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GRUPO DE ESTUDOS 
APOSTILA DIDÁTICA 
 Psicopatologia
Fenomenológica
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
MÓDULO 1: FILOSOFIA, HISTÓRIA E
EPISTEMOLOGIA DA PSICOPATOLOGIA
FENOMENOLÓGICA
MÓDULO 2: PSICOPATOLOGIAS
DESCRITIVA E FENÔMENO-ESTRUTURAL
MÓDULO 3: FENOMENOLOGIA DA
ESQUIZOFRENIA
MÓDULO 4: FENOMENOLOGIA DA
DEPRESSÃO E DO TRANSTORNO
BIPOLAR
MÓDULO 5: FENOMENOLOGIA DOS
TRANSTORNOS RELACIONADOS AO USO
DO ÁLCOOL
NOTAS DIDÁCTICAS 
Introdução as Abordagens Fenomenoló- 
gica e Existencial em Psicopatologia (I): 
A Psicopatologia Fenomenológica 
JOSÉ A . CARVALHO TEIXEIRA (*) 
, i . INTRODUÇÃO 
Em Psicopatologia existem várias abordagens 
fenomenológicas e existenciais. Como refere 
Jonckheere (1 989), do encontro entre Fenomeno- 
logia, Existencialismo e Psicopatologia resultou 
um amplo movimento de ideias e de reflexão, 
intervenção e investigação. Em linhas gerais é 
possível partir da psicopatologia fenomenológica 
- que, retirando as suas categorias da psicopa- 
tologia descritiva, se centra nas vivências e nos 
dados imediatos da consciência - até às abor- 
dagens existenciais que, para além de investi- 
garem a qualidade existencial dos diversos esta- 
dos psicopatológicos, tentam elucidar as preo- 
cupações básicas do Homem na sua confron- 
tação dialéctica com a realidade (Carvalho Tei- 
xeira, 1989, 1991). Mais particularmente, é pos- 
sível identificar uma trajectória de variantes que 
vai da fenomenologia descritiva dos dados 
imediatos da consciência de Karl Jaspers e 
Mayer-Gross até à fenomenologia categoria1 de 
Binswanger e R. Kuhn, passando pela fenome- 
nologia genético-estrutural a maneira de Min- 
kowski, von Gebsattel e E. Straus, entre outros. 
Da mesma forma, mas j á no plano de preocupa- 
ções claramente existenciais, há uma diferença 
(*) Psiquiatra. Assistente, ISPA. Coordenador do 
Grupo de Estudos de Psicologia e Psicopatologia 
Fenomenológicas e Existenciais. 
I 
, 
que vai da Análise Existencial a Daseinanalyse 
de Binswanger e Boss passando, por exemplo, 
pela Logoterapia de V. Frankl e pela Terapia 
Centrada no Cliente de C. Rogers. Em suma: o 
pensamento fenomenológico/existencial não 
aparece com homogeneidade tal como, de resto, 
acontece com as correntes JilosóJicas inspira- 
doras. Será que, apesar disso, existem pontos de 
encontro? 
Este questionamento é tão pertinente como 
aquele que, ao falar-se de filosofias fenomeno- 
lógicas e existenciais, conduziu ao conceito de 
estilo fenomenológico comum (Lyotard, 1964), 
entendido como uma convergência em pontos 
essenciais. Será que no encontro entre Fenome- 
nologia/Existencialismo, Psicopatologia e Psico- 
logia também é possível identijkar invariantes? 
A resposta a esta interrogação é afirmativa. Não 
só a Fenomenologia e o Existencialismo deter- 
minaram uma diferença significativa em Psico- 
patologia e Psicologia (Spiegelberg, 1972) como 
também se torna possível delimitar, no seio das 
suas abordagens alguns pontos de convergência 
fundamentais (Jonckheere, 1989; Yalom, 1984). 
A nosso ver, estes pontos de convergência 
surgem como invariantes nas aparições das 
diversas orientações. No essencial são: uma 
certa concepção do Homem, o método fenome- 
nológico, o estilo existencial e a ética de liber- 
dade. 
62 1 
Uma certa concepção do Homem que emana 
no cuidado posto na consideração das suas 
capacidades e p ot enc ia1 idades , d imensõe:j 
habitualmente não desenvolvidas suficiente- 
mente nem de forma significativa por outras cor- 
rentes de pensamento. Entre elas contam-se o 
amor, a criatividade, a realização de si, o ser e o 
vir-a-ser, a espontaneidade e a responsabilidade 
(no sentido existencial). Enfim, tem-se em conta 
que o ser do Homem se define num contexto 
humano, que o cuidado posto por ele na sua exis- 
tência é uma experiência imediata que resulta d;i 
descoberta de si mesmo ao lidar com o mundo 
que está já-aí. Isto quer dizer que a experiência 
interpessoal - em rigor, a experiência inter- 
subjectiva - não pode nunca ser ignorada. 
Por outro lado, o Homem é consciente, capaz 
de fazer escolhas e intencional. O Homem 15 
consciente de si mesmo, de forma contínua e :i 
diversos níveis. Não é passivo face A existência. 
Pelo contrário, o Homem é essencialmente livre, 
no sentido de ser capaz de fazer escolhas e de 
tomar decisões, das quais resulta o significado da 
sua existência. Sendo capaz de escolhas, faz-se a 
si próprio. Descobre-se como fonte ilimitada di: 
possibilidades e é ele quem cria a sua própria 
existência. O Homem constrói o mundo onde si: 
desenrola a sua existência e fá-lo de forma signi- 
ficativa. Dá um sentido a sua existência, do 
qual pode resultar um viver de acordo com os 
seus valores mais profundos no seu compro- 
metimento familiar, profissional e comunitário. 
Sujeito pessoal e intersubjectivo, é ele quem 
opera o comprometimento e o realizador di: 
todas as estruturas relacionais. Dirige-se para o 
futuro e arrisca-se (Guimarães Lopes, 1982), 
acredita em valores e procura o sentido da sua 
presença no mundo. Implica-se de forma signifi- 
cativa no seu projecto existencial, de tal maneira 
que ser-Homem envolve a espacialidade e ;I 
temporalidade, a corporalidade, o ser-com-os- 
-outros num mundo comum, ter uma relação ao 
mundo que é temporal, implicando memória i: 
historicidade. Mas é, também, ser-para-a-morte 
que só se pode compreender sobre o fundo da 
finitude - a temporalidade e a morte -, pelo que 
se preocupa a angustia. Mas, ao mesmo tempo, a 
angústia existencial empurra-o a viver pondo 
cuidado na sua existência. Esta fragilidade do ser 
(ou impossibilidade de possibilidades poste- 
riores) que significa a inevitabilidade da sua 
própria morte, acaba por ser aquilo que pode 
permitir viver a vida de modo autêntico, porque 
a existência não pode ser adiada. Enfrentando-se 
com a inevitabilidade da sua própria morte, o 
Homem é capaz de superação pela liberdade, a 
liberdade que salva a distância entre ser e não- 
ser e da qual emana, como consequência, a res- 
ponsabilidade existencial e o compromisso com 
os outros, que consubstanciam uma liberdade 
situada. 
O método é o fenomenológico, que permite 
aceder directamente aos fenómenos tal como 
aparecem a consciência, tornando inteligível 
tudo o que está marcado pela subjectividade. O 
seu objectivo último é o de permitir ao Homem- 
perturbado compreender-se, isto é, re-situar-se 
em relação aos seus próprios comportamentos e 
pôr em evidência, em cada um deles, a intencio- 
nalidade com que os orienta e subentende, 
embora tenha sido sucessivamente aplicado a 
essência e a existência. O conceito de intencio- 
nalidade remete para a procura de significação 
perante dada situação, estruturando o compor- 
tamento, na base dum processo pessoal de signi- 
ficância (Guimarães Lopes, 1993). O desen- 
volvimento da aplicação do método feno- 
menológico ao campo psicopatológico foi sobre- 
tudo representado pela compreensão fenome- 
nológica das vivências de K. Jaspers, pela feno- 
menologia genético-estrutural de E. Minkowski 
e von Gebsattel e pela Daseinanalyse de L. 
Binswanger. 
Como método qualitativo de investigação, o 
método fenomenológico utiliza uma aproxima- 
ção holística que envolve uma análise indutiva 
de carácter naturalista (Ionescu, 1992). A aproxi- 
mação holística corresponde h tentativa de com- 
preensão global dos fenómenos, sem qualquer 
limitação quanto ao número de aspectos a avaliar 
e por intermédio de estudo pormenorizado de 
casos individuais. O carácter naturalista rela- 
ciona-se com o facto de tentar compreender os 
fenómenos tal como aparecem. Segundo Bache- 
lor e Joshi (1 986), o método fenomenológico 
exige, em primeiro lugar, uma descrição cuida- 
dosa e sistemática daquilo que é percebido na 
622 
experiência vivida e, em segundo lugar, procura 
identificar e elucidar o' seu significado essencial. 
A finalidade é o estudo dos significados e estru- 
turas dos fenómenos na sua dimensão eidética, 
isto é, em função da sua natureza fundamentalem possibilidades ou em construções ad hoc.
Algumas direções úteis podem ser encontradas entre estas, mas é essencial que
sejam seguidas por investigações adicionais.
Na esfera da investigação psicológica, E. Husserl deu o primeiro passo
crucial em direção a uma fenomenologia sistemática, seus antecessores nisto
havendo sido Brentano e sua escola, assim como Th. Lipps. Houve, na
psicopatologia, numerosas tentativas de se criar uma fenomenologia1 sem, no
entanto, se haver constituído, até agora, um campo de pesquisa de
reconhecimento geral com ambição de preparar sistematicamente as fundações
para as tarefas da psicopatologia. Dado que a fenomenologia de fato oferece um
campo produtivo de trabalho, do qual todos podem tomar parte, uma exposição
programática de seus objetivos e métodos parece indicada.
As limitações da empatia
Na vida cotidiana ninguém pensa em termos de fenômenos mentais isolados,
quer sejam seus próprios quer sejam os de outra pessoa. Nossa preocupação
pessoal é sempre com aquilo que é o objeto de nossa experiência, e não com o
processo mental relacionado a ela. Entendemos outras pessoas não através da
consideração e análise de suas vidas mentais, mas por vivermos com elas no
contexto em que sucedem eventos, ações e os destinos pessoais. Mesmo quando
ocasionalmente fazemos considerações sobre a experiência mental em si mesma,
1. A obra de Kandinsky, Kritische und Klinische Betrachtungen im Gebiete der
Sinnestäuschungen (Berlim, 1885) é quase completamente de caráter fenomenológico. A obra
de Oesterreich, Die Phänomenologie des Ich in ihren Grundproblemen (Leipzig, 1910), e a
de Hackers, “Systematische Traumbeobachtungen” (Archif. F. Psych. wl. 21.1, 1911) conduzem
investigações fenomenológicas sistemáticas sobre sintomas particularmente vitais para a
psicopatologia. Eu próprio me esforcei neste sentido em dois trabalhos anteriores: “Zur Analyse
der Trugwharnehmungen” e “Die Trugwahrnehmungen”. (Reeditado em Gesammelte Schriften
zur Psychopathologie, Springer-Verlag, Berlim, 1963).
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fazemos isto apenas no contexto de causas e efeitos como compreendido por
nós, ou quando classificamos personalidades em categorias etc. Nunca nos
percebemos propensos a considerar um fenômeno mental isoladamente, e.g. uma
percepção ou sensação per se, ou a descrevê-lo em termos de sua aparência ou
essência. O mesmo se passa com a atitude do psiquiatra para com seu paciente.
Ele pode compartilhar da experiência do paciente, isto sempre ocorrendo
espontaneamente, sem que tenha que refletir sobre isso. Neste sentido ele pode
obter uma compreensão essencialmente pessoal, indefinível e direta que, no
entanto, permanece-lhe como pura experiência, e não como conhecimento
explícito. Ele ganha prática em compreender, mas não constrói um repertório de
material clínico – “experiência” no sentido profissional – que lhe seria mais útil
que meras sensações vagas e impressões, e que poderia comparar, organizar, ou
submeter a testagem.
A atitude meramente empática, que pode ser bastante satisfatória para alguns
– tanto que para alguém a isto inclinado esta pode se tornar seu objetivo
profissional – é, deve-se admitir, “subjetiva” num sentido bastante peculiar. E
quando formulações ou afirmações específicas são feitas tomando-a como base,
e sem qualquer referência a estudos de maior alcance ou a algum sistema
conceitual, merece-se rejeitar a boa fundamentação desta conceituação e tomá-
la como “meramente subjetiva”, num sentido pejorativo. Afirmações de tal ordem
não podem ser discutidas ou verificadas. Podemos apreciar este tipo de
compreensão, podemos admirá-la pelas valiosas qualidades humanas que revela;
mas jamais podemos reconhecê-la como “ciência”, quer a encontremos
diariamente como prática de pessoas civilizadas e educadas ao longo dos séculos,
quer em sua feição clínica como a preocupação instintiva do psiquiatra por seus
pacientes.
Contudo, se ainda desejamos desenvolver uma ciência psicológica devemos,
por um lado, reconhecer desde o princípio que seu ideal é uma compreensão
plenamente consciente dos fenômenos mentais, de um tipo que possa ser
apresentada por meio de terminologia e formas definidas, em contraste à
compreensão vaga ou inconsciente que é alcançada apenas de modo pessoal e
subjetivo através do posicionamento e aptidões de dois indivíduos específicos.
Mas devemos reconhecer também que a psicologia não pode almejar alcançar tal
ideal científico; em vez disso deve se engajar em diversas abordagens
promissoras. De fato, estas abrem perspectivas, porém a solução que lhes seria
ideal persiste infinitamente remota. Por isso tantos praticam sua compreensão
pessoal puramente para sua própria satisfação e, do alto de sua vaga e ainda assim
penetrante compreensão, olham condescendentemente para baixo em direção a
todas as tentativas de definir conceitos em nível consciente, descartando-as como
chavões estéreis ou trivialidades. Ainda assim, o fato de apenas tais refletidas
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determinações psicológicas constituírem contribuições para o conhecimento lhes
confere, do ponto de vista científico, valor ímpar – mas apenas deste ponto de
vista.
Isolando os fenômenos
Este posicionamento de insatisfação com a compreensão como mera ex-
periência e que deseja promovê-la ao patamar de conhecimento que possa ser
comunicado, investigado e discutido, depara-se com uma infinidade de fenô-
menos psíquicos mult i facetados, que ainda estão longe de serem claros e
cujas relações de dependência e conseqüência ainda têm de ser elucidadas.
Sem dúvida, o primeiro passo em direção a uma compreensão científica deve ser
classificar, definir, diferenciar e descrever os fenômenos psíquicos particula-
res, os quais são assim atualizados e regularmente descritos com terminolo-
gia específica.
Devemos principiar com uma representação clara do que realmente está se
passando com o paciente, o que ele está realmente experimentando, como as
coisas surgem em sua consciência, quais suas sensações, e daí por diante. E nesta
etapa devemos pôr de lado todas as considerações sobre a relação entre as
experiências ou sua síntese num todo unitário, e especialmente devemos evitar o
emprego de quaisquer construtos básicos ou modelos de referência. Devemos
figurar apenas o que de fato se apresenta à consciência do paciente; qualquer coisa
que não se apresentou realmente à consciência do mesmo estará excluída de nossa
consideração. Devemos deixar de lado todas as teorias antiquadas, construtos
psicológicos e mitologias materialistas sobre processos cerebrais; devemos voltar
nossa atenção apenas para o que podemos entender como tendo real existência,
e que podemos diferenciar e descrever. Esta, como mostra a experiência, é uma
tarefa bastante difícil. Esta peculiar liberdade de pré-concepções que a
fenomenologia demanda não é algo que alguém consegue obter desde o início, mas
algo laboriosamente conquistado após prolongado trabalho crítico e muito esforço
– comumente infrutífero – em modelar construtos e mitologias. Quando éramos
crianças, inicialmente desenhávamos as coisas como imaginávamos, não como as
enxergávamos. Do mesmo modo, quando psicólogos e psicopatólogos,
atravessamos um estágio em que, de uma maneira ou outra, formamos nossas
próprias idéias sobre os eventos psíquicos, e apenas posteriormente adquirimos
uma apreensão sem preconceitos destes eventos como realmente são. Assim, esta
atitude fenomenológica deve ser adquirida apenas pelo esforço repetido e pela
sempre renovada superação das pré-concepções.
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Como então procedemos quando isolamos, caracterizamos e damos a forma
conceitual destes fenômenos psíquicos? Não podemos retratá-los ou trazê-los
diante de nossos olhos de qualquer maneira que possa ser percebido pelos
sentidos. Podemos apenas guiarmo-nos e a outrem através de uma abordagem
múltipla.Devemos ser conduzidos, começando pelo exterior, a uma apreciação real
de um fenômeno psíquico particular pela observação de sua gênese, suas
condições de surgimento, suas configurações, seu contexto e possíveis conteúdos
concretos; também pelo uso de comparações intuitivas e simbolização, através do
voltar de nossas observações para qualquer direção que elas próprias sugiram
(como artistas fazem tão agudamente) e pela demonstração de fenômenos
conhecidos que parecem ter algum papel na formação do fenômeno estudado.
Tudo isto constitui incentivo, reforçado por estas pistas indiretas, para que outros
atualizem estes fenômenos por si mesmos, ao passo que nós também somos
encorajados a empregar nossos próprios achados em estudos posteriores. Quanto
mais numerosas e precisas tais pistas indiretas se tornam, melhor definidos e mais
característicos os fenômenos estudados se mostram. De fato, este esforço pessoal
em representar para nós mesmos os fenômenos psíquicos, guiados apenas por
estas pistas inteiramente exteriores, é a única condição sob a qual podemos falar
de algum tipo de trabalho psicológico.
Um histologista oferecerá exaustiva descrição de elementos morfológicos
particulares, mas o fará de modo a tornar mais fácil que outras pessoas vejam
estes elementos por si mesmas, e terá de supor ou induzir este “ver por si mes-
mo” naqueles que realmente querem entendê-lo. Do mesmo modo, o fenomeno-
logista pode indicar aspectos e características, e mostrar como estes podem ser
distinguidos e ainda evitadas as confusões; tudo com vistas a descrever os da-
dos qualitativamente diferentes. Mas ele deve se assegurar de que aqueles a
quem se dirige não apenas pensam como ele, mas vêem como ele, no contato e
nas conversas com o paciente, e pelas suas próprias observações. Este “ver” não
se realiza através dos sentidos, mas sim pela compreensão. Isto é algo bastan-
te singular, irredutível e derradeiro. E se esperamos dar ao menos um único
passo adiante no campo da fenomenologia, temos de nos adestrar e dominar esta
técnica – incluindo coisas como a “representação dos dados em primeira pes-
soa”, “compreensão”, “apreensão” ou “atualização”. Apenas assim adquirimos
uma frutífera faculdade crítica que se opõe tanto à adaptação a construções
teóricas quanto contra a infrutífera recusa à impossibilidade de progresso.
Quem quer que não tenha olhos para enxergar será incapaz de praticar a his-
tologia; quem quer que não se disponha ou seja incapaz de “atualizar” fenô-
menos psíquicos e representá-los vividamente não poderá obter uma com-
preensão fenomenológica.
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A busca pelos fenômenos irredutíveis
A qualidade irredutível dos fenômenos psíquicos – que só podem tomar o
mesmo significado para uma diversidade de pessoas através da motivação e
múltiplos indícios e pistas mencionados anteriormente – pode ser encontrada até
no caso das mais simples características sensoriais, como a percepção do
vermelho, do azul, das cores e tons. Também se manifesta na consciência do
espaço e objetos, na percepção, representação imagética, pensamento etc. Em
psicopatologia temos os exemplos das pseudo-alucinações, do fenômeno de déjà-
vu, da desrealização, da heautoscopia, da experiência do “duplo”, entre outros;
embora todos estes termos descrevam grupos de fenômenos psíquicos que ainda
são apenas sutilmente diferenciados entre si.
Para a “atualização”, em nós mesmos, de todas estas características
fenomenologicamente irredutíveis, dispomos de expressões como “perceber”,
“ver”, “colocar-se no lugar de”, “empatia”, “compreensão”, entre outras. Tais
termos sempre denotam o tipo de experiência irredutível correspondente e com
papel semelhante na psicologia, que a percepção sensorial tem nas ciências
naturais. Da mesma maneira que a senso-percepção é evocada pela apresentação
de um objeto, também esta “atualização” empática nos será evocada pelas pistas
e indicações supracitadas, pela nossa apreensão imediata dos fenômenos
expressivos e pela nossa imersão na autodescrição das outras pessoas. Desta
terminologia segue que a “empatia” e a “compreensão” não são, de modo algum,
fenômenos simples e irredutíveis em si mesmos, mas provavelmente contêm toda
uma gama de elementos ainda por serem definidos. Tal qual a percepção, a
empatia tem suas tarefas a desempenhar: primeiramente para a fenomenologia, da
qual ela é fundamento, e ainda para a investigação da psicogênese. Até este ponto
não estamos preocupados com nenhuma destas; precisamos apenas notar a
contribuição dada ao nosso conhecimento por esta experiência empática,
compreensiva, e levantar a questão da confiabilidade deste método de acesso aos
fatos. Se, analogicamente à experiência perceptiva, reconhecermos a experiência
empática como irredutível, a questão pode ser respondida nestas linhas: no campo
da experiência empática os recursos técnicos para “reter” o que foi visto uma vez,
para posterior comparação e outros fins, são tão inadequados que serão
encontradas mais dificuldades do que no caso da experiência sensorial. Mas, em
princípio, a confiabilidade é estabelecida do mesmo modo, isto é, por meio de
comparação, repetição e verificação das experiências empáticas conforme
propiciam a “atualização”. Em ambos os campos há bastante incerteza; não se
pode negar que no campo psicológico esta é maior que nas ciências naturais, mas
é uma diferença apenas de grau.
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Se estamos representando nossas próprias experiências psíquicas passadas
ou as de outras pessoas é irrelevante. A única diferença importante parece ser entre
as auto-observações sistemáticas e experimentais sobre experiências persistentes,
e aquelas que são representações empáticas comuns. Na investigação dos
fenômenos psicopatológicos apenas as últimas podem realmente ser consideradas,
já que os pacientes raramente podem ser levados a realizar auto-observações
naquele primeiro sentido – e apenas em condições muito favoráveis, quanto a
distúrbios simples como agnosias ou alucinações em clara consciência. Contudo,
tais representações empáticas de fenômenos entre os doentes mentais podem
muito bem ser promovidas por conceitos derivados de investigações
fenomenológicas mais elaboradas, do último tipo.
Métodos de análise fenomenológica
Os métodos pelos quais colocamos em prática uma análise fenomenológica
e determinamos o que os pacientes de fato experimentam são de três tipos: 1) a
“imersão”, por assim dizer, nos gestos, comportamentos, e movimentos
expressivos destes; 2) a exploração pelo questionamento direto ao paciente e por
meio da avaliação que os próprios pacientes, sob nossa condução, fazem de si
mesmos; 3) autodescrições escritas – raramente realmente boas, por outro lado
todas do mais alto valor; elas podem, de fato, ser usadas mesmo que não se
conheça a personalidade do autor. Em todos esses casos estamos perseguindo a
fenomenologia na medida em que nos dirigimos à experiência psíquica subjetiva
e não às manifestações objetivas que, neste contexto, são apenas um passo em
nossa jornada – os meios, não o objeto de nossa investigação. De todas essas
fontes de informação, boas autodescrições têm o mais elevado valor.2
Quando, usando esses métodos, tentamos nos aproximar da vida psíquica
do paciente, nossa primeira impressão é de um insondável caos de fenômenos
constantemente mutáveis. Nosso objetivo inicial deve ser apreender, delimitar um
elemento particular, e retratá-lo com fim de construir uma noção do mesmo, da
qual nós e outras pessoas possam fazer uso permanente; além de lhe provermos
um nome pelo qual podemos sempre identificá-lo. Fenômenos psicopatológicos
2. Para os interessados, listo algumas das melhores autodescrições publicadas até o momento:
Schreber – Memoirs of a Neurotic. Leipzig, 1903; Thomas de Quincey – Confessions of an
Opium Eater; Gérard de Nerval – Aurélie; J. J. David – Hallucinations. In: Neue Rundschau,
n. 17, 874;Kandinsky – On the Study of Hallucination. In: Archif. J. Psych., II, 453; Klinke
– Jahr. F. Psych., 9; Kieser – Allgemeine Zeitschr. F. Psych., 10, 423; Engelken – Ibid., 6, 586;
Meinert – An Alcoholic Madman. Dresden, 1907.
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parecem exigir este tipo de abordagem; uma que se propõe a isolar, fazer abstra-
ções a partir de observações correlatas, apresentar como reais apenas os dados
em si mesmos, sem tentar entender como emergiram; uma abordagem que ape-
nas pretende “ver”, e não explicar. Em condições patológicas, numerosos fenô-
menos psíquicos surgem sem antecedentes que lhes confiram sentido;
psicologicamente falando, não emergem de nada. Do ponto de vista causal são
decorrentes de um processo mórbido. Memórias vívidas de coisas nunca expe-
rimentadas; idéias sustentadas com uma convicção de sua veracidade e sem qual-
quer base inteligível para tal convicção; afetos e emoções aparecendo
espontaneamente e não com base em quaisquer experiências ou idéias relevantes;
todas estas e muitas outras são exemplos comuns. Esses são os objetos da in-
vestigação fenomenológica, a qual os representa e determina como realmente são.
Três grupos de fenômenos podem ser determinados deste modo. O primeiro con-
siste em fenômenos conhecidos por nossa própria experiência. Surgem da mes-
ma maneira que os processos psíquicos correspondentes, os quais, em condições
normais, emergem uns dos outros de maneira inteligível. Diferenciam-se apenas
em seu modo de origem dos fenômenos, de outra maneira muito similares, ocor-
rendo em doentes mentais, por exemplo, muitas falsificações da memória.
Há também fenômenos que devem ser entendidos como exageros, atenuações
ou combinações de fenômenos que nós próprios experimentamos, por exemplo,
os êxtases de algumas psicoses agudas, pseudo-alucinações, e impulsos mórbidos.
Até onde nossa “compreensão” pode alcançar, em tais casos, quando não podemos
baseá-la em quaisquer experiências conscientes similares, é uma questão que não
pode ser respondida conclusivamente. Algumas vezes parece que nossa
compreensão pode ir além das possibilidades garantidas por nossas próprias
experiências, mesmo aquelas similares.
O terceiro grupo de fenômenos patológicos se distingue dos dois grupos
anteriores por sua completa inacessibilidade a qualquer compreensão empática.
Apenas podemos nos aproximar dos mesmos por meio de analogias e metáforas.
Percebemo-os individualmente, não por qualquer compreensão dos mesmos em
sentido positivo, mas por meio da obstrução ao curso de nossa compreensão em
face ao incompreensível. Neste grupo podemos talvez incluir os chamados
pensamentos e afetos “fabricados” que muitos pacientes relatam como
experiências verdadeiras (experiências de passividade), mas as quais jamais
podemos identificar a não ser pelo uso de termos como estes, e através de uma
série de observações tencionando determinar o que estes fenômenos não são.
