Logo Passei Direto
Buscar
Material
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

INSTITUTO PHORTE EDUCAÇÃO PHORTE EDITORA ÁNGELES ABELLEIRA BARDANCA Diretor-Presidente ISABEL ABELLEIRA BARDANCA Fabio Mazzonetto Diretora Financeira M. V. Mazzonetto Editor-Executivo Fabio Mazzonetto Diretora Administrativa Elizabeth Toscanelli Conselho Editorial 0 PULSAR DO COTIDIANO Francisco Navarro José Irineu Gorla Marcos Neira DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA Neli Garcia Reury Frank Bacurau Roberto Simão GOAL TRANSLATIONS Phorte editora São Paulo, 2020Título do original: El latido de un aula infantil: elogio de la cotidianidad Copyright 2020 by Octaedro Editorial - Rosa Sensat pulsar do cotidiano de uma escola da infância Copyright 2020 by Phorte Editora Rua Rui Barbosa, 408 CEP: 01326-010 Bela Vista - São Paulo - SP Tel.: (11) ) 3141-1033 Site: www.phorte.com.br E-mail: phorte@phorte.com.br Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou transmitida de qualquer forma, sem autorização prévia por escrito da Phorte Editora Ltda. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B222p Bardanca, Ángelles Abelleira O pulsar do cotidiano de uma escola da infância / Ángelles Abelleira Bardanca, Isabel Abelleira Bardanca ; tradução Goal Translations (Firma). - 1. ed. São Paulo : Phorte, 2020. 352 p. : il. ; 24 cm. Tradução de : El latido de un aula infantil : elogio de la cotidianidad Inclui bibliografia ISBN 1. Educação infantil - Aspectos sociais. 2. Autoconhecimento. I. Bardanca, Isabel Abelleira. II. Goal Translations (Firma). III. Título. A Casilda, Julia, Manuel, Mateo e Olivia, nossos sobrinhos, que nos realinham a cada dia 20-65216 CDD: 372.21 com a sua despreocupada sinceridade. CDU: 373.3 Camila Donis Hartmann Bibliotecária CRB-7/6472 ph2475.1 Este livro foi avaliado e aprovado pelo Conselho Editorial da Phorte Editora. Todo nosso agradecimento Impresso no Brasil às pessoas amigas que nos enriquecem Printed in Brazil com o que faz o seu coração pulsar.PREFÁCIO EDIÇÃO BRASILEIRA ESCUTE o cotidiano de uma escola da infância... Silencie e Depois, silencie e escute... Mais tarde, silencie e escute... Ao amanhecer, silencie e escute... Ao entardecer, silencie e escute... Ao anoitecer, silencie e escute... Agora, permita que a sua escuta esteja no compasso das batidas do seu coração... E escute demorado... Porque o cotidiano de uma escola da infância precisa de tempo para poder pulsar. Então, ao tempo, fazemos um pedido: Salve a inteireza da infância. Salve a lucidez do educador. Tempo, tempo, tempo, Salve a poesia dos encontros. Salve a música do encantamento. Salve a esperança dos começos. Salve a coragem do inédito. Salve o confronto, o assombro e o outro. Tempo, tempo, tempo, Salve a formação da forma. Salve a memória do esquecimento. Salve a alegria da anestesia.Salve as crianças da pressa. Salve o que foi sentido e vivido nos encontros de todos os dias. PRÓLOGOS Salve as escolas da escolarização. Salve as crianças da adultização da infância. Salve o tempo. E se por acaso, por distração, o seu tempo insistir em correr apressado... Pare, silencie, escute e lembre-se: Dentro da escola da infância pulsa o coração de uma criança. TAIS ROMERO Professora, pedagoga e coordenadora formativa FLORESTA PROTETORA: CORAÇÃO DE OURO BEATRIZ TRUEBA MARCANO Professora, historiadora da arte e formadora de professores Ao observar imagens da floresta amazônica há cinquenta anos e com- pará-las com as de hoje, vê-se de imediato a perda de massa florestal, a ausência árvores, as zonas vazias, desmatadas. E toma-se consciência após a devastação, a ausência. Então, percebe-se o problema. No entanto, se um observador viajasse de helicóptero pela primeira vez ao longo da Cordilheira veria uma paisagem verde e com- pacta. Não sentiria perda alguma, perceberia uma massa verde única e não teria consciência de uma carência real e crescente que, de fato, ocorre. Os eucaliptos têm substituído o bosque original e, silenciosamente, têm tomado o terreno. Há uma ausência drástica desse bosque primitivo de faias, car- valhos, aveleiras, bétulas, azevinheiros... Mas, do alto, não se percebe. Os eucaliptos, como substitutos, no lugar do verdadeiro bosque, tiram a di- versidade, absorvem a riqueza do solo, empobrecendo-o e simplificando-o. E, o que é ainda pior, tampam os buracos e fazem esquecer a perda.Do mesmo modo, na sociedade atual, nas relações humanas, sociais, juntos sentimentos, afeições, aprendizados, por meio dos quais sentimos pessoais e coletivas e em âmbitos diversos, tem ocorrido uma substituição que existimos. Para conhecermos a nós mesmos, sabermos do cotidiano, do real, do autêntico, do vital, do que nos torna únicos, por substitutos de do que nos é próximo, do que nos rodeia e de quem nos rodeia. experiências globalizadas, homogêneas, virtuais, fictícias... E, como já disse Há crianças na educação infantil que ouviram falar da vida o grande Ramón Gómez de la Serna, "ai do dia em que todos os substitutos psicótica de Van Gogh ou sobre esperanças, famas e cro- se tornem insubstituíveis!". mas não sabem como se chama o seu pai ou a sua A educação não está alheia a esse fenômeno preocupante que avança de mãe, o número da casa onde moram, o tamanho de roupa um modo invisível ao nosso redor. As necessidades reais da infância, de meni- que usam, abrir um iogurte ou descascar uma banana. nas e meninos, estão sendo suplantadas. E isso não ocorre somente no campo Partindo da linda metáfora da força do coração e de suas batidas como do tangível, do material, do mensurável, mas, também, em especial o que é motor e centro do que nos comove, do que gera vida, este livro é uma rei- ainda mais grave no terreno do patrimônio imaterial: da cultura, do brincar, vindicação do cotidiano como ponto de partida. Ele nos fala do mundo real, das tradições, das relações, da comunicação etc. Brincar já não é brincar. Os do qual cada um de nós deve aprender de forma diversa, única e diferente. longos tempos necessários para crescer estão sendo invadidos por jogos vir- É uma bela lição sobre como abordar uma "disciplina" tão séria e essencial tuais, a estimulação precoce dos pequenos acaba com o tempo da infância, e a como é aprender a viver, e, no entanto, tão esquecida pelos livros e pelos imposição de tradições que nos são alheias vão por todos os lados. manuais. Abordá-la desde a primeira infância, com a firmeza e a paixão que Por tudo isso e muito mais, a leitura deste novo livro das irmãs Abelleira o livro nos apresenta, entendendo a seriedade de levar a vida como somente nos mostra algo tão valioso, tão necessário e tão prioritário. Porque é uma os meninos e as meninas sabem fazer: com complexidade, com respeito por chamada ao autêntico, ao real, ao verdadeiro, ao que reside no nosso coração, cada individualidade, com o frescor de abrir as portas ao cotidiano, ao lines- o que nos move e comove, em sintonia com nós mesmos, com os demais e perado, e sem perder com isso uma pitada de rigor e de fundamento. Tudo com o mundo em que habitamos. Recorda-nos com um estilo claro e direto, isso, e muito mais, é, sem dúvida, o que encontraremos ao ler este livro: provocador e inspirador desde a primeira linha, o sentido real do nosso como garantir as bases para um aprendizado que vai durar a vida toda. O trabalho, da nossa vocação, e nos ajuda a diferenciar e separar o joio do trigo. "Conhece-te a ti mesmo", que Platão já indicava, não está nos conjuntos de Os substitutos se diferenciam por serem clones indiferenciados, e este temas a se tratar na escola e, no entanto, é o eixo essencial que vai determinar livro considera como um tesouro que nos diferencia, o que nos torna dife- como o caminho de toda a nossa existência como rentes, no autêntico e no diverso. É comovente, emocionante, esperançoso, A felicidade de aprender do mundo real não vem de fora. Vem de nós sentir e seguir o texto no qual estas autoras, de forma firme, valente, clara mesmos e funciona como movimento de e de diástole do coração: e profissional, abordam a necessidade de recuperar o senso comum para recordar onde está o nosso centro, o nosso eixo, o nosso foco: nos meninos N. do conceito criado pelo escritor argentino Julio Cortázar na obra Histórias e nas meninas, que são o fim do nosso trabalho; o fato de compartilharmos de cronópios e de famas. Refere-se a seres verdes e úmidos.tudo surge de nós para colocar para fora, de onde nos volta maior ainda, profissão e, depois de nos reivindica com orgulho, diante de nós mes- com maior complexidade e mais ricos em experiência. mos e dos demais, o que significa a vocação de ser docente. Este livro é um leque multifacetado de demonstrações rigorosas, for- Outros termos que para mim caracterizam esta obra são valentia e mais e poéticas do caminho que se encontra aberto para todos, e nos lembra sinceridade. Ler este texto é algo que provoca, inspira, com toda a força de que, sem coração, nada é possível. Amar o que fazemos, aprender jun- da palavra coerente, plena de sentido. Afirma-nos da importância do nosso tos, sermos flexíveis, dar o melhor a quem espera tudo de você, olhar com papel como docentes, como catalisadores, como referência, como guias, le- esperança e com confiança, querer sem julgar, sem classificar, sem avaliar, vantando uma bandeira: a da nossa força e da ação consciente e ativa. Sem pressupõe agir como guias, mas não como salvadores. Porque cada um é li- ser súditos, nem criados, nem carrascos das ideias dos outros: vre no caminho do autoconhecimento "Exercitar o afeto conscientemente", Nem das pressões da etapa de ensino fundamental, que, em certas como as autoras nos dizem, como base de todo aprendizado, é, ainda mais ocasiões, pretende que as crianças passem por um "exame final da nos tempos atuais, um ato de posicionamento e de valentia, implicando educação infantil", com alguns conhecimentos que em nada nos uma bela provocação. Porque a sociedade atual se move e oscila entre a interessam, e isso antes de entrarem no primeiro ano. frieza das relações e o sentimentalismo piegas, substituto da ausência de um Nem de fichas didáticas, com atividades sem sentido, somente a verdadeiro coração. serviço de uma ideologia única, alienante, e mercantilista. Como disse o pedagogo Vicenç Arnaiz, para poder ter tensão cogniti- Nem das modas, das metodologias e das atividades lúdico-festi- va, é necessário ter calma e segurança afetiva. Nosso papel, como docentes, vas importadas, desconectadas do nosso mundo, globalizadoras, é o motor gerador de um olhar atento. alheias a nós, ao nosso contexto e aos interesses reais da comuni- O olhar esperançoso de uma professora pode ser deter- dade educacional. minante para o futuro de um menino ou de uma menina. Se estivéssemos conscientes disso, talvez não Isabel e Ángeles nos alertam e nos ajudam a diferenciar o falso do tanto tempo formulando questões, aprendendo a elaborar autêntico, o externo do interno, o que é vago e falso da essência coerente critérios de avaliação ou buscando como medir os domí- e plena de sentido. Auxiliam-nos a distinguir o verdadeiro coração, que nios de competências. move e impulsiona, dos substitutos, tolos, sentimentaloides, carentes Se há palavras que podem definir a essência desta obra, para mim, de sentido que nos rodeiam e que, de modo sutil e interesseiro, inserem-se a primeira seria coerência, porque conecta e liga, de modo magistral, a entre nós. essência, o pensamento, com a forma e a ação concreta. Isso significa que, Não nos esqueçamos de que toda moda ou metodologia que vem de no livro, percebe-se, de modo tangível, a coesão, a engrenagem impecável fora e nos é vendida como inovadora tem sempre uma ideologia que subjaz entre o dizer, o pensar, o sentir e o fazer, em uma demonstração de rigor e sem palavras. E, muitas vezes, tende-se a adotar essas modas sem reflexão de responsabilidade no trabalho diário que enobrece e engrandece a nossa prévia, seja por falta de tempo, seja por boa-fé. Porque subjaz, de modonão verbalizado, no nosso contexto que seremos melhores e mais importantes escolar e a sua intervenção profissional têm, mas isso deve se dar sempre profissionais se nos modernizarmos a todo custo, com propostas vindas de em profunda coerência com a filosofia educacional. Sim, desejo, porém, fa- qualquer lugar. Assim, torna-se quem as segue em súditos e em carrascos zer uma reflexão sobre o risco de ficar apenas nas aparências. Nessa linha de um imaginário abstrato, de vocabulário pomposo, que mede a infância de pensamento, há, no livro, uma lembrança emotiva, sugestiva e linda a e a restringe a um critério prosaico, ignóbil e empobrecido, que nunca Don Gregorio, o professor de A língua das que dizia que se pode vai à essência das necessidades autênticas das crianças e jamais explora as ser docente à beira do rio, na montanha ou nos momentos mais íntimos, não múltiplas capacidades de um indivíduo, sempre único e diferente dos importa onde, mas como. demais. Nesta obra, as irmãs Abelleira nos levam a não adotar modas por si As irmãs Abelleira tratam de temas que são clássicos sobre a identi- só, mas a refletir profunda e rigorosamente sobre tudo aquilo que é intro- dade da nossa etapa de ensino e que têm sido nosso campo de batalha na duzido na escola, a buscar a sua essência oculta, seu E, em especial, educação infantil há muito tempo, mas dos quais é necessário fazer uma estimulam-nos a não perder o norte, a seguir a criança, e não as programa- revisão à luz das novas correntes tecnocratas que imperam. Ganhos que, ções (de uma citação extraordinária que incluem de Loris Malaguzzi), a não há alguns anos, eram considerados assegurados na etapa 0-6, como a nossa nos deixar levar por quem nos vende ilusões carentes de sentido. própria identidade; o fato de não estar subordinada aos objetivos do ensino Há, neste livro, uma chamada a tomar o poder pela escola, pelos pro- fundamental; o afastamento de fichas de atividades e livros desnecessários; a fissionais, educadoras e educadores que somos, a nos empoderar na tomada aproximação de paradigmas interativos, construtivistas etc., tudo isso volta a de consciência e de ação intencionada e seletiva de tudo aquilo que os meios estar nas entrelinhas. Expressões que, há alguns poucos anos, não eram ver- nos trazem. Tudo isso para intervir de forma crítica. Ser um filtro meditado balizadas, ou teriam feito enrubescer, hoje são expressas abertamente. Tudo e protetor, um guia no caminho, para evitar o fazer por fazer, em uma espiral isso indica que há um avanço silencioso de paradigmas profundamente rea- sem sentido, o que outros desejam que façamos. cionários que, em vez de serem expressos abertamente, passam por nós sem Em consonância com essas reflexões, as autoras nos convidam a ser- querer, em formas aparentemente inocentes. mos críticas com um aspecto que também sucumbiu em muitas ocasiões à Poucas vezes tivemos a oportunidade de escutar falar de questões tão banalização e a artifícios. Nós nos referimos ao espaço educacional, chamado necessárias de modo tão claro e com um novo olhar. Assim, são tratados terceiro educador. Ángeles e Isabel nos alertam, com muito senso comum, assuntos importantes, como: o que representa programar com base nos in- sobre uma realidade crescente: o risco de transformar o espaço escolar em teresses dos meninos e das meninas; qual o sentido de preparar os temas de uma linda decoração, um mero elemento externo, que vende uma boa ima- antemão; a postura sobre os cadernos de atividades; o que é trabalhar em gem para exterior, mas que pode ficar nisso, em um catálogo de decoração, em uma simples imagem aparente, que carece de significado e se torna, do E.: filme espanhol de 1999, dirigido por José Luis Cuerda, adaptado de três assim, um pouco mais do que um cenário falso, quase virtual. Aqui, não contos do livro ¿Qué me quieres, de Manuel Rivas. Ambientado na Guerra Civil Espanhola, num povoado galego, a história traz a relação professor-aluno que quero retirar nem um pouquinho da importância que o âmbito do ambiente vai além da sala de aula: para a vida.equipe; a relação com o ensino fundamental; a relação com as famílias; o procede, fontes documentais incertas ou inexistentes, que somente perse- nosso papel como docentes; o uso de tecnologias; o que significa avaliar etc. guem o adestramento, o controle e a homogeneização. O rigor e o amor ao conhecimento são outro eixo que me impacta e Como nos disseram as autoras com lindas palavras, me faz refletir ao ler esta obra. Partindo, no primeiro capítulo, de um posi- o fio condutor da didática infantil não pode ser nem a arte, cionamento acerca dos seus princípios de filosofia educacional, de intenção nem a música, nem a literatura, nem as emoções, nem as e de reflexão, o livro oferece, nos capítulos seguintes, uma multiplicidade áreas, nem as competências, nem a matemática, nem a língua. de exemplos de vida e de ação diária em classe. Com isso, é realizada