Prévia do material em texto
1 UMA ANÁLISE DA REDE DE ATENDIMENTO PELO OLHAR DAS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA AN ANALYSIS OF THE NETWORK OF ATTENDANCE BY THE LOOK OF WOMEN VICTIMS OF DOMESTIC VIOLENCE NASCIMENTO1, Ariel Dalcim do; VIRGOLIN,2 Isadora W. Cadore. RESUMO: O conceito de violência contra a mulher é resultado de uma construção histórica a qual foi modificando-se ao longo dos tempos. Embora esse tipo de violência seja algo tão antigo quanto a história da humanidade, nem sempre foi compreendido como violência e como um fenômeno social grave. No Brasil, pode-se dizer que um reconhecimento mais efetivo do fenômeno passou a ocorrer a partir da criação de uma lei específica – a Lei nº 11.340/2006 – para coibir, prevenir e punir a violência contra a mulher. A referida lei estabelece dentre outros aspectos que toda a mulher tem direito à proteção social e do Estado, inclusive contra atos de violência sofridos no ambiente privado ou intrafamiliar. Com o intuito de atender a isso foi reforçado a necessidade do trabalho em rede, pois, a mesma prevê a articulação entre Estado e sociedade civil, bem como a integração operacional entre o Poder Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública com as áreas da segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho, habitação, dentre outras. Assim, este estudo tem como objetivo analisar a rede de atendimento do município de Cruz Alta pelo olhar das vítimas de violência doméstica, visto que através de outra pesquisa sobre o tema desenvolvida através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC, intitulado “Lei Maria da Penha: um estudo sobre as medidas protetivas e de assistência ás mulheres” foi realizado um estudo sobre a rede de atendimento, porém a partir dos profissionais que atuam na rede. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa do tipo descritiva e interpretativa e o seu desenvolvimento compreendeu a realização da fase de revisão bibliográfica, do trabalho de campo, da sistematização dos dados e da análise destes. A partir da realização deste estudo, pode-se verificar que pelo olhar das usuárias da rede de atendimento esta tem se mostrado satisfatória e de certo modo eficaz, mesmo que o atendimento não ocorra conforme estabelecido em lei. Palavras-Chave: Mulher. Violência. Vítima. Rede. Atendimento. ABSTRACT: The concept of violence against women is the result of a historical construction that has been changing over time. Although this type of violence is as old as the history of mankind, it has not always been understood as violence and as a serious social phenomenon. In Brazil, it can be said that a more effective recognition of the phenomenon began to occur from the creation of a specific law - Law 11,340 / 2006 - to curb, prevent and punish violence against women. This law establishes, among other aspects, that all women have the right to social and state protection, including against acts of violence suffered in the private or intrafamily environment. In order to address this, the need 1 Acadêmica do 9º semestre do Curso de Direito da Universidade de Cruz Alta – UNICRUZ. E-mail: ariel.dalcim@hotmail.com 2 Docente da Universidade de Cruz Alta e orientadora do Trabalho de Conclusão de Curso. E-mail: ivirgolin@unicruz.edu.br mailto:ariel.dalcim@hotmail.com mailto:ivirgolin@unicruz.edu.br 2 for networking was reinforced, as it provides for the articulation between the State and civil society, as well as the operational integration between the Judiciary, Public Ministry and Public Defender's Office with the areas of public security , social assistance, health, education, work, housing, among others. Thus, this study aims to analyze the service network of the municipality of Cruz Alta by the perspective of the victims of domestic violence, since through another research on the theme developed through the Institutional Program of Scientific Initiation Grants - PIBIC, entitled "Law Maria da Penha: a study on the protective measures and assistance to women "a study was made on the service network, but from the professionals who work in the network. The research is characterized as qualitative of the descriptive and interpretative type and its development comprised the accomplishment of the bibliographic review phase, the field work, the data systematization and the analysis of these. Based on this study, it can be verified that, due to the users' view of the service network, this has proved to be satisfactory and in some ways effective, even though the service does not occur as established by law. Keywords: Woman. Violence. Victim. Network. Attendance. 1 CONSIDERAÇÕES INICIAS A violência contra a mulher é um fenômeno social grave que está em grande parte ligado à cultura do patriarcado, a qual permeou nas relações humanas por muitos séculos, colocando a mulher em um patamar de inferioridade ao homem, sendo esta discriminada, desprezada, coisificada, objetivada, tanto no convívio familiar quanto na sociedade de um modo geral. Além disso, era-lhe incumbido apenas dever de cuidar da casa, dos filhos e do marido, sendo a este subordinada, logo não possuía direitos, mas sim apenas deveres, frente a sua família e sociedade. Acerca disso, Porto (2007) destaca que a mulher sempre foi relegada a um segundo plano, posicionada em grau submisso, discriminada e oprimida, quando não escravizada e objetivada. É desnecessário discorrer longamente sobre o papel secundário e obscuro reservado às mulheres na Antiguidade e no Medievo, onde apenas o homem poderia ser sujeito de direitos e detentor de poderes. O mundo antigo girava predominantemente em torno da comunidade, e não do indivíduo, cuja personalidade era facilmente sacrificada em benefício da totalidade dos clãs, das cidades e dos feudos. Nesta era, a mulher foi muito vitimizada, não apenas pelo homem – marido, pais e irmãos – como ainda pelas religiões, pois, sobre sua natureza feminina, tida como o portal dos pecados, muitas vezes pesaram acusações de bruxaria e hermetismos heréticos que as levaram à tortura e fogueira. Porém, com o passar do tempo e com a evolução da sociedade, a cultura do patriarcado passou a ter menos influência e, a partir disso as mulheres passaram a serem vistas de uma forma mais igualitária aos homens, adquirindo direitos e deveres iguais, pelo menos nos dispositivos legais, embora na prática não ocorra assim. Embora a violência contra a mulher seja algo tão antigo quanto a história da humanidade, ela nem sempre foi compreendida como violência, ou seja, como um 3 fenômeno social grave, que atinge meninas e mulheres em todo o mundo e em todas as culturas, não importando a idade, classe social, raça e etnia. Um aspecto de suma importância que deve ser destacado é a questão do lugar dado pelo Direito à mulher, pois, pode-se dizer que este sempre foi um não lugar, uma vez que por muito tempo a legislação foi extremamente precária com relação às mulheres, sendo estas excluídas. Todavia, a partir da evolução da sociedade a legislação foi sendo remodelada, trazendo direitos importantes as mulheres, como também o reconhecimento da igualdade de gênero, o reconhecimento de determinados atos e situações como violência. No Brasil, pode-se dizer que um dos marcos mais significativos é a Constituição Federal (CF/1988), pois inseriu em seu texto constitucional, no artigo 5º, inciso I que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição, como também a proteção à mulher e à gestante no artigo 6º da CF. Entretanto, ainda não existia uma lei específica que coibisse e prevenisse a violência doméstica e familiar contra a mulher que é aquela cometida pelo marido, companheiro, namorado ou familiar das vítimas. Apenas em 2006 