados	 não	 só	 do	 senso	 inato	 de	 moralidade,	 mas	 também	 de</p><p>inteligência	 para	 análise	 estratégica.	Dessa	 forma,	 podemos,	 infelizmente,	 usar</p><p>nossa	capacidade	racional	para	“tapear”	a	moral	inata	e,	com	isso,	tirar	proveito</p><p>de	determinadas	situações.</p><p>As	 guerras	 talvez	 sejam	 o	 exemplo	 mais	 cruel	 dessa	 habilidade	 dos	 seres</p><p>humanos	em	driblar	o	inato	senso	moral.	Para	que	um	grupo	enfrente	o	outro,	é</p><p>necessária	 uma	 causa	 aparentemente	 justa	 ou	 moralmente	 correta.	 Como	 não</p><p>existe	 guerra	 moral,	 sempre	 haverá	 uma	 liderança	 habilidosa	 em	 manipular</p><p>mentalmente	as	diferenças	culturais	de	forma	a	colocar	uns	contra	os	outros.	A</p><p>manipulação	moral	acaba	por	despertar	os	instintos	humanos	relacionados	à	luta</p><p>pela	 sobrevivência.	 Monta-se,	 assim,	 o	 cenário	 perfeito	 para	 uma	 guerra</p><p>politicamente	 correta	 e	 moralmente	 maquiada.	 Todas	 as	 guerras	 são	 assim:</p><p>injustificáveis.	O	que	ocorre	de	fato	é	a	sórdida	manipulação	moral	por	parte	de</p><p>uma	pequena	minoria	humana.</p><p>Ao	 longo	 da	 nossa	 história,	 podemos	 observar	 incontáveis	 exemplos	 da</p><p>manipulação	 bélica	 da	 moral:	 ora	 legitimando	 suas	 ações	 por	 meio	 da</p><p>desqualificação	étnica	de	determinados	grupos	humanos	(perseguição	aos	judeus</p><p>na	 Alemanha	 nazista,	 por	 exemplo),	 ora	 pela	 utilização	 de	 motivos	 religiosos</p><p>(tais	como	as	ações	terroristas	da	Al-Qaeda),	ou	ainda	pelo	combate	à	opressão</p><p>em	nome	da	liberdade	(a	invasão	do	Iraque	pelos	Estados	Unidos).</p><p>A	cultura	 influencia	diretamente	os	valores	morais	de	uma	 sociedade	e	 cria</p><p>também	 os	 parâmetros	 que	 estabelecem	 o	 status	 hierárquico	 de	 cada	membro</p><p>social.	Sem	dúvida	alguma,	a	posse	de	bens	materiais	sempre	foi	algo	valorizado</p><p>nas	 vitrines	 sociais.	 Mas	 já	 existiram	 tempos	 em	 que	 o	 status	 intelectual	 e	 a</p><p>retidão	 de	 caráter	 também	 eram	 características	 bastante	 valoradas	 entre	 os</p><p>membros	de	nossa	sociedade.</p><p>O	“saber”	e	o	“ser”	já	foram	bens	de	alto	valor	moral	social.	Hoje,	vivemos	os</p><p>tempos	do	“ter”,	em	que	não	importa	o	que	uma	pessoa	saiba	ou	faça,	mas	sim</p><p>que	ela	 tenha	dinheiro	 (de	preferência,	muito)	para	pagar	por	 sua	 ignorância	 e</p><p>por	suas	falhas	de	caráter.</p><p>Nesse	 cenário	 propício	 surge	 a	 cultura	 da	 “esperteza”:	 temos	 que	 ser	 ricos,</p><p>bonitos,	etiquetados,	sarados,	descolados	e	muito	invejados.	O	pior	dessa	cultura</p><p>é	que	seus	membros	sociais	não	se	contentam	apenas	com	o	“ter”;	é	necessário</p><p>exibir	e	ostentar	todos	os	seus	bens.	Assim	ninguém	esquece,	nem	sequer	por	um</p><p>minuto,	quem	são	os	donos	da	festa.</p><p>E	 é	 exatamente	 essa	 cultura	 que	 faz	 com	 que	 determinados	 jovens	 bem-</p><p>nascidos	 optem	 por	 caminhos	 rápidos,	 como	 a	 venda	 de	 drogas	 e	 produtos</p><p>contrabandeados,	 para	 obter	 o	 status	 social	 dos	 bem-sucedidos.	 Para	 esses</p><p>rapazes	 e	moças,	 o	 caminho	dos	 estudos,	 do	 saber	 e	 do	 “ser”	 é	 longo	demais;</p><p>eles	querem	tudo,	aqui	e	agora.</p><p>Vivemos	em	meio	a	uma	cultura	que	privilegia	o	indivíduo	em	detrimento	da</p><p>humanidade	como	um	todo.	Basta	ver	o	que	está	acontecendo	com	o	problema</p><p>da	emissão	acentuada	de	gases	tóxicos,	causando	o	efeito	estufa	e	o	aquecimento</p><p>global.	 Esse	 fato,	 entre	 tantos	 outros,	 mostra	 que	 equivocados	 valores	 como</p><p>esses	começam	a	comprometer	o	futuro	da	espécie	humana.	Chegamos	até	aqui</p><p>por	nossas	habilidades	sociais,	e	não	por	força	física.	Se	quisermos	manter	nossa</p><p>supremacia	 biológica	 no	 mundo	 natural,	 teremos	 que	 rever	 nossos	 próprios</p><p>conceitos,	criando	uma	nova	cultura	que	se	baseie	na	solidariedade	e	no	sucesso</p><p>da	coletividade.</p><p>A	maldade	original	de	fábrica</p><p>Se	 existe	 de	 fato	 um	 kit	 de	 moralidade	 instalado	 em	 nosso	 “hardware”</p><p>cerebral	 (nossa	 composição	 biológica),	 como	 explicar	 o	 comportamento</p><p>desumano	 dos	 psicopatas?	 Tudo	 indica	 que	 esses	 indivíduos	 apresentam	 uma</p><p>“desconexão”	 dos	 circuitos	 cerebrais	 relacionados	 à	 emoção.	 Só	 podemos	 ter</p><p>senso	moral	quando	manifestamos	um	mínimo	de	afeto	em	relação</p><p>às	pessoas	e</p><p>às	coisas	ao	nosso	 redor.	Dessa	maneira,	o	comportamento	 frio	e	perverso	dos</p><p>psicopatas	não	pode	ser	atribuído	simplesmente	a	uma	má	criação	ou	educação.</p><p>No	 meu	 entender,	 a	 origem	 da	 psicopatia	 está	 na	 incapacidade	 que	 essas</p><p>criaturas	têm	de	sentir,	e	não	de	agir	de	forma	correta.</p><p>Uma	 parcela	 significativa	 da	 população	 se	 recusa	 a	 acreditar	 nessa</p><p>“desumanidade	 de	 fábrica”	 que	 os	 psicopatas	 apresentam.	 Para	 entendermos</p><p>como	uma	mente	 pode	 funcionar	 sem	emoção,	 é	 preciso	 conhecer	 os	 aspectos</p><p>neurofuncionais	da	emoção	e	da	razão.</p><p>Emoção	e	razão</p><p>São	as	funções	mais	complexas	produzidas	pelo	cérebro	humano.	Em	nosso</p><p>cotidiano,	 ativamos	 operações	mentais	 que	 envolvem	 sempre	 uma	 e	 outra	 (às</p><p>vezes,	mais	uma	do	que	a	outra).	Apesar	de	elas	serem	parceiras	constantes,	os</p><p>mecanismos	neurais	geradores	da	emoção	e	da	razão	são	distintos.</p><p>As	 emoções	 negativas	 são	 mais	 estudadas	 e	 compreendidas	 do	 que	 as</p><p>positivas,	 e	 a	mais	 conhecida	 de	 todas	 é	 o	medo.	 Este	 surge	 quando	 algo	 nos</p><p>ameaça,	 desencadeando	 uma	 ação	 de	 luta	 ou	 fuga.	Outro	 exemplo	 de	 emoção</p><p>importante	 é	 a	 raiva.	 Ela	 se	 apresenta	 frequentemente	 como	 mecanismo	 de</p><p>defesa	 ou,	 ainda,	 como	 um	 meio	 de	 garantia	 de	 sobrevivência.	 Animais</p><p>costumam	 agredir	 seus	 semelhantes	 como	 forma	 de	 defender	 seu	 território,</p><p>disputar	as	fêmeas	e	estabelecer	hierarquias	sociais.</p><p>Nos	 seres	 humanos,	 as	 reações	 de	 medo	 e	 raiva	 se	 manifestam	 de	 forma</p><p>bastante	 semelhante	 àquela	 observada	 nos	 animais.	 No	 entanto,	 entre	 os	 seres</p><p>humanos,	as	emoções	são	moduladas	pela	razão.	Doses	certas	de	razão	e	emoção</p><p>é	que	fazem	com	que	tenhamos	comportamentos	tipicamente	humanos.</p><p>O	 sistema	 límbico,	 formado	 por	 estruturas	 corticais	 e	 subcorticais,	 é</p><p>responsável	 por	 todas	 as	 nossas	 emoções	 (alegria,	 medo,	 raiva,	 tristeza	 etc.).</p><p>Uma	das	principais	estruturas	do	sistema	límbico	chama-se	amígdala	(ver	figura</p><p>na	página	178).	Localizada	no	interior	do	lobo	temporal,	essa	pequena	estrutura</p><p>funciona	como	um	“botão	de	disparo”	de	todas	as	emoções.</p><p>A	razão,	por	sua	vez,	envolve	diversas	operações	mentais	de	difícil	definição</p><p>e	 classificação.	 Entre	 elas,	 podemos	 citar:	 raciocínio,	 cálculo	 mental,</p><p>planejamentos,	solução	de	problemas,	comportamentos	sociais	adequados.</p><p>A	 principal	 região	 envolvida	 nos	 processos	 racionais	 é	 o	 lobo	 pré-frontal</p><p>(região	da	testa):	uma	parte	dele	(córtex	dorsolateral	pré-frontal)	está	associada	a</p><p>ações	 cotidianas	do	 tipo	utilitárias,	 como	decorar	o	número	de	um	 telefone	ou</p><p>objetos.	 A	 outra	 parte	 (córtex	 medial	 pré-frontal)	 recebe	 maior	 influência	 do</p><p>sistema	límbico,	definindo	de	forma	significativa	as	ações	tomadas	nos	campos</p><p>pessoais	e	sociais.</p><p>A	 interconexão	 entre	 a	 emoção	 (sistema	 límbico)	 e	 a	 razão	 (lobos	 pré-</p><p>frontais)	 é	 que	 determina	 as	 decisões	 e	 os	 comportamentos	 socialmente</p><p>adequados.</p><p>Razão	de	mais,	emoção	de	menos</p><p>Um	caso	histórico	ocorrido	em	meados	do	século	XIX	 em	Vermont,	Estados</p><p>Unidos,	 evidenciou	 de	 forma	 muito	 clara	 essa	 estreita	 associação	 entre</p><p>comportamento	moral	e	lesão	cerebral:</p><p>Phineas	Gage	 trabalhava	em	uma	estrada	de	ferro.	Era	um	sujeito	benquisto</p><p>por	todos,	bom	trabalhador	e	ótimo	chefe	de	família.	Em	1848,	uma	explosão	no</p><p>local	 de	 trabalho	 fez	 com	 que	 uma	 barra	 de	 ferro	 perfurasse	 seu	 cérebro	 na</p><p>região	 denominada	 córtex	 pré-frontal	 (ver	 figura	 na	 página	 178).	 De	 forma</p><p>espantosa,	 Gage	 não	 perdeu	 a	 consciência	 e	 sobreviveu	 ao	 ferimento	 sem</p><p>nenhuma	 sequela	 aparente.	 Ele	 caminhava	 normalmente	 e	 suas	 memórias</p><p>estavam	 preservadas.	 Contudo,	 com	 o	 passar	 do	 tempo,	 Gage	 se	 tornou	 outra</p><p>pessoa:	 indiferente	 afetivamente,	 sujeito	 a	 ataques	 de	 ira	 e	 sem	 nenhuma</p><p>educação	com	as	pessoas	ao	seu	redor.	Gage	nunca	mais	foi	o	homem	que	todos</p><p>admiravam,	 o	 homem	 “pré-acidente”.	 Embora	 ele	 nunca	 tenha	 assassinado</p><p>ninguém,	sua	vida	foi	uma	patética	sucessão	de	subempregos,	brigas,	bebedeiras</p><p>e	pequenos	golpes.</p><p>Tal	 história	 teve	 um	 papel	 decisivo	 no	 estudo	 do	 comportamento	 humano,</p><p>pois	foi	uma	prova	viva	de	que	alterações	no	senso	moral	podem	ocorrer	quando</p><p>o	 cérebro	 sofre	 lesões	 em	áreas	 específicas	 (nesse	 caso,	 o	 lobo	pré-frontal).	A</p><p>partir	 desse	 episódio,	 os	 cientistas	 passaram	 a	 pesquisar	 as	 raízes	 cerebrais	 do</p><p>comportamento	amoral.</p><p>É	 importante	 sublinhar	 que	 os	 estudos	 clínicos	 sobre	 a	 psicopatia	 sempre</p><p>apresentaram	 grandes	 dificuldades	 de	 ser	 realizados.	 A	 investigação	 clínica</p><p>sobre	a	personalidade	psicopática	é	uma	 tarefa	extremamente	complicada,	pois</p><p>as	 testagens	 realizadas	 para	 esse	 fim	 dependem	 dos	 relatos	 dos	 avaliados.	 Os</p><p>psicopatas	 não	 têm	 interesse	 nenhum	 em	 revelar	 algo	 significante	 para	 os</p><p>pesquisadores	e	tentam	sempre	manipular	a	verdade	para	obter	vantagens.</p><p>Tudo	indica	que	o	uso	sistemático	das	novas	técnicas	de	neuroimagens	(RMf	e</p><p>PET-SCAN)	ajuda	a	reforçar	o	diagnóstico	da	psicopatia,	uma	vez	que	os	estudos</p><p>recentemente	 realizados	 apontam	 para	 alterações	 características	 do</p><p>funcionamento	cerebral	de	um	psicopata.	Pessoas	sem	nenhum	traço	psicopático</p><p>revelaram	 intensa	 atividade	 da	 amígdala	 e	 do	 lobo	 frontal	 (neste,	 de	 menor</p><p>intensidade)	 quando	 estimuladas	 a	 se	 imaginarem	 cometendo	 atos	 imorais	 ou</p><p>perversos.	No	entanto,	quando	os	mesmos	testes	foram	realizados	num	grupo	de</p><p>psicopatas	 criminosos,	 os	 resultados	 apontaram	 para	 uma	 resposta	 débil	 nos</p><p>mesmos	circuitos.</p><p>Se	considerarmos	que	a	amígdala	é	o	nosso	“coração	cerebral”,	entenderemos</p><p>que	os	psicopatas	são	seres	sem	“coração	mental”.	O	cérebro	deles	é	gelado	e,</p><p>assim,	incapaz	de	sentir	emoções	positivas,	como	o	amor,	a	amizade,	a	alegria,	a</p><p>generosidade,	 a	 solidariedade...	 Essas	 criaturas	 possuem	 grave	 “miopia</p><p>emocional”,	e,	ao	não	sentir	emoções	positivas,	sua	amígdala	deixa	de	transmitir,</p><p>de	 forma	 correta,	 as	 informações	 para	 que	 o	 lobo	 frontal	 possa	 desencadear</p><p>ações	 ou	 comportamentos	 adequados.	 Chegam	menos	 informações	 do	 sistema</p><p>afetivo/límbico	 para	 o	 centro	 executivo	 do	 cérebro	 (lobo	 frontal),	 o	 qual,	 sem</p><p>dados	emocionais,	prepara	um	comportamento	lógico,	racional,	mas	desprovido</p><p>de	afeto.</p><p>Se	partirmos	da	premissa	de	que	 a	 alteração	primária	dos	psicopatas	 é	uma</p><p>amígdala	hipofuncionante,	poderemos	considerar	as	seguintes	situações:</p><p>1.	Psicopatas	pensam	muito	e	sentem	pouco.	Suas	ações	são	racionais,	e	a	razão</p><p>tende	sempre	a	escolher,	de	maneira	objetiva,	o	que	leva	à	sobrevivência	e	ao</p><p>prazer.	 De	 forma	 primitiva,	 a	 razão	 usa	 sempre	 a	 “lei	 da	 vantagem”.	 Esse</p><p>modo	de	pensar	privilegia	o	indivíduo,	e	nunca	o	outro	ou	o	social.</p><p>2.	 Como	 espécie,	 os	 homens	 evoluíram	 muito	 mais	 por	 sua	 capacidade	 de</p><p>cooperação	 social	 do	 que	 por	 seus	 atributos	 individuais.	 Assim,	 podemos</p><p>perceber	que	os	psicopatas	são	seres	cuja	tomada	de	decisão	privilegia	sempre</p><p>os	interesses	individuais	e/ou	oligárquicos	mesquinhos,	e	nunca	o	social	e/ou	o</p><p>coletivo	de	conteúdo	solidário.</p><p>3.	Sem	conteúdo	emocional	em	seus	pensamentos	e	em	suas	ações,	os	psicopatas</p><p>são	incapazes	de	considerar	os	sentimentos	do	outro	em	suas	relações	e	de	se</p><p>arrependerem	por	seus	atos	imorais	ou	antiéticos.	Dessa	forma,	não	aprendem</p><p>a	 partir	 da	 experiência	 e,	 por	 isso,	 são	 intratáveis,	 sob	 o	 ponto	 de	 vista	 da</p><p>ressocialização.</p><p>Montando	o	quebra-cabeça</p><p>Não	há	dúvida	de	que	os	psicopatas	apresentam	um	déficit	na	integração	das</p><p>emoções	 com	a	 razão	 e	o	 comportamento.	Mas	 é	 importante	destacar	que	 eles</p><p>não	possuem	uma	lesão	nos	córtex	pré-frontais	e	na	amígdala,	como	observado</p><p>no	 caso	 Gage.	 Os	 pacientes	 que	 têm	 essas	 lesões	 provocadas	 por	 tumores,</p><p>hemorragias,	 isquemias	 ou	 traumatismos	 apresentam	 comportamentos	 que	 nos</p><p>lembram	 os	 dos	 psicopatas	 pela	 indiferença	 com	 que	 se	 relacionam	 com	 os</p><p>outros	e	consigo	mesmas.	Além	disso,</p><p>os	pacientes	de	lesão	cerebral	mostram-se</p><p>incapazes	de	se	adaptar,	de	forma	conveniente,	a	um	trabalho,	a	sua	família	e	a</p><p>seus	amigos.</p><p>Já	os	psicopatas	apresentam	esses	desajustes	em	graus	bem	variáveis:	alguns</p><p>deles	 estudam	 com	 interesse;	 outros	 trabalham	 durante	 anos	 com	 sucesso;	 há</p><p>aqueles	 que	 cometem	 delitos	 desde	 pequenos;	 e	 ainda	 existem	 os	 que	 podem</p><p>levar	uma	vida	aparentemente	integrada,	mas,	paralelamente,	vivem	executando</p><p>crimes	bárbaros	e	repugnantes.</p><p>As	 diversas	 manifestações	 das	 condutas	 psicopáticas	 nos	 levam</p><p>necessariamente	a	uma	avaliação	da	importância	que	o	meio	ambiente	pode	ter</p><p>na	 apresentação	 desse	 transtorno.	 O	 ambiente	 social	 no	 qual	 a	 violência	 e	 a</p><p>insensibilidade	emocional	 são	“ensinadas”	no	dia	 a	dia	pode	 levar	uma	pessoa</p><p>propensa	 à	 psicopatia	 a	 ser	 um	 perigoso	 delinquente.	 Por	 outro	 lado,	 um</p><p>ambiente	 social	 favorável	 e	 uma	 educação	 mais	 rigorosa	 e	 menos</p><p>condescendente	 às	 transgressões	 pode	 levar	 essa	 mesma	 propensão	 a	 se</p><p>manifestar	na	forma	de	um	desvio	social	leve	ou	moderado.</p><p>Podemos,	 então,	 concluir	 que	 a	 psicopatia	 apresenta	 dois	 elementos	 causais</p><p>fundamentais:	uma	disfunção	neurobiológica	e	o	conjunto	de	influências	sociais</p><p>e	educativas	que	o	psicopata	recebe	ao	longo	da	vida.</p><p>A	 engrenagem	 psicopática	 funcionaria	 desta	 maneira:	 a	 predisposição</p><p>genética	 ou	 a	 vulnerabilidade	 biológica	 se	 concretiza	 em	 uma	 criança	 que</p><p>apresente	 o	 déficit	 emocional.	 Uma	 criança	 assim	 possui	 um	 sistema	 mental</p><p>deficiente	 na	 percepção	 das	 emoções	 e	 dos	 sentimentos,	 na	 regulação	 da</p><p>impulsividade	e	na	experimentação	do	medo	e	da	ansiedade.	Nos	casos	em	que</p><p>os	pais	(família)	realizam	de	forma	muito	competente	suas	tarefas	educacionais,</p><p>essas	 características	 biológicas	 podem	 ser	 compensadas	 ou	 canalizadas	 para</p><p>atividades	 socialmente	 aceitas.	No	entanto,	 quando	o	 ambiente	não	 é	 capaz	de</p><p>fazer	frente	a	tal	bagagem	genética	—	por	falhas	educacionais	por	parte	dos	pais,</p><p>por	uma	socialização	deficiente	ou	ainda	pelo	fato	de	essa	bagagem	genética	ser</p><p>muito	marcada	—,	o	resultado	será	um	indivíduo	psicopata	sem	nenhum	limite.</p><p>É	mais	sensato	falarmos	em	ajuda	e	tratamento	para	as	vítimas	dos	psicopatas	do</p><p>que	para	eles	mesmos.</p><p>11</p><p>O	QUE	PODEMOS	FAZER?</p><p>Senhoras	e	senhores,	não	 trago	boas-novas.	Com	raras	exceções,	as	 terapias</p><p>biológicas	 (medicamentos)	 e	 as	 psicoterapias	 em	 geral	 se	 mostram,	 até	 o</p><p>presente	momento,	 ineficazes	para	a	psicopatia.	Para	os	profissionais	de	saúde,</p><p>esse	é	um	 fator	 intrigante	 e,	 ao	mesmo	 tempo,	desanimador,	uma	vez	que	não</p><p>dispomos	 de	 nenhum	 método	 eficaz	 que	 mude	 a	 forma	 de	 um	 psicopata	 se</p><p>relacionar	com	os	outros	e	perceber	o	mundo	ao	seu	 redor.	É	 lamentável	dizer</p><p>que,	por	enquanto,	tratar	um	deles	costuma	ser	uma	luta	inglória.</p><p>Temos	que	ter	em	mente	que	as	psicoterapias	são	direcionadas	às	pessoas	que</p><p>estejam	em	intenso	desconforto	emocional,	o	que	as	impede	de	manter	uma	boa</p><p>qualidade	 de	 vida.	 Por	mais	 bizarro	 que	 possa	 parecer,	 os	 psicopatas	 parecem</p><p>estar	 inteiramente	 satisfeitos	 consigo	 mesmos	 e	 não	 apresentam</p><p>constrangimentos	 morais	 nem	 sofrimentos	 emocionais,	 como	 depressão,</p><p>ansiedade,	 culpas,	 baixa	 autoestima	 etc.	 Não	 é	 possível	 tratar	 um	 sofrimento</p><p>inexistente.</p><p>É	 no	 mínimo	 curioso,	 embora	 dramático,	 pensar	 que	 os	 psicopatas	 são</p><p>portadores	de	um	grave	problema,	mas	quem	de	fato	sofre	é	a	sociedade	como</p><p>um	 todo.	 Em	 função	 disso,	 pouquíssimos	 profissionais	 se	 arriscam	 nessa</p><p>“empreitada”.	Quando	o	fazem,	chegam	à	triste	constatação	de	que	contribuíram</p><p>com	uma	ínfima	parcela	ou	com	absolutamente	nada.	É	importante	lembrar	que,</p><p>de	 uma	 forma	 geral,	 todos	 estamos	 vulneráveis	 às	 ações	 desses	 predadores</p><p>sociais.	Assim,	é	mais	 sensato	 falarmos	em	ajuda	e	 tratamento	para	as	vítimas</p><p>dos	psicopatas	do	que	para	eles	mesmos.</p><p>De	mais	a	mais,	só	é	possível	ajudar	aqueles	que	de	fato	querem	e	procuram</p><p>ajuda.	 Os	 psicopatas,	 além	 de	 achar	 que	 não	 têm	 problemas,	 não	 esboçam</p><p>nenhum	desejo	de	mudança	para	se	ajustarem	a	um	padrão	socialmente	aceito.</p><p>Julgam-se	 autossuficientes,	 são	 egocêntricos,	 e	 suas	 ações	 predatórias	 são</p><p>absolutamente	 satisfatórias	 e	 recompensadoras	 para	 eles	 mesmos.	Mudar	 para</p><p>quê?