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FÁBIO SCORSOLINI-COMIN 
Aconselhamento 
Psicológico 
Aplicações em 
Gestão de Carreiras, 
Educação e Saúde 
C)
 
a
 
9,
 
UN
Aconselhamento Psicológico
Para alguns livros é disponibilizado Material 
Complementar e/ou de Apoio no site da editora. 
Verifique se há material disponivel para este livro em 
atlas.com.br
Fabio Scorsolini-Comin 
Aconselhamento Psicológico 
Aplicações em Gestão de Carreiras, 
Educação e Saúde 
SÃO PAULO 
EDITORA ATLAS S.A. — 2015
& 2014 by Editora Atlas S.A. MTO Ria, 
Capa: Zenário A. de Oliveira f 8 
Projeto gráfico e composição: CriFer — Serviços em Textos mn ES DEE 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP Brasil) 
Scorsolini-Comin, Fabio 
Aconselhamento psicológico : aplicações em gestão de carreiras, 
educação e saúde / Fabio Scorsolini-Comin. — — São Paulo: Atlas, 
2015. 
Bibliografia. 
ISBN 978-85-224-9518-4 
ISBN 978-85-224-9527-6 (PDF) 
1. Aconselhamento 2. Carreira profissional 3. Educação 4. Gestão 
5. Psicologia aplicada 6. Psicólogos — Entrevistas 7. Saúde — 
Aconselhamento |. Título. 
14-11310 
CDD-158.3 
Índice para catálogo sistemático: 
1. Aconselhamento : Psicologia aplicada 158.3 
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - É proibida a reprodução 
total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. 
A violação dos direitos de autor (Lei nº 9.610/98) é crime 
estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. 
Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme Lei nº 10.994, 
de 14 de dezembro de 2004. 
n 
asd 
Editora Atlas 5.8. 
Rua Conselheiro Nébias, 1384 
Campos Elísios 
01203 904 São Paulo 5P 
071 3357 9144 
atlas.com.br
Lista de Siglas, vii 
Apresentação, ix 
01 
02 
03 
05 
Aconselhamento Psicológico: breve histórico e definições, 1 
Em busca de definições, 7 
Para resumir e ampliar, 18 
Abordagens Teóricas em Aconselhamento Psicológico: Da 
Psicologia Humanista à Psicologia Positiva, 20 
Abordagem psicanalítica, 21 
Abordagem comportamental, 24 
Abordagem humanista, 28 
Abordagem fenomenológico-existencial, 32 
Abordagem da Psicologia Positiva, 34 
Para resumir e ampliar, 37 
O Processo de Formação em Aconselhamento Psicológico, 39 
Aconselhamento diretivo e não diretivo, 44 
Para resumir e ampliar, 49 
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento, 50 
Competências especificas para o aconselhamento de carreira, 62 
Competências para o trabalho multicultural, 65 
Para resumir e ampliar, 68 
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico, 69 
Códigos de ética profissional e a prática do aconselhamento, 70 
A ética na prática do aconselhamento psicológico, 74 
SUMÁRIO 
Desafios éticos e possibilidades da atuação em aconselhamento psicológico, 76 
Para resumir e ampliar, 81
vi ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO + Scorsolini-Comin 
06 Aconselhamento Psicológico é Psicoterapia, 84 
Diferenças entre aconselhamento psicológico e psicoterapia, 85 
Semelhanças entre aconselhamento psicológico e psicoterapia, 90 
Para resumir e ampliar, 94 
0? O Aconselhamento de Carreira, 97 
Em busca do emprego gratificante, 100 
Variedade de tarefas realizadas, 102 
Ambiente de trabalho seguro, 103 
Renda para a família e para a própria pessoa, 103 
Propósito derivado do fato de fornecer um produto ou prestar um serviço, 104 
Felicidade e satisfação, 104 
Engajamento e envolvimento positivos, 105 
Sensação de estar desempenhando bem os seus objetivos, 106 
Companheirismo e lealdade dos colegas de trabalho e dos chefes da empresa, 106 
Compreendendo o emprego gratificante, 107 
Para resumir e ampliar, 115 
08 Saúde em Florescimento: Aconselhamento psicológico na Psicologia Positiva, 117 
A saúde mental como foco da ciência psicológica, 119 
Psicologia Positiva: uma abordagem em saúde mental, 121 
Aconselhamento psicológico como intervenção voltada à potencialização e ao 
florescimento, 123 
Para resumir e ampliar, 128 
09 Intervenções em Aconselhamento Psicológico: Estágio 
supervisionado básico e extensão universitária, 130 
Experiência de um Programa de Preparação para a Aposentadoria, 133 
Experiência de plantão (etno)psicológico em comunidade religiosa: um caso de 
aconselhamento multicultural, 141 
Para resumir e ampliar, 148 
Para Concluir, 151 
Referências, 153 
Bibliografia Complementar, 169 
Apêndices, 173 
Sobre o autor do livro, 187
LISTA DE SIGLAS 
ABOP Associação Brasileira de Orientação Profissional 
ACA American Counseling Association 
ACP Abordagem Centrada na Pessoa 
AMCD Association for Multicultural Counseling and Development 
APA American Psychological Association 
CAPS Centro de Atenção Psicossocial 
CBO Classificação Brasileira de Ocupações 
CID Catálogo Internacional de Doenças 
CFP Conselho Federal de Psicologia 
CNE Conselho Nacional de Educação 
DCN Diretrizes Curriculares Nacionais 
DSM Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders 
NCDA National Career Development Association 
OMS Organização Mundial da Saúde 
PASS Política de Atenção à Saúde do Servidor Público Federal 
PPA Programa de Preparação para a Aposentadoria 
SAP-IP Serviço de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da USP 
SCP Society of Counseling Psychology 
SUS | Sistema Único de Saúde 
UFTM Universidade Federal do Triângulo Mineiro 
USP Universidade de São Paulo
APRESENTAÇÃO 
Minha mãe achava estudo 
a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Adélia Prado, Ensinamento, 2013. 
O aconselhamento psicológico é uma área da Psicologia já consolidada em nosso 
país, possuindo sólidas referências e evidências acerca da sua efetividade em dife- 
rentes contextos nos quais se oferta o apoio psicológico. Assim, esta obra é apro- 
priada para pesquisadores e profissionais que atuam em cenários como universida- 
des, escolas, clínicas privadas, serviços-escola, hospitais, centros de saúde, projetos 
sociais, organizações não governamentais, comunidades, empresas e demais insti- 
tuições. A prática do aconselhamento mostra-se flexível e plural, estando a serviço 
do trabalho multidisciplinar e sendo passível de releituras a partir de demandas 
específicas nos mais diferentes contextos. Nesta obra, priorizamos o diálogo com 
os cenários da saúde, da educação e da carreira por compreendermos a atualidade 
dessa discussão nesses campos. No entanto, os conhecimentos aqui compartilhados 
podem e devem ser refletidos tendo em mente as intervenções em outros contextos 
em que se propõe a oferta de apoio psicológico. 
Este livro surgiu a partir da minha experiência como psicólogo, docente e pes- 
quisador no campo do aconselhamento psicológico. Uma prática em aconselhamento 
merece destaque em minha formação, que é a realizada em uma comunidade religiosa 
em uma cidade do interior do Estado de São Paulo. Nesta comunidade, tenho ofere- 
cido de modo constante o apoio psicológico às pessoas que frequentam a instituição.
x ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO + Scorsolini-Comin 
Essa intervenção em comunidade baseia-se no pressuposto de que a oferta de uma 
escuta qualificada pode ocorrer em contextos e condições diversas, desde que alguns 
princípios éticos e técnicos sejam respeitados constantemente pelos profissionais. 
Assim, em uma perspectiva multicultural do aconselhamento, abordada neste livro, 
compreendemos os diferentes cenários nos quais se apresenta a possibilidade de 
oferta psicológica como um convite à recriação de práticas e saberes, desafio este 
que deve ser assumido pelos profissionais da área. 
Ao mesmo tempo em que desenvolvia essa prática, deparei-me com a dificul- 
dade de encontrar referências nacionais na área, sendo que a maioria das comu- 
nicações existentes são decorrentes dos mesmos modelos ou de atuações em um 
único serviço psicológico. As referências clássicas na área, notadamente de obras 
traduzidas para o português, centralizadas em publicações dos anos de 1960 a 1980, 
precisavam ser revisitadas.'psicológica vem se infiltrando e sendo convidada 
a participar. A própria nomenclatura dos profissionais dedicados à área revela esse 
momento de transição e de mudança, de modo que a coexistência de termos como 
conselheiro, terapeuta ou psicólogo nas diversas publicações aponta para essa fase 
de revisão, o que é assumido neste livro como indicador da pluralidade da área e das 
diversas potencialidades que emergem das intervenções na área. 
Para resumir e ampliar 
Neste capítulo conhecemos um pouco do aconselhamento psicológico desde sua 
origem até a contemporaneidade, com destaque para as diferentes definições exis- 
tentes sobre a área, bem como suas implicações para a compreensão dos campos 
do aconselhamento, da orientação e da psicoterapia. No percurso histórico até a sua 
consolidação, há que se compreender uma passagem de uma compreensão mais me- 
canicista, normativa, diretiva e coercitiva desse processo de ajuda para o estabeleci- 
mento de uma relação mais próxima de uma escuta clínica na qual o cliente pode ser 
compreendido como um ser humano em construção e em processo de crescimento 
pessoal. Embora a definição de aconselhamento tenha que, muitas vezes, acompanhar 
aspectos das diferentes abordagens nas quais é praticado, o profissional deve estar 
habilitado para dialogar com essa pluralidade, tendo em vista o atendimento profis- 
sional e qualificado a uma pessoa em situação de crise ou de sofrimento, necessitando 
ser ouvida, acolhida, ou mesmo orientada, a depender da situação. 
Há que se considerar que muitos autores apresentam o aconselhamento de 
modo generalista, como uma relação interpessoal que visa a ajudar uma pessoa 
em processo de sofrimento ou de resolução de conflitos. O aconselhamento psi- 
cológico, por sua vez, pode ser compreendido de diferentes formas a partir das 
abordagens existentes. No entanto, essas abordagens não são as principais defi- 
nidoras de como o processo de aconselhamento ocorre, nem mesmo responsáveis 
pela melhoria do cliente ou do maior “sucesso” de um tratamento. Como bem 
destaca Schmidt (2012, p. 15), “[...] a natureza e a qualidade do encontro entre 
aquele que oferece e aquele que busca ajuda psicológica têm maior implicação 
na eficácia da ajuda do que a adoção de uma linha teórica ou a prévia clarificação 
psicodiagnóstica ou psicopatológica”. Assim, mais importante que o viés teórico
Aconselhamento Psicológico 19 
adotado e uma prática estritamente alinhada a uma abordagem, é fundamental 
que os profissionais repensem constantemente as características dos processos de 
aconselhamento dos quais fazem parte, com destaque para o estabelecimento do 
relacionamento entre cliente e profissional. 
A partir do conteúdo deste capítulo, responda às seguintes questões. Lembre-se 
sempre de recorrer ao texto que acabou de ler, mas de pensar em exemplos e possi- 
bilidades a partir das suas experiências como aluno, docente ou profissional da área: 
1) Quais as principais diferenças e semelhanças existentes nos processos 
de aconselhamento realizados no início do século XX e nos disponíveis 
na atualidade? 
2) Quais os elementos presentes na maioria das definições de aconselha- 
mento? 
3) Qual seria a sua definição pessoal de aconselhamento psicológico, a partir 
das definições apresentadas no Capítulo 1 e das suas experiências pessoais?
02 
ABORDAGENS TEÓRICAS EM ACONSELHAMENTO 
PSICOLÓGICO: DA PSICOLOGIA HUMANISTA À 
PSICOLOGIA POSITIVA 
Conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez, E nunca ter visto 
pela primeira vez é só ter ouvido contar. Poemas inconjuntos, Alberto 
Caeiro (Cavalcanti Filho, 2013). 
[...] a consulta psicológica [counseling] eficaz consiste numa relação 
“permissiva, estruturada de uma forma definida que permite ao pa- 
ciente alcançar uma compreensão de si mesmo num grau que o ca- 
pacita a progredir à luz da sua nova orientação (Rogers, 1974, p. 29). 