uma O verdadeiro eixo deve ser o conhecimento de si mesmos e demonstração esmagadora, indiscutível e rigorosa para aqueles dos demais, do local que habitam e do que ocorre nele. que ainda duvidam disto de que a vida não pode ser programada, mas é O livro também é um tesouro raro, por narrar, por descrever com rique- a fonte, por excelência, de todo aprendizado; de que não há armadilha nem za de detalhes o decorrer do dia a dia na sala de aula. É uma delícia ler e seguir problema em escutar a riqueza do cotidiano, que não faz falta impor temas o cotidiano, as mudanças e os interesses diários de um grupo de crianças e de pré-pensados, mesmo que sejam suavizados com nomes atraentes, infanti- sua professora, as dúvidas, as mil perguntas, um mundo o nosso povoado lizados. Aprender com a vida diária é deixar e permitir, é abrir as portas ao de temas fascinantes: as pegadas no chão, a primeira palavra pronunciada, as que a incerteza nos apresenta, ao que chega na escola a cada dia. E isso não é posturas ao dormir, o que levamos nos bolsos, os mapas das viagens, buscado- improvisar, muito menos sem rumo nem guia; na realidade, é totalmente o res de versos nas ruas, o colega ausente, a rosa dos ventos... Um sem-fim de contrário. Ángeles e Isabel nos mostram o quão importante é ter esclarecidos propostas que nos movem a utilizar todos os meios ao alcance para satisfazer e estabelecidos certos critérios de intervenção e de ação que, como um eixo, o desejo de conhecer e saber, a convocar todas as linguagens expressivas, o como um leque de possibilidades, estruturam a ação diária. objetivo e o subjetivo, o concreto e o abstrato, a sermos cientistas e artistas, É sensato e oportuno, tranquilizador, escutar as palavras das autoras a a poesia, o sabor de uma fruta, uma melodia ou o aroma do pão, sobre a norma, a lei oficial dos princípios educacionais da etapa, que nos em perfeita harmonia com a verificação e a comprovação em tabelas, mapas e avaliza e nos ampara, protege-nos, o texto oficial, que em nada se contradiz interpretação de guias em mil e uma experiências diferentes. em relação a uma pedagogia que parte do conhecimento de nós mesmos Na linha dos diários de classe, como faz Paulo Freire, Mario Lodi e e dos demais. Em tempos obscuros, nada melhor que buscar a proteção nossa querida amiga Mari Carmen com quem tenho o prazer de com- da teoria e do texto fundamentado. Também nos vem à memória o pers- partilhar este prólogo, descreve-se o viver cotidiano para mostrar como o picaz relatório de Delors, escrito por volta de 1996: aprender a conhecer, inesperado, o casual, entra e flui pelo sistema venoso do coração da escola, a ser, a viver, a fazer. Porém, os "requerimentos documentais realizados" para nutri-lo de paixão e de seriedade, de conhecimento, de redes, de afetos, têm violado esses princípios. Externos, artificiais, que sustentam uma filo- em resumo, para enriquecer e encher de complexidade e rigor, de razão e sofia educacional barata, retrógrada, que não se sabe de onde nem de quem coração, o fluir da vida diária em uma escola infantil.Em épocas precedentes, as professoras e os professores sabíamos Este livro é um farol, uma luz brilhante em tempos de claro-escuros, distinguir o retrógrado, os paradigmas da escola conservadora. Hoje, esses uma ajuda para não perder o foco. É direcionado tanto a profissionais que setores, revestidos de tecnocracia, têm-se tornado infames, astutos. É ne- começam e podem se sentir perdidos entre tal avalanche de propostas de cessário estar mais alerta do que nunca, pois o substituto e o falso coração todo tipo quanto a profissionais experientes que podem temer estar per- estão dobrando a esquina. Fazem próprias as palavras de grandes pedagogos dendo o fio se não se ajustam ao tecnológico, global, às pressões do entorno para nos vender como boas ações de usurpar a infância. Sabem se escamo- social e midiático. tear, escondem-se sob disfarces de aparente modernidade. Os paradigmas É, ainda, maravilhosamente tranquilizador porque recuperamos positivistas, de ideologia liberal, estão entre nós e, como no conto infantil, de imediato o senso comum, a simplicidade, a calma e a segurança de seguir são lobos disfarçados de vovozinha, ou, talvez, sejam os homens de cinza de o caminho da luz, o amor e a beleza: o caminho do coração. Momo, que nos vendem um sistema suavizado que nos diz o que fazer com Assistimos com desolação uma tentativa de desmatamento da o nosso tempo e com a nossa vida. A ausência do brincar, a competitividade cia. A melhor etapa de uma pessoa pretende ser substituída de forma lenta, e a vida artificial são seus emblemas. Quando escutamos, com aparente ino- paulatina, por artificialidade, por mercantilismo, por experiências clonadas, cência, o quanto é positivo para uma criança pequena aprender na escola, anulando a prioridade das experiências reais, da Vida (com letra o mais cedo possível, competências próprias dos adultos, temas que lhe das experiências conectadas ao coração. A ânsia da competitividade está aca- são alheios, para que, o quanto antes, se revele como um grande esportista, bando com a inter-relação. E isso não ocorre somente entre os profissionais músico, pequeno empresário, programador de informática etc., é muito fácil da educação; também está ocorrendo entre os próprios Esquece-se de cair na armadilha! E talvez pensemos: "Por que não? Por que não o quanto que educar e afirmar na diferença aumenta a coletividade rica, e de que o antes? Se eles gostam". Lembremos, no entanto, que o tempo que se passou grupo, por sua vez, é único e diferente de outros. Quando o hidrogênio é um tempo roubado da infância, tempo feliz para se perder ganhando-o, compartilhou as suas experiências com o oxigênio, surgiu a água; esse foi para sermos nós mesmos com toda a liberdade, sem limites nem fronteiras o início de uma grande amizade que criou a vida, e dura até hoje. sobre o conveniente ou o oportuno. Esse tempo, se não é concedido, não re- Somente se estivermos conscientes dessa usurpação da infância pode- torna jamais E terá graves consequências na essência futura e irrecuperável remos dar um basta nisso, de nossa posição forte e profissional como edu- do que nos torna humanos. cadoras, educadores, pedagogos, artistas, famílias, em suma, como pessoas de boa vontade e de coração forte, que, de uma forma ou de outra, estão 3 N. do E.: alusão ao romance infantojuvenil Momo, escrito pelo alemão Michael conectadas com o mundo da infância. Por meio de uma ação consciente, Ende, publicado originalmente em 1973. Nessa obra da literatura fantástica, a pro- tagonista é Momo, uma menina encontrada nas ruínas de um anfiteatro, que, além transgressora, pensada e ativa em prol da vida e do que nos torna humanos: de ser analfabeta, não sabe de suas origens, mas tem uma grande habilidade de es- amor, o aprendizado, a curiosidade e a beleza. Apostemos nisso. cutar os outros e de fazer amigos. Os antagonistas são os homens de cinza, parasitas No ano 2000, na floresta amazônica equatoriana, em razão do in- paranormais que roubam o tempo dos humanos e representam uma grande corpo- ração (um banco de tempo). Trata-se de uma crítica ao consumismo. cessante desmatamento ocorrido em uma área e para proteger os recursos,criou-se o projeto Floresta Protetora: Coração de Ouro. É o título deste pró- UM TOTAL PRESSENTIMENTO logo, em uma conexão que reverbera com os vínculos que essa metáfora oferece para a nossa profissão. Com a vontade e o conhecimento, a floresta CARMEN NAVARRO se regenera. Professora, psicopedagoga e escritora Obrigada Isabel, obrigada Ángeles, por este livro de riqueza deslum- brante, pelo compromisso de vocês com a infância. Pelo coração de ouro Tinha o pressentimento de que eu gostaria deste livro, e assim ocor- que vocês têm. Obrigada por nos lembrar o caminho da verdade. reu. Da capa até o ponto final. Do sugestivo e metafórico sumário até a profundidade do seu conteúdo. Do meu desejo de ver coisas novas até a satisfação de compartilhá-las. É que o saguão da nova casa de Ángeles e Isabel Abelleira convida a coisas muito boas: a entrar, a desfrutar, a recuperar a vida cotidiana nas classes de educação infantil com base no que faz o nosso coração bater mais rápido, e a treinar uma rebeldia que proporcione vida e transfor- me as dinâmicas de rotina ou de tecnologização exagerada que povoam algumas escolas. Quando as minhas queridas Abelhinhas Tecedoras (como chamo as autoras) me escreveram para pedir que escrevesse o prólogo deste segundo livro, logo disse que sim, principalmente para poder de imediato, de- gustá-lo e aprender com ele, como ocorreu comigo com seu primeiro livro, Los hilos de infantil. Também para voltar a me sentir incluída no grupo formado por autoras, ilustrador e prologuistas. Um grupo que escreve, dese- nha, fotografa e canta a educação infantil com um ritmo comum e com uma letra decidida e potente: o desejo do bem-estar das crianças. Não me impor- tou repetir, estava certa de que livro traria novidades e sabia que o trabalho e a força dessas professoras convocariam, mais uma vez, a minha admiração, o meu e meu sorriso. (Polinizam muito bem.) Além disso, realizar do E.: publicado pela Phorte Editora em 2018, com o título Os fios daesta tarefa de explicar as minhas impressões ao lado de minha boa amiga do que estamos acostumados e introduzem uma forma de estar na escola Beatriz Trueba concedeu-me um incentivo adicional. Só havia vantagens. doce, inclusiva e amável. Assim elas disseram: O título diz: pulsar do cotidiano de uma escola da infância, e com Vinte e cinco crianças, com gostos e vivências diferentes, e razão, pois é um texto que pulsa entre as mãos, que nos chama à porta do pelo menos cinco pessoas adultas (auxiliares, especialistas, "andar de baixo", que vai muito ao fundo. O subtítulo também é bonito e a senhora da limpeza e a zeladora), além da professora, reunidas durante cinco horas em cada dia, cinco dias por significativo. Postula-se como um elogio à cotidianidade, ainda que eu diria semana, durante três anos, levam a uma combinação de que elogia principalmente as crianças, com as suas necessidades, suas carac- conhecimento única e irrepetível. terísticas, sua vitalidade e sua esperança. Página a página, apresentam-se no livro as maneiras que essas duas E eu me pergunto: desde quando é nomeada a senhora da limpeza, a zeladora, os auxiliares ou as professoras eventuais nas narrativas escola- professoras sensíveis e apaixonadas têm de entender e viver o acompanha- res? Desde quando o seu trabalho é considerado como parte significativa do mento das crianças na escola. O que contam é tão possível, tão real e tão grupo que cuida das crianças e as acompanha? Desde quando a educação é próximo que, se as crianças não saíssem nas fotos, perfeita- ampliada para abarcar a atenção, a experiência e o saber de todas as pessoas mente imaginá-las preparando esses almoços tão bonitos quanto saudáveis, adultas que estão compartilhando com as crianças os processos educacio- pesando o ar do pão, comparando a e a forma dos crisântemos, fazendo nais destas? É tanta a beleza e a humanidade dessa proposta que deveríamos livros de poemas, pintando telas brancos ou espalhando pedras para encon- aprender com aquilo que não deixa de ser natural, mas que é bastante infrin- trar o caminho à escola. gido na realidade cotidiana: dar a essas pessoas apenas o seu lugar de direito O livro começa com força. Já nos primeiros parágrafos, tive uma espé- No primeiro capítulo, há uma enumeração das múltiplas maneiras de cie de virada do coração. Isso de nomear as crianças, uma a uma, carinhosa- atuar nas classes de educação infantil atuais, e é tão comum e bizarra que só mente, com detalhes das suas vidas, das suas formas de ser e dos costumes de ler já se assusta. Também há uma crítica aos chamados projetos de tra- do seu entorno familiar, prendeu-me de vez. Assim, singelamente, ao mais balho quando são comprados, sequestrados ou trocados por interesses que puro estilo Abelleira, os verdadeiros protagonistas são incorporados desde a nem sempre são das crianças. E, sobretudo, há uma afirmação clara: "Nem tudo cabe em uma classe de educação infantil". As autoras comentam: primeira linha. Com os seus nomes, suas palavrinhas galegas, a descrição do ambiente das segundas-feiras pela manhã e a exaltação da riqueza de tanta Que uma criança saiba mais sobre dinossauros que da sua energia vital e relacional desdobrando-se e povoando a escola própria família é, no mínimo, algo que foge da lógica e da necessária preparação para a vida. Na introdução, há um ponto que não posso deixar passar, que é quando, em apenas algumas frases que pareciam fazer uma recontagem de E citam a frase de Malaguzzi: "Se fazemos coisas reais, também serão recursos, Isabel e Ángeles fazem uma declaração de princípios que nos tira reais as suas consequências".Ao ler isso, pensei em Ruth Albarracín, uma professora colombiana lega, por mais que gostemos de trabalhar com ela. Os meninos e as meninas que tenho o prazer de conhecer e de admirar. Um dia, lá em Bogotá, de cada classe são diferentes, assim como as dinâmicas, as preferências e as contou que, ao mesmo tempo que trabalhavam a arte circunstâncias das aulas, e considero prioritário atender essas realidades. e preparavam os bailes de Carnaval, estava ensinando aos seus alunos de Crianças primeiro, como diz o ditado... e as irmãs Abelleira. cinco anos a lavarem seus pés. "Terão que sabê-lo em breve, e considero Quanto ao trabalho de introduzir as crianças no uso dos símbolos e que tirar alguns momentos para isso é, também, uma boa tarefa." E eu de representações gráficas, devo dizer que, poucas vezes, vi algo tão rigoroso estou de acordo com ela. e exaustivo em aulas de educação infantil. De fato, em qualquer empreendi- Nesse sentido, há, no texto em questão, uma série de atividades mento realizado pelas autoras, vê-se o olhar curioso das crianças, mas bem que, acredito, são muito úteis. Tarefas corriqueiras, caseiras, cotidianas, que sustentado por um trabalho sério de significação e de representação sim- Ángeles e Isabel resgatam do anonimato e trabalham com as crianças, apre- bólica: atividades de noções espaciais, peso, medida, coleta de informação, sentando-as com explicações e tempo para a prática, a fim de estimular as difusão, uso de números e palavras etc. Tudo isso possibilita o pensamento, crianças a fazê-las com gosto e crescente competência. Dobrar suas roupas, a criatividade, o conhecimento matemático e o leitor-escritor, importantes debulhar ervilhas, medir, pesar, cortar o pão, aprender a pendurar quadros nessas idades. Nas suas salas de aula, conta-se, pinta-se ou utilizando o nível, usar o mapa. E tantas outras. Por que será que não da- planta-se por algum motivo ou para alguma coisa ou alguém. Nada é super- mos suficiente importância a essas coisas, que dão autonomia, segurança e ficial nem sem sentido. Não se pensa em ficar bem, mas em que as crianças satisfação às crianças? vivam, desfrutem e abram o seu entendimento e o seu coração ao saber, ao Em contrapartida, os raciocínios apresentados pelas autoras sobre a prazer e às relações com os demais. rigidez do programa escolar previamente feito e a diferença com o trabalho Os diversos itens do livro incluem algumas tantas palavras-chave aberto e fundamental que é realizado quando o projeto surge das crian- que auxiliam acertadamente a formação do currículo e podem ajudar a ças têm feito identificar-me, e muito, com as suas questões. Assim como desmistificar os medos de algumas professoras de que as crianças caiam na outras reflexões que comentam sobre espaços, organização, metodologias, ignorância. Ou, ainda, acalmar as ansiedades de "ensinar aquele que não materiais, trabalho em equipe, aulas paralelas.. Sobre esse último ponto. sabe", pelo qual, nós, professores, somos acometidos com frequência. É vieram-me à mente algumas perguntas formuladas recentemente em ativi- como se essas palavras nos fossem orientando: "Se fizer isso, trabalhará dades de formação de professores acerca da conveniência ou não de levar o tais e tais objetivos". trabalho das aulas em dinâmica de uniformidade total com as colegas. Ao longo de todo o livro, Isabel e Ángeles nos falam, explicitamente Costumo responder a essa questão citando uma definição que aprendi ou nas entrelinhas, de ternura. Sem branduras nem tolices, mas, sim, com quando menina: "As linhas paralelas são aquelas que, por mais que se pro- um afeto que se transparece em cada linha; falam de um olhar particula- longuem, nunca se encontram". E transmito às minhas colegas que é melhor rizado às diferentes maneiras de ser; falam de escutar cada singularidade escutar as cinquenta crianças das duas aulas envolvidas que uma única co- e de olhar todos e cada um dos meninos e meninas, com os seus códigosde identidade, sua genuinidade, seu nome, sua voz. "O contato faz o carinho", lembram-nos. Como gostei que trabalhassem com as crianças SUMÁRIO escavando na arqueologia das suas vidas! O primeiro beijo que deram, a primeira palavra que pronunciaram, seus nomes, suas estaturas, suas camas, seus sapatos, seu ser e seu estar. Aprender sobre si mesmos, uma verdadeira "didática da proximidade", como disseram as autoras deste livro adorável. Introdução. O cardiograma 30 Gosto muito que os professores sejamos chamados de luthiers; soa ar- 1. O singelo e o cotidiano, e diástole da práxis docente 38 tesanal, próximo, delicado... Elas dizem que somos luthiers porque vamos 2. O coração de um grupo 46 construindo e afinando o instrumento (nós mesmos), para estarmos perto 3. Entre a escola hipotensa e a escola hipertensa 50 das crianças, ensiná-las, "bombeando vida de qualidade à 4. O marca-passos 54 comunidade", contando a elas as nossas próprias aflições, levando-as à cul- 5. Vinte e cinco corações diferentes 62 tura, devagarzinho. E mencionam que: "o olhar esperançoso de um profes- sor pode ser determinante para o futuro de um menino ou de uma menina". 