que foi criada uma lei específica – a Lei11.340/2006 – para coibir, prevenir e punir a violência contra a mulher. Tal lei, é conhecida como Lei Maria da Penha e, foi criada em homenagem a Maria da Penha Fernandes que durante anos foi vítima de violência e tentativas de homicídio praticados pelo marido. E, embora tenha denunciado as agressões que sofreu, nenhuma providência foi tomada, por isso que tal assunto foi levado à Comissão Interamericana De Direitos Humanos Da Organização dos Estados Americanos (OEA) e, em 2001 o Brasil foi condenado internacionalmente a pagar uma indenização de 20 mil dólares a Maria da Penha e recomendou-se a adoção de várias medidas, entre elas a criação de uma lei específica que fosse capaz de simplificar os procedimentos judiciais penais. A referida lei, caracteriza o que configura violência contra a mulher e quais são as formas que tal violência pode se manifestar e, por fim, cria mecanismos para coibir e prevenir a violência contra a mulher. Além disso, a lei estabelece em seu texto que toda a mulher tem direito à proteção social e do Estado inclusive contra atos de violência sofridos no ambiente privado ou intrafamiliar. A partir do advento desta lei, a violência contra a mulher passou a ser considerada crime grave e não mais crime de menor potencial ofensivo. Além disso, foi reforçado a questão do trabalho em rede, pois, a mesma prevê a articulação entre Estado e sociedade civil, bem como a integração operacional entre o Poder Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública com as áreas da segurança pública, assistência social, saúde, 4 educação, trabalho, habitação, dentre outras, para o atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica. Através de estudos realizados durante o desenvolvimento do Projeto de Pesquisa de Iniciação Científica (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC), intitulado “Lei Maria da Penha: um estudo sobre as medidas protetivas e de assistência ás mulheres”, no período de março de 2017 a março de 2018, caracterizou-se a rede e, a partir disso pode-se verificar que no município de Cruz Alta a rede de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica é composta por uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), por um Centro de Referência Especializado, o Centro de Referência Maria Mulher, por juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, pela defensoria pública, que possui uma defensora específica para os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher e por uma promotoria especializada. Entretanto, verificou-se também que estes órgãos encontram algumas dificuldades na execução do trabalho, bem como na execução da atuação em rede, uma vez que tais órgãos não possui um sistema integralizado e os profissionais não são constantemente capacitados. Nesse sentido, a partir realização do Trabalho de Conclusão de Curso, buscou-se ampliar o estudo realizado via o PIBIC, tendo como objetivo analisar a efetividade da rede de atendimento de Cruz Alta às vítimas de violência doméstica sob a percepção das mesmas, buscando verificar se elas a consideram eficaz, se as auxiliou de forma correta e se sentiram segurança ao buscar a ajuda da rede. Uma vez que a rede de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica tem como objetivo prestar assistência e proteção às vítimas, conforme prevê a lei. A pesquisa desenvolveu-se a partir da realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na modalidade artigo que, segundo o manual de normalização de trabalhos acadêmicos da Universidade de Cruz Alta (2018) é o documento que apresenta o resultado de trabalho de conclusão de curso (TCC), devendo expressar conhecimento do assunto escolhido, que deve ser obrigatoriamente emanado da disciplina, módulo, estudo independente, curso, programa e outros ministrados. A mesma tem como base o método hipotético-dedutivo, se caracteriza como qualitativa do tipo descritiva e interpretativa e enquadra-se na linha de pesquisa: República, Estado e Sociedade Contemporânea. O seu desenvolvimento compreendeu três etapas: revisão bibliográfica, pesquisa de campo e análise dos dados. Assim, inicialmente fez-se a revisão da literatura com elaboração de resumos e anotações sobre os pontos principais. Para a etapa da pesquisa de campo o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da instituição. E, após a análise e autorização do Comitê, se passou 5 efetivamente para a fase da coleta de dados, na qual foram realizadas entrevistas semiestruturadas com as vítimas de violência doméstica que buscaram o atendimento no Centro de Referência Maria Mulher e que foram atendidas pela rede no município de Cruz Alta. A amostra compreende a cinco entrevistadas, com idades entre 21 a 55 anos de idade e com um atendimento contínuo. E na última fase realizou-se a sistematização e análise dos dados, que compreende na identificação das categorias, características essências e nas relações presentes nos estudos de dados e, a qual ocorreu prioritariamente utilizando-se das “falas” dos sujeitos expressados durante as entrevistas. 2 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS DA MULHER NO BRASIL Por muito tempo a legislação brasileira foi extremamente precária com relação as mulheres. Por isso, para compreender a violência contra a mulher, deve-se buscar primeiramente a trajetória histórica da evolução dos direitos da mulher na sociedade, uma vez que a evolução dos direitos da mulher ao longo da história representa a própria evolução da mulher na sociedade. Ao se pensar na época do Brasil Colônia (1500 a 1822), verifica-se que nesta época reinava no país o chamado sistema patriarcal, que compreendia na submissão e obediência da mulher aos homens, não possuindo direitos, mas apenas deveres, pois os direitos reservados as mulheres estavam ligados à proteção de sua religiosidade, posição social, castidade e sexualidade, entretanto, com relação ao tratamento jurídico dado a mulher, entendia-se que esta necessitava de permanente tutela, pois era considerada alguém plenamente incapaz (FERNANDES, 2015). Ainda segundo Fernandes (2015), na época do Brasil Império (1822 a 1889), a mulher ainda conservava o seu papel tradicional, ou seja, suas funções primordiais eram de mão e esposa, porém, esta época representou um período de humanização do direito e o início do processo de fortalecimento das mulheres e, estas passaram a ter o direito de estudar e de ingressar no mercado de trabalho. Com a Constituição Imperial de 1824 passou-se a prever no texto legal a igualdade entre homens e mulheres, porém, a discriminação ainda persistiam e os direitos eram pensados e exercidos por homens. Com relação a proteção penal, (RODRIGUES, 2003 apud CADERNO EaD-ILB) destaca que na parte criminal das Ordenações Filipinas constava que aqueles que ferissem as mulheres com pau ou pedra ou aqueles que castigassem as mulheres de forma moderadamente eram isentos de pena, além disso, os homens tinham o direito de matarem suas mulheres em caso de adultério, sendo desnecessário provas concretas, apenas rumores públicos eram aceitáveis. 