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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS 
 
Faculdade de Psicologia 
 
 
 
Ana Luisa Almeida França 
Ana Luisa Quirino Caetano Silva 
Bruna Castro de Araújo 
Izabela Carvalho Paiva e Silva 
Maria Clara 
 
 
 
 
 
 
 
OS IMPACTOS DA INSUFICIÊNCIA DO JUDICIÁRIO NA 
MORBIMORTALIDADE DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA 
DOMÉSTICA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Projeto apresentado à faculdade de 
psicologia da Pontifícia Universidade 
Católica de Minas gerais 
 
 Orientado por Bruno Vasconcelos de 
Almeida 
 
 
 
 
Belo Horizonte 
 
2024 
INTRODUÇÃO 
 
À priori, vê-se que a condição de violência é, antes de tudo, uma questão de 
violação de direitos humanos. Segundo estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) 
de 2006, “violência contra a mulher” é todo ato de violência praticado por motivos de 
gênero, diri- gido contra uma mulher (Gadoni-Costa & Dell’Aglio, 2010, p. 152). Diante 
do exposto, constata-se que a violência doméstica contra a mulher é um fenômeno 
multidimensional, a medida em que ultrapassa os limites da ação ao entrar em interface 
às disparidades sociais de gênero, à perpetuação da lógica sexista e misógina do sistema 
patriarcal e à falta de liberdade existencial feminina no que tange à esfera moral, sexual, 
patrimonial, física e psicológica do “ser mulher”. 
Este estudo delineou-se com a finalidade de compreender os impactos da 
insuficiência do judiciário na morbimortalidade de mulheres vítimas de violência 
doméstica, posto que, apesar da implementação de políticas públicas com o intuito de 
erradicar a violência contra a mulher, sua aplicação ainda possui muitos obstáculos para 
o acesso das mulheres à justiça. Dentre eles, conseguimos analisar a problemática da 
insuficiência do judiciário no que concerne à violência institucional, à falta de aplicação 
da Lei Maria da Penha (número 11.340/2006), à lentidão do processo judicial e à restrição 
de medidas protetivas a esfera penal. As pesquisas têm mostrado que a inexistência e/ou 
a inoperância desses serviços muitas vezes não contribuem e mesmo constituem 
obstáculos para que as mulheres possam ter acesso a seus direitos (OBSERVE, 2011; 
PASINATO, 2012). 
Esse projeto, teve como objetivo analisar os efeitos da imperícia do judiciário e 
seu funcionamento como um meio de perpetuação da violência, através da identificação 
de fatores passíveis de impactar gravemente a morbimortalidade de mulheres vítimas de 
violência doméstica. Portanto, infere-se que as mulheres em situação de violência, para 
além da violação doméstica, enfrentam dificuldades para ter acesso à justiça, revelando 
as lacunas dos mecanismos de proteção e assistência previstas no judiciário e na 
legislação brasileira. Neste trabalho, considerando os limites de sua extensão, optou-se 
por apresentar e delimitar as insuficiências do sistema supracitadas, uma vez que os 
operadores jurídicos revelam a expansão de determinados obstáculos para o acesso à 
justiça das mulheres em situação de violência doméstica e seu bem-estar físico e 
psicológico. 
 
JUSTIFICATIVA 
 
 Esse projeto se justifica na medida em que a violência doméstica contra as 
mulheres é uma problemática que encontra seu enfrentamento na urgência da ação e na 
multidisciplinaridade das intervenções. Ao passo que a judiciário peca no que tange à 
supressão de tais lacunas. 
 Dessarte, é notório o caráter emergencial das primeiras medidas, principalmente 
de caráter protetivo, visto que tais ações são fundamentais para a preservação física e 
psicológica da vítima. De acordo com os artigos 12 e 18 da Lei Maria da Penha (LMP), 
o pedido de medidas protetivas requerido na delegacia deve ser encaminhado 
imediatamente ao poder judiciário para apreciação do juiz. Logo, se esse caráter 
emergencial é tão primordial, é questionável a demora do judiciário, principalmente nesse 
momento de primeiras ações, desde a denúncia até o processo do poder judiciário. Diante 
disso, as autoras Maria Terezinha Nunes e Maria Gabriela Hita, dissertam em sua 
pesquisa “Análise das decisões do Superior Tribunal de Justiça nos casos de violência 
doméstica e familiar contra a mulher”: 
 
