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UNIDADE I INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO CIENTÍFICO SOBRE O SOCIAL 🚻 Sociologia: A sociologia busca ir além do senso comum, propondo-se a abordar a questão das relações sociais a partir de pontos de vista científicos. Mas o senso comum nos serve de material para a reflexão e para a pesquisa científica. A sociologia parte do princípio de que é possível compreender e explicar a realidade social à luz da razão. Segundo Arruda (1994), são inúmeros os objetos estudados pela sociologia, entre eles os métodos para a pesquisa sociológica, os limites do conhecimento sociológico, as instituições culturais e os processos históricos envolvendo as questões culturais, as artes, os museus, as universidades, as escolas, os métodos de ensino, a representação política, a cidadania, a violência social, as políticas públicas, às relações internacionais, as relações sociais de gênero, as instituições religiosas, a religiosidade popular e as diversas manifestações religiosas encontradas no Brasil. 🪄 Imaginação Sociológica: Essa perspectiva pressupõe que, ao longo do tempo, a desenvolvemos hábitos, crenças, cultura e relações familiares que, em grande medida, nos auxiliam na apreensão e interpretação da realidade. Somos criaturas do mundo físico e transformamos o mundo físico por meio de nossas ações. Complementarmente, somos fruto da história, ao mesmo tempo em que produzimos história. PRINCIPAIS CONTRIBUIÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO CLÁSSICO Enquanto área do conhecimento com especificidades e características próprias, a sociologia surgiu no final do século XIX como resultado das transformações provocadas pela Reforma Protestante, pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa. Para que o mundo que conhecemos pudesse surgir, foi necessário que o mundo feudal se desintegrasse por completo e que surgisse uma burguesia empreendedora e não submissa aos poderes monárquicos e de Roma. As velhas relações feudais baseadas na servidão e na descentralização política foram, aos poucos, cedendo espaço ao poder centralizador das monarquias – posteriormente enfraquecidas pela própria burguesia. A Reforma Protestante, em contrapartida, enfraqueceu o protagonismo da Igreja católica como centro do qual emanavam valores e costumes. O desenvolvimento capitalista criou o mundo como o conhecemos e determinou as relações entre os vários grupos sociais com vistas à produção, à distribuição e ao consumo de bens e serviços. Assim, a partir do século XVIII, o crescimento demográfico e a industrialização na Europa mudaram a geografia e as formas de organização social. Duas novas classes sociais apareceram: os burgueses, empreendedores que criavam novas empresas e novos processos de produção, e os trabalhadores. Esses últimos foram abandonando o campo aos poucos em busca de novas formas de sobrevivência e, de maneira também irreversível, foram sendo desapropriados dos seus instrumentos de produção. O trabalho agora ocorria na fábrica, a partir de horários e regras impostas, e todos os equipamentos necessários para a produção de bens pertenciam aos donos das fábricas. A Revolução Francesa (1789-1799) foi um movimento que uniu os esforços da classe burguesa e dos trabalhadores contra a nobreza e a monarquia. O avanço do capitalismo havia criado não apenas novas classes sociais, mas também estimulado o avanço da dominação européia sobre as nações da América Central e do Sul, da Ásia e da África. 🌟 Iluminismo: O Iluminismo, principal corrente filosófica do período, preconizou a razão como instrumento fundamental para a construção do conhecimento. Não se tratava mais de usar a fé e a religião como formas de acesso ao saber, mas de construir um saber a respeito do mundo que tivesse como base a racionalidade, essa capacidade maior do ser humano de descrever e compreender os fenômenos da natureza. Os anos de 1800 materializaram um modelo perfeito e acabado de ciência, cujo desenvolvimento era estimulado e alimentado pela burguesia. Nas palavras de Fonseca (2009), o avanço da ciência era parte do projeto burguês de progresso e expansão do capitalismo. Era necessário expurgar emoções, fantasias e crendices no processo de conhecimento do mundo. COMTE E DURKHEIM 🔹Auguste Comte (Positivismo): O pensador que melhor simbolizou essa crença no progresso e na aplicação dos métodos empíricos (quer dizer, ligados à experiência) para alcançar o conhecimento foi Auguste Comte (1798-1857). Na Escola Politécnica de Paris, teve aulas com a nata da intelectualidade europeia, e esse convívio fortaleceu nele a crença de que a humanidade estava destinada a se organizar, social e politicamente, de forma racional (GIANNOTTI, 1978), desde que fizesse uso do conhecimento científico e objetivo. Assim, o positivismo desenvolveu-se como uma escola de pensamento cujo traço marcante era a defesa de soluções para resolver as mazelas sociais, mesmo as decorrentes do desenvolvimento capitalista. Para Comte, a história do saber mostrava que o homem havia deixado para trás a teologia (a religião) e a metafísica (a filosofia até então construída). Faltava agora caminhar na direção da ciência positiva, e isso envolvia um conjunto de princípios que tornasse possível olhar a sociedade a partir de um ponto de vista científico. Para que o conhecimento positivo pudesse ser construído, era necessário: classificar e categorizar os fenômenos da natureza social; apreender as leis de funcionamento do mundo social; fazer uso dessas leis para melhorar a sociedade e a humanidade. Darwinismo Social: Da mesma maneira que ele se apoiou na biologia a fim de definir a metodologia ideal para investigar fenômenos sociais, também absorveu algumas ideias a respeito de evolução, talvez de uma forma que o próprio Darwin não teria admitido. Assim, o positivismo acabou por ensejar a concepção do darwinismo social. O raciocínio era o seguinte: se as espécies evoluíam em função da sua capacidade de adaptação, às formas de organização social também estavam destinadas a esse processo. Desse modo, era possível imaginar que formas mais primitivas de organização social seriam capazes, especialmente se estimuladas, de adquirir feições mais “avançadas” e complexas. Um dos mais importantes representantes do darwinismo social foi Herbert Spencer (1820-1903). 