No campo do aconselhamento psicológico, existem diversas abordagens teóricas 
que oferecem suporte para a prática psicológica. Obviamente que não se trata de 
uma mera distinção em termos de técnica e manejo, mas da adoção de uma visão 
de ser humano, de mundo, de clínica, de filosofia, de psicoterapia e de intervenção 
psicológica. A abordagem adotada na oferta de apoio psicológico reflete o modo 
como o profissional compreende essa relação, contemplando uma visão de mundo e 
de ser humano alinhada às formas de intervir, pesquisar e produzir conhecimento na 
Psicologia. Assim, a menção clara à abordagem psicológica empregada reflete uma 
das características centrais do aconselhamento psicológico, que é o posicionamento 
epistemológico bem definido ao estabelecer a relação de ajuda. No Brasil, observa- 
mos o predomínio das abordagens fenomenológico-existencial e humanista. Esta 
última, com referência aos trabalhos de Carl Rogers, também tem sido conhecida 
por meio da abordagem centrada na pessoa. Esses referenciais têm sido empregados 
tradicionalmente nos estudos e intervenções do Serviço de Aconselhamento Psico- 
lógico do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (Almeida, 2005; Mo- 
rato, 1999; Nunes, 2006), motivo pelo qual são mencionados com maior frequência 
na pós-graduação brasileira (Scorsolini-Comin & Santos, 2013a).
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Abordagens Teóricas em Aconselhamento Psicológico 21 
Obviamente que nosso objetivo não é explorar exaustivamente algumas aborda- 
gens ou apresentar todo o repertório de teorias psicológicas existentes, o que pode 
ser acessado em livros e manuais de psicoterapia ou de Psicologia da Personalidade, 
como o de Feist e Feist (2008). Aqui serão destacadas, em um primeiro momento, a 
abordagem psicanalítica e a comportamental, mostrando posteriormente a assunção 
do humanismo, da linha fenomenológica e existencial e, contemporaneamente, da 
Psicologia Positiva. A priorização da abordagem centrada na pessoa e da Psicologia 
Positiva se justifica por serem essas as perspectivas teóricas que orientaram as inter- 
venções apresentadas nesta obra e que buscam mostrar os desdobramentos do campo 
do aconselhamento psicológico na contemporaneidade. Aqui serão apresentados ape- 
nas os principais elementos de cada abordagem, fundamentais para a compreensão do 
aconselhamento psicológico em cada uma dessas perspectivas ou, em outras palavras, 
as teorias do aconselhamento (Stefflre & Grant, 1976). 
Abordagem psicanalítica 
A psicanálise é, com certeza, o movimento mais conhecido na Psicologia, haja vis- 
ta que o seu fundador, Sigmund Freud, contribuiu muito para a construção da ciência 
psicológica. Embora a Psicologia como ciência já tivesse sido desenvolvida à época, 
as proposições de Freud fizeram com que a psicanálise, como saber psicológico, fosse 
reconhecida como filosofia da natureza humana, método de investigação da perso- 
nalidade e teoria com adequada fundamentação e rigor. Seus seguidores não apenas 
desenvolveram muitas de suas ideias como trouxeram novas contribuições abarcadas 
sob a égide da psicanálise, de modo que podemos falar, com tranquilidade, em dife- 
rentes psicanálises, a depender de suas diferentes escolas e características específicas, 
mas que guardam aspectos que recuperam essencialmente o modelo proposto por 
Freud, da existência de elementos inconscientes e de estruturação da personalidade 
em id, ego e superego. Os principais autores filiados à psicanálise são, além de Freud: 
Jung, Lacan, Klein, Bion, Winnicott, Fromm, Erikson, Sullivan, Adler, entre outros. A 
leitura desses teóricos e suas diferentes pesquisas podem ampliar significativamente 
os conhecimentos atribuídos à psicanálise, inclusive para a discussão no domínio do 
aconselhamento psicológico.Para Freud (1923), a psicanálise seria, ao mesmo tempo, um procedimento de 
pesquisa dos processos psíquicos inconscientes, um método de tratamento e também 
uma ciência construída a partir desse método. Segundo Fulgencio (2013), ao longo 
de toda a sua obra, Freud também defendeu que a psicanálise deveria ter um lugar 
ao lado das ciências naturais, como a fisica, a química e a biologia. Fulgencio destaca 
a psicanálise como um método de tratamento, o que nos interessa particularmente 
quando destacamos o aconselhamento psicológico. 
Segundo Corey (1983), as maiores contribuições da psicanálise para a área do 
aconselhamento psicológico são: (a) a vida mental pode ser compreendida e podem se 
aplicar insights sobre a natureza humana para aliviar certas formas de sofrimento; (b) 
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22 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO +» Scorsolini-Comin 
o comportamento humano é organizado por meio de elementos inconscientes;! (c) 
as primeiras relações, ou a vida infantil, possui em grande importância na vida adul- 
ta; (d) oferece recursos para investigarmos os processos inconscientes; (e) apresenta 
uma visão de natureza humana essencialmente determinista, na qual o ser humano é 
determinado por forças irracionais, instintos, pulsões e eventos psicossexuais, estes 
mais marcadamente ligados aos primeiros anos de vida. 
Ainda para Corey (1983), o aconselhamento que tenha por base a psicanálise 
deve se atentar para o modelo de desenvolvimento subjacente a essa teoria, o que 
significa compreender, a partir do relato do cliente, de que modo foram construi- 
das em sua personalidade as ideias de amar e confiar, elaboração de afetos, lidar 
com sentimentos negativos e desenvolvimento de uma aceitação positiva da se- 
xualidade, com foco nos primeiros anos de vida. O objetivo da psicoterapia seria a 
reformulação da estrutura de caráter, tornando consciente aquilo que está incons- 
ciente. Entre as técnicas e procedimentos terapêuticos utilizados nesta abordagem 
estão a associação livre, a interpretação, a análise dos sonhos, das resistências e 
da transferência. A análise das primeiras experiências forneceria indícios para a 
compreensão das dificuldades enfrentadas no presente, dando ênfase à dimensão 
afetiva da descoberta do inconsciente. 
No entanto, há que se reconhecer que o método apresenta dificuldades de ser 
transposto para o contexto do aconselhamento, geralmente em tempo abreviado e 
com foco na resolução de um problema ou de um conflito situacional. Em que pese 
essa ressalva, alguns elementos psicanalíticos podem ser utilizados para refletirmos 
sobre o próprio processo de mudança (Zanuzzi, Santeiro, & Scorsolini-Comin, 2014). 
O emprego da interpretação, por exemplo, deve ser oportuno, a ffm de que possa 
surtir os efeitos desejados — entre eles a mudança no processo terapêutico. Manejar 
essas técnicas no contexto específico do aconselhamento pode ser complexo para o 
terapeuta, mas garante o olhar psicanalítico para a natureza humana. De que modo 
essa interpretação pode ser feita? Em que momento do processo? Com qual objetivo? 
É importante que o terapeuta conheça profundamente não apenas a sua teoria nortea- 
dora como também os pressupostos da relação de ajuda no aconselhamento, a fim de 
realizar os ajustes necessários — em termos de tempo e técnicas — para que os objetivos 
do processo de aconselhamento sejam mantidos. 
Um dos objetivos centrais do aconselhamento é melhorar a habilidade do cliente 
de comunicar-se com os outros e reduzir a desigualdade no desenvolvimento passado 
da comunicação verbal e não verbal (King & Bennington, 1976), sendo necessário 
que o cliente modifique modos de ajustamento habituais que sejam complexos e in- 
satisfatórios. Como método, a psicanálise pressupõe uma determinada organização, 
por exemplo, em sessões prolongadas ao longo do tempo, o que não poderia ocorrer 
| O inconsciente armazena experiências, recordações e material reprimido, necessidades e motivações 
inacessíveis, que residem fora da consciência e que só podem ser acessados por meio da análise de so- 
nhos, resistências e transierências, 
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Abordagens Teóricas em Aconselhamento Psicológico 23 
na modalidade do aconselhamento. No entanto, segundo esses mesmos autores, a 
psicanálise pode oferecer um quadro de referência para a avaliação do comportamento 
e da estrutura da personalidade do cliente, podendo ser útil não apenas no contexto 
clínico, mas também em ambientes educacionais e da saúde, por exemplo. 
No espaço geralmente breve do aconselhamento ou mesmo do plantão, não se 
pode empregar o método psicanalítico clássico, de um mergulho profundo nos me- 
canismos inconscientes do paciente e na sua estrutura de personalidade. No entan- 
to, abrindo-se espaço para a análise de alguns elementos inconscientes é possível 
clarificar para o paciente algumas características de sua personalidade que podem 
estar envolvidas na sua queixa, ampliando a compreensão do paciente acerca do seu 
quadro. Mesmo não aplicando técnicas psicanaliíticas específicas, o terapeuta pode 
eleger a psicanálise como quadro de referência ou um norteador teórico para suas 
reflexões sobre cada caso. 
A psicanálise é muito mais uma abordagem do tipo compreensão 
para o aconselhamento e como tal presume que o conhecimento 
progressivo da própria dinâmica de cada um aumentará a capaci- 
dade do indivíduo para mudar em direção a um estilo de vida mais 
produtivo e mais espontâneo (King & Bennington, 1976, p. 162). 
No entanto, muitas das ideias trazidas por Freud têm sido desenvolvidas tendo 
por base os elementos contemporâneos de nossa sociedade e cultura. Um desses au- 
tores é Donald Woods Winnicott, segundo o qual o ser humano se desenvolveria a 
partir de um processo de amadurecimento e de crescimento emocional que se daria 
em fases que se sucederiam do nascimento até a morte. Nesses estádios do desenvol- 
vimento, que poderiam se alternar ao longo de toda a vida, é que o sujeito se cons- 
tituiria, em uma tendência à integração do ser (Winnicott, 2000). Assim, este autor 
compreende a existência de uma tendência inata ao amadurecimento e à integração 
em um todo unitário. Haveria, desse modo, uma tendência inata em direção ao de- 
senvolvimento, à integração e à independência que, para ser atualizada, dependeria 
de condições sociais e do mundo externo. Trata-se de uma visão não determinista, ou 
seja, o ser humano estaria imerso em um vir-a-ser incompleto e aberto. Também na 
perspectiva winnicottiana, a relação com o ambiente e as figuras facilitadoras pode 
favorecer a reorganização da personalidade e o exercício de novas formas de pensar e 
agir, o que pode ser considerado no processo de aconselhamento. 
Pierre Benghozi (2010) é outro autor filiado à psicanálise na contemporaneidade, 
chamada especificamente de psicanálise dos vínculos sociais. Em sua concepção, o 
Vínculo? é considerado a base da transmissão psíquica e, para explicar como ocorre 
* Para Benghozi (2010), este Vínculo deve ser grafado com “v” maiúsculo, 
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24 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO +» Scorsolini-Comin 
esse processo de uma geração a outra, emprega a metáfora de uma rede. Nesta, a ma- 
lhagem seria a disposição dos Vínculos, constituída por um conjunto que liga vínculos 
de filiação e de afiliação. A malhagem seria, portanto, um conjunto de malhas que 
definiria um continente psíquico. A malhagem é o trabalho psíquico de construção- 
desconstrução e de organização dos Vínculos. Os vínculos de filiação remontam aos 
ascendentes e conduzem aos descendentes, uma vez que correspondem aos vínculos 
grupais de pertencimento dentro de uma mesma família (Scorsolini-Comin, 2012). 
O que deve ser destacado na tese de Benghozi (2010) é a possibilidade sempre 
aberta de que ocorra a remalhagem, ou seja, a reconstrução da rede de Vínculos de 
filiação e de afiliação, que poderiam se dar por meio do conceito de resiliência familiar, 
ou seja, os processos de mudança. Na prática e de modo mais didático, a concepção de 
Benghozi nos chama a atenção para a possibilidade de que, no processo de desenvolvi- 
mento e a partir das diferentes relações interpessoais que estabelecemos ao longo do 
tempo, podem ser retrabalhadas as vinculações iniciais consideradas insatisfatórias 
ou traumáticas, apresentando uma visão menos determinista de ser humano, se a 
compararmos às primeiras postulações de Freud. Benghozi (1999) confere destaque 
ao vínculos de afiliação, por exemplo, advindos do casamento, sendo este um evento 
que mostra a criação de novos vínculos, podendo ocorrer uma remalhagem, ou seja, 
a modificação de vínculos iniciais considerados negativos advindos das famílias de 
origem dos parceiros. O traumático poderia encontrar nas relações interpessoais da 
vida adulta uma possibilidade de se remalhar, de se tornar uma experiência menos 
negativa ou até mesmo positiva, a depender da qualidade j 
experienciados posteriormente. 