A Lei Maria da Penha foi recebida com imensa 
resistência, em especial pelos operadores do Direito, em 
sua aplicação aos casos concretos de violência doméstica 
contra a mulher que chegavam ao judiciário. [...] 
Conforme resultados da pesquisa, que serão mostrados 
mais adiante, alguns juízes têm se recusado a apreciar as 
ações de violência doméstica contra a mulher, instaurando 
o Conflito de Competência. 
 
 Dentro desse contexto, é possível introduzir o conceito de violência institucional, 
segundo a qual se refere à ação ou omissão de uma instituição que, a priori, possui o 
comprometimento de prestar atenção humanizada, preventiva e reparadora de danos. 
Assim, tal violência pode ser entendida como um desdobramento da violência de gênero, 
nesse contexto, pois se coloca como impedimento ao atendimento às vítimas da violência, 
se tornando conivente a tal (CHAI, SANTOS e CHAVES; 2018). 
 Em suma, através da análise do exposto, esse projeto teve como objetivo discutir, 
refletir, relacionar e compreender os desdobramentos da insuficiência do judiciário na 
morbimortalidade das mulheres, uma vez que esse judiciário possui papel ativo na 
contribuição da perpetuação da impunidade dessa violência. Na prática, vê-se que o 
sistema acaba por reproduzir e legitimar a cultura não apenas da desigualdade, mas 
também da violência de gênero. Assim, urge a necessidade de conscientização, denúncia, 
discussão e pesquisa acerca dos malefícios que o próprio sistema instaura na vida das 
mulheres brasileiras vítimas de violência doméstica e como suas ações impactam na 
morbimortalidade dessas mulheres. 
 
REFERENCIAL TEÓRICO 
 
 
Violência Institucional: Quando o Judiciário agride a mulher 
No âmbito da violência de gênero, é notória a perpetuação do sistema patriarcal 
no modo de funcionamento, formação e ação do Estado, especialmente no que concerne 
à dominação masculina dentro desses sistemas. Apesar de existirem políticas públicas, 
leis e adequações estatais à legitimação dos direitos das mulheres, existem determinados 
padrões de comportamentos legislativos e interpretativos na práxis jurídica, que seguem 
a lógica dominante de exaltação da figura masculina como autoridade moral, de liderança 
política e de privilégio social. Nesse contexto, Bordieu afirma que: 
 
“Nosso direito é masculino, condicionado em seu conteúdo 
por interesse masculino e modo de sentir masculino 
(especialmente no direito da família), mas masculino, 
sobretudo, em sua interpretação e sua aplicação, uma 
aplicação puramente racional e prática de disposições 
genéricas duras, diante das quais o indivíduo e seu 
sentimento não contam. Por isso, quis-se excluir as 
mulheres, também para o futuro, da participação ativa na 
jurisdição.” 
 
Diante disso, vê-se que, apesar da introdução estatal de novos padrões legislativos 
e interpretativos da lógica jurídica, ocorre uma certa persistência e seguimento de uma 
práxis jurídica insuficiente, ao passo que ocorre uma desconsideração de um recorte de 
gênero no trato institucional da violência doméstica, em função da falta de 
representatividade e ocupação de vozes femininas nos espaços judiciais. Desse modo, o 
Estado não garante efetividade de direitos às mulheres, a medida em que carecem de um 
atendimento específico que compreenda à sua demanda. 
 Ademais, a emergência de criação de políticas públicas e meios de intervenção 
para a violência doméstica foram grandes propulsores da implementação de delegacias 
de defesa da mulher, que representaram, até recentemente, a principal política pública de 
prevenção e combate à violência contra as mulheres. Entretanto, não houve um 
comprometimento por parte do sistema judicial para uma prestaçãojurisdicional 
suficiente, isto é, que assegurasse de modo eficaz a proteção das vítimas de violência 
doméstica, seja no âmbito da denúncia, na execução da lei e da justiça ou na 
transformação da realidade social das mulheres em situação de violência. Essa realidade 
foi evidenciada na entrevista realizada por este estudo, em que a vítima relata: 
 