6 Estas normas vigoraram até a promulgação do Código Criminal de 1830, pois o mesmo afastou parte destas normas, entre elas a permissão de ferir e castigar as mulheres e de matá-las em caso de adultério, bem como, passou-se a considerar como agravante da pena a superioridade de sexo que impedisse a defesa. Entretanto, por ainda se tratar de uma sociedade patriarcal, o qual perdurou até meados do século XX, o novo Código Criminal continuou abordando a desigualdade entre homens e mulheres, uma vez que o adultério para a mulher casada constituía crime sob qualquer circunstância, mas para o homem, o adultério só seria considerado crime se o relacionamento fora do casamento fosse estável e público. Na época do Brasil República, por influênciada Revolução Industrial, a mulher passou a acumular a função de mãe, esposa e trabalhadora, uma vez que tal revolução permitiu o ingresso da mulher no mercado de trabalho, pois, existia uma grande demanda de mão de obra na indústria e, assim, a mulher passou a exercer o trabalho até então destinado aos homens. Entretanto, (GROSSI, 1994 apud CADERNO EaD-ILB) destaca que até a publicação do Código Civil de 1916, a sociedade brasileira era regida pelas Ordenações Filipinas (legislação portuguesa trazida para o Brasil) e, por essas ordenações, as mulheres deveriam ser tuteladas nos atos da vida civil, por serem consideradas incapazes, se fosse casada, a incapacidade era suprida por seu marido que passaria ser seu representante legal, logo, as mulheres estavam sujeitas ao poder disciplinar do pai ou do marido. Acerca disso, Brito (1998, p. 27 apud FERNANDES, 2015, p. 12) destaca que: Digno de repulsa, o Código Civil Brasileiro de 1916, insculpido com base em fortíssima concepção patriarcal, pelo qual o casamento gerava a incapacidade civil da mulher, passando o marido a agir em seu nome, não podendo ir a juízo, comerciar ou até exercer uma profissão sem a autorização marital, configurando-se uma situação, a todos os títulos, inconcebível. Gerhard (2014) destaca que o modelo conservador, geracionalmente ensinado e transmitido, é o grande responsável por conduzir a mulher para uma posição de inferioridade e submissão, e isso é o principal foco que faz com que ela se transforme em vítima de violência. A própria educação das mulheres sempre foi voltada para o lar, para a docilidade, para o controle, limitando suas predileções, aspirações e desejos. Apesar disso, cabe destacar que nesse período houve muitas lutas em busca de igualdade, bem como muitos movimentos feministas, que resultou no direito ao voto das mulheres, constando expressamente no Código Eleitoral de 1932, sendo considerado eleitor qualquer cidadão maior de 21 anos, entretanto, para as mulheres o voto não era obrigatório. Acerca disso, Silva (2012, p.19 apud GERHARD, 2014 p. 66) destaca que: 7 O direito de voto, o direito político e por consequência de cidadania, no Brasil somente foi conferido às mulheres na década de trinta. Ainda hoje a participação da mulher no poder político e estadual é reduzida, embora exista a luta constante para modificar este quadro. O retardamento em nosso país de alcançar direitos políticos à mulher contribuiu para que a violência doméstica ficasse no plano privado, onde o Estado pouco ou nada fazia, acarretando com isso que as vítimas, se pudessem, fossem por si buscar uma ajuda estatal distante. Assim, embora a mulher tenha adquirido o direito ao voto neste período, ainda hoje, na política esta é relegada a segundo plano. Porém, é importante destacar que, conforme Fernandes (2015) dois anos mais tarde, após a promulgação do Código Eleitoral de 1932, a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 1934, representou um marco histórico pelo reconhecimento, pela primeira vez em texto constitucional, do direito ao voto das mulheres. Previa-se que eram considerados eleitores os maiores de 18 anos “de um e outro sexo” (artigo 108), embora o voto somente fosse obrigatório para as mulheres que exercessem função pública remunerada (artigo 109). Todavia, tais avanços não trouxe grandes reflexos à área penal, pois, embora, o Código Penal de 1830 tenha trazido em seu texto acerca dos crimes contra a segurança da honra e honestidade das famílias e do ultraje público ao pudor, mantinha-se a noção de proteção da honra da mulher. Fernandes (2015) destaca que com relação ao Código Criminal de 1890 não houve grande inovação em relação ao Código anterior, pois o foco da proteção da mulher continuava sendo a honra e a honestidade. Houve até um retrocesso, na medida em que foi criada uma alternativa legal para a absolvição do homicida passional. Havia isenção de culpabilidade àquele réu que se achasse em estado de completa privação de sentidos e de inteligência no ato do cometimento do crime (artigo 27, § 4º) e, em razão de sua “affecção mental”, era entregue à sua família ou recolhido em hospitais, se o estado mental assim o exigisse para a segurança do público (artigo 29). A referida autora, destaca que no Brasil, por mais de cinco séculos, desde as Ordenações Filipinas até o Código Penal de 1940, os únicos tipos penais destinados à proteção das vítimas mulheres era os crimes sexuais. Contudo, o foco da proteção desses crimes não era exatamente a mulher, mas a honra da mulher e da sua família, uma vez que, no Código do Império, de 1830, o estupro era um crime contra a “segurança da honra”; no Código de 1890 foi considerado um crime contra a “segurança da honra e honestidade das famílias”; e, em 1940, foi tratado como um crime contra “os costumes”, por isso, que o casamento com o autor do estupro com a vítima acarretava a extinção da punibilidade do agente, isso, até a promulgação da Lei 11.340/2006. A partir disso, pode-se perceber que embora com a evolução da sociedade e das mudanças dos dispositivos legais, ainda não existia nenhuma previsão legal que regulava a violência doméstica 8 contra a mulher como violência, nem tampouco reconhecia a mulher como sendo igual ao homem. Porém, com a promulgação da Constituição Federal de 1988 (CF/88) passou-se a reconhecer a mulher como sendo igual ao homem em direitos e obrigações (artigo 5º, I), rompendo-se então, o sistema patriarcal. Por isso, o artigo 35 do Código de Processo Penal de 1941 teve de ser revogado por estar em desconformidade com a nova Constituição, conforme a Lei nº 9.520 de 1997, uma vez que tal artigo previa que a mulher casada não poderia exercer o direito de queixa sem consentimento do marido, salvo quando estivesse dele separada ou quando a queixa fosse contra ela e, caso recusado o consentimento o juiz poderia supri-lo. A partir disso, percebe-se que gradativamente leis discriminatórias passaram a ser modificadas, pois, em 2004, com a lei n. 10.886 acrescentou-se os §§ 9º e 10º aos artigo 129 do Código Penal, o qual criava o tipo violência doméstica no § 9º e no §10º a previsão de uma causa especial de aumento de pena. E, em 2005 com a Lei nº 11.106, alterou-se os artigos 148, 215,216,226,227,231 do Código Penal, retirando da previsão legal expressões que remetiam à honra da mulher, além de revogar a causa extintiva da punibilidade referente ao casamento com a vítima nos casos de crimes sexuais, elevação da pena em razão do vínculo familiar ou afetivo com a agente e o crime de adultério foi afastado. Acerca disso, Fernandes (2015) argumenta que desde o início de nossa história, pela primeira vez a legislação rompeu o elo que se estabelecia entre a honra da mulher e a prática de crimes sexuais. A referência à “honestidade” da mulher como elementar importava em flagrante discriminação e naturalizava diferenças culturais entre homens e mulheres. A exclusão do casamento como causa extintiva da punibilidade importou em reconhecer a dor da vítima independentemente de sua função social. Contudo, é importante ressaltar que, mesmo com alguns avanços na legislação penal, estes foram pontuais, e dessa forma, não produziram os efeitos necessários para a responsabilização dos autores da violência quanto para a prevenção e assistência as vítimas. A partir disso, destaca-se que ainda não exista uma lei específica que tratasse a questão da violência doméstica contra a mulher. Somente a partir da Lei 11.340/2006 que passou-se então a ter uma lei específica à questão de violência doméstica e familiar contra a mulher. Assim, a