🔸Émile Durkheim (Fatos Sociais, Consciência Coletiva, Solidariedade Mecânica e Orgânica): O francês David Émile Durkheim (1858-1917) desenvolveu a sua obra durante o período em que o capitalismo não apenas havia se disseminado por toda a Europa, mas também já lograra sucesso na apropriação dos recursos das economias não capitalistas da Ásia, da África e da América Latina. A burguesia estava diante de novos problemas que o processo de industrialização e a urbanização acelerada haviam trazido: que modelo de educação deveria prevalecer, o modelo que consagrava a fé ou o representado pelo ensino secular? Quais regras e condutas deveriam reger a vida da sociedade, as religiosas ou as do direito laico? Como e a partir de quais valores a sociedade deveria se organizar? Durkheim, filho de uma família de origem judaica, formou-se em filosofia e logo se interessou pela sociologia. Vários temas chamaram a sua atenção, em especial as questões relacionadas à metodologia do estudo do campo social. Se o objeto da sociologia era diferente dos objetos da física, da química e da biologia, fazia-se necessário elaborar e identificar métodos próprios, específicos e apropriados. Para Durkheim, os fenômenos sociais coletivos eram o objeto de estudo da sociologia. Os métodos adotados foram os da observação, descrição e classificação dos dados coletados. Fato Social: Durkheim havia adaptado os métodos das ciências naturais para a investigação dos fenômenos sociais. A inovação, entretanto, era a definição e a constituição do objeto de estudo da sociologia, denominado, a partir de então, de fato social. Associado a formas de agir, pensar e se comportar, o fato social dizia respeito ao que era característico de um grupo de pessoas – dizia respeito não ao individual(ao comportamento individual, às formas individuais de compreensão do mundo), mas às regras que eram impostas ao grupo em razão de uma força exterior, quase que como uma consciência coletiva. O próprio grupo estabelecia os princípios coercitivos, os valores e os hábitos a serem incorporados por todos. Os fatos sociais tinham origem na própria dinâmica da vida social e, ao mesmo tempo, exerciam controle sobre essa mesma sociedade. Coerção e Solidariedade: A coerção diz respeito ao caráter impositivo de determinados fatos sociais. A solidariedade, outro conceito importante do pensamento de Durkheim, diz respeito à consciência coletiva que determina como um grupo deve assumir, aceitar e defender valores e normas em benefício do próprio grupo. Para Durkheim, há duas formas de solidariedade: a mecânica e a orgânica. A mecânica seria aquela construída nas comunidades menores. Nestas, o interesse de todos prevalece – ou se sobressai – em relação aos interesses individuais. Em contrapartida, a solidariedade orgânica ocorre em sociedades nas quais a divisão do trabalho é mais intensa, cada indivíduo tornando-se responsável por uma função ou por uma atividade. Os membros do grupo não compartilham valores e projetos por se sentirem parte de uma mesma comunidade, mas pela interdependência existente entre eles, por conta da atribuição de tarefas que são indispensáveis à sobrevivência do grupo. Essa solidariedade ocorre apesar de os indivíduos terem crenças e interesses distintos, em especial por dependerem uns dos outros em razão da divisão do trabalho. Assim, a coesão acontece não pelo compartilhamento de valores, mas pelo estabelecimento de códigos e regras que fixam direitos e deveres. Consciência Coletiva: Durkheim fala sobre a consciência coletiva, a consciência que não deriva de um único indivíduo, mas que se difunde por toda a sociedade. Essa consciência coletiva impõe normas e valores, o que inclui não apenas a noção do ato criminoso, mas também a da pena à qual ele está sujeito. Anomia Social: Durkheim elaborou o conceito de anomia social, fenômeno associado ao esgarçamento do tecido social e à ausência de regras para o convívio. Nas sociedades modernas, a anomia ocorreria porque a industrialização obriga os homens ao trabalho repetitivo e monótono. A falta de um ideal moral, portanto, reduziria o homem à dimensão econômica, impedindo o seu aperfeiçoamento e debilitando a vida social. Por conta da noção de anomia social, Durkheim interessou-se pela questão do suicídio. Para ele, o suicídio era um reflexo das condições sociais dadas. Assim, ao final do século XIX, Durkheim compreendeu o suicídio como consequência da vida moderna e do impacto que essa modernidade provocava nas relações sociais. Essa análise possibilitou a diferenciação de três diferentes tipos de suicídio: • Egoísta: relacionado ao ato individual, de origem extremada. • Altruísta: relacionado à obediência ou à percepção de que o ato poderia favorecer a coletividade. • Anômico: relacionado a circunstâncias sociais específicas (crises econômicas, por exemplo). ✝ Religião: Outro tema abordado por Durkheim diz respeito às práticas religiosas. As religiões, do ponto de vista prático, recomendam formas e regras para a alimentação, para a criação dos filhos, para os rituais de morte, para a conduta moral adequada e para a punição dos que não cumprem as regras estabelecidas. De acordo com Costa (2017), Durkheim entendeu a religião como um dos componentes principais da integração social. Em outras palavras, a abordagem da religião enquanto objeto de estudo deu-se por ela ser parte da vida social. Durkheim explicou como a religião funciona, de forma a constituir um sistema de ideais morais que é parte fundamental do sistema social. Para Durkheim, era importante distinguir o sagrado do profano e da magia. O sagrado tem esse estatuto porque a sociedade confere a determinados objetos ou fenômenos os atributos de pureza e santidade. Em razão desses elementos, o sagrado se distingue da magia, que não necessariamente tem um caráter social. Desse modo, enquanto o sagrado é a marca do que se constrói socialmente, em grupo, a magia tem uma dimensão individual e é um fenômeno que não ultrapassa