2. Você sentiu que as autoridades levaram sua 
denúncia a sério desde o início? Por quê? 
“Mais ou menos. Parece que eles estavam lidando com 
uma pessoa qualquer, fazendo julgamentos do tipo 
‘porque você ainda está com ele se ele te bate?’ ou 
‘Tem gente melhor pra você’. O próprio policial deu 
em cima de mim falando - ‘larga esse cara; tem homem 
melhor no mundo, tipo eu’. Para mim que estava em 
estado de choque, não consegui nem raciocinar” 
 
Nesse sentido, o relato exemplifica de maneira assertiva a violência cometida pelo 
próprio Estado sob a vítima de violência doméstica. Ocorre, de certa forma, uma dupla 
violência de gênero, que retrata a situação cotidiana da mulher em sociedade, ou seja, a 
sustentação do regime patriarcal de imposição violenta do homem como propulsor de 
opressão (seja a opressão da violência doméstica, seja a opressão da violência 
institucionalizada), de modo a enxergar a mulher como símbolo e/ou objeto de satisfação 
sexual. Essa situação é explicitada de modo extremo no caso da entrevistada, posto que, 
mesmo em um momento de fragilidade e sofrimento, os agentes de proteção do Estado 
utilizam os artifícios da soberania do poder masculino para violentar a própria vítima. 
 Esse modo de funcionamento do Estado serve como meio de controlar as 
mulheres como uma classe sexual, logo, é central para a manutenção do patriarcado. É 
um instrumento político, pois, traz a dimensão de que nem a esfera doméstica ou jurídica 
é segura para as mulheres. (RUSSEL; RADFORD, 1992). Assim, a violência 
institucional, estigmatiza e nega direitos às mulheres vítimas de violência doméstica. 
 Destarte, um estudo da Fiocruz revelou que muitos policiais resistem ou se negam 
a fazer o registro de ocorrência, principalmente nos casos de violência psicológica, 
estando incluídas aí as ameaças de morte. Logo, para grande parte dos agentes públicos, 
as denúncias dessas violências aparecem como ato irresponsável, que quebra o imperativo 
moral que separa as esferas do público e do privado (ABDALA, SILVEIRA e MINAYO, 
2011). Desse modo, ao perpetuar as relações de dominação do homem branco sobre a 
mulher, a esfera política acaba por violentar a própria vítima e deixar de efetivar medidas 
protetivas à mulher em vulnerabilidade. Assim, o Estado e seus operadores tornam-se 
fomentadores da morbimortalidade dessas mulheres, a medida em que a ineficácia do 
sistema de justiça brasileira promove a continuidade da violência e seus agravantes. Esse 
não impedimento do ciclo de violência aumenta exponencialmente nas taxas de 
feminicídio e morbimortalidade dessa população. 
 
Falta de Aplicação da Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) 
”Art. 1º Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a 
violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos 
do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção 
sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra 
a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir 
e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados 
internacionais ratificados pela República Federativa do 
Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência 
Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas 
de assistência e proteção às mulheres em situação de 
violência doméstica e familiar.” 
 