</p><p>Dessa	 forma,	 os	 psicopatas	 raramente	 procuram	 auxílio	 médico	 ou</p><p>psicológico.	 Quando	 chegam	 a	 um	 consultório,	 quase	 sempre	 é	 por	 pressões</p><p>familiares	 ou,	 então,	 com	 o	 intuito	 de	 se	 beneficiarem	 de	 um	 laudo	 técnico.</p><p>Frequentemente	estão	envolvidos	com	problemas	legais,	endividados	e	às	voltas</p><p>com	o	 sistema	 judicial.	Por	 isso,	 tentam	obter	do	profissional	de	 saúde	mental</p><p>algum	 diagnóstico	 ou	 alguma	 comprovação	 de	 problemas	 que	 os	 auxiliem	 a</p><p>minimizar	as	sanções	que	lhes	foram	impostas.</p><p>Estudos	 também	demonstram	que,	 em	alguns	casos,	 a	psicoterapia	pode	até</p><p>agravar	 o	 problema.	 Para	 as	 pessoas	 “de	 bem”,	 as	 técnicas	 psicoterápicas	 sem</p><p>dúvida	alguma	são	fundamentais	para	a	superação	das	suas	angústias	ou	dos	seus</p><p>desconfortos.	 No	 entanto,	 para	 os	 psicopatas,	 as	 sessões	 terapêuticas	 podem</p><p>muni-los	 de	 recursos	 preciosos	 que	 os	 aperfeiçoam	 na	 arte	 de	 manipular	 e</p><p>trapacear	os	outros.	Embora	eles	continuem	 incapazes	de	 sentir	boas	emoções,</p><p>nas	terapias,	aprendem	“racionalmente”	o	que	isso	pode	significar	e	não	poupam</p><p>tal	 conhecimento	 para	 usá-lo	 na	 primeira	 oportunidade.	 Além	 disso,	 acabam</p><p>obtendo	 mais	 subsídios	 para	 justificar	 seus	 atos	 transgressores,	 alegando	 que</p><p>estes	 são	 fruto	 de	 uma	 infância	 desestruturada.	 De	 posse	 dessas	 informações,</p><p>abusam	de	forma	quase	“profissional”	do	nosso	sentimento	de	compaixão	e	da</p><p>nossa	capacidade	de	ver	a	bondade	em	tudo.</p><p>O	que	os	pais	podem	fazer?</p><p>Como	 já	 foi	 dito,	 podemos	 observar	 características	 de	 psicopatia	 desde	 a</p><p>infância	 até	 a	 vida	 adulta.	 Antes	 dos	 dezoito	 anos,	 como	 já	 vimos,	 por	 uma</p><p>questão	 de	 nomenclatura,	 o	 problema	 é	 chamado	 de	 transtorno	 da	 conduta.</p><p>Crianças	ou	adolescentes	que	 são	 francos	 candidatos	 à	psicopatia	possuem	um</p><p>padrão	 repetitivo	 e	 persistente	 que	 pode	 ser	 sintetizado	 pelas	 características</p><p>comportamentais	descritas	a	seguir:</p><p>Mentiras	frequentes	(às	vezes,	o	tempo	todo).</p><p>Crueldade	com	animais,	coleguinhas,	irmãos	etc.</p><p>Condutas	desafiadoras	às	figuras	de	autoridade	(pais,	professores	etc.).</p><p>Impulsividade	e	irresponsabilidade.</p><p>Baixíssima	 tolerância	 à	 frustração,	 com	 acessos	 de	 irritabilidade	 ou	 fúria</p><p>quando	são	contrariados.</p><p>Tendência	a	culpar	os	outros	por	erros	cometidos	por	si	mesmos.</p><p>Preocupação	excessiva	com	seus	próprios	interesses.</p><p>Insensibilidade	ou	frieza	emocional.</p><p>Ausência	de	culpa	ou	remorso.</p><p>Falta	de	empatia	ou	preocupação	pelos	sentimentos	alheios.</p><p>Falta	 de	 constrangimento	 ou	 vergonha	 quando	 pegos	 mentindo	 ou	 em</p><p>flagrante.</p><p>Dificuldade	em	manter	amizades.</p><p>Permanência	 fora	de	 casa	 até	 tarde	da	noite,	mesmo	com	a	proibição	dos</p><p>pais	—	muitas	vezes,	podem	fugir	e	ficar	dias	sem	aparecer	em	casa.</p><p>Faltas	constantes	sem	justificativas	na	escola	ou	no	trabalho	(quando	mais</p><p>velhos).</p><p>Violação	às	regras	sociais	que	se	constituem	em	atos	de	vandalismo,	como</p><p>destruição	de	propriedades	alheias	ou	danos	ao	patrimônio	público.</p><p>Participação	em	fraudes	(falsificação	de	documentos),	roubos	ou	assaltos.</p><p>Sexualidade	 exacerbada,	 muitas	 vezes	 levando	 outras	 crianças	 ao	 sexo</p><p>forçado.</p><p>Introdução	precoce	no	mundo	das	drogas	ou	do	álcool.</p><p>Nos	casos	mais	graves,	podem	cometer	homicídio.</p><p>Vale	 ressaltar	 que	 essas	 características	 são	 apenas	 genéricas	 e	 que	 o</p><p>diagnóstico	 exato	 só	 pode	 ser	 firmado	 por	 especialistas	 no	 assunto.	 Além	 do</p><p>mais,	 o	 leitor	 deve	 atentar	 para	 a	 frequência	 e	 a	 intensidade	 com	 que	 essas</p><p>características	se	manifestam.</p><p>É	muito	comum	e	até	compreensível	que	os	pais	de	jovens	com	características</p><p>psicopáticas	se	perguntem	quase	sempre	em	um	tom	de	desespero:</p><p>“O	que	nós</p><p>fizemos	de	errado	para	que	nosso	filho	seja	assim?”.	Os	pais	se	sentem	culpados</p><p>por	achar	que	falharam	na	educação	dos	seus	filhos	e	que	não	souberam	impor</p><p>limites.	 Isso	 é	 um	 grande	 equívoco!	 Não	 resta	 dúvida	 de	 que	 a	 educação,	 a</p><p>estrutura	familiar	e	o	ambiente	social	influenciam	na	formação	da	personalidade</p><p>de	um	indivíduo	e	na	maneira	como	ele	se	relaciona	com	o	mundo.	No	entanto,</p><p>esses	 fatores	 por	 si	 sós	 não	 são	 capazes	 de	 transformar	 ninguém	 em	 um</p><p>psicopata.</p><p>Não	 obstante,	 é	 muito	 importante	 que	 os	 pais	 tenham	 conhecimento	 pleno</p><p>sobre	 o	 assunto	 e	 que	 passem	 a	 reconhecer	 a	 disfunção	 em	 seus	 filhos,</p><p>dispensando	 ao	 problema	 a	 atenção	 que	 ele	 merece.	 Quando	 em	 grau	 leve	 e</p><p>detectada	ainda	precocemente,	a	psicopatia	pode,	em	alguns	casos,	ser	modulada</p><p>por	 meio	 de	 uma	 educação	 mais	 rigorosa.	 Um	 ambiente	 familiar	 mais</p><p>estruturado	e	com	a	vigilância	constante	em	relação	aos	filhos	“problemáticos”</p><p>certamente	não	evita	a	psicopatia,	mas	pode	inibir	uma	manifestação	mais	grave</p><p>—	e,	então,	fazer	toda	a	diferença.	É	lógico	que	essas	medidas	estão	longe	de	ser</p><p>ideais;	são	apenas	paliativas	e	demandam	muito	esforço	e	empenho	por	parte	dos</p><p>envolvidos	 na	 criação.	 No	 entanto,	 para	 salvaguardar	 a	 estrutura	 familiar	 e	 a</p><p>sociedade	como	um	todo,	não	podemos	desprezá-las.	As	posturas	que	devem	ser</p><p>assumidas	são	as	seguintes:</p><p>Procure	conhecer	bem	o	seu	filho.	A	maioria	dos	pais	não	sabe	como	ele	se</p><p>comporta	longe	dos	seus	olhos.	Estabeleça	contato	com	todas	as	pessoas	do</p><p>convívio	 dele	 (professores,	 amigos,	 pais	 dos	 amigos	 etc.).	 Quanto	 mais</p><p>precocemente	você	identificar	o	problema,	maiores	serão	as	chances	de	que</p><p>ele	 se	 molde	 a	 um	 estilo	 de	 vida	 minimamente	 produtivo	 e	 socialmente</p><p>aceito.</p><p>Busque	 ajuda	 profissional.	 Isso	 é	 válido	 tanto	 para	 se	 certificar	 do</p><p>diagnóstico	 dessa	 criança	 quanto	 para	 receber	 orientações	 de	 como	 você</p><p>deve	agir.</p><p>Não	permita	que	seu	filho	controle	a	situação.	Estabeleça	um	programa	de</p><p>objetivos	mínimos	para	obter	alguns	resultados	positivos.	Regras	e	 limites</p><p>claros	 são	 necessários	 para	 evitar	 as	 condutas	 de	manipulação,	 enganos	 e</p><p>falta	de	 respeito	para	com	os	demais.	Lembre-se	de	que	uma	criança	com</p><p>perfil	 psicopático	 apresenta	 um	 talento	 extraordinário	 para	 distorcer	 as</p><p>regras	estabelecidas	e	virar	o	jogo	a	favor	dela.	Por	isso,	não	ceda!	Se	você</p><p>fraquejar,	 certamente	 ela	 ocupará	 todos	 os	 “espaços”	 deixados	 pela	 sua</p><p>desistência.</p><p>Não	 pretendo	 ser	 pessimista,	 no	 entanto	 não	 seria	 honesto	 da	 minha	 parte</p><p>afirmar	 que	 “a	 psicopatia”	 infantojuvenil	 atualmente	 apresenta	 uma	 solução</p><p>satisfatória.	O	máximo	que	podemos	fazer	é	adotar	posturas	no	trato	com	essas</p><p>crianças	no	intuito	de	melhorar	a	forma	como	o	problema	vai	se	manifestar	no</p><p>futuro.</p><p>A	psicopatia	não	tem	cura;	é	um	transtorno	da	personalidade,	e	não	uma	fase</p><p>de	alterações	comportamentais	momentâneas.	Porém,	temos	que	ter	sempre	em</p><p>mente	 que	 tal	 transtorno	 apresenta	 formas	 e	 graus	 diversos	 de	 se	manifestar	 e</p><p>que	 apenas	 os	 casos	 mais	 graves	 apresentam	 barreiras	 de	 convivência</p><p>intransponíveis.	Segundo	o	DSM-IV-TR,	a	psicopatia	tem	um	curso	crônico,	porém</p><p>pode	 se	 tornar	 menos	 evidente	 à	 medida	 que	 o	 indivíduo	 envelhece	 —</p><p>particularmente,	a	partir	dos	quarenta	anos	de	idade.</p><p>Não	negocie	com	o	mal.	Jamais	concorde,	por	pena,	chantagem	ou	qualquer</p><p>outro	motivo,	em	ajudar	um	psicopata	a	ocultar	o	seu	verdadeiro	caráter.</p><p>12</p><p>MANUAL	DE	SOBREVIVÊNCIA</p><p>Como	vimos	até	aqui,	pouco	ou	nada	podemos	fazer	para	mudar	a	forma	de</p><p>ser	de	um	psicopata.	A	maioria	esmagadora	da	população	está	ao	sabor	de	suas</p><p>ações	predatórias.	Então,	o	que	pode	ser	 feito	para	que	não	sejamos	presas	 tão</p><p>fáceis?</p><p>Sem	sombra	de	dúvida,	 a	melhor	 estratégia	 é	não	 se	 envolver	 com	nenhum</p><p>deles	em	campo	algum	de	sua	vida	(profissional,	afetivo	ou	social).	Mas	isso	não</p><p>é	 tão	 simples	 assim.	 Afinal,	 eles	 estão	 infiltrados	 em	 todos	 os	 setores,	 são</p><p>habilidosos	em	descobrir	os	pontos	fracos	das	pessoas	e	sabem	muito	bem	como</p><p>explorá-los.	 A	 grande	 verdade	 é	 que	 estamos	 todos	 na	 mesma	 situação:	 de</p><p>vulnerabilidade.</p><p>Assim,	pensei	ser	relevante	listar	algumas	dicas	que	você	pode	seguir	para	se</p><p>proteger,	 ou,	 em	última	análise,	 para	 ajudá-lo	 a	minimizar	os	 estragos	que	um</p><p>psicopata	pode	ocasionar	em	sua	vida.</p><p>Dicas	gerais	para	lidar	com	os	psicopatas</p><p>1	—	Saiba	com	quem	você	está	lidando.</p><p>Esta	 primeira	 e	 importante	 regra	 se	 traduz	 no	 “remédio	 amargo”	 de	 aceitar</p><p>que	 os	 psicopatas	 existem	 de	 fato	 e	 que	 eles	 literalmente	 não	 possuem</p><p>consciência	 genuína.	 Ou	 seja,	 eles	 são	 incapazes	 de	 experimentar	 o	 amor	 ou</p><p>algum	outro	tipo	de	ligação	positiva	com	os	outros	seres	humanos.	Eles	podem</p><p>ser	 encontrados	 em	 todos	 os	 segmentos	 da	 sociedade,	 e	 existe	 uma	 grande</p><p>probabilidade	 de	 você	 ter	 um	 encontro	 doloroso	 com	 um	 deles.	 Nunca</p><p>menospreze	o	poder	destruidor	de	um	psicopata.	Todas	as	pessoas,	incluindo	os</p><p>especialistas,	podem	ser	manipuladas	e	enganadas	por	eles,	mesmo	que	tenham</p><p>um	 conhecimento	 razoável	 sobre	 o	 assunto.	 Por	 isso,	 sua	 melhor	 defesa	 é</p><p>entender	e,	principalmente,	aceitar	que	existem	pessoas	com	essa	natureza	fria	e</p><p>devastadora.</p><p>2	—	As	aparências	enganam!</p><p>Todo	cuidado	é	pouco!	Como	disse	Saint-Exupéry	em	O	pequeno	príncipe:</p><p>“Só	se	vê	bem	com	o	coração.	O	essencial	é	invisível	aos	olhos”.</p><p>Tenha	 sempre	 em	mente	 que	 a	 maioria	 dos	 psicopatas	 não	 tem	 “pinta”	 de</p><p>assassino.	 Eles	 costumam	 ter	 um	 sorriso	 cativante,	 linguagem	 corporal</p><p>interessante	e	uma	boa	lábia.	Não	caia	nessa	cilada!	Ao	conhecer	novas	pessoas,</p><p>procure	enxergar	o	que	está	por	trás	de	tantos	atrativos.	Não	se	distraia	com	os</p><p>olhares	sedutores,	a	demonstração	de	poder,	os	gestos	atraentes,	a	voz	suave	ou	o</p><p>traquejo	 verbal	 característicos	 de	 um	 psicopata.	 Todos	 esses	 artifícios	 são</p><p>utilizados	 com	 extrema	 habilidade	 exatamente	 para	 encobrir	 as	 verdadeiras</p><p>intenções	dele.</p><p>Também	 não	 se	 esqueça	 do	 poder	 do	 olhar	 desses	 indivíduos.	 Pessoas</p><p>normais	 mantêm	 contato	 visual	 com	 as	 outras	 por	 uma	 gama	 de	 razões,	 na</p><p>maioria	das	vezes,	por	educação,	mas	o	olhar	intenso	e	frio	do	psicopata	é	mais</p><p>um	 exercício	 de	 poder	 e	 de	 manipulação	 do	 que	 simplesmente	 interesse	 ou</p><p>empatia	pelo	outro.</p><p>Em	suma,	da	próxima	vez	que	conhecer	alguém	que	pareça	ser	uma	pessoa</p><p>muito	 extraordinária,	 tente	 não	 se	 iludir	 com	 o	 “evento	 teatral”	 à	 sua	 frente.</p><p>Desvie	 seu	olhar	para	 as	outras	pessoas	 e	 se	 atenha	 ao	que	 está	 sendo	dito	no</p><p>conteúdo	 do	 discurso.	 É	 um	 exercício	 de	 separar	 a	 letra	 da	 melodia	 em	 uma</p><p>canção.</p><p>3	—	Não	se	esqueça	de	considerar	a	voz	da	sua	intuição.</p><p>Sem	 perceber,	 todos	 nós	 estamos	 constantemente	 observando	 o</p><p>comportamento	das	pessoas.	Muitas	das	impressões	captadas	por	nosso	cérebro</p><p>podem	se	acumular	em	nossa	memória	de	forma	inconsciente,	ou	seja,	sem	que</p><p>tenhamos	 conhecimento	 racional	 disso.	 Essas	 informações	 por	 vezes</p><p>“guardadas”	se	manifestam	na	forma	de	 intuição	—	como	se	fosse	um	instinto</p><p>protetor	 do	 nosso	 organismo	 —,	 sinalizando	 perigos	 “invisíveis”.	 Embora</p><p>aparentemente	estranhas,	essas	 informações,	 traduzidas	na	 forma	de	 sensações,</p><p>podem	ajudar	você	se	assim	o	permitir.</p><p>Então,	lembre-se:	quando	estiver	num	dilema	entre	seguir	o	que	manda	o	seu</p><p>coração	 (intuição)	 e	 valorizar	 uma	 pessoa	 apenas	 por	 seu	 status,	 charme	 ou</p><p>sedução,	 não	 vacile:	 siga	 sua	 intuição.	 Ela	 pode	 tirar	 você	 de	 uma	 grande</p><p>enrascada!</p><p>4	—	Abra	os	olhos	com	pessoas	maravilhosas	ou</p><p>excessivamente	bajuladoras.</p><p>No	 início	 de	 qualquer	 relacionamento,	 todos	 nós	 tentamos	 esconder	 aquele</p><p>“lado	meio	sombrio”,	mostrando	apenas	o	que	temos	de	melhor.	Para	a	maioria</p><p>dos	psicopatas,	 isso	também	não	é	diferente,	muito	embora	com	consequências</p><p>infinitamente	 maiores.	 Eles	 tendem	 a	 impressionar	 suas</p><p>vítimas	 com	 elogios,</p><p>cuidados	especiais,	gentilezas	excessivas	e	histórias	falsas	sobre	seu	status	social</p><p>e/ou	financeiro.	Devemos	ter	uma	“dose”	extra	de	cautela	quando	alguma	pessoa</p><p>aparenta	 ser	 “tudo	 de	 bom”.	 Evidentemente,	 não	 estou	 propondo	 que	 você</p><p>contrate	um	detetive	particular	cada	vez	que	conhecer	alguém	que	 lhe	desperte</p><p>algum	 interesse	 profissional	 ou	 afetivo,	mas	 apenas	 sugerindo	que	você	 avalie</p><p>muito	bem	quem	é	a	pessoa	com	a	qual	está	lidando.</p><p>Na	 medida	 do	 possível,	 procure	 lhe	 fazer	 perguntas	 sobre	 seus	 familiares,</p><p>amigos,	 emprego,	 residência,	 projetos	 futuros.	 Os	 psicopatas	 geralmente	 dão</p><p>respostas	 vagas,	 evasivas	 ou	 até	 inconsistentes	 quando	 questionados	 sobre	 sua</p><p>própria	 vida.	 Suspeite	 de	 tais	 respostas	 e,	 se	 puder,	 procure	 confirmá-las.</p><p>Cuidado	também	para	não	cair	no	golpe	da	pessoa	perfeita,	que	fica	horas	a	fio</p><p>ouvindo	seus	problemas	sem	se	preocupar	em	falar	de	si	mesma.	Na	realidade,</p><p>esses	 falsos	 “terapeutas”	 estão	 colhendo	 informações	 para	 usá-las	 mais	 tarde</p><p>contra	você.</p><p>Outra	 situação	 para	 manter	 os	 olhos	 bem	 abertos	 é	 quanto	 à	 bajulação.	 A</p><p>maioria	 de	 nós	 gosta	 de	 receber	 elogios.	 Eles	 são	 sempre	 muito	 bem-vindos,</p><p>principalmente	 quando	 sinceros.	 Em	 contrapartida,	 a	 bajulação	 excessiva,	 o</p><p>agradar	afetado	e	pouco	realista	é	uma	das	táticas	dos	psicopatas	para	nos	cegar,</p><p>seduzir	e	encobrir	suas	verdadeiras	intenções:	manipulação	e	controle.	Por	isso,</p><p>desconfie	dos	famosos	“puxa-sacos”!</p><p>E	aqui	é	importante	esclarecer	que	a	regra	da	bajulação	se	aplica	tanto	para	os</p><p>indivíduos	quanto	para	os	grupos	e	nações.	Da	mesma	forma	que	um	indivíduo</p><p>se	 empolga	 com	 a	 adulação	 de	 um	 manipulador,	 uma	 nação	 inteira	 pode	 se</p><p>“hipnotizar”	por	lideranças	políticas	que	se	utilizam	desses	mesmos	recursos.	A</p><p>história	da	humanidade	está	 recheada	de	estadistas	 tiranos	que,	ao	engrandecer</p><p>seu	povo,	fazem	dele	uma	“presa	coletiva”	com	um	único	objetivo:	o	desejo	de</p><p>poder.	A	exaltação	do	patriotismo,	por	exemplo,	muitas	vezes	vem	apenas	como</p><p>uma	 camuflagem	 para	 legitimar	 a	 necessidade	 de	 realização	 das	 guerras.</p><p>Discursos	 com	 apelos	 de	 que	 as	 guerras	 devem	 ser	 travadas	 para	 o	 bem	 da</p><p>humanidade	 ou	 para	 a	 construção	 de	 um	 mundo	 melhor	 são	 extremamente</p><p>perigosos	e	suspeitos.	Guerras	são	guerras,	e	todas	elas	são	injustificáveis!</p><p>5	—	Certas	situações	merecem	atenção	redobrada.</p><p>Determinados	 lugares	 encaixam-se	 como	 luvas	 para	 a	 ação	 plena	 dos</p><p>psicopatas:	 bares,	 clubes	 sociais,	 boates,	 resorts,	 cruzeiros,	 aeroportos.	 Nesses</p><p>locais,	 eles	 fazem	 verdadeiros	 plantões.	 Suas	 vítimas	 preferenciais	 são	 os</p><p>solitários	 que	 buscam	 companhia	 ou	 diversão.	 Os	 psicopatas,	 à	 espreita,</p><p>observam-nas	 atentamente	 e	 depois	 partem	 para	 o	 ataque.	 Os	 viajantes</p><p>desacompanhados	 também	são	alvos	 fáceis,	pois	são	prontamente	 identificados</p><p>como	 perdidos	 e	 sozinhos	 num	 aeroporto	 ou	 num	 ponto	 turístico	 qualquer.</p><p>Então,	fique	esperto!</p><p>6	—	Autoconhecimento	é	fundamental.</p><p>Os	psicopatas	são	experts	em	detectar	e	explorar	nosso	lado	mais	vulnerável.</p><p>Eles	 identificam	as	“feridas”	certas	e	não	perdem	a	chance	de	 tocá-las	quando</p><p>podem.	 Assim,	 uma	 ótima	 forma	 de	 defesa	 é	 entender	 a	 si	 mesmo,	 saber</p><p>verdadeiramente	quais	são	seus	pontos	fracos.	Desconfie	de	qualquer	pessoa	que</p><p>os	aponte	com	frequência,	seja	em	particular,	seja	em	situações	públicas	e	pouco</p><p>apropriadas.	Tenha	cuidado	com	pessoas	muito	críticas	e	que	vivem	atentas	às</p><p>suas	vulnerabilidades	e	às	dos	outros.</p><p>O	autoconhecimento	nem	sempre	é	fácil	de	ser	alcançado;	por	vezes,	a	ajuda</p><p>de	um	profissional	especializado	pode	ser	muito	útil	nesse	sentido.</p><p>7	—	Não	entre	no	jogo	das	intrigas.</p><p>A	intriga	é	uma	das	ferramentas	poderosas	de	um	psicopata.	No	ambiente	de</p><p>trabalho,	 a	 intriga	 pode	 levar	 a	 consequências	 devastadoras.	 A	 princípio,	 o</p><p>psicopata	se	mostra	um	ótimo	colega	de	trabalho,	com	espírito	de	colaboração	e</p><p>um	especial	interesse	em	oferecer	seu	ombro	a	quem	necessita	de	uma	força.	Em</p><p>pouco	 tempo,	 ele	 é	 capaz	 de	 se	 tornar	 seu	 “melhor	 amigo	 de	 infância”.	 Logo</p><p>depois,	entretanto,	começará	a	utilizar	as	informações	colhidas	no	ombro	amigo</p><p>para	 fazer	 intrigas.	 E	 isso	 ele	 fará	 com	 você	 e	 com	 todos	 aqueles	 que</p><p>inicialmente	acreditaram	em	sua	“amizade”.</p><p>Sem	mais	nem	por	quê,	a	confusão	está	armada!	Funcionários	começam	a	se</p><p>desentender	e	todos	acabam	fazendo	mexericos.	Somente	o	psicopata,	perante	o</p><p>chefe,	está	fora	de	tanta	“baixaria”.