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FACULDADE ASSOCIADA BRASIL DÉBORA COSTA XAVIER NATÁLIA DE GOES MORETTO A HISTÓRIA DOS ASTECAS E INCAS Taboão da Serra 2020 DÉBORA COSTA XAVIER NATÁLIA DE GOES MORETTO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Associada Brasil – FAB, para obtenção do título de .................................................., sob orientação do Professor .................................... Taboão da Serra 2020 Termo de Aprovação O presente trabalho de conclusão, intitulado (TITULO DO TRABALHO), elaborado pelos alunos Débora Costa Xavier e Natália de Goes Moretto, como requisito para obtenção do certificado para o curso de Pós-Graduação em História, à Banca Examinadora composta pelos membros abaixo assinados e, sendo julgado adequado para o cumprimento do requisito legal previsto no Regulamento do TCC/MONOGRAFIA da Faculdade Associada Brasil foi aprovado obtendo a nota ______ (________________) São Paulo,SP ______/______/______ ___________________________________ Professor Orientador : titulação e nome completo. RESUMO O trabalho aqui apresentado se propõe a analisar criticamente a bibliografia atual, disponível em português, que constrói a memória histórica dos astecas e incas. Para tanto, essa pesquisa está estruturada tomando por base as metodologias de história comparada e estudo de caso. Ao longo dessa obra são apresentados e debatidos os problemas relacionados às fontes primárias de estudo dos astecas e incas, as quais se relacionam a questão dos cronistas espanhóis e do eurocentrismo. Outros tópicos abordados são: a problemática de se trabalhar com a metodologia de história comparada, os anacronismos presentes ainda hoje na literatura aqui trabalhada e as semelhanças e diferenças dos casos estudados. Por fim, esta monografia abre espaço para se repensar a construção das culturas pré-colombianas e o problema de equiparar termos da língua asteca e inca com termos europeus. Palavras-chave: astecas; incas;história comparada. 2 ABSTRACT This paper analyzes critically modern references, available in Portuguese, which construct the historical memory of the Aztecs and the Incas. To do so, this research is based on two methodologies: comparative history and case study. Throughout this work, the issues involved in primary sources of study of the Aztecs and the Incas, which include Spanish chroniclers and eurocentrism, are presented and debated. In addition, other topics such as the problems related to working with the comparative history methodology, the anachronisms present to this day in the literature and the similarities and differences between the studied cases are also exploited. Finally, this paper opens a space to rethink the construction of pre- Columbian cultures and the problem of matching terms used in the Aztec and in the Inca languages with term used in Western languages as if they were equivalents. Keywords: Aztecs. Incas. Comparative history. Sumário Introdução 7 1. DA TEORIA E METODOLOGIA 10 1.1 Aspectos teóricos e metodológicos que orientam esse trabalho 10 2. A VISÃO CONTEMPORÂNEA SOBRE OS ASTECAS 23 2.1 Sobre a historiografia asteca 23 2.2 Sobre a Mesoamérica e as culturas que mais influenciaram os astecas 24 2.3 O assentamento asteca no Vale do México 26 2.4 Organização político-social do Império asteca 27 2.5 Economia do Império asteca 29 2.6 A sociedade e o governo 30 3. A VISÃO CONTEMPORÂNEA SOBRE OS INCAS 33 3.1 Sobre a historiografia inca 33 3.2 A topografia Andina e as culturas que influenciaram os Incas 35 3.3 A chegada dos incas e sua Ascensão 38 3.4 A organização política- social e o poder do Império 40 3.5 A economia inca e o modo de produção Andino 42 3.6 A sociedade e o governo 44 Conclusão 47 Referências 49 Introdução Levando-se em conta a grande quantidade de temas, assuntos, e casos que existem na historiografia, é normal que o acadêmico eleja aqueles que lhe são mais familiares e que despertam o seu interesse. Contudo, há uma infinidade de temas relevantes que são pouco explorados no meio acadêmico e que não chegam ao conhecimento dos jovens pesquisadores, ficando à margem dos poucos que se interessam em pesquisar tais assuntos. Felizmente, temas esquecidos em uma cultura em dado momento podem estar florescendo em outra. Nesse trabalho aborda-se um desses temas que no Brasil nunca foi muito estudado: os astecas e os incas, de modo a investigar as seguintes questões: Como essas culturas são entendidas e apresentadas pela historiografia? Qual o enfoque dado a elas pela historiografia contemporânea? Quem eram os incas e os astecas? Tendo em vista esses questionamentos, alguns objetivos foram estabelecidos para esse trabalho, quais sejam: levantar uma historiografia contemporânea, e de preferência diversa, que possa demonstrar o enfoque dos acadêmicos ao se estudar as culturas pré-colombianas; 1)Compreender quais são as fontes primárias as quais os acadêmicos têm acesso ao estudarem essas culturas; 2) Apresentar as culturas asteca e inca, a partir da visão desses historiadores, comparando os aspectos diferentes e semelhantes que essas sociedades apresentaram; e 3) Problematizar a historiografia levantada, abrindo espaço para um debate historiográfico. A hipótese inicial que perpassou essa pesquisa era de que os acadêmicos traçavam paralelos em demasia entre as culturas pré-colombianas e outras formas de civilizações ocidentais, o que facilitava a compreensão em um nível didático, mas, por outro lado, talvez não levasse em conta as singularidades dessas culturas. Para que esse trabalho pudesse ser realizado foi necessário compreender as obras dos cronistas espanhóis que escreveram enquanto essas culturas ainda existiam, delinear qual seria a metodologia desse trabalho e compreender se a adjetivação dessas culturas como Império é usada devidamente. Dessa forma, buscou-se entender o discurso de Alteridade, na visão de Tzvetan Todorov, e o eurocentrismo, para que se pudesse compreender o local de fala dos cronistas espanhóis em meados do século XVI. Também foi estudado e analisado o conceito de império, com base na obra de Luís Moita, e, por fim, ficou decidido que o trabalho seria redigido sobre a égide da metodologia da História Comparada e do estudo de caso, com base na obra de José D’ Assunção Barros e Robert Yin respectivamente. Em termos de organização, esta pesquisa está dividida em três capítulos, além da introdução e da conclusão. O primeiro capítulo dedica-se a explicar o que é a metodologia da História Comparada, apresentando a produção teórica a cerca do que seriam Comparação e História Comparada. Na sequência, aborda a importância da escolha metodológica adequada para alcançar os objetivos da pesquisa e a importância do estudo de caso para entender as questões levantadas nesse trabalho. Outros assuntos elencados de modo breve são: a diferença de perspectivas dos cronistas espanhóis, que proporcionaram importante parcela das fontes historiográficas para o período aqui abordado, o conceito de Alteridade, proposto por Tzvetan Todorov, ao se estudar outras culturas. O segundo capítulo apresenta os principais tópicos abordados pelos acadêmicos ao tentar reconstruir uma imagem geral do Império asteca por meio do estudo de León-Portella, Jacques Soustelle e Mario Giordani Curtis. Nesse capítulo são abordados aspectos como: a historiografia asteca, as culturas que influenciaram a forma de vida asteca, os primórdios da civilização, sua organização político-social no período de seu ápice, os principais aspectos econômicos e sociais, a respeito da sociedade e do governo. O terceiro capítulo aborda a cultura inca por meio dos estudos de John Murra, Henri Favre e Mario Giordani Curtis. Esse capítulo se subdivide da mesma forma que o anterior, recebendo o acréscimo de reflexões entre o que foi apresentado sobre os astecas no capítulo dois e o que está sendo apresentado sobre os incas no capítulo em questão. Como fechamento,surgidas sob o sol dos Andes”, influenciou bastante os incas, que estavam em processo de expansão territorial ao mesmo tempo em que os chimu. Favre aponta a importância dada à classe dirigente chimu, que mais tarde seria absorvida pelos incas com a criação do título “Inca”. Os soberanos que dirigiam esses grandes trabalhos de construção hidráulica dispunham de um poder absoluto. Os cronistas espanhóis Miguel Cabello Balboa e Antônio de La Calancha mencionam que a classe aristocrática, da qual descendiam, atribuía-se uma origem divina. Ela pretendia constituir uma humanidade ao mesmo tempo anterior e superior à que formavam as pessoas comuns. Vivia em um luxo e refinamento inauditos, do qual ainda são testemunhos as cerâmicas, os ornamentos de metais preciosos e as numerosas peças de mobiliário que os arqueólogos encontraram nas sepulturas. (1987, p.8) Esse é um dentre os diversos elementos que os incas absorveram das culturas que incorporaram em seu território. Favre enfatiza (1987, p.61) que os incas inovaram pouco, dizendo que “mais do que aquilo que eles acrescentaram a essa herança, sua originalidade decorre dos empréstimos seletivos que fizeram e da maneira pela qual os empregaram e agenciaram.”. Meggers apresenta alguns desses empréstimos seletivos ao se utilizar do discurso de Meggers dizendo: As famosas estradas Incas, com escadarias e túneis abertos na rocha sólida, pontes de suspensão cruzando rios e gargantas, e estalagens em intervalos regulares para viajantes oficiais foram prenunciadas pelos sistemas de estradas, menos extensos, da época Wari. Também as construções em pedras que se justapõem com perfeição e são famosas na arquitetura incaica, tiveram seus antecedentes nas edificações de Tiahuanaco. A liteira, na qual o imperador viajava, e outros atributos de classe foram prerrogativas dos antigos governantes Mochica.17 (apud CURTIS, 1990, p.217). Por fim temos a língua oficial do Império inca, o quéchua, uma adoção cultural das tribos com que os incas vieram a ter contato nos Andes. Os incas foram importantes na difusão dessa língua pelo território Andino e por adotarem-na como língua franca do Império sem, entretanto, abandonarem sua própria língua. 3.3 A chegada dos incas e sua Ascensão Assim como os primórdios da história asteca são envoltos em mitos e lendas, também o primórdio do povo inca é incerto e envolto de lendas. Por um lado temos poucas evidências histórias que possam esclarecer a origem da cultura inca, como dito por Favre: Admite-se ter sido em fins do século XIII que chegaram os Incas às terras férteis que circundam os rios Huatanay e Tullumayo, no centro de uma depressão nas cordilheiras. Essa data é tão hipotética como todas as demais que foram atribuídas aos diversos episódios da história inca, inclusive as mais destacadas. Ela corresponde, no entanto, a uma ruptura que os arqueólogos observaram na tradição cultural local, e cujas características sugerem a irrupção por essa época de um novo povo na região. (1987, p.10) Por um lado temos a descrição de lendas e mitos sobre o surgimento do povo inca, como observado por Favre: Como todas as etnias andinas, os Incas se reconheciam como paqarina, isto é, uma matriz tribal de onde acreditavam originar-se seu ancestral-fundador. Os primeiros cronistas espanhóis relatam que a paqarina da etnia inca era a gruta de Paqariqtampu, situada aproximadamente a uns 30 km ao sul de Cuzco.18 Dessa gruta, haviam saído outrora quatro irmãos: Ayar Kachi, Ayar Uchu, Ayar Awka e Ayar Manko ou Manko Kapaq. (1987, p.11) Esse mito é essencial para a cosmologia inca, pois moldou a história e a cultura desse povo. Favre (1987, p.43) observa que os dirigentes incas enxergavam o império e o povo de Cuzco como uma força civilizadora que trouxe a ordem para aquela parte do mundo e que fora das fronteiras do império não poderia haver senão barbárie e desordem. Isso é uma extensão do mito de fundação inca onde Manko Kapaq, segundo Favre (1987, p.11) “reuniu sob sua autoridade as populações esparsas das redondezas, que viviam na barbárie, para fazê- las penetrar na civilização.”