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PREFÁCIO Patologia Animal oferece a oportunidade aos alunos de Medicia Veterinária um estudo simplificado e elaborado com o intuito de promover o aprendizado. Identificar e reconhecer as lesões durante o ato de necropsiar torna-se uma tarefa agradável desde que não he falte os recursos básicos de quem conhece e sabe o que faz. Patologia é o estudo das lesões e estas representam as diferentes enfermidades. Quanto mais se conhece uma doença, mais fácil se torna seu controle. Neste livro estão traçadas as diretrizes para se chegar a um diagnóstico pos mortem com a segurança de quem precisa dar uma resposta aos colegas e a sociedade. Neste momento em que o autor comemora 40 anos de dedicação ao oficio da Patologia, aumenta o desejo de colaborar quando o assunto é necropsia. Cada vez que se vê detalhadamente o morto, mais se tem certeza dos valores que representam os processos vitais: quanto mais se conhece o morto, mais se intende o vivo. Didaticamente, a Patologia está dividida em Geral e Especial. A primeira estuda as lesõs, suas origens, patogenia e consequências. A outra estuda as lesões inseridas nos órgãos dos diferentes sistemas, fazendo uma correlação com os sinais clínicos oriundos de cada doença. O reconhecimento da técnica e o estudo da necropsia, é o principal argumento da patologia. Toda necropsia deve ser realizada em sua plenitude. Este livro tem o prazer de dedicar a todos os meus ex alunos, pois foram eles que contribuíram para que me tornasse autor deste. Uma vez que tudo que escrevi foi pensando neles AGRADECIMENTO Agradeço aos colegas que diretamente contribuíram para o aprimoramento deste livro: Tatiane Furtado Carvalho (Doutoranda em Patologia na UFMG), Claudio Henrique Barbosa (Prof. de Ornitopatologia e Farmacologia na UNIUBE), Hélio Alberto (Farmacêutico e Técnico em Patologia), Laryssa Costa Rezende (Médica Veterinária Residente em Patologia no HVU), Artur Queiroz Fernandes (Técnico em Anatomia), Raul Moraes Nolasco (Prof. de Semiologia, Clínica Médica de Grandes Animais e Toxicologia) e ao Cayque Emmanuel de Oliveira (Médico Veterinário Residente em Patologia no HVU) que revisou e organizou todo conteúdo, confeccionou a arte da capa por meio de caricaturas elaboradas por Marilda Coelho (minha esposa), além de ceder inúmeras figuras que enriqueceram esta obra. Meus agradecimentos a esses colegas que convivem dia a dia comigo. É uma família: rimos, brincamos, cantamos, lecionamos, necropsiamos e encontramos tempo para quase tudo. Aqui no laboratório de Patologia o serviço é sujo e pesado, mas não falta amor EXTERNO MINHA GRATIDÃO A TODOS! DEDICATÓRIA Com a chegada das três netas, quase que ao mesmo tempo, nossa casa virou a casa das sete mulheres: Marilda (esposa), Lígia, Aline, Mayara (filhas) e as três. Por um tempo esperei um filho, não veio, depois passei a esperar um neto e este demorou. De repente chegou o João, uma simpatia de pessoa. Se você quiser saber do que gosto de comer, pergunte a ele, temos os mesmos gostos. Voltei a jogar futebol para jogar com ele; assim me rejuveneci: pela força do amor que une nossa descendência. Ver os netos crescerem saudáveis é ter a certeza de um futuro promissor da semente que um dia plantamos. DEDICO AOS MEUS NETOS: Sophia Coelho Naves Luiza Coelho Magalhães Catarina Coelho Ribeiro Junqueira João Naves de Ávila Neto PREFÁCIO Patologia veterinária é um livro que apresenta uma proposta clara, ao tornar simples a difícil tarefa de estudar patologia. Nele eu coloco tada a minha didática, que aprendi durante esses 40 anos de labor, em prol do aluno e da profissão. Procuro melhorar a relação ensino e aprendizado e empreender amor e a arte na busca de um objetivo comum: o conhecimento. Nada é mais sagrado diante do criador e sua criação que o saber. Ele supera quase tudo, nos liberta, não angustia e nos faz felizes. Não tenho a pretensão de resolver todas as questões de patologia, mas coloco a disposição com afeto e sem rodeios, os horizontes de um conhecimento que lhe permitirá o raciocínio seguro, para galgar novos desafios em favor da Medicina Veterinária. O professo não pode estar de um lado e o aluno do outro. Ao contrario, estamos do mesmo lado, temos os mesmos desejos, as mesmas desventuras, as mesmas paixões. Todos querendo ser felizes. E por que não são? Não nasci pra sofre e não tenho direito de fazer o outro sofrer! Aprender patologia não pode ser um sacrifício. Deve ser um prazer. Bom estudo. O Autor BIOGRAFIA HUMBERTO EUSTÁQUIO COELHO Nasceu em Tupaciguara em 1951; Médico Veterinário pela Universidade Federal de Uberlandia – UFU; Mestre pela Universidade Federal de Minas Grais – UFMG; Doutor pela Universidade de São Paulo – USP; Ingressou na Universidade Federal de Uberlandia em 1976 como: Professor de Patologia Geral; Professor de Patologia Especial; Professor de Ornitopatologia; Entre os anos de 1976 a 2003 ocupou os seguintes cargos: Gerente de compras; Coordenador do curso de Medicina Veterinária; Coordenador do programa de Residencia em Medicina Veterinaria; Diretor do Hospital Veterinário; Diretor das Fazendas Experimentais; Diretor da FUNDAP – Fundação Desenvolvimento Agropecuário; Presidente do comitê de ética e pesquisa; Pró Reitor de Pesquisa e Pós Graduação; Responsável Técnico pela Avicultura; Durante 08 anos ministrou as disciplinas de Patologia na AGROPLAC Brasilia – DF (1999- 2007); Desde 1999 ministra as disciplinas de Patologia Geral, Especial e Ornitopatologia na UNIUBE – Universidade de Uberaba; Professor de Pós Graduação na UFU no programa saúde Animal, durante 7 anos, orientando 3 dissertações de Mestrado; Professor no Prorama de Pós Graduação da UNIUBE com 3 orientados já concluído o Mestrado; Professor no Instituto Qualittas de Pós Graduação desde 2006, onde orientou cerca de 32 monografias; e ministra a disciplina de Patologia dos principais animais de abate, no curso HIPOA: Higiene e Inspeção de Produtos de Origem Animal; Publicou 413 trabalhos científicos em revistas, periódicos e anais de congresso; Autor dos seguintes livros: Patologia Geral (Editado pelp laboratório Valée); Patologia Geral 2ª Edição; Patologia Especial; Patologia Veterinária (Editado pela Manole/S.A.); Patologia das Aves (Editado pela TECMED/SP); Patologia Veterinária – Online; Aventurar (Autobiografia) Presidente da Associação dos Médicos Veterinários de Uberlândia e Região (1987 – 1999); Vice Presidente da assiciação de Milho e Sorgo/ EMBRAPA (1998 – 2000); Presidente do Congresso Brasileiro de Milho e Sorgo/ EMBRAPA. Ano 2000; Proferiu aula Magna de Medicina Veterinária do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Urutaí – GO em 2014; Diretor Executivo do Instituto de Estudos Avançados “José Caetano Borges” Desde 2013; Presidente do conselho deliberativo do Instituto de Estudos Avançados “José Caetano Bores” Desde 2013; Diretor do Hospital Veterinário de Uberaba desde 2013; Membro do Colégio Brasileiro de Patologia Animal; 1 PATOLOGIA VETERINÁRIA. . . . . . . . . . INTRODUÇÃO Patologia é o estudo pormenorizado das alterações que constituem as enfermidades. O estudo é feito macro e microscopicamente nas alterações que chamamos de lesões. Estas são os sinais deixados durante o curso de uma doença. As enfermidades são caracterizadas pela associação das lesões que se manifestam de acordo com a intensidade do agente etiológico, patogenicidade, e resistência adquirida, durante a vida. O termo patologia abrange todos os seres vivos: humanos (patologia humana), animais (patologia animal) e vegetais (fitopatologia). Patologia animal é subdividida em geral e especial: a primeira estuda as lesões nos órgãos independentes dos sistemas (alterações post-mortem, alterações do desenvolvimento,presença do suco pancreático contendo a enzima lípase, quando em contato com o tecido adiposo do mesentério, provoca necrose pancreática das gorduras, observada com maior freqüência nos cães. São manchas brancas espalhadas pelo tedido adiposo do mesentério e superfície do pâncreas. O acúmlo de cálculos nos ductos pancreáticos é denominado pancreolitíase. Sialólitos são cálculos de fosfato e carbonato, observados nos ductos das glândulas salivares, provocando obstrução dos mesmos. Em conseqüência pode formar cistos de retenção nas glândulas e seus ductos, e até mesmo constituir uma ránula ou mucocele (Fig 03) uma vesícula 40 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . centimétrica (cinco a dez centímetros) repleta de saliva (secreção das glândulas salivares) observada em cães. Estomatite de um modo geral repesenta causa predisponente para a formação destes cálculos. O acúmulo de cálculos nos ductos das glândulas salivares é denominado sialolitáse. Fig 03 – Cão recém nacido apresentando mucocele. Enterólitos são cálculos de magnésio e fosfato formados no interior do intestino. São observados principalmente em cavalos que ingerem constantemente farelo de trigo. Morfologicamente são laminados, resistentes, duros e com uma forma geométrica bem definida: uns são cubóides, outros são poliédricos. Por serem pesados quase não constituem problemas, e raramente são expelidos. O acúmulo de cálculos no intestino é denominado enterolitíase. Coprólitos (fecalomas) são estruturas cilíndricas ou arredondadas, de cor parda ou cinza, com odor repugnante, formados de fezes ressecadas, podendo encontrar pedaços de ossos emiscuidos em seu interior. Sua formação é relativamente comum em cães e gatos que ingerem frequentemente ossos na alimentação. São produtos resultantes da constipação intestinal, principalmente pela presença de corpos estranhos como ossos de aves e outras estruturas indigeríveis, que causam obstrução intestinal. Os coprólitos estão presentes com maior freqüência no intestino grosso. O acúmulo de coprólitos no intestino é denominado de fecaloma. 41 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 42 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é mineralização distrófica? 2- O que é mineralização metastática? 3- O que é ossificação patológica? 4- O que é calculo? 5- O que é piloconcreção? 1- É a deposição de minerais em áreas preveamente lesadas. 2- É a deposição de minerais de forma generalizada no organismo, quando há hipercalcemia. 3- É a formação de autenticas estruturas ósseas em locais inapropriados. 4- É o mesmo que litos ou pedras formadas de minerais, encontradas em órgãos cavitarios. 5- É um corpo estranho esferoidal encontrado nos pré-estômagos de ruminantes e estômago de monogástricos, formado por pelos ingeridos. 43 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DOS PIGMENTOS Pigmento é tudo aquilo que tem cor própria. Apresenta-se como grânulo de corpos estranhos, e como produto do metabolismo celular. Pigmentos exógenos são poeiras de diversas naturezas: sílica, chumbo, calcário, ferro, cobre, cimento, carvão, mercúrio, prata e outros. Estas poeiras agridem o organismo pela pele, canal alimentar, olhos e sistema respiratório. A maior conseqüência se refere à pneumoconiose: fibrosamento do pulmão devido à inalação crônica de poeiras. Em virtude do fibrosamento surge o enfisema: acúmulo de ar nos alvéolos que se rompem e deixa o ar penetrar no interstício pulmonar, constituindo o enfisema intersticial, reduzindo a capacidade pulmonar de forma drástica e irrecuperável. A inalação crônica de poeira de carvão resulta em antracose: pulmão salpicado de pontos pretos milimétricos que se aprofundam ao corte. Isto acontece com indivíduos que vivem nas grandes cidades, a poluição do ar por dióxido de carvão impregna o pulmão e reduz sua capacidade pelo enfisema devido irritação dos bronquios e bronquíolos, que se fecham e promovem uma obstrução parcial: o ar entra com dificuldade e fica retido no alvéolo. Microscopicamente aparece uma pigmentação preta próxima dos brônquios e bronquíolos, e também no interior de macrófagos alveolares. Os linfonodos regionais do peumão podem apresentar manchas de antracose. Pigmentos endógenos são produtos do metabolismo celular: pigmentos autógenos e hematógenos. Pigmentos autógenos são conhecidos com melanina e derivaos lipídicos: ceroide e lipofuscina resultantes da oxidação e polimerização de lipídios não saturados. Estes pigmentos são encontrados no interior de macrófagos e em células parenquimatosas. São pigmentos produzidos pelo próprio organismo. Melanina é o pigmento melânico produzido pelos melanócitos e armazenado pelos melanófagos, que se apresenta de cor marrom ou preta dependendo da concentração (Fig. 04). O pigmento é responsável pela coloração da pele e pêlos de todos os indivíduos, e atua como protetor contra raios solares. As membranas serosas: pleura, pericárdio e peritônio, e ainda as meninges podem apresentar alguma pigmentação melânica. A intensidade da coloração depende da atividade 44 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . dos melanócitos: quanto mais ativo for a célula, mais pigmentado será o individuo. Assim o representante da raça negra tem o mesmo número de melanócito que o representante de uma raça branca, a diferença está na atividade, o da raça negra possui melanócitos mais ativos. A ausência congênita de melanina é denomindada albinismo: individuo totalmente despigmentado. Isto pode ocorrer em todas as raças que habitam a terra: humanos e animais. Um cavalo albino é denominado “cavalo pombo”, na espécie humana é mais comum na raça negra, assim os indivíduos albinos são denominados “negro aço”. Algumas raças, o albinismo é desclassificante: cães da raça boxer e búfalos, mas para os lagomorfos (coelhos) existe até uma raça totalmente albina, com índices de produtividade consideráveis, sem nenhuma rejeição no mercado. Fig.04 – Pigmento melânico (Melanina). Pigmentação melânica em aumento maior. Coloração HE. 10X. Melanose é acúmulo de melanina em forma de manchas irregulares de coloração parda ou preta que se espalha pela pele, mucosas, serosas e músculos. É comum na mucosa da boca de cães, na egião frontal das meninges de bovinos jovens e esporadicamente uma ou outra na pele. Microscopicamente encontram-se granulações de melamina coradas pela hematoxilina e eosina em pardo levemente dourado, localizadas no interstício e interior de macrófagos. Estas manchas são de caráter benigno e podem apresentar maior concentração de pêlos quando na pele, e são lisas e planas desprovidas de pêlos quando encontradas nas mucosas. Acanthosis nigricans dos cães é uma dermatose caracterizada por espessamento da pele em forma de grade (há formação de pregas no sentido horizontal e vertical). Morfologicamente há uma acantose (espessamento da camada escamosa); hiperqueratose (espessamento da camada de ceratina); melanose (hiperpigmentação localizada); e alopecia bilateral e simétrica. Os locais da 45 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . pele mais afetados são axilas, flancos e região inguinal. A etiologia mais provável relaciona-se com distúrbios hormonais: hormônios da tireóide, gonodais e da cortical da adrenal. A enfermidade tem caráter crônico, podendo ter cura espontânea. Os principais sinais clínicos são pruridos intensos, seborréia e inquietude do animal. O tratamento se faz com hormônios da tireóide ou corticoesteroides. Pode haver uma dermatite secundaria por invasão de bactérias e complicar ainda mais o quadro clínico do animal (Fig. 05) Fig. 05 – Acantosis nigricans em um cão macho com 8 anos de idade SRDC Melanoma é a neoplasia dos melanócitos. Pode ser benígna ou malígna que atinge principalmente a pele de eqüinos e suínos, podendo ser visto na glândulamamária, pulmão, cérebro, músculos e por todo parte. Trata-se de nódulos de tamanho centimétrico de cor preta, que ao corte deixa o fio da faca com uma substância semelhante à cera ou borra de café. Há ainda os melanomas amelânicos: aqueles que não produzem melanina e são de cor branca ou acinzentada. Microscopicamente as células não apresentam um padrão definido, podendo ser alongadas e cubóides, com citoplasma repleto de pigmento de cor preta (Fig. 06). Esta neoplasia quando malígna dissemina-se por todo o corpo. 46 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 07 – Pigmento melânico (Melanina). Pigmentação melânica em um melanoma de um cão.Coloração HE. 10X. Ceroide é um pigmento de cor marrom encontrado no interior de macrófagos nas áreas de degeneração, necrose e neoplasias (adenoma e adenocarcinoma de glândula mamária em cadelas). Lipofuscina é um pigmento de cor parda encontrado nas células não fagocitárias, traduzido por um envelhecimento destas. Assim são conhecidos com pigmento de desgaste que aparecem nos indivíduos idosos, manchando órgãos e pele de uma coloração morrom ou parda. Pode ser observado no músculo cardíaco de bovinos herados, durante o abate. Assim são denominados pigmento da hipotrofia parda. A deficiência de vitamina E favorece o aparecimento de lipofuscina nos músculos lisos do intestino de cães. É observada ainda na tireóide, cérebro, adrenais e glândulas sudoríparas de cães velhos. Trata-se de restos de lipedes que se acumulam nos vaculos autofágicos das células dos órgãos em questão. Pigmentos hematógenos são derivados da hemoglobina (pigmento vermelho que cora as hemácias e tem como tarefa transportar oxigênio e gás carbônico no sangue). Sua molécula é constituída de um radical férrico e outro corado (heme) e uma proteina (globina). Oriundos do radical férrico têm o pigmento hemossiderina e osteoemocromatose. Oriundos do radical corado têm a bilirrubina e porfirina. A hemoglobina possui a mesma forma estrutural que a clorofila, a diferença básica está no mineral: a hemoglobina possui o ferro, a clorofila o magnésio. Hemossiderina é um pigmento amarelo dourado oriniundo do ferro da hemoglobina encontrado no interior de macrófagos quando estes fagocitam restos de hemácias (velhas e parasitadas) (Fig. 08 a, b, c e d). Nos órgãos parenquimatosos: fígado, pulmão, baço e linfonodos são os locais mais comuns de se ver o pigmento formado em uma área de hipermia passiva, onde as 47 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . hemácias ficam retidas e são fagocitadas pelos macrófagos e no citoplasma destes aprecem o pigmento hemossiderina. Na insuficiência da valva mitral ocorre hiperemia passiva crônica do pulmão provocando endurecimento pardo, tradução macroscópica da hemossiderose: acúmulo de hemossiderina no interior dos macrófagos alveolares, que são denominados células da insuficiência cardíaca. Fig. 08 – (a) Hemossiderina. Presença de hemossiderina em um foco de hemorragia no baço de um cão. Coloração HE. 20X. Fig. 08 – (c) Hemossiderina. Hemossiderina em um foco de hemorragia no músculo de um cão. Coloração HE. 40X. Fig. 08 – (b) Hemossiderina. Hemossiderina no figado de um cão. Coloração HE. 40X. Fig. 08 – (d) Hemossiderina. Em detalhe, histiócitos carregados de hemossiderina. Coloração HE. 40X. Bilirrubina (Fig. 09 a, b, c e d) é o pigmento biliar de cor amarelo (eqüinos e suinos), verde (ruminantes e aves) e alaranjado (caninos), formado dentro dos macrófagos, oriundo do radical corado “heme” da hemoglobina. Há dois tipos de bilirrubina: hemobilirrubina (presente na corrente sanguinea e ainda não passou pelo fígado); colibilirrubina (a hemobilirrubina ao passar 48 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . pelo fígado é capturada pelos hepatócitos e conjugada com o acido glicurônico por intermédio da enzima glucoroniltransferase transformando-a em glucoronato bilirrubina). No final do processo de conjugação, a hemobilirrubina que era lipossolúvel torna-se hidrossolúvel, facilitando sua excreção. A bilirrubina é o principal elemento da bile que é constituída de sais biliares, mucopolissacárides, colesterol e água. É armazenada na vesícula biliar que ainda é responsável pela reabsorção de água. Quando mais tempo a bile permanecer na vesícula, mais concentrada vai ficando. Um animal que permanece por algum tempo sem se alimentar, a vesícula biliar apresenta-se distendida e repleta de bile. Fig. 09 – (a) Fígado de cão apresentando pigmento biliar (Bilirrubina). Mostra pigmento biliar próximo à área de necrose. Coloração HE. 10X. Fig. 09 – (c) Fígado de cão apresentando pigmento biliar (Bilirrubina). Mostra pigmento biliar próximo à área de necrose. Coloração HE. 10X. Fig. 09 – (b) Fígado de cão apresentando pigmento biliar (Bilirrubina). Mostra em detalhe, pigmento biliar fagocitado por macrófagos. Coloração HE. 40X. Fig. 09 – (d) Fígado de cão apresentando pigemento biliar (Bilirrubina). Mostra em detalhe, pigmento biliar fagocitado por macrófagos. Coloração HE. 40X. Trajeto da bilirrubina: a hemobilirrubina vai ao fígado se transforma em colibilirrubina que é armazenada na vesícula biliar, por meio do ducto colédoco chega até o duodeno e sob a ação 50 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . das bactérias intestinais ela se transforma em urobilinogenio, sendo que parte é absorvida na corrente sanguinea e outra parte segue pelo intestino sofrendo ação das bactérias e agora o urobilinogenio se transforma em urubilina, que é o pigmento que confere a cor das fezes. Parte da colibilirrubina que foi reabsorvida e também o urobilinogenio confere a cor da urina. Uma urina bem corada é denominada colúrica, quando descorada: acolúrica. Quando a bilirrubina se acumula no sangue por incapacidade dos hepatócitos ou dificuldade de excreção: quando há obstrução, este quadro é denominado: hiperbilirrubinemia. Icterícia é o resultado da hiperbilirrubinemia promovendo uma coloração amarelada nos tecidos do individuo, principalmente nas mucosas (Fig. 10). A esclera se cora rapidamente e permanece por muito tempo amarela. Os sinais clínicos da icterícia são clássicos: o individuo amarelou pode buscar as causas e promover o tratamento. Segundo a localização das causas, a acterícia pode ser classificada em préhepatica, hepática e póshepática. Fig. 10 – Cão apresentando mucosa ocular ictérica. Icterícia préhepatica é causada por hemólise na corrente sanguinea, denominada icterícia hemolítica. Nela há um acúmulo de hemobilirrubina no organismo, mesmo quando o fígado está em condições normais, não consegue transformar a maior parte em colibilirrubina, que acaba por corar intensamente as fezes, mas não cora a urina, se os rins estiverem em condições normais. Pode haver um excesso de urobilinogenio na urina. As principais causas de hemólise que levam a icterícia são: bilógicas (Babesia spp, Anaplasma spp, Clostridium hemolyticum, Leptospira spp, vírus da anemia infecciosa eqüina); químicas (chumbo, cobre, saponina, veneno de cobra); eritroblastose fetal ocorre por imcompatibilidade do antígeno Rh. Nos suínos, eqüinos e caninos, a enfermidade ocorre logo após a primeira ingestão do colostro. 51 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Icterícia hepática é causada por uma lesão hepática, seja de origem degenerativa ou inflamatória. As causas degenerativas (hepatoses) relacionam-se principalmente com intoxicações diversas, assim a icterícia é denominada tóxica. As hepatoses mais comuns são degeneração turva, gordurosa e necrose, provocadas por agentes como: chumbo, cobre, arsênio, plantas tóxicas e outros. As hepatites são provocadas pelo vírus da hepatite infecciosa aguda, leptospirose, erliquiose e salmonelose. Na icterícia hepática há tanto hemobilirrubina quanto colibilirrubina. Se a lesão hepática for grande haverá pouca colibilirrubina, se forpequena, haverá mais colibilirrubina e menos hemobilirrubina. Assim, o exame quantitativo e qualitativo da bilirrubina servirá para avaliar a grau de comprometimento do fígado. A quantidade de bilirrubina nas fezes e urina vai depender da capacidade do fígado: fezes bem coradas indicam aumento da colibilirrubina; fezes descoradas redução da colibilirrubina e aumento da hemobilirrubina. Urina bem corada (colúrica) indica aumento de colibilirrubina e descorada (acolúrica) indica redução da colibilirrubina e aumento da hemobilirrubina. A hemobilirrubina é eliminada na urina quando há lesão renal. Icterícia póshepatica é causada por obstrução dos ductos e vias biliares, porisso de denominada icterícia obstrutiva. As pricipais causas de obstrução de ductos intrahepáticos e extrahepáticos são os vermes: Ascaris spp em suínos; Fasciola hepática em bovinos; cálculos biliares (colélitos); colangite (inflamação dos ductos biliares); abscessos múltiplos; neoplasias; degeneração hepática (amiloidose) e outros. Com a obstrução ocorre um aumento de colibilirrubina circulante, redução de urobilinogênio e urobilina fazendo que as fezes apresentem-se totalmente descoradas. Com a ausência dos sais biliares presentes na bile que está interrompida, não haverá digestão das gorduras, pois não haverá emulsificação desta com a enzima lípase liberada pelo pâncreas, assim, surge o quadro de diarréia branca e gordurosa denominda esteatorreia. A urina vai estar bem corada (colúrica), pois a colibilirrubina é solúvel em água e eliminada pelos rins. Porfirina é um pigmento derivado do radical corado heme da hemoglobina, semelhante à filoeritrina: metabolito da clorofila. São pigmentos fotodinâmicos que em presença de luz solar provoca uma reação inflamtoria grave. O acúmulo de porfirina no organismo é denominado porfiria (porfirinemia, coproporfiria, porfirinúria). A eliminação da porfirina depende da saúde do fígado. Há dois motivos que prejudiacam sua eliminação: impossibilidade congênita e alteração hepática. A doença dente róseo é um exemplo de porfiria congênita: o individuo apresenta os dentes e os ossos corados em róseo pelo excesso do pigmento nos tecidos. A doença é motivada pela 52 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . incapacidade congênita de eliminação da porfirina pelo fígado. O individuo com uma carga de pofiria, ao entrar em contato com a luz solar, sofre uma reação inflamatória grave com destruição da pele caracterizando uma dermatite necrótica. Os principais sinais clínicos são pruridos intensos, inquietude, pele ressecada, desprendimento da pele e orelha sêca. Esta alteração é conhecida como fotossensibilização: primária e secundária. Fotossensibilização primária ocorre quando o animal ingere grande quantidade de planta fotossensibilizante, como é o caso do alecrim de campinas (Holocalyx glaziovii) e camará (Lantana camara). Fotossensibilização secundária ocorre nos individuos que apresentam alguma lesão hepática, como acontece em bovinos e ovinos em pastagens de Brachiaria decumbens. Por muito tempo, pensou-se que a lesão hepática fosse causada por um fungo contido na brachiaria (pythomices spp), hoje já se sabe, por meio de experimentação, que a lesão hepática é provocada pela própria brachiaria. Macroscopicamente a pele apresenta fissuras, alopecia, prurido, edema, eritrema, ressecamento das arelhas e cauda, que podem cair. Clinicamenente a fotossensibilização é caracterizada por intenso prurido, dermatite solar e necrose da pele (Fig. 11). Fig 11 – Bovino apresentando fotossensibilização. 53 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 54 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é pigmento? 2- O que é melanoma? 3- O que é albinismo? 4- O que é porfiria? 5- O que é fotossensibilização? 1- Pigmento é tudo aquilo que tem cor propriaa. 2- Melanoma é neoplasia de melanócitos. 3- Albinismo é ausência congênita de melanina. 4- Porfiria é o excesso do pigmento porfirina no organismo. 5- Fotossensibilização é dermatite necrótica: uma reação aos raios solares. 54 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . NECROSE Necrose (nekrosis do Grego) é morte de um grupo de células em um corpo vivo. Uma área de necrose pode ser classificada de acordo com o aspecto e intensidade das causas, em três tipos principais: necrose coagulativa, caseosa e liquefativa. As causas podem ser as mesmas, o que difere é a intensidade. Assim, as causas mais leves não destróem o parênquima, preservando sua identidade. Uma causa mais severa provoca destruição e até mesmo liquefação da área necrótica. Necrose coagulativa (necrose de coagulação) é o tipo de necrose onde os detalhes estruturais do tecido e órgãos são preservados, uma vez que os agressores teciduais são leves (toxinas de diferentes origens e isquemia por vários motivos). O primeiro sinal que aparece em uma área de necrose é a mudança da cor: torna-se esbranquiçada, as vezes amarelada e pálida; há perda de elasticidade e resistência. Microscopicamente ocorre no citoplasma aumento de volume, perda do contorno e acidofilia; no núcleo ocorre picnse, cariorrexe e cariólise. Picnose é a concentração da cromatina nuclear promovendo retração do núcleo que se cora intensamente, tornando-se mais escuro. Cariorrexe é a fragmentação do núcleo e cariólise é a lise do núcleo (Fig. 01 – a e b). Fig. 02 – (a) Fígado apresentndo necrose de coagulação. Fig. 02 – (b) Fotomicrografia de hepatócitos com necrose de coagulação. Em detalhe, picnose, cariólise e cariorexe dos hepatócitos. Coloração HE.40X. Necrose caseosa (necrose de caseificação) é um tipo especial caracterizada por destruição total do tecido afetado, transformando a área lesada em uma massa caseosa: do Latim caseus quer dizer massa de queijo. Este tipo de necrose é observado em muitas doenças crônicas como 55 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . tuberculose, linfadenite caseosa dos ovinos e pricipalmente nos abscessos. Na tuberculose estas áreas de necrose podem ser mineralizadas, na tentativa de neutralizar os radicais ácidos liberados no decurso da doença, constitui-se assim a mineralização distrófica. Macroscopicamente são áreas de consistência mole, ressecadas ou úmidas, de coloração branca ou amarelada, podendo ser fétida ou não (Fig. 03). Microscopicamente são observados restos celulares, corados intensamente pela eosina em róseo e azulado pela hematoxilina, quando houver mineralização. Fig 03 – (a) Coração apresentando foco de necrose caseosa Fig. 03 – (b) Vertebra de bovino apresentando necrose caseosa. Imagem cedida por Cayque Emmanuel. Necrose liquefativa (necrose de liquefação) é um tipo especial caracterizada por fluidificação enzimática das células lesadas. As causas podem ser as mesmas de outros tipos de necrose, o que difere é a capacidade e resistência de cada tecido envolvido. O encéfalo apresenta pouca resistência às injúrias devido sua constituição derivados lipidicos (fosfolideos, lecitinas, cerebrosideos, etc) em grande parte, o que confere uma baixa resistência quanto às agressões físicas, químicas e biológicas. O cérebro responde a toxemias e hipoxemias, com liberação de enzimas proteolíticas rapidamente formando focos de fluidificação ou liquefação, o que denominamos de malácia, tradução macroscópica de necrose de liquefação (Fig. 04) (a encefalomalácia inicia-se com edema e termina em necrose liquefativa). A fluidificação dos abscessos representa macroscopicamente a necrose de liquefação. 56 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig 04 – Encéflo apresntando necrose liquefativa. 57 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 58 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é necrose? 2- O que é necrose de coagulação? 3- O que é necrose caseosa? 4- O que é necrose liquefativa?1- Necrose é morte celular. 2- Necrose de coagulação também chamada de coagulativa é a mais simples e mais comum, onde não há perda da arquitetura do tecido. 3- Necrose caseosa também chamada de caseificação é aquela onde há destruição do tecido formando uma massa denominada caseum. 4- Necrose de liquefação também chamada de liquefativa é aquela em que há liquefação do tecido afetado. 59 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . APOPTOSE Apoptose é um processo de autodestruição celular comprendido por morte celular programada. Este processo requer gasto de energia e síntese protéica para sua execução. Faz parte da homeostase na regulação do crescimento de tecidos, cuja função é oposta a da mitose celular. O processo apoptótico dura aproximadamente três horas sendo observado no desenvolvimento embrionário, organogênese, renovação de células epiteliais, hematopoiese, involução de alguns órgãos e regressão de neoplasias. A eliminação de células defeituosas que poderiam causar prejuízos genéticos irreparáveis e por em risco o organismo. Tem papel importante no sistema imunológico durante a seleção de clones não reativos e autoreativos dos linfócitos T e B e sua maturação no timo e medula óssea. Microscopicamente verificam-se fragmentos de núcleo e citoplasma em vesículas apoptóticas. Não há liberação do conteúdo celular para o meio intersticial. GANGRENA Gangrena é uma área de necrose acrescida de bactéria saprofitas. Classificada em gangrena seca e úmida. Grangrena seca é aquela em que as estruturas afetadas estão em contato com o sol e o vento, sujeitos a ressecação. A pele é o alvo principal com destaque para as extremidades do corpo: orelhas, dedos, cauda, crista, barbela e focinho. As causas relacionam com isquemia por ação física: (bloqueio da circulação) por trombose, embolia, torniquete, compressão dos vasos, queimaduras e congelação; química: (contato com substâncias causticas) acidentes com hidróxido de sódio e ácido sulfúrico; e biológica: (micotoxinas) o ergotismo provocado pela ergotamina encontrado em grãos (centeio e amendoim) contaminados com fungos. A redução do fluxo sanguíneo, a diminuição da temperatura e a desidratação rápida da pele dificultam a invasão de bactérias saprofitas, permitido certo grau de mumificação e formação de uma linha de defesa, constituída de células inflamatórias, delimitando a área viva com a área de gangrena. Macroscopicamente a área de gangrena apresenta-se seca, desidratada, enrugada, fria, cor parda ou preta e odor fétido. 60 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Gangrena úmida é aquela que ocorre nos órgãos internos, livres do ressecamento solar, onde a umidade e o calor dos tecidos afetados são mantidos pelas cavidades naturais do próprio corpo, favorecendo a proliferação e disseminação das bactérias saprofitas nas áreas de necrose. Este tipo de grangrena é observado principalmente na torção e intussuscepção intestinais, onde macroscopicamente a área afetada apresenta-se de cor parda e odor repugnate. Grangrena gasosa é um tipo especial de grangrena úmida, onde as bactérias que invadem a área de necrose são as do gênero Clostridim. Os músculos são os mais afetados, especialmente em bezerros, sujeitos a traumatismos durante apartação. O músculo lesado é invadido por alguma bactéria do tipo: Clostrium chauvoei, C. novyi, C. septicum, C. welchii e instala-se uma gangrena com intensa formação de gás. É comum a ocorrência de carbúnculo sintomático (Clostridium chauvoei) nas grandes massas musculares de bovinos jovens, quando não vacinados. Esta enfermidade é conhecida com o nome de manqueira. Macroscopicamente os músculos mais afetados são os da região glútea e membros pelvinos, que se apresentam aumentados de volume, crepitantes, de cor vermelho escura e odor fétido (Fig. 01). Microscopicamente são observadas áreas de necrose e invasão de bactérias do tipo bastonetes, que representam a forma dos Clostridium. Fig 01 – Gangrena gasosa em bovinos (Carbúnculo Sintomático) 61 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 62 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é gangrena? 2- O que é gangrena seca? 3- O que é grangrena úmida? 4- O que é gangrena gasosa? 1- Gangrena é área de necrose acrescida de bactérias saprofitas 2- Gangrena seca é aquela que ocorre na pele e extremidades. 3- Grangrena úmida é aquela que ocorre nas partes úmidas: vísceras e músculos. 4- Gangrena gasosa é aquela que ocorre nas partes úmidas invadidas por Clostridim spp. BIBLIOGRAFIA ANDERSON, H. C; Calcific diseases. A. Concept. Arch. Pathol. Lab. Med. 107:341, 1983. COHEN, A. S. CONNORS, L. E. The pathogenesis end biochemistry of amyloidosis. J. Pathol. 151:1, 1987. K. K. O. L. MEÇA; A. S. MARTINS; H. L. DEL PUERTO; A. C. VASCONCELOS. Apopitose e expressão de Bel-2 das caspases 3 e 8 em placentas bovinas, em diferentes estágios de gestação. Arq. Bras. Med. Vet. Zoot, v.62, n.2, p. 258-264, 2010. MENDES, S. A. COELHO, H. E. Gota úrica nas aves. Monografia apresentada na conclusão de curso de med. Vet. Universidade Federal de Uberlandia. 1994, 20p. MONTENEGRO, R. M.; FRANCO, M. Patologia dos processos gerais. 3ª Ed. Atheneu, São Paulo, SP. 1992, 263p. REZEDE, R. S; SEVERINO, R. S; COELHO, H. E; OLIVEIRA, P. C. L; SAMPAIO, R.L. Alterações histopatológicas do tecido prostático de cães não orquiectomizados com diferentes idades. Vet. Not. Uberlandia, v. 15, n. 1, p. 9-15, jan-jun. 2009. VASCONCELOS, A. C. Apoptose ou morte celular programada e sua importância em medicina veterinária. 7ª ENAPAVE: Encontro nacional de patologia veterinária, 24-27 de julho de 1995. Belo horizonte MG. P 69-77. 63 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Alterações circulatórias são aquelas decorrentes do conflito dos vasos e a corrente sanguinea: se reduz o volume de sangue em todos os vasos é anemia; se a redução é localizada é isquemia; se houver acúmulo de sangue loclizado é hiperemia; quando sai sangue dos vasos é hemorragia; se sair só plasma é edema; se houver coagulação dos elementos sanguineos no corpo vivo é trombo; quando este obstrui o vaso é trombose; se há presença de elementos estranhos na corrente sanguinea é embolo; quando estes obstruem os vasos é embolia; o resultado da obstrução de um vaso sanguineo é infarto; a má distribuição do sangue resulta em choque. Anemia é a redução de sangue em todo sistema cardiovascular cujas causas podem ser nutricionais, parasitarias e genéticas. Os principais sinais clínicos decorrentes da anemia são palidez, fraqueza e baixo rendimento (ver: sistema hemocitopoietico) (Fig 01). Fig 01 – Ovino com palidez da conjuntiva ocular: anemia. Isquemia é redução do fluxo sanguineo localizada em uma parte do corpo. Pode ser lenta ou rápida o que depende das causas: uma obstrução por um êmbolo geralmente é rápida e provoca como conseqüência uma área de necrose coagulativa (infarto); uma obstrução lenta pode provocar hipotrofia do tecido afetado. As pricipais causas, portanto, relacionam com tudo aquilo que dificulta o fluxo sanguineo: obstrução do vaso (trombose e embolia); compressão externa do vaso (abscesso, neoplasia); substâncias químicas (ergotamina); síndrome da má distribuição do sangue (choque). A localização da área afetada pela isquemia é muito importante: uma isquemia cerebral 64 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . pode matar o individuo, ou até mesmo provocar lesões irreparáveis. A patogenia da isquemia se baseia na hipoxia e redução dos nutrientes celulares, conduzindo para degeneração e necrose. Hipermia é o acúmulo de sangue nos vasos. É ativa quando ocorre nos vasos artérias (sangue arterial) e passiva quando ocorre nas veias (sangue venoso). Hiperemia ativa é o acúmulo de sangue arterial (dentro dos vasos) em qualquer parte do corpo. Podeser fisiológica e patológica. A fisiológica ocorre em momentos de saúde como: digestão no estômago e intestino, nos músculos estriados no momento da corrida, no coração quando num esforço maior, na pele quando muda a temperatura etc. A patológica ocorre como prelúdio da inflamação: avermelhou para depois inflamar. O passo inicial de uma inflamação é a hiperemia ativa (Fig 02), pois a respota a agressão vem dos vasos: leucócitos e anticorpos. A hiperemia ativa é responsável pelos sinais clínicos da inflamação aguda: tumor, rubor, calor e dor. Fig 02 – Rume apresentando mucosa avermelhada: hiperemia ativa. Hiperemia passiva pode ser chamada de congestão por se tratar de acúmulo de sangue nas veias, devido a transtornos cardiovasculares como insuficiência cardíaca e obstrução venular. A obstrução de um vaso pode ocorrer por causas intrínsecas (trombose, embolia); e por causas extrínsecas (compressão por abscesso e neoplasias). A hipermia passiva por insuficiência de válvula mitral vai ocasionar o chamado endurecimento pardo do pulmão: aspecto macroscópico da hemossiderose: conseqüência da hemólise pelo excesso de gás carbônico, no sangue represado nas veias do pulmão. Microscopicamente o pigmento hemossiderina é visto dentro de macrófagos alveolares, que por esta razão são denominados de células da insuficiência cardíaca. Assim podemos dizer que o conceito de células de insuficiência cardíaca são macrófagos alveolares 65 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . repletos de hemossiderina. A hiperemia passiva por insuficiência de válvula tricúspide vai ocasionar inicialmente o chamado fígado de noz moscada: macroscopicamente são áreas amareladas de degeneração gordurosa devido à hipoxia, intercaladas por áreas avermelhadas de sangue acumulado na veia terminal hepática. Os indivíduos que sobrevivem por muito tempo com esta alteração acabam por instalar a chamada cirrose cardíaca. Assim o fígado de noz moscada (Fig 03) é a tradução macroscópica da hiperemia passiva crônica devido à insuficiência da válvula tricúspide; e a cirrose cardíaca é a conseqüência do fígado de noz moscada. Fig. 03 – Fígado com hiperemia passiva crônica: Fígado de noz moscada. Hemorragia é saída de sangue para fora dos vasos. O sufixo ragia (Grego) é empregado para designar hemorragia em determinados órgãos: metrorragia (útero), gastrorragia (estômago), enterorragia (intestino), otorragia (orelha interna e externa). Outros termos usados para indicar hemorragia: hematêmese (vômito de sangue), melena (sangue nas fezes), hematúra (sangue na urina), epistaxe (hemorragia nasal). De acordo com as causas, as hemorragias são classificadas em dierese e diapedese. Diérese é um tipo de hemorragia com lesões na parede dos vasos. Pode ser classificada em rexe e diabrose. Rexe (Fig 04) quando as causas são perfurantes (faca, projétil); Diabrose quando as causas são erosivas ou ulcerativas (úlceras gástrica) (Fig. 05). 66 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 04 – Hemorragia nasal de um bovino por ruptura de vasos: Rexe Fig 05 – Estomago de um cão apresentando hemorragia por arrancamento de vasos: diabrose Diapedese (Fig 06) é um tipo de hemorragia sem lesões na parede dos vasos. Ocorre por aumento da permeabilidade vascular. As causas são: (tudo que mia menos gato) toxemia, septicemia, bacteremia, viremia e etc. Elas são intersticiais: o sangue fica retido nos tecidos, aparecem sob a forma de pontos e manchas de coloração avermelhada quando é rescente e parda ou preta quando é mais antiga. As hemorragias na forma de pontos são denominadas: petequiais; as na forma de manchas são as sufusões, se for uma mancha extensa e com formato irregular é conhecida como equimose. A hemorragia pode ser classificada quanto a origem: arterial quando em jato descontínuo; venosa quando em jato contínuo; capilar quando em lençol. Quanto ao destino, as hemorragias são classificadas em externas e internas. Nas externas, o sangue sai do corpo; nas hemorragias internas, o sangue fica retido nas cavidades naturais do corpo: hemopericardio, hemotórax, hemoperitonio. Figura 06 – (azul) Equimose; (vermelho) Sufusão; (amarelo) Petéquia. 67 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Os hematomas são oriundos de rompimento de vasos com retenção do sangue nos tecidos, apresentado aumento de volume de coloração avermelhada, que posteriormente se torna arroxeada e finalmente azulada. Este sangue pode ser gradualmente reabsorvido pelos tecidos circunvisinhos, ou pode ser encapsulado: envolvido por uma cápsula de tecido conjuntivo fibroso. Microscopicamente, as hemorragias são vistas por meio das hemácias fora dos vasos, sobre os tecidos. As conseqüências das hemorragias dependem: se for rápida e em grande quantidade pode acarretar choque hipovolêmico; se for pequena e prolongada por muito tempo vai provocar uma anemia. No primeiro caso, ocorre nos acidentes em que há grandes hemorragias. No segundo caso, nas parasitoses aonde os parasitas vão sugando lentamente o sangue do individuo. Edema é o acúmulo de liquido nos tecidos e nas cavidades naturais. O liquido é o mesmo que sai dos vasos (plasmático) e deveria voltar, mas por alguma razão ficou retido nos tecidos ou nas cavidades, ou ainda em ambos. As razões são várias (etiopatogenia): aumento da pressão sanguínea (alterações na estrutura cardíaca: problema de valvas, endocardites, e arritimias); aumento da permeabilidade vascular (toxemia, septicemia, bacteremia, viremia e hiperemia); diminuição da pressão oncótica das proteínas do sangue (hipoproteinemia); obstrução linfática (linfangite). Classificação do edema quanto à natureza do liquido: edema inflamatório e não inflamatório. O edema inflamatório acompanha as inflamações esclusivamente, seu liquido é quente, denominado exsudato (liquido viscoso contendo mais de 3% de proteínas, bactérias e outros componentes do sangue). O liquido do edema não inflamatório é frio, denominado transudato (liquido citrino, contendo pequenas frações de proteínas). Quanto à localização o edema pode ser classificado em edema geral e edema local (Fig 07 a e b). O edema geral é denominado ansarca ou hidropsia (o liquido se acumula nas cavidades naturais do corpo: hidotórax, hidropericardio, hidroperitonio); o edema local apresenta-se em qualquer parte do corpo de forma isolada. 