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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ Fórum Landi Curso de Especialização em Interpretação, Conservação e Revitalização do Patrimônio Artístico de Antônio José Landi Pintura Colonial em Belém do Pará: as iconografias religiosas de Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810) na Igreja de Santana. Belém-Pará 2008 1 ROSA MARIA LOURENÇO ARRAES Pintura Colonial em Belém do Pará: as iconografias religiosas de Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810) na Igreja de Santana - Monografia apresentada ao Programa de Pós- Graduação da Especialização em Interpretação, Conservação e Revitalização do Patrimônio Artístico de Antônio José Landi da Universidade Federal do Pará como exigência parcial para obtenção do título de Especialista em Preservação do Patrimônio Cultural. Orientador: Professor Doutor Aldrin Moura de Figueiredo (DEHIS/UFPA) Data da defesa: 26/09/2008 Banca Examinadora: ____________________________________ Professor Doutor Aldrin Moura de Figueiredo (DEHIS/UFPa)(Orientador) ____________________________________ Professor Doutor Rafael Chambouleyron (DEHIS/UFPa)(Membro da Banca) ____________________________________ Professor Especialista Flávio Sidrin Nassar (FAU-UFPa) (Membro da Banca) Belém- Pará 2008 2 A733p 75.034(811.5) ARRAES, Rosa Maria Lourenço Rosa Maria Lourenço Arraes; orientador, Aldrin Moura de Figueiredo -2008 (64pag. Il). Pintura Colonial em Belém do Pará: as iconografias religiosas de Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810) na Igreja de Santana Monografia (Especialização) – Universidade Federal do Pará, - Fórum Landi, Programa de Pós Graduação em Preservação do Patrimônio Cultural, Belém, 2008. 1. Belém (PA) – História da Arte– Sec. XVIII- I. Pinturas – Belém (PA) – II. História Séc.XVIII. III. Iconografia da Arte Religiosa . IV. História Belém (PA) – Sec. XVIII. - IV Título. 3 AGRADECIMENTOS Inicialmente quero agradecer ao meu orientador que se disponibilizou a me acompanhar em mais esta pesquisa, me apresentando sugestões e suas maravilhosas idéias. Aos meus professores do Fórum Landi por suas competências e por terem a cada disciplina me entusiasmado a fazer esta pesquisa. Aos membros da Banca Pof. Dr. Rafael Chambouleyron e Prof. Esp. Flávio Sidrin Nassar pelas observações e comentários, ampliando minha percepção. Um agradecimento especial aos coordenadores do Fórum Landi, Prof. Flávio Nassar e Profa. Elna Trindade, pela competência e pelo compromisso com o patrimônio da Cidade e por terem me proporcionado tanto conhecimento. A todos os meus colegas do curso, sem deixar de citar os mais chegados: Maria Amélia, Paula Rodrigues, Moema Bacelar, Ida Hamoy, Tatiana Lima, Verena Carvalho e Wallace Almeida, pelas suas companhias, sempre dispostos a ajudar, a trocar idéias, compartilhando informações e documentos. Obrigada ao meu amigo Rodolfo Braga, que deixou minhas imagens tão bonitas. Ao Prof. Vitor Serrão, pelas bibliografias que me indicou e por suas considerações Sobre telas de Santana quando lá esteve comigo. As Bibliotecárias sempre prestativas e facilitadoras da minha pesquisa no CENTUR (Obras raras), Museu de Arte de Belém, Arquivo Público do Pará e Arquivo do Museu Goeldi, que me receberam com carinho e foram muito gentis, me dando acesso ao documento que pude encontrar. Um agradecimento especialíssimo a minha querida amiga Cynthia Marques que foi o meu link em Lisboa, procurando documentos e bibliografias sem os quais eu não poderia ter realizado este trabalho, obrigada pelo seu desprendimento, pela sua solidariedade e pela sua amizade. A minha família, aos meus filhos Luciana e Raoni, orgulho e razão da minha vida, e ao meu querido Jonas que enche de música e poesia a nossa casa, permitindo que a arte seja uma rotina em nossas vidas E finalmente a Deus que me abençoa sempre colocando tanta gente boa na minha vida, tornando tudo bem mais simples. Belém 13 de Setembro de 2008. 4 Dedico este Trabalho a A minha querida cidade de Belém Cidade onde eu nasci e aprendi a respeitar Cidade de gente boa e amiga Cidade de um precioso Patrimônio Cultural que precisa de um Gestor que tenha por ela muito amor. 5 SUMÁRIO Resumo e Abstract Pag. 06 Lista de Imagens Pag. 07 Introdução Pag. 09 1. As Ordens religiosas no Pará e as contribuições para Arte Colonial Pag.11 1.1 Os Religiosos da Província de Santo Antônio Pag. 14 1.1. A Ordem terceira de são Francisco Pag. 16 1.3. A Ordem dos Carmelitas calçados Pag.18 1.4. A companhia de Jesus e a Igreja Santo Alexandre Pag.19 1.4.1.A Igreja da madre de Deus em Vigia Pag. 15 1.5. A ordem dos Mercedários calçados Pag. 17 1.6. A Sé de Belém em honra de N. Sra. Das Graças Pag. 18 2 . A Transformação de Belém na segunda Metade do Sec. XVIII Pag.30 2.1. A Igreja do Rosário dos homens pretos Pag.31 2.2. A Igreja de São João Pag.33 2.3. A Igreja de Santana e seus elementos Pag. 36 3. O Pintor Português Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1840) Pag. 40 3.1. As Pinturas de Pedro Alexandrino em Belém Pag.44 3.1.1. São Miguel Libertando as Almas do Purgatório Pag.47 3.2.1. Visão do Bispo de Alexandria no Cárcere Pag.50 Considerações Finais Pag.53 Referências Bibliografias e Fontes Pag.56 6 RESUMO Nesta pesquisa procuramos apresentar um relato com os registros da pintura Religiosa Colonial Luso- Brasileira em Belém do Pará, cidade da Amazônia Brasileira, fazendo primeiro um panorama no Sec. XVIII, das chegadas das diversas missões e ordem religiosas que buscavam na arte uma forma de evangelização no novo território, assim como destacamos suas contribuições artísticas para construção da Cidade. Mas especificamente dirigimos nosso olhar para as pinturas do artista português, Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810) que se distinguiu sobremaneira por representar as diversas iconografias religiosas deste período, pintando igrejas, matrizes, basílicas, catedrais, capelas, pintou naves e sacristias, pintou altares e arcazes, compôs painéis laterais e centrais. e em Belém deixou seu nome registrado em duas pinturas de 1778, as quais fez por encomenda do Arquiteto Bolonhês Antonio Landi para decorar a Igreja de Santana, projetada e construída pelo referido arquiteto em Belém.. As pinturas de Santana são iconografias de singular importância para o momento, apresentam temas religiosos com narrativas que pretendemos desvelar., incluindo-as como símbolos para a História da Arte Luso-Brasileira. ABSTRACT In this research we are looking to present a speech with the registers of the Religious Colonial Portuguese-Brazilian painting in Belém do Pará, city from the Brazilian Amazon forest. Doing a first resume from the XVIII century, that was the time of the arrival of a lot of missions and religious order, searching in the art a way to evangelize in the new territory. We can also pay attention to their artistic contributions to the city construction. But, in this time we are specifically turning our eyes to the paintings of the Portuguese artist called, Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810) that was distinguished by the way that he used to represent all of kinds of religious iconography from this period, painting churches, and all of the places inside them. In Belém, he just left his name registered in two paintings from 1778, which was order by the architect from Bologna, Antônio Landi to decorate the Santana church, which was projected and built by the refered artist. The Santana paintings are iconographies with singular meaning to thatlimites e passa a ocupar todo o forro com grandes cenas ilusionistas em perspectiva. A partir da verdadeira cimalha do edifício, cria-se um efeito ilusório com o prolongamento da mesma através da pintura. Colunas e parapeitos em que se debruçam personagens como os doutores da Igreja circundam a cena central, rompendo ilusoriamente o espaço arquitetônico do templo. O espectador tem a impressão de estar assistindo a uma cena celestial, como se estivesse diante do próprio céu. O que interessa ao artista é criar a ilusão de ótica ou o efeito chamado pintura de quadratura46. No caso de Belém, essa é uma característica da Escola de Ferdinando de Bibiena, a qual teve como alunos Antônio Landi, que foi o desenhista e decorador de algumas das Igrejas aqui relatadas.47 46 Isabel Mendonça em seu livro Antônio José Landi um Artistas entre dois continentes detalha os desenhos de Landi para pintura e relata os registros de Landi com Alexandre Rodrigues Ferreira em sua Viagem Filosófica apontando inclusive os pintores que deixara para fazer os trabalhos Op. Cit. Pintura de Quadratura pag78 47 Isabel M ayer Mendonça Antônio José Landi (1713- 1791): Op. Cit pag. 479-.. Ilustração 29- Altar Lateral da Igr. De São João- São João Pregando- Autor Francisco de Figueiredo Óleo s; tela Sec. XVIII. Fonte: Elna Trindade 37 As formas barrocas são extremamente movimentadas chegando até a dar a sensação de tumulto em grandes composições. É intenso o domínio das curvas. Porém o artista não se detém em detalhes minuciosos, resultantes do teor emocional, ele usa de pinceladas espontâneas, rápidas, grossas, deixando quase sempre a marca do pincel. Caracteriza-se principalmente pela composição diagonal que transmite sensação de instabilidade e movimento. O espaço sempre dinâmico dá um sentido de profundidade, o que é muito utilizado na pintura ilusionista, além de sempre conter o violento contraste de claro-escuro, causando efeitos dramáticos, teatrais quase cenográficos, de intensidades diferentes dependendo do artista e do local. Além de ser uma pintura de tons absolutamente coloridos. O realismo também é outra importante característica da pintura Barroca, pelo forte teor emocional é feito com grande intensidade, independente da emoção que queiram passar. Usando quase sempre a observação de personagens comuns, populares, tipos da gente do povo, como figurantes em suas composições artísticas ressaltando ainda o gosto do popular, pitoresco, do exótico, do mórbido. A maioria das pinturas apresentadas nesta época são pinturas que fazem parte dos altares laterais pintura em telas ou madeira, com temas hagiógrafos, mas temos exemplos importantes das pinturas de teto. 2.3.. A IGREJA DE SANTANA E SEUS ELEMENTOS Construída pelo arquiteto Bolonhês Antonio José Landi, que tinha especial devoção por Santana. Embarcou de Portugal em 1 de junho de 1753 para o Pará, aonde chegou a 19 de junho desse mesmo ano. A 1 de outubro de 1754 seguiu ele para a vila de Barcelos, lugar Foto 30- Altar Mor de da Igr. São João- Pintura Ilusionista , conhecida como pintura de quadratura, executada por Antônio Landi- Sec.XVIII- Fonte: Elna Trindade 38 designado para as conferências, em companhia do governador e capitão general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, primeiro comissário de limites, e demais membros da comissão. Suspensos os trabalhos de demarcação (nunca iniciados, em conseqüência do tratado de 11 de fevereiro de 1761, que anulou o de 16 de janeiro de 1750, voltou Landi à cidade do Pará. Por carta patente de 06 de maio de 1768, passada pelo governador Fernando da Costa de Ataíde, foi nomeado capitão do 1. ° terço de infantaria auxiliar. Ocupava-se em Belém no levantamento de plantas e construção de vários edifícios públicos e particulares (palácio do governo, igreja de Santana, etc.).48 O ano de 1761 foi lançado o primeiro fundamento da igreja destinada a ser paroquial, provavelmente, o templo só ficou terminado 1781. Para Germain Bazin. A Igreja é um hábil compromisso entre a cruz grega e a cruz latina, mais grega do que latina. Com os dois transceptos pouco profundos e a capela maior um tanto alongada, o que não a situa rigorosamente no tipo central. Descrição das duas telas de Alexandrino que adornam os altares laterais da igreja de Santana. Prosseguindo na sua coleta de informações históricas com as quais ilustrou a sua admirável “Expedição Filosófica do Pará”, manuscrito que Ernesto Cruz copiou da Biblioteca Nacional do rio de Janeiro e publicou em seu livro e que me serviu de guia neste capítulo, o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira revela o que apurou sobre a Igreja Matriz de Santana do bairro da Campina. No seu relato Alexandre Rodrigues Ferreira diz “Antes de ser separada esta freguesia, não havia mais do que, a de Nossa Senhora de Belém da Sé, que era a freguesia de toda a Cidade” 49 as grandes epidemias de bexiga, sarampos e febres podres que algumas vezes sobrevieram foram as causas de conservar-se um Sacrário na Rua da Cadeia primeiro, depois na Igreja que serve de Misericórdia, e depois na do Rosário dos Pretos; de outro modo não podia o vigário das freguesias única de N. Sra. de Belém acudir com Sacramento ao infinitos doentes, do Bairro da Cidade e da Campina. Informado disto D. João V, ordenou por alvará seu, como grão Mestre da Ordem de Cristo, que se desmembrasse a Freguesia de Santana da Campina na de N. Sra. De Belém e da Cidade. Criou esta matriz o primeiro Bispo D. Frei Bartolomeu do Pilar na Igreja do Rosário dos Pretos, por não haver Igreja Paroquial, e foi seu primeiro Vigário interino o Pe. Antonio Maciel Parente, depois que o bispo a desmembrou no ano de 1727. Lançou depois a primeira pedra na Igreja Paroquial que hoje existe, o Bispo d. Frei João no ano de 1766, e fizeram a Igreja os irmãos do sacramento, com as esmolas que pediram pelos moradores do estado. 48 RAMOS, Alberto Gaudêncio. Cronologia Eclesiástica da Amazônia.Manaus, 1951. p 10, cita esta data, porém em MENDONÇA, Isabel. Antonio José Landi: um artista entre dois continentes. Coimbra:Fundação Caloustre Gulbekian, 1003. P. 403 registra que a criação da paróquia se dá em 1714 e em 11 de dezembro foi nomeado o primeiro pároco. 