Assim, pode-se afirmar que a psicanálise - ou as psicanálises — apresenta modelos 
de ser humano que podem irromper em determinadas técnicas aplicadas ao contexto 
do aconselhamento, embora sejam necessários ajustes de diversas ordens para que a 
abordagem seja, de fato, um guia teórico e metodológico para o terapeuta. As leituras 
mais contemporâneas, no entanto, já trazem uma possibilidade mais concreta dessa 
apropriação, haja vista que permitem a compreensão de que a psicanálise não se trata 
de uma teoria determinista e hermética, mas aberta a releituras que mostrem, por 
exemplo, as mudanças que incidem sobre os vínculos no processo de desenvolvimen- 
to e a sua aplicação em contextos diversos, como em unidades básicas de saúde e em 
diversos equipamentos institucionais, promovendo a necessidade de que o saber psi- 
canalítico se flexibilize para atender às demandas contemporâneas. Essa flexibilidade 
é um dos pressupostos mais importantes do aconselhamento psicológico. 
Abordagem comportamental 
A abordagem comportamental interessa-se pelo modo como o ser humano vive e 
se comporta. Acreditava que a Psicologia só poderia ser uma ciência, sendo confiável, 
se sua área se limitasse apenas ao estudo do comportamento observável, mensurável, 
factível de ser comprovado, a exemplo das ciências naturais, como a física, a química e a 
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biologia. Em termos das suas principais distinções em relação a outras abordagens, po- 
de-se destacar a importância de focalizar o comportamento manifesto e específico para 
que se possam definir os objetivos de um tratamento, os procedimentos necessários e, 
posteriormente, a avaliação da intervenção, a fim de que se ateste a eficácia da proposta 
ou sejam promovidos ajustes nos procedimentos anteriormente empregados. 
Em contraposição ao movimento psicanalítico, os comportamentalistas não es- 
tão interessados em processos inconscientes ou em determinações do ego, mas fun- 
damentalmente na observação e modificação do comportamento. Entre seus princi- 
pais expoentes, temos: Wolpe, Eysenck, Salter, Skinner, Thorndike, Watson e Pavlov. 
Watson foi o fundador desse movimento na Psicologia, definindo-o como a ciência do 
comportamento, sendo um ramo objetivo é experimental das ciências naturais. Nessa 
concepção, os seres humanos são essencialmente modelados e determinados por seu 
meio sociocultural (Corey, 1983), de modo que as técnicas empregadas na investiga- 
ção do comportamento estão sendo continuamente aperfeiçoadas e seus resultados 
submetidos à experimentação continua. 
A entrada desse movimento no cenário terapêutico trouxe importantes incremen- 
tos à oferta profissional de ajuda psicológica, haja vista o papel central da análise do 
comportamento na promoção de comportamentos considerados mais adaptativos e, 
nesse sentido, fundamentais às mudanças apregoadas no processo de aconselhamen- 
to. O foco passou a ser em como o conselheiro ou terapeuta poderia ajudar o cliente 
a clarificar os objetivos do aconselhamento e, a partir desse momento, definir quais 
comportamentos seriam mais adaptativos e promotores de desenvolvimento, favore- 
cendo a construção de um plano de ação voltado para a modificação de comportamen- 
tos, de promoção de mudança no processo terapêutico. Ao contrário da psicanálise, 
o exame das necessidades e objetivos trazidos pelo cliente não devem ser acessados 
por meio de um longo processo de análise, mas a partir do redimensionamento dessa 
demanda para objetivos claros e precisos, mensuráveis e observáveis no curto prazo, 
passíveis de compreensão e tratamento com técnicas específicas dessa abordagem. 
A abordagem comportamental interessa-se pelas interações entre emoções, pen- 
samentos, comportamento e estados fisiológicos, com destaque para o papel do 
ambiente nessas interações. Caracteriza-se por postular a não existência da mente 
e tem uma concepção monista* do ser humano. O comportamento é um construto 
básico dessa corrente teórica, tendo alguns princípios, como a tendência a se repe- 
tir, se for recompensado (reforço positivo) ou se for capaz de eliminar um estímulo 
aversivo (reforço negativo). Pode também não se repetir mais, ou se extinguir, se 
for castigado (punição) após sua ocorrência. Pela lei do reforço, o ser humano irá 
ser condicionado/aprenderá essas leis e irá generalizá-las para outras situações, ou 
seja, para contextos mais amplos. 
* O monismo defende a identidade entre mente e corpo por oposição ao dualismo ou ao pluralismo, à 
afirmação de realidades separadas.
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Esta abordagem enfatiza o comportamento operacionalmente definido, observá- 
vel e mensurável. O foco terapêutico está no comportamento expresso, que, sendo 
identificado, pode ser modificado. Assim, a mudança terapêutica, fundamental para 
a psicoterapia e para o aconselhamento, deve ser apreendida tendo por referência o 
comportamento e o contexto de contingências de cada pessoa. Esses comportamentos 
podemser aprendidos, de modo que a situação terapêutica pode ser organizada a fim 
de favorecer essa mudança. Segundo Corey (1983), as intervenções em aconselha- 
mento devem possibilitar a criação de novas condições para a aprendizagem, ou seja, 
permitir experiências de aprendizagem até que as respostas apropriadas sejam apren- 
didas. Desse modo, a psicoterapia comportamental 
[...] dirige-se para metas de aquisição de novos comportamentos, 
eliminando o comportamento inadaptado, reforçando e mantendo 
o comportamento desejável. A afirmação precisa dos objetivos do 
tratamento é exigida. Não se aceita a afirmação genérica de um 
objetivo; o cliente, pelo contrário, tenta declarar em termos con- 
cretos os tipos de comportamento problemático cuja modificação 
deseja. Depois de elaborar objetivos precisos de tratamento, o te- 
rapeuta precisa escolher o(s) procedimento(s) mais apropriado(s) 
para a consecução destes objetivos (Corey, 1983, p. 153). 
A partir dessas considerações, fundamental no processo de aconselhamento de 
base comportamental é a correta clarificação da queixa do cliente, de modo que as me- 
tas trazidas devem ser expressas de modo objetivo, observável, a fim de que possam 
ser tratadas ao longo do processo terapêutico, favorecendo um planejamento. Assim, 
as motivações para o aconselhamento devem ser expressas em termos de demandas 
específicas, como aprender determinado aspecto, eliminar algum comportamento ou 
ajustar-se de modo satisfatório a determinada condição ou situação. 
O pressuposto básico é que o comportamento é uma função de seus precedentes 
e, em consequência, o comportamento é regido por leis, sendo que todo comporta- 
mento humano pode ser aprendido. O pressuposto de que o comportamento pode ser 
modificado, entre outros, pela aprendizagem, é um dos pontos centrais do processo 
de aconselhamento de base comportamental. Como destaca Corey (1983), o “objetivo 
geral da terapia comportamental é criar novas condições para a aprendizagem”. Há 
que se tecer algumas considerações acerca de um conceito chave nessa discussão, que 
é o de aprendizagem. Embora diferentes tradições epistemológicas possam inaugurar 
diversas formas de se delimitar o conceito de aprendizagem, algumas definições são 
mais compartilhadas nas publicações cientificas. Entre as abordagens mais tradicio- 
nais estão a comportamental, a do processamento da informação e a cognitiva, esta 
última podendo ser subdividida em sociocognitiva, do processamento cognitivo da 
informação, cognitivo construtivista e socioconstrutivista. Obviamente que a adoção
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de uma ou outra definição de aprendizagem direciona os estudos para determinadas 
concepções de saber e também de prática. 
Em termos gerais, a aprendizagem pode ser conceituada como “toda mudança re- 
lativamente permanente no potencial de comportamento, que resulta da experiência, 
mas que não é causada pelo cansaço, maturação, drogas, lesões ou doença” (Lefran- 
çois, 2008, p. 6). Assim, não pode ser definida pelas mudanças reais ou potenciais no 
comportamento, mas pelo que acontece no organismo como resultado da experiência, 
de modo que as mudanças comportamentais são evidências de que a aprendizagem 
ocorreu. Uma definição semelhante é oferecida por Santrock (2009), que destaca que 
a aprendizagem é “uma influência relativamente permanente no comportamento, co- 
nhecimento e no raciocínio, adquirida por meio da experiência” (p. 227). Dessa for- 
ma, tais definições destacam os processos de mudança relativamente permanentes ao 
longo do tempo, bem como o impacto das experiências. 
Atento aos processos de aprendizagem, o terapeuta que utiliza a abordagem com- 
portamental deve 
assumir um papel ativo e diretivo no tratamento, pois aplica co- 
nhecimentos científicos à descoberta de soluções para os proble- 
mas humanos. Funciona tipicamente como um professor, diretor 
e especialista no diagnóstico de comportamentos não adaptati- 
vos e na prescrição de procedimentos curativos que, como é es- 
perado, conduzirão a novos e melhores comportamentos. [...] o 
envolvimento do cliente no processo terapêutico deveria ser en- 
tendido como sendo mais ativo [...]. Sem dúvida, o cliente preci- 
sa estar ativamente engajado na seleção e determinação de obje- 
tivos, deve possuir motivação para a mudança e desejar cooperar 
na condução das atividades terapêuticas, tanto durante as ses- 
sões de terapia quanto fora da terapia, nas situações da vida real 
(Corey, 1983, p. 157-159). 
Isso significa um foco grande na relação entre cliente e terapeuta, de modo que 
ambos precisam se engajar para a promoção da mudança. Quando destaca a impor- 
tância do cliente no processo, Corey nada mais quer dizer que o controle do compor- 
tamento e sua modelagem em função das melhores aprendizagens deve ocorrer com 
a clarificação desse objetivo junto ao cliente. Trata-se, por fim, de uma abordagem 
adequada aos pressupostos do aconselhamento psicológico, notadamente quando de- 
senvolvido em programas de tratamento que possuem regras e modelos que devem 
ser respeitados, a exemplo dos modelos de apoio psicológico existentes em hospitais, 
centros de saúde e mesmo em escolas, muitos deles com duração predeterminada. 
Em alguns programas, as intervenções em aconselhamento devem ocorrer visan- 
do a um melhor ajustamento ou adaptação do indivíduo a uma rotina de estudos ou
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de administração de medicamentos e tratamentos específicos, de modo que a objeti- 
vidade dessas intervenções, aliada à necessidade constante de aprendizagem, possam 
promover mudanças significativas a ser generalizadas, inclusive, para outros contex- 
tos. À abordagem comportamental pode ser redimensionada para um processo menos 
prolongado, possuindo resultados promissores em diversas intervenções. 
Destaca-se a possibilidade de oferta de informações no processo de aconselha- 
mento psicológico como forma de favorecer a aprendizagem de comportamentos ne- 
cessários para a melhor adaptação do indivíduo, reduzindo a ansiedade, o estresse e 
os comportamentos considerados desadaptativos. Nesse sentido, em uma situação de 
adoecimento, por exemplo, pode ser importante que a pessoa seja acolhida em termos 
das repercussões emocionais da doença, mas que também possa aprender a manejar 
determinados comportamentos que promovam não apenas um maior enfrentamento, 
mas também um maior bem-estar. Receber informações sobre a doença e participar de 
treinamentos específicos podem compor o repertório de um processo de aconselha- 
mento de base comportamental. A maior diretividade não se refere, necessariamente, 
à maior intervenção do conselheiro, mas ao papel decisivo desse profissional na cla- 
rificação dos comportamentos desejáveis e daqueles que devem ser modificados no 
processo de atenção psicológica. 
Abordagem humanista 
Em linhas gerais, pode-se dizer que o movimento conhecido como Psicologia hu- 
manista surgiu na década de 1940, sendo popularmente reconhecido como a “terceira 
força” na área da Psicologia, justamente por seus pressupostos fazerem oposição aos 
dois modelos mais tradicionais até então, notadamente até a década de 1920, a psica- 
nálise e a Psicologia comportamental,considerados deterministas. O foco da Psicolo- 
gia humanista está nas capacidades humanas, em oposição ao comportamentalismo, 
também opondo-se à psicanálise por rejeitar a ideia de ser humano como animal 
assolado por necessidades instintivas de prazer e agressão. O ser humano estaria em 
constante busca pela realização e construção de si mesmo, tendo que fazer uso de seus 
recursos para desenvolver plenamente seu potencial (Boccalandro, 2006). 