. Além disso, nos Andes havia o costume de cada povoamento possuir uma divindade local, normalmente um antigo ancestral prodigioso, que após a morte começou a ser cultuado. Essa divindade era designada pelo termo de Waka. Favre (1987, p.11) aponta a existência desse traço no mito de fundação inca: “O mais velho, Ayar Kachi, regressou de Hayskisro, reentrando na caverna matricial para aí se converter em waka (divindade local).”. Assim como os astecas, os incas começam sua empreitada Imperial como parte de uma confederação de tribos. Os incas aparecem como um dentre quatro povos que formavam uma confederação nos Andes. De acordo com Favre o mito de surgimento inca teria um propósito muito mais prático do que histórico: O mito dos irmãos Ayar aparecia, assim, como elaboração tardia a partir de elementos díspares. Ele visa, em primeiro lugar, atribuir uma origem comum aos ancestrais-fundadores de quatro grupos étnicos diferentes que haviam decidido confederar-se. Sua principal função era justificar a situação política de Cuzco após a chegada dos Incas, e não descrever o itinerário que estes teriam empreendido. (1987, p.11- 12) Por fim, Favre diz que os incas possivelmente ocupavam uma posição fraca e de dependência nessa aliança, e que aos poucos foram se tornando o grupo mais importante ao conquistarem vitórias militares e anexarem outros povos até que, ao final do século XI, se tornaram a principal força dentro dessa confederação. Assim, lançaram as bases para o que viria a ser o Império inca, instaurando o culto solar associado ao inca e a divindade ancestral inca. Os outros grupos que faziam parte da Confederação foram aos poucos perdendo sua autonomia até se fundirem ao que Favre (1987, p.13) chama de “Estado de pretensão unitária”. Dito isso, pode-se fazer um paralelo entre os mitos primordiais astecas e incas. Ambos têm sua gênese em terras místicas, respectivamente Aztlan e Paqariqtampu. Enquanto que os astecas fizeram uma longa peregrinação, os incas surgiram já nos Andes ao redor de Cusco. Os astecas se diziam guiados pelo seu deus padroeiro, Huitzilopochtli, e mais tarde viriam a alegar descendência de Quetzalcoatl. Os incas também remontam sua linhagem a uma figura lendária. Por fim, ambas as classes dominantes se atribuíam origem divina. Em termos dos mitos que lançaram a base para os dois Impérios, vemos duas situações bem diferentes. Favre defende que esse mito inca foi criado posteriormente como forma de justificar a confederação. Embora ambos os povos que despontaram nessas confederações tenham tomado para si o poder e o controle, os astecas, segundo Soustelle, não tinham intenção de unificar o Império. Por outro lado os incas, como aponta Favre, lançaram as bases para a unificação dos Andes, processo esse que estava em curso quando os espanhóis entraram em contato com esse Império. 3.4 A organização política- social e o poder do Império O Império inca, em seu auge, abrangia territórios do atual Chile, Argentina, Bolívia, Equador, Peru e Colômbia. Era constituído por diversas unidades étnicas diferentes e comandado, no topo, pelo povo conhecido como inca, que impôs a língua Quíchua. De acordo com Favre (1987, p.61), os incas pouco inovaram, se aproveitando da vasta bagagem de métodos e tecnologias já existentes nos Andes, “Mais do que aquilo que eles acrescentaram a essa herança, sua originalidade decorre dos empréstimos seletivos que fizeram e da maneira pela qual os empregaram e agenciaram”. Territorialmente o Império se dividia em quatro partes (suyu) desiguais em termos de tamanho. Isso explica a autodenominação do Império pelos incas de Tawaintisuyo, ou seja, quatro partes ou quatro províncias. Cada uma dessas partes, por sua vez, se dividia em unidades de 10 mil famílias que, por sua vez, se subdividiam em unidades de mil, 100 e 10 famílias. Cada fração dessas unidades estava sob a responsabilidade de um funcionário imperial subjugado (querespondia) a um funcionário de uma unidade superior. Favre observa o Império refletia a organização tipicamente Andina. Tal visão mítico-ideológica de um Império que se conservou marcado pelas origens tribais não podia confirmar a tese de um Estado despótico de estruturas rígidas e centralizadas. Entretanto, o Império Inca se apresentava fundamentalmente como integrador da ordem social tradicional. Ele operava a síntese da organização piramidal e segmentaria (sic) das etnias andinas sobre as quais repousava; ele prolongava e coroava os escalonamentos de chefias, da mesma maneira que estas prolongavam e coroavam os escalonamentos dos ayllu. De fato, o Império, a chefia centralizada e o ayllu entravam em uma mesma relação de homologia, a um tempo reproduzindo-se e se englobando. (1987, p.43) A menor unidade do Tawantinsuyu era o ayllu. Cada ayllu era composto de diversas famílias unidas por parentesco que obedeciam a um líder local cujo título era kuraka. Cada ayllu possuía uma divindade tutelar, waka, considerada como ancestral do kuraka, legitimando o líder local. Como forma de punir os ayllus rebeldes os incas apreendiam e por vezes destruíam wakas dos ayllus rebeldes. Cada ayllu possuía divindades próprias que normalmente eram incorporadas ao culto religioso inca após sua anexação ao Império. Cada ayllu estava inserido em uma organização hierárquica dentro de uma dada província. Existiam ayllus dominantes e ayllus dependentes. Os ayllus dependentes estavam submetidos à tutela dos ayllus dominantes, ou seja, os kurakas dos ayllus dominantes exerciam mando sobre os ayllus dependentes. Uma das funções dos kurakas era representar suas etnias perante o inca. Já os cargos de funcionário imperial eram reservados ao grupo da etnia inca, e os altos cargos administrativos normalmente estavam reservados as linhagens imperiais. Cada uma das quatro províncias estava submetida ao julgo de um tucricues.20 Suas ordens vinham de um conselho composto por quatro membros intitulados de apu que aconselhavam o inca na tomada de decisões. De fato, o Império inca pode ser interpretado como uma continuação natural do escalonamento das diferentes sociedades andinas por ter adicionado mais um degrau à pirâmide social andina com a introdução de um poder centralizador que abarcava outros poderes menores. Dos ayllus até o inca, a forma básica da estrutura social se repete da menor unidade de poder até a maior de todas e, mesmo com a adição dos funcionários imperiais que serviam como representantes dos incas no local onde eram designados, a estrutura básica da sociedade andina permaneceu imutável. 3.5 A economia inca e o modo de produção Andino Assim como muitos aspectos da cultura e sociedade inca foram absorvido e desenvolvido das sociedades que os incas dominaram, o “modo de produção Andino” era anterior aos incas, sendo por eles adotado e expandido. Como anteriormente dito, a população dos Andes se dividia entre os que viviam no nível do mar e os que viviam nas montanhas. Dessa forma, a economia dessas populações se complementava. Assim sendo, Murra (2012, p.70) denomina a economia inca de “economia de arquipélago”, sendo cada ayllu uma “ilha” de produção que contribuía com uma parcela para o todo. As terras ao redor de cada ayllu eram de usufruto da comunidade, ficando a cargo do Kuraka supervisionar sua concessão. A totalidade dessas terras era dividida em três partes: uma servia para a manutenção do ayllu, outra para a manutenção das autoridades imperiais e outra para a manutenção dos templos locais e centrais. Existiam terras dedicadas ao pastoreio e terras dedicadas a agricultura. no caso do pastoreio, como observado por Curtis (1990, p.222): “As vastas extensões da estepe estavam disponíveis para cada família que aí mantinha um rebanho sob a guarda de crianças ou adolescentes”. Já no caso da agricultura, “as terras de cultura eram entregues, loteadas, a título de usufruto, às famílias. A extinção da célula familiar implicava a reintegração do lote ao fundo comum”. Enquanto que no caso asteca o comércio era uma prática que vinha ganhando força, o comércio nos Andes não possuía a mesma importância e era até mesmo inibido pelo modo de vida. Curtis diz: A rígida planificação socioeconômica do império não estimulava até mesmo impedia um intenso intercâmbio comercial. Este intercâmbio possuía um caráter local e consistia na troca de mercadorias em pequenos mercados regionais. Quanto ao comércio externo deve-se registra que a elite da população podia conseguir, mediante trocas, mercadorias originais de países distantes. (1990, p.223) Cada indivíduo dentro do ayllu era responsável por um conjunto de tarefas em seu núcleo natal. Quando não estavam cuidando das plantações e dos rebanhos, os membros do ayllu poderiam trabalhar para o kuraka local realizando tarefas mediante pagamento em espécie. O tributo recolhido pelo Estado inca não era na forma de espécie, como era o caso dos astecas. Nos Andes o celeiro de cada família era considerado sagrado. Logo, o Estado recolhia tributo por meio de serviços prestados ao Estado. Cada indivíduo deveria ceder sua força de trabalho ao Estado de tempos em tempos. Esse serviço, denominado de mita, consistia na manutenção e expansão do sistema de estradas e estalagens inca, trabalho em minas, pastoreio dos rebanhos do inca e cultivo das terras do Estado. Um elemento importante da sociedade inca que foi extensamente estudado por Murra eram os mitmacs. Os mitmacs eram famílias escolhidas dentro de um ayllu que deveriam exercer funções especiais indicadas pelo Estado inca. Originalmente, sua função seria deixar seus núcleos familiares sazonalmente para trabalhar em plantações e minas, que normalmente ficavam a alguns dias de caminhada de suas residências permanentes. Porém, com a hegemonia inca nos Andes, as funções dos mitmacs foram ficando cada vez mais diversas, o que se deu, em parte, devido a constante expansão do Império. Eles passaram também a serem deslocados para servir de guarnição militar nas bordas do Império ou em regiões particularmente turbulentas. Como os incas dominavam vastas extensões de terras, havia a necessidade de deslocar mitmacs para trabalhar em locais cada vez mais distantes, o que acabou levando à criação de diversas “colônias permanentes” onde moravam famílias de mitmacs no entorno dessas suas zonas de trabalho sazonais. Esse fluxo de famílias, e às vezes ayllus inteiros, também atendia a outros interesses do Estado como, por exemplo: Disseminação da língua quéchua, costumes e técnicas pelos Andes. Transferir grupos problemáticos para mais perto do centro de poder e grupos leais para locais mais problemáticos. Como não existiam soldados profissionais, os incas recorriam ao recrutamento em massa de grupos étnicos que revezariam sazonalmente o serviço com outros grupos. É interessante notar que os grupos recrutados sempre faziam parte da população que vivia nas montanhas, pois os incas não confiavam muito nos grupos que viviam nas terras baixas. É importante mencionar também as aqllas, ou “mulheres escolhidas”. As aqllas eram moças recrutadas dos diversos cantos do Império para fazer parte do culto do sol nos templos em Cusco. Normalmente são mais lembradas hoje por sua importância econômica do que sua importância religiosa. Isso se da pelo fato de que parte de suas funções era a de fiar e tecer a lã dos rebanhos do inca, que eram vastos. Favre diz o seguinte sobre o papel dessas moças: Passavam a vida na mais rigorosa castidade e no mais completo isolamento, a serviço do culto solar. Entretanto, além das funções religiosas que preenchiam, elas desempenhavam um papel econômico de singular importância, fiando e tecendo a lã dos rebanhos do Sol. Os monastérios, cujo número aumentava proporcionalmente ao das metrópoles regionais, e que por vezes compreendiam 2 mil aqlla, representavam verdadeiras oficinas têxteis, produzindo em abundância todo tipo de tecidos e vestimentas. (1987, p.42) Essas vestimentas eram de singular importância dentro do Império inca porserem símbolo de poder, utilizadas como presentes, principalmente para o exército, e serem peças valiosas. 