Alguns pacientes que, a despeito de sua psicose, preservaram a consciência sobre
sua vida mental normal prontamente admitem a impossibilidade de descreverem
suas experiências pela linguagem comum. Certo paciente explicou: “Em parte se
tem de lidar com coisas que simplesmente não podem ser expressas em linguagem
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humana. Se quero ser entendido, ao menos em alguma medida, tenho de usar
figuras de linguagem e analogias que não podem mais do que se aproximar da
verdade; a única possibilidade é realizar alguma comparação com fatos bem
conhecidos da experiência humana...”. Em outro caso: “Tem-se que considerar
que se trata mais de uma questão de perspectiva; há estas imagens em minha
cabeça, mas é excepcionalmente difícil descrevê-las em palavras, às vezes
definitivamente impossível”. Alguns – embora não muitos – dos neologismos
cunhados pelos pacientes são baseados em esforços similares para nomear suas
próprias experiências. Certo paciente tentou descrever uma sensação em seu
quadril, com mais precisão, do seguinte modo: Quando indagado se o que sentia
era uma “fisgada”, respondeu: “Não, não é uma fisgada, é uma ‘plotchada’”.
Desde o princípio, a psiquiatria teve de se preocupar com a delimitação e
nomeação destas distintas formas de experiência. Não poderia, certamente, ter
havido qualquer avanço sem tais definições fenomenológicas. Delírios,
falsificações dos sentidos, alterações depressivas e expansivas de humor, e muito
mais foram descritos. Todos estes permanecerão como fundamentos para as
pesquisas fenomenológicas posteriores. Freqüentemente, contudo, temos primeiro
que nos livrar das amarras das teorias sobre as supostas bases físicas ou estrutura
psicológica destes fenômenos. Numerosas abordagens fenomenológicas têm sido
quase decisivamente obstadas por tais empreendimentos teóricos. Não podemos,
a esta altura, nos satisfazer com apenas umas poucas e falhas categorias, mas
devemos nos voltar sem qualquer pré-concepção aos fenômenos em si mesmos.
E se pudermos identificar algum, nós procuraremos concebê-lo e descrevê-lo tão
completamente quanto possível, sem alegarmos conhecer previamente em que
consiste o fenômeno em virtude de nosso conhecimento em psicologia. A atual
classificação dos sintomas da insanidade em falseamentos sensoriais e delírios
pode ser útil em sentido mais grosseiro e bem definido, mas estes termos abarcam
uma ainda inexplorada diversidade de fenômenos.
Uns poucos exemplos podem ilustrar o tipo de fenômeno que pode ser
delimitado. Kandinsky ofereceu uma descrição das pseudo-alucinações, uma
variedade específica de imagem mórbida. Estas diferem das imagens normais por
sua maior concretude sensorial, clareza de detalhes, por seu surgimento
independente e até contrário à vontade do indivíduo, e por ser acompanhada por
uma experiência de passividade e haver sido infligida. Por outro lado, diferem das
alucinações e da percepção normal por não surgirem no espaço externo como as
percepções, mas no espaço interno, no qual as imagens também são vivenciadas.
Tal concepção de pseudo-alucinação tem sido atacada por meio de considerações
teóricas. Entretanto, a questão é puramente fenomenológica e descritiva. Seria
possível representar os casos referidos de outro modo mais convincente; poder-
se-ia mencionar outros casos (autodescrições, resultados de outras investigações);
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mas é somente por meio de representações claramente estabelecidas deste tipo que
as proposições de Kandinsky podem ser refutadas, não por meras considerações
teóricas. A tarefa da fenomenologia é autônoma, e o conhecimento disso protegerá
contra críticas fundamentadas em má compreensão e, portanto, improdutivas.
Não é incomum, ainda, que pacientes relatem experiências, momentaneamen-
te conscientes, de haver alguém logo atrás ou acima deles. Ao olharem ao redor,
este alguém também se viraria; eles “sentem” isto, realmente há alguém lá. Con-
tudo, tais pacientes não têm a experiência sensorial de real contato, ou mesmo
qualquer outra experiência sensorial, tampouco jamais vêm a ter qualquer con-
tato cara a cara com a suposta pessoa. Alguns destes pacientes chegam à con-
clusão de que não há ninguém lá, enquanto outros persistem convencidos da
existência desta pessoa cuja presença sentem tão vividamente. Aqui não se trata,
obviamente, de uma falsificação sensorial, já que tal elemento sensorial está au-
sente; tampouco de uma idéia delirante, já que, de fato, o que há é uma experiên-
cia que se submete a um juízo, e tal juízo pode ser correto ou delirante. Um
terceiro exemplo, extraído da esfera afetiva, mostra como, simplesmente pela
“imersão” pessoal em um fenômeno particular e sem a ajuda de qualquer teoria
ou sistema, se pode chegar a uma representação e delimitação de tais fenômenos.
Por exemplo, ouve-se falar de “sentimentos de êxtase”: entre estes se pode pron-
tamentedistinguir, senão diferentes fenômenos, ao menos distintos matizes de
sentimentos. Não nos preocupamos, aqui, com estarmos certos ou errados em
situações específicas. Pode-se distinguir, em primeiro lugar, um entusiasmo ge-
neralizado, emoção ou maravilhamento, envolvendo tudo o que é concebível; em
segundo lugar, uma profunda felicidade da qual alguma imagem prazerosa oca-
sionalmente emerge; e, em terceiro lugar, um sentimento de elevação e graça, de
completude e grande significado. Tais distinções rapidamente feitas, para terem
seu valor ultimado, devem, então, ser objetos de elaboração fenomenológica adi-
cional.
Os métodos da fenomenologia psicopatológica foram aqui discutidos
(apreensão das expressões motoras, exploração das experiências dos pacientes,
e autodescrições); também as indicações indiretas pelas quais somos guiados em
direção à nossa própria representação do fenômeno (observando suas origens, as
condições e circunstâncias em que surgem, seus conteúdos, elementos bem
conhecidos que possam conter, indicações simbólicas etc.). E a única questão que
persiste é o como podemos prover a motivação para que outros construam suas
próprias representações do fenômeno à luz do que já foi desenvolvido. Em um
trabalho fenomenológico, portanto, casos individuais serão apresentados e
terminologia será estabelecida. Dizer que a fenomenologia lida apenas com dados
presentes de modo imediato não consiste em censura à mesma, mas apenas
confirma a afirmação de um fato. Contudo, sempre será custoso definir como se
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pode passar do caso individual para um entendimento mais geral e uma delimitação
mais completa. Deve-se ter em mente que as experiências de pacientes individuais
são infinitamente variadas, e que a fenomenologia apenas extrai delas algumas
características gerais que podem ser igualmente achadas em outros casos e,
portanto, podem ser tomadas pela mesma característica, enquanto a infinidade de
experiências pessoais continua mudando. Sustentamos, assim, que por um lado
a fenomenologia efetua abstrações a partir de uma infinidade de elementos em
contínua mudança, e de outro lado é definitivamente orientada ao perceptível e
ao concreto, não ao abstrato. Apenas onde algo pode ser reduzido ao “real” e se
tornar um dado imediato, isto é, se tornar concreto, pode haver matéria para a
fenomenologia.
Classificando grupos de fenômenos
Assumamos que, como descrito acima, uma variedade de fenômenos possam
ser delineados e iluminados. Neste momento parecemos nos situar, novamente,
perante um caos de incontáveis fenômenos descritos e definidos, mas ainda
insatisfatórios diante de nossas necessidades científicas. O processo de
delimitação deve se seguir pela colocação dos fenômenos em algum tipo de ordem,
de modo a podermos ter acesso ao conhecimento da diversidade da vida psíquica
de maneira sistemática, e tornar possível a investigação dos mesmos além dos
limites do já alcançado. Os fenômenos podem ser organizados de modos bastante
distintos, de acordo com o propósito que se tem em vista. Por exemplo, podem
ser organizados segundo suas origens, determinantes físicos, conteúdos ou
significados numa determinada perspectiva – como a estética, ética ou lógica.
Todos estes princípios classificatórios devem ser usados nos espaços que lhes
competem; mas para a fenomenologia não são satisfatórios. Buscamos uma
classificação que organize os fenômenos psíquicos conforme suas similaridades
fenomenológicas entre si, tal como um infinito número de cores são organizadas
num espectro de uma maneira fenomenologicamente satisfatória. Contudo, no
atual estado de desenvolvimento da fenomenologia, parecem existir numerosos
grupos de fenômenos entre os quais nenhuma relação pode ser observada. Senso-
percepção e idéias, alucinações e delírios, mais parecem ser fenômenos separados
por um abismo do que unidos por transições. Fenômenos assim completamente
não relacionados somente podem ser inscritos sob denominações distintas, e não
podem ser organizados em qualquer padrão específico na vida psíquica.
Mas há outros grupos de fenômenos que podem ser relacionados e
organizados de modo sistemático. Entre estes, transições podem ser comumente
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distinguidas (como entre as cores). Como exemplo de tal arranjo sistemático de
fenômenos correlatos pode ser citado o caso das pseudo-alucinações. Em
considerações detalhadas de casos individuais, tem-se a impressão de que
transições existem entre as imagens normais e pseudo-alucinações completamente
desenvolvidas (que nunca tomam característica de materialidade, e permanecem
no espaço psíquico interno, aquele ocupado pelas imagens). Investigando estes
fenômenos é possível encontrar quatro principais pontos de contraste, entre os
quais eles podem variar ao longo de uma série de transições. Então, se
conseguimos descrever cada fenômeno em termos de sua posição aproximada
dentro destas séries, teremos caracterizado este fenômeno particular
satisfatoriamente do ponto de vista fenomenológico, situado como está entre a
imagem e a pseudo-alucinação. Estes quatro pontos de contraste são como segue:
 Imagens normais
1. Vagas, incompletas em detalhes.
2. Uns poucos elementos sensoriais são
adequadamente percebidos, ou mesmo
nenhum; por exemplo, a imagem de uma
face num tom neutro.
3. Dissolvem-se, se dispersam, têm de ser
constantemente recriadas.
4. Têm caráter volitivo; podem ser evocadas
ou transformadas pela vontade. O senti-
mento é de participação ativa.
Pseudo-alucinações
completamente formadas
1. Bem definidas, completas em detalhes.
2. Os elementos sensoriais são adequada-
mente percebidos, como na percepção
normal.
3. São dotadas de constância e são de fá-
cil retenção.
4. São involuntárias, não podem ser evoca-
das nem modificadas por escolha própria.
Associadas a sentimentos de passivida-
de e de serem externamente impostos.
Este exemplo, que não será discutido adicionalmente aqui, mostra como
damos início ao agrupamento de fenômenos em bases puramente
fenomenológicas, usando como pontos de distinção apenas os aspectos dos
fenômenos que são realmente experimentados, e excluindo quaisquer noções ou
teorias em adição. Ademais, mostra como é vital distinguir entre transições
fenomenológicas e separações fenomenológicas. A existência de transições
permite-nos colocar os fenômenos em uma ordem, mas onde há separações
apenas podemos enumerar ou contrastar os opostos. Ao mesmo tempo, é evidente
que para reconhecer um grupo de fenômenos como um novo grupo do ponto de
vista fenomenológico, separado daqueles já reconhecidos, às vezes é algo a ser
decidido apenas após cuidadosa consideração de claras evidências. Atualmente,
contudo, quando muitos buscam reduzir os dados psíquicos a termos limitados
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e o mais simples possíveis, é preferível, todavia, aceitar a multiplicidade de
fenômenos – que podem ser organizados posteriormente – do que se deixar levar
por algum sistema psicológico superficial construído apenas com uns poucos
elementos.
Enquanto o ideal da fenomenologia é a infinidade de características
irredutíveis, classificadas e organizadas a fim de permitir sua investigação, há um
outro ideal, oposto: aquele dos elementos irredutíveis menos numerosos possíveis,
como na química. Segundo esta perspectiva, todos os complexos fenômenos
psíquicos poderiam ser derivados destes elementos, e todos os fenômenos
psíquicos deveriam poder ser satisfatoriamente apresentados pela sua fragmentação
nestes elementos. Para ser consistente, tal posicionamento deve prever a
possibilidade de se sustentar com um único átomo psíquico, sendo, tudo que é
psíquico, construído por distintas configurações desta partícula. Tal idéia
aproveita-se do exemplo das ciências naturais, e decerto tem implicações em
relação à origem das variedades psíquicas. Tal como a infinita variedadede cores
pode ser reduzida a diferenças puramente quantitativas de comprimento de onda,
também se poderia desejar explicar a origem das variedades psíquicas e, talvez,
estabelecer diferentes classificações, nestas bases. Para a fenomenologia,
entretanto, tal questão parece bem pouco importante. O objetivo da análise
fenomenológica é amplificar o conhecimento sobre o fenômeno psíquico por meio
de sua clara delimitação. Como um procedimento entre outros, a fenomenologia
lança luzes sobre elementos psíquicos que se mostram como constituintes daquilo
que é estudado. Esta fragmentação de estruturas complexas em seus constituintes
é apenas um modo de proceder; mas aqueles que adotam o ponto de vista descrito,
que é válido apenas em relação à gênese dos fenômenos psíquicos, falam como
se fosse a única possibilidade. Explicariam a percepção, por exemplo, analisando-a
em elementos sensoriais, percepção espacial e atitude intencional; enquanto a
fenomenologia verdadeira primeiramente compararia percepções com imagens –
as quais são compostas pelos mesmos elementos – e chegaria à conclusão que
a percepção deve ser caracterizada como uma qualidade psíquica irredutível.
Mesmo quando, ocasionalmente, a idéia da “análise em elementos irredutíveis” –
tal qual a idéia de “análise como a delimitação de tipos irredutíveis” – parece se
apresentar como puramente fenomenológica e não influenciada pela perspectiva
genética, ela ainda tende a reincidir, em todas as oportunidades, em confusão com
considerações genéticas: novamente diz-se que estruturas psíquicas complexas
emergem de uma combinação de elementos. A fenomenologia, por outro lado,
recusa o ideal dos menos numerosos elementos possíveis; ao contrário, ambiciona
lidar com a infinita variedade de fenômenos psíquicos apenas para, tanto quanto
possível (dado que a tarefa é evidentemente interminável), tentar fazê-los mais
lúcidos, precisos e individualmente reconhecíveis a qualquer momento.
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Os limites da fenomenologia
Oferecemos acima, ainda que em linhas gerais, os propósitos e métodos da
fenomenologia, que certamente tem sido praticada desde os primórdios da
psiquiatria, mas jamais teve oportunidade de um desenvolvimento sem entraves.
Havendo sofrido muito dano em decorrência de ser confundida com outras linhas,
reforçaremos sucintamente o que a fenomenologia não ambiciona, e com o que
a fenomenologia não deve ser confundida.
À fenomenologia interessa apenas a experiência real, apenas o perceptível e
o concreto, não qualquer elemento que se ensine estar subjacente aos fenômenos
psíquicos e que sejam matéria de construções teóricas. A cada um de seus
achados a fenomenologia deve questionar: isto realmente foi experimentado? Isto
realmente se apresenta na consciência do sujeito? Os achados fenomenológicos
derivam sua validade do fato de que os diversos elementos da realidade psíquica
podem ser repetidamente evocados. Assim, estes achados apenas podem ser
refutados se os elementos de um fato foram erroneamente representados anterior
ou presentemente; jamais podem ser refutados pela demonstração de sua
impossibilidade ou erro, por meio de proposições teóricas. A fenomenologia nada
pode ganhar da teoria: pode apenas perder. A acurácia de uma representação
específica não pode ser verificada pela sua conformidade em relação a critérios
gerais; a fenomenologia deve sempre encontrar seus padrões em si própria. A
fenomenologia, assim, lida com o que é realmente experimentado. Ela vê os
fenômenos psíquicos “como se vê de dentro”, e os traz à percepção imediata. Não
se preocupa, portanto, com manifestações externas, com fenômenos motores,
movimentos expressivos como tais, nem com qualquer tipo de rendimento
objetivo. Já havíamos explicitado a extensão em que expressões motoras e
autodescrições podem ser utilizadas como meios, mas não como objeto, da
fenomenologia. Adicionalmente, a fenomenologia não tem nada a ver com a gênese
dos fenômenos psíquicos. Apesar de seu emprego ser um pré-requisito para
qualquer investigação causal, ela deixa as questões genéticas de lado, e estas não
podem nem refutar nem corroborar seus achados. Estudos causais relacionados
a cores, percepção etc., são extrínsecos à fenomenologia. Mas tais investigações
factuais ainda lhe são menor perigo que as “mitologias cerebrais”, que têm
buscado interpretar a fenomenologia e ressituar-lhe por meio de construções
teóricas dos processos cerebrais fisiológicos e patológicos. Assim, Wernicke,
aquele que de fato realizou importantes descobertas fenomenológicas, distorceu-
as por interpretá-las em termos de “fibras conectivas” e coisas do tipo. Estes tipos
de construções habitualmente impedem as investigações fenomenológicas de
atingirem seu objetivo próprio. Inicialmente os criadores destas construções
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empregam necessariamente a fenomenologia, mas, havendo alcançado tais teorias,
sentem-se em terreno mais seguro, e com notável falha no reconhecimento de
suas próprias fontes declaram todos os resultados fenomenológicos como “muito
subjetivos”.
Por fim, a fenomenologia deve ser mantida separada do que chamamos de
“compreensão genética” dos eventos psíquicos, ou seja, a compreensão de suas
relações significativas. Esta é uma modalidade peculiar de compreensão que se
aplica unicamente às ocorrências psíquicas; ela apreende, com característica de
auto-evidência, como um evento psíquico emerge de outro; como um homem
atacado sente-se raivoso, um amante traído enciumado. Fazemos uso da palavra
“compreensão” tanto para as “representações” fenomenológicas como também
para esta “apreensão” das conexões psíquicas. Para evitar confusões a primeira
é denominada “compreensão estática”; ela é a base em que deve repousar a
definição dos eventos psíquicos. Compreende apenas dados, experiências,
modalidades conscientes e sua delimitação. À última chamamos de “compreensão
genética” – a compreensão das conexões significativas entre uma experiência
psíquica e outra, a “emergência do psíquico a partir do psíquico”. A
fenomenologia, em si mesma, nada tem a ver com esta “compreensão genética”
e deve ser tratada como algo inteiramente separado; ainda que, quando preciso,
ela possa legitimar o estudo de encadeamentos regulares de eventos psíquicos, se
estas são realmente experimentadas e, como tais, juntas, constituem uma unidade
fenomenológica sui generis. Um exemplo, talvez, é a experiência volitiva. Mas tal
encadeamento fenomenológico é algo bem diferente de um fluxo de eventos
psíquicos, surgindo um dos outros. Restringimos a fenomenologia ao que quer
que possa ser compreendido “estaticamente”.
Se olharmos para a psicopatologia como um todo, nosso interesse central
obviamente se localiza sobre aquilo que é “geneticamente compreensível”, nas
relações causais exteriores à consciência, e na determinação das bases físicas dos
processos psíquicos – em outras palavras, no modo como as coisas se
relacionam. A fenomenologia apenas nos torna conhecidas as formas nas quais
todas as nossas experiências – toda a realidade psíquica – ocorrem; ela não nos
diz nada sobre os conteúdos da experiência pessoal do indivíduo, nem qualquer
coisa sobre os fundamentos extraconscientes em que os eventos psíquicos
parecem flutuar como espuma na superfície do mar. Penetrar nestas profundezas
extra-conscientes sempre será mais tentador do que meramente apresentar
achados fenomenológicos, ainda que a realização desta última tarefa seja um pré-
requisito para qualquer investigação adicional. É apenas no cenário destas formas
fenomenologicamente estabelecidas que a vida psíquica real, acessível à nossa
compreensão direta, se desvela. E é, afinal de contas, para chegarmos a uma
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melhor compreensão desta vida psíquica, que nos vemos motivados a investigar
as relações extraconscientes.As tarefas futuras da fenomenologia
Como conclusão, indicaremos algumas tarefas para a fenomenologia.
Nenhum campo na psicopatologia fenomenológica pode ser visto como
completamente explorado. Mesmo onde a natureza do fenômeno é aparentemente
bem definida, como em alguns tipos de alucinações, relatos de casos realmente
bons – e que podem servir para facilitar a visualização e verificar a experiência
de outrem – são tão escassos que descrições cuidadosas e detalhadas desses
relatos ainda são de grande valor. Muito trabalho ainda precisa ser feito quanto
a diferentes tipos de alucinações, particularmente aquelas dos sentidos especiais,
as quais necessitam ser meticulosamente investigadas. Um exemplo óbvio é o do
problema das alucinações visuais ocorrendo simultaneamente a percepções
verdadeiras no espaço objetivo. A fenomenologia das experiências delirantes quase
não foi tratada de modo algum; tudo o que há, até este momento, sobre esta
matéria, é achado em publicações sobre mudanças afetivas como o primeiro
sintoma na paranóia. Estudos sobre fenomenologia das emoções mórbidas são
incrivelmente escassos. O que há de melhor está no excelente trabalho de Janet,
no qual, entretanto, pouca importância é dada à cuidadosa delimitação e
classificação. A experiência subjetiva da própria personalidade foi sistematicamente
examinada por Oesterreich. Por todos estes problemas, descrições
fenomenológicas feitas por psiquiatras com material a sua disposição, tanto quanto
autodescrições mais minuciosas que estas ora disponíveis, seriam da maior
importância.
Em histologia, ao se examinar o córtex cerebral, requere-se consideração a
cada fibra, cada núcleo. Do mesmo modo, a fenomenologia demanda que
consideremos cada fenômeno psíquico e cada experiência que vêm à luz na
investigação de nossos pacientes ou em suas próprias autodescrições. Não
deveríamos, em qualquer circunstância, nos satisfazer com uma impressão geral
extraída do quadro total, mas deveríamos buscar saber, a respeito de cada detalhe,
como ele deve ser visto e avaliado. Assim, se praticarmos este método por algum
tempo, muitas coisas se tornarão menos surpreendentes para nós porque foram
fartamente observadas; enquanto aqueles que se restringem a “impressões gerais”
não se terão dado conta dos fenômenos em questão e, portanto, sempre que estes
vierem à sua atenção pelo direcionamento momentâneo de suas “impressões”, eles
se farão apresentar como novos e surpreendentes. Todavia, o fenomenologista
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experiente dará atenção ao que é realmente novo e desconhecido, e poderá, então,
estar justificadamente admirado; não se precisa temer que as surpresas cessem!
Desnecessário dizer que muitos psiquiatras, em suas práticas, já agem segundo
esta linha e com toda razão achariam impertinente se alegássemos dizer algo novo.
Mas a abordagem fenomenológica ainda não é tão difundida a ponto de não mais
requerer repetidos esforços para promovê-la. Pode-se esperar que sua aplicação
enriqueça ainda mais nosso conhecimento sobre o que o paciente psiquiátrico
realmente experimenta.
http://dx.doi.org/10.1590/0103-6564e180008
Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008 1-9
Resumo: Este artigo se propõe a apresentar a fenomenologia clínica da esquizofrenia construída pelo psiquiatra 
Eugène Minkowski por meio de influências teóricas sofridas a partir das ideias de Kraepelin, Bleuler e Bergson. 
O interesse de Minkowski ao discutir a esquizofrenia é alcançar uma delimitação dessa patologia. Por mais que 
se remeta constantemente a Bleuler por ter sido seu aluno, é na filosofia de Bergson que encontra uma fonte 
sólida para aprofundar sua discussão sobre o aspecto estrutural da esquizofrenia. Com essa influência filosófica, é 
possível compreender a esquizofrenia como perda de contato vital com a realidade, e não como um relaxamento 
de associações, conforme Bleuler destacava. Concluímos que utilizar a fenomenologia clínica da perda do contato 
vital com a realidade e a compreensão da esquizofrenia como perda desse contato com o mundo permite apontar 
um novo direcionamento para estudar esta patologia como uma patologia da intersubjetividade.
Palavras-chave: fenomenologia clínica, esquizofrenia, Minkowski.
1
Artigo
Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a 
fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski
Juliana Pita *
Virginia Moreira 
 Universidade de Fortaleza, Centro de Ciências da Saúde. Fortaleza, CE, Brasil
* Endereço para correspondência: julianapitap@gmail.com
Eixo norteador da obra do psiquiatra Eugène 
Minkowski (1885-1972), a alteração da afetividade-contato, 
ou seja, do meio de acesso à compreensão do humano, 
é fundadora da compreensão fenomenológica como 
implicação clínica (Charbonneau, 2010) com a descrição 
da perda do contato prévio com o mundo na esquizofrenia. 
Em uma perspectiva da psicopatologia fenomenológica 
inspirada em Maurice Merleau-Ponty, a esquizofrenia 
não pode ser definida como um transtorno cognitivo ou 
perceptivo, mas como um transtorno da experiência pré-
intencional e imediata, estando relacionada aos significados 
do mundo vivido (Lebenswelt). Disso decorre que o objetivo 
da psicopatologia fenomenológica é “compreender como a 
unificação da experiência se realiza ou não mais em nós, 
e como se manifesta clinicamente naquela [experiência] 
em que não se realiza mais” (Charbonneau, 2010, p. 65). 
Com este olhar fenomenológico, entendemos que o 
processo psicótico na esquizofrenia apresenta falha na 
unificação da experiência ao condensar a totalidade das 
nossas experiências no convívio social com os outros, 
nomeada por Minkowski como “perda do contato vital 
com a realidade”.
O contato vital com a realidade visa muito mais o 
fundo mesmo, a essência da personalidade viva, 
em suas relações com o ambiente. E esse ambiente, 
para frisar novamente, não é nem um conjunto de 
excitações externas, nem de átomos, nem de forças 
ou de energias. Não; ele é essa onda móvel que nos 
envolve de todas as partes e que constitui o meio 
sem o qual não poderíamos viver. (Minkowski, 
2004, pp. 133-134)
Minkowski é um dos psiquiatras de destaque 
na tradição da psicopatologia fenomenológica, sendo 
conhecido por ter lançado uma trilogia importante para 
pesquisas psicopatológicas na vertente fenomenológica: 
La Schizophrènie (1927/2002), Le temps vécu (1933) e 
Traité de psychopathologie (1966/1999). Trabalhou com 
Eugen Bleuler (1857-1939), o primeiro psiquiatra a nomear 
a esquizofrenia como tal, sendo, portanto, profundo 
conhecedor de suas obras.
Após publicar seu primeiro artigo sobre os textos 
de Bleuler em 1922, Minkowski decide escrever um 
livro sobre esquizofrenia, distanciando-se do caminho 
daquele. Ele não se orienta a partir de um conjunto 
sempre variável de sintomas, como fazia Bleuler, mas 
segue em direção ao conceito de estrutura oferecida pela 
Gestalt. Podemos afirmar que, diferentemente de Bleuler, 
cuja inspiração era o psiquiatra alemão Emil Kraepelin 
(1856-1926), Minkowski é influenciado por Edmund 
Husserl (1859-1938), Henri Bergson (1859-1941) e Karl 
Jaspers (1883-1969) (Allen, 2002).