6. Bombeando vida à comunidade 66 Uma linda forma de descrever o nosso trabalho. 6.1 Ativistas culturais versus infância hiperculturalizada 69 Não quero deixar de mencionar aqui a boa e fresca sensação que me 6.2 Educação infantil, uma etapa vital (também) para as famílias 70 trouxe a linda capa do livro. Natureza, cores suaves, sem estridências, e uma 7. Com o na orelha: a avaliação 76 harmonia muito em consonância com a beleza da simplicidade proposta 8. Da educação infantil ao ensino fundamental sem ponte de safena 80 pelo texto. 9. O que faz o coração pulsar? 84 Para concluir, mencionarei que, quando soube o significado do nome 9.1 O ritmo cardíaco: as batidas descompassadas de uma das suas escolas, Milladoiro, que se refere ao local onde se prostra- pelos/com os fios da infância 88 vam os peregrinos ao ver que estavam perto de Santiago, pensei que, defini- 10. As pulsações 90 tivamente, era um bom nome para a escola. Por extensão, é um bom nome, I. Quem sou? Como sou? Do que eu gosto? 91 também, para estas duas professoras, que vão tecendo, humildemente, afe- II. O que faço (em família)? 134 tos e caminhos com as suas crianças, que se ocupam em vê-las prosperar e III. Do que eu cuido? 156 se dirigem a essas vidas pulsantes que se nos apresentam todas as manhãs IV. O que acontece comigo? 184 na porta da escola, com o cabelo penteado, a expectativa à flor da pele e V. O que eu como? 197 vestidos de um futuro tão próximo... que já está aqui mesmo. VI. De quem eu gosto? 216 Obrigada, de todo o coração!VII. O que acontece ao meu redor? O que festejo? 230 VIII. O que me move? 248 IX. Com o que contribuo? 264 X. De onde venho? Para onde 294 11. O sucesso do transplante 316 12. Aonde o coração levar (sem perder o norte) 320 Epílogos 324 Uma escola feita de perguntas Tais Romero 325 A teoria emerge da prática Alejandra Dubovik 327 O pulsar do cotidiano de uma escola da infância Cristiano Alcantara 331 Bibliografia inspiradora 334 Links para ampliar as informações das experiências 338 As autoras 348INTRODUÇÃO. 0 CARDIOGRAMA Álvaro conhece as bandeiras de quase todos os países desde que as viu nas é, também, um perito em debulhar ervilhas e em dobrar roupas; conta, com orgulho, que foi a outro país caminhando (atravessou andando a Ponte Internacional Tui-Valença). Carlos nos deleita com beiji- nhos de coco, com bolos de banana, de abacaxi e de manga, enquanto canta Não aprendemos para a escola, mas para a vida. do E.: ponte que cruza o Rio do Minho, entre a Espanha (Galícia) e Portugal.para nós as músicas de Maria com as quais a sua mãe o conecta à dispor de tempo para que tudo possa se expandir, incorporar, desenvolver, sua cultura de origem. Gonzalo vai ao seu vilarejo, em onde olha aprofundar. Isso, se não estamos sujeitas às fichas de atividades ou a projetos uvas, faz esquia e brinca com o seu cachorro. Carolina nos traz quinzenais, mensais ou trimestrais que proliferam como fungos em todas as de todas as praias do norte e, também, frutos da horta classes de educação infantil, que dizem nascer dos interesses dos pequenos, dos seus Alicia e Julia saem quase todos os fins de semana para fazer apesar de se reproduzirem fielmente umas nas outras. trilhas com os seus pais, nas quais descobrem cachoeiras, praias, bosques Meninos e meninas têm vidas cheias de experiências, saem, viajam, e aldeias. Pablo se entusiasma com os faróis e os fortes; Raúl, com as feiras visitam, conhecem, têm uma bagagem de experiências, que é o que os vin- de robótica. Celia e Alba vão a muitos eventos musicais infantis. Paula, com cula com seu entorno familiar e de amizades. Ignorar ou aproveitar isso é sua Andrea, e suas primas mais velhas, passa da vida do campo à da um despropósito, porque, desde o início, já temos o interesse das crianças, cidade em um piscar de olhos: milho preto, raízes de gengibre, ovos verde- envolvimento das suas famílias e componente afetivo, elementos nada -água das suas galinhas-d'angola (segundo ela, como os de La Gallina Azul, insignificantes no aprendizado. de Carlos Casares), ingressos de museus e bilhetes de trem costumam ser os Este livro pretende ser um argumento em favor de recuperar a vida seus tesouros do fim de semana. cotidiana nas salas da educação infantil, um esforço para que os pequenos Nas segundas-feiras, a aula é um fervor de notícias e descobertas que tenham contato com a vida real, que, por algum motivo, costuma ser re- fazem todos quererem contar o que fizeram e saber sobre o que os demais duzida a uma ficção na qual animaizinhos coloridos barulhentos convivem viram. Às vezes, é necessário estabelecer uma ordem para poder dedicar com outros já extintos, habitada, também, por piratas, astronautas, elfos, tempo a cada coisa. Como abrir mão desse potencial? Seria uma estreiteza fadas e personagens da Disney, quando, na realidade, as nossas crianças de olhares didáticos ignorá-lo e continuar com o programado de antemão. veem os meios de comunicação, vão a hospitais e a comércios, e partici- Vinte e cinco crianças, com gostos e vivências diferentes, e pelo menos cinco pam da vida social. pessoas adultas (auxiliares, especialistas, a senhora da limpeza e a zeladora), Acreditamos que, a partir do momento em que entram na escola, além da professora, reunidas cinco horas por dia, cinco dias da semana, devem ser dadas às crianças as chaves que lhes permitirão compreender durante três anos, levam a uma combinação de conhecimentos única e o mundo em que vivem, em que viverão no futuro, e, também, ajudá-las irrepetível. Isso torna cada grupo uma república independente dentro da a construir a sua história desde o início, sabendo quem são e por que são escola, ainda que haja mais unidades desse nível, ainda que haja também como são. Partir do que nos cerca, do que nos toca o coração é sempre 25 crianças, ainda que haja gêmeos. Essa é a riqueza da educação infantil; ponto de partida de experiências de vida inesquecíveis, que serão expan- didas como quisermos, até onde quisermos ou para onde nunca espera- do E.: cidade espanhola de Castela e Leão, ao lado da Galícia. ríamos chegar. do E.: sumo de uvas frescas sem fermentação. do planta da família das crassuláceas que vegeta muros e rochedos sombrea- dos na Europa, na Ásia Menor e no norte da África. 32 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INTRODUÇÃO. 0 CARDIOGRAMA 33É lindo e tentador, mas como chegar a esse ponto? Como conseguir agrupadas segundo as perguntas que pretendem responder. O ideal teria que as contribuições diárias dos pequenos sejam o fio condutor de uma sido redigi-lo na forma de diário, pois, classificadas, podem parecer for- prática docente? Como fazer malabarismos entre as exigências documen- çadas. Por isso, requer-se que o leito entre no livro como se estivesse ob- tais, as quais nos obrigam a seguir as normas organizacionais escolares, e o servando por uma fresta. São as batidas do coração. As nossas. Únicas e que, de fato, parte dos interesses das crianças? É possível fazer a coordena- irrepetíveis. As surgidas com Ainara, Alba, Alicia, Álvaro, Amanda, Andrea, ção pedagógica dessa maneira? Como planejar de antemão a programação Belas, Cady, Carlos, Carmen, Carolina, Celia, Gonzalo, Hadrián, Hussam, trimestral/anual? A essas e outras muitas perguntas que desencorajam a Jorge, Julia, Kevin, Leo, Lois, Mauro, Nicolás, Pablo, Pablo, Paula, Quique, vida escolar vivenciada com sentimento e com senso comum daremos Qusai e Raúl, que, com as suas famílias, têm-nos presenteado três anos es- uma resposta neste livro. timuladores, cheios de vida, de novidade, de curiosidade, de inteligência Temos estruturado O pulsar do cotidiano de uma escola da infância e por que não? de aprendizado. Com a paranoia atual ao redor da pro- ao modo das histórias clássicas: apresentação, desenvolvimento e desfecho. teção de dados pessoais, meditamos muito se devemos colocar os seus no- Nos primeiros nove capítulos, expomos a necessidade de retornar ao básico, mes ou pseudônimos, acrônimos ou símbolos. Acreditamos que é justo que elementar e cotidiano nas aulas após toda a avalanche de inovações, de cada um deles saiba tudo o que nos têm dado e que são os arquitetos desta extravagâncias e de exotismos que têm invadido as escolas. Assim, falare- publicação. Enviamos, aqui, o nosso agradecimento a todos eles, às nossas mos de escolas atuais não mencionamos a palavra metodologias, porque, colegas, ao pessoal não docente, às famílias e à comunidade, que sempre nela, há muita mistura, tribalismo e fundamentalismo. Preferimos, então, acolhem a nossa cotidianidade. denominá-las tendências, mais de acordo com os modernos influencers edu- Encerrando, os dois últimos capítulos pretendem estimular a se dei- cacionais e pela mistificação do espaço como outro elemento dissuasivo xar levar mais pelo coração do que pela programação. É um convite à rebel- de profissionais bem-intencionados que não têm salas de aula "de revista". dia contra o instaurado ou contra a tirania do apresentado. Trataremos, também, do estilo do docente de uma sala que pulsa, de como Ainda que constemos como autoras, não fizemos este livro sozinhas. está organizada, de como avaliar a vida cotidiana ou de como sobreviver Como em Os fios da infância, acompanham-nos e abraçam-nos os prólogos à comparação e à pressão para enviar as crianças "preparadas" ao ensino de Beatriz Trueba e Mari Carmen Navarro. Para nós, dois faróis que fundamental. Trataremos da participação e corresponsabilidade educacional sempre iluminaram a nossa tarefa profissional, honrando-nos, mais uma das famílias, bem como dos dilemas e das encruzilhadas em que se encontra vez, com a apresentação da obra. o caminho de dar (que acreditam ser) melhor aos seus filhos. E, claro, Para a imagem da capa, recorremos novamente ao ilustrador apontaremos aquilo que faz o nosso coração pulsar, o que defendemos como Leandro Lamas, que entende e transfere tão bem ao mundo plástico as eixo da práxis educativa. nossas inquietações. O Capítulo 10 é integrado por dez blocos de experiências das Na forma de epílogo, incluímos os textos das nossas amigas "além- nossas classes. Não correspondem a uma ordem de realização, mas foram Tais Romero, pedagoga brasileira, que, ainda sem nos conhecer, 34 0 PULSAR DO COTIDIANO UMA ESCOLA INTRODUÇÃO. 0 CARDIOGRAMA 35sincronizou as nossas batidas do coração com as de milhares de outras para a vida, como a educação o é para a sociedade, além de ser o lugar do educadoras brasileiras. Quisemos manter a sua contribuição no idioma qual, a partir de todas as artes, localiza-se afeto. original, como homenagem a todas elas nesta crença ou declaração a Vida e sentimentos, pessoas e vivências, educar e aprender a viver favor de devolver à infância que é seu: tempo Seus dois textos se seriam as chaves que definiriam O pulsar do cotidiano de uma escola somam ao de Alejandra Dubovik, criadora da escola argentina Fabulinus, da infância. uma referência de qualidade pedagógica, que dirige com Alejandra Cippitelli, sendo conhecidas como "as Foi ela que nos descobriu nas redes e nos abriu as portas na América Latina. A sua opinião fundamentada e as suas críticas sustentadas a tornam uma voz necessária. Tal qual em Os fios da infância, este é um livro enriquecido, já que, no final de cada bloco de experiências, encontram-se os links dos blogs nos quais estas foram publicadas, que contam com mais informações e fotogra- fias dos processos narrados. Para os leitores que tiverem medo de que, entre tanto lirismo, te- nhamos perdido o gancho curricular, no início do relato de cada cia são incluídos, como palavras-chave, os principais conteúdos didáticos abordados. Desejamos saber transmitir adequadamente a ideia de que uma escola vital e real, uma escola que vibra e pulsa, não precisa de nada além de uma docente que apresente a realidade cotidiana e que saiba escutar com o cora- ção. Todo o restante é acessório. Isso pode ocorrer em uma classe qualquer, de uma escola qualquer, de qualquer lugar, porque as perguntas às quais terá ajuda a dar uma resposta estão na cabeça dos meninos e das meninas de qualquer canto do mundo. Para um livro com um título e uma capa na qual há um coração, seria possível pressupor uma visão sentimental ou melosa da educação. Não é assim de maneira nenhuma. Aludimos ao coração por ser o órgão principal 36 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA INTRODUÇÃO. 0 CARDIOGRAMA 370 SINGELO E 0 COTIDIANO, A razão de ser deste livro é tentar frear a insana corrida em que se con- verteu a educação infantil. Neste momento, em que todos os órgãos interna- E DIÁSTOLE cionais constatam a positiva incidência da escolarização infantil no posterior futuro acadêmico, é quando há mais disparidade no que se faz nessas salas DA DOCENTE de aula: umas parecem prolongações do ciclo 0-3, e outras, da licenciatura; em umas, estão sempre brincando, e, em outras, realizando inúmeras fichas de atividades; em umas, não querem nem ouvir falar de leitura ou de es- crita, e, em parecem copistas (não somente de textos, mas também de arte); em umas, a robótica parece um santo remédio, e, em outras, a tela é um tipo de cinema clandestino; em umas, imperam os brinquedos edu- cativos, e, em outras, o entretenimento tecnológico de última geração; os métodos matemáticos, a emoção das cores, os materiais artesanais, as artes manuais, as séries de animação que estimulam a inteligência; a literatura e a poesia de um nível de abstração ou metaforismo próprio de eruditos, junto com contos pobres, cujo título alude a valores universais ou a sentimentos; o consumismo para fazer reciclagem e a solidariedade como produto de consumo; as tradições locais recuperadas do esquecimento, misturadas com celebrações estrangeiras que colonizam o mercado; a equoterapia, a terapia com cães e burros, a teatroterapia etc. Mas o que ocorre na educação infan- Se são feitas coisas reais, til? Será que, há alguns anos, a infância se tornara um importante nicho de são reais as suas consequências. mercado, bombardeada de todos os lados com as últimas novidades? Será LORIS MALAGUZZIque desde a formação do professorado (inicial e permanente) são emitidas da casa onde moram, o tamanho de roupa que usam, abrir um iogurte ou mensagens contraditórias com os princípios educacionais da etapa? Será que descascar uma banana. É algo surpreendente, e até surreal, se fizermos o mundo todo se apropriou (com interesses próprios) do discurso curricular exercício de extrapolá-lo a outras áreas ou profissões. e encontra uma justificativa didática desse absurdo? Será que há muita Nesse despautério, podem ser identificados perfeitamente os culpa- fraude educacional e pouca reflexão profissional interna? dos, que não vamos citar, porque cada leitor saberá a quem responsabilizar Na música, na culinária ou na arte, muitas vezes, a fusão é positiva pela mensagem recebida. Queremos tão somente registrar que, ao nosso (o rock com o flamenco, a comida tailandesa com a peruana, o academi- redor, princípio lúdico da educação tem sido confundido com ludicidade, cismo com a arte naif), mas, na educação, não é bem assim. Não pode ser e o lema "Para educar uma criança, é necessária uma tribo" entendido no que, diante de um curso de formação, de pregações de gurus pedagógicos sentido de que toda a sociedade educa a partir dos seus postos e das suas ou de fotografias do Instagram um professor tente transferir à sua classe, responsabilidades tem sido, no entanto, a porta de entrada a um variado como se fosse uma receita de bolo, que acabou de ver. Assim, acabamos elenco de personagens nas escolas que usurpam, consentidamente, o traba- tendo uma mistura que não resistiria a uma rigorosa revisão do ponto de lho dos docentes. vista pedagógico. Dedicaremos capítulo "O marca-passos" à função docente e, agora, Por mais interessante que sejam o as técnicas circenses, a retornaremos à tese