3.6 A sociedade e o governo Favre, Curtis e Murra não trabalham com estruturas sociais em si. Isso advém do estudo da economia andina, que se apresenta diferente o suficiente para evitar a distinção de “classes” da forma tradicional. Como abordado anteriormente, a população Andina estava dividida em relação às tarefas que realizavam para o Império inca. Aqui vamos pontuar brevemente a questão da “nobreza” e a posição dos yana. Frank da Costa descreve esse grupo da seguinte maneira: A nobreza não se confundia com a administração. Provinha de evolução do sistema centro-andino (estratificação social baseada no parentesco) com influência de noções mais estritamente aristocráticas e hereditárias, provavelmente inspiradas pelos Chimu. No apogeu do império inca, a nobreza incluía: a) Os membros dos onze ayllu reais constituídos pelos descendentes em linha paterna dos onze soberanos (Inca pelo sangue); b) Os Incas por privilegio, que habitavam Cuzco, Urubamba e Apurimac e falavam quéchua nativo. Os que residiam perto de Cuzco eram divididos em onze ayllu; c) Os Curaca, antigos chefes locais e funcionários administrativos que recebiam o usufruto de terras que passavam para os seus descendentes. (apud CURTIS, 1990, p.225). Assim, a nobreza era principalmente constituída pelo inca, sua família e seus descendentes. Estavam isentos do sistema de mita e possuíam demais privilégios. O último grupo social de interesse no mundo inca que será apresentado aqui eram os yana. Favre assim descreve sua posição: Não eram escravos no sentido que os historiadores da antiguidade dão a esse termo. Embora desligados de qualquer laço ou atributo étnico, conservavam o direito de reter suas terras e possuir seus próprios bens e seu próprio gado. Não podiam escapar de sua condição, que lhes era hereditária, mas a transmitiam a um só de seus filhos, escolhido por seu senhor para substituí-los e sucedê-los em uma morte. Essa categoria recobria, aliás, níveis bastante diversos. O yana, que o serviço do soberano associava aos faustos da Corte de Cuzco, encontrava-se em sua posição inteiramente diferente daquele que houvesse sido atribuído a um pequeno kuraka de província, por meio do jogo de redistribuições sucessivas. Sabe-se que certos yana dispunham de suficiente riqueza e prestígio para terem tantas esposas como um chefe local, e que muitos deles ocupavam altas funções na administração imperial. (1987, p.41) Eram servos e dependentes que prestavam serviços integralmente para algum líder, como, por exemplo, um kuraka ou o Inca. Esses indivíduos, junto das aqllas, são os únicos exemplos de grupos que não estavam inseridos no sistema dos ayllus Andino. Ao contrário do que se observou no caso asteca, os incas não possuíam grupos de guerreiros profissionais, não apresentavam títulos que não correspondessem a alguma forma de ocupação administrativa. Os incas desconheciam a escravidão, tendo em vista que todos deveriam contribuir de uma forma para o Estado inca. Além disso, a posição social de um indivíduo dependia de sua descendência direta e, ao contrario dos pilli no caso asteca, não havia esse movimento claro de ascensão e queda de um grupo para outro. Conclusão Tomando por base os objetivos estabelecidos no inicio desse texto, o trabalho de comparação entre os astecas e os incas foi finalizado reforçando que por mais que comparações possam ser traçadas entre essas culturas, fundamentalmente esses povos se apresentam como grupos distintos que possuem suas formas próprias de organização social, econômica e cultural. Ambos possuem suas origens envoltas em lendas e começaram sua empreitada Imperial fazendo parte de confederações. Ambos aprenderam muito com as culturas que os antecederam, mas ao passo que os astecas apresentavam características únicas e que não podem ser atribuídas à osmose cultural, mas sim a inovação, os incas estavam satisfeitos em aperfeiçoar o conhecimento já existente, inovando pouco. Em termos de Império, vemos diferenças tanto na natureza dos tributos quanto da autonomia dos grupos subjugados. Enquanto que os astecas recolhiam tributo em espécie, os incas requisitavam tributo na forma de trabalho sazonal. Os incas possuíam um controle mais rígido dos povos subjugados, muitas vezes movendo comunidades inteiras de um local para outro e disseminando o quéchua pelos Andes como língua oficial. Os astecas, por outro lado, não se importaram em estabelecer um controle tão rígido sobre os povos dominados. Não era incomum que os líderes das cidades continuassem no poder após serem subjugados pelos astecas. Dito isso, em síntese com as outras semelhanças e diferenças estabelecidas nos capítulos anteriores, os incas e os astecas são civilizações que, se estudada apenas do ponto de vista de sua organização social, apresentam semelhanças superficiais. Contudo, ao se estudar os demais aspectos culturais, se apresentam como organizações deveras distintas. O processo de levantamento bibliográfico sobre os incas e astecas foi uma tarefa mais difícil do que se imaginou. Não é que exista uma carência de obras sobre o tema propriamente dito. Pelo contrario, a produção literária sobre essas civilizações não é pequena. O problema reside no fato de que os acadêmicos de maior renome nessas áreas são franceses, americanos e mexicanos e escreveram muitas de suas obras antes da década de 1970. Algumas delas foram traduzidas para o português, principalmente pela editora Zahar, na década de 1980. Mas, mesmo assim, a escassez de material traduzido para o português é motivo suficiente para desencorajar pesquisadores que não consigam ler pelo menos uma língua estrangeira fluentemente. Nota-se, também, uma carência de obras de grande porte redigidas nas últimas duas décadas. Referências BARROS, José D’ Assunção. História Comparada. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2014. BARROS, José D’ Assunção. História Comparada – da contribuição de Marc Bloch à constituição de um moderno campo historiográfico. História Social, Campinas, n. 13, 2007, p.07-21. Disponível em . Acessado em: 29 fev. 2020. BETHELL, Leslie (org.). 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Ressalta-se, porém, que de modo algum este trabalho se propõe a ser uma visão exaustiva ou completa acerca do tema abordado. Ao contrário, a ideia principal que o permeia é facilitar e possibilitar estudos relacionados às culturas pré-colombianas. 1. DA TEORIA E METODOLOGIA Nesse capítulo é apresentada a parte pertinente a teoria, metodologia e termos importantes para a compreensão dos casos estudados nessa monografia. O capítulo foi escrito sem subdivisão de forma que cada tópico dialogue com o tópico seguinte. Dentre os autores apresentados nesse capítulo estão: Jose d'Assunção Barros, Robert Yin, Marc Bloch, Tzvetan Todorov e Luís Moita. 1.1 Aspectos teóricos e metodológicos que orientam esse trabalho Na busca para compreender as mais diversas sociedades humanas, os historiadores vêm desenvolvendo diferentes modalidades historiográficas que lhes permitam analisar os seus objetos de estudo, seja por meio de observação participativa, integrando-se às culturas sob análise, ou não-participativa, mantendo-se externo ao objeto de interesse. Essas modalidades historiográficas se apresentam das mais diversas formas e possuem focos que variam desde delimitações espaciais, temporais ou sociais até religiosas, econômicas ou populacionais. É difícil afirmar que existam modalidades históricas “erradas” ou reducionistas por natureza, pois, mesmo a partir de uma abordagem equivocada, ou que não leve em consideração as especificidades do objeto em foco, pode-se tirar conclusões importantes que auxiliem outros pesquisadores. Dentre essas modalidades, destaca-se nesta monografia a História Comparada, a qual oferece uma abordagem única em que, de um lado, tem-se o estabelecimento de um recorte e de outro, o seu próprio “modo de tratamento sistematizado das fontes dos dados e dos processos investigativos” (BARROS, 2007, p.2). Ao se trabalhar com História Comparada, devem-se fazer algumas perguntas que serão fundamentais para trilhar o caminho mais adequado aos objetivos da pesquisa e entender o que pode e o que não pode ser comparado, pois essa modalidade historiográfica não é uma mera exposição de fatos ou curiosidades, mas, como estabelecido por Marc Bloch, citado por Barros (2007, p.6), a História Comparada deve ser construída a partir de problematizações especificas para não correr o risco de desviar-se para um “comparativismo histórico”. Antes de tudo, deve-se perguntar: “O que é comparar?”, “Por que comparar?”, “O que esperar com a comparação?”, “O que se pode comparar?”, “O que observar?”, “Como observar?” e “Como tratar os resultados finais?” (BARROS, 2007, p.2-4). Como reflexão inicial, pode-se dizer que comparar é um dos gestos mais naturais do ser humano. Possuímos uma tendência natural de comparar o novo e desconhecido com o antigo e conhecido, o que pode se apresentar como um problema para o historiador quando este envereda para uma divisão reducionista e esvazia a singularidade dos seus objetos de estudo. Para que isso não ocorra, se faz importante que o historiador tenha o cuidado de escolher objetos de pesquisa que possam ser comparados entre si e cuja comparação sirva para acentuar suas diferenças e semelhanças, levando em consideração seus processos históricos distintos. A História Comparada se diferencia de um simples comparativismo histórico na medida em que estabelece uma sistematização do método comparativista. As premissas básicas do método de História Comparada, a saber: “comparar”, “elencar semelhanças” e “estabelecer analogias”, são ações tão naturais e familiares ao historiador quanto as ações de “contextualizar acontecimentos” ou “dialogar com as suas fontes”. Ao separar a história comparada do comparativismo, Bloch aponta dois aspectos que não podem fugir da História Comparada, que seriam eles “uma certa semelhança dos fatos” e “certas dessemelhanças nos ambientes em que esta similaridade ocorria”. Esses dois parâmetros visam tanto resguardar o historiador para que os objetos de estudo escolhidos possuam suas diferenças e semelhanças, questão essencial para a comparação, e para que não se escolham objetos idênticos ou que sejam anacrônicos entre si (BARROS, 2012, p.16). Ao se observar duas ou mais realidades distintas, que possuem suas semelhanças e diferenças, como feito por Marc Bloch na sua obra Os reis taumaturgos (1924), o trabalho do historiador se abre para a possibilidade do que Barros (2012, p.17) chama de “iluminação reciproca”, na qual o estudo de dois objetos não tão bem compreendidos podem ser melhor compreendidos por meio da comparação de suas especificidades, semelhanças, diferenças e do processo de transformação que lhes resultou. Para tanto, esse tipo de estudo deve ser feito sobre dois objetos que possuíram contato entre si. O exemplo mais famoso desse tipo de estudo foi, mais uma vez, a obra de Marc Bloch Os reis taumaturgos (1924). Nessa obra, Bloch explora a temática dos reis taumaturgos na França e Inglaterra. Nos idos de 1920, essa questão da capacidade de alguns monarcas medievais curarem certas doenças de seus súditos por meio do toque real era uma temática pouco conhecida e pouco estudada. Por meio da sobreposição desses dois