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Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui Políticas Públicas e Currículo da Educação Infantil O Currículo na Educação Infantil Responsável pelo Conteúdo: Prof. Me. Marcos Evandro Galini Revisão Textual: Prof. Me. Luciano Vieira Francisco Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • A Proposta Pedagógica da Educação Infantil; • Ambientes de Aprendizagem; • O Papel do Professor e os Diferentes Estilos de Aprendizagem; • A Relação Professor-Criança; • A Interação Criança-Criança; • O Conhecimento na Sala de Aula com Crianças Pequenas; • Organizações das Atividades com Crianças; • Projetos Didáticos na Educação Infantil; • A Prática Pedagógica em uma Perspectiva Interdisciplinar; • A Avaliação na Educação Infantil. Fonte: Getty Im ages Objetivos • Avaliar a organização e implementação de propostas pedagógicas da Educação Infantil; • Identificar o papel dos ambientes e espaços de aprendizagem na Educação Infantil; • Analisar o papel do professor e a sua relação com a criança pequena; • Discutir a produção do conhecimento e a organização de atividades em sala de aula com crianças pequenas; • Analisar as particularidades das propostas de avaliação da aprendizagem na Educação Infantil. Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o úl- timo momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como sugestões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpretação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. O Currículo na Educação Infantil UNIDADE O Currículo na Educação Infantil Contextualização Para uma aproximação desta temática, analise a seguinte situação problema: A professora Rosa sempre lecionou nas séries iniciais do Ensino Fundamental na rede municipal, no entanto, foi realocada para uma Escola Municipal de Educação Infantil (Emei), assumindo uma turma com crianças de 4 anos de idade. No entanto, vem se deparando com a diferença e o desafio de ensinar para crianças pequenas, comparando com as suas turmas do Fundamental I. Vem também estranhando a organização do currículo, das propostas pedagógicas, dos espaços de aprendizagem, da relação com as crianças na construção do conheci- mento. Na avaliação de aprendizagem, assim como se deparou com fichas e instru- mentos totalmente diferentes do que estava acostumada no “Fund. I”, que privilegiava a aprendizagem com testes e avaliações bimestrais. A professora Rosa começou a se questionar: Qual é a diferença entre o currículo e a proposta didática da Educação Infantil em compara- ção à sua vivência no Ensino Fundamental? Qual é o papel do professor nas instituições que trabalham com crianças pequenas? Como avaliar o trabalho desenvolvido com crianças da Educação Infantil? 6 7 A Proposta Pedagógica da Educação Infantil Com a integração de creches e pré-escolas nos sistemas de ensino, conforme previs- to na Lei de Diretrizes e Bases da educação brasileira (LDB) e a garantia de vaga para crianças de 4 e 5 anos de idade, temos para o debate a necessidade da construção da identidade da Educação Infantil, com uma práxis pedagógica que atenda às necessida- des de aprendizagem de crianças pequenas e muito pequenas – de 0 a 5 anos – dentro da instituição escolar, possibilitando que pesquisas e estudos envolvendo o desenvolvi- mento cognitivo, afetivo, social, biológico e físico dos pequenos possam ser aplicados dentro do espaço escolar, garantindo que a criança seja portadora de direitos próprios e seja respeitado o seu ritmo e as necessidades de aprendizagem. No entanto, o desafio se coloca dentro da cultura escolar, constituída pelas equipes de professores, gestores e pessoal administrativo, cada qual com as suas crenças e ex- pectativas, que trazem a sua visão de criança, educação, escola e sociedade, na qual a criança pequena da creche ou pré-escola estará inserida. É o caso da professora Rosa, tal como vimos na Contextualização desta Unidade: trouxe a sua experiência em lecionar em turmas do Ensino Fundamental e vem “estranhando” a estrutura e proposta pedagógica da Educação Infantil. Imagine você, lecionando a vida toda com crianças maiores, deparar-se com o desafio de trabalhar com crianças pequenas da Educação Infantil? Você carregaria a sua “cultura escolar”? Como agiria? O currículo é algo vivo, pois envolve “pessoas”, com as suas crenças e “culturas”, um projeto coletivo que se estabelece no levantamento de metas, objetivos, recursos, defini- ções de ações, atividades, e, principalmente, na interação com as crianças. As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI) (BRASIL, 2010) definem currículo na Educação Infantil como: [...] conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os sabe- res das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a pro- mover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade. Para promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade, o currículo da Educação Infantil (EI), com base nos objetivos de aprendizagem da Base Na- cional Comum Curricular (BNCC) e dos currículos locais, deve ser estruturado na escola da creche e da pré-escola a partir de um planejamento que possibilite ouvir as pessoas, suas visões, concepções e crenças sobre a organização dos espaços de aprendizagem, o papel do professor, desenvolvimento das crianças, a construção do conhecimento com crianças pequenas e os processos de avaliação. Envolve também ouvir as famílias e a comunidade, garantindo uma participação democrática na construção de um projeto político-pedagógico para a escola. O Projeto Político-Pedagógico (PPP) de uma escola deve buscar uma estrutura curri- cular aberta e flexível. Segundo a professora Zilma de Oliveira (2011, p. 184), o currículo 7 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil deve ser entendido como “[...] trajetória de exploração partilhada de objetivos de conhe- cimento de determinada cultura por meio de atividades diversificadas constantemente avaliadas”. Ou seja, o currículo na escola deve ter um direcionamento