essa esfera (COSTA, 2017). MARX E WEBER 🔸Karl Marx (Materialismo Histórico e Dialético, Classes Sociais, Ideologia e Alienação): O alemão Karl Marx (1818-1883) nasceu no seio de uma família de classe média. Embora tenha iniciado seus estudos na área do direito, resolveu aprofundar-se em filosofia. A análise que Marx e Engels fizeram da história, e mais especificamente da história do capitalismo, contrasta com a abordagem do positivismo cotidiano. Se para Comte o progresso e a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora eram inevitáveis, Marx e Engels notaram que, apesar de o capitalismo difundir-se pela Europa e colocar à disposição das pessoas toda espécie de produtos e serviços, a situação da classe trabalhadora só fazia piorar. Ao contrário do que o positivismo pregava, o mundo não caminhava em direção ao paraíso de felicidade e abundância, e Marx e Engels vaticinaram um futuro sombrio, no qual os trabalhadores teriam cada vez menos oportunidades de trabalho e salários cada vez menores (HUBERMAN, 1974). Classes Sociais: Marx e Engels dispuseram-se a compreender o papel da luta pela posse de recursos materiais limitados na constituição dos eventos da história. A insuficiência dos meios de produção teria feito surgir as classes sociais, e os conflitos entre elas se converteriam no motor da história. A classe capitalista era a dona dos meios de produção (das fábricas, dos equipamentos, dos recursos necessários para a compra dos insumos para a produção); por sua vez, a classe trabalhadora possuía apenas a sua força de trabalho para vender (ENGELS, 2016). ⚱Materialismo Histórico Dialético: O que havia provocado a transição do feudalismo para o capitalismo mercantil e estimulado as mudanças do capitalismo mercantil na direção do capitalismo industrial? A resposta era bastante simples: o mundo material e as necessidades materiais. A base do pensamento era a realidade material, e era a realidade material que levava os homens à ação e à organização social. Tudo o que o homem criara (o Estado, a linguagem, a religião, as normas, os costumes e as leis) era resultado da luta do ser humano pela sobrevivência. As condições materiais haviam determinado a existência de classes sociais, as formas de divisão do trabalho e a apropriação da riqueza (MARX; ENGELS, 2009). Portanto, se o mundo material era o que movia a sociedade e a história, nada mais razoável do que analisar os processos históricos do ponto de vista materialista. O método preconizado por Marx e Engels era, assim, o materialismo histórico: era materialista porque tinha como base as condições materiais de sobrevivência; era histórico porque a história havia sido construída por meio de sucessivos conflitos entre diferentes grupos em busca de maior participação na distribuição da riqueza. Para Marx e Engels, o materialismo histórico não servia apenas para analisar os processos históricos; ele também fornecia os instrumentos para que a história fosse transformada. Ideologia: A ideologia, conjunto de ideias, valores e normas do capitalismo, fazia com que o operário não percebesse a associação entre o poder econômico e o poder político. Por isso, ele não conseguia se dar conta de que a exploração do seu trabalho não era natural e que a sua condição de explorado podia ser modificada. Esse conjunto de proposições tinha o objetivo de fazer com que os interesses da classe dominante parecessem os interesses coletivos, o que não era verdadeiro. A ideologia, portanto, fazia o papel de um espelho através do qual as imagens eram distorcidas: o que era antagônico (os interesses de cada uma das classes sociais) pareceria hegemônico, quer dizer, majoritário, dominante. Por causa disso, era necessário que o proletariado recusasse a ideologia da classe que possuía os meios de produçãoe o capital. Alienação: Segundo Marx, um dos efeitos da alienação é o trabalhador não se reconhecer mais no trabalho que faz. Em outras palavras, se ele participa apenas de uma ínfima etapa do trabalho, ele perde a visão do conjunto; ao perder a visão do conjunto, ele não consegue mais reconhecer o que é o fruto do seu trabalho. Com esse propósito, o Estado deveria chamar para si a tarefa de educar, em especial para garantir que o proletariado pudesse se apropriar não apenas das técnicas laborais, mas também da compreensão integral de todo o processo produtivo, diminuindo assim a distância historicamente construída entre o trabalho manual e o trabalho intelectual. Mais: Marx, que era ateu, entendia que a religião também poderia vir a ser um instrumento de alienação do trabalhador. Segundo Chagas (2017), ao criar acolhimento para as dores e para o sofrimento, a religião impedia que o homem tomasse consciência da sua verdadeira condição de submissão e de exploração; ao prometer um paraíso eterno após a morte, a religião também defendia a acomodação do operário às suas condições reais, desmotivando-o de transformar a sua realidade e mudar, concretamente, a sua vida. 🔸Max Weber (Ética Protestante e Espírito do Capitalismo, Teoria da Burocracia): Seu principal objeto de estudo era o conteúdo simbólico das relações humanas, ou seja, o sentido construído a partir das interações sociais. A sociologia weberiana ficou conhecida como sociologia compreensiva. Seu principal propósito era a análise das manifestações sociais por meio da investigação das ações sociais. Para Weber, as ações sociais seriam aquelas realizadas pelos indivíduos no contexto do seu grupo social, ações portanto imersas em valores, sentidos, hábitos e motivos derivados do grupo. Nesse sentido, Weber identificou quatro tipos de ação social (OLIVEIRA, 2008): • Ação social racional dirigida por objetivos: essa seria a ação na qual, por meio da análise objetiva da situação e de suas consequências, o indivíduo buscaria alcançar objetivos próprios, em especial fazendo uso do comportamento racional. • Ação social racional dirigida por valores: essa seria uma ação na qual o agente agiria segundo mandamentos ou exigências que acreditasse serem dirigidos a ele, independentemente das consequências possíveis da ação. O indivíduo agiria conforme o que imaginava ser esperado, sem qualquer outra preocupação com objetivos ou consequências. • Ação social afetiva: essa seria a ação dirigida por afetos ou baseada em um contexto emocional. • Ação tradicional: essa seria a ação orientada pelo sentido, como resposta a um estímulo habitual. 