Na tentativa de prevenir a violência contra as mulheres, foi criado no dia 7 de 
agosto de 2006 a lei 11. 340 mais conhecida como Lei Maria da Penha. O motivo dessa 
lei existir vem da história de Maria, que se casou com Marco Antônio. Após o nascimento 
das duas filhas do casal, as agressões começaram a ocorrer. Após Maria ter sido vítima de 
violência doméstica e duas tentativas de feminicídio, foi-se necessário esperar por muitos 
anos, ao passo que o caso ocorreu de forma lenta. Todavia, a partir da luta jurídica por 
justiça no tribunal, foi criada a lei Maria da Penha pelo presidente da época, e atual, Luiz 
Inácio Lula da Silva. Desse modo, essa medida surge na tentativa de proteger as mulheres 
que sofrem, sofreram e sofrerão o mesmo que Maria. Através da prescrição, obteve-se um 
atendimento policial especializado nas Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM), 
por intermédio da realização de campanhas educativas de prevenção à violência contra a 
mulher. Além disso, essas intervenções políticas tinham por objetivo prever medidas de 
assistência à mulher em situação de violência doméstica e familiar, assim como medidas 
protetoras de urgência. 
 Apesar da existência da lei protetiva para as mulheres, infere-se a insuficiência 
legislativa no que se refere a efetivação da justiça no país. Nesse contexto, em 2023, o 
Brasil teve o maior número de vítimas de feminicidio, de acordo com o Fórum Brasileiro 
de Segurança Pública (FBSP) foram 1.463 vítimas de feminicídio em todo o país. Assim, 
percebe-se que, apesar da lei possuir como objetivo proteger as mulheres de se tornarem 
vítimas, ocorrem falhas jurídicas no impedimento da continuidade da violência exposta. 
A imperícia do Estado entra em conflito com o objetivo inicial e teórico de prevenir e 
punir os agressores, ao passo que abre portas para a manutenção da violência no âmbito 
familiar e principalmente o doméstico. 
 Nesse sentido, um dos principais motivos da insuficiência judiciária são as falhas 
advindas do Poder Executivo brasileiro, conforme afirma o jurista Miguel Reale Júnior 
em entrevista realizada ao Jornal Recomeço, com a Tribuna do Direito. De modo paralelo, 
na entrevista realizada pelo grupo, a entrevistada relata sobre a incongruência nas 
decisões judiciais: 
P7:Você enfrentou alguma incongruência ou 
contradição nas decisões judiciais relacionadas ao 
seu caso? 
 
R: “A medida protetiva em si, acredito que seja 
contraditória. Como um papel vai me ajudar se ele 
chegar perto de mim? O papel não faz nada. E só é válido 
se ambos assinarem. Eu não assinei porque eles foram 
na minha casa quando eu não estava, então nunca valeu” 
 
Diante do exposto, percebe-se o quanto as falhas jurídicas dificultam a procura da 
denúncia por parte das mulheres vítimas de violência doméstica, posto que, muitas vezes, 
as medidas protetivas e/ou tentativa de efetivação das leis, como a Lei Maria da Penha, 
não são suficientes para proteger ou dar segurança às vítimas em situação de 
vulnerabilidade. 
 Além disso, constata-se que a lei nº 11.340/2006, possui a medida protetiva e a de 
urgência cujo finalidade seria assegurar a vítima a segurança, ou seja, manter o indivíduo 
que esteja ameaçando sua vida ou saúde mental distante. No caso de vítimas de violência 
doméstica, existe um prazo para o poder jurídico assinar a ordem de restrição, entretanto 
foi realizada uma pesquisa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) constatando que 
cerca de 30% dos pedidos de proteção judicial são concedidos após o prazo de 48h, 
previsto na Lei. Essa demora de 48 horas faz com que uma mulher perca sua vida. Através 
desses dados, podemos observar que a lentificação do sistema judiciário, a falta de 
policiais, delegacias da mulher e outros meios ajuda a taxa de morbimortalidade 
aumentar. 
 