objetos que se influenciaram mutuamente e que existiram no mesmo período temporal, Bloch obteve resultados inéditos que só foram possíveis por meio do estudo comparado e problematizado desses dois casos. A História Comparada ainda é um método jovem e que atrai muito mais interesse teórico- que estudos de cunho aplicado propriamente ditos. Contudo, te ganhado bastante espaço também na literatura, principalmente desde os idos de 1980, com a publicação de um número inteiro da revista American History Review, dedicado a essa forma contemporânea de se trabalhar a historiografia (BARROS, 2012, p14). Dentre os motivos pelos quais isso ocorre, está o fato de que, por sua natureza, a História Comparada se apresenta, muitas vezes, como um desafio para o historiador. Isso se dá, principalmente, pela forma como os historiadores se especializam em áreas do conhecimento no ocidente. Isso ocorre, normalmente, de duas formas diferentes. Em espaços temporais (Idade Média, Idade Moderna, Antiguidade, Tempo Presente, etc.) ou em espaços físicos (França, Brasil, Inglaterra, etc.), o que apresenta um desafio para o historiador quando se depara com a necessidade de buscar e de se inteirar de fontes, autores e debates historiográfico que não fazem parte da sua especialidade, fora de sua zona de conforto. Sendo assim, uma das maiores atrações desse método - a possibilidade de romper barreiras físicas e temporais - é vista com certo fascínio, mas também com receio de tombar ao anacronismo se não forem frisadas as singularidades e especificidades de cada caso. Embora a sistematização da História Comparada seja atribuída a Marc Bloch, é importante adicionar que a ideia de se utilizar o comparativíssimo para auxiliar a entender as sociedades e a vida humana remonta ao Iluminismo do século XVIII. Essas primeiras experiências possuíam focos diversos, seja pelo estudo da vida e do pensamento na Inglaterra e França por Voltaire em duas suas de obras: Cartas filosóficas, de 1734, e Ensaio sobre os costumes e o espirito das nações, escrito em 1756, no qual se comparava a China, a Índia e o mundo Islâmico em relação às sociedades europeias. Em sua obra A riqueza das nações de 1776, Adam Smith propunha uma comparação entre a irrigação e agricultura na China e alguns outros países asiáticos e o que se via nas cidades europeias da época, caracterizadas pelo comércio e pela manufatura (BARROS, 2012, p.28). No século XIX, a comparação foi adotada por diversas disciplinas como a antropologia, a linguística, a sociologia, o direito e a economia. A utilização de uma análise comparada só viria a ser reintroduzida na historiografia a partir do revisionismo empreendido pela Escola dos Annales no período entre guerras. Algunshistoriadores apontam essa revitalização da comparação dentro da história como uma resposta ao nacionalismo extremo, o que ajudou a desencadear a 1ª Guerra Mundial. A comparação se apresentava, então, como uma possibilidade intrigante de deixar para trás o desapontamento dos historiadores com os velhos modelos de história dos séculos passados desde sua institucionalização como ferramenta política e campo acadêmico, que enfatizavam a construção de memórias nacionais voltadas para a exaltação de povos, e trilhar por um novo caminho historiográfico. Nesse contexto, alguns historiadores europeus defenderam a bandeira da comparação como o método historiográfico a ser seguido. Henri Pirenne, renomado historiador Belga, abordou a comparação dentro da história em dois trabalhos tardios: no texto “De la méthode comparative em historie” e em “What are historians trying to say”, um capítulo do livro Methods in Social Science: a case book, livro organizado por Stuart Rice e publicado em 1931. Em seu artigo “Marc Bloch and Henri Pirenne on Comparative History”, Adriaan Vershulst (2001) afirma que Pirenne, por fruto de suas experiências pessoais na 1ª Grande Guerra e como forma de combate ao nacionalismo Belga, considerava que os avanços no campo da comparação tornariam a História “mais rica e mais precisa”. O autor acrescenta que, para Pirenne, a comparação deveria ser trabalhada de forma objetiva para compreender o que é singular de cada nação e o que, no seu desenvolvimento, é partilhado por outras (SILVA e TORRES, 2015, p.303). Ainda no período entre guerras, Marc Bloch escreveu o seu famoso artigo Pour une historie comparée des sociétés européenes, na Reveu de Synthèse Historique (1928). A obra é fruto do VI° Congresso Internacional de Ciências Históricas de Oslo, no qual Bloch encabeçou importante conferência com o intuito de refletir sobre os benefícios da História Comparada e o seu potencial para a historiografia. A partir de então, como estabelecido anteriormente, essa metodologia historiográfica vêm ganhando espaço nos círculos acadêmicos de história. Por último, é importante observar o que Barros chama de “Ilusão sincrônica”, que se constitui como “a ideia de que todas as sociedades são comparáveis se se encontram em estágios similares de desenvolvimento” (2007, p.12). O problema com essa ideia é que ela desconsidera o fato de que cada sociedade é uma unidade única e dinâmica. Para a boa realização deste trabalho se fez necessária a utilização da metodologia do estudo de caso em conjunto com a da História Comparada. As diferentes metodologias existem para auxiliar o pesquisador em seu processo de pesquisa, seja na sua escolha de fontes e do objeto de estudo, seja no modo como observar o objeto ou como realizar sua análise. Metodologias distintas apresentam predileções próprias para análise de objetos e formas de estudo diferentes. Como dito anteriormente, a História Comparada apresenta um modo de tratamento sistematizado das fontes, dos dados e dos processos investigativos. Já o estudo de caso se volta mais para delinear o foco e o objeto de estudo. Em relação à função da metodologia, Waldyr Viegas (1999) identifica três aspectos em que esta auxilia o pesquisador: o didático, o econômico e o pedagógico. O aspecto didático guia o pesquisador na sua busca de propósito. O aspecto econômico indica os melhores procedimentos estruturados e organizados, a sua disposição, e o auxiliam a direcionar o foco, permitindo que o pesquisador não desperdice sua energia. Por fim, o aspecto pedagógico aponta falhas e desvios na realização da pesquisa a serem corrigidos. Esses campos metodológicos são importantes, pois permitem que diferentes pessoas trabalhem sobre a supervisão de preceitos maiores similares, mas com objetos e objetivos distintos. Além disso, a distinção entre formas de se construir o saber auxiliam não só na pesquisa, mas também na transmissão do conhecimento. Para aqueles que possuem íntima ligação com a academia, saber qual a metodologia adotada por um pesquisador é importante, pois pode vir a influenciar a opinião desse leitor, e sua decisão em adquirir e ler a obra. Por fim, há sempre a possibilidade de diferentes metodologias sustentarem teorias diversas sobre campos do saber. Sendo assim, como explica Robert Yin (2004, p.21), a função de estudos subsequentes dentro de um campo do conhecimento é expandir seus pressupostos teóricos, suas teorias e coletar dados adicionais que possam construir em cima do que já é sabido. Sendo assim, o estudo de caso se apresenta como uma ferramenta útil para historiadores na medida em que permite que várias obras, teorias e fontes sejam agregadas para possibilitar uma melhor compreensão das partes que montam um todo. Além disso, o fato de muitas vezes se estudarem cenários específicos, um método estruturado que possa ser adotado se faz bem vindo. Por exemplo, Nicholas G. L. Hammond em sua obra O Gênio de Alexandre, o Grande (2005) nos apresenta seu estudo sobre Alexandre, o Grande: os feitos e possíveis traços da personalidade desta figura histórica, os quais chegaram até nós por meio de seus biógrafos, e também quais são as nossas fontes de informação sobre a vida desse personagem. Segundo Hammond: Devemos nosso conhecimento principalmente a quatro antigos escritores, cujos trabalhos foram compostos três séculos ou mais depois da carreira de Alexandre: Diodoro Sículo, autor de uma história universal; Pompeu Trogo, cujo trabalho sobreviveu em uma epítome de Justinino; Plutarco, biógrafo e moralista; e Arriano, o historiador da Expedição de Alexandre. É óbvio que esses escritores consultaram os trabalhos de autores anteriores que haviam sido contemporâneos dos acontecimentos ou escreveram trabalhos-padrão em uma época anterior do período helenístico (que começou após a morte de Alexandre). (2005, p.59) R. Yin (2004) defende que um bom estudo de caso deve acrescentar algo de novo ao se estudar um caso. Como podemos analisar a partir do exemplo anterior, Hammond reúne as obras de diferentes autores para poder analisar quais partes da narrativa são derivadas de quais autores e, a partir dessa investigação, construir e estudar a imagem de Alexandre, o Grande, que esses diferentes autores apresentam. Como metodologia, o estudo de caso foi muito utilizado, e ainda o é, por antropólogos e sociólogos que examinam as complexas sociedades e o comportamento humano. Outras áreas, tais quais: administração, direito, medicina, educação e historia se utilizam do estudo de caso com frequência. Segundo Doris Soares: Em linhas gerais, essa metodologia é aplicável em contextos onde se deseja investigar um sistema complexo que não pode ser facilmente representado ou compreendido por meio de uma única medida quantitativa, ou que não faz sentido fora do contexto onde ocorre naturalmente. Desta forma, o estudo de caso pode incluir tanto dados quantitativos quanto qualitativos, coletados a partir de uma observação meticulosa do objeto de interesse de modo a capturar, de forma adequada e precisa, o caso em toda a sua totalidade e complexidade. (2006, p.111) Por fim, R. Yin (2004) descreve que um bom estudo de caso deve delinear e responder as perguntas como e por quê. Essas perguntas têm como objetivo delinear o trabalho do pesquisador auxiliando-o a realizar um estudo centrado e focado na sua análise proposta. No caso desta monografia, o foco é estudar como compreendemos hoje os povos inca e asteca, e por que compreendemos essas culturas de tal maneira e não de outra forma. Seu objeto de análise são as sociedades asteca e inca. Sendo assim, optou-se pela história comparada e o estudo de caso como metodologias a serem seguidas neste trabalho. Devemos observar também a questão da temporalidade na historiografia, pois o seu foco varia de sociedade para sociedade e de época para época. Na Europa medieval havia uma longa tradição de viajantes publicarem diários contendo suas observações, comentários e a rota percorrida. Tal forma literaria era comum principalmente entre peregrinos querealizavam viagens até locais sagrados, mas também não eram incomuns registros de viagens de comerciantes e aventureiros que transitavam entre os centros urbanos e locações mais “exóticas”, locais onde o trânsito humano era menor ou que ficavam mais afastados dos maiores centros populacionais. Nesse contexto, não é de se estranhar os diferentes registros de viagens que temos sobre as Américas, aqui apresentados como crônicas de cronistas espanhois. Um rápido exemplo a ser abordado é a obra de Jean de Léry Viagem à terra do Brasil (2007), publicada originalmente em 1578. Nessa obra Léry, que fora pastor e missionário calvinista natural da França, descreve sua viagem da Europa até o Novo Mundo, suas experiências na França Antártica e com os indígenas daquela região. Léry narra desde a organização de seu grupo, empreendida pela igreja de Genebra, seus dias em alto mar, a geografia, o clima, a personalidade de Villegagnon, comandante da colónia, os animais, os costumes e a língua dos nativos, as dificuldades e os conflitos enfrentados