O humanismo, por sua vez, constitui um movimento muito mais amplo, não in- 
cidente apenas sobre a Psicologia, mas que possui ramificações em diferentes ciên- 
cias. À Psicologia humanista pauta-se no engajamento em favor da mudança social e 
cultural, em direção a uma sociedade de valores mais humanos, menos controladora, 
mais atenta às necessidades intrinsecas de autorrealização, considerada a meta mais 
elevada do ser humano. Entre seus principais expoentes estão: Rogers, Maslow, May, 
Frankl e Jourard. Em uma exploração histórica da Psicologia humanista, Gomes, Ho- 
landa e Gauer (2010) assim caracterizam este movimento: 
O humanismo não é uma teoria, não é um método, não é uma 
filosofia, e nem é uma psicologia. E um movimento implícito na 
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historicidade das ideias que aflora com maior ou menor intensi- 
dade de tempos em tempos. Enquanto mensagem, alcança uma 
variedade de grupos, dos mais diferentes modos, em função de 
um estado de opressão individual e social. Enquanto força de 
mobilização, pode estar na base da busca individual por mudan- 
ça de sentido de vida, ou na mobilização de grandes massas por 
justiça e reformas sociais. Os humanismos têm em comum a ên- 
fase no valor da individualidade. O humanismo individual, mais 
claramente identificado com o que se reconhece como psicolo- 
gia humanista, tem como meta a promoção de revoluções indivi- 
duais, isto é, o rompimento com um estilo de vida e com uma 
maneira de pensar (paginação irregular). 
Esses mesmos autores, ao recuperarem o estudo de Shaffer (1978), destacam as 
principais características da Psicologia humanista: (a) o ponto de partida é a experiên- 
cia consciente, alinhando-se com a fenomenologia e o existencialismo; (b) o ser hu- 
mano é abordado em sua totalidade e integridade; (c) a condição humana é limitada 
pela imbricação eu-corpo/outro/mundo, mas nem por isso destituída de liberdade e 
autonomia; (d) apresenta uma metodologia antirreducionista; (d) possui uma ética 
fundamentada na abertura para a experiência, na possibilidade de escolha e na exequi- 
bilidade da redefinição do sentido de vida. 
Nesta abordagem, as relações interpessoais são consideradas formas de expressão 
da criatividade, de nossos aspectos constitutivos e de estabelecimento de relações 
autênticas, prazerosas, que envolvam grande satisfação pessoal. Destaca-se o compro- 
misso com o bem-estar e com o potencial humano de crescimento e autorrealização, 
com referência a termos como potencialidades, autonomia, valores, criatividade, au- 
tenticidade, congruência, empatia, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liber- 
dade, responsabilidades e consciência. Como afirmado por Rogers, trata-se de desen- 
volver uma profunda confiança no ser humano, em seu potencial para o crescimento, 
em sua busca para a realização pessoal, rejeitando a noção de tendências negativas 
básicas do ser humano (Corey, 1983). 
O humanismo propõe uma ruptura com os modelos deterministas que vigoravam 
até então, de que o meio, as pessoas, os comportamentos ou as primeiras experiên- 
cias de vida seriam as balizadoras dos eventos futuros na vida do indivíduo, vendo-o 
como um ser em construção, mas que muito pouco poderia fazer para romper com 
as determinações existentes desde o seu nascimento e desenvolvimento. Assim, na 
proposta humanista, as decisões humanas não podem ser determinadas por causas 
identificáveis e manipuláveis, mas pelo pressuposto da autonomia, ou seja, 
O ser humano tem algum poder sobre as determinações que o 
afetam, e esse poder é, na verdade, mais relevante para o desen- 
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volvimento do que aquelas determinações. O trabalho psicológico 
consiste fundamentalmente em oferecer um contexto dialógico no 
qual a liberação desse poder seja promovida. Aposta-se na autono- 
mia crescente da pessoa e na fecundidade da relação inter-huma- 
na. À autonomia é entendida como a capacidade que o ser humano 
tem de orientar sua própria vida de forma positiva para si mesmo 
e para a coletividade (Amatuzzi, 2012, p. 17-18). 
Decorrente dessa afirmação, os atendimentos psicológicos se baseiam na ten- 
dência inata ao crescimento e ao desenvolvimento, de modo que o cenário terapéu- 
tico tem como função possibilitar ao cliente a realização dessa tendência, sendo o 
terapeuta um facilitador desse processo. A ruptura humanista, desse modo, pode 
ser compreendida a partir da passagem dos pressupostos deterministas, de que o ser 
humano é visto como resultado ou efeito de causas anteriores, para o pressuposto 
de que o ser humano é livre e causa de suas ações. Assim, não é determinado, mas 
sim determina suas escolhas e orientações por meio do estabelecimento de relações 
compreensivas, valorizadoras e honestas, visando sempre a uma autonomia crescen- 
te (Amatuzzi, 2012). 
No que se refere especificamente ao aconselhamento psicológico, Corey (1983) 
destaca que o foco do humanismo reside na natureza da condição humana, sendo o 
ser humano capaz de se autorrealizar, possuindo liberdade de escolha para decidir 
sobre seu próprio destino. À partir de uma visão positiva de ser humano, pode-se 
afirmar que este tende a atingir um funcionamento pleno desde que atualize cons- 
tantemente o seu potencial, ampliando a sua consciência e confiança em si mesmo. 
O processo de crescimento pessoal atualizado no aconselhamento psicológico destaca 
um ser humano em constante busca por aprimoramento, necessitando de um espaço 
para a instilação de esperança e para o reconhecimento das potencialidades desse 
cliente, não apresentando o aconselhamento ou a psicoterapia como necessidades, 
mas como possibilidades de atenção. 
Amatuzzi (2012) destaca que Carl Rogers propôs afirmações paradoxais justamente 
por questionarem a real função do psicólogo no processo de ajuda, ou seja, no aconse- 
lhamento devemos abandonar a ideia de que o saber psicológico é fundamental, de modo 
que o psicodiagnóstico é uma técnica contraproducente para gerar o crescimento do in- 
dividuo e que os procedimentos padronizados, entre eles os diagnósticos, são estratégias 
pré-fabricadas. Ao mesmo tempo, deve creditar ao cliente a real capacidade de promover 
mudanças, buscar o crescimento e a autonomia para dizer quando um tratamento deve 
ser encerrado. Ao destacar esses aspectos, obviamente se distancia de outros saberes 
justamente por colocar o terapeuta em uma posição de relação com o cliente - o tera- 
peuta só é em relação com esse cliente, que o constitui e dá sentido ao seu saber. Isso 
não significa um apagamento da figura do conselheiro, mas um reajustamento de suas 
atribuições e do modo como estas são abordadasno processo terapêutico.
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O aconselhamento de base humanista não se daria exclusivamente pela espon- 
taneidade das relações ou de modo aleatório, mas atento ao ser humano em suas 
potencialidades e capacidades que devem ser exploradas no aconselhamento. Para 
Corey (1983), a terapia centrada no cliente (posteriormente ampliada para abor- 
dagem centrada na pessoa) adota uma visão positiva de homem, que possui uma 
inclinação a atingir um funcionamento pleno. Ao longo do processo terapêutico, 
ainda para este autor, o cliente vivencia sentimentos outrora negados à consciência. 
A partir disso, atualiza seu potencial e mobiliza-se para ampliar a consciência, a 
espontaneidade e a confiança em si mesmo. 
Como um dos principais expoentes da Psicologia humanista, a abordagem centra- 
da na pessoa, termo esse cunhado nos últimos escritos de Rogers (1977), é, segundo 
seus estudiosos, a expressão que melhor descreve sua própria atuação em substitui- 
ção a outras denominações anteriores: aconselhamento não diretivo, terapia centrada 
no cliente, ensino centrado no aluno, liderança centrada no grupo (Almeida, 2009). 
Assim, a abordagem centrada na pessoa seria uma expressão mais ampla e destacaria 
as ideias de Rogers aplicadas não apenas à psicoterapia com adultos (como na terapia 
centrada no cliente), mas a outras áreas e contextos. Em suas próprias palavras, essa 
mudança de nomenclatura atesta que “não estou mais falando somente sobre psicote- 
rapia, mas sobre um ponto de vista, uma filosofia, um modo de ver a vida, um modo 
de ser, que se aplica a qualquer situação onde o crescimento - de uma pessoa, de um 
grupo, de uma comunidade - faça parte dos objetivos” (Rogers, 2012, p. X). 
A hipótese orientadora de todas essas propostas é a de que o individuo tem, “den- 
tro de si, vastos recursos para a autocompreensão, para alterar seu autoconceito, sua 
atitude e seu comportamento, e que tais recursos podem ser liberados quando se con- 
ta com determinado clima psicológico” (Almeida, 2009, p. 180). Esse clima psicológi- 
co seria determinado, entre outros, pelo estabelecimento das três condições básicas e 
necessárias para promover a mudança no processo terapêutico, ou seja: autenticidade 
ou congruência, consideração positiva incondicional pelo outro e postura empática. 
Essas características serão discutidas e aprofundadas ao longo do livro. Assim, a abor- 
dagem centrada na pessoa pode ser resumida desse modo: 
Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a auto- 
compreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas 
atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos po- 
dem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de ati- 
tudes psicológicas facilitadoras (Rogers, 2012, p. 38). 
Assim, em termos especificos do aconselhamento, o humanismo recupera a ne- 
cessidade de que o terapeuta permita (ou facilite) ao cliente trazer à consciência os 
aspectos até então escamoteados, a fim de que possa se sentir mais livre e autônomo 
para fazer suas próprias escolhas. Confia-se na capacidade do ser humano de buscar o 
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seu crescimento, sendo o terapeuta um facilitador desse processo a partir de atitudes 
como a confiança naquele cliente e em seu potencial de transformação. 
Abordagem fenomenológico-existencial 
A abordagem fenomenológico-existencial articula o método fenomenológico de 
Husserl e compreende o existir com base na filosofia existencial, evocando os pensa- 
mentos de Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty. A reação da fenomenologia ao discurso 
positivista e ao intelectualismo ocorre ao considerar que não apenas o conhecimento 
sobre os fenômenos que poderiam ser observados e manipulados empiricamente é 
que seriam válidos, como ocorre nas ciências naturais. Para Husserl, os fenômenos 
humanos podem ser abordados de maneira direta, exatamente como se apresentam 
à experiência da consciência. Assim, poderíamos atingir a sua essência e seus signi- 
ficados. Torna-se importante conhecer o mundo não a partir de evidências atribuídas 
ou observadas por outrem, mas sim o modo como este mesmo mundo é compreen- 
dido, percebido e significado por cada um (Dartigues, 2005). Para Heidegger (1972), 
o homem é um ser que precisa cuidar de si e que “oscila entre a possibilidade de se 
diluir na continuidade ou se aproximar de sua condição de humano” (Frota & Mora- 
to, 2012). Enquanto a primeira possibilidade é mais comum em nosso cotidiano, a 
segunda envolve sentimentos de dor, medo, angústia, implicando a questão da tem- 
poralidade, da criatividade e disponibilidade interna. 
A fenomenologia busca o fenômeno, que é aquilo que se mostra. Isso abarca 
três aspectos: existe uma coisa; esta coisa se mostra; e é um fenômeno pelo próprio 
fato de se mostrar. O mostrar-se está relacionado tanto áquilo que se mostra quanto 
âquele a quem é mostrado. Assim, o fenômeno não é meramente um objeto, nem 
diz respeito somente a algo subjetivo; é ao mesmo tempo um objeto que se refere 
ao sujeito e um sujeito relativo ao objeto. O fenômeno não é produzido pelo sujeito, 
nem confirmado ou provado por ele. Sua essência consiste em se mostrar a alguém. 
No momento em que esse alguém começa a falar do que se mostra, tem-se a feno- 
menologia (Scorsolini-Comin, Nedel, & Santos, 2011). 
Com relação ao alguém a quem o fenômeno se mostra, este (o fenômeno) com- 
porta três características fenomênicas sobrepostas: ele é (relativamente) oculto; ele se 
revela progressivamente; ele é (relativamente) transparente. Essas fases sobrepostas 
estão correlacionadas às etapas da vida: experiência vivida, compreensão e testemu- 
nho. O trabalho da fenomenologia consiste nessas duas últimas relações. A experiên- 
cia vivida diz respeito à vida presente juntamente com sua significação, formando 
uma unidade. A vida enquanto tal é inapreensível e, no momento em que nossa aten- 
ção se volta para ela, já desapareceu. Revela-se, assim, a necessidade de uma busca 
pela experiência de alguma coisa.