</p><p>Resista	 à	 tentação	 de	 entrar	 no	 jogo	 das	 intrigas:	 fale	 diretamente	 com	 seu</p><p>colega	sobre	os	fatos	ou,	se	possível,	com	o	próprio	chefe.	Não	deixe	ninguém</p><p>intermediar	 desentendimentos	 por	 você.	 Se	 entrar	 nesse	 joguinho,	 você	 pode</p><p>acabar	se	igualando	ao	psicopata	e	se	distraindo	em	relação	ao	mais	importante:</p><p>proteger-se.</p><p>8	—	Cuidado	com	o	jogo	da	pena	e	da	culpa.</p><p>É	muito	importante	você	entender	que	o	sentimento	de	pena	ou	de	compaixão</p><p>deve	 ser	 reservado	 às	 pessoas	 generosas,	 de	 bom	 coração	 e	 que	 estejam	 em</p><p>sofrimento	verdadeiro.	Temos	a	virtude	de	sentir	tristeza	diante	da	aflição	alheia</p><p>e	 nos	 compadecemos	 com	 essa	 dor.	 A	 compaixão	 faz	 que	 nos	 sintamos	mais</p><p>humanos,	pois	enxergamos	nosso	semelhante	como	a	nós	mesmos.</p><p>Mas,	 afinal,	 devemos	 dispensar	 um	 sentimento	 tão	 nobre	 a	 alguém	 frio	 e</p><p>cruel?	Decididamente	não!</p><p>Para	 início	 de	 conversa,	 um	 psicopata	 não	 sofre	 de	 fato.	 No	 máximo,	 ele</p><p>conseguirá	sentir	frustração	por	algo	que	não	conseguiu	concretizar.	Também	é</p><p>muito	 importante	 ter	 em	 mente	 que	 os	 psicopatas	 se	 alimentam	 dos	 nossos</p><p>sentimentos	mais	nobres,	da	nossa	compaixão,	para	se	 tornarem	cada	vez	mais</p><p>fortes	e	poderosos.	Sentir	pena	de	um	deles	é	como	dar	o	alimento	preciso	para</p><p>ele	continuar	com	suas	atitudes	inescrupulosas.	Não	tenha	pena	de	um	psicopata;</p><p>não	gaste	 suas	 reservas	de	 compaixão	com	uma	pessoa	desprovida	de	 empatia</p><p>Ela	sugará	você	até	que	se	sinta	vazio	e	fragilizado.</p><p>Por	 outro	 lado,	 um	 psicopata	 também	 “brinca”	 com	 o	 nosso	 sentimento	 de</p><p>culpa	—	outra	virtude.	Qualquer	que	seja	o	motivo	pelo	qual	tenha	se	envolvido</p><p>com	um	psicopata,	é	muito	importante	ter	em	mente	o	seguinte:	nunca	aceite	que</p><p>ele	 culpe	 você	 por	 suas	 próprias	 atitudes.	 Tenha	 a	 plena	 convicção	 de	 que	 a</p><p>vítima	 é	 você,	 e	 não	 ele.	 Os	 psicopatas	 são	 habilidosos	 em	 inverter	 papéis	 e</p><p>fingem	 sofrer.	 De	 algozes,	 passam	 por	 vítimas	 com	 a	 maior	 tranquilidade.</p><p>Maridos	 que	 agridem	 fisicamente	 sua	 esposa	 costumam	 responsabilizá-la	 por</p><p>seus	 atos	 agressivos.	Uma	de	minhas	pacientes	passou	 anos	 se	 culpando	pelos</p><p>descontroles	 agressivos	 do	marido:	 ele	 a	 convenceu,	 durante	muito	 tempo,	 de</p><p>que	 a	 espancava	 porque	 a	 amava	 demais	 e	 por	 ela	 utilizar	 roupas	 que</p><p>valorizavam	sua	beleza.	Perceba	o	disparate!</p><p>Os	 psicopatas	 não	 amam	 seus	 cônjuges,	 isso	 não	 existe!	 Eles	 os	 possuem</p><p>como	 uma	 mercadoria	 ou	 um	 troféu,	 com	 os	 quais	 reforçam	 seus	 desejos	 de</p><p>manipulação,	controle	e	poder.</p><p>De	forma	muito	parecida,	pais	de	filhos	psicopatas	sofrem	e	se	culpam	porque</p><p>se	 sentem	 responsáveis	 pelo	 desenvolvimento	 da	 personalidade	 de	 seus	 filhos.</p><p>No	entanto,	tudo	indica	que	esses	pais	não	cometeram	erros	tão	graves	assim	—</p><p>se	 é	 que	 os	 tenham	 cometido	 de	 fato.	 Os	 estudos	 sobre	 a	 personalidade</p><p>psicopática	 revelam	 que	 a	 educação	 fornecida	 pelos	 pais	 pode,	 no	 máximo,</p><p>exacerbar	 o	 problema,	 mas	 não	 existe	 nenhum	 indício	 de	 que	 a	 maneira	 de</p><p>educar	seja	capaz	de	originar	a	psicopatia.</p><p>Filhos	 psicopatas	 se	 utilizam	 muito	 do	 jogo	 da	 culpa.	 Eles	 costumam</p><p>justificar	 os	 seus	 atos	 transgressores	 como	 consequência	 de	 comportamentos</p><p>inadequados	de	seus	pais	quando	ainda	eram	crianças.	E,	 infelizmente,	é	muito</p><p>difícil	convencer	esses	pais	de	que	nada	disso	é	verdade.	Os	pais	são	as	maiores</p><p>vítimas	do	jogo	da	culpa.</p><p>9	—</p><p>Não	tente	mudar	o	que	não	pode	ser	mudado.</p><p>Deus,	conceda-me	serenidade	para	aceitar	as	coisas	que	não	posso	mudar,	coragem	para	mudar</p><p>aquelas	que	posso	e	sabedoria	para	reconhecer	a	diferença	entre	elas.</p><p>“Oração	da	serenidade”</p><p>Em	 algum	 momento,	 a	 maioria	 de	 nós	 precisa	 aprender	 uma	 importante	 e</p><p>decepcionante	 lição	 de	 vida:	 mesmo	 que	 nossas	 intenções	 de	 ajudar	 um</p><p>psicopata	sejam	as	melhores	possíveis,	não	devemos	nem	podemos	controlar	o</p><p>comportamento	 dele.	 Por	 isso,	 ignore	 os	 repetidos	 pedidos	 de	 chances</p><p>teatralmente	 implorados	 pelo	 psicopata.	 Chances	 são	 para	 as	 pessoas	 que</p><p>possuem	consciência,	indivíduos	de	bom	coração.</p><p>Se	 você	 está	 convencido	 de	 que	 não	 pode	 controlar	 ninguém,	mas,	mesmo</p><p>assim,	 deseja	 ajudar	 pessoas	 de	 forma	 geral,	 procure	 apenas	 as	 que	 realmente</p><p>querem	ser	ajudadas.	Logo,	logo	você	vai	descobrir	que	esse	grupo	que	merece</p><p>ajuda	não	inclui	as	pessoas	sem	consciência.	E	lembre-se:	o	comportamento	do</p><p>psicopata	não	é	culpa	sua,	e	muito	menos	ajudá-lo	constitui	sua	missão	de	vida.</p><p>Quando	 se	 trata	 especificamente	 de	 filhos	 psicopatas,	 o	 caso	 se	 torna	mais</p><p>sério.	 Isso	porque	os	pais	 tentam	desesperadamente	entender	o	comportamento</p><p>transgressor	 de	 seus	 filhos.	 Além	 de	 passarem	 anos	 a	 fio	 livrando-os	 de</p><p>encrencas,	 também	 costumam	 fazer	 uma	 verdadeira	 via	 crucis	 a	 diversos</p><p>especialistas.	Ao	final,	amargam	a	certeza	de	que	muito	pouco	podem	fazer	para</p><p>controlar	seus	filhos.</p><p>10	—	Nunca	seja	cúmplice	de	um	psicopata.</p><p>Não	negocie	com	o	mal!	Jamais	concorde,	por	pena,	chantagem	ou	qualquer</p><p>outro	 motivo,	 em	 ajudar	 um	 psicopata	 a	 ocultar	 o	 seu	 verdadeiro	 caráter.</p><p>Cuidado	 com	 os	 velhos	 chavões	 do	 tipo	 “Não	 conte	 nada	 disso	 a	 ninguém”,</p><p>“Você	me	deve	uma”,	“Em	nome	dos	velhos	tempos”,	“Amanhã	eu	limpo	a	sua</p><p>barra”,	“Uma	mão	 lava	a	outra”,	que	geralmente	são	proferidos	aos	prantos	ou</p><p>sussurros	 cautelosos.	 Intervenções	 desse	 tipo	 são	 muito	 utilizadas	 pelos</p><p>psicopatas	 para	 convencer	 alguém	 a	 encobrir	 suas	 transgressões.	 Ignore	 todos</p><p>esses	 apelos.	 As	 outras	 pessoas	 precisam	 saber	 desses	 segredos	 para	 que	 não</p><p>caiam	na	mesma	armadilha.</p><p>11	—	Evite-os	a	qualquer	custo.</p><p>Se	 você	 já	 identificou	 um	 psicopata	 na	 sua	 vida,	 o	 único	 método</p><p>verdadeiramente	eficaz	de	 lidar	com	ele	é	mantê-lo	 longe,	bem	 longe	de	você.</p><p>Os	psicopatas	vivem	completamente	fora	das	regras	sociais;	por	isso,	incluí-los</p><p>em	seus	relacionamentos	é	sempre	perigoso.	Fique	com	sua	consciência	limpa	e</p><p>tranquila,	 pois	 você	 não	 estará	 ferindo	 os	 sentimentos	 de	 ninguém.	 Por	 mais</p><p>bizarro	que	isso	possa	parecer,	os	psicopatas	não	se	importam	se	serão	magoados</p><p>ou	 não.	 Isso	 por	 uma	 razão	muito	 simples:	 eles	 não	 têm	 sentimentos	 para	 ser</p><p>feridos.	E,	se	demonstrarem	tristeza,	tenha	a	convicção	de	que	tudo	não	passa	de</p><p>encenação,	puro	teatro.</p><p>É	possível	que	os	seus	familiares,	amigos	ou	pessoas	do	seu	convívio	nunca</p><p>entendam	por	que	você	está	evitando	alguém	em	particular.	Isso	ocorre	pelo	fato</p><p>de	a	psicopatia	ser	um	transtorno	surpreendentemente	difícil	de	ser	detectado	e</p><p>muito	mais	difícil	de	ser	aceito.	Não	se	espante	se	amigos	e	parentes	muito	bem-</p><p>intencionados	promoverem	encontros	inesperados	para	resgatar	seus	laços	com	o</p><p>“coitado	 excluído”.	 Isso	 acontece	 por	 puro	 desconhecimento	 sobre	 a</p><p>personalidade	 psicopática.	 Mantenha-se	 firme	 e	 evite	 essa	 pessoa	 de	 todas	 as</p><p>formas.</p><p>12	—	Busque	ajuda	profissional.</p><p>Os	danos	causados	pela	passagem	(ou	permanência)	de	um	psicopata	na	vida</p><p>de	 alguém	 são	 devastadores	 e	 imensuráveis.	 Sua	 vida	 emocional,	 física,</p><p>profissional	(ou	financeira)	e	até	mesmo	sua	dignidade	podem	ser	sumariamente</p><p>destruídas	 por	 um	 deles.	 Assim,	 na	 medida	 do	 possível,	 os	 familiares	 e	 as</p><p>vítimas	 de	 psicopatas	 devem	 buscar	 ajuda	 médica,	 psicológica	 e	 até	 mesmo</p><p>jurídica.	É	recomendado	que	esses	profissionais	tenham	profundo	conhecimento</p><p>sobre	a	natureza	da	personalidade	psicopática.	A	união	profissional	em	favor	da</p><p>vítima	é	que	poderá	fazer	com	que	ela	possa	se	reconstruir.</p><p>13	—	Dê	valor	à	sua	capacidade	de	ser	consciente.</p><p>Não	se	esqueça	de	que	você	possui	o	bem	mais	valioso	que	um	ser	humano</p><p>pode	alcançar:	a	sua	consciência,	que	lhe	confere	o	dom	de	amar	a	própria	vida,</p><p>o	planeta	e	a	humanidade	como	um	todo.	Por	isso	é	tão	importante	desenvolver	e</p><p>aperfeiçoar	 a	 nossa	 consciência.	 O	 desenvolvimento	 da	 consciência	 provoca</p><p>experiências	 transformadoras	 em	 nós.	 Mudamos	 a	 nossa	 forma	 de	 ver,	 viver,</p><p>sentir	 e	 nos	 relacionar	 com	o	mundo.	Com	o	 aperfeiçoamento	 da	 consciência,</p><p>aumentamos	 a	 nossa	 capacidade	 de	 amar	 e,	 com	 isso,	 temos	 o	 privilégio	 de</p><p>praticar	o	amor	 incondicional.	Exercer	esse	amor	de	 forma	realista	e	madura	é</p><p>ter	o	bem	pulsando	dentro	de	nós.</p><p>Os	heróis	do	passado	estão	se	tornando	os	otários	dos	tempos	modernos.</p><p>13</p><p>ALGUMA	COISA	ESTÁ	FORA	DA</p><p>ORDEM</p><p>Uma	 breve	 revisão	 na	 história	 da	 humanidade	 é	 capaz	 de	 revelar	 duas</p><p>questões	 importantes	no	que	 tange	à	origem	da	psicopatia.	A	primeira	delas	se</p><p>refere	ao	 fato	de	o	problema	sempre	 ter	existido	entre	nós.	Um	exemplo	dessa</p><p>situação	é	destacado	pelo	psiquiatra	americano	Hervey	Cleckley,	ao	citar	que	o</p><p>general	grego	Alcebíades,	no	século	V	a.C.,	já	preenchia	todos	os	requisitos	para</p><p>ser	considerado	um	psicopata	“de	carteirinha”.</p><p>A	segunda	questão	aponta	para	a	presença	da	psicopatia	em	todos	os	tipos	de</p><p>sociedades,	desde	as	mais	primitivas	até	as	mais	modernas.	Esses	fatos	reforçam</p><p>a	participação	de	um	importante	substrato	biológico	na	origem	do	transtorno.	No</p><p>entanto,	eles	não	invalidam,	de	forma	alguma,	a	participação	significativa	que	os</p><p>fatores	 culturais	 podem	 ter	 na	 modulação	 desse	 quadro,	 ora	 favorecendo,	 ora</p><p>inibindo	o	seu	desenvolvimento.</p><p>Isso	 fica	 claro	 quando	 observamos	 a	 prevalência	 de	 psicopatas	 em	 culturas</p><p>diversas.	Nas	sociedades	ocidentais,	a	conduta	psicopática	tem-se	incrementado</p><p>de	maneira	assustadora	nas	últimas	décadas.	Cotidianamente	nos	deparamos	com</p><p>jornais	e	revistas	que	estampam	homicidas	cruéis,	assassinos	em	série,	políticos</p><p>corruptos,	terroristas,	pedófilos,	pessoas	que	maltratam	crianças,	torturadores	de</p><p>mulheres,	 líderes	 religiosos	 inescrupulosos,	 estelionatários	 e	 profissionais</p><p>desleais.</p><p>Tenho	a	convicção	de	que	todos	esses	problemas	têm	se	agravado,	de	modo</p><p>extraordinário,	por	causa	da	ação	dos	psicopatas	e	de	pessoas	que	vêm	adotando</p><p>formas	“psicopáticas”	de	convívio.	Se	isso	ocorre,	é	porque	nossa	sociedade	está</p><p>fundamentada	 em	 valores	 e	 práticas	 que,	 no	 mínimo,	 favorecem	 a	 maneira</p><p>psicopática	de	ser	e	viver.	De	certa	forma,	estamos	contribuindo	para	promover</p><p>uma	 cultura	 na	 qual	 a	 psicopatia	 encontra	 um	 campo	 bastante	 favorável	 para</p><p>florescer.</p><p>A	cultura	dos	tempos	modernos</p><p>A	ideologia	sobre	a	qual	se	alicerça	a	cultura	dos	nossos	tempos	é	baseada	em</p><p>três	 princípios	 básicos:	 1)	 o	 individualismo;	 2)	 o	 relativismo;	 3)	 o</p><p>instrumentalismo.</p><p>De	 forma	 compreensível	 e	 sem,	 contudo,	 aprofundar-me	 na	 esfera	 da</p><p>filosofia,	os	três	princípios	podem	ser	avaliados	da	seguinte	maneira:</p><p>1)	O	individualismo	prega	a	busca	do	melhor	tipo	de	vida	a	se	usufruir.	Entende-</p><p>se	como	o	melhor	tipo	de	vida	aquele	que	abrange	o	autodesenvolvimento,	a</p><p>autorrealização	 e	 a	 autossatisfação.	 De	 acordo	 com	 essa	 concepção,	 o</p><p>indivíduo	 tem	 a	 obrigação	moral	 de	 buscar	 sua	 felicidade	 em	detrimento	 de</p><p>qualquer	outra	obrigação	para	com	os	demais.</p><p>2)	 Segundo	 o	 relativismo,	 todas	 as	 escolhas	 são	 igualmente	 importantes,	 pois</p><p>não	 há	 um	 padrão	 de	 valor	 objetivo	 que	 nos	 permita	 estabelecer	 uma</p><p>hierarquia	de	condutas.	Assim,	qualquer	ação	que	leva	o	indivíduo	a	atingir	a</p><p>autossatisfação	é	válida	e	não	pode	ser	questionada.</p><p>3)	O	instrumentalismo	afirma	que	o	valor	de	qualquer	coisa	fora	de	nós	é	apenas</p><p>um	valor	instrumental,	ou	seja,	o	valor	das	pessoas	e	das	coisas	se	resume	no</p><p>que	elas	podem</p><p>fazer	por	nós.</p><p>Na	verdade,	tudo	está	implícito	no	primeiro	e	principal	componente	da	cultura</p><p>moderna:	o	individualismo.	Assim,	o	nosso	principal	objetivo	são	a	realização	e</p><p>a	satisfação	pessoal.	As	obrigações	que	 temos	para	com	as	demais	pessoas	são</p><p>meramente	 secundárias,	 prevalecendo	 a	 obrigação	 de	 desfrutarmos	 a	 vida	 da</p><p>maneira	 que	 escolhermos.	 Dessa	 forma,	 as	 outras	 pessoas	 se	 transformam	 em</p><p>simples	meios	para	chegarmos	a	um	fim.</p><p>O	objetivo	maior	da	ideologia	moderna	era	preservar	a	 liberdade	individual.</p><p>No	entanto,	essa	ênfase	sobre	a	liberdade	criou	a	grande	contradição	de	nossos</p><p>tempos:	 como	 estabelecer	 valores	morais	 e	 éticos	 num	mundo	 que	 prioriza	 as</p><p>escolhas	individuais?</p><p>A	modernidade	foi	responsável	por	uma	série	de	mudanças	na	nossa	forma	de</p><p>ver	e	sentir	o	mundo.	A	revolução	tecnológica	inundou	de	conforto	nossa	vida.</p><p>Dispomos	 de	 uma	 imensa	 variedade	 de	 coisas	 que	 facilitam	 nosso	 dia	 a	 dia,</p><p>porém	não	encontramos	tempo	disponível	para	cultivar	o	nosso	lado	afetivo.	O</p><p>convívio	reconfortante	com	a	família,	os	amigos	e	o	amor	romântico	parecem	ser</p><p>coisas	do	passado,	algo	lembrado	com	nostalgia	mas	avaliado	como	utopia	nos</p><p>dias	atuais.	O	desenvolvimento	econômico	nos	tempos	modernos	fundamenta-se</p><p>na	 crença	 cega	 de	 que	 não	 podemos	 parar	 nunca:	 há	 sempre	 o	 que	 aprender,</p><p>conquistar,	possuir,	descobrir,	experimentar...	Nada	nem	ninguém	é	capaz	de	nos</p><p>satisfazer	plenamente,	pois	sempre	há	novas	possibilidades	para	serem	testadas</p><p>na	conquista	da	tal	realização	pessoal.</p><p>A	 realização	proposta	 por	 nossa	 sociedade	 só	 pode	 ser	 de	 aspecto	material,</p><p>pois	 afetos	 verdadeiros	 não	 podem	 ser	 adquiridos	 nem	 substituídos	 na</p><p>velocidade	 que	 nossos	 tempos	 preconizam.	 A	 cultura	 do	 individualismo	 e	 o</p><p>desejo	de	conseguir	bem-estar	material	a	qualquer	custo	têm	provocado	a	erosão</p><p>dos	 laços	 afetivos	 dentro	 da	 nossa	 sociedade.	 Com	 isso,	 virtudes	 como	 a</p><p>honestidade,	a	reciprocidade	e	a	responsabilidade	para	com	os	demais	caem	em</p><p>total	 descrédito.	E	 assim,	 repletos	 de	 conforto	 e	 tecnologia,	 acabamos	 por	 nos</p><p>tornar	 cada	 vez	 mais	 sozinhos	 e	 menos	 comprometidos	 com	 os	 nossos</p><p>semelhantes.</p><p>Sem	sombra	de	dúvida,	o	cenário	social	dos	nossos	tempos	favorece	o	estilo</p><p>de	vida	do	psicopata.	Ele	reflete	de	forma	precisa	esse	“novo	homem”,	voltado</p><p>somente	para	si	mesmo,	preocupado	apenas	com	o	que	é	seu	e	desvinculado	da</p><p>realidade	vital	dos	que	estão	ao	redor.</p><p>A	expansão	da	cultura	moderna,	repleta	de	traços	psicopáticos,	modificou	de</p><p>forma	drástica	as	nossas	relações	familiares	e	sociais.	Estamos	perdendo	o	senso</p><p>de	responsabilidade	compartilhada	no	campo	social	e	de	vinculação	significativa</p><p>nas	 relações	 interpessoais.	O	 aumento	 implacável	 da	 violência	 é	 uma	 resposta</p><p>lógica	e	previsível	a	toda	essa	situação.</p><p>A	cultura	psicopática	está	no	ar</p><p>No	 campo	 da	 ficção,	 os	 psicopatas	 também	 têm	 conquistado	 valorosos</p><p>espaços.	Até	bem	pouco	 tempo	atrás,	 nas	novelas,	 nos	 romances	 e	nos	 filmes,</p><p>nós	 nos	 identificávamos	 com	 os	 personagens	 do	 bem,	 que,	 em	 geral,	 eram</p><p>vitimados	pelas	diversas	circunstâncias	dos	enredos,	mas	se	mantinham	éticos	e</p><p>triunfavam	 ao	 final,	 e	 torcíamos	 por	 eles.	Hoje,	 ficamos	 fascinados	 e	 atraídos</p><p>pelos	vilões,	e	é	para	eles	que	dirigimos	nossa	torcida.	Além	disso,	quando	esses</p><p>bandidos	 são	 ricos	 e	 poderosos,	 acabam	 por	 se	 transformar	 em	 sedutores	 de</p><p>primeira	 grandeza.	 Assim,	 de	 forma	 quase	 natural,	 estamos	 abandonando	 os</p><p>mocinhos	 e	 seus	 ideais	morais	 de	 justiça	 e	 solidariedade.	Os	heróis	 dos	novos</p><p>tempos	são	maldosos,	inescrupulosos	e	isentos	de	qualquer	sentimento	de	culpa.</p><p>Já	os	personagens	bonzinhos	despertam	em	nós	um	sentimento	de	pena	e	até	de</p><p>certa	intolerância	com	seus	discursos	utópicos	e	ingênuos.	Os	heróis	do	passado</p><p>estão	se	tornando	os	otários	dos	tempos	modernos.</p><p>O	 desrespeito,	 a	 frieza,	 a	 luxúria	 e	 a	 perversidade	 dos	 psicopatas	 estão</p><p>ganhando	 espaço	 nas	 telinhas	 e	 nas	 telonas,	 arrebatando	 espectadores,	 críticos</p><p>especializados	 e	 atores	 que	 buscam	 fama	 e	 reconhecimento	 profissional	 ao</p><p>interpretar	personagens	de	“psiquismo	 tão	complexo”.	Se	não	 tomarmos	muito</p><p>cuidado,	 acabaremos	 adotando	 a	 conduta	 psicopática	 como	 um	 estilo	 de	 vida</p><p>eficiente	 para	 alcançar	 a	 autossatisfação,	 ou	 então	 como	 um	 comportamento</p><p>adaptativo	de	sobrevivência.</p><p>É	 hora	 de	 parar	 e	 realizar	 uma	 profunda	 reflexão	 coletiva	 e	 individual.</p><p>Precisamos	definir	em	que	proporções	estamos	contribuindo	para	a	promoção	de</p><p>uma	cultura	psicopática.	Temos	que	unir	forças	para	efetuar	um	combate	efetivo</p><p>das	 ações	 psicopáticas	 em	 todas	 as	 suas	 manifestações.	 Para	 começar,</p><p>precisamos	rever	a	nossa	tolerância	em	relação	às	pequenas	transgressões	do	dia</p><p>a	dia,	como	jogar	papel	no	chão,	buzinar	em	frente	ao	hospital,	urinar	em	postes,</p><p>cuspir	nas	calçadas,	estacionar	em	locais	proibidos,	não	recolher	os	dejetos	dos</p><p>animais	de	estimação,	e	por	aí	vai.