📜 Ética Protestante: Weber buscou explicar o desenvolvimento econômico de certos países em termos dos efeitos e da influência da Reforma Protestante. O trecho escolhido da obra de Weber nos revela a análise que o pensador fez da religião: ele buscou compreendê-la não como manifestação individual, mas como construção social determinada por circunstâncias específicas, cujas características atendiam a necessidades de certos grupos sociais. Segundo Weber, a autoridade poderia ser: • Tradicional: apoiada em tradições e costumes, como o papel dos homens nos modelos patriarcais, ou das mulheres nos modelos matriarcais. Outro exemplo é a autoridade exercida por líderes religiosos nos países em que vigoram sistemas políticos teocráticos, ou seja, apoiados em doutrinas religiosas. • Carismática: apoiada nas características físicas ou de personalidade de líderes, como a exercida por Adolf Hitler, responsável pelo estabelecimento do regime nazista na primeira metade do século XX, ou por Antônio Conselheiro, que comandou uma revolta contra o exército brasileiro na Bahia, no final do século XIX. • Racional-legal: apoiada em regras e regulamentos, todos reconhecidos e aceitos pelo grupo. Um exemplo típico de autoridade racional-legal são os processos por meio dos quais os serviços públicos funcionam, em geral rigidamente conduzidos por normas burocráticas. 👻 Espírito do Capitalismo: Refere-se a um conjunto de valores, atitudes e crenças que impulsionam a atividade econômica capitalista. Não se trata simplesmente de buscar lucro, mas de uma ética particular que orienta a conduta do indivíduo no mundo dos negócios. Weber argumenta que esse espírito, presente nas sociedades capitalistas ocidentais, possui raízes na ética protestante. A relação entre a ética protestante e o capitalismo é complexa e não linear. Em resumo, o Espírito do Capitalismo é uma ética protestante que valoriza o trabalho, a acumulação de riqueza e a racionalidade, e que teria contribuído para o desenvolvimento do capitalismo moderno. 🗃 Teoria da Burocracia: As tarefas são claramente definidas e distribuídas entre os funcionários, visando a especialização e a otimização dos processos. Existe uma estrutura hierárquica clara, com linhas de comando bem definidas, o que garante a ordem e a disciplina. A burocracia é um produto da racionalização crescente da sociedade moderna. UNIDADE II A GLOBALIZAÇÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS Consenso de Washington: Foi uma lista de medidas que todos os países deveriam adotar para estimular sua economia, diminuir a pobreza e atenuar as desigualdades sociais. Várias diretrizes foram sugeridas nessa reunião para limitar o poder do Estado e facilitar o comércio e os negócios internacionais: • Os governos deveriam adotar um rigoroso sistema de disciplina fiscal, priorizando determinados setores de interesse e gastando apenas o que fosse possível remunerar com a arrecadação de tributos e impostos. Para que isso fosse possível, o Estado deveria economizar em programas sociais e em subsídios para privilegiar setores da economia. • As legislações nacionais deveriam facilitar ao máximo a circulação do capital financeiro. Ainda, os sistemas de câmbio deveriam ser livres, ou seja, o Estado não poderia, por meio das suas instituições econômicas, controlar artificialmente as taxas de câmbio, quer dizer, os parâmetros por meio dos quais moedas de diferentes países eram comparadas. • Quaisquer entraves ao livre-comércio deveriam ser eliminados. Assim, os países não deveriam fazer uso de impostos de importação e exportação para proteger a indústria nacional, nem para impedir que artigos e mercadorias fossem importados. • Os governos deveriam privatizar as empresas estatais, de preferência atraindo investimentos diretos estrangeiros. • A economia deveria ser desregulamentada ao máximo e o direito autoral fortemente protegido (em especial no caso de produtos que tivessem exigido, para a sua elaboração, investimentos em pesquisa e tecnologia). É possível perceber, de maneira geral, que as políticas do consenso eram voltadas basicamente para diminuir a regulação e o controle da economia, constituir um regime de livre mercado, reduzir o tamanho do Estado e aumentar as oportunidades para o comércio internacional. Essas medidas, especialmente elaboradas para auxiliar as economias desenvolvidas e industrializadas no enfrentamento à crise de superprodução, acabaram por constituir o que passou a ser conhecido como neoliberalismo: o sufixo neo, referente a novo; o termo liberalismo, associado à política de livre-comércio e não intervenção do Estado na economia que havia sido defendida pelos liberais entre os séculos XVI e XVII. Efetivamente, era uma releitura daquela liberdade preconizada pelos primeiros pensadores que se dispuseram a refletir sobre um novo sistema que surgia com a Revolução Industrial: o capitalismo. A globalização, então, apareceu como resultado da soma de dois fatores concomitantes e complementares: o fim do conflito entre URSS e Estados Unidos e a disseminação do neoliberalismo como modelo a ser incorporado por todos os países. Para melhor compreender os fenômenos abarcados pela globalização, organizaremos os aspectos que analisamos anteriormente em três diferentes perspectivas: a histórica, a espaçotemporal e a ideológica (BARBOSA, 2006). De acordo com a abordagem histórica, a globalização associa-se aos eventosreferentes à queda do Muro de Berlim e ao esgotamento da Guerra Fria, ou seja, ao suposto fim do embate entre capital e trabalho. De acordo com a abordagem do espaço e do tempo, a globalização pode ser explicada a partir da diluição das fronteiras geográficas (alcançada por meio da constituição de blocos comerciais, como a União Europeia e o Mercosul) ou a partir da criação de um espaço global virtual. De acordo com a abordagem ideológica, é certo que o discurso neoliberal funcionou como “liga” para juntar os elementos econômicos e políticos. A ideologia pregava que os valores liberais deveriam ser hegemônicos. Esse discurso foi propagandeado com tamanha intensidade que, em muitos países, qualquer crítica à globalização e ao neoliberalismo era associada a conservadorismo e atraso. Segundo Barbosa (2006), a globalização manifesta-se em quatro dimensões: comercial, produtiva, financeira e tecnológica. Vejamos com detalhes cada uma delas. 