49 CRUZ Ernesto PA,114 Apud FERREIRA , Alexandre Rodrigues Viagem Filosófica pela Amazônia 39 Benzeu-se a nova Igreja a 31 de Janeiro de 1782, e a 2 de fevereiro celebrou a abertura dela com grande solenidade e á sua custa o Juiz da Irmandade o Cap. Ambrósio Henriques, pregando no primeiro dia do Tridu o Bispo D. Fr. João Evangelista Pereira da Silva. Ao sobredito Ambrósio Henriques deve a Irmandade Dez para Doze mil Cruzados que ele gastou com as obras da Igreja. Feita de pedra e Cal, pelo risco à romana que deu Antônio José Landi; porém já principiou a rachar tanto a parede do Fronstipício, como a de um dos lados da capela mor, por defeito da Obra. Tem só 3 altares; com a imagem de vulto a capela mor esta mandou fazer por sua devoção Antônio José Landi, e deu por ela 310 mil reis ao estatutário José de Almeida e enriqueceu de uns brincos de diamantes abrilhantados do preço de 81 mil reis. Além disto, mandou vir a relíquia de um osso de Santana em sua custódia de prata. Para Germin Bazin, em suas análises sobre as Igrejas de Belém principalmente sobre: as fachadas do Rosário, da Catedral e do Carmo são inteiramente dominadas pela indecisão de linhas ainda não muito bem definidas; enquanto à igreja de Santana, ela é de espírito nitidamente neoclássico; é uma das raras igrejas de cúpula no Brasil.50 A planta de Santana é uma hábil combinação entre a cruz grega e a latina. Na verdade, é uma cruz grega servindo de base a uma cúpula sem tambor, tendo os dois braços laterais ligeiramente menos profundos,mas cujo braço superior foi aumentado para formar uma capela-mor alongada. Contudo, por meio de uma divisão arquitetônica bem nítida, Landi separou esse acréscimo do resto do templo, como se tivesse sido obrigado a adotá-lo devido a uma concessão feita ao hábito do culto; os arquitetos luso-brasileiros sentiam-se freqüentemente atrapalhados, na sua especulação da planta central, pois esta capela, elemento que, alias, logo que 50 BAZIN, Germain. A arquitetura religiosa barroca no Brasil. Tradução de Glória Lúcia Nunes. Rio de Janeiro: Record, 1983, p. 149. v. 1. Foto 31- Antônio José Landi Desenho Aquarelado da Igreja de Santana - Fonte Prancha da Viagem Filosófica de A.R.F. Museu Nacional R.J 40 se foi ampliando, no decorrer do século XVIII, foi tendendo a se localizar de alguma forma, fora de obra. A intenção da planta centra estava fortemente acentuada no exterior de Santa Ana, no projeto inicial de Landi, por meio de um frontispício muito simples, cuja parte maciça estava em equilíbrio com a das fachadas do outros braços, o que lhe destacava a cúpula e lhe assegurava uma base harmoniosamente proporcional. Infelizmente, esse excelente partido foi alterado pelos campanários adicionados ao frontispício em 1839. A decoração interior apresenta uma plasticidade bastante rica de elementos arquitetônicos, apesar de o arquiteto ter adotado a austeridade neoclássica da ordem toscana. No seu traçado original este singelo templo, assim como a graciosa capela de São João Batista, lembra a elegância requintada, baseada na harmonia das quantidades e das pequenas composições arquitetônicas de Sangallo, de Bramante e de Rafael; essa reminiscência das formas nativas do classicismo não é estranha ao espírito do neoclassicismo, época em que os artistas se deleitavam em fazer especulações arquitetônicas puras, em construções de dimensões medíocres. Alexandre Rodrigues Ferreira recolheu na sua documentação dois magníficos desenhos feitos por Landi em 1785 para o projeto de uma ornamentação pintada, a ser executada na igreja matriz e Barcelos, localidade que havia sido elevada à categoria de capital da Capitania de São José do Rio Negro, pelo Governador Francisco Xavier de Mendonça, em 1758. Aqui, Landi afastara-se de sua habitual sobriedade e deixa transparecer nitidamente suas origens italianas; nessas tribunas simuladas, nesses efeitos de perspectivas arquitetônicas ilusionistas, nesses jogos de colunas dóricas, nessa abside falsa e nesses entablamentos fictícios, aparecem todo o poder de imaginação e a virtuosidade plástica adquiridos na escola do cenógrafo Bibiena.51 A obra de Antônio Landi, que eclodiu no Norte brasileiro na segunda metade do século XVIII, cuja descendência da tradição tardo-barroca bolonhesa não se demonstra indiferente aos influxos do neoclassicismo já antes da chegada dos artistas de 1816, ajuda a compreender o caráter processual da classicização da arte brasileira. Sua obra marca a transição de um estilo a outro: ela guarda simultaneamente traços de uma corrente artística – o Barroco – em seu ocaso, enquanto apregoa, para o porvir, as novas tendências que o racionalismo classicista celebra. Landi, formado na Academia Clementina de Bolonha, fazia parte da missão científica de Alexandre Rodrigues Ferreira, português que esteve no norte do País, realizando trabalhos de levantamento geográfico daquele canto da Amazônia para a demarcação das fronteiras entre as possessões portuguesas e espanholas 51 CRUZ Ernesto Monumentos de Belém Op. Cit. A Igreja de Santana pag. 134 Apud Alexandre Rodrigues Ferreira , A Viagem Filosófica pela Amazônia 41 E preciso admirar a flexibilidade de espírito desse artista que passo algum tempo em Portugal, e justo na época em que o estilo que iria ser o pombalino começava a tomar forma no Alentejo e em Lisboa. Não podemos esquecer também que as trocas de informações e documentos entre metrópole e colônia eram intensas, e isso permitia aos artistas das regiões mais longínquas se manterem a par das novas modas. Enfim, a origem bolonhesa de Landi fazia com que se tornasse um pouco resistente ao rococó e predisposto ao neoclassicismo. Assim, enquanto que Bahia, Pernambuco e, sobretudo Minas Gerais estavam no apogeu do estilo rococó, regiões em que foi prolongado para além de sua duração normal, a situação em Belém era completamente inversa. A ausência de qualquer tradição, reforçada pela vinda de um artista estrangeiro, iria fazer de uma das cidades mais longínquas e províncias do Brasil a mais moderna da América portuguesa, juntamente com o Rio. Na Romanesca época do segundo Império, a igreja de Santana era a preferida para as celebrações das solenidades religiosas que antecediam a pose dos novos presidentes provinciais, o que, sem dúvida, lhe emprestava um ar de nobreza. Os famosos quadros de Pedro Alexandrino de Carvalho, datados do século XVIII, são um patrimônio valioso da antiga matriz da Campina. Alguns castiçais de prata, adquiridos nos bons tempos de estanho, o piso de pedra de Lioz de o altar-mor mandado vir de Portugal para esse fim. No ano de 1839 a igreja sofreu modificações em seu interior. No lugar de duas colunas, erguidas lateralmente, foram construídas duas torres, ainda existentes, junto a portada, revelando inegavelmente, o traço de Landi. Em 1940 a fachada foi restaurada. Segundo relatório de Leandro Tocantins, de 1963, “junto à sacristia foi construída uma gruta para invocar Nossa Senhora de Lourdes” 52, o que compromete a integridade do conjunto. A igreja possui ainda precioso acervo, além de uma imagem de São Pedro, réplica da de Roma. Apesar das alterações feitas no século XIX, a igreja ainda é uma referência da época de sua construção. 52 TOCANTINS Leandro Op. Cit. Igreja de Santana Pag.197 42 3. PEDRO ALEXANDRINO DE CARVALHO (1729-1810) E A SUA TRAJETÓRIA COMO ARTISTA DA PINTURA PORTUGUESA Pedro Alexandrino de Carvalho (1729- 1810), pintor português do tardo-barroco, desempenhou um papel de primeira importância na reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755. Reconhecido pela qualidade de suas obras e rapidez de execução, o artista foi solicitado, tanto pelo clérigo como pelos leigos, para participar da redecoração das igrejas e dos palácios da capital, realizando assim obras de temáticas religiosas como também mitológicas e alegóricas. Alexandrino foi igualmente chamado para trabalhar nos arredores de Lisboa, tendo enviado ainda obras para o Brasil. Este distinto pintor, que artisticamente é mais conhecido por Pedro de Alexandrino, nasceu em Lisboa, em 27 de Novembro de 1729, tendo falecido na mesma cidade em 17 de janeiro de 1810; foi sepultado na igreja paroquial de S. José. Era filho de Lazaro de Carvalho e de D. Antonia Maria de Matos. Pintor de rara fecundidade. Pedro Alexandrino é autor de muitos quadros e outros gêneros de trabalho pictural, sendo em número elevado as igrejas que possuem produções as principalmente em Lisboa. A sua primeira aprendizagem foi feita com um modesto pintor de nome de Berardo Pereira Pegado, pintor oficial do Conselho da Fazenda sem grandes méritos artísticos, mas com alguma notoriedade. Foi com ele que Alexandrino aprendeu a desenhar e a pintar. O artista completou a sua formação na oficina do seu amigo e vizinho André Gonçalves (1689-1761); ele não foi oficialmente o seu discípulo, mas, nos informa Cyrillo, (…) aproveitou muito freqüentando a sua casa, e a sua escola53 De fato, foi por meio dessa amizade que Alexandrino teve a oportunidade de se familiarizar com o barroco italiano do final do século XVII e do século XVIII que constituía, no Século das Luzes, a maior influência na pintura53 MACHADO, Cyrillo Volkmar Colleção de Memórias, relativas às vidas dos pintores e escultores architetos e gravadores portugueses que estiveram em Portugal , Coimbra Imprensa da Universidade- 1911 p.71 Foto. 32. São Domingos - 1770/Autor; Pedro Alexandrino de Carvalho, Óleo / tela Fonte: Acervo da Igr., de Queluz -Lisboa 43 religiosa portuguesa.54 Como Gonçalves, Alexandrino não conseguiu viajar a Itália para aperfeiçoar a sua arte. Foi então na oficina do seu amigo, que possuía uma grande quantidade de desenhos e estampas de mestres italianos, que ele pôde conhecer as obras de Carlo Maratta (1615- 1713) e Francesco Trevisani (1656-1746). O artista também teve a oportunidade de ver vários quadros italianos, encomendados pela nobreza para a decoração de monumentos prestigiosos: no reinado de D. João V, chegaram a Portugal obras de Agostino Masucci (1691-1768), pintor predileto do rei, com destino a Mafra. Mais tarde rococó, no reinado de D. Maria I, foram as telas de Pompeo Batoni (1708-1787) que vieram da Itália para decorar a Basílica da Estrela onde, aliás, Alexandrino também deixou obras.55 Não conhecemos ainda a data da primeira obra de Pedro Alexandrino. No entanto, ele teria colaborado com Pedro de Alcântara, pintor de paisagens que ainda vivia pelos anos de 1763 executando algumas figuras dos seus quadros, o que nos permite situar o início da sua carreira no decorrer dos anos de 1750. Foi, porém, durante os anos de 1760 que Alexandrino colaborou de maneira mais significativa com artistas cuja reputação já estava estabelecida. Assim, em 1761, ele trabalhou junto com seu mestre, Berardo P. Pegado, na decoração do teto da escadaria da Fundição, hoje Museu de Artilharia. Enquanto o quadro central do teto era pintado por Bruno José do Vale, Alexandrino e Pegado executaram as a obra Quatro Partes do Mundo nos lados. Depois, em 1764, o artista colaborou com Roque Vicente, pintando algumas figuras em dois quadros representando Santa Ana e Santo António, ainda hoje conservados na igreja de Santa Isabel, em Lisboa.56. O sucesso de Alexandrino também se manifesta pelo fato da maioria das suas obras conhecidas, datadas e assinadas, pertencerem ao último quarto do século XVIII e a primeira década do século XIX. Mais precisamente, é a partir dos anos de 1780 que Alexandrino recebe as grandes encomendas de decoração para as igrejas e os palácios que tinham sido danificados pelo terremoto de 1755. Pintando de uma forma que agradava ao público, cobrando pouco pelo seu trabalho e tendo vários discípulos para ajudá-lo, Alexandrino foi, na verdade, o artista mais solicitado na segunda metade do século XVIII para executar as obras de redecoração dos monumentos danificados pelo sismo. São dele, por exemplo, as telas e o teto da igreja dos Mártires, em Lisboa. Outro conjunto digno de ser mencionado é o da igreja do Santíssimo 54 Não se pode esquecer, porém que e a influência do rococó francês, já se fazia sentir naprimeira metade do século XVIII, chegando a Portugal via gravuras e artistas franceses, estebelecendo-se no País e concorrendo assim com os modelos do Tardo Barroco Italiano. Para saber mais consultar Myrian Andrade Ribeiro de Oliveira, o Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus, São Paulo Cosac & Nayfi, 2003 55 FONSECA, Anne Louisse, Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810): pintura portuguesa em Belém do Pará. Biblioteca Virtual Fórum Landi WWW. Forum Landi 56 Cyrillo Volkmar Machado Op.Cit. 1911 pag90 44 Sacramento, em Lisboa: são 18 telas executadas em 1801 e repartidas entre a nave e a capela mor, assim como o teto da nave pintado em 1804. Os exemplos deste tipo são inúmeros na capital portuguesa e implicam também as casas nobres, os Palácios 57 Alexandrino sentiu a necessidade de escolher um mestre com quem na verdade pudesse aprender devidamente e, aproveitando a circunstancia de ser vizinho e amigo de André Gonçalves, reputadíssimo artista, dele mais se aproximou, recebendo talentosamente os seus ensinamentos a ponto de alguns biógrafos terem registrado que ele procurou imitar os seus processos, a arte de Pedro Alexandrino pode ser considerada como realizada em Portugal, pois lá sempre ele esteve. sempre no seu país, deixando , de utilizar o que os outros pintores lograram no estrangeiro, principalmente na Itália. Pedro Alexandrino empregou exuberantemente as suas aptidões, ora pintando largas composições, ora assuntos de pouca monta enquadrados em restritas dimensões. Com a mesma prodigiosa facilidade pintava á óleo, á tempera e afresco. Para tudo estava disposto e o seu traço não se confundia. Dessa facilidade para a pintura e da acessibilidade que era todos os processos da arte evidenciou, e isso resultou uma boa fortuna, e se não tivessem tido circunstancias que ele não tivessem impedido, e entre elas a discutida anormalidade nacional provocada pelas invasões francesa e as doenças que, por vezes, o acometeram.58 Na vida pessoal Pedro Alexandrino dedicava-se a trabalhos rústicos na quinta que possuía, em Povoa de Santo Adrião, subúrbios de Lisboa, que depois foi adquirida pelo escrivão do Deposito Publico, Francisco de Almeida Penha, em 1899, e que, em memória do artista, era conhecida por quinta do Pintor, Pedro Alexandrino, que tinha grande amor à região da Povoa de Santo Adrião, pintou o retábulo da capela-mor e os quatro quadros que ornam a igreja matriz, tendo também custeado a construção do chafariz próximo. Alexandrino foi um artista de produção intensa, principalmente após o terremoto de 1755, quando igrejas, mansões e edifícios oficiais, reclamaram o empenhamento de recuperadores e de reformuladores. Coincide com a cataclísmica a data do auto-retrato do pintor, como se quisesse vincular ter ele sido um dos felizes contemplados pela “roda” do terremoto e pela fração premiada do maremoto59. 57TABORDA José da Cunha, Regras da arte da pintura, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1911, p. 140-141 58 SERRÃO Victor , Estudo da Pintura Maneirista e Barroca –Textos de reflexão e recensão – Lisboa 1969 59 SERRÃO, Vitor. A pintura proto-barroca em Portugal ( 1640-1706) e o seu impacto no Brasil Colonial. in: Barroco, n 18, anos 1997- 2000. 45 Entre as tarefas de enfeitar de cores e figurações as exigências divinas e as representações sociais, Pedro Alexandrino distinguiu-se sobremaneira por igrejas, matrizes, basílicas, catedrais, capelas, correndo e socorrendo as varias hierarquias da arquitetura cristã. Pintou naves e sacristias, pintou altares e arcazes, compôs painéis laterais e centrais. Desdobrou- se em encargos como um dos ciclopes pombalinos. Era vê-lo pelos Mártires, Loreto, Sacramento, Graça, Estrela, Santa Antonio da Sé, Encarnação, Penha de França, S. Domingos, Madalena, S.Tiago, S.Pedro de Alcântara, Bemposta, S. Domingos da Rana, Queluz, Cascais. Raczynski 60compara a maneira de pintar de Pedro Alexandrino à do pintor alemão, seu contemporâneo, Cristiano Rode. O que é certo, é que o nosso artista teve grande aura no país, havendo sido diretor da Academia de Desenho, intitulada “do Nu”, da Rua do Camilos, em Lisboa, e deixando bastantes discípulos, como Joaquim José de Sampaio, Felizberto Antonio Botelho, Henrique José da Silva, José Antonio Parodi, seu cunhado, e outros. Na obra de Pedro Alexandrino tornou-se notável a delicadeza com que tratou as crianças e anjos e a insistência com que produzia obras para casas religiosas, de que lhe provejo a designação de “pintor de frades”. Pedro Alexandrino inundou Lisboa de santos, ornatos de interiores e aparatos de exteriores. A bem dizer a grosso modo não lhe escapou virgem digna do nome nem taumaturgo popularmente sufragado. Estendeu o braço para as encomendas de fora dos muros de Lisboa e dasruínas sísmicas, por Coimbra,Aveiro, Figueira da Foz, Belver (Portalegre), por Elvas, por Beja e ainda dispôs de pausas para ensaios como barristas e escritor memoralista. É opinião dos seus biógrafos e que os melhores quadros de sua autoria são Cristóvão e O Salvador do Mundo que ladeiam a porta principal da Sé de Lisboa; no interior, dele é também o retábulo do altar-mor, que representa Nossa Senhora da Assunção. 60 Raczynski, Dictionnaire historico-artistique du Portugal, Paris, Jules Renouard et Cie, 1846, p. 3, Foto 33- O Martírio de São Braz Sec. XVIII. Autor: Pedro Alexandrino, Museu do Patriarcado de Lisboa 46 São muitas as igrejas de Lisboa que guardam pinturas de Pedro Alexandrino, podemos destacar ainda como de grande importância: a capela do corpo da igreja de S. Domingos, os tetos da nave de S. Nicolau, da capela-mor do Loreto, da Encarnação, de Sant’Iago, os quadros das capelas do corpo da igreja dos Mártires, da igreja da Pena, do corpo da igreja de Santo Antonio da Sé, da Graça, da Penha de França, os de sacristia dos Mártires, o retábulo da ermida de Monserrate, às Amoreiras, e o da Ceia, na capela do Santíssimo da igreja de Nossa Senhora da Assunção, da vila de Cascais. No palácio de Queluz é de Pedro Alexandrino a pintura no teto (O Tempo) da sala camada de Conselho de Estado. É obra sua, também, o teto do perístilo, em alegorias, do Museu de Artilharia, e o da grande sala da Academia das Ciências, o que representa Ciência e a Virtude, presididas pela Religião. No palácio do Calhariz, dos Duques de Palmela, os tetos do andar nobre são da sua produção. São notáveis as pinturas de Pedro Alexandrino no coche de D. Maria Benedita, que está no Museu dos Coches, e a grande tela da ermida de S. Pedro de Alcântara, representando S. João Batista. O auto-retrato do artista, feito em 1775, pertencia à coleção da casa dos marqueses de Borba61. 