Ao iniciar a prática da psicopatologia 
fenomenológica em 1922, com Ludwig Binswanger 
(1881-1966), Minkowski aponta para uma mudança na 
postura do psiquiatra diante de seu paciente. O papel 
deste profissional não se limita mais apenas a registrar 
as informações oferecidas pelo paciente e enquadrá-lo 
em um diagnóstico específico, pois entende que o 
psiquiatra, com um viés fenomenológico, “penetra a 
https://orcid.org/0000-0001-8859-4752
https://orcid.org/0000-0003-2740-0023
Psicologia USP I www.scielo.br/pusp
2
2
Juliana Pit & Virginia Moreira
2
realidade desta experiência” (Allen, 2002, p. 18) para 
apreender de que modo ocorrem as falhas que bloqueiam 
o fluxo de sua experiência.
O interesse de Minkowski (1927/2002) por esse 
caminho complexo da discussão da esquizofrenia 
busca delimitar o conceito. Para isso, necessita partirde pesquisas anteriores sobre a temática, como as de 
Bleuler, primeiro psiquiatra a descrever a “clínica da 
esquizofrenia” (p. 28) de forma mais detalhada e rica. 
Após seu contato com Bleuler, Minkowski (1927/2002) 
encontra entraves nas proposições teóricas presentes 
nesses estudos, pois a esquizofrenia era definida como 
uma doença mental particular e, para o autor, este conceito 
carece de ampliação.
As ideias bleulerianas facilitam o avanço de 
Minkowski (1927/2002) em direção a uma “nova orientação 
psicopatológica” (p. 28) para fundamentar a psiquiatria 
moderna. Encontramos na esquizofrenia um caminho 
fértil para compreender estes novos embasamentos 
psiquiátricos ao destacar os questionamentos sobre os 
estudos dos mecanismos esquizofrênicos e a análise 
psicológica do comportamento particular de pacientes 
esquizofrênicos. Tomando essas duas inquietações como 
ponto de partida, Minkowski elabora suas pesquisas 
sobre a patologia.
Este artigo consiste em uma pesquisa teórica e 
apresenta a evolução do conceito de demência precoce à 
esquizofrenia e a inspiração de Minkowski na filosofia 
de Bergson. Tem como objetivo descrever a contribuição 
de Kraeplin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia 
clínica da esquizofrenia de Eugene Minkowski.
Krapelin e Bleuler: da demência precoce à 
esquizofrenia
Kraepelin apresentara um conceito sintético e 
amplo de demência precoce definindo-o como resultado 
de um conjunto de formas clínicas particulares, como 
a catatonia, a hebefrenia e a demência paranoide. 
O termo demência precoce utilizado por Kraepelin 
ainda se restringe à definição desse mesmo conceito 
desenvolvido pelo psiquiatra franco-austríaco Bénédict 
Morel (1809-1873), pois aponta para um quadro de 
empobrecimento intelectual com surgimento após a 
adolescência ou no início da idade adulta (Pereira, 2000; 
R. C. B. Silva, 2006).
O conceito de demência precoce de Kraepelin traz 
um novo problema para o campo psicopatológico, por 
se tratar da junção de formas clínicas diferentes em um 
mesmo conceito, entendendo-as de maneira semelhante. 
Assim, juntam sintomas com características próprias 
por meio do conceito de demência precoce, o que, para 
Minkowski (1927/2002), desvaloriza a singularidade de 
cada sintoma.
Os sintomas são compreendidos por Kraepelin 
como diferentes entre si, mas direcionam a um mesmo 
local, ou seja, eles têm algo em comum a dizer sobre 
um “processo mórbido subjacente, sempre o mesmo” 
(Minkowski, 1927/2002, p. 101). Surge, então, a 
necessidade de compreender a riqueza dos diversos 
sintomas e quadros clínicos da demência precoce como 
transtorno fundamental.
A demência precoce não deveria ser pesquisada 
apenas a partir dos sintomas clínicos apresentados pelo 
paciente, pois não são constantes nem podem oferecer 
características básicas para essa patologia. Um transtorno 
fundamental não deve ser estudado por suas bases 
comuns, os sintomas, mas precisa ser visto por outro 
ângulo para acessar suas particularidades sem se limitar 
às variedades de sintomas encontrados na esquizofrenia 
(Minkowski, 1927/2002).
Além de suas proposições acerca dos sintomas 
clínicos receberem críticas, Kraepelin também é acusado 
de negligenciar a análise psicológica na constituição da 
demência precoce, pois, desde os estudos do psiquiatra 
francês Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), essa análise 
deve integra qualquer compreensão dos fenômenos 
psicóticos (Pereira, 2000). Mesmo assim, para Minkowski 
(1927/2002, 1966/1999), a compreensão psicológica da 
esquizofrenia é superficial, tendo em vista que os aspectos 
analisados pela psicologia mais reconhecida da época se 
limitavam à inteligência, aos sentimentos e à vontade, e 
essa patologia não consegue ser discutida exclusivamente 
sob essas três vertentes.
Kraepelin traça uma hipótese psicofisiológica 
da demência precoce como transtorno da abstração por 
encontrar um enfraquecimento das motivações emocionais 
e uma perda da unidade interior, levando o paciente à 
falha das ideias e à fragilização dos sentimentos. Com o 
transtorno de abstração, o paciente se torna incapaz de 
transformar as percepções em ideias mais gerais.
Partindo das questões levantadas por Kraepelin 
sobre a demência precoce, Bleuler busca esclarecê-
las a partir das categorias da psicanálise freudiana. 
Comentando isso, Pereira (2000) aponta que:
De Jung, ele já recebera a noção, expressa em 
A psicologia da demência precoce, segundo a qual 
o que faz a especificidade dessa psicopatologia 
não é propriamente a qualidade dos complexos, 
mas a extrema fixação que o sujeito tem a estes, 
instalando-se uma situação insuportável de 
absorção de todos os interesses do indivíduo em 
seu próprio mundo psíquico, isolando-se dos laços 
afetivos, da vida social e do próprio contato com a 
realidade. A noção bleuleriana de “esquizofrenia” 
buscaria, justamente, colocar em relevo aquele que 
seria o fenômeno nuclear desses estados mentais, a 
ruptura, a cisão do eu, em função do rompimento 
dos vínculos associativos que assegurariam um 
funcionamento unitário da personalidade. (p. 161)
Em 1906, Bleuler começa a utilizar o termo 
esquizofrenia para definir sua diferenciação das ideias 
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Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski
de Kraepelin, pois, para aquele, o transtorno não se 
limita a uma única afecção, mas a um grupo ainda não 
definido de condições com um núcleo comum. Com 
esse conceito, Bleuler destaca os sintomas primários 
como irredutíveis à compreensão psicológica e que 
possibilitam o aparecimento da patologia (Pereira, 
2000; R. C. B. Silva, 2006).Os sintomas primários fazem 
referência à clivagem das associações entre as funções 
psíquicas, rompendo a unidade do eu e colocando em jogo 
a necessidade de restituição da integração perdida a ser 
apontada pelos sintomas secundários. Estes se referem às 
tentativas de sustentar um estado psíquico desesperador 
de ruptura da unidade do eu, como a alteração do fluxo 
do pensamento, a ambivalência afetiva, os delírios e as 
alucinações (R. C. B. Silva, 2006).
Bleuler destaca outra diferença entre os sintomas 
fundamentais e os acessórios. Os primeiros são os que 
aparecem em todos os níveis e períodos da esquizofrenia: 
o autismo, a ambivalência afetiva, as alterações da 
afetividade e os distúrbios das associações. Os sintomas 
acessórios, que não aparecem necessariamente em todo 
paciente esquizofrênico ou em todos os estágios dessa 
patologia, são: delírios, alucinações e outros. Os sintomas 
primários são definidos a partir da interpretação dos 
sintomas do paciente e de uma concepção global da 
patologia (Pereira, 2000; R. C. B. Silva, 2006).
Minkowski (1927/2002), não satisfeito com 
o caminho para o qual se direcionam as discussões 
sobre esquizofrenia, assim como Bleuler, segue o 
olhar psicanalítico, mas conclui que esta seria apenas 
uma forma de compreender a patologia. Bleuler traça 
dois aspectos a serem observados na esquizofrenia: o 
primeiro com um olhar psicoclínico estrutural e o segundo 
partindo de uma abordagem psicanalítica. Com o olhar 
psicoclínico, estuda-se a estrutura da personalidade do 
paciente e determinam-se suas principais características 
para entender como esses fenômenos se organizam e se 
reestruturam com a falta de um deles. Com a compreensão 
psicanalítica, investigam-se os eventos no passado do 
paciente que podem estar relacionados e afetando seu 
presente com intuito de delinear o conteúdo psicológico 
de seus sintomas (Minkowski, 1927/2002).
Seguindo essa explicação, Minkowski (1927/2002) 
argumenta que:
Os dois lados da noção de Bleuler, intimamente 
ligados entre si, parecem destinados a seguir, 
no curso da evolução, direções cada vez mais 
divergentes. É o aspecto estrutural que eu procuro 
destacar, por isso, é esse aspecto que, em minha 
concepção, constitui a pedra angular do problema 
da esquizofrenia, e até mesmo além,de uma 
psicopatologia geral do futuro. (p. 30)
Os dois aspectos – psicoclínico estrutural e 
psicanalítico –, para Minkowski, propõem direcionamentos 
distintos para entender mais profundamente a 
esquizofrenia. Considerando o olhar psicanalítico 
insuficiente, ele não se esquece da existência dos sintomas 
que necessitam de compreensão psicológica, enfatizando 
que são justamente estes que precisam ser aprofundados. 
O aspecto estrutural é selecionado por Minkowski para 
embasar o novo olhar fenomenológico que se estabelece 
em suas pesquisas relativas à esquizofrenia naquele 
momento, pois este é entendido por ele como o melhor 
direcionamento para investigar o vivido esquizofrênico 
de seus pacientes.
Seja qual for o termo utilizado para se referir a 
essa patologia – demência precoce com Kraepelin ou 
esquizofrenia com Bleuler –, o objetivo de Minkowski 
(1927/2002) é clarificar o transtorno fundamental da 
esquizofrenia sem se deter a uma função do psiquismo 
a que este transtorno deva remeter, pois, para ele:
O transtorno essencial não altera uma ou mais 
faculdades mentais, independentemente de sua 
ordem na hierarquia das funções, mas reside 
bem entre elas [funções], no “espaço intersticial”. 
Contudo todas essas expressões não são, no fundo, 
apenas uma constatação do fato, uma designação 
de desordem particular que apresentam os dementes 
precoces ou os esquizofrênicos. (p. 103)
A esquizofrenia se impõe a ela mesma, tornando 
desnecessária ou irrelevante a definição de sua origem 
orgânica ou psíquica. Nesse caminho, a ideia de Minkowski 
(1927/2002) é não se limitar a tentar identificar qual 
função do psiquismo se altera e origina a esquizofrenia, 
pois, já com Kraepelin, falava-se em uma “orquestra sem 
maestro” (p. 104). O olhar fenomenológico de Minkowski 
possibilita uma compreensão da estrutura do vivido 
esquizofrênico. Para ilustrar, destacamos uma metáfora 
construída por Minkowski (1927/2002):
Um prédio é feito de tijolos e cimento, os tijolos 
podem se esmigalhar, o cimento também; o edifício 
não existe mais; contudo, trata-se nos dois casos 
de situações diferentes; as ruínas não serão as 
mesmas, não terão nem o mesmo aspecto, nem o 
mesmo valor; seria mais fácil reconstruir uma nova 
casa com os tijolos intactos do que com a poeira. 
(pp. 104-105)
Com esta metáfora da destruição de um prédio, 
Minkowski (1927/2002) nos diz que ele pode ser destruído 
de diversas formas, e seus diferentes materiais estruturais, 
como tijolo e cimento, podem se tornar poeiras distintas. 
Não buscamos definir a origem da queda do prédio, mas 
estamos diante de dois modos completamente singulares de 
como a queda aconteceu. Com isso, se algo da estrutura do 
prédio permanece preservado, torna-se mais fácil construí-lo 
com os restos dos tijolos do que com a poeira do cimento.
Utilizando essa metáfora para pensar os processos 
envolvidos na elaboração da esquizofrenia, o desejo 
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pode se manter; o que não há é a obrigatoriedade ou a 
necessidade de definir o lugar de sua origem. Entende-se 
que não podemos saber como se constitui o processo 
esquizofrênico destacando, por exemplo, as falhas, como 
encontradas no exemplo do desmoronamento do prédio 
ou no enfraquecimento intelectual do esquizofrênico.
Com um olhar fenomenológico, não buscamos 
unicamente a origem da esquizofrenia, muito menos 
tentar fundir diversas formas clínicas em uma única 
nomenclatura, como já fazia Kraepelin com a demência 
precoce. A constante procura por definições limitantes 
destacadas pela ciência médica não auxilia na compreensão 
dos mais variados vividos esquizofrênicos, pois, com isso, 
sacrifica-se a experiência vivida por cada paciente em 
seus diversos modos esquizofrênicos.
A filosofia de Bergson como inspiração 
para Minkowski
Nosso objetivo, aqui, é identificar as relações 
entre Minkowski e a filosofia de Bergson, assim como 
as características gerais de seu pensamento para, 
posteriormente, discutir o conceito de perda do contato 
vital com a realidade na esquizofrenia. Por mais que 
remeta constantemente ao trabalho psiquiátrico de Bleuler 
por ter sido seu aluno, é na filosofia de Bergson que 
Minkowski encontra uma fonte sólida para aprofundar sua 
discussão fenomenológica sobre o aspecto estrutural da 
esquizofrenia. Com essa influência filosófica, Minkowski 
compreende a esquizofrenia como a perda de contato 
vital com a realidade, e não como um relaxamento de 
associações, tal como Bleuler a entende. Com a ideia de 
perda de contato, ou seja, a perda da dinâmica das relações 
sociais, desvendam-se as manifestações características 
dessa patologia, destacando que todos os sintomas, sejam 
acessórios ou primários, estão direcionados a um ponto 
em comum – a perda do contato vital com a realidade. 
Para Minkowski (1927/2002):
Um dos maiores filósofos contemporâneos, Bergson 
nos lembrou, mais uma vez, que um aspecto de nossa 
vida e não o menos importante fugia inteiramente 
ao pensamento discursivo. Os dados imediatos 
da consciência, os mais essenciais, pertencem 
a essa ordem dos fatos. Eles são irracionais. Não 
são menos importantes em nossa vida por causa 
disso. Não existe nenhum motivo em sacrificá-los 
em razão da precisão. É necessário, pelo contrário, 
tentar apreendê-los a partir do vivido. (p. 105)
Minkowski (1927/2002) reconhece a grande 
importância de olhar para esses dados imediatos da 
consciência a partir do vivido, e não pelo enfoque 
científico. Embora não desvalorize as fundamentais 
contribuições oferecidas pela obra bleuleriana, pois fora 
ela quem lhe ensinara sobre psiquiatria, ele continua sua 
investigação por uma via diferente, a estrutural, por fazer 
mais sentido no esclarecimento de seus questionamentos a 
respeito da patologia discutida aqui. Para isso, ele destaca 
a necessidade da psiquiatria moderna descobrir mais 
sobre a esquizofrenia e sua relação com as experiências 
de quem a vivencia, encontrando o caminho para falar 
sobre os fenômenos essenciais da vida do homem nas 
obras de Bergson.
O filósofo francês Henri Bergson se dispõe a 
discutir o impulso originário da vida questionando o 
significado de existir. Constrói essa ideia partindo de 
críticas às teorias deterministas do homem, como o 
mecanicismo e o finalismo, nas quais são propostas 
as reduções da existência humana em leis previsíveis e 
manipuláveis, buscando como ponto de partida a duração 
do tempo. Afirma que:
O que existe é o fluir de uma continuidade. Se a 
nossa existência fosse constituída por estados 
separados cuja síntese teria que ser feita por um 
“eu impassível”, não existiria para nós duração. 
Porque um eu que não muda, não dura, e um estado 
psicológico que permanece idêntico a si próprio, 
enquanto não é substituído pelo estado seguinte, 
igualmente não têm duração. (Bergson, 1889/2013, 
pp. 43-44)
Caso a existência humana fosse previsível 
e controlável, não haveria duração de um tempo e, 
consequentemente, esse homem seria estático, não haveria 
mudança e se encontraria em um estado psicológico 
paralisado. O psicológico, para Bergson (1889/2013), é 
constituído pelo tempo, já que “nossa personalidade se 
desenvolve, cresce e amadurece sem cessar. Cada um dos 
momentos é algo novo . . . não é apenas algo novo, mas 
algo imprevisível” (p. 45). O imprevisível se refere a um 
“arranjo de elementos antigos” (p. 65), algo de que nunca 
tivemos percepção, pois cada momento é uma história 
que se desenvolve e “cada um deles é uma espécie de 
criação” (p. 46) que sempre nos modifica. Com isso, 
Bergson aponta para a inexistência de uma lei biológica 
idêntica para todos.
Discutindo o impulso originário da vida, 
percebe-se que:
Nenhuma das duas teses, nem aquela que afirma, 
nem aquela que nega a possibilidade de algum dia 
se produzir quimicamente um organismo elementar, 
pode invocar a autoridade da experiência. Ambas 
são inverificáveis; a primeira, porque a ciência 
ainda nãodeu sequer um passo para a síntese 
química de uma substância viva, a segunda, 
porque não existe nenhum meio pensável de provar 
experimentalmente a impossibilidade de um fato. 
(Bergson, 1889/2013, p. 70)
Para ele, de um lado, nossas vidas são guiadas 
por pensamentos discursivos. Não que eles tenham 
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Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski
menos importância, mas, seguindo apenas o caminho 
pautado pelo pensamento racional, muitas vezes 
menosprezamos nossos sentimentos. Até por volta de 
1900, devido à forte influência das ideias de Descartes 
mostrando o homem como um ser pensante, a loucura é 
vista como sinônimo de “perda da razão” (Minkowski, 
1927/2002, p. 154), e esse é o ponto de vista da maioria 
dos psiquiatras clássicos.
Minkowski (1927/2002) destaca que o homem 
sonha ao dormir, e o esquizofrênico, embora não esteja 
dormindo, expressa sua vida íntima do mesmo modo como 
o sonhador. Para compreender melhor esse mecanismo 
sonhador na esquizofrenia, Minkowski (1927/2002) 
recorre à explicação de Bleuler sobre o que significa o 
autismo: “os esquizofrênicos mais avançados que não têm 
mais nenhuma relação com a ambivalência vivendo em 
um mundo que é apenas deles” (p. 165), como alguém 
que está sonhando. Pereira (2004) assinala que:
A psicopatologia de Bleuler, diferentemente da 
ênfase descritiva e classificatória de Kraepelin, 
fundava-se na busca da delimitação precisa 
do “transtorno gerador” do distúrbio mental. 
Tratava-se, sobretudo, de identificar a perturbação 
psicopatológica fundamental sobre a qual se instala 
o quadro clínico observável. Sob essa perspectiva, 
os sintomas primários da esquizofrenia exprimiriam 
uma profunda alteração da personalidade, derivada 
do conjunto de reações mentais ao transtorno 
gerador. Este elemento psicopatológico primário 
era, segundo Bleuler, claramente identificável 
na esquizofrenia: a desagregação, a clivagem da 
personalidade. (pp. 126-127)
Visto que a esquizofrenia é compreendida por 
Bleuler por meio de seus sintomas, como a ideação, a 
afetividade e a volição do doente, no momento de suas 
investigações, com o surgimento das primeiras tentativas 
de definição do autismo, os fatores de compreensão 
começam a se deslocar e um papel muito importante 
passa a ser ocupado pelas relações do homem com o 
meio no qual ele se insere. A falta de diretriz e a ausência 
de contato afetivo dos pacientes esquizofrênicos abrem 
portas para o surgimento de outra forma de compreensão 
dessa patologia (Minkowski, 1927/2002; 1999/1966), a 
qual se direciona para discutir a esquizofrenia como 
uma patologia da intersubjetividade, que é vivida na 
relação do homem com o mundo (Souza, Callou, & 
Moreira, 2013). Portanto,
trata-se de uma compreensão do adoecimento 
psicopatológico que não se apresenta a partir de um 
pensamento reflexivo e externalizado, mas como 
uma coexperiência, em que temos o transtorno e 
também a experiência do sujeito adoecido. (Souza 
et al., 2013, p. 195)
A fragmentação da experiência psíquica em 
pensamento, afetividade e memória oferece, para 
Minkowski, uma forma artificial de compreensão do 
processo psíquico como um todo na esquizofrenia. 
Buscando a descrição da experiência vivida tal como 
ela se dá, a fenomenologia oferece ferramentas para isso. 
Opondo-se ao reducionismo objetivista dos fenômenos 
psíquicos, o método fenômeno-estrutural de Minkowski 
busca o encontro mais próximo possível com o humano. 
Não objetiva apenas descrever a experiência vivida do 
indivíduo em sofrimento mental, como feito por Jaspers 
em Psicopatologia geral (1913), mas se propõe a relacionar 
tais experiências com uma estrutura organizadora dessas 
alterações patológicas (Pereira, 2004). Aqui nos referimos 
à estrutura na qual “qualidades expressivas do espaço e 
do tempo vividos assume um dos papéis fundamentais 
na apreciação das características psicopatológicas e, mais 
amplamente, psicológicas da personalidade” (Barthélémy, 
2012, p. 96). Entende-se que:
É nessa perspectiva, também, que Minkowski 
assume resolutamente a concepção de que a 
psicopatologia constitui uma psicologia do 
patológico, e não uma patologia do psicológico. Essa 
última proposição obriga o clínico e o pesquisador 
a recorrerem a uma incerta referência à noção de 
“normalidade”, concebida como padrão absoluto a 
partir do qual se definem os desvios mórbidos da 
vida mental. (Pereira, 2004, p. 128)
Com essas ideias, Minkowski (1927/2002) se 
distancia dos conceitos de Bleuler e traça um caminho 
sobre o transtorno essencial da esquizofrenia definindo-o 
como a perda do contato vital com a realidade. Essa 
condição de perda do contato permite a instalação de um 
modo de estar patológico e o aparecimento de sintomas 
secundários:
Ao contrário, ao conhecer a experiência humana 
como intrinsecamente pática, ou seja, fundada sobre 
o pathos da paixão e do sofrimento, a psicopatologia 
tem por tarefa a descrição de formas singulares de 
existência e de estar-no-mundo. Com tal atitude 
teórica e metodológica, Minkowski aborda o 
fenômeno esquizofrênico visando exprimir o fundo 
existencial sobre o qual este transcorre, antes 
de realizar um recenseamento de sintomas e de 
alterações das faculdades da alma. (Pereira, 2004, 
p. 128)
O conceito apresentado por Minkowski remete 
a um aspecto da vida do homem que não é, até então, 
destacado: o campo irracional da vida, suas vivências 
e experiências. O esquizofrênico perde a possibilidade 
de dinâmica dos contatos com o campo sensorial, quer 
dizer, de troca de experiências com as outras pessoas 
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e com tudo que nos faz sentir vivos e pertencentes ao 
mundo. O esquizofrênico perde o contato com as regras 
das relações sociais que são compartilhadas no senso 
comum. Minkowski (1927/2002) aponta que
os cegos, os mutilados, os paralíticos podem viver 
em contato bem mais íntimo com o meio que os 
indivíduos cuja vista está intacta e que tem seus 
quatro membros; por outro lado, os esquizofrênicos 
perdem esse contato, sem que seu aparelho 
sensitivo-motor, sem que sua memória e sua 
inteligência estejam alteradas. O contato vital com 
a realidade visa bem mais o fundo, a essência da 
personalidade viva, em suas relações com o meio. 
E este meio, de novo, não é aqui nem um conjunto 
de excitações externas, nem de átomos, nem de 
forças ou de energia. Não, ele é essa inundação em 
movimento que nos envolve de todas as partes e 
que constitui o meio sem o qual nós não saberíamos 
viver. (p. 106)
Destacamos a influência da filosofia bergsoniana 
ao compreender que o homem vivencia essa inundação 
em movimento do que está ao nosso redor, pois 
Minkowski (1927/2002) apresenta os eventos vividos 
como “ilhotas” (p. 106) que penetram nesse homem e vão 
compondo sua vida íntima, seu aspecto mais pessoal, seus 
sentimentos e seus atos. Assim, a relação entre o homem 
e a realidade acontece nessa invasão do mundo em sua 
vida, possibilitando a construção de suas experiências.
O contato vital com a realidade depende da relação 
entre homem e mundo, dessa inundação em movimento, 
embora esse conceito não seja tão novo. Inicialmente, 
Minkowski (1927/2002) encontra fundamentos com o 
psiquiatra e neurologista francês Pierre Janet (1859-1947) 
e sua teoria da psicastenia, na qual já se discute a função 
do real para o homem e se destacam pontos em comum 
com o que venha a ser o contato vital com a realidade. 
Mas o fortalecimento da ideia de que identificamos 
nos pacientes esquizofrênicos essa perda do contato da 
realidade acontece a partir da influência que Minkowski 
encontrou nas leituras dos textos filosóficos de Bergson. 
Sem esquecer que seu trabalho foi bastante afetado por 
Bleuler e, a partir da ideia deste, de que encontramos 
nos esquizofrênicos uma perturbação profunda de 
suas relações com o mundo exterior. ParaMinkowski 
(1927/2002), a ressalva feita a Bleuler é que ele se prende 
ao estudo dos sintomas e elementos dessa afetação e 
insiste na perda do contato com a realidade – o autismo.
De modo diferente do de Bleuler, os pilares da 
clínica da esquizofrenia, as condições autísticas, são 
delimitadas por Minkowski de duas maneiras: (1) 
autismo rico: caracterizado pela criação de um mundo 
imaginário; e (2) autismo pobre: apresenta a perturbação 
esquizofrênica em estado puro, parada do élan vital. 
Bergson elabora o conceito de élan ou impulso vital e 
a ideia de uma evolução criadora a partir da biologia 
(A. J. Silva, 2006) e define que a vida está em constante 
movimento, sendo “resultado natural da luta entre o 
espírito e a matéria” (p. 1).
Com Minkowski, a perda do contato é vista como 
transtorno gerador da esquizofrenia. Já para Bleuler, a perda 
do contato não é um fator essencial da vida ao defender 
a busca por uma base orgânica para a esquizofrenia, o 
que revela que ele não se desprendeu totalmente de uma 
influência associacionista (Pereira, 2004).
A perda do contato vital com a realidade na 
esquizofrenia aponta para o fato da perturbação 
esquizofrênica se apoiar na ruptura radical com o mundo 
humano, ou seja, com o laço social. O esquizofrênico 
se inunda de uma vivência de absurdos que lhe impõe 
uma reconstrução forçada e artificial do sentido de 
sua existência, de seu corpo e de seu estar-no-mundo 
(Pereira, 2004).