de que é a vida cotidiana que deve nutrir de aprendiza- genômica ou outros, há assuntos prioritários a serem abordados com crian- dos os pequenos. ças de 3 a 6 anos. E refletiremos aqui sobre isso. Iniciamos este capítulo com uma inspiradora citação de Loris Há cerca de duas décadas, aquelas unidades didáticas que leva- Malaguzzi, na qual disse que, se fazemos coisas reais, também são reais as vam títulos como O outono, Minha família, O Natal, O mar, Os animais e suas consequências. Na escola, grande parte do nosso tempo é investido A primavera foram substituídas por uma coisa similar em essência: os in- em tornar rotineiros os hábitos que nascem das normas, e sempre nos fames projetos. Os egípcios, Os dinossauros, Os piratas e Os planetas já são perguntamos quantas dessas regras têm aplicação na vida fora da bolha clássicos; a única diferença com os atuais é que, se antes ainda conservavam escolar. Educamos para a escola ou para a vida? Essa é a questão-chave. Ao algum vínculo com a realidade, os de agora entram no terreno da ficção. determinarmos que é para a vida, desaparecerão as que podem provocar distantes histórica ou galacticamente. Há crianças na educação infantil que confusão nas crianças. ouviram falar sobre a vida psicótica de Van Gogh ou sobre esperanças, famas E, se educamos para a vida real, como ela entra na escola? É claro que e cronópios, mas não sabem como chama o seu pai ou a sua mãe, o número pelas mãos dos alunos e pelas nossas também. Mas a realidade é imprevi- sível; então, como a selecionamos entre tudo o que chega? Lembrem-se de do E.: naif significa ingênuo ou inocente em francês. A arte naif, portanto, diz que os profissionais da educação somos os professores, cabe a nós a prio- respeito ao estilo das pinturas produzidas por artistas autodidatas, que pintam com rização: sabemos como induzir sem impor, como propor sem forçar, como a alma, sem formação acadêmica sistemática. do E.: técnica de tecelagem que consiste em fios trançados e atados em nós. vincular com o currículo sem que pareça uma rígida sequência de atividades 40 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA 0 SINGELO 0 COTIDIANO, DA DOCENTE 41desenhada meticulosamente. Dar voz aos alunos, valorizando o que eles 5. Como formulamos a avaliação dos alunos com relação a outros trazem como contribuição, sugerindo novas possibilidades ou novos rotei- colegas, se é necessário utilizar itens comuns? ros. Nesse ponto, entra o jogo de cintura pedagógico de um educador. Po- 6. Todas as docentes da educação infantil poderiam/deveriam tra- deríamos programá-lo com antecedência? Possivelmente, mas perderíamos balhar desse modo? o frescor, a espontaneidade e o interesse imediato dos pequenos. Nós sempre nos remetemos aos princípios educacionais da etapa: são Queremos voltar a Malaguzzi, porque ele detestava o que chamava claros e não admitem discussão. A norma nos garante. O que perverteu "pedagogia profética", aquela na qual tudo é programado de antemão, a que tudo em uma flagrante vulneração foram os requerimentos documentais pressupõe uma consequência para cada ação, a que não abriga nenhuma realizados. Esse tipo de mecanismo de controle, que, em muitos casos, se incerteza, a que dá receitas minuto a minuto. Ele costumava dizer que era deve à nossa própria confecção cada vez mais complexa agem como algo tão tosco, tão covarde e tão humilhante para a inteligência dos profes- uma corda no pescoço, estrangulando a filosofia da educação infantil e seu sores quanto para a das crianças. Conosco, também acontece isso; somos único sentido é o controle ou a homogeneização. Há uma total divergência mais partidárias de viver acolhendo o que cada momento nos oferece. Isso, em relação ao estabelecido no documento quanto a objetivos de etapa, a para algumas pessoas, poderia, inclusive, parecer improvisação didática. metodologias, às características da avaliação, da atenção à diversidade etc., Ou, pode-se dizer, versatilidade, bagagem de recursos, conhecimento, racio- até o ponto em que, às vezes, temos a sensação de que foram redigidos em cínio e capacidade de resposta rápidos; isto é, o que se espera de um profes- um deliberado ato de bipolaridade. Com o currículo da educação infantil sor, que vá além de ser um mero aplicador de fórmulas prontas. Sem dúvida, nas mãos, não poderiam ser admitidas certas práticas feitas em classe, na é muito mais fácil saber que o faremos a cada dia tendo diante de nós uma escola ou exigências da própria Administração, da inspeção educacional, planilha com as leituras, as imagens, as músicas e as atividades já selecio- da formação do professorado ou do sistema de oposições para ingressar no nadas, mas, honestamente, para isso, não são necessários esses elementos. corpo de docentes do infantil. Após essa afirmação, para alguns leitores surgirão, entre outras, as Mesmo assim, reconhecemos que, na formação inicial, é necessário seguintes perguntas: treinamento do cronograma como exercício de conciliação entre conteúdos, 1. Esses cronogramas predefinidos fazem sentido? objetivos, atividades e avaliação, em sua combinação, sequência e momento 2. O que fazer, então, com o cronograma anual a que as normas acadêmico de realização. Até que cheguem a interiorizá-lo de tal modo que se nos impelem? torne um ato quase automático, a fim de que, em qualquer atividade, sejam 3. É possível, assim, a coordenação com as professoras eventuais capazes de pensar os objetivos e os conteúdos abordados. Somente se que lidam com o grupo, com outras colegas de nível e com a adquire isso por meio do exercício, o que não é impedimento para que programação da escola? sejam descartadas experiências interessantes simplesmente por não terem 4. Na nossa ausência, qual pauta deve seguir quem nos substitui? sido contempladas na programação. A norma nos exige a realização de um 42 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA SINGELO 0 COTIDIANO, SISTOLE DA PRÁXIS DOCENTE 43cronograma anual, o que não está errado na teoria que nos orienta; o pro- Não queremos encerrar este capítulo sem apontar uma dúvida que blema é isso se tornar o nosso modelo e gerar a angústia, própria de outros possivelmente se encontra no pensamento dos leitores: não será um redu- níveis, de não completar todos os itens do cronograma. cionismo centrar a práxis na cotidianidade? De qualquer maneira, há muitos anos, adquirimos o hábito de redigir Ainda que depois o vejamos nas experiências relatadas, escolhemos a posteriori o que realizamos: para a nossa tranquilidade profissional, preen- como título deste capítulo a comparação com a e a diástole para chemos um quadro com duas colunas, no qual indicamos os objetivos e os além do repertório cardiológico porque pretendíamos refletir que, como conteúdos contemplados nessa experiência. Rapidamente, podemos detec- nas duas etapas do ciclo cardíaco, na contração, bombeia-se para o exterior, tar aspectos escassos ou lacunas em razão de nossas mudanças. e, no relaxamento, o sangue vai de fora para dentro. Isso significa que se Quanto à coordenação entre docentes do mesmo nível ou ciclo, acre- trata de um fluxo combinado em que, a partir do mais próximo, iremos para ditamos que há uma grande confusão: coordenar pedagogicamente não o mais afastado, e, do desconhecido, bombearemos para o coração. significa fazermos a mesma coisa do mesmo jeito. Muito pelo contrário, a coordenação apela mais à proposta pedagógica da escola, levando-se em conta a postura da equipe quanto a questões relacionadas à visão da criança, ao ciclo, às atividades, às normas, à relação com a família, aos fundamen- tos, à intervenção de outros especialistas, à participação da comunidade etc. É normal que, em classes diferentes, com uma professora, meninos e me- ninas diferentes, as experiências não sejam iguais. O inaceitável é que, por ser uma docente ou outra, as normas da escola, os valores transmitidos ou o tratamento às famílias sejam distintos. Talvez sejamos nós mesmas que objetivamos incorporar o ritmo de uma vida cotidiana. Vale a pena analisar as razões dos pretextos e encon- trar soluções, porque as normas não nos restringem tanto quanto falamos. Sempre defendemos que, ainda que possa parecer uma ideia conservadora, atualmente, a grande revolução, a verdadeira inovação na educação infantil, seria cumprir com a filosofia e os princípios básicos da etapa mencionados no decreto de currículo, exigindo isso, em primeiro lugar, das próprias ad- ministrações educacionais, para que haja concordância entre os documen- tos, a formação e os programas introduzidos nas escolas. 44 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA 0 SINGELO 0 COTIDIANO, DA DOCENTE 450 CORAÇÃO DE Chega uma hora em que estamos todos tão sincronizados que pa- rece que pensamos e sentimos coletivamente, mas, para que 25 corações UM GRUPO batam em uníssono, leva certo tempo. O coração de um grupo é um mús- culo que é necessário exercitar, nutrir e acarinhar, para deixá-lo preparado, tanto para bater acelerado quanto para desacelerar, tanto para pular de alegria quanto para se encolher de tristeza. É um trabalho de três anos e, infelizmente, quando, por fim, começamos a ver essa empatia total, chega o momento de deixá-lo ir embora e recomeçar. Esse é o drama das profes- soras da educação infantil. A etapa 3-6 é um tempo em que se deve procurar tirar o menino ou a menina do anonimato do grupo no qual viverá toda a sua vida escolar. É o momento em que dão as condições ideais para que aflore sua singularidade, seu caráter, seus gostos e desgostos, seus pontos fortes e seus pontos fracos. Tudo isso ao mesmo tempo que desenvolve um sentimento de pertencimen- to a alguma coisa regida por certos códigos comuns. Aqui, há duas forças centrípetas que agem sobre os pequenos; por um lado, o.egocentrismo próprio da idade, e, por outro, a ânsia homoge- neizadora da escola e da sociedade. Por isso, ajudá-los a se abrir, a se mos- A união faz a força. trar do jeito que são, ao mesmo tempo que tentamos fornecer as chaves ESOPO para serem membros de uma comunidade, sempre gera uma tensão quedeve ser resolvida com o passar do tempo. Conciliar ser indivíduo com ser quando se entra numa dessas. Do mesmo modo, uma classe com coração cidadão é uma coisa que nos acompanhará por toda a vida, de modo que é impossível de ocultar; até o mínimo detalhe nos dará indícios de que, ocorrerão incontáveis choques e contradições, principalmente na idade ali, há um pulsar comum. E isso vai muito além de haver certas pautas adulta, mas é na educação infantil que são dados os primeiros passos nesse ou regras em comum. Esperamos saber transmiti-lo com a exposição do caminho. A escola deve reivindicar a individualidade das crianças, sem nosso trabalho. aceitar que se fale delas somente como um bloco monolítico com algum jeito diferente. Uma reunião de avaliação é o que melhor pode exempli- ficar o que expusemos: nela, somente se fala do grupo e daqueles poucos membros que fogem do padrão, ao passo que a maioria fica oculta sob o denominador comum da normalidade. Em qualquer caso, esse binômio pessoa-cidadão é o que se deve ser potencializado, sem desfavorecer ne- nhuma das suas partes. Por esse motivo, decidimos falar do coração, por ser um órgão vital, ao qual se associam os sentimentos, os afetos e as emoções. A linguagem oral está cheia de exemplos: "O meu coração está pulando de alegria", "Meu coração vai sair pela boca", "Estou com o coração apertado" etc., isso, para não falar na linguagem plástica, que consegue ilustrar todos esses estados de ânimo com formas e recursos inimagináveis. E como se fortalece um coração coletivo? Em primeiro lugar, cui- dando do coração de todos os membros com toda forma de amor: com o toque, com a compreensão, com o conhecimento, com o tempo, com o acompanhamento, com o respeito e com o carinho. Ao longo do livro, mostraremos como, desde o primeiro contato com a escola, tentamos in- troduzir os alunos e as famílias nesse pulsar comum, que tanto favorece o processo educacional e de crescimento. Pressupõe um grande esforço, que será recompensado. Uma classe sem coração não é nada além de alguns metros quadrados ocupados temporariamente; percebe-se de imediato 48 0 PULSAR DO COTIDIANO DF UMA ESCOLA DA 0 CORAÇÃO DE UM GRUPO 49ENTRE A ESCOLA Como na sociedade, na escola atual, há duas tendências contraditó- rias para aqueles que olham com anseio a imensa maioria das demais esco- HIPOTENSA E A las, as que ficam no meio, as normais e comuns, que podemos encontrar em qualquer cidade, bairro, vila ou comunidade do país. Falamos das escolas ESCOLA HIPERTENSA hipertensas e das hipotensas. São as que nos são mostradas em cursos de formação, congressos, revistas educacionais e redes sociais, provocando des- conforto nos profissionais, sabendo que nunca alcançarão essas utopias por falta de meios, de coragem ou de respaldo legislativo. Vejamos suas caracte- rísticas principais. Como reflexo do que a sociedade incita, promovendo a pressa, as mudanças, a saturação e consumismo, aparecem as escolas hipertensas. São locais nos quais o respeito aos ritmos dos pequenos é substituído por programas de estimulação, de enriquecimento, de sucesso (observar deti- damente que a linguagem não engana), com a intenção de aproveitar que as crianças são "como esponjas" detestamos essa expressão - e com o pensamento de que, quanto antes iniciem tudo, mais sucesso terão. Tecno- logias, idiomas, matemática e cultura do esforço (competitividade) são as suas bandeiras. Costumam pertencer ou ser apoiadas por grandes grupos ou Os dias talvez sejam iguais para um relógio, corporações. São escolas nas quais o produto a ser mostrado ainda que não mas não para os seres humanos. tenha sido realizado na sua totalidade pelas crianças - sempre preza mais MARCEL PROUST do que os valores transmitidos e assimilados. Algumas escolas, as que estãoà dianteira, sabem disso, mas não se preocupam, ou mais distantes, mais o agravante de que a autonomia que você tiver em uma escola não será igual rápido, mais elitistas, à proximidade, à cotidianidade, à norma- à que você terá em Então, como podemos intervir? Qual é a margem lidade, à familiaridade, à serenidade e à equidade. Outras, infelizmente, nem de intervenção de uma docente da educação infantil? Onde podemos fazer pensam nisso: apenas tentam imitar essas escolas de prestígio pelos meios de mudanças? De onde provêm os entraves? Das equipes diretivas, das regras comunicação, pela formação e pela sociedade com poder de decisão. vigentes, das famílias, das exigências dos níveis superiores, das colegas de Na ponta oposta, e como reação, surgem as escolas hipotensas. Mi- ciclo ou de nós mesmas? noritárias. Natureza, valores, liberdade e cooperação são as suas bandeiras. Como abordaremos no capítulo seguinte, é no exercício docente que Costumam se apresentar como um oásis, ou uma bolha, que afasta os pe- se encontra o nosso potencial, que depende plenamente de nós mesmas. quenos dos males de que sofre a sociedade. Algumas delas se protegem sob Somos donas das cinco horas que permanecemos dentro da sala e nossos um rótulo de um sobrenome pedagógico, ainda que isso não seja totalmente dias podem ser iguais aos anteriores e aos que virão, mas podem ser dife- verdadeiro. Um tipo de que muitos desejariam, mas que ne- rentes. Nós decidimos. Acreditamos que o professorado deve deixar de lado nhum dos que estão na escola pública pode alcançar. a procrastinação ou os pretextos e se empoderar. É disto que a escola real- Se observarmos imagens dos dois tipos de escola, veremos que, no mente precisa: de pessoas capazes de perseguir um sonho, sem deixar de ter primeiro tipo, costumam aparecer (sempre) grupos de crianças alvoroçadas, os pés no de tornar realidade o que se aprende no legado pedagógico, com gestos de alegria em sofisticadas instalações ou em festas rodeadas de sem vulnerar as normas. É possível e realizável. logotipos e cartazes com a sua missão/visão; no outro, duas ou três crianças concentradas em tarefas ou objetos pequenos. Em umas escolas, pensam que os pequenos são recipientes a serem preenchidos com estímulos exter- nos, e, em outras, que é de dentro deles que sai o conhecimento de forma inversamente proporcional à intervenção adulta. Nem um nem outro. É certo que cada uma dessas escolas tem o públi- CO que deseja, dispõem de autonomia suficiente. Mas. o que acontece com o restante? Para quais devemos olhar, nós, as docentes que estamos dentro de um sistema que claramente não podemos mudar? Na rede pública, quando você é destinado a uma escola, tem a capacidade de alterar o que permiti- rem, o que você seja capaz de conquistar e que as normas consentem, com N. do E.: local fictício localizado nas montanhas do Himalaia. Termo cunhado por James Hilton no romance Horizonte perdido, de 1933. 