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A fenomenologia observa a epoché,* e sua compreensão do que aconteceu depende 
sempre de um “colocar entre parênteses”. A fenomenologia se ocupa exclusivamente 
de fenômenos, quer dizer, daquilo que se mostra; para ela não há nada “por trás” do 
fenômeno. Husserl relaciona o conhecimento das ideias a uma redução fenomeno- 
lógica, ou seja, a uma “inserção entre parênteses” do coeficiente de existência das 
coisas do mundo, para buscar a sua essência. À fenomenologia é uma atividade viva 
autenticamente humana, que consiste em se colocar com compreensão ao lado do que 
se mostra e observá-lo. 
É importante ressaltar que além da compreensão, tem-se também a descrição. 
Husserl possibilitou uma nova postura para inquirir os fenômenos psicológicos, pro- 
curando interrogar as experiências vividas (parte-se do vivido) e os significados que 
o sujeito lhes atribui, sem priorizar o sujeito e/ou o objeto, e sim centrando-se na re- 
lação sujeito-objeto-mundo. Buscando essasexperiências vividas é que encontramos 
o processo de aconselhamento psicológico. O aconselhamento nessa perspectiva deve 
possibilitar, então, que a pessoa entre em contato com o seu vivido a partir de suas 
próprias vivências, a partir do modo como percebe essas experiências. Nada pode ser 
construído a priori, e sim a partir dessas vivências. 
O existencialismo compreende a existência como modo de ser do homem no 
mundo, superando a mera interpretação dos modos como o ser humano relaciona- 
se com o mundo e atentando para o modo como o mundo se apresenta ao homem, 
permitindo-lhe diversas possibilidades. Essa relação homem-mundo é fundante no 
existencialismo (Ewald, 2008). Observamos, contemporaneamente, a união de pen- 
sadores e pesquisadores que trabalham com a fenomenologia e o existencialismo, 
colocando em destaque a relevância e a extensão dessas perspectivas para a Psicolo- 
gia e também para o aconselhamento psicológico, que irá se constituir em meio aos 
pressupostos dessas duas correntes, notadamente no contexto nacional (Almeida, 
2005; Ewald, 2008; Schmidt, 2012). 
Forghieri (2007) utiliza a expressão aconselhamento terapêutico para se referir a 
esse processo (aconselhamento psicológico), que teria como uma de suas finalidades 
(para o cliente) o desenvolvimento da sua “própria liberdade para se confrontar com 
suas dificuldades do momento e procurar resolvê-las ou ultrapassá-las, ajudado ini- 
cialmente pela presença do aconselhador” (p. 1). Todas as experiências do cliente são 
importantes nesse processo. Assim, pelo viés fenomenológico-existencial, o cliente, 
juntamente com o conselheiro, deveria “procurar o sentido ou o significado da vivên- 
cia para a pessoa em determinadas situações, por ela experimentadas em seu existir 
cotidiano” (Forghieri, 1993, p. 59). Chegar-se-ia, dessa forma, à investigação da per- 
sonalidade a partir da percepção que a pessoa tem sobre o seu existir no mundo. Assim, 
não caberiam generalizações sobre comportamentos e formas de ser no mundo, haja 
+ Refere-se à tentativa de suspender os juízos e julgamentos sobre determinado fenômeno ao buscar 
por aquilo que pertence essencial e necessariamente a ele.
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vista que cada pessoa apresenta uma miriade de vivências e possibilidades, cabendo 
ao terapeuta acompanhá-la nesse processo de descoberta ou de descortinamento de 
vivências importantes para a compreensão do seu existir. 
Um dos conceitos empregados nesta abordagem é o de saúde existencial. Para 
Forghieri (2007), consiste no bem-estar geral que cada um experiencia ao longo da 
vida, caracterizado pelas vivências de liberdade, acolhimento e sintonia em relação 
a si, às outras pessoas e ao mundo. O conceito oposto refere-se ao estado de adoe- 
cimento existencial, que se fundamenta em sentimentos como os de angústia e de 
impotência, que levariam o sujeito a não conseguir, por si só, modificar-se em direção 
a uma vivência de liberdade, envolvendo a sensação de estagnação. 
Ambos os conceitos — saúde e adoecimento existencial - são experienciados 
por todos nós ao longo do tempo, fazem parte de nossas vivências, de modo que o 
processo terapêutico - que pode se dar, no caso, a partir do encontro terapêutico 
ocorrido no aconselhamento - deve ser capaz de refletir sobre essas vivências, tanto 
de liberdade como de angústia, em busca de um posicionamento mais integrado 
diante das experiências. Esse processo, ainda segundo esta autora, dar-se-ia em dois 
momentos: o envolvimento existencial e o distanciamento reflexivo. No primeiro, 
o terapeuta deve abrir-se ao máximo para a escuta do cliente, suspendendo teorias, 
valores e racionalizações, a fim de compreender o cliente tal como ele se revela. O 
segundo momento promove um maior distanciamento entre terapeuta e cliente para 
que o profissional possa, de fato, compreender a experiência narrada e encontrar 
formas de ajudar a pessoa em sofrimento. 
Abordagem da Psicologia Positiva 
A expressão Psicologia Positiva foi utilizada pela primeira vez por Maslow em 
1954, em seus estudos sobre motivação e personalidade (Snyder & Lopez, 2009). As- 
sim, a Psicologia Positiva possui sua origem na Psicologia humanista, principalmente 
a partir de estudos como os de Maslow e Rogers (1959). A Psicologia Positiva com- 
partilha e resgata conceitos e objetivos propostos na abordagem humanista, sendo 
que as aproximações e os distanciamentos entre essas duas correntes são destacados 
em algumas publicações (Hernandez, 2003; Pacico & Bastianello, 2014; Paludo & 
Koller, 2007; Sollod, 2000; Taylor, 2001). Como destacado por Barros, Martin e Pinto 
(2010), a Psicologia Positiva vai ao encontro da proposta de autorrealização das po- 
tencialidades humanas prevista na Psicologia humanista, preconizando a atividade do 
sujeito orientada para a auto-organização, e relacionando-se também a elementos do 
construtivismo e da Psicologia da saúde (coping, resiliência) 
A partir da década de 1990, a Psicologia Positiva ganhou repercussão mundial 
pelos estudos de muitos pesquisadores, entre eles Martin Seligman, então presi- 
dente da American Psychological Association. A perspectiva da Psicologia Positiva pro- 
põe, basicamente, a modificação do foco da Psicologia de uma reparação das “coisas 
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ruins” da vida e de estudos voltados exclusivamente para a doença mental para a 
construção de qualidades positivas (Delle Fave, 2006; Scorsolini-Comin & Santos, 
2010; Scorsolini-Comin, Fontaine, Koller, & Santos, 2013). 
Com a maior divulgação da área da Psicologia Positiva a partir da década de 
1990, os questionamentos voltados para o desenvolvimento positivo das pessoas 
passaram a se aplicar também aos relacionamentos interpessoais, entre eles o ca- 
samento, enfocado em estudos anteriores (Scorsolini-Comin, 2009, 2012). Em 
termos da saúde, os pesquisadores começavam a investigar não mais por que as 
pessoas adoeciam, mas quais eram os seus recursos para o enfrentamento das 
doenças e como as instituições poderiam trabalhar na linha da promoção da saúde, 
modificando o foco nos mecanismos desadaptativos para uma abordagem centra- 
da nos aspectos positivos (Fredrickson, 2009; Seligman, 2002, 2011; Sheldon & 
King, 2001). Seguindo o mesmo raciocínio de mudança de foco, no contexto da 
conjugalidade, por exemplo, os autores dessa corrente em expansão não mais se 
perguntavam por que as pessoas estavam se divorciando, mas por que, a despeito 
do aumento das taxas de divórcio, mais pessoas buscavam o matrimônio (Diener, 
Gohm, Suh, & Oishi, 2000; Reis & Gable, 2001), em uma nova forma de conceber 
e explorar, por exemplo, os fenômenos casamento e divórcio. 
Em termos terapêuticos, a abordagem da Psicologia Positiva destaca a possibi- 
lidade de prevenção e os aspectos da clinica que valorizam os elementos saudáveis 
do funcionamento daqueles que buscam ajuda (Prati & Koller, 2011). A chamada 
terapia positiva (Seligman, 2002) permitiria tanto recuperar o que está enfraque- 
cido quanto fortalecer o que está forte. A clínica apoiada na Psicologia Positiva 
busca o fortalecimento dos aspectos saudáveis das pessoas, o reconhecimento de 
suas forças pessoais e o acesso a recursos que permitam uma mudança saudável 
(Paludo & Koller, 2007; Prati & Koller, 2011). No atendimento a casais, por exem- 
plo, devem-se fortalecer os fatores de proteção, e os riscos devem ser trabalhados 
para fortalecer as pessoas para os períodos de mudanças e reajustes (Feinberg, 
2002; Prati & Koller, 2011). A partir dessecenário, a Psicologia Positiva, apesar 
de constituir uma abordagem relativamente recente e ainda em desenvolvimento, 
pode ter expressiva atuação nos processos terapêuticos. 
A Psicologia Positiva, ao se debruçar sobre as virtudes e forças humanas como es- 
tratégias responsáveis pelo bem-estar e pelo desenvolvimento positivo, tem proporcio- 
nado a compreensão do ser humano a partir do viés apreciativo, ou seja, de reconhecer 
as potencialidades como estratégias para uma vivência considerada saudável. O foco nas 
estratégias” desenvolvidas pelas pessoas no cotidiano é uma forma de compreender de 
que modo elas constroem recursos para a superação de diversas problemáticas que po- 
dem conduzir o indivíduo a buscar o aconselhamento psicológico. Opta-se por não uti- 
* Estratégias são “ações que têm caráter relacional e não individual” (Garcia, 2004, p. 14), podendo 
modificar-se em função dos atores e/ou do contexto nos quais tais ações se desenvolvem.
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lizar a expressão estratégias de enfrentamento justamente por se partir do pressuposto 
de que o cotidiano não é algo a ser enfrentado e combatido necessariamente, mas sim 
compreendido em termos de suas características, permanências e rupturas ao longo do 
tempo. Nesse sentido, adota-se frequentemente o termo estratégias com referência aos 
seus aspectos relacionais, às ações e aos recursos adotados e/ou desenvolvidos diante 
das situações (problemáticas ou não) observadas no cotidiano. 
A Psicologia Positiva tem composto programas de intervenção clínica em diver- 
sos países, entre eles o Brasil. Desse modo, alguns elementos utilizados na clínica 
a partir dessa abordagem podem compor um modelo de atuação, tendo em vista os 
pressupostos do campo do aconselhamento psicológico, como o estabelecimento de 
uma relação de ajuda, consideração positiva acerca do cliente e adoção de técnicas não 
diretivas. Em suas intervenções, a Psicologia Positiva trabalha com a potencialização 
primária (estabelecer funcionamento e satisfação ótimos) e com a potencialização se- 
cundária (sustentar e construir a partir de funcionamento e satisfação ótimos), o que 
será aprofundado no Capítulo 8, sobre intervenções na área de saúde mental. 
A potencialização primária refere-se ao processo de investimentos/envolvimen- 
to em relações que possam ser satisfatórias e constituir fontes de prazer. Nessa 
categoria destacam-se as relações com o parceiro amoroso, com os familiares, vi- 
zinhos, amigos, redes de apoio, a existência de trabalho gratificante, atividades de 
lazer e apreciação. O enfoque apreciativo envolve pensamentos e ações que visam 
a apreciar e amplificar uma experiência positiva de algum tipo. A apreciação pode 
conduzir a pessoa a experimentar satisfação por esperar a ocorrência de um evento 
vindouro que seja muito positivo, realizar alguma atividade prazerosa ou mesmo 
experimentar sentimentos positivos quando se lembra desses eventos (Bryant & 
Veroff, 2006; Snyder & Lopez, 2009), promovendo a assunção de lembranças de 
experiências potencializadoras do bem-estar. 