💰 Dimensão Comercial: A dimensão comercial diz respeito ao aumento do comércio entre blocos e países, inclusive em razão da defendida liberdade comercial e do fim dos entraves ao comércio. É claro que esse fenômeno não acarreta apenas resultados benéficos. Embora ele promova certa universalização de hábitos e costumes, “pode trazer consigo um acirramento do desemprego e o enfraquecimento de regiões produtoras de artigos específicos” (BARBOSA, 2006, p. 42). 📈 Dimensão Produtiva: A dimensão produtiva diz respeito às formas como as estruturas de produção se organizam. Esse fenômeno manifestou-se a partir de dois cenários: a divisão da produção em diferentes pontos geográficos ou a divisão da distribuição para consumo segundo estratégias geopolíticas.No primeiro caso, o país A ficaria encarregado da etapa 1, o B da etapa 2 etc. No segundo, mais complexo, os produtos seriam oferecidos ao mercado de acordo com uma lógica na qual os produtos inovadores e de última geração seriam primeiramente oferecidos nos mercados mais “nobres” (Estados Unidos e Europa), sendo oferecidos aos países periféricos apenas em momento posterior, quando outros produtos envolvendo tecnologia mais moderna pudessem ser distribuídos ao mercado “nobre”. 💵 Dimensão Financeira: Outra dimensão importante da globalização é a financeira, que diz respeito, segundo Prado (2003, p. 14), ao processo de integração dos mercados financeiros locais – tais como os mercados de empréstimos e financiamentos, de títulos públicos e privados, monetário, cambial, seguros etc. – aos mercados internacionais. No limite, os mercados nacionais operariam apenas como uma expressão local de um grande mercado financeiro global. Portanto, esse fenômeno não trata apenas do crescimento de transações financeiras com o exterior, mas da integração dos mercados financeiros nacionais na formação de um mercado financeiro internacional. 🖥 Dimensão Tecnológica: A dimensão tecnológica tem relação com a rápida disseminação da tecnologia de internet e telefonia celular no final do século XX, configurando o que alguns sociólogos e economistas consideram ser a Terceira Revolução Industrial. De fato, seria impossível tamanha troca de informações em tempo real sem que houvesse uma tecnologia capaz de dar conta disso. Essa revolução traduziu-se na implementação e no uso de satélites e cabos de fibra óptica, o que tornou os custos e a qualidade dos serviços de telecomunicações acessíveis a todos os países. Essa revolução envolveu governos, empresas e universidades, processo que sinalizou a importância que a informação teria a partir daquele instante. Assim, a informação passou a ser o recurso de produção mais significativo em qualquer negócio – e não apenas a informação, mas a capacidade de reagir, interagir e inovar a partir das informações disponíveis. MODELOS CONTEMPORÂNEOS DE EXPLICAÇÃO SOCIOLÓGICA SOBRE A GLOBALIZAÇÃO “A sociedade global apresenta desafios empíricos e metodológicos, ou históricos e teóricos, que exigem novos conceitos, outras categorias, diferentes interpretações” (IANNI, 2001, p. 237). Assim, todo o arsenal de investigação sociológica baseado nos antigos padrões e modelos de análise precisa acomodar uma realidade internacional, transnacional e multinacional. É provável que grande parte dos obstáculos ao trabalho do sociólogo tenha como origem o fato de que, curiosamente, ao mesmo tempo que o mundo tende a (ou pretende) se transformar em algo global, percebem-se movimentos contrários a esse molde. Como afirma Ianni (1998, p. 5), a originalidade e a complexidade da globalização, no seu todo ou em seus distintos aspectos, desafiam o cientista social a mobilizar sugestões e conquistas de várias ciências. Acontece que a globalização pode ser vista como um vasto processo não só político-econômico, mas também sociocultural, compreendendo problemas demográficos, ecológicos, de gênero, religiosos, linguísticos e outros. Ainda que a pesquisa privilegie determinado ângulo de análise, está continuamente desafiada a levar em conta outros aspectos da realidade, sem os quais a análise econômica, política, sociológica, ecológica ou outra resulta em abstrações carentes de realidade, consistência ou verossimilhança. TEORIAS DA GLOBALIZAÇÃO Os sociólogos vêm buscando desenvolver teorias que expliquem o fenômeno da globalização do ponto de vista das relações sociais e das consequências advindas das novas formas de trabalho, de circulação de bens e pessoas, de troca incessante de informações e de entendimento da questão do nacional, do regional e do local. Segundo Ianni (2001), algumas dessas teorias elaboraram a noção de sistema-mundo, ou economia-mundo. Na opinião do autor, essas teorias ocupam-se com a análise do conflito entre o centro e a periferia do mundo, entre desenvolvimento e subdesenvolvimento. A ideia de sistema-mundo ajuda a explicar as crises nos centros do capitalismo, crises essas que criam ondas e se propagam para a periferia, afetando – ou tornando mais perversas e evidentes – as estruturas de desigualdade social por meio de relações que tensionam e colocam em conflito as nações dominantes e as que a elas se submetem. 🗺 Sistema Mundial: O sistema mundial é um sistema social, um sistema que possui limites, estrutura, grupos, membros, regras de legitimação e coerência. Sua vida resulta das forças conflitantes que o mantêm unido por tensão e o desagregam, na medida em que cada um dos grupos busca sempre reorganizá-lo em seu benefício. Tem as características de um organismo, na medida em que tem um tempo de vida durante o qual suas características mudam em alguns dos seus aspectos, e permanecem estáveis em outros. Suas estruturas podem definir-se como fortes ou débeis em momentos diferentes, em termos da lógica interna de seu funcionamento. […] Até o momento só têm existido duas variedades de tais sistemas mundiais: impérios-mundo, nos quais existe um único sistema político sobre a maior parte da área, por mais atenuado que possa estar o seu controle efetivo; e aqueles sistemas nos quais tal sistema político único não existe sobre toda ou virtualmente toda a sua extensão. Por conveniência, e à falta de melhor termo, utilizamos o termo “economias-mundo” para definir esses últimos. 