3.1. ESTUDOS DAS PINTURAS DE PEDRO ALEXANDRINO EM BELÉM DO PARÁ. Há uma estreita relação entre o texto e a imagem no período barroco: as imagens das palavras e as palavras das imagens. O discurso Literário e Plástico são formas cognitivas que aludem a uma linguagem própria. Entendemos que neste período, a informação textual toma viva 61 História da Arte Portuguesa: do Barroco a Contemporaneidade 3º Volume – A Pintura da Segunda metade do Sec. XVIII - Lisboa pag. 145 Foto 34 Santa Cecília- Sec.XVIII. Autor Pedro Alexandrino de Carvalho; Acervo do Museu do Patriarcado de Lisboa 47 em uma imagem como meio de comunicação, é formada por informações iconográficas e iconológicas que circulavam entre as Irmandades, Confrarias e nos Núcleos Artísticos (escolas ou oficinas). Essas temáticas religiosas, tendo como exemplos a comunhão, os êxtases e as visões sobrenaturais, integravam-se em igual medida e sentido no ornamental aos grandes sermões. Todo esse universo fazia parte de um grande apelo, que era o referencial e parâmetro da fé. É nesse contexto que as telas dos altares parietais da Igreja de Santana se inserem, existindo uma grande narrativa plástica sobre São Miguel, e o Bispo de Alexandria. As duas telas de Alexandrino que se encontram nos altares parietais laterais da igreja de Santana representam, do lado da Epístola, São Miguel Libertando as Almas do Purgatório e, do lado do Evangelho, a Visão do Bispo de Alexandria no Cárcere. Alexandre Rodrigues Ferreira relata em sua Expedição Filosófica documentos encontrados por Ernesto Cruz na Biblioteca Nacional62 nos apresenta o seguinte relato: (...) Tem só três altares; com imagens de vulto à Capela Mór, (esta mandou fazer por sua devoção Antônio José Landi, e deu por ela 320 mil reis ao estatutário José de Almeida e enriqueceu de uns brincos de diamantes abrilhantados do preço de 82 mil reis. Além disso mandou vir a relíquia de 1 osso de S. Ana e sua custódia de prata). Tem dois altares laterais no corpo da Igreja com seus retábulos e pinturas de Santos, um retábulos é de São José que mandou fazer em Lisboa o Landi, por 95.000 reis e pela moldura e dourados pagou 6 milheiros de pau de cedro e 60.000 reis pelas pinturas. De modo que a sua esmalta monta 6.000 cruzados: o outro retábulo é das almas, para que também deu o Landi a madeira de Cedro, as talhas de todos três ainda estão por dourar (...)63 . Apesar de não se ter encontrado nenhuma documentação que comprove a autoria dos quadros, é possível dizer através de outras pesquisas que elas foram realizadas pelo pintor Português Pedro Alexandrino de Carvalho. A Pesquisadora Anne Louisse que estuda Pedro Alexandrino afirma que é um raro exemplo de assinatura as obras da Igreja de Santana em Belém, pois na maioria das vezes ele assinava apenas P. A., P. Alex. ou P. Alexandrino e em suas obras de 62 CRUZ Ernesto Op. Cit. Igreja de Santana pag.314 Apud. Alexandre Rodrigues Ferreira Viagem Filosófica 63 Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira, Biblioteca Nacional Foto 35. Altar lateral da Igreja de Santana em Belém, onde está uma das telas de Pedro Alexandrino de Carvalho 48 Belém do Pará ele escreveu Pedro Alexandrino conforme podemos verificar na Ilustr.(34). Ela atribui ainda que talvez ele tenha assinado por se tratar de uma encomenda de fora de Portugal e, portanto um local onde as pessoas ainda não lhe, conheciam e era uma forma dele fazer-se conhecido em outros lugares do Reino Português. Não sabemos qual foi o motivo dele ter assim identificado suas pinturas, mas sabemos que nesta época era a época Pombalina e o irmão do Marques acabava ter sido o Governador da Província do Grão-Pará, e sua estada em Belém pode ter estreitado os laços entre e a cidade de Belém e o Reino. A carreira de Alexandrino se fortalece no decorrer da década de 1750. Mas foi de fato á partir de 1760 que o pintor colaborou de maneira mais efetiva com artistas que já estavam com determinada fama, trabalhando, portanto com seu mestre, Berardo P. Pegado, em 1761, na decoração do teto da escadaria da Fundição, no que hoje é o Museu de Artilharia. Enquanto a área central do teto era pintada por Bruno José do Vale, Alexandrino e Pegado executaram as Quatro Partes do Mundo nos lados. Depois, em 1764, o artista colaborou com Roque Vicente, pintando algumas figuras em dois quadros representando Santa Ana e Santo António, ainda hoje conservados na igreja de Santa Isabel, em Lisboa.64 Anne Louisse divide o trabalho do Artista em duas fases, sendo que a primeira fase vai até um pouco antes 1778, quando ele executa trabalhos menores tais como decorações para teatros, pinturas murais decorativas, assim como painéis de carruagens, em 1777, por exemplo, ele pintou os painéis da carruagem da rainha D. Maria I para as celebrações da consagração da Basílica da Estrela por menores que sejam estes trabalhos encomendados pelos membros da corte, são testemunhas de certo prestígio de que gozava o artista. Foi, porém, no decorrer dos anos de 1770 que a carreira de Alexandrino teve um verdadeiro impulso e a outra fase que é a 64 MACHADO Cyrillo Op. Cit., 1911 pag. 91 Foto 36 Tela do Pintor Pedro Alexandrino detalhe da assinatura e da data das pinturas nas telas da Igreja de Santana em Belém do Pará 49 seguinte é aquela onde ele adquire mais fama e reconhecimento, que é quando ele pinta para a Sé Lisboa em 1778, executa O Salvador do Mundo (Pag.49), considerada pelos críticos sua obra prima. Coincidentemente a referida obra, ao lado apresentada, tem a mesma data das obras de Santana, o que nos permite considerar que as obras de Santana, são obras de um período, muito significativo de Portugal sendo um dos melhores momentos da carreiradeste pintor, o que podemos deduzir que ele já era neste momento um pintor de grande reputação no cenário artístico do reino e que ao remetê-las para Belém, dá a Cidade um grande importância, pois elas são certamente pinturas de um excelente momento de Pedro Alexandrino, o ano em que ele obteve fama e prestígio. De acordo com os documentos encontrados sobre a encomenda e o pagamento das telas (pág. 47 , nota 62), é possível dizer que não é difícil que Landi tenha conhecido Pedro Alexandrino pessoalmente em Portugal , pois que Landi permaneceu por três anos em Lisboa de 1750 a 1753, esperando embarcar para o Brasil, com a comissão demarcadora de limites, o pintor Pedro Alexandrino executava algumas pinturas em Mafra, portanto como os dois estavam em Lisboa, circulando pelos mesmos ambientes e estava sendo feita a reconstrução de Lisboa após o terremoto 1750, não seria raro que os dois tenham se conhecido e quando Landi precisou de telas para os s altares na Igreja de Santana em Belém, por ele projetada, pode ter recorrido ao pintor que já havia conhecido anteriormente e que naquele momento estava no auge de sua carreira artística. Foto 37- Salvador do Mundo, 1778. Óleo s/ tela. Acervo do Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa 50 3.2.1. SÃO MIGUEL LIBERTANDO AS ALMAS DO PURGATÓRIO As obras de Pedro Alexandrino, que estão em Santana são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Artístico Brasileiro e se constituem como Bens Móveis e Integrados da Igreja de Santana. A primeira obra que vamos falar está representada, do lado da Epístola, Pedro Alexandrino assinou seu nome por inteiro, forma rara dele se apresentar, como já falamos anteriormente, por enquanto, é o único exemplo conhecido de assinatura do nome completo de Pedro Alexandrino, é muito provável que Alexandrino não tenha tido, pelo menos ao princípio, tanta fama no Brasil como tinha em Portugal, incitando-o então a deixar o seu nome inteiro e qualquer que seja a razão dele ter assim identificado suas pinturas, não podemos duvidar de que se tratou de uma encomenda muito importante. Por um lado, a cidade de Belém, gozando, entre outros, da aproximação recente que havia se estabelecido através do irmão do Marques de Pombal, Mendonça Furtado que estava no Grão Pará quando chegou o Arquiteto Landi tornando uma cidade conhecida e importante no reino e mantinha relações com Portugal. Na tela de Santana, São Miguel esta representado como arcanjo protetor das almas cristãs, usando armadura e casco e segurando o estandarte de Cristo com uma cruz no final. Segundo a doutrina, cristã São Miguel tem uma missão escatológica, pois estará ao lado do Senhor no Juízo Final, quando então trará arvorada a Santa Cruz.. Ele aparece, no centro numa versão Foto 38- São Miguel Libertando as Almas do Purgatório, 1778, Óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho- Acervo Igreja de Santana - Belém-Pará Fonte: Fórum Landi 51 moderna de São Miguel, pois o mesmo desde a antigüidade tem grande relevância de culto às Almas confirmadas pelo lugar destacado de seu altar, sempre na proximidade do arco-cruzeiro ao lado da Epístola (como em Santana) em obras cuja datação é mais recuada, ele traz uma bota pesada e austera. Em fins do primeiro quartel dos setecentos, o rude calçado vai dando lugar a uma sandália vazada apenas nos dedos, como é o caso de São Miguel de Santana que tem um arremate trabalhado nas bordas, demonstrando-se, assim, a intenção ornamental. No geral, as imagens datavam da primeira metade do século exibem as pernas bem recobertas por um calçado fechado. A partir de então, desenvolve-se uma versão graciosa: a sandália de tiras trançadas à moda Guido Reni65 colocando à mostra os pés e as pernas do Arcanjo. Desse modo, nas imagens do Rococó há preferência pela leveza, elegância e sensualidade. São formas mais adequadas à vida urbana do que ao mundo rural. Essa trajetória, igualmente verificada no acervo europeu, evidencia a passagem de um modelo severo (Barroco) a outro mais arejado (Rococó). No caso da Santana de Belém a ênfase é para as Almas que ocupam o primeiro plano que, há de salientá-lo, está mais perto do espectador. Ele ousa pintar um inferno dantesco com chamas vermelhas demonstrando a dor que este grupo de pessoas está sentindo no purgatório, e seus corpos sofridos e nus, movimentam-se juntamente com seus braços, suplicando a misericórdia divina. Há um grande poder de Harmonia na disposição dos personagens e na distribuição do colorido. A paleta é sóbria, com um apurado vermelho, dos amarelos e dos marrons, em pincelada densa e saturada obra de influência tardia do barroco com sugestões claras de italianismo como Carlo Marrata e Guido Reni (com obras em Portugal, no Palácio Ducal e Viçosa, e com uma cópia fiel desta obra aqui apresentada na Igreja da Sé de Belém. 65 Guido Reni foi um pintor italiano de cenas populares e mitológicas e principalmente religiosas, bastante apreciadas pela crítica. Nasceu em Bolonha e começou a estudar pintura aos nove anos. Por volta de 1595, tornou-se discípulo dos Carracci, família de pintores de Bolonha. Reni sofreu grande influência da arte clássica e o estilo realista de sua primeira época contrasta com a exuberância barroca de seus contemporâneos. Foto 39- São Miguel, 1636, óleo sobre tela, autor Guido Reni, acervo Igreja de Santa Maria della Concezione, Roma. Fonte: Grande Enciclopédia da Arte Mundial 52 São Miguel compõe com seu retábulo que Myriam Ribeiro relaciona ao temas Borromínicos e motivos do Baroochetto Italiano, pois possui uma moldura em talha dourada com frontões contracurvados capitéis com volutas, com a guirlanda de flores, esta obra reproduz a dramaticidade que era imposta pelo Barroco, e se revelava aos cristãos como uma fórmula de alcançar a Salvação, pois no alto da tela está São Miguel empunhando a bandeira da paz, acompanhado por anjinhos que trazem a Mensagem “Quis ut Deus", para não deixar dúvidas para os que no purgatório estão “Aqui está Deus” No que diz respeito aos modelos de composição, deve-se notar que o artista, além de usar sistematicamente gravuras, levando-o a repetir as suas composições, retomava as mesmas figuras em obras diferentes, criando assim uma maneira fácil que contribuiu para um estilo muito próprio A temática de São Miguel libertando as Almas do Purgatório (Ilust 39) freqüentou contínuas vezes o pincel de Alexandrino. De fato, o artista representou-a inúmeras vezes, quer em Lisboa, quer fora de Lisboa. Aliás, o quadro que se encontra na igreja dos Mártires, na capital portuguesa, é praticamente uma cópia da tela da igreja de Santana. As duas obras foram certamente executadas segundo o mesmo modelo – provavelmente uma gravura – a de Lisboa mostrando, porém, uma maior movimentação e habilidade na execução e uma técnica mais afirmada. São na verdade, inúmeros os casos de repetição de figuras ou mesmo de esquemas de composição, no caso das obras de Alexandrino, pode ser explicado em parte pelo fato do artista ter as gravuras à mão como recurso para compor as suas obras e também pela necessidade de atender a grande demanda de encomendas de pinturas. Como já havia o século XVII, a prática de usar cópia de gravura, o que permitia ao pintor acelerar o processo de criação, todos a utilizavam vorazmente, o único problema que esta velocidade para entregar as encomendas ameaçava a qualidade das suas obras. Foto 40- São Miguel e as Almas Autor Sec. XVIII Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Acervo: Museu do Patriarcado de Lisboa 53 3.2.2. VISÃO DO BISPO DE ALEXANDRIA NO CÁRCERE O outro quadro de Santana, A Visão do Bispo de Alexandria no cárcere também tem assinatura como a da primeira de Pedro Alexandrino que falamosanteriormente ela também está localizado em um altar lateral no lado do Evangelho e levanta uma questão em sua iconografia segundo relata Anne Louisse ainda não está bem resolvidos. Tem a ver com a identidade do personagem designado como “Bispo de Alexandria”. Ela diz que o nome que encontrou foi o fornecido por Leandro Tocantins, “São Pedro Alexandrino”, nome que, de toda evidência, procede de uma confusão com o nome do pintor. Ela acredita que o nome que ficaria mais perto do divulgado pelo autor é o de Santo Alexandre. A sua fama deve-se, sobretudo a sua contribuição para esmagar a heresia ariana. Ele foi também o protetor de Atanásio que viria a ser um dos Doutores da Igreja. Sendo diretamente, associado a Alexandria e beneficiando da maior popularidade entre os três santos deste nome, para Anne Louise parece-ser o mais provável que ele seja o homem representado na tela de Santana. Porém, como não se fala, a respeito da sua vida, nem do cárcere, nem da visão, permanece a dúvida. O Outro personagem que ela pensa que também pode ser é, que poderia corresponder ao da tela foi bispo de Jerusalém e mártir no século III. Este Santo Alexandre foi aluno na escola de Alexandria, mas não chegou a ser bispo desta cidade. Ele sofreu as perseguições de Septímio Severo, sob o qual passou longos anos encarcerado. Depois de uma Foto 41. A Visão do Bispo de Alexandria 1778- óleo s/ tela Autor: Pedro Alexandrino de Carvalho. - Acervo: Igreja de Santana em Belém do Pará. Fonte: Fórum Landi 54 temporada em Jerusalém, ele sofreu novas perseguições no reino de Décio e acabou morrendo na prisão de Cesareia, em 150. Este fim trágico o levou a ser incluído no martirológio romano.66 Apesar de ter sofrido encarceramento, este homem não parece ter ligações suficientes com Alexandria para o considerarmos a personagem da tela de Santana. Entretanto