partir desta lei, muitos avanços significativos surgiram, pois, até sua existência a violência doméstica não era considerada crime. De acordo com Dias (2015, p.5) tem-se que: A partir da vigência da nova lei, a violência domésticafoi definida sem guardar correspondência a quaisquer tipos penais. Primeiro é identificado o agir que configura violência doméstica ou familiar 9 contra a mulher (art. 5º): qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. Depois são definidos os espaços onde o agir configura violência doméstica (art. 5ª, incs. I, II e III): no âmbito da unidade doméstica, da família e em qualquer relação de afeto. Finalmente, de modo didático e bastante minucioso, são descritas as condutas que configuram a violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A Lei Maria da Penha trouxe também uma definição da mulher como sujeito de proteção no ambiente doméstico e familiar, acrescentou que a violência deve ser baseada no gênero. Além disso, trouxe diferentes tipos de violência caracterizados como violência contra à mulher e criou os juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher com competência na esfera civil e criminal e nos municípios em que não há os juizado criminais deve haver varas criminais com competência para processar e julgar crimes de violência doméstico-familiar. Outra inovação trazida pela Lei Maria da Penha é que tornou-se obrigatória a assistência jurídica à mulher em todas as fases processuais. (PIBIC, 2017). Além disso, a partir da Lei Maria da Penha tornou-se obrigatória a abertura do inquérito policial, a coleta de provas documentais e periciais, a realização do exame de corpo de delito (quando houver lesões na vítima), bem como a coleta de depoimento da ofendida, agressor e eventuais testemunhas. E, além disso, é dever da Polícia oferecer a vítima de violência doméstica um atendimento humanizado, encaminhar para o Instituto Médico Legal (IML), para a Casa abrigo, Centros de Referência especializado de Assistência Social ou para um atendimento de saúde, registrar a ocorrência, oferecer a ela as possibilidades de medida protetiva, requerer ao Judiciário o deferimento de medidas protetivas e de prisão preventiva, efetuar as prisões em flagrante e oferecer subsídios ao Ministério Público, quando necessário. (PIBIC, 2017) Outro ponto a ser destacado é a questão das medidas protetivas que surgiram juntamente com a Lei Maria da Penha. As medidas protetivas são medidas cautelares que tem como objetivo a proteção das mulheres em situação de violência, enquanto perdurar a situação de risco. Elas não se vinculam ao inquérito policial nem ao processo, por isso, podem ser requeridas de imediato visando a segurança da mulher, de seus familiares, testemunhas ou a preservação de seus bens patrimoniais. O pedido pode ser feito pela própria mulher na delegacia ao registrar o boletim de ocorrência, sendo encaminhado o pedido pela própria delegacia ao juiz, pode ser feito também pelo advogado da mulher, pelo Ministério Público ou ainda pode ser determinado pelo próprio juiz. A medida protetiva deve ser encaminhada e decidida de imediato, com prazo máximo de 48h, após o recebimento. Recentemente a Lei 11.340/2018 alterou a Lei 11.340/2006 no que tange ao 10 descumprimento das medidas protetivas de urgência, o qual passou a ser tipificado como crime. (CADERNO EaD-ILB). Outra inovação trazida pela Lei Maria da Penha é com relação a retratação da representação em audiência, pois, a partir da dela a ofendida somente poderá desistir do processo em audiência específica para esse fim, podendo ou não ser acatado seu pedido de arquivamento do processo, entretanto, esta regra aplica-se apenas a alguns tipos de violência, como no caso de crime de ameaça. (PIBIC, 2017). Além disso, deve-se destacar também que os casos de lesão corporal de natureza leve passaram a não depender mais de representação, ou seja, a lesão corporal de natureza leva passou a ser submetida a ação penal incondicionada. E, conforme mencionado anteriormente a Lei Maria da Penha afastou a Lei 9.099/95 dos casos de violência doméstica e, assim, houve a proibição de pagamento de cestas básicas, multas ou quaisquer outras penas pecuniárias, como forma de punição ao agressor. E, por fim, a Lei Maria da Penha reforçou a importância do trabalho em rede, o qual será abordado num tópico seguinte. (PIBIC, 2017). 3 DA VIOLÊNCIA À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: AS FORMAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Ao se buscar uma conceituação de violência, deve-se entender primeiramente que esta está sujeita à transformações sociais, culturais, históricas e jurídicas, ou seja, o conceito de violência foi construído ao longo dos tempos, modificando-se e transformando-se conforme a evolução da sociedade. Por violência pode-se entender como um significado de agressividade, hostilidade, coação, constrangimento, cerceamento, ameaça, imposição, intimidação. Assim, baseia-se intimamente em negar a existência do outro, negar suas convicções, seus direitos, bem como em subjugá-lo. Manifesta-se através da opressão, da tirania e inclusive, pelo abuso da força, ou seja, ocorre sempre quando é exercido o constrangimento sobre uma pessoa a fim de que a obrigue a fazer ou deixar de fazer um ato qualquer. (GERHARD, 2014). O conceito de violência contra a mulher também é resultado de uma construção histórica do movimento feminista, pois, de acordo com os estudos de Grossi (1993), ao final da década de 1970, um movimento de mulheres se indignava contra a justificativa da legítima defesa da honra utilizada nos julgamentos de homens que matavam as mulheres, cujo resultado era a absolvição ou aplicação de pena mínima. As primeiras manifestações do movimento de mulheres se deram sob o slogan “Quem ama não mata”, no ano de 1979, por ocasião do julgamento de Doca Street, que matou sua 11 companheira Ângela Diniz. Assim, nesse primeiro momento, a violência contra a mulher significava homicídios de mulheres cometidos por seus maridos, companheiros ou amantes. A indignação levou à mobilização do próprio movimento para criação dos serviços de atendimento, a exemplo do SOS Mulher, pois se acreditava “que o assassinato era o último ato de uma escalada de violência conjugal que começava com o espancamento” (GROSSI, 1994, p. 474 apud CADERNO EaD-ILB). A partir disso, à compreensão de violência contra a mulher passou a ser apenas a violência conjugal e/ou doméstica, pois era grande o número de mulheres nessas relações que buscavam esses serviços para relatar casos de lesões corporais, ameaça, estupro, maus-tratos, sedução, abandono, sequestro em cárcere privado e tentativa de homicídio. Na década de 1990, outras formas de violências contra a mulher surgiram, tais como o assédio sexual, a violência em razão de práticas discriminatórias no acesso ao trabalho, o abuso sexual infantil no espaço doméstico e familiar, a violência contra as mulheres negras e contra as mulheres indígenas (GROSSI, 1994 apud CADERNO EaD-ILB). Com base nessas considerações, pode-se verificar que o conceito de violência contra a mulher foi modificando-se conforme a evolução da sociedade, e, hoje pode-se entender por violência contra a mulher como qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na privada, conforme definição da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, também conhecida como Convenção de Belém do Pará. E este conceito é o que foi adotado pela Lei 11.340/2006, tendo a questão do gênero como o critério diferenciador. Com relação as formas de violência, deve-se entender primeiramente que, embora nas leis penais vigore o princípio da taxatividade, este não foi adotado como critério na elaboração da Lei 11.340/2006, logo, a referida lei traz apenas uma referência às formas de violência contra a mulher, as quais estão disciplinadas nos artigos 4° e 7°3e seus respectivosincisos, não contendo, assim, um rol de crimes de violência doméstica. As formas de violência reconhecidas por esta lei são: a violência física, a psicológica, a sexual, a patrimonial e a moral, que podem ser cometidas juntas ou isoladamente, mas, conforme ressalvado anteriormente, a Lei Maria da Penha reconhece também outras formas de violência. 