Mas até que ponto o conceito de perda do contato 
vital com a realidade oferece subsídios para compreender 
a esquizofrenia? Esse conceito de Minkowski é oriundo, 
principalmente, de sua tentativa de unir a clínica da escola 
suíça às ideias filosóficas de Bergson, entendendo que a 
psicologia e a psicopatologia necessitam de contribuições 
sobre o conhecimento humano advindas de uma filosofia. 
A principal colaboração de Bergson para Minkowski 
compreender fenomenologicamente a esquizofrenia se 
dá pela “oposição fundamental entre a inteligência e o 
instinto” (Minkowski, 1927/2002, p. 111) que o filósofo 
propõe como meio de compreensão do ser humano. Para 
Minkowski (1927/2002),
A psicopatologia não poderia estar direcionada 
a questionar se as concepções de Bergson não 
eram suscetíveis para projetar um novo brilho 
sobre os problemas diante dos quais as noções 
da psicologia corrente teriam fracassado até ali. 
Tratava-se de ver, ao mesmo tempo, até qual ponto 
os fatos psicopatológicos podiam ser chamados para 
confirmar os dados colocados em evidência pela 
intuição genial do grande filósofo. (p. 112)
Com o olhar oriundo de Bergson, pode-se pensar 
em alcançar a patologia tal como ela se mostra e percorrer 
o caminho que nem a psicologia, nem a psiquiatria 
traçam na compreensão da complexidade que envolve a 
esquizofrenia, pois elas têm acesso apenas aos aspectos 
psicológicos. O olhar de Minkowski excede este único 
aspecto, pois o psiquiatra entende que é fundamental 
considerar que os esquizofrênicos sempre se encontram 
em constante relação com o mundo. Para compreendê-los, 
é imprescindível entender e descrever a relação entre os 
dois, homem e mundo.
Na época de suas pesquisas, Minkowski constata 
que as funções mentais elementares permanecem intactas 
na esquizofrenia, sendo identificados apenas uma 
inteligência menos atenta e comportamentos semelhantes 
ao que é reconhecido como característico de outras 
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Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski
patologias, como o delírio incoerente e atos bizarros. 
Se isso é assim, então o que diferencia a esquizofrenia 
de outra patologia? Bergson e a oposição fundamental 
entre a inteligência e o instinto ajudam a esclarecer os 
questionamentos de Minkowski.
A inteligência não admite o imprevisível, pois, 
ao rejeitar toda criação, ela se limita ao que se repete. É 
justamente dessa diferença que Minkowski está à procura. 
Não se restringindo apenas às falhas caracterizadoras da 
existência esquizofrênica, mas voltando-se também para 
aquilo que “permanece intacto” (Minkowski, 1927/2002, 
p. 115), o autor se direciona a uma comparação entre 
esquizofrenia e deficiência intelectual, exclusivamente 
com o então chamado paralítico geral:
Eu pergunto a um paralítico geral que chegou a 
um período de senilidade: “onde você está?”. Ele 
responde: “aqui”. Por medo de que isso possa ter sido 
uma manifestação puramente verbal e automática 
de sua parte, eu insisto: “mas aqui onde?”. O doente 
bate o pé, para indicar a localização onde ele se 
encontra, ou aponta com seu dedo a fim de indicar 
o quarto que ele ocupa. “Mas aqui”, ele nos diz, 
parecendo mesmo surpreso e irritado com nossa 
insistência. (Minkowski, 1927/2002, pp. 115-116)
Nesse caso, trata-se de uma manifestação 
encontrada em doentes com esse tipo de deficiência 
intelectual. Com o esquizofrênico, a situação seria um 
pouco diferente, pois, se ele responde à questão sobre sua 
localização, diz que “não se percebe neste lugar ocupado 
por ele, não se percebe em seu corpo, o ‘eu existo’ não 
tem um sentido preciso para ele” (Minkowski, 1927/2002, 
p. 116). Minkowski (1927/2002) chama atenção para o fato 
de que o paralítico se apresenta de forma completamente 
desorientada no espaço. Já o esquizofrênico sabe onde 
ele está, mas o “eu aqui não tem mais sua tonalidade 
habitual” (p. 117).
A partir dessa perspectiva, o questionamento de 
Minkowski se volta a entender como o esquizofrênico 
consegue construir seu comportamento baseado 
em fatores objetivos, mesmo com dificuldade em 
sentir seu movimento no mundo. Além disso, para 
o autor, a problematização da esquizofrenia se apoia 
também na teoria bergsoniana do movimento, a qual 
apresenta o tempo e o espaço vinculados. Trata-se 
de compreender, então, como é vivenciada a duração 
do tempo em um “funcionamento normal e em seus 
desvios patológicos” (Minkowski, 1927/2002, p. 119). 
No paralítico geral, a duração temporal é esquecida, 
não se sabe mais quais são os dias, as semanas nem 
os meses. O que permanece para o paralítico é apenas 
a lembrança da ocorrência de determinados fatos, 
mas ele não se recorda mais do início ou do término 
deste acontecimento. O paralítico experiencia o 
mundo como se estivesse em um “único oceano em 
movimento” (p. 122).
Na experiência esquizofrênica, deparamos com 
uma experiência diferente, pois o doente perde o contato 
com todas as coisas que o circundam e não se vê como 
em um oceano em movimento, como citado, mas como 
um homem paralisado no tempo e sente que tudo está 
imobilizado ao seu redor. Na fala de um esquizofrênico:
Eu perdi o contato com todas as coisas. As noções 
de valor e de dificuldade das coisas desapareceram. 
Não há mais nada de comum entre elas e eu, não 
posso mais me abandonar. É uma fixação absoluta 
em torno de mim. Eu tenho ainda menos mobilidade 
para o futuro do que para o presente e o passado. 
Existe em mim como um tipo de rotina que não 
permite visualizar o futuro. O poder criativo está 
suprimido em mim. Eu vejo o futuro como repetição 
do passado. (Minkowski, 1927/2002, p. 122)
A passagem descrita se refere à fala de um paciente 
esquizofrênico, acompanhado por Minkowski, que passa 
dias em sua cama totalmente paralisado, em estado de 
inércia e, ao se levantar, sente-se guiado por alucinações 
auditivas lhe ordenando a atear fogo em suas roupas para 
ver se consegue encontrar seu eu. Com base nesse caso, 
Minkowski (1927/2002), mais uma vez, sugere a perda do 
contato com a realidade como o caminho mais indicado 
para melhor compreender a experiência esquizofrênica.
Nessa patologia, encontramos pacientes descrevendo 
suas ideias de forma paralisada, dando a impressão 
de estarem congelados, como “estátuas” (Minkowski, 
1927/2002, p. 123) e, por estarem vivendo experiências 
sem movimento, parece faltar uma “tendência à realização” 
(p. 123). Identificamos, na esquizofrenia, um estado estático 
e “suas reaçõese 
dos seus constituintes essenciais. 
O estilo é o existencial, enquanto modo de 
conceptualizar o encontro com o paciente, que é, 
antes de mais, um encontro entre dois Homens a 
maneira humana, isto é, encontro enquanto tal. 
Presença comum e sentida que poderá permitir 
uma aliança entre dois destinos. Que promove 
uma escuta acreditante que só se realiza quando 
o outro se sente plenamente ouvido e quando 
promove mudança. 
O significado essencial do encontro é o estar- 
-com, que implica a presença (de estar-por-si), a 
reciprocidade (enquanto troca ou estar-para-o- 
-outro), o cuidado (no acolhimento do outro) e, 
ainda, um laço emocional entre um Eu e um Tu 
que criam um Nós, numa reciprocidade activa. 
Tal como refere Not (1 986), «cada um é um Eu e 
o outro um Tu ao qual se dirige, o que faz de 
cada um, ao mesmo tempo, um Eu (que se dirige 
ao outro) e um Tu (ao qual outro se dirige).)) 
Emerge um Nós que, não representando qualquer 
ameaça a identidade e a autonomia de cada um, 
alcança precedência. Assim, o fenómeno do en- 
contro tem como características essenciais 
(Tellenbach, 1992): a coerência, enquanto reci- 
procidade ou comportamento mútuo de co- 
relação; carácter fortuito, por chegar ao instante 
e de forma imprevisível; a liberdade de deixar o 
outro ser como é; e, ainda, o face-a-face, porque 
o encontro acontece no olhar. 
Finalmente, a ética é a de uma exigência de 
liberdade, de liberdade de ser o autor do seu pró- 
prio destino, pondo cuidado na sua existência. 
Acentua o predomínio do indivíduo, perturbado 
ou não, contra tudo o que totaliza, tematiza ou 
reprime, superando a facticidade (história) para 
se transcender, abrindo-se a outras possibilidades 
de ser e de vir-a-ser. 
Em termos genéricos, poder-se-ia afirmar que 
o objecto é a Pessoa, entendida como centro da 
sua própria valorização e da sua própria escolha, 
que se pode especializar individuando-se, socia- 
lizando-se e subjectivando-se, num processo 
unificado de personalização quando a história se 
converte na sua própria história. Nela cabem a 
consciência (de ser intencional), a razão, a au- 
tonomia, a abertura, a liberdade, a responsabili- 
dade existencial e o compromisso com os outros. 
2. PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA 
A aplicação da fenomenologia a Psicopatolo- 
gia enraiza-se essencialmente nas obras filosó- 
ficas de E. Husserl e de M. Heidegger. Estes fun- 
damentos filosóficos foram descritos detaiha- 
damente em diversos textos de base, entre os 
quais se destacam os de Lanteri-Laura (1963), 
Lyotard (1964) e Spiegelberg (1982). A abor- 
dagem fenomenológica em Psicopatologia ori- 
ginou uma pluralidade de pontos de vista, de que 
são exemplos as contribuições de K. Jaspers, E. 
Minkowski, L. Binswanger e von Gebsattel, 
entre outros (Villegas, 1981). 
Ellenberger (1 958), ao diferenciar a psicopa- 
tologia fenomenológica da Daseinanalyse de 
Binswanger, propôs a diferenciação entre três 
correntes: (1) A fenomenologia descritiva (Jas- 
pers, Mayer-Gross, Wyrsch); (2) A fenomenolo- 
gia genético-estrutural (Minkowski, von Geb- 
sattel, E. Straus); (3) A fenomenologia catego- 
ria1 (a primeira fase de L. Binswanger, R. Kühn 
e Cargnello). 
Do ponto de vista histórico, Jonckheere 
(1 989) diferenciou claramente três períodos su- 
cessivos. 
Em primeiro lugar, a psicopatologia fenome- 
nológica descritiva de Jaspers, Birnbaum e 
Rümke, período claramente dominado pela «Psi- 
copatologia Geral» de Jaspers, publicada em 
191 3, na qual os fenómenos psicopatológicos 
são elaborados pelos métodos da fenomenologia 
e da psicopatologia compreensiva, destacando o 
carácter significativo do vivido. Aparece como 
obra inspiradora dos trabalhos de Kretschmer 
(1918), Birnbaum (1920), Kurt Schneider 
(1 923), Mayer-Gross (1 924), Rumke (1 924) e 
Wyrsch (1 937, 1949). 
Em segundo lugar, a psicopatologia genético- 
-estrutural, representada por E. Minkowski e a 
psiquiatria antropológica de von Gebsattel, E. 
Straus, von Weizsacker e H. Tellenbach. 
623 
Por último, a psicopatologiafenomenológico- 
-existencial introduzida por L. Binswanger, pri- 
meiramente como fenomenologia categoria1 e , 
mais tarde, como Daseinanalyse, apoiada na psi- 
canálise de Freud, no método fenomenológico de 
Husserl e na concepção do Homem de Heidegger 
e influenciando trabalhos ulteriores de M. Boss e 
R. Kuhn. 
3. A FENOMENOLOGIA DE K. JASPERS 
O ponto de vista de Karl Jaspers (1883- 
-1969), qualificável de descritivo e próximo da 
psicologia empírica descritiva (Beauchesne, 
1986) foi detalhadamente apresentado no livro 
((Psicopatologia Geral» de 191 3, no qual a psico- 
patologia se ocupa das modalidades como os pa.- 
cientes experimentam os fenómenos psicopato- 
lógicos, uma fenomenologia dos seus estados de 
consciência. Na sua abordagem quase exaustiva, 
Jaspers sistematizou: as manifestações subjec- 
tivas da vida psíquica patológica (fenomeno- 
logia), as manifestações objectivas da vida psi- 
quica patológica (psicopatologia objectiva), as 
relações compreensíveis (psicopatologia COFI- 
preensiva) e as relações causais (psicopatologia 
explicativa). Para Jaspers, a fenomenologia é o 
domínio das vivências psíquicas individuais, 
uma psicopatologia descritiva das manifestações 
da consciência. O importante seria «exercer a v' - 
são pregnante do que é vivido directamente pelo 
doente ... delimitar e distinguir da forma mais 
precisa possível e designar em termos fixos a s 
estados psíquicos que os doentes vivenciam.» 
(Jaspers, 1928). Na impossibilidade de abordar 
todos os aspectos significativos da obra de 
Jaspers, referimos apenas alguns pontos nodais: 
compreender e explicar; descrever e compreeri- 
der; processo, desenvolvimento e reacção. 
Jaspers diferenciou entre conexões signijka- 
tivas intrapsíquicas (que seria necessário corri- 
preender como conexões de sentido) e conexões 
causais entre os acontecimentos intra e extrapsi- 
quicos (que é necessário explicar). Assim: Com- 
preender ligar-se-ia a causalidade psicológica, 
isto é, ao saber como é que o psíquico dá lugar 
ao psíquico. Trata-se de compreender por co- 
penetração afectiva na psique do outro, de 
entender através dos movimentos expressivo:;, 
das produções verbais e dos actos como um 
estado mental é vivido e dá lugar a outro. Ex- 
plicar, ligar-se-ia a causalidade científico- 
natural, isto é, a ligação objectiva de diversos 
factos ou em leis regulares, investigando as 
correlações entre os fenómenos psíquicos e a sua 
base estrutural. Trata-se aqui de vincular o psí- 
quico ao físico, desligando-se do pessoal-biográ- 
fico. 
Ou seja: compreendem-se as conexões de sen- 
tido e explicam-se as conexões causais. 
Diferenciando entre descrever e compreender, 
Jaspers conceptualizou que descrever se refere a 
fazer uma descrição do que é apreendido intui- 
tivamente sob a forma de realidades subjectivas 
da vida psíquica efectivamente vivenciadas (a 
fenomenologia) e, também, o que é possível 
apreender objectivamente sob a forma de rendi- 
mentos (apreensão, memória, trabalho e inteli- 
gência). Por outro lado, compreender é repre- 
sentar interiormente a vivência autodescrita pelo 
paciente, que poderá ser compreensão estática 
ou fenomenologia das diversas qualidades e es- 
tados psíquicos individuais tal como aconteceu e 
são dados, e compreensão dinâmica ou genética, 
a das emergências dos acontecimentos psíquicos. 
Em síntese: a compreensão estática permitiria a 
descrição fenomenológica ou descrição da expe- 
riência vivida em determinado momento, sem ter 
em conta as suas causas e consequências e, por 
seu turno, a compreensão genética permitiria a 
descrição dinâmica ou apreensão dos fenómenos 
vividos nas suas relações internas no tempo e 
estabelecendo a relação de sentido entre as 
diversas vivências. 
A abordagem que Jaspers fez da Psicopato- 
logia envolveu o estudo diferenciado dos fenó- 
menos vividos (as vivências), dos rendimentos, 
dos fenómenos somaticos concomitantes e das 
objectividades psíquicascarregam também, geralmente, a marca 
dessa paralisação mórbida e nós a encontramos até nos 
movimentos estereotipados que, no fundo, são apenas um 
eterno recomeço, sem nenhuma progressão” (Minkowski, 
1927/2002, p. 123). Encontramos uma pessoa paralisada, 
sem andar para trás, muito menos para frente, com uma 
sensação de congelamento temporal e espacial.
De um lado, a esquizofrenia é definida, por Bleuler, 
como demência afetiva para designar uma separação entre 
seus sintomas: o declínio esquizofrênico e a demência 
intelectual. De outro, essa patologia é entendida por 
Minkowski como déficit pragmático, por não se referir 
a uma verdadeira demência no sentido de haver falha 
intelectual. Com esses caminhos opostos e sofrendo 
influências filosóficas, principalmente de Bergson, 
Minkowski define o enfraquecimento do contato vital e da 
afetividade como o elemento necessário para caracterizar 
a esquizofrenia.
Considerações finais
Diversas definições sobre a esquizofrenia foram 
galgadas ao longo da história da psiquiatria com Kraepelin, 
Bleuler, entre outros. Destacamos a importância do 
Psicologia USP I www.scielo.br/pusp
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Juliana Pit & Virginia Moreira
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conceito de demência precoce de Kraepelin como um 
novo problema para o campo psicopatológico, já que se 
trata da união de diversas formas clínicas em um único 
conceito. Além das contribuições diretas das ideias de 
Bleuler, Minkowski (1927/2002) segue em direção a uma 
nova fundamentação para a psicopatologia moderna por 
intermédio das contribuições filosóficas de Bergson, 
que possibilitam a elaboração do conceito de perda do 
contato vital na esquizofrenia.
Concluímos que direcionarmo-nos rumo ao 
desenvolvimento do conceito de contato vital com a 
realidade e da compreensão da esquizofrenia como perda 
desse contato com o mundo permite reconhecer e apontar 
um novo direcionamento para estudar essa patologia com 
uma lente fenomenológica e possibilitar novas intervenções 
clínicas. A fenomenologia da esquizofrenia fundamentada 
por Minkowski enquanto perda do contato vital com a 
realidade é um passo adiante e uma evolução do conceito 
de demência precoce, ao ser definida como o transtorno 
gerador dessa patologia. Entendemos que Minkowski 
situa a esquizofrenia na interseção entre o sujeito que tem 
esse diagnóstico e o mundo, permitindo a possibilidade 
de discutir a esquizofrenia como uma patologia 
da intersubjetividade.
The contributions of Kraepelin, Bleuler and Bergson to Minkowski’s clinical phenomenology of schizophrenia
Abstract: This article presents the clinical phenomenology of schizophrenia constructed by the psychiatrist Eugène Minkowski 
through theoretical influences from the ideas of Kraepelin, Bleuler and Bergson. Minkowski’s interest in discussing schizophrenia 
is to be able to determine this pathology. Although references are constantly made by him to Bleuler for having been his student, 
it is in Bergson’s philosophy that he finds a solid source to further his discussion of the structural aspect of schizophrenia. 
With this philosophical influence, it is possible to understand schizophrenia as a loss of vital contact with reality and not as a 
relaxation of associations, as Bleuler pointed out. We conclude that using the clinical phenomenology of the loss of vital contact 
with reality and the understanding of schizophrenia as a loss of this contact with the world allows for a new direction to study 
this pathology as a pathology of intersubjectivity.
Keywords: phenomenology clinical, schizophrenia, Minkowski.
Les contributions de Kraepelin, Bleuler et Bergson à la phénoménologie clinique de la schizophrénie de 
Minkowski
Résumé : Le présent article se propose à discuter la phénoménologie clinique de la schizophrénie construite par le psychiatre 
Eugène Minkowski à travers les influences théoriques issues des idées de Kraepelin, Bleuler et Bergson. L’intérêt de Minkowski 
lorsqu’il élabore une discussion sur la schizophrénie est de parvenir à avoir une délimitation de cette pathologie. Même si on 
reconnaît qu’il mentionne constamment Bleuler, vu qu’il était son élève, c’est dans la philosophie de Bergson qu’il trouve une 
source solide pour approfondir sa discussion sur l’aspect structurel de la schizophrénie. Avec cette influence philosophique, il 
est possible de comprendre la schizophrénie comme une perte de contact vital avec la réalité et non comme une relaxation 
d’associations, comme l’a soulignée Bleuler. Nous concluons que l’usage de la phénoménologie clinique de la perte de contact 
vital avec la réalité et la compréhension de la schizophrénie comme une perte de ce contact avec le monde nous permet de 
souligner une nouvelle direction d’études de cette pathologie comme une pathologie de l’intersubjectivité.
Mots-clés: phénoménologie clinique, schizophrénie, Minkowski.
Contribuciones de Kraepelin, Bleuler y Bergson a la fenomenología clínica de la esquizofrenia de Minkowski
Resumen: El presente artículo se propone presentar la fenomenología clínica de la esquizofrenia construida por el psiquiatra 
Eugène Minkowski por medio de influencias teóricas sufridas a partir de las ideas de Kraepelin, Bleuler y Bergson. El interés 
de Minkowski al elaborar una discusión de la esquizofrenia es alcanzar una delimitación de esta patología. El autor alude 
constantemente a Bleuler por haber sido su alumno, pero en la filosofía de Bergson encuentra una fuente sólida para profundizar 
en su discusión sobre el aspecto estructural de la esquizofrenia. Con esta influencia filosófica, es posible comprender la 
esquizofrenia como la pérdida de contacto vital con la realidad y no como una relajación de asociaciones, tal como Bleuler 
destacaba. Concluimos que utilizar la fenomenología clínica de la pérdida del contacto vital con la realidad y la comprensión 
de la esquizofrenia como pérdida de este contacto con el mundo permite apuntar un nuevo direccionamiento para estudiarla 
como una patología de la intersubjetividad.
Palabras clave: fenomenología clínica, esquizofrenia, Minkowski.
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Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008
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Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski
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Revista da Abordagem Gestáltica:
Phenomenological Studies
ISSN: 1809-6867
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Gestalt Terapia de Goiânia
Brasil
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Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira
Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, vol. XIX, núm. 1, enero-junio, 2013, pp.
38-50
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Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013
Anielli Santiago & Adriano F. Holanda
fenomenoloGia da depreSSão: 
uma análiSe da produção aCadêmiCa BraSileira
Phenomenology of Depression: A Review of Brazilian Academic Production
Fenomenología de la Depresión: Una Revisión de la Producción Académica de Brasil
AnieLLi SAntiAgo
AdRiAno FuRtAdo hoLAndA
resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar um panorama das pesquisas nacionais sobre depressão na perspectiva fenome-
nológica. Realizou-se uma pesquisa nas bases de dados virtuais e abertas SciELO (Scientific Eletronic Library Online), PePSIC 
(Periódicos Eletrônicos em Psicologia) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), sendo sele-
cionados e analisados vinte e um artigos, no período de 1981 a 2013. Verificou-se que o assunto é pouco explorado em relação 
à perspectiva fenomenológica, embora a mesma tenha uma tradição no estudo dos fenômenos psicopatológicos. Além disso, os 
teóricos clássicos da abordagem são pouco citados nos estudos. Tanto as pesquisas teóricas quanto as empíricas trazem uma di-
versidade de temas em relação ao transtorno, com destaque para a depressão em idosos. Sugere-se a realização de novas pesqui-
sas e reflexões teóricas que possam dar conta da alta incidência do quadro na população em geral.
Palavras-chave: Depressão; Fenomenologia; Produção acadêmica.
Abstract: The objective of this work is to present a panorama of the national researches about depression in phenomenologi-
cal perspective. We conducted a research on the virtual and opened databases, and at the end of the search, were selected and 
analyzed twenty-one articles in the period 1981-2013. It was found that the subject is little explored in relation to the phenom-
enological approach, although it is traditional on the study of psychopathological phenomena. Moreover, classic authors from 
Phenomenology are rared reported in the studies. Both theoretical and empirical researches bring a diversity of topics in rela-
tion to the disorder, especially depression in elderly. We suggest that new researches and theoretical reflections may be realize 
in order to deal with the high incidence of this problem in general population.
Keywords: Depression; Phenomenology; Academic production.
resumen: El objetivo del trabajo es presentar una visión general de las encuestas nacionales sobre la depresión en la perspecti-
va fenomenológica. Se realizó una búsqueda en bases de datos virtuales y abiertas como SciELO (Scientific Electronic Library 
Online), PePSIC (Revistas Electrónicas en Psicología) y LILACS (Literatura Latinoamericana y del Caribe en Ciencias), se selec-
cionaron y analizaron veintiún artículos en el período 1981-2013. Se encontró que el sujeto está poco explorado en relación con 
el punto de vista fenomenológico, a pesar de que tiene una tradición en el estudio de los fenómenos psicopatológicos. Por otra 
parte, el enfoque clásico teórico rara vez se informó en los estudios. Tanto la investigación teórica como la empírica tocan una 
diversidad de temas en relación con el trastorno, especialmente la depresión en la tercera edad. Se sugiere llevar a cabo más in-
vestigaciones y reflexiones teóricas que pueden explicar la alta incidencia de la trama en la población general.
Palabras-clave: Depresión; la Fenomenología; la Producción académica.
introdução 
O fenômeno da depressão tem chamado a atenção na 
atualidade por sua crescente incidência no mundo todo. 
De acordo com o Relatório sobre a Saúde no Mundo, da 
Organização Mundial de Saúde (2011), a depressão grave 
é atualmente a principal causa de incapacitação na popu-
lação em geral, situando-se em quarto lugar entre as dez 
principais causas da carga mundial de doenças. De acordo 
com o mesmo documento, se as projeções se mantiverem 
corretas, nos próximos vinte anos a depressão deverá ser 
a segunda das principais causas das doenças no mundo. 
O Ministério da Saúde calcula que, em um dado mo-
mento da vida, entre 13% e 20% da população apresenta 
algum sintoma depressivo; além disso, o custo agregado 
por prejuízo ao trabalho é imenso (Wannmacher, 2004). 
Deste fato resulta um número significativo de pesquisas 
e estudos acerca da temática, de modo a tentar contribuir 
para o conhecimento de suas causas, formas de tratamen-
to e prevenção (Duarte & Rego, 2007; Ramires, Passarini, 
Flores & Santos, 2009; Vivan & Argimon, 2009). 
O diagnóstico da depressão é complexo, pois leva em 
conta uma série de sintomas que podem estar associados 
também a outras patologias. A Classificação Internacional 
das Doenças (CID-10) faz uma diferenciação entre “epi-
sódios depressivos” e “transtorno depressivo recorrente”, 
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Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013
Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira
sendo que o que distingue ambos é o tempo e a frequência 
com que ocorrem. Os sintomas principais das referidas 
formas de depressão são alteração da capacidade de ex-
perimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da 
capacidade de concentração, fadiga acentuada, problemas 
de sono e diminuição de apetite. Também são frequentes 
a diminuição da autoestima e autoconfiança e ideias de 
culpabilidade e/ou indignidade. Além disso, o número e 
a gravidade de tais sintomas determinam três níveis de 
episódio e transtorno depressivos: leve, moderado e grave. 