🏕 Mito da Aldeia Global: Esse mito criou a ideia de que somos todos irmãos e partilhamos o mesmo espaço, como se, de fato, vivêssemos orientados por ideias de solidariedade e comunhão mundial. Ianni (2001, p. 119) diz que a noção de aldeia global é bem uma expressão da globalidade das idéias, padrões e valores socioculturais, imaginários. Pode ser vista como uma teoria da cultura mundial, entendida como cultura de massa, mercado de bens culturais, universo de signos e símbolos, linguagens e significados que povoam o modo pelo qual uns e outros situam-se no mundo, ou pensam, imaginam, sentem e agem. A aldeia global pode ser uma metáfora e uma realidade, uma configuração histórica e uma utopia. MUNDO GLOBAL O maior fator de descontentamento era o de que, ao invés da globalização da riqueza, apenas a pobreza havia sido globalizada.Nos países em desenvolvimento, o desemprego havia aumentado e a renda per capita diminuído. A grande maioria dos países não desenvolvidos lutava contra panoramas crescentes de desigualdade e vulnerabilidade social. As conclusões pareciam óbvias: as regras da globalização haviam sido criadas para dar mais vantagens aos países industrializados, regras essas que castigavam preferencialmente os países mais pobres. Segundo Stiglitz (2007), não ocorreu qualquer diminuição da pobreza e da desigualdade social, mas aumentou a dependência dos países pobres em relação aos países mais ricos, em especial no que diz respeito ao crédito, aos investimentos estrangeiros diretos e ao acesso a medicamentos e outros produtos e serviços envolvendo tecnologias protegidas por patentes. Outro aspecto levantado pelos críticos à globalização é que o processo ignorava o que havia de mais globalizante no neoliberalismo: a degradação ambiental em escala global. Desde 1989, esse tema ganhou cada vez mais espaço nos fóruns mundiais e, inclusive, nas negociações comerciais. Havia, e ainda há, uma imensa associação entre globalização e degradação ambiental, e essa associação atinge a todos os países, industrializados ou não. Aliás, os recentes índices de crescimento da economia da Índia e da China evidenciam o quanto a intensificação das atividades econômicas deixa marcas quando esse processo não é planejado e sustentável. Quais as soluções para dar um fim à globalização da pobreza? Uma delas é a concessão de ajuda financeira sob a forma de doação, sem prazo ou juros para ser restituída, em especial quando vinculada à proteção ambiental e ao combate da vulnerabilidade social. Outras soluções podem vir sob a forma de acordos comerciais mais justos, nos quais os países menos desenvolvidos tenham a mesma força denegociação dos países mais ricos (STIGLITZ, 2007). Em resumo, as soluções devem passar pelo crivo do significado real do livre-comércio de acordo com as especificidades de cada país. O comércio só pode ser livre se todos os países puderem se beneficiar dele; em outras palavras, o argumento do livre-comércio não deve ser utilizado para justificar o aumento da pobreza e da dependência dos países menos desenvolvidos. As reservas de determinados recursos naturais vêm provocando guerras em diversas regiões do mundo, conflitos esses em geral fortalecidos com a ajuda internacional de países interessados em controlar essas reservas. Há também disputas entre países fronteiriços, especialmente quando uma nação tem reservas de algum recurso valioso e a outra não. Há mais conflito ainda quando as fronteiras foram demarcadas pelas antigas potências coloniais, como se observa no caso de vários países africanos. Essas disputas muitas vezes motivam movimentos de independência ou conflitos armados para garantir a posse do recurso. Assim, a posse de recursos naturais valiosos acaba por gerar violência, instabilidade política ou corrupção. “A riqueza gera poder, o poder que possibilita que a classe dominante mantenha essa riqueza” (STIGLITZ, 2007, p. 238). É um curioso mundo global: a posse de recursos não garante o desenvolvimento, e a falta deles tampouco impede o crescimento. POBREZA E EXCLUSÃO Desigualdade social, riqueza e bem-estar: É fato que o processo de globalização fez com que o desemprego nos países mais pobres aumentasse. A necessidade de capacitação, mesmo no caso de trabalhos industriais e mecânicos, gerou um contingente imenso de pessoas sem qualquer condição de encontrar um posto de trabalho. Para os trabalhadores, sobram poucas alternativas quando uma empresa se retira de um país em desenvolvimento ou quando o desemprego atinge parte da população. De fato, há um efeito dominó que afeta todos os países, já que a precarização do trabalho e a perda de direitos trabalhistas têm ocorrido em todos os lugares do mundo. Segundo Ianni (1994, p. 159), “a sociedade global é o cenário mais amplo do desenvolvimento desigual, combinado e contraditório […], em que se expressam diversidades, localismos, singularidades, particularismos ou identidades”. Por causa das diferenças entre riqueza e bem-estar, e como o PIB e o PIB per capita podem não revelar a realidade, os economistas procuraram novas formas de mapear a qualidade de vida de uma nação por meio de um indicador. Para o cálculo desse novo indicador, o índice de desenvolvimento humano (IDH), são consideradas as seguintes variáveis: • anos de escolaridade da população e número de matrículas por nível educacional; • longevidade e expectativa de vida; • renda média corrigida pelo custo de vida. Os anos de escolaridade e o número de matrículas mostram o quanto a sociedade investiu em educação e quanto tempo as crianças estudam antes de se inserirem no mercado de trabalho; revelam ainda a capacidade de produção tecnológica e científica do país. A longevidade e a expectativa de vida indicam o quanto a sociedade usufrui de serviços de saúde e saneamento básico. Finalmente, o poder de compra corrigido pelo custo de vida mede o quanto de bens e serviços, em uma nação, o salário permite adquirir. O IDH varia de 0 a 1: quanto mais próximo de 0, menor o desenvolvimento humano; quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano. Em termos categóricos, o IDH costuma ser dividido em três níveis: • De 0 a 0,499: baixo desenvolvimento humano. • De 0,5 a 0,799: médio desenvolvimento humano. • Acima de 0,80: alto desenvolvimento humano. Para Sen (2000), a desigualdade social é, acima de tudo, fruto da falta de liberdade de fazer escolhas. Em outras palavras, a desigualdade maior se dá em relação à diferença de oportunidades de escolha. 