52 0 PULSAR DO COTIDIANO DF UMA ESCOLA DA INFÂNCIA ENTRE A ESCOLA HIPOTENSA A ESCOLA HIPERTENSA 530 MARCA-PASSOS Os marca-passos são aparelhos elétricos como microcomputadores, capazes de detectar os batimentos cardíacos e de emitir pequenas descar- gas que fazem o coração bater quando faltam os impulsos próprios ou quando são lentos demais. Na nossa o marca-passos para um coração conjunto de 25 crianças é a docente, exatamente com essa função: a de enviar um estímulo externo quando os do grupo são fracos ou não estão sincronizados. Não somos nós que devemos dizer como precisa ser uma docente, mas podemos citar as competências que deve reunir, magistralmente sele- cionadas por Perrenoud em dez pontos: 1. Organizar e estimular situações de aprendizagem. 2. Gerir a progressão da aprendizagem. 3. Elaborar e fazer evoluir mecanismos de diferenciação. 4. Envolver os alunos em seus aprendizados e no seu trabalho 5. Trabalhar em equipe. 6. Participar da gestão da escola. 7. Informar e envolver os pais. 8. Utilizar as novas tecnologias. O país será que os professores quiserem. 9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. DOMINGO BARNES 10. Organizar a própria formação de maneira contínua.Concordando plenamente com elas, nós nos centraremos mais no seu mudam a partir de leves bater de asas. Para o bem e para o mal. Que seja, papel dentro da sala de aula, sem deixar de estabelecer uma estreita relação então, para o bem. com todas as demais competências. Hoje em dia, na culinária, na vinicultura, no cinema etc., a denomina- Apelamos ao empoderamento do professorado. Não é que gostemos ção autoral pressupõe um valor agregado. Os produtos assim chamados pre- muito do termo, mas é que melhor transmite a ideia de conquistar um tendem mostrar que, além de tudo o que há por fora, anotadas as lições dos maior controle sobre a educação, sobre as nossas ações educacionais, apro- predecessores, o criador ou a criadora, com base na sua experiência e na sua veitando as oportunidades e tomando decisões significativas. percepção, deixa a sua marca no produto. Talvez tenha chegado o momento Nós nos acomodamos à queixa constante, culpando pelos males da didática autoral, em que cada professora, tendo claro qual é o objeto da educacionais a Administração, as famílias, as equipes diretivas, o grupo de sua tarefa, cumprindo os parâmetros indicados pelas normas, bebendo das professores, a falta de recursos, a complexidade do nosso contexto, a so- fontes pedagógicas saudáveis, recrie o seu trabalho do modo como se sentir ciedade em geral ou tudo isso junto, a que denominamos sistema". Cer- mais confortável, sem tentar adotar modelos que não se encaixam. Isso é tamente, todos têm sua parcela de culpa, mas devem concordar conosco parecido a quando vemos uma pessoa vestida com roupas que não estão que, sobre isso, não temos uma capacidade direta de intervenção. Só po- de acordo com a sua pessoalidade: por mais lindas que sejam, por mais demos nos empoderar no nosso cargo, na nossa função. Mostrando nossa bem-feitas que sejam, por melhor que seja a qualidade, veremos essa pessoa competência e nosso rigor profissional, nosso saber fazer, realizando uma como se estivesse fantasiada. Pois bem, na educação, isso também acontece. didática que se estenda aos alunos e às suas famílias, compartilhando, con- Tivemos a oportunidade de conhecer diferentes metodologias, temos visto trastando e refletindo sobre o trabalho próprio e alheio, esforçando-nos experiências de diversas escolas, temos lido muitos autores. Tudo isso não para chegar ao cerne, sem ficar presas no superficial e no supérfluo, dando pode ser um padrão a seguir, mas um substrato que vai deixando marcas no exemplo de pessoa, de de colega, de professora, de presença, nosso estilo pessoal. de ser e de estar. Com certeza, fazer isso é na contramão, mas é a Conectamos com outro elemento importante, ainda que acreditemos única via sobre a qual temos a possibilidade de sucesso, mesmo que seja que, na atualidade, esteja superdimensionado: o espaço. Não pretendemos com um grupo reduzido ou em uma pequena escola. Se somos capazes de nos aprofundar no papel educacional do ambiente, da arquitetura, dos conseguir isso no nosso âmbito, acima de tudo, não pretendam mudar materiais, da organização e da estética. Ora, tudo isso, sem uma profes- mundo. A ideia da globalização de que podemos chegar a qualquer parte sora ou um professor, não é mais do que decoração. Do contrário, nossa tem prejudicado as iniciativas menores, no entanto, são estas as que pros- profissão estaria em maus Somos capazes de diferenciar as casas peram, e, todas elas, unidas, trariam um panorama muito mais promissor. de moradia das casas desenhadas; nos espaços de aula ocorre o mesmo. Gostamos de mencionar e achar factivel o efeito borboleta, segundo o qual Como Don Gregorio, o professor de A língua das mariposas a quem a um infimo fato pode alterar, em longo prazo, uma sequência de aconteci- Escola de Educação Infantil Milladoiro dedica a memória pode-se ser mentos de imensa magnitude. As leis, os modos de agir e de se relacionar docente à beira de um rio, na montanha ou nos momentos mais íntimos, 56 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA 0 MARCA-PASSOS 57não importa onde, mas como. Sem dúvida, o espaço interfere na nossa se converse sobre assuntos didáticos em comum, especialmente sobre os tarefa e cada qual terá que organizá-lo conforme o seu estilo de vida, o pequenos detalhes, como as normas da aula, pois cada uma mostrar uma uso feito dele e o conforto de quem o utiliza. Isso, sem perder de vista as postura diferente com relação, por exemplo, à formação ou não em filas, mensagens que transmite: aos hábitos de de material, machista/feminista/coeducacional, rico/pobre estética e socialmente, consu- ao uso dos espaços etc. não é algo que favorece muito o aprendizado. mista/respeitoso com o meio, de acordo com as expectativas das crianças ou Voltemos a falar da proposta pedagógica da escola, em que devem ser es- do adulto, valorizando as produções dos alunos ou do professorado, predo- tabelecidos, conjuntamente, esses pequenos detalhes com todo o pessoal minância do natural/artificial etc. envolvido, incluindo-se o não docente e que trabalha fora do horário Pensem que detalhes, como uma planta moribunda por falta de água escolar. As crianças não entendem que, em um mesmo local, seja preciso ou cheia de pó; uma pronúncia incorreta, um vocabulário pobre, uma orató- proceder de modos diferentes em razão de horários ou da pessoa com a ria ruim ou uma linguagem vulgar; uma presença desalinhada com o traba- qual se encontrem. lho realizado ou inadequada para este; uma atitude de irritação por falta de Não queremos encerrar este capítulo sem expressar a nossa opinião serenidade e de autocontrole estão transmitindo uma mensagem mais pode- quanto à prioridade concedida às tecnologias e, se tratamos disso no ca- rosa do que qualquer lição bem-intencionada. Esquece-se, com frequência, pítulo dedicado às professoras, é porque, em algumas escolas ou salas de do papel-modelo e de exemplo do docente, quando é mais potente o modo aula, essas tecnologias quase usurpam o lugar da docente ou a substituem. como nos mostramos do que o que dizemos. Houve um tempo, não muito longínquo, em que fomos surpreendidas com E quais características deve reunir uma professora ou um professor a exclusão digital. Naquela época, acreditávamos que não encaminhar as da educação infantil? Bondade e generosidade são as primeiras; segurança crianças ao uso das tecnologias originaria uma nova forma de exclusão. Que e convicção vêm a seguir; falar e escutar; curiosidade e cultura; presença e ingenuidade a nossa, pois não foram necessários mais do que alguns pou- saber estar; dar abertura e manter a introspecção; equilíbrio e flexibilidade; cos anos, um gigantesco bombardeio de meios e de instituições, e alguns confiança nas capacidades próprias e alheias... Seriam inumeráveis, e não investimentos milionários em aparelhos para nos mostrar que, hoje em dia, queremos continuar, para que não pareçam os requisitos para um casting. na escola, devemos fazer exatamente o contrário: oferecer alternativas aos Quando nos perguntam se uma boa professora nasce ou se faz, apostamos entretenimentos tecnológicos e critério para analisar a validade de tudo o pela segunda opção, mas, sem dúvida, de início, deve reunir algumas quali- que a internet abriga. dades humanas, comunicativas e criativas importantes. Salas de educação infantil dotadas com telas de projeção táteis, com Ainda que a tutora marca-passos tenha um papel principal na aula, tablets e computadores, são a continuidade do que muitas crianças já fa- há outras docentes que intervêm com o grupo (especialistas, auxiliares, zem nas suas casas. Filmes (dizem que transmitindo valores ou sobre con- substitutas, estagiárias e monitoras). Quando, no início do ano letivo, de- tos clássicos) que são projetados para preencher os momentos de espera, termina-se quem serão as designadas para cada unidade, é necessário que os do lanche, os recreios com chuva ou o repouso após a refeição talvez 58 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA 0 MARCA-PASSOS 59não sejam a alternativa mais apropriada para uma escola na qual traba- o sensorial, o emocional. Em suma, não há engenhoca inventada que traba- lham profissionais formadas em Psicologia, Pedagogia e Didática. Para lhe o humano melhor do que uma boa docente. Por isso, não permitam que muitos pais, poderá parecer normal, porque é o que eles também a tecnologia as substitua ou estrague seu trabalho. filmes para acordar, para sossegar, para viajar e para dormir. Precisamente Vimos um esboço sobre o papel docente, mas ele se manifesta ple- por esse motivo, a escola deve tratar ou mitigar as consequências que esses namente em ação, em interação com o grupo de alunos. Falaremos disso hábitos acarretam: dispersão, falta de atenção, sedentarismo, simplicidade a seguir. de vocabulário, desenvolvimento motor pobre, tanto grosso quanto o fino, modelos de referência fictícios, socialização precária e valores consumistas. Nas nossas aulas, as tecnologias são usadas com duas finalidades: a comunicativa e a informativa; não é permitida a lúdica. Pelas manhãs, abri- mos o e-mail para saber se há alguma comunicação de alguma família para comentar algo que se refere ao seu filho(a); se não vulnerarmos o seu direito à privacidade, compartilhamos o fato com seus colegas. Quando surge alguma dúvida ou precisamos reforçar algo por meio de imagens e de in- formações, fazemos uma busca na internet, contrastando várias fontes até confirmar o que está correto. Trata-se de um exercício constante, para que as crianças não acreditem em tudo o que é publicado. Se temos que ir a algum lugar ou visitar um espaço público, fazemos, primeiro, uma visita virtual para saber dos perigos, obstáculos ou trajeto a percorrer, exceto se pretende- mos que seja uma surpresa. Uma música, uma canção, um vídeo explicativo, algumas vezes, encerram leque de possibilidades de uso das tecnologias na aula. Robótica, jogos educativos, séries de animação, histórias narradas por personagens estão totalmente descartados. Acreditamos que, na educação infantil, há aspectos primordiais exigidos do real, e não do virtual: desen- volvimento psicomotor, o interpessoal, o manipulativo, o das experiências, N. do E.: comportamento caracterizado por afetação ou exagero próprio de um ator de teatro. 60 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA 0 MARCA-PASSOS 61VINTE E CINCO Em uma reunião de início de ciclo com as famílias dos alunos uma mãe pergunta quantas crianças diferentes há no grupo. A resposta da profes- sora é sincera, taxativa e contundente: 25. CORAÇÕES DIFERENTES Somente partindo dessa premissa pode-se falar de educação inclusiva. Costuma-se entender como diferente o que diverge do padrão de normalidade. Entretanto, quem conhece uma criança que seja igual a outra? Que triste seria o nosso trabalho se tão somente uma ou duas crianças fossem diferentes! Fe- lizmente, para nós, cada criança é um mundo ou dois mundos ou até vários mundos. Em trinta anos de docência, jamais encontramos uma criança igual à outra; cada uma nos significou um encontro, um desafio para conseguir che- gar ao seu coração, um esforço para mantê-la interessada e um drama ao nos despedirmos, da criança e da sua família. Não vamos negar: há crianças com as quais simpatizamos mais, não por elas próprias, mas pelas nossas afinidades e nossos medos. Houve famílias que nos cansaram, censuraram ou frearam. Houve turmas mais legais do que outras provavelmente, também em virtude de nossa disposição e de nosso estado de espírito mas jamais tivemos um Ao longo dos cruzamentos do seu caminho, grupo que não fosse diverso, tanto como grupo quanto na soma de 25 indiví- se encontra com outras vidas: ou não duos. E gostamos disso, porque nós também gostamos de ser diferentes. Pode- conviver profundamente com elas ou mos compartilhar gestos, características, histórias e vivências, mas gostamos de seguir é uma questão que somente depende da escolha que pensar que temos singularidades, com as nossas luzes e nossas sombras. Então, faz em um instante. Ainda que você não saiba, ao passar batido ou ao parar com está em jogo de onde nasce esse empenho em homogeneizar as crianças? Da comodidade, a sua existência, e a de quem está ao seu lado. talvez? De nos afastarmos tanto que acabamos vendo tudo plano? Ninguém em SUSANNA TAMARO sã consciência contabiliza uma ou duas crianças diferentes na sala, mas, sim,em cada turma, temos crianças que nos obrigam a refletir muito mais, a nos Nesses casos, costumamos advertir dos riscos das profecias autorrea- conter mais, a nos esforçarmos mais, inclusive, a ficarmos mais desesperadas. lizáveis. Se a nossa visão é pouco encorajadora, pouco promissora, os resul- Quando começamos a trabalhar na educação infantil, ainda não havia tados acabarão sendo pouco encorajadores e pouco promissores. Se esses a obrigação legal de escolarizar crianças com dificuldades graves (cognitivas, índices forem altos e se mostramos a nossa plena confiança, sempre serão psicológicas, sensoriais, motoras). Fomos as primeiras professoras infantis mais elevados do que poderíamos esperar. da Galícia a escolarizar uma criança com paralisia cerebral, quando sequer a É uma questão de atitude. norma contemplava essa possibilidade e quando tinham fechado a porta a ele, Atualmente, rara é a criança sobre a qual não paira a sombra de um sem vergonha nenhuma nem crise de consciência em outras escolas da área. problema: intolerâncias, alergias, saúde mental, asma, obesidade, ansiedade, Desde que isso aconteceu, no ano de 1989, sempre houve crianças em situa- transtornos neuropsiquiátricos são os de maior prevalência, segundo a última ções mais graves ou menos graves. Veja que utilizamos palavras coloquiais Pesquisa Nacional de Saúde. A isso, devemos acrescentar os problemas deriva- para nos referirmos a essas questões, tal qual qualquer pessoa diria, porque, dos de círculos familiares e sociais menos favorecidos e de abuso de dispositivos na escola, apesar de um rótulo mais da moda ser usado de tempos em tempos, eletrônicos. As profissionais da educação devemos ter claro e planejar com as continuam tratando essas crianças como diferentes, mas em linguagem inclu- famílias as estratégias a serem seguidas com cada uma delas. Detectamos, tam- nos últimos anos, uma maior proteção parental, que se traduz em menor siva. Há muito que falar sobre essas questões, muitos clichês e estereótipos a autonomia do menor. E, por último, temos as ondas provocadas por informa- derrubar, muitos preconceitos e desserviços a serem modificados, mas, tam- ções alarmistas. Em turmas passadas, assistimos pais que se perguntavam se os muito "bondadismo" ou muito fatalismo que não favorece os pequenos. seus filhos eram hiperativos, se tinham transtorno de deficit de atenção com Em cada nova turma, há uma, duas ou três crianças diagnosticadas hiperatividade (TDAH) ou transtorno do espectro autista (TEA), se precisavam com alguma patologia; outras duas ou três sobre as que se busca opiniões, de um fonoaudiólogo, se tinham problemas auditivos etc., quando, na realidade, tentando lhes colocar o rótulo adequado e outras que haviam sido rotu- na maioria dos casos, nos encontramos ante crianças sem limites, em todos os ladas de forma errada. A cada dia, há mais diagnósticos, não porque haja sentidos, acostumados a conseguir o que querem ou a ignorar os adultos, ou que mais problemáticas, mas porque há mais conhecimento, e transforma-se são tratados como seres inacabados, falando com elas em uma linguagem ina- a diferença em síndrome. Às vezes, na primeira reunião do ano, quando nos dequada ou não exigindo nada delas. Nesses casos, é quase mais importante o atribuem uma turma e nos advertem acerca de alguma situação concreta, trabalho a ser feito com as famílias do que com as próprias crianças, pois de nada temos que buscar na internet essa