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MONICK LEBRÃO MEDICINA- TURMA XIV (FASAVIC) 1 DOR ABDOMINAL AGUDA e APENDICITE Professora Mygalys Espinosa HAM IV DOR ABDOMINAL QUADROS AGUDOS Podem ser classificados como inflamatórios (apendicite, diverticulite, pancreatite, colangite, colecistite, anexite), obstrutivos (bridas, volvos), perfurativos (úlcera péptica, divertículos, ferimentos), isquêmicos (isquemia mesentérica, colite isquêmica) e hemorrágicos (ruptura de vísceras e de aneurismas, ferimentos). ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO A dor é de início insidioso, com agravamento e localização com o tempo. O paciente apresenta geralmente sinais sistêmicos, tais como febre e taquicardia. QUADROS CRÔNICOS A dor abdominal crônica apresenta a particularidade de, em alguns casos, deixar de ser apenas um sintoma- sentinela e assumir características de uma doença própria. É muito útil a subdivisão dos quadros crônicos em origem funcional (dispepsia funcional e síndrome do intestino irritável [SII]) ou orgânica (neoplasias, patologia péptica, isquemia). Os quadros mais prevalentes são de origem funcional. Na avaliação diagnóstica, outro modelo útil de se pensar nas causas comuns é orientar-se pela sua localização no abdome. ANAMNESE Um erro comum na anamnese tradicional é o excesso de assertividade precoce, por exemplo, na caracterização da dor, antes que se conheça, muitas vezes, o indivíduo que está consultando, ou mesmo não permitindo que a pessoa fale sem ser interrompida nos minutos iniciais da consulta. HISTÓRIA GERAL A partir das queixas iniciais, começam as elaborações diagnósticas. Uma informação essencial é o caráter recorrente das queixas, sendo que isso pode ser verificado com a pessoa e também a partir de uma revisão da sua história clínica no prontuário. Primeiro, é necessário saber quem é a pessoa que está com dor abdominal, caracterizar essa dor, identificar outros sintomas e uso prévio de fármacos, revisar as comorbidades e sua história pregressa, além da história familiar. Na identificação da pessoa, características essenciais, como gênero e idade, guiam o raciocínio diagnóstico, mas deve-se ampliar a avaliação para uma definição de contexto de vida, trabalho, ambiente familiar, comportamento sexual, hábitos alimentares, os quais são úteis para a definição de hipóteses. Nos quadros agudos, inclusive, cabe a investigação do que se passou nas últimas 24 MONICK LEBRÃO MEDICINA- TURMA XIV (FASAVIC) 2 horas, como história alimentar, de atividade física, viagens e uso de medicações. Quanto à caracterização da dor, os dados semiológicos essenciais se referem ao início (súbito ou insidioso), caráter (em cólica, queimação, facada, pontada), intensidade, frequência, localização, irradiação, fatores que pioram e que aliviam. São extremamente úteis ao diagnóstico a identificação de outros sinais e sintomas associados, como febre, náuseas, vômitos, hematêmese, hematoquezia, melena, icterícia, perda de peso, alterações do hábito intestinal e mudanças nas características urinárias e das fezes. Quanto a causas extra -abdominais, alguns problemas de origem extra-abdominal constituem causas relativamente frequentes de dor abdominal. Estas são provocadas por dor referida, sobretudo associada a quadros pulmonares ou cardíacos, como os episódios de pneumonias e infartos do miocárdio, respectivamente. Na avaliação da história pregressa, é importante revisar passado cirúrgico e gineco-obstétrico, estando atento para risco de bridas e aderências, além de hérnias e gravidez ectópica. Na identificação de comorbidades, deve-se avaliar risco cardiovascular e presença de diabetes, além de pesquisar passado de litíase, avaliar história sexual pensando em ambos os sexos, risco de infecções sexualmente transmissíveis e de doença inflamatória pélvica (DIP) na mulher. O uso de substâncias como álcool pode ser indicativo de alguns riscos, como gastrite e pancreatite, assim como o uso de tabaco. O uso de medicações, como anti- inflamatórios não esteroides, ácido acetilsalicílico e anticoagulantes, aumenta o risco de sangramento digestivo. O histórico de quadros psíquicos prévios aumenta o risco de alguns problemas funcionais. HISTÓRIA FAMILIAR Algumas doenças tendem a se expressar de maneira mais frequente entre