68 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig 07 – (a) Bovino apresentando edema geral: Hidropsia ou Anasarca Fig. 07 – (b) Bovino apresentando edema local. Ascite é o termo empregado quando há acúmulo de liquido (transudato) na cavidade peritoneal (Fig. 09). No edema cerebral, o transudato se acumula nos espaços de Virchow-Robin e perineuronal, promovendo o início da encefalomalácia, denominado de espongiose. O edema pulmonar é observado pela presença de liquido espumoso na traquéia e bronquios. Macroscopicamente o edema na superfície corpórea é visto como inchaço, ou seja, área aumentada de volume, macia e fria ao tato, quando comprimida deixa as marcas dos dedos. Microscopicamente o liquido do edema não cora de forma satisfatória, ficando um róseo desbotado, quando empregado a coloração hematoxilina e eosina. Fig 08 – Felino apresentando Hidropritônio: Ascite Trombose é a obstrução (parcial ou total) de um vaso por uma massa sólida denominada trombo. Trombo é formado dos elementos que componhem o sangue: resumidamente é a 69 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . coagulação do sangue com a circulação em movimento, no indivíduo vivo. Qualquer agente que lese extensivamente o endotélio vascular pode causar trombose. As pricipais causas são: alterações da parede vascular; alterações no fluxo sanguíneo; e alterações nos constituintes sanguíneos (estes três elementos causais são conhecidos como tríade de Virchow). As alterações da parede dos vasos podem ser provocadas por qualquer elemento lesivo,seja físico, químico ou biológico (traumatismo, toxinas, infecções). Alterações no fluxo sanguíneo ocorrem com o retardamento da corrente sanguinea, provocando redemoinho em torno de um obstáculo. Alterações nos constituintes sanguíneos ocorrem no aumento das plaquetas, agregação das mesmas e polimerização do fibrinogênio. Morfologicamente o trombo pode ser branco, vermelho ou misto, todos com as seguintes características: seco, duro, inelástico, rugoso, áspero, friável e aderente. Quanto à localização são classificados em cardíacos, arteriais, venosos e capilares. A obstrução de um vaso (trombose) provoca isquemia dos tecidos irrigados por ele, levando a necrose dos destes, na forma triangular denominada de infarto. Embolia é a obstrução de um vaso por um corpo estranho denominado êmbolo. Os pricipais êmbolos são formados de colônias de bactérias (êmbolo bacteriano); formados por vermes (êmbolo parasitário); formados por gás (êmbolo gasoso); formados por celulas neoplasias (êmbolo celular); formados por tecido adiposo (êmbolo gorduroso); e formados por fragmentos de medula óssea. As pricipais embolias recebem o nome do êmbolo que lhe deu origem: embolia bacteriana é causada por êmbolo formado por colônias de bactérias, que alcançam à corrente sanguinea por meio de bacteremia ou septicemia. Qualquer uma infecção bacteriana pode ocasionar a formação de êmbolos. Embolia parasitaria é causada por parasitas que atingem a corrente sanguinea. As larvas de Strongylus vulgares invadem as artérias mesentéricas craniais dos eqüinos e alem de provocarem aneurisma nas mesmas, ainda se lançam na corrente sanguinea formando os êmbolos parasitários, obstruindo os pequenos vasos e constituindo uma embolia parasitaria. Embolia gasosa é formada por êmbolos de gases ingetados acidentalmente nas veias, ou nos casos dos escafandristas e aviadores quando há despressurização rápida permitindo a formação de bolhas de ar na corrente sanguínea. Embolia celular é formada por células neoplásicas que se lançam na corrente sanguínea e obstruem os pequenos vasos e instalam uma embolia e por fim reproduz a neoplasia a distância, o que chamamos de metástase. Embolia gordurosa é formada por êmbolos de gordura ou lipídios quando atingem a circulação. Pode ocorrer nos casos de fraturas ósseas onde os globulos de gordura são lançados na corrente circulatória. Placas de colesterol aderidas na 70 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . camada íntima dos vasos sanguíneos podem desprender e se constituir na formação de um êmbolo. Fragmentos de medula óssea são importantes causas de embolia por fratura óssea completa. As conseqüências das embolias podem ser de ordem local ou geral. Quando provoca isquemia do tecido afetado pela obstrução do vaso, vai causar necrose coagulativa com formato de triângulo, que recebe o nome de infarto (estas conseqüências são de ordem local); quando ainge órgãos como o cérebro, então desencadeia vários problemas de ordem geral. Dependendo da natureza do êmbolo as conseqüências podem ser maiores: imagine um êmbolo celular (um oncócito) que obstrui o vaso sanguineo de um determinado órgão, vai provocar metástase de uma neoplasia; um êmbolo bacteriano pode provocar uma septicemia ou uma bacteremia, até mesmo formar um abscesso; o tamanho do êmbolo também é muito importante, se for ao pulmão uma embolia muitas vezes é fatal. Infarto é uma área de necrose coagulativa devido à obstrução de um vaso sem adequada circulação colateral. Os infartos são cuneiformes, ou seja, em forma de cunha, se assemelhado a um triângulo, cujo vértice está voltado ao interior do órgão, local onde houve a obstrução. Os infartos são classificados em anêmicos e hemorrágicos. Os primeiros correm em órgãos com irrigação simples semelhantes o que se vê nos rins. Os segundos em órgãos com irrigação dupla como é o caso do baço, fígado e intestinos. Morfologicamente, os infartos anêmicos são brancos sem sangue ou com muito pouco sangue, e os infartos hemorrágicos são vermelhos porque tem muito sangue. Um infarto novo tem sua superfície convexa, e um velho tem a superfície côncava. Dependendo das causas, os infartos podem sofrer complicações: se for provocado por um embolo baceriano pode instalar-se uma infecção ou até mesmo um abscesso; se for um êmbolo celular pode promover uma metástase de uma neoplasia malígna. Com o passar do tempo o infarto vai se retraindo, desidratando, podendo ser mineralizado e até substituído por tecido conjuntivo fibroso. Quando um trombo ou um êmbolo obstrui um vaso, toda área irrigada por aquele vaso sofre isquemia e posteriormente necrose do tipo coagulativa, constituindo o que denominamos infarto (Fig 09). 71 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig 09 – Infarto renal em um cão. Choque é uma síndrome decorrente da má distribuição do sangue. Portanto um conjunto de sinais clínicos que afetam os órgãos vitais em conseqüência da insuficiência circulatória. O choque é provocado por perda de sangue, ou por falência cardíaca, ou ainda, por vasodilatação. Muitas são as causas do choque, mas o denominador comum é a diminuição da perfusão tecidual com conseqüente lesão celular. As causas da perfusão inadequada dos tecidos que mais chamam atenção é a redução do débito cardíaco devido à incapacidade do coração de funcionar como bomba e deficiência do retorno sanguíneo pela baixa volemia. A diminuição do volume sanguineo (hipovolemia) é comum para todos os tipos de choque: no choque hipovolêmico a hipovolemia é absoluta e no choque cardiogênico e vasculogênico a é hipovolemia relativa. Na hipovolemia absoluta há perda real do volume sanguíneo (grandes hemorragias); na hipovolemia relativa não há perda de sangue, mas ocorre uma concentração do mesmo, nos grandes vasos que estão ainda maiores pela vasodilatação, ou no caso do choque cardiogênico, o coração não tem força para circular o sangue adequadamente. Existem mecanismos compensatórios da hipovolemia como: vasoconstrição periférica promovendo maior introdução de água dos tecidos para os vasos; e maior reabsorção de água pelos rins comandada pelo hormônio antidiurético. Patogenia do choque: o coração e o cérebro são altamente suscetíveis à hipóxia gerada pela queda da pressão sanguinea; na maioria das espécies se desenvolve focos de necrose e hemorragia nestes órgãos. Quando o débito cardíaco é diminuído de um quarto e a oxigenação do sangue está reduzida, o oxigênio total transportado ao coração pode não satisfazer os requerimentos do metabolismo do miocárdio. O choque promove alteraçãoes da coagulação: na fase inicial hipercoagulabilidade e na fase final tende a hipocoagulabilidade. A hipercoagulabildade e a 72 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . vasoconstrição desempenham papel homeostático diminuindo a perda de sangue. A hipercoagulabilidade é promovida pela liberação de tromboplasmina, e a vasoconstrição pela serotonina, ambas liberadas pelas plaquetas. As catecolaminas, as enzimas dos lisossomos e a acidose são outros fatores que contribuem para a hipercoagulabildade. No final do quadro de choque , quando há coagulação intravascular disseminada, os fatores de coagulação do sangue são consumidos e instala-se uma hipocoagulabilidade. A hemoconcentração decorre da perda do fluido vascular. Isto leva a um aumento da viscosidade sanguínea. Sinais clínicos do choque os indivíduos ficam letárgicos e não respondem a estímulos externos; fraqueza muscular é um sinal importante; a temperatura corporal tende a baixar, a pele fica fria e pálida; há fraqueza cardíaca e redução da função renal com menor produção de urina; queda da pressão sistólica e diastólica; queda da pressão venosa no choque hipovolêmico; aumento da pressão venosa no choque cardiogênico; pulso alterado: tasquisfigmia, arritimia, queda da tensão e redução da plenitude, conduzindo ao chamado pulso fraco; depressão do centrorespiratório levando à dispnéia e taquicardia, devido a deficiência circulatória cerebral; a conciência está deprimida, mas não abolida; palidez de mucosa e cianose; polidipsia na tentativa de manter o balanço hídrico do organismo; oligúria, anúria e glicosúria. Lesões do choque nos diferentes órgãos: no cérebro ocorre uma vasoconstrição da microcirculação e redução da perfusão durante o estado de hipotensão. Se a pressão sanguínea for mantida ao redor de 35 mmHg por mais de duas horas, produz lesão isquêmica irreversível do sistema nervoso central. No coração há uma depressão cardíaca devido a redução da tensão de oxigênio nas coronárias; acidose respiratória e metabólica; perfusão reduzida e substâncias liberadas pelos tecidos hipoperfundidos. A mais importante substância é conhecida como fator depressor do miocárdio: um peptídio liberado pelo pâncreas isquêmico, com efeitos diretos sobre o miocárdio. No intestino ocorre isquemia resultando em necrose; microhemorragias na mucosa (o animal sangra-se pelos próprios capilares); hiperemia passiva em todo intestino. No fígado há distúrbios metabólicos e hiperemia passiva portal. O fígado suporta no Máximo 40 mimutos de isquemia. A perda da capacidade detoxicadora do fígado permite que as toxinas bacterianas intestinais exerçam livremente sua ação deletéria. No baço ocorre esplenoconstrição como compensação da hipovolemia. Nos rins ocorre importe vasoconstrição que diminui a filtração glomerular agravando o quadro de acidose já existente. A hipoperfusão por mais de 12 horas 73 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . provoca necrose tubular e consequentemente insuficiência renal. Nos pulmões há um sobrecarga do volume de sangue provocando além de edema agudo, uma atelectasia congestiva, considerada como lesão clássica do choque. Nas adrenais há secreção de grande quantidade de adrenalina e noradrenalina pela medular; e mineralocorticóides: aldosterona e glicocorticóides (hidrocortisona) pela cortical. Na hipófise ocorre aumento da produção de vasopressina (hormônio antidiurético) e ACTH (hormônio adrenocorticotrófico). No sistema monocítico fagocitário há intensa depressão, pelas lesões dos orgãos em que as células deste sistema estão abrigadas. No músculo esquelético a vasodilatação periférica induzida por catecolaminas com a adrenalina torna os músculos pálidos. A queda da pressão pode induzir vasodilatação pela liberação de íons hidrogênio e potássico, como o músculo apresentando-se levente cianótico. Classificação do choque (segundo suas causas): hipovolêmico, cardiogênico e vasculogênico. Choque hipovolêmico é o choque hemorrágico onde a principal causa é as grandes hemorragias. Perdas de plasma e soro também provocam redução do volume sanguíneo, promovendo hemoconcentração e choque. As grandes perdas de sangue se dão nos traumatismos, cirúrgias prolongadas, úlceras gástricas e intestinais, ruptura de varizes e aneurismas, afecções ginecológicas; as perdas de plasma se dão nas queimaduras, peritonites, torção e obstrução intestinais; perdas de soro (água e eletrólitos) se dão na desidratação, vômito, diarréia, edema, sudorese excessiva, diurese, privação aguda de água. Choque cardiogênico o choque da falência cardíaca onde há dificuldade no enchimento e esvaziamento das cavidades do coração. Causas que interferem com o fluxo cardíaco e o retorno efetivo: tamponamento cardíaco impedindo o enchimento dos átrios e comprometendo a diástole; compressão da veia cava hiperexpansão do pulmão; deslocamento das vísceras para o tórax nas hérnias diafragmáticas, dificultando o retorno venoso pela compressão da veia cava; hemotórax nos traumatismos. Causas que interferem com o esvaziamento ventricular: ruptura de cordas tendineas; drogas depressoras do miocárdio; arritmias cardíacas. Choque vasculogênico é o choque da hipovolemia relativa devido ao aumento repentino do leito vascular promovido pela vasodilatação. Suas diferentes causas dão origem a três tipos de choque: anfilatico, neurogênico e séptico. 74 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Choque anafilático sua etiologia está relacionada com picada de insetos; transfusões de sangue incompatíveis; alergias medicamentosas. É promovido pela histamina, serotonina e bradicinina, devido à reação antígeno-anticorpo, entre uma célula previamente sensibilizada e um agente especifico. Choque neurogênico é provocado por traumatismo grave; dor intensa; lesão de medula espinhal; animais em pânico; pássaros e mamíferos selvagens aprisionados; drogas como barbitúricos: anestésicos que deprimem e produtos químicos vasodilatdores. Os indivíduos entram em choque mediado pelo sistema nervoso que induz uma vasodilatação periférica com redução do volume de sangue circulante. Choque séptico é provocado pela vasodilatação reflexa e coagulação intravascular disseminada devido ação de toxinas de agentes biológicos: bactérias, fungos, vírus e ricketsias. As bactérias gram negativas são responsáveis por 70% dos casos de choque séptico, destaque para E. coli, Proteus spp, Peseudomonas aeruginosas. As gram positivas representam quase 30%, com destaque para Streptococcus spp, Staphylococcus spp e Pneumococcus spp. Este tipo de choque tem se mostrado quase irreversível do ponto de vista clinico, os indivíduos entram em falência múltipla dos órgãos não permitindo um prognóstico que dê sustentação e resposta par uma medicação eficiente, a morte ocorre quase sempre nas primeiras horas em que se instalou o quadro. 75 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 76 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é isquemia? 2- O que é hiperemia? 3- O que é hemorragia? 4- O que é edema? 5- O que é choque? 1- Isquemia é redução localizada de Sangue. 2- Hiperemia é acúmulo localizado de sangue. 3- Hemorragia é a saída de sangue para fora dos vasos. 4- Edema é à saída de plasma par fora dos vasos, ficando retido nos tecidos. 5- Choque é síndrome da má distribuição sanguinea. BIBLIOGRAFIA CHEVILLE, N. F. Introdução à patologia veterinária. Editora Roca, 2004. 334p. MONTENEGRO, R. M, FRANCO, M. Patologia processos gerais. 3ª Ed. Atheneu São Paulo, SP. 1992. 263p. THOMSON, R. G. Patologia geral veterinaria. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1983. 412p. 77 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . INFLAMAÇÃO Inflamação é uma resposta vascular, celular e humoral que desencadeia uma reação defesiva contra os agentes agressivos. É vascular porque vêm dos vasos os elementos de defesa, através do aumento da permeabilidade do endotélio capilar, proporcionado a exsudação dos leucócitos e das proteínas plasmáticas. É celular porque a resposta vem dos leucócitos: células brancas do sangue que juntamente com as células presentes nos teciduais, desempenham papeis de fagocitose e liberação de elementos facilitadores da inflamação. É humoral porque são os anticorpos que defendem e protegem contra determinados agentes lesivos. A inflamação é reconhecida como um processo porque incorpora vários mecanismos biológicos diferentes: exsudação, fagocitose, produção de anticorpos, neoformação vascular, proliferação de tecido conjuntivo fibroso e liberação de mediadores químicos. A inflamação é uma resposta benigna e adaptável que aumenta a sobrevivência dos seres na terra. Se não houvesse inflamação já não haveria vida no planeta. Alguns fatores influenciam na intencidade da resposta inflamatória: idade, espécie e condições de vida, pois interferem diretamente na resistência natural e adquirida do individuo. Etiologia tem com agentes causais da inflamação vários agressores subdivididos em físicos, químicos e biológicos. Agentes físicos: traumatismo, irradiação, calor, frio e outros; agentes químicos: ácidos, sais, bases e toxinas diversas; agentes bilógicos: bactérias, fungos, vírus, protozoários eparasitas. Quando a inflamação for provocada por agentes biológicos é denominada infecção. Assim surgiu a seguinte frase: “toda infecção é uma inflamação, mas nem toda inflamação é uma infecção”. Patogenia explica como se processa todo mecanismo de defesa desde a movimentação das células dentro dos vasos sanguineos, sua saída para os tecidos e atuação contra o agressor. Quem anuncia o ataque dos agressores são os mediadores químicos: histamina, prostaglandina, serotonina, cinina, plasmina, anafilatoxina, esteares lisossônicos e produtos de linfócitos. O que eles fazem? Promovem a hiperemia ativa: aumento do volume sanguíneo com a dilatação do vaso; induzem a marginação leucocitária: os leucócitos deixam o eixo da corrente e vão para margem na periferia dos vasos, tudo isto para favorecer a saída para os tecidos. Aumentam a permeabilidade da parede vascular favorecendo a leucodiapedese: saída de leucócitos através dos poros dilatados. Este 78 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . processo é favorecido por algumas substâncias liberadas pelas células do tecido agredido, denominadas quimiotratores: substâncias derivadas dos peptídeos normais do plasma. As citocinas liberadas por linfócitos estimulados por diferentes antígenos: vírus, bactérias, fibrinopeptideos e complexo antígeno anticorpo são fortes quimiotratores de leucócitos. Os leucócitos são arrastados para fora dos vasos alterando sua forma emitindo o chamado pseudópodes: falsos pés, o que favorece sobremaneira este movimento até alcançar a área de combate entre o soldado leucócito e o agressor. Neste momento há uma pergunta: o agressor é uma bactéria ou um vírus? se for uma bactéria quem vão atuar são os neutrófilos: polimorfos nucleares neutrófilos células com grande capacidade fagocitária, que irão fagocitar as bactérias até o final do processo; se for um vírus quem atuam são os linfócitos e os plasmocitos: células capazes de produzir anticorpos com a finalidade de anular a ação viral e debelar a infecção. Os anticorpos desempenham papel fundamental: atuam neutralizando os vírus, inativam toxinas, aumentam a fagocitose de bactérias e lisam células indesejáveis. A migração celualar é constante nas seis primeiras horas com predomínio dos neutrófilos. A partir de 12 horas, os macrófagos são numerosos e se igualam com os neutrófilos, lá pelas 24 horas começam aparecer os linfócitos. A migração celular ocorre primariamente nas arteríolas com duas series distintas de celuas: série granulocitica e série mononuclear. Série granulocitica refere-se aos neutrófilos, eosinófilos e basófilos. São assim denominados por apresentarem granulações, sendo que os neutrófilos e os esonófilos são chamados de polimorfos nucleares por apresentarem formas diferentes: segmentados e bastonetes. Somente os mamíferos possuem neutrófilos, as demais classes de animais possuem os heterófilos (Fig. 01 a e b) são células semelhantes aos neutrófilos, mas não possuem enzimas proteolíticas, tornando-as impossibilitadas de formar aquele pus tradicional: cremoso. Assim, especialmente nas aves teremos uma substância caseosa representado à infecção supurada. 79 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 01 – (a) Presença de Heterófilo (seta) e Hemácias de uma ave. Coloração HE. 40X Fig. 01 – (b) Presença de Heterófilo (seta) e Hemácias de uma ave. Coloração HE. 100X Neutrófilos são células fagocitárias presentes em quase toda a inflamação, porém com número elevado no exsudato supurado ou purulento. Um neutrófilo morto é denominado piócito. Eles liberam enzimas proteolíticas com a finalidade de dissolver os detritos teciduais. Nos cortes histológicos o citoplasma quase não aparece, mas o núcleo em forma de bastonete ou segmentado. Nas infeccções bacterianas graves ocorrem neutrofilia neutrofilica no exame de sangue. Quando o numero de neutrófilos maduros estão aumentados se diz: desvio para a smo está perdendo a guerra, ao ustilizar soldados despreparados para o combate (Figura 02 a e b). Fig 02 – (a) Neutrófilos: Polimorfos Nucleares. Coloração HE. 40X Fig 02 – (b) Neutrófilos: Polimorfos Nucleares. Coloração HE. 100X 80 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Eosinófilos possuem granulações vermelhas (coloração HE), o que distinguem dos neutrófilos e são tóxicas para larvas de parasitas, o que explica a grande quantidade de eosinófilos nos processos inflamatórios parasitários (abronemose, fígado de manchas brancas dos suínos por passagem de larvas de Ascaris spp). A quimiotaxia eosinofílica ocorre pricipalmente nas infestações parasitárias no intestino e nasofaringe durante reação alérgica. Os eosinófilos matam os parasitas com seus grânulos que contém uma proteína básica, quando lançada na cutícula dos mesmos. São células com baixo poder fagocitário, amebóides e lentas (Fig 03). Fig 03 – Eosinófilos: Polimorfos Nucleares. Basófilos são semelhantes na forma e função aos mastócitos (células residentes nos tecidos). São produtoras de histamina: importante mediador químico da inflamação, que promove a vasodilatação arterial e aumento da permeabilidade vascular. A anafilatoxina é uma substãncia que estimula a liberação de histamina pelos basófilos. Localizam-se nos sítios perivasculares, onde seus grânulos apresentam seu efeito máximo sobre a permeabilidade vascular. Os basófilos geralmentes são componentes indispensáveis das lesões crônicas e imunes: estão envolvidos na reação de hipersensibilidade imediata e retardada. Série mononuclear faz parte os linfócitos, plasmócitos e monócitos. Linfócitos são células pequenas, arredondas, com citoplasma pequeno e núcleo redondo e bem corado. São encontradas nos linfonodos, baço, timo, tonsilas, intestino, medula óssea e bolsa cloacal. Correspondem nos mamíferos cerca de 20 a 40% dos leucócitos. Existem dois grupos funcionais de linfócitos: B que produz todo tipo de anticorpos; e T linfócito que atua na imunidade 81 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . celular. Linfocitose é o aumento dos linfócitos circulantes: observada na resposta transitória, exercício muscular, febre, estresse, leucemia e virose (Fig 04 a e b). Fig 04 – Línfócito: Mononuclear. Coloração HE. 40X Fig 04 – Línfócito: Mononuclear. Coloração HE 100X Plasmocitos são linfócitos grandes, possuem citoplasma grade e núcleo excêntrico bem corado. Os plasmocitos se formam por um processo de maturação dos linfócitos B. sua função é produzir e armazenar anticorpos. Normalmente o linfócito é induzido a produzir anticorpos, e durante o processo se torna um plasmocito. Assim os linfócitos são células jovens e os plasmocitos maduros, portanto, uma infecção que predomina plamocitos indica cronicidade. Monócitos são células fagocitares do sangue que originaram todas as outras células fagocitárias do tecido: células de Kupffer no fígado; células reticulares no baço e linfonodos; macrófagos alveolares no pulmão; histiócitos no tecido conjuntivo; microgliócitos no sistema nervoso central; células epitelioides e gigantes nos granulomas. Todas estas células constituem o sistema monocitico fagocitário (SMF), e podem ser denominadas simplemente de macrófagos. Os monócitos liberam citocinas que são importantes mediadores químicos da inflamação e promovem a liberação da interleucina-1que atuam estimulando os neutrófilos; ativando os linfócitos T e B; induzindo a síndrome febril e a produção de prostaglandina no hipotálamo; aumentando a síntese de proteínas no fígado; atuando no estagio fianal da inflamação como fator de crescimento dos fibroblastos e demais células envolvidas no processo de reparação (Fig. 05). 82 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig 05 – Plasmócito: Mononuclear Células epitelioides são células maiores que os macrófagos comuns, exibem formato alongado, levente ovalado, e se distribuem na periferia da lesão no intuito de impedir que o processose alastre; espalham como se fossem epitélio e secretam enzimas que destroem o agente agressor fora do seu citoplasma, ao contrario do que ocorre na fagocitose (Fig 06). Fig 06 – Células epitelióides. Células gigantes são multinucleares que se formam por fusão e multiplicação dos núcleos, podendo apresentar até 200. São classificadas em dois tipos de acordo com seu formato: células gigantes tipo Langhans com os núcleos na periferia do citoplasma tomando um aspecto de ferradura (Fig 07 a); células gigantes tipo corpo estranho com os núcleos agrupados na posição central do citoplasma, são arredondadas e estão presente nos granulomas provocados por corpos estranhos: esquirulas ósseas, farpas de madeira, larvas de parasitas e outros (Fig 07 b). A função do processo inflamatório é reunir células e liquidos no local lesado; o objetivo é diluir, localizar, destruir, remover o agressor e induzir a reparação do tecido agredido. Ao conjunto de células e liquidos que 83 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . saem dos vasos em direção a área lesada deniminamos: exsudato. A quantidade e a qualidade das células e proteínas que formam o exsudato constituem uma gama enorme, tais como: seroso, catarral, fibrinoso, hemorrágico, purulento e outros. Fig 07 – (a) Célula Gigante Multinuclear do tipo Langhans. Fig 07 – (b) Célula Gigante Multinuclear tipo corpo estranho Exsudato seroso é composto predominantemente dr líquido citrino. Ocorre nas irritações leves, como nas viroses das fossas nasais (rinites). Pode estar associado com outros exsudatos: seromucoso e serofibrinoso. Exsudato catarral ou mucoso é o que ocorre: no trato respiratório, gatrointestinal e genital feminino, onde exitem as células caliciformes que são produtoras de muco. O fator predominante neste tipo de exsudato é o muco, podendo encontrar neutrófilos, fragmentos de células e resto de tecidos necróticos e hemácias. Pode estar associado com outros exsudatos: seromucoso, mucohemorrágico e serfibrinoso. Exsudato fibrinoso é aquele onde predomina fibrina. Tem aspecto gelatinoso de cor levemente amarelada. Ocorre principalmente nas serosas: pleura, pericárdio e peritônio; e algumas mucosas: laringe, faringe e intestino. Micoscopicamente a fibrina apresenta-se bastante diversificada desde feixes delicados até fortes provocando aderência. Pode estar associado com outros exsudatos: serofibrinoso, seromucoso, fibrinopurulento e fibrinonecrótico. A inflamação fibrinosa pode forma uma pseudomembra nos casos graves de faringites e faringites, compromentendo a respiração do individuo. 84 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Exsudato hemorrágico tem como elemento predominante o sangue. Ocorre principalmente em órgãos bem irrigados como intestino, baço, pulmão. Leucócitos estão presentes como neutrófilos, linfócitos e macrófagos. O exsudato hemorrágico pode estar associado: mucohemorrágico, fibrinohemorrágico, necrohemorrágico. Exsudato supurado também denominado purulento é aquele onde predomina os neutrófilos que morrem durante a batalha e constituem os piócitos que por sua vez forma o pus. Os neutrófilos são células fagocitárias que possuem enzimas proteolíticas encarregadas de destruir os agentes agressores e dependendo da patogenicidade destes é possível ver exsudatos de diferentes aspectos e coloração: branco, verde, vermelho, cinza, amrelo e até combinação destas cores. Pode ter consistência cremosa, pastosa e liquefeita. As bactérias são os pricipais alvos dos neutrófilos, em especial as denominadas piogenicas: Staphylococcus spp; Streptococcus spp; Corynebacterium spp. Uma coleção de pus espalhada pela região subcutânea é conhecida como flegmão, considerado gravíssimo pelo fato de estar disseminado, sem controle, produzindo toxinas e multiplicando bactérias piogenicas. Uma coleção de pus circunscrita, bem delimitada por uma capsula de tecido conjuntivo fibroso é denominada abscesso, considerado mesno complicado por estar contido, porem se atingir uma grande área do corpo ou órgão importante como fígado e pulmão pode trazer grandes conseqüências para o individuo. Os abscessos hepáticos muitas vezes passam despercebidos porque são pequenos, mas múltiplos. Eles geralmente são de origem umbelical: a cura do umbigo é fundamental para controlar o aprecimento dos mesmos. No pulmão e rim é comum a embolia bacteriana produzir o que se denomina pneumonia supurada embólica e nefrite supurada embólica. Ambas apresentam múltiplos abscessos de diferentes tamanhos (Fig. 08). 85 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 08 – Abcesso hepático: exudato purulento. Gentileza: Cayque Emmanuel. Pústula é uma coleção de pus localizada na epiderme, geralmente em conseqüência da contaminação de uma vesícula de herpes e queimadura. Cães com cinomose apresentam na epiderme da região ventral uma dermatite vesicular que se transforma em pústulas. Em bovinos aparecem na febre aftosa: uma doença viral altamente infecciosa caracterizada por formação de vesículas que se contaminam e constituem as pústulas. Podem ocorrer ainda no exantema vesicular, na febre catarral maligna, doença das mucosas e outras. Empiema é uma coleção de pus numa cavidade, geralmente ocorre na cavidade torácica de gatos, ou de qualquer individuo com baixa resistência ou ainda com alguma causa predisponente. As células imflamatórias se acumulam nos espaços subdural e subaracnoide localizados entre as meninges (Fig 09). Fig 09 – Empiema torácico em um equino. 86 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Maguito perivascular é o acúmulo de células no espaço virtual de Virchow-Robin localizado envovendo os grandes vasos no sistema nervoso central (Figura 10). A presença de infiltrado nas meniges indica meningite; e manguito perivascular indica encefalite. Se estiver presentes em ambos indicam meningoencefalite. Se for células do tipo neutrófilo indicam inflamação supurada bacteriana. Fig. 10 – Encefalite supurada aguda em um cão. Observar () manguito perivascular neutrofílico e dilatação do espaço de VIRCHOW-ROBIN (edema). Coloração Shorr. 20X. A inflamação pode ser classificada em aguda e crônica. A inflamação aguda é caracterizada pela hiperemia ativa que produz todos os sinais clínicos: rubor, tumor, calor, dor e perda de função. Quando incicia-se o processo inflamatório com o maior fluxo de sangue surge rubor, que é vermelhidão; com a exsudação de células e liquidos para os tecidos, surge o tumor; com a maior quantidade de sangue passando pelos vasos surge o calor; ao comprimir as terminações nervosas da derme aparece a dor; finalmente ao proteger a área afetada vê-se perda de função. A inflamação crônica é caracetrizada pela invasão de tecido conjuntivo fibroso. “O agudo é tratável, o crônico é incurável”. Febre é uma síndrome, o quer dizer um conjunto de sintomas: dor de cabeça, taquicardia, taquipneia, dor no corpo e elevação da temperatura. No hipotálamo está localizado o centro de controle da regulação térmica. Substancias químicas que provocam a febre são denominadas pirogênicas: interleucina-1; componentes protéicos liberados pelos neutrófilos e bactérias gram posivas. Reparação é a recuperação total ou parcial dos tecidos que foram lesados, que pode ser feita por regeneração e cicatrização. Inicia-se nas primeiras horas da agressão e termina com a 87 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . lipeza total da área lesada. As células e os exsudatos são importantes no processo de repação. Regeneração é a reconstrução do tecido perdido por outro da mesma origem: pele por pele; osso por osso. A regeneração é notável em animais inferiores: hidras e outros celeterados. As minhocas conseguem se regerar após ser cortadas ao meio. A epitelização é uma condição fundamental para reconstrução da pele. As células epiteliais apresentam esta característica: dividir e em 12 horas pequenas feridaspodem ser totalmente recuperadas. As feridas dos animais recuperm mais rapidamente quando são labidas: a saliva apresenta fator que acelera a regeneração. Quem controla a regeneração são os calônios: polipepitidios e glicoproteinas, presentes nas células. A cicatrização é o processo de substituição do tecido lesado por tecido conjuntivo fibroso, que recebe o nome de fibrose. A cicatrização se dá por primeira e segunda intenção. A cicatrização por primeira intenção se dá quando a ferida é pequena ou quando as bordas da mesma são unidas por sutra. Por segunda intenção se dá quando a ferida está aberta, geralmente é grande. O processo se dá de dentro para fora, ou contrário da primeira (de fora para dentro), envolvendo formação de tecido conjuntivo fibroso em abundância e neoformação vascular, constituindo o que se chama tecido de granulação (Figura 11 a, b, c e d), onde os capilares se organizam em forma de leque e se distribuem pelo tecido conjuntivo formando uma verdadeira esponja, que se sangra com facilidade. É comum verificar sua presença nos eqüídeos que quase sempre recuperação suas feridas por meio da cicatrização denominada segunda intenção. 88 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig 11 – (a) Tecido de granulação no membro posterior esquerdo de um equino. Fig. 11 – (b) Tecido de granulação localizado em uma ferida na pele e subcutâneo de um cavalo. Observar () vasos sanguíneos em meio ao tecido conjuntivo fibroso. Coloração HE. 10X. Fig. 11 – (c) Tecido de granulação localizado em uma ferida na pele e subcutâneo de um cavalo. Observar () vasos sanguíneos em meio ao tecido conjuntivo fibroso. Coloração HE. Fig. 11 – (d) Tecido de granulação localizado em uma ferida na pele e subcutâneo de um cavalo. Observar () vasos sanguíneos em meio ao tecido conjuntivo fibroso. Coloração HE. 10X. Nomenclatura da inflamação: coloca-se o sufixo ite no radical da palavra que deu origem ao nome do órgão. Segue alguns exemplos: abomasite (abomaso); acrobistite (glande e prepúcio); arterite (artéria); balanite (glande peniana); balanopostite (glande e prepúcio); bronquite (broquios); bursite (bolsa); ceratite (córnea); colangite (ductos biliares); colicistite (vesicula biliar); colite (colo); conjuntivite (conjuntiva ocular); cistite (bexiga); dermatite (pele); diverticulite (divertículo); encefalite (encefalo); endocardite (endocardio); enterite (intestino); esplenite (baço); estomatite 89 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . (boca); espondilite (vertebras); flebite (veias); gastrite (estômago); gengivite (gengiva); glossite (língua); hepatite (fígado); irite (Iris); linfadenite (linfonodo); linfangite (vasos linfáticos); mamite (glândula mamaria); metrite (útero); miocardite (miocardio); miosite (músculo); nefrite (rins); neurite (nervo); ooforite (ovário); orquite (testiculo); osteíte (osso); osteomielite (medula óssea); otite (orelha interna e externa); paquidermite (dura mater); pericardite (percardio); peritonite (peritônio); pleurite (pleura); proctite (reto); postite (prepúcio); prostatite (próstata); queilite (lábio); reticulite (reticulo); reticulopericadite (reticulo e pericárdio); rinite (fossas nasais); ruminite (rume); salpingite (tuba uterina); sinusite (seios sinusoides); tonsilite (tonsila); tiflite (ceco); vaginite (vagina); valvulite (valvulas). Excessão: pneumonia (pulmão); pleurisia (pleura). 90 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . EM OUTRAS PALAVRAS Inflamação é um processo defensivo contra todos agressores físicos, químicos e biologicos. É a garantia de vida no planeta; o mais completo mecanismo de defesa envolvendo células do sangue, células dos tecidos e anticorpos. Cada célula desenpenha uma função: neutrófilos e monócitos são fagocitárias; eosinofilos possuem granulações tóxicas contra os parasitas, linfócitos r plasmocitos produzem anticorpos; mastócitos e granulócitos produzem histamina. Exsudato é o liquido da inflamação constituída de leucócitos, proteínas, plasma e bactérias. É o liquido do edema inflamatório, diferente do transudato: liquido do edema não inflamatório, não contem neutrófilos, tem poucas proteínas e não tem bactérias. A inflamação aguda é tratável, existem os antiflamatorios que atuam sobre os efeitos indesejáveis e limitando a ação do processo inflamatório. São os corticóides produzidos pelo organismo e os sintéticos usados quando uma inflamação excede. Nos casos de infecção é necessário o uso de antibióticos para combater o agente infeccioso. Lembrar que: toda infecção é uma inflamação, mas nem toda inflamação é uma infecção. A inflamação crônica é incurável, pode até ser tratada, mas não há cura: você remedia, o individuo sobrevive, mas continua carregando a inflamação crônica. Exemplo: granulomas do tipo tuberculose, actinomicose, etc. O que caracteria uma inflamação crônica é a invasão de tecido conjuntivo fibroso; o que caracteriza uma inflamação aguda é a hiperemia ativa. 91 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é inflamação? 2- Quais são os mediadores químicos da inflamação? 3- O que é leucodiapedese? 4- O que caracteriza uma inflamação aguda? 5- O que caracteriza uma inflamação crônica? 1- Inflamação é uma resposta vascular, celular e humoral contra todos agressores. 2- Histamina, prostaglandina, plasmina, cininas, etc. 3- Leucodiapedese é o transporte de leucócitos através dos poros dos vasos. 4- A inflamação aguda é caracterizada pela hiperemia ativa 5- A inflamação crônica é caracterizada pela invasão de tecido conjuntivo fibroso. BIBLIOGRAFIA CHEVILLE, N. F. Introdução à patologia veterinária. Editora Roca, 2004. 334p. MONTENEGRO, R. M, FRANCO, M. Patologia processos gerais. 3ª Ed. Atheneu São Paulo, SP. 1992. 263p. THOMSON, R. G. Patologia geral veterinaria. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1983. 412p. 92 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . GRANULOMA Granuloma é um processo inflamatório crônico, nodular, específico, comandado pelas células do sistema monocítico fagocitário. O termo granuloma refere-se à formação de grânulos ou pequenos nódulos, ou simplesmente nódulos. É um processo inflamatório crônico porque envolve todos os mecanismos de defesa que o organismo se dispõe para reagir contra um agressor que não se rende e se perpetua provocando formação de necrose, mineralização e invasão de tecido conjuntivo fibroso. É específico por traduzir características próprias capazes de permitir o diagnóstico macro e microscópico. E finalmente é comandado principalmente pelas células do sistema monocítico fagocitário que tem em sua linha de frente as células epitelioides e gigantes. Durante a invasão dos macrófagos na área afetada, ocorre na medida em que vão fagocitando, o emparelhamento destas células com se fossem epitélios, vão tornando-se espumosas pelos detritos fagocitados, e recebem por esta aparência o nome de células epitelioides. Nas lesões granulomatosas são encontrados os linfócitos e plasmócitos: células produtoras de anticorpos, mais uma tentativa que o organismo se dispõe tentando debelar o agente agressor, porém sem muito sucesso, uma vez que a reação crônica por si só dificulta a limpeza total dos detritos e resíduos envolvidos por tecido conjuntivo fibroso. Quando o agressor é um fungo, bactéria ou larva de parasitas, os macrófagos se capacitam tornado células maiores, com citoplasma grande e múltiplos núcleos. Estas células são denomindas gigantes. São multinucleares podem possuir até 200 núcleos. Há dois mecanismos de formação destas células: sincício que é a fusão de várias células, formando um modelo de ferradura, sendo denominadas de gigante tipo Langhans: uma homenagem ao patologista alemão. O estímulo para fusão destes macrófagos vem dos linfócitos T, que produzem uma proteína para esta finalidade.alterações regressivas, alterações circulatórias, alterações inflamatórias e alterações progressivas). Uma alteração post-mortem ou de qualquer natureza, será estudada por si só, não importa o seu desdobramento (exemplo: hipoplasia de um órgão é o desenvolvimento incompleto do mesmo; agenesia é a ausência de formação de um determinado órgão). Patologia especial é a aplicação de todo conhecimento das alterações estudadas nos órgãos envolvendo os sistemas e aparelhos. Desta forma, todas as alterações post-mortem, congênitas, regressivas, circulatória, inflamatórias e progressivas, serão analisadas dentro de cada sistema e aparelho, assim sendo: dentro do sistema cardiovascular estudam-se as alterações, no coração e vasos sangüíneos (exemplo: agenesia do coração é chamada acardia; quais são suas implicações; qual é a correlação clínicopatológica?). Resumidamente, patologia especial é a aplicação de toda patologia geral dentro dos diferentes sistemas (cardiovascular, respiratório, digestório, fígado, pâncreas, peritônio, nervoso central, urinário, hemocitopoiético, locomotor, glândula mamária e outros). Este livro não contempla todos os sistemas, achamos que alguns são tão específicos, que já estão detalhados em suas especialidades como é o caso do sistema genital masculino e feminino. Procuramos enfatizar, sempre quando possível à correlação clínicopatológica. Ela é a forma de ver o morto e entender o vivo. Penso que podemos dissecar o vivo sem ao menos por lhe as mãos, basta saber interpretar suas reações para poder entender o que se passa no organismo. Somos guardiões da saúde animal e para isso temos que ter competência. Para ter competência é preciso conhecimento e isto se adquire estudando. Não devemos concentrar nossos esforços em um só 2 PATOLOGIA VETERINÁRIA. . . . . . . . . . ponto, é preciso ver o conjunto. Por isso, comece estudando anatomia, histologia, fisiologia, bioquímica, imunologia, patologia e quando chegares à clínica me dará razão (COELHO, H.E.). BIBLIOGRAFIA BACHA JR, W. J; BACHA, L. M. Atlas colorido de histologia veterinária. 2ª edição, Roca, São Paulo, 2003, 457p. CHEVILLE, N. F. Introdução à Patologia Veterinária. Ed. Manole Ltda, São Paulo, 1993. 556p. COELHO, H. E. Patologia Geral Veterinária. 2ª ed. Gráfica Impresso, Uberlândia, 2000. 150 p. DUKES, A. H. H. Fisiologia dos Animais Domésticos, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1984. 799 p. GARCIA, J. 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Teresina, Universidade Federal do Piauí: 1987. 81 p. - PATOLOGIA GERAL - CONCEITOS .................................................................................................................................................... 3 NECROPSIA ................................................................................................................................................... 4 ALTERAÇÕES POST-MORTEM ................................................................................................................ 9 ALTERAÇÕES REGRESSIVAS ................................................................................................................. 13 ATERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO ............................................................................................... 13 ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS .................................................................................................................. 18 DISTURBIOS DO METABOLISMO CELULAR ..................................................................................... 19 DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DAS PROTEÍNAS ....................................................................... 19 DISTÚRBIO DO METABOLISMO DOS LÍPIDES ................................................................................ 29 DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DOS CARBOHIDRATOS .......................................................... 33 DISTÚRBIOS DO METABOLISMO MINERAL .................................................................................... 36 DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DOS PIGMENTOS ...................................................................... 43 NECROSE ..................................................................................................................................................... 54 APOPTOSE .................................................................................................................................................. 59 GANGRENA ................................................................................................................................................. 59 ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS ........................................................................................................... 63 INFLAMAÇÃO ............................................................................................................................................. 77 GRANULOMA ............................................................................................................................................. 92 TUBERCULOSE .......................................................................................................................................... 97 ALTERAÇÕES PROGRESSIVAS .............................................................................................................. 99 NEOPLASIA .............................................................................................................................................. 101 -PATOLOGIA ESPECIAL- SISTEMA CARDIOVASCULAR ............................................................................................................. 112 CORAÇÃO ................................................................................................................................................... 112 PERICÁRDIO ............................................................................................................................................. 117 MIOCÁRDIO .............................................................................................................................................. 123 ENDOCÁRDIO ........................................................................................................................................... 126 ARTÉRIAS .................................................................................................................................................. 