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos 
Mentais (DSM-IV), outro instrumento de referência para 
diagnósticos, coloca nove critérios para identificar a de-
pressão, sendo eles: estado deprimido a maior parte do 
tempo, anedonia, sensação de culpa ou inutilidade ex-
cessivas, dificuldade de concentração, fadiga, distúrbios 
do sono, agitação ou lentificação psicomotora, aumento 
ou redução significativa de peso, e ideias recorrentes de 
morte e suicídio. De acordo com o número de sintomas, o 
quadro pode ser classificado em três grupos: “depressão 
menor” (com a apresentação de dois a quatro sintomas por 
duas ou mais semanas, incluindo estado deprimidoou 
anedonia); “distimia” (de três a quatro sintomas, incluindo 
estado deprimido, durante dois anos, no mínimo) e “de-
pressão maior” (com cinco ou mais sintomas por duas se-
manas ou mais, incluindo estado deprimido ou anedonia).
Esta complexidade do diagnóstico faz com que as di-
versas manifestações da depressão muitas vezes se con-
fundam com expressões de depressão não clínicas ou 
mesmo com estados corriqueiros de tristeza (Parker & 
Brotchie, 2009). Mesmo os critérios acima arrolados, cons-
tantes no DSM-IV, trazem imprecisões. Como destacam 
Parker e Brotchie (2009), esse modelo se caracteriza por 
ser dimensional, onde o estado clínico é definido por pa-
râmetros de gravidade – que é a presença dos sintomas – e 
requer “a imposição de um ponto de corte que é intrinse-
camente impreciso e corre o risco de gerar um diagnóstico 
de ‘falso-positivo’ (…) ou avaliação de ‘falso-negativo’” (p. 
54). Isto torna ainda mais premente a necessidade de não 
se confundir, ainda, o diagnóstico da depressão com a ma-
nifestação de sentimentos de tristeza que acompanham 
o ser humano em diversos momentos de sua existência. 
De acordo com Stefanis e Stefanis (2005), em oposi-
ção às respostas emocionais normais a acontecimentos 
estressantes, a depressão clínica é um transtorno psico-
patológico que precisa ser diagnosticado e tratado ade-
quadamente, devido a sua gravidade, recorrência e alto 
custo para o indivíduo e para a sociedade, além de poder 
proceder aos encaminhamentos adequados e necessários 
para seu tratamento. Dessa forma, segundo os autores, é 
correto utilizar a expressão “transtorno depressivo” para 
diferenciar a depressão clínica do sentimento normal e 
transitório de tristeza, bem como utilizar adequadamente 
a prescrição medicamentosa (Wannmacher, 2004).
É possível verificar, no entanto, que os critérios diag-
nósticos do DSM-IV para a depressão são baseados no 
nível de desenvolvimento adulto, porém são utilizados 
para identificar tal patologia em qualquer idade. Weiss 
e Garber (2003) defendem o argumento de que se deve 
levar em conta o grau de desenvolvimento do indivíduo 
em depressão, visto que “a forma como a depressão é ex-
perienciada e expressa depende, em parte, do nível indi-
vidual de desenvolvimento fisiológico, social e cognitivo” 
(p. 404). Os autores afirmam que mais estudos na área 
precisam ser realizados com o objetivo de confirmar a 
influência das diferenças de desenvolvimento na feno-
menologia das depressões, para que se possam produzir 
novos instrumentos diagnósticos, ou modificar os exis-
tentes, no sentido de considerar tais diferenças.
Mari, Jorge e Kohn (2007) apresentam três estudos 
epidemiológicos que avaliam os índices dos transtornos 
psiquiátricos em adultos em algumas regiões do Brasil e 
dos Estados Unidos, sendo estes: (a) uma pesquisa brasi-
leira de morbidade psiquiátrica realizada em Brasília, São 
Paulo e Porto Alegre, incluindo 6.476 indivíduos com ao 
menos 15 anos; (b) uma pesquisa que fornece dados sobre 
os transtornos psiquiátricos em dois bairros da cidade de 
São Paulo, realizada com 1.462 indivíduos entrevistados; 
e, (c) o Epidemiological Catchment Area, uma pesquisa em 
domicílios representativos de cinco regiões dos Estados 
Unidos, incluindo 17.803 indivíduos com 18 anos ou mais. 
O índice de prevalência para um ano de depressão maior 
a partir das três estimativas variou de 3,5 a 9,7%. O sexo 
feminino teve os índices mais elevados, variando de 4,7 
a 12,6%, enquanto que para o sexo masculino, tais índi-
ces variaram de 2,3 a 7%. Dessa forma, estima-se que o 
número de pessoas acometidas por depressão maior no 
ano 2000 esteve entre 5.942.970 e 15.961.122. Quanto à 
distimia, o índice de sua prevalência para um ano foi de 
1,2% em São Paulo e 2,8% nos Estados Unidos. Isso sig-
nifica que há um número de 2.037.590 a 4.754.376 porta-
dores de distimia no Brasil (Mari et al., 2007).
Ballone (2005) aponta como principais fatores de risco 
para a depressão os seguintes aspectos: histórico fami-
liar de depressão, doença física, episódio anterior de de-
pressão, acontecimentos estressantes ou perdas e abuso 
de medicamentos ou drogas. Além disso, como apontam 
Mari et al. (2007), a depressão atinge duas vezes mais mu-
lheres do que homens, em média, sendo que a vulnerabi-
lidade feminina é maior no período pós-parto, tendo em 
vista que, segundo Higuti e Capocci (2003), cerca de 15% 
das mulheres apresentam sintomas depressivos nos pri-
meiros meses que se seguem ao nascimento de um filho.
Retomando o Relatório da Organização Mundial de 
Saúde (2011), tanto nos países desenvolvidos, onde há 
uma atenção diferenciada à saúde mental, quanto nos 
países em desenvolvimento, muitas pessoas que pode-
riam ser beneficiadas não tiram partido dos serviços psi-
quiátricos disponíveis. Isso tem bastante relação com o 
estigma ligado aos indivíduos portadores de transtornos 
mentais e comportamentais. Várias pesquisas apontam 
o estigma como um fator que potencializa o sofrimento 
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do sujeito em depressão, além de dificultar o diagnósti-
co e a adesão a um tratamento eficaz (Valentini, Levav, 
Kohn, Miranda, Mello, Mello & Ramos, 2004; Moreira, 
2007; Moreira & Melo, 2008). Em um estudo transcultu-
ral realizado no Brasil, no Chile e nos Estados Unidos a 
respeito da experiência do estigma na depressão (Moreira 
& Telles, 2008), esse fator aparece relacionado a aspectos 
como a sensação de não aceitação da depressão, o medo 
de ser visto como “louco” e a sensação de incapacidade 
ao ser exigido, o que dificulta bastante o processo de tra-
tamento destas pessoas. 
No que concerne ao tratamento da depressão, Souza 
(1999) aponta que a mesma não pode ser tratada a partir 
de um modo abstrato, mas a partir do fato de se tratar de 
pacientes – sujeitos – deprimidos, contextualizados em 
seus meios sociais e culturais, e compreendidos nas suas 
dimensões biológicas, psicológicas e sociais. Dessa for-
ma, o autor considera que o tratamento deve ser próprio 
para cada indivíduo, podendo incluir psicoterapia, mu-
dança de estilo de vida e terapia farmacológica de acordo 
com a gravidade e características de cada caso. No Brasil, 
existem os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que 
proporcionam atendimento gratuito para pessoas em 
sofrimento mental cuja severidade as impeçam de rea-
lizar suas atividades diárias. Conforme documento do 
Ministério da Saúde (2004), os CAPS têm como objetivo 
atender à população em sua área de abrangência, reali-
zando o acompanhamento clínico e a reinserção social 
dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos 
direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e co-
munitários. É um serviço de saúde mental criado para 
substituir as internações em hospitais psiquiátricos.
Pesquisas apontam que a utilização de psicoterapia 
no tratamento da depressão é amplamente indicada, tan-
to em casos de intensidade leve e moderada quanto em 
casos mais graves (Schestatsky & Fleck, 1999; Berlinck & 
Fédida, 2000; Bahls & Bahls, 2003). Em um estudo de re-
visão acerca da eficácia da psicoterapia e da farmacote-
rapia no tratamento da depressão em idosos, Scazufca e 
Matsuda (2002) encontraram que tratamentos com psicote-
rapia combinada ou não com medicação foram considera-
dos mais eficazes do que tratamentos farmacoterapêuticos 
para a depressão maior, mesmo se considerando a necessi-
dade de mais estudos nesta direção. Com isto, vislumbra-
-se o papel fundamental que a psicologia pode exercer no 
desenvolvimento de intervenções que possam contribuir 
para amenizar o sofrimento do paciente em depressão. 
A psicologia fenomenológico-existencial é uma abor-
dagem que traz uma compreensão diferenciada dos fenô-
menos psicopatológicos, em especial quando comparada 
aos modelos tradicionalmentefocados em aspectos bio-
lógicos e fisiológicos, centrados numa intervenção noso-
lógica e farmacológica. 
O objetivo deste trabalho é discutir e apresentar al-
guns aspectos da contribuição do enfoque fenomenológi-
co-existencial ao contexto da psiquiatria – em particular 
– e da psicologia das depressões, partindo do levantamen-
to e análise das publicações científicas nacionais asso-
ciadas ao tema. A escolha da temática se justifica pela 
necessidade de conhecer melhor tal psicopatologia para 
que se possa tratá-la de modo eficaz, tendo em vista sua 
rápida expansão na sociedade contemporânea. E a esco-
lha do caminho metodológico se deve à necessidade de 
reconhecimento do estatuto atual da discussão do tema, 
no contexto das abordagens fenomenológico-existenciais.
1.	 A	 Tradição	 Fenomenológica	 e	 o	 Fenômeno	 da	
Depressão	
O tema da “depressão” na literatura clássica de psi-
copatologia e psiquiatria fenomenológicas vem normal-
mente associado a outros quadros nosológicos. Dentre os 
primeiros trabalhos de psiquiatras fenomenólogos-exis-
tenciais sobre o tema da depressão, podemos citar os no-
mes de Erwin Straus e Viktor E. Von Gebsattel que, em 
1928, publicam – respectivamente – “A Experiência do 
Tempo na Depressão Endógena e no Desgosto Psicótico” 
e “Pensamento Pressionado ao Tempo na Melancolia” 
(Holanda, 2011).
O interesse pelo fenômeno da depressão direciona 
igualmente as pesquisas de Roland Kuhn, outro psiquia-
tra da tradição fenomenológico-existencial, para a desco-
berta dos efeitos antidepressivos da Imipramina em 1954 
(Kuhn, 1990/2005). Todavia, os nomes mais conhecidos 
da tradição fenomenológico-existencial em relação a esta 
temática são Eugène Minkowski e Ludwig Binswanger.
Minkowski, em 1922, durante uma sessão da 
Sociedade Suíça de Psiquiatria, em Zurique, apresenta 
um de seus textos mais famosos: um estudo de caso so-
bre melancolia esquizofrênica (Minkowski, 1922/1967). 
Minkowski propõe uma “fenomenologia genético-estru-
tural”, em que busca esclarecer as conexões e interrela-
ções das vivências patológicas, identificando a estrutura 
sob a qual se organizam essas vivências. Em seu estudo 
sobre os pacientes melancólicos, assinala que os sinto-
mas devem ser entendidos a partir da experiência básica 
do tempo (Cardinali, 2002). Já Binswanger é responsável 
por um dos textos mais conhecidos sobre esta temática 
na tradição fenomenológica – o livro Melancolia e Mania. 
Estudos Fenomenológicos – publicado em 1960.
Contemporaneamente, temos conhecimento dos tra-
balhos do psiquiatra japonês Kimura Bin que, interes-
sado em Minkowski e Binswanger, passa a estudar os 
textos de Husserl e Heidegger, chegando a concluir sua 
formação em psiquiatria na Alemanha (Holanda, 2011). 
Acerca do tema da depressão, publica um texto intitulado 
“Fenomenologia da Depressão Estado-Limite” (Bin, 1998). 
Cabe destacar ainda a figura de Hubertus Tellenbach 
(1914-1994), que foi um psiquiatra alemão – fez filosofia 
em Kiel, e medicina e psiquiatria em Munich – que encon-
trou a Daseinsanalyse de Binswanger, além da antropo-
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Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira
logia de Von Gebsattel, Straus e Minkowski. A partir daí, 
produziu pesquisas sobre melancolia (Holanda, 2011).
Wilhelm Mayer-Gross (1889-1961) foi responsável 
pelo livro Psiquiatria Clínica, escrito em parceria com E. 
Slater e M. Ross, que teve sua primeira edição em 1954. 
Representando o “espírito da escola fenomenológica de 
Heidelberg”, este livro chega ao Brasil através da tradu-
ção de sua terceira edição, de 1969, e “(...) durante muito 
tempo foi o porto seguro de toda uma geração de psiquia-
tras, contribuindo para uma virada na direção de uma 
psiquiatria clínico-fenomenológica na época áurea das 
correntes antipsiquiátricas das décadas de 1960 e 1970” 
(Cordas & Louzã, 2003, p. 116). Mayer-Gross se aproxima 
desde cedo da fenomenologia, com sua tese defendida em 
1913, e intitulada Sobre a fenomenologia dos sentimentos 
anormais de felicidade (Zur Phänomenologie abnormer 
Glücksgefühle), tendo sido ainda colega de nomes impor-
tantes e representativos do pensamento fenomenológico 
em psiquiatria, como Karl Jaspers e Hans Gruhle, por 
exemplo. (Cordas & Louzã, 2003).
E não podemos esquecer de mencionar a significati-
va contribuição de Karl Jaspers que, a partir da publica-
ção de sua Psicopatologia Geral, em 1913, praticamente 
“inaugura” o campo de reflexão conhecido como “psico-
patologia fenomenológica” (Jaspers, 1913/1989). Mesmo 
assim, com tantas contribuições, o campo da “fenome-
nologia psiquiátrica” ainda é permeado por indefinições 
(Andreasen, 2007; Mullen, 2007).
No campo da psiquiatria – tradicionalmente – há di-
ferentes usos para a palavra “fenomenologia”. Segundo 
Mullen (2007), “fenomenologia” pode ser tanto a definição 
precisa dos sintomas psiquiátricos, quanto a descrição das 
ações e experiências dos pacientes; bem como a busca pelo 
significado essencial destas experiências ou o exame do 
“mundo interior” do paciente. Fundamentalmente, compre-
ende-se a “fenomenologia” aplicada à psiquiatria por duas 
vias (Andreasen, 2007): a) como exame das experiências 
subjetivas internas e; b) como base para a nosologia psiqui-
átrica. Em ambos os casos, reconhece-se o lugar ocupado 
pela proposição de Jaspers de construção de uma “ciência 
psicopatológica”, tendo como fundamento a Fenomenologia, 
quando afirma que: “À fenomenologia compete apresentar 
de maneira viva, analisar em suas relações de parentesco, 
delimitar, distinguir da forma mais precisa possível e desig-
nar com termos fixos os estados psíquicos que os pacientes 
realmente vivenciam” (Jaspers, 1913/1989, p. 75). 
2. método
O presente estudo consistiu em buscar conhecer a 
produção acadêmica brasileira sobre o tema, no contexto 
das práticas fenomenológicas e de leituras de orientação 
fenomenológica, incluindo-se aqui seus desdobramentos 
na perspectiva existencial. Para tal, foi feita uma revisão 
bibliográfica realizada a partir de busca de artigos na 
Biblioteca Virtual de Saúde - Psicologia (BVS-Psi), junta-
mente com seus desdobramentos na SciELO (Scientific 
Eletronic Library Online), PePSIC (Periódicos Eletrônicos 
em Psicologia) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do 
Caribe em Ciências da Saúde). Inicialmente, foi feita uma 
pesquisa na BVS-Psi a fim de conhecer o que tem sido pro-
duzido sobre a temática da depressão, em geral, no Brasil.
Nesse primeiro momento, foi utilizado apenas o in-
dexador “depressão” para busca de artigos. Foram en-
contrados 1785 artigos entre as bases de dados SciELO 
e PePSIC e 6568 artigos na base de dados LILACS. Em 
um refinamento realizado posteriormente, cruzando o 
indexador “depressão” com “fenomenologia”, “fenome-
nológico”, “existencial”, “existência” e “fenomenológico-
-existencial”, foram encontrados 92 artigos nas três bases 
de dados já citadas. A leitura dos resumos desses artigos 
permitiu fazer um recorte ainda mais específico: ao fi-
nal, foram selecionados vinte e um artigos que aborda-
ram a depressão sob uma perspectiva fenomenológica e 
existencial. Os outros setenta e um artigos foram elimi-
nados pelo fato de serem produções em formato de teses 
e dissertações e/ou artigos que tratavam de fenômenos en-
volvidos na depressão (entre eles, fatores neuroquímicos 
e genéticos, por exemplo), mas que não faziam referên-
cia direta ou indireta às perspectivas fenomenológicas e 
existenciais propriamente ditas. 
As vinte e uma publicações selecionadas para a nos-
sa amostra foram submetidas a uma análise qualitativa 
indutiva e comparativa. A análise foi indutiva por possi-
bilitar a constituição de categorias temáticas derivadas 
do “contato progressivo com o material” (Pieta, Castro & 
Gomes, 2012, p. 132); e comparativa por buscar um diá-
logo entreos diversos textos. A intenção foi conhecer os 
conteúdos dessas produções, bem como os caminhos de 
reflexão – desenvolvidos por pesquisadores brasileiros – 
sobre o tema da “depressão”, sob a ótica das perspectivas 
fenomenológica e existencial. 
3. resultados e discussão 
A primeira categorização que pudemos observar divi-
de os artigos em três agrupamentos: a) Estudos Empíricos 
(dez artigos); b) Estudos Teóricos (dez artigos); e, c) Estudos 
Epidemiológicos (apenas um artigo). Os estudos empíricos 
são aqueles que buscam fornecer compreensão, acréscimo 
ou modificação em determinado tema, utilizando dados 
coletados a partir de fontes diretas (pessoas) que viven-
ciam ou têm conhecimento sobre tal tema. Já os estudos 
teóricos têm como objetivo conhecer ou proporcionar 
um espaço para discussão de uma temática ou questão, 
sem utilizar de pesquisa de campo, fundamentalmente 
a partir de uma reflexão com respeito a aspectos gerais 
ou específicos de determinada teoria. Os estudos epide-
miológicos, por fim, são os que apresentam dados obje-
tivos acerca de alguma patologia, em uma determinada 
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região num período de tempo. Para fins de análise, o úni-
co texto epidemiológico desta amostra será apresentado 
juntamente aos textos empíricos. 
Não foram encontrados indícios de prevalência de 
algum periódico sobre o tema, o que pode indicar certa 
dispersão no que se refere às revistas científicas, já que 
não há uma grande concentração dos artigos em um ou 
outro periódico. Apesar disto, observamos uma maior 
presença de periódicos da área da Saúde – especial-
mente de Medicina e Enfermagem – como campos pro-
pícios ao desenvolvimento do tema. O Jornal Brasileiro 
de Psiquiatria, a revista Psiquiatria Biológica e a Revista 
Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental/Latin 
American Journal of Fundamental Psychopathology On 
Line tiveram, cada um, três artigos publicados acerca da 
temática deste estudo, enquanto que a Revista Brasileira 
de Enfermagem teve dois artigos publicados. Os demais 
artigos provêm de diversos outros periódicos da psi-
quiatria e da psicologia, sendo eles: Revista Psico-USF 
(USF/SP), Revista Mental (Unipac/MG), Revista Aletheia 
(Ulbra/RS), Revista Brasileira de Epidemiologia (Abrasco), 
Boletim de Psiquiatria, Estudos e Pesquisas em Psicologia 
(UERJ), Psicologia: Reflexão e Crítica (UFRGS), Arquivos 
Brasileiros de Psicologia (UFRJ), Revista Mal Estar e 
Subjetividade (Unifor/CE) e Saúde e Sociedade (FSP/
USP). A tabela abaixo mostra claramente esta dispersão.
Título do artigo Autor revista Área
Prevalência e fatores associados a sintomas depressivos 
em adultos do sul do Brasil: estudo transversal de base 
populacional
Rombaldi, Silva, Gazalle, 
Azevedo & Hallal (2010).
Revista Brasileira de 
Epidemiologia
Epidemiologia
A relação entre variáveis de saúde mental e cognição em 
idosos viúvos.
Trentini, Werlang, Xavier, & 
Argimon (2009)
Psicologia: Reflexão e Crítica Psicologia
Ressignificação existencial do pretérito e longevidade 
humana
Patrício, Hoshino & Ribeiro 
(2009)
Saúde e Sociedade Diversas áreas 
da saúde
Os ajustamentos criativos da criança em sofrimento: uma 
compreensão da gestalt-terapia sobre as principais psico-
patologias da infância.
Antony (2009) Estudos e Pesquisas em 
Psicologia
Psicologia
A contribuição de Tellenbach e Tatossian para uma com-
preensão fenomenológica da depressão
Leite & Moreira (2009) Arquivos Brasileiros de 
Psicologia
Psicologia
Fenomenologia da queixa depressiva em adolescentes: um 
estudo crítico-cultural
Melo & Moreira (2008) Aletheia Psicologia
Rompimento amoroso, depressão e auto-estima: estudo 
de caso.
Guedes, Monteiro-Leitner & 
Machado (2008)
Revista Mal Estar e 
Subjetividade
Psicologia
Experiências do estigma na depressão: um estudo trans-
cultural
Moreira & Telles (2008) Psico-USF Psicologia
Fenomenologia crítica da depressão no Brasil, Chile e 
Estados Unidos
Moreira (2007) Revista Latinoamericana de 
Psicopatologia Fundamental
Psicologia
Tempo, idade e cultura: uma contribuição à psicopatologia 
da depressão no idoso. Parte II: uma investigação sobre a 
temporalidade e a medicina
Bastos (2006) Revista Latinoamericana de 
Psicopatologia Fundamental
Psicologia
Fenomenologia da solidão na depressão Moreira & Callou (2006) Mental Psicologia
Tempo, idade e cultura: uma contribuição à psicopatologia 
da depressão no idoso. Parte I: temporalidade e cultura.
Bastos (2005) Revista Latinoamericana de 
Psicopatologia Fundamental
Psicologia
Fenomenologia da criança deprimida: questões existenciais 
e biológicas
Iserhard (2002) Psiquiatria biológica Psiquiatria
A descoberta da imipramina e a psicoterapia: uma (re)visão Souza (1997) Psiquiatria biológica Psiquiatria
A depressão nas pessoas idosas: um estudo nosológico 
retrospectivo e atual
Corrêa (1996) Jornal Brasileiro de 
Psiquiatria
Psiquiatria
Acompanhar um filho hospitalizado: compreendendo a 
vivência da mãe
Bezerra & Fraga (1996) Revista Brasileira de 
Enfermagem
Enfermagem
A fenomenologia das depressões: da nosologia psiquiátrica 
clássica aos conceitos atuais
Corrêa (1995) Revista Psiquiatria Biológica Psiquiatria
Um encontro com Heidelberg: personalidade pré-mórbida 
e interação conjugal observada de pacientes deprimidos 
endógenos
Mundt, Fiedler, Ernest & 
Kohlhof (1994)
Jornal Brasileiro de 
Psiquiatria
Psiquiatria
Classificacao e diagnostico fenomenológico das depressões. Sá Júnior (1983) Jornal Brasileiro de 
Psiquiatria
Psiquiatria
Sintomas existenciais versus sintomas patológicos, um pro-
blema de rotulagem psiquiátrica: inquérito sobre a vivência 
de profissionais da saúde mental
Vietta & Bueno (1987) Revista Brasileira de 
Enfermagem
Enfermagem
Abordagem fenomenológico-existencial dos sonhos Spanoudis (1981) Boletim de psiquiatria Psiquiatria
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Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013
Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira
Há um aumento significativo no número de publi-
cações a partir dos anos 2000, conforme mostra o grá-
fico abaixo:
Do total de artigos que compõe a amostra, seis não 
puderam ser acessados integralmente. Dessa forma, a 
análise de tais textos foi realizada apenas com base em 
seus resumos. Três destes artigos foram publicados no 
Jornal Brasileiro de Psiquiatria, sendo eles: “Classificação 
e diagnóstico fenomenológico das depressões”, de Sá 
Júnior (1983); “Um encontro com Heidelberg: personali-
dade pré-mórbida e interação conjugal observada de pa-
cientes deprimidos endógenos”, de Mundt, Fiedler, Ernest 
& Kohlhof (1994) e “A depressão nas pessoas idosas: um 
estudo nosológico retrospectivo e atual”, publicado por 
Corrêa (1996). Também não foram encontrados os textos 
“Fenomenologia da criança deprimida: questões exis-
tenciais e biológicas” (Iserhard, 2002); “Abordagem feno-
menológico-existencial dos sonhos” (Spanoudis, 1981) e 
“Acompanhar um filho hospitalizado: compreendendo a 
vivência da mãe” (Bezerra e Fraga, 1996). 
Desses textos que não foram acessados na íntegra, con-
vém destacar que no mais recente deles, Iserhard (2002) 
trabalha com as perspectivas de Tellenbach e Jaspers. Os 
demais artigos foram publicados entre os anos 80 e 90. 
Spanoudis (1981) faz uma análise da atividade onírica, à 
luz da “fenomenologia existencial” de Heidegger, a partir 
de uma paciente depressiva, além de outro paciente psi-
cótico. Sá Júnior (1983) traz uma revisão da classificação 
e diagnóstico das depressões, na direção de uma “feno-
menologia” das síndromes depressivas, numa perspecti-
va muito próxima da segunda via descrita anteriormente 
por Andreasen (2007). Correa (1996) caminha na mesma 
direçãode Sá Júnior (1983), mas direcionando a temáti-
ca para a depressão em idosos, ressaltando a indiferen-
ciação desse quadro em relação aos adultos. Mundt et al. 
(1994) trazem à discussão o conceito de “tipo melancóli-
co” da escola fenomenológica de Heidelberg – caracteri-
zado por excesso de orientação para a norma e a ordem 
– num diálogo com a testagem empírica, concluindo pela 
não homogeneidade do “tipo melancólico”, sugerindo in-
consistência de avaliações. Finalmente, Bezerra & Fraga 
(1996) procuram realizar uma aplicação do método feno-
menológico para a pesquisa das vivências maternas em 
relação à hospitalização de seus filhos.
É possível notar que também não há uma concen-
tração dos artigos em um autor específico. Apenas três 
pesquisadores escreveram mais de um artigo da amostra 
aqui considerada. Isto sugere que no Brasil existem pou-
cos grupos de pesquisa ou mesmo pesquisadores inde-
pendentes que estudam especificamente o fenômeno da 
depressão em suas diversas expressões – como é o caso 
do grupo APHETO da Universidade de Fortaleza (Unifor), 
que tem dentre seus objetivos desenvolver atividades 
de pesquisa e extensão em psicoterapia e psicopatolo-
gia, bem como em outros campos da clínica, utilizando 
uma abordagem denominada “humanista-fenomenoló-
gica crítica”, utilizando-se de referenciais filosóficos em 
Merleau-Ponty e Sartre, e psicológicos da Gestalt-Terapia 
e da Abordagem Centrada na Pessoa1.
A seguir, procederemos à análise indutiva das duas 
macrocategorias: estudos empíricos e estudos teóricos.