🛶 Movimentos Migratórios: Outra questão muito importante, e que está inegavelmente atrelada aos efeitos da pobreza e da exclusão causadas pela globalização, vincula-se às ondas migratórias de nações em desenvolvimento, subdesenvolvidas ou em guerra, por meio das quais a população procura proteção em países onde há emprego e melhores condições de vida. Segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR, 2021), os refugiados são pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido a grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados. A globalização acentua as desigualdades entre os países, processo que incentiva e estimula a migração internacional. E, ao mesmo tempo que a globalização dissemina a mensagem de que não há mais fronteiras entre os países, os países industrializados criam inúmeros obstáculos e regras que dificultam a mobilidade dos migrantes. “As fronteiras abrem-se para o fluxo de capitais e mercadorias, mas estão cada vez mais fechadas aos migrantes: essa é a grande inconsistência que define o atual momento histórico no que se refere às migrações internacionais” (MARTINE, 2005, p. 8). SOCIEDADE E TRABALHO Na escravidão, o homem era uma mercadoria. Na servidão, típico regime de trabalho do período feudal, o servo devia obrigações e submissão ao dono da terra. No capitalismo, entretanto, o trabalho é uma mercadoria, vendida pelo trabalhador ao preço, supostamente, negociado entre ele e o dono da empresa. Esse valor, que corresponde ao salário, deve ser o suficiente para a subsistência do trabalhador e de sua família. Dessa forma, o emprego assalariado é um fenômeno típico do capitalismo. O trabalho é um fenômeno social. Trabalhamos porque nossa sobrevivência depende do trabalho. Interagimos socialmente porque essa estratégia permite que dividamos o trabalho e obtenhamos o máximo em termos da produção dos bens e serviços necessários para a nossa manutenção. A divisão do trabalho requer a especialização e, quanto mais complexa for uma sociedade, maior será a divisão de trabalho nela realizada, já que maior será a necessidade de laços de solidariedade entre os indivíduos. Assim, o grupo divide o trabalho entre seus membrospor meio da cooperação. Em resultado, o trabalho se torna fonte de coesão social. Modelo Toyotismo: As bases do taylorismo e do fordismo entraram em crise na década de 1970: a queda da taxa de lucro, o aumento da competitividade em cada setor industrial e as taxas de inflação fizeram com que o desemprego aumentasse e o crescimento industrial sofresse retração. Dessa forma, tornou-se urgente que as empresas buscassem maximizar os lucros por meio de outros modelos de gestão de estoques e processos produtivos. O modelo que buscou atender às necessidades desse contexto foi o toyotismo, conjunto de princípios adotados pela Toyota, no Japão, após o fim da Segunda Guerra Mundial. O toyotismo defendeu valores bem diferentes dos que vigoravam até então: • A equipe deveria trabalhar em conjunto para construir a imagem da empresa e garantir a qualidade dos produtos. • Os trabalhadores deveriam se adaptar às necessidades da empresa, desenvolvendo, assim, competências plurais. • As indústrias deveriam atender às necessidades específicas dos consumidores, criando nichos de mercado e segmentando a produção. • A produção deveria ser horizontalizada (ou seja, com terceirização ou subcontratação de outras empresas), e a indústria deveria focalizar aquilo que era mais importante: a fabricação de mercadorias. O modelo toyotista inaugurou o processo de terceirização e, portanto, de precarização do trabalho. Cabe mencionar, entretanto, que não foi apenas o toyotismo o responsável pelo processo de piora nas condições de trabalho. O crescimento econômico da China também incentivou mudanças importantes nas relações de trabalho, uma vez que o modelo chinês não inclui direitos trabalhistas nem qualquer esquema de proteção ao trabalhador. Ao contrário, espera-se que o trabalhador dê tudo de si para que a empresa cresça e ele possa manter seu posto, mesmo que para isso tenha que lidar com longas jornadas de trabalho. Deve-se também levar em conta que a revolução tecnológica mudou o contexto do trabalho. Ela não apenas incentivou o aumento da competição entre setores e mercados, mas também provocou profundas transformações na produção e no sistema econômico. A jornada de trabalho extrapolou os limites das empresas. O celular e o e-mail colocaram o trabalhador à disposição da empresa 24 horas por dia, sete dias por semana. O trabalho precarizou-se ainda mais, fazendo surgir o fenômeno da uberização, processo que deve o seu nome à empresa de transporte Uber, na qual não há um empregador aparente, mas apenas um trabalhador que, em razão do seu empreendedorismo, irá trabalhar quantas horas desejar. 🪪 Desemprego Estrutural: O desemprego estrutural é uma das características mais marcantes do sistema capitalista. No entanto, há outros problemas cuja dimensão se sobrepõe, inclusive, ao desemprego estrutural. Um deles está relacionado ao trabalho infantil, em especial nos países em desenvolvimento. Tornou-se comum encontrar crianças trabalhando na agricultura, no ambiente doméstico e nas fábricas com uso intensivo de mão de obra. Trabalho Forçado: O fenômeno do trabalho forçado é mais frequente nos países em que setores da população estão em situação de vulnerabilidade econômica. Quanto mais vulnerável for a situação econômica do indivíduo, mais propenso ele estará a aceitar trabalhos sem remuneração ou sem qualquer recompensa financeira. Nessas situações, o trabalhador troca a sua força de trabalho por abrigo, segurança ou alimentação, o que caracteriza a ausência de remuneração salarial. 