130 VEIAS ...........................................................................................................................................................As células gigantes podem ser formadas por meio de plasmódio: dividi-se o núcleo em vários outros dentro do mesmo citoplasma. Um exemplo disto verifica-se nas infecções fúngicas, onde o metabólito citocalasina produzido pelo Aspergillus spp afeta a divisão celular inibindo a citocinese, sem afetar cariocinese, resultando na formação de células gigantes com múltiplos núcleos em um só citoplasma, são denominadas células gigantes tipo corpo estranho. Além dos macrófagos, células epitelioides, células gigantes, estão presentes nos granulomas, dependendo da natureza do agressor, as seguintes células: neutrófilos, linfócitos, plasmocitos e eosinofilos. É comum observar áreas de necrose caseosa na maioria dos granulomas, sendo que em alguns estão presentes a mineralização distrófica. Segundo Jadassohn e 93 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Levandowisk, a formação de um granuloma depende: da quantidade do agressor; da patogenicidade do mesmo; da resistência natural e adquirida do organismo. Todos estes itens são importantes isolados ou associados, o que quer dizer que não se pode espor aos microorganismos, independente do seu poder de infecção e quantidade, sabendo que o organismo pode não dispor de imunidade suficiente. Etiologia dos granulomas: fungos: [Histoplasma capsulatum e Sporothrix schenckii (Figura 01 a, b e c)]; bactérias [Mycobacterium tuberculosis (Figura 01 d e e) e Staphylococcus aureus]; protozoários (Toxoplasma gondii); e os chamados granulomas do grupo actinomicoticos que são quatro: actinomicose provocada pelo Actinomyces bovis; actinobacilose provocada pelo Actinomyces lignierese; botriomicose provocada pelo Staphylococcus aureus; nocardiose pela Nocardia spp. Este grupo tem em comum as chamadas rosêtas ou druzas (Figura 01 f e g). Elas representam uma área de necrose caseosa no centro da lesão. A actinomicose nos bovinos afeta pricipalmente o osso da mandíbula provocando a chamada mandibula encaroçada; a actinomicose também nos bovinos provoca a chamada língua de pau; a botriomicose nos suínos e eqüinos provoca: pisadura dos arreios, cordões cirróticos e mamite; a nocardiose afeta especialmente cães e gatos provocando pneumonias graves. Fig.01 – (a) Granuloma micótico – Esporotricose – Sporothrix schenckii localizado no tecido subcutâneo de um cão (). Coloração HE. 10X. Fig.01 – (b) Granuloma micótico – Esporotricose – Sporothrix schenckii localizado no tecido subcutâneo de um cão (). Coloração HE. 20X. 94 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 01 – (c) Granuloma micótico - Esporotricose – Sporothrix schenckii localizado no tecido subcutâneo de um cão (). Coloração HE. 20X. Fig. 49 – (d) Tuberculose. Tuberculose pulmonar em bovino mestiço, com 8 anos de idade, macho. Observar nódulos caseosos. Fig.01 – (e) Granuloma. Tuberculose localizada no linfonodo de um bovino. Observar células gigantes e células epitelióides. Coloração HE. 20X. Fig. 01 – (f) Mandibula encaroçada em bovino. Fig. 01 – (g) Granuloma.Actinomicose localizada no linfonodo de um bovino. Observar “rosetas” ou “druzas” e “claves de sol” ou “bastão de basebol” (). Coloração HE. 20X. 95 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . EM OUTRAS PALAVRAS Granuloma é inflamação crônica. O melhor exemplo de granuloma é tuberculose que foi o primeiro a ser estudado em sua profundidade. As pricipais causas são: batérias, fungos, protozoários e corpos estranhos. As células que combatem no processo inflamatório crônico do granuloma são os macrófagos: células fogocitarias que em condições especificas se adapitam formando as células epitelioides, células gigantes tipo Langhans e gigante tipo corpo estranho. Os granulomas são assim chamados por formar nódulos ou grânulos. A terminologia “oma” significa neoplasia, porém granuloma não é neoplasia, mas forma nódulos. Alguns exemplos de granuloma: tuberculose, brucelose, histoplasmose, toxoplasmose, granuloma eosinofilico nasal de bovinos, granuloma por corpos estranhos, botriomicose, actinomicose, actinobacilose, nocardiose, blastomicose, criptococose e rinosporidiose. 96 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é granuloma? 2- Quais são as células que atuam nos granulomas? 3- Cite quatro importantes granulomas. 1- Granuloma é um processo inflamatório crônico, nodular, especifico no qual as células atuantes pertencem ao sistema monocitico fagocitário. 2- Celulas gigantes multinucleares, células epitelioides, macrófagos, linfócitos, plasmocitos, neutrófilos e eosinofilos. 3- Tuberculose, actinomicose, botriomicose e actinobacilose. 97 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . TUBERCULOSE Tuberculose é o primeiro granuloma estudado e reconhecido. A palavra tubérculo significa nódulo: é o que caracteriza a enfermidade. Existe a chamada tuberculose esxudativa que pode ocorrer nas serosas: pleura, pericárdio e peritônio. Porém o tipo mais severo é o que denominamos tuberculose perlada ou miliar, geralmente disseminada pelas serosas que revestem internamente as cavidades e as vísceras. Trata-se de uma doença infecciosa dos mamíferos e aves, sendo que os humanos são os pricipais envolvidos, contituindo uma zoonose que vai e vem nas estatísticas sobre saúde, uma vez que atua concomitantemente com outras enfermidades debilitantes que provocam queda da imunidade, favorecendo a ação do agente etiológico da tuberculose. É causada pelo Micobacterium tuberculosis, uma bactéria do tipo bacilar: bacilo ácido álcool resistente. A porção antigênica é a lipídica. É uma bactéria sorrateira que entra por várias portas: respiratória, digestiva e cutânea sem fazer alarde, quando o organismo começa manifestar seus primeiros sinais clínicos, a doença já se instalou de vez, não dando chance para uma retomada eficiente das condições ideais de saúde, o quer dizer não se cura uma enfermidade como esta porque é crônica: incurável, podendo até ser tratada com objetivo de impedir sua expanção e amenizar suas conseqüências. Segundo Jadassohn e Levandowisk: a tuberculose para se intalar em um individuo depende de três fatores: da quantidade da bactéria; da patogenicidade; e da resistência natural ou adquirida pelo organismo. Macroscopicamente o que caracteriza a doença são os tubérculos: nódulos duros, de vários tamanhos, quando cortados range ao contato com a faca e exibe uma substância amarelada levemente ressecada tipicamente uma necrose caseosa (Figura 01 a). A necrose caseosa é observada com freqüências durante o abate de bovinos, na maioria das vezes apresenta-se mineralizada: o que conhecemos como mineralização distrófica. Os pricipais órgãos afetados em bovinos são linfonodos, fígado, baço, pulmão. A tuberculose perlada ocorre nas serosas (Figura 01 b). Difrente do que ocorre em humanos onde os pulmões são os principais alvos. Microscopicamente, o tubérculo é considerado típico quando apresentar a trilogia: células gigantes tipo Langhans, necrose caseosa e mineralização. A enfermidade está espalhada pelo mundo: Nova Zelândia (0,24% de animais positivos); Equador (3,7%); Argentina (4,4); Portugal (0,01 e 0,04% de animais posivos, respectivamente: corte e leiteiro); Cuba e Panamá a enfermidade foi irradicada, estes dados são do ano 2000, novos levantamentos estão sendo realizados no mundo todo. No Brasil vários focos da 98 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . doença foram diagnosticados em diferentes Estados da Federação, só em Minas Gerais no ano de 2000, havia 18, sendo que todos já foram controlados pelo Ministerio da Agricultura e Pecuária. Fig 01 – (a) Fígado com necrose caseosa na turberculose bovina Fig. 01 – (b) Tuberculose perlada na pleura parietal de um bovino. Gentileza: Cayque Emmanuel de Oliveira BIBLIOGRAFIA HEINEMANN, M. B; MOTA; P. M. P. C; LOBATO, F. C. F; LEITE,R. C; LAGE; A. P. tuberculose bovina: introdução à etiologia, cadeia epidemiologica, patogenia e sinais clinicos. Cad. Téc. Vet Zoot. V.59, p. 1-101, 2008. KANTOR, I.N. The status of bovine tuberclosis in Latin America and the Caribbean. Special Publication Pan American Zoonoses Centrer, Buenos Aires, v8, n22, p20, 1988. LUCIO, W. F; COELHO, H. E; LUCIO, N. F. Tuberculose bovina. Monografia, Universidade Federal de Uberlândia, 1995. 12p. MANZANO, M. B; COELHO, H. E. 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Isto acontece pricipalmente no músculo estriado e cardíaco dos atletas. A hipertrofia compensatória é observada quando há uma lesão grave em um dos órgãos pares (por ex: rins), o rim que não foi afetado hipertrofia-se no intuito de compensar a função prejudicada daquele orgão afetado. Hiperplasia é o aumento do órgão quando há aumento do número de células, que são consideradas qualitativamente normais do ponto de vista funcional. Uma importante causa é irritação constante sofrida pelo tecido. Órgãos hormonialmente dependentes como: útero, próstata, glândula mamaria sofrem alterações no seu tamanho conforme ocila a taxa de hormônio na corrente sanguinea. O útero quando se prolonga a estimulação hormonal por um tempo determinado ocorre a chamada hiperplasia do endométrio. É o caso do uso constante de anticonsepcionais em cadelas. A hiperplasia prostática em cães tem uma relação com a estimulação do hormônio testosterona. A castração tem se mostrado eficaz no controle da mesma. A glândula mamaria sofre hiperplasia durante a gestação pela ação dos hormônios. Metaplasia é a transformação de um tecido em outro desde que da mesma origem embrionária: tecido epitelial só se transforma em epitelial; tecidos oriundos do mesenquima só se transformam em tecido derivados do mesenquima. Epitélios prismáticos dos bronquios quando irritados sofrem metaplasia em tecido pavimentoso estratificado e até mesmo ceratinizado. Vaso sanguineos de gande calibre que estão sobre alta pressão constante, sua parede muscular sofre metaplasia em tecido ósseo. É o que denominamos ossificação patológica. Próstata de cães velhos com hiperplasia constantemente sofre metaplasia do epitélio gladular em escamoso. 100 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Displasia é o desenvolvimento anormal por distúrbios de natureza diversa, seja de origem nutricional ou agressões diversas como poluição. Anaplasia é a desdiferenciação de uma célula qualquer que já tenha sofrido maturação e por interferência alheia é estimulada a retornar a fase imatura com capacidade totipotente. Neoplasia é a formação de novas células em locais inapropriados e sem finadade alguma. A presença de grande quantidade de células anaplasicas indica que o crescimento da neoplasia é rápido e a natureza é maligna. Teratologia é o estudo das malformações que ocorrem durante o desenvolvimento (Fig. 02). Animais que vivem em áreas poluídas estão sujeitos a indução destas alterações, o contato com poluentes, vírus, toxinas de bactérias são causas importantes, quando a gestante convive com estes. A ingestão da planta toxica Veratrum calcifornicum por ovelhas durante a gestação por volta do décimo segundo dia, induz malformação do tipo anencefalia. As drogas de um modo geral são indutoras de malformações. Fig. 02 – Xifópagos suíno. 101 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . NEOPLASIA Sinonimia tumor, câncer, blastoma e neoplasma. É uma massa anormal de crescimento atípico sem finalidade biológica. Seu crescimento é espontâneo, progressivo e incontrolável com características morfológicas próprias. A célula neoplásica resulta da multação somática e da desdiferenciação aberrante. Toda célula é capaz de sofrer mitose, havendo um mecanismo controlador que inibe constantemente quando ultrapassa o limite desejável. Nas células neoplásicas os fatores inibidores não conseguem impedir esta divisão celular resultando na formação de um nódulo: grupo de células neoformadas e descontroladas. A célula neoplasia é denominada oncócito, a ciência que estuda as neoplasias: oncologia; o especialista: oncologista. Uma neoplasia é considerada primária quando se estabelece em algum órgão. É considerada secundária quando chega a um determinado órgão por meio de metástase. O que define o grau de malignidade de uma neoplasia são suas características. Elas dependem diretamente das causas e fatores individuais. Etiologia tem como pioneiro na sua descoberta um Austríaco, médico veterinário, que se mudou pra Alemanha, conhecido como Joseph Marek. Ele conseguiu isolar o vírus de um dos pricipais linfoma das aves que recebeu seu nome: enfermidade de Marek (Fig. 03). A partir desta descoberta, várias neoplasias do tipo linfoma foram se enquadrando no mesmo perfil e se revelando todas de origem viral: o retrovírus da leucose aviária; o herpes vírus da doença de Marek; o vírus da leucemia felina; o vírus da papilomatose oral canina e da pele dos bovinos que também é causador do sarcoide eqüino. Fig. 03 – Marek cutânea em ave de corte. 102 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . O TVT (tumor venéreo transmissível) (Fig. 04) por muito tempo foi tido como provável causa viral. Atualmente esta hipótese foi descartada, acredita-se ser provocado por um oncócito que tem a capacidade de se perpetuar por várias gerações e transmitir de um canídeo para outro apenas pelo contato direto. Fig. 04 – Tumor venéreo transmissível (TVT) ou tumor de STICKER em um canino adulto. Coloração HE. 40X. O raio X foi outra causa de neoplasia que demorou ser descoberta. Os indivíduos que manipulavam este aparelho foram as primeiras vítimas em apresentar neoplasias em diferentes partes do corpo. Hoje com esta descoberta foram criadas normas especiais para quem trabalha nesta área. Os raios solares são importantes causas de neoplasias, especialmente os infravermelhos: aqueles que aparecem no período mais quente do sol (das 10 às 16 horas). A pele é o alvo com o aperecimento de carcinomas de células basais e escamosas, além de melanomas. Indivíduos de pele clara são as principais vítimas. Substâncias químicas são capazes de alterar o DNA das células por transcriptase reversa. O uso freqüente de aromatizantes, acidulantes e conservantes nos alimentos têm proporcionado o aparecimento de neoplasias especialmente no trato gastrointestinal. As micotoxinas produzidas por fungos (Aspergillus flavus) como aflatoxinas encontradas nos grãos de milho, amendoim e ouros são importantes causas de neoplasias no fígado. Os pesticidas agrícolas encontrados nas vegetais e na carne são importantes fontes de neoplasias observadas no sistema digestório. 103 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . A samambaia (pteridium aquilinum) apresenta um fator carcinogênico quando ingerida de forma constate e repetidas vezes, promovendo neoplasia do tipo carcinoma de células escamosas na base da língua e hemangioma nos vasos da bexiga. Este quadro nosológico édenominado hematúria enzoótica dos bovinos. O parasita Spirocerca lupi provoca sarcoma na parede do esôfago de cães, devido à irritação constante. Os hormônios são incriminados como causa de neoplasia na glândula mamária, útero e próstata. Fatores congênitos foram comprovados como causas de neoplasias: nefroma embrionário e rabdomioma em suínos; mesotelioma e linfoma em bovinos. Causas predisponentes são aquelas que favorecem o aparecimento das neoplasias, tais como: idade – as neoplasias são mais comuns nos indivíduos idosos; raça – osteossarcoma são mais comuns nos cães das raças de grande porte; carcinomas nas pálpebras são comuns em bovinos da raça hereford, por apresentar as mucosas rosadas; sexo – as neplasias de glândula mamaria são muito mais freqüentes nas fêmeas do que nos machos da espécie canina, semelhante o que ocorre na espécie humana; imunidade – a papilomatose oral canina que se instala na cavidade oral e a papilomatose cutânea de bovinos são mais comuns em indivíduos jovens que ainda não adquiriram imunidade suficiente para impedir a enfermidade; localização – as neoplasias de pele são mais freqüentes nos caninos e eqüinos, as neoplasias do sistema hemocitopoietico são mais comuns nos felinos e aves; hereditariedade – algumas famílias estão sujeitas a manifestarem determinadas neoplasias, demonstrando assim a influência de fatores hereditários (isto já foi comprovado experimentalmente em famílias de camundongos). Nomenclatura e classificação – o sufixo “oma” é usado para designar qualquer neoplasia. Usa-se ao radical que deu origem ao nome do órgão, por exemplo: hepato + oma = hepatoma, o que quer dizer uma neoplasia do fígado. Uma neoplasia é considerada simples quando atinge somente um tecido: fibroma atinge somente o tecido conjuntivo fibroso. Uma neoplasia é considerada composta quando os tecidos afetados têm origens diferentes: o teratoma é constituído por vários tecidos embrionários. A neoplasia é considerada mista quando apresentam duas origens diferentes seus tecidos afetados: tumor misto mamário, o tecido glandular é atingido juntamente com o 104 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . estroma que pode por metaplasia formar cartilagem e até mesmo tecido ósseo. Neoplasia primária múltipla aparece ao mesmo tempo no mesmo individuo vários tipos diferentes e independentes (papiloma, osteoma, fibroma, etc). Uma neoplasia é tida como benigna quando não causa demasiados danos ao paciente: tem crescimento lento, possue cápsula, não é invasivo, não é recidivante, tem poucas figuras de mitose, não dá metástase, é pedunculado, possue estroma abundante, bastante irrigação e de fácil exerese, suas células aproximam-se do padrão normal. Todas são escritas colocando somente o sufixo oma, por exemplo: adenoma (Fig. 05 a), fibroma, lipoma, osteoma, condroma, papiloma (Fig. 05 b e c). Fig. 05 – (a)Adenoma mamário em cadela. Coloração HE. 10X. Fig. 05 – (b) Papiloma. Detalhe microscópico da papilomatose. Coloração HE. 10X. Fig. 05 – (c) Papiloma na língua de um bovino. Neoplasia malígna é aquela que conspira contra o paciente, geralmente destrói o tecido normal se dissemima para todo o órgão e metastasia para o restante do corpo. Não possue cápsula, 105 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . é invasiva, tem crescimento rápido, apresenta muitas figuras de mitose, dá recidiva com freqüência, dá metástase quase sempre, tem pouco estroma e pouca irrigação, seu crescimento é incontrolável, pois suas células são desdiferenciadas. Somente dois termos são utilizados para designar malignidade: carcinoma e sarcoma, isto não quer dizer que todas as neoplasias malignas são assim identificadas, estes termos somente são empregados quando os tecidos são de origem epitelial e mesenquimal respectivamente (Fig 06). Fig. 06 – Osteossarcoma no cranio de um cão. Assim sendo, os carcinomas são neoplasias malignas de origem epitelial: pele e anexos. Para a pele, o termo é simplesmente carcinoma; para os anexos que são as glândulas, usa-se o termo adeno + carcinoma = adenocarcinoma, acrescido do nome da glândula: exemplo – adenocarcinoma mamário, adenocarcinoma de sudorípara, adenocarcinoma pancreático, adenocarcinoma gástrico, adenocarcinoma hepatocelular (Fig. 07 a e b) (o termo adeno = glândula). A versão benigna de uma neoplasia de glândula é adenoma. 106 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 07 - (a) Adenocarcinoma hepatocelular: hepatocarcinoma em bovino. Fig. 07 - (b) Adenocarcinoma hepatocelular: hepatocarcinoma em bovino. Os sarcomas são neoplasias malignas dos tecidos que se originam do mesenquima: conjuntivo, osso, cartilagem, adiposo, músculo liso, músculo estriado e vasos sanguineos. Assim teremos na sequência: fibrossarcoma (Fig. 08 a), osteossarcoma, condrossarcoma, lipossarcoma, leiomiossarcoma, rabdomiossarcoma (Fig 08 b e c), hemangiossarcoma. As neoplasias malignas que não são de origem epitelial e nem do mesenquima são escritas usando a mesma nomenclatura empregada para neoplasias benignas. Para melhor identificá-las utiliza-se o seguinte critério: astrocitoma maligno ou benigno; oligodendroma benigno ou maligno; mastocitoma benigno ou maligno; histiocitoma maligno ou benigno e assim por diante. Fig. 08 – (a) Fibrossarcoma mostrando figuras de mitose e células aberrantes (). Coloração HE. 20X. 107 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 08 – (b) Rabdomiossarcoma em coração de bovino. Fig. 08 – (c) Fotomicrocrafia de rabdomiossarcoma. Coloração HE. 10X Freqüência das neoplasias – indivíduos idosos são os mais susceptíveis: cães acima de oito anos idade têm maior propensão a desenvolver uma neoplasia. Indivíduos jovens apresentam maior risco de apresentarem neoplasia de origem viral: a papilomatose oral canina e da pele dos bovinos são mais comuns em cães novos e bezerros respectivamente (com o crescimento do individuo desenvolve o sistema imunológico, aumentando sua restência contra os agressores biológicos). Os adenocarcinomas gástrico, prostático e uterino são mais freqüentes na espécie humana. O carcinoma broncógeno é comum em humanos e extremamente raro nos animais, confirmando sua etiologia pelo vício oral respiratório. O rabdomioma tem sido descrito com maior freqüência nos suínos. O mesotelioma é relatado frequentemente em bovinos e raramente em cães. O tumor das células da granulosa é comum em vacas e éguas. O melanoma aparece constatemente nos eqüinos, assim como o sarcoide. Disseminação das neoplasias – geralmente as neoplasias benignas não se disseminam: são solitárias, com rara excessão para o papiloma que se apresenta espalhado por toda a pele. As neplasias malignas se disseminam rapidamente pelo órgão e até mesmo por todo organismo. Metástase é o termo empregado referindo-se a disseminação de uma neoplasia malígna por todo corpo. Uma neoplasia metastática é semelhante à neoplasia que lhe deu origem. Metástase é um privilégio esclusivo das neoplasias malígnas. Os carcinomas geralmente dão metástase por via linfática [primeiro vão para os linfonodos (Fig. 09)], enquanto os sarcomas dão metástase por via hematógena (alcançam os pulmões rapidamente). As neoplasias malignas do pulmão, intestino e rins podem se disseminar por vias naturais: brônquios, canal alimentar, ureter e uretra. O tvt tumor 108 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . venéreo transmissível tem a capacidade de se disseminar por implantação direta. Esta é uma característica somente observada neste tipo de neoplasia também conhecida como tumor de Sticker. Com um simples contato da neoplasia com alguma mucosa, seja ela do genital ou outra qualquer, a neoplasia se instala. Já foi diagnosticada nas mucosas das fossas nasais e orofaringe, provavelmente pelo costume dos cães cheirarem e lamber uns aos outros. O osteossarcoma normalmente dá metástase para os pulmões,ele não passa de um osso para outro: se está localizado na tíbia não afeta o fêmur. Fig. 09 – Carcinoma metastático em linfonodo mediastínico de bovino. Efeitos indesejáveis das neoplasias sobre o organismo dependem da localização e da evolução das mesmas. Uma neoplasia mesmo sendo benigna se estiver localizada no cérebro vai provocar danos irreparáveis como paralisia e outras complicações. Se estiver comprimindo algum vaso sanguíneo importante também pode ser fatal para o individuo, mesmo sendo uma neoplasia benigna. Assim sendo qualquer via natural: vias aéreas e urinarias, canal alimentar e medula espinhal podem ser obstruídos e trazerem complicações gravíssimas para o paciente. As neoplasias hormonialmente ativas são aquelas que produzem grandes quantidades de hormônios e de forma incontrolável. Elas são graves nos casos de adenoma ou adenocarcinoma de paratireóide que produz quantidades do paratormônio (hormônio responsável pela reabsorção óssea) que são suficientes para provocar tamanha reabsorção dos ossos chatos da cabeça e provocar uma osteodistrofia fibrosa, devido um hiperparatireoidismo primário. O sertolioma uma neoplasia primaria das células de Sertoli do testículo, em geral é hormonialmente ativo e provoca uma síndrome de feminização pelo excesso de hormônio estrogênio produzindo efeitos danosos ao cão que é capaz de elaborar tamanha quantidade de hormônio feminino semelhante uma fêmea no cio. 109 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . A caquexia da maliginidade é um emagrecimento progressivo, maioria das vezes irreversível que acomete o paciente com neoplasia malígna. Ela se deve em parte pela anorexia devido à depressão do centro do apetite localizado no sistema nervoso central. As células neoplásicas podem sugar todos os aminoácidos essenciais para seu próprio crescimento. A hipoglicemia foi relatada em animais com neoplasias do sistema hemocitopoietico. Há anemia quando as neoplasias invadem a medula óssea e demais órgãos hematopoiéticos, também durante o tratamento quimioterápico. Diarréias intempestivas podem ocorrer nos casos de neoplasias malignas disseminadas. O sistema imune fica comprometido e bactérias patogênicas invadem o trato intestinal de forma constante incapaz de responder a medicação. Febre é sinal clínico indesejável que aparece constantemente em pacientes portadores de neoplasias malígnas, os oncócitos produzem substâncias pirogênicas que induzem à síndrome febril. As massas neoplásicas estão sujeitas a ulcerações, degenerações, inflamações e perfurações. 110 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . EM OUTRAS PALAVRAS As neoplasias são indiscriminadamentes denominadas de câncer: uma palavra que carrega um estigma e porisso bastante comunicativa. Esta palavra deveria ser usada somente para as neoplasias de pele e seus derivados. Sinônimo de câncer é carcinoma: o que significa neoplasia maligna de origem epitelial. Sarcoma quer dizer neoplasia maligna dos tecidos oriundos do mesenquima. De um modo geral o sufixo oma se refere às neoplasias, independentemente se benignas ou malignas. Na maioria das vezes é preciso colocar um adijetivo: benigno ou maligno para caracterizar a referida. As neoplasias têm evolução rápida exige controle, independentemente da etiologia precisa agir rapidamente, em especial nos casos quando a causa for viral, como na leucose enzoótica dos bovinos. A doença tem transmissão vertical e exige um rigoroso controle do rebanho. 111 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é neoplasia? 2- O que é carcinoma? 3- O que é sarcoma? 4- O que é metástase? 5- Quais os efeitos da malignidade? 1- Neoplasia é crescimento atípico sem finalidade biológica. 2- Carcinoma é toda neoplasia maligna de origem epitelial. 3- Sarcoma é neoplasia maligna de tecido oriundo do mesenquima. 4- Metastase é reprodução a distancia de uma neoplasia maligna. 5- Os efeitos da malignidade são: caquexia, febre, anemia, metástase e morte. Bibliografia AMES, B. N. Dietary carcinogens and anticarcinogens. Science 221:1256, 1983. ANDRADE, Z. et al. Patologia – Processos gerais. 3ª ed. Atheneu, São Paulo, SP. 263p. 1992. CHEVILLE, N. F. Introdução à patologia veterinária. Editora Roca, Sâo Paulo, 334p. 2004. MEDEIROS, A. A; COELHO, H. E; MUSSE, G. B; ALBERTO, H; RODRIGUES, E. A; ALVES, P. M. NOVAIS JR, C. B. Ocorrência de neoplasias em bovinos abatidos na região de Barra do Garças, MT. Higiene Alimentar-vol 22-n.159, março 2007. MOULTON, J.E. Tumors in domestic animals. 3ª ed. University of California Press, Berkeley. 672p. 1990. NOVIS, S.A.P. Astrocitomas cerebrais. Rio de Janeiro. FMUFRJ, 193p. 1970. VAN DIJK, J.E.; GRUYS, E.; MOUWEN, J.M.V.M. Atlas colorido de patologia veterinária. 2ª ed. Elsevier LTDA, São Paulo, SP. 200p. 2007. 112 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . -PATOLOGIA ESPECIAL- SISTEMA CARDIOVASCULAR Compreende o coração, artérias, veias e capilares. CORAÇÃO O coração é um órgão muscular cavitário, localizados entre os pulmões, ligeiramente à esquerda da linha mediana da cavidade torácica. Sua parede é formada de três camadas: pericárdio (externa); miocárdio (média); endocárdio (interna). ALTERAÇÕES POST-MORTEM O músculo cardíaco é um dos primeiros a iniciar a rigidez cadavérica. Isto acontece em torno de meia hora. A parede do ventrículo esquerdo é mais espessa favorece a expulsão do sangue retido na cavidade, portanto não tendo sangue, não haverá formação de coágulo. Ao contrario se houver a presença de coágulo neste ventrículo: sugere-se insuficiência cardíaca. Se o coágulo for vermelho é denominado de cruórico, se for amarelo, será lardáceo. A presença deste último indica que houve morte lenta. Embebição sanguínea é a impregnação da cor vermelha brilhante que se dá nas paredes do coração (Fig. 01), pelo contato com o pigmento oriundo da hemoglobina, devido à lise das hemácias. Não confundir com hemorragia intersticial do tipo petequial, sufusão e equimose, elas são delimitadas e definidas, a embebição e difusa. 113 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 01 – Coração de um cão com embebição sanguínea. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Acardia é a ausência de formação do coração. Pode ser uma agenesia (ausência total de formação) ou aplasia (ausência de formação com resquício do órgão). Ocorre nos indivíduos chamados monstros (aquelas que nascem com deformidades gerais, tornando-os incapazes de identificar sua própria espécie). Os animais que vivem em áreas poluídas estão sujeitos ao aparecimento de acardia, que por sua vez torna incompatível com a vida. Hemicardia é a ausência de formação de parte do coração: pode faltar a metade direita, ou a metade esquerda. Ocorrência nos indivíduos "monstros", filhos de pais que vivem em áreas poluídas. As principais causas são irradiações, medicamentos e produtos químicos. Esta é uma alteração incompatível com a vida. Ectopia Cardíaca significa coração fora de sua localização normal. O coração pode estar levemente deslocado para a direita, passando quase despercebida a alteração, ou localizado fora do tórax. Já observamos um caso em que o coração localizava-se no pescoço do animal, ao lado das glândulas tireóides. Trata-se de uma bezerra da raça Holandesa (HPB), que sobreviveu durante 32 meses. Coração supranumerário significa a presença de mais de um órgão no mesmo indivíduo; podendo funcionar ou não, podendo ter dimensões normais ou não; alguns casos são exibidos miniaturas do coração. Podemos encontrar dois, três ou vários órgãos, sem que haja alguma manifestação clínica no animal portador da anomalia. Não é uma alteração comum, normalmente é compatível com a vida. As causas desta anomalia não são bem conhecidas. 114 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Ausência de saco pericárdio é uma alteração em que ocoração apresenta-se desprovido do seu envoltório. O saco pericárdio tem como função proteger o coração contra os atritos, durante os movimentos ritmados e constantes, através do seu conteúdo líquido (o líquido pericárdico) que lubrifica e mantém o coração umedecido. O saco pericárdio também mantém o coração sobre pressão, impedindo sua expansão pela cavidade torácica, caso contrário o órgão tende a sofrer dilatação. Já observamos um caso ocorrido em um cão adulto com cerca de cinco anos de idade, que teve óbito por outras razões. Neste caso observamos dilatação cardíaca bastante pronunciada (Fig. 02). Fig. 02 – Coração de um cão. Ausência de saco pericárdio. Intercomunicação ventricular trata-se de uma abertura no septo interventricular (Fig 03) (aquele que separa o ventrículo direito do ventrículo esquerdo). O tamanho da abertura pode variar, e algumas vezes, o septo pode não estar presente. Quando isto ocorre, o coração recebe o nome de coração trilocular bi atrial. Esta alteração é incompatível com a vida. Da intercomunicação ventricular podemos fazer a seguinte correlação clínico-patológica: como a pressão do ventrículo esquerdo é maior devido à espessura de suas paredes, a tendência é fazer com que o sangue contido nesta cavidade, passe para a cavidade vizinha (ventrículo direito) através do orifício presente no septo. Desta forma o sangue arterial mistura-se com o sangue venoso e acaba retornando para os pulmões, onde se acumula (hiperemia), causando uma enorme resistência, culminando com o refluxo do sangue para o ventrículo esquerdo, provocando uma mistura prejudicial à manutenção da vida, que denominamos de cianose (as mucosas visíveis e exploráveis apresentam azuladas, motivadas, pelo excesso de gás carbônico no sangue). O pulmão repleto de sangue, avermelhado, duro, é denominado cor pulmonale; tradução macroscópica de uma insuficiência cardíaca cuja conseqüência imediata é a instalação de uma hemossiderose (presença de pigmento amarelo 115 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . dourado no interior dos macrófagos alveolares). Para a intercomunicação ventricular recomenda-se como tratamento, somente a correção cirúrgica. Fig 03 – Coração apresentando intercomunicação ventricular Persistência do forame oval (Fig. 04). Normalmente, o forame oval fecha entre a terceira e quarta semanas de vida. É uma abertura natural existente no septo que divide as cavidades atriais, durante a vida fetal, onde o sangue passa normalmente do átrio direito para o esquerdo, uma vez que não tem necessidade de ir até aos pulmões para ser oxigenado, pois este já é puro, e além do mais, os pulmões fetais ainda não funcionam. Pode ocorrer uma abertura extrema (ausência total do septo interatrial), neste caso o órgão recebe o nome de coração trilocular biventricular. Da persistência do forame oval, podemos fazer a seguinte correlação clínico-patológica: o sangue ao chegar ao átrio esquerdo, passa para o átrio direito, através da abertura do forame, aumentando o volume e o trabalho, culminando com a dilatação e hipertrofia da parede do mesmo, o percurso do sangue continua no sentido do pulmão, onde provoca hiperemia, aumenta a resistência, favorecendo o refluxo ao coração (átrio direito), que desta vez, com o aparecimento de cianose (sangue com excesso de gás carbônico, corando as mucosas de forma azulada). Este quadro provoca uma dispnéia (dificuldade respiratória, com movimentos respiratórios forçados). 116 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 04 – Coração de um bovino. Persistência do forame oval. Persistência do ducto arterioso representa uma anomalia do desenvolvimento de grande repercussão clínica. O ducto arterioso é um conduto que liga a aorta à artéria pulmonar, durante a vida fetal, possibilitando a passagem do sangue da artéria pulmonar para a aorta, antes de alcançar os pulmões (afuncionais) do feto. Logo após o nascimento, torna-se indesejável, pois a gora, os pulmões já funcionam, e o sangue não pode passar diretamente pelo ducto arterioso, sem que receba o oxigênio indispensável para a homeostasia. O fechamento do ducto arterioso torna-se imprescindível, e isto se faz a partir do nascimento (não imediatamente, pode levar até um ano para se fechar). Da persistência do ducto arterioso, podemos fazer a seguinte correlação clínico- patológica: considerando que a pressão sangüínea do lado esquerdo é maior, o sangue arterial sai do ventrículo esquerdo e através do ducto, alcança a artéria pulmonar, misturando-se com o venoso, aumentando o trabalho do ventrículo direito, que por sua vez sofre hipertrofia e posteriormente dilatação. O pulmão começa a receber mais sangue do que o normal: hiperemia aumenta a resistência e o sangue agora, é forçado a passar da artéria pulmonar, em direção a aorta, através do ducto arterioso. Neste momento, promove-se uma mistura de sangue: venoso e arterial, levando à cianose e dispnéia. Pode provocar um sopro característico conhecido pelo seu ruído como "locomotiva da serra" ou "trem no túnel". O tratamento recomendado é o cirúrgico. Tetralogia de Fallot trata-se de quatro alterações diferentes que ocorrem simultaneamente no mesmo coração: intercomunicação ventricular; dextroposição da aorta; estenose da artéria pulmonar; hipertrofia do ventrículo direito. Estas alterações são resultantes da má formação do coração, motivadas por uma interminável soma de causas, porém quase todas ainda desconhecidas. O coração é um dos primeiros órgãos a se formar no indivíduo, são tantas as interferências que este pode estar submetido: medicamentos, vírus, produtos químicos e radiológicos. A intercomunicação 117 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ventricular parte da tetralogia de Fallot, geralmente ocorre na parte alta do septo interventricular. A dextroposição da aorta compreende um deslocamento da mesma para o lado direito, cruzando com a artéria pulmonar. A estenose da artéria pulmonar é bastante visível pela extravagante redução do lume do vaso em questão, além do espessamento de sua parede. A hipertrofia do ventrículo direito é notória pelo espessamento da parede e redução da câmara cardíaca interna. Da tetralogia de Fallot podemos observar a seguinte correlação clínico-patológica: dispnéia, debilidade e crescimento retardado do indivíduo. As maiores conseqüências observadas são oriundas da intercomunicação ventricular alta. O tratamento é cirúrgico. Hematomas congênitos são cistos milimétricos, medindo cerca de quatro a oito mm de diâmetro, repleto de sangue, localizados nas válvulas cardíacas, de ocorrência comum nos bezerros, onde normalmente desaparecem com a maturidade do animal. São raros em outras espécies, e não apresentam nenhuma interferência no desempenho das válvulas, constituindo em um achado de necropsia. Relatamos um caso de hematoma congênito localizado na valva mitral de um cão, com seis meses de idade, do sexo masculino, sem raça definida. Durante a necropsia, observamos a presença de um cisto repleto de sangue na valva mitral, medindo aproximadamente oito mm de diâmetro. Esta alteração é denominada hematoma valvar de origem congênita, freqüente em bovinos, rara em cães. PERICÁRDIO Pericárdio é uma importante serosa que envolve o coração, semelhante a um saco membranoso, constituído por duas paredes: parede externa aderida aos vasos que saem do coração; ao diafragma e ao esterno; parede interna envolve o coração, representa a porção visceral do pericárdio, enquanto a parede externa representa a porção parietal do pericárdio. Entre as porções: visceral e parietal existe pequena quantidade de líquido (líquido pericárdico) que tem como função, lubrificar as superfícies em contato, impedindo atrito entre elas, durante os movimentos do coração. O pericárdio está sujeito a várias alterações, sejam elas congênitas ou adquiridas. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS 118PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Hidropericárdio é o acúmulo de líquido citrino (pode ser avermelhado), normalmente sem cheiro e inodoro, dentro da cavidade pericardiaca (Fig. 05). As causas são as mais variadas possíveis: hipoproteinemia considerada como sendo a mais comum. As conseqüências podem não ser perceptíveis aos olhos dos clínicos e patologistas, a não ser que, a quantidade de líquido seja tão grande, que interfira nos movimentos cardíacos, (faz parte do edema geral). Fig 05 – coração de um cão apresentando hidopericardio. Hemopericárdio é a presença de sangue dentro da cavidade pericardíaca, resultante de uma hemorragia. O líquido é de coloração avermelhada e há presença de coágulo. As causas de hemopericardio são as mesmas de qualquer hemorragia: rexe por contusão ou rompimento de vaso; diabrose por ulceração vascular nos casos de neoplasias, inflamações e outros. As principais conseqüências são aquelas que interferem com os movimentos cardíacos e predispõem a aderências e contaminações secundárias. Hemorragia é a presença de sangue fora dos vasos presentes no saco pericárdico. Estas hemorragias são do tipo petequial e sufusão (Fig.06 a, b e c), cujas causas podem estar relacionadas com toxemias (nas intoxicações por plantas tóxicas, venenos de cobra, pesticidas e outros); septicemias (infecção generalizada pelo organismo, como multiplicação das bactérias ou disseminação dos vírus na corrente sangüínea). As hemorragias com perda de pouca quantidade de sangue passam despercebidas, são muitas vezes, achados de necropsia. As com grandes perdas de sangue, podem levar às conseqüências inerentes às hemorragias em qualquer parte do corpo. 119 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 06 – (a) Coração de um bovino. Hemorragias petequiais e sufusões. Intoxicação por coerana. Fig. 06 – (b) Coração de um bovino. Hemorragias petequiais e sufusões. Intoxicação aguda por samambaia. Fig. 06 – (c) Coração de um Bovino. Hemorragias petequiais e sufusão. Edema é o extravazamento de líquido (plasma ou soro) da corrente sangüínea para os tecidos, no caso específico do pericárdio, o edema provoca um espessamento das membranas das paredes do saco pericárdio, perde o brilho, fica opaco e perde a elasticidade (hidropericardio é exemplo de edema no saco pericadico). ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS Não são comuns no pericárdio, por se tratar de uma serosa muito resistente, constituída por células pouco sujeitas aos processos regressivos, diferentes do que acontece com as células parenquimatosas (do fígado, rins e outros). Destacamos aqui uma alteração cuja identificação da sua presença, é significativa para clínicos e patologistas. Trata-se de hipotrofia gelatinosa das gorduras (este termo tem sido substituído por: "degeneração serosa das gorduras") (Fig.07), o que representa: consumo das gorduras do saco pericárdio, nos casos de inanição e subnutrição, quando o organismo 120 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . lança mão das reservas de gorduras acumuladas em determinadas partes do corpo, como é o exemplo do pericárdio, gordura perirrenal e outros. Em medicina veterinária esta alteração é comum, no período das secas, quando os animais (bovinos, ovinos caprinos e outros herbívoros) têm pouca disponibilidade de alimentos. Macroscopicamente apresenta-se de coloração amarelada e de consistência amolecida, deixando fluir líquido citrino ao corte. Fig. 07 – Coração de um Bovino. Degeneração serosa das gorduras. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Pericardites são classificadas quanto ao curso em agudas e crônicas. É comum as pericardites iniciarem na forma aguda e progredirem para a forma crônica. Na forma aguda, o processo é caracterizado pela hiperemia ativa; na forma crônica, o destaque é para o aparecimento de aderências por pontes de tecido conjuntivo fibroso em expansão. As pericardites podem ser ainda classificadas quanto ao exsudato em fibrinosa, purulenta e fibrinopurulenta. Esta classificação se baseia na constituição do exsudato: os elementos que predominam, darão o nome ao exsudato (na pericardite fibrinosa predomina a fibrina; na pericardite purulenta predomina o pus; na pericardite fibrinopurulenta há uma mistura de pus e fibrina). A pericardite fibrinosa geralmente se dá pela via hematógena e menos freqüentemente por contiguidade. Suas principais causas normalmente relacionam-se com agentes biológicos: Pateurella multocida, coliformes fecais outras bactérias que podem provocar onfaloflebite e daí chegar até o pericárdio: Streptococcus sp e Staphylococcus sp. A pericardite fibrinosa incia-se como todo processo inflamatório agudo: primeiro instala uma hiperemia, com liberação dos elementos figurados e exsudação; depois as células mesoteliais incham-se, há deposição de fibrina nas 121 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . membranas serosas, com organização da mesma, aderência com possibilidade de dissecação romba. Macroscopicamente, o coração está "aveludado" revestido por uma camada espessa de fibrina, que pelo aspecto recebe o nome de "coração rugoso" ou simplesmente "pão e manteiga" (Fig.08). Nestes casos raramente há líquidos, pois a presença de fibrina concorre para organização rápida do processo . Microscopicamente, observamos linfócitos, plasmócitos, histiócitos, neutrófilos, fibrina, além da hiperemia. No processo crônico há invasão de tecido conjuntivo fibroso, promovendo forte aderência. Fig 08 – Coração bovino apresentando pericardite fibrinosa: “pão e manteiga” Correlação clínicopatológca no início do processo há dor na percussão e palpação, dificuldades nos movimentos, abdução, arqueamento e respiração abdominal. Com o aumento da exsudação fibrinosa aparece o sinal mais típico da pericardite fibrinosa que é um forte atrito pericárdico, audível nos processos em franco desenvolvimento. Com o aumento de líquido, quando houver, há separação das membranas, que contribuem para diminuição do atrito e atenuação dos batimentos cardíacos. Quando há grande quantidade de exsudato e este comprime muito o coração, pode ocasionar insuficiência cardíaca congestiva. É comum o animal apresentar hipertermia e pulso rápido em especial na fase aguda do processo. A pericardite purulenta predomina no processo inflamatório o neutrófilo: célula altamente fagocitária, cuja presença é indispensável, quando o agente etiológico é uma bactéria piogênica, o que significa que nestes casos sempre há produção de pus. A invasão de bactérias piogênicas pode ocorrer por extensão direta, nos casos de empiema pleurais nos caninos e eqüinos (coleção de pus, dentro da cavidade pleural e ou torácica); por via linfática; por via hematógena e perfuração traumática (por corpo 122 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . estranho, presente no retículo), comum nos bovinos, cujo paladar é grosseiro, contribuindo para ingestão de objetos estranhos em diversas condições: acidentais ou carenciais. Nas condições carenciais, os animais apresentam alotriofagia (uma perversão do apetite) motivados a ingerir objetos, das mais variadas espécies (tijolos, telhas, ossos, borracha, pedras e outros). Neste caso, pode ocorrer retículopericardite traumática (objeto perfura o retículo, atinge o diafragma e finalmente o pericárdio, levando uma contaminação e instalando-se o processo inflamatório purulento). Macroscopicamente, observamos durante a abertura da cavidade torácica, a presença de pus fracamente cremoso, ou mesclado com fibrina, de coloração amarelada ou acinzentada e variável em quantidade, podendo atingir vários litros (Fig. 09), como é o caso em que presenciamos na sala de necropsia, quando examinamos um bovino adulto, da raça holandesa, com suspeita de pericardite traumática. Foi colhido cerca de cinco litros de pus. Outra característica importante é o odor repugnante apresentado pelo exsudato. Nos casosem que há desidratação do exsudato, pode formar o chamado "Concretio cordis" ou "molde de gesso", não permitindo a dissecação romba, levando a pericardite constritiva (há limitação das câmaras cardíacas internas). Microscopicamente, verificamos intensa reação inflamatória, onde predomina os neutrófilos, podendo atingir o miocárdio. Fig. 09 - Coração de um Bovino. Pericardite purulenta. Correlação clínicopatológica as reações provocadas no organismo de um animal com pericardite purulenta são semelhantes àquelas produzidas pela pericardite fibrosa, porém com intensidade superior e acrescentando toxemia e até mesmo septicemia. O curso é longo e geralmente o animal morre por insuficiência cardíaca congestiva. O atrito entre os folhetos do pericárdio não é muito forte, porém os sinais clínicos são mais evidentes (há sopro, bastante audível: tipo roda dagua). 123 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NEOPLASIAS Mesotelioma é uma neoplasia das células mesoteliais das serosas (pericárdio, pleura, peritônio), acomete principalmente bovinos adultos. Relatamos um caso de um bovino da raça nelore, com seis anos de idade, do sexo feminino, que apresentava ascite e emagrecimento progressivo. Durante a necrópsia verificamos que todas as serosas apresentavam um espessamento devido ao crescimento de um tecido neoplásico semelhante a "couve flor" ou projeções digitiformes espalhadas pelas serosas. Microscopicamente, as células mesoteliais estão aumentadas de volume hipercromáticas, núcleos proeminentes contendo figuras de mitose atípicas. A literatura descreve a presença de ascite, o que comprovamos no presente caso (líquido citrino na cavidade abdominal). Todavia, esta neoplasia é rara em cães, por isso destacamos aqui nosso relato. Necropsiamos um cão com oito anos de idade, sexo masculino, da raça fila, que apresentou as seguintes alterações: presença de projeções digitiformes espalhadas por toda serosa peritonial, medindo cerca de um centímetro de comprimento. Havia presença de líquido amarelado na cavidade peritoneal. Microscopicamente, podemos observar todas as características da neoplasia das células mesoteliais, que chamamos de mesotelioma. MIOCÁRDIO Miocardio é o músculo estriado cardíaco que constitui a parte mais espessa da parede do coração. O tecido miocárdio compreende os seguintes feixes musculares: feixes dos átrios; feixes dos ventrículos; feixes musculoatrioventriculares. ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS Degeneração turva (parenquimatosa, edema celular, granulosa) é o tipo mais simples de degeneração, onde há acúmulo de água no interior do citoplasma da fibra muscular, tornando-o turvo e comprometendo seu desempenho. Ocorre nos processos toxêmicos e isquêmicos principalmente. Degeneração hialina do miocárdio é algo relativamente comum, onde as agressões mais simples tornam o sarcoplasma (citoplasma) homogênio, com a perda das estriações da fibra muscular. Esta alteração geralmente é focal (Fig. 10) 124 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 10 – Fotomicrografia de degeneração hialina do miocárdio. Coloração HE. 10X Necrose do miocárdio é quase sempre uma evolução da degeneração hialina muscular, cujas causas foram persistentes ou mais agressivas. É o que chamamos "necrose de Zenker". Degeneração gordurosa (lipidose ou esteatose) é um distúrbio do metabolismo das gorduras, onde ocorre retenção de lípides no interior do citoplasma das fibras musculares, diante de uma agressão qualquer (isquemia, toxemia, septicemia). Macroscopicamente o sarcoplasma apresenta-se com manchas amareladas intercaladas com áreas normais, o que dá o aspecto que denominamos "coração tigrado". Microscopicamente, observamos espaços vazios deixados pelas gotículas de gorduras, dissolvidas durante a preparação do corte histológico. Macroscopicamente, são áreas irregulares com perda da coloração e da consistência. Microscopicamente são fibras com perdas da estriação e rupturas por dissolução do sarcoplasma. Degeneração hialina muscular a e necrose de Zenker aparecem na azotúria dos eqüinos e na doença do músculo branco dos bovinos, ovinos, suínos e aves. Mineralização do miocárdio é a deposição de minerais (em especial o cálcio) nas áreas lesadas, onde há liberação de radicais ácidos. A função da deposição destes minerais é tornar a área inofensiva ao tecido, inócua, isolada, sem nenhuma interferência para a estrutura muscular em questão (miocárdio). Mineralização impropriamente chamada de calcificação é do tipo distrófica: aquela que ocorre em áreas preveamente lesadas. Em determinadas doenças como “Entequê seco” intoxicação pela planta Solanum malacoxilon em bovinos, ocorre mineralização metastática por haver um quadro de hipercalcemia. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS 125 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . As hemorragias que ocorrem no miocárdio são do tipo intersticial (as hemácias saem através dos poros dos capilares e se colocam no interior dos tecidos): petequial (em forma de pontos avermelhados e milimétricos); sufusão (em forma de manchas avermelhadas) e equimose (extensas áreas avermelhadas). As causas relacionam-se com toxemia, septicemia, viremias que podem acometer o indivíduo em qualquer idade. A "doença do coração de amoras dos suínos" (Fig. 11) cuja versão em Inglês é "mulberry heart disease of pig", tem sido descrito em suínos com 3-4 meses de idade, onde a principal alteração é a hemorragia do miocárdio entre outras lesões. Esta enfermidade ocorre preferencialmente nos melhores animais do rebanho. Sua etiologia está ainda obscura, admitimos tratar-se de distúrbio dietético. Possui alta mortalidade e dificilmente é vista clinicamente, quando apresenta dispnéia, tremores musculares, excitação intensa, dor, presença de grande quantidade de líquido espumoso nas fossas nasais e morte rápida. Durante a necrópsia observamos hemorragias do epicárdio, miocárdio e endocárdio. Podemos ainda observar hidropericárdio, hidrotórax, hiperemia e edema pulmonares. No estômago conteúdo seco e a região fúndica hiperêmica. Os intestinos espásticos e vazios, o fígado e rins hiperêmicos. Se o animal sobreviver por mais de 24 horas, ocorrerá encefalomalácia simétrica bilateral. Fig. 11 – Doença do coração de amora dos suínos ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS As miocardites são geralmente secundárias causadas por vírus, bactérias, fungos protozoários e nematóides. O vírus da febre aftosa é um bom exemplo quando de um surto da enfermidade, é possível observar quadros de miocardites, como forma de disseminação do vírus. Nestes casos o animal (bovino) acometido pela alteração é conhecido por “vaca cocoteira". Outro exemplo importante de miocardite é o caso 126 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . provocado por Trypanosoma cruzi: um protozoário que tem preferência para os seres humanos, mas já foi descrito em animais, particularmente nos caninos. O nematóide: Dirophylaria immitis é frequentemente relatado como importante causa de miocardite em cães. NEOPLASIAS Neoplasias primárias: rabdomioma e rabdomiossarcoma. As secundárias mais comuns são linfoma, doença de Marek e leucose das aves. ENDOCÁRDIO Endocardio é a membrana que forra internamente as cavidades cardíacas. É lisa e constituída de uma só camada do endotélio. Recobre as válvulas do coração, circunda as cordas tendíneas e é contínua à camada que recobre os grandes vasos sangüíneos. ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS Mineralização trata-se de uma alteração relativamente comum no endocárdio, em especial quando há lesões prévias, com liberação de radicais ácidos: mineralização distrófica. Existe uma planta tóxica conhecida com o nome de Solanum malacoxilum, que quando ingerida pelos bovinos provoca mineralização generalizada das serosas, tendões, aponeuroses e endotélios. Neste caso, observamos uma mineralização do endocárdio, o que compromete as funçõesdo coração. Esta intoxicação, cujo caso clínico é progressivo, recebe o nome de "Entequê seco". Endocardiose é um processo degenerativo crônico progressivo das válvulas do coração, que acomete especialmente os cães (o que consideramos como uma provável intoxicação por cloreto de sódio, presente na comida humana, colocada inadvertidamente para cães: animais carnívoros não têm as mesmas necessidades nutricionais, quando comparados com humanos). Macroscopicamente, a endocardiose apresenta-se como nódulos de tamanho variável, de consistência firme, de coloração branca e superfície lisa. Microscopicamente, a endocardiose é vista como processo 127 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . degenerativo do tecido valvular (degeneração turva e hialina) e infiltração de tecido conjuntivo fibroso discretamente. A endocardiose pode comprometer a função do coração, desde que seu tamanho seja suficiente para obstruir ou dificultar os movimentos das válvulas. Pode ocasionar estenose e insuficiência valvular. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Endocardite trata-se de uma alteração inflamatória onde as causas são decorrentes de outros processos à distância. Devido à posição em que se encontra o endocárdio, todo sangue do organismo invariavelmente passa pelo mesmo caminho, e é neste contexto que quando da presença de um êmbolo de natureza infecciosa, certamente terá a oportunidade de se instalar em uma das válvulas do coração, que faz parte do endocárdio (Streptococcus spp, Staphylococcus spp, Erysipelotrhix rhusiopatiae, Actinomyces pyogenes e Fusubacterium necrophorus). As endocardites podem ser classificadas quanto ao curso em agudas e crônicas. É bem provável que a maior parte delas comece na forma aguda e acaba se transformando em uma endocardite crônica, devido à dificuldade de diagnóstico precoce e interferência clínica. As endocardites também podem ser classificadas quanto à localização: nas valvulas e na parede das cavidades do coração. Se nas valvulas, a endocartite é denominada valvular, e nas paredes das cavidades cardíacas, é denominada mural ou parietal. As endocardites valvulares representam a porção mais comum, devido às oportunidades criadas pelas válvulas, pela localização e função. Macroscopicamente observamos modulações de tamanho variado (1-10 cm de diâmetro), de coloração amarelada, acinzentada, com presença de fibrina, de aspecto rugoso e friável (Fig.12). Fig. 12 – Coração de um Bovino. Endocardite valvular. 128 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Microscopicamente, podemos observar intenso processo inflamatório com presença de restos celulares, grumos bacterianos e muita fibrina. As endocardites parietais ou murais localizam-se nas paredes das cavidades do coração. Assim elas podem ocorrer nos ventriculos e nos átrios. A ocorrência deste tipo de endocardite não é comum, exceto nos caninos com quadro de uremia. Macroscopicamente, podemos observar ulcerações, erosões, mineralização, onde a coloração varia conforme a alteração, podendo ir de cinza a vermelho. Na uremia dos cães há endocardite mural ulcerativa atrial. Microscopicamente, podemos notar uma destruição do revestimento endotelial, presença de células inflamatórias e até mesmo mineralização. Correlação clínicopatológica se compararmos os dois tipos de endocardite, a endocardite mural acarreta poucos transtornos em relação à vegetativa que inferfere diretamente com as válvulas. Destacamos algumas alterações inerentes ao desenvolvimento das valvulites: pode ocorrer desprendimento de fragmentos da lesão e se constituirem em êmbolos sépticos; a presença da massa que se forma em torno da válvula (fibrina, células inflamatórias, tecido conjuntivo fibroso) pode conduzir a um estreitamento do orifício valvular que poderá dificultar a passagem através dele (estenose), ou conduzir a uma dificuldade no fechamento do orificio valvular (insuficiência); pode ocorrer dilatação da câmara cardíaca; pode ocorrer hipertrofia da parede das câmaras cardíacas; efeitos diversos no organismo podem ocorrer, dependendo da localização da válvula atingida, se na valva tricúspide, nos casos de insuficiência: há acúmulo de sangue no átrio direito; dilatação da câmara interna do átrio direito; hiperemia passiva hepática e renal; hidrotórax; hidroperitônio e hidropericárdio. Nos casos de estenose: há acúmulo de sangue no átrio direito, repetindo a mesma seqüência anterior, como na insuficiência. Se a inflamação está localizada na semilunar pulmonar, nos casos em que há insuficiência: pode haver retorno sangüíneo, promovendo uma dilatação e até mesmo hipertrofia do ventrículo direito e finalmente hiperemia passiva geral. Nos casos de estenose: pode acumular sangue no ventrículo direito, ocorrer dilatação e hipertrofia, e finalmente hiperemia passiva geral. Quando o defeito estiver localizado na valva mitral, nos casos em que há insuficiência: pode haver acúmulo sangüíneo no átrio esquerdo, levando hipertensão venopulmonar, constricção arteriolar, endurecimento pulmonar, hipertrofia do ventrículo direito. Nos casos em que há estenose: poderá ocorrer acúmulo sangüíneo no átrio esquerdo, repetindo as mesmas alterações da insuficiência. Quando a inflamação se instalar na semilunar aórtica, tanto 129 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . nos casos de insuficiência, como na estenose, teremos hipertrofia do ventrículo esquerdo. Dilatação cardíaca é o aumento que se dá nas câmaras cardíacas internas, culminando com o aumento de volume do coração (Fig.13). Macroscopicamente, o coração se apresenta globoso e flácido: paredes finas, isquêmicas, pálidas e moles. O diâmetro transversal aumentado, podendo ser maior que o horizontal; tornando o coração arredondado. Microscopicamente as fibras estão hipotrofiada. Fig. 13 – Coração de um cão. Dilatação cardíaca. Correlação clínicopatológica a dilatação conduz a um aumento da área de auscultação, levando hiperfonese da 1ª bulha e hipofonese da 2ª bulha. Hipertrofia cardíaca é o aumento de volume que se dá nas fibras do miocárdio, levando a um espessamento da parede das câmaras cardíacas, em especial o ventrículo esquerdo. Pode ser classificada de acordo com o comprometimento das câmaras cardíacas em: simples; excêntrica; concêntrica. A hipertrofia simples quando não houver nenhuma interferência no tamanho da câmara, ou seja, da cavidade cardíaca; a hipertrofia excêntrica quando houver dilatação das cavidades internas do coração; hipertrofia concêntrica quando houver diminuição da cavidade cardíaca (fig.14). A etiologia da hipertrofia é a mesma para a dilatação cardíaca, o que difere é a condição que o coraçao tem para reagir: se o músculo cardíaco estiver sadio, vai hipertrofiar, se estiver doente, vai dilatar. As pricipais causas relacionam com aumento da carga de trabalho do coração, geralmente estão relacionadas com estenose, insuficiência aórtica, glomerulonefrites e nefrites. Estenose e outros problemas da artéria pulmonar causam hipertrofia ou dilatação do lado direito do coração. 130 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 14 – Coração de um canino. Hipertrofia cardíaca concêntrica. ARTÉRIAS Artérias são tubos musculares e elásticos que conduzem o sangue do coração para os tecidos do corpo. A artéria pulmonar e a aorta são dois grandes troncos que saem do coração e vão ramificando até se transformarem em vasos de pequeno calibre (arteríolas). As pequenas artérias se comunicam com outras que estão próximas (formam as anastomoses), de modo que, ao obstruir-se uma artéria maior, a circulação colateral se faz por aumento rápido no tamanho das comunicações acima e abaixo do nível da obstrução. Há ramos arteriais que não se comunicam com outro e, por isso, são chamados artérias terminais. Os ramos arteriais que vão ter aos gânglios basais do cérebro e aos rins são exemplos de artérias terminais.Quando uma artéria terminal é obstruída, o sangue não pode chegar ao tecido normalmente irrigado por ela. ALTERAÇÕES POST-MORTEM Embebição sangüínea ocorre após a morte (6 - 8 horas), com a degradação das hemácias e liberação do pigmento hemoglobínico, que se impregna na intima das artérias, tornando-as de coloração avermelhada ou vermelho azulado. 131 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Aneurisma congênito é uma dilatação da parede da artéria e arteríolas, que pode acometer qualquer vaso do organismo, principalmente no sistema nervoso central, mesmo em condições normais eles têm as paredes mais delicadas. Macroscopicamente pode apresentar de várias formas: tubular e sacuolar. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Rupturas são soluções de continuidade que podem ocorrer por rexe ou diabrose. As rupturas por rexe são resultantes dos traumatismos com objetos perfurantes e cortantes que por ventura possam atingir a parede do vaso. As rupturas por diabrose são chamadas espontâneas, embora ocorra em vasos previamente lesados (aneurisma, neoplasias, inflamação e outros). As rupturas espontâneas são bem conhecidas na aorta do cavalo, rompendo-se freqüentemente a um cm das artérias signóides. A causa está ligada a degeneração das fibras elásticas, associada a um súbito aumento da pressão. Correlação clínicopatológica uma grande hemorragia pode desencadear hematomas, anemia, acúmulo de sangue nas cavidades (hemopericárdio, hemotórax, hemoperitônio e outros) por fim pode acarretar um choque hipovolêmico. O animal em estado de choque vai apresentar pulso rápido, respiração ofegante e temperatura baixa; Tromboses nos animais domésticos são mais freqüentes nas artérias que nas veias. Larvas de Strongylus vulgaris constituem-se na mais importante causa de trombose arterial nos equídeos. Ramos da artéria mesentérica anterior e mais raramente da ilíaca e braquiocefálica são acometidos. O processo se inicia como arterite, evolui-se para aneurisma e finalmente trombose na parede lesada. Embolias são mais comuns que as tromboses. Várias são as embolias (parasitárias, bacterianas, celulares, gasosas e outras) que geralmente obliteram uma artéria ou arteríola. Aneurisma é a dilatação de uma artéria, geralmente localizada em um determinado ponto do organismo, podendo ocorrer em vários locais diferentes ao mesmo tempo. Pode ter causas congênitas ou adquiridas. A maior conseqüência é a possibilidade de rompimento da parede do vaso afetada, pois se torna mais delicada, fragilizada, podendo romper a qualquer movimento repentino. As principais causas são 132 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . os parasitas (Strongylus vulgaris nos eqüídeos e Spirocerca lupi nos caninos), as artérias mesentéricas são as mais acometidas, no caso do aneurisma verminótico dos eqüídeos e a aorta torácica no caso de espirocercose canina. Correlação clinicopatológica o rompimento de uma artéria com aneurisma é algo provável, uma vez que a parede do vaso apresenta-se bastante frágil com a redução da espessura da mesma. ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS Degeneração hialina pode atingir tanto o endotélio, como o tecido conjuntivo e a camada muscular. As principais causas estão relacionadas com distúrbios circulatórios (desnutrição da parede vascular, tóxicos e deficiência nutricional). Macroscopicamente há perda de elasticidade da parede da artéria. Microscopicamente a degeneração da camada muscular é facilmente identificada pela perda de estrias, rompimento das fibras e até coagulação do sarcoplasma. Amiloidose (infiltração amilóide, degeneração amilóide) pode ocorrer nas arteríolas das fossas nasais de eqüídeos. Macroscopicamente é observada sob a forma de nódulos milimétricos de coloração acinzentada. Microscopicamente é representada por uma substância homogênea, translúcida, corada em róseo pela hematoxilina-eosina. Mineralização (calcificação) da parede da artéria pode ser observada em animais velhos (bovinos e eqüinos) e nas doenças caquetizantes. A aorta, as artérias pulmonares, renais e esplênicas são importantes sítios para o aparecimento de mineralização. Macroscopicamente a lesão caracteriza-se pela presença de placas salientes de coloração acizentada e ásperas. Microscopicamente é observada a deposição de minerais no interstício das fibras do tecido conjuntivo. Arteriosclerose é um processo degenerativo, progressivo, crônico, caracterizado por espessamento e endurecimento da parede das artérias. Conhecida como esclerose difusa arteriolar a ateriosclerose pode ser observada nas arteríolas dos rins, baço e pâncreas. A camada íntima é a mais atingida, onde há formação de placas concêntricas que obstruem a luz vascular, principalmente pela invasão de tecido conjuntivo hialinizado. A deposição de colesterol e outros derivados lipídicos na camada íntima das artérias são tidos como causa freqüente na espécie humana. As células da camada íntima e média sofrem degeneração e são substituídas por tecido conjuntivo, sujeito a 133 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . degeneração hialina, mineralização e acúmulo de mucopolissacarídeos. Macroscopicamente, as lesões em placas de coloração acinzentada ou amarelada, denominadas placas ateromatosas, que podem medir cerca de oito mm de comprimento. Erosões e ulcerações são observadas freqüentemente, devido ao deslocamento do endotélio da íntima. Formação de tromboses nestas áreas é de ocorrência comum. A aterosclerose foi descrita em suínos (matrizes com idade acima de três anos), cuja localização preferencial foi na artéria aorta (Fig.15). Fig. 15 – Artéria aorta de um suíno. Aterosclerose Esclerose média processo degenerativo, progressivo, crônico, caracterizado pela degeneração hialina, infiltração gordurosa, necrose e calcificação da túnica muscular da camada média das artérias musculares, podendo chegar ao extremo, com o aparecimento de ossificação patológica. Essa alteração tem sido reportada em várias espécies de animais domésticos (bovinos, suínos, caninos) em diferentes artérias musculares. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Arterite processo inflamatório das artérias, onde a presença de leucócitos (neutrófilos, eosinófilos e linfócitos) é exibida no interior de suas paredes, seguidas de processo degenerativo (degeneração hialina, deposição de fibrina e necrose). A erisipela dos suínos (Erysipelothrix rhusiopathiae) é um bom exemplo de uma enfermidade que provoca intensa inflamação nos vasos da derme. A arterite viral dos eqüinos é uma infecção viral sistêmica com o tropismo para as células endotelias dos vasos. As paredes das artérias musculares apresentam: edema, exsudato fibrinoso, necrose e infiltração leucocitária. As artérias mais afetadas, neste caso, são as mesentéricas, exibindo um enorme edema, provocando transudação para a cavidade 134 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . abdominal. Importante arterite é provocada pelas larvas de Dirofilaria sp , que acomete as artérias pulmonares e suas vizinhas do lado direito do coração. A reação inflamatória é caracterizada microscopicamente pela presença das larvas do parasita e reação inflamatória predominando os eosinófilos. As artérias mesentéricas dos equídeos são igualmente atingidas por larvas e adultos do parasita Strongylus vulgaris (provoca arterite, tromboembolismo, aneurisma e colica). A poliartrite (inflamação das articulações) em cães da raça Beagle tem sido reportada como tendo origem nas arterites dos membros, de caráter imunológico, envolvendo, inclusive as artérias coronárias e meningianas. NEOPLASIAS Hemangioma é uma neoplasia benigna, freqüentemente observada nos vasos da pele de cães; hemangiossarcoma é uma neoplasia maligna, freqüentemente observada no baço e coração de cães; hemangiopericitoma é uma neoplasia da pele de cães, que acomete os pericitos (células das paredes dos vasos)que envolvem principalmente os pequenos vasos. Essa neoplasia pode ter carácter benigno ou maligno. VEIAS Veias são vasos sangüíneos através dos quais o sangue retorna dos capilares ao coração. Além das veias que saem dos órgãos internos, há veias superficiais e profundas. As superficiais são geralmente visíveis na pele e se esvaziam nas profundas. Essas acompanham habitualmente as artérias, sendo ambas, não raro, englobadas numa bainha comum. As artérias de grande calibre são acompanhadas, de regra, por uma só veia; as artérias de tamanho médio são acompanhadas por um par de veias. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Dilatação é denominada flebectasia ou varize. Trata-se de alteração comum nas veias das pernas de mulheres, em especial durante a gravidez. Nos animais não é comum, mas pode ser observada nas veias dos membros pelvinos de éguas, cordão espermático e plexo pampiniforme de bovinos e ovinos. 135 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Ruptura de uma veia ocorre freqüentemente nos traumatismos e em especial naquelas áreas susceptíveis como: varizes, flebites e outras. Podem provocar hemorragias graves. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Flebite inflamação sujeita a complicação como trombose. Normalmente a alteração da parede do vaso é suficiente para desencadear a formação de um trombo. As infecções sistêmicas (septicemias, viremias, bacteremias) podem constituir-se numa importante causa de flebite (salmonelose, peste suína, erisipela e outras). Uma das formas mais comuns de flebite localizada é a chamada Onfaloflebite (inflamação das veias do umbigo) que ocorre por contaminação das veias umbelicais logo após o nascimento dos bezerros (Fig 16). Associado a onfaloflebite observa-se algumas vezes poliartrites, septicemias e muitas vezes abscessos hepáticos. Quanto ao exsudato a flebite pode ser classificada em serosa (fase discreta e inicial de outras flebites, caracterizada por edema da parede); supurada (infiltrado neutrofílico nas paredes das veias, sendo comum nas tromboflebites supuradas); gangrenosa (quando há necrose da parede da veia e invasão de germes saprofitas). Alguns parasitas podem provocar flebites ou até mesmo embolias (Stephanurus dentatus, Spirocerca lupi, Dirophilaria immitis e outros). Fig 16 – Onfaloflebite em bovino rescem nascido. 136 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . 137 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NA PRÁTICA: Necropsiou-se no Laboratório de Patologia do Hospital Veterinário de Uberaba um canino, fêmea, da raça Red Hiller, de 24 meses de idade com histórico de ter tido distocia, revertida clinicamente, apatia pós-parto e morte repentina após alguns dias de tratamento. O animal apresentava: estado geral bom, mucosas pálidas, presença de líquido avermelhado na cavidade torácica (aproximadamente 500ml), esôfago levemente avermelhado com presença de vômito, traqueia intensamente avermelhada (Fig. 01), coração globoso com presença de coágulo cruórico em ambos os ventrículos (Fig. 02 e 03), pulmão congesto, hepatomegalia congestiva (Fig. 04), rins congestos (Fig. 05) e esplenomegalia congestiva (Fig.06). Fig. 01 - Traqueia avermelhada. Fig 03 – Coração globoso. Fig. 02 – Coágulo cruórico em ambos os ventrículos Fig 04 - Hepatomegalia congestiva 138 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 05 - Rins congestos Fig – 06 - Esplenomegalia congestiva Comentários: a cardiopatia congestiva em cães, é algo relativamente comum. Trata-se de um quadro aonde o coração, por diversos motivos, dilata-se. O que se sabe é que doenças da infância como: cinomose e parvovirose, comprometem o músculo cardíaco. Os vírus destas doenças têm predileção para o miocárdio produzindo miocardite linfocitária, o que predispõe a dilatação cardíaca. O resultado é sempre o aparecimento de hieremia passiva crônica nas principais vísceras como baço fígado e rim. O animal na maioria das vezes vem a óbto por outras causas que agravadas pela cardiopatia sucumbem. Diagnóstico Final: Cardiopatia congestiva direita Diagnóstico Conclusivo: O animal apresentou um quadro de congestão pulmonar, hepática e renal, compatível com o diagnóstico em questão. 139 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é tetralogia de Fallot? 2- Classifique a endocardite. 3- Classifique a pericardite quanto ao exsudato. 4- Conceitue aneurisma 5- Conceitue flebectasia. 1- Tetralogia de Fallot representa 04 alterações ao mesmo tempo: dextroposição da aorta; intercomunicação ventricular; hipertrofia do ventrículo direito; estenose da artéria pulmonar. 2- Endocardite: valvular vegetativa e mural ulcerativa. 3- Pericardite: fibrinosa, purulenta e fibrinopurulenta. 4- Aneurisma é dilatação de uma artéria. 5- Flebectasia é dilatação de uma veia, o mesmo que varise. BIBLIOGRAFIA ABBOT, M.E. Atlas of congenital cardiac disease New York, the american Heart Association, 1936.] AREY, L.B. Developmental Anatomy. 6ª ed. Saunders. periladélfia. 1954. p.330-393. BASTOS, J. E. D; COELHO, H. E; MAGALHÃES, A. O. C; KAMIMURA, R; CUNHA, G. N; SANTOS, M. C. Alterações histopatológicas do nó sinoatrial em cães com dilatação cardíaca. Vet, Not. Uberlandia, v.13, n.2; p. 15-21, jul-dez. 2007. 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SISTEMA RESPIRATÓRIO134 NA PRÁTICA: ............................................................................................................................................ 137 SISTEMA RESPIRATÓRIO ................................................................................................................... 141 CAVIDADES NASAIS .............................................................................................................................. 141 SEIOS PARANASAIS ............................................................................................................................... 147 LARINGE .................................................................................................................................................... 147 TRAQUÉIA ................................................................................................................................................. 150 BRÔNQUIOS .............................................................................................................................................. 153 PULMÃO ..................................................................................................................................................... 155 PLEURA ...................................................................................................................................................... 164 SACOS AREOS E OSSOS PNEUMÁTICOS DAS AVES ................................................................... 166 NA PRÁTICA ............................................................................................................................................. 169 APARELHO DIGESTÓRIO .................................................................................................................... 173 CAVIDADE BUCAL .................................................................................................................................. 173 GLÂNDULAS SALIVARES ..................................................................................................................... 180 FARINGE .................................................................................................................................................... 181 ESÔFAGO.................................................................................................................................................... 181 INGLÚVIO .................................................................................................................................................. 186 RUME ........................................................................................................................................................... 187 RETÍCULO .................................................................................................................................................. 191 OMASO ........................................................................................................................................................ 192 PROVENTRÍCULO ................................................................................................................................... 193 MOELA ........................................................................................................................................................ 195 ABOMASO .................................................................................................................................................. 197 ESTÔMAGO ............................................................................................................................................... 199 INTESTINOS ............................................................................................................................................. 203 INTESTINO GROSSO .............................................................................................................................. 211 CLOACA ...................................................................................................................................................... 214 FÍGADO ..................................................................................................................................................... 220 PÂNCREAS ............................................................................................................................................... 242 PERITÔNIO .............................................................................................................................................. 248 SISTEMA NERVOSO CENTRAL ........................................................................................................... 254 CÉREBRO ................................................................................................................................................... 254 SISTEMA URINÁRIO ............................................................................................................................. 280 RINS ............................................................................................................................................................. 280 URETERES ................................................................................................................................................. 297 BEXIGA ....................................................................................................................................................... 299 URETRA ...................................................................................................................................................... 305 SISTEMA HEMOCITOPOIÉTICO ........................................................................................................ 311 LINFONODOS ........................................................................................................................................... 311 BAÇO ............................................................................................................................................................ 321 MEDULA ÓSSEA ...................................................................................................................................... 327 GLÂNDULA MAMÁRIA ......................................................................................................................... 334 APARELHO LOCOMOTOR ................................................................................................................... 349 OSSOS .......................................................................................................................................................... 349 ARTICULAÇÕES ....................................................................................................................................... 371 MÚSCULOS ................................................................................................................................................ 376 TENDÕES ................................................................................................................................................... 383 3 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . CONCEITOS O estudo da patologia requer alguns conceitos importantes que são empregados durante a investigação de uma determinada enfermidade. É preciso conhecer o significado de derminadas palavras: saúde, doença, lesões, etiologia, patogenia, sinais clínicos, diagnostico, entre outros. Saúde é o perfito estado de funcionamentos dos órgãos em seus sistemas e aparelhos, permitinto o pleno gozo da vida. Doença é o desvio da saúde. Em um corpo doente as funções serão regidas por órgãos lesados resultando em prejuízo para a vida. Doença aguda é a manifestação de sinais clínicos imediatos liderados por processo de defesa,É constituído por vários órgãos: cavidades nasais, seios paranasais, laringe, traquéia, brônquios, pulmão e pleura. CAVIDADES NASAIS As cavidades nasais (fossas nasais e narinas) são separadas por um septo, cada uma dessas cavidades é dividida em três porções: vestíbulo, região olfatória e região respiratória. Em alguns dos ossos que formam suas paredes há espaços aéreos que se comunicam com a região respiratória e são chamados seios paranasais (situados no interior dos ossos frontal, etmóide, esfenóide e o maxilar). O tecido conjuntivo localizado na região respiratória das cavidades nasais é bastante vascularizado, possuindo redes venosas capazes de grande enturgescimento com sangue para facilitar a troca térmica (aquecimento do ar inspirado quando este está frio). Este sistema de irrigação é semelhante ao que ocorre no pênis. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO São na maioria das vezes, manifestações parciais das anomalias do rosto e do cérebro. Arhinia significa ausência de formação das narinas, pode estar associada com ciclopia (Fig 01) (alteração onde o indivíduo apresenta somente um olho; ao invés de narinas, apenas uma tromba e microcefalia). Campylognathia é a condição de encurvamento e estreitamento das vias nasais. 142 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 01 – Ciclopia em suino ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS E METABÓLICAS A amiloidose (acúmulo de substância amilóide) ocorre principalmente no vestíbulo nasal do cavalo. Pode estar associada a enfermidades crônicas e deve ser diferenciada do mormo. Macroscopicamente, se apresenta como nódulos isolados ou confluentes, consistência firme e superfície lisa, às vezes chegando a ulcerar-se. Microscopicamente, a substância amilóide apresenta-se sob a forma de torrões irregulares nos espaços entre os vasos sangüíneos, linfáticos e membranas. A degenaração mucóide das conchas nasais do cavalo desenvolve-se na maioria das vezes, nos potros de raças pesadas, em conseqüência a processos inflamatórios crônicos das fossas nasais. As conchas nasais estão fortemente edemaciadas e as cavidades nasais repletas de conteúdo seromucoso. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa (acúmulo de sangue nos vasos arteriais) ocorre no início de cada processo inflamatório agudo (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). Hiperemia passiva (acúmulo de sangue nos vasos venosos) ocorre em conseqüência da insuficiência cardíaca. Hemorragias nasais (epistaxis) são consideradas as alterações circulatórias mais importantes. Ocorrem em conseqüência de traumatismos, processos inflamatórios e neoplasias vasculares. Provocar asfixia por aspiração do sangue no pulmão, ocasionando a morte do animal. 143 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . As hemorragias por diapedese ocorrem por envenenamento com mercúrio, nas doenças infecciosas (carbúnculo hemático, peste suína, rinite infecciosa), picada de insetos e parasitose. Hemorragias nasais nos cavalos da raça puro-sangue podem estar ligadas a fatores hereditários (gen recessivo) promovendo a formação de vasos sangüíneos com paredes delicadas, que durante o esforço físico intenso (corrida), se rompem. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Rinite pode ser de natureza primária ou secundária. As principais causas são: poeiras, corpos estranhos, parasitas, bactérias, fungos, protozoários e vírus. Bactérias que naturalmente habitam as vias respiratórias superiores, podem desencadeiar processo inflamatório tornando-se patogênicas. A rinite (Fig 02) expande-se facilmente para os seios paranasais e faringe, podendo alcançar o ouvido médio, através do óstio faríngeo da tuba auditiva. Fig. 02 – Hiperemia ativa na concha nasal etmoidal em bovino com Rinotraqueite Infecciosa bovina (IBR). O processo alcança ainda com freqüência a laringe, traquéia, brônqüios e pulmões. As rinites podem ser classificadas quanto ao curso em agudas e crônicas. As formas agudas são caracterizadas pelos sinais clínicos da inflamação, rubor, tumor, calor, dor e perda da função. As formas crônicas são caracterizadas por tumefação, formação de pólipos (rinite hiperlásica), hipotrofia da mucosa e dos cornetos nasais (rinite atrófica dos suínos). As rinites são ainda classificadas quanto à natureza do exsudato em serosa, catarral, fibrinosa e purulenta, podendo haver associação entre os vários tipos de exsudatos (serocatarral, mucopurulenta, serofibrinosa, fibrinopurulenta). O elemento que predomina no exsudato, confere o nome à inflamação: líquido 144 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . citrino (rinite serosa); substância mucosa (rinite catarral); fibrina (rinite fibrinosa); pus (rinite purulenta). No caso de rinite fibrinosa é comum a formação de pseudomembrana, e esta passa a denominação de rinite pseudomembranosa. Macroscopicamente a mucosa está coberta por uma pseudomenbrana, facilmente destacável, não deixando, depois de removido, quaisquer defeitos na superfície da mesma. Nos casos mais severos, onde há necrose, a inflamação pode ser denominada difteróide (o processo fibrinonecrótico penetra profundamente na mucosa e o desprendimento da camada pseudomembranosa, provoca erosão). Passamos agora, alguns exemplos importantes de rinites nos animais domésticos: coriza infecciosa das aves (provocada pelo Haemophilus paragallinarum, podendo estar associada ao Mycoplasma gallinarum (Fig. 03) e fungos; cujo exsudato vai de seroso à mucopurulento); rinite atrófica dos suínos (Fig. 04 a e b) (ocorre hipotrofia dos cornetos nasais e desvios laterais das fossas nasais, chegando à total deformação de todas as estruturas, a sua etiologia vai desde bactérias do tipo Actinomyces pyogenes, Pasterurella multocicla, Pseudomonas aerugionas, Bordetella bronchiseptca, até uma osteodistrofia fibrosa por deficiência de cálcio e fósforo); rinite com corpúsculo de inclusão (ocorre em leitões e é caracterizada por dispneia, espirros, exsudato mucopurulento e anorexia. Nos núcleos das células da mucosa encontram-se corpúsculos de inclusão basófila); rinotraqueite infecciosa bovina (observa-se nas fossas nasais, inicialmente hiperemia, tumefação, exsudato seroso progredindo para mucopurulento, finalmente hemorragia e erosões); febre catarral maligna dos bovinos (os ovinos podem ser portadores do vírus sem adoecerem, bovinos apresemtam rinite catarral, progredindo para fibrinosa à difteróide); tuberculose da mucosa nasal (de ocorrência rara, podendo aparecer de duas formas: ulcerativa e poliposa); mormo (caracterizado por nódulos mormosos que se ulceram, e finalmente formam cicatrizes imensas, com características próprias e denominadas "cicatrizes estreladas") (Fig. 05); actinomicose (comum nos bovinos; aparece sob a forma de nódulos que estão sujeitos a se coalecerem, formando nódulos maiores; é provocada pelo Actinomyces bovis); rinosporidiose (é causada pelo Rhinosporidium seeberi nos eqüinos e caninos provoca granulomas poliposos, isolados ou múltiplos, podendo obstruir os condutos nasais). Relatamos um caso de rinosporidiose em um eqüino, com oito anos de idade, procedente de Uberlândia-MG. Atendemos o referido animal que apresentava vários pólipos nasais, medindo cerca de três cm de comprimento, de coloração avermelhada, que sangrava facilmente e se assemelhava à couve flor. Microscopicamente observamos a presença de organismos esféricos, com uma espessa parede de duplo contorno, que caracteriza o Rhinosporidium seeberi. A doença não é transmissível de um 145 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . animal a outro e o habitat do referido fungo é a poeira, sendo que a porta de entrada da lesão deve- se provavelmente, a traumatismos na mucosa nasal. Alguns parasitas são observados nas fossas nasais dos animais domésticos. O Pneumonyssus caninum é um ácaro causador da rinite, sinusite, bronquite e pneumonia no cão. Larvas de Dípteros spp provocam miises nasais. Os ovinos, e caprinos,são atacados pelos Oestrus ovis. Fig. 03 – Coriza infecciosa das aves em perus. Fig. 04 – (b) Suíno adulto exibindo rinite atrófica. Fig. 04 – (a) Suíno adulto exibindo deformação das fossas nasais. Rinite atrófica. Osteodistrofia fibrosa generalizada. Fig. 05 – Septo nasal de um eqüino. “Cicatriz estrelada” do mormo. NEOPLASIAS Fibroma é geralmente mole e do tipo poliposo. São pedunculosos, lisos e bem irrigados. Osteoma é uma neoplasia benigna do osso, que pode ser observado nas fossas nasais de bovinos e eqüinos, mais comum nos animais novos, provavelmente sua origem é embrionária. 146 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Condroma é uma neoplasia benigna da cartilagem que de forma rara, pode ocorrer nas fossas nasais dos animais domésticos. Carcinoma das fossas nasais é uma neoplasia maligna das células cilíndricas, encontradas no vestibulo nasal. Tumor de Sticker na cavidade nasal - relatamos 03 casos atendidos no hospital veterinário da Universidade Federal de Uberlândia, cujas raças eram: pastor alemão, dobermam e srd, com idade de oito, cinco e seis anos, duas fêmeas e um macho. Ao exame clínico apresentavam corrimento nasal mucopurulento, fistula na região infraorbitária e palato duro, aumento assimétrico na maxila e região nassal e dificuldade respiratória. Foi realizado exame radiográfico (radiografia lateral e dorso-ventral do crânio) e biópsia. Os animais foram tratados com cefolosporina (Keflex 500mg) na dosagem de 25 ml/kg V.O., lavagem da cavidade nasal via fístula com solução de rifocina/soro fisiológico na proporção de 1:5 até o resultado da biopsia. O exame histopatológico revelou a presença de tumor de Sticker. O tratamento foi prescrito a base de sulfato de vincristina (oncovin) na dose de 01 ml/kg E.V., uma vez por semana, durante 4 semanas. Um animal veio morreu, e durunte a necropsia, reafirmamos o diagnóstico. Os outros dois animais (doberman e srd) obtiveram resultados favoráveis. Participamos de outro diagnóstico de tumor de Sticker na nasofaringe de um cão da raça pastor alemão, com aproximadamente cinco anos de idade, atendido no hospital veterinário da Universidade Federal de Uberlândia. Ao exame clínico, observamos secreção nasal bilateral sanguinolenta com presença de pus, respiração exclusivamente oral, tosse intermitente e aumento de volume da região dorsal das narinas. Com o animal em decúbito dorsal, foram feitas radiografias nasais com incidências laterais, com a boca aberta e fechada, e frontais. Os dados obtidos não contribuíram para o diagnóstico definitivo, suspeitamos da presença de um tecido neoplásico nas fossas nasais. Diante deste quadro, optamos por um procedimento cirúrgico para exploração das cavidades nasais. Durante a abertura, notamos a presença de um tecido com formações nodulares, penduculadas, semelhantes à couve flor, localizados próximos ao osso etmóide. Toda neoplasia foi retirada através de curetagens e eletrocauterizações. O diagnóstico foi confirmado através do exame histopatológico. 147 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . SEIOS PARANASAIS Seios paranasais são grandes espaços aéreos situados no interior dos ossos frontal, etmóide, esfenóide e o maxilar, extensão das cavidades nasais. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Sinusite inflamação dos seios nasais ou parnasais (Fig 06). Processo que ocorre por continuidade da infecção da mucosa nasal e seqüela nos casos de descornas onde houve contaminação. O exsudato que se forma, geralmente, se acumula nas cavidades, podendo ser seroso, seromucoso e purulento. Neste último, evidenciamos casos de formação de verdadeiros empiemas (acúmulo de pus na cavidade). Fig 06 – Seios sinusoidais avermelhados: hiperemia ativa (sinusite aguda) LARINGE Laringe é uma estrutura situada entre a faringe e a traquéia. Participa na condução do ar que se dirige aos pulmões e é indispensável na fonação. Possui um arcabouço cartilaginoso, com destaque para a cartilagem tireóidea, a epiglote, a cartilagem cricóide e as aritenóideas todas essenciais para o funcionamento da laringe. Uma característica fundamental da laringe é a presença das cordas vocais. 148 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Hipoplasia da epiglote nos eqüino desenvolvimento incompleto ou reduzido, com conseqüências relativas ao grau e intensidade da alteração. Ectopia dos ventrículos laterais da laringe nos cães de raças braquicéfalas pode alterar os sons emitidos pelo animal, de acordo com a intensidade da lesão. ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS E METABÓLICAS Mineralização e ossificação da cartilagem hialina da laringe ocorrem à medida que acontece o envelhecimento. Hemiplegia da laringe é uma hipotrofia dos músculos cricoaritenoide dorsal, aritenóide transverso, cricoaritenoides lateral, ventricular e vocal, causada pela paralisia do nervo laríngo recorrente. A alteração é caracterizada macroscopicamente pela diminuição de volume e intensa palidez dos músculos, promovendo a introjeção da cartilagem cricóide esquerda, para a cavidade da laringe, resultando no completo fechamento da glote. Microscopicamente o quadro é degenerativo, tanto das fibras musculares (metamorfose gorduosa e degeneração hialina), como do nervo recorrente (lise das fibras nervosas), ocorrendo substituição do tecido degenerado, por tecido conjuntivo fibroso. As principais causas da hemiplegia podem estar relacionadas com fatores hereditários, traumatismos, tóxicos (chumbo) e especialmente infecciosos. A correlação clínicopatológica que fazemos, mostra que a maior freqüência da paralisia é do lado esquerdo, devido o fato do nervo recorrente esquerdo, se encostar-se à artéria carótida, podendo ser lesionado pela pulsação da mesma. O som sibilante que normalmente é emido, proveniente da introjeção da cartilagem cricóide esquerda, para a cavidade da laringe, ocasionando o fechamento da glote, dificultando a passagem do ar, que produz ruídos característicos. Por esta razão o animal portador desta alteração é conhecido como "cavalo roncador". ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa é o prelúdio de todo processo inflamatório (a resposta inflamatória é essencialmente vascular). Hiperemia passiva anuncia uma falência cardíaca ou um obstáculo na circulação venosa. 149 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Hemorragias são quase sempre do tipo petequial, podendo estar relacionadas com asfixia e doenças infecciosas bacterianas (leptospirose, erliquiose, etc) e viral (peste suína clássica e africana). Edema na laringe é observado especialmente na glote, podendo matar o animal por asfixia, devido o fechamento da mesma, impedindo a passagem do ar. As principais causas relacionam-se com processos alérgicos (edema angioneurótico), quando os animais têm contatos com alegenos, de diferentes naturezas (produtos químicos, físicos e biológicos). ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Laringites são relativamente comuns nos animais domésticos e geralmente estão associados a outros processos inflamatórios nas estru turas vizinhas (fossas nasais, traquéia). Estão classificadas quanto ao curso em agudas (Fig 07)e crônicas, e quanto ao exsudato em catarral, purulenta, fibrinosa, e hemorragica principalmente. Laringite catarral predomina muco como elemento principal do exsudato. Na purulenta predomina o pus, e na fibrinosa há grande quantidade de fibrina, que muitas vezes forma uma pseudomembrana, podendo ser denominada de laringite pseudomembranosa. Passamos agora, alguns exemplos importantes de laringites nos animais domésticos: laringotraqueíte infecciosa das aves (inflamação do tipo hemorrágica com edema da mucosa e presença de massa fibrinosa sanguinolenta no lume. Na forma aguda, e na forma crônica, observa-se laringite pseudomembranosa "difteróide"); doença respiratória crônica das aves (acomete especialmente frangos de corte e é provocadapelo Mycoplasma gallisepticum. O exsudato é seromucoso nas vias aéreas superiores, no seio infraorbital, e fibrinocaseoso nos sacos aéreos); doença de Newcastle (causada por um vírus que provoca laringite hemorrágica aguda); leptospirose (presença de manchas de coloração esverdeada, necrose, deposição de cálcio, mucosa espessa, sugere uma laringite necropurulenta). Pode ocorrer com menor freqüência, algumas laringites específicas, tais como: tuberculose, mormo e actinomicose. Laringite pode ser provocada por parasita (Syngamus laringeus) especialmente nas aves e bovinos na América do Sul e Ásia Tropical (singamose). 150 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 07 – Laringite aguda em bovino. NEOPLASIAS Neoplasias da laringe são extremamente raras. Algumas foram descritas, porém com uma freqüência muito baixa (papiloma, fibroma, lipoma, condroma e carcinoma). TRAQUÉIA Traquéia é um tubo que vai da laringe até cavidade toracica, onde se divide em dois brônquios primários. Os anéis de cartilagem hialina em forma de "c", empilhados um sobre o outro, formam o arcabouço da traquéia e a mantém aberta. ALTERAÇÕES POST-MORTEM Embebição sanguínea observada na mucosa da traquéia, que se apresenta de cor avermelhada e de forma espalhada, sem contorno definido. É comum após oito horas da morte do animal. 151 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Estenose da traquéia é uma alteração caracterizada pelo enrolamento das cartilagens, de tal modo que não se unem por sobreposição na superfície dorsal. "Bainha de Sabre" é uma anomalia congênita, em conseqüência da aproximação lateral da cartilagem da traquéia, esta adquire a forma de bainha de sabre. Achatamento dorsoventral da traquéia é uma alteração verificada no cavalo e no cão. Os anéis cartilagionosos se estendem de tal forma que a superfície dorsal e ventral e aproximam paralelamente. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa é um distúrbio circulatório que precede em todos os processos inflamatórios, pois a resposta defensiva vem dos vasos sangüíneos (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). Hiperemia passiva é um distúrbio que acontece quando o indivíduo tem alguma insuficiência cardíaca, ou alguma obstrução venosa. Hemorragias na traquéia ocorrem nas inflamações, especialmente as infecciosas (carbúnculo hemático, peste suína clássica, laringotraqueíte das aves, rinotraqueíte infecciosa dos bovinos e alguns outros processos septicêmicos), estas hemorragias são do tipo petequial (pontos avermelhados, milimétricos, espalhados pela mucosa). Pode ocorrer ainda, hemorragia por asfixia. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Traqueítes acompanham as bronquites e pneumonias agudas. Por outro lado, as infeções das fossas nasais e laringe atingem a traquéia, como é o caso das aves (coriza, laringotraqueíte, doença respiratória crônica). Traqueíte (Fig 08) quanto ao curso é aguda ou crônica, e quanto ao exsudato pode ser catarral, hemorragia e purulenta. 152 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 08 – Traqueite aguda em bovino Parasitas como Syngamus trachea (Fig 09) podem provocar traqueíte nas aves (galinhas, perus, faisões e outras espécies avícolas). A manifestação parasitária tem um desfecho freqüentemente fatal, especialmente nos pintos. As larvas atingem o pulmão via sangüínea, partindo do intestino, passam para os brônquios onde atingem a maturidade sexual e finalmente para a traquéia (segmento distal). Filaroides oslerif e hirthi foram observados em cães provocando traqueítes. Fig 09 – Syngamus trachea em traqueia de Gallus gallus domesticus. NEOPLASIAS Papilomas, fibromas, condromas, carcinomas, fibrossarcomas e condrossarcomas. 153 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . BRÔNQUIOS Brônquios são constituídos por quatro camadas: mucosa, submucosa, camada de músculo liso contendo peças cartilaginosas e por último a adventícia. Bronquíolos são resultantes da ramificação dos brônquios. Suas paredes vão perdendo gradualmente alguns de seus componentes (peças de cartilagem, glândulas submucosas). Além da mucosa, o músculo liso passa a ser um dos principais componentes das paredes. ALTERAÇÕES POST-MORTEM Embebição sanguínea é comum na mucosa dos brônquios e bronquíolos, que se apresenta intensamente avermelhada de forma espalhada sem contornos definidos. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS E ACIDENTAIS Corpos estranhos alcançam os brônquios por aspiração ou perfuração das paredes. Os principais corpos estranhos disponíveis aos animais são frutas (manga, laranja, lobeira); ossos (osteofagia é comum nos bovinos); madeira (farpas, aparos); poeiras (sílica, cimento, areia); espinhos e sangue (nas hemorragias das vias superiores). ALTERAÇÕES DO LUME Estreitamento do lume dos brônquios (broncoestenose) é causado por alteração da própria parede (nas bronquites devido ao edema da mucosa e acúmulo de secreção catarral ou até mesmo pus); por compressão externa (nos casos de abcessos e neoplasias dos tecidos vizinhos); e por contração da musculatura lisa dos brônquios (nos casos de alergias, na bronquite asmática). Broncoestenose provoca uma obstrução total ou parcial do brônquio. Na obstrução total surge a atelectasia (colabamento dos alvéolos) e na obstrução parcial surge o enfisema (acúmulo de ar no interior dos alvéolos). Dilatação do lume dos brônquios (bronquiectasia) é causada por processo inflamatório crônico destrutivo da parede do brônquio (bronquite). Macroscopicamente podemos verificar duas formas anatômicas diferentes: dilatação sacular e dilatação cilíndrica. A primeira é limitada, frequentemente ocorre nas bronquites por corpos estranhos. A segunda é do tipo tubular, comum nas bronquites de causas infecciosas (nos bovinos). Pode ser observada em todo pulmão, mais raramente no lobo diafragmático. 154 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Bronquites e bronquiolites são observadas por extensão direta da inflamação de um brônquio ao bronquíolo, e deste ao parênquima pulmonar. Desta forma, é comum a broncopenumonia nos animais domésticos, causada principalmente por helmintos (Dictyocaulus viviparus, Dictyocaulus armfield, Metastrongylus suis, Aelurostrongylus abstrusus, Angiostrongylus spp, Syngamus trachea e S. laríngeo), e de forma menos freqüente: as bactérias, fungos, produtos químicos, gases e vírus. Broncopneumonias bacterianas podem ser primárias e secundárias, visto que, os casos de infestação parasitária geralmente culminam com uma broncopneumonia bacteriana secundária. Víroses são agentes primários, que predispõem a uma broncopneumonia bacteriana secundária, como é o caso do vírus da cinomose: inicialmente se instala nas estruturas do pulmão e posteriormente as bactérias tomam conta de todo órgão, provocando na maioria das vezes, a morte do animal, por broncopneumonia bacteriana supurada. Quanto ao curso, as bronquites e broncopneumonias podem ser classificadas em agudas e crônicas. Quanto ao exsudato das alterações inflamatórias nas vias respiratórias superiores são semellhantes. As formas mais comuns são: catarral, purulenta e fibrinosa, podendo associar entre si. A peribronquite pode ser uma complicação da bronquite, ou ainda ser processo independente, como nos casos de pneumonia enzoótica dos suínos, que é caracterizada microscopicamente por peribronquite e peribronquiolite linfocitária. Um exemplo importante de bronquite viral é a bronquite infecciosa das aves, que freqüentemente, faz-se acompanhar por uma traqueite e pneumonia intersticial linfoplasmocitária. NEOPLASIAS Carcinoma bronquiolar ou carcinoma broncogênico são neoplasias primárias dos brônquios. 155 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PULMÃO Pulmão é o principal órgão respiratório da maioria dos vertebrados, situado no interior da caixa torácica, constituídode brônquios, bronquíolos, ductos alveolares, sacos alveolares e alvéolos. ALTERAÇÕES POST-MORTEM Hipostase cadavérica é uma alteração onde se observa acúmulo de sangue nas partes inferiores dos órgãos, do animal em decúbito, devido à força de gravidade. O pulmão apresenta-se repleto de sangue de coloração vermelho azulada, sujeito a formação de pseudomelanose (pigmentação preta, parda ou azulada, devido à presença de ferro: produto da decomposição da hemoglobina, associado ao sulfureto de hidrogênio: produzido pela fermentação das bactérias saprófitas). Neste caso, é comum observar enfisema de putrefação, devido ao acúmulo de gases, produto da fermentação bacteriana. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Hipoplasia, agenesia e aplasia de um lobo qualquer: o pulmão pode estar reduzido de tamanho; faltar um lobo ou até mesmo o argão inteiro. Ectopia pulmonar pode ser observada raramente, com a presença do órgão na cavidade abdominal por exemplo. Pulmões acessórios encontram-se nos bovinos alguns relatos. Melanose pulmonar é uma alteração comum nos bovinos e ovinos jovens. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Anemia pulmonar é a ausência quase total do sangue no orgão, devido ao tipo de morte ou eliminação, motivada por hemorragias graves ou pela sangria na hora do abate. Hiperemia ativa é uma fase marcadamente importante, pois revela a instalação do processo inflamatório do pulmão (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). Hiperemia passiva acontece por debilidade cardíaca (valva ventricular esquerda: mitral), o sangue se acumula no pulmão, instala-se uma hiperemia passiva crônica, que com o passar do tempo, acumula-se grande quantidade de pigmento, resultante da degradação da hemoglobina e fagocitose pelos macrófagos alveolares, apresentando uma coloração bronzeada ou parda macroscopicamente, o que denominamos de endurecimento 156 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . pardo do pulmão. Microscopicamente, além da hiperemia e hemorragia, verifica-se grande quantidade de pigmentos (hemossiderina) no interior de macrófagos alveolares, que pelo fato de ter sido ocasionado pela insuficiência cardíaca, são chamados de células da insuficiência cardíaca. Hipostase é o acúmulo de sangue nas partes baixas do pulmão, nos animais em decúbito que permanece por algum tempo antes da morte. Nos casos de hiperemia ativa, hiperemia passiva e hipostase, o acúmulo de sangue nos vasos, favorece o aparecimento de edema, devido ao aumento da pressão sangüínea. Edema pulmonar traduz-se macroscopicamente por acúmulo de líquido espumoso de coloração branca, rósea ou avermelhada na traquéia e brônquios (Fig. 10 a e b). Microscopicamente, o edema cora-se em rosa pela hematoxilina e eosina. As principais causas estão divididas em inflamatórias e não inflamatórias. As inflamatórias são comuns a todos os processos inflamatórios do pulmão (pneumonias agudas). As não inflamatórias relacionam-se com a hiperemia passiva crônica, hipostase e todos os mecanismo gerais de formação do edema (aumento da pressão hidrostática; diminuição da pressão oncótica das proteínas; aumento da permeabilidade capilar e obstrução linfática). Fig. 10 – (a) Líquido espumoso Fig 10 – (b) Traquéia apresentando líquido espumoso: edema pulmonar 157 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Hemorragias pulmonares são comuns a todos os animais domésticos. Podem ser causadas por: rexe (projétil, objetos perfurantes, esquírolas ósseas), e apresentam como conseqüência o hemotórax, por ser geralmente profusas; diabrose (erosão e destruição vascular no mormo, na tuberculose e outras enfermidades crônicas do pulmão); diapedese (Fig. 11) (petequias e sufusão causadas por tudo que mia, menos gato. O que mia que não é gato¿ toxemia, bacteremia, septicemia, viremia. Exemplos: dicumarol, samambaia, coerana, viroses do tipo peste suína clássica e anemia infecciosa equina, pasteurelose e etc. Hemorragias por diapedese são: petequiais (pontos milimétricos avermelhados) e sufusões (manchas avermelhadas irregulares) sendo observadas na pleura e subpleura. Fig. 11 – Pulmão de um bovino. Hemorragias petequiais. Intoxicação aguda por samambaia. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Pneumonia é o processo inflamatório do pulmão. Anatomicamente podemos classificá-la em: pneumonite (pneumonia intersticial, geralmente causada por vírus); broncopneumonia (associação de bronquite e pneumonia, geralmente causada por helmintos); pleuropneumonia (associação de pleurite e pneumonia, geralmente do tipo exsudativa); pneumonia lobular (atinge o lóbulo microscópico, como manchas ou focos); pneumonia lobar (atinge o lobo macroscópico, portanto de forma difusa). Do ponto de vista clínico, as pneumonias podem ser primárias e secundárias. As primárias são menos frequentes, os processos inflamatórios do pulmão dependem, na maioria das vezes, do estado geral do animal. Assim sendo, as pneumonias secundárias são mais freqüentes, pois a integridade física do pulmão depende da resistência natural do organismo: quando um animal sofre um acidente, não consegue locomover e permanece exposto ao sol por mais de um dia, é comum que este se apresente com pneumonia. O pulmão é um órgão muito nobre e expõe sua intimidade (parede alveolares) em contato 158 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . com o ar ambiental, que muitas vezes pode estar contaminado, com diferentes produtos de natureza diversa, exigindo-se desta maneira, maior resistência por parte do organismo como um todo: animais doentes se não tratados oportunamentes, terão fatalmente contraído uma pneumonia secundaria. Quanto à natureza do exsudato, as pneumonias podem ser classificadas em: serosa, catarral, fibrinosa, purulenta, necrótica e gangrenosa. O tipo de exsudato está na dependência direta da ação do agressor, partindo da pneumonia serosa (supostamente o agressor é mais leve) até a pneumonia gangrenosa (uma agressão que destrói o parênquima pulmonar) provocado por corpos estranhos em contato com o pulmão. A natureza do corpo estranho é diversa, como medicamentos, quando ministrados via oral: boca a baixo e atingem via respiratória erroneamente (pneumonia medicamentosa). Forma verdadeiras crateras no parênquima pulmonar, promovendo a formação de exsudato necrótico e gangrenoso com coloração pardacenta e odor repugnante. Pneumonia fibrinosa (Fig. 12) do homem é muito comum, e bastante estudada, a ponto de servir como base de estudo, para as demais formas de pneumonia nos animais domésticos. Fig. 12 – Pulmão de um bovino. Pneumonia fibrinosa. A partir das suas características bem definidas, estudaram-se as fases de desenvolvimento da pneumonia aguda: fase congestiva (Fig. 13 a e b) (é a fase de hiperemia ativa, maior aporte de sangue nos vasos pulmonares: a resposta inflamatória vem dos vasos. Macroscopicamente as áreas atingidas estão mais volumosas, de coloração vermelho escura e consistência firme. A superfície de corte é lisa e deixa fluir grande quantidade de sangue ao corte); fase de hepatização vermelha (os alvéolos estão repletos de células inflamatórias, fibrinas, resto celular e grande quantidade de hemácias. Macroscopicamente as áreas pneumônicas estão volumosas de coloração vermelho escuras e compactas. A superfície de corte apresenta-se bastante 159 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . averemelhada e deixa fluir pequena quantidade de sangue); fase de hepatização cinzenta (os alvéolos estão plenos de leucócitos e a quantidade de hemácias está diminuída). Macroscopicamente as áreas são volumosas e compactas. Fragmentos da lesão, quando mergulhados em água precipitam; fase de lise (não é bem definida, pois é a resolução do processo, com reabsorção por via linfática e expectoração via broncógena. Nesta fase, a superfície de corte vai ficando úmida e de consistência pastosa. As pneumonias agudas podem ter desfecho distinto:cura total com lise do tecido necrótico e reabsorção do exsudato; cronicidade: o processo pode não ter cura suficiente e tornar-se crônico, com substituição do tecido necrótico, por tecido conjuntivo fibroso, produzir uma toxemia, dificultar as trocas gasosas, promover uma atelectasia e formar um abscesso; morte do animal, muitas vezes a causa mortis do animal é por insuficiência respiratória. Fig. 13 – (a) Pneumonia aguda, fase congestiva. Fig. 13 – (b) Corte histológico de pulmão de um cão. Pneumonia aguda, fase congestiva. Observar vaso sanguíneo repleto de sangue, exibindo marginação leucocitária. Fig. 13 – (a) Pneumonia aguda, fase congestiva. 160 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . A forma mais comum de pneumonia nos animais domésticos é broncopneumonia, as pricipais causas nos bovinos e ovinos são: Dictyocaulus viviparus (helminto), Pasteurella multocida, Actynomyces pyogenes, Staphylococcus sp e Streptococcus (bactérias); virus da IBR; Nos equinos: Dictyocaulus sp (helminto); Corynebacterium equi, Streptococcus equi (bactérias), vírus da Rinopneumonite equina; Nos suínos: Metastrongylus suis (helminto), Pasteurella multocida, Salmonella cholerae suis (bactérias), vírus da peste suína; Nos caprinos: Mycoplasma caprae, Staphylococcus e Streptococcus sp; Nos cães: Angiostrongylus sp (helminto), Bordetella bronchiseptica, Klebsiella sp (bactérias) e o vírus da cinomose; Nos gatos: Aelurostrongylus sp (helminto), Pasteurella multocida (bactéria); Nas aves: Syngamus sp (helminto), vírus da doença de Newcastle e vírus da bronquite infecciosa, e Mycoplasma gallisepticum. sa Pneumonias crônicas são específicas e importantes nos animais domésticos, geralmente são granulomas do tipo: tuberculose, mormo, actinomicose, actinobacilose, nocardiose, Histoplasmose e Toxoplasmose. Pulmão encaroçado é o achado macroscópico comum à duas enfermidades: toxoplasmose e histoplasmose. Microscopicamente, o Toxoplasma gondii, cora-se intensamente e pode estar presente no sistema nervoso central (uma área necrohemorrágica centimétrica), o que não ocorre na histoplasmose. Decrevemos um caso de nocardiose em um cão da raça fila, do sexo feminino, com aproximadamente 04 anos de idade, no município de Uberlândia-MG. O pulmão do animal apresentava nódulos medindo cerca de um a 1,5 cm de diâmetro, disseminados pelo órgão. Ao exame microscópico revelou a presença de drusas ou rosetas sem chaves radiadas, caracterizando a nocardiose. Chamamos a atenção para os casos de pneumonia crônica em cães, que podem estar relacionadas com nocardiose. Um tipo especial de pneumonia que merece destaque é a pneumonia supurada embólica (Fig. 14). O pulmão é alvo dos diferentes tipos de êmbolos, em especial os êmbolos bacterianos, que se instalam no órgão e formam verdadeiros abscessos, disseminando pela pleura. Esta pneumonia é comum nos bovinos, ovinos, caprinos e suínos. 161 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 14 – Corte histológico de pulmão de um bovino. Pneumonia supurada embólica. Notar presença de neutrófilos. Pneumonia hipostática ocorre em animais enfermos que permanecem em decúbito lateral por vários dias. Inicia-se com uma hiperemia hipostática e acaba sendo invadido por bactérias, instalando assim a pneumonia. ALTERAÇÕES DA FUNÇÃO PULMONAR De acordo com diminuição e o aumento do conteúdo de ar, evidenciam-se dois importantes distúrbios: atelectasia e enfisema. Da diminuição do conteúdo de ar dos pulmões, surge a atelectasia (área pulmonar isenta de ar, devido a não expansão dos alvéolos ou colabamento dos mesmos). Pode ser classificada em atelectasia congênita e adquirida. A congênita ocorre naqueles animais que não respiraram (natimortos). Os alvéolos não expandiram. Macroscopicamente são manchas avermelhadas (Fig. 15), hipocrepitantes, diminuídas de volume como se fossem depressões. A atelectasia adquirida ocorre por compressão dos alvéolos causando colabamento dos mesmos. Este tipo de atelectasia pode ser reversível, uma vez retirando as causas (hidrotórax, pneumotórax, neoplasias pulmonares e nos linfonodos regionais, ascite e timpanismo). Macroscopicamente, a atelectasia adquirida apresenta diminuição de volume da área afetada, isquemia e ausência de ar. As obstruções dos brônquios e bronquíolos são causas importantes de atelectasia adquirida. 162 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 15 – Pulmão de um bovino. Atelectasia representada por áreas avermelhadas. Enfisema é aumento do conteúdo de ar dos pulmões (retenção de ar no interior dos alvéolos ou nos espaços intersticiais) é classificado em enfisema alveolar e intersticial. Enfisema alveolar agudo ocorre nos casos de choque anafilático, afogamento, asma e outros, caracterizado macroscopicamente por aumento de volume do alvéolo, coloração róseo claro (pálido) consistência diminuída e hipercrepitante. Enfisema alveolar crônico é sempre focal. O ar fica retido no interior dos alvéolos devido uma obstrução parcial dos brônquios e bronquíolos, geralmente causado por helmintos. Macroscopicamente é caracterizado por áreas elevadas pálidas, hipercrepitantes, localizadas nas porções caudais dos lobos diafragmáticos. Enfisema intersticial o ar localiza-se no conjuntivo interlobular. É comum nos bovinos, por apresentarem septos interalveolares espessos. Tem como principal causa a inspiração forçada, o envenenamento por creolina e traumatismos. Macroscopicamente aparecem numerosas bolhas de ar no conjuntivo interalveolar semelhante a "contas de rosário" (Fig. 16). 163 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 16 – Pulmão de um bovino. Enfisema intersticial representado pelas “contas do rosário”. NEOPLASIAS Neoplasias primárias são comuns devido aos vícios ororespiratórios, em especial o tabagismo em humanos. Nos animais domésticos raramente são observados os carcinomas alveolares, melanomas, e os carcinomas broncogênicos (Fig. 17). Neoplasias secundárias são importantes: tumor misto mamário, hemangiossarcoma, melanoma, fibrossarcoma e colangiossarcoma. Fig. 17 – Pulmão de um cão. Carcinoma broncogênico. 164 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PLEURA A superfície dos pulmões é recoberta por uma membrana conhecida como pleura visceral, que é constituída por tecido conjuntivo e uma superfície de mesotélio. A pleura é uma serosa comparada com pericárdio e o peritônio, e da mesma forma possue dois folhetos: visceral e parietal. ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS As degenerações da pleura são discretas, suficientes para liberar radicais ácidos, assim como nas inflamações, promovendo o aparecimento de mineralização. Um bom exemplo de mineralização ocorre na uremia em cães (pleura parietal entre 2º, 3º e 4º espaços intercostais). ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa precede os processos inflamatórios agudos. Avermelhou inflamou. Hiperemia passiva é a conseqüência imediata da insuficiência cardíaca. Se o coração não mantem a pressão constante, o retorno fica prejudicado, a circulação torna- se lenta e o sangue vai-se acumulando. Hemorragias pleurais ocorrem nas septicemias, bacteremias, viremias e toxemias. Morfologicamente são do tipo petequial e sufusão. Nos casos mais graves pode ocorrer acúmulo de sangue dentro da cavidade torácica revestida pela pleura viceral e parietal (hemotórax). Edema pleural é o acúmulo de líquido cítrino na cavidade revestida pelos folhetos parietal e viceral (hidrotórax). ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Pleurites ou pleurisias (Fig 18 a e b) são comuns as pleurites exsudativas (serosa, fibrinosa e purulenta), que normalmente acompanham os casos de pneumonia aguda, constituindo assim a pleuropneumia aguda. A pleurite serosa ocorre nas infeccções virais; a pleurite fibrinosa é mais comum nas infeccções bacterianas (pasteurelose, salmonelose); a pleurite purulentapode ser focal ou difusa, e pode contribuir para o aparecimento de empiema torácico (acúmulo de pus na cavidade torácica). O Actinomyces pyogenes é o agente etiológico mais incriminado, nos suínos é conhecida como pleurite apostematosa. Este termo pode ser estendido a todos os processos inflamatórios purulentos; a pleurite necrótica já foi descrita nos casos de 165 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . leptospirose. Das pleurites específicas, a mais importante é a tuberculose, que comumente aparece sob a forma de pleurite exsuditiva e granulomatosa (tuberculose miliar ou perlada). Fig 18 (a) – Pleurite Aguda em bubalino – Pleura parietal Fig 18 (b) – Pleurite Aguda em bubalino – Pleura parietal NEOPLASIAS Mesotelioma é uma neoplasia primária da pleura, pericárdio e peritônio. Apresenta-se em forma de papilas digitiformes espalhadas por todo o revestimento interno das cavidades do corpo (Fig 19). A correlação clinicopatologica revela um quadro de ascite, na maioria dos casos. Fibroma, e hemagioma não são comuns. Durante a visita a uma propriedade rural no Estado de Goiás, examinamos uma vaca da raça nelore, com sete anos de idade, que apresentava clinicamente o quadro de ascite. Ao toque retal identificamos algumas estruturas nodulares que se espalhavam pelo peritônio. O animal foi eliminado e observamos nódulos milimétricos disseminados pelas serosas: pleura, pericárdio e peritônio. Colhemos fragmentos dos nódulos e depois 166 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . de prepradas as lâminas histopatológicas, pudemos confirmar à luz da microscopia óptica, o diagnóstico de mesotelioma. Fig. 19 – Pleura e pulmão de um bovino. Mesotelioma. Observar projeções digitiformes nas bordas do pulmão. SACOS AREOS E OSSOS PNEUMÁTICOS DAS AVES Sacos aéros são estruturas sacuolares que envolvem as vísceras na cavidade celômica especialmente. A parede dos sacos aéreos é delgada, transparente, consta de mucosa e serosa; a coloração é levente cinza. Os sacos aéreos ligam ao pulmão através de óstios. A maioria dos óstios está localizada ao longo da borda ventrolateral do pulmão. Essencialmente, cada saco aéreo possui: uma ligação direta e quatro a seis ligações indiretas, para um dos brônquios principais e parabrônquios, respectivamente. Os sacos aéreos da galinha são: um clavicular; um cervical; dois torácicos craniais; dois torácicos caudais; dois abdominais. A função dos sacos aéreos consiste em reduzir o peso do corpo das aves e facilitar consequentemente o vôo, mediante sua repleção intensa de ar. Eles exercem influência sobre o equilíbrio corporal, durante o vôo e a natação, assim como sobre a mobilidade de diversos ossos (vértebras cervicais). Participam da termorregulação e constituem, sobretudo, reservatórios de ar para os pulmões. Os sacos aéreos abdominais estão em contato com os testículos, podem rebaixar a temperatura destes e facilitar a espermatogênese. Os sacos aéreos também umedecem o ar inspirado. O volume de ar nos sacos aéreos é aproximadamente dez 167 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . vezes maior do que o dos pulmões (uma ave adulta tem um volume ar no sistema respiratório cerca de 500 ml). A pneumatização dos ossos pelos sacos aéreos é uma pecularidade das aves. Divertículos dos sacos aéreos estendem-se por meio de forames pneumáticos, dentro das cavidades medulares dos ossos adjacentes, preenchendo considerável parte do esqueleto com ar. A pneumatização é um processo gradual, substituindo a medula óssea. O processo é extremamente avançado nas melhores aves voadoras, que obtêm um esqueleto largo e forte, sem ser correspondentemente pesado. Na galinha, a pneumatização do osso úmero começa após a segunda semana de vida. Os principais ossos pneumáticos na galinha são: vértebras cervicais (exceto atlas e áxis); primeiras cinco vértebras torácicas; primeiras duas costelas vertebrais, osso esterno, osso coracóide, segunda e terceira costelas esternais, osso úmero, osso sinsacro, cintura pélvica (ilíaco ísquio e pubis). ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Aerossaculites (Fig. 20) são comuns cuja etiologia pode ser: bactérias, mycoplasmas e fungos. Podem ser classificadas em fibrinosa e purulenta, às vezes fibrinopurulenta. Algumas enfermidades nas aves são caracterizadas por Aerossaculites: colibacilose, Aspergilose, doença respiratória crônica, entre outras. A doença respiratória crônica é provocada pelo Mycoplasma gallisepticum, associado a outros agentes secundários. A enfermidade acomete frangos de corte, galinhas poedeiras, perus, perdizes, codornas e pavões. A doença é caracterizada por aerossaculite fibrinopurulenta crônica. Fig 20 – aerossaculite fibrinosa em Gallus gallus domesticus. 168 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . EM OUTRAS PALAVRAS O sistema respiratório está equipado com órgãos e estruturas que favorecem o processo de trocas gasosas, além da fonação e termorregulação. As fossas nasais possuem pêlos, conchas e uma mucosa especialmente estruturada para acondicionar o ar que adrentrar pelas narinas, a fim de evitar choque térmico, tornando o ar o mais próximo da temperatura do corpo. A alteração mais destrutiva das fossas nasais ocorre nos suínos: rinite atrofica. Nela há destruição das conchas e desvio das fossas nasais. Laringotraqueite é uma alteração importante especialmente nas aves e tem causas virais. Os parasitas do sistema respiratório se alojam na traquéia e brônquios. Nos bovinos (Dictyocaulus viviparus); nos ovinos e caprinos (Dictyocalus capillaris); nos eqüinos (Dictyocaulus ligniersi); nos suínos (Metastrongylus suis); nos cães (Angiostrongylus vasorum); nos gatos (Aelurostrongylus abstrusus). Eles provocam broncopneumonia caracterizada por áreas de hepatização cinzenta, intercaladas por áreas de enfisema alveolar devido obstrução parcial dos brônquios pelos parasitas. Pleuropneumonia são na sua maioria do tipo fibrinosa e provoca aderência. A pneumonia secundaria representa aproximadamente 90% dos casos, geralmente é aguda, enquanto o restante é primaria e de um modo geral crônica: tuberculose, nocarciose, toxoplasmose, histoplasmose e outras. As neoplasias no sistema respiratório dos animais são raras, mesmo naqueles que vivem nas grandes cidades, no meio da poluição. 169 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NA PRÁTICA Necropsiou-se no Laboratório de Patologia do Hospital Veterinário de Uberaba um bovino, fêmea, sem raça definida, com histórico de emagrecimento progressivo (Fig 01), dispneia, queda na produção, apatia, prostração e morte. O animal apresentava: estado geral ruim, mucosas congestas, pleuropneumonia aguda na fase de hepatização cinzenta (Fig. 02), hemorragia do tipo equimose na pleura parietal, esôfago avermelhado, traqueia com coloração arroxeada com presença de secreção mucosa (Fig. 03), laringe avermelhada (Fig. 03), seios frontais avermelhados, coágulo cruórico no ventrículo esquerdo, baço exangue, fígado com áreas amareladas que se aprofundam ao corte, enterite catarral e hiperemia no encéfalo (Fig. 04). Fig 01 – Bovino apresentando estado corporal ruim Fig. 03 – Traqueia Intensamente avermelhada Fig. 02 – Pneumonia na fase de hepatização cinzenta Fig 04 – Encéfalo apresentando hiperemia 170 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Diagnóstico Final: Rinotraqueite aguda Diagnóstico Conclusivo: O animal apresentou um quadro de alterações respiratórias compatíveis com IBR (Herpesvírus tipo I ou V) Comentários: trata-se de uma enfermidade viral, que apresenta evolução lenta e sinais clínicos discretos: queda da produção, perda de peso e dificuldade respiratória num curso longo. Etiologicamente, a enfermidade é provocada pelos Herpesvírus tipo I e V, sendo que na maioria dos casos, o tipo I esta presente e provoca alterações restritas ao trato respiratório como: hiperemiana traqueia, seios paranasais e pneumonia. Já o tipo V, é mais agressivo, porém mais raro, e provoca alterações no sistema nervoso central: o animal se comporta como se estivesse com raiva ou outra virose. Ao exame microscópico observa-se além de uma meningoencefalite linfocitária aguda, o que mais chama a atenção é a proliferação de microgliócitos, que se apresentam reativos, aumentados de volume, denominados de células de Gitter (Fig 05). Fig. 05 – Exame citopatologico apresentando proliferação de microgliócitos, aumentados de volume: células de Gitter (seta) 171 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que pneumonite? 2- Qual rinite que deforma o fossinho do suíno? 3- Quais os parasitas que afetam os brônquios dos bovinos? 4- O que é enfisema pulmonar? 5- O que é atelectasia pulmonar? 1- Pneumonite é um tipo especial de pneumonia: acomete somente o interstício do pulmão. 2- Rinite atrofica dos suínos. 3- Os parasitas dos brônquios dos bovinos: Dictyocaulus viviparus 4- Enfisema é o acumulo de ar nos pulmões: alveolar e intersticial. 5- Atelectasia é colabamento alveolar: congênita ou adquirida. BIBLIOGRAFIA BAER 1997 apud STURKIE, P. D. Fisiologia aviar. 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APARELHO DIGESTÓRIO Aparelho digestório também chamado digestivo ou simplesmente canal alimentar. Aparelho é o conjunto de sistemas, e sistemas é o conjunto de órgãos. Canal alimentar compreende: cavidade bucal (lábios, gengivas, dentes, língua, palato), faringe, esôfago (inglúvio nas aves e rume, retículo e amaso nos ruminantes), estômago (proventrículo e moela nas aves, abomaso nos ruminantes), intestinos, cavidade anal e cloaca (aves). O canal alimentar é um tubo muscular revestido por uma membrana mucosa que se estende dos lábios ao ânus, subdividida em estruturas com características próprias que executa funções particulares, todas contribuindo para uma finalidade comum, que é a digestão, isto é, a transformação dos alimentos em substâncias que possam ser aproveitadas pelas células do organismo. As paredes do canal alimentar são estruturadas em quatro camadas: a mucosa, a submucosa, a muscular e a serosa. A mucosa é a camada mais interna do canal alimentar e consiste em três componentes: revestimento epitelial; lâmina própria; muscular da mucosa. A submucosa conecta a mucosa com a camada muscular, e é constituída por tecido conjuntivo frouxo, no qual há fibras elásticas; nessa camada existem fibras nervosas e células ganglionares, que constituem o plexo submucoso de Meissner, nos quais são encontradas ambas as divisões do sistema nervoso autônomo ou vegetativo (simpático e parassimpático). A terceira camada da parede do canal alimentar compõe-se de feixes de músculos lisos: externamente, de natureza circular; internamente, de natureza longitudinal. Entre esses dois grupos de feixes musculares, encontram-se fibras nervosas e células ganglionares, constituindo os plexos mioentéricos de Auerbach. A camada mais externa do canal alimentar é de natureza fibrosa acima do diafragma e, serosa abaixo dele (na cavidade peritonial). CAVIDADE BUCAL Boca cavidade situada no início do canal alimentar, onde se realiza a primeira etapa da digestão, constituída de lábios, gengivas, dentes, língua, palato, faringe e tonsilas. 174 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES POST-MORTEM A mucosa da cavidade bucal é muito resistente à autólise. O processo de putrefação ocorre tardiamente com o aparecimento de pseudomelanose e enfisema post-mortem. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Dentes supranumerário presença de numero superior de dentes na cavidade bucal do mesmo animal (Fig 01) Fig 01 – Dente supranumerário em um cão Queilosquisis é uma fenda labial superior, que pode ser média ou lateral (lábio leporino); queilognatosquisis (Fig 02 a e b) é uma fenda lábiomaxilar média ou lateral, onde os lábios e a gengiva encontram-se fendidos; queilognatopalatosquisis é uma fenda lábiomaxilopalatina média ou lateral. A fenda vai até o palato duro, atravessando-o completamente. Quando a fenda é bilateral é designada por garganta de lobo (as vias nasais estão ligadas com a cavidade bucal pelo teto da mesma). Quando as alterações ocorrem por desenvolvimento incompleto das protuberâncias maxilares e mandibulares, teremos: aqueilia é a ausência de formação dos lábios; microqueilia é o desenvolvimento incompleto dos lábios; agnatia é a ausência do maxilar e mandíbula; micrognatia (braquignatia) é o desenvolvimento incompleto do maxilar e mandíbula. 175 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 02 – (a) Cão recém nascido apresentando queilognatopalatosquisis. Fig 02 – (b) Cão recém nascido apresentando queilognatopalatosquisis. Quando as alterações atingem a língua designamos: aglossia é a ausência de formação da língua; Microglossia é o desenvolvimento incompleto da língua; Glossosquisis é uma fenda na língua, dividindo-a em duas; língua lisa é o caso de epiteliogêneseincompleta da língua, que é caracterizada pela ausência de papilas. ALTERAÇÕES DO METABOLISMO Insuficiência de vitaminas C, riboflavina, piridoxina, ácido fólico e ácido pantotênico, promovem alterações na cavidade bucal, desde a formação de placas esbranquiçadas, ulcerações, escorbuto, glossites, gengivites e periodontites. A paraqueratose (Fig.03) é uma hipertrofia do epitélio pavimentoso estratificado e ceratinizado com particular hiperplasia do stratum corneum com persistência dos núcleos das células. Igualmente a hiperqueratose é provocada em bovinos por envenamento por naftalina, utilizada na conservação de madeiras. A insuficiência de zinco em suínos (5 - 6 meses de idade) é a principal causa de paraqueratose, observada em criatórios, onde é empregado farinha de trigo, concentrado e farinha de peixe. 176 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 03 – Língua de um suíno apresentando placas de Paraqueratose. ALTERAÇÕES DO METABOLISMO PIGMENTAR Melanose são manchas pardas ou enegrecidas caracterizando acúmulo de pigmento melânico. Manchas enegrecidas podem ser observadas na boca de cães, em condições normais para determinadas raças. A coloração amarelada da mucosa bucal sugere icterícia: acúmulo de pigmento bilirrubina nos tecidos. Corpos estranhos na cavidade bucal - por causa da natureza e constituição do alimento (alimentos duros, ressecados, mal triturados e ponteagudos); por insuficiente mastigação (animais famintos ingerem grandes bocados); por insuficiência nutricional (o animal acaba tendo alotriofagia e passa ingerir objetos estranhos como: telhas, tijolos, madeiras, estruturas metálicas, ossos). Osteofagia é um vício adquirido por bovinos criados principalmente no cerrado brasileiro, quando não suplementados adequadamente com sal mineral. O botulismo é uma intoxicação alimentar, provada por ingestão de matéria orgânica em decomposição, seja ela de origem animal ou vegetal. A medula óssea em putrefação é um dos principais meios de cultura para o Clostridium botulinum, razão pela qual, a osteofagia é o grande nó na bovinocultura. Temos que saber conviver com ela. A suplementação mineral por si só, não a corrige. Sal mineral não é remédio, mas é um indispensável alimento, assim como capim e água. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa acompanha os processos inflamatórios agudos (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). 177 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Hiperemia passiva acompanha a insuficiência cardíaca, levando a cianose da mucosa bucal destacando-se pela coloração vermelho azulada. Hemorragia por traumatismo pode acontecer (são as hemorragias por rexe); as hemorragias nas ulcerações não são raras (são as hemorragias por diabrose); as hemorragias petequiais e sufusão são as mais comuns geralmente provocadas por septicemias, viremias e toxemias (são as hemorragias por diapedese). Edema é comum na cavidade bucal, geralmente provocado por alergia. O contato com objetos, substâncias químicas, venenos e outros alérgenos, provoca edema angioneurótico, caracterizado, macroscopicamente, por aumento de volume dos lábios e língua. Um exemplo clássico de edema na língua é o caso da enfermidade "língua azul" dos ovinos e bovinos. A coloração azulada é dada pela hiperemia passiva. Doença das mucosas dos bovinos, febre aftosa, exantema dos suínos, rinotraqueite infecciosas dos bovinos, febre catarral malígna, diarréia bovino à vírus e outras, são portadoras de edema na língua. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Estomatite é um termo genérico, podemos limitar a determinadas estruturas que compõem a boca: lábios (queilites); gengiva (gengivite); língua (glossite); faringe (faringite); tonsila (tonsilite). Quanto ao curso a estomatite pode ser classificada em aguda e crônica. Quanto ao exsudato em catarral, vesicular, erosiva, ulcerativa, fibrinosa, necrótica e purulenta. Estomatite catarral surge por ação traumática, bacteriana e química. As mucosas apresentam avermelhadas e entumecidas, tanto nos lábios, quanto na região palatina. Há grande produção de muco. Estomatite vesicular é caracterizada pelo aparecimento de vesículas repletas de líquido citrino, medindo cerca de cinco a dez milimetros, localizadas nas mucosas (lábios, língua, gengivas e palato). As principais causas relacionam-se com: alterações térmicas (queimaduras: calor e frio); contatos com produtos químicos (substâncias cáusticas); ingestão de substâncias fotodinâmicas (plantas tóxicas: camará); e exposição aos agentes infecciosos (vírus da febre aftosa, vírus da estomatite vesicular dos bovinos, vírus do exantema vesicular dos suínos e outros). 178 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Estomatite erosiva (erosões são perdas de epitélio, atingindo a mucosa sem alcançar a submucosa e tecidos profundos) pode ter o traumatismo como principal causa, destaque para os corpos estranhos: ossos (a osteofagia é uma constante nos bovinos, tornano-a num vício); componentes alimentares (alimentos duros, aguçados, fibrosos e impróprios); substâncias cáusticas (produtos químicos como solução de bateria de máquinas agricolas abandonados no campo). Estomatite ulcerativa (úlceras são lesões com perdas da mucosa quando atingem camadas mais profundas como a lâmina própria e submucosa) apresenta as mesmas causas que a estomatite erosiva, alterando apenas a intensidade das causas e das lesões. Geralmente as bordas da ferida apresentam exsudato necrótico ou purulento. Necrobacilose oral dos bezerros surge freqüentemente como infecção secundária causada por corpos estranhos, seqüela de estomatite vesicular, febre aftosa e outros alimentos fibrosos, que promovem a lesão primária, seguida de invasão de bacterias saprofitas (Fusobacterium necrophorus). Podem ser afetados: língua, gengivas, faringe, bochechas e lábios. Macroscopicamente pode ser observadas feridas que medem desde poucos milímetros até centímetros de diâmetro. É comum a formação de crostas e geralmente está presente um exsudato de coloração acinzentado (necropurulento), com odor repugnante. Pode acometer os cães com dieta pobre em minerais, o cálcio não pode faltar. Estomatite fibrinosa é observada em diferentes doenças infecciosas. Apresenta-se sob a forma de placas difteróides, organizadas pela fibrina, resultando a denominação de estomatite diftérica ou difteróide. Há uma constante associação entre outros tipos de estomatites como: vesicular, erosiva e ulcerativa, observadas nos casos de febre catarral maligna, febre aftosa, peste bovina e outras. Estomatite necrótica origina-se através do contato de substâncias químicas (cáusticas), bacterianas e térmicas (alimentos quentes). Apresentam áreas necróticas irregulares, onde formam crostas que se descamam e através delas erosões e úlceras, culminando em cicatrização. Estomatite purulenta acontece quando há invasão de bactérias piogênicas na mucosa da cavidade oral, de forma primária ou secundária. Pode desenvolver-se em alguns casos, em verdadeiros abscessos, quando se organizam encapsulando. 