para cumprir os objetivos de aprendizagem previstos para cada idade escolar e prever o seu monitora- mento, em um processo de retroavaliação e melhoria contínua dos processos voltados à garantia dos direitos de aprendizagem das crianças pequenas. Maria Montessori (1870-1952), pioneira da Educação Infantil, foi a primeira mulher a se formar médica em seu país, a Itália, inovando também ao valorizar o papel do aluno no processo de aprendizagem. Assista em: https://youtu.be/LnLt24ypGDc Para a implementação do currículo na escola, deve-se pensar a proposta pedagógica que busque os processos educativos individualizados e que respeitem o ritmo de cada aluno, as características e estilos de aprendizagem – tal como veremos a seguir. Nesse sentido, na Educação Infantil não há espaço para processos educativos homogêneos presentes no Ensino Fundamental e Médio, que restringem a criatividade da criança, com tarefas iguais para todos e no mesmo ritmo. As atividades educativas devem respei- tar a criança, entendê-la em sua complexidade e potencial. Voltamos ao caso da professora Rosa que, neste ponto, compreende que os proces- sos educativosna Educação Infantil são rigorosos cientificamente na sua prática, mas não são “engessados” pelo currículo “conteudista” e as práticas da abordagem tradicio- nal presentes em outros níveis de ensino. DCNEI (BRASIL, 2010) definem como objetivos de uma proposta pedagógica das ins- tituições de Educação Infantil garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes lingua- gens, assim como o direito à proteção, saúde, liberdade, confiança, ao respeito, à dignidade, brincadeira, convivência e interação com outras crianças. Assim, a proposta pedagógica da EI deve possibilitar às crianças pequenas e muito pequenas um espaço de participação e construção coletiva de aprendizagem. Neste sentido, vale destacar o papel dos ambientes de aprendizagem. Ambientes de Aprendizagem Os ambientes de aprendizagem de creches e pré-escolas se deparam, muitas vezes, com as limitações de espaço e recursos; no entanto, mesmo com tais restrições, é fun- damental construir um espaço acolhedor, que possibilite interações, aprendizagem dos conteúdos, atividades, objetos e recursos disponíveis. Conheça a experiência das escolas de Educação Infantil do Reggio Emilia, da Província de Régio da Emília, Itália, reconhecida como a melhor do mundo atual. O modelo pedagógico valoriza as experiências e os espaços de aprendizagem. Analise a organização dos ambien- tes educacionais das escolas da região. Assista em: https://youtu.be/vEnTD8wOZz4 8 9 O ambiente físico da EI deve ser organizado dentro da concepção pedagógica da escola. Mas, será que o arranjo físico corresponde à proposta pedagógica dessas escolas? Muitos espaços privilegiam o professor em detrimento do movimento dos alunos, organizando-se a partir da circulação do adulto, sem respeitar o espaço das crianças. Em resumo, o ambien- te físico escolar define diversas práticas e inibe outras. O ambiente físico deve ser acolhedor para a criança pequena e muito pequena, tra- zendo organização e autonomia da criança para as suas buscas e estudos. O mesmo para os espaços da sala de aula, o mobiliário, a disposição das carteiras, dos trabalhos, espaços de leitura e do brincar, tudo isso faz parte da concepção pedagógica da escola. Veja exemplos inspiradores de arquiteturas de escolas de Educação Infantil. Disponível em: http://bit.ly/2N5TreX Uma proposta de espaço planejado pelo educador [...] pode ser considerado como um campo de experiências e explora- ções, zona de múltiplos recursos, e possibilidades para a criança re- conhecer objetos, experiências, significados de palavras e expressões, além de ampliar o mundo de sensações e percepções. (OLIVEIRA, 2011, p. 197) Ou seja, para a criança, a exploração do espaço físico também faz parte da aprendi- zagem e construção de conhecimento sobre o eu, o outro e o mundo. A organização de “cantinhos” nas salas possibilita a autonomia da criança no desen- volvimento do brincar, de interagir com os demais colegas, na construção das relações e práticas sociais – socialização –, no desenvolvimento físico e psicológico que a brinca- deira proporciona. Nesses espaços, o professor deve observar as dinâmicas construídas e intervir, quando ponderar necessário, para aumentar o estímulo e possibilitar a intera- ção e aprendizagem. Para os menores, pode-se pensar em espaços com almofadas, caixas, tuneis, móveis, toldos, sugerindo cenários tais como circos, castelos etc. Para os maiores, espaços com livros, brinquedos, representações da vida real – hospital, supermercado, oficina mecâ- nica etc. –, que possibilitem o aumento da experiência das crianças. O layout das salas pode facilitar a orientação da criança sobre as rotinas diárias, a partir de cartazes com os dias da semana, os nomes dos alunos, aniversariantes, ajudan- tes do dia, alfabeto, números, desenhos etc. Armários em espaços acessíveis, permitindo à criança guardar e retirar materiais com autonomia. É fundamental que todas as áreas de interação das crianças na escola sejam pensa- das pelos professores, tais como os parques, espaços de artes, pesquisa, brincadeiras, leitura, jardim, horta, refeitório etc., garantindo um pensar e uma intencionalidade pe- dagógica para as ações físicas e espaciais das crianças. 