</p><p>E	o	que	dizer	de	nossa	tolerância	para	com	a	corrupção?	Chegamos	ao	ponto</p><p>absurdo	 de	 concordar	 com	 frases	 do	 tipo:	 “Fulano	 rouba	 mas	 faz”.	 Isso</p><p>representa	a	mais	pura	acomodação	política	que	experimentamos	em	nossa	vida</p><p>social.	 Será	 que	 acreditamos	 realmente	 na	 existência	 da	 corrupção	 benigna?</p><p>Evidentemente,	sabemos	que	não,	mas	 tentamos	criar	 justificativas	 idiotas	para</p><p>abrandar	 nossa	 turva	 consciência.	 Sabemos	 distinguir	 claramente	 o	 certo	 do</p><p>errado,	no	entanto	preferimos	relativizar	essa	questão	para	nos	beneficiarmos	das</p><p>vantagens	materiais	das	“pequenas”	transgressões	sociais.</p><p>Precisamos	 reestruturar,	 de	 forma	 urgente,	 os	 processos	 pelos	 quais	 nossas</p><p>crianças	e	nossos	jovens	aprendem	os	valores	e	os	comportamentos	sociais.	Para</p><p>que	 isso	ocorra,	 todas	as	 instituições,	 tanto	públicas	quanto	privadas,	 terão	que</p><p>dar	 a	 sua	 parcela	 de	 contribuição.	 Somente	 uma	 educação	 pautada	 em	 sólidos</p><p>valores	 altruístas	 poderá	 fazer	 surgir	 uma	 nova	 ética	 social	 capaz	 de	 conciliar</p><p>direitos	 individuais	 com	 responsabilidades	 interpessoais	 e	 coletivas.	 A</p><p>aprendizagem	altruísta	é	o	único	caminho	possível	para	combatermos	a	cultura</p><p>psicopática	 pautada	 na	 insensibilidade	 interpessoal	 e	 na	 ausência	 da</p><p>solidariedade	coletiva.</p><p>É	 fundamental	 destacar	 que	 não	 se	 trata	 de	 cair	 na	 velha	 argumentação	 da</p><p>perda	da	virtude	em	troca	do	conforto	e	do	progresso.	Não	é	nada	disso!	Bem-</p><p>vindas	 sejam	 as	 conquistas	 dos	 novos	 tempos,	 como	 os	 avanços	 científicos	 e</p><p>tecnológicos,	a	liberdade	de	escolha	e	de	expressão.	No	entanto,	nada	disso	pode</p><p>se	 transformar	 em	 justificativa	 para	 a	 aceitação	 ou	 a	 tolerância	 para	 com	uma</p><p>sociedade	 constituída	 de	 indivíduos	 desvinculados	 dos	 direitos	 e	 das</p><p>necessidades	vitais	dos	que	estão	ao	redor.</p><p>A	construção	de	uma	sociedade	mais	solidária	é,	a	meu	ver,	o	grande	desafio</p><p>dos	 nossos	 tempos.	 E,	 para	 tal	 empreitada,	 teremos	 que	 harmonizar	 o</p><p>desenvolvimento	tecnológico	com	uma	consciência	que	não	faça	nenhum	tipo	de</p><p>concessão	 ao	 estilo	 psicopático	 de	 ser	 ou	 de	 viver.	 A	 luta	 contra	 as	 condutas</p><p>psicopáticas	é	a	luta	pelo	que	há	de	mais	humano	em	cada	um	de	nós.	É	a	luta</p><p>por	um	mundo	mais	 ético	 e	menos	violento,	 repleto	de	 “gente	 fina,	 elegante	 e</p><p>sincera”.</p><p>ANEXO	A</p><p>DSM-IV-TR	—	(301.7)</p><p>Critérios	Diagnósticos	para	Transtorno	da</p><p>Personalidade	Antissocial	A.	Um	padrão	global	de</p><p>desrespeito	e	violação	dos	direitos	dos	outros,	que</p><p>ocorre	desde	os	15	anos,	como	indicado	por	pelo</p><p>menos	três	dos	seguintes	critérios:	(1)	incapacidade	de</p><p>adequar-se	às	normas	sociais	com	relação	a</p><p>comportamentos	lícitos,	indicada	pela	execução</p><p>repetida	de	atos	que	constituem	motivo	de	detenção.</p><p>(2)	 propensão	 para	 enganar,	 indicada	 por	mentir	 repetidamente,	 usar	 nomes	 falsos	 ou	 ludibriar	 os</p><p>outros	para	obter	vantagens	pessoais	ou	prazer.</p><p>(3)	impulsividade	ou	fracasso	em	fazer	planos	para	o	futuro.</p><p>(4)	irritabilidade</p><p>e	agressividade,	indicadas	por	repetidas	lutas	corporais	ou	agressões	físicas.</p><p>(5)	desrespeito	irresponsável	pela	segurança	própria	ou	alheia.</p><p>(6)	irresponsabilidade	consistente,	indicada	por	um	repetido	fracasso	em	manter	um	comportamento</p><p>laboral	consistente	ou	de	honrar	obrigações	financeiras.</p><p>(7)	 ausência	 de	 remorso,	 indicada	 por	 indiferença	 ou	 racionalização	 por	 ter	 ferido,	 maltratado	 ou</p><p>roubado	alguém.</p><p>B.	O	indivíduo	tem	no	mínimo	18	anos	de	idade.</p><p>C.	Existem	evidências	de	transtorno	da	conduta	com	início	antes	dos	15	anos	de	idade.</p><p>D.	 A	 ocorrência	 do	 comportamento	 antissocial	 não	 se	 dá	 exclusivamente	 durante	 o	 curso	 de</p><p>esquizofrenia	ou	episódio	maníaco.</p><p>ANEXO	B</p><p>CID-10	—	(F60.2)	Transtorno	de</p><p>Personalidade	Dissocial	Transtorno</p><p>de	personalidade	caracterizado	por</p><p>um	desprezo	das	obrigações	sociais,</p><p>falta	de	empatia	para	com	os	outros.</p><p>Há	um	desvio	considerável	entre	o</p><p>comportamento	e	as	normas	sociais</p><p>estabelecidas.	O	comportamento	não</p><p>é	facilmente	modificado	pelas</p><p>experiências	adversas,	inclusive	pelas</p><p>punições.	Existe	uma	baixa	tolerância</p><p>à	frustração	e	um	baixo	limiar	de</p><p>descarga	da	agressividade,	inclusive</p><p>da	violência.	Existe	uma	tendência	a</p><p>culpar	os	outros	ou	a	fornecer</p><p>racionalizações	plausíveis	para</p><p>explicar	um	comportamento	que	leva</p><p>o	sujeito	a	entrar	em	conflito	com	a</p><p>o	sujeito	a	entrar	em	conflito	com	a</p><p>sociedade.</p><p>Personalidade	(transtorno	da):</p><p>amoral</p><p>antissocial</p><p>associal</p><p>psicopática</p><p>sociopática</p><p>Exclui:	transtorno	(de)	(da):</p><p>conduta	(F91.-)</p><p>personalidade	do	tipo	instabilidade	emocional	(F60.3)</p><p>ANEXO	C</p><p>DSM-IV-TR	—	(312.8)</p><p>Critérios	Diagnósticos	para	Transtorno	da	Conduta</p><p>A.	Um	padrão	repetitivo	e	persistente	de	comportamento	no	qual	são	violados	os	direitos	individuais</p><p>dos	outros	ou	normas	ou	regras	sociais	importantes	próprias	da	idade,	manifestado	pela	presença	de</p><p>três	(ou	mais)	dos	seguintes	critérios	nos	últimos	12	meses,	com	presença	de	pelo	menos	um	deles</p><p>nos	últimos	seis	meses:</p><p>Agressão	a	pessoas	e	animais</p><p>(1)	provocações,	ameaças	e	intimidações	frequentes</p><p>(2)	lutas	corporais	frequentes</p><p>(3)	utilização	de	arma	capaz	de	infligir	graves	lesões	corporais	(por	exemplo,	bastão,	 tijolo,	garrafa</p><p>quebrada,	faca,	revólver)</p><p>(4)	crueldade	física	para	com	pessoas</p><p>(5)	crueldade	física	para	com	animais</p><p>(6)	roubo	em	confronto	com	a	vítima	(por	exemplo,	bater	carteira,	arrancar	bolsa,	extorsão,	assalto	à</p><p>mão	armada)</p><p>(7)	coação	para	que	alguém	tivesse	atividade	sexual	consigo</p><p>Destruição	de	patrimônio</p><p>(8)	envolveu-se	deliberadamente	na	provocação	de	incêndio	com	a	intenção	de	causar	sérios	danos</p><p>(9)	destruiu	deliberadamente	a	propriedade	alheia	(diferente	de	provocação	de	incêndio)</p><p>Defraudação	ou	furto</p><p>(10)	arrombou	residência,	prédio	ou	automóvel	alheios</p><p>(11)	mentiras	frequentes	para	obter	bens	ou	favores	ou	para	esquivar-se	de	obrigações	legais	(isto	é,</p><p>ludibriar	pessoas)</p><p>(12)	roubo	de	objetos	de	valor	sem	confronto	com	a	vítima	(por	exemplo,	 furto	em	lojas,	mas	sem</p><p>arrombar	e	invadir;	falsificação)</p><p>Sérias	violações	de	regras</p><p>(13)	frequente	permanência	na	rua	à	noite,	contrariando	proibições	por	parte	dos	pais,	iniciando	antes</p><p>dos	13	anos	de	idade</p><p>(14)	 fugiu	 de	 casa	 à	 noite	 por	 pelo	menos	 duas	 vezes,	 enquanto	 vivia	 na	 casa	 dos	 pais	 ou	 em	 lar</p><p>adotivo	(ou	uma	vez,	sem	retornar	por	um	extenso	período)</p><p>(15)	gazetas	frequentes,	iniciando	antes	dos	13	anos	de	idade</p><p>B.	 A	 perturbação	 do	 comportamento	 causa	 prejuízo	 clinicamente	 significativo	 do	 funcionamento</p><p>social,	acadêmico	ou	ocupacional.</p><p>C.	 Se	 o	 indivíduo	 tem	 18	 anos	 ou	 mais,	 não	 são	 satisfeitos	 os	 critérios	 para	 o	 transtorno	 da</p><p>personalidade	antissocial.</p><p>ESPECIFICAR	TIPO	COM	BASE	NA	IDADE	DE	INÍCIO:</p><p>312.81	Tipo	com	início	na	infância:	início	de	pelo	menos	um	critério	característico	do	transtorno	da</p><p>conduta	antes	dos	dez	anos	de	idade.</p><p>312.82	 Tipo	 com	 início	 na	 adolescência:	 ausência	 de	 quaisquer	 critérios	 característicos	 do</p><p>transtorno	da	conduta	antes	dos	dez	anos	de	idade.</p><p>312.	89	Transtorno	da	conduta,	início	inespecificado:	a	idade	do	início	não	é	conhecida.</p><p>ESPECIFICAR	GRAVIDADE:</p><p>LEVE:	poucos	problemas	de	conduta,	se	existem,	além	dos	exigidos	para	fazer	o	diagnóstico,	sendo</p><p>que	os	problemas	de	conduta	causam	apenas	um	dano	pequeno	a	outras	pessoas.</p><p>MODERADO:	um	número	de	problemas	de	conduta	e	o	efeito	sobre	outros	são	intermediários,	entre</p><p>“leve”	e	“grave”.</p><p>GRAVE:	muitos	problemas	de	conduta	além	dos	exigidos	para	fazer	o	diagnóstico	ou	problemas	de</p><p>conduta	que	causam	dano	considerável	a	outras	pessoas.</p><p>Sites	úteis</p><p>AMERICAN	PSYCHIATRY	ASSOCIATION	(APA)	www.psych.org</p><p>ASSOCIAÇÃO	BRASILEIRA	DE	PSIQUIATRIA	(ABP)</p><p>www.abpbrasil.org.br	CENTRO	DE	VALORIZAÇÃO	DA	VIDA	(CVV)</p><p>www.cvv.com.br</p><p>DISQUE	DENÚNCIA</p><p>www.disquedenuncia.org.br	 ASSOCIAÇÃO	 DE	 PARENTES	 E	 AMIGOS	 DE</p><p>VÍTIMAS	DE	VIOLÊNCIA	(APAVV)	www.apavv.org.br</p><p>CENTRAL	NACIONAL	DE	DENÚNCIAS	DE	CRIMES	CIBERNÉTICOS	—	SAFERNET	BRASIL</p><p>www.denunciar.org.br	SECRETARIA	DE	ASSISTÊNCIA	SOCIAL	—	RJ</p><p>www.rio.rj.gov.br/smas</p><p>WITHOUT	 CONSCIENCE	 —	 ROBERT	 HARE’S	 WEB	 SITE	 DEVOTED	 TO	 THE	 STUDY	 OF</p><p>PSYCHOPATHY</p><p>www.hare.org</p><p>WORLD	HEALTH	ORGANIZATION</p><p>www.who.int</p><p>BLOG	DA	ATRIZ	DANIELLA	PEREZ</p><p>http://daniellafperez.blogspot.com/</p><p>VÍDEOS	DE	ENTREVISTAS	DA	ESCRITORA	ANA	BEATRIZ	BARBOSA	SILVA</p><p>youtube.com/anabeatrizbsilva	 VÍDEOS	 POSTADOS	 PELA	 ESCRITORA	 GLORIA</p><p>PEREZ</p><p>youtube.com/gfperez</p><p>Telefones	úteis	ASSOCIAÇÃO</p><p>BRASILEIRA	DE	PSIQUIATRIA</p><p>(21)	2199-7500</p><p>CENTRO	DE	VALORIZAÇÃO	DA	VIDA	(CVV)	RIO	DE	JANEIRO:	(21)	2233-9191</p><p>CAMPINAS:	(19)	3272-7777</p><p>BRASÍLIA:	(61)	3326-4111</p><p>SALVADOR:	(71)	3322-4111</p><p>CURITIBA:	(41)	3342-4111</p><p>DELEGACIA	DA	MULHER</p><p>RIO	DE	JANEIRO:	(21)	3399-3690</p><p>SÃO	PAULO:	(11)	3241-3328</p><p>BRASÍLIA:	(61)	3242-4300</p><p>SALVADOR:	(71)	3116-7000</p><p>CURITIBA:	(41)	3223-5323</p><p>DISQUE	DENÚNCIA</p><p>RIO	DE	JANEIRO:	(21)	2253-1177</p><p>SÃO	PAULO:	181</p><p>BRASÍLIA:	(61)	3323-8855</p><p>SALVADOR:	(71)	3235-0000</p><p>TELEFONE	NACIONAL:	100</p><p>SECRETARIAS	DE	ASSISTÊNCIA	SOCIAL</p><p>RIO	DE	JANEIRO:	(21)	2293-0393</p><p>SÃO	PAULO:	(11)	3291-9666</p><p>Bibliografia</p><p>ADOLPHS,	R.	“Is	 the	human	amygdale	specialized	 for	processing	social	 information?”.	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Classificação	dos	transtornos	mentais	e	do	comportamento	da	CID-10:	descrições	clínicas</p><p>e	diretrizes	diagnósticas.	Trad.	Caetano,	D.	Porto	Alegre:	Artes	Médicas,	1993.</p><p>PADILHA,	Valquíria.	Shopping	center:	a	catedral	das	mercadorias.	São	Paulo:	Boitempo,	2006.</p><p>PAMELA,	Y.	et	alii.	“Neurologic	abnormalities	in	murderes”.	Neurology,	n.	45,	set.	1995.</p><p>PATRICK,	Christopher	J.	“Emotion	and	temperament	in	psychopathy”.	Clinical	Science,	outono,	1995.</p><p>PATRICK,	Christopher;	CUTHBERT,	Bruce	&	LANG,	Peter.	“Emotion	 in	 the	criminal	psychopath:	 fear	 image</p><p>processing”.	Journal	of	Abnormal	Psychology,	vol.	103,	n.	3,	1994.</p><p>PENFOLD,	Rosalind	B.	Mas	 ele	 diz	 que	me	ama:	 graphic	 novel	 de	 uma	 relação	 violenta.	Rio	 de	 Janeiro:</p><p>Ediouro,	2006.</p><p>PERALVA,	Angelina.	Violência	e	democracia:	o	paradoxo	brasileiro.	São	Paulo:	Paz	e	Terra,	2000.</p><p>PEREIRA,	Glória	Maria	Garcia.	Talento:	nova	linguagem	do	dinheiro	para	a	realização	pessoal.	São	Paulo:</p><p>Futura,	2002.</p><p>PILGER,	John.	Os	novos	senhores	do	mundo.	Rio	de	Janeiro:	Record,	2004.</p><p>RAINE,	 Adrian.	 The	 psychopathology	 of	 crime:	 criminal	 behavior	 as	 a	 clinical	 disorder.	 San	 Diego:</p><p>Academic	Press,	1997.</p><p>RANGEL,	Alexandre.	As	mais	belas	parábolas	de	 todos	os	 tempos	—	volume	 II.	Belo	Horizonte:	Leitura,</p><p>2004.</p><p>RATEY,	John	J.	O	cérebro:	um	guia	para	o	usuário.	Rio	de	Janeiro:	Objetiva,	2002.</p><p>RIDLEY,	Matt.	O	que	nos	faz	humanos.	Rio	de	Janeiro:	Record,	2004.</p><p>RODRIGUES,	Fernando.	Políticos	do	Brasil.	São	Paulo:	Publifolha,	2006.</p><p>ROSE,	 Steven.	O	 cérebro	 do	 século	 XXI:	 como	 entender,	 manipular	 e	 desenvolver	 a	 mente.	 São	 Paulo:</p><p>Globo,	2006.</p><p>ROWLANDS,	Mark.	Tudo	o	que	sei	aprendi	com	a	TV.	Rio	de	Janeiro:	Ediouro,	2008.</p><p>SILVA,	Ana	Beatriz	Barbosa.	Bullying:	mentes	perigosas	nas	escolas.	Rio	de	Janeiro:	Objetiva,	2010.</p><p>______.	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Ana	Beatriz	Barbosa	Silva</p><p>Homepage:	www.draanabeatriz.com.br</p><p>E-mail:	contato@draanabeatriz.com.br</p><p>abcomport@gmail.com</p><p>Twitter:	twitter.com/anabeatrizpsi</p><p>Facebook:	facebook.com/anabeatriz.mcomport</p><p>YouTube:	youtube.com/anabeatrizbsilva</p><p>[1].	Manual	diagnóstico	e	estatístico	de	transtornos	mentais.	4.	ed.	Texto	revisado.	Vide	Anexo	A.</p><p>[2].	Classificação	internacional	das	doenças.	Vide	Anexo	B.</p><p>[3].	Jornal	O	Globo,	15	nov.	2006.</p><p>[4].	Revista	Época,	ed.	259,	Globo,	5	maio	2003;	Revista	Ciência	Criminal	—	Especial	Mentes	Criminosas;</p><p>Segmento,	2007;	Portal	R7	Vídeos:	“Exclusivo:	Marcelo	Rezende	entrevista	criminoso	que	matou	mais</p><p>de	cem	pessoas”.	Acesso	em	11	jun.	2012.</p><p>[5].	Revista	Veja,	ed.	2.021,	ano	40:	“Sem	culpa	e	sem	vergonha”.	Abril,	15	ago.	2007.</p><p>[6].	Revista	Veja,	ed.	1.993,	ano	40.	Abril,	31	jan.	2007.</p><p>[7].	Revista	Veja,	ed.	1.744.	Abril,	27	mar.	2002.</p><p>[8].	Revista	Veja,	ed.	2.053.	Abril,	26	mar.	2008;	programa	Fantástico,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido</p><p>em	23	mar.	2008;	Procuradoria	da	República	de	Goiás:	<http://www.prgo.mpf.mp.br>.	Acesso	em	2	fev.</p><p>2014.</p><p>[9].	G1:	O	Portal	de	Notícias	da	Globo,	<www.g1.com.br>.	Acesso	de	22	ago.	2007	a	3	abr.	2009;	programa</p><p>Fantástico,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	26	ago.	2007;	Folha	de	S.Paulo	Online.	Acesso	em</p><p>29	maio	2011;	Glamurama,	<http://glamurama.uol.com.br>.	Acesso	em	18	maio	2014.</p><p>[10].	O	Globo	Online:	<www.oglobo.com.br>.	Acesso	entre	30	set.	2006	e	30	nov.	2007;	G1:	O	Portal	de</p><p>Notícias	da	Globo:	<www.g1.com.br>.	Acesso	entre	9	out.	2004	e	10	dez.	2013.</p><p>[11].	Revista	Época,	ed.	234.	Globo,	11	nov.	2002</p><p>[12].	Revista	Época,	ed.	234.	Globo,	11	nov.	2002;	revista	IstoÉ	Gente,	ed.	172.	Três,	18	nov.	2002;	revista</p><p>Fantástico,	no	1,	Globo,	dez.	2006;	programa	Fantástico,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	9	abr.</p><p>2006	e	29	nov.	2009;	Revista	Consultor	Jurídico:	<www.conjur.com.br>.	Acesso	em	20	nov.	2009;	O</p><p>quinto	mandamento:	caso	de	polícia,	Ilana	Casoy,	2006.</p><p>[13].	Programa	Fantástico,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	24	fev.	2007;	G1:	O	Portal	de	Notícias	da</p><p>Globo:	<www.g1.com.br>.	Acesso	em	25	fev.	2007.</p><p>[14].</p><p>Programa	Linha	direta	—	“Inimiga	íntima”,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	29	nov.	2007	e	6</p><p>dez.	2007.	Disponível	em:	<http://redeglobo.globo.com/Linhadireta>.	Acesso	em	29	nov.	2007	e	em	6</p><p>dez.	2007.</p><p>[15].	 Entrevista	 concedida	 ao	 programa	Mais	 você	 (Rede	 Globo	 de	 Televisão),	 durante	 o	 julgamento	 de</p><p>Lindemberg	 Alves	 Fernandes.	 Disponível	 em:	 <http://gshow.globo.com/programas/mais-voce/>.</p><p>Acesso	em	15	fev.	2012.</p><p>[16].	“As	pessoas	não	aceitam	que	o	mal	existe.	Infelizmente,	ele	existe”,	Márcia	Vieira,	jornal	O	Estado	de</p><p>S.	 Paulo.	 Disponível	 em:	 <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso%2cas-pessoas-nao-aceitam-</p><p>que-o-mal-existe-infelizmente-ele-existe%2c266665%2c0.htm>.	Acesso	em	26	out.	2008.</p><p>[17].	 “As	 tintas	 do	 inferno”,	 revista	Veja,	 ed.	 2.083,	 22	 out.	 2008;	 revista	Veja,	 ed.	 2.084,	 29	 out.	 2008;</p><p>Veja.com,	sobre	o	caso	Eloá.	Disponível	em:	<http://veja.abril.com.br>.	Acesso	de	13	jan.	2012	a	4	jun.</p><p>2013.</p><p>[18].	 Programa	Fantástico,	 Rede	Globo	 de	 Televisão,	 exibido	 em	 20	 abr.	 2008;	Revista	Veja,	 ed.	 2.058.</p><p>Abril,	30	abr.	2008;	Jornal	Nacional,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	1o	maio	2008;	Jornal	do</p><p>Terra,	9	maio	2008;	G1:	O	Portal	de	Notícias	da	Globo:	<www.g1.com.br>.	Acesso	de	30	abr.	2008	a</p><p>16	maio	2008.	A	prova	é	a	testemunha,	Ilana	Casoy,	2010.</p><p>[19].	Programa	Sem	censura,	TVE	Brasil,	exibido	em	4	jan.	1993.</p><p>[20].	Programa	Sem	censura,	TVE	Brasil,	exibido	em	4	jan.	1993.</p><p>[21].	Jornal	O	Globo,	23	jan.	1997;	jornal	O	Dia,	24	jan.	1997.</p><p>[22].	Revista	Veja.	Abril,	28	ago.	1996;	Jornal	nacional,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	29	dez.	1992,</p><p>vídeo	capturado	do	YouTube.	<www.youtube.com.br/ricardozanon>.	Acesso	em	3	nov.	2007;	programa</p><p>http://glamurama.uol.com.br</p><p>http://gshow.globo.com/programas/mais-voce/</p><p>http://www.g1.com.br</p><p>Fantástico,	 Rede	 Globo	 de	 Televisão,	 exibido	 em	 25	 ago.	 1996,	 vídeo	 capturado	 do	 YouTube.</p><p><www.youtube.com.br/ricardozanon>.	Acesso	em	15	nov.	2007;	programa	Fantástico,	Rede	Globo	de</p><p>Televisão,	exibido	em	30	dez.	2007,	vídeo	capturado	do	YouTube.	<www.youtube.com.br/madlovis>.</p><p>Acesso	 em	 30	 dez.	 2007;	 vídeos	 capturados	 do	 YouTube	 e	 postados	 por	 Gloria	 Perez</p><p><www.youtube.com.br/gfperez>.	 Acesso	 entre	 12	 jan.	 2007	 e	 12	 abr.	 2008;	 autos	 do	 processo;</p><p>entrevista	de	Guilherme	de	Pádua	à	repórter	Lucileia	Cordovil,	no	presídio	de	Água	Santa;	entrevista	de</p><p>Guilherme	de	Pádua	a	Jorge	Tavares:	jornal	O	Dia,	7	jan.	1993,	e	jornal	O	Globo,	8	jan.	1993.</p><p>[23].	 “Biography:	 Ted	 Bundy”,	 RealCrazyWoman2,	 History	 Channel.	 Disponível	 em</p><p><http://www.youtube.com/watch?v=_rNVwBl_bFw>.	Acesso	em	21	jan.	2012;	“Serial	killers:	A	última</p><p>entrevista	 de	 Ted	 Bundy”,	 Aprendiz	 Verde	 [Legendado].	 