179 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NEOPLASIAS Papiloma, fibroma, carcinoma ocorrem com maior freqüência nos lábios. Épulis é um termo genérico para todo crescimento tumoriforme na gengiva, incluindo o chamado épulis fibromatoso periodontal. Odontoma (Fig. 04 a) e adamantinoma (Fig. 04 b e c) são neoplasias do tecido que germina os dentes. Fig. 04 –(a) Cavidade bucal de um cão. Presença de neoplasia: odontoma. Fig. 04 – (b) Cavidade bucal de um bovino. Presença de neoplasia: adamatinoma. Fig. 04 – (c) Cavidade bucal de um bovino. Presença de neoplasia: adamatinoma. Há vários casos reportados de carcioma de células escamosas (carcinoma espinocelular) localizados na base da língua de bovinos que vivem em pastagens onde está presente a samambaia (Pteridium aquilinum), apontada como portadora de fatorcarcinogênico que afeta tanto a língua com a bexiga urinária, provocando hemangioma, esta enfermidade é conhecida como hematuria 180 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . enzoótica dos bovinos. Papilomatose oral canina é uma enfermidade neoplasia de etiologia viral que acomete cães jovens, pode ter cura espontânea ou por meio de correção cirúrgica. GLÂNDULAS SALIVARES Glândulas salivares são divididas em dois grupos: salivares maiores (parótidas, submandibulares e sublinguais); salivares menores (labiais, bucais, molares, linguais e palatinas). As glândulas salivares maiores são grandes e têm extensos ductos. Todas as glândulas salivares desenvolvem-se por proliferação de um grupo sólido de células, a partir do epitélio bucal em desenvolvimento. O cordão de células cresce em direção ao mesêquima subjacente, ocorre ramificação profusa e as extremidades terminais desses cordões formam esferas celulares sólidas. A degeneração das células mais internas desta rede de ramos produz a canalização dos cordões celulares, que se tornam ductos, e das extremidades terminais, que se tornam acinos. Ptialismo é o aumento da secreção das glândulas salivares que se acumula na cavidade bucal, culminando em sialorréia. A salivação intensa é desencadeada por inflamação da cavidade bucal e das glândulas salivares; contato com produtos químicos (mercúrio, pilocarpina); estímulos alimentares, mecânicos e nervosos. Concreções nas glândulas salivares (sialólitos) - são massas petrificadas de natureza diversa (carbonatos, fosfatos e outras) encontradas nos ductos glandulares. Sua freqüência é maior nos eqüinos (são os cálculos salivares). Dilatação dos ductos excretores - é provocada pela retenção da secreção salivar devido à obliteração dos ductos por cálculos, ou corpos estranhos, compressões e outros. Ranula é uma mucocele salivar da glândula sublingual, encontrada de baixo da língua ao lado dos pilares. Apresenta tamanho variado, podendo medir aproximadamente cinco cm de diâmetro; tem conformação ovalada e consistência flutuante, contendo líquido seromucoso de coloração acinzentada e sem cheiro. Sua formação deve-se provavelmente a ferimentos dos ductos glandulares, com derrame da saliva no tecido conjuntivo mais próximo. 181 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS DAS GLÂNDULAS SALIVARES Sialoadenite pode estar relacionada com a presença de corpos estranhos nos canais excretores (grãos, esquirulas ósseas, farpas de madeira, sialólitos e outros) estão favorecendo ou determinando a lesão inflamatória. Pode ser classificada quanto ao curso em aguda e crônica, e quanto ao exsudato em serosa, seromucosa e purulenta. NEOPLASIAS Adenoma e adenocarcinoma são raros. FARINGE Faringe é uma estrutura que serve ao sistema respiratório e ao digestório, funcionando como passagem para o ar e os alimentos. Comunica-se com as cavidades nasal, bucal e com a laringe (nasofaringe, orofaringe e laringofaringe). Abaixo da abertura que dá na laringe, a faringe continua-se com o esôfago. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Faringite geralmente está associada a outros processos inflamatórios de estruturas vizinhas (laringe, tonsilas, esôfago, traquéia). Recebem a mesma classificação e tem a mesma importância clínica que as demais alterações inflamatórias em suas proximidades. ESÔFAGO Esôfago é um canal muscular que se estende da faringe até o estômago. Sua maior parte localiza-se na cavidade torácica. A sua função é transportar alimento da cavidade bucal para o 182 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . estômago. Possui uma mucosa (epitélio estratificado pavimentoso não queratinizado); uma submucosa (glândulas secretoras de muco); uma muscular (no terço inicial: músculo estriado, no terço final: músculo liso, e na parte intermediária os dois músculos); uma adventícia (tecido conjuntivo); a inervação é complexa (nervo vago, neurônios motores somáticos do vago, neurônios viscerais do vago, neurônios pós-ganglionários). ALTERAÇÕES POST-MORTEM Pseudomelanose é uma alteração de putrefação das bactérias saprofitas que invadem o orgão geralmente depois das oito horas depois da morte. A mucosa apresenta-se de cor parda, azulada ou preta. Embebição biliar é comum nos casos de refluxo do conteúdo estomacal em direção ao esôfago. A mucosa do orgão apresenta-se de cor amarelada. Em condições normais, o esôfago apresenta-se de cor branca pálida. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia ausência de formação do esôfago; Estreitamento congênito apresenta lume virtual em graus extremos; Aplasia segmentar forma-se um cordão musculofibroso; Fístulas esôfagotraqueais congênitas apresentam aberturas entre os dois órgãos. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Metaplasia é a transformação de um epitélio em outro, desde que pertecem a mesma origem embrionária. Ocorre por insuficiência de vitamina A, transformando o epitélio glandular em epitélio pavi-mentoso estratificado e ceratinizado. Hiperqueratose espessamento da camada de ceratina. Ocorre na mucosa do esôfago bem como na pele. Uma das causas mais comuns é o envenenamento crônico por naftalina clorada. Paraqueratose espessamento da camada de ceratina com retenção dos núcleos das células, semelhante na forma e nas causas à hiperqueratose, comum nos suínos, por insuficiência de zinco e bovino intoxicados por naftalinas, utilizadas na conservação de madeiras. Necrobacilose é uma alteração onde bactérias saprofitas (Fusobacterium necrophorus) se apoderam de lesões traumáticas e provocam lesões necrodifteróides que comprometem a integridade da mucosa, dificulta deglutição, aumenta a salivação e tem odor repugnante (a necrobacilose oral dos bezerros é comum onde o alimento é fibroso e provoca lesões na cavidade bucal, favorecendo a penetração de bactérias do tipo Fusobacterium necrophorus). 183 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Corpos estranhos - a presença de corpos estranhos de natureza diversa pode encravar-se no esôfago (ossos, manga, batata, lobeira, pedaços de madeira e outros) e provocar sérios distúrbios: obstrução, necrose, inflamação, perfuração, timpanismo e até morte. ALTERAÇÕES DO LUME O lume pode estar comprometido tanto pela estenose, quanto pela dilatação. Estenose é o estreitamento do lume que pode ser congênito ou adquirido. A estenose congênita ocorre nos casos de aplasia e hipoplasia. A estenose adquirida ocorre por compressão externa: neoplasias, linfademites, bócio, abscesso, actinomicose; por hipertrofia da parede: miosite, Spirocerca lupi, esofagite e outros. As retrações da mucosa por motivo de cicatrização condicionam extenoses crônicas. Dilatação do lume é rara, especialmente a congênita (megaesôfago). A dilatação adquirida normalmente atinge parte do órgão e quase sempre se relaciona com a destruição da inervação intrínseca, como no caso da doença de chagas, provocada pelo Trypanosoma cruzi, em seres humanos, formando o chamado megaesôfago chagásico (Fig 05) . Fig 05 – Esofago de cão apresentando Megaesôfago Chagássico. Divertículo esofágico é uma invaginação da mucosa para o exterior, culminando na formação de uma projeção digitiforme, medindo cerca de dois atrês cm de comprimento. O divertículo de Zenker representa uma hernia da mucosa esofágica. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa precede ao processo inflamatório do esôfago e ocorre também durante as crises de vômitos. O esforço no ato de vomitar é suficiente para provocar o aparecimento de 184 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . manchas vermelhas tipicaas de hiperemia ativa. Hiperemia passiva ocorre por dificuldade na drenagem venosa local, ou geral (problemas cardíacos). Hemorragias por traumatismos (rexe) podem ser graves e até provocar a morte do animal. Hemorragias por septicemias e toxemias (diapedese) são comuns em todos os animais (petequial e sufusão). Edema - pode ser umamanifestação local ou geral. Nos casos de alergias ao contato com fungos e substâncias químicas, provocam edema angioneurótico (colibacilose na forma enterotoxêmica dos suínos - doença do edema). ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Esofagites (Fig 06) podem acompanhar os processos inflamatórios da cavidade bucal (candidíase, estomatite viral, rinotraqueite viral e outros). A forma anatomopatológica mais comum é a erosiva, seguida da ulcerativa, podendo encontrar alguns casos de esofagite catarral, fibrinosa e purulenta. Fig 06 – Esofago apresentando hiperemia ativa: esofagite. Candidíase (Candida albicans) é de ocorrência maior em bezerros e leitões, o que popularmente chamamos de "Sapinho dos bebês". Espirocercose (Spirocerca lupi) além de provocar a formação de nódulos, predispõe a uma esofagite purulenta secundária localizada. Há relatos de casos de neoplasias promovidas pela espirocercose (osteofibroma, osteofibrossarcoma, fibroma e fibrossarcoma). A principal correlação clínico-patológica que fazemos com esofagite é disfagia: disordem na deglutição. 185 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PARASITAS Sarcosporidiose (Sarcocystis gigantea) ocorre no músculo estriado do esôfago de bovinos e ovinos, podendo provocar reação inflamatória, ou simplesmente um achado acidental. Larvas de Gasterophilus spp podem ser encontradas ocasionalmente na mucosa do terço final do esôfago e provocar ulcerações. Spirocerca lupi é um nematóide (spirurid) que parasita a parede do esôfago de cães e outros carnívoros. Sua localização preferencial é o terço final do esôfago, onde são observados nódulos centimétricos que albergam toda a família do parasito (Fig. 07); ali a fêmea reproduz (Fig. 08) e seus ovos são lançados no trato alimentar. Provoca constantemente vômitos, constituindo-se na melhor correlação clínico-patológica, para o diagnóstico. Estudamos 3.877 cães em Uberlândia-MG, no período de 21 anos (1976-1996), dos quais 86 animais apresentaram nódulos de Spirocerca lupi de diversos tamanhos, na parede esofageana, o que corresponde a uma freqüência de 2,21%. Com relação à idade mais afetada, foi de três a quatro anos, o índice foi de 4,69%, o mais alto. Concluímos que a espirocercose em Uberlândia-MG, quando comparada com outros países foi considerada alta; quando comparada com dados do Brasil, foi considerada baixa; e que a freqüência nos últimos 21 anos permaneceu constante. Fig. 07 – Esôfago de um cão. Presença de nódulos de Spirocerca lupi Fig. 08 – Corte histológico de esôfago de um cão, exibindo um parasita – Spirocerca lupi. 186 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NEOPLASIAS Papilomas são observados com maior freqüência (bovinos e caninos). Nos bovinos podem apresentar no terço final do esôfago e provocar obstrução parcial, levando a timpanismo crônico secundário. Nos cães podem estar associados à papilomatose oral canina viral. Outras neoplasias podem ser diagnosticadas: fibroma, leiomioma, fibrossarcoma, fibroosteosarcoma. A irritação crônica provocada pelo Spirocerca lupi pode levar o aparecimento de algumas neoplasias: fibromas, fibrossarcomas, osteofibrossarcoma. INGLÚVIO Ingluvio é o papo das aves: uma dilatação sacuolar que se projeta na parte final do esôfago, com a finalidade de armazenar alimentos a serem digeridos, pela ação química no proventrículo e a ação mecânica na moela. Durante o período de incubação e algum tempo depois, inglúvio de pombo produz o chamado leite do papo: uma substância cremosa de coloração branca, destinada à alimentação dos filhotes. Sobrecarga do inglúvio é o enchimento com dilatação extrema do inglúvio, bem como a obstrução do segmento caudal do esôfago que se dirige para o proventrículo. É uma situação corriqueira nas aves (galinhas de granja) quando da alimentação, ocorre uma grande competição, fazendo com que cada ave coma o maior volume de ração em um menor tempo, daí o fato delas embuchar-se. A sobrecarga do inglúvio se faz acompanhar de um relaxamento da musculatura, uma vez que há uma compressão de ramos do nervo vago. Os alimentos farelados e secos favorecem sobremaneira este processo. Há casos de ruptura da parede do inglúvio, ocasionando a morte da ave. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Ingluvites são mais comuns que esôfagites devido à permanência do alimento por mais tempo no inglúvio do que no esôfago. Muitas vezes, a ação mecânica dos alimentos é suficiente para provocar uma inglúvite catarral ou mucosa. Nos casos de bouba aviária na forma difteróide, 187 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . pode ocorrer uma ingluvite fibrinosa ou pseudomembrana. A Candida albicans pode estar presente no inglúvio sem causar lesões, porém em condições de estresses, o quadro pode se manifestar com uma ingluvite micótica, com exsudato necrocatarral. PARASITAS Nematóides no inglúvio são mais comuns nas aves aquáticas do que nas galinhas. Acuaria hamulosa é encontrado na mucosa do inglúvio das galinhas, perus e faisões. Echinuria uncinata é encontrada no inglúvio de gansos, perus e cisnes. Várias espécies de Capillaria são observadas no inglúvio de galinhas e pombos. Hystrichis tricolor é encontrada no inglúvio de patos. NEOPLASIAS Papilomas são raros. Linfomas: leucose linfóide e enfermidade de Marek não são raras. RUME Rume é um grande saco muscular que se estende do diafragma à pelvis, preenchendo quase que inteiramente o lado esquerdo da cavidade abdominal. Possui epitélio pavimento estratificado, desprovido de glândulas. Apresenta numerosas papilas que medem cerca de um cm de comprimento. A musculatura lisa consiste em duas camadas prolongadas pelos músculos do esôfago. ALTERAÇÕES POST-MORTEM Desprendimento da mucosa do rume trata-se de um procedimento comum devido a maceração do epitélio, motivada pela fermentação efetiva da microbiota, matendo altas temperaturas e ocasionando a autólise post-mortem, mesmo em pequeno espaço de tempo após a morte do ruminante. Essa mesma fermentação contribui para formação de gases, que se acumulam e condiciona o aparecimento de timpanismo post-mortem e putrefação. 188 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Heterotopia da mucosa do rume é a presença de epitélio desiguias em áreas diferentes do órgão. Hipoplasia das papilas do rume é o desenvolvimento incompleto das papilas. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Corpos estranhos ossos, manga, lobeira, madeira, piloconcreções, fitoconcreções são ingeridos acidentalmente ou nos casos de alotriofagia nos ruminantes. Os ovinos são mais seletivos. É importante salientar que a presença de areia no rume significa que o bebedouro não dispõe de quantidade suficiente de água, ficando o animal sujeito a sugar grandes quantidades de areia que fica no fundo. Correlação clínicopatológica que fazemos é a seguinte: corpos estranhos de difícil mobilidade podem obstruir os ósteos e impedir a eructação, culminando com o acúmulo de gases no rume, levando ao timpanismo secundário; corpos estranhos ponteagudos durante os movimentos rumenais perfuram a parede do rume e atingem o diagrama e daí o pericárdio (pericardite traumática), ou atingir o peritôneo (peritonite traumática). ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa da mucosa ocorre durante os processos de digestão quando há grandes movimentações rumenais; e durante as alterações inflamatórias agudas (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). Hemorragias por rexe ocorrem principalmente na presença de corpos estranhos perfurantes, cortantes e ponteagudos. Hemorragias por diapedese ocorrem nas septicemias e toxemias. Edema pode ocorrer nos casos de intoxicação, com destaque para as plantas tóxicas (Idigófera spp), testadas em ovinos. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Ruminites os corpos estranhos são importantes causas de ruminites. Alguns vírus como o da febre aftosa pode provocar ruminitescom possibilidades de cura, podendo evoluir para cronicidade. Doença crônica é a manifestação de sinais clínicos persistentes sem direito a cura, acompanha o doente por toda sua vida. Lesões são os sinais deixados pelos agentes patológicos, durante suas incursões nas células, tecidos e órgãos. Etiologia é o estudo das causas. Elas podem ser determinantes quando por si só provocam lesões nos tecidos e órgãos, exemplo: bactérias piogênicas provocam inflamação supurada; e são predisponentes quando atuam fatores que contribuem para o aparecimento das lesões, exemplo: o frio favorece alguns vírus, assim como o calor (o vírus da gripe do frango tem maior poder no inverno, enquanto, o vírus da parvovirose é mais incisivo no verão). Patogenia é o mecanismo de formação e desenvolvimento das lesões, desde a penetrção do agente etiológico, até o desfeicho final. Sinais clínicos são manifestações de uma determinada lesão no decurso de uma enfermidade. São fenômenos observados por profissionais com ou sem auxilio de aparelhos (pressímetro, estetoscópico, termômetro e outros). 4 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Sintomas são minifestações corriqueiras de determinadas alterações no decorrer de uma enfermidade (tosse, vômito, diarréia e outros). Sindrome é um conjunto de sintomas que ocorrem durante o decurso de uma enfermidade (a sindrome febril exibe uma série de sintomas como: dor de cabeça, calafrios, indisposição, hipertermia, apatia e ouros). Diagnostico é a reunião dos achados clínicos e de necropsia que permitem nomear uma determinada doença. Prognóstico é a avaliação que se faz de uma doença pondendo ser: favorável, reservado e desfavorável. Exames complementares são todos aqueles disponíveis para auxiliar o clinico, durante a suspeita de determinada doença (exame de urina, sangue e fezes). Morte é a parada de todas as funções vitais de um individuo (morte geral ou somática). Morte celular é necrose (de coagulação, caseosa e liquefação). Apoptose é um processo de morte celular programada, individual e ativo, caracterizado por fragmentação nuclear e pela formação de corpos apopitóticos. Este tipo de destruição celular pode ser induzido por estímulos fisiológicos ou patológicos. Laudo é o registro documental de um estado patológico. NECROPSIA Necropsia (do grego necro opis: ver o morto) é o exame detalhado do cadáver visando identificar as alterações provocadas durante a vida do individuo, que possam ter contribuído para a morte, estando envolvidas diretamente com o diagnóstico da enfermidade. Parte das lesões encontradas em um cadáver podem não fazer parte do diagnostico principal, porque são secundarias ou constituem outro diagnostico. Ao iniciar uma necropsia é fundamental observar o estado geral 5 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . do individuo, se: ótimo, bom, regular e péssimo. Isto favorece o raciocínio na elaboração de um diagnostico. Para que fazer necropsia? O objetivo central é o diagnostico. E a causa mortis? Não a considero importante, pois obrigatoriamente todos morrem de parada cardíaca e respiratória, portanto é indispensável que o necropsiador tenha sempre em mente a preocupação de elaborar um diagnostico que seja compatível com as lesões observadas naquele cadáver. Um diagnóstico correto é rico em elementos de informações e permite o raciocínio do profissional, se: incisivo, reflexivo, e conclusivo. Quando se elabora um diagnóstico há uma contribuição para que o proprietário daquele animal possa corrigir o manejo ou adotar medidas profiláticas adequadas para evitar que a enfermidade em questão se dissemine. Também contribui para que o profissional avalie sua atuação frente aquela doença. Algumas vezes é preciso comunicar com órgãos sanitários de controles de doenças e zoonoses. É preciso estar atento para não perder a oportunide impar de dar um diagnóstico. O patologista veterinário não chega atrasado, como na bricadeira que é feita com os profissionais médicos, ele tem muitas vezes um rebanho esperando parar ser vacinados e evitar uma epidemia. Não tenha medo de necropsiar, basta ter os cuidados necessários, usando luvas, avental, botas e tudo que for útil, evitando assim, contaminação e disseminação de doenças. A necropsia começa por uma baoa inspeção da pele e mucosas, observando se há ectoparasitas, alopsia, palidez na anenia, amarelão na icterícia, retração do globo ocular e pele inelática com pelos secos na desidratação. Observar se há escaras de decúbito ou alguma ferida na pele, se há alguma fratura nos membros e o estado geral das articulações. Feito isto, procede-se a abertura do cadáver fazendo um corte na linha alba desde a região mentoniana até a cavidade anal. Para evitar que os pelos danifique o fio da faca, recomenda-se retiar uma tira de pele de aproximadamente quatro centímetros de largura, no mesmo sentido. Rebate-se toda a pele que for possível, especialmente quando houve suspeita de ofidismo. Neste caso haverá hemorragia na região subcutânea a partir do ponto da mordida da cobra. É bom lembrar que para facilitar a retirada das vísceras é importante colocar o animal na posição que favoreça, observando que o melhor decúbito, é aquele em que os órgãos mais pesados permaneçam voltados para o piso. Assim: bovinos o melhor decúbito é o esquerdo por causa do rume; eqüinos o melhor é o direito por causo do intestino grosso; médios e pequenos animais devem ser feitos em decúbito dorsal. Inicia-se a retirada pela língua, traquéia e órgãos torácicos, para isto é necessário extrair as costelas (nos grandes animais pode quebrar as costelas uma por uma, com machado ou com costótomo, e nos pequenos retira-se o osso esterno, cortando as cartilagens costocondrais). Nos pequenos animais é possível retirar todas as vísceras de 6 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . uma so vez, basta seguir cortando o diafragma rente as costelas e seccionar o reto nas proximidades da cavidade anal. Nos bovinos, retira-se o intestino pelas costas do animal e o rume pela frente. O exame das vísceras deve ser bastante criterioso. Toda e qualquer alteração deve ser descrita e registrada em uma ficha com a identificação do animal e os dados pertinentes a respeito do proprietário. As anotações devem ser claras, precisas e concisas, atentar para volume, consistência, coloração, odor e o formato da lesão. No final é indispensável que o necropsiador emita sua opinião, com diagnóstico preciso indicando as medidas a serem tomadas. Se necessário coletar fragmentos de órgãos para exame histopatológico. Devem medir de cinco a dez milímetros de espessura não importando o comprimento, coloca-lo em foralina a 10% em um volume do liquido cerca de 30 vezes o do fragmento. Para exame toxicológico, o fragmento deve ser maior, cerca de 30 gramas de fígado, por exemplo. Para exame bacteriológico, a coleta deve ser imediata e em recipiente apropriado. O termo necrópsia está sendo substituído por necropsia. São usados ainda, mortópsia, autópsia (humanos) e diagnóstico post-mortem. 7 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 8 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- Conceitue necropsia 2-Qual o objetivo principal da necropsia? 3-Qual a importância da ficha? 4-Qual a melhor posição para realizar uma necropsia? 5-Qual o melhor momento para se realizar uma necropsia? 1-Necropsia é o mesmo que ver o morto de forma detalhada 2- Objetiva-se com a necropsia descobrir a verdadeira causa mortis, conhecendo o diagnóstico da doença que promoveu a morte. 3-A ficha de necropsia é o relatório das lesões encontradas no cadáver, por meio dela pode- se investigar na distancia e independente do tempo. 4- Bovinos: decúbito lateral esquerdo; eqüinos: lateral direito; suínos: lateral direito ou dorsal; pequenos ruminantes: com opção de decúbito dorsal. 5- O melhorvesicular que culminam na formação de crostas e finalmente cicatriz. Ruminite química pode ocorrer quando houver contato com substância do tipo: ácido sulfúrico, soda cáustica e outros. Morfologicamente a ruminite apresenta-se do tipo erosivo ou ulcerativo (Fig. 09), podendo curar-se e finalmente exibir uma cicatriz (baterias de máquinas agrícolas quando lambidas por ruminantes, provocam ruminites químicas). 189 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 09 – Mucosa de rume de um bovino. Presença de úlceras. NEOPLASIAS Papiloma é a neoplasia mais comum do rume, podendo ocasionar grandes transtornos, na eructação, obstruindo o cardia, promovendo um timpanismo secundário. Mesotelioma pode ser encontrado na serosa rumenal. Fibrossarcoma e carcinoma foram descritos no rume, assim com o próprio linfoma (leucose bovina). PARASITAS Gongylonema spp ocorre no epitélio do rume. Os mais importantes parasitas do rume dos bovinos e ovinos pertencem à família Paramphistomatidae, podendo ser encontrados em animais de regiões temperadas, subtropicais e tropicais. Larvas de Cochliomya são capazes de infestar o rume de bezerros, provocando miíase. DILATAÇÃO DO RUME Timpanismo se dá pelo acúmulo de gases no rume e demais pré-estômagos. De acordo com as diferentes causas, o timpanismo pode ser classificado em: timpanismo primário e timpanismo secundário. Timpanismo primário é também chamado de timpanismo espumoso ou úmido, nele as causas relacionam-se diretamente com a qualidade e quantidade do alimento. Leguminosas são ricas em proteínas de alta viscosidade; diversas plantas tóxicas ricas em saponinas; forragens verdes e tenras; muitas substâncias tóxicas são indutoras da paresia rumenal; rápida ingestão de alimento farelado ou granulado predispõe à sobrecarga e pode ocasionar paralisia do rume, levando 190 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ao timpanismo primário, pela deficiência na eructação. Em conseqüência da fermentação das substâncias ingeridas e a natureza das mesmas (saponinas), haverá formação de espuma, o que dificulta sobremaneira a eliminação dos gases. Timpanismo secundário é também chamado timpanismo gasoso ou seco, nele as causas relacionam-se com o impedimento súbito na eliminação dos gases produzidos normalmente no rume: obstrução do esôfago por corpos estranhos; neoplasias do tipo papilomatose no esôfago e rume; piloconcreções e fitoconcreções. O timpanismo ainda pode ser classificado quanto ao curso em agudo e crônico. Timpanismo agudo as causas são facilmente retiradas: mudança de alimentação, corpos estranhos removíveis. Timpanismo crônico quando as causas são de difícil diagnóstico ou não permitem uma intervenção rápida. Ex.: papilomatose no esôfago e rume. Nestes casos não serão suficientes o uso da sonda e a retirada dos gases rumenais, para subtrair as causas, será necessário medidas cirúrgicas. A correlação clínico-patológica do timpanismo mostra: dilatação do rume provocando distenção abdominal lateral; percussão apresenta som timpânico; compressão do diafragma provoca isquemia, hemorragia e edema pulmonares, favorecendo a saída de líquido espumoso pelas narinas e dificultando a respiração e as trocas gasosas, levando um quadro de hipoxemia, com sangue de aspecto xaroposo e com dificuldade de coagulação; no esforço respiratório, a língua projeta-se para fora da cavidade bucal; compressão da veia cava proporciona retenção do sangue nas vísceras abdominais, destacando o baço, que apresenta hiperemia passiva e aumento de volume (esplenomegalia congestiva); morte do animal geralmente advém da insuficiência respiratória. Achados de necropsia: esplenomegalia congestiva, hipoxemia (sangue xaroposo), edema pulmonar e hemorragia em alguns linfonodos, fazem o necropsiador confundir timpanismo com algumas entidades nosológicas (carbúnculo hemático), havendo a necessidade de se fazer diagnóstico diferencial. 191 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . RETÍCULO Retículo também chamado de "colméia" ou "favos de mel". A superfície é formada por epitélio pavimentoso estratificado. Localiza-se quase justaposto ao coração, favorecendo aos inúmeros acidentes com corpos estranhos ponteagudos, perfurando diafragma e pericárdio. Corpos estranhos são comuns no retículo, especialmente pela sua localização ao fundo do rume. Os bovinos são poucos seletivos, estão mais sujeitos a este tipo de ascidente. Os corpos estranhos ponteagudos e cortantes (Fig. 10), normalmente provocam graves acidentes, atingindo diafragma, pericárdio, coração, ou até mesmo o peritônio. Fig. 10 – Mucosa do retículo de um bovino. Presença de corpos estranhos. A correlação clínicopatológica que fazemos, destaca alguns pontos importantes: bovinos com alotriofagia estão sujeitos a ingestão de objetos perfurantes e cortantes; movimentos do rume e retículo favorecem o traumatismo; proximidade do retículo com o coração contribui sensivelmente; microbiota presente instá-se a chamada retículopericardite traumática: o animal apresenta-se arqueado, arrepiado, febril, pulso venoso positivo, sopro cardíaco, pericardite purulenta e hipertrofia cardíaca concêntrica do ventrículo esquerdo. 192 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Reticulites são comuns as traumáticas. Quando o corpo estranho partindo-se do retículo atinge o pericárdio, teremos a reticulopericardite traumática, quando atinge o peritônio, teremos a retículoperitonite traumática. As demais inflamações no retículo são raras. NEOPLASIAS Papilomatose ocorre de forma esporádica. OMASO Omaso é um órgão esférico, preenchido com lâminas musculares. A membrana mucosa que recobre as lâminas está constituída por papilas ásperas e curtas, e o epitélio é pavimentoso estratificado. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Hipoplasia ocorre desenvolvimento incompleto das pregas do orgão. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Hiperqueratose espessamento da camada de ceratina das pregas do orgão. Relatado nos bovinos que se alimentam com substâncias grosseiras. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Omasites são raras. O omaso é um orgão resistente (Fig 11). 193 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 11 – Omaso de bovino apresentando hiperemia ativa: omasite. Note também pequenos nódulos enegrecidos: papiloma. NEOPLASIAS Papilomatose quando muito severa no retículo, pode alcançar as pregas do omaso (Fig 12). Fig 12 – Omaso bovino apresentando papilomatose. PROVENTRÍCULO Proventriculo é o estômago grandular das aves, situado junto ao plano mediano. É fusiforme e tem cerca de quatro cm de comprimento. Sua mucosa esbranquiçada é revestida por um epitélio cilíndrico, mucossecretor, que se distingue nitidamente do revestimento esofágico mais 194 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . avermelhado. Possui inúmeras glândulas que produzem ácido clorídrico e pepsina, localizadas junto à túnica muscular. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia ausência de formação do órgão. Fendas no proventrículo são aberturas na parede do órgão. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa ocorre principalmente durante os processos de digestão: hiperemia ativa fisiológica. Todavia, ela é patológica quando precede aos processos inflamatórios do proventrículo (proventriculites). Hiperemia passiva acompanha a insuficiência cardíaca. Hemorragias por rexe acontecem em acidentes, quando a ave ingere objetos ponteagudos, o que não é raro. Hemorragias por diapedese: petequial e sufusão ocorrem geralmente nas diáteses hemorrágicas das aves (insuficiência de vitamina E); na doença de Newcastle; nas intoxicações por sulfas. Edema pode ocorrer acompanhando as alterações inflamatórias e especialmente nas parasitoses. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Proventriculites são provocadas pelas mais diversas causas: Nematóides (Tretameres); fungos (Aspergillus spp); tóxicos (micotoxinas);vírus (doença de Gumboro); e outros. Morfologicamente as proventriculites são: erosivas, ulcerativas, necróticas, catarrais, hemorrágicas e associações destas. PARASITAS Tetrameres spp (Fig 13) vivem das secreções das glândulas do proventrículo; geralmente provocam proventriculites. 195 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 13 - Tetrameres spp parasitando proventrículo de Gallus gallus domesticus. NEOPLASIAS Leucose linfóide e doença de Marek não são comuns no proventriculo. Sobrecarga do proventrículo especialmente quando as aves estão sendo alimentadas com ração farelada e seca durante o sistema de restrição alimentar (dia sim dia não). Elas comem de forma voraz e acabam por embuchar-se, caindo-se sobre a "cama" devido ao relaxamento muscular, provocado pela compressão do nervo vago. MOELA Moela estômago mecânico das aves. Tem o formato de lente e seu interior é alongado e dilatado por sacos cranial e caudal, dos quais o primeiro une-se ao proventrículo. O piloro e a origem do duodeno ficam na superfície direita, adjacentes ao saco cego cranial. A parte principal do órgão consiste em duas massas grossas de músculo que se inserem em centros tendíneos brilhantes, um em cada superfície. Dois músculos mais delgados cobrem os sacos cegos. O epitélio é cubóide, e reveste glândulas tubulares que secreta uma firme cutícula que depois se solidifica (glicoproteína). Nas aves que se alimentam de sementes, as potentes contrações da moela esmagam o alimento. Há casos em que as aves ingerem pequenas pedras, no intuito de favorecer o esmagamento dos grãos. 196 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Hipoplasia desenvolvimento incompleto do órgão. Corpos estranhos comuns no interior da moela, em especial os palmípedes (os mais vorazes). Os principais corpos estranhos são: pedras, arame, agulhas, vidros, louças, parafusos, pregos e outros. A correlação clínicopatológica que fazemos inclui: corpos ponteagudos perfuraram a parede do órgão; provocam pleurites, peritonites aerossaculites; aderências com órgãos vizinhos; formação de fístulas; contaminação do fígado e cavidade celômica; formação de abscessos; deficiência motora do órgão; sobrecarga para o inglúvio e proventrículo. DEGENERAÇÃO MUSCULAR DA MOELA Hialinose muscular processo conhecido como miopatia degenerativa que tem sido reportada nos palmípedes, onde a degeneração dos músculos esqueléticos é patente, podendo afetar inclusive os músculos da moela. Trata-se de uma alteração provocada pela insuficiência de vitamina E, caracterizada pela presença de estrias brancacentas e hemorragias do tipo petequial e sufusão. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa ocorre durante a digestão (hiperemia ativa fisiológica), e precedendo a todos os processos inflamatórios da moela. Hiperemia passiva acompanha a insuficiência cardíaca. Hemorragias por rexe são comuns nos acidentes com corpos estranhos perfurantes. As hemorragias por diapedese ocorrem na miopatia degenerativa dos palmípedes, na doença de Newcastle, na insuficiência de vitamina E, na intoxicação por sulfa, arsênico, micotoxinas e outros. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Ventriculite este termo vem de ventrículo por ser a moela considerada como tal. O termo poderia ser denominado "moelite" não é usual (Fig 14). As ventriculites geralmente acompanham as proventriculites, devido à grande proximidade ente os dois órgãos e a seqüência que os alimentos percorrem. As causas são as mais variadas possíveis: traumáticas (corpos estranhos); infecciosas (vírus da Newcastle, fungos, bactérias); insuficiência de vitamina E (como fator predisponente); toxinas (substâncias cáusticas, arsênio, ácidos e outros). As ventriculites morfologicamente são classificadas em: erosivas, ulcerativas, hemorrágicas, catarrais, serofibrinosas, necróticas. 197 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 14 – Ventriculo de Gallus gallus domesticus apresentando hiperemia ativa: moelite PARASITAS Cheilospiura hamulosa um nematóide que parasita a moela de galinhas e perus, normalmente provoca ventriculites ulcerativas. NEOPLASIAS Linfomas das aves: leucose linfóide e doença de Marek. Podem manifestar a presença de alguns nódulos brancacentos na parede da moela. ABOMASO Abomaso é a porção glandular, que nos monogástricos chamamos de estômago. Localiza-se ventralmente ao omaso e se estende caudalmente no lado direito do rume. O epitélio é cilíndrico simples alto, capaz de produzir muco. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia ausência de formação do órgão; Hipoplasia desenvolvimento incompleto do órgão, são alterações raras no abomaso. 198 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Corpos estranhos o assoreamento do abomaso é o acúmulo de areia fina em locais de pastagens e águadas rasas e arenosas. Geralmente predispõe a formação de cálculos renais de sílica e provocam obstrução da uretra, retenção de urina, rompimento da bexiga, peritonite e morte. Concreções (piloconcreções e fitoconcreções) são encontradas no abomaso de animais jovens, em especial aqueles que apresentam problemas de pele com intenso prurido (ectoparasitas e alergias). Torção do abomaso o deslocamento pode ocorrer com maior freqüência, geralmente para a esquerda. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa acompanha o processo digestivo (hiperemia ativa fisiológica). E precede a inflamação aguda do abomaso (Fig 15) (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). Fig 15 – Abomasite medicamentosa aguda Hiperemia passiva acompanha a insuficiência cardíaca. Hemorragias por rexe quando algum objeto (corpo estranho) atinge o abomaso. Hemorragias por diabrose são comuns, ocorrem nas úlceras. Hemorragias por diapedese (petequial e sufusão) são comuns e ocorrem nas toxemias (tóxicos químicos, tóxicos de plantas "samambaia, coerana") e estão presentes na mucosa do abomaso. Hemorragias por septicemias são mais comuns nas serosas do abomaso. Edema do abomaso pode ser observado na hipoproteinemia por subnutrição ou parasitária, na intoxicação por plantas (Idigophera spp) experimentalmente em ovinos. 199 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NEOPLASIAS Adenoma surge com certa freqüência na mucosa; Adenocarcinoma, leiomioma e leiomiossarcoma. ESTÔMAGO Estômago é uma dilatação do canal alimentar localizado sob o diafragma; recebe o bolo alimentar do esôfago. Dentro do estômago, os alimentos são misturados com o suco digestivo, formando uma mistura denominada quimo. A parede do estômago absorve somente água, álcool, sais e algumas drogas. As secreções gástricas são: pepsina, fator intrínseco, muco, ácido clorídrico, água e eletrolitos. Gastrina é um hormônio produzido no estômago. Morfologicamente o estômago está dividido em três regiões: cárdia (região cárdica); corpo ou fundo (região fúndica); piloro (região pilórica). ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia ausência de formação do órgão; Hipoplasia desenvolvimento incompleto do órgão; Gratroquisis - formação de fenda no órgão; Estenose da região cárdica e pilórica estreitamento dos esfincteres; Estômago de ampulheta (estômago relógio de areia) - estrangulamento em nível da curvatura do órgão, que eventualmente ocorre em cães (Fig. 16). 200 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 16 – Estômago de um cão. Alteração do desenvolvimento. “Estômago relógio de areia ou ampulheta”. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Torção do estômago é algo comum em cães, especialmente naqueles de raças de grande porte. O órgão torce em volta do esôfago, constituindo no ponto fixo de um eixo imaginário no sentido do comprimento do corpo, numa rotação de 180 graus. A correlação clínicopatológica destaca-se: acúmulo de gases; com a fermentação e desintegração do alimento formam-se mais gases; acumula-se cada vez, maior quantidade de gases no estômago;provoca intensa dilatação do órgão, assumindo o aspecto de balão; pode haver ruptura das fibras musculares por dissociação das mesmas; ruptura do órgão, só acontece nos casos extremos; ocorrem hemorragias disseminadas pela serosa do órgão; ocorre distensão abdominal; deslocamento dos órgãos abdominais e compressão da artéria aorta ocasiona-se hiperemia passiva e edema pulmonares, bem como dilatação cardíaca aguda; o sangue apresenta-se xaroposo; esplenomegalia congestiva é inevitável, devido ao estrangulamento vascular durante a torção do estômago; a morte advém dentro de três a 24 horas por insuficiência cardiorespiratória. A maior freqüência aprece nos cães das raças de grande porte: geralmente estes animais ingerem grandes quantidades de alimento e qualquer movimento brusco com o estomago repleto, pode favorecer a torção do estômago. Estenose do estomago na maioria das vezes por seqüela de gastrite erosiva e ulcerativa, ou em conseqüência de neoplasias. Linfoma é exemplo de uma neoplasia que pode acometer o abomaso, nos casos da leucose enzoóica dos bovinose ocasionar uma estenose da região cárdia ou pilórica. Relatamos o caso de uma cadela com nove anos de idade, que foi atendida no hospital veterinário da UFU, apresentando estenose pilórica, causada por gastrite crônica. O animal apresentava grande sensibilidade e tensão abdominal (região do estômago) e vômitos constantes. Macroscopicamente a parede do estômago (na região pilórica) estava espessa e provocava o fechamento do pilóro. O exame histopatológico revelou a presença de células inflamatórias (polimorfos nucleares neutrófilos e eosinófilos) e intensa infiltração de tecido conjuntivo fibroso. Dilatação do estômago (sobrecarga gástrica) é um aumento de volume acentuado que ocorre no órgão devido à ingestão excessiva de alimento (alimentos altamente palatáveis e competição são fatores predisponentes). A ingestão subsequente de água hidrata o bolo alimentar, favorecendo ainda mais o aumento de volume e a fermentação com produção de gases, o que agrava a dilatação. 201 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . A correlação clínicopatológica aponta o seguinte: dilatação aguda do estômago promove a ruptura da parede do órgão, geralmente na região fúndica; começa com dissociação dos feixes musculares e termina com rompimento da parede; ruptura do estômago é mais comum nos eqüinos; provoca hemorragia por rexe; contaminação da cavidade peritonial; peritonite aguda; morte do animal. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa surge na mucosa do estômago em duas condições especiais: durante a digestão (hiperemia ativa fisiológica); primeiros sintomas da inflamação aguda (toda inflamação aguda começa com hiperemia ativa). Hiperemia passiva surge na insuficiência cardíaca, na obstrução portal e nos casos de cirrose hepática. Edema tem sido descrito naqueles casos denominados angioneuróticos (alergias com tóxicos, venenos, pesticidas e outros) que estão sujeitos os animais domésticos. Nos suínos há um forte edema especialmente na região submucosa do estômago, devido à toxinas liberadas no processo enterotoxêmico da colibacilose (trata-se de um edema angioneurótico pelas toxinas da colibalicose, conhecido como doença edematosa do suíno "Gut edema”. Hemorragias por rexe geralmente ocorre nos acidentes com corpos estranhos ponteagudos, o que não é raro no estômago de monogástricos (ingestão de ossos). Hemorragias por diabrose ocorrem nas erosões gástricas e principalmente nas ulcerações, onde podemos desfilar um elenco de causas: úlcera péptica do estômago que ocorre pela digestão local da parede do órgão. Estas úlceras aparecem em todos os animais domésticos, com maior freqüência no bovino jovem e aves; erosões na pars oesophagea de suínos e úlceras da mucosa glandular, no eqüino; As úlceras dos suínos ( pars eosophagea do estômago), tem se verificado um acentuado aumento destas nos últimos anos. A doença aparece em muitos países. A maioria dos casos de morte ocorre nas estações de inverso e primavera. Os animais mais atingidos são os criados intensivamente em grupo ocupando baias pequenas em condições climáticas desfavoráveis. Hemorragias por diapedese são comuns nas doenças septicêmicas (peste suína, peste aviária, leptospirose e uremia dos cães); nas toxemias (fosforados, clorados, dicumarol). A maioria 202 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . dos perticidas ingerida acidentalmente provoca hemorragias gástricas. Estas hemorragias geralmente são do tipo petequial e sufusão. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS As gastrites geralmente se estendem aos intestinos, tornando-as: gastroenterites. As gastrites podem ser classificadas em agudas e crônicas. A gastrite aguda é comum (Fig. 08), e revela importantes exsudatos: catarral, hemorrágico, fibrinoso, ulcerativa. Causa grandes transtornos na vida do animal, ao ponto de permitir a seguinte correlação clínico-patológica: dor, vômito e anorexia (este é o tripé da gastrite aguda). A gastrite crônica também é comum, destaque para o tipo ulcerativo (Fig. 18). A formação de uma úlcera pode ocorrer de forma rápida, porém só desaparece depois de um longo processo de reparação. Fig. 18 – Estômago de um suíno. Gastrite ulcerativa. PARASITAS Larvas de Gasterophilus spp são comuns no estômago de equinos. Larvas de Habronema spp podem ser encontradas no estômago de eqüinos com lesões cutâneas da habronemose. Macracanthorhinchus spp são observados no estômago de suínos, provocando ulcerações. Physaloptera spp é um parasita do estômago de felinos. O Trichostrongylus axei foi observado no estômago de equinos. Toxocara canis é comum no estômago de cães jovens. NEOPLASIAS As neoplasias primárias são: Adenoma, adenocarcinoma, leiomioma, leiomiossarcoma, fibroma, fibrossarcoma, mixoma, mixossarcoma, mesotelioma. As neoplasias de estômago na 203 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . espécie humana são mais comuns provavelmente devido ao tipo de alimento (conservantes, acidulantes, aromatizantes) e maus hábitos alimentares. INTESTINOS Intestino delgado é uma porção tubular longa do canal alimentar dividida em três partes: duodeno, jejuno e íleo. Recebe o quimo do estômago e continua a solubilização e a digestão dos alimentos, para serem absorvidos. A maioria dos nutrientes é absorvida no intestino delgado. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia e aplasia ausência de formação do órgão ou parte dele podem ocorrer em um dos segmentos do tubo digestivo. Hipoplasia desenvolvimento incompleto do órgão ou parte dele pode ocorrer em qualquer segmento do intestino delgado. Divertículo de Meckel (Fig. 18) é uma projeção digitiforme da parede do intestino, de dentro para fora, como se fosse um apêndice. Tem sua origem no ducto onfalome-sentérico (normalmente desaparece durante desenvolvimento fetal). Pode ocorrer nos eqüinos, suínos. Trata-se de um achado normal em aves. O divertículo é observado na região do íleo. Fig. 18 - Intestino delgado de um eqüino (jejuno). Divertículo de Meckel. 