pelo seu grupo, tanto na jornada de ida, na colónia e na jornada de volta, os animais das Américas, etc. É uma obra que, para conterrâneos seus que viajavam pouco e possuiam pouco acesso à informação, seria uma fonte inestimavel e riquissima em informações sobre o mundo além da realidade diária. Uma das maiores problemáticas enfrentada pelo historiador é reconstruir as sociedades humanas que não mais existem de forma que sua obra seja verossímil ao que um dia existiu. Quanto mais nos afastamos da modernidade, mais complicado se torna reconstruir tais sociedades. Os problemas são os mais diversos, tais como a falta de fontes primárias, sejam elas textos ou achados arqueológicos, o que impossibilita compreender línguas mortas; a existência de relatos contraditórios, o que cria questões e situações até hoje postas em debate ou mal compreendidas, entre outros. Essa problemática parte do fato de que todo conhecimento das Ciências Sociais é aproximado e fruto de construção com base em diversas fontes de conhecimento e teorias. A construção histórica é constantemente revisada, à medida que se encontram e se reúnem novas fontes que podem, ou não, entrar em conflito com o que é tido como norma. Poucas teorias não são passiveis de reavaliação e, por conseguinte, de serem derrubadas ou reformuladas. Pode-se dizer que o esforço para reconstruir sociedades, sejam elas atuais ou não, é um esforço constante e sempre incompleto, pois as sociedades humanas são organizações tão ricas que nenhum acadêmico consegue reconstruí-las em sua plenitude. Ao se estudar as sociedades pré-colombianas, nós deparamos com todos esses problemas. Há historiadores que fazem usos de discursos anacrônicos, tanto aqueles que viveram na época da conquista quanto aqueles de tempos mais recentes; observamos a dificuldade de compreender e entender o outro como um individuo em todas as suas especificidades; observamos discursos carregados de juízos de valor e a tentativa, por vezes, de engessar essas culturas pré-colombianas em modelos teóricos usados para descrever outras culturas, tais quais: Civilizações hidráulicas, modo de produção asiático, Impérios, Feudalismo, etc. Ao mesmo tempo, podemos observar que a construção dessas sociedades é contemporânea, uma vez que se encontra em formação, sendo desde meados do século XX, constantemente repensada seja pelos esforços de Miguél León-Portilla, Ronaldo Raminelli, John Murra, Ciro Flamarion ou dos diversos autores pós-coloniais. Em relação às fontes utilizadas para o estudo dessas civilizações, possuímos tanto fontes de crônistas de época, tais como: Bartolomeu de Las Casas, Bernal Díaz del Castillo, Fernando de Alva Cortés Ixtlilxóchitl, Pedro Cieza de León, Inca Garcilaso de la Vega e Jean de Léry, tanto quanto construções mais recentes com base em fontes deixadas pelos cronistas, os nativos e a arqueologia, tais como: Miguel León-Portilla, John Murra, John Hemming, Lewis H. Morgan, Angel Parlem, Jacques Soustelle e Mario Curtis Giordani. Não cabe a esse trabalho debater a intenção desses escritores ao construir suas narrativas da forma com que as fizeram. Entretanto, é válido explorar alguns dos preceitos inconscientes que os cronistas carregavam ao escrever sobre os povos com os quais tiveram contato, preceitos estes que os acadêmicos ainda reproduzem ao se utilizarem dessas fontes primárias. Para isso, há a necessidade de compreendermos dois conceitos chaves: Eurocentrismo e Alteridade. É impossivel falar da percepção do outro que não o Europeu Ibérico no século XVI sem abordar os conceitos de Alteridade e Eurocentrismo. O problema a ser abordado aqui é um de entendimento, o qual pode ser pensado tomando por base o conceito de Alteridade (outridade), partindo da obra de Tzevetan Todorov A conquista da América: a questão do outro, na qual o autor diz que a existência do “eu- indivíduo” só é possível a partir da existência do outro. Dessa forma, a visão que o “eu- indivíduo” possui do outro é moldada pelo seu contato com o diferente. Para Todorov (1982), esse outro pode ser entendido como uma abstração criada para compreender o que difere o “eu-indivíduo” do outro. Nesse caso, o outro pode ser dividido em dois grupos: o interior e o exterior. O primeiro existe dentro da própria sociedade na qual o “eu-indivíduo” está inserido, se caracterizando por ser exterior ao “eu-indivíduo”, ou seja, não existe um sentimento de pertencimento nesse grupo por parte do eu. O segundo grupo se caracteriza por todos aqueles que são exteriores à sociedade na qual o eu se insere. São os estrangeiros que muitas vezes possuem costumes, histórias, culturas, línguas e moral estranha e, por vezes, alienígenas à concepção do eu. Essa questão do “eu-diferente” é particularmente importante de ser pensada no contexto ibérico do século XVI, pois por muitos séculos essa parte do continente viu a convivência entre os cristãos europeus e os muçulmanos estabelecidos na península, vindos do norte da África. Essa confluência de culturas diferentes muitas vezes não era pacífica e, portanto, a partir do século VIII, iniciou-se o movimento nos reinos cristãos de reconquista da península que consideravam sua por direito e da expulsão do diferente, que nesse caso compunha todos que não eram cristãos. Esse longo movimento de conflito cristão-muçulmano coloca em xeque a aceitação do outro-muçulmano perante o eu-cristão, na medida em que os reinos ibéricos se reconhecem como semelhantes perante a existência de um diferente. Esse caso é importante para pensar a construção do Eurocentrismo e a criação da dicotomia entre Ocidente e Oriente. Uma série de eventos leva o Ocidente a ser visto como cultura padrão, detentora de características essenciais. (Bryan Turner, 1989, apud BARTOLUCI, 2009, p. 55).1 Segundo esse ponto de vista, aquelas sociedades não Ocidentais seriam culturas atrasadas que ainda não haviam atingido o patamar de evolução Ocidental. Sendo assim, caberia ao ocidental levar a essas civilizações atrasadas as condições para o seu desenvolvimento e civilização, ao mesmo tempo em que construiria uma autoimagem de superioridade e legitimidade. Esse processo se deu ao longo de séculos, principalmente entre os séculos XVIII e XIX, com a Reforma Protestante, a Revolução Francesa, o Imperialismo e o Fardo do Homem Branco, só para citar alguns eventos-chaves que constroem essa ideia. Contudo, o foco temporal desse trabalho está no final do século XV e início do século XVI, o que nos impede de falar sobre Eurocentrismo pleno. Evidencia-se, por outro lado, um princípio de Eurocentrismo por trás da questão de Alteridade, pois os europeus chegados às Américas, em sua maioria ibéricos, estavam vivenciando o princípio da construção da identidade europeia, por meio do contato com essas culturas estrangeiras ao seu entendimento de mundo. A confusão do europeu para com a figura do índio é nítida nos documentos de época. Ora eram considerados como pagãos, hora como herejes, muçulmanos, crianças passíveis de aprendizado,seres puros não corrompidos pelo pecado de Adão e Eva, mais animais do que homens. Segundo uns, não possuiam reis nem religião, já outros comparavam a realidade desses nativos com títulos e termos europeus. Essa confusão dos cronistas ao descreverem os nativos parte de várias barreias, tais quais: a diferença de línguas, que aos poucos vai sendo rompida, as diferentes intenções dos cronistas ao relatarem suas experiências, a questão da não compreensão do outro, entre outros motivos. Com isso em mente, Todorov nos apresenta a possibilidade de refletir sobre a historiografia das culturas nativas da América, visto que as nossas fontes primárias foram escritas por cronistas europeus e por filhos de nativos com europeus que cresceram durante, ou logo após, o processo de conquista dessas culturas americanas. Os incas não possuíam escrita e pouquissimos códices originais astecas sobreviveram a ocupação espanhola. Isso significa que as fontes primárias para o estudo dessas culturas possuem certas limitações nas suas pluralidades. Por último, mas não menos importante, precisamos trabalhar com o conceito de Império para que possamos trabalhar com essas duas culturas americanas. Sendo assim, se faz necessário delimitar o conceito de Império a fim de responder duas questões: “O que podemos entender por Império?” e “Podem os incas e os astecas serem considerados povos ou culturas imperiais?”. Para tanto, será adotado o conceito de império proposto por Rober Gilpin (1981) e por Maurice Duverger (1980), como apresentado por Luís Moita em seu artigo A propósito do conceito de império (2005). Ao se estudar o caso das culturas comumente adjetivadas como Império, vemos uma clara distinção entre os diferentes aspectos utilizados para designar sociedades como impérios com o passar do tempo. Dessa forma, pode-se dividir o uso do termo império em dois momentos: o império “clássico” e o império “colonial”. Como o segundo não diz respeito a esse trabalho, e nem se faz necessário para a compreensão do primeiro, essa monografia apenas trabalhará com a noção de império clássico. O conceito de Império é muito amplo, tendo sido utilizado ao longo da história para descrever desde os maiores impérios da antiguidade, como o império Persa e o império Macedônico, até o asteca e o inca, objetos de estudo deste trabalho. Além disso, sua utilização ainda é contemporânea, dada a existência do império Britânico e do contínuo debate sobre a natureza imperial, ou não, dos Estados Unidos. Maurice Duverger ao examinar com minúcia o termo império, chega à seguinte conclusão: Entende-se por um império um Estado vasto e formado por diferentes povos, onde um povo exerce hegemonia. Em essência, é monárquico, possuindo um poder centralizado e sagrado. Constitui-se como um espaço formado por meio de conquistas e, na sua expansão territorial, abrange diferentes identidades culturais. (apud MOITA, 2005, p. 14) Já Robert Gilpin (apud MOITA, 2005, p.14) define Império da seguinte forma: “Por ‘império’ entende-se uma agregação de diversas gentes guiadas por um povo culturalmente diferente e uma forma política caracterizada por uma centralização do poder, concentrado nas mãos de um imperador ou soberano”.3 O império do tipo “clássico” está intimamente ligado com as sociedades que tiravam seu sustento da agricultura e eram dependentes da arrecadação de tributos na forma de produtos essenciais ou de luxo. De forma geral, se fazia necessária a expansão do território com o intuito de aumentar a arrecadação de tributos, adquirir mão-de-obra e terras cultiváveis. Isto ocorria devido ao fato de que a riqueza do império estava estritamente relacionada com o tributo arrecadado daqueles que trabalhavam a terra e daqueles que trabalhavam com comércio, o que significa que a máquina imperial dependia de uma vasta extensão territorial. Como será visto a seguir, tanto os astecas quanto os incas atendiam a esse critério de Império. Ambas eram sociedades agrárias que centralizavam o poder nas mãos de um indivíduo (O Tlatoani, no caso dos astecas, e O Inca, no caso dos incas). Ambos os territórios controlados pelos astecas e pelos incas eram formados por diversos grupos culturais dominados por um povo específico (no caso asteca pelos aztecah e no caso inca pelos incas). Além do mais, os Impérios foram formados por meio de conquistas militares e possuíam várias culturas que, embora apresentassem características similares entre si, apresentavam também características divergentes e se enxergavam como grupos diferentes. Por fim, é interessante analisar que vários pensadores, ao estudar e escrever sobre os impérios, concluem que essa forma de governo é, por natureza, insustentável ao longo prazo e que é apenas uma questão de tempo para que o império venha a ruir sobre seu próprio peso, seja por causa de contradições internas, seja por forças exteriores pressionando o império. Na obra Império (2001), Michael Hardt e Antonio Negri discutem, entre outras coisas, a natureza dos impérios e suas diferentes interpretações por diversos estudiosos atravessando a história humana. Na antiguidade clássica, acreditava-se que todo império possuía um ciclo de vida baseado em ascensão e queda. Esse ciclo seria regido pelo destino ou fortuna. Já os autores iluministas, como Montesquieu e Maquiavel, buscaram explicações de cunho científico-sociais ao tentar compreender os impérios. Segundo esses autores, o declínio e a corrupção de um império não estavam relacionados a uma concepção abstrata de destino, mas sim à extrema dificuldade de se governar um vasto território expansivo por um longo período de tempo. Com essa base, podemos pensar o rápido declínio de ambos os Impérios estudados neste trabalho como sinais de fadiga acentuados pelos espanhóis. O Império asteca era formado por grupos que possuíam diferenças étnicas e culturais, muitos deles insatisfeitos com sua situação de submissão. Nesse contexto, a aliança dos espanhóis com diferentes grupos mesoamericanos ajudou a ruir o império. Já os incas, na época da expedição de Pizarro, se encontravam no meio de uma guerra civil para decidir o próximo inca e com várias rebeliões internas em diversas partes de seu território. Mais uma vez, os espanhóis iriam auxiliar o império a ruir por dentro. No próximo capítulo serão apresentados alguns aspectos da sociedade asteca e inca de acordo com a compreensão contemporânea de alguns historiadores, principalmente Miguel Leon-Portilla (2012), Henri Favre (1987), Jacques Soustelle (1987), John Murra (2012) e Mario Curtis Giordani (1990). 