Disponível	 em</p><p><http://www.youtube.com/watch?v=nVain2j_uK0>.	Acesso	em	24	maio	2013.</p><p>[24].	 Revista	 Veja,	 ed.	 1.559.	 Abril,	 12	 ago.	 1998;	 Veja	 em	 Dia,	 disponível	 em</p><p><www.vejaonline.abril.com.br>.	Acesso	em	24	jun.	2008.</p><p>[25].	 Revista	 IstoÉ	 Independente,	 ed.	 2.150.	 Disponível	 em</p><p><http://www.istoe.com.br/reportagens/121068_A+MARIA+DA+PENHA+ME+TRANSFORMOU+NUM+MONSTRO+>.</p><p>Acesso	em	21	jan.	2011.</p><p>[26].	G1:	O	Portal	 de	Notícias	 da	Globo:	<www.g1.com.br>.	Acesso	 entre	 18	 jun.	 2006	 e	 13	mar.	 2008;</p><p>Jornal	nacional,	Rede	Globo	de	Televisão,	exibido	em	7	jul.	2008.</p><p>[27].	Ver	Anexo	C.</p><p>Folha de rosto</p><p>Créditos</p><p>Dedicatória</p><p>Dedicatória 2</p><p>Prefácio</p><p>Introdução</p><p>Epígrafe</p><p>1 - Razão e sensibilidade - Um sentido chamado consciência</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>3 - Pessoas no mínimo suspeitas</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>Epígrafe</p><p>10 - De onde vem isso tudo?</p><p>Ilustração</p><p>Epígrafe</p><p>11 - O que podemos fazer?</p><p>Epígrafe</p><p>12 - Manual de sobrevivência</p><p>Epígrafe</p><p>13 - Alguma coisa está fora da ordem</p><p>ANEXO A</p><p>ANEXO B</p><p>ANEXO C</p><p>Sites úteis</p><p>Telefones úteis</p><p>Bibliografia</p><p>Contatos da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva</p><p>Notas</p><p>sabia</p><p>nadar,	pediu	uma	carona	para	chegar	à	outra	margem.</p><p>Desconfiado,	o	sapo	respondeu:</p><p>—	Ora,	escorpião,	só	se	eu	fosse	tolo	demais!	Você	é	traiçoeiro,	vai	me	picar,</p><p>soltar	o	seu	veneno,	e	eu	vou	morrer.</p><p>Mesmo	assim	o	escorpião	insistiu,	com	o	argumento	lógico	de	que,	se	picasse</p><p>o	sapo,	ambos	morreriam.	Com	promessas	de	que	poderia	ficar	tranquilo,	o	sapo</p><p>cedeu,	acomodou	o	escorpião	em	suas	costas	e	começou	a	nadar.</p><p>Ao	final	da	travessia,	o	escorpião	cravou	o	seu	ferrão	mortal	no	sapo	e	saltou</p><p>ileso	em	terra	firme.</p><p>Atingido	 pelo	 veneno	 e	 já	 começando	 a	 afundar,	 o	 sapo,	 desesperado,	 quis</p><p>saber	o	porquê	de	tamanha	crueldade.	E	o	escorpião	respondeu	friamente:</p><p>—	Porque	essa	é	a	minha	natureza!</p><p>Vez	 por	 outra,	 essa	 fábula	 surge	 em	 minha	 mente,	 seja	 no	 cotidiano</p><p>profissional,	 seja	 por	 meio	 do	 acompanhamento	 das	 notícias	 diárias,	 pelos</p><p>jornais	e	pela	TV.	Trata-se	de	uma	história	arquetípica,	que	ilustra	exemplarmente</p><p>a	natureza	das	pessoas	que	serão	analisadas	e	descritas	ao	longo	deste	livro.</p><p>A	ideia	de	escrever	sobre	psicopatas	surgiu	em	razão	do	momento	violento,</p><p>desumano	e	marcado	por	escândalos	que	nos	abate,	mas	também	serve	como	um</p><p>alerta	 aos	 desprevenidos	 quanto	 à	 ação	 destruidora	 desses	 indivíduos.	 Devo</p><p>admitir	minha	ousadia,	mas	não	pude	resistir	às	inúmeras	solicitações	dos	meus</p><p>leitores,	pacientes,	conhecidos	e	amigos.</p><p>Quando	pensamos	em	psicopatia,	logo	nos	vem	à	mente	um	sujeito	com	cara</p><p>de	 mau,	 truculento,	 de	 aparência	 descuidada,	 pinta	 de	 assassino	 e	 desvios</p><p>comportamentais	tão	óbvios	que	poderíamos	reconhecê-lo	sem	pestanejar.	Isso	é</p><p>um	grande	equívoco!</p><p>Para	 os	 desavisados,	 reconhecê-los	 não	 é	 uma	 tarefa	 tão	 fácil	 quanto	 se</p><p>imagina.	Os	psicopatas	 enganam	e	 representam	muitíssimo	bem!	Seus	 talentos</p><p>teatrais	e	seu	poder	de	convencimento	são	tão	impressionantes	que	eles	chegam</p><p>a	usar	as	pessoas	com	a	única	intenção	de	atingir	seus	sórdidos	objetivos.	Tudo</p><p>isso	sem	nenhum	aviso	prévio,	em	grande	estilo,	doa	a	quem	doer.</p><p>Mas	 quem	 são	 essas	 criaturas	 tão	 nocivas?	 São	 pessoas	 loucas	 ou</p><p>perturbadas?	 O	 que	 fazem?	 O	 que	 sentem?	 Como	 e	 onde	 vivem?	 Todos	 são</p><p>assassinos?</p><p>Este	livro	discorre	sobre	pessoas	frias,	insensíveis,	manipuladoras,	perversas,</p><p>transgressoras	 de	 regras	 sociais,	 impiedosas,	 imorais,	 sem	 consciência	 e</p><p>desprovidas	de	sentimento	de	compaixão,	culpa	ou	remorso.	Esses	“predadores</p><p>sociais”	 com	 aparência	 humana	 estão	 por	 aí,	 misturados	 conosco,	 incógnitos,</p><p>infiltrados	em	todos	os	setores	sociais.	São	homens,	mulheres,	de	qualquer	etnia,</p><p>credo	ou	nível	 social.	Trabalham,	estudam,	 fazem	carreiras,	 casam,	 têm	 filhos,</p><p>mas,	 definitivamente,	 não	 são	 como	 a	 maioria	 das	 pessoas:	 aquelas	 a	 quem</p><p>chamaríamos	de	“pessoas	do	bem”.</p><p>Em	 casos	 extremos,	 os	 psicopatas	 matam	 a	 sangue-frio,	 com	 requintes	 de</p><p>crueldade,	sem	medo	nem	arrependimento.	Porém	o	que	a	sociedade	desconhece</p><p>é	que	os	psicopatas,	em	sua	grande	maioria,	não	são	assassinos	e	vivem	como	se</p><p>fossem	pessoas	comuns.</p><p>Eles	podem	arruinar	empresas	e	 famílias,	provocar	 intrigas,	destruir	 sonhos,</p><p>mas	não	matam.	E,	exatamente	por	 isso,	permanecem	por	muito	 tempo,	ou	até</p><p>uma	vida	inteira,	sem	ser	descobertos	ou	diagnosticados.	Por	serem	charmosos,</p><p>eloquentes,	 inteligentes,	 envolventes	 e	 sedutores,	 não	 costumam	 levantar	 a</p><p>menor	 suspeita	 de	 quem	 realmente	 são.	 Podemos	 encontrá-los	 disfarçados	 de</p><p>religiosos,	bons	políticos,	bons	amantes,	bons	amigos.	Visam	apenas	o	benefício</p><p>próprio,	 almejam	 o	 poder	 e	 o	 status,	 engordam	 ilicitamente	 suas	 contas</p><p>bancárias,	 são	 mentirosos	 contumazes,	 parasitas,	 chefes	 tiranos,	 pedófilos,</p><p>líderes	natos	da	maldade.</p><p>A	 realidade	 é	 contundente	 e	 cruel;	 entretanto,	 o	 mais	 impactante	 é	 que	 a</p><p>maioria	 esmagadora	 está	 do	 lado	 de	 fora	 das	 grades,	 convivendo	 diariamente</p><p>com	 todos	 nós.	 Eles	 transitam	 tranquilamente	 pelas	 ruas,	 cruzam	 nossos</p><p>caminhos,	 frequentam	 as	 mesmas	 festas,	 dividem	 o	 mesmo	 teto,	 dormem	 na</p><p>mesma	cama...</p><p>Apesar	 de	 mais	 de	 vinte	 anos	 de	 profissão,	 ainda	 fico	 muito	 surpresa	 e</p><p>sensibilizada	 com	 a	 quantidade	 de	 pacientes	 que	 me	 procuram	 com	 sua	 vida</p><p>arruinada,	 totalmente	 em	 frangalhos,	 alvejada	 por	 esses	 “seres	 bípedes”	 que</p><p>sugam	o	nosso	sangue	e	vampirizam	a	nossa	alma.</p><p>É	 importante	 ressaltar	 que	 os	 psicopatas	 possuem	 níveis	 variados	 de</p><p>gravidade:	leve,	moderado	e	grave.	Os	primeiros	se	dedicam	a	trapacear,	aplicar</p><p>golpes	e	pequenos	roubos,	mas	provavelmente	não	“sujarão	as	mãos	de	sangue”</p><p>nem	 matarão	 suas	 vítimas.	 Já	 os	 últimos	 botam	 verdadeiramente	 a	 “mão	 na</p><p>massa”,	com	métodos	cruéis	sofisticados,	e	sentem	um	enorme	prazer	com	seus</p><p>atos	 brutais.	Mas	 não	 se	 iluda!	Qualquer	 que	 seja	 o	 grau	 de	 gravidade,	 todos,</p><p>invariavelmente,	deixam	marcas	de	destruição	por	onde	passam,	sem	piedade.</p><p>Além	 de	 psicopatas,	 eles	 também	 recebem	 as	 denominações	 de	 sociopatas,</p><p>personalidades	 antissociais,	 personalidades	 psicopáticas,	 personalidades</p><p>dissociais,	 personalidades	 amorais,	 entre	 outras.	 Embora	 alguns	 estudiosos</p><p>prefiram	 diferenciá-los,	 no	 meu	 entendimento,	 esses	 termos	 se	 equivalem	 e</p><p>descrevem	 o	 mesmo	 perfil.	 No	 entanto,	 por	 uma	 questão	 de	 foro	 íntimo,	 e</p><p>visando	facilitar	a	compreensão,	o	termo	psicopata	será	o	utilizado	neste	livro.</p><p>A	 parte	 racional	 ou	 cognitiva	 dos	 psicopatas	 é	 perfeita	 e	 íntegra,	 por	 isso</p><p>sabem	perfeitamente	o	que	estão	 fazendo.	Quanto	aos	 sentimentos,	porém,	 são</p><p>absolutamente	 deficitários,	 pobres,	 ausentes	 de	 afeto	 e	 de	 profundidade</p><p>emocional.	Assim,	concordo	plenamente	quando	alguns	autores	dizem,	de	forma</p><p>metafórica,	 que	 os	 psicopatas	 entendem	 a	 letra	 de	 uma	 canção,	 mas	 são</p><p>incapazes	de	compreender	a	melodia.</p><p>Com	base	nessa	premissa,	optei	por	não	 inserir	 trechos	de	 letras	de	canções</p><p>brasileiras	 na	 abertura	 dos	 capítulos,	 recurso	 narrativo	 que	 costumo	 adotar	 em</p><p>minhas	 obras.	 Música	 é	 emoção,	 sentida	 com	 a	 alma.	 Entendo	 que	 repetir	 a</p><p>mesma	 fórmula	 ao	 descrever	 o	 comportamento	 de	 criaturas	 desprovidas	 de</p><p>afetividade	seria,	no	mínimo,	um	contrassenso.</p><p>Aqui	não	me	proponho,	 sob	nenhuma	hipótese,	 a	oferecer	 ajuda	 terapêutica</p><p>aos	 indivíduos	 com	 esse	 perfil.	 Ao	 contrário,	 o	 meu	 objetivo	 é	 informar	 o</p><p>público	 em	geral,	 para	 que	 fique	 de	 olhos	 e	 ouvidos	 bem	 abertos,	 despertos	 e</p><p>prevenidos.	Suas	vítimas	prediletas	são	as	pessoas	mais	sensíveis,	mais	puras	de</p><p>alma	e	de	coração...</p><p>Também	tenho	como	propósito	expor	parâmetros	para	que	possamos	avaliar</p><p>em	 que	 escala	 cada	 um	 de	 nós	 está	 contribuindo	 para	 promover	 uma	 cultura</p><p>social	na	qual	a	psicopatia	encontra	um	terreno	fértil	para	prosperar.</p><p>Esta	 obra	 contém	 histórias	 reais	 que	 me	 foram	 relatadas	 por	 vítimas	 de</p><p>psicopatas,	direta	ou	indiretamente,	e	casos	tratados	com	destaque	na	imprensa.</p><p>Não	 estou	 afirmando	 que	 os	 exemplos	 aqui	 citados	 representam	 autênticos</p><p>psicopatas,	 e	 sim	que	 ilustram	de	 forma	bastante	didática	comportamentos	que</p><p>um	psicopata	 típico	 teria.	Além	disso,	 todos	 os	 casos	 apresentados	 se	 prestam</p><p>muito	 bem	 à	 exemplificação	 dos	mais	 diversos	 níveis	 de	 psicopatia,	 desde	 os</p><p>mais	leves	até	os	moderados	e	graves.</p><p>Dessa	forma,	tentei	esquadrinhar	e	tornar	o	tema	o	mais	abrangente	possível,</p><p>a	fim	de	responder	a	uma	série	de	perguntas	que,	na	maioria	das	vezes,	nos	deixa</p><p>absolutamente	 confusos.	 Assim,	 espero	 contribuir	 para	 que	 as	 pessoas	 se</p><p>previnam	 contra	 as	 ameaças	 que	 nos	 rondam	 de	 forma	 silenciosa.	 Estou</p><p>convencida	 de	 que	 falhas	 em	 nossas	 organizações	 familiares,	 educacionais	 e</p><p>sociais	 são	dados	 importantes	e	merecem	estudos	aprofundados	e	 toda	a	nossa</p><p>atenção,	 mas	 esses	 fatores	 por	 si	 sós	 não	 são	 suficientes	 para	 explicar	 o</p><p>fenômeno	da	psicopatia.</p><p>A	natureza	dos	psicopatas	é	devastadora,	assustadora,	e,	aos	poucos,	a	ciência</p><p>começa	a	se	aprofundar	e	a	compreender	aquilo	que	contradiz	a	própria	natureza</p><p>humana.</p><p>O	conteúdo	aqui	exposto	é	denso	e	intrigante.	As	páginas	percorrem	a	mente</p><p>sombria	de	criaturas	cuja	vida	parece	não	ter	se	desenvolvido	totalmente.	Saber</p><p>identificá-las	pode	ser	um	antídoto	(talvez	o	único)	contra	seu	veneno	paralisante</p><p>e	mortal.	 Infelizmente,	 a	desinformação	nos	 torna	vulneráveis,	 indefesos	como</p><p>sapos	tolos	fisgados	pelas	habilidades	camaleônicas	dos	escorpiões.</p><p>Prepare-se,	porque	certamente	você	conhece,	 já	ouviu	 falar	ou	convive	com</p><p>um	deles.</p><p>Ana	Beatriz	Barbosa	Silva</p><p>Qualquer	história	sobre	consciência	é	relativa	à	conectividade	que	existe	entre</p><p>todas	as	coisas	do	universo.	Por	isso,	mesmo	de	forma	inconsciente,	alegramo-</p><p>nos	diante	da	natureza	gentil	dos	atos	de	amor.</p><p>1</p><p>RAZÃO	E	SENSIBILIDADE</p><p>Um	sentido	chamado	consciência</p><p>Lembro	como	se	fosse	hoje.	Fecho	os	olhos	e	lá	estamos,	eu	e	meus	colegas,</p><p>no	anfiteatro	principal	do	Hospital	Pedro	Ernesto,	no	Rio	de	Janeiro.	Aquilo	que</p><p>a	princípio	deveria	ser	mais	uma	das	palestras	do	nosso	vasto	currículo	do	curso</p><p>de	medicina	foi	fundamental	na	minha	vida	profissional.</p><p>Era	 sexta-feira,	 nove	 horas	 da	 manhã,	 e	 eu	 me	 encontrava	 sonolenta	 e</p><p>exausta,	 em	 função	do	plantão	que	havia	 feito	na	noite	 anterior.	Confesso	que</p><p>por	 uns	 dez	 a	 quinze	 minutos	 quase	 rezei	 para	 que	 o	 palestrante	 faltasse	 ao</p><p>compromisso.	Dessa	forma,	poderia	ir	para	casa,	tomar	um	belo	banho	e	dormir</p><p>o	sono	dos	justos	sem	nenhuma	pontinha	de	culpa.</p><p>Por	 volta	 das	 9h15,	 um	 homem	 franzino	 e	 muito	 branco,	 que	 trajava	 uma</p><p>calça	 jeans	 e	 um	 discreto	 blusão	 azul,	 adentrou	 o	 auditório	 repleto	 de	 alunos,</p><p>subiu	no	tablado	e	desenhou	na	lousa	o	seguinte	gráfico:</p><p>Em	 tom	 provocador	 e	 entusiasmado,	 ele	 entonou	 em	 voz	 firme	 e	 forte	 a</p><p>seguinte	questão:	“O	que	é	consciência?”.</p><p>Ainda	 sob	 o	 impacto	 daquela	 estranha	 presença,	 que	 nem	 sequer	 havia	 se</p><p>apresentado,	 a	 turma	 entreolhava-se	 de	 forma	 discreta,	 na	 expectativa	 de	 que</p><p>alguém	quebrasse	o	silêncio	constrangedor	que	inundava	o	anfiteatro.</p><p>Por	 mais	 estranho	 que	 possa	 parecer,	 aquele	 silêncio	 me	 despertou,	 ou</p><p>melhor,	 toda	 aquela	 situação	me	 intrigou	 de	 alguma	 forma.	 Sentime	 desafiada</p><p>pelo	questionamento	que	aquele	homem	havia	jogado	no	ar!</p><p>Rapidamente,	 ajeitei-me	 na	 cadeira,	 esfreguei	 os	 olhos	 e	 impulsivamente</p><p>disparei:	“Bom	dia,	mestre.	Sou	estudante	do	terceiro	ano	desta	faculdade	(UERJ)</p><p>e	gostaria	de	saber	o	seu	nome,	a	sua	especialidade	e	uma	pequena	explicação</p><p>sobre	o	gráfico	na	lousa”.</p><p>Por	uma	fração	de	segundo,	percebi	que	tinha	sido	ligeiramente	indelicada	e</p><p>também	 desafiadora.	 Quando	 deparei	 com	 o	 professor	 à	 minha	 frente,	 pude</p><p>observar	 certo	 bom	 humor	 em	 sua	 fisionomia,	 o	 que	 foi	 confirmado	 por	 suas</p><p>palavras:	“Bom	dia	a	todos	os	acadêmicos	aqui	presentes!	Meu	nome	é	Osvaldo</p><p>e	 sou	 médico	 psiquiatra,	 professor	 assistente	 da	 cadeira	 de	 psiquiatria	 desta</p><p>faculdade”.</p><p>Sem	pestanejar,	 o	 professor	Osvaldo,	 dirigindo-se	 a	mim,	 fez	valer	 a	 lei	 da</p><p>ação	 e	 reação:	 “Vejo	que	você	 está	muito	 interessada	no	 tema	de	hoje.	Então,</p><p>vamos	iniciar	nossa	aula	com	a	sua	descrição	sobre	a	consciência”.</p><p>Naquele	 momento,	 percebi	 que	 o	 ditado	 “Quem	 está	 na	 chuva	 é	 pra	 se</p><p>molhar”	 era	 inteiramente	 verdadeiro	 e,	 sem	 possibilidades	 de	 fuga,	 falei:</p><p>“Professor,	 quando	 ouço	 a	 palavra	 consciência,	 dois	 sentimentos	 me	 vêm	 à</p><p>cabeça:	 um	 de	 ordem	 prática,	 ou	 seja,	 se	 estou	 acordada	 ou	 não;	 e	 outro	 de</p><p>ordem	subjetiva,	que	me	remete	ao	fato	de	eu	ter	consciência	de	quem	sou	e	qual</p><p>o	meu	papel	no	mundo”.</p><p>Com	um	sorriso	de	aprovação	nos	lábios,	o	professor	continuou:	“Em	parte,</p><p>você	já	explicou	o	gráfico	aqui	colocado.	De	certa	forma,	seu	ponto	de	vista	está</p><p>correto.	Mas	vamos	nos	aprofundar	um	pouco	mais	nessas	questões”.</p><p>Apontando	para	o	desenho	na	lousa,	ele	prosseguiu:</p><p>“ESTAR	 consciente	é	 fazer	uso	da	 razão	ou	da	capacidade	de	 raciocinar	e	de</p><p>processar	os	fatos	que	vivenciamos.	ESTAR	consciente	é	ser	capaz	de	pensar	e	ter</p><p>ciência	das	nossas	ações	físicas	e	mentais.	Na	clínica	médica,	podemos	averiguar</p><p>o	 estado	 de	 alerta	 ou	 lucidez	 que	 uma	 pessoa	 apresenta	 em	 determinado</p><p>momento.	Assim,	podemos	perceber,	num	exame	clínico,	o	estado	ou	nível	de</p><p>consciência,	 que	 podemos	 identificar	 como:	 lúcido,	 vígil,	 hipovígil,	 hipervígil,</p><p>confuso,	em	coma	profundo	etc.	Todos	os	termos	atestam	o	nível	de	percepção</p><p>que	temos	em	relação	ao	mundo.</p><p>“Alguém	que	utilize	certas	doses	de	álcool,	por	exemplo,	pode	apresentar	o</p><p>seu	nível	de	consciência	reduzido	(hipovígil)	ou	até	mesmo	atingir	o	estado	de</p><p>coma.	De	 forma	 inversa,	 as	 anfetaminas	 (estimulantes)	—	muito	utilizadas	 em</p><p>dietas	de	emagrecimento	—	costumam	fazer	o	cérebro	trabalhar	mais	depressa,</p><p>deixando	 as	 pessoas	 mais	 ‘acesas’,	 ‘elétricas’,	 com	 a	 fala	 rápida,	 e	 podem</p><p>provocar	 insônia	 e	 muita	 irritabilidade.	 Esse	 estado	 é	 conhecido	 como</p><p>hipervigilância.”</p><p>Finalmente	alguém	falava	de	forma	clara	como	deveríamos	iniciar	um	exame</p><p>clínico	dos	nossos	futuros	pacientes.	Entusiasmados	e	atentos	às	explicações	do</p><p>professor,	 fizemos	 inúmeras	 perguntas	 sobre	 acidentes	 automobilísticos,</p><p>traumatismos	cranianos,	substâncias	tóxicas	e	tantas	outras	situações	que	podem</p><p>alterar	nossos	níveis	de	consciência.</p><p>A	segunda	parte	da	aula	não	se	tratava	mais	de	identificar	o	estado	ou	nível	de</p><p>consciência	de	alguém,	mas	sim	de	algo	muito	mais	complexo.	Agora	a	questão</p><p>era	“SER	ou	não	SER”.</p><p>“Ser	consciente	não	é	um	estado	momentâneo	em	nossa	existência,	como	dito</p><p>anteriormente.	 Ser	 consciente	 refere-se	 à	 nossa	 maneira	 de	 existir	 no	 mundo.</p><p>Está	 relacionado	 à	 forma	 como	 conduzimos	 nossa	 vida	 e,	 especialmente,	 às</p><p>ligações	emocionais	que	estabelecemos	com	as	pessoas	e	as	coisas	em	nosso	dia</p><p>a	dia.	Ser	dotado	de	consciência	é	ser	capaz	de	amar!”,	concluiu	o	professor.</p><p>Ao	soar	o	sinal,	a	maioria	da	turma	se	levantou,	esvaziando	o	anfiteatro.	Por</p><p>alguns	minutos,	fiquei	ali,	pensativa,	como	se	algo	tivesse	me	atingido	de	forma</p><p>estranha	e	paralisante.	Vi	o	professor	Osvaldo	saindo;	de	longe,	ele	fez	um	gesto</p><p>discreto	 de	 despedida	 ao	 qual,	 sem	querer,	 não	 consegui	 responder.	Na	minha</p><p>mente,	 duas	 palavras	 ecoavam	 estridentes:	 consciência	 e	 amor!	 Eu	 não	 sabia</p><p>explicar	o	porquê,	mas,	naquele	momento,	fui	tomada	por	duas	inquestionáveis</p><p>certezas:	 eu	 estava	 lúcida	 (vígil)	 e	 experimentava	 uma	 emoção	maravilhosa	 e</p><p>transcendente	de	ser	uma	pessoa	consciente.</p><p>De	lá	para	cá,	muitos	anos	se	passaram,	mas	aquela	aula	—	em	especial,	a	sua</p><p>parte	 final	 —	 foi	 decisiva	 na	 minha	 vida.	 A	 partir	 daquele	 dia,	 exercer	 a</p><p>psiquiatria	 passou	 a	 ser	 parte	 inseparável	 da	 minha	 existência.	 Eu	 tinha	 a</p><p>consciência	de	que	 a	minha	profissão	 seria	um	canal	 por	onde	 emoções	muito</p><p>boas	transitariam	por	toda	a	vida.</p><p>Ser	consciente	é	ser	capaz	de	amar</p><p>Como	 visto	 na	 aula	 do	 professor	Osvaldo,	 o	 termo	 consciência	 é	 ambíguo,</p><p>sugerindo	 dois	 significados	 totalmente	 distintos.	 