204 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Eventração é saída de um segmento do intestino para fora da cavidade abdominal. Hérnia é projeção de parte das alças intestinais envolvida pelo peritônio (saco herniário) para fora da cavidade abdominal. Há casos em que durante a invaginação do peritônio, podem alojar outros órgãos, além do intestino. As hérnias podem ser congênitas ou adquiridas. A predisposição para a formação de certas hérnias é heridatária (abdominal, umbelical, inguinal, perineal, diafragmática). A correlação clínico-patológica que fazemos é a seguinte: pode haver encarceramento do conteúdo herniário, quando este se torna muito pesado; pode haver aderência do conteudo com a parede abdominal; surge hiperemia passiva, hemorragia e edema; coloração das alças intestinas mudam para roxa, em virtude do grandevolume de sangue venoso (rico em CO2); há necrose; há invasão de bactérias saprofitas e aparecimento de gangrena; pode ocasionar choque séptico; cólicas; morte do animal. Torção do mesentério (volvo mesentérico ou simplesmente torção intestinal). As partes mais afetadas no volvo são o jejuno e o íleo. As torções podem atingir graus elevados como de 180 ou mais. Os eqüinos estão mais sujeitos a esta alteração (Fig 19). A correlação clínico-patológica aponta o seguinte: no momento da torção pode haver estrangulamento vascular, provocando isquemia de um lado e hiperemia passiva do outro; necrose; gangrena; choque séptico; cólica; morte do animal. Fig 19 – Torção de raiz mesentérica na espécie equina. Intussuscepção intestinal é uma invaginação constituída pela introdução do segmento anterior da alça dentro do segmento posterior da mesma. É o que chamamos de alça telescopiada 205 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . (Fig. 20). Há casos, em animais de grande porte, em que a intussuscepção chega a 20 cm de comprimento. As causas da referida alteração relacionam-se com aumento do peristaltismo: corpos estranhos, inflamação, verminose e outros. A maior freqüência de intussuscepção está nos animais jovens. A correlação clínico-patológica mostra: cólica; isquemia da alça intestinal por estrangulamento vascular; hiperemia passiva do segmento oposto; necrose; gangrena; choque séptico; morte do animal. Fig. 20 – Intestino delgado de um cão. Intussuscepção intestinal. ALTERAÇÕES DO LUME INTESTINAL Estenose é o estreitamento do lume (Fig 21) do intestino promovido pelo espessamento da parede ou compressão externa (abscessos, neoplasias), e ainda por estrangulamento da alça intestinal nos casos de torção, volvo e obliteração do lume. Fig 21 – Intestino de equino apresentando estenose por encarceramento. 206 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Obstrução intestinal é comum em animais jovens (cães, bezerros) em acidentes com objetos estranhos ingeridos voluntariamente ou não, mas que acabam por obliterar o lume do órgão e determinar uma obstrução. Já foi observado em suínos, casos de obstrução por nematóides (Ascaris spp), conduzindo à ruptura da alça intestinal. A correlação clínico-patológica que fazemos para estenose e obstrução intestinal é a mesma que ocorre na torção e intussuscepção. Dilatação intestinal (ectasia) é o aumento da capacidade do lume do intestino com a distenção da parede da alça que ocorre nas mais variadas situações: excessiva quantidade de alimento ingerido; conseqüência de uma obstrução de um segmento; por excesso de gases, nos casos de meteorismo; por lesões da inervação intrínseca, que determina paralisia com a abolição do peristaltismo. A principal correlação clínico-patológica da dilatação intestinal é a constipação (retenção do bolo fecal). Corpos estranhos podem ser vistos no intestino, nas mais variadas formas e constituições (areia, pregos, ossos, fios e outros). A correlação clínico-patológica refere-se à formação de úlceras, enterites, abscessos, perfurações e obstrução (Fig. 22). Fig. 22 – Intestino delgado de um cão. Obstrução intestinal. Hipotrofia intestinal (atrofia) é o adelgaçamento pela redução das visolidade e desaparecimento das glândulas, conseqüentes a processos degenerativos e inflamatórios crônicos da mucosa. A correlação clínico-patológica mostra que quando uma grave alteração ocorre na mucosa intestinal com longa duração, advém à hipotrofia e o animal reduz a capacidade de absorção dos nutrientes, o que chamamos Síndrome de má absorção. 207 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa fisiológica ocorre durante a digestão; Hiperemia ativa patológica acompanha as alterações inflamatórias agudas (a hiperemia ativa é o prelúdio da inflamação aguda). Hiperemia passiva local ocorre nos casos de obstrução, torção e intussuscepção intestinal, enquanto que a hiperemia passiva geral ocorre nos casos de insuficiência cardíaca e cirrose hepática. Edema ocorre em conseqüência da hiperemia passiva e nos casos de alergias (edema angioneurótico). Hemorragias (enterorragias) por rexe ocorrem nos acidentes com corpos estranhos perfurantes. Hemorragias por diabrose ocorrem nas ulcerações intestinais (geralmente provocada por verminoses). As hemorragias por diapedese ocorrem nas enterites agudas; nas septicemias (peste suína, pasteurelose, erisipela suína, febre aftosa); nas diáteses hemorrágicas; nas intoxicações de um modo geral, e em especial nos casos de acidentes com dicumarol, fosforados e outros. Relatamos um caso de enterotoxemia em bovinos jovens, provocada pelo Clostridium perfringes tipo C, onde os animais da raça nelore com 15 meses de idade se alimentavam de silagem de milho e apresentavam ótimo estado nutricional. Exatamente 12 animais de um lote de 150, apresentaram sintomas de descordenação motora, sialorréia, impotência muscular, inapetência e morte, dentro de aproximadamente 24 horas. Durante a necrópsia observamos intensa hemorragia (sufusão) na mucosa do abomaso e do intestino delgado, em todos os animais. Infestação parasitária (Ancylostoma caninum) provoca hemorragias petequiais na mucosa intestinal de cães jovens especialmente. Aneurisma verminótico dos eqüinos é a dilatação das artérias mesentéricas (Fig 23 a) devido à infestação de nematóides (Strongylus vulgaris Fig 23 b). A presença dos nematóides pode provocar ainda: trombose das artérias mesentéricas craniais e embolia parasitária. O aneurisma verminótico dos equinos é causa importantíssima de cólica intestinal. 208 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 23 – a Anurisa verminotico causado por Strongylus vulgaris Fig 23 – b Strongylus vulgaris encontrado no líquido peritoneal de equino que apresentou aneurisma verminótico em exame citopatológico ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Enterites podem ser chamadas de duodenites, jejunites e ileites, referindo apenas aos seguimentos do intestino delgado. As enterites geralmente se fazem acompanhar de gastrites (gastroenterites). O intestino requer determinado tempo para colonizar as bactérias de sua microbiota natural (E.coli e outras). Neste período todos os recém nascidos, em especial os lactantes, passam por um teste de vida ou morte: a exacerbação da microbiota intestinal é suficiente para desencadear graves enterites (Colibacilose, Salmonelose, Clostridioses e outras). A alimentação cuidadosa nos primeiros dias de vida do animal é fundamental para que o mesmo adquira resistência e sobreviva com saúde, suficiente para crescer e produzir. O colostro representa a chave do sucesso em qualquer criação de bovinos, ovinos, caprinos, suínos e outros. Enterites quanto ao exsudato são: catarral (a mucosa intestinal dispõe de células coliciformes produtoras de muco) é a forma encontrada na colibacilose e na salmonelose dos bezerros e leitões; fibrinosa (a mucosa intestinal é bastante irrigada, favorecendo a liberação, quando de uma agressão, do fibrinogênio precursor da fibrina) é a forma encontrada em alguns casos de salmonelose crônica dos suínos; necrótica (Fig. 24) (a mucosa intestinal é muito sensível aos agentes agressores: substâncias cáusticas, toxinas e outras. Normalmente há uma associação com outros exsudatos: fibrinonecrótico e necroulcerativo) é a forma encontrada na enterite necrótica das aves por Clostridium perfringens tipo A, peste suína clássica e salmonelose crônica 209 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . dos suínos, as duas últimas representadas pelas úlceras botonosas, o que em outras palavras significa enterite fibrinonecrótica (Fig. 25); hemorrágica (Fig. 26) (é muito fácil confundir enterite hemorrágica com enterorragia. A mucosa intestinal é extremamente irrigada, o que favorece as hemorragias, quando das agressões) é a forma observada na parovirose canina, coronavirosecanina, enterotoxemia por Clostridium perfringes tipo B e C (cordeiros e bezerros), coccidiose das aves, desenteria suína, ancilostomose canina e outras; purulenta (a inflamação purulenta caracteriza por uma emigração de neutrófilos. As células do pus, "piócitos", misturam-se com o muco e conteúdo intestinal, conferindo um aspecto brancento) trata-se de uma enterite incomum, visto que as células coliciforme são bastante ativas e diante de uma agressão forte, geralmente há uma grande produção de muco. Portanto, quase sempre o que predomina é o exsudato mucoso ou catarral. Raramente teremos a oportunidade de caracterizarmos uma enterite purulenta. A verminose indiscriminadamente é a maior causa de enterite mucohemorrágica nos animais domésticos, principalmente os mais jovens (Fig. 27). Fig. 24 – Intestino delgado de um suíno. Enterite necrótica. Fig. 26 – Intestino delgado de um suíno. Enterite fibrinonecrótica- “Úlceras botonosas”. 210 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 25 – Intestino delgado de um cão. Enterite hemorrágica. Fig. 27 – Intestino delgado de um cão. Enterite mucohemorrágica parasitária aguda. PARASITAS Os nematóides mais importantes são: Ascaris lumbricoides (suínos) (Fig. 28); Toxocara canis (cães); Toxocara cati (gato); Toxoarcaris leonina (cão e gato); Ascaridia galli (galinha); Oesophagostomum spp (bovinos) (Fig. 29); Strongylus vulgaris (eqüinos); Ancylostoma caninum (cão e gato); Boonostomum spp (bovino e ovino); Capilaria columbae (pombos e outras aves domésticas); Macracanthorhynchus spp (suínos) (Fig. 30). Os cestóides: Anaplocephala perfoliata (eqüinos); Moniezia spp (bovinos): Taenia ovis (ovinos e caprinos); Taenia pisiformis (cão); Taenia hydatigena (ruminantes e suínos); Dipylidium caninum (cão); Taenia taeniouformis (gato); Railletina spp, Davainea spp e Hymenolepis spp (galinha). Fig. 28 – Intestino delgado de um suíno. Ascaris spp provocando rompimento da parede intestinal. 211 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 29 – Intestino delgado de um bovino. Presença de nódulos de Oesophagostomum spp. Fig. 30 – Intestino delgado de um suíno (duodeno). Presença de Macracanthorinchus spp. INTESTINO GROSSO Intestino grosso é a porção tubular do canal alimentar que apresenta maior expansão do lume, constituída pelo ceco, cólon (ascendente, transverso, descendente, signóide), reto e cavidade anal. Há quatro túnicas características do tubo digestivo presentes em todo o intestino grosso. Contudo, não estão presentes pregas circulares nem viscosidades. As principais funções do intestino grosso é reabsorção de água e fermentação do bolo fecal. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia do colo ausência de formação da estrutura completa, observada em bovinos. Agenesia do ceco observada nos eqüinos. Atresia anal ausência de formação do orifício anal (Fig 31)é observada em várias espécies animais (bovinos, suínos, eqüinos e outros). Em alguns casos há correção cirúrgica. Neste caso, o ânus e o reto estão obliterados, é uma alteração mais comum nos suínos. Hipoplasia do ceco desenvolvimento incompleto do segmento, não é rara. Duplicação do intestino é uma anomalia rara devido à formação de fissura no esboço embrionário. 212 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 31 – Bovino rescem nascido apresentando atresia anal. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Rotação do ceco tem sido relatada em eqüídeos. O ponto de estrangulamento situa-se junta à extremidade cranial do ceco, logo abaixo da válvula ileal. Flexão do colo durante os movimentos bruscos ou repentinos a curvatura pélvica do colo pode sofrer uma flexão lateral ou mediana para frente, ou para cima e para frente, colocando-se sobre a porção esquerda. As conseqüências são semelhantes àqueles que ocorrem nas torções. Prolapso de reto é saída de parte do reto para fora do corpo, através da cavidade anal. As principais causas relacionam-se com aumento do peristaltismo. Assoreamento do intestino ocorre freqüentemente em eqüinos, que ingerem areia nos bebedouros, ou em pastagens arenosas. Pode provocar formação de cálculos urinários em bovinos devido o escesso de sílica encontrada na areia. Concreções são comuns no intestino grosso de eqüídeos, sobretudo no colo. Elas possuem naturezas diferentes: enterótilitos são cálculos de origem mineral; piloconcreções são bolos de pelos; fitoconcreções são bolos de fibras vegetais; fecalomas são corpos estranhos diversos misturados com fezes ressecadas. Cálculos intestinais (enterólitos) são concreções endógenas pétreas, constituídas por fosfato de magnésio, fosfato de amônia, carbonatos de cálcio, cloreto de sódio, cloreto de potássio e outros. O tamanho e a forma dos enterólitos são muito variados; se pequenos podem ser encontrados em grande número no intestino; se grandes são encontrados isoladamente. Fecalomas (coprólitos) - São corpos estranhos (ossos e outros) misturados com fezes 213 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . ressecadas, que se encontram esporadicamente no intestino grosso dos animais, especialmente nos caninos, podendo provocar obstrução intestinal e odor repugnante. Perfurações do intestino acontecem com maior freqüência no reto por introdução de instrumentos como: termômetro, eletroejaculador e mãos despreparadas para o toque retal. A correlação clínicopatológica indica: hemorragia interna (hemoperitonio); peritonite aguda; morte do animal. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Enterites podem ser chamadas de tiflite, colite (colo) e proctite (reto), referindo aos referidos segmentos intestinais. Desenteria suína é uma enfermidade causada pelo Treponema hyodisenteriae, caracterizada por colite hemorrágica grave, com forte edema da parede intestinal e presença de enormes coágulos, provocando distensão do lume. Os linfonodos mesentéricos estão edemaciados e hemorrágicos. Salmonelose das aves conhecida como diarréia branca, é uma enterite catarral, que eventualmente provoca uma tiflite fibrinosa. Atinge normalmente aves de um a dez dias de idade. O agente causal é a Salmonella pullorum. Tiflite fibrinonecrótica nos suinos apresenta as famosas úlceras botomosas na transição do intestino delgado e grosso (válvula ileal). É uma das lesões importantes da peste suina clássica. Estas lesões são observadas na samonelose crônica dos suínos, porém espalhadas por todo intestino delgado e grosso. Coligranuloma das aves é uma enfermidade provocada pela Escherichia coli, que apresenta a formação de nódulos pelo intestino e figado, podendo atingir outros órgãos. O ceco das aves é o segmento do intestino mais afetado. NEOPLASIAS Adenomas, lipomas, leiomiomas, adenocarcinomas, lipossarcomas, leiomiossarcomas (Fig. 32). Uma neoplasia relativamente frequente é o adenoma e sua versão maligna o adenocarcinoma das glândulas perianais (glândulas paranais). Esta neoplasia aparece isolada ou 214 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . múltifocal fazendo saliência no tecido subcutâneo. Microscopicamente apresenta grupos de células que se assemelham aos hepatócitos, daí ser denominada de tumor hepatóide. Pode haver ectopia dessa glândula, localizando-se na bainha prepucial, tornando-se neoplásicas freqüentemente. Fig. 32 – Intestino delgado de um cão. Presença de neoplasia – leiomiossarcoma. CLOACA Cloaca uma cavidade comum aos sistemas digestório, genital e urinário, que se comunica com o meio exterior através do ânus. O intestino grosso, os ureteres e os ductos deferentes (ou o oviduto) desembocam em vários pontos diferentes da cloaca, que se divide em sequência: coprodeu, urodeu e proctodeu. Situada dorsalmente à cloaca, encontra-se a bolsa cloacal (bolsa de Fabrícius) que é um órgão linfóide importante nas aves. Obstrução da cloaca é a retenção patológica do conteúdo fecal, que se acumula impedindo o fluxo normal e continência da defecação.É observado em pintinhos com estresse de alimentação. 215 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . EM OUTRAS PALAVRAS O sistema digestório já foi denominado sistema digestivo, hoje há uma tentativa de chamá-lo de canal alimentar, porém é muito difícil uma mudança assim radical em algo tão tradicional. Penso que este é o termo mais apropriado, porisso é que também incisto em divugá-lo. Observe que na realidade trata-se de um verdadeiro canal que se inicia na cavidade bucal e terminal na cavidade anal. A saúde entra pela boca e a doença também. Assim manter as estruturas bucais como: lábios, gengivas, dentes, língua, palato, tonsilas e faringe em bom estado deve ser uma preocupação de todos. Queilognatopalatosquises é uma fenda que vai dos lábios passando pela gengiva e palato até alcançar as narinas, o que denominamos de lábio leporino. A fenda palatina é uma alteração congênita que pode ocorrer nos mamíferos sendo que nas aves é normal. As neoplasias da cavidade bucal são mais comuns do que se imagina e representa um grande problema para o desenvolvimento do animal. O melanoma é mais comum nos cães, enquanto o adamantinoma é mais comum nos bovinos. Na criação de bezerros confinados, no caso de gado de leite, é comum observar candidíase: estomatite micótica conhecida como sapinho do bebê. Caninos que vivem próximos de lagos, como é o caso de Brasilia DF, apresenta com muita freqüência um parasita que habita o esôfago, denominado Spirocerca lupi, provocando uma esofagite crônica com formação de nódulos centimetricos na porção caudal do órgão. A torção do abomaso é uma realidade quando se menciona sobre bovinos produtores de leite, especialmente gado da raça Holandesa. O timpanismo ainda mata muitos animais por conta do manejo inadequado: alimento como leguminosas deve se ter o Maximo de rigor, afim de evitar excessos e causar timpanismo primário que é úmido, espumoso, de difícil solução, havendo necessidade de uma intervenção cirrurgica do tipo rumenotomia. As leguminosas são ricas em proteínas e saponinas, além de apresentar alto teor de água, o que favorece a formação de timpanismo espumoso. A intussuscepção e torção intestinais são responsáveis por provocar cólicas especialmente em eqüídeos. Em todos os casos o maior risco é o aparecimento de choque séptico, promovendo a morte do animal. A parvovirose canina é o melhor exemplo de enterite hemorrágica aguda; a coccidiose é o exemplo da enterite hemorrágica nas aves; a desenteria suína também provoca enterite hemorrágica, promovendo intensa lesão no intestino grosso dos suínos, onde se vê verdadeiros coágulos cruoricos. A colibacilose e salmonelose são exemplos de enterite catarral aguda em bezerros e leitões. 216 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NA PRÁTICA Em uma propriedade de criação de gado de corte, situada no município de Uberlandia, confnou-se um lote de bovinos, machos, da raça nelore, com idade aproximada de 15 meses e foram introduzidos a estes uma diaeta hipercalórica ad libitum (a vontade) No período de 1 semana 3 animais apresentaram apatia, dificuldade respiratória e em menos de 24 horas vieram a óbito subitamente. Realizou-se a necropsia in loco e verificou-se os seguintes achado macroscópicos: presença de liquido espumoso saindo pelas narinas (Fig 01) e na traquéia, caracterizando edema pulmonar fulminante; serosas e mucosas abomasais e intestinais intensamente avermelhadas (Fig 02 e 03) indicando gastro enterite hemorrágica aguda. Fig 01 – Liquido espumoso saindo pelas narinas de um bovino: edema pulmonar fulminante Fig 02 - Serosa intestinal intensamente avermelhadas Fig 03 – Mucosa abomasal intensamente avermelhada: abomasite 217 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Diagnóstico Final: Gastroenterita hemorrágica aguda Diagnóstico conclusivo: o animal apresentou um quadro de gastoenterite hemorrágica aguda próprio da enterotoxemia por Clostridium perfringens tipo B e C. Comentário: trata-se de uma enfermidade comum nos cordeios e eventual em bezerros que leva o animal a um choque endotoxêmico e/ou séptico. Estas bactérias são comensais do trato gastrointestinal dos ruminantes e em casos de alimentação com excesso de carboidratos hidrossolúveis leva a um crescimento exacerbado destes patógenos, levando a uma alta absorção de toxinas pelo intestino delgado culminando no quadro em questão. Existem quatro tipos de C. perfringens e cada um deles possuem formas de se apresentar distintas. O tipo A causa enterite necrótica nas aves; os tipos B e C levam a gastroenterite hemorrágica aguda; e o D causa rim pulposo em cordeiros. 218 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é queilognatopalatosquises ? 2- O que é estomatite? 3- O que é gastrite? 4- O que é intussuscepção? 5- Exemplos de enterite catarral aguda? 1- É lábio leporino uma fenda que vai do lábio passando pela gengiva até alcançar o palato duro. 2- É inflamação da cavidade bucal. 3- É inflamação do estômago. 4- É alça telescopiada: o mesmo que invaginação intestinal. 5- Enterite catarral: colibacilose, salmonelose. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, M.A.O.., SILVA, A., JESUS, N.M., ALBUQUERQUE, S.F.FT. Parasitos dos animais domésticos do Estado da Bahia. - Revisão de Literatura. Arq.EMV-UFBA, Salvador, v.13, n.1, p.42-88, 1990. ANDERSON.B.C. Abomasal cryptosporidiosis in catle. Vet. Pathol 24:235-238, 1987. ANGUS, K.W. COOP. R.L., MAPES, C.J. 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O órgão apresenta número de lobos diferentes, quando comparado dentro das várias espécies de animais: Nos bovinos, ovinos e caprinos são quatro lobos (direito, esquerdo, quadrado e caudado); Nos suínos e caninos são 6 lobos (lateral esquerdo, medial esquerdo, lateral direito, medial direito, quadrado e caudado); Nos eqüinos são 5 lobos (lateral direito, lateral esquerdo, medial esquerdo, quadrado e caudado).O lóbulo hepático é um agrupamento de células denominadas hepatócitos, que se dispõem em placas orientadas radialmente, formando o que chamamos cordões de hepatócitos, envolvendo os capilares sinusóides que são revestidos por uma única camada de células, onde distinguimos dois tipos celulares: células endoteliais típicas dos capilares sangüíneos; células fagocitárias, denominadas células de Kupffer. Os hepatócitos têm forma poligonal com seis ou mais faces e medem de 20 a 30µm de diâmetro. Suas superfícies estão em contato com: paredes dos capilares sinusóides pelo espaço de Disse; acolado em toda a sua extensão com a parede de outra célula; parede de outra célula, limitando com a célula vizinha um espaço tubular (canalículo biliar). O hepatócito apresenta um núcleo (às vezes dois) central, arredondado, com um ou dois nucléolos bem evidentes. A organela mais evidente é o retículo endoplasmático, tanto na sua forma rugosa, como na lisa. O hepatócito é a célula de maior versatilidade funcional do organismo animal. É um tipo celular com funções glandulares endócrinas e exócrinas simultaneamente. Além de sintetizar e acumular vários compostos neutraliza outros e transporta corantes. As principais atividades do hepatócito são: síntese de proteína (albumina, protrombina, fibrinogênio); secreção biliar; acúmulo de alimentos (os lípedes e os glícides são acumulados na célula hepática nas formas de gorduras neutras e glicogênio respectivamente); função metabólica (conversão de lípedes e aminoácidos em glicose); destoxificação e neutralização (várias drogas são neutralizadas nas células hepáticas devido a processos de oxidação, acetilação e conjugação). 221 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . O ácino hepático é outra interpretação da organização do fígado.Constituído por setores adjacentes de campos hexagonais vizinhos, parcialmente separados por vasos sangüíneos nutridores. O sangue que irriga a zona um é o mais oxigenado e rico em nutrientes; diminuindo na zona dois e atingem seu ponto mínimo na zona três. Nesta configuração acinar, a veia centrolobular está nas margens do ácino e não no centro, como na configuração lobular. Os vasos do espaço porta estão em alguns dos ângulos do hexágono que demarcam o corte transversal do lóbulo clássico (acino de Rappaport). ALTERAÇÕES POST-MORTEM Embebição hemoglobina faz com que o fígado apresente de coloração vermelho escura. A pseudomelanose faz o órgão apresentar com manchas de coloração azulada ou enegrecida, devido à putrefação (sulfureto de hidrogênio das bactérias reagindo com o ferro da hemoglobina). Embebição biliar ocorre nas áreas próximas à vesícula biliar, que adquire uma coloração amarelada ou amarelo-esverdeada. O enfisema post-mortem é caracterizado pela formação de bolhas de gases que se localizam abaixo da cápsula do órgão (Fig. 01). Fig. 01 – Fígado e rim de um cão. Autólise post-mortem. ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Agenesia ausência de formação do órgão ou parte dele. Aplasia ausência de formação do órgão ou parte dele, havendo um resquício de formação. Hipoplasia desenvolvimento incompleto do órgão. Duplicação pode haver formação de mais de um órgão. Lobos supranumerários pode haver formação de maior número de lobos. Cisto hepático congênito malformação dos ductos ou 222 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . por estrangulamento dos ductos, apresenta uma cápsula fibrosa e um conteúdo aquoso depois de reabsorção dos componentes biliares. ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Rupturas da cápsula do fígado, geralmente comprometem o parênquima que é normalmente friável. Ocorrem nos casos de acidentes onde os animais são atropelados ou atingidos por objetos perfurantes. Há caso de ruptura espontânea (degeneração gordura especialmente nas aves; amiloidose, neoplasia e tuberculose). A ruptura hepática (Fig 02) pode ser subcapsular. Neste caso, a capsula está intacta e o sangue se acumula no parênquima do órgão. A correlação clínicopatológica que fazemos indica: hemorragia interna grave; pulso rápido; hipotermia; choque hipovolêmico; morte. Fig 02 – Puptura hepática em órgão friável. ALTERAÇÕES NO VOLUME Hipotrofia impropriamentechamada de atrofia é a diminuição de volume do órgão apresenta principalmente nos casos de subnutrição, inanição, caquexia e senilade. Macroscopicamente o órgão está diminuído de volume assim como, microscopicamente, os cordões hepáticos. Há casos em que o órgão apresenta aumentado de volume, porém há uma diminuição do volume dos cordões hepáticos: na amiloidose, na hiperemia passiva crônica e em todos os casos de compressão dos cordões hepáticos. Hipertrofia aumento de volume do órgão apresenta o fígado aumentado de volume e com as bordas arredondadas, em uma série de alterações degenativas, infiltrativas e inflamatórias (degeneração gordurosa, degeneração turva, infiltração amiloide, hiperemia ativa e passiva, 223 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . hepatite). Em alguns casos, pode haver um aumento de volume tanto do órgão como dos cordões hepáticos (degeneração gordurosa, degeneração turva, hepatite), em outros, haverá uma diminuição dos cordões hepáticos (infiltração amilóide, hiperemia passiva). Hepatose é o termo que empregamos para designar todas as alterações degenerativas até necrose (degeneração turva, gordurosa, amiloidose, necrose). As causas são as mais variadas possíveis e comuns a todas as alterações, diferenciadas apenas, pela intensidade (Tóxicos: químicos, veneno de serpente, toxinas de bactérias, micotoxicoses, plantas tóxicas e outros). Hepatose dietética dos suínos trata-se de uma alteração degenerativa do fígado que culmina com necrose maciça do lóbulo hepática, atinge animais jovens entre dez semanas a seis meses de idade, que se apresentam aparentemente em boas condições de carne. A alteração surge pela insuficiência de vitamina E, e aminoácidos essenciais do tipo sulfurado. A presença de ácidos graxos não saturados na ração e normalmente rancificados prejudicam a ação antioxidante da vitamina E. Macroscopicamente o fígado apresenta-se com algumas manchas amareladas, outras avermelhadas, podendo variar a cor do parênquima chegando a ter um aspecto marmóreo (Fig. 03 e 04). Fig. 03 – Fígado de um suíno. Hepatose dietética. Fig. 04 – Fígado de um suíno. Hepatose dietética. Microscopicamente observa-se desde uma degeneração turva, passando por degeneração gordurosa até uma necrose maciça do lóbulo hepático. A correlação clínicopatológica aponta: lesão hepática grave (necrose que dificulta sua função: sintetizar protrombina e armazenar vit. k), 224 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . daí surgir hemorragia nas articulações e nas grandes massas musculares; inapetência, anorexia e descordenação motora; morte súbita. Degeneração turva o órgão apresenta com aspecto de fervido, pálido, aumentado de volume com bordas arredondadas. Microscopicamente as células apresentam-se entumecidas, granulosas, nebulosas e com contornos irregulares. As causas são as mais variadas, desde tóxicos de produtos químicos até toxinas de bactérias. Degeneração gordurosa é lipidose, esteatose e infiltração gordurosa. As principais causas são: hipoxemia (a gordura transportada para o fígado não é oxidada e fica retida); tóxicos (arsenio, cloroformio, tetracloreto de carbono, micotoxinas); insuficiência de fatores lipotróficos (colina e metionina). Macroscopicamente o fígado apresenta-se aumentado de volume, com bordas arredontadas, manchas amareladas, untuoso ao corte e friável (Fig. 05). Microscopicamente os hepatócitos estão repletos de gotículas de gorduras ou espaços vazios, ocorridos durante a preparação das lâminas histopalógicas. Fig. 05 – Fígado de um canino. Metamorfose gordurosa. Necrose hepática morte dos hepatócitos geralmente ocorre em grupos ou zonas e obedece a um padrão morfológico, segundo as características do tecido e das células envolvidas. Assim sendo, o tipo característico de necrose hepática é o que denominamos de necrose coagulativa. Nos casos de severa intoxicação ou associado a processos inflamatórios pode ocorrer necrose liquefativa (grupos de hepatócitos sofrem lise e são reabsorvidos os detritos). Didaticamente para melhor estudar as necroses hepáticas, independentemente da visão lobular ou acinar, estão classificadas 225 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . em: necrose focal; necrose periacinar; necrose mediozonal; necrose periportal; necrose paracentral; necrose maciça. Necrose focal focos de tamanhos variados podem ser visto macroscopicamente e estão distribuídos ao acaso e em pontos distintos do lóbulo ou do acino hepático. É observada em determinadas ocasiões provocadas por parasitas (migração de larvas de diferentes parasitas); nas infecções causadas por vírus (Herpesvírus-1 em eqüinos); algumas bactérias (Salmonela spp, Listeria spp, Pasteurella haemolytica) (Fig. 06). Fig. 06 – Fígado de um bovino. Necrose focal disseminada. Necrose periacinar ocorre em uma área vulnerável, por receber pouco oxigênio e desempenhar várias funções. Ocorre nas infecções virais (adenovirus canino); em animais subnutridos; nos casos de hiperemia passiva crônica (fígado de noz moscada), configurando o que chamamos microscopicamente fígado lóbulo invertido. Necrose médiozonal forma rara de necrose que ocorre no fígado, podendo se estabelecer como o ponto de partida para a necrose periacinar. Pode estar limitada a alguns cordões de hepatócitos e já foi reproduzida, experimentalmente, por diversas intoxicações. Necrose periportal tem localização bastante definida e é mais comum que a necrose mediozonal, tendo as mesmas causas: os tóxicos (pesticidas, agrotóxicos, plantas tóxicas e outros). Necrose paracentral termo usado quando a necrose ocorre no sentido do centro do lóbulo hepático. Produzida pela isquemia devido à obliteração súbita da venula portal terminal. A oclusão dos ductos biliares é outra importante da causa desta necrose. 226 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Necrose maciça lóbulo hepático sofre necrose por completo, enquanto o fígado como um todo, continua funcionando, dentro de um percentual limitado. Ocorre em animais que recebem ração deficiente em alguns nutrientes, como é o caso da hepatose dietética dos suínos, onde provavelmente há uma insuficiência de vitamina E, e aminoácidos sulfurados. Cirrose hepática processo degenerativo, progressivo, difuso, crônico que acomete o fígado, caracterizada por quatro alterações diferentes: degeneração e necrose dos hepatócitos (manchas brancacentas e amareladas); hiperplasia regenerativa desorganizada dos hepatócitos (formação de nódulos centimétricos, amarelados e espalhados pelo órgão); infiltração de tecido conjuntivo fibroso (torna o órgão duro, rugoso e diminuído de volume); subversão da arquitetura do órgão (o fígado muda totalmente sua aparência, assemelha-se a um cacho de uvas, na sua fase avançada) (Fig. 07 e 08). A etiologia da cirrose aponta o álcool como o principal vilão, porém sabemos que os cães não ingerem esta substância, e são eles os mais atingidos dentre os animais domésticos. Em uma monografia realizada na Universidade Federal de Uberlândia, conseguimos levantar os dados de 3360 cães atendidos durante 20 anos (1976-1995). O resultado apontou 02 casos de cirrose por ano, num total de 40 casos apresentados. Sabemos que a dieta recebida pelos cães apresenta muitos problemas: restos de comida de humanos; comida fermentada; muxibas (ricas em gorduras); angus (ricos em carboidratos) e lixos (no caso dos viralatas). O fígado é quem recebe toda carga de tóxicos e demais elementos indesejáveis que induzem um processo degenerativo e necrótico, progressivo, crônico e difuso deniminado cirrose. Do grego (cirrus), o que quer dizer fibrose. Macroscopicamente, a cirrose hepática apresenta: mudança total da estrutura hepática chega até se assemelhar a um cacho de uvas; manchas brancacentas e amareladas pelo órgão; presença de nódulos centimétricos espalhados pelo parênquima; áreas deprimidas,duras e rugosas (Fig. 09). Microscopicamente, as manchas brancacentas e amareladas são vistas como degeneração e necrose; os nódulos como hiperplasia regenerativa desorganizada dos hepatócitos; e as áreas deprimidas e duras, como invasão de tecido conjuntivo fibroso (fibrose), partindo do sistema porta para os lóbulos hepáticos. 227 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 07 – Fígado de um cão. Cirrose hepática. Fig. 08 – Fígado de um cão. Cirrose hepática. Fig. 09 – Fígado de um búfalo. Cirrose hepática Patogenia da cirrose hepática quando morre um grupo de células hepáticas, seria um evento banal, pois o fígado é constituído de células estáveis (capazes de regenerar a qualquer momento) pronto para restabelecer ao normal. Porém isto não acontece, a regeneração é desorganizada: não forma cordões hepáticos, não forma canalículos de forma adequada, e apesar de os hepatócitos executarem suas funções, não há escoamento de sua produção de bile e formam nódulos amarelados repletos de pigmentos. Nos locais onde não há regeneração, há invasão de tecido conjuntivo fibroso, partindo do sistema porta. Tudo isso, faz com que o fígado apresente-se diminuído de volume e desestruturado, configurando a chamada cirrose ou fibrose. A cirrose pode ser classificada em diferentes tipos, segundo o ponto de invasão de tecido conjuntivo fibroso no parênquima hepático: cirrose portal (verdadeira ou de Laennec, hipotrófica, atrófica), a invasão de tecido conjuntivo se dá no sistema porta; cirrose intralobular o tecido conjuntivo invade o interior do lóbulo, corresponde quase sempre a forma hipertrófica, que é aquela que ocorre nos bovinos; 228 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . cirrose biliar ocorre devido a colangiohepatite crônica, onde a principal conseqüência é a invasão de tecido conjuntivo fibroso, próximo aos ductos biliares; cirrose glissoniana o tecido conjuntivo invade somente a cápsula do órgão; cirrose cardíaca a invasão do tecido conjuntivo se dá ao redor da veia termina hepática. A correlação clínicopatológica da disfunção hepática nos casos de cirrose aponta as seguintes alterações: ascite especialmente observada em cães. O fígado lesado deixa de produzir proteínas séricas, levando a um quadro de hipoproteinemia, que por sua vez provoca edema das cavidades naturais e até mesmo hidropsia; icterícia na cirrose portal é mesmo pronunciada, sendo bastante expressiva na cirrose biliar; insuficiência de vitamina A (o caroteno é transformado em vitamina A, no fígado); hemorragia na ausência de produção de protrombina pelo figado lesado, importante fator de coagulação sanguínea; fossensibilização devido ao excesso de porfirinas no sangue, quando o fígado lesado deixa de eliminá-la, basta o contato do animal com os raios solares, para se instalar um quadro de dermatite solar; hiperemia passiva crônica devido a obstrução da circulação portal, acarretando esplenomegalia congestiva, além de hiperemia no estômago, intestino e pâncreas; sindrome de feminização: hipotrofia testicular, ginecomastia, alopecia e mudança de comportamento são observados pela incapacidade do fígado de inativar o excesso de estrógeno; síndrome neurohepática observada nos casos em que o fígado não consegue mais destoxificar o organismo, permitindo que as diversas toxinas atinjam o sistema nervoso central. ALTERAÇÕES CIRCULATÓRIAS Hiperemia ativa é observada fisiologicamente durante a digestão e no estado patológico precedendo a inflamação aguda do fígado. Hiperemia passiva (congestão hepática) observa-se com freqüência em todos os estados associados com debilidade cardíaca. Na hiperemia passiva aguda, o fígado apresenta-se aumentado de volume, avermelhado escuro, deixando fluir sangue ao corte. Na hiperemia passiva crônica, o quadro macroscópico revela o chamado fígado de noz moscada: associação das áreas amareladas claras elevadas, com áreas avermelhadas escuras deprimidas. As primeiras representam degeneração gordura e a segunda o acúmulo de sangue na veia terminal hepática (Fig 10); enquanto que microscopicamente, o órgão é representado pelo chamado fígado lóbulo invertido (como se a veia terminal hepática ocupasse o lugar do sistema porta) (Fig. 11). 229 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 10 – Fígado de um cão. Hiperemia passiva crônica – “Fígado de noz moscada”. Fig. 11 – Corte histológico de fígado de um cão. Hiperemia passiva crônica. “Fígado lóbulo invertido”. Telangectasia (angiomatose) é uma ectasia cavernosa dos capilares sinusóides. Em outras palavras é uma dilatação de grupos de capilares do fígado. Macrocospicamente observa-se manchas violáceas deprimidas, de contornos irregulares, podendo atingir alguns centímetros de comprimento (um a três centímetros); que ao corte aprofundam proporcionalmente ao seu comprimento. Microscopicamente, acúmulo de hemácias em decomposição e alguns cordões hepáticos hipotrofiados na periferia da lesão. Sua etiologia é desconhecida, constitui-se em um achado de matadouro, não apresenta nenhuma correlação clínicopatológica. Hemorragias por rexe são representadas por rupturas traumáticas e espontâneas. As hemorragias por diapedese caracterizadas por pontos ou manchas avermelhadas, acontecem nas septicemias, toxemias, viremias, bacteremias. ALTERAÇÕES INFLAMATÓRIAS Hepatites Fígado é constituído de células nobres: os hepatócitos. Células nobres não inflamam, degeneram. Sendo assim, a resposta inflamatória do fígado, acontece em seu estroma: tecido conjuntivo e vasos sangüíneos. Durante a inflamação, os hepatócitos experimentam diferentes estágios degenerativos até necrose. Quanto à localização a hepatite pode ser classificada em: perihepatite (inflamação da cápsula hepática); hepatite periportal (inflamação do sistema porta); 230 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . colangiohepatite (inflamação dos ductos biliares). Quanto à etiologia a hepatite pode ser classificada em: hepatite tóxica (álcool, inseticidas e herbicidas); hepatite infecciosa (viral canina, salmonelose, leptospirose). Perihepatite geralmente é uma manifestação por contiguida, que ocorre devido a uma peritonite aguda. Neste caso, a serosa que reveste o fígado é contaminada, tornando-se espessa e podendo aderir-se a outras vísceras. Hepatite periportal ocorre com a maior freqüência nos casos de passagem de larvas pelo fígado ou mesmo pela presença do próprio parasita hospedeiro definitivo, como é o caso da Fasciola hepatica, instalando também uma colangiohepatite. Nos suínos é comum a migração das larvas de Ascaris spp, provocando uma intensa reação inflamatória crônica, cujo achado macroscópico se configura como fígado de manchas brancas (Fig. 12 a e b). Fig. 12 – (a) Fígado de um suíno. Passagem de larvas de Ascaris spp. “Fígado de manchas brancas”. Fig. 12 – (b) Fígado de um suíno. “Fígado de manchas brancas”. Hepatite tóxica é mais comum na espécie humana, devido à grande ingestão de bebidas alcóolicas e acidentes com defensivos agrícolas. Nos animais domésticos pode haver contaminação do alimento por várias substâncias tóxicas, que ingeridas repetidas vezes, pode provocar hepatite e até mesmo neoplasias. Hepatite infecciosa quando provocada por vírus, destacamos a hepatite infecciosa canina (hepatite contagiosa dos cães) como uma enfermidade febril que acomente cães jovens, caracterizada clinicamente por opacidade unilateral da córnea. Durante a necropsia, observa-se que 231 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . o fígado está aumentado de volume, avermelhado, deixando fluir sangue ao corte. A vesícula biliar apresenta com sua parede espessa, o que favorece imensamente o diagnóstico (Fig. 13 a e b). Fig. 13 – (a) Fígado de um cão. Hepatite infecciosa canina. Fig. 13 – (b) Fígado de um cão exibindo vesícula biliar com parede espessa. Hepatite infecciosacanina. Hemorragias são observadas nas serosas do intestino e estômago principalmente. Microscopicamente o que mais chama a atenção é o corpúsculo intranuclear basófilo de Rubarth (fig. 14). Fig. 14 – Corte histológico de fígado de cão. Presença de corpúsculo intranuclear. Hepatite infecciosa canina. Hepatite infecciosa por Salmonella spp acomete diferentes espécies (bovinos, eqüinos, aves e repteis), cuja característica principal da lesão é uma reação granulomatosa (granuloma hepático salmonelótico) (Fig. 15). 232 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 15 – Corte histológico de fígado de um cão. Granuloma salmonelótico. Hepatite por leptospirose não é a lesão mais característica provocada pela leptospira, uma vez que a dissociação dos cordões hepáticos é o que chama mais a atenção (Fig. 16). Há destruição de células, retenção biliar, hemossiderose e hiperplasia das células de Kupffer. Fig. 16 – Corte histológico de fígado de um cão. Dissociação de lâminas hepáticas. Leptospirose. Hepatite purulenta é a mais grave forma de hepática infecciosa, cujo processo se manifesta pela formação de abscessos. As principais vias para a formação de um abscesso são: onfalogênica; hematógena; biliar linfática; traumática; extensão direta. Os abscessos por via onfalogênica são observados especialmente em bovinos, como seqüela de onfaloglebite (inflamação do cordão umbelical). Os abscessos por via hematógena são formados no fígado, através da artéria hepática. As bactérias piogênicas (Actinomyces pyogenes, Streptococus spp, Staphylococus spp) estão presentes, favorecendo a formação de êmbolos bacterianos, que podem se instalar no fígado. Os abscessos por via biliar ocorrem nos casos de colangiohepatite supurada que se dissemina pelo fígado através de êmbolos bacterianos. Os abscessos por via linfática ocorrem nos casos de linfadenite supurada acomete os linfonodos do hilo hepático. Os abscessos por traumatismo são mais comuns nos bovinos, quando da ingestão de corpos estranhos, que perfuram 233 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . o retículo e podem alcançar o fígado, instalando uma hepatite supurada abscedante. Os abscessos por extensão direta acometem o fígado, nos casos de peritonite supurada onde afeta frequentemente a cápsula (Fig. 17 e 18). Fig. 17 – Fígado de um bovino. Abscesso. Fig. 18 – Fígado de um bovino. Abscesso. Hepatite necrótica é um tipo especial onde predomina a necrose hepática. Nos casos de associação com o Clostridium novyi a enfermidade é denominada "Doença Negra", devido à presença de sangue venoso no tecido subcutâneo. A lesão hepática é caracterizada por áreas necróticas de coloração acinzentada, circundadas por áreas avermelhadas provocadas pela multiplicação do agente e devido à ação de suas toxinas. Hemoglobinúria bacilar é uma infecção causada pelo Clostridium haemolyticum, condicionada pela presença de lesões hepáticas prévias (larvas de parasitas como Fasciola hepatica; intoxicação por poupa cítrica, entre outras, têm sido incriminadas, como prováveis causas primárias da enfermidade), onde a bactéria prolifera e produz toxinas suficientes para destruir as hemácias que liberam a hemoglobina. A correlação clínicopatológica é de depressão, anorexia, icterícia, diarréia sangüinolenta, hemoglobinúria e morte em poucos dias. NEOPLASIAS Adenoma hepatocelular ou hepatoma (Fig.19 e 20); adenocarcionoma hepatocelular ou hepatocarcinoma. (Fig. 21 e 22); adenoma colangiocelular ou colangioma. (Fig. 23); adenocarcinoma colangiocelular ou colangiocarcinoma (Fig. 24). 234 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig. 19 – Fígado de um cão. Hepatoma (adenoma hepatocelular). Fig. 20 – Fígado de um cão. Hepatoma (Adenoma hepatocelular). Fig. 21 – Fígado de um cão. Hepatocarcinoma (Adenocarcinoma hepatocelular). Fig. 23 – Fígado de um cão. Colangioma (Adenoma colangiocelular). Fig. 22 – Fígado de um cão colangiocarcinoma. (Adenocarcinoma colangiocelular) Fig. 24 – Fígado de um cão. Colangiocarcinoma (Adenocarcinoma colangiocelular) Atendemos no hospital veterinário da Universidade Federal de Uberlândia, um cão, mestiço, com seis anos de idade, com histórico de emagrecimento progressivo, anorexia, polidipsia, poliúria, 235 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . adbome distendido, desidratação grave, sensibilidade abdominal, aumento de volume da região do hipocôndrio direito e mucosas visíveis amareladas. Durante a punção realizada na região abdominal, observamos a presença de líquido amarelado. Nos exames sorológicos constamos aumento dos níveis de uréia e reação de Takata-ara positiva, o que indicava insuficiência renal e hepática respectivamente. Na radiografia observamos uma massa de crescimento anormal que ocupava os quatros quadrantes do abdome. Durante a necropsia observamos a presença de nódulos de três mm de diâmetro de coloração avermelhada, que se aprofundava pelo parênquima do pulmão. No abdome constatamos a presença de líquido amarelado (hidroperitônio). No fígado havia uma massa tumoriforme de consistência firme, superfície irregular, de coloração variando entre o amarelo e o cinza escuro, que se aprofundava ao corte. Ao exame histopatógico havia presença de adenocarcionoma colangiocelular (colangiocarcinoma), primário do fígado, com metástase pulmonar. 