os familiares de primeiro grau; então, o conhecimento de patologias prévias nestes tende a ser útil ao raciocínio diagnóstico. Entre estas, podem-se destacar cânceres em geral, doença inflamatória intestinal (DII), histórico de litíase renal e biliar, quadros dispépticos, aterosclerose e aneurismas e doenças hereditárias, como anemia falciforme e fibrose cística. GRUPOS ESPECIAIS IDOSO: a idade avançada pode modificar a apresentação e a percepção da dor abdominal pela pessoa. Há uma redução de 10 a 20% na intensidade da dor por década de idade acima de 60 anos. Destacam-se algumas patologias comuns no idoso, que, por serem potencialmente fatais, não devem ser negligenciadas, como a diverticulite e a isquemia mesentérica, além do aneurisma de aorta abdominal (AAA). MULHER EM IDADE FÉRTIL: sempre se deve lembrar da possibilidade de gravidez, devendo ser avaliada neste sentido, pensando em riscos como gravidez ectópica e abortamento espontâneo. Não se deve esquecer, no diagnóstico diferencial, dos quadros inflamatórios na mulher grávida, com destaque para apendicite e colecistite. CRIANÇA SINAIS DE ALERTA Alguns sinais devem ser pesquisados com mais atenção, pois predizem patologias orgânicas de maior gravidade e risco de vida, necessitando de diagnóstico e tratamento oportuno: Dor que muda de localização. Dor que desperta do sono. Dor que persiste por mais de 6 horas ou piora. Dor seguida de vômitos. Perda de peso. EXAME FÍSICO O exame físico é focado a partir dos dados da anamnese e, de acordo com a probabilidade diagnóstica identificada nesta etapa. Em situações específicas, deve ser complementado com exame pélvico-ginecológico e retal. GERAL Em uma avaliação geral, devem-se observar aspectos da ectoscopia, como hidratação, sinais de anemia, presença de icterícia e estado nutricional, além de observar fácies de dor e posição da pessoa em relação à dor (posição antiálgica em quadros inflamatórios que envolvem irritação peritoneal). Deve-se avaliar sinais vitais – temperatura, pressão arterial, frequência cardíaca e frequência respiratória. De acordo com os sintomas relatados, deve-se proceder ao exame cardiorrespiratório. ABDOMINAL Nesta parte do exame, é importante levar em consideração alguns aspectos, como a posição da pessoa; inicialmente se orienta que ela fique em decúbito dorsal com joelhos levemente fletidos. MONICK LEBRÃO MEDICINA- TURMA XIV (FASAVIC) 3 Na sequência, deve-se seguir um padrão semiológico de inspeção, ausculta, percussão e palpação. Em cada uma destas etapas, procuram-se novos sinais que acrescentem às hipóteses diagnósticas pensadas. APENDICITE A apendicite aguda é um processo inflamatório agudo e purulento, decorrente, na maioria das vezes, da dificuldade de drenagem do conteúdo apendicular, com aumento de volume do apêndice e alterações circulatórias (isquemia) e inflamatórias. É uma das principais causas de dor abdominal, sendo a causa mais frequente de cirurgia de urgência em todo o mundo. Em alguns pacientes pode haver perfuração e/ou formação de abscesso. Sua maior incidência é em adolescentes e adultos jovens, de ambos os sexos, embora possa ocorrer em pessoas idosas. CAUSAS Hiperplasia linfoide (mais frequente em pacientes jovens); Fecalitos (mais frequente em pacientes adultos e idosos); Tumores; Corpos estranhos. FISIOPATOLOGIA O principal mecanismo fisiopatológico relacionado à apendicite agudaé a obstrução da sua luz, em geral, por um fecalito e, raramente, por cálculo biliar, corpo estranho, linfonodos, parasitas ou neoplasias. A obstrução da luz do apêndice promove acúmulo de secreções e aumento da pressão intraluminal. Obstrução do lúmen apêndice → Secreção persiste, aumento pressão luminal→ Estase, proliferação bacteriana→ Edema, obstrução linfática, ulceração mucosa→ Obstrução venosa e arterial, perfuração. Perfuração e extravasamento de pus pode levar: 1. Bloqueio com formação de plastrão: 95% das vezes; 2. Peritônio livre, peritonite: 5% em menor de 2 anos e maior de 65 anos. FASES 0 Apêndice normal; 1 Apêndice com hiperemia e edema (catarral) → Apendicite não complicada; 2 Apêndice com exsudato fibrinoso (flegmonosa) → Apendicite não-complicada; 3 Apêndice com necrose e abscesso (supurativa) → Apendicite complicada; e 4 Apendicite perfurada (gangrenosa) → Apendicite complicada. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A dor localizada na região epigástrica ou periumbilical inicia subitamente, quase sempre acompanhada de náuseas e vômitos. Algumas horas depois, ela migra para a fossa ilíaca direita, indicando o comprometimento do peritônio periapendicular. A febre não costuma ser elevada (37,5 a 38°C) e pode não ocorrer em idosos, dificultando o diagnóstico. A dissociação entre a temperatura retal e a axilar pode ser maior que 0,5°C, dado que deve ser valorizado. Anorexia, Náuseas, Vômitos e Dor abdominal difusa! Metade a ¼ não apresentam quadro típico”; “ Nenhum dado é infalível para confirmar ou excluir”. Quando ocorre peritonite franca, os sintomas e sinais desta afecção dominam o quadro clínico. MONICK LEBRÃO MEDICINA- TURMA XIV (FASAVIC) 4 ESCALA DE ALVARADO É um escore utilizado para medir a probabilidade do paciente possuir apendicite aguda de acordo com seus dados da história clínica, exame físico e exames laboratoriais. No total tem-se 10 pontos. Se for entre 0 e 3, indica um caso pouco provável de apendicite aguda. Maior ou igual a quatro, indica provável apendicite. Maior que 7 é um quadro de alta chance de apendicite com risco de cirurgia. EXAME FÍSICO Deve avaliar: Temperatura; Inspeção passiva e ativa; Palpação superficial e profunda; À palpação abdominal encontra-se dor na fossa ilíaca direita (ponto de McBurney), hipersensibilidade e defesa muscular nesta região. Sinais de Blumberg, Rovsing, Lenander, Lapinsky, Dunphy, Psoas, Obturador; A descompressão brusca, após compressão vagarosa, acompanha-se de uma sensação dolorosa que assusta o paciente (sinal de Blumberg). Outra manobra que pode provocar dor na região da fossa ilíaca direita é a palpação profunda e ascendente do hemicólon esquerdo (sinal de Rowsing). Toque retal. IMPORTANTE: Na maioria das vezes, os movimentos peristálticos ficam inibidos, com desaparecimento dos ruídos hidroaéreos (silêncio abdominal). DIAGNÓSTICO EXAMES COMPLEMENTARES HEMOGRAMA COMPLETO; Leucocitose com neutrofilia e desvio para a esquerda tem valor diagnóstico. VHS (AUMENTADA); BHCG; EXAME DE URINA (LEUCOCITÚRIA); RAIO X SIMPLES DE ABDOME E TÓRAX; A radiografia simples do abdome só fornece dados após a instalação da peritonite. ULTRASSONOGRAFIA ABDOMINAL; Diâmetro maior 6 mm; Dor à compressão; Fecalito dentro da luz; Líquido peritoneal ao redor. RESSONÂNCIA MAGNÉTICA E TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA. A tomografia computadorizada pode oferecer elementos importantes nos casos de diagnóstico difícil. Ela é mais sensível que a ecografia, além de ser útil pacientes selecionados. - Sensibilidade 95% - Especificidade 95%; Critério de Alvarado 4 a 6. MONICK LEBRÃO MEDICINA- TURMA XIV (FASAVIC) 5 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL As causas podem ser intestinais, ginecológicas e até mesmo relacionadas ao trato urinário. Intestinais: linfadenite mesentérica; diverticulite aguda cecal, diverticulite de Meckel, ileíte aguda, doença de Crohn, enterocolite neutropênica, abscesso de psoas. Ginecológicas: abscesso tubo-ovariano, doença inflamatória pélvica aguda, cisto ovariano roto, torção dos ovários e trompas de falópio e gravidez ectópica rota. Trato urinário: cólica renal, pielonefrite e infecções do trato urinário. COMPLICAÇÕES As complicações decorrentes da evolução do processo inflamatório agudo como supuração, perfuração com ou sem hemorragia e gangrena do apêndice são graves. MORTALIDADE: 0,1%, nas não complicadas; 0,5% nas gangrenosas; 3 a 5% nas perfuradas; Mortalidade maior: idosos e crianças; Maior causa de óbito: septicemia. APENDICITE NO IDOSO Incidência aumentando devido à maior longevidade; 50-90% dos casos têm perfuração; Mortalidade elevada: retardo no diagnóstico, insuficiência vascular, doenças concomitantes, infecção grave Sintomas típicos: são menos pronunciados, febre e leucocitose ausentes; Dor: discreta e difusa no QID; Distensão abdominal: frequente. APENDICITE NA GRAVIDEZ Incidência de 0,05 a 0,1% - similar às não grávidas; É a indicação mais comum de laparotomia na gravidez; Vômitos, dor abdominal, leucocitose, são frequentes; Laparoscopia e ultrassonografia, bastante úteis; Complicações maternas e fetais, elevadas após perfuração; Mortalidade fetal – 10% / laparoscópica