À partir dessas aproximações, os aspectos dessa abordagem que podem ser consi- 
derados no aconselhamento psicológico são: 
a) acesso às crenças, percepções e práticas colocadas em ação; 
b) desenvolvimento da capacidade de resiliência (superação de adversi- 
dades frente a um novo evento estressor); 
c) processo terapêutico com vistas à sensação de aumento de força pessoal; 
d) fortalecimento das capacidades e recursos pessoais; 
e) reconhecimento das potencialidades e construção de estratégias para — 
enfrentamento do problema; 
f) responsabilização pelo próprio processo de mudança; 
g) desenvolvimento das forças pessoais e virtudes (por exemplo: sabedo- 
ria, coragem, humanidade, justiça, temperamento e transcendência); 
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h) busca por recursos utilizados na sua história pessoal e familiar; recons- 
trução das expectativas em relação ao futuro (Gillham & Seligman, 
1999; O'Hanlon & Weiner-Davis, 1997; Paludo & Koller, 2007; Prati & 
Koller, 2011; Seligman, 2011; Snyder & Lopez, 2009). 
Assim, pode-se dizer que a Psicologia Positiva compartilha com a Psicologia hu- 
manista um profundo interesse pelo indivíduo, que possui uma tendência inata ao 
crescimento pessoal, buscando a autorrealização a partir de diferentes práticas, em 
uma busca por maior autonomia nas decisões. Desse modo, compreendemos neste 
livro que a Psicologia Positiva se trata de uma derivação do movimento humanista, 
sendo mais propositiva quanto à adoção de procedimentos, tanto na clínica como em 
intervenções em diferentes cenários, fazendo uso de recursos como testes, escalas 
e inventários, o que se distancia um pouco do movimento humanista, que não se 
interessava, detidamente, pela comprovação de suas ideias a partir da realização de 
pesquisas científicas (Paludo & Koller, 2007), embora devamos considerar um for- 
te investimento de Rogers e seus seguidores no sentido de avaliar, por exemplo, a 
efetividade da adoção das atitudes facilitadoras em diferentes contextos, como na 
psicoterapia e na educação. Assim, ao resgatarmos as origens da Psicologia Positiva, 
podemos nos lançar na tarefa de compreender o humano a partir de um profundo 
investimento no modo como este pode construir sua própria vida se lhe for garantida 
a possibilidade de escolher, a liberdade para ser e a autonomia para direcionar-se em 
relação aos seus interesses e potencialidades. 
Para resumir e ampliar 
Neste capítulo, conhecemos algumas das principais abordagens para a prática do 
aconselhamento psicológico. Os movimentos mais tradicionais na Psicologia, psica- 
nalítico e comportamental, mostraram-se de extrema importância para a constituição 
do saber psicológico, tanto por mostrarem a necessidade de buscar evidências para 
a comprovação de determinados fenômenos (comportamental) quanto pela necessi- 
“dade de explorar, a partir da escuta clínica, aspectos que não se encontram no plano 
consciente, mas organizados inconscientemente segundo um modelo de compreensão 
da personalidade que pode ser investigado em termos de método e de filosofia do 
conhecimento (psicanálise). A assunção da chamada terceira força, questionando tais 
pressupostos, fez emergir uma série de estudos sobre o modo como o ser humano se 
organiza em busca de maior resolução de seus conflitos e de busca pelo bem-estar. 
O movimento humanista, por meio de Carl Rogers, constituiu a maior força na com- 
preensão do que hoje é o aconselhamento psicológico, alinhando suas propostas à 
atividade psicoterápica. A Psicologia Positiva, derivada dessa terceira força, tem sido 
fortemente destacada na contemporaneidade justamente por oferecer uma mudança 
de foco, já anunciada por Rogers e Maslow, mas de modo mais propositivo e aliado a 
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questionável essa questão do que é inato no ser humano.... mas ok
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técnicas mensuráveis e que pressupõem um ser humano com potencialidades para a 
mudança, o crescimento e a maior satisfação com a vida. 
Há que se destacar, no entanto, que nosso objetivo não foi esgotar as ideias dessas 
correntes do pensamento psicológico, nem mesmo sistematizar, por meio das abor- 
dagens selecionadas, os principais elementosque constituem o campo do aconse- 
lhamento. Muitas outras correntes foram importantes na construção do campo do 
aconselhamento, o que pode ser investigado tanto a partir de obras clássicas sobre 
as teorias do aconselhamento (Corey, 1983; Scheeffer, 1980; Stefflre & Grant, 1976) 
como em manuais de Psicologia da Personalidade (Feist & Feist, 2008). Outras obras 
recentes apresentam perspectivas também desenvolvidas no aconselhamento, a exem- 
plo do construcionismo social e da psicanálise relacional, o que nos convida a revisitar 
constantemente esses aportes teóricos. Desse modo, é necessário que o conselheiro 
ou terapeuta seja um profundo conhecedor dessas e de outras perspectivas para poder 
justamente problematizar a sua prática. No entanto, mais importante que a adoção de 
um referencial ou outro, como nos alerta Schmidt (2012), é o modo como está sendo 
ofertada a escuta em uma relação de ajuda. Assim, mais importante que os pressu- 
postos que orientam o olhar aos fenômenos humanos é a escuta que se oferece como 
forma de acessar o indivíduo, suas motivações e percepções, o que deve atravessar de 
modo inequívoco todas as teorias psicológicas. 
A partir dessas considerações e dos conhecimentos disponibilizados neste ca- 
pítulo, responda às seguintes questões como forma de reflexão sobre os conteúdos 
estudados: 
1) Em linhas gerais, defina a abordagem psicanalítica. 
2) Em linhas gerais, defina a abordagem comportamental. Cd 
3) Quais são os pontos de congruência entre a abordagem humanista e a 
Psicologia Positiva? 
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usar isso para estudar para prova
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O PROCESSO DE FORMAÇÃO EM 
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Qualquer um de nós, em algum momento de nossa vida, já necessi- 
tou ou pode ainda necessitar de uma ajuda terapêutica. Consequen- 
temente, o terapeuta que procura ajudar a alguém deve considerar 
e compreender essa pessoa como um ser humano semelhante a si 
próprio, e não como uma pessoa fraca, inferior, incompetente para 
lidar com seus sofrimentos (Forghieri, 2007, p. 110). 
O processo de ofertar ajuda faz parte das relações interpessoais. Todos os dias, em 
nosso trabalho, família, no círculo de amigos e até mesmo com pessoas que não co- 
nhecemos, somos convidados a estabelecer uma relação de ajuda na qual o objetivo é 
contribuir para que a outra pessoa, que nos procura, possa fazer as escolhas de que ne- 
cessita, aliviar suas tensões, resolver seus problemas e conflitos, ou mesmo ser ouvida 
em sua aflição. Por isso a afirmação de Forghieri (2007) de que, a princípio, qualquer 
pessoa pode promover uma relação de ajuda desde que esteja disposta a ouvir 6 outro 
em seu sofrimento. Essa consideração já nos aponta para uma primeira característica 
do profissional dedicado ao aconselhamento psicológico: a disponibilidade de ouvir 
atentamente o outro. 
No entanto, a relação de ajuda profissional, na qual a pessoa - aqui identificada 
como cliente - procura os serviços de um terapeuta, conselheiro ou psicoterapeuta 
para refletir sobre seus problemas, sempre visando a um maior bem-estar, a uma 
solução, a um entendimento sobre as diversas situações que vivencia, é uma relação 
diferenciada, permeada por características que profissionalizam esse encontro. Rudio 
(1986) descreve da seguinte maneira a relação de ajuda em nível profissional: 
Imaginemos que alguém venha nos pedir ajuda. Naturalmente ele 
começa apresentando uma dificuldade, que o preocupa. Não deve-
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mos esquecer, porém, que o problema apresentado é expressão de 
um traço existencial do indivíduo. Ao invés de ficarmos absorvi- 
dos pelo esforço de apenas compreender e resolver o problema, 
devemos criar condições favoráveis para que o indivíduo alcance 
o significado que tem o problema para si mesmo, como ser-no- 
-mundo (p. 11-12). 
Essa afirmação diferencia de modo significativo a ajuda oferecida por um amigo 
ou colega de trabalho, por exemplo, de um profissional que trabalhe nessa função, 
a de ouvir, orientar e permitir que a pessoa possa, por si mesma, desenvolver e 
empregar recursos para buscar a própria satisfação. Favorecer o processo para que 
a pessoa conheça a si mesma e possa escolher de modo claro é um dos objetivos 
da relação de ajuda profissional. Diversas profissões estão envolvidas nessa função 
de oferta de ajuda, como Psicologia, Enfermagem, Medicina, Serviço Social, Nutri- 
ção, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, entre outras. Profissionais que trabalham 
prestando alguma assistência às pessoas são, por vezes, procuradas para ajudar a 
resolver problemas enfrentados no dia a dia, sendo que alguns dos princípios do 
aconselhamento podem ser empregados nessas orientações. 
Desse modo, embora o aconselhamento faça parte das práticas de diversas pro- 
fissões de ajuda, a Psicologia é um campo que promoveu a assunção do aconselha- 
mento psicológico, ou seja, voltado a questões emocionais, psíquicas, da ordem dos 
afetos e das relações interpessoais. Trata-se de um conjunto de técnicas e saberes 
psicológicos empregados para o estabelecimento de uma relação de ajuda profissio- 
nal com vistas ao bem-estar do cliente, sua saúde e maior adaptação ao seu contex- 
to. Mas como é esse processo de formação em aconselhamento psicológico? Esse é 
o objetivo central deste capítulo. 
A formação em aconselhamento psicológico faz parte dos currículos de graduação 
de alguns cursos de ensino superior, com destaque para a Psicologia, lugar do qual 
partimos para a escrita deste livro. É importante compreender a importância dessa 
formação para a atuação não apenas no aconselhamento, estritamente, mas também 
em áreas como a psicoterapia e o plantão psicológico, consideradas modalidades 
de ajuda psicológica com diferentes características, recomendações e aplicações. A 
disciplina de aconselhamento psicológico é ofertada como obrigatória em muitos 
cursos de graduação em Psicologia, a exemplo dos existentes na Universidade de 
São Paulo. Em outras universidades, pode se organizar como disciplina optativa e, 
em outros, ser parte da formação básica para a prática de estágios supervisionados 
e de estágios básicos, como ocorre na Universidade Federal do Triângulo Mineiro. 
A fim de orientar os docentes responsáveis por essa formação, apresento ao final do 
livro três apêndices. O primeiro traz uma série de exercícios práticos relacionados 
ao estabelecimento e à manutenção de uma relação de ajuda e que podem ser desen- 
volvidos nessas disciplinas. O segundo apêndice apresenta um modelo de registro 
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de atividade prática da disciplina, atividades estas destacadas no primeiro apêndice. 
Por fim, o apêndice C traz um modelo de registro de atendimento para supervisão 
em aconselhamento psicológico, que pode ser empregado em atividades de estágio 
ou de atendimentos supervisionados da disciplina. 
Pode-se dizer que no Brasil a maior parte da formação em aconselhamento psico- 
lógico esteja circunscrita à graduação em Psicologia, embora existam especializações 
que tratem do aconselhamento psicológico ou, mais frequentemente, das aborda- 
gens mais utilizadas nessa área, como a humanista.Como destacado por Scorsoli- 
ni-Comin e Santos (2013a), que analisaram as teses e dissertações produzidas nos 
programas de pós-graduação brasileiros, há o predomínio de estudos de mestrado 
nas abordagens fenomenológica e existencial e centrada na pessoa, com relatos de 
experiências profissionais desenvolvidas especialmente em serviços de atendimento 
de instituições públicas de ensino superior. Observam-se poucas menções ao tra- 
balho em instituições extramuros. Os autores concluem com a recomendação de 
que haja maior diversificação das pesquisas, referenciais teóricos e intervenções na 
área, de modo a fortalecer a aplicação de seus pressupostos teóricos e técnicos em 
diferentes contextos e populações. 
Assim, a partir da análise da produção nacional, há que se reconhecer que se tra- 
ta de uma formação tímida quando comparada a outros países, especificamente os 
Estados Unidos, em que a produção científica sobre o aconselhamento psicológico 
é vasta, havendo periódicos específicos, sociedades e associações responsáveis pela 
publicidade das práticas do aconselhamento, como a American Counseling Association 
(ACA) e a National Career Development Association (NCDA). A formação em aconse- 
lhamento geralmente ocorre em cursos de mestrado e doutorado que profissionali- 
zam a pessoa para a prática do aconselhamento, sendo esses abertos a profissionais 
graduados em diferentes áreas. 