Lentidão do processo judicial: 
A lentidão no processo judicial na incriminação de agressores de vítimas de 
violência doméstica é uma questão profundamente problemática no Brasil. Essa demora 
entre a denúncia e a efetivação da justiça tem um impacto significativo na 
morbimortalidade das mulheres, pois prolonga sua exposição a situações de perigo. 
 De acordo com a câmara municipal de SP; “Após o B.O. a Lei Maria da Penha 
estabeleceque, após o boletim de violência doméstica, o caso deve ser remetido ao juiz 
em, no máximo, 48 horas. A Justiça terá outras 48 horas para analisar e julgar a concessão 
das medidas protetivas de urgência, se for o caso. O prazo de 48 horas iniciais é necessário 
para que delegados ou delegadas possam realizar diligências e perícias, entrar em contato 
com a vítima (nos casos registrados pela internet), realizar exames periciais. reunir provas 
materiais - por isso importante que as vítimas guardem provas físicas, se as tiverem, para 
reforçar o caso - e garantir o deferimento de um possível pedido de medida protetiva pela 
Justiça.”. 
 Dessarte, a falta de uma resposta rápida e eficiente do sistema judicial pode levar 
as vítimas a se sentirem desamparadas, de modo a desencorajá-las a buscar ajuda e 
perpetuar o ciclo de violência de gênero. Além disso, a demora pode permitir que o 
agressor continue exercendo controle sobre a vítima, colocando sua vida em risco. De 
modo similar, durante a entrevista, pôde-se exemplificar a questão supracitada: 
P3: Houve momentos em que você sentiu que o 
judiciário ineficaz ou demorado para tomar medidas 
para protegê-la? 
“A demora no atendimento da delegacia. E para assinatura 
da medida protetiva.” 
Diante disso, percebe-se que a prisão do agressor seria a melhor opção para 
realmente diminuir a taxa de violência após a denúncia feita pela vítima; mas de acordo 
com o TJMG: “A prisão preventiva do agressor, pode ser decretada pelo juiz, de ofício, a 
requerimento do Ministério Público ou mediante representação da autoridade policial, 
pelo período máximo de 81 dias, o tempo máximo de conclusão do processo criminal. O 
juiz poderá revogar a prisão preventiva se, no curso do processo, verificar a falta de 
motivo para que subsista, bem como de novo decretá-la, se sobrevierem razões que a 
justifiquem.” 
 A partir desses dados e da entrevista, podemos ver o quão ineficaz é o processo 
judiciário, especialmente no que concerne a lentificação do processo. Essa problemática 
em pauta é um dos maiores agravantes para inseguridade da vida das mulheres vítimas de 
violência doméstica. 
 
Restrição de medidas protetivas à esfera penal e o consequente indeferimento de 
pedidos de medidas protetivas de caráter cível: 
 
A mulher vítima de violência doméstica necessita de uma intervenção rápida da 
justiça para ser retirada desta situação de violência. Garantir que seu agressor não consiga 
mais se aproximar dela mesma e de seus filhos durante o processo judicial e após este é 
o básico para garantir sua segurança. São nessas situações que as medidas protetivas de 
urgência podem entrar. O site do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, define medidas 
protetivas de urgência como: 
 
Previstas na Lei Maria da Penha, as medidas protetivas têm o 
propósito de assegurar que toda mulher, independentemente de 
classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, idade, 
religião ou nível educacional, tenha direito a uma vida sem 
violência, com a preservação de sua saúde física, mental e 
patrimonial. São mecanismos criados pela lei para coibir e 
prevenir a violência doméstica e familiar. 
 
Não obstante, as medidas em questão podem ser concedidas são apenas com o 
relato da vítima, mas também através das autoridades judiciais. Estas se encontram 
divididas em dois grupos: as que se voltam para a vítima (arts. 23 e 24) e as que se voltam 
para o agressor (art. 22). Com esta definição, aparenta que as medidas protetivas de 
urgência são efetivas em garantir a segurança das mulheres vítimas de agressão, porém 
esta não é a realidade. As contradições deste mecanismo começam a aparecer na 
intransigência para serem implementadas, Ávila (2019) ainda completa com a que existe 
exigência de outras provas além do depoimento da ofendida, algo que diminui o relato da 
vítima. 
 Ademais, ocorre a necessidade da existência de um processo penal para a 
implementação destas, o que impede seu uso em casos de violência doméstica que 
guardam correspondência criminal. Outro fator que torna estas medidas não tão efetivas 
é o seu deferimento por poucos meses e a necessidade de ajuizamento posterior de alguma 
ação principal (ÁVILA, 2019, p. 133). Quando conseguem ser aplicadas, as medidas 
protetivas oferecem apenas uma proteção em âmbito penal, deixando a vítima vulnerável 
em outras áreas, como na esfera civil, que engloba seu direito à propriedade, privacidade 
e até mesmo a guarda de seus filhos. 
 No artigo “Processamento das Medidas Protetivas: impactos na efetividade da 
proteção da dignidade da mulher em situação de violência doméstica” o autor ressalta 
mais uma conturbação: 
 