acreditamos que exista uma possibilidade de ser São Pedro de Alexandria conforme relata Leandro Tocantins, pois Pedro I de Alexandria santo mártir da Igreja foi bispo em Alexandria e durante o Império Romano, tempo em que esteve no bispado, o cristianismo sofreu sua perseguição mais terrível, que foi a do imperador romano Diocleciano, que começou em 303 e continuou com intermitência durante os próximos dez anos. Os relatos sobre a posição de Pedro durante a perseguição variam, mas parte destes afirma que ele esteve preso durante muito tempo. Pedro de Alexandria escreveu várias obras teológicas. Sua produção concentrou-se, especificamente, na crítica aos pensamentos de Orígenes. Sobre a alma e Sobre a ressurreição. O historiador Severus de Ashmumeen, do décimo século, conta como o Patriarca teria sido preso durante a perseguição de Diocleciano, e sendo o imperador informado sobre a prisão do religioso, ordenou que Pedro fosse decapitado imediatamente o que teria sido impedido de imediato por um número grande de cristãos que se reuniram junto à prisão desejando morrer pelo seu Patriarca. Os soldados retardaram a execução, temendo um massacre da multidão ou criar uma revolta. Assim um dos homens foi adiante, criou coragem e cortou a cabeça do santo mártir e 66 CARVALHO J. Vaz de, “Santo Alexandre”, Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. I, 1998, col.1310. Vide também «Saint Alexandre d’Alexandrie», Dictionnaire historique des saints, Paris, 1983, p. 44. Foto 42. Santo Antônio de Lisboa- Sec.XVIII. Autor Pedro Alexandrino de Carvalho /Acervo do Museu do Patriarcado de Lisboa 55 patriarca; sendo que aquele dia era o o 19º de Hatur67 ( mês do calendário copta,) que corresponde aproximadamente a novembro. O martírio de São Pedro I de Alexandria, aconteceu no ano 311, entretanto no calendário ocidental ele seria dia 25 ou 27 de Novembro, dia em que nasceu o pintor Pedro Alexandrino, e em alguns calendários católicos este é o dia de São Pedro de Alexandria, que pode ter relação com o dia do nascimento do pintor Pedro Alexandrino, dia 27 de novembro. Portanto é possivel que o pintor tenha se homenageado através da obra que ele pintou para Santana de Belém, muitas vezes os artistas deixavam em suas obras algumas coisas que se relacionavam diretamente as suas vidas, pois não há registros que este tema tenha sido pintado novamente por ele, esta é uma hipótese levantada neste trabalho, mas acredito que de forma nenhuma possa ser descartada. E ainda segundo Anne Louisse, como não se conhece nenhuma outra tela que trate deste tema, pode-se se constatar que estamos diante de uma pintura única e portanto original 68 O Tema da Visão de Santos é um tema que Pedro Alexandrino vai realizar várias vezes e em várias delas ele também vai utilizar a figura ajoelhada diante da visão, portanto o bispo ajoelhado com as mãos ao peito e o olhar de misericórdia e perdão para o Menino e São José vai ser um modelo recorrente desta temática, pois foi assim que Alexandrino representou Santo Antônio de Lisboa diante da Virgem e do Menino obra que está no Museu do Patriarcado de Lisboa, ilustr.(39) também, podemos identificar na Visão do Bispo de Alexandria assim como a de São Miguel, algumas características próprias da arte de Alexandrino; e bem comum o artista representar acima das representações principais, anjos adolescentes ou anjinhos delicados e graciosos em cores vivas e vibrantes que fazem com que a paleta de Alexandrino seja sempre reconhecida e sua pintura tenha uma autoria incontestável. Na tela de Santana acima do Bispo e de São José com o menino, aparece Deus Padre de meio corpo, segurando o bastão com uma mão, e com a outra fazendo, o sinal da benção atrás da sua cabeça, vê-se o triângulo da Trindade Santa, um pouco abaixo a pomba do divino espírito santo plainando sobre as figuras do Bispo e de São José com o Menino numa alusão clara de “Deus está aqui neste momento”69 Nesta como em outras obras de Pedro Alexandrino é possível estabelecer as mensagens claras do barroco isto é os personagens parecem estar todos em movimento, a 67 SiIMONETTI M. "Pedro I de Alexandria". Dicionário Patrístico e de Antigüidades Cristãs. Petrópolis: Vozes, 1001, p. 1114. 68 FONSECA Anne Louisse, Op. Cit, 2003 69 GERD HEINZ-MOHR Dicionário dos Símbolos: Imagens e Sinais da Arte Cristã . São Paulo -Paulus ,1997 MACKENZIE, J. L. (S. J.) Dicionário Bíblico. São Paulo, Edições Paulinas, 1984. 56 religiosidade do bispo exalta quase pra fora da obra, pois ele esta sendo levado ao martírio, mas de forma nenhuma negará a sua fé no cristianismo, apresenta uma carga dramática e tenta ainda conciliar forças antagônicas característica da pintura barroca: pureza e pecado; alegria e tristeza; paganismo e cristianismo; espírito e matéria, tudo sempre realizado com um pincel livre, e com as cores vivas e naturais que dão as suas composições uma graça e uma beleza singular conforme nos afirma o crítico em artes ao falar das obras de alexandrino José da Cunha Taborda em suas Regras de Pintura de 1815. Pedro Alexandrino pintou até aos últimos dias de sua vida, que terminou em 17 de Janeiro de 1810 com 80 anos de idade. Jaz na Igreja de S. José sem epitáfio, segundo o uso do país. O seu retrato, pintado por ele mesmo pelos anos 1775 existe na coleção de Borba70. Podemos confirmar ainda por tudo que analisamos neste trabalho que este pintor excedeu muito as aulas de seu mestre o superando certamente; e que ele teve a felicidade de ir até a Itália, e lá pode observar os melhores autores da época não só se igualou, mas em muito momento teria excedido, porque seu talento era superior. Todavia não obstante carecer destes socorros soube abrir um caminho largo, formando uma maneira fácil e toda sua. Portanto polêmicas á parte estamos diante de uma obra de arte de singular significado quer sejapara a História da Arte Luso-Brasileira, quer seja para a História da Colonização Portuguesa na Amazônia. Pois dela emana uma carga de elementos utilizados que nos revelam uma cidade que ainda estamos por conhecer. 4. CONCLUSÃO Tratamos aqui do universo da pintura como fonte iconográfica para história Religiosa, cultural, social e estética da cidade de Belém na Amazônia Brasileira do Sec. XVIII, com ênfase para a segunda metade deste século. A arte religiosa Luso-Brasileira que aqui esteve presente fez um papel importante no cenário desta região da Amazônia e não esteve apartada do que estava sendo feito em Portugal e na Europa. A Arte Religiosa do inicio do período Colonial encontrou formas privilegiadas de expressão. No caso de Belém a de se ressaltar que as ordens religiosas que pra cá vieram tiveram o apoio do Estado onde eles continuaram alimentando a fé cristã nas fontes Medievais nas diversas versões do barroco ampliando as grandes igrejas e os conventos. 70 História da Arte Portuguesa: do Barroco a Contemporaneidade 3º Volume-A Pintura da Segunda metade do Sec. XVIII - Lisboa pag. 145 57 Os religiosos tantos os da capital do Império português como de outros locais da Europa aportaram em. Belém e transformaram a cidade que até aquele momento era um simples vilarejo, promoveram um novo cenário urbanístico, trouxeram experiências urbanas de outros centro e as implementaram, través de novos desenhos e grandes construções, verdadeiros monumentos que hoje nos revelam narrativas que nos permitem algum entendimento, daquele momento Social da cidade. Podemos certamente considerar que a finalidade da conquista do território que provocou o nascimento de Belém, e o inicio de sua urbanização, teve consequentemente desdobramentos de diversas ordens, tanto de ordem físico-espacial e político, quanto em termos simbólico-culturais e econômicos, e podemos concluir ainda que o papel de conquista e de fronteira deve ser entendido num contexto muito mais amplo, que envolve o âmbito internacional. Para um melhor entendimento e a fim de fazer um relatório sobre as decorações de pinturas realizadas em Belém , foi importante fazer primeiro um levantamento das obras de pinturas que ainda existem nas Igrejas de Belém e Vigia, pois pretendia registrar e entender como as diferentes ordens religiosas se comunicaram com os habitantes que aqui estavam , sabemos que a pintura sempre foi uma execelente estratégia de comunicação, registrar a existência dessas várias pinturas e qual era as suas narrativas nos reforça o entendimento de que não há necessidade de encontrarmos seus autores, nem quem as pintou, pois este não é um detalhe imprescindível à análise de suas imagens, claro que pode ajudar a elucidar alguns aspectos alegóricos e simbólicos presentes na obra. Mas o mais importante é abordar essas imagens e percorrer os caminhos que as trouxeram e em que contexto elas foram inseridas, não podemos esquecer que a trajetória que estes religiosos fizeram foi gigantesca. A cidade de Belém está situada do outro lado do atlântico, próxima ao equador, dentro de uma imensa Baia fluvial do Amazonas, um lugar naquele momento inóspito e certamente muito diferente das terras de onde vieram. O estudo Iconográfico o qual me detive faz parte da segunda metade do Sec. XVIII, quando acontece um fato diferente das outras capitais Brasileiras, pois aporta em Belém e fica por uma grande temporada um arquiteto Italiano Antônio José Landi(1713-1791) chegou como desenhista enviado pelo governo português com a finalidade de fazer as demarcações das fronteras da Região Amazônica encontrou já uma cidade que começava a asimilar um gosto Italiano na vertente pombalina a través das portadas e enquadramentos em lioz como da catedral e Igreja das Mercês. È importante de se dizer que Belém teve alguns aspectos muito diferentes com relação ao estilo empregado nas suas construções, segundo Myriam Ribeiro, Landi percorre e 58 estabelece as duas correntes diferenciadas do barroco tardio, a classicizante e a borromínica que dividiam os estilo arquitetônicos de Roma naquele momento. Onde ela explica que em Belém ele impõe a vertente Clasicizante com inspiração da Academia Clementina em Bolonha, quando faz as novas construções como São João e Santana e ao mesmo tempo ele usa alguns temas borromínicos, no que tudo indica, esta relacionado com a sua estada em Lisboa. Nas decorações internas da Sé e do Carmo de Belém. Mas ao estudar as telas do pintor Pedro Alexandrino que fazem parte dos elementos interiores de decoração da Igreja de Santana, projetada e construida por Landi, tenho a pretensão de entender o discurso visual que a Igreja queria propor naquele momento, pois sabemos que nos altares parietais barrocos que são em sua maioria dedicados aos santos nas diversas igrejas, o que emerge do discurso visual é a necessidade de manter o ritual, de reforçar o dogma, de insuflar os ânimos através da Fé: não há, necessariamente, precisão de se saber quem fez as imagens, já que é aquilo que elas representam o que realmente importa. Vale aqui lembrar que normalmente a decoração interna das igrejas, no Brasil colonial, demandava o trabalho de gerações sucessivas de religiosos, que tentavam estabelecer relações entre as diferentes fases da construção, fosse através de um planejamento prévio, fosse através de adaptações sucessivas de um conceito geral que norteava o repertório iconográfico de cada ordem ou congregação. Entretanto não é o que acontece na Igreja de Santana em Belém, as pinturas dedicadas a São Miguel levando as almas do Purgatório e a da Visão do Bispode Alexandria, além do discurso dogmático, estão carregadas de um valor estético e histiográfico, pois foram realizadas por um gande artista Portugues que impôs em suas obras marcas indeléveis. Alexandrino empregou exuberantemente as suas aptidões, ora pintando largas composições, ora assuntos de pouca monta enquadrados em restritas dimensões. Com a mesma prodigiosa facilidade pintava a óleo, a têmpera e a fresco. Para tudo estava disposto e o seu traço não se confundia. Dessa facilidade para a pintura e da acessibilidade que era todos os processos da arte evidenciou, resultando em um grande legado deixado por ele, impressionava a notável delicadeza com que tratou as crianças e anjos e a insistência com que produzia obras para casas religiosas, de que lhe provejo a designação de “pintor de frades”. É opinião dos seus biógrafos que os melhores quadros da sua autoria são S. Cristóvão e O Salvador do Mundo, que ladeiam a porta principal da Sé de Lisboa; coincidentemente ou não são datados da mesma época dos quadros de Santana em Belém, Portanto as obras de Belém pintadas por Alexandrino fazem parte de um momento de consagração do pintor e cumpriram e cumprem a sua função religiosa que era a de: evangelizar os novos seguidores com as imagens cristãs, preconizar através das narrativas a salvação futura, 59 promover o perdão aqueles que se arrependessem do pecado e possibilitar a misericórdia ao pecador, assim sendo, podemos constatar que estas pinturas possuem atributos que a qualificam como uma pintura barroca através de seu conteúdo, pois esta forma artística se revelava como um instrumento que imprimia os dogmas do cristianismo e possibilitava as ações ofício religioso. Porém também é uma composição muito bem organizada que utiliza elementos importantes do repertório plástico como à forma a perspectiva o domínio do desenho com cores de uma paleta vibrante e experiente que imprimia a beleza a graça e harmonia plástica reunindo as qualidades que lhe proporcionam uma unidade perfeita através de uma composição estética bem realizada elaboradas de tal forma que torna impossível desassociar sua forma e o seu conteúdo. Alexandrino Foi um dos diretores da Academiado Desenho intitulada do Nu. Não foi possível de destacar todos os seus trabalhos em particular; porque é um grande número, principalmente nas Igrejas de Lisboa, eles adornam grande parte delas. O seu pincel é livre, as cores vivas, e teve natural propensão para pintar com singular beleza os meninos, que dão tanta graça as suas composições, e que na verdade encantam; e se tivesse apreciado mais seu talento, teria feito melhor fortuna. Conservou-se sempre em boa disposição até a idade de 80 anos, quando encerrou sua longa carreira a 17 de janeiro de 1810; cujas cinzas repousam na Paróquia de S. José desta cidade. Teve muitos discípulos, entre estes se distinguirão Joaquim José de Sampaio, Felisberto Antonio Botelho, e Henrique José da Silva que também viveram com boa reputação. As obras de Pedro Alexandrino pertencentes à Igreja de Santana de Belém são jóias do patrimônio de Belém, e como tal precisam ser restauradas e conservadas, pois fazem parte de um momento da historiografia, onde há muito por pesquisar, e, portanto se revelam como fontes de impressionante beleza histórica cultural e estética. 60 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E FONTES ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e persuasão: ensaios sobre o barroco. Organização de Bruno Contardi. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 60. 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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 9, n. 1, p. 103-121, 1994. GERD HEINZ-MOHR Dicionário dos Símbolos: Imagens e Sinais da Arte Cristã –Paulus ,1997 GINZBURG, Carlo. A arte italiana. In: ______. A micro-história e outros ensaios. Tradução de António Narino. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991, p. 86. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira:Ilustrada com cerca de 15000 Gravuras Volume I Editorial Enciclopédia Ltda. –Lisboa- Rio de Janeiro História da Arte Portuguesa: do Barroco a Contemporaneidade 3º Volume-A Pintura da Segunda metade do Sec. XVIII – Lisboa LAMEIRA Antônio Rodrigues de Pinto “O Bispado do Pará”. . Tomo 5º dos Anais da Biblioteca e Arquivo público do Pará, pág. 10. MANGUEL, Alberto. Lendo Imagens: uma história de amor e ódio [Trad. Rubens Figueiredo Rosaura Einchemberg, Claudia Straucch]– São Paulo Companhia da Letras, 2001. MACKENZIE, J. L. (S. J.) Dicionário Bíblico. São Paulo, Edições Paulinas, 1984. 