No entanto, essas pessoas não precisam ser psicólogas, ou seja, a formação em 
aconselhamento psicológico é direcionada para uma variedade de profissionais que se 
interessam por trabalhar na área. É por essa razão que, nesses cursos de pós-gradua- 
ção, são abordadas questões básicas da Psicologia, com disciplinas como Psicologia 
do Desenvolvimento, da Aprendizagem, História dos Saberes Psicológicos, Psico- 
motricidade, Psicologia da Saúde, entre outras, como forma de oferecer suporte 
para as intervenções em aconselhamento psicológico realizado, também, por não 
psicólogos. Nesses cursos há uma formação teórica inicial, seguida de prática de 
estágio supervisionado, a fim de habilitar o estudante para a prática profissional. 
No Brasil, qualquer pessoa com graduação em Psicologia está autorizada a trabalhar 
com o aconselhamento psicológico, sendo que pode também realizar especializações 
(por exemplo, em Psicologia Clínica) ou mesmo mestrado e doutorado no campo do 
aconselhamento, investigando alguma questão especifica, a exemplo de diversos es- 
tudos (Almeida, 2005; Eisenlohr, 1997; Hannum, 2011; Nunes, 2006; Telles, 2000). 
Para além desses programas de formação, podemos discutir de que modo pode-se 
formar, capacitar ou habilitar um profissional para que ele atue na área do aconselha- 
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42 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
mento psicológico. Forghieri (2007), amparada nas concepções humanistas e exis- 
tenciais, destaca a necessidade de que a pessoa se conheça em profundidade para que 
possa ofertar ajuda, reconhecendo não apenas as dificuldades e fragilidades do outro, 
mas também as suas próprias. Particularmente, concordo com a sua compreensão 
acerca do processo de formação do conselheiro, ou, em outras palavras, do terapeuta: 
Todas essas considerações revelam como é paradoxal a relação en- 
tre o terapeuta e o cliente, pois, por um lado, requer a humanida- 
de de ambos, aquilo que é comum aos dois em sua origem, como 
seres humanos semelhantes. Por outro, requer que o terapeuta, a 
partir daí, seja também o profissional competente para ajudar cada 
indivíduo a se conhecer melhor e a conseguir existir no mundo de 
modo mais amplo e realizado (p. 113). 
Essa necessidade - de se reconhecer como humano para compreender o ou- 
tro — recupera um dos apontamentos centrais da obra de Carl Rogers e que será 
destacado neste livro em vários capítulos: a consideração positiva e incondicional 
pelo outro e a postura empática. Confiar no outro, em seus recursos pessoais para 
enfrentar as situações que afligem a sua vida e em sua capacidade de crescimento 
e amadurecimento, assim como postula Rogers, pode contribuir para que o cliente 
readquira a sua autoestima e passe a vislumbrar, também, possibilidades diante de 
suas dificuldades. 
Além disso, a capacidade de estar com o outro, de olhar as questões com o pris- 
—ma dessa pessoa, dividindo as angústias daquele momento, tende a promover no 
cliente não apenas o sentimento de aceitação, mas de efetivo compartilhamento dos 
momentos ou das situações que o atingem na atualidade. Essas atitudes tenderiam 
a promover no cliente uma mudança, ao se sentir seguro, aceito, compreendido e 
“unto com” outra pessoa disposta a ajudá-lo em seu percurso. Embora esses pres- 
supostos possam parecer simples em uma primeira consideração, trazem à baila o 
reconhecimento acerca da humanidade do outro e da própria humanidade, aproxi- 
mando cliente e terapeuta. 
No processo de formação em aconselhamento, portanto, deve-se trabalhar pro- 
fundamente com o reconhecimento dessa humanidade do terapeuta, a fim de que 
ele possa compreender o outro, que também o constitui. Nesse ponto abre-se a 
importância de o conselheiro e, principalmente, o estudante em processo de for- 
mação estarem engajados em uma psicoterapia pessoal. A psicoterapia pode ajudar 
notadamente o terapeuta em formação a reconhecer seus padrões de comportamen- 
to, suas habilidades, recursos e limitações, que devem constantemente estar em 
observação para que a sua prática profissional ocorra sem que essas características 
atrapalhem ou comprometam seus atendimentos ou o seu fazer no aconselhamen- 
to. A psicoterapia pessoal é reconhecida como um espaço de formação e cuidado ao 
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qual estudantes e profissionais de Psicologia também devem recorrer em função das 
especificidades da prática psicológica. Ser autêntico e conhecer-se passam também 
pela possibilidade de o próprio terapeuta usar sua psicoterapia pessoal para esse 
crescimento. 
Muitas pessoas acreditam que o aconselhamento é um processo extremamente 
técnico, exato e controlado, sem permitir a expressão da subjetividade tanto do 
cliente quanto do terapeuta. No entanto, algumas abordagens abrem espaço justa- 
mente para essa consideração, a fim de que o terapeuta possa se reconhecer também 
no relato daquele que busca ajuda, o que favorece a adoção da postura empática, 
também responsável pela mudança no decorrer dos atendimentos. Assim, já no ini- 
cio deste livro, é importante que se esclareça que o aconselhamento psicológico, 
embora adote técnicas e procedimentos específicos, não pode ser reduzido a elas, 
permitindo sempre a expressão do cliente em termos de desejos, aspirações, dúvidas 
e reflexões sobre a vida e o mundo. 
Uma disciplina de aconselhamento psicológico ministrada em curso de gradua- 
ção deve permitir uma ampla visão acerca do processo de formação desse profissio- 
nal. Além disso, esse processo não pode ser separado ou “descolado” da formação 
“do profissional de Psicologia, como se fossem formações distintas. Em nosso país, 
a formação em Psicologia já subsidia a formação do conselheiro,Diversificar esses contextos nos quais o profissional 
de Psicologia pode atuar e oferecer apoio psicológico constituiu um dos principais 
interesses com veiculação desse livro à comunidade acadêmica. Esta obra é indicada 
a profissionais que atuam no aconselhamento psicológico, estudantes e docentes da 
área, bem como pesquisadores e demais interessados nessas intervenções. O obje- 
tivo da obra é apresentar não apenas o campo do aconselhamento psicológico, mas 
os seus pressupostos para as aplicações em saúde, educação e carreira. Espero que 
a obra possa ser um convite para que mais profissionais se dediquem ao aconselha- 
mento, compreendendo as potencialidades dessa área para a oferta qualificada de 
ajuda em diversas situações e contextos. 
No primeiro capítulo, apresento um breve histórico do aconselhamento psico- 
lógico no Brasil e no mundo. São trazidas definições advindas de diversos autores, 
bem como suas distinções em função do período em que foram propostas. O leitor 
pode perceber o avanço nas proposições e as ideias básicas subjacentes às diferentes 
visões do aconselhamento. 
O segundo capítulo trata de algumas abordagens teóricas em aconselhamento 
psicológico. São destacadas as abordagens psicanalítica, fenomenológica e existencial, 
comportamental e humanista, esta última dando origem à perspectiva da Psicologia 
Positiva, priorizada nas intervenções disponíveis no livro. 
Na sequência, o terceiro capítulo discute o processo de formação em aconselha- 
mento psicológico, suas principais características e conceitos básicos. E apresentada 
uma discussão clássica na área, a distinção entre aconselhamento diretivo e não di- 
| Entre as obras clássicas do aconselhamento em Lingua Portuguesa, destacamos as de Scheefier 
(1980), Corey (1983), Santos (1982), Patterson e Eisenberg (1988) e Hackney e Nye (1977), presentes 
na maioria dos currículos das disciplinas de aconselhamento psicológico no Brasil. Mais recentemente, 
hã que se destacar a obra organizada por Morato, Barreto ce Nunes (2012), sobre aconselhamento psi- 
cológico na abordagem fenomenológica existencial, além da reedição do livro de Mahloud (2012) sobre 
plantão psicológico e da obra organizada por Tassinari, Cordeiro e Durange (2013), também sobre esta 
modalidade na abordagem centrada na pessoa.
Apresentação xi 
retivo, explicitando as características de cada uma dessas propostas. Ainda no que 
tange à formação em aconselhamento, o capítulo seguinte discute as atitudes básicas 
do profissional do aconselhamento, ou seja, busca apresentar um repertório de carac- 
terísticas que devem estar presentes em todos os profissionais que desejam oferecer o 
aconselhamento. Neste mesmo capítulo, são destacadas as competências específicas 
para o aconselhamento de carreira e para o trabalho multicultural, uma das tendên- 
cias nos estudos da área. 
O quinto capítulo trata da ética profissional no aconselhamento psicológico, abor- 
dando os diferentes códigos de ética profissional existentes e que subsidiam a prática 
do aconselhamento. Em uma parte prática, são trazidos relatos de desafios éticos e 
possibilidades da atuação em aconselhamento psicológico a partir de uma experiência 
de atendimento em comunidade. Na sequência, apresenta-se um capítulo exclusivo 
para se discutir as aproximações e os distanciamentos entre o aconselhamento psico- 
lógico e a psicoterapia, o que constitui um dos maiores debates na área. 
O sétimo capítulo é dedicado especificamente ao aconselhamento de carreira. São 
trazidas as características do processo de aconselhamento realizado na área do traba- 
lho, tendo como referência tanto os estudos que tratam da escolha profissional quan- 
to da reorientação de carreira. Tendo como norte a intervenção em Psicologia Positiva, 
são apresentadas as características do emprego gratificante, bem como o mesmo pode 
ser calculado e compreendido em uma intervenção na área da carreira. 
O oitavo capítulo trata da aplicação do aconselhamento na área da saúde, especifi- 
camente da saúde mental. São desenvolvidas propostas norteadas pelo referencial da 
Psicologia Positiva, que propõe uma mudança paradigmática nos estudos no campo da 
saúde justamente ao priorizar a promoção, por meio do conceito de potencialização. 
Desse modo, destaca-se a saúde mental como foco da ciência psicológica e a Psicologia 
Positiva como abordagem em saúde mental, adequada à prática do aconselhamento. 
O nono capítulo apresenta possibilidades de intervenções em aconselhamento 
psicológico, uma de estágio supervisionado básico e outra de extensão universitária. 
São destacados os desafios da implantação, do desenvolvimento e da avaliação de dois 
programas, um de preparação de servidores públicos federais para a aposentadoria e 
outro de plantão (etno)psicológico em comunidade religiosa. Essas experiências são 
discutidas a partir da abordagem centrada na pessoa e da Psicologia Positiva, consti- 
tuindo modelos para repensarmos pressupostos e tendências na área. 
Ao final, são trazidas conclusões sobre o percurso proposto no livro, com des- 
taque para algumas orientações futuras na área. São apresentados exercícios práti- 
cos para a disciplina de Aconselhamento Psicológico, bem como outros materiais são 
ofertados para auxiliar docentes e estudantes em aulas e workshops de preparação para 
a atuação nesse campo. 
É preciso explicitar, por fim, a escolha da epígrafe que abre este livro. Ao afirmar 
que a coisa “mais fina do mundo” é o sentimento, Adélia Prado nos chama a aten- 
ção para uma dimensão essencialmente humana dos relacionamentos interpessoais.
xii ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
O sentimento, compreendido nas atitudes de congruência, consideração positiva 
incondicional e empatia, destacadas por Carl Rogers, nos alerta para a necessidade 
de trazer para as relações humanas o nosso próprio sentimento, aquilo que nos 
constitui e que nos permite entrar em contato com o outro, seu sofrimento, suas 
dúvidas, suas escolhas e superações. O sentimento, conferindo calor ao modo como 
apreendemos o outro, aproxima-nos de nossa própria origem, tornando-nos mais 
disponíveis ao contato, ao aprendizado e à possibilidade de mudança, elementos 
centrais na composição do campo do aconselhamento psicológico. Desejo a todos e 
todas uma boa e proveitosa leitura!
01 
ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO: BREVE 
HISTÓRICO E DEFINIÇÕES 
Conselhante: Sinônimo de aconselhador, de quem aconselha. Ver- 
bo “conselhar” ou aconselhar. Expressão usada por Guimarães 
Rosa em “Grande Sertão: Veredas”: Ele me indicou, muito conselhan- 
te... (Martins, 2008, p. 131).' 