3.1 Artigos Empíricos
Moreira (2007) desenvolveu um estudo transcultural 
com o objetivo de compreender a experiência vivida da 
depressão no Brasil, no Chile e nos Estados Unidos, de 
modo a constatar possíveis variações culturais do fenô-
meno. Os resultados mostraram que embora não houvesse 
grandes variações sintomatológicas entre os três países, 
a experiência associada a tais sintomas varia conforme 
traços subjetivos específicos de cada cultura. Deste es-
tudo maior derivaram dois outros: um relativo ao estig-
ma relacionado à depressão nos três países (Moreira & 
Telles, 2008) e outro referente ao sentimento de solidão 
que acompanha a depressão (Moreira & Callou, 2006), 
buscando compreender até que ponto a solidão é causa 
ou consequência de tal psicopatologia. Nestes três estu-
dos, foi utilizado o método fenomenológico crítico para 
análise das entrevistas, entendendo que tal método tem 
como objetivo maior compreender a experiência vivida 
dos indivíduos pesquisados. 
Outro artigo publicado pela mesma pesquisadora dos 
estudos já citados refere-se ao transtorno depressivo em 
adolescentes (Melo & Moreira, 2008). O objetivo aqui foi 
o de compreender a queixa depressiva de vinte adoles-
centes atendidos pela clínica-escola da Universidade de 
Fortaleza. As autoras constataram que aspectos culturais, 
sociais, econômicos e familiares estão fortemente asso-
ciados à experiência da depressão dos adolescentes en-
trevistados. Um achado interessante desta pesquisa con-
siste no fato de que a descrição do que compõe a queixa 
depressiva diz respeito à forma como a pessoa lida com 
a experiência da adolescência. Este dado enfatiza a im-
1 Disponível em http://www.apheto.com.br/ 
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Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013
Anielli Santiago & Adriano F. Holanda
portância da utilização de um método que procure com-
preender os fenômenos psicopatológicos para além do 
diagnóstico clínico, buscando o sentido da experiência 
descrita pelos indivíduos, tal como o faz o método feno-
menológico crítico. 
Cinco estudos da amostra aqui considerada tratam 
da depressão em idosos, sendo dois empíricos e três te-
óricos. Trentini, Werlang, Xavier & Argimon (2009) re-
alizaram uma pesquisa com 30 idosos viúvos da cidade 
de Veranópolis (RS) com o objetivo de avaliar as habili-
dades cognitivas dos mesmos. Foi utilizado também um 
grupo controle, constituído por 30 idosos casados. Os au-
tores constataram diferenças significativas entre os ido-
sos viúvos e os casados: o grupo de enlutados diferia dos 
controles quanto à intensidade de sintomas depressivos 
e quanto ao escore no Questionário Fenomenológico do 
Luto. Entre os viúvos, o número médio de sintomas de-
pressivos e a média da intensidade do luto foram signi-
ficativamente maiores do que os escores observados no 
grupo controle.
Patrício, Hoshino & Ribeiro (2009) buscaram determi-
nar os aspectos ambientais envolvidos na longevidade a 
partir de relatos de ex-ferroviários longevos. Para tanto, os 
autores utilizaram uma técnica de metodologia qualitati-
va denominada grounded theory, ou teoria fundamentada 
nos dados, que é um método que busca as categorias que 
emergem da fala dos indivíduos. Posteriormente, agluti-
nam-se tais categorias em outras mais abrangentes, até se 
chegar às categorias centrais que permitam construir um 
modelo teórico que dê coerência de significados a todos 
os dados coletados. Os autores encontraram que as repre-
sentações dos ex-ferroviários convergem para a categoria 
central expressa como “Da Vida ao Aniquilamento: o con-
trole social e do estado em defesa da vida”. Isso porque 
a desolação dos indivíduos pesquisados se dá pelo ani-
quilamento da vida e do ambiente, no presente, causado 
pela negligência do Estado e da sociedade na promoção 
e preservação de recursos que existiam no passado. Um 
resultado interessante encontrado refere-se à hipervalo-
rização do passado, já que além de os fatores geradores 
de vida terem sido colocados no passado pelos entrevis-
tados, estes reconhecem que participaram da construção 
de um grande feito sócio-econômico do interior paulista. 
Assim, a ressignificação do passado, feita pela maioria 
dos entrevistados, parece ser um dos fatores significati-
vos da longevidade dos mesmos. Os autores asseveram, 
dessa forma, a importância das correntes psicoterápicas 
cuja ação central se baseia na construção do significado 
existencial. Para os idosos entrevistados, tal significado 
já foi encontrado, sendo necessário haver uma ressignifi-
cação. Esta pode ser, muitas vezes, “a única necessidade 
terapêutica ou ser uma etapa imprescindível do processo 
terapêutico para construir um novo significado existen-
cial” (Patrício, Hoshino & Ribeiro, 2009, p. 281). 
Guedes, Monteiro-Leitner & Machado (2008) reali-
zaram um estudo de caso com um paciente acometido 
por depressão em decorrência do rompimento de um re-
lacionamento amoroso. A abordagem teórica utilizada 
para fundamentar o estudo foi a centrada na pessoa, mas 
também lança mão do método fenomenológico para dar 
suporte à investigação clínica. Fez-se uso de metodolo-
gia quantitativa – através de instrumentos padroniza-
dos para avaliar as condições psicológicas do cliente – e 
qualitativa, para captar as “versões de sentido” na fala do 
mesmo. Como recurso metodológico da prática clínica, a 
versão de sentido consiste em anotações realizadas pelos 
psicoterapeutas referindo-se ao momento da sessão, não 
somente como um registro, mas como relato do viven-
ciado, impregnado de percepções e impressões sobre a 
experiência vivida da relação terapêutica. É um instru-
mento de cunho fenomenológico que propicia a verifica-
ção do processo e a revivência da experiência, de modo 
a proporcionar uma reelaboração dos sentidos presentes 
na relação subjetiva. Como metodologia, foi descrita por 
Amatuzzi (1991, 1993, 1995, 1996) para sua aplicação na 
pesquisa e na formação de profissionais, tendo sido mui-
to utilizada para avaliar efeitos na clínica e na supervi-
são (Vercelli, 2006; Boris, 2008). De acordo com Guedes 
et al. (2008), os resultados do processo terapêutico foram 
positivos, tendo em vista que o paciente aprofundou a 
percepção de sua condição existencial de responsabili-
dade pessoal e entrou em contato com sua insegurança, 
até então identificada com causas externasa si e com os 
dilemas que vivia, como seus fracassos, dentre eles, nas 
relações amorosas. Por isso pareceu ressignificar a ideia 
de “amor” que possuía: eterno, único e imutável. Dessa 
forma, conseguiu reconhecer e assimilar que para viven-
ciar uma relação amorosa estável seria preciso se reor-
ganizar e se fortalecer, o que implica, segundo os auto-
res, em conhecer-se mais autenticamente e se lançar no 
mundo nesta condição mundana.
Outro estudo de caso considerado na amostra se refe-
re ao acompanhamento dos sentimentos, medos e ansie-
dades vivenciados por uma mãe em situação de hospita-
lização de seu filho (Bezerra & Fraga, 1996). A pesquisa 
indica o uso de alguns elementos da abordagem fenome-
nológica para análise das entrevistas, mas não especifi-
cados no resumo do texto. As autoras constataram que 
a dedicação e a assistência extremas para com o filho 
doente deixam a mãe temporariamente descuidada de si 
mesma. Nesse sentido, a mãe passa a conviver com evi-
dentes sinais de sofrimento psíquico, concretizados em 
insônia, anorexia e sintomas de depressão. Além disso, 
a hospitalização da criança é verbalizada pela mãe como 
algo que tem efeitos sobre toda a família, gerando altera-
ções em sua dinâmica.
Mundt et al. (1994) apresentam as contribuições da 
escola fenomenológica de Heidelberg, mais especifica-
mente ao trabalho de Willy Mayer-Gros (1889-1961), para 
a compreensão da depressão. Uma destas contribuições 
é a delimitação do conceito de “tipo melancólico”, que se 
caracteriza por um excesso de orientação à norma e à or-
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Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira
dem, e por aspiração a uma harmonia interior. Existe um 
instrumento psicométrico, Structural Analysis of Social 
Behavior (SASB), que permite testar empiricamente tal 
conceito. O objetivo desta pesquisa foi, portanto, verificar 
características mais específicas do tipo melancólico em 
26 pacientes com diagnóstico de depressão. Amostras de 
15 minutos de diálogo entre os pacientes e seus cônjuges 
forneceram dados interacionais diretamente observáveis 
que foram, na sequência, analisados pela SASB. Os re-
sultados mostraram que, de fato, pacientes do tipo me-
lancólico procuram harmonia em seus relacionamentos 
ao evitarem interações crítico-negativas. No entanto, da-
dos de personalidade do Maudsley Personality Inventory 
(MPI) sugerem que o tipo melancólico não é homogêneo, 
o que pode levar a dados inconsistentes. Os autores cha-
mam atenção, dessa forma, para a necessidade de reali-
zação de novos estudos para quantificar a extensão em 
que outros aspectos de personalidade se misturam com 
o tipo melancólico, como bipolaridade ou narcisismo, 
por exemplo. 
Um estudo realizado por Vietta e Bueno (1987) teve 
como objetivo investigar como os conceitos de normalida-
de e anormalidade interferem na atuação de docentes de 
enfermagem. Para tanto, foi necessário investigar quais 
sintomas são considerados como normais e anormais pela 
população estudada, bem como a maneira como a mesma 
se percebe dentro destes referenciais. A metodologia uti-
lizada baseou-se na aplicação de um questionário cons-
tando de dados de identificação e questões relativas ao 
tema proposto, elaboradas a partir de uma listagem de 
sintomas. Sobre a definição dos conceitos, “considera-se 
cada um dos sintomas listados no instrumento como situ-
ados numa escala representada por um continuum deli-
mitados pelos extremos “normalidade” – “anormalidade” 
e cuja localização do sintoma, nesta escala, dependerá da 
intensidade, frequência, situação e momento em que está 
sendo vivenciado” (Vietta & Bueno, 1987, p. 258). As auto-
ras encontraram que a população estudada considerou os 
seguintes sintomas como normais: ansiedade, desânimo, 
depressão, agressividade, angústia, sentimento de culpa, 
inferioridade e vontade de agredir. Os sintomas anormais 
apontados foram delírio, alucinação, ideias obsessivas e 
vontade de matar. Apareceram como sintomas vivencia-
dos com maior intensidade: depressão, sentimento de in-
ferioridade, perseguição e desânimo. Cabe ressaltar que 
os sintomas considerados como normais foram aqueles 
já vivenciados pelos docentes, enquanto que os sintomas 
ditos anormais foram os nunca vivenciados pelos mes-
mos. É importante destacar também que alguns sintomas 
avaliados como normais fazem parte de quadros psiqui-
átricos pela classificação internacional, como é o caso 
da ansiedade, por exemplo. 50% dos indivíduos pesqui-
sados relata ter vivenciado ansiedade em grau intenso e 
ainda assim isso foi considerado normal. Além disso, as 
autoras apontam que alguns dos sintomas ditos anormais 
podem não ter sido admitidos como vivenciados, por se-
rem pouco aceitos na sociedade contemporânea. Outro 
dado interessante é que metade da população se considera 
equilibrada e a maioria não faz tratamento psicoterápico, 
mas pensa em se submeter à psicoterapia. 
O único estudo epidemiológico desta amostra, realiza-
do por Rombaldi, Silva, Gazalle, Azevedo e Hallal (2010) 
teve como objetivo identificar a prevalência de sintomas 
depressivos e fatores associados em uma população de 
972 indivíduos na cidade de Pelotas (RS). A análise mul-
tivariável indicou que pessoas do sexo feminino, com ida-
de mais avançada, pertencentes a classes sociais menos 
abastadas, fumantes atuais e que não trabalham, estão, 
em geral, em maior risco de apresentarem os sintomas 
em estudo. Os autores ressaltam que conhecer como a 
sintomatologia depressiva e fatores associados se distri-
buem na população pode contribuir para o entendimento 
da fenomenologia dos transtornos depressivos e a traçar 
estratégias de prevenção e minimização, sendo aqui en-
tendida a “fenomenologia” como metodologia descritiva 
aplicada aos transtornos mentais.
3.2 Estudos Teóricos
Dois estudos teóricos tratam especificamente da de-
pressão na infância. Iserhard (2002) aponta que nos ins-
trumentos diagnósticos usuais não há nenhuma referên-
cia à depressão infantil como entidade nosológica própria, 
na mesma direção do que apontam Weiss e Garber (2003). 
O autor toma os estudos de Hubertus Tellenbach sobre 
a situação pré-depressiva e a condição biológica (endon) 
como base para esclarecer como essa estrutura se mani-
festa na existência da criança. Além disso, neste estudo 
faz-se o delineamento do quadro clínico-fenomenológico 
conforme a concepção psicopatológica de Jaspers e apon-
tam-se formas de tratamento. 
Já Antony (2009) apresenta uma compreensão da 
Gestalt-terapia acerca das principais psicopatologias na 
infância, a saber, depressão, fobia, transtorno de ansie-
dade e transtorno obsessivo-compulsivo. Na abordagem 
gestáltica, segundo a autora, prioriza-se a relação entre 
homem e mundo; desta forma, os fenômenos psicopato-
lógicos são considerados como oriundos de distúrbios 
nas relações. Nesta perspectiva, “doença significa per-
turbações da auto-regulação originadas por mecanismos 
psicológicos defensivos de contato, que visam inibir a 
consciência de sentimentos, pensamentos, necessidades, 
comportamentos que geram angústia e colocam em ris-
co a relação com o outro significativo” (p. 356). O texto 
ainda aponta que, de maneira geral, as figuras parentais 
das crianças deprimidas são insuficientes ou inacessí-
veis para suprir suas necessidades afetivo-emocionais; 
dessa forma, o trabalho do terapeuta deve caminhar na 
direção da compreensão fenomenológica da unidade da 
experiência de todos os envolvidos no contexto em que 
a criança vive, para que possam tomar consciência de 
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Anielli Santiago & Adriano F. Holanda
suas ações e pensar em formas de ajustamento-criativo 
frenteà patologia. 
Em outro estudo teórico, Corrêa (1996) retoma a ques-
tão da incidência da depressão em indivíduos idosos, 
apontando para o fato de que a depressão nessas pessoas 
apresenta algumas particularidades, porém não difere, 
em essência, da depressão em adultos. Nesse texto – um 
dos quais cujo acesso foi limitado ao resumo – a fenome-
nologia surge como uma tradição na psiquiatria, não se 
especificando o contexto de sua aplicação.
Bastos (2005; 2006), em dois estudos complementares, 
buscou relacionar a temporalidade cíclica e a contínua, 
que são dois aspectos fundamentais das instituições cul-
turais sobre a passagem do tempo, com a psicopatologia, 
adotando uma visão crítica do construto de depressão no 
idoso. O autor baseia seu estudo na experiência clínica e 
na atitude fenomenológica que orienta essa prática. Nas 
concepções culturais que percebem a passagem do tem-
po de maneira predominantemente cíclica, o envelhecer 
faz parte de um movimento eterno em que a família se 
perpetua em seus descendentes, em suas tradições, no 
vínculo com a terra ou no exercício do ofício familiar. As 
entidades culturais que consideram enfoques mais dire-
cionais da passagem do tempo destacam cada vez mais 
o papel individual na história social. Quanto mais difí-
cil for a passagem de tendências tradicionais – de cará-
ter circular, fatalista, repetitiva e eterna – para outras de 
tendência individualizante, burocratizante, planejadora 
e sucessiva, maiores as dificuldades para um envelheci-
mento satisfatório e maior a tendência à depressão e me-
dicalização desse fracasso.
Dois artigos discorrem a respeito da questão da classi-
ficação e do diagnóstico do transtorno depressivo. Corrêa 
(1995) apresenta um breve histórico da nosologia das de-
pressões e expõe os conceitos fenomenológicos clássicos 
das escolas alemã, francesa, suíça e espanhola. O autor 
explica que as escolas psiquiátricas européias, dentro 
da tradição kraepeliniana (que considera os fatores am-
bientais e biológicos como participantes no desenvolvi-
mento da depressão), e baseada na fenomenologia alemã 
de Jaspers, Kretschmer e Schneider, dividem as depres-
sões em quatro grupos: depressão endógena, determina-
da por influências hereditárias; depressão situacional, 
causada por uma situação ambiental perturbadora; de-
pressão neurótica, ocasionada por um conflito emocio-
nal interno; e depressão sintomática, causada por doen-
ças corporais e uso de medicamentos ou drogas. Neste 
estudo, Corrêa (1995) aponta para a necessidade que a 
psiquiatria do pós-guerra, principalmente em países an-
glo-saxões, teve de homogeneizar os conceitos dos diver-
sos quadros psiquiátricos de modo a aprimorar os diag-
nósticos e torná-los mais confiáveis para a realização de 
um melhor tratamento e de pesquisas e levantamentos 
epidemiológicos com menor margem de erro. Por fim, as 
classificações de referência em todo o mundo são abor-
dadas: a classificação americana (DSM-III-R e DSM-IV) e 
a da Organização Mundial de Saúde (CID-10), que, cada 
vez mais, caminham para uma aproximação conceitual 
e descritiva. A nosografia apontada nestes manuais di-
vide o transtorno em depressão maior, distimia, cicloti-
mia, depressão melancólica, depressão atípica, depressão 
sazonal e depressão psicótica.
Sá Júnior (1983) faz uma revisão sobre a classificação 
e o diagnóstico da depressão partindo das ambiguidades 
desse conceito na atualidade e chegando à diferenciação 
entre a depressão enquanto sintoma, a depressão enquan-
to doença e a síndrome depressiva. As classificações clí-
nicas das síndromes depressivas, desde as nosológicas, 
as propostas pela CID e as que consideram a intensidade 
do quadro clínico são revistas ao lado de uma classifica-
ção fenomenológica de tais síndromes. Com base nesses 
estudos, o autor propõe diretrizes para diagnosticar as 
depressões, avaliar os sintomas, verificar as formas de 
evolução, a presença de queixas somáticas e a intensida-
de da síndrome e avaliar os fatores biológicos, psicoló-
gicos e sociais que fazem parte da síndrome depressiva. 
Levando em conta uma visão fenomenológica em 
psicopatologia, que propõe, sobretudo, o contato com a 
experiência vivida do indivíduo em sofrimento mental, 
Leite & Moreira (2009) apresentam a contribuição de 
Hubertus Tellenbach e de Arthur Tatossian para a com-
preensão do transtorno depressivo (como igualmente 
descrito em Iserhard, 2002). Tellenbach – segundo as 
autoras – considera o caráter endógeno dos fenômenos 
psicopatológicos a partir do conceito de endon, que é o 
terceiro campo etiológico do humano, ao lado do somá-
tico e do psíquico. Nessa concepção, endon se refere à 
corporeidade humana enquanto global, isto é, aquilo que 
tem caráter vital para o indivíduo e se apresenta como 
unidade. Além disso, Tellenbach fala a respeito do typus 
melancholicus como característico do indivíduo depres-
sivo (Leite & Moreira, 2009). Esse tipo está relacionado 
a uma rigidez, a um estar fixado, o que, muitas vezes, 
está relacionado à vida profissional dessas pessoas: o 
trabalho é uma tarefa a ser cumprida com a maior per-
feição. Para Tellenbach, a ordenalidade em que o tipo 
melancólico vive imerso apresenta caracterização pato-
lógica, já que predispõe a imposição de limites rígidos, 
que dificilmente são transcendidos. É dessa forma que 
se apresentam, em grande parte, as pessoas em depres-
são: presas em limites autoimpostos e restritas em sua 
corporalidade (Leite & Moreira, 2009). 
Segundo as autoras, Tatossian concebe o indivíduo de-
pressivo como um ser marcado por uma impossibilidade 
de se fazer presente em sua própria existência. Para este 
autor, o depressivo assiste à sua tristeza, sendo incapaz 
de entrar em relação com ela. Tal incapacidade se esten-
de a toda ação, o que ocasiona uma inibição vital e um 
vazio temporal. É como se nem mesmo a tristeza pudesse 
ser sentida pelo indivíduo, que não experimenta mais do 
que um sentimento de vazio. Além disso, Tatossian afir-
ma que no estado depressivo há uma alteração do tempo 
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Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira
vivido. Assim, o não fazer e o não ser têm relação direta 
com a estagnação do tempo vivido, já que na experiên-
cia da depressão a existência é lançada no vazio (Leite 
& Moreira, 2009). 
Souza (1997) revisa duas conferências proferidas por 
Roland Kuhn, uma em 1972 (realizada em Belo Horizonte) 
e outra em 1977 (em Barcelona). Evidencia-se, nestas con-
ferências, como a descoberta da imipramina esteve estri-
tamente relacionada à prática da psicoterapia. Kuhn foi o 
responsável pela descoberta dos efeitos antidepressivos da 
imipramina, sendo esta descoberta respaldada no concei-
to de “depressão vital” de Ludwig Binswanger. Este con-
ceito refere-se a um distúrbio funcional do organismo, 
apresentando uma sintomatologia que perturba funções 
vitais. Conforme Kuhn, apoiando-se em Binswanger, os 
distúrbios vitais do humor, entre eles a depressão vital, 
deveriam ser submetidos a uma terapia farmacológica, 
principalmente quando houver histórico familiar de al-
gum destes transtornos. Para o tratamento de alguns ca-
sos de depressão vital, a psicoterapia se limitaria a dar 
apoio à farmacoterapia, apenas atuando como fonte de 
informações sobre os medicamentos e resolução de situ-
ações proporcionadas pelo distúrbio. Em outros casos, a 
psicoterapia combinada com o medicamento se mostrou 
essencial. Para a análise existencial, Kuhn assinalou 
que o importante é conhecer os fatores que determinam 
o curso da história de vida. Corrêa (1995) traz, por fim, 
a discussão de Kuhn sobre a possibilidade de o próprio 
terapeuta prescrever o medicamento, apoiado nos argu-
mentos de que o terapeuta possui uma maior influência 
sobre o paciente e está em melhores condições de obser-
vá-lo em suainteração com a medicação, além de a me-
dicação tornar a psicoterapia mais fácil, rápida e satisfa-
tória para o paciente e para o terapeuta.
Por fim, temos um texto de Spanoudis (1981), no qual 
se apresenta uma compreensão fenomenológico-exis-
tencial acerca dos sonhos, a partir de alguns exemplos 
de uma paciente depressiva e de um paciente psicótico. 
Considerações finais
É possível notar que o número de artigos encontra-
dos no primeiro momento, nas três bases de dados pes-
quisadas, utilizando apenas o indexador “depressão” 
para busca, é significativo. No entanto, este número se 
apresenta muito restrito ao se buscar artigos sobre esta 
temática em relação a uma abordagem específica, como 
é a fenomenologia-existencial. Embora esta perspectiva 
tenha uma tradição no estudo dos fenômenos psicopa-
tológicos, pudemos verificar que a produção acadêmica 
sobre a depressão no Brasil utilizando esta abordagem 
é bastante pequena, o que contrasta com os dados alar-
mantes apresentados a respeito deste quadro. 
Um dos possíveis motivos desse número pouco ex-
pressivo pode estar relacionado à própria indefinição do 
campo – como descrito por Andrease (2007) e Mullen 
(2007) –, o que faz com que uma “fenomenologia” da de-
pressão possa simplesmente ser encarada como nosologia 
psiquiátrica, conforme apontado anteriormente, e, assim, 
não apareça claramente nos indexadores. Ademais, esta 
consideração aproxima sobremaneira uma perspectiva 
fenomenológico/nosológica da vertente biológica. Há di-
ficuldades no estudo da fenomenologia filosófica tanto 
na própria filosofia quanto na psicologia e na medicina, 
além de haver uma pequena tradução dos textos exis-
tentes no Brasil.
Esta indefinição pode ser constatada por este levanta-
mento, quando encontra desde a vinculação da fenome-
nologia aos modos de classificação e diagnóstico psico-
patológicos – como temos em Sá Júnior (1983) ou Correa 
(1995), p. ex. – e, portanto, associados a uma “fenomeno-
logia descritiva”; quanto a sua associação a um modo de 
acesso ao “vivido” ou à “experiência vivida” – como en-
contramos em Melo e Moreira (2008) ou Leite e Moreira 
(2009), p. ex. – aproximando-se de uma “fenomenologia 
compreensiva”. As vinculações – nem sempre bem deli-
mitadas – da Fenomenologia com o movimento existencial 
– são também referências dessa indefinição, e igualmen-
te se apresentam em nossa amostra, como em Patrício et 
al. (2009), por exemplo.
No entanto, mesmo com o reconhecimento que o le-
vantamento é limitado pelo número de vinte e um arti-
gos (o que remete à necessidade de um posterior levan-
tamento mais aprofundado, e que inclua as demais pro-
duções acadêmicas, em especial as dissertações e teses 
de pós-graduações, bem como uma metanálise associada 
a produções internacionais), podemos ter um vislumbre 
das pesquisas sobre depressão que adotam a abordagem 
fenomenológico-existencial, no Brasil.
Em relação aos estudos empíricos, alguns deles abor-
dam a depressão em relação a uma população específi-
ca – idosos, adolescentes, docentes (Trentini et al., 2009; 
Patrício et al., 2009; Melo & Moreira, 2008; Vietta & Bueno, 
1987) –, enquanto outros tratam de eventos que possam 
vir a desencadear a depressão ou fatores relacionados a 
ela – estigma, solidão, rompimento amoroso, internação 
de um filho (Moreira & Telles, 2008; Moreira & Callou, 
2006; Guedes et al., 2008; Bezerra & Fraga, 1996). Grande 
parte destes estudos empíricos considera, a partir de da-
dos coletados e analisados, que embora não haja varia-
ção na sintomatologia do transtorno depressivo, existem 
algumas diferenças no que se refere às vivências pes-
soais relacionadas a este quadro que variam de acordo 
com os processos subjetivos característicos de cada cul-
tura (Moreira, 2007; Moreira & Telles, 2008; Patrício et 
al., 2008; Vietta & Bueno, 1987; Moreira & Callou, 2006; 
Melo & Moreira, 2008). 
Os estudos teóricos também se concentram em torno 
de algumas temáticas peculiares, entre elas, a depressão 
em crianças (Iserhard, 2002; Antony, 2009), a depressão 
em idosos (Corrêa, 1996; Bastos, 2005, 2006), a classifi-
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Anielli Santiago & Adriano F. Holanda
cação e o diagnóstico dos quadros depressivos (Corrêa, 
1995; Sá Júnior, 1983) e a contribuição de alguns autores 
clássicos da fenomenologia para o entendimento da psico-
patologia em questão (Leite & Moreira, 2009; Souza, 1997). 
Alguns autores pontuam a necessidade de se considerar 
as particularidades das diferentes fases da vida na ava-
liação para diagnóstico do transtorno depressivo, tendo 
em vista que os manuais diagnósticos universalizam os 
sinais e sintomas relacionados ao quadro (Iserhard, 2002; 
Corrêa, 1996; Sá Júnior, 1983). 