9 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil Vale também construir junto com as crianças esses espaços e as suas regras de uso e participação, garantindo que a criança se aproprie e se sinta responsável pelos ambien- tes. A aprendizagem colaborativa, neste caso, possibilita o desenvolvimento de diferen- tes competências sociais que favorecem a interação e socialização. Em uma escola de EI, uma professora resolveu fazer uma oficina de brinquedos de sucatas com as crianças de 5 anos de idade. Após a oficina, a turma deliberou que a caixa com os brinquedos ficaria no horário de intervalo de todas as crianças e, semanalmente, uma du- pla de alunos seria responsável por acompanhar e guardar a caixa de brinquedos ao final do intervalo. Em algumas situações a dupla visitava as outras salas para falar dos combinados de uso da caixa no intervalo, garantindo o bom uso dos brinquedos. Quantas aprendiza- gens esses alunos não estão construindo? Pensar nesses espaços possibilita que o professor documente o trabalho desenvolvido com as crianças, desde os membros responsáveis pela organização da sala, expor os trabalhos para a visualização coletiva e respeito à produção dos alunos e, o mais impor- tante, observar a maneira como as crianças interagem no ambiente. A regra é a criança ser acolhida e estimulada em ambientes aconchegantes, com materiais e ter uma estética cuidada e propícia para a curiosidade, socialização e aprendizagem. Retomando o caso da professora Rosa, diferentemente da sua antiga escola, na pré- -escola em que está alocada atualmente se pensa o espaço junto e para as crianças. Ou seja, o projeto pedagógico também deve ser refletido nos espaços físicos e layouts das salas e da escola. O Papel do Professor e os Diferentes Estilos de Aprendizagem O professor da EI, além de uma formação sólida e atualizada sobre esse nível de en- sino, necessita também de uma formação pedagógica que possibilite práticas docentes que respeitem o tempo de aprendizagem de cada aluno. Mesmo na EI, as crianças car- regam uma bagagem cultural, necessidades e anseios de aprendizagem que devem ser considerados (MACHADO, 2002). Pedagogia: é a “Ciência da Educação”, abrange o estudo da aprendizagem de crianças, jovens e adultos. Como Ciência, incorpora as principais contribuições de outras áreas do conhecimento, tais como a Filosofia, Sociologia, Psicologia, Neurociência, entre outras. Didática: é um ramo da Pedagogia, vem do grego e tem o seu significado de “arte de ensinar”, que pode ser entendida como técnicas de ensinar ou técnicas que orientam a ati- vidade educativa de modo a torná-la mais eficiente. Metodologia de ensino: é a aplicação de diferentes métodos no processo de ensino- -aprendizagem, ou seja, são os “caminhos” que o professor realiza para que o aluno apren- da determinado conteúdo e alcance os objetivos educacionais propostos. 10 11 A formação pedagógica do professor ainda é um desafio para que possa obter os me- lhores resultados em sala de aula com crianças pequenas. Pois, fundamenta a sua prática docente conforme as suas vivências educacionais, as principais correntes ou abordagens pedagógicas e pode possibilitar um planejamento da aula com estratégias e métodos di- versificados que impactem educacionalmente as crianças com as suas diferentes formas de aprender. Para uma aprendizagem eficaz, o professor deve considerar os diferentes estilos, os quais representam como cada pessoa processa, absorve e retém informações. Segundo Mattar (2010, p. 2), “[...] as pessoas aprendem de diferentes maneiras e que o planeja- mento do ensino baseado nos estilos de aprendizagem dos alunos pode elevar a quali- dade do aprendizado”. Uma criança pode trazer umou mais estilos de aprendizagem no contexto da sala de aula, ou mesmo tem a necessidade de desenvolver mais de um estilo e o professor deve estar atento a esta questão na observação da criança e sua turma. Vários teóricos abordam os diferentes estilos de aprendizagem, sendo um dos princi- pais o método VAC – Visual, Auditivo e Cinestésico –, desenvolvido por Fernald, Keller e Orton-Gilingham (MATTAR, 2010) e considera que a maioria dos estudantes possui um estilo preponderante para aprender os conteúdos das diferentes disciplinas, sendo que cada aluno pode ter um equilíbrio em um ou mais estilos de aprendizagem. Tabela 1 – Estilos de aprendizagem segundo o método VAC Visuais Auditivos Cinestésicos · Preferem ver, como assistir a um vídeo, comumente, animado, uma imagem, um organograma, mapa mental etc. A partir das imagens, conseguem fazer relações entre as ideias e os conceitos. · Preferem ouvir, como assistir a uma aula teórica e organizam as suas ideias a partir da linguagem falada. · Preferem manipular as coisas, usar o corpo, por exemplo, quando assistem a uma palestra escolhem desenhar graficamente ou escrever as principais ideias, manipular os objetos, fazer etc. Pense nas crianças que você tem ou teve em sua sala de aula da Educação Infantil ou outro nível de ensino, qual dos estilos de aprendizagem você imagina que predomina em sua sala? Você pensa nessa diversidade de estilos de aprendizagem no planejamento das aulas? Por exemplo, pensa em atividades para os visuais, auditivos e cenestésicos? É fundamental pensar em atividades para as crianças que considerem os diferentes estilos de aprendizagem, incluindo vídeos, imagens, a construção de objetos “mão na massa”, entre outras estratégias para contemplar a diversidade das turmas de crianças. Considerando que existem alguns testes que possibilitam identificar o estilo de aprendiza- gem de cada um, realize algum destes testes para verificar se realmente o resultado cor- responde ao seu estilo de aprendizagem: http://bit.ly/2PE6ZQS ou http://bit.ly/34mm6Cw 11 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil O professor deve sempre refletir sobre a sua prática docente; neste sentido, sugere-se rodar o ciclo PDCA – planejar, executar, analisar e ajustar –, conforme a seguinte Figura: Planejar Executar Ajustar Analisar Figura 1 – Ciclo PDCA Esta ferramenta possibilita uma reflexão crítica dos resultados obtidos no planejamento e na aplicação dos processos de ensino-aprendizagem em sala de aula, além de refletir sobre os resultados obtidos. Quando o professor reflete sobre a sua prática, consegue identificar os pontos fortes e os que ainda necessitam de melhoria. Com esse diagnóstico em “mãos” é possível buscar novas soluções, reaplicar práticas exitosas e aprender sempre. A Relação Professor-Criança O professor é o principal parceiro da criança na escola. É com quem o aluno interagi- rá, responderá aos seus questionamentos, dúvidas, confusões, quem o instigará a refletir sobre as suas ações e a sua relação com os objetos do mundo. Desde bebês, os alunos têm no professor/educador a referência ao seu desenvolvimento dentro do ambiente escolar. Pensando o professor como o principal parceiro da criança na escola e a mesma criança tendo a família – pai, mãe ou responsável – como “alicerce” na formação para a vida, como que o professor e a família poderiam trabalhar juntos para o desenvolvimento da criança? O professor faz a mediação entre a criança e o meio, utilizando dos diferentes recur- sos disponíveis, desde o espaço físico, as atividades e tarefas propostas e, fundamental- mente, a sua maneira de se relacionar – pois esta última passa a mensagem de quem nós somos e a criança se espelha. 