2. A VISÃO CONTEMPORÂNEA SOBRE OS ASTECAS Nesse capítulo são apresentadas algumas das principais características da sociedade asteca no século XVI, como descritos por historiadores da segunda metade do século XX. O enfoque desse capítulo está na estrutura hierárquica-social asteca e como esta interage com sua organização social. Para facilitar a comparação entre o Império asteca e Inca, esse capítulo e o próximo estão subdivididos em tópicos de tal modo que as semelhanças e diferenças dessas duas sociedades possam ser mais facilmente comparadas e analisadas. Essas subdivisões são em ordem: Sobre a historiografia, sobre o meio geográfico em que a cultura abordada estava inserida e as culturas anteriores a influenciaram, os primórdios dessa civilização, sua organização político-social em seu ápice, sobre economia, a respeito da sociedade e o governo e por fim algumas considerações finais. As obras de Jacques Soustelle (1987), Mário Curtis Giordani (1990) e Miguel Leon- Portilla (2012) serão utilizadas nesse capítulo para o estudo da sociedade asteca. 2.1 Sobre a historiografia asteca Na construção da historiografia Asteca há diferentes fontes que podem ser utilizadas para reconstruir a história desse povo, a saber: documentos escritos antes da chegada dos espanhóis, documentos escritos após o contato com os espanhóis e vestígios arqueológicos. No caso das fontes escritas pelos astecas, alguns de seus documentos chegaram até nós, já outros foram destruídos pelosespanhóis no período após a conquista ou se perderam com o tempo. Esses documentos, chamados de Códices astecas, foram escritos pelos nativos no período pré-colombiano ou na época da colonização Espanhola. Além das fontes deixadas pelos nativos, possuímos também os relatos dos cronistas europeus que escreveram sobre esse mundo novo com o qual tiveram contato. Sendo o México um país no qual a arqueologia é incentivada pelo Estado, há, portanto, um esforço de preservação de fontes e reconstrução de artefatos e ruínas de cidades, não só astecas, mas também das diversas sociedades Mesoamericanas. Essa preocupação com a memória se apresenta como uma ótima ferramenta para o estudo e compreensão dessas sociedades, pois a pluralidade de fontes tende a possibilitar um melhor entendimento dos mais diversos setores de uma dada sociedade, no nosso caso a Asteca. Dito isso, há no México uma aceitação e apropriação dos astecas como antepassados cujos costumes devem ser estudado, preservado e tratados como parte integral de sua herança cultural, a começar pelo próprio nome México, que por sua vez é uma variação do termo Mexica, que é um dos nomes usados para descrever os astecas. Esse termo, Mexica, é mais comum no México do que fora dele. É justamente pela aceitação desse passado que vemos um forte incentivo na arqueologia e historiografia voltadas para o estudo e preservação da cultura asteca, e das demais culturas Mesoamericanas. 2.2 Sobre a Mesoamérica e as culturas que mais influenciaram os astecas A Mesoamérica é o nome que se dá para uma área geográfica extensa na América Central, rica e diversa em fauna, flora e onde várias culturas e etnias diferentes se sucederam ao longo do tempo. Essas possuíam similaridades culturais e técnicas que partem das suas influências mútuas. Em linhas gerais, nas sociedades contemporâneas entre si, essa osmose cultural ocorria principalmente por meio da dominação militar de grupos vizinhos e pelo comércio: uma das principais formas de difusão de práticas, costumes e notícias, visto que comerciantes estavam em constante trânsito pela região, levando e trazendo não só mercadorias, mas também costumes e informações. Já entre culturas que não coexistiram em uma mesma época, observamos uma apropriação cultural dos grupos que vieram anteriormente, cujo legado deixavam na forma de obras de arte, textos hieroglíficos, esculturas, pirâmides e centros urbanos abandonados ou pouco habitados. Esse legado era comumente apropriado pelos grupos que migravam, como foi o caso dos astecas, ou por grupos que possuíam relação com essas culturas. Ainda hoje muitas obras arquitetônicas e de arte permanecem em pé no México, o que permite que os arqueólogos reconstruam parte dessas culturas antigas, algumas pré-datando a Era Cristã. Dentre as que exerceram maior influência nas demais sociedades do Vale do México foram: os olmecas, os teotihuacanos e os toltecas. Os olmecas são considerados a primeira grande civilização do Vale do México e precursores das fundações artísticas e arquitetônicas das culturas que os sucederam. Soustelle (apud CURTIS, 1970, p.136) observa que “desde a segunda metade do II milênio antes de nossa era (1500-1200 A.C.) esse povo misterioso construiu imponentes centros cerimoniais...”.4 Ainda que pouco se saiba de sua origem ou queda, como dito por Curtis “Quem eram os olmecas? Qual sua origem? Estamos aqui em face de indagações que aguardam respostas definitivas.” (1990, p.136). O que se sabe, contudo, é que suas principais características, segundo Curtis (1990, p.136), são os “monumentos megalíticos como, por exemplo, cabeças monumentais; estilo realista e naturalista; predileção pelo jade e pela serpentina; espelhos côncavos de obsidiana; religião complexa e poderosa com forte elemento de cerimonialismo etc.”. No que consta a influência exercida pelos olmecas sobre as demais culturas Mesoamericanas, Frank da Costa diz o seguinte: É difícil discernir se se trata de influência puramente intelectual, de proselitismo religioso, de expansão econômica ou de conquista militar. Há indicações de que os Olmecas não eram pacíficos e que realizaram migrações quando do abandono de seus centros cerimoniais. As simples culturas locais não lhes podiam oferecer grande resistência. A distribuição dos monumentos em estilo Olmeca e de outros objetos sugere fenômenos de colonização e expansão cultural e talvez comercial em área mais vasta, que relembra bastante os padrões astecas de dispersão, enclaves e rotas comerciais. (apud CURTIS, 1990, p. 137) Independentemente de sua origem e do destino desse povo, sua influência foi sentida nas outras culturas Mesoamericanas que vieram a se estabelecer alguns séculos depois, como é o caso dos teotihuacanos, habitantes de Teotihuacán que experimentaram seu ápice por volta de 200-600 D.C. A cidade de Teotihuacán apresentava características comuns na Mesoamérica do século XVI, possuindo grande similaridade com a cidade asteca de Tenotlichitan, a saber: pirâmides monumentais, templo dedicado a Quetzalcoatl e Tlaloc, centro cerimonial, um grande centro religioso e zonas artesanais. (Curtis, 1990, p.138). Além do mais, há indícios de que nessa época já houvessem surgido todos os grupos dominantes que existiriam nas épocas posteriores, ou seja, uma casta de guerreiros, uma aristocracia tribal, sacerdotes, mercadores e um esboço de burocracia estatal em processo de formação como grupo separado. (Curtis, 1990, p.138). Tão importante para os astecas era Teotihuacán que passam a considerá-la o local de nascimento do mundo. Contudo, por volta de 600 D.C. a cidade desaparece, sendo incendiada e sistematicamente destruída. Sua destruição deixa um vácuo de poder na área, mais tarde ocupada pelos toltecas no século X, que se fixam no Vale do México. Os toltecas, que até esse ponto eram um grupo de chichimecas falante do dialeto nahua, tomam para si grande parte da cultura dos antigos teotihuacanos, fundando a cidade de Tula no início do ano 900 D.C. Porém, a expansão do poderio tolteca pela Mesoamérica e a sua subsequente queda acontecem em menos de trezentos, e em 1170 D.C., temos o terceiro vácuo de poder no Vale do México, no qual ocorre a migração dos astecas para o Vale do México. 2.3 O assentamento asteca no Vale do México Originalmente os astecas foram uma dentre várias tribos que realizaram um movimento migratório em direção ao Vale do México. Esse primeiro momento da história asteca é envolto em mitos e lendas. Os astecas saíram de sua terra natal, Aztlan, rumo ao Vale do México, sendo uma das últimas tribos seminômades a se assentarem por lá, após o vácuo de poder deixado pela decadência dos toltecas no século XIII. Assim como as outras tribos seminômades que migraram para o Vale, os astecas viriam a ser fortemente influenciados pela cultura tolteca, cultura essa que ainda se fazia presente na área, sendo mantida viva pelas outras sociedades que a adotaram e também pelos grupos toltecas dispersos pelo Vale. Os astecas faziam parte do grupo nahua, o mesmo grupo étnico dos Toltecas. Compartilhavam do mesmo dialeto, o nahuatl, e possuíam semelhanças culturais. Entretanto, os astecas eram vistos como chichimecas por não estarem fixados na terra, sobreviverem da caça e da pesca, desconhecerem a agricultura, e possuírem uma organização social relativamente simples, se comparada com a de seus vizinhos. 6 Segundo Soustelle (1990, p.13), sabemos muito pouco da organização tribal dos astecas no seu período anterior a fundação de Tenochtitlan. De acordo com seus manuscritos, os sacerdotes astecas, guiados pelo deus Uitzilopochtli conduziram a tribo em direção ao Vale. Uitzilopochtli era o deus da guerra, do sol e necessitava de sacrifícios humanos. Sobre a primeira organização social dos astecas, Soustelle diz o seguinte: Ao se fixar no vale do México, a tribo asteca apresentava-se como uma sociedade homogênea e igualitária, essencialmente guerreira; seus membros-soldados e cultivadores (ou caçadores e pescadores) não reconheciam qualquer outra autoridade senãoa dos sacerdotes, eles próprios guerreiros e intérpretes dos oráculos de Uitzilopochtli. (1990, p.29) Foi no Vale do México que os astecas integraram os aspectos culturais dos povos ao seu redor com sua própria cultura, moldando esses traços até chegar à cultura do século XV que conhecemos por asteca. No período que corresponde entre o século XIII e XVI os astecas demonstraram uma incrível capacidade de assimilação de costumes, técnicas e rituais. Dentre esses aspectos assimilados podemos citar: práticas e rituais religiosos, o panteão Mesoamericano, incluindo a serpente emplumada Quetzalcoatl e o deus da chuva Tlaloc; o gosto pelo trabalho com o jade, metalurgia, agricultura e domesticação de animais; a construção de cidades e estruturas megalíticas; adoção de instituições, arte e uma complexa hierarquização social prezando uma aristocracia militar. 