📇 Trabalho Informal: Para a OIT, a informalidade é caracterizada pela ausência de sistemas formais. Do ponto de vista legal ou prático, a informalidade ocorre quando os trabalhadores e as unidades produtoras não estão inseridos em um sistema formal (SANTIAGO; VASCONCELOS, 2017). Em 2003, a OIT sugeriu novas formas de caracterizar o emprego no setor informal por meio da inclusão da questão da economia informal e da definição de trabalho informal. SOCIOLOGIA E POLÍTICA Democracia: Segundo Giddens (2006, p. 70), a democracia pode ser descrita como um sistema que envolve competição efetiva entre partidos políticos que querem ocupar posições de poder. Em democracia, há eleições regulares e honestas, em que todos os membros da população podem tomar parte. Esses direitos de participação derivam das liberdades civis: liberdade de expressão e discussão, a que se junta a liberdade de pertencer a grupos ou associações de natureza política. Em tempos globais, um esforço especial deve ser feito para democratizar a democracia, ou seja, levá-la às relações internacionais. Isso envolve instituições internacionais que tratem igualmente países em desenvolvimento e países desenvolvidos, arcabouços legais que impeçam países de se confrontarem por reservas naturais etc. 🏛 Estado e Sociedade: Uma frente de debate que tem mobilizado os sociólogos diz respeito à separação entre Estado e sociedade. Quais são – ou devem ser – os limites entre esses dois ambientes? A resposta mais frequente a essa questão tem sido dizer que o Estado foi criado pela sociedade justamente para dar conta de organizar a vida de todos, de forma autônoma. A sociedade civil nasce com a criação do Estado e surge como fruto da ação do Estado, que propiciará as condições para a existência de uma esfera privada. A criação do Estado fez surgir uma fronteira entre o que é resultado da sua ação e o que é fruto do movimento espontâneo e organizado da sociedade. Assim, a sociedade civil envolve ações e iniciativas que independem do Estado, como é o caso das organizações não governamentais, que atuam nas mais diferentes áreas (educação, saúde e outros projetos de cidadania). Essas organizações não surgem a partir da ação do Estado. Ao contrário, elas surgem por decisão de grupos de indivíduos que se organizam em prol de determinados objetivos. Historicamente, temos duas formas a partir das quais o Estado se atribui – ou não – o direito e o dever de proteger, criar e preservar direitos civis, sociais e políticos. No Estado de bem-estar social (conhecido como welfare state), o Estado traz para si o compromisso e a obrigação de criar redes de proteção aos cidadãos, garantindo educação, saúde, auxílio-desemprego, aposentadoria etc. No Estado mínimo, o aparelho estatal busca diminuir ao máximo sua interferência na vida econômica e social do país. Assim, as maneiras como o Estado concebe sua missão determinam, em grande parte, o quanto os direitos coletivos prevalecerão sobre os direitos individuais. Determinam ainda o quanto o Estado considerará sua tarefa de diminuir as desigualdades sociais. Em geral, a democracia representativa é materializada sob a forma de regimes parlamentaristas ou republicanos. Seus elementos principais são o sufrágio universal (o direito de voto a todos), a vigência de constituições que norteiam a vida dos cidadãos, a alternância no poder, e a eleição de representantes diretos para as funções executivas e legislativas. O Brasil é um exemplo de democracia representativa, na qual os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) agem livremente, mas de forma interdependente. O Poder Executivo é aquele que executa os atos públicos. O Poder Legislativo é aquele que produz as leis que irão governar a vida dos cidadãos. O Poder Legislativo estabelece as leis por meio do Congresso Nacional, que reúne a Câmara dos Deputados e o Senado. Ao Poder Legislativo cabe também fiscalizar o Poder Executivo. O Poder Judiciário é o que julga os cidadãos a partir das leis. 🪖 Ditadura: A ditadura é o oposto da democracia, e ela surge quando não há pluralidade de partidos, alternância no poder e liberdade e autonomia para a atuação do Parlamento. No Brasil, tivemos dois períodos ditatoriais: entre 1930 e 1945, sob o Governo Getúlio Vargas, e entre 1964 e 1985, quando o país foi governado por militares não eleitos pelo povo, e as eleições do Legislativo tiveram que obedecer a regras restritivas para a participação de candidatos. O processo de redemocratização do país ocorreucom a transferência paulatina do poder dos militares aos civis, o que demandou um longo e complexo processo de negociação e de contestação de setores da sociedade insatisfeitos com o ritmo lento desse movimento. CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS De acordo com Manzini-Covre (2002), a questão da cidadania envolve o exercício de alguns direitos: • Direitos civis: dizem respeito ao direito de dispor do próprio corpo, de se locomover, de ter segurança. Assim, colocar a população em risco por conta da excessiva tolerância com quem atenta contra a salubridade do ambiente, por exemplo, é um desrespeito ao direito civil de todos de viver em segurança. Outros exemplos são forçar uma criança a se casar ou proibir alguém de sair do país; ambos são atos que desrespeitam os direitos civis. • Direitos sociais: dizem respeito ao atendimento das necessidades humanas básicas – alimentação, habitação, saúde e educação. A existência de pessoas morando debaixo de viadutos, sem condições mínimas de sobrevivência e de dignidade, por exemplo, é um desrespeito aos direitos sociais. • Direitos políticos: dizem respeito à liberdade de expressão, de pensamento e de prática política e religiosa. Esses direitos são reforçados com a eleição de representantes e a proteção aos movimentos sociais.