E	 por	 isso	 mesmo	 é</p><p>compreensível	 que,	 a	 esta	 altura,	 o	 leitor	 esteja	 confuso.	 Na	 realidade,	 a</p><p>consciência	 é	 um	 atributo	 que	 transita	 entre	 a	 razão	 e	 a	 sensibilidade.</p><p>Popularmente	falando,	entre	a	cabeça	e	o	coração.</p><p>Falar	sobre	consciência	pode	ser	uma	tarefa	fácil	e	difícil	ao	mesmo	tempo.	O</p><p>fácil	 são	 as	 explicações	 científicas	 sobre	o	desenvolvimento	da	 consciência	no</p><p>cérebro,	que	envolvem	engrenagens	como	atenção,	memória,	circuitos	neuronais</p><p>e	estruturas	cerebrais,	as	quais	só	serviriam	para	confundir	um	pouco	mais.	Nada</p><p>disso	 vem	 ao	 caso	 agora;	 pelo	 menos	 não	 é	 esse	 o	 meu	 propósito.	 Portanto,</p><p>esqueça!	Aqui,	vou	considerar	o	lado	difícil,	subjetivo	e	relativo	ao	sentido	ético</p><p>da	existência	humana:	o	SER	consciente.</p><p>Mostrar	 apreço	 pelas	 condutas	 louváveis,	 ser	 bondoso	 ou	 educado,	 ter	 um</p><p>comportamento	exemplar</p><p>e	cauteloso,	preocupar-se	com	o	que	os	outros	pensam</p><p>a	 nosso	 respeito	 nem	 de	 longe	 pode	 ser	 definido	 como	 consciência	 de	 fato.</p><p>Afinal,	 a	 consciência	não	é	um	comportamento	em	si;	 nem	mesmo	é	 algo	que</p><p>possamos	 fazer	 ou	 em	que	 pensamos.	A	 consciência	 é	 algo	 que	 sentimos.	Ela</p><p>existe,	 antes	 de	 tudo,	 no	 campo	 da	 afeição	 ou	 dos	 afetos.	 Mais	 do	 que	 uma</p><p>função	 comportamental	 ou	 intelectual,	 a	 consciência	 pode	 ser	 definida	 como</p><p>uma	emoção.</p><p>Peço	 licença	 e	 vou	 um	 pouco	 além:	 no	meu	 entender,	 a	 consciência	 é	 um</p><p>senso	de	 responsabilidade	 e	generosidade	baseado	em	vínculos	 emocionais,	 de</p><p>extrema	nobreza,	com	outras	criaturas	 (animais,	 seres	humanos)	ou	até	mesmo</p><p>com	 a	 humanidade	 e	 o	 universo	 como	 um	 todo.	 É	 uma	 espécie	 de	 entidade</p><p>invisível,	 que	 possui	 vida	 própria	 e	 que	 independe	 da	 nossa	 razão.	 É	 a	 voz</p><p>secreta	da	alma,	que	habita	em	nosso	interior	e	que	nos	orienta	para	o	caminho</p><p>do	bem.</p><p>A	 consciência	 nos	 impulsiona	 a	 tomar	 decisões	 totalmente	 irracionais	 e	 até</p><p>mesmo	 com	 implicações	 de	 risco	 à	 vida.	 Ela	 permeia	 as	 nossas	 atitudes</p><p>cotidianas	(como	perder	uma	reunião	de	negócios	porque	seu	filho	está	ardendo</p><p>em	febre)	e	até	as	nossas	ações	de	extrema	bravura	e	de	autossacrifício	 (como</p><p>suportar	 a	 dor	 de	 uma	 tortura	 física	 e	 psicológica	 em	 função	 de	 um	 ideal).</p><p>Assim,	a	consciência	nos	abraça	e	nos	conduz	pela	vida	afora,	porque	está	em</p><p>plena	comunhão	com	o	mais	poderoso	combustível	afetivo:	o	amor.</p><p>De	forma	bem	prosaica,	imagine	a	seguinte	situação:	você	está	no	aconchego</p><p>do	 seu	 apartamento,	 depois	 de	 um	 dia	 exaustivo	 de	 trabalho	 e	 reuniões.</p><p>Momentos	 depois,	 o	 interfone	 toca	 anunciando	 a	 visita	 inesperada	 de	 uma</p><p>grande	 amiga.	 Ela	 está	 grávida	 de	 sete	meses	 e	 chegou	 abarrotada	 de	 sacolas</p><p>com	 as	 últimas	 compras	 do	 enxoval.	 Apesar	 do	 cansaço,	 você	 fica</p><p>verdadeiramente	feliz	com	a	presença	dela.</p><p>Por	alguns	momentos,	vocês	conversam	alegremente	sobre	o	bebê	e	os	planos</p><p>para	o	futuro	e	colocam	as	fofocas	em	dia.	Lá	pelas	 tantas	da	noite,	sua	amiga</p><p>diz	que	precisa	ir	embora.</p><p>Em	frações	de	segundo,	você	pensa:	“Preciso	tomar	um	banho	e	dormir;	será</p><p>que	ela	vai	entender	se	eu	não	a	acompanhar	até	a	portaria	do	prédio?”,	“Mas	ela</p><p>está	grávida	e	tem	tanta	coisa	pra	carregar!”,	“É	melhor	eu	ir	junto:	foi	isso	o	que</p><p>me	ensinaram”.</p><p>Bem,	essa	 tagarelice	mental,	que	azucrina	 tal	qual	um	crime	cometido,	 sem</p><p>dúvida	não	é	imoral.	É	absolutamente	humana,	natural	e	foge	ao	nosso	controle.</p><p>Mas	também	não	é	a	sua	consciência	soprando	em	seu	ouvido.</p><p>Ao	contrário	do	“Vou	ou	não	vou?”,	você	é	 imediatamente	 tomado	por	um</p><p>impulso	generoso	e	se	flagra	no	elevador	com	sua	amiga,	carregando	as	bolsas	e</p><p>as	sacolas.	Chama	um	táxi,	abre	a	porta	do	carro,	diz	ao	motorista	para	 ir	com</p><p>cuidado	e	se	despedem	felizes.</p><p>Hum!	 A	 consciência	 é	 assim	 mesmo:	 chega	 sem	 avisar	 e	 não	 complica:</p><p>apenas	faz!</p><p>Uma	história	mais	comovente:</p><p>São	Paulo,	domingo,	novembro	de	2007.	Cerca	de	 três	minutos	após	 ter	decolado	do	aeroporto</p><p>Campo	de	Marte,	um	Learjet	35	caiu	de	bico	sobre	uma	residência,	onde	moravam	catorze	pessoas	de</p><p>uma	mesma	família.	No	acidente	morreram	o	piloto,	o	copiloto	e	seis	pessoas	que	estavam	na	casa.</p><p>Os	vizinhos	Airton,	 de	dezesseis	 anos,	 e	 seu	pai,	 o	 sr.	Ângelo,	 de	75,	 correram	para	o	 sobrado	da</p><p>família	Fernandes	assim	que	ouviram	o	barulho	da	queda	do	avião.	Pai	e	 filho	conseguiram	salvar</p><p>Cláudia	Fernandes,	de	dezesseis	anos.	Eles	ouviram	o	choro	da	garota,	que	tem	autismo	e	brincava</p><p>com	sua	amiga	Laís	na	hora	do	acidente.	Airton,	emocionado,	descalço	e	com	a	blusa	suja	de	sangue</p><p>e	cinzas,	 lamentava	 ter	conseguido	salvar	apenas	uma	única	vida.	O	sr.	Ângelo	queimou	a	mão	ao</p><p>salvar	 Cláudia	 e,	 após	 ser	 atendido	 por	 médicos	 no	 local,	 permaneceu	 na	 rua	 tentando	 furar	 o</p><p>bloqueio	policial	para	voltar	aos	escombros.</p><p>Sem	 nenhuma	 sombra	 de	 dúvida,	 podemos	 afirmar	 que	 Airton	 e	 Ângelo</p><p>possuem	 consciência.	 E,	 naquela	 tarde	 de	 domingo,	 eles	 não	 pensaram;</p><p>simplesmente	agiram:	isso	é	pura	consciência	em	exercício.</p><p>Todas	as	pessoas	portadoras	de	consciência	se	emocionam	ao	testemunhar	ou</p><p>tomar	conhecimento	de	um	ato	altruísta,	seja	ele	simples	ou	grandioso.	Qualquer</p><p>história	 sobre	 consciência	 é	 relativa	 à	 conectividade	 que	 existe	 entre	 todas	 as</p><p>coisas	 do	 universo.	 Por	 isso,	 mesmo	 de	 forma	 inconsciente	 (sem	 nos	 darmos</p><p>conta),	alegramo-nos	diante	da	natureza	gentil	dos	atos	de	amor.</p><p>A	consciência	genuína</p><p>No	decorrer	da	nossa	história,	muitos	estudos	e	teorias	se	formaram	em	torno</p><p>da	consciência	e	das	inevitáveis	polêmicas	sobre	o	bem	e	o	mal.	Com	o	passar</p><p>dos	séculos,	a	consciência	foi	—	e	ainda	é	—	alvo	de	discussões	entre	teólogos,</p><p>filósofos,	sociólogos	e,	mais	recentemente,	desafia	e	intriga	cientistas	e	juristas.</p><p>De	fato,	conceituar	ou	definir	consciência	é	algo	extremamente	complexo	que</p><p>pode	 gerar	 controvérsias	 por	 anos	 a	 fio.	 Isso	 porque	 ela	 está	 acima	 de	 teorias</p><p>religiosas	ou	mesmo	psicológicas	e	científicas.</p><p>A	 meu	 ver,	 ter	 consciência	 ou	 ser	 consciente	 trata-se	 de	 possuir	 o	 mais</p><p>sofisticado	 e	 evoluído	 de	 todos	 os	 sentidos	 da	 vida	 humana:	 o	 sexto	 sentido.</p><p>Atrevo-me	 a	 afirmar	 que	 tal	 sentido	 foi	 o	 último	 a	 se	 desenvolver	 na	 história</p><p>evolutiva	 da	 espécie	 humana.	 Nossa	 humanidade,	 benevolência	 e</p><p>condescendência	 devem	 ser	 atribuídas	 a	 esse	 nobre	 sentido.	 A	 consciência	 é</p><p>criadora	 do	 significado	 de	 nossa	 existência	 e,	 de	 forma	 subjetiva,	 também	 é</p><p>criadora	do	significado	da	vida	de	cada	um	de	nós.	Ela	influencia	e	determina	o</p><p>papel	que	cada	um	terá	na	sociedade	e	no	universo.</p><p>Como	 eu	 disse,	 a	 consciência	 é	 tão	 espetacular	 que	 só	 podemos	 senti-la,	 e</p><p>talvez	esteja	aí	 toda	a	 sua	grandeza.	Se	existe	alguma	coisa	de	divino	em	nós,</p><p>entendo	que	a	nossa	consciência	seja	essa	expressão	e,	quem	sabe,	uma	fração</p><p>incalculável	do	tão	falado	e	pouco	praticado	amor	universal	ou	incondicional.	Na</p><p>verdade,	 esse	 sexto	 sentido	 é	 essencialmente	 baseado	 na	 compaixão	 e	 na</p><p>verdadeira	prática	do	amor.</p><p>Uma	 vez	 que	 a	 consciência	 está	 profundamente	 alicerçada	 em	 nossa</p><p>habilidade	de	amar,	em	criar	vínculos	afetivos	e	nos	abastecer	dos	mais	nobres</p><p>sentimentos,	ela	nos	faz	subjetivamente	únicos,	porém	integrados	e	sincrônicos</p><p>com	 o	 TODO	 maior	 e	 transcendente	 (tenha	 ele	 o	 nome	 que	 tiver,	 nos	 diversos</p><p>povos	ao	redor	do	mundo).</p><p>A	consciência	genuína	nos	impulsiona	a	ir	ao	encontro	do	outro,	colocando-</p><p>nos	 em	 seu	 lugar	 e	 entendendo	 a	 sua	dor.	Somos	 tomados	por	gestos	 simples,</p><p>como	desejar	bom	dia	àqueles	que	não	conhecemos	ou	ligar	para	um	amigo	só</p><p>para	dizer:	“Olá,	como	vai?	Estou	aqui	para	o	que	der	e	vier!”.</p><p>Inundados	de	consciência,	pedimos	desculpas	sinceras	àqueles	que	magoamos</p><p>ou	 ferimos	 num	 momento	 de	 equívoco.	 Agradecemos	 aos	 nossos	 pais	 pela</p><p>oportunidade	 da	 vida	 e	 pelos	 ensinamentos	 de	 retidão.	 Vibramos	 e	 nos</p><p>emocionamos	com	a	superação	de	um	atleta,	que	derrama	lágrimas	ao	subir	no</p><p>degrau	mais	alto	do	pódio.</p><p>Esse	sexto	sentido	é	que	nos	comove	com	as	situações	trágicas	e	também	com</p><p>a	 felicidade	 do	 encontro	 de	 irmãos	 separados	 desde	 a	 infância.	 Ele	 nos	 traz</p><p>indignação	 diante	 do	 preconceito,	 do	 desrespeito	 às	 regras	 sociais,	 da</p><p>intolerância	ao	próximo,	da	falta	de	educação,	da	corrupção	e	da	impunidade.</p><p>A	 consciência	 nos	 inspira	 a	 zelar	 pelo	 nosso	 animal	 de	 estimação	 e	 a	 nos</p><p>desesperarmos	 pelo	 desaparecimento	 dele.	 Inspira-nos	 a	 chorar	 copiosamente</p><p>com	o	nascimento	de	um	filho	e	a	acompanhá-lo	rumo	à	descoberta	do	mundo	ao</p><p>seu	 redor.	 Permite-nos	 sentir	 a	 profundidade	 de	 uma	 bela	melodia,	 apreciar	 a</p><p>exuberância	de	uma	flor	e	exclamar:	“Nossa,	que	linda!”.</p><p>A	consciência	gera	movimentos	de	extrema	grandeza	pela	paz	e	leva	milhares</p><p>de	 pessoas	 às	 ruas	 para	 protestar	 contra	 a	 violência;	 impulsiona</p><p>o	 sacrifício</p><p>voluntário	 e	 incondicional	 de	 pessoas	 que	 lutam	 em	 prol	 da	 humanidade.	 Ela</p><p>alegra	nosso	coração	com	os	primeiros	raios	de	sol,	anunciando	que	o	dia	será</p><p>mais	colorido,	e	 também	com	a	chuva	que	faz	brotar	a	plantação,	garantindo	o</p><p>nosso	pão	de	cada	dia.</p><p>É	a	consciência	que	nos	impele	a	doar	órgãos	em	momentos	de	extrema	dor	e</p><p>a	torcer	por	um	final	feliz.	Impulsiona	indivíduos	a	salvar	muitas	vidas,	mesmo</p><p>sabendo	 que	 pode	 ser	 o	 seu	 próprio	 fim.	 Leva-nos	 às	 preces,	 às	 orações	 e	 às</p><p>correntes	do	bem,	na	esperança	de	dias	melhores.	Movimenta-nos	contra	a	seca,</p><p>a	fome,	o	desmatamento	das	florestas	e	a	destruição	da	camada	de	ozônio,	que</p><p>colocam	em	risco	o	rumo	do	planeta	e	o	futuro	das	novas	gerações.</p><p>Enfim,	 nos	 pequenos	 ou	 nos	 grandes	 gestos,	 a	 consciência	 genuína	—	 e</p><p>somente	ela	—	é	capaz	de	mudar	o	mundo	para	melhor.</p><p>Como	animais	predadores,	vampiros	ou	parasitas	humanos,	esses	indivíduos</p><p>sempre	sugam	suas	presas	até	o	limite	improvável	de	uso	e	abuso.	Na</p><p>matemática	desprezível	dos	psicopatas,	só	existe	o	acréscimo	unilateral	e</p><p>predatório,	e	somente	eles	são	os	beneficiados.</p><p>A	piedade	e	a	generosidade	das	pessoas	boas	podem	se	transformar	em	uma</p><p>folha	de	papel	em	branco	assinada	nas	mãos	de	um	psicopata.	Quando	sentimos</p><p>pena,	estamos	vulneráveis	emocionalmente,	e	é	essa	a	maior	arma	que	eles</p><p>podem	usar	contra	nós.</p><p>3</p><p>PESSOAS	NO	MÍNIMO</p><p>SUSPEITAS</p><p>Acredito	que	 todo	mundo	conheça	uma	pessoa	meio	 imprestável,	 encostada</p><p>no	 outro	 e	 vivendo	 folgadamente	 à	 custa	 dele.	 Vamos	 lá,	 faça	 um	 esforço	 e</p><p>vasculhe	 os	 “arquivos”	 salvos	 em	 suas	 pastinhas	 mentais;	 certamente	 você</p><p>encontrará	 um	 amigo	 ou	 uma	 amiga,	 um	 cunhado,	 um	 parente	 distante,	 um</p><p>conhecido,	ou,	em	última	instância,	lembrará	uma	história	que	lhe	contaram.</p><p>Essas	pessoas	estão	 sempre	com	desculpas	esfarrapadas	na	ponta	da	 língua,</p><p>justificando	que	os	tempos	estão	“bicudos”	e	que	arrumar	emprego	não	está	nada</p><p>fácil.	 Também	 existe	 aquela	 velha	 história	 de	 que	 a	 saúde	 não	 anda	 lá	 essas</p><p>coisas,	dói	aqui,	dói	acolá,	e	enfrentar	o	batente	não	vai	dar.	Pois	é:	então	analise</p><p>comigo	 esse	 comportamento	 aparentemente	 inofensivo	 e	 que	 pode	 ser</p><p>encontrado	ao	nosso	redor.</p><p>Maria	se	formou	em	odontologia	antes	de	completar	22	anos	e	deu	seu	grito</p><p>de	independência.	Arrumou	seu	primeiro	emprego	dentro	da	área	que	escolheu	e</p><p>alugou	um	pequeno	apartamento	no	Rio	de	Janeiro.	Pouco	tempo	depois,	Carla,</p><p>uma	conhecida	do	interior	de	Santa	Catarina	e	dois	anos	mais	jovem,	entrou	em</p><p>contato.	Papo	vem,	papo	vai,	Carla	perguntou	se	poderia	passar	uns	 tempos	na</p><p>casa	de	Maria,	já	que	as	chances	de	emprego	e	estudos	eram	bem	maiores.</p><p>Maria	não	viu	nada	de	mais	naquele	pedido.	Ao	contrário,	deu	a	maior	força,</p><p>na	 intenção	de	ajudá-la.	Para	Maria,	dar	apoio	a	uma	amiga	era	absolutamente</p><p>natural,	 e,	de	mais	 a	mais,	 ela	 estava	morando	 sozinha.	O	que	custava	acolher</p><p>alguém	 por	 alguns	 meses	 em	 sua	 casa?	 Carla	 chegou	 de	 mala	 e	 cuia	 e	 se</p><p>acomodou	no	apartamento	pequeno,	mas	bem	equipado.</p><p>Maria	 trabalhava	 o	 dia	 todo	 e	 estudava	 com	 afinco	 para	 dar	 conta	 do	 seu</p><p>curso	de	pós-graduação	que	 iniciara	havia	alguns	meses.	Carla	 ficava	em	casa,</p><p>assistindo	TV,	recebendo	amigos	e	assaltando	a	geladeira.	Se	havia	alguma	coisa</p><p>que	 Carla	 sabia	 fazer	 muito	 bem	 era	 conquistar	 pessoas	 e	 conduzir	 com</p><p>habilidade	uma	conversa	agradável.	Isso	era	um	verdadeiro	dom.	Levava	quem</p><p>quisesse	 no	 bico	 e	 desfrutava	 do	 bom	 e	 do	melhor,	 sem	 pagar	 absolutamente</p><p>nada	por	isso.</p><p>Meses	a	fio	se	passaram	e	nada	de	estudos	ou	emprego	à	vista.	De	 todas	as</p><p>oportunidades	 que	 surgiam,	 Carla	 dizia	 que	 não	 era	 exatamente	 aquilo	 que</p><p>estava	 procurando.	 Comia,	 bebia,	 pendurava-se	 ao	 telefone,	 ia	 à	 praia	 quando</p><p>Deus	mandava	bom	tempo	e	passeava	com	os	amigos.	Vez	por	outra	ligava	para</p><p>seus	pais,	mentia	que	estava	trabalhando	e	pedia	algum	dinheiro	para	ajudar	nas</p><p>despesas.	 Maria	 trabalhava,	 estudava,	 fazia	 as	 compras,	 chegava	 exausta	 e</p><p>olhava	ao	redor:	os	copos	sujos	no	mesmo	lugar,	as	roupas	espalhadas,	os	tocos</p><p>de	cigarros	infestando	o	ambiente,	as	tarefas	por	fazer	e	a	panela	vazia.</p><p>Convenhamos:	por	quanto	tempo	você,	leitor,	aguentaria</p><p>tamanho	abuso?</p><p>O	tempo	passou	e	esse	“chove	não	molha”	se	arrastou	por	quase	um	ano.	À</p><p>beira	de	um	ataque	de	nervos,	Maria	conversou	uma,	duas	e	sei	lá	quantas	vezes</p><p>mais	com	Carla	para	que	ela	procurasse	um	emprego	e	seguisse	o	seu	caminho.</p><p>Carla	 ouvia	 tudo,	 abaixava	 a	 cabeça	 e	 dava	 uma	desculpa	 básica:	 “Pensei	 que</p><p>você	fosse	minha	amiga;	eu	não	tenho	para	onde	ir.	Voltar	para	a	casa	dos	meus</p><p>pais	é	o	mesmo	que	amargar	uma	derrota.	Não	sou	capaz	de	suportar”.</p><p>A	gota	d’água	 foi	 quando	Carla	 embolsou	o	dinheiro	do	 aluguel	que	Maria</p><p>havia	entregado	nas	mãos	dela	para	que	fizesse	o	favor	de	pagá-lo	na	imobiliária.</p><p>E	lá	se	foi	sua	“amiga”,	de	mala	e	cuia,	para	a	casa	de	outra	conhecida,	com	as</p><p>mesmas	desculpas	e	o	mesmo	discurso.	Maria	sentiu	descer	garganta	abaixo	um</p><p>gosto	misto	de	alívio,	tristeza	e	culpa.</p><p>Poderíamos	 dizer	 que	Carla	 é	 uma	psicopata	 leve?	Não,	 por	 enquanto.	 Isso</p><p>seria	precipitado	e	imprudente.	Afinal,	temos	que	ter	em	mente	a	imaturidade	de</p><p>Carla	 e	 que	 esse	 comportamento	 irresponsável	 pode	 ser	 fruto	 de	 sua	 própria</p><p>cultura.	Em	suma:	uma	malandragem	“inocente”	de	uma	pré-adulta	perdida,	que</p><p>ainda	coloca	a	mochila	nas	costas	e	acampa	na	casa	de	quem	lhe	oferece	abrigo.</p><p>Chorando	suas	pitangas</p><p>Mais	de	quinze	anos	se	passaram	e,	mesmo	com	esses	tropeços	iniciais,	Maria</p><p>e	Carla	eventualmente	se	encontravam.	Nesse	longo	período,	Maria	se	casou,	sua</p><p>profissão	deslanchou	e	ela	manteve	uma	vida	estável.	Carla,	por	sua	vez,	viveu</p><p>por	muito	 tempo	pulando	de	galho	em	galho	(em	casa	de	amigos,	namorados),</p><p>esfolando	um	e	outro.	Reclamava	de	tudo	e	de	todos,	jogava	uma	pessoa	contra	a</p><p>outra	e	não	parava	nos	empregos.	Ela	sempre	tinha	razão,	a	culpa	era	do	outro	e</p><p>o	mundo	é	que	estava	errado!	Mas,	paradoxalmente,	ela	era	envolvente	e,	com</p><p>isso,	sabia	explorar	muito	bem	os	bons	sentimentos	que	despertava	nas	pessoas.</p><p>Há	alguns	anos,	Carla	mora	sozinha	no	seu	próprio	apartamento,	que,	diga-se</p><p>de	 passagem,	 foi	 comprado	 com	 o	 sacrifício	 de	 seus	 pais.	 Maria	 às	 vezes</p><p>questionava	o	 comportamento	da	 amiga,	mas,	no	meio	de	 tantos	 afazeres,	 isso</p><p>tudo	 se	 diluía;	 apenas	 seu	 coração	 amolecia	 cada	 vez	 que	 Carla	 chorava	 suas</p><p>pitangas.	Carla,	 como	quem	não	 queria	 nada,	 chegava	 de	mansinho,	 pedia	 um</p><p>dinheiro	emprestado,	usava	o	computador	por	longas	horas,	usufruía	do	telefone,</p><p>pegava	emprestados	livros	e	CDs,	aproveitava	a	boquinha-livre,	alugava	o	ouvido</p><p>de	Maria...</p><p>Certa	noite,	elas	comemoravam	o	aniversário	de	um	amigo	em	comum	num</p><p>agradável	restaurante.	Estavam	todos	por	lá:	familiares	e	conhecidos	que	a	vida</p><p>lhes	 trouxe	 na	 bagagem.	Carla	 acendeu	 um	 cigarro	 e	 baforou	 lentamente	 uma</p><p>bola	de	nuvem	branco-azulada	sobre	a	mesa.	Maria	discretamente	falou	ao	pé	do</p><p>ouvido	dela:	“Vamos	até	a	varanda;	ao	seu	lado	tem	uma	amiga	grávida	de	cinco</p><p>meses”.	 Carla	 deu	 de	 ombros,	 olhou	 bem	 nos	 olhos	 de	 Maria	 e	 sussurrou:</p><p>“Dane-se,	aqui	é	uma	área	reservada	para	fumantes.	Esse	filho	não	está	na	minha</p><p>barriga	e,	se	ela	o	perder,	será	um	pirralho	a	menos	no	mundo”.</p><p>Maria	 estremeceu.	