É interessante destacar que, dos vinte e um artigos da 
amostra, cinco são assinados pela pesquisadora Virgínia 
Moreira, da Universidade de Fortaleza, o que represen-
ta um número considerável. No entanto, a dispersão dos 
demais autores indica uma não-concentração dos estu-
dos em um ou outro pesquisador. O mesmo vale para os 
periódicos em que os estudos foram publicados. Percebe-
se que não há centralização em alguma revista científi-
ca em particular.
Outro dado que chama a atenção é a igual “dispersão” 
de teóricos que poderiam apoiar ou referendar o campo 
de pesquisas sobre depressão. São pouco citados os teó-
ricos “clássicos”, como Jaspers (tradicionalmente associa-
do ao modelo descritivo de psicopatologia e psiquiatria), 
bem como Bisnwanger e Minkowski. Não foram encon-
tradas referência a Von Gebsattel ou a Straus; porém, cha-
ma a atenção a menção a Roland Kuhn (particularmente 
por seus estudos sobre a Imipramina), em dois artigos 
(Correa, 1995; Souza, 1997); e a presença forte de Hubertus 
Tellenbach como representante mais contemporâneo da 
perspectiva fenomenológica em psiquiatria (Mundt et al., 
1994; Iserhard, 2002; Leite & Moreira, 2009), bem como 
seu discípulo – Arthur Tatossian (Leite & Moreira, 2009) 
– o que pode representar tanto uma “redescoberta” da 
fenomenologia no campo da psicopatologia, como a in-
dicação de um caminho de “retomada” desta mesma fe-
nomenologia na contemporaneidade.
Um dado relevante com relação à amostra é a pre-
sença de cinco estudos tratando da depressão em idosos, 
o que parece indicar o reconhecimento da incidência 
considerável desse transtorno nesta população específi-
ca. De fato, conforme dados de uma pesquisa realizada 
por Snowdon (2002), cerca de 10% dos idosos em todo o 
mundo apresentam quadros depressivos. No Brasil, este 
número é ainda maior, passando dos 15%. Esses dados 
sugerem a importância de se dar uma atenção especial à 
saúde mental dos indivíduos da terceira idade. Todavia, 
dada a alta incidência da depressão na população em ge-
ral, chama-nos ainda a atenção a pouca produção asso-
ciada à população infantil e adolescente, bem como na 
própria população adulta. Esse dado é ainda mais rele-
vante quando se tomam as conclusões de reconhecer que 
os critérios diagnósticos do DSM-IV para a depressão são 
baseados no nível de desenvolvimento adulto, mas uti-
lizados para identificar a patologia em qualquer idade 
(Weiss & Garber, 2003).
Por fim, espera-se que este estudo possa servir como 
“retrato” da necessidade de realização de novas pesquisas 
empíricas – preferencialmente associadas ao campo mé-
dico – e de novas reflexões teóricas que possam dar conta 
da alta incidência dos transtornos do espectro depressi-
vo na população em geral. Tanto as pesquisas empíricas 
quanto as reflexões teóricas, devem vir acompanhadas 
de uma clara e ampla descrição contextual (neste caso, 
novos estudos epidemiológicos, dirigidos para popula-
ções específicas são igualmente desejáveis), de modo que 
seja possível traçar metas razoáveis de atenção e políticas 
públicas condizentes com as necessidades da população. 
No que tangeespecificamente ao domínio dos estudos fe-
nomenológicos, e em consideração ao extenso histórico 
dessa perspectiva no contexto das práticas psicológicas e 
psiquiátricas, reconhece-se uma carência igualmente sig-
nificativa de estudos no país, o que parece apontar para 
uma limitada penetração do pensamento fenomenológi-
co na Psiquiatria e Psicologia brasileiras.
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Sá Júnior, L. S. M. (1983).do sentido (expressão 
corporal, actividade no mundo e produções artís- 
ticas). Em particular, nos fenómenos vividos 
abordou a consciência do objecto (com destaque 
para as alucinações e pseudo-alucinações), as 
alterações das vivências do espaço e do tempo, 
da consciência da realidade (com destaque para 
o delírio e vivências delirantes primárias) e, 
ainda, dos sentimentos e estados de ânimo, im- 
pulsos, vontade, fenómenos reflexivos e cons- 
ciência do Eu. 
Finalmente, Jaspers introduziu três conceitos- 
-chave, que emergiram do método compreen- 
624 
sivo: ( I ) O processo, como interrupção da conti- 
nuidade histórico-vital, «algo totalmente novo 
que se apresenta por efeito duma transformação 
profunda da actividade anímica)) (Jaspers, 1972), 
que seria totalmente incompreensível genetica- 
mente: o processo psicótico torna a personali- 
dade delirante; (2) O desenvolvimento, uma con- 
tinuidade compreensível que prolonga de forma 
clara a personalidade e que «tem crescimento e 
desenvolvimento em conformidade ... destino 
compreensível face 21 biografia e configuração de 
sintomas em conformidade com a maneira de 
ser» (Jaspers, 1972): a personalidade desenvolve- 
-se de forma delirante como na paranóia; (3 ) A 
reacção, enquanto resposta comnpreensível a 
acontecimentos vitais ou vivências anteriores. 
Influenciado por Husserl, em 1912 já Jaspers 
tinha publicado «A Orientação da Investigação 
Fenomenológica em Psicologia)), mas é a sua 
((Psicopatologia Geral)), publicada em 191 3 e 
sucessivamente reeditada, que consubstancia a 
I totalidade do pensamento psicopatológico. 
Também filósofo, Jaspers trabalhou a dimensão 
da razão e da existência e evidenciou que esta 
última só poderia ser iluminada e nunca apre- 
endida conceptualmente, j á que não poderia ser 
reduzida por completo a um objecto do pensa- 
mento. 
: 
3. A DASEINANALYSE DE L. BINSWANGER 
Ludwig Binswanger (1 881 -1 966), mais 
impregnado de referências filosóficas, particular- 
mente de Heidegger, tornou-se especialmente 
conhecido pelos seus trabalhos sobre a esquizo- 
frenia, a mania e a melancolia. Introduziu a Da- 
seinanalyse, «uma atitude que parte da compre- 
ensão do Homem em situação)) ... ((trabalho de 
actualização do ser do Homem em todas as suas 
formas e todos os seus mundos)) (Binswanger, 
1971). 
A análise psicopatológica que propôs foi uma 
análise empírico-fenomenológica dos modos e 
formas da existência perturbada, centrada na es- 
trutura do Dasein, com a finalidade de explicar e 
descrever a totalidade do ser psíquico do Ho- 
mem perturbado. Trata-se, essencialmente, de 
uma abordagem dos estados psicopatológicos 
enquanto modos de existência frustrada, toman- 
do como pontos de partida as categorias da Psi- 
copatologia. 
I 
Numa primeira fase, antes de 1927 e sob a 
influência da obra filosófica de Husserl, 
desenvolveu umafenornenologia categoria1 com 
o objectivo de revelar as alterações das ca- 
tegorias existenciais do Dasein como eixo de 
uma análise estrutural do que denominou os da- 
seins psiquiátricos. Ou seja, centrando-se nas 
determinações constitutivas da existência (os 
existenciais corporalidade, temporalidade, espa- 
cialidade e outros), procurou investigar como o 
Dasein se projecta no mundo. A grande finali- 
dade destas análises fenomenológicas seria a da 
reconstrução do mundo interior da experiência 
do paciente, para elucidar a estrutura pessoal do 
mundo individual que, todavia, ainda não per- 
mitiria compreender o significado da sua exis- 
tência. 
Mais tarde, particularmente influenciado pela 
obra filosófica de Heidegger, L. Binswanger de- 
senvolveu um método analítico-existencial ou 
Daseinanalyse, que questiona a existência e pro- 
cura fazer a reconstrução do seu desenvolvi- 
mento, através da investigação biográfica. 
Síntese da Psicanálise, da Fenomenologia e do 
Existencialismo, a Daseinanalyse apareceu como 
uma análise fenomenológica das formas de exis- 
tência, pré-definidas a partir das diversas cate- 
gorias psicopatológicas: dasein melancólico, 
dasein esquizofrénico, etc. Evidenciou a doença 
mental como um modo de existência, que teria 
que revelar a intervenção do próprio Homem, 
mas que realizaria uma redução da sua capaci- 
dade de viver e de conhecer. Considerou a exis- 
tência como estrutura total que abarca a conti- 
nuidade do sujeito e as suas relações com o ou- 
tro, as estruturas sociais e as coisas. A elabora- 
ção do Eu far-se-ia pela coordenação da expe- 
riência vivida actual com o encadeamento das 
experiências vividas anteriores (ou biografia in- 
terna). Quis realçar a análise da existência total 
do paciente no seu estar-no-mundo e tentou ca- 
ptar as estruturas básicas e significados essen- 
ciais, por intermédio de uma atitude intuitivo- 
-reflexiva que visava o Homem em si-mesmo. 
Com a Daseinanalyse de Binswanger, a psico- 
patologia apareceu como inflexão da estrutura 
do Dasein, um desvio ou alteração em relação A 
norma ontológica do Dasein, um extravio da rea- 
lização ontológica que o tornaria opaco para si 
mesmo. Através da análise dos casos Ilse, Ellen- 
west e Lola Voss, evidenciou o carácter de res- 
625 
triçãoAimitação na psicopatologia, que emergiria 
no que denominou tematização da existência, ou 
seja, quando uma só categoria do Dasein serve 
de «fio condutor)) ao projecto de mundo. Para 
Binswanger, a tematização da existência impl i- 
caria uma tarefa terapêutica de reconstrução da 
experiência, que envolveria a investigação meto- 
dica da biografia interna (onde apareceria uma 
nova forma de comunicação/reconstituição meri- 
tal das vivências) e uma penetração na estrutura 
da existência do paciente, para reconduzir a 
totalidade ou pluridimensionalidade do Dasein . 
Para Binswanger, o método de análise psico- 
patológica foi a Daseinanalyse, mas a técnica 
terapêutica que propunha era ainda a psicana- 
lítica. 
A difusão e a compreensão da psicopatologi a 
fenomenológica foram dificultadas pela liri- 
guagem filosófica dos seus autores, particular- 
mente fora dos países de língua alemã. N o 
entanto, pela sua importância, é de destacar a 
fenomenologia de E. Minkowski que, por exeni- 
plo, conceptualizou o transtorno fundamental 
da esquizofrenia como perda de contacto vitd 
com a realidade, desenvolveu a noção de tempo 
vivido e da sua importância em vários estados 
psicopatológicos, com destaque para a me- 
lancolia, conceptualizada como doença d o 
tempo. Mais tarde apareceram outras obras 
importantes em língua francesa, nomeadamene 
a ((Fenomenologia das Psicoses)) de Tatossian 
(1979) e ((Fenomenologia, Psiquiatria e Psica- 
nálise)) de P. Fedida (1986). Juntamente com J. 
Schotte, este último autor editou em 1981 uin 
conjunto vasto de textos intitulado ((Psiquiatria e 
Existência», correspondentes a um importante 
colóquio realizado em Cerisy (França), em 198'3, 
que constituiu uma reflexão profunda sobre as 
investigações mais actuais no campo da psico- 
patologia fenomenológica e que inclui trabalhos 
de A. Tatossian, R. Kuhn, H. Tellenbach, FV. 
Blankenburg e Y. Pelicier, entre outros. 
Finalmente, nos Estados Unidos da América, 
a Universidade de Duquesne tornou-se o priii- 
cipal centro de investigação em psicologia feno- 
menológica (Giorgi, 1966, 1971, 1983; von 
Eckartsberg, 1971), editando ((Joumal of Pheno- 
menological Psychology)) desde 197 1. 
Em síntese, a abordagem fenomenológica da 
Psicopatologia tem por finalidade a compre- 
ensão dos fenómenos psicopatológicos tal como 
são dados e vividos, e elucidar qual é a forma 
mesma do funcionamento mental do paciente, 
que dá conta da alteração da realização da expe- 
riência vivida e da qual emergem os sintomas. 
Especificamente, a contribuição da Dasein- 
analyse deu lugar a uma conceptualização psico- 
patológica dos modos de estar-doente (Boss & 
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Anielli Santiago - Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal 
do Paraná. Email: anielli.sant@hotmail.com 
Adriano Furtado Holanda - Doutor em Psicologia, Professor Adjunto 
do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação 
em Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Endereço 
Institucional: Departamento de Psicologia, Universidade Federal do 
Paraná. Praça Santos Andrade, 50 – Sala 215 (Ala Alfredo Buffren). 
80020.300. Curitiba/PR. Email: aholanda@yahoo.com
Recebido em 19.04.13
Primeira Decisão Editorial em 16.05.13
Aceito em 30.06.13e uma demência pós-traumática 
que, em comum, têm uma afectação da possibi- 
lidade de corporalizar uma certa relação com o 
mundo 
- Estar-doente caracterizado por uma afecta- 
ção pronunciada da espacialidade 
- Estar-doente constituido por obstáculos im- 
portantes a realização da disposição do humor 
própria a essência da pessoa, onde se destacam 
as psicoses afectivas e outros distúrbios afecti- 
vos, nomeadamente depressivos 
- Estar-doente constituidos por obstáculos 
importantes ci realização do ser-aberto e da li- 
berdade, envolvendo sobretudo as psicoses es- 
quizofrénicas. Assim, o modo de estar-doente es- 
quizofrénico aparece como uma manifestação da 
privação extrema que consiste em não-poder ser 
de forma livre e autónoma. No entanto, também 
nos neuróticos obsessivos há afectação da liber- 
dade e da abertura do existir, de forma menos 
intensa, particularmente porque são constrangi- 
dos a manterem-se rigorosamente a distância das 
coisas e a protegerem-se: a existência é aqui uma 
luta constante contra as ameaças de um universo 
impuro e corrompido. 
Finalmente, para uma melhor compreensão 
dos modos de estar-doente, convém referir que a 
abordagem fenomenológica da psicopatologia é 
indiferente a distinção entre normal e patológico, 
uma vez que o método fenomenológico suspende 
qualquer tese de valor e, portanto, de normativi- 
dade (Tatossian, 1990): esta indiferença é com- 
preensível na medida em que a fenomenologia 
encara os modos de estar-doente como possibi- 
lidades humanas universais. O acento tónico no 
interior do sujeito, na existência ou ausência do 
poder de aplicar ou não a norma que é a sua. Ou 
626 
seja, a perturbação começa quando há limitação 
A liberdade, quando o sujeito deixa de poder ado- 
ptar outras modalidades comportamentais. 
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RESUMO 
Nesta nota didáctica a finalidade é introduzir 
conceitos fundamentais sobre a abordagem feno- 
menológica em Psicopatologia. Após uma breve intro- 
dução sobre os pontos de convergência fundamentais 
entre as diferentes orientações fenomenológicas e 
existenciais, referem-se aspectos específicos da psico- 
patologia fenomenológica centrando-se na Fenomeno- 
logia de K. Jaspers e na Daseinanalyse de L. Binswan- 
ger . 
ABSTRACT 
The main goal of this paper is to review the 
groundwork of phenomenological psychopathology. 
After an introduction about the phenomenological- 
-existential convergent topics, the author particularize 
with K. Jaspers‘ phenomenology L. Binswanger’s 
Daseinanalyse. 
62 7 
Psicopatologia na fenomenologia-existencial
31
Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44
 
Psicologia 
A psicopatologia e o diagnóstico numa abordagem
fenomenológica–existencial
Carlene Maria Dias Tenório1
1 Gestalt Terapeuta; Mestre e Doutoranda em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília-UnB; ex-
professora da Universidade de Fortaleza-UNIFOR; professora do Centro Universitário de Brasília-UniCEUB;
membro efetivo da diretoria e do corpo docente do Instituto de Gestalt Terapia de Brasília-IGTB.
RESUMO - Partindo da exposição de alguns pressupostos da fenomenologia e do
existencialismo, é feita uma reflexão acerca dos aspectos teóricos e metodológicos
referentes à psicopatologia e ao diagnóstico dentro dessa abordagem. Uma psico-
logia de base fenomenológico-existencial confirma a prioridade da relação com o
outro na constituição do sujeito. Desse modo, o aspecto relacional assume um
papel determinante no desenvolvimento saudável ou patológico e o aspecto essen-
cial da existência humana, do qual se origina a problemática relacional que caracte-
riza a patologia, consiste em modalidades específicas de internalizar a figura do
outro por parte do indivíduo. Dentro dessa perspectiva, fazer diagnóstico é identi-
ficar e explicitar o modo de existir do sujeito em seu relacionamento com o ambien-
te em determinado momento e os significados que ele constrói de si e do mundo.
Palavras-chave: fenomenologia, existencialismo, pscicopatologia, diagnóstico
The psychopathology and the diagnosis according
to the phenomenological-existentialist approach
ABSTRACT - Starting from the explanation of some premises of phenomenology
and existentialism, some thoughts are given to the theoretical and methodologicalaspects concerning the psychopathology and the diagnosis according to this
approach. A Psychology based on the phenomenological existentialist approach
confirms the priority of the relationship with the other person on the subject’s
constitution. In this sense, the relational aspect takes a determining role on the
healthy or pathological development. In addition, the essential aspect of the human
existence from which the relational problems, the ones that characterizes the
pathology, originate consists of specific ways of internalizing the other’s image by
the person. From this point of view, making a diagnosis consists of identifying and
showing the person’s way of being in his/her relationship with the environment at
a specific moment and the meanings of himsel and the world.
Key-words: phenomenology, existentialism, psychopathology and diagnosis
Carlene Tenório
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Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44
A fenomenologia e o existencialismo: alguns pressupostos básicos
O existencialismo é uma corrente filosófica bem mais abrangente e com
uma gravitação no pensamento contemporâneo bem maior que a fenomenologia.
Nascido oficialmente em 1927, com a publicação de Ser e Tempo, de Martin
Heidegger, o existencialismo coloca a questão do ser como a máxima tarefa da
reflexão e da ação humana. Centrada sua preocupação na elucidação ontológica
em geral, Heidegger focaliza sua atenção na questão do ser humano em particu-
lar, tentando caracterizar, em sua obra fundamental, os traços distintivos da exis-
tência humana. Para esse objetivo, ele entende que o único método que lhe per-
mite alcançar este propósito é a fenomenologia.
Depois de Heidegger, outros pensadores identificados com essa corrente
filosófica aplicam este mesmo método. No entanto, o método fenomenológico
não é o único empregado pelo enfoque existencial, sobretudo na área da psico-
logia. Dois outros métodos gozam igualmente de considerável prestígio: o mé-
todo compreensivo e o método dialético, que serão abordados posteriormente.
Na cabeça de seu fundador, Edmund Husserl, a Fenomenologia nasceu
com a pretensão de tornar a reflexão filosófica uma ciência rigorosa tão bem
estabelecida que servisse de fundamento a todas as outras ciências empírico-fí-
sicas e naturais. O grande intuito de Husserl era fundar um método que propor-
cionasse um conhecimento indubitável e radical, com um ponto de partida evi-
dente, sem nenhum pressuposto. Trata-se de apreender os fenômenos tais como
emergem na consciência pura do sujeito, na experiência vivida (Romero, 1997).
A aplicação do método fenomenológico, exige, em primeiro lugar, a von-
tade de ater-se aos fenômenos mesmos, deixando de lado qualquer pressuposto
e toda idéia preconcebida.
 Essa exigência metódica implica que precisamos deixar que os fenô-
menos falem por si mesmos sem encaixá-los de imediato na bitola de nossa
teoria prévia (Romero, 1997, p. 53).
Embora não desconsidere o aspecto objetivo, a descrição fenomenológica
se centraliza na experiência vivida pelo sujeito. Tenta captar o acontecer
experiencial tal como o sujeito o manifesta por sua expressão verbal ou escrita,
objetiva ou subjetiva. Pela fenomenologia tentamos indagar os modos de mani-
festar-se de um determinado fenômeno, examinando em seguida o significado e
sentido que esse fenômeno possa comportar, tal como ele é apreendido pela aná-
lise reflexiva.
A fenomenologia, no entanto, não aspira apenas fazer uma descrição dos
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objetos intencionais que constituem a experiência originária da consciência;
propõe-se também estabelecer a essência dos fenômenos. Nas múltiplas e varia-
das manifestações de um fenômeno, sempre podemos detectar um núcleo comum
e um significado que percorrem e unificam essa variedade fenomenológica; é o
que denominamos a essência do fenômeno (Romero, 1997).
Outro importante aspecto da fenomenologia é a noção de intencionalidade
da consciência: a consciência é sempre consciência de alguma coisa, estando
dirigida para um objeto, só existe objeto para uma consciência.
Se um objeto é sempre objeto-para-uma-consciência, ele jamais será
objeto-em-si, mas objeto percebido... Consciência e objeto não são entidades
separadas na natureza, mas definem-se a partir desta correlação que lhes é
co-original (Boris, 1994, p. 23).
O campo da análise fenomenológica seria elucidar a essência desta corre-
lação, na qual se estende o mundo inteiro (Angerami, 1984).
Neste sentido, como diz Romero, (1997), temos que considerar o caráter
intencional do fenômeno psíquico. O mental não é algo que acontece apenas
dentro da cabeça, sem maior relação com o mundo fora. Pelo contrário, o mental
está inteiramente direcionado para o mundo; é o mundo refletido, de certa ma-
neira, numa determinada pessoa. Uma vivência não é uma experiência puramen-
te objetiva; toda vivência é uma forma de relação que o sujeito estabelece com
os diversos objetos que constituem seu mundo. Buscar a compreensão do signi-
ficado que esse mundo particular tem para cada sujeito, por meio da descrição
minuciosa de suas vivências, é, portanto, o principal objetivo do método
fenomenológico.
Finalmente, como diz Merleau-Ponty (1973), a mais importante aquisi-
ção da fenomenologia é, sem dúvida, a de ter associado o extremo subjetivismo
ao extremo objetivismo, propondo caminhos para a compreensão da experiên-
cia humana visando respeitar a complexidade do real e encontrar o sentido den-
tro do próprio fenômeno, que emerge espontaneamente na consciência.
O existencialismo é uma filosofia da liberdade. Sustenta que o homem é
ontologicamente livre. Por sermos livres, somos igualmente responsáveis. Sem
liberdade de decisão e de escolha não seríamos responsáveis. Isso não significa
negar a importância dos determinismos que, nas diversas esferas, afetam os ho-
mens. Justamente perante esses determinismos é que tem sentido a liberdade.
Quando afirmamos que somos livres, estamos afirmando que sempre temos algu-
ma possibilidade de escolha, uma margem de opção. Podemos submeter-nos
passivamente a estes determinismos; é o que faz muita gente, mas essa sujeição
Carlene Tenório
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é também uma forma de escolha (Romero, 1997).
De acordo com o existencialismo de Sartre, “a existência precede a essên-
cia”, isto quer dizer, então, que a existência é a essência do homem. Sua essência
só é revelada e, de certo modo, construída por meio de sua existência, de sua
relação com o mundo (Penha, 1982).
É importante salientar, no entanto, que o existencialismo não nega as
essências como determinações formais, estruturais ou naturais; elas constituem
o dado ou recebido na constituição humana. Só que vale sempre a observação de
Sartre: “Não importa o que me foi dado, o importante é o que eu faço com o que
recebi”.
O existencialismo também afirma que o homem é um ser de possibilida-
des. Em psicologia costuma-se acentuar a importância da necessidade como um
fator que compele o indivíduo na procura do objeto que satisfaça uma carência
biológica ou motive sua realização psíquica e existencial. Mas o homem não é
meramente movido por carência e desejos; é um ser aberto ao mundo, aberto a
seu apelo e às suas possibilidades. Por estar aberto, não está inteiramente deter-
minado e já feito de uma vez - como acontece ao animal, que não tem futuro nem
passado, sem possibilidades e completamente inserido na natureza.
Outra característica importante da existência humana é sua temporalidade
e finitude.
O homem é um ser temporal e temporalizante, isto é, finito e ciente de
sua finitude; tudo o que faz e lhe acontece revela sua finitude. O Dasein,
ensina Heidegger, é um ser-para-a-morte. (Romero, 1997, p. 34)
Nas palavras de Augras (1986, p. 32):
 O ser para a frente de si mesmo nada mais é do que o ser para a morte.
É essa certeza inaceitável que fundamenta a ambigüidade do horizonte exis-
tencial.Todos os mitos de tempo são mitos de cataclismos, que buscam no fim
do mundo uma promessa de ressurreição... o tempo é criação do homem, não
apenas na forma de parâmetro que facilita a ordenação das ações humanas,
mas sobretudo como tentativa de negar a morte.
O homem como ser no mundo é uma das dimensões existenciais apontadas
por Heidegger. Com relação a este aspecto Heidegger explica que homem e mundo
invocam-se mutuamente, um não existe sem o outro. Isso significa que o mundo
é uma realidade puramente humana. O indivíduo está inserido completamente
nessa realidade. Sair dessa realidade é perder as características próprias do ser
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humano. Tudo o que nos acontece subjetivamente se relaciona com algo que
está ai, no mundo (Barbosa, 1998).
Diante de todas essas condições existenciais que lhe são inerentes, o ser
humano inevitavelmente sofre e se angustia.
Segundo Petrelli (1999, p. 23),
A essência do homem é dada pelas tarefas do seu existir que são: ser
consciente; escolher; decidir; ser responsável; aceitar sua finitude; aceitar
os seus limites; responder às possibilidades; resistir às derrotas; construir a
sua singularidade sobre a sua solidão; vencer o Nada constituindo-se como
‘deus’.
Essas tarefas, cujas realizações e possibilidades de fracasso definem o sen-
tido de sua própria existência, são a razão de sua profunda angustia. O homem
consciente de sua própria humanidade se angustia diante de sua liberdade e res-
ponsabilidade; diante do nada (morte) e de sua inalienável singularidade e soli-
dão, ao perceber que sua experiência de estar no mundo, além de finita, é vivida
de um modo particularmente seu, nunca igual à experiência de qualquer outra
pessoa.
 Os métodos compreensivo e dialético: uma breve exposição
Enquanto modelo epistêmico ou forma de entender a existência humana
em suas manifestações saudáveis ou patológicas, o enfoque fenomenológico-
existencial segue basicamente os métodos compreensivo, dialético e
fenomenológico. (Romero, 1997).
A compreensão não é apenas a resultante do entendimento. Quando en-
xergamos as relações que constituem um determinado fenômeno ou uma dada
situação, dizemos que os compreendemos. A compreensão é um método diferen-
te do método explicativo, embora os dois se complementem. A psicologia usa
um ou outro, segundo o plano em que se movimenta. Explicamos os processos
psíquicos quando decorrem de fatores causais ou de variáveis independentes.
Explicamos alguns aspectos da conduta do bêbado sob o efeito do álcool
(lentidão dos reflexos, falta de coordenação motora, incoerência associativa).