Diante do cenário traçado de violação aos direitos das mulheres, 
é importante recordar que a mentalidade discriminatória e uma 
persistente dificuldade em reconhecer e efetivar os direitos mais 
fundamentais dessa parcela populacional, de tão intimamente 
enraizadas, perpassam a relação de afeto entre companheiros e ex 
companheiros e atingem, também, camadas e setores que tem o 
poder de decidir e julga. (FONSECA, 2021, p.37) 
 
 Assim, podemos afirmar que as medidas protetivas são muito mais efetivas na 
teoria do que na prática. Mesmo com alterações para facilitar sua implementação em 2019 
pela Lei nº 13.827, ainda vemos que ela é afetada por preconceitos e precedentes 
conflitantes, divididos entre a natureza cível e autônoma e o tratamento de medida 
cautelar de caráter criminal (ÁVILA, 2019, p. 135). De modo similar, foi possível 
observar um exemplo da ineficácia da medida protetiva: 
 
P4: Como você avalia a comunicação e o apoio que recebeu 
dos profissionais do sistema judicial durante o processo? 
 
R: Não muito eficaz. Eles me ligaram algumas vezes para saber 
se eu estaria em casa para assinar a medida protetiva, porém 
nunca cheguei a assinar, então não validou a medida. Dois anos 
depois eles me ligaram novamente perguntando se eu queria 
manter a medida também. 
 
Diante desse cenário, clara a falta de cuidado dos órgãos judiciários com a vida 
da entrevistada ao não tentarem entrar em contato dentro de um horário vago para esta. 
Resultando no não cumprimento da medida e deixando ela em sua situação de perigo. 
 Este conjunto de fatores torna a medida protetiva ineficiente, a falta de explicação e ação 
faz com que este mecanismo fique parecendo apenas um “papel”, como descrito pela 
entrevistada: 
P7: Você enfrentou alguma incongruência ou contradição nas 
decisões judiciais relacionadas ao seu caso? 
 
R: A medida protetiva em si, acredito que seja contraditória. 
Como um papel vai me ajudar se ele chegar perto de mim? O 
papel não faz nada. E só é válido se ambos assinarem. Eu não 
assinei porque eles foram na minha casa quando eu não estava, 
então nunca valeu. 
 
 Assim, podemos afirmar que as medidas protetivas são muito mais efetivas na teoria 
do que na prática. Mesmo com alterações para facilitar sua implementação em 2019 pela 
Lei nº 13.827, ainda vemos que ela é afetada por preconceitos e precedentes conflitantes, 
divididos entre a natureza cível e autônoma e o tratamento de medida cautelar de caráter 
criminal (ÁVILA, 2019, p. 135). Dessa forma, fica claro a existência de uma ineficiência 
das medidas protetivas de urgência, tanto para serem implementadas quanto para 
realmente proteger essas mulheres em situação de vulnerabilidade. 
 
METODOLOGIA: 
 