3 Art. 7º São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: 12 Considera- se violência física qualquer conduta que ofenda a integridade e saúde corporal da mulher4, logo, pode-se compreender que mesmo que não haja marcas corporais devido a agressão, é considerado violência física, pois, devido ao uso de força física ofendeu a saúde ou o corpo da mulher. Caracteriza-se por ser uma espécie de contato físico, o qual provoque dor, podendo ou não resultar em lesão ou causar marcas no corpo. Têm-se como exemplos desta violência: beliscões, mordidas, puxões de cabelo, tapas, cortes, chutes, queimaduras, socos, entre outros. (OLIVEIRA, 2015) A violência psicológica foi incorporada através da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Doméstica. Está tipificada no inciso II, do artigo 7º5 e, é uma forma de dominação oculta, muitas vezes não identificada pela própria vítima. Acerca disso, Maria Berenice Dias (2015, p.73) destaca que: “A violência psicológica consiste na agressão emocional, que é tão ou mais grave que a violência física. O comportamento típico se dá quando o agente ameaça, rejeita, humilha ou discrimina a vítima. Demonstra prazer quando a vê sentir-se amedrontada, inferiorizada e diminuída.”. Assim, percebe-se que trata-se de qualquer ação que provoque dano emocional e diminuição da autoestima intencionalmente, como por exemplo: controlar decisões e comportamentos da vítima, por meio de ameaça, manipulação, chantagem, humilhação, ridicularizarão, insulto, exploração ou através de qualquer outro meio que cause prejuízo à autodeterminação ou à saúde psicológica, podendo ser através de atos como os de proibição de usar determinadas roupas, proibição de trabalhar fora de casa, proibição de sair de casa e, até mesmo, ser forçada a retirar a queixa e outras situações semelhantes. (OLIVEIRA, 2015). Por deixar marcas na alma, considera-se suas consequências mais gravosas e está relacionada as demais modalidades de violência doméstica. Dias (2010, p. 66 apud FERNANDES, 2015, p.82) destaca que: “A violência psicológica é muito comum, mas talvez seja a menos denunciada. A vítima, muitas vezes, nem se dá conta de que as agressões verbais, silêncios prolongados, tensões, manipulações de atos e desejos são violência e devem ser denunciadas” A violência sexual está disciplinada no inciso III do artigo 7º6 e é aquela conduta que force a vítima a manter, presenciar ou participar de uma relação sexual não desejada; que impeça a vítima de 4 I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; 5 II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularizarão, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; 6 III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a 13 utilizar métodos contraceptivos ou que a force à gravidez, à prostituição, ao casamento, ao aborto, seja mediante chantagem, ameaças, manipulação ou até mesmo suborno; ou também, que possa limitar ou anular o exercício de seus direitos reprodutivos ou sexuais. (OLIVEIRA, 2015) A violência patrimonial é aquela entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades, conforme inciso IV, artigo 7º. E, por fim a violência moral, é aquela entendida como conduta que configure calúnia, difamação ou injúria, conforme o inciso V, do artigo 7º. E acerca dessa violência DIAS (2015 p. 77) destaca que: A violência moral encontra proteção penal nos delitos contra honra: calúnia, difamação e injúria. São denominados delitos que protegem a honra mas, cometidos em decorrência de vínculo de natureza familiar ou afetiva, configuram violência moral. Na calúnia, fato atribuído pelo ofensor à vítima é definido como crime; na injúria não há atribuição de fato determinado. A calúnia e a difamação atingem a honra objetiva; a injúria atinge a honra subjetiva. A calúnia e a difamação consumam-se quando terceiros tomam conhecimento da imputação; a injúria consuma-se quando o próprio ofendido toma conhecimento da imputação. A partir disso, pode-se se perceber que as formas e a gravidade contra a mulher podem variar, podendo chegar a níveis extremos, como a morte, por isso, em 2015, através da Lei 13.104/2015, alterou o Código Penal e passou a prever o feminicídio (assassinato de mulheres) como circunstância qualificadora do crime de homicídio, incluindo-o no rol dos crimes hediondos e, assim, o feminicídio foi tipificado e passou a ser considerado como homicídio qualificado contra as mulheres: O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante. (CPMIVCM, 2013) Com relação ao ciclo da violência deve-se entender que este é um fenômeno cíclico e progressivo e cruel, possui muitas fases, fazendo com que a mulher não compreenda o seu propósito. utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; 14 Acerca disso, Bigliardi e Antunes (2018), destacam que, o ciclo da violência ocorre frequentemente em três fases e vai se intensificando com o tempo, quando a vítima permanece na relação. Progride de constrangimentos e humilhações até chegar à agressão física da vítima, podendo culminar com seu assassinato. Dias (2019) destaca que primeiro vem o silêncio, seguido da indiferença. Depois surge as reclamações, reprimendas, reprovações. Em seguida começam os castigos e punições. A violência psicológica transforma-se em violência física. Os gritos transforma-se em empurrões, tapas, socos, pontapés, num crescer sem fim. As agressões não se cingem à pessoa da vítima. O varão destrói seus objetos de estimação, a humilha diante dos filhos. Sabe que estes são seus pontos fracos e os usa como “massa de manobra”, ameaçando maltratá-los. A partir disso, conforme Bigliardi e Antunes (2018), pode-se dizer que na primeira fase, há uma acumulação de tensão, iniciando-se o processode mudanças comportamentais, com pequenas demonstrações de agressividade, mas que aparentemente podem ser controladas. Na segunda fase ocorre a perda do controle situacional, dessa forma, há uma descarga descontrolada da tensão acumulada, fazendo com que as pequenas demonstrações de agressividade tornem-se em uma violenta violência, manifestada através de frases abusivas, insultos ou golpes físicos. É nessa fase em que o agressor passa a culpar a vítima pelo ocorrido. Por fim, tem-se a terceira fase, que é caracterizada pelos sinais de arrependimento demostrado pelo agressor, o qual passa a prometer a vítima que não irá mais agir de tal maneira, ocorrendo então a reconciliação e o reestabelecimento da relação. Assim, os referidos autores destacam que a violência acontece sempre que o agressor sente que está perdendo o controle sobre seu parceiro. Ela ocorre de forma cíclica, com explosões periódicas de violência e de maior gravidade a cada ocorrência. 4 DA REDE DE ATENDIMENTO ÀS VITIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E A REDE DE ATENDIMENTO DO MUNICÍPIO DE CRUZ ALTA Com a promulgação e a entrada em vigor da Lei Maria da Penha novos avanços surgiram, como a ruptura do tradicional processo penal, uma vez que a partir desta lei, criou-se um novo processo, dotado de efetividade social, voltado a proteger a mulher e a prevenir a violência. Além disso a referida lei trouxe a importância do trabalho em rede, o qual foi reforçada no texto da mesma, quando previu a articulação entre Estado e sociedade civil, bem como a integração operacional entre o Poder Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública com as áreas da segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho, habitação, dentre outras. 