236 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . EM OUTRAS PALAVRAS O fígado é a maior glândula do corpo, possui mil e uma utilidades, tornado-se um órgão indispensável e fundamental para a vida com saúde. Os hepatocitos são células nobres, portanto não inflamam, mas degeneram. As hepatoses são todas muito importantes, com destaque para cirrose: processo degenerativo crônico, progressivo e difuso do fígado. As hepatites têm como causa determinados agentes que apresentam predileção para o fígado: Salmonella spp (granuloma salmonelotico em bezerros); E. coli (coligranuloma nas aves); vírus (hepatite infecciosa canina); adenovirus (hepatite infecciosa das aves); larvas de Ascaris spp (hepatite eosinofica caracterizando o chamado fígado de manchas br ancas dos suínos); Fasciola hepática (colangiohepatite). A presença de cistos hepáticos é comum. Sua origem pode ser congênita e adiquirida. Os cistos adiquiridos são provocados pelas larvas de parasitas como Taeneas spp (cisticercose, equinococose, hidatidose). As neoplasias hepáticas são mais comuns em cães, com destaque para o colangiocarcinoma: neoplasia maligna dos ductos biliares, que se apresenta com nódulos centimetricos e superficie côncava, exibindo um aspecto fungiforme. 237 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . NA PRÁTICA Foi atendido no Hospital Veterinário de Uberaba um cão macho, sem raça definida, com aproximadamente 9 anos de idade. Na anamnese o proprietário relata ter notado que animal apresentava aumento de volume abdominal há 5 dias, não está se alimentando há 2 dias e quase não bebe água. Observou-se que estava mais ofegante ultimamente e vomitou liquido de coloração amarelada. Na clinica foi observado pelo exame radiográfico presença de liquido abdominal, deslocamento de estomago e diversas estruturas suspeitas de neoplasia. Após drenar liquido amarelado na cavidade abdominal, animal apresentou parada cardiorrespiratória e veio a óbito. No laboratório de patologia, foi realizada a necropsia e foram encontrados os seguintes achados: estado corporal regular, mucosas congestas, líquido avermelhado na cavidade abdominal e torácica (aproximadamente 500ml) (Fig 01), presença de líquido espumoso nos brônquios, focos de pneumonia na fase congestiva, nódulos milimétricos no pulmão, presença de líquido avermelhado no saco pericárdico, endocardiose valvular, fígado aumentado de volume com nódulos difusos de aspecto fungiforme (Fig 02), rins apresentando nódulos milimétricos esbranquiçados que se aprofundammomento para se realizar uma necropsia é imediatamente após a morte do individuo. BIBLIOGRAFIA SILVA, D. C. B; OLIVEIRA, S. O. Colheita de material encefálico para o diagnostico de enfermidades do sistema nervoso central. Cad. Tec. Vet. Zoot, v.61, p 1- 16, 2009. SILVEIRA, D. SOBESTIANSKY, Tecnica de necropsia em suínos. Coleta e remessa de material para laboratório. Copyright, Goiânia, Goiás. 1977, 112p. VASCONCELOS, A.C. Necropsia e remessa de material para laboratório em medicina veterinária. 2ª Ed. Teresina, Universidade Federal do Piauí. 81p. 9 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES POST-MORTEM Imediatamente após a morte aprarecem as primeiras alterações: parada respiratória, parada cardíaca e perda da sensibilidade. Assim se confirma a morte do individuo (se o individuo não respira e o coração não bate mais, você toca no corpo dele e ele não responde, está morto). Aproximadamente meia hora depois começa a aparecer às primeiras alterações cadavéricas: lividez o sangue devido à ação da gravidade acumula-se nas partes baixas do corpo, tornando o lado superior totalmente pálido e as partes inferiores repletas de sangue. A este fenômeno denominamos hipóstase (lividez é o mesmo que palidez e hipóstase é vermelidão do sangue acumulado). Neste mesmo instante está ocorrendo outro fenômeno: rigidez inicia-se no sentido cranio caudal (cabeça, orelas, pescoço, tronco, membros toraçacicos, membros pelvinos e finalmente a cauda. Há uma divergência quanto à duração deste período da rigidez, uma vez que ela poderá durar mais naqueles músculos que tiver acumulado maior quantidade de energia (ATP adenosina trifosfato). A rigidez inicia-se em torno de trinta minutos e é máxima aproximadamente com oito horas. Neste instante instala-se o relaxamento iniciando no mesmo sentido que a rigidez (da cabeça para cauda). A temperatura do ambiente e o estado nutricional do cadáver interferem tanto com o processo de rigidez quando ao relaxamento: no calor, o relaxamento é precoce; no frio, a rigidez é prolongada. Autólise é o processo da autodigestão celular (as células são dotadas de enzimas autoliticas liberadas logo após cessar a respiração e a irrigação). Este fenômeno obedece a uma ordem, sendo que as células mais nobres são as primeiras perecerem. A adrenal é um exemplo de uma glândula que desaparece rapidamente, cerca de uma hora. A mucosa rumenal desprende aproximadamente uma hora emeia. O fígado e o cérebro também não resistem muito tempo após a morte. Na sequencia da autólise, após umas oito horas, coincidindo com o fim da rigidez e o começo do relaxamento, começa a putrefação: invasão de bactérias saprofitas, com a finalidade de alimentar- se do sangue e das células sem vida. Neste processo elas produzem um gás denominado sulfureto de hidrogênio que reagindo com o ferro liberado da hemoglobina forma um composto que confere uma coloração azulada aos tecidos denominada de sulfureto ferroso. A este fenômeno chamamos de pseudomelanose. Quando a produção de gás é muito grande há formação de bolhas, a este fenômeno denominamos enfisema post-mortem. O sangue que circulava no corpo, depois que 10 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . cessaram os movimentos cardíacos, sofre a chamada coágulação. Quando o coágulo é rescente é todo vermelho (pelo excesso de hemácias), na medida em que o tempo passa se torna amarelado, assim temos dois tipos de coágulos: cruórico e lardáceo (vermelho e amarelo respectivamente). Obedecendo a mesma cronologia, cerca de oito horas então com a lise dos coágulos, aprecem outro fenômeno: embebição sanguinea ou hemoglobinica. A hemoglobina liberada das hemácias vai corar as paredes dos vasos e outros tecidos nas proximidades em vermelho brilhante. Há outro tipo de embebição denominada biliar: ocorre nas proximidades da vesícula biliar e nas cavidades onde a bile penetrou-se. Alguns fatores podem alterar totalmente a cronologia destes fenômenos: estado geral do individuo (magro entra em rigidez rapidamente, enquanto o obeso demora); morte lenta com movimentos de pedalar (animais que se debatem antes da morte no caso do tétano entram em rigidez rapidamente): animais que morreram intoxicados e com timpanismo (o sangue demora a se coagular); a temperatura ambiente interfere (frio retarda, enquanto, o calor acelera); o congelamento retarda e até mesmo bloqueia o processo de autolise. 11 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 12 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- Conceitue alterações pós-mortem 2- Identifique o morto 3- Quanto tempo leva para os músculos alcançarem a rigidez máxima? 4- Com quantas horas ocorre o relaxamento? 5- O que putrefação? 1- São alterações que aparecem após a morte: coagulação do sangue, rigidez, lividez, hipóstase, autólise e putrefação. 2- Perda da sensibilidade e parada cardiorespiratória. 3- Aproximadamente oito horas após a morte 4- O relaxamento muscular ocorre imediatamente após completar a rigidez, ou seja, oito horas após a morte. 5- Putrefação é a invasão de bactérias saprofitas nos tecidos autolisados. 13 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES REGRESSIVAS Alterações regressivas são aquelas caracterizadas pela falta de crescimento ou desenvolvimento incompleto de um órgão, ou ainda degenerção e morte das células: Agenesia, aplasia, hipoplasia, ectopia, hipotrofia, degeneração pelo distúrbio do metabolismo celular e necrose. ATERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO Alterações do desenvolvimento são congênitas e, portanto, acontecem intrauterinamente no caso dos mamíferos e dentro do ovo nos animais ovíparos. Agenesia (do latim Genesis é formação e “a” é negação) é a ausencia de formação de um órgão ou parte dele. É incompatível com vida quando atinge um órgão vital, como é o caso do coração. Quando atinge órgãos pares pode ser unilateral ou bilateral, como nos rins, ovários, testículos, etc. As causas estão relacionadas com agressões físicas, químicas e biológicas, interferindo direta ou indiretamente (poluição ambiental, vícios e uso inadequado de medicamentos). Quando ocorre agenesia em um órgão par (rim), o outro que se formou normalmente sofre uma hipertrofia compensatória chamada de vicariante: o órgão se apresenta aumentado de volume e intensamente avermelhado. Aplasia (do grego plasia é formação) é ausência de formação de um órgão ou parte dele (órgão lobado como o fígado pode faltar um lobo). A diferença entre aplasia e agenesia é que na aplasia ocorre um sinal (inicio de formação) indicativo que aquele órgão era para ser naquele local, e na agenesia nem sinal. Há um tipo pouco comum denominada aplasia segmentar, onde um segmento do canal alimentar ou outro sistema não se forma: pode ser parte do esôfago (Fig. 01), ou do intestino. Geralmente não se forma o lume do órgão, havendo apenas um cordão fibroso. O animal morre de fome, mesmo alimento normalmente, porém regurgitando. 14 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 01 - Aplasia segmentar do esôfago de um cão recém-nascido. Hipoplasia é o desenvolvimento incompleto de um órgão. Inicia-se seu desenvolvimento e num determinado momento interrompe, ficando o órgão reduzido de tamanho. Há vários graus de hipoplasia: leve, moderada e severa. Assim, ela pode comprometer a função do órgão, dependendo da sua evolução. Uma hipoplasia severa certamente comprometerá toda função do órgão afetado. Os melhores exemplos são observados nos rins, ovários e testículos (Fig. 02, 03 e 04). A hipoplasia ovariana e testicular tem caráter genético e constitui um elemento desclassificante para o animal reprodutor. Macroscopicamente o órgão afetado apresenta-se diminuído de volume, duro e liso. Microscopicamente o órgão apresenta redução do número de células. A função vai estar comprometida de acordo com o grau daao corte, baço aumentado de volume apresentando nódulo medindo aproximadamente 10 cm de diâmetro (Fig 03), de coloração brancacenta/friável que se aprofunda ao corte, omento e mesentério apresentando nódulos milimétricos difusos (Fig 04), mucosa gástrica avermelhada e edemaciada apresentando erosões milimétricas e centimétricas (úlcera) (Fig 05) e presença de metástase nos linfonodos mesentéricos. 238 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Fig 01 - Líquido avermelhado na cavidade abdominal Fig 02 - Nódulos hepáticos difusos de aspecto fungiforme: colangiocarcinoma Fig 03 – Nódulo esplênico proveniente da metástase do colangiocarcinoma Fig 04 – Nódulos milimétricos metastáticos no mesentério Fig 05 - mucosa gástrica avermelhada e edemaciada apresentando ulcerações Diagnóstico final: Colangiocarcinama 239 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . Diagnóstico conclusivo: O animal apresentou um quadro de neoplasia maligna com metástase em vários órgãos (diagnóstico macroscópico e citopatológico) que levou a morte do mesmo Comentário: trata-se de uma neoplasia maligna dos ductos biliares. Sua ocorrência tem maior frequência na espécie canina, 75% de todas as neoplasias hepáticas em cães são do tipo colangiocarcinoma. Sua ocorrência é mais comum em animais acima de 6 anos de idade, e geralmente da metástase no baço mesentério e pulmão. Macroscopicamente apresenta aspecto que lhe é peculiar: nódulos fungiformes, ou seja, nódulos com uma depressão central. Esses nódulos são centimétricos (2-3 cm de diâmetro), de coloração amarelada. Microscopicamente apresenta células distribuídas em círculo na tentativa de formar os ductos, as células são poliédricas com núcleo grande (Fig 06). Clinicamente, toda neoplasia hepática maligna tem como correlação clinicopatológica a presença de liquido avermelhado na cavidade abdominal: uma mistura de sangue e edema, explicado pela incapacidade do fígadoem armazenar vitamina k e produzir protrombina ocorre a hemorragia e a incapacidade de produzir proteína sérica ocorre edema. Fig 06 – Fotomicrografia do clap de um fígado canino apresentando colangiocarcinoma. Note a tentativa de formação de ductos (círculos) pelas células neoplásicas. Panótipo rápido. 40X 240 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é cirrose hepática? 2- O que é hepatite infecciosa canina? 3- O que é colangiocarcinoma? 4- O que é colicistite? 5- O que é telangectasia? 1- Cirrose é um processo degenerativo, progressivo, crônico e difuso do fígado. 2- Hepatite infecciosa canina é uma doença viral que afeta cães jovens, carcterizada pelo edema da parede da vesícula biliar e opacidade de córnea. 3- Colangiocarcinoma é uma neoplasia maligna dos ductos biliares. 4- Colicistite é inflamação da vesícula biliar. 5- Telangectasia é dilatação cavernosa de grupos de capilares sinusoides. BIBLIOGRAFIA ALESSI, A.C., FAGLIARI, J.J., OKUDA, H.T., PASSIPIGRI, M. Intoxicação natural de bovinos pela micotoxina esporidermina. 4 Lesões hepáticas. Arq. Bras. Med.Vet.Zootec. v.46, n.4, p.319-328, 1994. BUTTON.C. et al. Crytal-associated cholangiohepathy and photosensitisation in lambs in victoria. Aust. Vet J. 64:176-180, 1987. DYCE, K.M.; SACK, W.O; WENSING, C.J.G. Tratado de Anatomia Veterinária. 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Kupffer Cells and Other Liver Sinusoidal Cells. Amsterdam. Elsevier/North Holland Biomedical Press. 1977. 242 PATOLOGIA ESPECIAL. . . . . . . . . . . PÂNCREAS Pâncreas é uma glândula mista tanto endócrina como exócrina. A porção endócrina é formada pelas ilhotas de Langerhans. A porção exócrina apresenta-se como uma glândula acinosa composta e é muito parecida com a parótida, distinguindo-se principalmente pela ausência de ductos estriados e pela presença de ilhotas de Langherhans. Esse órgão origina-se de dois esboços embrionários distintos. Ambos são divertículos endodérmicos da porção terminal do intestino cefálico: um colocado na região ventral e outra na sua porção dorsal. O esboço dorsal cresce na espessura do mesoduodeno dorsal. O esboço ventral é pequeno em relação ao dorsal e está situado na região onde se originou o fígado e, conseqüentemente, o seu ducto desemboca no futuro ducto biliar comum. É inegável a importante função que desempenha o Pâncreas, tanto na sua parte exócrina como na sua parte endó-crina. O papel da secreção exócrina diante da digestão dos lípedes é indispensável, sem a qual não é possível aproveitar o produto lipídico ingerido. Todavia observamos algumas alterações que tem sua relevância: as obstruções do ducto pancreático, por cálculos ou estenoses diversas, são capazes de através da retensão e refluxo da secreção enzimática, provocar uma pancreatite necrótica aguda. O fato de o pâncreas possuir uma delicada cápsula favorece o estravazamento de sua secreção, neste caso, tornando comum a pancreatite necrótica das gorduras do omento,alteração. Fig. 02 - Hipoplasia renal unilateral em um cão adulto. Fig. 03 – Hipoplasia testicular unilateral em um bovino adulto. 15 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 04 - Hipoplasia renal unilateral em um cão adulto. Ectopia é a formação de um órgão fora de seu local. Os rins podem ser encontrados próximos a cicatriz umbelical. O coração poder ser observado fora da cavidade torácica. Constatamos certa vez uma novilha da raça holandesa que nasceu com o coração na região cervical, nas proximidades da tireóide. O animal sobreviveu durante 16 meses e morreu devido um ainfestação de carrapatos culminando com um quadro de babesiose. Durante a necropsia pudemos constatar que o coração ectópico apresentava dilatação de suas câmaras. Orgão supranumerário é o aparecimento de órgãos acessórios (Fig 05): dois corações, quatro rins, três testículos e assim por diante. Normalmente estes órgãos não funcionam e na maioria das vezes aparecem com figura decorativa. Fig 05 – Fígado de cão apresentando lobos supranumerários Cistos são estruturas vesiculares repletas de liquido citrino, envolvidas por uma cápsula de tecido conjuntivo fibroso. Aparecem nos rins e fígado com maior freqüência (rim cístico quando tem um único cisto, e rim policístico quando apresenta mais de um cisto). 16 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 17 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O qué agenesia? 2- O que é aplasia? 3- O que é hipoplasia? 4- O que é ectopia? 5- O que é aplasia segmentar? 1- Agenesia é ausência de formação de um órgão. 2- Aplasia é ausência de formação de um órgão apresentando apenas um resquício. 3- Hipoplasia é o desenvolvimento incompleto de um órgão. 4- Ectopia é a localização errada de um órgão. 5- Aplasia segmentar é mesmo que atresia, ou seja, deixou de formar apenas um segmento daquele órgão, exemplo: aplasia segmentar do esôfago, do intestino e retal. 18 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . ALTERAÇÕES ADQUIRIDAS Hipotrofia é uma alteração adquirida, que aparece no individuo após o nascimento não importa a idade, caracterizada pela diminuição do tamanho do órgão quando este já havia alcançado o tamanho normal. O órgão apresenta-se diminuído de volume enrrugado e duro, e microscopicamente o número de células está normal, mas de tamanho reduzido. As pricipais causa são subnutrição que por sua vez pode ser observada por vários ângulos: o animal não come porque não tem comida ou porque está sem apetite. A subnutrição também pode ser localizada em um órgão que recebe pouca irrigação (hipotrofia por interrupção da circulação). Há ainda os casos de senilidade em que os órgãos estão velhos, desgastados e perdendo sua capacidade funcional (hipotofia senil). A atividade física, os movimentos musculares contribuem para manutenção de um corpo saudável, enquando a inatividade proporciona o aparecimento da hipotrofia (hipotrofia por desuso). Os estímulos hormonais são fundamentais para a manutenão de órgãos sadios e funcionais. Alguns são hormonalmente dependentes de outros: o útero é ovário dependente; o ovário depende dos hormônios hipofisarios (hipotrofia por falta de estímulos tróficos). Nos casos de compressão prolongada de órgãos e tecidos ocorre um bloqueio na circulação, constituindo uma hipotrofia por isquemia: imobilização de membros com gesso, crescimento de neoplasias nas proximidades e abscessos podem ser fatores de compressão (hipotrofia por compressão). Nos indivíduos idosos surgem manchas na pele de coloração parda, que se distribui pelo corpo, pricipalmente nos membros, onde incidem os raios solares, são pigmentos de gasto e uso que se acumulam nas células (hipotrofia parda). Quando o individuo fica sem comer por algum tempo, o organismo começa a metabolizar as gorduras de reserva: transformando lípides em energia e água metabólica. A gordura acumulada pricipalmente junto do saco pericárdio, próximas dos rins e abdominal apresenta-se gelatinosa, deixando fluir liquido citrino ao corte (hipotrofia gelatinosa das gorduras). 19 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . DISTURBIOS DO METABOLISMO CELULAR As células são constituídas de proteínas, lípides, carbohidratos, minerais, pigmentos e água. Estes elementos são fundamentais para sua formação como também para manutenção de suas atividades. Ocorrem invariavelmente distúrbios em cada um destes componentes, cujas causas são as mais diversas possíveis. Estes distúrbios são alterações celulares que denominamos de degeneração (doença das células), cada componente celular a presenta um grupo de degenerações: distúrbios do metabolismo das proteínas (degeneração turva, hidrópica, mucosa, hialina, amiloidose e gota); distúrbios do metabolismo dos lipides (degeneração gordurosa e obesidade); distúrbios do metabolismo dos carbohidratos (infiltração glicogênica); distúrbios do metabolismo dos minerais (mineralização, ossificação patológica e concreções); distúrbios do metabolismo dos pigmentos (pigmentos exógenos e endógenos). DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DAS PROTEÍNAS Degeneração é a doença da célula, como as doenças têm o sufixo “ose” (tuberculose, babesiose, anaplasmose), as degenerações sendo doenças das células, também têm o mesmo sufixo: degeneração do fígado (hepatose), degeneração do rim (nefrose). Os órgãos parenquimatosos são os que mais apresentam degenerações (fígado e rim). As degenerações representam as piores alterações que ocorrem nas células, acontecem os vários tipos de agressões e o organismo não reage, o resultado na maioria das vezes, é morte celular (necrose). Degenarção turva (parenquimatosa, granulosa, nebulosa e edema celular) é na sua essência um edema celular, onde as células ficam inchadas, aumentadas de volme, granulosas, perdendo o brilho e com aspecto nebuloso como se o microscópio estivesse fora de foco. As causas são todas as agressões, de preferências as tóxicas. A patogenia explica que as mitocôndrias foram lesadas, deixando de produzir energia, impedindo o transporte de água das células, que ao contrario da entrada que é passiva, a saída é ativa, necessitando de energia. Assim, acumulam-se grandes 20 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . quantidades de água nas células instalando-se a degeneração turva (Fig. 01 a e b). Ocorre principalmente em orgãos parenquimatosos: fígado e rim, pondendo afetar também o musculo cardíaco. Macroscopicamente o órgão apresenta-se com aspecto de fervido ou cozido, traduzido por uma palidez geral. Microscopicamente as células estão aumentadas de volume com aspecto nebuloso (citoplasma granuloso e sem brilho). Fig.01 - Degeneração turva em fígado de cão adulto. (a) cordões hepáticos com aspecto nebuloso. Coloração HE. 10X. Fig. 01 - Degeneração turva em fígado de cão adulto. (b) células hepáticas com citoplasma granuloso. Coloração HE. 40X. Degeneração hidrópica (degeneração vacuolar) é o acumulo de água nas células dentro de vacúolos únicos ou múltiplos que se coalecem formando uma vesícula na superfície epitelial. Este tipo de degeneração ocorre preferencialmente nas mucosas e pele. As causas podem ser vírus (febre aftosa é um bom exemplo, onde há a presença de vesículas na cavidade bucal, nos espaços interdigitais e nas tetas). Outras doenças virais como exantema vesicular dos suínos, febre catarral maligna, varíola, diarréia bovino a virus, herpesvirus labial e genital. As vesículas se contaminam com bactérias formam pústulas que se rompem, aparecem as crostas e finalmente as cicatrizes. Macroscopicamente as vesículas fazem saliência na superfície epitelial e podem medir de três a dez milímetros ou até mais. Microscopicamente são observados os vacúolos no interior das células (Fig. 02). 21 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 02 - Epitélio da bexiga de um cão. Degeneraçãohidrópica epitelial. Coloração HE. 40 X. Degeneração mucosa (degeneração mucoide) é o acumulo de substância mucoide ou muco produzido pelas células mucigênicas denominadas caliciformes, encontradas nas mucosas do sistema digestório, respiratório e genital feminino. Em condições extraordinárias pode haver produção de muco pelas células derivadas do mesenquima, no caso os fibroblastos neoplásicos: mixoma e mixossarcoma, que são neoplasias que ocorrem no tecido conjuntivo principalmente de cães. Muco é uma substância bioquimicamente constituída de proteínas e polissacarídeos. Nas doenças o excesso de muco é tido como catarro, assim uma enterite (inflamação do intestino) quando há grande produção de muco é denominada: enterite catarral; quando isto ocorre no pulmão: peumonia catarral; na vagina vaginite catarral. As pricipais causas de degeneração mucosa ou catarral são bactérias: Escherichia coli (colibacilose); Salmonella spp (salmonelose); distúrbios alimentares leves e outros. Macroscopicamente há grande quantidade de muco nas vias digestivas, aéreas e genital feminino. Muco é uma substância pegajosa, viscosa com a finalidade de lubrificar e protejer o epitélio da mucosa. Microscopicamente a substância mucoide não se cora bem com os corantes: hematoxilina e eosina apresentam apenas um sinal levemente azulado. Há uma hiperplasia das células caliciformes que deslocam o núcleo para a periferia e toma uma forma de anel de sinete (anel antigo usado para colocar timbre nos papaeis). Degeneração hialina (hialinose) refere-se à presença de uma substância homogenia, lisa e branca, que microscopicamente cora-se em róseo pela hematoxilina e eosina. Pode estar presente no tecido epitelial (degeneração hialina epitelial ou hialinose epitelial); no tecido conjuntivo (degeneração hialina conjuntiva ou hialinose conjuntiva); no tecido muscular (degeneração hialina muscular ou hialinose muscular). O melhor exemplo de degeneração hialina epitelial ocorre nos túbulos renais: os cilindros hialinos formados a partir da descamação do epitélio dos túbulos 22 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . principalmente nas nefrites (inflamação do rim). São vistos microscopicamentes como estruturas esféricas coradas em róseo pela hematoxilina e eosina, localizadas no interior dos túbulos renais (Fig. 03 a e b). No exame de urina estas estruturas são conhecidas como cilindros granulosos. Os corpos amilácios são exemplos de degeneração hialina epitelial (são massas arredondadas, homogêneas, que apresentam laminações concêntricas coradas em róseo ou levemente azuladas) observada nas células epiteliais dos alvéolos pulmonares; na próstata de cães velhos; na glândula mamaria de bovinos e no encefelo de primatas. Fig. 03 – (a) Cilindros hialinos nos túbulos renais de um cão adulto (). Coloração HE. 10X. Fig. 03 – (b) Cilindro hialino em detalhe (). Coloração HE. 20X. Degeneração hialina conjuntiva ocorre sempre nos locais onde se deposita grandes quantidades de tecido conjuntivo: nas cicatrizes velhas, nos trombos organizados, na arteriosclerose e embolia. Macroscopicamente o depósito de substância hialina conjuntiva apresenta-se de cor branca. Microscopicamente as fibras colágenas se fundem, corando-se em róseo pela hematoxilina e eosina. Degeneração hialina muscular (necrose de Zenker) é o tipo onde há destruição ou perda das estrias musculares dos músculos estriados esquelético e cardíaco. Neste caso ocorre coagulação do sarcoplasma das fibras (Fig. 04 a). Há outra denominação além de necrose de Zenker (Fig. 04 b) que é degeneração cérea devido à semelhança com cera de abelha. Os melhores exemplos de degeneração hialina muscular estão na doença do músculo branco dos bovinos, suínos, aves, caprinos e ovinos: e da azotúria dos cavalos. 23 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 04 – (a) Degeneração hialina muscular. Músculo estriado de um cão adulto. Perda das estriações das fibras. Coloração HE. 20X. Fig. 04 – (b) Degeneração hialina muscular. Necrose de Zenker. Coloração HE. 40X. A doença do músculo branco é provocada pela deficiência de vitamina E, e selênio. As grandes massas musculares, especialmente as da região glútea, são afetadas, tornando-se duras e de cor branca, assemelhando com carne de peixe Fig. 05. Fig. 05 – Músculo estriado de bovino apresentando doença do músculo branco conhecida como miopatia nutricional. Na azotúria dos cavalos também conhecida como “doença da segunda feira” as causas são induzidas pelo excesso de movimentação muscular, utilização repentina e exagerada do glicogênio muscular, promovendo o acúmulo de acido lático que lesa as fibras constituindo a degeneração hialina em questão. A azotúria acomete animais que estão, há muito tempo em repouso e são colocados no serviço forçado. Os principais sinais clínicos são endurecimento da garupa, dor 24 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . muscular e hemoglobinúria. Macroscopicamente os músculos estão duros e brancos e microscopicamente há degeneração hialina dos músculos afetados. Amiloidose (infiltração amilóide) é resultante da deposição do complexo antígeno e anticorpo. Toda vez que se produz grande quantidade de anticorpo tentando anular algum antígeno se produz um complexo chamado amilóide: uma substancia homogenia, vítrea, amorfa, depositada entre as células e os capilares, provocando hipotrofias e destruiçãos dos mesmos. Não se trata de uma degeneração e sim uma infiltração que provoca degeneração, destruição e morte celular de forma indireta, pela sua compressão. Virchow (1855) demonstrou pela primeira vez corando-a em azul pelo iodo e acido sulfúrico, diluídos. Hoje se cora em róseo pela hematoxilina e eosina. A amiloidose está associada a fatores imunológicos como na produção de soro antiofídico, antitetânico e outros, utilizando animais de grande porte como: cavalos portadores de uma volemia considerável, podendo extrair grandes quantidades de soro de uma só vez. Depois de um determinado período de extração de soro, estes animais apresentam alterações em suas vísceras: fígado, baço e rim principalmente, devido à precipitação do complexo antígeno anticorpo o que denominamos de amiloidose. Vários fatores devem agir para produzir a substância amilóide, incluindo alterações das proteínas, associadas a proteólises defeituosas, ou deficiência de enzimas lisossômicas. Macroscopicamente a amiloidose só é observada em grandes quantidades, aumentando o volume do órgão e o aparecimento de pontos ou manchas brancas ou amareladas. Microscopicamente a substância cora-se em róseo, localizando-se em pontos estratégicos em cada órgão. No fígado, ela está presente entre os cordões de hepatócitos e os capilares sinusoides, comprimindo as células hepáticas (Fig. 06 a e b). Fig.06 – (a) Infiltração amilóide no fígado. Coloração HE. 20X. Fig. 06 – (b) Hipotrofia dos cordões hepáticos devido à infiltração amilóide (). Coloração HE. 20X. 25 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Nos rins, ela está presente nos glomérulos destruindo-os (Fig. 07). No baço, ela está presente nos centros germinativos dos folículos linfóides. Quando em grande quantidade é conhecida como “baço de sagu” o que acontece na anemia infecciosa dos eqüinos. Doenças crônicas como tuberculose e hanseníase constituem em importantes causas predisponntes da amiloidose. Fig.07 - Infiltração amilóide no rim, localizada no glomérulo. Coloração HE. 20X. Gota é a deposição de cristais de uratos de sódio e cálcio nas articulações e serosas. Assim teremos dois tipos: articular e visceral. A gota articular é mais comum em mamíferos e tem como causa principal uma dieta rica em proteínas com a liberação de grande quantidade de acido úrico, que é produto nitrogenado não protéico eliminado na urina. As articulações apresentam-se aumentadas de volume e extremamentesensíveis à palpação. Ocorre uma reação inflamatória intensa por causa da agressão dos cristais ponteagudos. A gota visceral aparece nas membranas serosas: pleura, pericárdio e peritônio. É comum nas aves e raramente apresenta sinais clínicos. Os ureteres podem estar repletos de uratos e todas as vísceras cobertas pelos cristais de uratos. Uma dieta rica em proteínas é a causa mais comum. Aves de rapina (coruja) em cativeiro têm apresentado casos de gota visceral (alimetação inadequada e pouco esforço fisico). Fatores predisponentes mais importantes são: hereditariedade, ração com níveis de proteínas acima de 40% provoca gota articular em perus; variação de temperatura ambiental interfere no consumo de ração; insuficiência renal; deficiência de vitamina A; restrição de água. Macroscopicamente a gota apresenta-se um pó branco chamado tofo, que recobre as articulações e serosas (Fig. 08). 26 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 08 - Gota úrica. Gota visceral, localizada no pericárdio, sob a forma de pó de giz (TOFO) em uma ave jovem. Microscopicamente são cristais de uratos no formato de ponta de agulha, infiltrando nas articulações e serosas, provocando uma reação inflamatória severa com a presença de histiócitos e celulas gigantes tipo corpo estranho. O fígado de mamíferos produz uma enzima denominada uricase que transforma grande parte do acido úrico em alantoina: uma substância inócua, que é eliminada sem maiores conseqüências. Cães da raça dálmata apresentam uma deficiência hereditária no processo de eliminação do acido úrico, devido a pouca capacidade do fígado transformá-lo em alantoina. Em conseqüência estes animais estão sujeitos a apresentarem cálculos renais (Fig. 09), ou contrario do que devia pensar, não apresentam gota. Em hummanos o acido úrico é oxidado em uréia e eliminado pela urina. Fig. 09 – Cálculos de ácido úrico em cão Dálmata 27 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 28 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTAS 1- O que é degeneração? 2- O que é infiltração? 3- O que é cilindro hialino? 4- O que é cilindros granulosos? 5- O que é anel de sinete? 1- Egeneração é a doença da célula. 2- Infiltração é o depósito de substâncias diversas entre as células e nas proximidades dos capilares. 3- Cilindros hialinos são exemplos de degeneração hialina epitelial nos túbulos renais. 4- Cilindro granuloso é degeneração hialina epitelial encontrada na urina nos casos de nefrites. 5- Anel de sinete é o aspecto microscópico da célula caliciforme com excessiva quantidade de muco, representando a degeneração mucosa. 29 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . DISTÚRBIO DO METABOLISMO DOS LÍPIDES Degeneração gordurosa (lipidose, esteatose, metamorfose gordurosa) é o acúmulo de lípides no citoplasma das células, caracterizado pelo aumento de volume e arredondamento das células afetadas. A maior ocorrência está no fígado e coração. Fatores tóxicos e dietéticos são os mais importantes. A hipoxia que ocorre no fígado durante o processo de hiperemia passiva crônica, faz com que haja degeneração gordurosa dos hepatócitos próximos a área afetada. Assim os hepatócitos ficam incapazes de eliminar e conjugar os lípides que vem na corrente sanguinea e que acabam se acumulando no citoplasma em forma de gotículas que se fundem em uma enorme gota, empurando o núcleo para a periferia da célula que se torna arrendonda. Este é o mecanismo mais comum onde as células degeneradas, por tóxicos, (o figado é o órgão desintoxicador do organismo), acabam por acumular excesso de gordura. Fatores dietéticos ou lipotróficos (deficiência de aminoácidos: colina e metionina) são indispensaveis elementos na elaboração de lipoproteínas. Na falta destes aminoácidos os hepatocitos acumulam as gorduras que deveriam ser eliminadas. Os ácidos graxos chegam ao fígado via plasma, oriundos de duas fontes: triglicérides das reservas de gorduras e quilomicrons do intestino. Estes ácidos graxos são usados no processo metabólico do fígado no reticulo endoplasmático rugoso, e também podem ser eliminados sob a forma de fosfolipedes e colesterol. Uma dieta rica em gordura e pobre em proteínas favorece o aparecimento de degeneraação gordurosa. Macroscopicamente o fígado apresenta aumentado de volume, amarelado, friável e untuoso ao corte. Microscopicamente os hepatócitos estão repletos de gotículas de gorduras coradas em vermelho ou preto por corantes especiais (sudan III e IV ou sudan black). Em cortes corados pela hematoxilina e eosina é necessária a inclusão em parafina que dissolve a gordura, ficando os espaços vazios no interior dos hepatócitos (Fig. 01 a e b). 30 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 01 – (a) Degeneração gordurosa hepática. Metamor- fose gordurosa hepática. Coloração HE. 10X. Fig. 01 – (b) Degeneração gordurosa hepática em aumento maior. Coloração HE. 40X. No coração, a degeneração gordurosa é conhecida como “coração tigrado” que toma uma aparência de pele de tigre: estrias amareladas impregnadas de gorduras, intercaladas com áreas normais. É comum em indivíduos obesos. Microscopicamente (Fig. 02 a e b) várias gotas vazias se infiltram pelas fibras como espuma. A degeneração gordurosa é uma alteração irreversível, portanto há que se ter o maior cuidado para evitá-la (toda cirrose hepática começa com degeneração gordurosa). O termo infiltração gordurosa não se usa mais devido à dificuldade de difernciar da degeneração, até porque não importa muito esta diferença. Fig.02- (a) Degeneração gordurosa. Degeneração gordurosa na fibra muscular cardíaca. Coloração HE. 10X. Fig.02– (b) Degeneração gordurosa. Degeneração gordurosa na fibra muscular cardíaca. Coloração HE. 20X. Obesidade é o acúmulo de gordura nas células adiposas do tecido adiposo existente no organismo. O sistema cardiovascular é o mais afetado pela sobrecarca de células e tecidos a serem irrigados. 31 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 32 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUNTAS E RESPOSTA 1- Conceitue degeneração gordurosa. 2- Dê a sinonímia da degeneração gordurosa. 3- Dê a etiologia da degeneração gordurosa. 4- O que é coração tigrado? 5- Dê o aspecto macro da degeneração gordurosa hepática. 1- Degeneração gordurosa é o acúmulo de gordura nas células que não são os adipócitos: hepatócitos, fibras musculares e outras. 2- Lipidose, esteatose, degeneração gordurosa. 3- Excesso de lípdes na dieta; incapacidade hepática por agressões tóxicas e diversas; deficiência de fatores lipotrofícos: colina e metionina. 4- Coração tigrado é o aspecto macroscópico da degeneração gordurosa na fibra muscular cardíaca. 5- Fígado aumentado de volume, bordas arredondadas, amarelado, friável e untuoso ao corte. 33 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DOS CARBOHIDRATOS Infiltração glicogênica é a deposição em grande quantidade de glicogênio no músculo e fígado. Alimentação rica em carbohidratos favorece o acúmulo de glicogênio inicialmente no fígado e posteriormente nos músculos. Quando o individuo passa períodos longos sem ingerir alimentos, estes carbohidratos na forma de glicogênio são metabolizados com intuito de produzir energia para as células e tecidos. Há uma doença hereditária do armazenamento do glicogênio (glycogen storage disease) causada pela deficiência de enzimas que metabolizam os carbohidratos. Depósitos de glicogênio (Fig. 01) apresentam-se como espuma devido o preparo do material examinado, usando a técnica rotineira. Para observar o glicogênio é necessária técnica especial de fixação do material e coloração pelo PAS (acido periódico de shiff). Lembrar que o glicogênio é o único carbohidrato capaz de ser visualizado microscopicamente. A infiltraçãoglicogênica é observada nas células neoplásicas de crescimento rápido e nos leucócitos durante o processo inflamatório. Fig.01- Degeneração gordurosa. Degeneração gordurosa na fibra muscular cardíaca. Coloração HE. 10X. 34 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . 35 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . PERGUTAS E RESPOSTAS 1- Qual a diferença entre degeneração e infiltração? 2- Quais os locais prioritários de depósitos do glicogênio? 3- Qual conseqüência da utilização repentina do glicogênio muscular? 1- Degenerção é alteração intracelular, infiltração é alteração intercelular. 2- Glicogenio deposita-se no fígado e músculos. 3- Azoturia dos eqüinos. 36 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . DISTÚRBIOS DO METABOLISMO MINERAL Mineralização (calcificação) é a deposição de minerais (cálcio e fósforo) no tecido ósseo, completando o processo de ossificação. Mineralização patológica é um distúrbio onde os minerais são depositados em locais inapropriados, ou seja, fora do tecido ósseo. Classificada em distrófica e metastática. Mineralização distrófica é a mais comum e está presente nos locais de grande produção de radicais ácidos como nas inflamações crônicas, neoplasias e áreas de necrose. O melhor exemplo é o que ocorre na tuberculose, onde há necrose caseosa e intensa mineralização. Este processo significa que o organismo está tentando isolar a área lesada e torná-la inócua. Quanto mais mineralizado for um tubérculo, mesnos afensivo ele será. Macroscopicamente uma área mineralizada é áspera e range ao corte como se estivesse cortando algo arenoso. Microscopicamente tem uma aparência de borrão ou sujeira, como se fosse artefato de técnica, corando-se em roxo levemente azulado (Fig. 01 a, b, c e d). Pode ocorrer mineralização distrófica na camada íntima dos vasos sanguineos e nas fibras cardíacas. Quando ocorre no tecido subcutâneo de cães é denominado de calcinose. Fig. 01 - (a) Mineralização. Mineralização distrófica em área de necrose caseosa no linfonodo de um bovino. Coloraçao HE. 10X. Fig. 01 – (c) Mineralização. Mineralização distrófica no baço. Coloração HE. 10X. 37 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Fig. 01 – (b) Mineralização. Mineralização distrófica em área de necrose caseosa no linfonodo de um bovino. Coloraçao HE.10X. Fig. 01 – (d) Mineralização. Mineralização distrófica no baço. Coloração HE. 10X. Mineralização metastática é de ocorrência esporádica e aprarece nos casos de hipercalcemia provocada por algum distúrbio na absorção e metabolização do cálcio. Bovinos intoxicados com uma planta chamada Solanum malacoxilom apresenta este distúrbio caracterizado pelo endurecimento e rigidez dos ligamentos e tendões, devido à mineralização metastática generalizada. Este quadro é conhecido como “entequê seco”. Ossificação patológica é a formação de autênticas estruturas ósseas em locais inapropriados, ou seja, fora do esqueleto. Trata-se de metaplasia: transformação de um tecido em outro, desde que da mesma origem. Assim todos os tecidos que pertencerem à mesma origem do tecido ósseo (mesenquima): tecido conjuntivo, cartilaginoso, muscular, adiposo e vasos sanguíneos poderão originar uma ossificação patológica. Isto ocorre nos músculos abdominais dos suínos, cartilagens da falange lateral dos cavalos de tração, tendões dos membros pelvinos dos perus, cartilagens da traquéia e laringe de animais velhos, septos interalveolares do pulmão e parede da aorta de bovinos. De uma lesão previamente mineralizada nestes locais acima citados, forma-se uma reação inflamatória com formação de tecido de granulação: proliferação de tecido conjuntivo e neoformação vascular, de onde os fibroblastos se diferenciam em células osteoprogenitoras capazes de dar origem a verdadeiras estruturas ósseas. Concreções são corpos sólidos formados dentro e fora do organismo, de origem de material orgânico e inorgânico. As orgânicas são denominadas de piloconcreções e fitoconcreções. 38 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . Piloconcreções são bolas de pêlos encontradas no rume e estômago de individuos que ingerem estes pelos por motivos diversos: irritação na pele por ectoparasitas, fungos e outros elementos microbiológicos; alergias; víscio de se lamber e pilofagia. Estas bolas de pelos podem atingir grandes proporções: um até vinte centímetros (Fig.02). Quando menores elas podem ser expelidas durante a ruminação, e as maiores podem obstruir alguns orifícios do canal alimentar, ao contrário, elas podem passar despercebidas a vida toda e ser achado de abatedouro. Os animais jovens são os principais alvos devido a tamanho dos pelos. As piloconcreções são elementos benzoários pela crença popular: as cabras Hircus aegagrus do Tibet produzem as mais famosas e valiosas piloconcreções denominadas de egragrópilos, que são vendidas a peso de ouro, pois as cabras são consideradas sagradas, imagine as pilocrocreções que saem delas. Fig. 02 – Piloconcreções retiradas do rume de um bovino jovem. Fitoconcreções são bolas de fibras vegetais (capim) que se forma da mesma forma que as piloconcreções: por meio de movimentos rumenais. São esferoidais de coloração esverdeada, consistência duro quando seca e mole quando são expelidas. Geralmente não provocam nenhuma alteração e são achados de abatedouro. As inorgânicas são formadas por depósito de minerais em locais preveamentes lesados, a partir de um núcleo de material orgânico qualquer. São denominados cálculos ou pedras (do Grego lithus) que podem ser formadas em diversas partes do organismo. As placas bacterianas que se formam periodontais (impropriamente denominadas de tártaros dentários), hoje são conhecidas como cálculos dentários, pois são produtos da mineralização dos resíduos orgânicos depositados na base dos dentes. Os cálculos recebem o nome de acordo com o local em que eles 39 PATOLOGIA GERAL . . . . . . . . . . . sâo formados: urólitos (condutos urinários); colélitos (vesícula biliar); pancreólitos (ductos pancreáticos); sialólitos (ductos de glândulas salivares); e enterólitos (intestino). Urólitos são cálculos formados no interior das vias urinárias, constituídos quimicamente de fosfato de cálcio, carbonatos, sílica, e oxalatos (nos herbívoros, a urina é alcalina, os cálculos são de fosfato, carbonto e oxalato de cálcio. Nos caninos, a urina é acida, os cálculos são de oxalatos de cálcio, uratos de sódio e amônia). A etiologia de um urólito depende de alguma causa predisponete: inflamação, degeneração, alimentar e tudo aquilo que promove a formação de um núcleo, como deficiência ou excesso de vitamina A. Os minerais são depositados sobre este núcleo de material orgânico (resto celular) que se acumula até atingir grandes proporções. O uso prolongado de sulfas promove a precipitação de resíduos nos néfrons e túbulos renais constituindo núcleos para formação de cálculos. Macroscopicamente são duros, ponteadudos ou lisos, de cor branca ou cinza. As conseqüências resumem em cólicas ureterais, hematuria, ureterite, cistite e uretrite. O acúmulo de cálculos urinários é denominado urolitiáse. Colélitos são cálculos formados de bilirrubina e colesterol, encontrados na vesícula biliar. Suas causas relacionam com inflamação da vesícula biliar (colecistite), comum nos bovinos, provocadas pela Salmonella spp. Os colélitos são quebradiços, amarelados ou esverdeados e lisos. Possuem propriedades farmacológicas e são usados na produção de pérolas. O acúmulo de cálculos na vesícula biliar é denominado colelitíase. Pancreólitos são cálculos formados nos ductos pancreáticos, constituídos de fosfatos e carbonatos. São brancos, duros e pequenos (medindo de um a cinco milímetros), obstruindo os ductos e provocando pancreatite necrótica aguda. A infestação parasitária contribue (Euritrema spp) para formação destes cálculos. A