61 MARANHÃO, Haroldo. Pará, Capital: Belém, Memórias & Pessoas & Coisas da Cidade. Belém: Prefeitura Municipal de Belém , 2000. MEIRA FILHO, Augusto. Contribuição à História de Belém. Belém. 1973. 2 v. _____________. Evolução Histórica de Belém do Grão Pará, 1 vols., Grafisa., Belém 1976 MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho, Antônio José Landi (1713-1791) Um artista entre dois Continentes. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian- Coimbra –Portugal 2003 MUNIZ Palma– “Delimitação Inter-Municipal do estado do Pará”. Anais da B.A.P. do Pará 9º Volume páginas 617. LEITE, Padre Serafim – História da Companhia de Jesus no Brasil / 3º Volume, PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Tradução de Maria Clara F. Kneese; J. Guinsburg.3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 18-19. RAMOS, Alberto Gaudêncio. Cronologia Eclesiástica da Amazônia..Manaus, 1951 RIBEIRO Myriam A. Oliveira O Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus, Editora Cosac & Naifi , São Paulo. 2003 SERRÃO, Vitor. 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Belém, Universidade Federal do Pará, 1970. 62 FONTES Biografia escrita relativa aos santos http://pt.wikipedia.org/wiki/Lúcio_Costa FONSECA, Anne-Louise G. Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810): pintura portuguesa em Belém do Pará. In: SEMINÁRIO LANDI E O SÉCULO XVIII NA AMAZÔNIA, 2003, Belém. Biblioteca Virtual Fórum Landi. http:/www. Forumlandi.com.br Coleção de Mapas de Belém Sec. XVIII. Comissão Demarcadora de Limites Caixa 26. CRÉDITOS DAS FOTOGRAFIAS DAS IMAGENS Igreja da Sé: Imagens das Telas: Otávio Cardoso Igreja de Santo Alexandre: Imagens das Telas: Paula Rodrigues Imagens dos Tetos da Sacristia e Consistório: Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra – Belém : SECULT. Pará 2005 Igreja do Carmo Imagens da Tela: Rosa Arraes Igreja de Santana Imagens das telas: Fórum Landi Igreja das Mercês Imagens da Tela: Rodolfo Braga Igreja do Rosário dos Homens Pretos Imagens da Tela: Paula Rodrigues Igreja de Santo Antônio Imagens do Forro da Sacristia: Janduari Simões Igreja da Ordem Terceira de São Francisco Imagens das Telas: Carlos Borges Igreja de São João Imagens das Pinturas de Quadratura e Telas: Elna Trindade Igreja da Madre de Deus em Vigia Imagens da Pintura do Teto e das Telas: Rosa Arraesmoment; they represent religious themes with narratives that we pretend to reveal, including them as symbols to the Portuguese-Brazilian Art History. 7 LISTAS DAS IMAGENS Foto 1. Pintura do teto da Sacristia do Convento de Santo Antônio -1774 - Pag. 14 Foto 2. Detalhe da Pintura da Sacristia do Convento de Santo Antônio em Belém do Pará da Sacristia Pag. 15 Foto 3. Detalhe maior da pintura do tipo quadratura de onde pode ser visto o teto abobadado da Sacristia de Santo Antônio em Belém Pag. 16 Foto 4. Santa Clara Religiosa, óleo s/ tela autor desconhecido Sec.XVIII. Pag. 17 Foto 5. Santa Coleta , óleo s/ tela autor desconhecido Sec.XVIII. Pag. 17 Foto 6 São Miguel óleo s/ tela autor desconhecido Sec.XVIII. Pag. 17 Foto 7. Santa Isabel óleo s/ tela autor desconhecido Sec.XVIII. Pag. 17 Foto 8.Visitação a Santa Isabel Óleo s; tela atribuída a escola italiana de Pintura Pag. 18 Foto 9. Sacristia de Santo Alexandre óleos s/ madeira- autor desconhecido Pag. 20 Foto 10. O Calvário Óleos s/ tela autor desconhecido Pag. 21 Foto 11. Santa Ceia . Óleo s/ madeira Sec. XVIII autor desconhecido Pag. 22 Foto 12. Consistório de Santo Alexandre Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 24 Foto 13. Consistório de Santo Alexandre Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 24 Foto 14. Sacristia de Santo Alexandre Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 24 Foto 15. Sacristia de Santo Alexandre Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 24 Foto.16. Sacristia da Igreja Madre de Deus Sec.XVIII autor desconhecido Pag.25 Foto 17. Concepção de Maria óleos s; tela Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 26 Foto 18. Visitação de Maria a Isabel Óleo s; tela Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 26 Foto 19. O Nascimento de Cristo Sec.XVIII autor desconhecido Pag.26 Foto 20. A Sagrada Família Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 26 Foto 21. O Nascimento de Cristo Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 27 Foto 22. A visita dos Reis Magos Sec.XVIII autor desconhecido Pag. 27 Foto 23. Igreja de Nossa Senhora das Mercês Desenho aquarelado Autor José Codina 1783 Pag. 28 Foto 24. A Sagrada Eucaristia- óleo s/ tela, autor e data desconhecidos Pag, 29 Foto 25. Santa Bárbara óleos s/ tela Autor Manoel da Costa Sec. XVIII Pag. 31 Foto 26. São Domingos óleos s/ tela Autor Manoel da Costa Sec. XVIII Pag. 32 8 Foto 27. Planta da Cidade de Belém 1791, Autor Teófilo Chermont, Pag. 34 Foto 28. Natividade óleo s/ tela Sec.XVIII autor Desconhecido Pag 35 Foto 29. São João Evangelista, Sec. XVIII óleo s/ tela Autor Francisco Figueiredo Pag. 36 Foto 30. Pintura de Quadratura Sec. XVIII Autor Antônio Landi Pag.37 Foto 31. Fachada da Igreja de Santana Sec. XVIII Desenho de Antonio. Landi Pag. 39 Foto 32. São Domingos, 1770, óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag. 42 Foto 33. O Martírio de São Braz Sec. XVIII óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag.45 Foto 34. Santa Cecília Sec. XVIII óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag.46 Foto 35. Altar Lateral da Igreja de Santana Pag.47 Foto 36. Assinatura do pintor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag.48 Foto 37. Salvador do Mundo, 1778. Óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag. 49 Foto 38. São Miguel Libertando as Almas do Purgatório, 1778, Óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag. 50 Foto 39. São Miguel, 1636 Óleo s/ tela Autor Guido Reni- Igreja de Santa Maria de Concezione -Roma Pag. 51 Foto 40. São Miguel e as Almas, Sec. XVIII, Óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag. 52 Foto 41. A Visão do Bispo de Alexandria,1778, Óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag. 53 Foto 42. Santo Antônio de Lisboa, Sec. XVIII Óleo s/ tela Autor Pedro Alexandrino de Carvalho Pag. 54 9 INTRODUÇÃO A história da Arte Luso-Brasileira tem sido feita apenas no sentido de se procurar encontrar as grandes linhas de intercomunicação entre, os sentimentos artísticos das sensibilidades de. Portugal e Brasil Apesar da existência de um número já bastante razoável de estudos da autoria de pesquisadores brasileiros e portugueses, a verdade é que ainda se conhece muito pouco, sobre o referido assunto. Na sua maioria é comum fazer a pesquisa no sentido de lá, para cá de Portugal para o Brasil. um paternalismo que tem sido bem aceito pelos brasileiros, e permite que em todos os registros de História da Arte no Brasil fique claro que após o descobrimento as primeiras manifestações artísticas tenham sido de caráter religioso, resultantes em parte das providências das ordens religiosas que pra cá vieram e importaram obras executadas no reino Português, ou na Itália berço do Barroco. O Barroco chega ao Brasil no Séc. XVIII pelas mãos dos colonizadores, sobretudo portugueses, leigos e religiosos com habilidades em arquitetura, esculturas ou pinturas que ensinavam ou influenciavam artistas populares locais, que ora tentavam manter a tradição, ora copiavam ou reinterpretavam modelos eruditos, trazidos pelas ordens religiosas. Foi entre os séculos XVII e XVIII que a Igreja teve um importante papel na disseminação da arte colonial. As diversas ordens (Franciscanos, Mercedários, Beneditinos, Carmelitas, e Jesuítas)1 que se instalaram no Brasil a partir do século XVII desenvolveram uma arquitetura religiosa sóbria e muitas vezes monumental, com fachadas e plantas retilíneas de grande simplicidade ornamental, bem ao gosto maneirista europeu. São características do estilo barroco brasileiro as variações conforme as regiões. As primeiras manifestações do barroco aparecem nas fachadas e frontões, e principalmente na decoração de algumas igrejas do nordeste brasileiro, através do grande comércio de açúcar existente naquela região e de minérios no sudeste do Brasil as igrejas serão enriquecidas com elaborados trabalhos artísticas, relevos feitos em madeira que serão as talhas - recobertas por finas camadas de ouro, com janelas, cornijas e portas decoradas com detalhados trabalhos de escultura. Já nas regiões onde não existia nem açúcar nem ouro, as igrejas apresentam talhas menos eloqüentes, e menos ricas, pois nem sempre terão o douramento e a volumetria dramática característica do Barroco Na Pintura ocorreu um pouco diferente da talha, desenhistas e pintores ocuparam, durante a maior parte do período colonial, um papel secundário na produção artística da época. 1 BURY, John Bernard. Arquitetura e Arte no Brasil Colonial. Brasília, IPHAN / Monumenta, 1ª edição , 2006 10 As atividades que eles desenvolviam se enquadravam nas mais variadas atividades “mecânicas”, desde a elaboração de descrições topográficas para a construção de fortalezas, até a pintura de tábuas das bocas das sepulturas, havendo, portanto uma fronteira muito tênue entre o que hoje chamaríamos arte (belas artes) e os ofícios mecânicos e artesanatos diversos. O estudo do desenho era requisito apenas para quem fosse trabalhar nas áreas de construção e engenharia, mas em outras áreas de estudo o suporte dado por esta atividade mostrou-se fundamental. É o caso, por exemplo, da chamada história natural, que contava com a fidelidade da reprodução dos elementos da natureza para a precisão dos seus estudos. José Joaquim Freire e Joaquim José Codina2, por exemplo, viajaram com a Expedição Filosófica liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira3 à região que hoje corresponde ao norte do Brasil. Os “riscadores,” como eram conhecidos os desenhistas dedicados ao registro científico do mundo, homem e natureza, produziram vários desenhos e aquarelas sobre a fauna e flora da região amazônica, e também acerca da vida das tribos indígenas, neste contexto podemos inserir o Arquiteto Antônio José Landi4 que fora contratado pelos reino português como “riscador” para participar nas viagens que a comissão demarcadorade limites realizou pelos interior da Amazônia , onde Landi registrou a Fauna e a flora da Amazônia e também participou como Arquiteto e construtor nas vilas e cidades por onde esteve. Suas obras buscavam criar um quadro objetivo e realista daquilo que retratavam, com o intuito de melhor aproveitar os elementos da nova terra, ao mesmo tempo em que indicavam quais os seus maiores perigos e ameaças. No final do século XVIII, muitos artistas viajaram para a Europa e trouxeram para a colônia técnicas mais aperfeiçoadas que seriam transmitidas para seus aprendizes. Mas foi apenas com a chegada da Família Real, se deram as condições básicas para que a arte do Desenho assumisse um papel primordial no aprendizado das belas-artes no Brasil. Com a vinda da comissão de artistas franceses e a necessidade do estabelecimento do ensino de 2 Nomeado em 1783 “riscador” da Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira ao lado de José Joaquim Freire. Ver BATES, Henry Walter. O naturalista no rio Amazonas (2 v.). São Paulo: Editora Nacional, 1944. 3 A expedição comandada pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), em princípio, seguiu os passos dos renomados desbravadores europeus.Contando com recursos precários, a Viagem Filosófica percorreu as capitanias do Grão, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá entre 1783 e 1791. O grupo era composto de um naturalista, um jardineiro botânico, Agostinho do Cabo, e dois riscadores (desenhistas), José Codina e José Joaquim Freire. Ao fim da jornada,retornaram a Lisboa apenas um riscador e o naturalista; Agostinho do Cabo e José Codina não suportaram as adversidades da mata tropical. A Viagem Filosófica foi concebida sob os auspícios da Academia das Ciências de Lisboa, Ministério de Negócios e Domínios Ultramarinos, e planejada pelo naturalista italiano Domenico Vandelli, radicado em Portugal desde o fim do período pombalino. O baiano Alexandre Rodrigues Ferreira formou- se bacharel pela Universidade de Coimbra, em 1778, recebendo meses depois o título de doutor. Sendossistente e discípulo talentoso de Vandelli, seria ele escolhido para comandar uma viagem filosófica pela América do Sul. Ver BATES, Henry Walter. O naturalista no rio Amazonas (2 v.). São Paulo: Editora Nacional, 1944. 4 Antônio Landi, formado na Academia Clementina de Bolonha, fazia parte da missão científica de Alexandre Rodrigues Ferreira, na Comissão Demarcadora de Limites realizando trabalhos de levantamento geográfico da Amazônia para a demarcação das fronteiras entre as possessões portuguesas e espanholas 11 artes e ofícios no meio acadêmico, seriam também regularizados os ensinamentos básicos de desenho em vista de sua aplicação nos estudos de escultura, gravura, arquitetura, entre outras modalidades. As pinturas existentes do século XVIII, serão realizadas na sua maioria por missionários que chegam e ensina o oficio da pintura aos seus discípulos, ou serão diretamente encomendada em Lisboa, neste caso sempre realizadas por grandes artistas que deixarão seus trabalhos em monumentos que até hoje são representações deste estilo, como é o caso das Igrejas Coloniais da Região Norte. Inserimos nesse contexto que as pinturas de Pedro Alexandrino pintor português, que se distinguiu sobremaneira por ter realizado um trabalho o qual temos Registros até hoje em Belém do Pará e principalmente em Lisboa, onde pintou igrejas, matrizes, basílicas, catedrais, capelas, correndo e socorrendo as varias hierarquias da arquitetura cristã. Pintou naves e sacristias, pintou altares e arcazes, compôs painéis laterais e centrais. Em Belém deixou seu nome registrado em duas pinturas de 1778, as quais fez por encomenda do Arquiteto Bolonhês Antonio Landi para decorar a Igreja de Santana que o referido arquiteto projetou e construiu em Belém do Pará, estas pinturas foram realizadas em telas que apresentam uma iconografia muito importante para o momento, nos desvelando um período muito especial para a História da Arte Luso-Brasileira, no último item deste trabalho foi dado uma especial atenção para as obras de Pedro Alexandrino de Carvalho que encontram-se na referida Igreja e ao analisarmos, procuramos desvelar parte da história que as mesmas nos relatam, pois as mesmas contém narrativas tanto do ponto de vista da história social, como da iconografia e composição estética. 