15 Entende-se por rede a atuação articulada entre as instituições/ serviços governamentais, não- governamentais e a comunidade, visando ao desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e de políticas que garantam o empoderamento e construção da autonomia das mulheres, os seus direitos humanos, a responsabilização dos agressores e a assistência qualificada às mulheres em situação de violência. (Secretaria de Políticas para as Mulheres / Presidência da República (SPM/PR), Brasília, 2011). A rede de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica divide-se em rede de atendimento e rede de enfrentamento às mulheres vítimas de violência doméstica. A primeira diz respeito a um conjunto de ações e serviços nas áreas da assistência social, justiça, segurança pública e saúde e é composta por serviços especializados, tais como, delegacias especializadas de atendimento à mulher (DEAMs), centros de referências de atendimento à mulher (CRAMs), casas abrigo, casas de acolhimento provisório (casas-de-passagem), central de atendimento à mulher – ligue 180, ouvidoria da mulher, juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, órgãos da defensoria pública e serviços de saúde especializados para o atendimento dos casos de violência contra a mulher. (Secretaria de Políticas para as Mulheres / Presidência da República (SPM/PR), Brasília, 2011). A segunda refere-se à atuação articulada entre as instituições/serviços governamentais, não governamentais e a comunidade, com o objetivo de desenvolver estratégias e políticas efetivas de prevenção, que garantam o empoderamento e construção da autonomia das mulheres, os seus direitos humanos, a responsabilização dos agressores e a assistência qualificada às mulheres em situação de violência. (Secretaria de Políticas para as Mulheres / Presidência da República (SPM/PR), Brasília, 2011). Assim, a rede de enfrentamento às mulheres vítimas de violência doméstica comtempla, portanto, os quatro eixos previstos na Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres: combate, prevenção, assistência e garantia de direitos, bem como dar conta da complexidade do fenômeno da violência contra as mulheres, sendo composta por: agentes governamentais e não governamentais, formuladores, fiscalizadores e executores de políticas voltadas para as mulheres (organismos de políticas para as mulheres, ONGs feministas, movimentos de mulheres, conselhos dos direitos das mulheres, outros conselhos de controle social; núcleos de enfrentamento ao tráfico de mulheres etc.); serviços/programas voltados para a responsabilização dos agressores; universidades; órgãos federais, estaduais e municipais responsáveis pela garantia de direitos (habitação, educação, trabalho, seguridade social, cultura) e serviços especializados e não especializados de atendimento às mulheres em situação de violência (que compõem a rede de 16 atendimento). (Secretaria de Políticas para as Mulheres / Presidência da República (SPM/PR), Brasília, 2011). Através da realização da pesquisa PIBIC foi possível identificar que no município de Cruz Alta a rede é composta por uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), por um Centro de Referência Especializado, o Centro de Referência Maria Mulher, por juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, pela defensoria pública, que possui uma defensora específica para os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher e por uma promotoria especializada, entretanto, para este estudo, foram analisados os atendimentos da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), do Centro de Referência Especializado Maria Mulher, juizado especial de violência doméstica e familiar contra a mulher (3ª Vara Crime), e a Defensoria Pública. A partir da sistematização dos dados, obtidos através da pesquisa PIBIC, verificou-se que aparentemente a rede de atendimento às mulheres vítimas de violência funciona bem, entretanto, pode-se observar que há algumas dificuldades no funcionamento da rede. No Centro de Referência Maria Mulher, embora conte com um corpo técnico especializado (assistente social, educadora social, psicóloga e advogada), há a questão do Centro funcionar também como uma coordenadoria de políticas setoriais e direitos humanos, o que não é o ideal, pois, a tanto a coordenadora quanto o corpo técnico atuam em ambos os órgãos. Além disso, o município não conta com uma casa abrigo, o que não é o ideal, pois, quando há a necessidade da mulher e seus dependentes deixarem sua residência, estes são encaminhados a casas de parentes, levados pelo servidores do Centro de Referência ou à hotéis, o qual é custeado pelo município. Mas, embora no artigo 357, inciso II, da Lei 11.340/2006, haja uma menção acerca das casas- abrigo, esta não é uma obrigação, apenas uma previsão de criação. Com relação a Defensoria Pública, pode-se observar que o serviço funciona de acordo com o previsto em lei entretanto a maior dificuldade apresentada pela defensora é com relação a dificuldade das vítimas em se expressarem, devido ao seu abalo emocional decorrente da violência sofrida e do receio em relação as consequências em suas vidas. Na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), observou-se que a maior dificuldade apontada pelos agentes da DEAM, é com relação a falta de mulheres policias atuando no plantão para realização do primeiro atendimento à vítima, bem como a falta de uma viatura de grande porte para ir ao interior, para efetuar o carregamento dos pertences pessoais das mulheres no caso de 7 Art. 35. A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios poderão criar e promover, no limite das respectivas competências: II - casas-abrigos para mulheres e respectivos dependentes menores em situação de violência doméstica e familiar; 17 afastamento do lar. Outra dificuldade apontada é com relação ao horário de funcionamento da DEAM, pois, este é de segunda a sexta, tendo como horário de expediente das 08h30min às 12h e das 13h30min às 18h e, não há atendimento 24h. O atendimentoé 24h aos casos considerados graves pela Autoridade Policial, fora isso, fora do horário de expediente, é o plantão da Polícia Civil que realiza o primeiro atendimento, senso encaminhada, posteriormente à DEAM. Entretanto, é importante destacar que muitas vezes não há uma sala separada para fazer a escuta da vítima. Acerca disso, Dias (2019) destaca que as Delegacias – todas elas, especializadas ou não – precisam dispor de um recinto especialmente projetado e com equipamentos próprios e adequados à idade da mulher e ao tipo e à gravidade da violência doméstica. Além disso, os agentes destacaram a falta de promoção de cursos de especialização/capacitação com relação a atuação dos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, o que está em desacordo com a Lei 11.340/2006, pois, conforme o artigo 88, inciso VII, consta como diretriz a capacitação permanente dos servidores. Com relação à 3ª Vara Crime constatou-se que a maior dificuldade apontada pela juíza é de que a vítima dê prosseguimento ao processo, pois, muitas desistem do processo perante o juiz, uma vez que muitas vezes há uma demora na realização das audiências, como também no julgamento do agressor e, isso faz com que em muitos casos a vítima volte a se relacionar com o agressor, pois, após decorrido um tempo, o sentimento que fez com que esta denunciasse o agressor é amenizado e este é perdoado pela vítima. Através deste estudo, pode-se