Compreendemos a reação de esquiva e rejeição por parte da maioria das pessoas
perante a presença de um bêbado, pois seu comportamento inconveniente torna
indesejável sua proximidade. O explicar corresponde à determinação das cau-
sas; o compreender implica o conhecimento dos motivos que levam uma pessoa
a comportar-se de uma determinada maneira, ou a vivenciar a realidade de certo
Carlene Tenório
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modo. Compreender é relacionar um fenômeno psicológico com outro fenôme-
no psíquico com o qual mantém uma relação motivacional.
Certas condutas estranhas de uma pessoa idosa são explicáveis por
deterioramento cerebral; perda de memória, emotividade pueril, diminuição de
senso moral. Outras vivências são compreensíveis por motivos existenciais e
psicológicos: suas fases de tristeza e certa melancolia relacionam-se com sua falta
de possibilidades, seu isolamento de fato, a desconexão com certas atividades
(aposentadoria) e o menosprezo notório de outros em relação ao velho.
Dessa maneira, compreender é estabelecer as relações de sentido que um
evento, uma vivência, uma conduta ou uma expressão possam implicar.
O método dialético parte do princípio de que a relação com o diferente e o
conflito entre os opostos são a força propulsora da evolução do ser humano. Esses
opostos ou polaridades são as mais diversas possíveis, constitutivas da existên-
cia humana: consciência/inconsciência; figura/fundo; organismo/meio; eu/tu;
sujeito/objeto; dentro/fora; vida/morte, etc. Existe uma tensão natural entre di-
versas polaridades vivenciadas pelo sujeito enquanto ser consciente e relacional.
Este sujeito, na tentativa de integrar essas polaridades, sofre, entra em conflito e
ansiedade, se desequilibra, se desorganiza, mas em seguida retoma um estado de
equilibração, organização e harmonia provisório, no entanto, qualitativamente
superior e mais complexo que o estado anterior.
O desenvolvimento humano, portanto, acontece como uma espiral, onde o
conflito entre as diferenças é fundamental. É um constante processo de equilibração
e desequilibração, organização e desorganização, mediante a dinâmica entre os
opostos: tese e antítese, gerando uma nova totalidade provisória que é a síntese.
Como diz Augras (1986, p. 11)
A saúde encontra-se nesse fogo de interações. Pois cada estado de
equilíbrio alcançado destrói o estado anterior. A vida procede dialeticamente.
Ordem e desordem são etapas constantes no desenvolver do homem e do
mundo.
Neste sentido, Augras define saúde e doença como etapas de um mesmo
processo de equilibração na relação eu/mundo por meio do qual se dá a consti-
tuição mútua do mundo e de si mesmo.
 A psicopatologia: algumas idéias fundamentais
A abordagem fenomenológica existencial da Psicopatologia, de acordo com
Romero (1997), iniciou-se com a publicação do livro de Karl Jaspers, Psicopatologia
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Geral, em 1913. Nesse mesmo ano, o filósofo Edmundo Husserl publica seus
escritos sobre Fenomenologia Pura, em que se estabelecem os traços gerais do
método. Contudo, só em 1927, com a publicação de Ser e Tempo, de Martin
Heidegger, é que se estabelece o consórcio da fenomenologia com o existencialismo.
O enfoque fenomenológico-existencial da psicopatologia tem como base
uma concepção elaborada de homem, que se encontra desenvolvida nas grandes
figuras deste movimento, singularmente em Heidegger, Sartre, Merleau - Ponty,
Ortega e Buber.
De uma forma mais sucinta podemos definir o conceito de homem dentro
deste enfoque como um ser pluridimensional, livre, inserido em um mundo do-
tado de sentido particular, aberto às suas possibilidades, consciente de sua finitude
e de sua responsabilidade perante suas escolhas, capaz de inventar e cuidar de
sua própria existência mediante a práxis.
Partindo desta visão de homem, podemos dizer que a psicopatologia vai
se manifestar por meio de uma vivência de sofrimento onde a pessoa se sente
vítima e presa a um destino sombrio e a uma existência destituída de realizações
gratificantes e prazerosas. Sem liberdade de escolha, a pessoa vive a sensação de
estar encurralada pelas circunstâncias da vida, sentindo-se impotente para modificá-
las, submetendo-se a elas, num sacrifício alienante e inevitável.
Nesse processo de sofrimento, a pessoa perde o contato com as possibili-
dades existentes no campo organismo/meio, percebendo a si mesma e ao outro
de forma distorcida. Com relação a este aspecto, Romero (1977, p. 34) comenta:
Na depressão, o sentimento de falta de possibilidades é muito acentua-
do. Na ansiedade o que emerge são possibilidades negativas ou conflitantes.
O possível e o impossível perdem seus limites na psicose e quando ingressa-
mos no plano do imaginário.
Uma psicologia de base existencial-fenomenológica é relacional e
intersubjetiva isto é, confirma a prioridade da relação com o outro na constitui-
ção do sujeito. Isso significa que na etapa inicial do desenvolvimento, durante
boa parte da infância, o indivíduo esteve subordinado às injunções, aos ditames,
às manipulações e ao domínio dos agentes socializadores: pais, parentes, educa-
dores e programadores coletivos (mídia, principalmente).
Entretanto, para que haja um desenvolvimentosaudável e uma constitui-
ção da individualidade é preciso que aconteça uma progressiva superação dessa
primazia do outro, tarefa esta que implica um longo processo de autoconsciência
e questionamento de si mesmo e do mundo em que se encontra inserido (Romero,
1977).
Carlene Tenório
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Desse modo, o aspecto relacional da existência humana assume um papel
determinante na constituição de um desenvolvimento saudável ou patológico.
O conflito existente na relação indivíduo/meio gera uma tensão básica que é
fundamental no desenvolvimento humano, no entanto,
...haverá doença se esse conflito subsistir em termos de desordem, per-
manecendo o indivíduo num comportamento estereotipado, invariante, alheio
às suas possibilidades e do ambiente, ou reagindo inadequadamente... a saú-
de do indivíduo será avaliada em sua habilidade para recuperar o equilíbrio
e superar a crise na relação com o ambiente, utilizando então sua capacida-
de criadora para transformar esse meio inadequado em mundo satisfatório.
(Augras, 1986, p. 12).
A psicopatologia também pode manifestar-se como uma desorganização
da cronologia existencial. Para o melancólico, o tempo afigura-se parado, imó-
vel, sem nenhuma perspectiva. As idéias de ruína, de culpabilidade surgem como
tentativas de justificar a modificação profunda da estrutura da vivência tempo-
ral. Neste sentido, a perturbação dentro do tempo do melancólico deixa de ser
sintoma, para ser causa. (Augras, 1986).
Na psicose, a vivência do horizonte temporal desaparece. A esquizofrenia,
em muitos aspectos, pode ser descrita como perturbação essencial do espaço -
tempo. Uma doente declara: “Nada mais acontece, tudo parou nem eu mais vivo.
Sinto que o meu coração não bate. Ele parou como meus braços que são de vidro.
Não sei se hoje é ontem” (Augras, 1986).
De acordo com Augras (1986) grande parte da psicopatologia deveria ser
reconstituída a partir de um estudo a respeito da maneira como o indivíduo se
situa em relação à vivência do tempo e do espaço. Longe de serem aspectos
adjetivos na expressão de experiências específicas, tempo e espaço afirmam-se
como dimensões significativas do ser.
O papel do outro na constituição do eu é abordado pela filosofia
dialógica de Buber, em que ele defende que toda a existência do homem está
fundamentada na relação com o outro, ou seja, no diálogo. O ser se determina
quando em relação, não existe o eu em si, pois o eu é posterior à relação, é a
partir dessa relação que o eu delimita sua própria existência (Buber, 1979).
De acordo com a filosofia dialógica, os bloqueios neuróticos e até a
desestruturação psicótica surgem, pelo menos em parte, porque outras pessoas
(figuras parentais, principalmente) não foram capazes de entender, considerar e
valorizar a experiência da criança. Em conseqüência, ela não pode sentir-se con-
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firmada e, portanto, não é capaz de apreciar e valorizar sua própria experiência,
tem de rejeitá-la, alienando uma parte de si mesma, que vai tornar-se inconscien-
te (Hycner, 1995).
Como a criança, por sua própria condição de imaturidade, dependência e
impotência com relação ao mundo adulto, possui uma estrutura de ego frágil e
vulnerável, é fundamental, para seu desenvolvimento saudável, que esse mundo
seja experienciado como sendo suficientemente confiável e acolhedor, caso con-
trário, ela terá que lidar com uma realidade insuportável e inevitável. Na impos-
sibilidade de superar esse conflito ela o introjeta, causando uma divisão interna
do self.
Segundo Romero (1997), o aspecto essencial da existência humana, do
qual se origina a problemática relacional que caracteriza a patologia, consiste
em modalidades específicas de internalizar a figura do outro por parte do indiví-
duo.
O sujeito neurótico internalizou a figura do outro como uma presença
dominante, perante a qual o próprio sujeito se posiciona como ente secundá-
rio. Isso significa que para o neurótico o outro tem demasiada presença. O
neurótico está tão habitado pelo outro que quase sempre precisa tomar pro-
vidências, tendo que apelar para truques no sentido de conquistar um espaço
suficiente para ele mesmo nesse mundo (Romero, 1997, p.165).
Ainda a respeito da neurose, Romero (1997) afirma que o movimento da
vida humana é uma espiral em aberto e, na neurose, essa espiral tende a fechar-
se num círculo limitante, supostamente protetor, pouco permeável, escassamen-
te mutável, sufocante.
Romero (1997) diz, também, que o que caracteriza o círculo da neurose,
além dos comportamentos peculiares a cada tipo, são alguns traços visíveis e
pertencentes a todos as variações típicas: o predomínio de sentimentos negati-
vos referidos ao mundo e, com maior freqüência, ao próprio sujeito. Há uma pro-
funda insatisfação de fundo que não é superada por eventuais compensações nem
por sucessos materiais, eróticos e até afetivos.
Os sentimentos negativos, os conflitos, a baixa auto-estima e o estado de
impotência e de insatisfação geram no neurótico uma vivência de angústia, que
é definida por Romero (1997) como angústia sintomática, diferente da angústia
existencial, que é inerente à condição humana.
A angústia sintomática é perturbadora, limitante e restritora da liberdade,
levando o sujeito a utilizar mecanismos repetitivos, em um circuito fechado in-
terminável. É resultante de conflitos e de um processo de alienação de si mesmo.
Carlene Tenório
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A angústia existencial, por sua vez, estimula o questionamento da situa-
ção originante e motiva a procura de novos caminhos. Está associada à experi-
ência de liberdade e responsabilidade. É originada por circunstâncias que põem
em jogo os valores de sentido, ou que estão associados a decisões definitivas.
Na psicose há um processo de profunda alienação de si mesmo e do outro,
por conta de uma total impossibilidade de se estabelecer um diálogo com o ou-
tro (Eu-Tu). O outro teve que ser alienado por se revelar excessivamente podero-
so e nocivo à preservação do eu. Esse eu tornou-se desconhecido em virtude
de tantas defesas e negações de si mesmo, na tentativa de minimizar a ameaça
externa.
O outro está no mundo do psicótico como uma figura parcial, contraditó-
ria e ambivalente, é um habitante estranho e fugidio, assemelhando-se a um ser
fantasmático e desencarnado. O psicótico constrói um mundo dividido e frag-
mentário, alienado de um contato vital com a realidade, por não ter obtido um
reconhecimento mínimo dos outros. Sem reconhecimento por parte do outro, o
sujeito não se reconhece a si mesmo.
Não conseguindo transitar pelas vias comunitárias que o sistema ne-
cessariamente impõe, o sujeito se perde nos labirintos de seus conflitos, refu-
giando-se periodicamente ou permanentemente nos recintos imaginários,
geralmente sombrios e espectrais (Romero, 1997, p. 32).
No psicopata, o outro está quase ausente: é apenas um objeto a ser consi-
derado em determinadas circunstâncias, seguindo as exigências e conveniências
do próprio sujeito. Podemos dizer que o outro não habita o espaço interno do
psicopata, ao contrário do neurótico que é habitado demais pelo outro (Romero,
1997).
O mundo do psicopata está, portanto, praticamente desabitado por outros
seres humanos, sendo freqüentado, apenas, por objetos de significação temporá-
ria; por isso, o psicopata parece tão insensível, tão desconsiderado e tão
egocêntrico.
O psicopata não se reconhece propriamente no outro, que é o que lhe per-
mitiria sentir-se verdadeiramente humano. Desse modo, sua liberdade fica trincada,
uma vez que o sentido pleno da liberdade está baseado na realização do huma-
no, compartilhada no mundo dos homens.
O psicodiagnóstico: uma proposta metodológica
De acordo com o pensamento de Kierkegaard (Penha, 1982), nenhum prin-
Psicopatologia na fenomenologia-existencial
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cípio, sistema ou idéia geral pode dar conta de explicar ou descrever a realidade
humana, a vivência particular de cada pessoa.
O pensamento abstrato só pode compreender o concreto abstratamente,
enquanto o pensamento centrado no indivíduo busca compreender concretamente
o abstrato, apreendê-lo em sua singularidade, captá-lo em sua manifestação
subjetiva. A realidade é o que aparece à consciência. A subjetividade é a realida-
de. A própria realidade é aquela de que o indivíduo tem maior conhecimento.
(Penha, 1982).
Estes pressupostos existencialistas tornam-se fundamentais na constru-
ção da postura do psicólogo e dos objetivos de um processo diagnóstico. Dentro
dessa abordagem, o psicólogo não tenta explicar e enquadrar a pessoa examina-
da em categorizações e parâmetros arbitrariamente teorizados, pois ele acredita
que a vivência dessa pessoa é sua própria explicação, sendo ela a melhor inter-
prete de si mesma.
Como explica Angerami (1984), uma quantidade muito grande de fenô-
menos da existência, cada vez mais mostram-se inatingíveis e incompreensí-
veis diante das teorizações vigentes de compreensão do homem. As teorias,
em sua desvairada tentativa de explicação do homem, negam o experenciar
da própria existência.
A pessoa doente é antes de tudo uma pessoa que sofre, que precisa em
primeiro lugar ser compreendida a partir de seus sentimentos, sensações,
emoções, enfim, de tudo que por ela é vivenciado.
A pessoa, no processo diagnóstico, deve ser apreendida como sendo um
fenômeno único e, como tal, respeitada em sua totalidade; não deve, portanto,
ser avaliada segundo normas e padrões de comportamento preestabelecidos, numa
total revelia a sua própria existência. Seu nível de crescimento ou de maturidade
deve ser dimensionado por meio dos projetos de vida por ela própria idealizados
e de acordo com seu próprio mundo e contexto existencial.
O existencialismo, em sua exuberância, mostra que a existência é um
contínuo vir a ser, um sempre ainda não, com a possibilidade de um poder ser.
Desse modo, é totalmente inaceitável a rotulação do ser humano, aprisionan-
do-o dentro de determinadas categorias diagnósticas (Angerami, 1984).
A fenomenologia é uma filosofia da experiência, anterior às explicações
meramente psicológicas, sociológicas, ou historicistas oferecidas pela ciência.
Carlene Tenório
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Isto faz com que o psicólogo fenomenológico-existencial assuma uma postura
de escuta do ser, desvelando-se ao mesmo tempo em que este também se desvela,
recusando-se a instalar-se na verdade ou em seu sistema de verdades e certezas
(Costa, 1995).
A fenomenologia aponta para uma perspectiva metodológica denomi-
nada epoché, palavra grega que significa suspensão, cessação ou seja, a
colocação entre parênteses de todo interesse naturalmente orientado.
A redução fenomenológica ou epoché deve ser assumida pura e sim-
plesmente como uma modificação do olhar, visando uma compreensão da
experiência natural, isto é, daquilo que emerge espontaneamente no aqui e
agora, dentro do contexto relacional psicólogo-cliente. Desse modo, o Psicó-
logo assume o ato criativo do descrever e compreender o fenômeno que vem a
seu encontro, que se manifesta por si mesmo. É um olhar e uma escuta ingê-
nua, destituída de um saber a priori ou de predeterminismos, propiciando a
manifestação e a compreensão do ser do cliente em sua essência (Costa,
1995).
Nesta perspectiva, o psicólogo não pode apreender o mundo vivencial da
pessoa a ser diagnosticada, enquanto não suspender ou colocar entre parênteses
todos seus pressupostos, sua própria visão de mundo e conceitos, tanto quanto
for humanamente exeqüível no momento (Hycner, 1995).
Segundo Augras (1986), fazer diagnóstico dentro desta perspectiva é iden-
tificar e explicitar o modo de existência do sujeito em seu relacionamento com
o ambiente em determinado momento e que feixes de significados ele constrói
de si e do mundo. A adequada descrição fenomenológica do mundo particular,
singular e concreto do sujeito e de sua situação atual tem de apoiar-se numa apro-
ximação que procure apreendê-la em sua totalidade.
Da mesma maneira que o indivíduo é a medida de sua própria normalida-
de, em cada situação, o significado será buscado dentro daquilo que for manifes-
tado. A objetividade desta apreensão configurada em diagnóstico apoiar-se-á
em critérios de coerência, deduzidos daquilo que se ofereceu da história do indi-
víduo e das vivências presentes. A subjetividade é inevitável e o método
fenomenológico propõe que diante do reconhecimento da mesma, por parte do
psicólogo, é possível limitá-la, transformando-a em ferramenta para a compreen-
são do outro (Costa, 1995, p.32).
Finalmente, como podemos então definir o psicodiagnóstico dentro do
Psicopatologia na fenomenologia-existencial
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ponto de vista fenomenológico-existencial? De acordo com Petrelli (1999, p.
23), o psicodiagnóstico, dentro desta abordagem, “é uma investigação intui-
tiva compreensiva dos mistérios da história da vida de uma existência singu-
lar”.
Esta investigação intuitiva compreensiva deve ser feita seguindo alguns
passos:
I - Observar e escutar a pessoa por inteiro, fazendo a suspensão defi-
nitiva de todos os conhecimentos a priori, de todo preconceito e até de toda hipótese
pré-formada, aceitando e respeitando a singularidade existente na pessoa a ser
diagnosticada.
De acordo com Romero (1997), esta observação e esta escuta devem ser
feitas com base nas oito dimensões existenciais fundamentais:
1 - Dimensão ontológica do homem como ser-no-mundo
2 - Dimensão social e interpessoal
3 - Dimensão da práxis
4 - Dimensão corporal
5 - Dimensão motivacional
6 - Dimensão afetiva
7 - Dimensão espaço-temporal
8 - Dimensão axiológica (valores inerentes à existência social e indi-
vidual).
II - Descrever cada experiência significativa, tentando achar o senti-
do fundamental mediante um método compreensivo fenomenológico que não
apela para um código que, supostamente, nos entregaria as chaves do enigma
existencial, mas que se atém ao sentido possível que o discurso e a experiência
vivida têm para a própria pessoa.
III - Buscar as relações de sentido entre as diversas experiências vivi-
das pelo sujeito, bem como entre os aspectos universais da existência humana,
que foram redescobertas na construção de uma história de vida particular, des-
cendo à intimidade dessa história, descobrindo o protagonista nas singulares
vicissitudes de sua existência, sempre única e incomparável.
IV - Fazer uma leitura diagnóstica descritiva com base na significação
dada pelo próprio sujeito, associada aos princípios teóricos pertinentes à histó-
ria particular do mesmo.
Carlene Tenório
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Referências bibliográficas
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CLÁSSICOS DA
PSICOPATOLOGIA
ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05
Karl Jaspers
Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., VIII, 4, 769-787
A abordagem fenomenológica
em psicopatologia*1
A subjetividade dos eventos psíquicos
Ao exame de um paciente psiquiátrico é comum a distinção entre
sintomas objetivos e subjetivos. Sintomas objetivos incluem todos os
eventos concretos que podem ser percebidos pelos sentidos, e.g. re-
flexos, movimentos registráveis, a fisionomia de um indivíduo, sua
atividade motora, expressão verbal, produções escritas, ações e con-
duta geral etc. Todos os rendimentos mensuráveis, como a capaci-
dade de trabalho do paciente, sua habilidade para aprender, a
magnitude de sua memória, além de outros, pertencem a esse domí-
nio. Também é comum incluir, entre os sintomas objetivos, manifes-
tações como idéias delirantes, falsas memórias etc.; em outras
palavras, os conteúdos racionais que o paciente nos comunica. Es-
tes, realmente, não são percebidos pelos sentidos, mas apenas com-
preendidos. No entanto, tal “compreensão” é alcançada por meio do
pensamento racional, sem auxílio de qualquer empatia para com o
psiquismo do paciente.
* Texto originalmente publicado em Zeitschrift für die Gesamte Neurologie und
Psychiatrie, em 1912. Tradução para o português, de Adriano C. T. Rodrigues.
R E V I S T A
L A T I N O A M E R I C A N A
DE PS ICOPATOLOGIA
F U N D A M E N T A L
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Sintomas objetivos podem ser direta e convincentemente demonstrados
a qualquer um com capacidade senso-perceptiva e de pensamento racional;
mas os sintomas subjetivos, para serem compreendidos, devem se referir a al-
gum processo que, contrastando à senso-percepção e pensamento lógico, é nor-
malmente descrito pelo mesmo termo “subjetivo”. Sintomas subjetivos não po-
dem ser percebidos pelos órgãos sensoriais, tendo de ser apreendidos pela
transposição de si mesmo, por assim dizer, ao psiquismo de outro indivíduo;
isto é, pela empatia. Podem se tornar uma realidade interna para o observador
apenas pela sua participação da experiência da outra pessoa, não por qualquer
esforço intelectual. Os sintomas subjetivos incluem todas estas emoções e pro-
cessos internos, como o medo, tristeza, alegria, que nós sentimos poder apreender
imediatamente a partir de seus concomitantes físicos; este nós tomamos por “ex-
pressões” da emoção subjacente. Há, ainda, todas aquelas experiências psíqui-
cas e fenômenos que os pacientes nos descrevem e que se tornam acessíveis
a nós apenas indiretamente, através do julgamento e exposição do próprio pa-
ciente. Por fim, os sintomas subjetivos também incluem aqueles processos
mentais que temos de inferir a par t i r de f ragmentos dos dois tipos prévios
de dados, manifestos pelas ações do paciente e pelo modo como ele conduz
sua vida.
É comum relacionar esta classificação de sintomas em objetivos e subjetivos
a um contraste preciso de valores. Segundo este, apenas os sintomas objetivos
oferecem certeza; por si mesmos, eles constituem uma base para o estudo
científico, enquanto os sintomas subjetivos, embora não possamos renunciar
facilmente aos mesmos nas nossas avaliações preliminares, são considerados bem
pouco confiáveis para fazer-se julgamentos finais e infrutíferos para o propósito
de qualquer investigação científica adicional. Há um desejo difundido de que
nossos estudos das desordens mentais se baseiem apenas em sintomas objetivos
e que, idealmente, desconsiderem nossos sintomas subjetivos como um todo. Tal
perspectiva tem seus defensores – nem todos igualmente coerentes – tanto na
psicologia quanto na psiquiatria. Uma “psicologia objetiva” é contraposta à
“psicologia subjetiva”. A primeira dizendo preocupar-se apenas com dados
objetivos; sua conseqüência natural sendo uma psicologia sem psiquismo. Os
defensores da última (os quais, deve-se dizer, jamais deixaram de reconhecer o
real, mas diferente valor da primeira) levam em consideração as auto-observações,
as análises subjetivas, a determinação das distintas formas de vida psíquica e da
natureza específica de seus fenômenos, e atribuem valor a este tipo de
investigação mesmo sendo feita na ausência de qualquer critério objetivo. Como
exemplo de psicologia objetiva podemos citar todo o campo da senso-percepção,
mensuração de memória, curvas de performance e seus componentes. Estes
últimos nos ilustram o fato de que tais investigações levam, bastante
CLÁSSICOS DA
PSICOPATOLOGIA
ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05
freqüentemente, à eliminação de tudo que pode ser denominado mental ou
psíquico. Não é a sensação de fadiga, mas a “fadiga objetiva” que seria
investigada. Todo tipo de conceitos – como fatigabilidade, capacidade de
recuperação, capacidade de aprendizado, prática, efeito de períodos de repouso
etc. – dizem respeito a performances que podem ser medidas objetivamente, não
importando se aqui se está lidando com uma máquina, com um ser vivo sem vida
mental, ou com um ser humano dotado de mente. Entretanto, os que se
proclamam investigadores puramente objetivos, bastante freqüentemente, fazem
um uso secundário dos fenômenos psíquicos subjetivos para desenvolver suas
interpretações destas performances objetivas e tornar as comparações possíveis
– assim, evidentemente, fazem uso da “psicologia subjetiva”, com a qual o presente
trabalho pretende lidar. Deste modo, não há dúvida de que a psicologia objetiva
produz resultados que são mais óbvios, mais convincentes, e de mais fácil
apreensão por qualquer um que a psicologia subjetiva. Mas enquanto a diferença
quanto ao grau de certeza é meramente quantitativa, quando se trata do tipo de
certeza a diferença é qualitativa e fundamental. Isto porque a psicologia subjetiva
sempre ambiciona a apreensão dos conceitos e idéias que constituem as
representações internas dos processos psíquicos, ao passo que a psicologia
objetiva tem, como seu intento último, a observação de aspectos inquestionáveis
como a senso-percepção e o conteúdo racional do pensamento, pelos dispositivos
como gráficos e estatística.
O estudo sistemático da experiência subjetiva
Quais, então, são os objetivos precisos desta tão comentada psicologia
subjetiva? Enquanto a psicologia objetiva, eliminando tudo aquilo que é psíquico,
se converte em fisiologia, a psicologia subjetiva ambiciona preservar a dita vida
psíquica como objeto de seu estudo. Ela se indaga – grosso modo – do que
depende a experiência mental, quais suas conseqüências, e que relações podem
ser nela discriminadas. As respostas a tais perguntas são seus objetivos
específicos. No entanto, ao abordar cada um dos problemas, psicólogos
subjetivos têm de enfrentar a necessidade de tornar claro para si mesmos e para
outrem qual é a experiência psíquica específica à qual se refere, dado que se
confrontam com uma diversidade de fenômenos psíquicos que não podem ser
investigados como um todo unitário, mas dos quais elementos individuais devem
ser selecionados para investigação. Assim, antes que uma investigação válida
possa se iniciar é necessário identificar os fenômenos psíquicos específicos que
serão seus objetos, e estabelecer as diferenças e semelhanças entre estes e outros
R E V I S T A
L A T I N O A M E R I C A N A
DE PS ICOPATOLOGIA
F U N D A M E N T A L
ano VIII, n. 4, dez/2 0 05
fenômenos com os quais podem ser confundidos. Este trabalho preliminar de
representação, definição e classificação dos fenômenos, perseguido como atividade
independente, constitui a fenomenologia. A natureza difícil e compreensiva deste
trabalho preliminar torna inevitável que deva se tornar, no momento atual, um fim
em si mesmo.
Visto que estas investigações independentes e sistemáticas não foram
empreendidas até o momento, tal abordagem fenomenológica permanece restrita
a algumas opiniões baseadas

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