A	 força	 fria	 e	 penetrante	 do	olhar	 de	Carla	 fez	 com	que</p><p>todas	as	lembranças	invadissem	a	sua	mente:	lembrou-se	do	dinheiro	do	aluguel,</p><p>das	vezes	que	precisou	da	ajuda	da	amiga	e	ela	nunca	esteve	presente,	da	falta	de</p><p>carinho	 com	 as	 datas	 importantes	 de	 sua	 vida,	 da	 ausência	 de	 Carla	 quando</p><p>permaneceu	vários	dias	hospitalizada,	 de	 tudo	o	que	 emprestou	 a	 ela	 e	de	que</p><p>nunca	mais	viu	 a	 cor,	 das	mentiras	 e	da	 falta	 de	 respeito	da	 amiga	pelos	pais.</p><p>Lembrou-se	 também	 do	 dia	 em	 que	 um	 menino	 caiu	 na	 frente	 de	 Carla	 e,</p><p>enquanto	ele	chorava,	ela	ria	e	dizia:	“Bem	feito!	Tomara	que	tenha	quebrado	o</p><p>braço”.</p><p>A	 partir	 de	 então,	 Maria	 refletiu:	 “Caramba,	 estou	 alimentando	 um</p><p>monstrengo!”.	Ela	se	levantou	e	não	olhou	mais	para	trás.	Foi	a	última	vez	que</p><p>Maria	viu	Carla...</p><p>Se	analisarmos	bem,	Carla	 jamais	 teve	consideração	e	afeto	verdadeiros	por</p><p>Maria	 nem	 por	 qualquer	 outra	 pessoa	 que	 tenha	 lhe	 estendido	 as	 mãos.	 Ela</p><p>mentiu,	enganou,	roubou	e	viveu	na	“aba	do	chapéu”	de	todos.	Recebeu	muito,</p><p>mas	 nunca	 deu	 nada	 em	 troca.	 Quanto	 a	 seus	 pais,	 está	 fazendo	 as	 contas	 e</p><p>esperando	que	morram	para	herdar	o	pouco	que	lhes	resta.	Agora	tudo	está	mais</p><p>claro:	 aquela	 pessoa	 que,	 por	 muito	 tempo,	 parecia	 ser	 frágil,	 injustiçada	 e</p><p>levemente	desonesta,	na	realidade,	não	tem	consciência.</p><p>Como	saber	em	quem	confiar?</p><p>No	exercício	da	minha	profissão,	a	pergunta	anterior	é	uma	das	mais	ouvidas</p><p>em	 meu	 consultório.	 Isso	 é	 natural,	 pois	 muitas	 pessoas	 que	 buscam	 ajuda</p><p>psiquiátrica	ou	mesmo	psicológica	já	foram	vítimas	de	traumas	provocados	por</p><p>ações	 inescrupulosas	 de	 psicopatas	 nos	 diversos	 setores	 de	 sua	 vida.	 E,</p><p>surpreendentemente,	essa	questão	não	é	a	mais	importante	para	tais	pessoas,	as</p><p>quais,	de	alguma	forma,	tiveram	a	vida	arrasada	por	outros	seres	humanos.	Em</p><p>geral,	 elas	 tentam	 entender	 desesperadamente	 onde	 erraram,	 na	 tentativa	 de</p><p>justificar	 os	 atos	 pouco	 éticos	 de	 seus	 parceiros,	 sejam	 eles	 cônjuges,	 sócios,</p><p>amigos,	chefes,	colegas	de	trabalho,	funcionários	etc.</p><p>No	meu	ponto	de	vista,	a	questão	sobre	em	quem	confiar	deveria	ser	de	suma</p><p>importância	para	a	maioria	de	nós,	incluindo	aqueles	que	não	tiveram	perdas	ou</p><p>traumas	muito	sérios.	É	preciso	ter	em	mente	que	as	pessoas	não	merecedoras	de</p><p>nossa	confiança	não	usam	roupas	especiais,	não	possuem	um	sinal	na	testa	que</p><p>as	 identifique,	 tampouco	 apresentam	 algum	 perfil	 físico	 específico.	 Elas	 são</p><p>muito	parecidas	conosco	e	podem	nos	enganar	durante	uma	longa	existência.</p><p>Outro	 detalhe	 que	 dificulta	 muito	 essa	 análise	 interna	 é	 o	 fato	 de	 nos</p><p>basearmos,	muitas	vezes,	em	estratégias	irracionais	originadas	da	nossa	própria</p><p>cultura	e	que	acabam	por	criar	crendices	ou	ditos	populares	com	elevado	grau	de</p><p>senso	comum:	“Os	homens	são	todos	iguais;	não	dá	pra	confiar”,	“As	mulheres</p><p>são	sempre	 interesseiras”,	“Todo	mundo	é	bom,	até	que	 se	prove	o	contrário”,</p><p>“Todo	mundo	merece	uma	segunda	chance”	etc.</p><p>No	 íntimo,	 todos	 nós	 buscamos	 acreditar	 em	 fórmulas	 mágicas	 ou	 regras</p><p>claras	 que	 não	 deixem	 dúvidas	 sobre	 pessoas	 em	 quem	 podemos	 confiar.	 No</p><p>entanto,	a	confiabilidade	é	algo	subjetivo,	não	existindo	um	padrão	de	atitudes</p><p>que	nos	impeça	de	cometer	enganos	ou	até	mesmo	um	teste	que	dê	legitimidade</p><p>às	 pessoas	 dignas	 de	 confiança.	 Saber	 e	 aceitar	 esse	 fato	 é	 extremamente</p><p>importante	 para	 que	 sejamos	mais	 observadores,	 cautelosos	 e,	 principalmente,</p><p>mais	respeitosos	conosco.	A	incerteza	dessa	condição	(ser	ou	não	ser	confiável)</p><p>faz	parte	da	natureza	humana.	Para	ser	sincera,	jamais	conheci	alguém	que	tenha</p><p>realizado	 o	 feito	 extraordinário	 de	 nunca	 ter	 sido	 ludibriado	 por	 alguém	mal-</p><p>intencionado.	Quando	se	trata	de	confiarmos	em	outra	pessoa,	todos	tropeçamos</p><p>e	cometemos	falhas.	Algumas,	infelizmente,	podem	trazer	graves	consequências;</p><p>outras,	nem	tanto,	como	vimos	na	história	de	Maria	e	Carla,	descrita	no	início	do</p><p>capítulo.</p><p>Voltando	à	pergunta	inicial	sobre	em	quem	podemos	confiar,	tenho	uma	má	e</p><p>uma	boa	notícia.	A	má	é	que	verdadeiramente	existem	pessoas	que	não	possuem</p><p>consciência	 nem	 sentimentos	 nobres	 e,	 por	 isso	mesmo,	 não	 podemos	 confiar</p><p>nelas	de	maneira	nenhuma.	Por	favor,	acredite	nisso!</p><p>Segundo	a	classificação	norte-americana	de	transtornos	mentais	(DSM-IV-TR),	a</p><p>prevalência	geral	do	 transtorno	da	personalidade	antissocial	ou	psicopatia	 é	de</p><p>cerca	de	3%	em	homens	e	1%	em	mulheres,	em	amostras	comunitárias	(aqueles</p><p>que	 estão	 entre	 nós).	Taxas	 de	 prevalência	 ainda	maiores	 estão	 associadas	 aos</p><p>contextos	 forenses	 ou	 penitenciários.	 Desse	 percentual,	 uma	 minoria</p><p>corresponderia	aos	psicopatas	mais	graves,	ou	seja,	aqueles	criminosos	cruéis	e</p><p>violentos	cujos	índices	de	reincidência	criminal	são	elevados.	A	princípio,	4%	da</p><p>população	pode	não	parecer	 tão	 significativo,	mas	 imagine	uma	grande	 cidade</p><p>como	Rio	de	 Janeiro	ou	São	Paulo,	por	exemplo,	onde	milhares	de	pessoas	 se</p><p>esbarram	o	tempo	todo.	A	cada	cem	pessoas	que	transitam	para	lá	e	para	cá,	três</p><p>ou	 quatro	 delas	 estão	 praticando	 atos	 condenáveis,	 em	 graus	 variáveis	 de</p><p>gravidade,	 ou	 estão	 indo	 em	 direção	 à	 próxima	 vítima.	 Imagine	 também	 o</p><p>estádio	do	Maracanã	lotado	numa	decisão	de	campeonato	de	futebol,	onde	cerca</p><p>de	80	mil	pessoas	podem	ser	acomodadas:	ali	podem	estar	concentrados	cerca	de</p><p>3	 mil	 psicopatas.	 Quando	 pensamos	 sob	 essa	 ótica,	 as	 estimativas	 tomam</p><p>proporções	gigantescas!</p><p>A	boa	notícia	é	que	quase	96%	das	pessoas	são	consideradas	possuidoras	de</p><p>uma	 base	 razoável	 de	 decência	 e	 responsabilidade.	 Isso	 significa	 que,</p><p>surpreendentemente,	para	um	padrão	comportamental	considerado	pró-social	(a</p><p>favor	 das	 boas	 relações),	 nosso	mundo	 deveria	 estar	 aproximadamente	 96%	 a</p><p>salvo	ou,	pelo	menos,	mais	humano	ou	consciente.</p><p>Essa	boa	notícia	sem	dúvida	nos	alegra	o	coração.	No	entanto,	deixa-nos	uma</p><p>sensação	no	mínimo	estranha.	Afinal,	se	a	grande	maioria	da	população	mundial</p><p>é	 razoavelmente	 boa,	 por	 que	 o	 mundo	 nos	 parece	 tão	 assustador?	 Como</p><p>explicar	os	 trágicos	noticiários	que	nos	colocam	diariamente	em	contato	com	a</p><p>violência	 no	 trânsito,	 a	 contaminação	 ambiental,	 os	 genocídios,	 os	 homicídios</p><p>cruéis,	a	corrupção,	os	atentados	terroristas...?</p><p>A	 menos	 que	 pensemos	 que	 tais	 fatos	 sejam	 fruto	 da	 evolução	 natural	 da</p><p>humanidade,	teremos	que	considerar	que	a	mão	do	homem	encontra-se	por	trás</p><p>desses	 acontecimentos.	 Defendo	 a	 ideia	 de	 que	 tais	 problemas	 se	 agravam	 de</p><p>modo	 extraordinário	 por	 causa	 da	 ação	 dos	 psicopatas	 e	 de	 diversas	 outras</p><p>pessoas	que,	sem	desenvolver	plenamente	essa	condição,	adotaram	uma	“forma</p><p>psicopática”	 de	 se	 relacionar	 com	 os	 demais.	 Os	 psicopatas	 representam	 a</p><p>minoria	da	população	mundial,	porém	são	responsáveis	por	um	grande	rastro	de</p><p>destruição.	 Enquanto	 as	 pessoas	 “do	 mal”	 se	 unem	 ou	 colaboram	 entre	 si	 na</p><p>busca	de	interesses	comuns,	as	“do	bem”	tendem	a	se	dissipar.	Ficam	acuadas,</p><p>trancafiadas,	perdem	a	sua	função	social	e	de	organização	e	acabam	por	adoecer.</p><p>A	 “cultura	 da	 esperteza”	 também	 contribui	 para	 esse	 cenário.	 Deixa-nos</p><p>confusos	e,	muitas	vezes,	 faz	com	que	 fraquejemos	na	 luta	pelo	bem.	A	nossa</p><p>sociedade	 vem	 banalizando	 o	 mal	 e	 contribuindo	 para	 a	 inversão	 dos	 valores</p><p>morais.	Isso	cria	um	terreno	fértil	para	que	os	psicopatas	se	sintam	à	vontade	no</p><p>exercício	de	suas	habilidades	destrutivas.	Todas	essas	questões	são	intrigantes	e</p><p>acabam	por	nos	impor	uma	profunda	revisão	dos	nossos	conceitos	sobre	a	vida</p><p>em	sociedade.	E,	nessa	 revisão,	destaco	a	 importância	de	cultivar	um	valoroso</p><p>senso	de	consciência,	pois	somente	ele	é	capaz	de	assegurar	a	nossa	qualidade	de</p><p>vida	e	a	do	nosso	planeta.</p><p>Excetuando-se	 raras	 circunstâncias,	 como	 surtos	 psicóticos	 (presença	 de</p><p>delírios	 e	 alucinações),	 privações	 severas,	 efeito	 tóxico	 de	 drogas,	 instinto	 de</p><p>sobrevivência	ou	a	 influência	poderosa	de	autoridades	 tiranas,	 todas	as	pessoas</p><p>que	 possuem	 consciência	 genuína	 são	 incapazes	 de	matar,	 estuprar	 ou	 torturar</p><p>outra	pessoa	de	forma	fria	e	calculada.	Do	mesmo	modo,	não	conseguem	roubar</p><p>as	 economias	 de	 alguém,	 enganar	 de	 forma	 arbitrária	 seu	 parceiro	 afetivo	 por</p><p>simples	 esporte	 e	 prazer,	 ou,	 ainda,	 por	 vontade	 própria,	 abandonar	 um	 filho</p><p>recém-nascido	 em	 plena	 rua.	 Pense	 bem:	 quem	 de	 nós	 conseguiria	 cometer</p><p>tamanha	 barbaridade?	 Ao	 contrário,	 sempre	 que	 ouvimos	 nos	 noticiários</p><p>situações	 parecidas,	 imediatamente	 nos	 questionamos	 sobre	 o	 porquê	 dessas</p><p>maldades.	Os	comentários	do	tipo:	“Como	pode	uma</p><p>mãe	abandonar	o	filho	na</p><p>lixeira	como	um	objeto	qualquer?”,	“Você	viu	que	crime	bárbaro	aquele	homem</p><p>cometeu	sem,	no	entanto,	mostrar	arrependimento?”,	“Meu	sócio	acabou	com	a</p><p>minha	empresa,	destruiu	o	meu	casamento	e,	com	a	maior	‘cara	de	pau’,	diz	que</p><p>não	teve	culpa!”,	são	muito	comuns	no	nosso	cotidiano.</p><p>Embora	tais	fatos	nos	choquem	como	seres	humanos	normais,	sem	nenhuma</p><p>sombra	 de	 dúvida,	 as	 mais	 perversas	 ações	 que	 lemos	 nos	 jornais	 e,</p><p>implicitamente,	 atribuímos	 à	 “natureza	 humana”	 não	 são	 provenientes	 de	 uma</p><p>natureza	 humana	 normal.	 Estaríamos	 nos	 insultando	 ou	 mesmo	 nos</p><p>desmoralizando	se	presumíssemos	que	sim.	Embora	se	mostre	muito	distante	da</p><p>perfeição,	a	natureza	humana	apresenta-se	muito	mais	governada	por	um	senso</p><p>de	 responsabilidade	 e	 de	 interconectividade.	 Dessa	 forma,	 os	 horrores	 a	 que</p><p>assistimos	na	televisão	ou,	às	vezes,	em	nossa	própria	vida	em	hipótese	nenhuma</p><p>refletem	a	humanidade	típica.	Tais	ações	só	são	possíveis	de	ser	realizadas	por</p><p>uma	característica	que	foge	totalmente	à	nossa	natureza	humana	genuína,	e	essa</p><p>particularidade	é	a	frieza	e	a	ausência	completa	de	consciência.</p><p>Paradoxalmente,	as	pessoas	do	bem	(que	possuem	uma	consciência	genuína)</p><p>tendem	 a	 acreditar	 que	 todos	 os	 seres	 humanos	 são	 capazes	 de	 “falhas</p><p>sombrias”.	 Elas	 tendem	 a	 acreditar	 que	 todos	 nós,	 em	 situações	 bizarras,</p><p>poderíamos	nos	transformar	em	assassinos	cruéis	de	uma	hora	para	outra.	Essas</p><p>pessoas	de	bom	coração	julgam	que	a	teoria	do	lado	“sombrio	humano”	parece</p><p>algo	 mais	 democrático,	 menos	 condenável	 e,	 de	 certa	 forma,	 também	 menos</p><p>alarmante.	Acreditar	que	 todos	 somos	um	pouco	 sombrios	 é	mais	 fácil	 do	que</p><p>admitir	 a	 ideia	 real	 e	 perturbadora	 de	 que	 alguns	 seres	 humanos	 vivem</p><p>permanentemente	em	uma	insensibilidade	moral	absoluta.</p><p>Entre	tapas	e	beijos</p><p>Entre	tapas	e	beijos</p><p>Laura,	 uma	 paciente,	 tem	 31	 anos	 e	 está	 se	 recuperando	 de	 um	 quadro</p><p>depressivo.	Nós	duas	estamos	nos	empenhando	para	que	a	vida	dela	seja	menos</p><p>cinza	 e	 volte	 a	 fazer	 sentido.	Acompanhe	um	pouco	de	 sua	 história,	 que	 pode</p><p>passar	totalmente	despercebida	e	certamente	nunca	sairá	nos	noticiários	da	TV.</p><p>Aos	 23	 anos,	 no	 frescor	 de	 sua	 exuberância	 e	 beleza,	 ela	 era	 inteligente	 e</p><p>estava	 prestes	 a	 se	 formar	 no	 curso	 de	 veterinária.	 Nessa	 época,	 conheceu</p><p>Ricardo,	um	jovem	e	atraente	administrador	de	empresas.</p><p>Ele	se	mostrou	um	grande	amigo	e	demonstrava	ter	os	mesmos	interesses	de</p><p>Laura:	 cinema,	 praia,	 esportes,	 aventuras,	 MPB	 etc.	 Ricardo	 conversava	 sobre</p><p>qualquer	assunto	e	detalhava	suas	aventuras	em	conversas	envolventes.	Entre	as</p><p>suas	histórias,	 também	estavam	os	problemas:	 a	 tirania	do	pai,	 a	mãe	histérica</p><p>que	 na	 infância	 o	 ameaçou	 com	 uma	 faca	 e	 sua	 saúde	 frágil.	 “Na	 época,	 os</p><p>médicos	 lhe	 disseram	 que	 ele	 não	 teria	 uma	 vida	 muito	 longa,	 e	 Ricardo	 me</p><p>contou	tudo	isso	com	lágrimas	nos	olhos”,	acrescentou	Laura.</p><p>Aos	 poucos,	 Laura	 foi	 se	 envolvendo	 com	 as	 histórias	 tristes	 do	 rapaz	 e</p><p>experimentou	um	sentimento	dúbio	de	compaixão	e	atração.	Ela	 sucumbiu	aos</p><p>encantos	dele,	uma	grande	paixão	floresceu,	e	eles	foram	morar	juntos.</p><p>Ricardo	tinha	uma	carreira	promissora	numa	empresa	multinacional,	mas	não</p><p>quis	que	Laura	exercesse	sua	profissão.	Ele	gostava	de	vê-la	bem	vestida	e	bela,</p><p>esperando-o	 para	 o	 jantar	 e	 com	 a	 casa	 impecável.	 “No	 início,	 eu	 até	 tentei</p><p>argumentar	 que	 a	 veterinária	 era	 o	 meu	 grande	 sonho,	 mas	 acabei	 aceitando</p><p>porque	o	amava	verdadeiramente.”</p><p>Certo	dia,	Laura	encontrou	um	cãozinho	abandonado	e	muito	doente	no	meio</p><p>da	 rua.	 Ela	 se	 sensibilizou	 e	 levou	 o	 cachorro	 para	 casa,	 a	 fim	 de	 tratar	 do</p><p>animal.	Ricardo	teve	um	ataque	de	fúria	e	quis	devolvê-lo	para	o	mesmo	lugar.</p><p>Ela	 conseguiu	 persuadi-lo	 e	 cuidou	 do	 cão	 como	 se	 fosse	 um	 filho.	 Resolveu</p><p>chamá-lo	 de	Pituca.	Com	dois	meses	 de	 tratamento	 e	muito	 carinho,	 Pituca	 já</p><p>esbanjava	 saúde,	 vitalidade	 e	 se	 tornara	 um	 vira-lata	 branco	 e	 peludo	 de	 dar</p><p>inveja	a	qualquer	cachorro	de	raça.</p><p>“Que	 bom	 que	 ele	 está	 curado,	 agora	 podemos	 colocá-lo	 na	 rua”,	 disse</p><p>Ricardo.	“Mas	como?	Eu	tenho	o	maior	amor	por	ele!	Não	posso	abandoná-lo,</p><p>isso	 é	 desumano!”	 Ricardo	 não	 pensou	 duas	 vezes:	 deu	 vários	 pontapés	 no</p><p>animal,	colocou-o	no	carro	e	desapareceu	com	Pituca.</p><p>Perguntei	se	Laura	sabia	para	onde	ele	havia	levado	o	cãozinho.	Aos	prantos,</p><p>ela	 respondeu:	“Ele	matou	o	Pituca!	Disse	que	me	amava	demais	e	não	queria</p><p>me	ver	doente	cuidando	de	um	simples	cachorro.	Você	consegue	imaginar	o	que</p><p>isso	 significou	pra	mim?	Como	é	que	 ele	 foi	 capaz	de	 fazer	 uma	coisa	 dessas</p><p>depois	de	eu	ter	cuidado	do	Pituca	e	nutrido	tanto	afeto	por	ele?”.</p><p>Continuei	 indagando	sobre	o	comportamento	de	Ricardo,	desde	a	época	em</p><p>que	eles	se	conheceram.	“Lembro-me	de	que,	quando	namorávamos,	o	pai	dele</p><p>deixava	 alguns	 cheques	 em	 branco	 assinados	 para	 pagamentos	 das	 contas.</p><p>Ricardo	 sempre	 preenchia	 valores	 muito	mais	 altos	 que	 o	 necessário	 e	 ficava</p><p>com	o	 troco.	 Ele	 nunca	 escondeu	 isso	 de	mim.	Ao	 contrário,	 ria	 e	 comentava</p><p>satisfeito	que,	apesar	da	valentia	do	pai,	ele	não	 tinha	o	menor	controle	da	sua</p><p>conta	bancária”,	ela	me	disse,	encabulada.</p><p>O	 relacionamento	 também	 sempre	 foi	 muito	 instável.	 Ora	 ele	 era</p><p>extremamente	 delicado,	 romântico,	mostrando-se	 orgulhoso	 em	 apresentar	 sua</p><p>bela	companheira	aos	amigos,	ora	muito	agressivo	e	 temperamental,	 tratando-a</p><p>aos	 berros	 e	 com	 ameaças	 de	 “meter-lhe	 a	 mão”.	 Mas,	 segundo	 Laura,</p><p>invariavelmente	ele	pedia	mil	desculpas	e	a	enchia	de	carinhos:	“Puxa	vida,	não</p><p>sei	 onde	 estava	 com	 a	 cabeça!”,	 “Acho	 que	 estou	 muito	 estressado	 com	 as</p><p>responsabilidades	do	 trabalho”,	“Querida,	você	é	 tudo	pra	mim,	a	mulher	mais</p><p>linda	 do	mundo!”,	 “Isso	 nunca	mais	 vai	 acontecer,	 eu	 prometo”,	 “Procure	me</p><p>compreender,	você	sabe	que	eu	tive	uma	infância	muito	difícil”.</p><p>E	Laura	prosseguiu:	“Ricardo	também	era	extremamente	ciumento	e	dizia	que</p><p>era	 por	 amor.	 Ficava	 furioso	 quando	 qualquer	 homem	 me	 olhava	 mais</p><p>diretamente.	Uma	vez	discutiu	seriamente	com	um	rapaz	porque	cismou	que	ele</p><p>estava	 me	 paquerando.	 É	 lógico	 que	 sobrou	 pra	 mim	 também.	 Depois	 disso,</p><p>fiquei	me	perguntando	se	a	culpa	realmente	não	tinha	sido	minha.	Eu	não	sei...</p><p>Ele	me	deixava	completamente	confusa...”.</p><p>Quanto	ao	casamento	e	filhos,	ele	alegava	que	ainda	não	estava	preparado	e</p><p>que	 ambos	 tinham	 uma	 vida	 pela	 frente.	 Cada	 vez	 que	 Laura	 tocava	 nesse</p><p>assunto,	ele	dava	a	mesma	desculpa	ou	ficava	enfurecido.</p><p>“Mesmo	amando	Ricardo,	há	alguns	anos	eu	pensei	em	fazer	minhas	malas	e</p><p>ir	 embora.	 Tivemos	 uma	 conversa	 séria	 e	 ele	 me	 respondeu	 que	 a	 vida	 dele</p><p>estava	 em	 minhas	 mãos.	 Como	 ele	 não	 viveria	 muito	 tempo,	 decidiu	 que	 se</p><p>mataria.	Tremi	da	cabeça	aos	pés	e	voltei	atrás	na	mesma	hora.”</p><p>Quando	 isso	 foi	mencionado,	 questionei	 qual	 era	 a	 doença	 de	 que	 Ricardo</p><p>sofria.	 “Eu	 nunca	 soube	 exatamente	 o	 que	 era.	Ele	 não	 gostava	 de	 falar	 sobre</p><p>isso	e	eu	respeitava.	No	início	do	nosso	namoro,	tentei	conversar	com	a	mãe	dele</p><p>sobre	o	seu	passado,	mas	parece	que	ela	não	entendeu	muito	bem	o	que	eu	queria</p><p>dizer.	Achei	melhor	não	mexer	num	assunto	tão	delicado	e,	além	disso,	Ricardo</p><p>parecia	muito	bem	fisicamente.	Ah...	mas	me	lembro	de	ela	ter	dito	que	Ricardo</p><p>não	era	exatamente	o	homem	que	eu	merecia.	Antes	mesmo	de	eu	dizer	alguma</p><p>coisa,	ela	mudou	de	assunto.”</p><p>O	 tempo	 passou	 e	 Ricardo	 não	 precisou	 mais	 de	 Laura:	 trocou-a	 por	 uma</p><p>mulher	mais	jovem	e	mais	bonita.	Ele	simplesmente	disse	a	Laura:	“Precisamos</p><p>nos	separar.	