verificar também que cada órgão atende com maior frequência um tipo de violência, tal como, no Centro de Referência Mulher e na Defensoria Pública o tipo de violência mais atendido é violência física e psicológica, na DEAM é o crime de ameaça. A partir dessas considerações, passa-se abordar a questão primordial deste estudo, ou seja, analisar a efetividade da rede de atendimento no município de Cruz Alta pela perspectiva das usuárias da rede. Para a realização desse estudo, foram entrevistadas cinco mulheres que frequentam o Centro de Referência Maria Mulher. A partir disso, pode verificar que as violências mais recorrentes são violência psicológica, verbal e física e que os agressores em sua maioria são os maridos e companheiros e que ambas tomaram conhecimento aceca da Lei Maria da Penha de diversas formas, para uma foi através da Delegacia, outras através do Centro de Referência Maria Mulher e televisão. Além disso, constatou-se que faixa etária das entrevistadas foi de 24 à 55 anos de idade. Com relação 8 Art. 8º A política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais, tendo por diretrizes: VII - a capacitação permanente das Polícias Civil e Militar, da Guarda Municipal, do Corpo de Bombeiros e dos profissionais pertencentes aos órgãos e às áreas enunciados no inciso I quanto às questões de gênero e de raça ou etnia; 18 à atividade profissional, tem-se que das cinco entrevistadas uma era dona de casa, duas eram diaristas, uma era professora e uma era técnica em segurança do trabalho. Com relação ao estado civil das vítimas, duas eram casadas, duas mantinham uma união estável e uma era solteira. Também pode-se verificar que das cinco entrevistadas, quatro procuraram o atendimento por vontade própria, pois estavam cansadas da vida que estavam tendo e almejavam paz. Acerca disso C. A. relatou que “Procurei ajuda em busca de paz. Porque não era uma vida, era uma tortura. Estava casada a vinte e cinco anos e sempre foi assim. Se não tivesse tomado essa medida estaria até hoje sofrendo.”. L. P. L. S. relata que “Porque enxergo a necessidade de levar uma vida com qualidade.”. Entretanto, apenas uma relatou que a procura pelo atendimento deu-se por força de terceiros. Acerca do primeiro atendimento, tem-se que três procuraram primeiramente a Delegacia, enquanto duas procuraram o Centro de Referência Maria Mulher e, apenas uma quis registar ocorrência. Com relação ao atendimento na delegacia verificou-se que apenas para uma das entrevistadas a ocorrência foi registrada na DEAM, para as outras o registro da ocorrência deu-se no plantão e foi realizada por policial do sexo masculino. Assim, nesse primeiro momento, pode-se perceber que o atendimento na Delegacia não ocorreu como preferencialmente deveria ocorrer, uma vez que as mulheres deveriam ser atendidas por mulheres e em sala distinta da sala de ocorrência normal. Sobre isso J. B destaca que “O atendimento na Delegacia é igual a todos os demais atendimentos e muitas vezes constrangedor, pois o serventuário (policial) que atende questiona como que duvidando do ocorrido.”. Logo, pode-se perceber que há uma desconformidade com o que está disciplinado na Lei 11.340/2006. Entretanto, apesar desse questionamento, as demais entrevistadas relataram que o atendimento na Delegacia foi rápido e que no mesmo instante as encaminharam ao Centro de Referência Maria Mulher, porém, uma delas não quis registrar a ocorrência por não sentir segurança, devido ao medo que sente do agressor, mas que a autoridade policial lhe ofereceu a ajuda necessária. Acerca do que está disciplinado no artigo9 11 da Lei Maria da Penha verificou-se que das quatro entrevistadas, sendo que foram essas que fizeram ocorrência, todas receberam uma, se não todas as informações previstas nesse artigo. Acerca disso, C. A relata que “A partir do momento em 9 Art. 11. No atendimento à mulher em situação de violência doméstica e familiar, a autoridade policial deverá, entre outras providências: I - garantir proteção policial, quando necessário, comunicando de imediato ao Ministério Público e ao Poder Judiciário; II - encaminhar a ofendida ao hospital ou posto de saúde e ao Instituto Médico Legal; III - fornecer transporte para a ofendida e seus dependentes para abrigo ou local seguro, quando houver risco de vida; IV - se necessário, acompanhar a ofendida para assegurar a retirada de seus pertences do local da ocorrência ou do domicílio familiar; V - informar à ofendida os direitos a ela conferidos nesta Lei e os serviços disponíveis. 19 que registrei a ocorrência a Delegacia me deu grande amparo, me acompanharam em todo o momento, fiz corpo de delito e ofereceram viatura para ir de volta para casa e acompanhar se o agressor havia deixado a residência.”. Acerca disso, Dias (2019) destaca que quando a mulher comparecer à delegacia, sob a alegação de ter sido vítima de violência doméstica, a autoridade policial tem o dever de adotar, de imediato, as providências cabíveis para assegurar-lhe proteção na hipóteses de prática real ou eminente de violência (LMP, art.10). Indispensável proceder à avaliação dos riscos reais à integridade física e à vida da vítima, tendo como principal alicerce a palavra da própria ofendida, até ser apresentada prova em sentido contrário. Com relação ao estabelecimento de medidas protetivas, das cinco entrevistadas, somente duas precisaram fazer uso das mesmas, sendo que esta se referia à não aproximação do agressor a sua pessoa e residência. E, quanto ao ter que deixar a residência, das cinco entrevistadas, quatro relataram que precisaram deixar suas casas e que foram para casas de familiares, amigos e hotel. Com relação à assistência jurídica, somente uma relatou que inicialmente recorreu ao atendimento de advogado particular, mas que acabou recorrendo a Defensoria Pública e que lá foi muito bem atendida. Quanto as demais, algumas não recorreram a atendimento jurídico e outras recorreram à advogada que trabalha junto ao Centro de Referência Maria Mulher. Com relação ao atendimento no Centro de Referência Maria Mulher as entrevistadas relataram que foram muito bem acolhidas e atendidas, que encontraram oapoio necessário a qual buscavam e que lá foram atendidas pela psicóloga, pela advogada e assistentes sociais. Também relataram que sentem-se seguras ao buscar ajuda no Maria Mulher e que as técnicas lhes esclarecem suas dúvidas e lhes dão suporte e amparo. C. A. relata que “É um ótimo atendimento, elas me entendem, me acolhem. Me dão assistência e me ligam para me acompanhar.”. L. P. L. S. relata que “Considero um ótimo atendimento, nos passam muita segurança.”. O atendimento no Maria Mulher ocorre de forma regular, através de agendamento semanais, para acompanhamento jurídico e principalmente psicológico, além das técnicas estarem em contato com as vítimas através de telefonemas, com o intuito de acompanha- las quanto não conseguem comparecer ao atendimento. E por fim, a pesquisa também buscou saber se as entrevistadas faziam uso de algum outro serviço oferecido pela rede, como Centro de Atenção Psicossocial e Centro de Referência de Assistência Social, das cinco entrevistadas, apenas L. P. L. S buscou atendimento no CAPS com médico psiquiatra e, ela relata “Estou satisfeita com o atendimento médico do CAPS, porque 20 recebemos atenção necessária para suprir as necessidades que preciso. Como exemplo a medicação que faz parte do nosso dia-a-dia. Assim, a partir da análise dos dados obtidos através desta pesquisa, bem como os dados obtidos através da pesquisa realizada pelo projeto PIBIC, pode-se perceber num primeiro momento a rede de atendimento apresente dificuldades, mas, pela visão das usuárias da rede esta tem se mostrado satisfatória, uma vez que estas encontraram a ajuda, a segurança e o refúgio que precisavam para quebrar o ciclo violento o qual viviam e, assim, começar a reconstruir uma nova vida. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Através da realização deste estudo, pode-se verificar que durante longos períodos da história da humanidade, a mulher era vista como inferior ao homem, sendo discriminada, objetivada e relegada à segundo plano. Seu papel na sociedade era apenas de mãe, dona de casa e esposa. Por muitos séculos viveram enclausuradas em regras e preconceitos. Verificou-se também que por muito tempo permeou na sociedade e nas relações sociais a cultura do patriarcado a qual legitimava o homem como chefe de família sendo a este delegado o poder disciplinar sobre os filhos e sobre a mulher. Além disso, verificou-se que por um longo período a legislação brasileira foi extremamente precária com relação as mulheres e que estas por muito tempo não possuíam direitos, apenas deveres e que somente a partir de árduas lutas e movimento é que essas passaram a adquirir direitos, pois muito dos avanços na legislação brasileira foram resultado de protestos de mulheres e de feministas. Entretanto, conforme destacou-se anteriormente, até a promulgação da Lei 11.340/2006, não existia nenhuma que lei que fosse capaz de punir verdadeiramente o agressor, pois os instrumentos legais, anteriores a referida lei, mesmo que ao longo dos tempos fossem se aprimorando e se modificando, não produziram os efeitos esperados tanto na responsabilização dos autores quanto na prevenção e assistência às mulheres em situação de violência. Também, foi possível verificar que através do advento da Lei 11.340/2006, muitos avanços surgiram, como o reconhecimento e a definição da violência doméstica em suas distintas manifestações, além de prever a criação de um sistema integrado de proteção e atendimento às vítimas, buscando a aplicação de eficaz sanção penal contra o agressor, criando e estabelecendo mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Além disso, pode-se constatar que o conceito de violência contra a mulher é resultado de uma evolução/ construção histórica e que a violência contra a mulher por muito tempo não era entendida como violência. 21 Acerca do tema principal desta pesquisa, pode-se verificar que embora haja percalços, dificuldades e falhas no funcionamento da rede de atendimento, pode-se dizer que pelo olhar das usuárias da rede, esta tem-se mostrado satisfatória e eficaz, mesmo que o atendimento voltado as mulheres vítimas de violência não ocorra exatamente como previsto em lei, pois, na visão delas, é possível encontrar apoio e amparo para quebrar o ciclo vicioso da violência, encontrar paz e segurança e sobrepujar as marcas deixadas pela violência. Assim, pode-se observar que a partir da Lei 11. 340/2006 é que começou-se a efetivar-se a proteção à mulher vítima de violência doméstica e familiar, fazendo com que surgisse ações de prevenção, de combate e de punibilidade. Mas, conforme destacado, embora pelo olhar das usuárias da rede o atendimento tenha-se mostrado satisfatório, este está longe do ideal e, o que se sabe é que o caminho para o esgotamento da violência doméstica e familiar é longo, mas a única certeza que se tem é que a Lei Maria da Penha veio para ficar. Cabe ainda ressaltar, que a violência doméstica contra mulher é um tema complexo, que era intenção ter uma amostra maior como parte da pesquisa de campo e que os dados levantados apresentam potencial para uma análise mais aprofundada. Assim, pretende- se num outro momento, através de uma pesquisa de pós-graduação retomar o estudo para uma complementação e possivelmente, ampliação. REFERÊNCIAS ACRE. Governo do Estado do Acre. Conhecendo a Lei 11.340/06 – Lei Maria da Penha – Acre. Secretaria de Estado de Segurança Pública, Acre. 2008. BIGLIARDI, Adriena Maria; ANTUNES, Maria Cristina. Violência Contra Mulheres: a vulnerabilidade feminina e o perfil dos agressores. Curitiba: Juruá, 2018. BRASIL. Código Eleitoral. Decreto n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Disponível em: . Acesso em: 10 abr 2019. _______. Código Penal. Decreto-lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Disponível em: Acesso em: 10 abr 2019. _______. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Vade Mecum. 25ed. São Paulo: Saraiva, 2018. _______. Lei n. 9.520, de 27 de novembro de 1997. Disponível em: Acesso em: 10 abr 2019. 22 _______. Lei n. 10. 886 de 17 de junho de 2004. Disponível em: Acesso em: 10 abr 2019. _______. Lei n. 11.106, de 28 de março de 2005. Disponível em: Acesso em: 10 abr 2019. _______. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Disponível em: Acesso em: 01 mar 2018. _______. Ministério dos Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres. Rede de enfrentamento à violência contra as mulheres. Brasília: Presidência da República, 2011. Disponível em: Acesso em: 10 jul 2017. _______. Senado Federal. Comissão parlamentar mista de inquérito: relatório final: violência contra a mulher. Diário do Senado Ano 68, Supl. ao nº 112, 2013. Disponível em: Acesso em: 10 abr 2019. CADERNO EaD, Instituto Legislativo Brasileiro – ILD. Apostila Dialogando com a Lei Maria da Penha. Senado Federal. Disponível em: Acesso em 20 jun 2018. DIAS, Maria Berenice. Lei Maria da Penha. 4ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. _______. A Lei Maria da Penha na Justiça. 5ed. Salvador: Juspodivm, 2019. FERNANDES, Valéria Diez Scarance. Lei Maria da Penha: o processo penal no caminho da efetividade. São Paulo:Atlas, 2015. GERHARD, Nadia. Patrulha Maria da Penha: o impacto da ação da Polícia Militar no enfrentamento da violência doméstica. Porto Alegre: Age EDIOUCRS, 2014. GROSSI, Miriam Pillar. De Angela Diniz a Daniela Perez: a Trajetória da Impunidade. Revista Estudos Feministas. Ano 1. Primeiro Semestre de 1993. p.p. 166-168 Disponível emhttps://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16003/14503 Acesso em 20 abr 2019. NASCIMENTO, Ariel Dalcim do et al. Lei Maria da Penha: um estudo sobre as medidas protetivas e de assistência às mulheres. Revista Interdisciplinar de Ensino, Pesquisa e Extensão, Cruz Alta, Volume 5, Número 1, Páginas 166-175, 2017. OLIVEIRA, Andressa Porto de. A Eficácia da Lei Maria da Penha no Combate à Violência Doméstica Contra a Mulher. 2015. 71. Trabalho de Conclusão de Curso, modalidade monografia, apresentado ao Curso de Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul, UNISC, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito. Prof. Ms. Vinícius D‟Andrea Medeiros - http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/496481 23 Orientador. Santa Cruz do Sul. 4 nov. Acesso em: 10 mar 2019. Disponível em: <https://repositorio.unisc.br/jspui/bitstream/11624/851/1/Andressa%20Porto%20de%20Oliveira.pdf > PIBIC, Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica. Lei Maria da Penha: um estudo sobre as medidas protetivas e de assistência às mulheres. Cruz Alta, 2017. PORTO, Pedro Rui da Fontoura. Violência doméstica e familiar. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. PORTUGAL. Ordenações Filipinas. Ordenações e Leis do Reino de Portugal. Organizado por Candido Mendes de Almeida. 14ª. ed. Rio de Janeiro: Typ. Do Instituto Philomathico, 1870. Disponível em <http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/242733>. Acesso em: 20 abr 2019 UNICRUZ. Manual de Normalização de Trabalhos Acadêmicos da Universidade de Cruz Alta - UNICRUZ/ Universidade de Cruz Alta. 5.ed.rev.e atual. – Cruz Alta: UNICRUZ, 2018. 118 p. Disponível: <https://home.unicruz.edu.br/wp- content/uploads/2018/05/Manual%20de%20normaliza%C3%A7%C3%A3o.pdf> Acesso em: 01 mar 2019.