12 13 Considerando ainda o professor como um adulto que é parceiro e também exemplo/es- pelho para a criança, será que as frases que o professor emite para cada criança podem influenciar na sua formação para a vida? Por exemplo: “homem não chora”; “quem mandou ser bobo”; “se você não comer, não falo mais com você” etc.; o que passa para a criança este tipo de comunicação? Quais são os valores transmitidos? A criança é um ser ativo, não passivo no processo de aprendizagem; neste senti- do, o professor, com o papel de facilitador ou mediador, é quem dá pistas, instiga a curiosidade, apoia na reflexão de como aprende, relaciona-se e trabalha. Portanto, o professor deve conhecer muito bem a criança para entender as suas necessidades e os seus anseios de aprendizagem. Por isso, necessita ter sensibilidade para acompanhar os caminhos intelectuais que a criança percorre. É igualmente importante a sondagem de modo profundo e não apressado dos interesses das crianças, com a escuta e reflexão necessárias, ajudando o pequeno a superar a visão restrita sobre determinado tema e/ ou comportamento. Para identificar o perfil dos alunos, procure adaptar as dicas do seguinte artigo para a rea- lidade da escola e turma de Educação Infantil: http://bit.ly/36pQX2Q Deve-se respeitar a individualidade da criança, seus ritmos e, fundamentalmente, as diferenças. Inclusive, as diferenças devem ser valorizadas, apresentando os ganhos de aprendizagem de formas e pensamentos distintos e muitas vezes divergentes, tal como propõe um currículo pós-crítico, que privilegia a multiculturalidade. Currículo multiculturalista privilegia a tolerância, o respeito e a convivência harmoniosa entre as diferentes culturas, ou seja, nenhuma cultura pode ser julgada superior a outra. Considerando o que determinam as DCNEI, as propostas pedagógicas das institui- ções de Educação Infantil deverão prever condições para o trabalho coletivo e para a organização de materiais, espaços e tempos que assegurem: • O reconhecimento, a valorização, o respeito e a interação das crianças com as histórias e culturas africanas, afro-brasileiras, bem como o combate ao racismo e à discriminação; • A dignidade da criança como pessoa humana e a proteção contra qualquer for- ma de violência – física ou simbólica – e negligência no interior da instituição ou praticadas pela família, prevendo os encaminhamentos de violações para instâncias competentes. Como colocar, então, estas determinações em prática na sala de aula com as crianças pequenas? O professor ajuda a criança a compreender o processo de separação que está pre- sente nos seus sentimentos quando está longe do seio familiar, em especial da mãe, 13 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil pois as creches e pré-escolas trabalham com crianças com forte apego a suas famílias, com relacionamentos emocionais fortes. Dessa forma, o professor evita uma sensação de abandono, levando a diminuir a participação da criança em sala e nas atividades propostas. Lembre-se, a criança é um ser integral, em que a condição emocional cami- nha junto à biológica e cognitiva. A Interação Criança-Criança Os processos coletivos de aprendizagem devem ser estimulados, onde as crianças aprendem a negociar os seus conflitos, relacionando-se com o outro, com trabalhos em duplas, trios, em grupos pequenos, de exploração, em grandes grupos, dentro e fora da sala de aula, explorando todos os espaços possíveis de aprendizagem. A interação criança-criança possibilita que controle os seus impulsos, internalize re- gras, adapte o seu comportamento, sensibilize-se e respeite o outro, cooperando e se comunicando satisfatoriamente. Segundo a professora Zilma Oliveira (2011, p. 214), “[...] a forma como o professor desempenha seu papel de autoridade é particularmente importante, visto que a criança com frequência o imita na interação com companheiros”. Ainda, o professor deve: Fornecer ambiente organizado e tranquilo, compreender a movimen- tação das crianças, estabelecer limites e apresentar regras com clare- za, justificar proibições, ajudar as crianças a fazer acordos e lembrá-las desses acordos, quando necessário. (OLIVEIRA, 2011, p. 215) O professor deve possibilitar espaços de interação criança-criança,construindo um ambiente acolhedor, de escuta, que possibilite o respeito ao “outro”, à diferença de classe social, gênero, cor de pele, deficiência, entre outras características, conforme determina um currículo multicultural que respeita e valoriza as diferenças do “outro”. Para Dahlberg, Moss e Pence (2003) a criança deve ser entendida como um sujeito histórico, coconstrutora de conhecimento e identidade, em sua interação com os adultos e com as demais crianças. Tanto a relação professor-criança como criança-criança seguem a abordagem vi- gotskiana de que a aprendizagem é construída socialmente; ou seja, é na interação com o outro que se tem novas experiências e se constrói conhecimento. A sua teoria apresenta a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), aquilo que o sujeito já sabe – conhecimento real – e o seu potencial para aprender – conhecimento potencial. Conhecimento real é aquilo que o sujeito já sabe fazer e aplica sozinho, enquanto no conhecimento potencial o sujeito necessita do outro para aprender e aplicar (RESENDE, 2005), conforme