patologia, porque foi especificada de tal vale o que fazemos durante cinco horas, se, depois, não tem continuidade no lar. modo que fica impossível antecipar qualquer coisa. Mais tarde, quando É necessário voltar a Malaguzzi, que dizia que, na Pedagogia, há conhecemos as crianças, costumamos ter muitas surpresas: na maioria das risco de subir como em um balão e ver tudo de longe, que leva à genera- vezes, as dificuldades não estavam em quem tinham sido detectadas. lização, algo impossível quando falamos de crianças. Por isso, é necessário Seja como for, é preciso gravar a fogo no olhar que diferentes são observá-las com atenção, como seres únicos, e não fazer comparações com todos, e nosso trabalho consiste em articular as estratégias necessárias para um padrão de normalidade. chegar às crianças e mobilizá-las para o seu crescimento pessoal, levadas N. do E.: Encuesta Nacional de Salud, no original, pesquisa estatística sobre as sempre ao seu limite máximo, não ao mínimo. condições de saúde da população espanhola, como a brasileira PNS. 64 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA VINTE CINCO CORAÇÕES DIFERENTES 656 BOMBEANDO VIDA Nos últimos anos, não deixa de nos surpreender que os cronogramas de atividades das escolas girem mais em torno das celebrações do que de seus A COMUNIDADE significados. Os ritos e os símbolos têm substituído os fatos, usurpando-os de toda a sua razão de ser, restando somente festejos, fantasias e costumes interessadamente fomentados pelo mercado e pela sociedade de consumo. As celebrações de Halloween, as personagens do Natal, os desfiles de Carna- val, as festas da água ou da as de réveillon e as de formatura são as que marcam o ciclo anual do calendário escolar. Tudo isso, supostamente, avalizado pelos conteúdos do currículo educacional, em uma provável lei- tura muito superficial dele. Professoras e pais fantasiados conforme a ocasião, em qualquer momento do ano se justificam dizendo que se procede desse modo para conscientizar as crianças das tradições culturais, para socializar, para abrir a escola às famílias e, sobretudo, para divertir, porque os peque- nos gostam dessas atividades. Tudo depende do modo como concebemos a educação, a escola, a infância, a cultura, o lazer, o papel das famílias e a dos docentes. Uma escola não é um tipo de brinquedoteca, ainda que o lúdico deva estar presente no ensino; uma professora não é uma animadora de festas infantis. A educação tem, entre outras funções, a de melhorar ou A escola deve ser capaz de ler a realidade concreta que rodeia aliviar os males que afetam a sociedade (consumismo, falta de solidariedade, a criança A geografia e a do seu bairro, a história, a da sua FRANCESCO TONUCCI 1 N. do E.: originalmente, festas católicas em celebração a santos, em que água benta era jogada nos romeiros. Transformaram-se em festas populares deirresponsabilidade ecológica, trivialidades etc.). As escolas devem propagar 6.1 ATIVISTAS CULTURAIS VERSUS INFÂNCIA HIPERCULTURALIZADA cultura e valores para a comunidade. As famílias devem assumir a sua parte da corresponsabilidade educacional junto com as escolas, em um fluxo con- Defendemos uma escola que instigue uma dinamização cultural, tínuo de conhecimento e de respeito para as competências de cada um. como foram, em sua época. muitas escolas rurais, nas quais o professor ou Depende de nós modo como somos vistas, o papel da escola na co- a professora (naquele momento, os únicos detentores de cultura) irradia- munidade local e os resultados que são obtidos. Fala-se muito de recuperar vam cultura para a comunidade, e os pequenos eram um tipo de ativistas o prestígio docente, de entender as escolas como células de conhecimento, culturais. Assim, ajudava-se a lembrar, a recuperar, a conhecer e a distribuir de fomentar a cultura do esforço e o prazer pelo aprendizado, mas, talvez, tradições, patrimônio cultural ou conhecimento. não estejamos dando os passos certos. Vivemos eternamente em meio a fes- Apontamos anteriormente que isso requer um grande equilíbrio, tejos mais adequados para outros espaços, cuja finalidade principal é apenas pois, ao mesmo tempo, encontramos na sociedade uma tendência total- o entretenimento ou a diversão, e, neste momento, essa não é a razão de ser mente antagônica à banalização do conhecimento: a hiperculturalização. Na das atualidade, qualquer instituição, agente ou indústria cultural inclui, também, Uma escola deve bombear vida (de qualidade) à comunidade, não a programação infantil, com a pretensão de que as crianças tenham contato pode ser aquela descrita anteriormente nem um gueto, mas um espaço com os seus conteúdos culturais desde muito pequenas. Isso é positivo, mas com portas e janelas abertas, para que entre o an de fora e volte a sair trans- também implica um risco. As crianças são crianças e, basicamente, precisam formado em cultura. Nessa mudança, as famílias, os alunos e a imagem correr, brincar, explorar, descobrir, descansar e, inclusive, ficar entediadas. que a escola projeta são as correntes de transmissão, e, por isso, deve-se Elas não têm os mesmos interesses das pessoas adultas, nem querem que ter o máximo de cuidado com as mensagens. É um trabalho de equili- seu tempo esteja ocupado continuamente por exposições, conversas, con- bristas evitar cair na hiperculturalização, na banalização, na erudição ou certos, lançamentos de livros ou encontros com os escritores. Seus impulsos na folclorização. Adequar a cultura para a infância com base na proximi- não vão nesse sentido, de modo que uma superexposição pode acabar tendo dade, evitando mau gosto, requer uma constante e profunda reflexão os efeitos totalmente opostos. Doses homeopáticas podem ser o impulso pela equipe docente. O fazer por fazer, o fazer por tradição, o deixar-se para posterior interesse ou inclinação. Com passar dos anos, não faltarão levar pela corrente são coisas comuns nas escolas, sob as quais subjazem ocasiões para que cheguem a todos esses espaços e atividades. as crenças educacionais do professorado, e é exatamente esse ponto que é Há quem pense que, como nem todas as crianças têm acesso à cultura em seus lares, é trabalho da escola aproveitar essa oferta cultural. Na nossa preciso questionar. opinião, na aquisição de noções culturais, tem mais efeito um olhar sensível para artístico, um vocabulário rico, uma adequada seleção musical ou lite- rária e o respeito pelo saber por parte dos docentes na cotidianidade da sala de aula, do que todas essas pílulas enriquecidas por meio das quais o seu tempo de infância é roubado, o tempo de serem crianças. 68 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA BOMBEANDO VIDA À COMUNIDADE 696.2 EDUCAÇÃO INFANTIL, UMA ETAPA VITAL (TAMBÉM) Esse bombardeio de métodos, de tratamentos, de especialistas, de gurus e curandeiros pedagógicos modernos não teria tanto prestígio se hou- PARA AS FAMÍLIAS vesse uma postura inequívoca das escolas, mas isso não acontece. Às vezes, entre a equipe docente que intervém com um aluno (professores, especialis- Nós, que dedicamos muito tempo à educação, temos observado, nos tas, equipe de orientação e de direção), não é aceito mesmo critério, e essa últimos anos, uma grande mudança nas famílias dos alunos. O mais notório é a porta de entrada da confusão familiar. são estruturas, origens, culturas e papéis parentais diferentes, seguidos da Assim, vemos que a primeira recomendação é que a equipe escolar ruptura das cadeias de solidariedade intergeracional que ocorriam anterior- tenha uma visão comum sobre as possíveis situações. Desde os primeiros mente (os avôs e os familiares não podem ou não querem apoiar a criação dias de escolarização, durante o período de adaptação, é conveniente que dos pequenos), e, ainda, a invasão de todo tipo de informação quanto ao membros da equipe de direção e de orientação prestem apoio às salas que modo de educar os filhos. Tudo isso insta que, cada vez que acolhemos um acolhem os novos alunos. Esse é momento de detectar casos não diagnos- novo grupo de alunos, temos de fazer um exercício de compreensão para ticados e de descartar temores parentais. Ainda que sejam dias de correria entender por que um menino ou uma menina age como age. Subjacente administrativa, essa prevenção facilitará, por um lado, que cada criança seja a isso, há, pelo menos, duas formas diferentes de abordar os casos mais conhecida por toda a equipe e, por outro, que se possa realizar um consenso complexos, pois, neles, manifestam-se as discrepâncias quanto ao modo de sobre o que foi detectado. É tempo ganho. agir. Diante de birra, doença, dificuldade, síndrome ou transtorno, afloram Outra das ações primordiais é receber as famílias e o(a) aluno(a) an- as crenças educacionais individuais fruto das experiências, bem como ante tes do início das aulas. As rotineiras entrevistas iniciais, que são entregues os interesses e medos pessoais, das influências (leituras, recomendações de por escrito sem filtro daquilo que corresponde com a realidade e do que outras pessoas, opiniões de especialistas etc.), em geral, contrapõem-se aos é considerado correto responder, ganham uma característica mais pessoal e conselhos da equipe docente. E é precisamente a isto que queremos dedicar se transformam em uma conversa mais descontraída sobre que nos diz este item: às ações das escolas quanto à orientação familiar. respeito (a nós e às famílias): menino ou a menina, que também observa, Das escolas, vemos que, cada vez que um menino ou uma menina se brinca, conversa, concedendo-nos uma oportunidade única de observar in- afasta do padrão que a sociedade forjou, as famílias buscam a intervenção terações familiares, regras, jeitos etc. As escolas que realizam essa prática de um especialista, que costuma culpar os docentes e oferecer tratamentos detectam que os alunos manifestam uma melhor predisposição à integração alternativos. Procurar informações na internet faz soar o alarme entre os e para com as suas professoras. Do mesmo modo, as famílias se abrem com progenitores, e eles se entregam a qualquer um que ofereça uma solução maior confiança, pois puderam conhecer a docente. Isso é um grande passo (que, na maioria dos casos, chegaria com a maturidade). A hiperinformação, quanto à adaptação e ao conhecimento mútuo, uma coisa incomparável para a hiperpressão, a hiperproteção transformam a diferença e a diversidade em o qual pode contribuir documento da entrevista inicial. Como profissio- síndrome ou em anomalia. nais, ainda que a conversa tenha um tom informal, já podem ser detectadas 70 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA BOMBEANDO VIDA A COMUNIDADE 71tendências educacionais dos responsáveis, seus temores, suas expectativas, o intuito de mostrar que é feito na aula, os blogs são um tipo de janela suas incoerências e, até mesmo, suas discrepâncias. que permite que as famílias conheçam a orientação didática e que, ainda, te- Colhidas as informações, poucos dias antes do início do ano letivo, nham um exemplo de ações para dar continuidade no lar. É muito frequente é conveniente fazer uma reunião com todas as famílias dos alunos, na qual, que os pais se queixem de que os pequenos não contam nada do que fazem além das orientações pertinentes acerca do funcionamento do grupo, das na escola. Assim, os blogs permitem que a comunicação entre eles seja mais normas da escola ou do estilo de trabalho da docente, aproveite-se, também, fluida. Além disso, podem ser, também, um canal de comunicação para as- para destacar os aspectos a serem ajustados no que diz respeito à educação, suntos gerais que afetem todo o grupo Insistimos sempre que a abertura da detectados em cada uma das entrevistas. A discussão com as famílias e o sala para o exterior facilita que o nosso trabalho tenha uma continuidade e consenso da maioria pode trazer luz aos mais confusos, sem colocá-los em que seja compreendido. Não são poucos os pais que agradecem saber sobre evidência. aquilo que ocupa seu(sua) filho(a) e interessa a ele(a), e sobre as possibilida- As tutorias às famílias também costumam ser ocasiões nas quais estas des que se abrem para compartilhar momentos, com o pretexto de alguma manifestam o seu temor de não saber educar bem. Por isso, é conveniente demanda da aula: recolher folhas, observar pássaros ou as mudanças de adotar uma postura muito profissional, em que a cordialidade e a empatia estação na natureza, para citar alguns exemplos. não se pareçam com uma reunião de parentes ou amigos, nem que seja Entre os recursos para o fluxo de informação escola-família, nos últi- ultrapassado o âmbito que nos compete, entrando na sua privacidade. De mos anos, têm aparecido os grupos de mensagens, como os disponíveis no nós, esperam o conhecimento e a experiência que eles não têm. Assim, a WhatsApp, que contam tanto com defensores quanto com detratores; toda- rigorosidade, algumas regras adequadas, argumentos sólidos para se apoiar via, isso depende apenas do uso feito. Se a finalidade é permitir que todos ou para se opor a algo e uma postura firme são valores em alta. Nas tutorias, estejam informados, evitando circunstâncias que possam fazer surgir cen- é comum que as famílias, ante um problema, perguntem se devem procurar suras, é claro que podem ser de utilidade. Qualquer meio bilhetes, SMS, um especialista em Psicologia ou em Pedagogia, ainda que, na maioria das e-mails que permita a comunicação clara e imediata entre a professora e vezes, seria desnecessário que eles exercessem ativamente o seu papel. Por os pais evitará mal-entendidos ou interpretações equivocadas, e facilitará, esse motivo, justifica-se que a nossa resposta seja mostrar que, na grade cur- ainda, o entendimento da situação. ricular de um professor ou de uma professora, incluem-se essas disciplinas e A etapa da educação infantil talvez seja a fase na qual as famílias têm que sabemos conduzi-las na prática. A coerência deve ser evidente em todas mais vontade de realizar a sua contribuição para as aulas, seja presencial- as nossas manifestações profissionais. mente (contando histórias, falando de si mesmos, das suas profissões, mos- Na busca da integração entre família e escola, não se minimiza a fun- trando suas habilidades ou seus interesses), seja de modo não presencial ção que prestam os diários ou blogs de aula, desde que sejam utilizados (enviando invenções, fotografias, fornecendo informações etc.); isso sempre como documentação dos processos educacionais, e não como meras vitrines fica a cargo da sensatez e do estilo da docente. Somente cabe advertir que sociais. Sem a intenção de justificar o trabalho profissional, mas, sim, com se deve evitar que as famílias sejam tão somente um recurso, como mão de 72 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA BOMBEANDO VIDA COMUNIDADE 73obra (fantasias, decorações, festas), ou que a sua passagem pela sala de aula da escola. As bibliotecas para famílias estão tendo uma grande aceitação, seja um tipo de maratona ou de competição. As crianças gostam de ver seus porque os pais tratar-se de uma garantia um livro escolhido pela pais na escola em certas ocasiões, especialmente quando eles podem trazer equipe docente entre as centenas que se podem encontrar nas prateleiras de conhecimentos interessantes para o assunto que estão trabalhando. Mais do uma livraria. que estabelecer um calendário de visitas, aconselhamos adverti-los de que De todas as possibilidades que temos apontado de participação das a sala está aberta a quem possa fornecer conhecimento ou ajuda em deter- famílias e de orientação a estas, não devemos esquecer as já institucionali- minado momento. Os pais e as mães, além do aspecto familiar, são pessoas zadas nos órgãos de participação: Conselho Escolar e a AMPA, não menos com profissões, saberes e gostos que podem contribuir muito para a turma, importantes, bastante representativas, isso, sim. Não obstante, temos nos não tanto por serem especialistas em uma determinada área, e sim pelo seu centrado mais nas iniciativas que permitem o contato direto família-escola. componente afetivo. Felizmente, nós, os profissionais da educação, ainda temos suficiente No nosso entender, a única coisa que se deve evitar é que a participa- crédito para nos tornarmos orientadores ou fontes de consulta de primeira ção familiar se reduza à assistência aos atos folclórico-festivos que ocorrem Se soubermos agir, talvez, mais tarde, não teremos motivos para nos em algumas escolas, pois corremos risco de que a escola e a docência queixar de que vamos por caminhos diferentes. Independentemente do es- sejam vistas apenas nessa vertente lúdica. Defendemos uma escola aberta às tilo de parentalidade de cada família, a escola deve ser uma referência por famílias, mas é preferível que participem de outras interessantes iniciativas coerência, por profissionalidade, por conhecimento e por interesse pelas realizadas em algumas escolas, como é caso das escolas de mães e pais crianças, fornecendo argumentos sólidos do porquê se age como se age. ou das bibliotecas de famílias, sobretudo se o nosso empenho é ajudar os A etapa da educação infantil pode ser um marco importante nas vi- progenitores na sua tarefa e que haja corresponsabilidade na educação dos vências familiares, o momento de maiores predisposição e compromisso dos seus filhos. Apesar de ter havido um tempo em que as escolas de mães e pais pais com a escola. Assim, depende sobremaneira das dinâmicas estabele- estiveram em perigo de extinção, hoje em dia, voltaram ao mapa, pela inicia- cidas nas escolas. Isso posto, se nós, como especialistas em educação, não tiva da instituição educacional, da da Prefeitura ou de associações. colaboramos com eles na sua tarefa de criação, não podemos pretender que É paradoxal que, em um momento em que há tal superabundância de infor- eles façam conosco. mação sobre criação, sejam necessários, mais do que nunca, esses pequenos grupos nos quais compartilhar temores, angústias e experiência parental. Destacam-se, também, iniciativas que permitem às famílias fazer emprés- timos de livros selecionados de acordo com critérios do estilo educacional do Asociación de Madres y Padres de Alumnos, um tipo de APM (Associação do E.: afirmação que não se aplica, necessariamente, aos profissionais da edu- de Pais e Mestres), mas funciona como uma entidade privada. cação no contexto brasileiro. 