Como método de compreensão acerca dos impactos da insuficiência do judiciário 
na morbimortalidade de mulheres vítimas de violência doméstica, optamos por utilizar a 
pesquisa qualitativa (anexo I). O método escolhido pôde trazer luz à dados, indicadores e 
tendências observáveis ou produzir modelos teóricos com aplicabilidade prática e de alta 
abstração. Além disso, buscamos compreender a lógica das instituições jurídicas quanto 
ao modo de funcionamentoda denúncia da violência e as relações entre os profissionais 
e as vítimas. Não obstante, entende-se que a pesquisa qualitativa é o método que melhor 
se enquadra no contexto no qual está inserido essa pesquisa. 
 Para obtermos os dados necessários, fizemos uma entrevista semiestruturada, que 
consistia na elaboração de perguntas auxiliares para que fosse possível a condução clara 
da entrevista, abrangendo as informações almejadas. É importante salientar que a 
entrevista semiestruturada trouxe a inserção de novos temas trazidos pelo interlocutor, 
além de abrir espaço também para um diálogo flexível (MINAYO, 2014). Não obstante, 
frisamos também que o participante da entrevista recebeu um Termo de Consentimento 
Livre e Esclarecido (TCLE), no qual afirmou participar voluntariamente da pesquisa, 
mantendo todas as informações coletadas em sigilo. 
A entrevista foi realizada com uma mulher de 28 anos, vítima de violência 
doméstica. O acesso à entrevistada se deu a partir de pessoas conhecidas advindo de 
relações próximas. A condução da entrevista foi feita de forma presencial, onde utilizamos 
os gravadores de nossos aparelhos celulares para coletar os áudios e as informações 
necessárias. A entrevista foi gravada, todas as informações coletadas foram transcritas 
pelos entrevistadores e, em um período de 5 anos, serão descartadas, respeitando o sigilo 
e a privacidade do entrevistado. A análise dos dados obtidos foi feita a partir do ponto de 
vista crítico e teórico das disparidades de gênero e da violência institucional sofrida por 
mulheres diante da lógica sexista e violenta do sistema patriarcal brasileiro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCLUSÃO: 
 
 A inefetividade do Governo em ajudar mulheres em situação de violência 
doméstica, seja na falta de eficácia das leis e medidas implementadas ou no cumprimento 
destas, deixa estas mulheres sozinhas e sem apoio jurídico para lidar com esta situação. 
As consequências já se fazem notáveis nos dados, de acordo com o G1, quatro mulheres 
morrem por dia vítimas de feminicídio, de janeiro a outubro de 2023 foram 1.158 
feminicídios. 
 A carência do funcionamento pleno do sistema judiciário e dos direitos civis das 
mulheres, aumentam exponencialmente a continuidade da violência doméstica. O Estado 
possui um papel de pretenso protetor, entretanto, se configura como um efetivo agressor 
sob a ótica da violência judiciária. Logo, sem justiça e sem lei, o agressor torna-se livre 
para violentar suas vítimas, de modo a gerenciar as mortes e os casos de feminicídio. 
 Destarte, o desacato da polícia, que são os primeiros agentes da justiça que a 
mulher entra em contato nesta situação, leva muitas a desistirem de continuar com a 
denúncia e retornarem para a situação de risco por acreditarem que não vão conseguir 
ajuda do sistema. A negligência do estado quanto ao sofrimento da mulher é 
consequência de uma sociedade machista que divulga diariamente a imagem da mulher 
como objeto, algo para ser possuído e usado. Dentro desta esfera, a violência contra a 
mulher é direito do homem que a “possui” e a responsabilidade desta agressão cai sobre 
a mulher. A indiferença do estado serve como mais uma forma de reforçar essa agressão. 
Portanto, esta situação de violência de gênero, como um todo, pede uma revisão 
da efetividade das leis postas para a proteção das mulheres em situação de violência 
doméstica, junto com implementações para melhorar o desempenho destas. A 
implementação de palestras de conscientização sobre os tipos de violência contra mulher 
e como reconhecê-los para policiais também ajudaria a criar um ambiente mais receptivo 
e acolhedor para estas mulheres. 
 
 
 
 
 