apresenta a Figura a seguir: 14 15 Zona de desenvolvimento proximal Zona de desenvolvimento real Zona de desenvolvimento potencial Resolve-se o problema de forma individual Resolve-se o problema de forma coletiva, com o outro Distância entre Figura 2 – ZDP de Vygotsky A professora Júlia entendeu que diferentemente da sua prática no Ensino Funda- mental, na Educação Infantil as trocas de experiências, vivências e conhecimentos entre crianças são partes importantes no desenvolvimento do currículo nesta etapa de ensino. O Conhecimento na Sala de Aula com Crianças Pequenas A escolha dos conteúdos a serem tratados em sala na Educação Infantil historicamen- te sempre foi desafiadora, pois, no início, quando as creches tinham um caráter total- mente assistencial, o que se deveria ensinar era a disciplina, ordem, o se alimentar, fazer a higiene etc., ou seja, cuidados com o corpo e o respeito à ordem – para introduzi-las ao mundo “adulto”. Quando creches e pré-escolas ganharam um novo posicionamento com a LDB, com a vinculação à Educação Básica e o direito de aprender de crianças pequenas, a con- cepção que deveria ser seguida era do modelo das crianças maiores, do Ensino Funda- mental, da necessidade de aprender as primeiras letras, dos rudimentos matemáticos, conhecimentos de literatura, do espaço e tempo, da exploração e pesquisa, buscando um ordenamento linear do trabalho com o conteúdo, possibilitando que as crianças, em especial as mais pobres, acessassem outro nível de ensino com maior “bagagem” cultu- ral e o repertório das crianças para seguir os seus estudos. No modelo de seguir a escola das crianças maiores abriu-se o debate sobre a antecipação do processo de alfabetização. Disponível em: http://bit.ly/326kCur Leia e reflita ‘qual é o seu posicionamento em relação ao processo de antecipação da alfa- betização nesse nível de ensino?’ 15 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil Atualmente há amadurecimento e entendimento de que o processo de aprendizagem e a escolha de temas e conteúdos a serem tratados na Educação Infantil devem partir do que a criança já sabe e ampliar o seu escopo através da curiosidade e do refletir sobre as suas ações, respeitando os níveis de desenvolvimento psicológico, social e físico da mesma. A criança deve ser entendida como rica em potencialidades e competências, ativa e ansiosa para se engajar no mundo (DAHLBERG; MOSS; PENCE, 2003). Nesse sentido, o professor tem destaque em entender as necessidades de aprendi- zagem da criança e contextualizar com os seus anseios e as suas necessidades. Como exemplo, a criança embarcou em um ônibus pela primeira vez e trouxe para a sala de aula essa experiência, logo, cabe ao professor problematizar, verificando com as ou- tras crianças se tiveram a mesma vivência e, se sim, como foi; deve também ampliar o conhecimento com perguntas do tipo: quem já andou de carro, de trem, metrô, avião, barco? Como foi? Quais são as diferenças? A aprendizagem a partir da experiência da criança está alinhada com a abordagem de David Ausubel, com a sua teoria que reconhece o conhecimento prévio como a chave para uma aprendizagem significativa. Aprender de forma significativa está re- lacionado à ativação das ideias já existentes na mente e à capacidade de relacionar com os novos conteúdos. Nesse sentido, o professor deve favorecer a aprendizagem quando leva em consideração o que o aluno já sabe ou já construiu de conhecimento sobre determinado assunto que se quer ensinar e que mostre a relevância ou relação com a realidade – contextualização – para a aprendizagem de determinado tema ou conteúdo e este se torne significativo. Os conhecimentos prévios são as informações ou os saberes que temos guardados em nos- sas mentes e que podemos acionar quando precisarmos. Resgatar esse conhecimento nos processos educativos torna a aprendizagem significativa. Disponível em: http://bit.ly/326w0GP Não basta selecionar determinado “tema ou conteúdo”, mas estes “temas”, “conteú- dos” e “comportamentos” devem ser construídos a partir e na interação com as crian- ças, escutando-as, vivenciando experiências, estimulando a curiosidade, crítica, refletin- do sobre as práticas e atividades desenvolvidas e construindo aprendizagens. Este é um dos motivos da BNCC – trabalhar com campos de experiência. Nesse sentido, tal construção de ambientes de aprendizagens também se aproxima da abordagem humanista (LAKOMY, 2014), de John Dewey, cujo enfoque teórico vê o aprendiz em sua totalidade – e não apenas como intelecto. Para o humanismo a pessoa é o principal elemento do processo educativo, assim como a sua autorrealização e o crescimento individual são os aspectos mais importantes desse processo. Para os huma- nistas, a aprendizagem é penetrante e influi nas escolhas do aprendiz. Conheça a história de John Dewey, quem colocou a prática em foco, no artigo disponível em: http://bit.ly/334UvWg 16 17 O professor deve considerar que o conhecimento não é linear, pelo contrário, sen- do construído através de redes, em que cada estímulo e experiência desperta redes de conhecimento com outras vivências na escola ou fora desta, fazendo com que a apren- dizagem aconteça. Pois, de um tema sem muita relação podem aparecer outros que traduzem os sentimentos e as necessidades da criança. Cabe ao professor estar atento a essas necessidades de aprendizagem e respeitar toda e qualquer relação que a criança possa fazer com determinado tema ou conteúdo. Cada momento possibilita que a crian- ça construa novos conhecimentos ou modifique outros formulados anteriormente. Na construção do conhecimento deve se considerar a abordagem cognitivista (LAKOMY, 2014), em que o processo de atribuição de significados está atrelado à realidade em que o indivíduo se encontra, ou seja, o processo cognitivo de compreensão, transformação, armazenamento e uso da informação está envolvido nas situações de aprendizagem. O cognitivismo surgiu no início da segunda metade do século XX e os psicólogos cog- nitivistas estudaram a