74 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA BOMBEANDO VIDA À COMUNIDADE 75É impossível olhar sem avaliar, entendido como estabelecer um valor, fazer um balanço, conhecer a situação. Assim, reduzir a avaliação ao final COM 0 ESTETOSCÓPIO de cada trimestre é um erro logo de partida. Desde o primeiro minuto, es- tamos avaliando os pequenos. A chave está em discernir para que fazemos NA ORELHA: A AVALIAÇÃO isso: para conhecê-los, para saber o que conhecem ou o que ainda precisam conhecer? O modo como se posicionam já determina o tipo de avaliação que farão. É muito provável que escolham a segunda opção; seria o lógico, após o próprio histórico acadêmico de cada um. Temos levado a ferro e a fogo o aprovado/reprovado, alcançou/não alcançou, sabe/não sabe, e é muito difícil romper com esses hábitos. Nas próprias faculdades de educação, nas quais são preparados os futuros professores, entre os temas tratados, está a ava- liação, e são utilizados sistemas de notas que não são fiéis a essas teorias. Avaliar é igual a atribuir valor; essa é a "troca de chip" de que precisa- mos. A luta contra o outro modo de ver a avaliação é um exercício contínuo, já que tendemos a comparar, a padronizar, a descartar ou a aprovar. Temos gostado de estabelecer um paralelismo com o um dis- positivo acústico que permite ouvir com clareza ruídos cardíacos ou respiratórios em um processo unidirecional, em que os sons são amplificados e passam por um tubo flexível, que acaba somente nas orelhas de quem Não há ou- tras interferências nem distorções: avalia-se apenas quem está sendo observado. As posições nas quais o instrumento é colocado sobre o corpo de quem se de- seja auscultar (por meio dos componentes diafragma ou campânula) permitem É realizar uma boa ação, mas não é fácil captar tanto sons de baixa quanto de alta frequência. É um ato de total con- adquirir o hábito de realizar tais ações. centração entre o auscultado e o auscultador, no qual, independentemente de ARISTÓTELES quem o acompanha, somente se escuta o ritmo cardíaco de uma pessoa e da suaadequação conforme o seu físico e o seu estilo de vida. Isso significa estar sem- têm em Pessoas que ajudam a aflorar, profissionais que, com as suas pre com o nas orelhas, colher informação, a fim de poder fornecer avaliações, podem inclinar para o viés positivo as visões da família, dos co- o tratamento adequado, não para pendurar uma etiqueta com o diagnóstico. legas, das outras docentes ou do próprio aluno sobre si mesmo. O olhar Contudo, as normas nos obrigam a que, no final de cada entre- esperançoso de uma professora pode ser determinante para o futuro de um guemos um boletim informativo às famílias dos alunos, e essa é uma das tarefas menino ou de uma menina. Se estivéssemos conscientes disso, talvez não que mais produzem inquietação na docência, pelo temor de que uma avaliação perderíamos tanto tempo formulando questões, aprendendo a elaborar cri- malfeita possa criar expectativas incorretas ou negativas em relação às crianças. Se térios de avaliação ou buscando como medir os domínios de competência. olharmos para trás, aos nossos primeiros anos na escola, observamos que temos Quando falamos do ofício de professor, há outra comparação da qual passado por vários modelos de boletins informativos às famílias e nunca encon- gostamos, a de luthier: esse profissional que produz, conserta ou afina ins- tramos um que tenha conseguido ser um espelho do que vemos nos pequenos. trumentos musicais, que realiza o processo do início ao fim, conhecendo, Temos a certeza de que não somos as únicas docentes com as quais isso escutando, escolhendo os materiais e encaixando as peças ao longo de horas ocorre. Na verdade, talvez seja um dos aspectos da didática da educação a que e horas de trabalho, até que consegue tirar os melhores sons. são dedicados mais estudos e pesquisas, mas a maioria deles se centra nas téc- De qualquer forma, ainda com o na orelha, com o olhar nicas e nos instrumentos, sempre na busca do mais confiável, acreditando que aquilatador ou com a sensibilidade de um luthier, deixamos de fora um avaliar alunos é como analisar o cumprimento de certos parâmetros, como importante aspecto da avaliação: a que o indivíduo faz de si mesmo, cons- se pode fazer com uma máquina ou um mecanismo. E, nisso, reside outro truída com a sua percepção e com as opiniões dos demais sobre ele, e essa erro comum: as pessoas têm facetas, têm momentos, têm diferentes respostas é mais importante do que a que nós possamos colocar em um boletim. Por em virtude de inúmeras variáveis. Os avaliadores, inclusive. Desse modo, um isso, devemos nos esforçar para fazer as crianças verem as suas conquistas, mesmo instrumento pode apresentar resultados diferentes em dias diferentes os passos que vão avançando, e expressar-se diante dos demais, ao mesmo ou em mãos de outros avaliadores, por mais preparados que estejam. tempo, pedindo que deem suas opiniões sobre o sucesso dos colegas. Com Na avaliação, influenciam mais as concepções do professorado sobre a isso, não queremos dizer que seja preciso aplaudir cada ato, por menor que educação e a infância do que os instrumentos empregados. Essa afirmação é seja, mas, sim, destacar os que tiveram uma verdadeira escalada do nível em corroborada pelos acalorados debates que podem surgir nas comissões que estavam. Por esse motivo, há uma condição absolutamente necessária de avaliação quando é a vez de alunos divergentes do padrão comum que na profissão: os verdadeiros professores são, sem sombra de dúvidas, boas alguns docentes forjam em seu imaginário. pessoas com seus altos e baixos, não super-heróis, mas seres que confiam E é aí que se conhece um professor ou uma professora. Obviamente, na bondade humana; somente assim, são capazes de valorizá-la. não estamos querendo dizer que o desejável seja um profissional autocom- E como são formados esses profissionais? A resposta, todos vocês já sabem: placente. Sem dúvidas, falamos de pessoas com a capacidade de se mara- esforçando-se dia a dia, avaliando a sua práxis e a sua relação com demais, e vilhar ante o sucesso diário e as conquistas cotidianas dos seus alunos. E propondo-se novos objetivos para deixar de lado a mediocridade e isso também se nota, é Costumamos denominá-los "professores do E.: vale lembrar que, na sua acepção básica, a palavra "aquilatador" diz res- cujo olhar intui o valor potencial do material precioso que peito a quem determina o quilate de uma liga metálica, daí ser usada figuradamente do E.: observação que não corresponde à prática adotada no Brasil. para referir-se a quem atribui valor a algo ou a alguém. 78 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA COM 0 ESTETOSCÓPIO NA A AVALIAÇÃO 79DA EDUCAÇÃO INFANTIL Por mais felizes e atentos que vivamos nos três anos da educação perto do final do último ano começa a pesar sobre as famílias uma AO ENSINO FUNDAMENTAL grande preocupação: que as crianças estejam preparadas para o ensino fun- damental. Entendendo-se preparadas como: que saibam ler, escrever em pauta com letra cursiva e fazer somas e subtrações simples. De onde saiu SEM PONTE DE SAFENA essa prova do não se sabe, desconhece-se a fonte que a menciona, mas está totalmente instaurada no subconsciente familiar coletivo, de modo que todo o trabalho feito com os seus filhos fica sem sentido se não conse- guem alcançar o que se espera deles no ensino fundamental. Assim há fa- mílias que, no modo "ponte de safena caseira", começam a prepará-los para passar no novo exame final da educação infantil. Não deixa de nos surpreender os professores que dizem aplicar nos recém-chegados ao ensino fundamental uma avaliação inicial que não tem outra intenção senão descobrir quem sabe: ler; reproduzir caligrafias ca- prichadas; somar; subtrair; os meses do ano; e ordenar uma sequência de do E.: no contexto educacional espanhol. do E. expressão popular na Espanha, originalmente utilizada em uma propa- ganda de determinado detergente (1984), na qual um mordomo passava um pedaço de algodão sobre uns azulejos que, pouco tempo antes, haviam sido limpos com outro produto, a fim de demonstrar que continuavam sujos, ao contrário do que O que a lagarta chama de fim, restante acontecia ao se utilizar o detergente anunciado. A frase passou a ser usada nos mais do mundo chama diversos âmbitos para designar um critério de avaliação [a "prova do con- LAO Tzu siderado como infalível.seis itens. E, com base nisso, são estabelecidos subgrupos, aos quais será como juízes em uma ação que não tem fundamento. O que dizemos se sus- necessário atribuir mais tarefas, ou menos tarefas, para colocá-los em dia. tenta em duas razões: Isso só pode ser admitido no caso de um professor do primeiro ano do en- A primordial, por questões evolutivas: nem todas as crianças estão sino fundamental que tenha seis ou oito livros como material de trabalho e prontas para ler ou para escrever, nem faz falta a elas. É excepcio- presuma que todas as crianças serão capazes de compreender que esses nal que em cada turma haja alguns poucos que já leiam desde os livros lhes pedem que façam. É inaceitável que um profissional da educação três ou quatro anos, não o contrário. desconheça que corresponde ao currículo da educação infantil e ao do A legal: a etapa da educação infantil ainda é, por lei, um perío- ensino fundamental, que cabe aos professores de cada uma dessas etapas e do educacional voluntário para as famílias, de modo que, se uma o que se espera dos alunos no momento da entrada em ambas. É condenável criança não foi escolarizada, quando chegar ao ensino fundamen- que uma pessoa que se dedica ao ensino culpe seu antecessor pelo fato de tal, não poderá lhe ser exigido nada que a coloque em desvanta- que as crianças desconheçam a nova etapa. É, censurável que alarme gem em relação aos seus colegas. as famílias, atentando contra o prestígio profissional de quem lhe precedeu. Batemos a tecla nessa questão, porque é algo bastante habitual na nossa área. Não iremos ceder para evitar críticas, para que, assim, possam es- Sem dúvida, na nossa profissão, também proliferam os que pretendem ter trear o seu lote de livros novos. Ensinar a ler, a escrever e a fazer operações mérito desvalorizando o trabalho dos demais. Mesmo sendo fácil demons- aritméticas simples está no currículo do ensino fundamental, não no nosso. trar a própria valia com as ações e o trabalho diários. Acreditamos que este é o momento de dizê-lo taxativamente. Fazemos uma Cada qual com seu igual. A nós, cabe conseguir que crianças muito tarefa no mínimo tão importante quanto a de qualquer docente do nível pequenas, algumas quase bebês, consigam falar; expressar-se; compreender; educacional que for; o fato de estarmos no degrau mais baixo não nos torna escutar; adquirir hábitos de higiene, de saúde, de alimentação e sociais; des- inferiores nem servidoras dos outros. cobrir o mundo que os rodeia, as pessoas, o seu núcleo familiar e social; um E, por último, lembrem-se: o que as crianças conseguirão nos primei- ótimo desenvolvimento físico e motor; uma imagem de si mesmos que cor- ros meses não será mais do que fruto do que semeamos na educação infantil. responda à realidade; aprender a compartilhar, a brincar, a ceder, a ganhar e Nós conseguimos que a lagarta se transforme em borboleta, o que não a perder, a falar e a calar, a reconhecer, a manifestar e a controlar os seus es- é pouco. tados emocionais, a ser e a estar, e todos sabemos que essa tarefa não é fácil. Perto do final de ciclo, vemos o que conseguimos e achamos Percebemos o feito somente quando, depois de dois meses, após o verão, voltamos a acolher novos pequenos. Desse modo, não devemos permitir que ninguém diga que o nosso trabalho foi desastroso ou incompleto, erigindo-se 82 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA DA EDUCAÇÃO INFANTIL AO ENSINO FUNDAMENTAL SEM PONTE DE SAFENA 830 QUE FAZ 0 Pensem cuidadosamente: o que faz pulsar o coração de qualquer pes- soa, de qualquer país, etnia, sexo ou idade? Talvez, falar de nós mesmos, CORAÇÃO PULSAR? dos nossos gostos, interesses, história pessoal, ocupações, hobbies, compro- missos, leituras ou vivências? Será porque, quando estamos nos descrevendo, podemos nos compreender e entender? Mas sabemos nos retratar bem? Quem nos ajuda a nos conhecer e a nos interpretar? Acreditamos que a educação infantil é o momento e espaço apro- priados para iniciarmos essa tarefa, que não acaba nunca, sempre está mudando e recriando-se. Pode ser que o primeiro passo da educação seja ensinar a se conhecer a si mesmos, já que, quando nos conhecemos, é mais fácil compreendermos os demais. Lembram aquele objetivo que falava de ajudar as crianças a construir uma autoimagem positiva? Agora, pensem de novo: quanto tempo dedica- mos na aula a que os pequenos conheçam a si mesmos? E como o projeto educacional/a proposta pedagógica da escola contempla a responsabilidade de que as crianças edifiquem uma boa imagem de si próprias? Dedicamos nossas horas letivas a que descubram uma infinidade de aspectos sobre mundo, sobre personagens (reais ou fictícios), sobre animais, sobre artes e tradições culturais - aos quais voltarão reiteradamente ao longo de todo Não se preocupem com as lições nem com os livros: o ciclo acadêmico mas não ensinamos a elas a se reconhecerem como ensinem as crianças a viver. ROSA SENSAT seres únicos, diferentes, singulares e com uma história Como agravante de que, se não fizermos na educação infantil, é provável que, O verdadeiro eixo deve ser o conhecimento de si mesmos e dos demais, do mais tarde, não seja dedicado tempo a isso. Já sabem: a pressão das discipli- lugar que habitam e do que ocorre nele. nas, a extensão do currículo etc. Assim, nesta obra, decidimos recolher nossas experiências de vida O conhecido, muito citado e pouco executado relatório de Delors, de organizadas com títulos que fazem referência ao conhecimento de si pró- 1996, estabelecia quatro pilares para a educação do século XXI: prio de diferentes facetas: como indivíduos, como pessoas, como familiares, como cidadãos, como consumidores ou como ativistas culturais, ambientais Aprender a conhecer, para compreender mundo que as rodeia: e sociais. aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pen- Fizemos a organização em dez blocos: samento. "Da infância, principalmente nas sociedades dominadas pelas imagens televisivas, o jovem deve aprender a concentrar a I. Quem? Como sou? Do que eu gosto? sua atenção nas coisas e nas pessoas". II. O que faço (em família)? Aprender a fazer. "É concebível que, nas sociedades ultramodernas III. Do que eu cuido? do futuro, a deficiente interação entre os indivíduos possa pro- IV. O que acontece comigo? vocar graves disfunções, cuja superação exija novas qualificações, V. O que eu como? baseadas mais no comportamento do que na bagagem intelectual". VI. De quem eu gosto? Aprender a viver juntos, aprender a viver com os demais, "o que VII. O que acontece ao meu redor? O que festejo? constitui uma das principais tarefas da educação contemporânea, VIII. O que me move? que deve se dar em dois níveis: pela descoberta gradual do outro IX. Com o que contribuo? e pela participação em projetos comuns ao longo de toda a vida, X. De onde venho? Para onde tendendo para objetivos comunitários". São perguntas básicas, elementares, mas não simples; no entanto, são Aprender a ser. "Desde a sua primeira reunião, a comissão afir- as que se faz qualquer pessoa adulta quando quer se explicar ante si mesma mou enfaticamente um princípio fundamental: a educação deve ou diante dos demais. O surpreendente é que estejam apagadas dos cur- contribuir para o desenvolvimento global de cada pessoa, de seu rículos. Poderiam se reduzir ou se multiplicar, mas temos nos encantado corpo e de sua mente, de sua inteligência e de sua sensibilidade, por essas, que nos permitem acompanhá-las de sequências didáticas (pulsa- de seu senso estético, de sua responsabilidade individual, de sua ções) de maior ou menor intensidade. Convém antecipar que a sua apresen- espiritualidade". tação não seguiu a ordem de realização. Surgiram em diferentes momentos Por isso, o fio condutor da didática na educação infantil não pode ser do ano ou do ciclo, já que nunca abordamos nenhum tema monografica- nem a arte, nem a música, nem a literatura, nem as emoções, nem as áreas mente. Aqui, não obstante, agrupamos as experiências, a fim de facilitar de conhecimento, nem as competências, nem a matemática nem a língua. seu acompanhamento. 