1. AS ORDENS RELIGIOSAS NO PARÁ E AS CONTRIBUIÇÕES PARA ARTE COLONIAL. Segundo a pesquisadora Myriam Ribeiro é preciso ter claro que o Brasil sofreu as influências diretas das correntes estilísticas européias, e como Portugal encontrava-se dividido entre as duas correntes estilísticas que dominavam a arte européia no momento: o barroco tardio de influência Italiana, que havia prevalecido no período do reinado de D. João V (1766-1750) e as novas tendências do rococó internacional, nas vertentes francesas e germânicas. Fala ainda, que é preciso perceber que as Igrejas construídas em Roma no Século XVIII, constituíam uma referência para arquitetura Religiosa, dando continuidade à tradição da época Joanina. Este fato sem duvida foi de fundamental importância na elaboração da tipologia de igrejas conhecidas no 12 mundo Luso-Brasileiro, como de estilo “Pombalino”, estilo que dividiria com o rococó religioso as encomendas arquitetônicas da segunda metade do século XVIII, nas principais cidades brasileiras.5 A Expansão do barroco tardio internacional encontrou terreno fértil em Portugal na primeira metade XVIII, que teve como uma das características a abertura ás influências Italiana, sustentada pela encomenda oficial e financiada pelo ouro brasileiro, que fez da corte Joanina uma das mais suntuosas da Europa. A Influência Italiana foi de tal forma tão considerável que no ano 1717 é criada uma academia Portuguesa em Roma, isso foi ocasionado pela maciça importação de obras de arte, gravuras e tratados teóricos de arquitetura e decoração, e ainda a ação direta de artistas italianos ou de formação italiana, que irão se instalar principalmente nos grandes centros como Lisboa, Porto e Coimbra. Os legados Artísticos deixados pelos Europeus são de caráter religioso, resultantes em partes das providências das ordens religiosas, importando obras totalmente executada no reino e até mesmo na Itália, ou trazendo arquitetos, escultores e pintores. Estes artistas populares locais que ora seguiam a tradição, ora copiavam ou reinterpretavam modelos eruditos como modelo As construções religiosas do século XVII evidenciaram o respeito e a devoção dos habitantes de Belém á doutrina Cristã. Desde a chegada de Francisco Caldeira que levantou com a ajuda dos seus soldados e índios no interior do forte do Presépio, uma Capela dedicada a nossa Senhora de Graça, que aquele espírito religioso dos conquistadores se destacou, unindo-os indelevelmente. Em virtude de nossa pesquisa ser sobre a pintura colonial religiosa vamos nos ater somente a esta técnica, já que ela foi uma das principais formas artísticas de decoração das Igrejas Barrocas em todo o Brasil. Geralmente as igrejas possuíam uma nave única, os artistas utilizavam os tetos ou altares laterais para executar as pinturas, havia sempre muitas pinturas nos interiores das igrejas. Lucio Costa6 destaca dois tipos de pintura. Os medalhões emoldurados no teto e o "fingimento de céu" nesta pintura de forro descrevem-se os mistérios da Igreja. Nas paredes, próximas do chão, em frisas, no batistério, na sacristia ou nas salas de reuniões, na capela-mor, a pintura é hagiográfica7, narrando os fatos dos principais personagens da Igreja. Entretanto 5 Para saber mais vide O rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes w/Myriam Andrade Ribeiro São Paulo Cosac & Naify- 2003 -352p.,221il. 6 Pioneiro da arquitetura modernista no Brasil, ficou conhecido mundialmentepelo projeto do Plano Piloto de Brasília.Mas também foi grande observador dos diversos estilos de Arquitetura e orientava seus alunos a obervarem as obras do pasaado. http://pt.wikipedia.org/wiki/Lúcio-Costa 7 Biografia escrita relativa aos santos http://pt.wikipedia.org/wiki/LúcioCosta 13 podemos relacionar ainda as pinturas chamadas de caixotões8, pinturas com cenas referentes ao santo de devoção ou mesmo as personalidades das irmandades ou ordens religiosas. Embora a cidade tivesse custado a progredir, e as casas de moradia fossem em pequeno número, o que mostrava o retardamento de Belém, face ao papel que representava na conquista do vale Amazônico, as igrejas iam sendo levantadas nos dois bairros, então existentes. Pela ordem cronológica das construções, verificamos o desenvolvimento urbano da cidade. Onde se erigia uma casa religiosa, aumentava o povoado. Os moradores procuravam a vizinhança das Igrejas. Os Vigários atraiam as famílias para perto. E assim crescia Belém. (...) No bairro da CIDADE tivemos: A capela de N. Senhora Da Graça ereta no interior do forte do Presépio em 1616; a segunda igreja de N. Senhora Da Graça, construída no mesmo local onde está atualmente a catedral, em 1617; a primeira Igreja e convento do Carmo dos Carmelitas Calçados, na Rua do Norte, na mesma área da atual Igreja, em 1616; a capela de São João, em 1648; convento e Igreja de Santo Alexandre, dos Jesuítas, em 1653. No Bairro da CAMPINA Hospício do UMA, dos Capuchos de Santo Antônio, em 1617; Igreja e Convento da mesma Ordem Religiosa, 1616; Igreja e convento de Nossa Senhora das Mercês e Redenção dos cativos, dos Mercedários calçados, 1640; Igreja da Santa Casa da Misericórdia, 1650, ermida de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos 1681 (....)(CRUZ -1963)9 Do Bairro da Cidade ao da Campina, ia a Cidade se estendendo, desenvolvendo, graças, principalmente, ao espírito religioso dos moradores, que acompanhavam as igrejas onde estas eram construídas, e como estímulo do Rei, no plantio e colheita do produto agrícola, para o que procuravam as áreas extensas da Campina, onde se estabeleciam com grande proveito próprio e da real fazenda que colhia das exportações para a metrópole, boas rendas. No ano de 1684 o Rei de Portugal D. Pedro II propôs á Santa Sé à criação do Bispado na Cidade de Belém. Dom Gregório dos Anjos Manifestou-se contrariamente á iniciativa real ele que era o 1º Bispo do Maranhão e Grão-Pará, tamanha foi a força dos seus argumentos que conseguiu a anulação das Bulas, quando iam ser expedidas. Na visita pastoral que fez a Belém, naquele ano, foi D. Gregório avisado da proposta do Rei, que havia indicado para Bispo do Pará Frei Manoel da Natividade. Contra a desmembração sugerida recorreu D. Gregório, alegando que ia sofrer espoliação nos seus direitos. Almeida Pinto relata que tais foram os Protestos do Bispo levados à presença do Santo Padre que- “logrou inutilizar as diligenciais do 8 Pintura realizada em painéis de madeira, emoldurados e afixados isoladamente nos tetos das igrejas ver LEMOS, Carlos. A e José Roberto Teixeira Leite. Arte no Brasil. São Paulo, Abril Cultural, 1982. 9 Cruz Ernesto História de Belém 1º Volume, 1973- Belém –Pará Universidade Federal do Pará, -pag. 151) 14 rei, ficando em perpétuo esquecimento as referidas Bulas” 10. Somente “a quatro de Março de 1719, decorridos 35 anos da relutância de dom Gregório, foi criado o Bispado do Pará – Ficando sufragâneo do arcebispado de Lisboa” 11 e como conseqüência independente do Bispado do Maranhão. O 1º Vigário da primeira matriz do Pará foi o Padre Manoel Figueira de Mendonça, que chegou a Belém no dia 16 de Outubro, mas em parte ação das Ordens Religiosas como já vimos, começaram a ser estabelecer no Pará no século XVIII, Iniciando primeiro com: 1.1- RELIGIOSOS DA PROVINCIA DE SANTO ANTÔNIO Inicialmente Chegaram os capuchos da Província de Santo Antônio, que construíram em 1627, hospício na área onde esteve à aldeia dos Índios Unas. Dessa pequena residência transferiram-se para o convento construído sete anos depois, encravados entre o Una e o Forte do Presépio. Um século mais tarde, a 13 de junho de 1736, eram lançados os fundamentos do Convento e Igreja, no mesmo lugar onde está ainda está até hoje. “Eram quatro os missionários da ordem: Frei Felipe de São, Boaventura, Frei Sebastião do Rosário, Frei Cristóvão de São José e Frei Antônio da Merceana”12. Localizaram-se no sítio onde esteve a aldeia dos UNA, distante meia légua do Forte do Presépio, e ali construíram o Hospício, que lhe serviu de habitação e de casa religiosa. O trabalho espiritual dos capuchos de Santo Antônio foi de grande valia para os Portugueses que iniciavam a obra da conquista. Os Capuchos de Santo Antônio dedicaram-se à evangelização dos Índios. Encontraram e doutrinaram os das nações Caripunas, Aracajus, Tucujus e Canhoão, aldeiando-se na Missão dos Amaquizes. Tão proveitoso foi o trabalho desses religiosos, na segunda metade do 10 ALMEIDA. Pinto Antônio Rodrigues, Anais da Biblioteca e Arquivo Público do - Pará , tomo 5º páginas 11-13 11 “O Bispado do Pará”. Por Antônio Rodrigues de Lameira Pinto. Tomo 5º dos Anais da Biblioteca e Arquivo público do Pará, pág. 10. 12 Ernesto Cruz 1973Op. Cit. pag151 Foto. 1- Pintura do teto da Sacristia do Convento de Santo Antônio datada de 1770- Médio afresco Fonte: Janduari Simões 15 século XVII, que o Rei, em carta de 19 de Março de 1699 concedeu-lhes todas as missões que se localizassem ao Norte do Rio Amazonas e terras do Cabo do Norte, onde era a Capitania de Bento Maciel Parente13 Depois de nove anos de Permanência no UNA em 1626, vieram para mais perto do Forte, fizeram uma capelinha, entretanto como aconteceu com outros templos religiosos no Séc. XVIII foi erguido outro convento em 13 de junho de 1736. O convento de Santo Antônio apesar das transformações internas por que passou, guarda muitas características de seu passado colonial. Chama-se atenção para os painéis de azulejos em azul e branco, remanescentes do século XVIII, onde estão reproduzidas cenas religiosas da vida de São Francisco e Santo Antônio e os da ante - sala da Capela mor com decoração de grinaldas, festões de flores, golfinhos, com um vistoso efeito plástico e cenográfico. A Sacristia é uma delicada obra de Arte, em seu forro abobadado, se apresenta uma interessante pintura de quadratura datada de 1774, cujo tema simboliza a Sagrada Eucaristia: uma figura de mulher de olhos vendados que levanta a hóstia- O Santíssimo Sacramento, representando a Igreja Católica com os dizeres Fides et Silentium, significando Silencio e concentração para significar o ritual da fé. Nos cantos do painel o artista pintou: O Lírio a Cruz, a Bíblia e o Brasão Franciscano, numa simbologia clara da missão dos Franciscanos na Amazônia14. 13 Ernesto Cruz ,1973Op. Cit. pag154 14 Definição feita por Leandro Tocantins em seu livro Santa Maria de Belém do Grão Pará , onde ele relata também que após as restrições feitas pelos Marques de Pombal os missionário Franciscanos não tiveram renovação em seus quadros ficaram no Convento até a morte do último irmão, após isso em 1873, o prédio passa a funcionar como o Asilo de Santo Antônio, destinados aos órfãs e desvalidas, depois o Bispo D. Macedo Costa entrega o prédio para as irmãs Doroteias suas atuais ocupantes.pag.108 Foto 2. Detalhe da Pintura da Sacristia do Convento de Santo Antônio em -Belém-Pará Fonte :Janduari Simões 16 1.2. A ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO DA PENITÊNCIA Os Franciscanos do Convento de Santo Antônio concederam licença em 1694, para Ordem Terceira construir sua capela ao lado do mosteiro. Uma capelinha bastanterústica. Em 16 de abril de 1736 o definitório concede o Alvará para que façam a capela. O ato solene do lançamento da primeira pedra foi a 11 de outubro de 1748, sob a invocação de N.Sra. da Conceição. A pintura no cimo do retábulo representa a coroação de Nossa Senhora da Conceição no Céu. O emblema da ordem terceira de São Francisco e as armas de Portugal, um belo trabalho da talha barroca se sobresaem no arco principal da capela Mor. As telas dos cinco altares laterais invocam São Miguel, Santa Clara Religiosa, Santa Clara Princesa, do lado do Evangelho; Santa Isabel e Santa Coleta, do Lado da Epístola. As telas vieram de Lisboa e são atribuídas a Escola Portuguesa de pintura não possuem assinatura. Leandro Tocantins, em seu relatório sobre as Igrejas de Belém em 1963, diz que a principio havia Foto 3- Detalhe maior da pintura de, quadratura onde póde ser visto o teto abobadado da Sacristia da Igreja de Santo Antônio de Belém-Pará Fonte :Janduari Simões 17 seis altares, porem com a necessidade de se abrir uma porta para via Pública, foi excluído o altar de São Conrado no final do Sec.. XIX15. . 15TOCANTINS Leandro. Santa Maria de Belém do Grão Pará. R. Janeiro: Civilização Brasileira, 1963 pag.175 Foto 4 Pintura dedicada a Santa Clara Religiosa- Óleo s/tela Autor disco. Sec. Foto 5- Pintura dedicada a Santa Coleta óleo s/tela Autor Disco. Sec. XVIII Foto 6. Pintura dedicada a São Miguel - Óleo s/tela Autor disco. Sec. XVIII Foto 7-Pintura dedicada a Santa Isabel - Óleo s/tela Autor disco. Sec. XVIII 18 Há uma única torre na Capela, embora fuja das formas gordas, adotou motivos barrocos no coruchéu. Os Frontões graciosos seguem a mesma linha, e a fachada em geral, revela alguns traços de neoclassicismo, fazendo parte da reforma empreendida no ano de 1881, final do séc. XIX. 1.3. A ORDEM DOS CARMELITAS CALÇADOS Os Carmelitas Calçados chegaram a Belém em 1626, tendo nesse mesmo ano iniciado a construção do Convento da Ordem, no Bairro da “Cidade”. Para isso o Capitão mor Bento Maciel despojou-se de sua casa de Residência, que ficava na Rua do Norte, a primeira que esse abriu em Belém, oferecendo aos Carmelitas os Chãos para o edifício. Durante mais de meio século esteve de pé o Convento em 1696 apresentava sinais evidentes de ruína. “Nesse mesmo ano puseram abaixo o velho convento e levantaram outro no mesmo lugar” 16. Coube ao Governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, lançar os fundamentos desse segundo edifício, feito como o Anterior, de Taipa e pilão. A pintura ao lado é a de autor desconhecido, mas é atribuída a escola de pintura italiana do Séc.XVIII, e veio para Belém ainda no Séc. XVIII chama-se Visitação de Maria à Isabel. (passagem Bíblica que conta da visita de Maria e José a sua prima Isabel e seu Marido quando a mesma estava grávida de João Batista). Todos os conventos Carmelitas e Franciscanos tinham uma Ordem Terceira, que era um 16 CRUZ Ernesto 1973, Op. Cit. 153 Foto 8 . Visitação de Maria a Isabel- Óleo s/tela Sec. XVIII- Autor Desconhecido Atribuída a Escola Italiana de Pintura –Acervo da Igreja de N. Sra. Do Carmo Belém-Pará. Fonte : Rosa Arraes 19 compartimento ao lado da Igreja, tipo capela com altar-mor menores, dedicada aos benfeitores das irmandades. Uma espécie de sala de conferência e meditações. Não fizeram os Carmelitas obras de relevo no Pará. Foram os primeiros religiosos que se estabeleceram nas margens do Rio Guamá, onde fundaram a Fazenda Pernambuco, que lhes proporcionou bons lucros. Por doação de Baltazar de Fortes e sua Mulher Dona Maria de Mendonça, receberam uma légua de terras, também no Guamá. Nesses Chãos construíram uma Capela e um Engenho de moer cana, dando á fazenda o nome de Santa Tereza do Monte Alegre. Ergueram o primeiro convento de Belém foi o de Nossa Senhora do Carmo, que formava juntamente com a do Maranhão uma vigararia geral provincial, subordinada ao capítulo de Lisboa. A sua fundação teve o começo no ano de 1626, na casa no coronel Bento Maciel Parente. Em 1696, setenta anos depois a casa estava em estado de ruínas , foi demolida e em seu lugar fizeram um convento de taipa. No ano de 1708 deu-se início à segunda construção, maior e mais rica. Já em 1766, novamente a igreja sofreu reparos, sendo levantado o prédio que atualmente existe. Quem hoje em dia entra na igreja do Carmo nota uma patente diferença entre o altar-mor e o resto do templo. È que aquele foi erigido em 1696. Seu estilo é barroco antigo e possui uma mesa de altar em prata, batida e cinzelada, lavrada em Portugal, considerada uma das obras mais valiosas de todas as Igrejas de Belém. No Carmo Funcionou o Colégio Paraense, internato tradicional do passado; o Asilo das Órfãs desvalidas; o Hospital Militar; o Seminário Menor; e mais recente, o Colégio Nossa Senhora de Nazaré, dos irmãos Maristas. No ano de 1930 é que foi entregue aos padres Salesianos, que instalaram o Colégio Nossa Senhora do Carmo17. Foi a ordem terceira do Carmo do Pará que se rebelou contra o bispo D. Macedo Costa, bispo do Pará, ocasionando, no Brasil, a célebre Questão Religiosa com D. Pedro II18. 17 CRUZ, Ernesto 1963 op. Cit. Pg.234 18 Segundo historiadores, a questão religiosa foi um conflito entre a Igreja Católica e a Maçonaria no Brasil, na década de 1870. aconteceu devido ao fato da união entre o trono e o altar, que estava prevista na Constituição de 1814, ser ponto de discórdia e conflito entre as correntes de pensamento da época, pois cabia ao Estado nomear os sacerdotes e pagar suas despesas; portanto, na prática, as bulas papais teriam efeito somente se o Imperador assim o permitisse. Ao assumir o pontificado em 1848, Pio IX criticou as modernidades liberais. O Vaticano em 1870, aprovou o dogma da infalibilidade papal. Em 1874 D. Pedro II mandou prender o bispo do Pará e o bispo de Olinda, que foram condenados a trabalhos forçados por quatro anos. O Imperador, mandou aliviar a pena para um encarceramento simples. O papa fez com que o problema se alastrasse a nível internacional. Para resolver o impasse, D. Pedro II teve que anistiar os bispos, e substituir o gabinete do Visconde do Rio Branco, pelo de Duque de Caxias. 