organização do conhecimento, o processamento mental das infor- mações, os comportamentos de grupo e individuais, acreditando que poderiam compre- ender os seres humanos ao estudá-los como sistemas que processam informações. Com contribuições dos estudos da Psicologia, Medicina, Linguística e de outras áreas, alguns teóricos empreenderam pesquisas cujos resultados trouxeram grandes avanços para a área da Educação, em especial das crianças. Entre as várias abordagens e ramificações do cognitivismo, é importante ressaltar as contribuições da teoria construtivista, deriva- da das teorias de epistemologia genética, de Jean Piaget. Em Piaget, a aprendizagem acontece na interação com o objeto, na troca com o meio, dando-se pelo processo interno de assimilação e acomodação. Quando o indiví- duo é provocado por determinada situação, pode ocorrer a modificação, construçãode novos esquemas de assimilação que, posteriormente, acomodam-se, aprendendo algo novo. O papel do professor é criar situações que possibilitem o indivíduo assimilar e acomodar (RESENDE, 2005), conforme a seguinte Figura: Assimilação: modi�cação das estruturas internas a partir de situações externas Acomodação: organização de estruturas internas Equilibração e adaptação do novo conhecimento Figura 3 – Processo de acomodação e assimilação do novo conhecimento Destaca-se na construção do conhecimento o papel da “criança” no processo de aprendizagem. A “criança” tem uma história construída ao longo da vida e diferentes formas de aprendizagem. Assim, o professor deve mapear os conhecimentos prévios e as formas de aprender de seus alunos e apresentar estratégias didáticas que contemplem o conhecimento já construído e a diversidade de formas de aprender. Os momentos de aula devem contemplar uma diversidade de estratégias didáticas, que possibilitem a aprendizagem pelo estímulo, pelos desafios de situações-problemas – motivação externa –, pelos trabalhos em grupo – aprender com o outro. 17 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil Organizações das Atividades com Crianças Segundo as DCNEI (BRASIL, 2010), as práticas pedagógicas da Educação Infantil devem ter como eixos as interações e a brincadeira. Diz ainda que o currículo e as ativi- dades com as crianças devem garantir as seguintes experiências: Experiências de narrativas, de apreciação e interação com a linguagem oral e escrita Conhecimento de diferentes linguagens e formas de expressão Conhecimento de si e do mundo Autonomia das crianças nas ações de cuidado pessoal, auto-organização, saúde e bem-estar Participação nas atividades individuais e coletivas Conhecimento de relações quantitativas, de medidas, de formas e de orientações espaço-temporais Interação com diversi�cadas manifestações de música, artes plásticas e grá�cas, cinema, fotogra�a, dança, teatro, poesia e literatura Estímulo à curiosidade, exploração, ao encantamento, questionamento e à indagação Potencializar padrões de referência e de identidades no diálogo e conhecimento da diversidade Utilização de gravadores, projetores, computadores, máquinas fotográ�cas e outros recursos tecnológicos e midiáticos Conhecimento das manifestações e tradições culturais brasileiras Conhecimento da biodiversidade e da sustentabilidade da vida na Terra Figura 4 – Experiências de aprendizagem segundo as DCNEI A partir do que determinam as DCNEI e a BNCC nas experiências de aprendizagem, cada creche e pré-escola deve elaborar a sua proposta curricular, de acordo com as suas características, identidades, escolhas e abordagens pedagógicas, garantindo que as crianças pequenas tenham as experiências de aprendizagem – aqui destacaremos o trabalho com a linguagem e o brincar. Linguagens Um dos desafios da Educação Infantil é trabalhar as múltiplas linguagens – ou múl- tiplos letramentos –, considerando que social e historicamente se privilegiou o uso da linguagem oral, em detrimento de outras linguagens. No entanto, o professor da Educação Infantil deve estimular a aprendizagem das múltiplas linguagens, considerando que é esta a perspectiva que se coloca na sociedade atual: proporcionar a aprendizagem através da linguagem corporal e linguagens plásti- cas, por exemplo, aprender a representar com o corpo, com o desenho ou modelagem de escultura. Para Roxane Rojo (2013), nos letramentos múltiplos: 18 19 O texto verbal escrito funciona sempre articulado a outras modalida- des de linguagens não verbais (caligrafia, diagramação, gráficos, ilus- trações, fotos, imagens, sons etc., como acontece nas páginas de um jornal, de um livro com gráficos ou ilustrações, nas legendas de um filme etc.), que agregam significados ao que está escrito. Ou seja, a multimodalidade sempre foi o estado natural da escrita. Você conhece a abordagem dos multiletramentos? Veja a entrevista com a professora Ro- xane Rojo, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disponível em: http://bit.ly/2qbT7Tb Neste sentido, a linguagem escrita também ganha nova perspectiva, longe da obriga- ção de aprender a ler e escrever, pois a linguagem escrita está no dia a dia das crianças como suporte de ações e trocas sociais e simbólicas, ou seja, vive em um mundo letra- do. Assim, as crianças podem avançar no processo de letramento, apropriando-se das formas de notação da língua e nossa cultura: sinais de trânsito, escrita, organização do espaço e tempo, matemática, representação gráfica dos telefones celulares – emojis –, computadores etc. Ainda, pode-se avançar com o letramento digital ou tecnológico, que inclui a televi- são, o computador, o telefone celular, tablets etc. Não se pode somente assumir a postu- ra de que a criança é um “nativo digital” que já sabe manusear esses equipamentos, mas que também precisa aprender e, em especial, por conta da inocência digital que pode ocorrer nesses processos em que envolve as relações digitais, tais como o cyberbullying, a exploração e sensualização infantil, as práticas de consumo, de “influenciadores digi- tais” etc. A BNCC