ENTREVISTA: 
P1: Você poderia compartilhar sua experiência em relação ao sistema judicial após 
denunciar a violência doméstica que sofreu? 
R: “A polícia chegou bem rápido até questão de 20 minutos depois da agressão. Porém 
antes de ser levada para a delegacia de mulher, fomos para uma delegacia do bairro 
mesmo, para dar entrada no B.O. depois de algumas horas que fomos para a delegacia de 
mulher, e lá mesmo demorou mais umas 3/4 horas. O ocorrido aconteceu por volta de 17h 
e fui chegar em casa 23h/00h. Demorou muito!! Em todo momento eles deixaram o 
agressor longe de mim para não ter problemas.” 
P2: Você sentiu que as autoridades levaram sua denúncia a sério desde o início? 
R: “Mais ou menos. Parece que eles estavam lidando com uma pessoa qualquer, fazendo 
julgamentos do tipo “porque você ainda está com ele se ele te bate?” “Tem gente melhor 
pra você”, o próprio policial “deu em cima de mim” falando -“larga esse cara; tem homem 
melhor no mundo, tipo eu” Pra mim que estava em estado de choque, não consegui nem 
raciocinar.“ 
P3: Houve momentos em que você sentiu que o judiciário foi ineficaz ou demorado 
em tomar medidas para protegê-la? 
R: “A demora no atendimento da delegacia. E para assinatura da medida protetiva”. 
P4: Como você avalia a comunicação e o apoio que recebeu dos profissionais do 
sistema judicial durante o processo? 
R: “Não muito eficaz. Eles me ligaram algumas vezes para saber se eu estaria em casa 
para assinar a medida protetiva, porém nunca cheguei a assinar, então não validou a 
medida. Dois anos depois eles me ligaram novamente perguntando se eu queria manter a 
medida também.” 
P5: Você teve acesso a recursos ou serviços de apoio após denunciar a violência? Se 
sim, foram úteis? 
R: “Não, eles só me orientaram a chamar a polícia caso ele chegasse perto. E aí já não 
adianta mais né” 
P6: Você acredita que a falta de preparo ou sensibilidade por parte dos profissionais 
do judiciário impactou sua capacidade de buscar justiça e proteção? 
R: “Com certeza. Falta de preparo e manejo. Do que falar, como agir e orientar. Deboches, 
piadas e falta de interesse; sem pressa para resolver o problema.” 
P7: Você enfrentou alguma incongruência ou contradição nas decisões judiciais 
relacionadas ao seu caso? 
R: “A medida protetiva em si, acredito que seja contraditória. Como um papel vai me 
ajudar se ele chegar perto de mim? O papel não faz nada. E só é válido se ambos 
assinarem. Eu não assinei porque eles foram na minha casa quando eu não estava, então 
nunca valeu” 
P8: Como a insuficiência ou a inaptidão do sistema judicial afetou sua saúde física e 
emocional? 
R: “Não tive nenhum apoio emocional quando aconteceu o ocorrido, tive que me virar e 
contar com meus amigos e familiares e paguei terapia” 
P9: Você acredita que as falhas do sistema judicial contribuíram para um ambiente 
inseguro para outras mulheres vítimas de violência doméstica? 
R: “Com certeza, no dia do que aconteceu comigo, tinha outra mulher que estava lá na 
delegacia por causa de violência também, e ela já tinha medida protetiva antes, como eu 
disse, um papel não resolve nada, não vai impedir do cara chegar perto de novo” 
P10: Quais mudanças você gostaria de ver no sistema judicial para melhorar o apoio 
e a proteção às vítimas de violência doméstica? 
R: “Acredito que um jeito de realmente prender ou deixar o cara longe da vítima, uma 
tornozeleira ou sei lá. E apoio psicológico intenso logo após o ocorrido”. 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
 
ÁVILA, Thiago Pierobom de. Medidas protetivas da lei Maria da Penha: natureza jurídica 
e parâmetros decisórios. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 27, n. 
157, p. 131-172, jul.. 2019. Disponível em: 
http://200.205.38.50/biblioteca/index.asp?codigo_sophia=151849. Acesso em: 27 
de mar. de 2024. 
 
FONSECA, Raquel. Processamento das Medidas Protetivas: impactos na efetividade da 
proteção da dignidade da mulher em situação de violência doméstica, Repositório 
Institucional da Universidade Federal de Sergipe - RI/UFS, 2021. Disponível 
em:https://ri.ufs.br/handle/riufs/14546 . Acesso em: 27 de mar. de 2024. 
 
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Nacional, São Paulo, 5 de janeiro de 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-
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de mar. de 2024. 
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ainda-sao-barreira-no-judiciario.ghtml. Acesso em 19 de mar. de 2024 
 
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maior-da-serie-historica-no-brasil-diz-forum-de-seguranca-publica. Acesso em: 20 de 
mar. de 2024. 
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