20 1.4. A COMPANHIA DE JESUS E A IGREJA DE SANTO ALEXANDRE Foto 9. Pintura em óleo s/ madeira da Sacristia da Igreja de Santo Alexandre Fundada em Belém do Pará pela Ordem dos Jesuítas Fonte: Paula Rodrigues Segundo o Padre Serafim Leite19 O Primeiro Jesuíta a desembarcar foi o Padre Luis Figueira20. No ano de 1636, acompanhando o Governador Francisco Coelho de Carvalho. Por esse tempo subiu o Amazonas e começou a evangelização das tribos do Rio Xingu. Para prosseguir na jornada cristã, regressou à Europa, a fim de trazer mais religiosos para obra de catequese. Já em 1645 estava de volta. Porém a fatalidade não permitiu que realizasse os seus desejos. Naufragando nas proximidades da Baia do Sol, conseguiu chegar à região marajoara, onde foi trucidado pelos índios Aruãs, juntamente com mais nove religiosos. 19 Por 18 anos, entre 1932 e 1950, o padre Serafim Leite (1890-1969) escreveu sua História da Companhia de Jesus no Brasil. Nascido em Portugal, o historiador veio para o Brasil ainda rapaz, aos 15 anos, onde entrou para a Companhia. Por indicação do provincial, envolveu-se na escrita da sua história. Em dez volumes, mais de 5 mil páginas, desfia-se a crônica da presença dos jesuítas no Brasil, desde a chegada de Manuel da Nóbrega, nas naus que trouxeram o primeiro governador-geral, Tomé de Souza, em 1549, até 1759, data da expulsão definitivada ordem das colônias portuguesas na América. 20 Padre Serafim Leite – História da Companhia de Jesus no Brasil / 3º Volume, página 107 21 Somente em 1653 os Jesuítas retornaram, trazendo Carta do Rei a Câmara de Belém, onde era ordenado o regresso da Ordem à Capitania e dada a permissão para fundarem igrejas e doutrinarem e encaminharem o gentio nos domínios da Fé. O Padre João do Souto Mayor assinou o termo com a Câmara. Logo depois levantaram os jesuítas uma casa e capela no Bairro da Campina, no sistema da época, pequenas e coberta de palha. Da campina passaram-se para junto do Forte do Presépio, onde construíram nova casa e igreja, foi a origem do Colégio. No ano de 1670, em vista da precária situação do edifício, foi levantado outro com as condições necessárias para abrigar os missionários que voltavam das entradas e missões21. Por longos anos andou o trabalho da construção do Colégio Santo Alexandre, assim denominado por terem os jesuítas trazidos de Roma, por doação do Papa Urbano VIII, relíquias do piedoso Santo. Junto ao Colégio foi erguida a Igreja, tendo por orago S. Francisco Xavier. Nela inaugurou o Padre Bettendorf, a 3 de dezembro de 1668. Foi grandioso o trabalho dos Jesuítas no Pará . Subindo os Rios e penetrando em lugares inóspitos, fundaram povoados e converteram os Índios, tornando-os desse modo excelentes colaboradores dos Portugueses. O Padre Antônio Vieira, que havia chegado a Belém no dia 5 de outubro de 1653, acompanhado dos Padres Francisco Veloso e Antônio Ribeiro, pouco demorou na Capitania. Retornou a corte regressando em 1655, três anos depois celebrava com a tribo dos Nheengaibas, no Marajó, um tratado de Paz que facilitaria aos portugueses o domínio definitivo e pacífico do Amazonas. No Marajó estabeleceram os Jesuítas diversas fazendas de gado. Não obstante os resultados obtidos no trabalho da catequese, nem sempre a missão dos jesuítas foi olhada com simpatia pelos colonos. È que os separavam interesses econômicos tão fortes e respeitáveis, que embora se dissessem tementes a Deus, a obra religiosa dos padres 21 CRUZ Ernesto ... Apud História de Belém 1º Volume pag.155“Os Jesuítas do Grão-Pará”, J. Lúcio Azevedo,,página 40 22 da Companhia se transformara para os colonizadores num entrave desmedido ambição do lucro fácil e rápido. O Cativeiro dos índios foi a barreira que separou os moradores dos jesuítas. A Câmara de Belém tomou parte ativa na contenda, defendendo os interesses dos colonos22. A Provisão de 19 de maio de 1649 concedendo vantagens aos nativos, que não seriam mais obrigados a trabalhar sem salário, nem ficariam sujeitos às violências dos brancos, deu motivo a sérios descontentamentos na Capitania, se vislumbrava naquela provisão a liberdade dos nativos. E, embora o governo Coagido pelos moradores retardasse a execução da ordem régia, os Jesuítas usaram dela para conter os excessos da população. Contudo não foram muito felizes. O rei aboliu a Provisão de 17 de Outubro de 1653, e conseqüentemente a ordem de 19 de maio de 1649. Voltavam os índios ao Cativeiro. Essa Resolução Régia levou o Padre Vieira à corte. De lá regressou, trazendo como troféu a liberdade dos índios. Estava lançada a semente da discórdia. Os moradores jamais se sujeitaram ao revés, e lançaram-se à luta contra os Jesuítas . Daí a revolta que culminou com a Prisão dos Seculares da Companhia no próprio Colégio que foi atacado pelos amotinados. O Padre Vieira teve de sair fugido sem conseguir acabar a obra que concebera. A Igreja de Santo Alexandre é um conjunto jesuítico, que foi erguido já nos últimos anos do século XVII. Primitivamente era a igreja de São Francisco Xavier, construída pelos Jesuítas logo após a sua chegada a Belém. O atual templo (terceira contração) foi inaugurada entre os anos de 1728 e 1729. Os Jesuítas eram os únicos: que amavam e cultivavam a arte, através do ensino, e esta era a Igreja Central da Ordem, todas as aldeias e missões do interior concorriam para o seu embelezamento, sem poupar esforços. Como, porém os donativos não podiam vir em dinheiro, 22 CRUZ Ernesto História de Belém Op. Cit. Pag.156 Foto 11. A Santa Ceia - Óleo s/ madeira -Autor Desconhecido Sec.XVIII- Acervo da Arquidiocese de Belém- exposto no Museu de Arte Sacra . 23 que não existia, recolhiam-se gêneros para o Colégio. Os responsáveis por esse estabelecimento expediam-nos para o reino, e de lá, em troca, vinham os ornatos. Sua planta segue o modelo jesuítico de nave única e capelas laterais . Nestas como na capela-mor há rica obra de talhas douradas e pintadas de composição erudita. O altar-mor e as capelas laterais, assim como os púlpitos, foram talhados em madeira de lei, trabalho atribuído ao irmão Xavier Traer, nascido na Alemanha, escultor e pintor que trabalhou no colégio por volta de 1723. Outros irmãos que embelezaram a Igreja com sua pintura foram Luís Corrêa (português), João de Almeida (Francês) Baltazar de Campos, flamengo; e Agostinho Rodrigues. Também devemos mencionar entre os escultores ativos do Norte no Sec. XVIII o nome de Manuel Ângelo e Faustino, índios Gibirié, escravos, que constam no catálogo do Colégio de Santo Alexandre para o ano de 1728. Ao lado de outros escravos Índios negros-pedreiros, carpinteiros ferreiros, alfaiates, canoeiros trabalharam tanto no Colégio como na Igreja do Pará.23 Foi a Companhia de Jesus que mais aplicou ensinos aos oficineiros e artífices, pois quando a Companhia de Jesus chegou ao Pará em princípios de 1653, já encontrou trabalhando na Capitania os religiosos de Santo Antônio e do Carmo. Ambas as ordens na tarefa árdua da conquista espiritual da difusão da doutrina. Antes dos Jesuítas não havia uma preocupação com o ensino, foi a companhia de Jesus que se preocupou na formação e capacitação de operários. Coube, portanto aos Jesuítas a criação da primeira aula para o ensino dos filhos dos moradores. A 5 de dezembro de 1651 Segundo Ernesto Cruz chegaram os padres João do Souto Mayor e Gaspar Fragoso. Vinham do Maranhão na Companhia do Capitão Mor Inácio do Rego Barreto Traziam uma carta do Rei d. João IV, para a Câmara, concebida nos seguintes termos: “Eu El Rey vos envio muito saudar. ordenei ao religiosos da Companhia da Província do Brasil, que por serviço de Deus, e meu, tornassem a esse Estado e fundassem nele as Igrejas necessárias com o intento de doutrinar e encaminhar ao gentio dele a abraçar a nossa Santa Fé, principal obrigação minha nas Conquistas. E porque lhes será de grande ajuda vosso favor e assistência, vos encomendo muito e mando que lhe deis em forma que tenho em muito em que vos agradecer. Escrita em Lisboa, a 13 de setembro de 165124. 23 Padre Serafim Leite Op. Cit. Pag. 110 24 CRUZ, Ernesto,1973pag.213 Apud BERREDO “Anais Histórico do Estado do Maranhão” 24 As pinturas representadas acima são detalhes das pinturas dos tetos do Consistório (Ilust. 11 e 13) e Sacristia (14 e 15), conhecidas como Brutesco25·, são realizadas pelos artistas da Companhia de Jesus, tem elementos que as caracterizam como barrocas. Possuem umas 25 O conceito de Pintura Brutesco– surgido no século XVI, quando se descobriram, através de escavações, pinturas ornamentais em regiões da Itália – vem do italiano La Grotesca ou Grotesco, derivados de gota (gruta). Aportuguesa certamente em portugal para Brutesco .Primeiramente foi usada para designar aquele tipo de arte ornamental, a palavra grotesco depois se costumava denominar de grotesca a obra que apresentasse arabescos, geralmente constituídos de ramos de plantas, de onde brotavam figuras humanas ou animalescas. Esse hibridismo acabou por caracterizar um estranhamentoaté então desconhecido, pelo menos de maneira mais consciente, no universo das artes. MOREL, Philippe.Les grotesques: les figures de l'imaginaire dans la peinture italienne de la fin de la Renaissance - Paris: Flammarion, 1997. CHASTEL, André. La grottesque. Paris: Le Promeneur, 1988. Foto 13-Pintura do teto do Consistòrio da Igreja de Santo Alexandre - Óleo s/ madeira , Sec. XVIII detalhe Central do Brasão dos Jesuitas-- Fonte :Paula Rodrigues Foto 12 Pintura do Teto do Consistório da Igreja de Santo Alexandre- Óleo s/ madeira Seculo XVIII- detalhe da Pintura- Fonte Paula Rodrigues Foto 14- S assistia da Igreja de Santo Alexandre Óleo s/ madeira Sec.XVIII—Fonte: Paula Rodrigues Foto 15- Sacristia da Igreja de Santo Alexandre pintura em óleo s; madeira—Fonte: Paula Rodrigues 25 iconografias bastante enriquecidas de elementos do cristianismo usados na afirmação do evangelho cristão além de possuírem o domínio da pintura em teto pois a execução é de grande harmonia, tanto nas formas como nas cores que foram empregadas. 1.4.1. IGREJA DA MADRE DE DEUS (VIGIA) A Companhia de Jesus também teve uma grande atuação na cidade de Vigia no interior do Pará, lá também construíram um grande monumento Barroco, referência em todos os livros de História da Arte Religiosa no Brasil, O lema dos Jesuítas que era: religião, educação e trabalho voltados para a melhoria material, pautou as missões da ordem religiosa, que fincou seus ideais através de pequenas fazendas pelo interior da Província do Grão Pará- entre elas a que ficava no então vilarejo da Vigia. Em 1731, os jesuítas pedirão permissão ao rei D. João V para erguerem o Colégio Madre de Deus, um casarão de 18 cômodos que guardava uma biblioteca de 1.010 volumes, encravado no meio da floresta amazônica no século XVIII26. No ano seguinte, o Padre José Lopes, superior do colégio, solicita que seja erguida uma obra que perpetuasse a passagem da companhia pela região. O pedido foi aceito e a intenção realizada Madre de Deus, uma obra religiosa com porte de Catedral erguida há 277 anos tornou-se um dos imponentes registros arquitetônicos da trajetória dos Jesuítas pela Amazônia. 26 LEITE, Padre Serafim Op. Cit.332 Foto 16- Pintura do Teto da Sacristia da Igreja Madre de Deus, construída pela ordem dos Jesuítas no sec. XVIII e uma pintura com características do Rococó. Fonte: Rosa Arraes 26 Não temos dúvidas que os Jesuítas foram os grandes incentivadores das artes visuais ou porque tinham a necessidade dos mais diversos tipos de serviços de artífices ou porque eram de grande exigência artística na elaboração de suas construções e na necessidade de se comunicarem com o novo mundo. As Pinturas existentes em Vigia são consideradas do repertório do final do Sec. XVIII pertencentes, portanto ao estilo Rococó, também deve ser do mesmo período as telas que ornam, as paredes em cima do arcaz da Sacristia são obras que relatam a vida da Virgem Maria desta a Concepção, Visita a Santa Isabel, O Nascimento de Jesus, A Sagrada Família, Adoração dos reis Magos e a Assunção de Maria aos Céus. Ao mesmo tempo em que levantavam a Igreja de Santo Alexandre em Belém, a Igreja da Madre de Deus também era construída. É, também, uma obra singular entre as de estilo barroco no Brasil, devido às suas varandas laterais cercadas por 12 colunas em estilo toscano. Foto. 18 A Visitação de Isabel - à Maria – Ig. Madre de Deus da Vigia- Sec. XVIII Foto 19- O Nascimento de Cristo -Ig. Madre de Deus da Vigia Sec. XVIII Foto 20 -A Sagrada Família - Ig. Madre de Deus de Vigia - Sec. XVIII Foto 17- A concepção de Maria – Ig. Madre de Deus da Vigia Sec. XVIII 27 Essas varandas, no passado, enchiam de redes e colchões para hospedar romeiros que chegavam para as festividades do Círio da Vigia. O município, aliás, é o berço da devoção à virgem de Nazaré em todo o Estado. Seu fundador, o colonizador D.Jorge Gomes dos A’lamos, era egresso da província de Algarves, em Portugal, região onde se cultuava Nossa Senhora de Nazaré. Portanto assim como Santo Alexandre a Sacristia da Igreja Madre de Deus possui uma sacristia com pinturas de teto que a qualificam como um excelente exemplo da pintura Rococó, pois possuem elementos como as conchas surgindo como um termo para diagnosticas principalmente as artes interiores ornamentais 27 1.5. A ORDEM DOS MERCEDÁRIOS CALÇADOS. Foi o Capitão Pedro Teixeira que trouxe de Quito concluindo a sua gloriosa viagem do Amazonas, os religiosos de Nossa Senhora das Mercês assim relata Alexandre Rodrigues ferreiras em seus documentos da Viagem Filosófica, registram que ao ouvir os religiosos Pedro Teixeira, resolve trazer alguns deles para Belém, vieram Padre Frei Pedro de La Rua e Padre Afonso Armixo, natural de Quito, vieram e fundaram o Convento dos Mercedários Calçados em 1640 na orla do Mar, trouxeram várias Cruzes de Prata, doação do Bispado de Quito e algumas imagens para o convento de Nossa Senhora das Mercês, Obra singela como todas as edificações 27 Myriam Ribeiro descreve o Rococó como um estilo de origem francesa que surge em 1734( Vide O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus Cosac & Naifi 2003 Foto 21 - A Visitação dos reis Magos- Ig. Madre de Deus em Vigia . Sec.XVIII- Fonte Rosa Arraes Foto 22- Assunção de Maria- Ig. da Madre de Deus em Vigia. Sec.XVIII- Fonte Rosa Arraes 28 do tempo era feita de taipa de pilão com cobertura de palha. Fundaram também os Padres das Mercês a Aldeia de Mangabeira em Marajó-assu, origem dos municípios de Itaguary antes, hoje chamados de Ponta de Pedras.28 Seus construtores Frei Pedro de La Rua de Frei João das Mercês, que vieram de Quito na expedição de Pedro Teixeira. Foto 23 --Desenho de Joaquim José Codina - Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira – Biblioteca Nacional Alguns historiadores relatam em seus livros sobre duas telas que estavam localizadas na capela mor da Igreja das Mercês. (...) Dignas, também de serem apreciadas: duas telas suspensas nas paredes laterais da capela do altar mor. Sem assinatura do artista, ou qualquer sinal que acuse a procedência ( uma delas parece retratar o martírio de São Espiridião), é possível que tenham sido pintadas em Lisboa entre os anos de 1760 e 1780.Essas telas mereciam colocação mais adequada, pois na altura em que se encontram é quase impossível realçar aos olhos do observador os detalhes da pintura(...)29. 28 MUNIZ, Palma – “Delimitação Inter-Municipal do Estado do Pará”. Anais da B.A.P. do Pará 9º Volume páginas 617. 