2.4 Organização político-social do Império asteca O que chamamos de Império asteca começou como uma confederação de Cidades- Estados. Por Cidade-Estado entendemos um núcleo populacional que possuí uma forma de governo autônomo e regional. Inicialmente faziam parte dessa confederação três cidades: Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan. No inicio, essas cidades demonstravam um equilíbrio de poder e importância, mas com o passar do tempo, Tenochtitlan, a sede do poder asteca, tornou-se a cidade mais importante da aliança e sede da Confederação, enquanto que as outras duas cidades passaram a assumir papéis secundários. Por essa razão a Confederação é normalmente chamada de Império asteca, visto que os astecas a lideravam. No seu auge, no início do século XVI, o Império asteca se estendia por boa parte do México central, principalmente o Vale do México, e abrangia diversas Cidades-Estado e povos diferentes. Mário Curtis Giordani, em sua obra “História da América Pré-colombiana: Idade Moderna II” (1997) aponta que, segundo a relação de tributos dos astecas da época da chegada dos espanhóis, o Império asteca governava 371 cidades, subdivididas em 38 províncias. Essa divisão das cidades em províncias era puramente administrativa. A grande maioria dessas cidades foi incorporada à Confederação por via de conquista militar. Algumas se rendiam perante o exército asteca, já outras eram anexadas após vitórias militares. Cada cidade importante do Império possuía um funcionário imperial (calpixqui) cuja função era receber o tributo da cidade. Os astecas normalmente permitiam que as lideranças locais continuassem no poder mediante pagamento de tributos para o Império. De maneira geral, a liderança local só seria substituída por um líder nomeado pelos astecas em caso de rebeldia da cidade. Diferentes cidades possuíam diferentes obrigações para com a Confederação. Algumas deveriam apenas pagar tributos em forma de 1/3 de sua produção de determinados produtos, outras estavam encarregadas de enviar presentes ao Imperador e ainda havia cidades com obrigação de fornecer estadia e refeição para funcionários imperiais e tropas em trânsito pela região. Cada altepetl (cidade em nahuatl) possuía estatuto próprio, produzia os recursos necessários para se manter e alimentar o sistema tributário Imperial, possuía administração, traços culturais próprios e culto preferencial a certas divindades. Algumas se aliavam a Confederação enquanto outras eram submissas à Confederação. Sendo assim, a Confederação asteca era como um mosaico de cidades diferentes que possuíam certa autonomia, mas também deveres e limitações. Ao ingressar na Confederação, fosse por vontade própria ou por submissão, a cidade deveria seguir algumas regras. O altepetl não poderia mais praticar política externa ou militar independente, visto que a política externa era reservada apenas a Tenochtitlan. Deveria celebrar a divindade asteca Huitzilopochtli e, como já dito anteriormente, algumas ficavam incumbidas de pagar tributo. A sociedade asteca era altamente belicosa. Tal inclinação para conflitos armados estava enraizada na base da sociedade desde seus primórdios tribais. Na época da chegada de Cortez, vários títulos e cargos carregavam consigo obrigações militares ou eram concedidos para pessoas que se destacavam em guerras. Temos, por exemplo, o título de tlacochcalcatl (Senhor da casa das lanças) que era uma espécie de comandante militar, o próprio chefe da Confederação, o Huey Tlatoani (Grande orador ou Grande governante) era primeiramente um chefe de guerra e o mais elevado comandante militar da confederação. Os títulos mais altos e importantes ficavam restritos aos pili. Religião e guerra andavam lado-a-lado. Huitzilopochtli, o deus padroeiro de Tenochtitlan, era cultuado como a divindade da guerra. O culto a Quetzalcoatl exigia sacrifícios humanos diários em números cada vez maiores que só poderiam ser atendidos mediante a constante captura de prisioneiros de guerra. Essa constante necessidade de prisioneiros para sacrifícios repercutia na forma de guerrear dos astecas. Os conflitos armados possuíam a finalidade de capturar os inimigos e não mata-los. Era comum, principalmente em épocas de secas severas, que a Confederação organizasse conflitos armados altamente ritualizados entre as cidades da Confederação com o intuito de capturar prisioneiros para serem sacrificados. Os astecas denominavam esse conflito de xochiyáoyotl, ou guerra florida. 2.5 Economia do Império asteca A economia asteca operava sobre quatro pilares. Eram eles: espólios de guerra, tributo das cidades submissas, a produção das propriedades dos nobres e o comércio realizado pelos pochtecas. 9 Entende-se por espólios de guerra tudo aquilo que o exército vitorioso carregava consigo após derrotar o oponente. Dentre os bens adquiridos dessa forma se encontravam prisioneiros de guerra, equipamentos militares, produtos em espécie e animais. Quase todas as cidades pagavam tributos para as três principais cidades da Confederação: Texcoco, Tlacopan e Tenochtitlan. A divisão do tributo entre essas cidades ocorria na proporção de 2/5, 1/5 e 2/5. De acordo com Jacques Soustelle, na sua obra A civilização Asteca (1987), quando os astecas alcançaram hegemonia dentro da Confederação, à tributação passou a ser inteiramente encaminhada para Tenochtitlan. A natureza dos tributos variava desde grãos, peles e penas de animais, até minérios, cacau e roupas de algodão. O tributo pago correspondia à parte da produção local, que de acordo com os registros astecas variava de 1/4 a 1/3 da produção dessas cidades. Ainda existe um debate entre os historiadores a cerca da posse de terra na sociedade asteca. Alguns citam a terra como de pose coletiva, outros atestam que as terras pertenciam aos pili ou a um calpulli. 10 Entretanto, pode-se afirmar que uma parte dos macehualtin trabalhava a terra cultivando grãos e cereais, devendo ser entregue uma parte do que era produzido na terra como tributo para o calpixqui ou nobre local, dependendo de para quem o macehualtin estava cultivando a terra: para o governo asteca ou a nobreza local. Por fim, os pochtecas formavam um poderoso grupo em ascensão dentro da sociedade asteca na época da chegada de Cortez na Mesoamérica, movimentando milhares de mercadorias preciosas para dentro e fora do Império, acumulando riquezas e vendo sua influência crescendo cada vez mais. Soustelle assim descreve esse grupo: Com seu deus particular Yiacatecuhtli, seu ritual, seus próprios chefes, seus próprios tribunais, os Pochtecas apareciam como uma classe possante e em plena ascensão em uma sociedade em que eles representavam a fortuna privada, o luxo e a riqueza face ao ideal austero e guerreiro da classe dirigente. (1990, p.39) Esses quatro aspectos são considerados os pilares da economia do Império, pois juntos supriam as demandas internas, fossem elas de oferendas para sacrifícios ou bens de consumo, permitiam a distribuição de privilégios e mantinham a máquina administrativa funcionando. 2.6 A sociedade e o governo Como dito anteriormente, a sociedade asteca foi se hierarquizando ao longo do tempo devido à influência das sociedades com quaistiveram contato, sendo elas vizinhas ou subjugadas. Embora fosse hierárquica, a sociedade asteca não era estratificada; existia mobilidade social interna por meio da captura de prisioneiros de guerra, preparação e qualificação para funções religiosas e administrativas. A sociedade asteca pode ser dividida em três grandes grupos. Alguns autores como, Soustelle (1987), se utilizam de analogias com as classes medievais Europeias. Nesse caso a camada que estava no topo era denominada de pilli (que abrangia os dirigentes de cidades e calpullis, altos funcionários administrativos imperiais, soldados muito bem condecorados, altos sacerdotes e os bem-nascidos); analogamente é comparada com a nobreza e aristocracia. Pelos pillis terem acesso a maior quantia de recursos, melhor educação e serem um grupo de prestigio, a maioria dos cargos e postos mais elevados se encontravam nas mãos desse grupo. Logo em seguida estava a grande massa do povo que abrangia todas as outras pessoas, entre os membros desse grupo estavam: macehualtin, pequenos e grandes artífices, pequenos e grandes comerciantes, soldados profissionais, a vasta parte do clero e funcionários administrativos de baixa importância. Essa divisão entre o grupo dominante e o povo se refletia também no sistema tributário. Todos deviam prestar serviços militares ao se senhor, mas os pilli e os guerreiros profissionais estavam isentos dos demais tributos. Os governantes das cidades, tlatoanis, tinham direito a parte da arecadação dos impostos como pagamento pelos seus serviços. Os mercadores e os artífices pagavam taxas adicionais com base nos artigos de seu comércio. Os macehualtins eram encarregados de fornecer como tributo 1/3 de tudo que criavam e estavam sujeitos à corvéia. Na base se encontravam os tlatlacotin (escravos). O termo escravo é “malgrado e inexato”, como apontado por Soustelle, pois carrega consigo uma conotação pejorativa, o que não se enquadra muito bem na forma como eles eram tratados na sociedade asteca e como eram enxergados pela lei. Não eram pagos por seus serviços, podiam possuir bens, casar, possuir escravos, não podiam ser vendidos, sua condição não era hereditária e não tinha obrigações militares ou fiscais. Soustelle enumera as diferentes formas que um cidadão poderia vir a se tornar um tlatlacotin: Prisioneiros de guerra destinados ao sacrifício por ocasião das grandes cerimônias; condenados pela justiça civil, os quais não cumpriam pena de prisão, mas eram obrigados a trabalhar para a coletividade ou para pessoa que haviam prejudicado; os homens e mulheres que se vendiam voluntariamente por se haverem arruinado no jogo ou pela bebida; e, enfim, servidores que uma família colocava à disposição de um senhor para saldar uma dívida (esse costume foi abolido em 1505). (1987, p.32). A gênese do grupo conhecido como pilli remonta da época em que os astecas se assentaram no vale do México. Os astecas acreditavam que a nobreza tolteca descendia diretamente de Quetzalcoatl. Impressionados com a cultura tolteca e a descendência divina de sua nobreza, os astecas uniram a sua nobreza à nobreza tolteca por meio de laços de sangue e casamentos. Essa insistência das casas reais astecas de afirmarem sua descendência dos toltecas pode ser interpretada como uma forma de se afirmar legitimidade e continuidade cultural. Os descendentes dos tlatoanis ocupavam as mais altas funções administrativas e militares. Um pilli podia cair na obscuridade caso não se mostrasse digno dos pais. Em contrapartida, após grandes batalhas e conquistas militares vários indivíduos podiam ser elevados a essa posição de pilli. Sanders (apud CURTIS, 1971, p.110) apresenta um grupo que Soustelle não menciona em sua obra A civilização Asteca.13 Esse grupo se chamava mayeques e estavam no fundo da escala: “servos vinculados às terras dos nobres ou a propriedades atribuídas a cargos políticos.”. 