para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, aprovada em 2018, coloca tam- bém o uso das tecnologias digitais no centro da discussão da escola. Quando o documento trata das competências gerais da BNCC para a construção de conhecimentos, o desenvolvi- mento de habilidades e a formação de atitudes e valores dos alunos, destaca a preocupação com o digital, tecnológico e as diferentes linguagens. Nesse sentido, conheça a iniciativa do Comitê Geral da Internet do Brasil, o Portal Internet Segura, que reúne iniciativas de conscientização sobre segurança e uso responsável da internet no Brasil, auxiliando crianças e pais a localizarem as informações de interesse e incentivando o uso seguro da internet. Acesse: http://bit.ly/2oGXEMY Neste sentido, as variadas formas de se trabalhar a escrita, por exemplo, de rótulos de listas, desenhos, bilhetes, com letras de palavras móveis etc., permitem às crianças o estabelecimento de hipóteses sobre a função social da escrita. Ou seja, trabalhar as linguagens verbais, musicais, dramáticas, plásticas e emergir no mundo da cultura escri- ta – no entanto, sem a preocupação premente da concretização da alfabetização nessa etapa de ensino, mas estimulando naturalmente o processo de letramento. 19 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil O Jogo e o Brincar Jogar e brincar são considerados enquanto ações ou atividades realizadas pela crian- ça e que podem ser vistos como semelhantes – o que não o são. Brincar: é uma ação do sujeito que se expressa de modo espontâneo, uma atividade livre que proporciona para a criança condições saudáveis para o seu desenvolvimento biopsicossocial e não possui um objetivo próprio, mas tem um fim em si. Por sua vez, o jogo é uma ação estruturada com regras diversas; é criar uma situação para brincar, na qual o sujeito desloca-se para uma outra dimensão diferente da realidade. Já o brinquedo é o material utilizado na brincadeira, ou suporte da brincadeira. É o objeto cultural com representações e significados próprios de um gru- po, um espaço e tempo determinado e será transformado pela criança que o utiliza. A diferença é quando analisamos o brincar e jogar no modo como são estruturados. Um jogo normalmente tem regras a serem seguidas, enquanto que a brincadeira até pode ter alguma regra, mas flexível. Na brincadeira simbólica, por exemplo, o enredo vai sendo construído de modo espontâneo, gradativo, assim como as regras que a com- põem, ou seja, não está pronta. O jogo como um recurso para a aprendizagem e desenvolvimento da criança na Educação Infantil coloca o professor na figura central da interação e interlocução, como parceiro da criança na construção de novos conhecimentos, sejam cognitivos ou sociais. O jogo com as suas regras possibilita o desenvolvimentode comportamentos e conteú- dos inerentes ao desenvolvimento da criança. Já a brincadeira, mais livre, possibilita à criança estabelecer processos psicológicos, tais como a memória e a capacidade de se expressar, de se colocar no lugar do outro ou simbolicamente representar o outro, apresentando toda a emoção e afetividade. É na brincadeira que a criança se expressa e utiliza todos os recursos sociais, psicológicos e físicos para se expressar e construir relações e, fundamentalmente, aprender. Nesse sentido, o professor deve organizar áreas para o desenvolvimento de atividades diversificadas e que possibilitem à criança estruturar certos jogos de papéis em ativida- des específicas – temos como exemplo a organização de espaços de casinha com uten- sílios de casa, supermercado, espaço de vendas ou lojas, hospital, cozinha etc. Assim: A intervenção do professor deve basear-se em uma análise das situ- ações de jogo produzidas pelas crianças em relação ao seu conteúdo (temas, personagens, clima emocional etc.) como a seus aspectos ex- ternos ou formais (normas uso dos materiais, organização do espaço, modos de desempenhar os papéis como protagonista ou não, e ou- tros). (OLIVEIRA, 2011, p. 238) Quando percebe que uma criança já domina determinada situação, O professor a desafia e mostra outras situações de aprendizagem; ou seja, cria situação para brincar que possibilite outras representações sociais, ou experiências, comportamentos para um aprofundamento da aprendizagem. O Programa Território do Brincar é um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, regis- tro e difusão da cultura infantil. Veja sobre em: http://bit.ly/2C8OBY1 20 21 Projetos Didáticos na Educação Infantil O desenvolvimento de atividades por meio de projetos didáticos que se organizam segundo temas de interesses sobre as quais as crianças avançam no processo de apren- dizagem, leitura do mundo e na construção de redes de significações, possibilita que os pequenos construam a sua aprendizagem por meio de indagações, criações, pela cons- trução de relações, entendendo o seu ambiente. As creches e pré-escolas podem organizar o seu currículo por meio de projetos di- dáticos que busquem trabalhar a linguagem, rudimentos de matemáticas, conhecimento espacial, interação, imaginação e as emoções. Os projetos, em geral, são organizados em uma sequência de aulas, ou seja, em determinado tempo maior que uma única aula. Podem ser diretivos ou não diretivos, onde o aluno pode ou não escolher o que quer aprender – tema – e estabelece as etapas, planejando os processos de aprendizagem; por exemplo, a sala pode escolher um tema – como o funcionamento do formigueiro – e o professor, junto com as crianças, estabelecer as etapas de pesquisa, de estudo de cam- po – ver o formigueiro –, de representação em diferentes linguagens – filme, escultura, desenho etc. –, do rudimento de matemática – quantos formigueiros –, espacial – onde estão localizados –, rodas de conversa com a sistematização das aprendizagens etc. Em linhas gerais, o projeto didático é o planejamento de uma sequência de atividades relativas a um eixo temático dentro de um espaço de tempo, possibilitando na criança a capacidade de aprender, explorar o seu entorno, de se questionar, estabelecer