Você	é	muito	ciumenta	e	estou	me	sentindo	enjaulado”.	O	mundo</p><p>desmoronou	sobre	a	cabeça	dela!	“Chorei	muito	sem	compreender	o	que	estava</p><p>acontecendo.	Será	que	eu	 fui	ciumenta	e	possessiva	durante	esse	 tempo	 todo	e</p><p>não	percebi?	Esse	era	um	comportamento	dele,	não	meu!”</p><p>De	lá	para	cá,	Laura	descobriu</p><p>que	ele	teve	várias	amantes	e	que	o	discurso</p><p>sobre	a	doença	grave,	as	ameaças	da	mãe	e	o	pai	tirano	era	um	grande	engodo.</p><p>Ao	 comentar	 sobre	 seu	 passado,	Ricardo	 derramava	 lágrimas	 de	 crocodilo,	 tal</p><p>qual	o	animal	que	lacrimeja	quando	engole	suas	presas.</p><p>Eu	 não	 tinha	 a	 menor	 dúvida:	 Ricardo	 era	 um	 homem	 mau,	 um	 predador</p><p>afetivo.	Laura	havia	sido	apenas	uma	peça	do	seu	jogo	cruel.	Ele	tinha	anulado</p><p>os	prazeres	dela	apenas	para	ser	servido	e	para	exibi-la,	impecavelmente,	como</p><p>um	objeto	de	vitória	para	alimentar	seus	instintos	egocêntricos	e	narcisistas.</p><p>Agora	eu	precisava	 fazer	com	que	Laura	entendesse	que	espécie	de	homem</p><p>era	 aquele	 com	 quem	 ela	 tinha	 convivido	 por	 sete	 anos.	 Era	 importante	 que</p><p>Laura	 compreendesse	 que	 a	 separação,	 embora	 dolorosa,	 havia	 sido	 a	 melhor</p><p>coisa	que	poderia	ter	lhe	acontecido:	ela	se	livrou	de	um	mal	enorme	e,	dali	para</p><p>a	frente,	poderia	reconstruir	sua	vida.</p><p>Identificando	os	suspeitos</p><p>Ao	 falar	 sobre	 as	 mazelas	 de	 nosso	 mundo,	 certa	 vez,	 Einstein	 proferiu	 a</p><p>seguinte	 frase:	 “O	mundo	é	um	 lugar	perigoso	para	viver,	 não	exatamente	por</p><p>causa	das	pessoas	más,	mas	por	causa	das	pessoas	que	não	fazem	nada	quanto	a</p><p>isso”.</p><p>Se	 realmente	 quisermos	 fazer	 algo	 para	 reduzir	 o	 poder	 de	 destruição	 das</p><p>pessoas	impiedosas,	temos,	antes	de	tudo,	que	aprender	a	identificá-las.	Decidir</p><p>se	alguém	é	digno	de	confiança	requer	conhecê-lo	muito	bem	por	determinado</p><p>período	de	tempo,	além	de	tentar	obter	o	maior	número	possível	de	informações</p><p>sobre	sua	vida	pregressa.	É	claro	que	essas	informações	não	devem	e	não	podem</p><p>se	restringir	às	histórias	contadas	pela	pessoa	que	você	deseja	conhecer	ou	com	a</p><p>qual	pretende	se	relacionar.	Se	ela	for	um	psicopata,	provavelmente	todas	as	suas</p><p>histórias	 estarão	 “maquiadas”	 com	 o	 intuito	 de	 manipulá-lo	 no	 preparo</p><p>cuidadoso	para	um	posterior	ataque	predatório.</p><p>A	 história	 da	 vida	 de	 alguém	 é	 importantíssima,	 pois	 ninguém	 perde	 a</p><p>capacidade	 de	 ser	 consciente	 de	 uma	 hora	 para	 outra.	 Por	 outro	 lado,	 nem</p><p>sempre	 é	 fácil	 obtermos	 informações	precisas	 ou	 confiáveis	 sobre	pessoas	que</p><p>entram	em	nossa	vida.	Além	disso,	estamos	permanentemente	correndo	riscos	de</p><p>conviver	 com	 alguém	 por	 muito	 tempo	 até	 chegarmos	 à	 conclusão	 de	 que	 se</p><p>trata	 de	 uma	 pessoa	 sem	 nenhum	 tipo	 de	 sentimento	 nobre.	 Na	 maioria	 das</p><p>vezes,	 se	 dependermos	 somente	 da	 convivência	 ou	 de	 informações	 pouco</p><p>confiáveis,	só	nos	daremos	conta	de	que	estamos	diante	de	um	psicopata	quando</p><p>nos	 depararmos	 com	 as	 inevitáveis	 perdas	 e	 os	 lamentáveis	 danos	 que	 essas</p><p>criaturas	podem	provocar	em	nossa	vida.</p><p>Nos	 próximos	 capítulos,	 tentarei	 esmiuçar	 ao	máximo	 todas	 as	 facetas	 dos</p><p>psicopatas.	Mas,	antes	de	chegarmos	a	essa	etapa	clínica	sobre	o	comportamento</p><p>dessas	 criaturas	 maléficas,	 eu	 gostaria	 de	 compartilhar	 com	 você,	 leitor,	 uma</p><p>dica	que	 julgo	ser	bastante	preciosa:	 fique	muito	atento	ao	“jogo	da	pena”	 (do</p><p>coitadinho).</p><p>Durante	 todos	 esses	 anos	 de	 exercício	 profissional,	 ouvi	 muitas	 histórias</p><p>sobre	 psicopatia.	 Meus	 pacientes	 relataram	 (e	 até	 hoje	 o	 fazem)	 como	 essas</p><p>criaturas	 invadiram,	 feriram	e	 arruinaram	sua	vida.	Em	cada	caso,	 foi	possível</p><p>identificar	comportamentos	suspeitos	—	uns	mais	característicos,	outros	menos;</p><p>tudo	varia	muito	de	pessoa	para	pessoa	—,	no	entanto,	precisamente	em	 todos</p><p>pude	 identificar	 “o	 jogo	 da	 pena”.	 A	 meu	 ver,	 esse	 é	 um	 dos	 recursos	 mais</p><p>comuns	e	constantes	das	pessoas	 inescrupulosas.	Muito	mais	que	apelar	para	o</p><p>nosso	 sentimento	 de	 medo,	 os	 psicopatas,	 de	 forma	 extremamente	 perversa,</p><p>apelam	 para	 a	 nossa	 capacidade	 de	 ser	 solidários.	 Eles	 se	 utilizam	 de	 nossos</p><p>sentimentos	 mais	 nobres	 para	 nos	 dominar	 e	 controlar.	 Os	 psicopatas	 se</p><p>alimentam	 e	 se	 tornam	 poderosos	 quando	 conseguem	 nos	 despertar	 piedade.</p><p>Esse	tipo	de	alimento	tem	um	efeito	extraordinário	de	poder	para	essas	criaturas,</p><p>tal	qual	o	espinafre	para	o	personagem	de	Popeye	dos	desenhos	infantis.</p><p>A	piedade	e	a	generosidade	das	pessoas	boas	podem	se	transformar	em	uma</p><p>folha	de	papel	em	branco	assinada	nas	mãos	de	um	psicopata.	Quando	sentimos</p><p>pena,	 estamos	 vulneráveis	 emocionalmente,	 e	 é	 essa	 a	 maior	 arma	 que	 eles</p><p>podem	usar	contra	nós!</p><p>A	 piedade,	 a	 compaixão	 e	 a	 solidariedade	 são	 forças	 para	 o	 bem	 quando</p><p>direcionadas	às	pessoas	que	de	fato	merecem	e	precisam	de	tais	sentimentos.	No</p><p>entanto,	 quando	 esses	 mesmos	 sentimentos	 são	 direcionados	 a	 pessoas	 que</p><p>apresentam	 comportamentos	 inescrupulosos	 de	 forma	 consistente	 e	 repetitiva,</p><p>temos	que	considerar	isso	como	um	aviso	de	que	algo	está	muito	errado.	É	um</p><p>sinal	de	alarme	que	não	podemos	ignorar.</p><p>Se	 voltarmos	 à	 primeira	 história	 deste	 capítulo,	 observaremos	 que	Carla	 se</p><p>utilizou	 o	 tempo	 todo	 do	 “jogo	 da	 pena”	 com	 sua	 amiga	 Maria,	 mesmo	 não</p><p>sendo	nada	camarada.	Quanto	a	Ricardo,	não	foi	diferente:	Laura	se	envolveu	e</p><p>se	apaixonou	porque,	a	princípio,	se	compadeceu	da	dor	dele	(infância	difícil	e</p><p>família	desestruturada),	e,	posteriormente,	com	as	falsas	ameaças	de	suicídio.	No</p><p>entanto,	 nem	 Carla	 nem	 Ricardo	 nutriam	 sentimentos	 bons	 por	 ninguém	 e</p><p>tampouco	demonstraram	sinal	de	arrependimento	verdadeiro.	Fizeram	um	apelo</p><p>cruel	 à	 solidariedade	 das	 pessoas	 do	 seu	 convívio,	 deixando-as	 confusas	 e</p><p>inseguras.	E	é	 justamente	nesse	momento,	quando	nos	sentimos	 inseguros,	que</p><p>as	pessoas	de	mau	caráter	acabam	fazendo	conosco	o	que	bem	querem.</p><p>Exemplo	 parecido	 com	 a	 situação	 de	 Laura	 e	 de	 seu	 truculento	 parceiro</p><p>Ricardo	 pode	 ser	 observado	 naquela	 mulher	 que	 com	 frequência	 apresenta</p><p>hematomas	porque	seu	marido	a	espanca	quase	que	diariamente.	No	entanto,	ele</p><p>sempre	apela	que	a	perdoe,	pois	seus	“descontroles”	são	reflexos	do	excesso	de</p><p>amor	que	sente	por	ela.	Além	disso,	ela	deve	entender	a	grande	dificuldade	dele</p><p>em	expressar	carinho	e	afeto	por	causa	das	surras	que	levava	do	pai	alcoólatra	e</p><p>que	também	espancava	sua	mãe!</p><p>Não	 caia	 nessa	 cilada!	 Todas	 essas	 são	 histórias	 com	 mero	 intuito</p><p>manipulatório.	Os	psicopatas	não	levam	em	consideração	as	regras	sociais,	mas</p><p>sabem	muito	bem	como	utilizá-las	a	seu	favor,	além	de	se	divertirem	e	sentirem</p><p>prazer	com	o	nosso	sofrimento.</p><p>Então	não	se	esqueça</p><p>Quando	tiver	que	decidir	em	quem	confiar,	tenha	em	mente	que	a	combinação	consistente	de</p><p>ações	maldosas	 com	 frequentes	 jogos	 cênicos	 por	 sua	 piedade	 praticamente	 equivale	 a	 uma</p><p>placa	de	aviso	com	um	alerta.	Pessoas	cujos	comportamentos	reúnam	essas	duas	características</p><p>não	 são	 necessariamente	 assassinas	 em	 série	 ou	 mesmo	 violentas.	 No	 entanto,	 não	 são</p><p>indivíduos	 com	 quem	 você	 deva	 ter	 amizade,	 relacionamentos	 afetivos,	 dividir	 segredos,	 a</p><p>quem	confiar	seus	bens,	seus	negócios,	seus	filhos	e	nem	sequer	deve	oferecer	abrigo	a	eles!</p><p>Para	os	psicopatas,	as	outras	pessoas	são	meros	objetos	ou	coisas,	que	devem	ser</p><p>usados	sempre	que	necessário	para	a	satisfação	do	seu	bel-prazer.</p><p>Um	psicopata,	quando	perde	o	controle,	sabe	exatamente	até	onde	quer	ir	para</p><p>magoar,	amedrontar	ou	machucar	uma	pessoa.</p><p>Os	psicopatas	não	vão	ao	trabalho;	vão	à	caça.</p><p>“Matou	os	pais	e	foi	para	o	motel.”</p><p>Época,	ed.	234.	Ed.	Globo,	11	nov.	2002</p><p>Existe	uma	fração	minoritária	de</p><p>psicopatas	com	uma	insensibilidade</p><p>tamanha	que	suas	condutas	criminosas</p><p>podem	atingir	perversidades	inimagináveis.</p><p>É	estarrecedor	observar	que	crianças	que	deveriam	estar	brincando	ou	folheando</p><p>livros	nas	escolas	trafiquem	drogas,	empunhem	armas	e	apertem	gatilhos	sem</p><p>nenhum	vestígio	de	piedade.</p><p>Os	psicopatas	são	seres	sem	“coração	mental”.	O	cérebro	deles	é	gelado.</p><p>10</p><p>DE	ONDE	VEM	ISSO	TUDO?</p><p>A	capacidade	humana	de	distinguir	o	certo	do	errado,	a	meu	ver,	é	uma	das</p><p>mais	nobres	de	todas	as	nossas	qualidades.	É	muito	reconfortante	saber	que,	de</p><p>alguma	forma,	cada	ser	humano,	lá	no	íntimo,	sempre	sabe	qual	é	“a	coisa	certa</p><p>a	fazer”.</p><p>É	esse	senso	moral	que	nos	faz	ajudar	uma	pessoa	que	leva	um	tombo	na	rua</p><p>ou	 uma	 criança	 que	 cai	 de	 sua	 bicicleta	 ou	 se	 perde	 de	 seus	 pais	 em	meio	 à</p><p>multidão.	Em	relação	a	essas	situações,	lembro-me	de	uma	que	nunca	mais	saiu</p><p>da	minha	mente:</p><p>Era	um	domingo	ensolarado,	 em	pleno	 inverno	carioca.	Resolvi	 caminhar	 e</p><p>escolhi	 a	 lagoa	 Rodrigo	 de	 Freitas	 como	 cenário	 para	 minha	 atividade	 física</p><p>matinal.	 Com	 pouco	 mais	 de	 uma	 hora	 de	 caminhada,	 eu	 já	 ensaiava	 meus</p><p>passos	finais	quando	avistei,	em	minha	“contramão”,	 três	pessoas	 trajadas	com</p><p>uniformes	do	Flamengo	em	estado	de	total	alegria	—	o	pai	no	centro	e	um	filho</p><p>em	cada	mão.	Os	três	cantavam,	a	plenos	pulmões,	um	samba	que	já	virou	um</p><p>hino	clássico	dos	torcedores	rubro-negros:	“Domingo	eu	vou	ao	Maracanã,	vou</p><p>torcer	 pelo	 time	de	 que	 sou	 fã...”.	De	 repente,	 pelas	minhas	 costas,	 surgiu	 um</p><p>menino	 com	 uma	 bicicleta.	 A	 velocidade	 dele	 era	 tamanha	 que,	 ao	 me</p><p>ultrapassar,	não	conseguiu	fazer	a	curva,	e,	em	segundos,	“voou”	para	dentro	da</p><p>lagoa.	 Simultaneamente	 a	 essa	 cena,	 pude	 ver	 a	 face	 de	 angústia	 do	 pai</p><p>flamenguista	e	assistir	a	tudo:	ele	rapidamente	soltou	as	mãos	dos	filhos,	tirou	a</p><p>camisa	e	mergulhou	como	se	 tivesse	sido	 treinado	para	aquilo	por	 toda	a	vida.</p><p>Menino	 salvo,	 bicicleta	 destruída	 nas	 pedras,	 surge,	 atrasado,	 o	 pai	 da	 vítima.</p><p>Abraça	 seu	 filho,	 promete-lhe	 uma	 bike	 nova	 e	 nem	 percebe	 que,	 a	 poucos</p><p>metros	dali,	o	pai	flamenguista	já	está	com	seus	filhos	lado	a	lado,	seguindo	seu</p><p>caminho.</p><p>Sem	conter	minha	admiração	pelo	ato	daquele	homem,	apressei	o	passo	e	fui</p><p>atrás	 deles.	 Aproximei-me,	 pedi	 licença	 e	 perguntei:	 “Como	 você	 conseguiu</p><p>fazer	aquilo	tão	rapidamente?”.</p><p>E	ele	respondeu:	“Fiz	o	que	tinha	que	ser	feito.	Se	não	fosse	eu,	certamente</p><p>outra	pessoa	faria.	É	o	certo!”.</p><p>Naquele	 domingo,	 retornei	 à	 minha	 casa	 com	 um	 sentimento	 bom	 de</p><p>esperança,	desses	que	de	vez	em	quando	a	gente	sente	por	toda	a	humanidade.</p><p>De	onde	vem	o	nosso	senso	moral?</p><p>Até	pouco	 tempo	atrás,	 existia	a	convicção	de	que	a	capacidade	humana	de</p><p>distinguir	o	certo	do	errado	era	algo	aprendido	nas	relações	interpessoais.	Dessa</p><p>forma,	 a	 única	 maneira	 de	 obtermos	 indivíduos	 morais	 seria	 educá-los	 e</p><p>condicioná-los	socialmente.	Assim,	caberia	à	sociedade	e	à	cultura	estabelecer,</p><p>ao	longo	de	toda	a	vida,	o	que	os	indivíduos	podem	ou	não	fazer.	Não	há	como</p><p>negar	que	muitas	das	regras	sociais	direcionadas	ao	certo	e	ao	errado	precisam</p><p>ser	 aprendidas.	 É	 impossível	 nascer	 sabendo	 determinadas	 convenções	 sociais</p><p>que	 possuem	 forte	 apelo	 cultural.	 Um	 bom	 exemplo	 é	 o	 ato	 de	 arrotar.	 Em</p><p>alguns	 países	 orientais,	 arrotar	 à	mesa	 é	 sinal	 de	 apreço	 para	 com	 a	 comida	 e</p><p>seus	 anfitriões	 gastronômicos.	 Já	 na	 maioria	 dos	 países	 ocidentais,	 isso	 é	 um</p><p>sinal	de	falta	de	educação,	relacionado	ao	desleixo	e	à	deselegância	pessoal.</p><p>Os	 estudos	 mais	 recentes	 sobre	 o	 comportamento	 humano,	 entretanto,</p><p>revelam	 que	 as	 noções	 básicas	 de	 retidão	 comportamental	 e	 justiça	 dependem</p><p>muito	menos	do	aprendizado	social	do	que	os	psicólogos	supunham	no	início	do</p><p>século	 passado.	 As	 últimas	 pesquisas	 sobre	 o	 cérebro	 humano	 e	 as	 análises</p><p>comparativas	de	outros	comportamentos	animais	revelam	que	a	espécie	humana</p><p>adquiriu	 a	 capacidade	de	 avaliação	moral	 com	a	própria	 seleção	natural.	Tudo</p><p>indica	que	as	instruções	necessárias	na	produção	de	um	cérebro	capacitado	para</p><p>distinguir	o	certo	do	errado	já	vêm	com	certificado	de	fábrica,	ou	seja,	elas	estão</p><p>no	DNA	de	cada	um	de	nós.</p><p>Se	a	seleção	natural	tem	participação	ativa	na	construção	do	senso	moral	dos</p><p>humanos,	 é	 de	 esperar	 que	 o	 senso	 de	 justiça	 e	 a	 compaixão	 também	 estejam</p><p>presentes	 em	 outros	 segmentos	 do	 reino	 animal.	 E	 de	 fato	 estão	 —</p><p>especialmente	entre	os	primatas.</p><p>Em	 2007,	 Felix	Werneken	 e	 seus	 colaboradores	 do	 Instituto	Max	 Plank	 de</p><p>Antropologia	 Evolutiva,	 na	 Alemanha,	 realizaram	 o	 seguinte	 experimento:</p><p>colocaram	um	chimpanzé	em	uma	jaula	em	que	o	animal	pudesse	observar	duas</p><p>pessoas	que	simulavam	uma	discussão.	Uma	delas	estava	mais	exaltada	e,	com</p><p>um	tapa,	derrubou	um	pequeno	bastão	que	a	outra	tinha	na	mão.	Esse	objeto,	ao</p><p>cair	 no	 chão,	 rolou	 e	 foi	 parar	 aos	 pés	 do	 chimpanzé,	 próximo	 à	 jaula.	 Sem</p><p>nenhum	 envolvimento	 com	 aquele	 conflito	 entre	 humanos	 e	 sem	 receber	 nada</p><p>em	 troca,	 o	 primata	 não	 hesitou	 em	 agir:	 pegou	 o	 bastão	 e	 o	 devolveu	 ao	 seu</p><p>dono.	Tudo	aconteceu	de	forma	simples:	para	ele	era	a	coisa	certa	a	fazer!</p><p>Outros	 experimentos	 envolvendo	 primatas	 entre	 si	 e	 primatas	 e	 uma	 ave</p><p>também	foram	realizados.	No	primeiro	caso,	um	macaco	precisava	acionar	uma</p><p>alavanca	localizada	dentro	de	sua	jaula	para	que	a	porta	de	outra	jaula	se	abrisse</p><p>e	desse	passagem	para	que	um	“colega”	pudesse	alcançar	seu	alimento.	Apesar</p><p>de	não	receber	nenhuma	recompensa	com	o	ato,	o	macaco	não	poupou	esforços</p><p>em	praticar	a	boa	ação	e	alimentar	seu	colega	de	espécie.</p><p>O	 segundo	 episódio	 está	 relatado	 no	 livro	 Eu,	 primata,	 de	 Frans	 de	 Wall</p><p>(primatólogo	 da	Emory	University,	Atlanta,	 Estados	Unidos):	 no	 zoológico	 de</p><p>Twycross	(Reino	Unido),	uma	fêmea	de	bonobo	viu	um	passarinho	se	ferir	ao	se</p><p>chocar	contra	uma	parede	de	vidro	de	sua	jaula.	Ao	observar	o	pássaro	no	chão,</p><p>a	primata	tentou	colocá-lo	em	pé,	mas	não	obteve	sucesso.	Tentou,	então,	outra</p><p>estratégia:	pegou	o	pássaro	com	muito	cuidado,	subiu	numa	árvore,	abriu	as	asas</p><p>dele	com	os	dedos	e	tentou	fazê-lo	voar	tal	qual	um	avião	de	papel.	O	pássaro,</p><p>ainda	muito	fraco,	acabou	por	aterrissar	dentro	da	jaula,	sem	conseguir	se	erguer.</p><p>Foi	 então	 que	 a	 fêmea	 de	 bonobo	 decidiu	 montar	 guarda	 ao	 lado	 do	 pássaro</p><p>simplesmente	 para	 protegê-lo	 de	 seus	 colegas	 de	 cativeiro.	No	 final	 do	 dia,	 o</p><p>pássaro	conseguiu	se	reerguer	e	saiu	voando.	Apenas	nesse	momento	a	primata</p><p>largou	seu	“posto	de	solidariedade”.</p><p>Senso	de	justiça,	compaixão	e	evolução</p><p>Toda	 a	 teoria	 da	 evolução	 das	 espécies	 se	 baseia	 na	 competitividade	 e	 na</p><p>sobrevivência	 dos	 mais	 aptos.	 Como	 podemos	 entender	 que	 características	 de</p><p>bondade	e	 altruísmo	 tenham	se	perpetuado	e	 evoluído	em	meio	à	violência	do</p><p>mundo	natural?	Teoricamente,	 os	 organismos	 “bonzinhos”	deveriam	 ter	 ficado</p><p>pelo	caminho	nessa	corrida	biológica.	No	entanto,	ao	longo	das	últimas	décadas,</p><p>os	cientistas	começaram	a	desvendar	as	vantagens	evolutivas	das	“criaturas	do</p><p>bem”.</p><p>Existem	algumas	teorias	que	tentam	explicar	o	senso	de	justiça	mais	apurado</p><p>em	determinados	animais	e	nos	humanos.	Entre	elas,	 eu	gostaria	de	destacar	a</p><p>teoria	da	mente	(fundamentada	nos	estudos	psicológicos)	e	a	teoria	do	cérebro</p><p>social	(desenvolvida	com	base	nos	estudos	recentes	das	neurociências).</p><p>A	 teoria	 da	 mente	 se	 constitui,	 basicamente,	 na	 capacidade	 de	 um	 ser</p><p>biológico	 (humano	 ou	 não)	 imaginar	 que	 outros	 seres	 possam	 ter	 uma	 vida</p><p>mental	similar	à	dele.	Essa	teoria	pode	ser	facilmente	compreendida	quando	nos</p><p>colocamos	 no	 lugar	 de	 outras	 pessoas	 para	 inferir	 como	 elas	 devem	 estar	 se</p><p>sentindo.	 Existe	 um	 ditado	 americano	 que	 diz	 o	 seguinte:	 “Antes	 de	 julgar</p><p>alguém,	 calce	 suas	 sandálias	 e	 caminhe	 por	 uma	milha”.	 Em	 outras	 palavras:</p><p>antes	de	julgar	alguém,	coloque-se	no	lugar	dessa	pessoa,	 tente	imaginar	o	que</p><p>ela	sente,	o	que	pensa,	e,	somente	depois,	aja.	Isso	é	a	teoria	da	mente	em	plena</p><p>ação.</p><p>A	 teoria	 do	 cérebro	 social	 pôde	 se	 desenvolver	 e	 avançar	 de	 forma</p><p>significativa	nos	últimos	 anos	graças	 à	utilização	 sistemática,	 por	psicólogos	 e</p><p>neurocientistas,	 do	 exame	 denominado	 ressonância	 magnética	 funcional	 (RMf).</p><p>Esse	exame	é	capaz	de	gerar	um	retrato	extremamente	detalhado	das	estruturas</p><p>cerebrais.	Além	disso,	ele	pode	produzir	o	equivalente	a	um	vídeo	que	mostra	o</p><p>funcionamento	 de	 partes	 específicas	 do	 cérebro	 quando	 ativadas	 durante</p><p>algumas	 situações.	 Por	 exemplo,	 quando	 ouvimos</p>

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