29 TOCANTINS Leandro. Op. Cit. 1973- Pag.190 29 Relata-nos também Augusto Meira Filho30 que após a realização de uma grande restauração o templo das Mercês reinaugurado no dia 21 de Setembro de 1913, foi abandonado outra vez sem conservação, permanecendo este templo assim até 1939. A construção oriunda do Século XVIII necessitava de reparos não só na sua poderosa estrutura, como também, em seus adornos. Um ano antes de 1939 indicaram ao padre Theodore Kokke, o artista e escultor Barandier da Cunha, como pessoa responsável para executar o trabalho pretendido. Este, ao ser chamado, preferiu aconselhar que fosse entregue a alguém mais capacitado, para este serviço um artista especializado. Dessa sugestão, surgiu à idéia de convidar o pintor italiano, Alfredo Norfini31 que já havia executado obras semelhantes no Sul do País. O artista aceitou a incumbência e, ao lado do serviço empreendido na restauração e recomposição da Igreja aproveitou e executou muitas pinturas de Belém, expondo suas telas em várias ocasiões, com absoluto sucesso artístico. O Prefeito naquele momento era , Professor Abelardo Condurú, quecolaborou de maneira expressiva nas obras do templo e com o referido pintor, encomendando a Norfini, obras que ficaram famosas como o Ataque dos Cabanos ao Trem de Guerra, e o Conhecido Cabano Paraense32 durante sua permanência nesta cidade. No inicio da restauração do templo, primeiro foi realizado trabalhos de limpeza das velhas instalações. Escondido em dependência próxima ao Coro, o reverendo Kokke encontrou certa manhã, um rolo enorme cheio coberto de pó e completamente esquecido, ao abrirem, verificou-se conter telas representando cenas religiosas. Comentou-se, na ocasião, se tratar de quatro (4) telas de grandes proporções. “Duas foram entregues a Norfini que as restaurou e emoldurou convenientemente, e, assim, permanecem até hoje, ornando as laterais do altar-mor das "Mercês”33. Os outros dois painéis tiveram fim ignorado. Falou-se, em outro momento, terem 30 MEIRA FILHO, Augusto. Contribuição à História de Belém. Belém. 1973. 2 v. Pag. 124-127 31 Pintor Aquarelista esteve em Belém nesta época 32 Acervo. do Museu de Arte de Belém, localizado no Palácio Antônio Lemos em Belém do Pará 33 MEIRA FILHO, Augusto. Contribuição à História de Belém. Belém. 1973. 2 v pag. 125 Foto 24. A Sagrada Eucaristia-Óleo s/ tela Autor e datar? Acervo da Igreja das Mercês -Belém –Pará. Fonte Rodolfo Braga 30 sido negociados com algum "marchand de tableaux"34, da America do Norte. É uma versão, sem base documental. Até hoje se procura pelas referidas telas de sabe-se, entretanto que as mesmas foram encomendadas na mesma época das telas da Catedral quando a mesma esta em Construção, portanto datam no Sec. XVIII, Mas, um fato é verdadeiro: é que as duas telas existiram pois são relatadas tanto Tocantins quanto por Meira e foram resultado de um "achado" curioso do reverendo Padre Teodoro Kokke. Confirma, portanto, Augusto Meira, escrevendo sobre as "Mercês", não haver referência sobre os autores dos dois painéis ali existentes. A despeito das dificuldades, consegui, laboriosamente, obter as datas dos dois (2) quadros de propriedade da Igreja das Mercês: 1740! Autorizado pelos sacerdotes Xaverianos, D. Augusto Cardin e D. JoãoUrbani, procedendo à maneira aprendida com Frederico Barata, encontrei, depois de várias tentativas, a da afixada em tinta escura, no canto inferior esquerdo de cada painel. Obtido a data, é de se supor a existência da assinatura de seu autor, certamente, recoberta pelos vernizes, pelo sujo, pelo mal trato a que se submeteram .Acredito que tais telas são da mesma época das que ainda perduram em maior número, na Catedral. Os artistas do século XVIII recebiam as encomendas para fornecimento de painéis destinados aos mais variados misteres e conduzidos a destino ignorado pelo próprio artista. Realizavam sua obra, sem a preocupação de assiná-la ou datá-la. Talvez só em casos especiais, firmavam a autoria, a época e o lugar de origem.35 Depois de ter lido sobre estas duas obras, estivemos na Igreja das Mercês tentando descobrir o paradeiro das mesmas, mas até o presente momento não há sabemos onde estão, encontramos apenas duas pequenas telas das quais uma está representada na foto (24). 1.6. A SÉ DE BELÉM EM HONRA A NOSSA. SENHORA DAS GRAÇAS. A 13 de novembro de 1710 foi o Pará constituído em Bispado sendo então concedidos “à matriz de Nossa Senhora da Graça os direitos e honras da Sé Episcopal.” 36 Ordenou em 1713. D. João V a construção de uma Catedral – “a qual desejava se desse toda a magnificência possível”. Porém, somente a 3 de maio de 1748 era lançada a primeira pedra do atual edifício. A solenidade teve a presidi-la D. Frei Guilherme de São José, que chegou ao Pará a 16 de julho de 1739, indo como o seu antecessor residir no Convento do Carmo. Coube ao arquiteto Antônio José Landi traçar o plano da Igreja. Dom Frei Miguel de Bulhões, 3º Bispo do Pará, benzeu e inaugurou às 5 horas da tarde de 13 de dezembro de 1755, a parte edificada até os arcos. Foi dada como concluída no dia 8 de setembro de 1771. 34 profissional que tem a atribuição de comprar e, vender a produção artística, alem de fazer a intermediação das obras de arte, 35 MEIRA FILHO, Op. Cit. 1973. 2 v.Pag.127 36 CRUZ , Ernesto 1963 Op. Cit pag. 114 31 No ano de 1723 o rei de Portugal, D. João V, autorizou a construção da nova Catedral, ou Sé, em Belém, determinou que a nova Igreja tivesse toda a magnificência possível. O nome do Arquiteto Antônio José Landi é ligado à construção da nossa Sé. , quando ele chegou a Belém, 1753 a Igreja já estava em construção e ele colaborou principalmente com a fachada e as decorações do interior. Em 1867, o bispo D. Macedo Costa assinava a reforma da catedral e contrata um escultor Italiano chamado Luca Carimini para esculpir o altar- mor em mármore Carrara. Depois foi a vez da contratação do pintor Domênico de Angelis que pintou segundo Leandro Tocantins, as telas da Sagrada Família, N.Sra. do Rosário, São Jerônimo, Santa Maria Madalena (no Lado do Evangelho), São Miguel Arcanjo, Santo Antônio, , São Sebastião. Todas em seu respectivo altares de Santana, São domingos, Santa Bárbara, são as únicas pinturas do séc. XVIII, Leandro Tocantins em sua Belém do Grão Pará, escreve que é do pintor suíço Paulo Von Deschwauden as pinturas do altar-mor onde está a tela de N. Senhora das Graças com o menino Jesus ao colo no meio de dois anjos, já as telas de N. Senhora com o menino, entregando o rosário para São Domingos, e a de Santa Bárbara são do pintor Manoel da Costa, também português contemporâneo de Pedro Alexandrino. Entretanto em nota no Compêndio das Eras, Baena informa que a pintura do altar da Sé, pertence a Pedro Alexandrino assim como outras mais que haviam na Sé e que foram substituídas no século XIX37 37 FONSECA, Anne-Louise G. Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810): pintura portuguesa em Belém do Pará. In: SEMINÁRIO LANDI E O SÉCULO XVIII NA AMAZÔNIA, 2003, Belém. (WWW.forumlandi..com.br) Anne Louisse descreve em nota em seu Texto Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810) : na Biótica Virtual do Fórum Landi onde ela cita Antônio Ladislau Monteiro Baena, Compêndio das Eras da Província do Pará, Belém, Universidade Federal do Pará, 1969, p. 186, nota a. Tocantins retoma esta informação, mas acrescenta que os altares laterais da Catedral também tiveram telas de Alexandrino que foram retiradas para serem colocadas no seu lugar as de Domenico de Angelis. Vide Tocantins, op.cit., 1963, p. 153 e 154. Baena não diz nada a este respeito, escrevendo somente que as telas dos dez altares foram colocadas no início do ano de 1779, o que permitiria, de fato, lançar a hipótese de elas serem também de Alexandrino. Vide Baena, op.cit., p. 186, nota a. Foto. 25.- Santa Barbara -Óleo s/ tela pintura de Joaquim Manoel da Rocha - Séc.VIII. Fonte: Janduari Simões 32 O órgão que lá está no coro da igreja foi solenemente inaugurado no dia 09 de Setembro de 1881. À primeira audição estiveram presentes todas as autoridades da Província. Foi construído em Paris, nas oficinas de Mr. Cavaillé Coll, o mesmo que fabricou os órgãos da Basílica de São Dioniso e Notre Dame de Paris, entre outros. Foi a nossa Catedral pioneira, em toda a América Meridional, a possuir um órgão tão perfeito. Há notícia de que na Sé de Belém havia pelo menos outro quadro de Alexandrino. Sabe-se que o pintor executou uma Nossa Senhora da Graça destinada ao altar mor da Catedral Metropolitana, altar que, por sua vez, tinha sido desenhado pelo Landi Infelizmente, o quadro desapareceu e o altar mor teria sido destruído em 1881, quando das reformas introduzidas pelo bispo Dom Macedo Costa. 38 2. A TRANSFORMAÇÃO DE BELÉM NA SEGUNDA METADE DOSEC. XVIII Apesar do grande incentivo das missões religiosas na cidade, principalmente dos Jesuítas a progressão de Belém é lenta, as casas de moradia eram em pequeno número, o que mostrava uma demora da evolução urbanística da cidade, face ao papel que Belém representava na conquista do vale Amazônico, as igrejas iam sendo levantadas nos dois bairros, o da Cidade e o da Campina. Era necessário que programasse uma reforma urbana para que a população pudesse se desenvolver urgia necessidades de serviços especializados para a transformação que se anunciavam, todas as ordens religiosas necessitavam de artistas músicos e pintores como Mão de obra especializada para ornamentações das Igrejas 38 FONSECA Anne Louisse Op. Cit. texto sobre Alexandrino (WWW.Forum Landi.com.br) Foto 26- São Domingos - Óleo s/ tela Pintura de Joaquim Manoel da Rocha Sec. XVIII. Fonte: Janduari Simões 33 Segundo Ernesto Cruz, houve sempre uma ordem cronológica nas construções, verificando o desenvolvimento urbano da cidade. Onde se construía um monumento religioso, logo se aumentava o povoado. Os moradores procuravam a vizinhança das Igrejas e os vigários atraíam as famílias para perto, assim crescia a Cidade de Belém, com suas peculiaridades simples mais ao mesmo tempo bastante originais. A partir de 1753 a cidade de Belém no norte do País adquiriu posição privilegiada no cenário nortista. Nesse ano, acontece a divisão do Estado do Grão Pará e Maranhão, e foram criados dois governos na região que se estabeleceram nas cidades de São Luiz e de Belém, cabendo a supremacia a este último. O prestígio era acompanhado de verdadeiro surto progressista, grandes e importantes construções começaram a se erguidas na nova capital do Norte, obedecendo aos modernos critérios estilísticos, principalmente aqueles escolhidos para a reconstrução de Lisboa39. Também temos registros que outros edifícios religiosos existiam naquela época em Belém, pequenas capelas desapareceram como a do Santo Cristo, junto ao forte do mesmo nome, ou a de São João Batista que foi substituída por outra desenhada por Landi em 1760, também foram erguidas Igrejas de Maiores dimensões como a de Nossa Senhora do Rosário e dos homens brancos no Carmo. Os planos de grande transformação da Cidade se deram a partir da segunda metade do Sec. XVIII a cidade cresce e várias edificações foram levantadas no bairro da campina. Os moradores foram adquirindo lotes nas áreas dentro da légua patrimonial, onde construíram as suas rocinhas que tanto agradaram os naturalistas e viajantes que estiveram na capital paraense nas diversas épocas. As Modificações que veremos a seguir realizadas no grão Pará por Lisboa e aplicado por Mendonça Furtado em finais de 1755 foram introduzida em uma cidade que já estava definida urbanisticamente. E neste espaço cujas linhas mestras já estavam traçadas, que Landi irá intervir ativamente, deixando contribuições importantes e transformando a cidade num espaço muito mais urbanizado e harmonioso. O Governador do Pará na época acompanha Landi em sua Viagem pelo Rio Madeira que o encarregou de várias obras. Durante sua viagem pelo interior da Amazônia como desenhista atividade a qual ele foi realmente contratado, Landi revelia sua capacidade de Artista e Arquiteto conforme Isabel Mendonça nos revela em seu livro.40 39 CRUZ Ernesto Op Cit. Pg. 134 40 Isabel Mayer Mendonça Antônio José Landi(1713- 1791):Um Artista entre dois Séculos- Fundação Calouste Gulbenkian –Lisboa 1003 pag.319. Apresenta a Obra de Landi que diz ser abrangente e diversificada, abrangendo um vasto leque de realizações, em diferentes áreas –da Arquitetura à pintura de quadratura, passando por Projetos para retábulos, púlpitos órgãos, composições em estuque, construções efêmeras e organização de festas , decoração e livros, desenhos de peça de ourivesaria e etc... 34 2.1. IGREJA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS A Igreja do Rosário reflete uma linguagem sóbria, ritmada, com a simplicidade do grandioso. Para Germain Bazin suas frontarias “sont tout entires domines para l’austere eglation dês droites”41 – As origens da ermida são remotas e se ligam à existência da irmandade do Rosário dos Homens Pretos, fundada em 1681. Possivelmente nesta época os irmãos iniciaram a casa de sua santa Padroeira. Uma construção singela, demolida em 1715 por não oferece segurança42. 41 BAZIN, Germin A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil Volume I; Editora Record-1958 42 Para saber mais ver FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Os reis de Mina: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no Pará do século XVII ao XIX. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 9, n. 1, p. 103- 121, 1994. Foto 27 -Planta da Cidade de Belém do Pará de 1791 Desenhada pelo Engenheiro Teodófilo de Chermont- Fonte Comissão demarcadora de limites 35 Leandro Tocantins fala que no mesmo ano a irmandade fez levantar outro templo, o qual, é provável, tenha sido uma reconstrução aproveitando o arcabouço antigo, posto que notícia de 1761, fala da “estreiteza da mesma ermida43” que se parecia com primeira que demoliram em 1715. E possível que a Igreja do Rosário foi levantada no decorrer dos últimos 30 anos do Século XVIII, possível que Landi a tenha visto quase pronta. O templo possui coro em arcada simples, com três altares de cada lado. Na capela do altar Mor, existe uma pintura em tela representando o nascimento de cristo. Os retábulos do altar mor e os retábulos dos altares laterais trabalhados dão a igreja um ar clássico e o tom do equilíbrio, obedecendo as linhas do neoclássico com detalhes barrocos, ornatos de um barroco simplificado pela Arte de seu autor Antonio Landi 2.2. IGREJA DE SÃO JOÃO BATISTA A capela de São João foi construída nos primeiros tempos coloniais. Como a catedral estava em obras, o pequeno templo serviu de matriz de Belém. Não há, com precisão, uma data para sua construção; estima-se que tenha sido a terceira Igreja a ser erigida na nova conquista lusa (a primeira foi a de N.Sra. das Graças, origem da Sé, e a segunda a de N.Sra. do Carmo44). A nova Igreja de São João teve sua construção iniciada no dia 6 de Setembro de 1771, O autor do projeto foi Antônio José de Landi, com um precioso detalhe: na época, era o único templo religioso que possuía forma ortogonal coberta de abóbada, possuindo três altares, cujos quadros foram pintados por Francisco de Figueiredo no ano de 177145, e o seu prospecto era 43. TOCANTINS Leandro 1973 , Op. Cit pag.192 44 CRUZ, Ernesto 1963 Op. Cit pag.117 45 Para informações sobre o artista, ver Anónimo, “Figueiredo Francisco de”, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.XI, s.d., p. 308. Foto 28- Natividade -Óleo sobre tela - Autor desconhecido – Sec .XVIII - Fonte: Rosa Arraes 36 adornado de quatro colunas dóricas e duas pirâmides quadrilaterais com uma estrela de ferro no vértice. Finalmente, tinha somente um pequeno campanário de alvenaria junto a sacristia. A pedra fundamental fora sagrada pelo arcedíago Manuel das Neves; e no dia 13 de junho de 1777, foi ali rezada a primeira missa. Considerada para alguns historiadores da arte como sua obra-prima é a Igreja de São João Batista; pequenina e elegante, seu plano consiste numa rotunda que repousa sobre um octógono. O frontispício evoca a sobriedade e a limpeza da arte luso- brasileira dos séculos XVI e XVII. Jóia da Arquitetura Brasileira essa igreja tem digna rival na de Santana, a qual Landi dedicou-se com todo o seu esmero, por se tratar da santa da sua devoção. Posteriormente a pintura extrapola esses