hipóteses, de comprovar as suas hipóteses de forma individual ou em grupo. Conheça dicas para o desenvolvimento de um bom projeto didático em: http://bit.ly/2C3IsfP A Prática Pedagógica em uma Perspectiva Interdisciplinar Podemos considerar que interdisciplinar é “[...] um adjetivo que qualifica o que é comum a duas ou mais disciplinas ou outros ramos do conhecimento. É o processo de ligação entre as disciplinas”, segundo o site Significados. Fonte: http://bit.ly/2NdsfLA É a possibilidade de olharmos sobre um objeto de forma interdisciplinar, de modo integrado e global. Por exemplo, quando trabalhamos em um projeto didático sobre os rios da nossa cidade, os conhecimentos geográficos, históricos, sociais e culturais esta- rão presentes. É fundamental olhar de forma interdisciplinar para a realização de projetos na Edu- cação Infantil, tornando-se algo que se coloca como “natural” no desenvolvimento de 21 UNIDADE O Currículo na Educação Infantil projetos didáticos para com crianças, pois nessa etapa de ensino o professor é poliva- lente e tem a responsabilidade de desenvolver as competências e habilidades previstas no currículo para àquela idade. Como opção, projetos em conjunto com mais de um professor e, quando possível, profissionais externos à escola – pais ou responsáveis, agentes de saúde, policiais, bom- beiros, pessoas da comunidade com experiência em determinado tema – podem favore- cer o tipo de ação interdisciplinar e, principalmente, integradora do currículo: imagine que as crianças terão um concurso de brinquedos com sucata, quem deverá liderar esta ação, se não o conjunto de professores da escola? Uma professora de EI resolveu desenvolver um projeto didático interdisciplinar de horta comunitária, em que foram feitas pesquisas com as crianças, trabalhado o conhecimento de Linguagens, Matemática, Organização Espacial, Biologia, entre outras áreas para a or- ganização da horta; contudo, o mais importante foi o envolvimento da comunidade, em que mães, pais e pessoas do local, com conhecimento de cultivo de plantas, ajudaram as crianças no desenvolvimento da horta comunitária da escola. Trouxeram o conhecimento que já possuíam e tornaram o processo de aprendizagem “vivo” e dinâmico. E você, como desenvolveria um projeto de horta comunitária? A Avaliação na Educação Infantil Outro desafio na Educação Infantil é a avaliação. Em geral, as creches e pré-escolas apresentam somente os critérios de avaliação, sem uma preocupação com o processo avaliativo e a diversidade dos instrumentos de avaliação. Quando se trata de avaliação, deve-se pensar em instrumentos que possibilitam uma avaliação diagnóstica, formativa e somativa, de forma contínua, integradora e contextu- alizada, com objetivos de aprendizagem claros e diversidade de estratégias e recursos, conforme previsto na BNCC (BRASIL, 2017): Construir e aplicar procedimentos de avaliação formativa de processo ou de resultado que levem em conta os contextos e as condições de aprendizagem, tomando tais registros como referência para melhorar o desempenho da escola, dos professores e dos alunos. A avaliação diagnóstica determina o nível de conhecimento do aluno e identifica lacu- nas. Serve, principalmente, para o professor que, com base nessas informações, propõe atividades para trabalhar as lacunas e conseguir prosseguir no processo de aprendizagem. A avaliação formativa verifica se o aluno está ou não atingindo os objetivos de apren- dizagem para determinados temas ou conteúdos e/ou competências previstas. Está pre- sente ao longo do curso e também possibilita uma correção de rota para o professor com o objetivo de adaptar atividades, aprofundar conteúdos para alcançar uma apren- dizagem eficaz. 22 23 A avaliação somativa, por fazer um balanço da aprendizagem do aluno, trabalha todos os conteúdos previstos com base nas competências e nos objetivos de aprendiza- gem. Pode ser uma atividade final de verificação da aprendizagem ou várias atividades que se somam. Na Educação Infantil, a avaliação deve ser entendida como ferramenta para apoiar o progresso da criança. Ferramenta que auxilia no processo de correção de rumo das atividades propostas, proporcionando segurança nas ações que impactam no desenvol- vimento da criança. Nesse sentido, o professor deve rever e repensar as atividades de planejamento, exe- cução e avaliação das atividades desenvolvidas, em um ciclo de contínuo aprimoramen- to, tal como no exemplo da execução de um projeto didático com as crianças pequenas: Planejar o projeto didático Aplicar o planejamento em uma sequência de aulas em sala de aula Avaliar a aplicação em sala de aula Re�etir sobre as lições aprendidas e necessidadeF.; CAVALCANTI, C. J. de H. Teorias de aprendizagem. Porto Alegre, RS: Evangraf; UFRGS, 2011. Disponível em: . Acesso em: 30 ago. 2019. RESENDE, R. L. S. M. de. Fundamentos teórico-pedagógicos para EAD. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA, 12., 2005, Florianópolis, SC. Anais... Florianópolis, SC: Abed, 2005. Disponível em: . Acesso em: 30 ago. 2019. ROJO, R. Educação no século XXI: multiletramentos. v. 3. São Paulo: Fundação Telefônica, 2013. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2019. 27F.; CAVALCANTI, C. J. de H. Teorias de aprendizagem. Porto Alegre, RS: Evangraf; UFRGS, 2011. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/sead/servicos-ead/ publicacoes-1/pdf/Teorias_de_Aprendizagem.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2019. RESENDE, R. L. S. M. de. Fundamentos teórico-pedagógicos para EAD. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA, 12., 2005, Florianópolis, SC. Anais... Florianópolis, SC: Abed, 2005. Disponível em: <http:// www.abed.org.br/congresso2005/por/pdf/055tcb5.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2019. ROJO, R. Educação no século XXI: multiletramentos. v. 3. São Paulo: Fundação Telefônica, 2013. Disponível em: <http://fundacaotelefonica.org.br/wp-content/ uploads/2013/03/caderno3_multiletramentos.pdf>. Acesso em: 26 jun. 2019. 27