86 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA 0 QUE FAZ 0 CORAÇÃO PULSAR? 879.1 0 RITMO AS BATIDAS DESCOMPASSADAS 14. Soltar a língua. 15. Escutar a experiência. PELOS/COM FIOS DA INFÂNCIA 16. Desvendar mistérios. 17. Sair para a vida real. A clareza das perguntas fica complexa pela abordagem com crianças 18. Ser gente pequena. tão pequenas, pois não pode se limitar ao método dialético ou deliberativo, 19. Manifestar gratidão. como é feito, por exemplo, com adolescentes. Fica, também, descartada a 20. Deixar marcas. possibilidade de fazê-lo por meio de fichas de atividades padronizadas, pela Neste novo trabalho, continuamos mantendo essas constantes: os fios escassa ou nula na realização do objetivo. Desse modo, aproveita- mos as ocasiões que surgem na vida cotidiana para construir a autoimagem que alinham ou marcam o compasso das pulsações. Para nós, se fosse pos- (positiva) de cada menino e menina. Nesses momentos, depositamos toda a sível recolher em um cardiograma ritmo cardíaco de uma sala de aula, as nossa confiança didática, pois na simplicidade, no que ocorre no dia a dia, batidas estariam ligadas pelos fios ou constantes. Os fios são um tipo de no que nos cerca, no que toca o nosso coração é onde estão esses aprendiza- trama que sustentará cada uma das experiências (pulsações) que relataremos dos, que nos acompanharão ao longo da nossa vida. nas próximas páginas. Em algumas, aflorarão certos fios, e, em outras, serão Em Os fios da infância, sustentamos que há vinte constantes que usadas meadas diferentes, mas sempre haverá com essa concepção global, devem estar presentes em todo o processo educacional com pequenos, de holística, na qual tudo está relacionado com tudo. modo a facilitar as coisas para eles: O emocional, o humano, o natural, o cultural, o social giram ao redor da pessoa, construindo-a, arquitetando-a, ajudando a fazer crescer o indiví- 1. Estar consciente das suas conquistas e de seu crescimento. duo e o cidadão. 2. Guardar lindas recordações. Nesta classe, haverá momentos 3. Cravar os pés na terra. de grande frequência cardíaca, outros de 4. Admirar(-se com) a beleza cotidiana. mais baixa, pulsações encadeadas, quase 5. Dialogar com a arte. taquicardias, e alguns de altíssima inten- 6. Projetar-se na comunidade. sidade, mas, felizmente, nenhum de car- 7. "Abrir a boca" e saborear a vida. diograma plano. 8. Destampar nariz. 9. Escutar com o coração. Meçam o seu pulso das batidas e 10. Pensar com a pele. lembrem-se de que... 11. Medir o pulso do tempo. As escolas seguem as crianças, 12. Contar histórias da vida. não os cronogramas. 13. Brincar de ser (outros). LORIS MALAGUZZI 88 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA 0 QUE FAZ 0 CORAÇÃO PULSAR? 89As PULSAÇÕES I. QUEM SOU? COMO SOU? QUE GOSTO? O que um homem pensa de si mesmo, é isso que determina, ou, melhor, indica, seu HENRY DAVID THOREAU Neste primeiro bloco, quase fundacional, recolheremos pulsações que contribuem para que cada menina e menino comece a se reconhecer como um ser único. Algo de que gostamos é que, a partir do primeiro momento na escola 3-6, as crianças começam a construir a sua história, e nós as ensinamos a filtrarem o que é relevante e a guardar esses marcos do seu desenvolvimento futuro Contudo, também queremos que reconstruam a sua história passada. Foi extensamente estudado o momento a partir do qual as crianças são capazes de ter lembranças e se muitas dessas ocasiões são induzidas pelo que as pessoas adultas contam. Hoje, é relativamente viável retrocedermos ao momento do seu nascimento e, inclusive, a ocasiões anteriores. Quase todas as famílias guardam documentos gráficos (fotografias, vídeos, ultrassonografias...) e detalhes que os fazem saber de si mesmos, da sua história passada. Há muitas coisas que podem ajudar a criar a sua história pregressa; aqui, mostraremos alguns exemplos. To- davia, antes de começar, façam um teste: quantos adultos sabem qual foi a sua primeira palavra, por que lhe deram esse nome, quem lhe deu seu primeiro beijo, o que aconteceu no dia em que nasceram, ou como eram chamados ca- rinhosamente pela sua família? Imaginem as possibilidades que estão surgindo.QUEM FALA DE MIM? { autoimagem, aniversários, celebrações, história pessoal, autoconhecimento, família, singularidade, diversidade. Os aniversários são datas marcantes na vida de quase todas as pes- soas, principalmente na infância. Espera-se com ansiedade, contam-se os dias, até que, finalmente, chegam. Defendemos sempre que a celebração na aula tem que ser totalmente diferente de qualquer outra que façam tanto em Momento da narração pessoal das lembranças de bebê: as marcas de mãos e pés em família quanto com os amigos, do mesmo modo que é preciso que seja no gesso, os primeiros sapatinhos e a comparação com os atuais, as mamadeiras, as mesmo dia ou em dias o mais próximos possível da data, se esta coincidir chupetas, O primeiro corte de cabelo ou a roupinha com que saiu da maternidade. com final de semana ou em períodos não letivos. Para nós, celebrar os aniversários todos juntos no final do mês ou do trimestre seria uma falta de No dia indicado, podem comparecer à aula um dos progenitores, ou atenção a cada um dos aniversariantes. Que seja um dia especial não pode ambos, para nos contar coisas sobre a sua filha ou seu filho. Por um breve ser um impedimento para que sejam deixados de lado todos os valores que período já que estamos falando de crianças pequenas, pois algumas estão trabalhamos ao longo do ano: o consumo responsável, a igualdade e o res- completando 3 anos falarão dos seus filhos, trazendo elementos de que peito ao meio ambiente devem ser mantidos. Há métodos simples, carrega- gostam: fotografias, vídeos, ultrassonografias, moldes em gesso, pijamas, dos de afetividade e de sentido que rompem com o estilo mais em voga na pantufas etc. Isso formará um despretensioso perfil da criança, no qual esta- sociedade de consumo. Na primeira reunião com as famílias de uma nova rão reunidos gostos, histórias e singularidades. turma, é conveniente expor os motivos que nos levam a buscar alternativas Para o aniversariante, estar acompanhado de seus pais, sentir-se o às celebrações e argumentar as razões pelas quais o fazemos dessa maneira, autêntico protagonista do relato, presentear os seus amigos com algo de que sempre são bem acolhidas, garantindo a colaboração. elaboração própria doces, frutas ou algum objeto (pedras, conchas, folhas, Com a turma atual, chegamos ao consenso de como transformar o flores) rompe com a dinâmica habitual: não é ele/ela quem recebe pre- aniversário de 3 ou 4 anos em um dia inesquecível, contando com o envol- sentes, mas quem presenteia simbolicamente aqueles que o acompanham, vimento das famílias, ao mesmo tempo que contribuímos para o objetivo de agradecendo o fato de festejarem consigo. que conheçam a si mesmos. Como lembrança, que ficará em um lugar visível da sala já destinado para tal finalidade, cada família elaborará, em uma cartolina, um mural, tipo in- fográfico, com fotografias instantâneas que ilustrem que nos contaram sobre 92 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA As PULSAÇÕES 93seu filho ou sua filha. Optamos por um a fim de que seja mais A GALERIA DE RETRATOS fácil estabelecer uma comparação. Uma cartolina, dividida em quatro partes, que vão de 0 a 4 anos, permite recolher imagens de cada uma dessas faixas etárias. Esse material deve ficar na altura das crianças, para que, a qualquer { autoconhecimento, autoimagem positiva, representação momento, possam in vê-lo ou explicá-lo a outras pessoas. Começam, assim, a artística, arte, aniversários. narrar a sua própria história, algo que farão e recriarão ao longo de sua vida. A segunda parte da celebração dos aniversários de cada criança é reali- zada na sala, com a nossa ajuda: trata-se de um retrato especial. Com um gru- po de três anos, é bastante frustrante pedir que se desenhem e insistir em que se identifiquem com os traços. Com isso, não estamos descartando que sejam feitos mas, se a nossa intenção é que se devemos utili- zar outra estratégia. Nesse caso, como já tínhamos feito com a turma anterior, no temos uma galeria de telas em branco sobre as quais colamos uma fotografia de cada menina ou menino com uma anotação: "Retrato encomendado para / / No dia anterior aos seus aniversários, tiramos uma fotografia de frente; depois, tratamos essa foto com um aplicativo que, com diferentes fil- tros, permite transformar uma imagem em uma pintura que se assemelha a obras icônicas da arte moderna. Nesse caso, é o aniversariante quem escolhe ANTON o acabamento. Acreditamos que, no dia que completarmos os 25 retratos, teremos uma galeria de MARTA arte digna dos melho- res museus do mundo. Posteriormente, voltaremos a falar acer- ca do retrato, para que tanto os colegas quanto próprio interessado opinem se é um reflexo Torná-los conscientes da sua imagem. que fiel do retratado. seus requer a existência de espelhos de todos os tamanhos, que, inclusive, permitam uma brincadeira dramática consigo mesmos. 94 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA As PULSAÇÕES 95MINHA PRIMEIRA PALAVRA No dia seguinte, a sala era um aglomerado de satisfação: todos tinham descoberto qual tinha sido a sua primeira palavra e mostravam as suas fotos pessoais com poucos meses. Decidimos in anotando quais eram essas pa- história pessoal, singularidade, linguagem oral, família, estatística. lavras e, ao ver que se repetiam com frequência, colocá-las em um gráfico de barras para ver, em um golpe de vista, qual tinha sido a mais incidente Após a leitura do livro A primeira palavra de Mara, de Ángel Do- naquele grupo. A representação gráfica dos resultados será uma constante mingo, perguntamos se sabiam qual havia sido a primeira palavra que pro- em muitas das posteriores experiências que apresentaremos. Insistimos em nunciaram. Apenas uma menina sabia, mas nos pareceu que era uma dessas assim porque o nosso trabalho alfabetizador envolve inclusive gráfi- lembranças para guardar na memória, pela sua importância. Na história, cos e esquemas, tão habituais nos textos escritos. a família paterna repetia até a exaustão "papai"; a materna, mas Mara era meio rebelde e disse essa foi a sua primeira palavra. A MINA PALABRA Assim, todos intrigados, levaram para casa a tarefa de perguntar aos seus pais qual tinha sido a primeira palavra que pronunciaram. Dissemos 5 às crianças que era algo que todos os pais e as mães lembravam. Então, 3 3 3 confiantes, marcharam com a missão. Além disso, deveriam trazer uma fo- 2 2 2 1 1 1 1 1 MAMA NO PAPA tografia de quando tinham cerca de 6-12 meses, que é quando começam MAMA uu AYA PAPA normalmente a balbuciar e a repetir onomatopeias. Sobre isso, todos tinham NO ROCKY algo a dizer, sobre irmãos menores ou bebês de conhecidos. Representação gráfica de resultados: "não" e são. nessa ordem, as palavras mais Mais tarde, uma menina propôs realizar uma montagem com todas as fotos e colocar em cada uma delas um balão como os das histórias em quadrinhos, contendo escrita a primeira palavra falada por eles. Outra me- nina sugeriu fazer versos com o nome e a sua primeira palavra. Um colega delas quis uma pedra com a palavra para guardar na caixa das lembranças. Fizemos tudo. Como somos donos do nosso tempo, podemos nos dedicar Momentos de compartilhamento de histórias pessoais e os bilhetes com a primeira ao que quisermos. Nada nos impede. palavra [1. Água; 2. 3. do E.: no original, La primera palabra de Mara. Publicado no Brasil pela Jujuba Editora e, na Espanha, pela Narval. Ilustrações de Miguel Tanco. 96 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA As PULSAÇÕES 97MEU PRIMEIRO BEIJO { PALAVRAS-CHAVE: história pessoal, singularidade, autoconhecimento, sentimentos, família, símbolos, estatística. Em nosso empenho em ajudar os pequenos, sempre aparecem oca- siões propícias a reconstruir a sua história pregressa e a recriar esses mo- mentos que não ficam marcados nem nas fotografias nem nos vídeos, mas que dizem muito a respeito deles. Assim, após a leitura de O primeiro de Guido van Genechten, tentamos averiguar quem lhes deu o seu primeiro beijo e a hora em que nasceram. Como sempre, a colaboração das famílias nas nossas brincadeiras é A coleta de dados permitiu que fizéssemos estatísticas sobre o ho- rário de nascimento e de quem lhes deu o primeiro beijo, bem como de trabalhar com os símbolos universais para representar homens e mulheres, nesse caso, papai ou mamãe. As crianças reconhecem esses símbolos por serem comuns em banheiros e vestiários. Compartilhamos com os leitores uma curiosidade: aproveitem para perguntar aos pequenos a razão de es- ses símbolos serem representados desse modo Será surpreendente como discordam pouco nas suas explicações das hipóteses que surgem acerca da adoção dessas convenções. MAMA PAPA 17 8 "Pela "no e "as mamães" éo que mais se repete em cada história de vida. 2 N. do E.: no original, El primer beso, publicado pela 98 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA As PULSAÇÕES0 PRÓPRIO NOME PRÓPRIO fotocópia, preferimos que seja manuscrita. Com grafias convencionais ou não, os bilhetes serão escritos por eles, ainda que, depois, fotografemos um que esteja legível para colocar no blog, e, assim, os pais possam compreen- { PALAVRAS-CHAVE: história pessoal, autoconhecimento, singularidade, família, der o sentido total do texto. nomes, estatística. Explique sucintamente por que escolheu me chamar de... Em uma visita à sala da nossa colega e amiga Luisa, vimos uma tarefa Tarefa para o papai ou a que ela havia proposto aos seus alunos: perguntar aos pais por que tinham escolhido aquele nome para eles. Gostamos da atividade, porque trabalha PAPA MAMA bastante sobre língua escrita acerca do nome próprio, mas, na realidade, não sabemos nada dos motivos pelos quais temos o nome que nos identifica, Porque minha mamãe sempre Le NOMBRE gostou do nome Carmen e diferencia, apresenta e singulariza. Cada escolha envolve um relato que os porque a (a mamãe pequenos devem conhecer, pois os ajuda a construir a sua história pessoal. SE da mamãe) se chama Mari Assim, fizemos a mesma pergunta na nossa sala, e ninguém sabia o de seu nome. Desse modo, adotamos a ideia e foi preparado um bilhete para as famílias, pedindo que relatassem os motivos da sua escolha. Queremos apontar que, como qualquer pessoa que utiliza a lingua- gem escrita para se comunicar, em certas ocasiões, é necessário recorrer à cópia, procurando que todos transmitam a mesma mensagem. Do mesmo LEGUSTAMUCH Eu me chamo Raúl porque meu modo como se chega a um consenso sobre o texto, escolhe-se a apresen- DE pai gosta muito de um jogador tação, o formato, e até a forma de dobrar o bilhete também é um trabalho de futebol que tem esse nome, Raul Gonzalez prévio que sempre é realizado. Não gostamos de utilizar fotocópias para os Os bilhetes respondidos pelas famílias, nos quais consta a razão da escolha do nome bilhetes que enviamos às casas. Diante de qualquer informação a transmitir, do(a) seu(ua) filho(a). nós a redigimos em sala: é escrita pela professora (não há outro modo de se mostrar como escritor) e, depois, tentam fazê-lo eles mesmos. Há várias No dia seguinte, tudo era novidade. Já tinham descoberto que, em partes, nós as contamos e buscamos o modo de dividir a folha por meio de alguns casos, tinham o nome de um familiar, de um antepassado, de um jo- dobraduras que, depois, são destacadas com lápis. Ajudá-los a organizar gador de futebol, ou que a escolha se devia a motivos como: que fosse curto, espaço gráfico é uma coisa que também faremos, quando se tratar de fazer que não tivesse diminutivos, que levasse a letra "u", ou porque seus irmãos um desenho. Se, em virtude da extensão do texto, for necessário recorrer à é que tinham escolhido nome em uma lista. 100 0 PULSAR DO COTIDIANO DE UMA ESCOLA DA INFÂNCIA As PULSAÇÕES 101

Mais conteúdos dessa disciplina