3. A VISÃO CONTEMPORÂNEA SOBRE OS INCAS Nesse capítulo são apresentadas algumas das principais características da sociedade inca no século XVI, como descritos por historiadores da segunda metade do século XX. O enfoque desse capítulo está na estrutura Imperial inca e no seu modelo econômico. Esse capítulo segue a mesma subdivisão estabelecida no capítulo dois com a intenção de facilitar uma comparação entre os dois casos estudados. Porém, como veremos nesse capítulo, o enfoque historiográfico e as singularidades da sociedade inca foram levados em consideração ao elencar um subtópico com outro. Assim sendo, alguns aspectos incas que podem ser considerados análogos aos astecas não se encontram sobre o mesmo subtópico. As obras aqui estudadas e trabalhadas foram as de Henri Favre (1987), John Murra (2012) e Mario Giordani Curtis (1990). 3.1 Sobre a historiografia inca O império inca se apresenta ainda hoje como uma experiência histórica pouco estudada, tanto por historiadores como por arqueólogos. Ao levantar uma bibliografia do século XX que trabalhe com as diferentes facetas dos incas, vemos um grande foco na estrutura política, nos seus governantes e, principalmente, no modo de produção econômico andino, que tanto para historiadores quanto para economistas, se apresenta como um campo de pesquisa muito atraente por sua singularidade. Esse foco, que também é encontrado no estudo das culturas pré-colombianas da América de forma geral, apresenta um desafio para a construção da memória dessas culturas, ao passo que não desenvolve totalmente suas singularidades. Como os incas não possuíam escrita, as fontes primárias sobre esse povo se compõem das escritas pelos cronistas espanhóis que presenciaram a queda do Império de perto, das tentativas de preservação da história e cultura inca pelo Inca Garcilaso de la Vega e dos registros dos funcionários imperiais espanhóis quando da implementação da colonização dos Andes. John Murra levanta a problemática de se estudar os incas dizendo que: É dessas histórias e dos relatos posteriores de testemunhas oculares que deriva basicamente nosso conhecimento sobre as civilizações andinas em 1532.14 Trata-se de um conhecimento bastante incompleto; nem mesmo a comunidade acadêmica nem sempre tem conscicia da fragmentação em que permanecem os registros. Arqueologia poderia ajudar, não fosse a posição marginal que os arqueólogos ainda mantêm nas repúblicas andinas (em flagrante contraste com o que acontece no México) É possível que milhões de pessoas que leram a ode de Pablo Neruda a Machu-Picchu e outros milhões visitaram o monumento, mas ninguém sabe que segmento da sociedade Inca habitou o lugar. Isso não impede que ondas sucessivas de arquitetos “restaurem” a colônia, mas poucos arqueólogos se dedicam profissionalmente – se é que algum o faz – a esse estudo, trabalhando no próprio sitio [...] (2012, p.63-64) Como dito por Murra, ao contrário do que acontece no México com o estudo dos astecas, as cinco repúblicas andinas que ocupam o território em que um dia habitaram os incas não enxergam essa cultura como uma herança que lhes é de direito, talvez com exceção do Peru, visto que lá se investe cada vez mais no turismo para os Andes, principalmente, em Machu Pichu. Sem o incentivo arqueológico do Estado e o pouco interesse de grupos privados, os historiadores ficam atados às documentações de época, que são poucas e limitadas, e livros modernos acerca do tema. Ademais, a arqueologia poderia corroborar ou elucidar essa documentação de época, pois às vezes os documentos apresentam lacunas e dúvidas que a arqueologia pode explorar e desvendar. Em relação às evidências arqueológicas, Murra aponta a dificuldade de se estudar os incas e, paradoxalmente, a facilidade de se estudar culturas Andinas mais antigas. [...] grande parte de períodos mais antigos, alguns que datam de centenas de anos antes dos Incas, parecem mais acessíveis e tiveram suas peças de cerâmica minuciosamente estudadas [...] Todavia, quanto mais nos aproximamos de 1532, época em que o Estado andino foi dominado e estilhaçado nas centenas de grupos étnicos que o compunham, menos possibilidadetemos de obter conhecimentos através da arqueologia na forma como é praticada hoje, e mais temos de depender dos relatos escritos por aqueles que “estiveram lá” (2012, p.64) Tendo em vista os limites da arqueologia e das fontes pertinentes às culturas pré- colombianas nos Andes e seu entorno, nota-se um contraste entre a disponibilidade de fontes para se estudar as culturas Andinas e Mesoamericanas e diferentes interesses historiográficos e arqueológicos. Nos Andes o paralelo aos códices astecas seria o quipo. O quipo era um instrumento inca composto de diferentes cordas e nós que tinha por função contabilizar o número de famílias e a produção de um dado centro urbano. Cada quipo podia manter registros do que fora produzido naquele local por diversas gerações, assim como o número de familiais que habitavam aquela localidade. Curtis apresenta uma explicação particular desses quipos dizendo: Não obstante, graças a ele (quipo), nos tempos dos incas, os historiadores oficiais do Império retinham os acontecimentos passados e transmitiam seu relato a seus historiadores particulares, sem que seja fácil precisar se esses últimos eram funcionários especializados ou simplesmente os chefes das tribos. (CURTIS, 1990, p.16) Favre, no final da década de 1980, observa que novas fontes que podem auxiliar na nossa compreensão dos incas estão sendo constantemente desenterrada de arquivos. Essas fontes são as visitas que surgem como alternativa para a dependência das crônicas espanholas por meio dos pesquisadores, a saber: Em comparação com as crônicas, aliás, menos contestáveis em seus dados do que na interpretação que elas impõem, as visitas apresentam a grande vantagem de descreverem a vida local no Império Inca, prendendo-se a fatos sistematicamente observados, e de reportarem, sem qualquer pretensão literária ou preocupação demonstrativa, o modo pelo qual o poder imperial atingia até os níveis mais baixos das populações que lhe estavam submetidas. Sua investigação permitiu ao etno-historiador norte-americano John Murra projetar suas pesquisas sob enfoques totalmente novos. Os primeiros resultados dessas pesquisas parecem confirmar plenamente a intuição de Cunow que, já no fim do século passado, argumentava que a sociedade andina da época inca manifestava, sem dúvida, menos analogia com as sociedades da Europa antiga e medieval, com as quais era comparada, do que com as da África e Oceania modernas e contemporâneas. (FAVRE, 1987, p.24) Dito isso, fica claro que o estudo historiográfico dos incas e das altas culturas andinas ainda é incompleto e, assim como o estudo dos astecas e das demais culturas Mesoamericanas, se faz atual. 3.2 A topografia Andina e as culturas que influenciaram os Incas O Império inca fascina historiadores, economistas e geógrafos, não só pelo fato de ter conseguido sobreviver e prosperar em condições tão hostis para a vida humana, mas também por ter se estender por toda a Cordilheira dos Andes, desde altitudes acima de três mil metros até regiões costeiras ao nível do mar. Em sua extensão máxima, o Império inca se estendia por aproximadamente 4.000 km do norte ao sul, desde a Colômbia Meridional até o vale do Rio Maule, no Chile. Ao leste, a floresta amazônica servia de fronteira, assim como era o caso do oceano Pacífico a Oeste. John Murra, ao trabalhar a singularidade inca, nos apresenta um fato curioso para análise. Segundo o autor, algo que muito intrigava os economistas locais e internacionais era que a maior concentração populacional de um povo majoritariamente agrário se encontrava vivendo milhares de metros acima do nível do mar (fato que ainda é contemporâneo) e, por exemplo, a maior concentração populacional inca a véspera da conquista se encontrava no entorno do lago Titicaca, que fica a 3812 metros acima do nível do mar. Murra aponta o trabalho de campo de Carl Troll em 1931 como um grande passo em direção a compreensão da realidade inca. Carl constatou que os mapas das chuvas e temperaturas tradicionalmente utilizados naquela região não coincidiam com suas observações de campo, e que as terminologias científicas usadas para descrever outras regiões eram insuficientes para o caso andino. [...] Troll observou que os tradicionais mapas das chuvas e das temperaturas eram inadequados e enganosos quando aplicados a essa região. Para registrar os extremos andinos num período de 24 horas, Troll criou novos gráficos. Cedo descobriu que a terminologia cientifica desenvolvida em outros lugares não descrevia os climas locais [...]. (2012, p.67) Se considerarmos que, do ponto de vista climatológico e geográfico, os Andes se apresentam como um caso a parte, então as culturas que prosperaram naquela região devem ter desenvolvido um sistema de subsistência igualmente único para lidar com sua realidade local. Nos Andes diversas culturas complexas se sucederam e conviveram juntas. Assim como no caso da Mesoamérica, é válido dizer que essas culturas se influenciaram mutuamente mantendo suas identidades próprias. Tanto as culturas que antecederam os incas quanto as que coexistiram com os incas não possuíram a escrita. Sendo assim, a principal fonte de conhecimento moderna sobre essas culturas advém da arqueologia. Dentre as culturas mais notáveis que antecederam os incas podemos citar os chavin, tiahuanaca, huari e o Império chimu. Assim como na Mesoamérica, o nome dessas culturas é normalmente relacionado ao seu maior centro populacional. A cultura de chavin aqui se faz relevante por ser o primeiro exemplo de construtores de edifícios religiosos em larga escala nos Andes, datando essa prática por volta de 1500 a.c. Certamente, se possuíram recursos para tal empreitada, devem ter prosperado culturalmente e, como defendido por Curtis e Favre, influenciado as culturas com quem entraram em contato. Segundo Henri Favre (1987, p.6), a cultura religiosa de chavin se expande rapidamente por volta de 900 a.c “desde Pichiche ao norte, até Ocucaje ao sul, sem dúvida por via de proselitismo.”. A seguir abordamos as culturas tiahuanaca e huari que prosperaram por volta do século VII-IX d.c. Ambas possuíram uma vasta produção artesanal e construíram centros urbanos megalíticos, especialmente tiahuanaca. Favre (1987, p.7) aponta que essas culturas, localizadas respectivamente nas margens do lago Titicaca e no Vale Médio do Mantaro, “conseguem reunificar em torno delas o mundo andino fragmentado”. Favre também diz que “nessa época, Huari já havia sofrido a influência de Tiahuanaco, de modo que as duas cidades difundiram uma única e mesma cultura, levemente diferenciada pelo estilo de sua cerâmica.”. Por último, Favre ressalta que ambas essas culturas se difundiram pelo baixo e médio Andes, por meio de conquistas militares. Além disso, o militarismo dessa época é fortemente atestado pelas obras defensivas, pelas decorações murais que mostram uma abundância de guerreiros e prisioneiros, e também pelos túmulos, onde as cabeças-troféus decepadas dos inimigos figuram entre as peças do mobiliário funerário. Sem dúvida, a área cultural influenciada por Tiahuanaco e Huari não correspondia ao território politicamente dominado pelas duas metrópoles. Não é menos verdade, porém, que durante dois ou três séculos elas foram as capitais de grandes Estados andinos, antecipando-se como precursoras dos vastos Impérios Chimu e Inca. (1987, p.8) O Império Chimu, que veio a se estabelecer nos Andes em torno do século XIII, é descrito por Favre (1987, p.8) como um império “hidráulico” que “se assemelhava mais, em seus fundamentos, ao do Egito ou da Mesopotâmia do que ao dos incas, que lhe era contemporâneo e cujo desenvolvimento, aliás, influenciará.” São descritos como império hidráulico por terem reativado e ampliado redes de irrigação que haviam sido previamente destruídas em guerras, permitindo assim uma melhor irrigação dos vales vizinhos, onde as chuvas eram fracas, proporcionando melhores colheitas e população mais numerosa. Essa cultura, que Favre (1987, p.9) chama de “a mais brilhante de todas as civilizações jamais