[...] a natureza e a qualidade do encontro entre aquele que oferece e 
aquele que busca ajuda psicológica têm maior implicação na eficácia 
da ajuda do que a adoção de uma linha teórica ou a prévia clarifica- 
ção psicodiagnóstica ou psicopatológica (Schmidt, 2012, p. 15). 
Nos dicionários de Lingua Portuguesa, o aconselhamento é definido, genericamen- 
te, como o ato de aconselhar. O verbo aconselhar, que se refere à ação desempenhada 
por aquele ou aquela que oferece conselhos, pode ter como significados “recomen- 
dar”, “convencer”, “persuadir”, “consultar”, “pedir parecer” ou “tomar conselho”. 
Em todas essas ações, o aconselhamento é compreendido como algo “diretivo”, ou 
seja, no qual há uma intenção com a sua oferta: aconselhar para convencer, persuadir, 
dar um direcionamento, assim como usado no romance de Guimarães Rosa destacado 
na epigrafe deste capítulo. No entanto, quando acrescentamos o adjetivo psicológico ao 
termo, este adquire novas possibilidades de compreensão e interpretação. Embora o 
aconselhamento psicológico tenha sido, em sua origem, praticado como algo bastante 
objetivo, focado e que oferecia direcionadores claros e, muitas vezes, tendenciosos, 
aos sujeitos atendidos nessa modalidade, as leituras contemporâneas, notadamente a 
partir das influênciasembora as carac- 
terísticas desse campo, que ultrapassam o embate muitas vezes existente entre as 
abordagens psicológicas, devam ser sempre consideradas e respeitadas. 
Assim, podem-se organizar conteúdos que tratem da constituição da área, passando 
pelas suas aplicações em diferentes contextos e cenários. Embora o aconselhamento 
psicológico seja bastante compreendido em suas aproximações e distanciamentos com 
a psicoterapia, há que se recuperar constantemente que se trata de uma prática ligada à 
aprendizagem e à promoção da saúde, de modo que o diálogo com diversos contextos 
pode trazer incrementos para a área. Neste livro, ao destacarmos projetos nas áreas de 
saúde, educação e carreira, desejamos explorar as diferentes potencialidades dessa re- 
lação de ajuda profissional no acompanhamento de casos que ocorrem em cenários por 
vezes bastante distantes da clínica ou de uma psicoterapia mais tradicional. 
As disciplinas de formação ofertadas na graduação devem, portanto, propiciar 
subsídios para que o aconselhamento psicológico possa ser: 
a) difundido como campo de ensino, pesquisa e intervenção, superando a 
visão essencialmente prática ou técnica da área e afirmando a identidade 
desse campo do saber psicológico; 
bj) investigado em projetos de pesquisa em nível de iniciação cienti- 
fica, mestrado e doutorado, gerando incrementos para as articulações 
teóricas na área; . 
c) utilizado em práticas profissionais situadas em diferentes contextos 
que demandam a atenção psicológica, por exemplo, em instituições e 
comunidades; 
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44 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
d) utilizado em contextos diversos que não possuam estruturação, indicação 
ou condições de receber ajuda psicológica em outro formato ou que te- 
nham indicações específicas para intervenções em aconselhamento; 
e) oferecido como porta de entrada para a formação dos psicólogos nos 
estágios básicos, em que se discutem as características que devem ser 
apresentadas pelos futuros profissionais; 
f) oferecido como prática inicial em estágios supervisionados, a fim de que 
os estudantes compreendam aspectos básicos da relação de ajuda e da 
postura ética e profissional. 
Esperamos que essas diretrizes possam orientar as disciplinas na área e inspirar 
outros profissionais para a oferta desses espaços de reflexão. Uma disciplina de 
aconselhamento psicológico, desse modo, pode superar o rótulo de essencialmente 
básica ou fundamental para a inserção prática do estagiário, para afirmar-se como 
campo do saber psicológico que pode, sim, contribuir para diferentes finalidades, 
respeitando a sua origem, suas características e, principalmente, o seu compromisso 
com a produção do conhecimento científico. 
Aconselhamento diretivo e não diretivo 
Compreendemos que o reconhecimento do terapeuta como pessoa é um dos pri- 
meiros passos para a formação em aconselhamento. A partir disso, podem-se desen- 
volver diversas técnicas que o ajudarão quando estiver diante de um cliente. É nesse 
sentido que apresentamos os exercícios para o trabalho em sala de aula (Apêndice A). 
São propostas simples que pretendem disparar reflexões por parte dos estudantes, 
haja vista que o aconselhamento parte de instrumentos e situações aparentemente 
simples: um espaço adequado para uma conversa, a escuta de uma queixa e a condu- 
ção dessa conversa com vistas à promoção do bem-estar daquele cliente. 
E Como prática considerada “corriqueira”, a “conversa” profissional que des- 
tacamos tem origem nos diálogos cotidianos, sendo que os princípios de comu- 
nicação adotados em ambas as modalidades são os mesmos: a fala, a escuta, a 
compreensão, o feedback, a interação, o calor afetivo do encontro. Mas o que dife- 
rencia a conversa casual entre amigos, por exemplo, de uma conversa profissional, 
orientada para um dado objetivo? 
Obviamente que alguns elementos diferenciam esses dois encontros. Profissio- 
nalmente, esse encontro requer a existência de uma pessoa, o terapeuta, que seja 
capaz de ouvir a queixa do modo mais neutro possível, ou seja, sem trazer a queixa 
para a sua vida e tentando resolver o problema do modo como achar melhor. Pode- 
mos dizer, sem grandes teorizações, que nossas conversas casuais são recobertas por 
elementos diretivos, ou seja, que visam a orientar e direcionar o indivíduo para um 
dado lugar ou uma dada decisão. Em nossas conversas, muitas vezes, não queremos
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Sticky Note
parada
O Processo de Formação em Aconselhamento Psicológico 45 
instrumentalizar o outro para que ele possa fazer suas próprias escolhas, mas, pelo 
contrário, elaboramos nossos julgamentos, nos posicionamos, opinamos, buscamos 
agir de modo a resolver, de fato, aquela problemática. 
Quando conversamos com uma amiga que acabou de terminar o seu namoro, 
a tendência de muitas pessoas ao ouvir esse relato é justamente tomar partido da 
amiga, tentando ajudá-la e nutrindo sentimentos ruins em relação ao ex-namorado, 
considerado fonte daquele sofrimento. Como resolvemos o problema dessa amiga? 
Podemos levá-la para nossa casa, ficar com ela, sair para uma festa para que ela tente 
esquecer o que aconteceu, podemos ir com ela ao encontro desse ex-namorado para 
um “acerto de contas”, podemos difamá-lo em redes sociais e por aí vai. Podemos 
até mesmo promover o encontro dessa amiga com um novo rapaz, a fim de que ela 
esqueça do “ex”. Nessas ocasiões, geralmente damos “palpites”, “dicas”, “conse- 
lhos”, ou seja, manifestamos abertamente o que pensamos a respeito da situação 
e o modo de resolvê-la a partir de nossas concepções do que é certo, adequado 
e aconselhável. Estamos sendo diretivos ao apontarmos caminhos, ao sugerirmos 
orientações de como ser, o que fazer, como proceder diante do problema, ao nos 
posicionarmos de modo claro e com a oferta de respostas aos problemas do outro. 
Embora algumas práticas psicológicas possam ser identificadas como essencial- 
mente diretivas, como no caso do aconselhamento psicológico, notadamente no início 
da construção desse campo, contemporaneamente as intervenções têm se orientado 
cada vez mais pela não diretividade, ou seja, ao profissional não é recomendado ofe- 
recer conselhos, direcionar caminhos ou orientar em direção a determinadas escolhas. 
Quando oferecemos um conselho, sempre partimos de um julgamento nosso acerca 
do que é melhor para o outro, ou seja, o referencial é a nossa própria percepção, con- 
duta e forma de ser. Nas práticas não diretivas, pelo contrário, o nosso trabalho é o de 
facilitar que o cliente possa, por ele mesmo, direcionar-se em relação a alguma deci- 
são, que possa buscar em si os recursos de que necessita para o crescimento pessoal, 
ou seja, que o cliente seja autônomo ao longo do processo terapêutico. 
Podemos aqui afirmar que a diretividade está mais relacionada ao início do cam- 
po do aconselhamento psicológico, em que se difundia fortemente a teoria de traço 
e fator - o conselheiro deveria “direcionar” e “orientar” a partir da aplicação de 
testes e de inventários de personalidade. A partir da assunção da obra de Rogers, a 
não diretividade passa a ser considerada um elemento fundamental para a relação 
de ajuda, de modo que o conselheiro torna-se um facilitador, não oferecendo enca- 
minhamentos, mas a possibilidade de sua presença genuína como parte do processo. 
Na relação de ajuda que se estabelece com o indivíduo, a orienta- 
ção não diretiva deseja que a atenção se focalize não sobreo pro- 
blema da pessoa, mas sobre a própria pessoa. Ou, para ser mais 
exato, sobre seu “crescimento, desenvolvimento, maturidade, me-
46 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
lhor funcionamento e maior capacidade para enfrentar a vida (Ru- 
dio, 1986, p. 11). 
Há que se considerar que a ideia de não diretividade está mais presente na 
primeira fase da obra de Rogers, como um primeiro movimento no sentido de 
construir a psicoterapia centrada no cliente (voltada a adultos) e, posteriormente, 
a abordagem centrada na pessoa (não exclusiva da psicoterapia, mas aplicável a di- 
versos contextos, como os educacionais). Assim, a psicoterapia não estaria calcada 
apenas na não diretividade, mas em outros aspectos, como as atitudes facilitado- 
ras, mais explicitadas nas fases posteriores da obra de Rogers. A não diretividade 
também não pode ser confundida como ausência de direção no processo terapêuti- 
co, sendo simplificada em respostas automáticas de espelhamento ou de repetição 
literal da fala do cliente. Essa compreensão errônea da postura não diretiva levou 
Rogers a, paulatinamente, não empregar essa expressão em seus escritos nas fases 
posteriores de sua obra (Justo, 2008). Segundo o pensamento rogeriano, o impor- 
tante não é a ausência de diretivas, mas a presença autêntica do terapeuta, que se 
baseia em atitudes, não em técnicas. 
Para compreendermos de modo mais didático o aconselhamento diretivo e o não 
diretivo, apresentamos o quadro a seguir com a comparação entre esses modelos. É 
importante destacar que o aconselhamento não diretivo, em algumas publicações, 
também é considerado como sinônimo da abordagem centrada na pessoa ou da 
perspectiva humanista (Rudio, 1986), haja vista que Rogers foi um dos pioneiros a 
considerar os elementos não diretivos no aconselhamento, em uma proposta mais 
próxima da psicoterapia. Muitos autores, inclusive, compreendem que houve uma 
evolução do aconselhamento diretivo para o humanismo, sinônimo, portanto, de 
uma orientação não diretiva. Assim, os elementos não diretivos são mais semelhan- 
tes aos aspectos discutidos no manejo dos atendimentos clínicos, marcados pela 
busca da neutralidade do terapeuta e de intervenções que coloquem em enlevo a 
pessoa do cliente, e não a experiência do terapeuta.
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O Processo de Formação em Aconselhamento Psicológico 47
48 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
Muitas vezes, o diretivismo acaba sendo associado a um maior determinismo em 
relação à noção de ser humano: como sei o que a pessoa é e pelo que está passando, 
posso ajudá-la rumo à uma melhora, um tratamento, à cura, à melhor qualidade 
de vida. Em contrapartida, se compreendo que somente a pessoa é que pode dizer 
sobre o melhor caminho a seguir, ou seja, não é totalmente determinada pelo seu 
meio e pelas condições de sua vida, mas que pode escolher, esta assume o próprio 
direcionamento do seu existir. Ao falarmos de diretivismo e não diretivismo esta- 
mos também retomando as clássicas discussões sobre determinismo e não determi- 
nismo, a menor ou maior responsabilização do sujeito em relação à sua vida, suas 
escolhas e percursos. Portanto, é importantenão resumir este embate em termos 
apenas do maior ou do menor envolvimento do conselheiro no processo de ajuda, 
mas recuperar discussões históricas que têm atravessado a própria constituição da 
Psicologia ao longo do tempo. 
Longe de solucionar um embate tão caro ao saber psicológico, há que se des- 
tacar que não se trata, aqui, de afirmar que o aconselhamento diretivo seja uma 
prática equivocada ou que não seja, de fato, uma forma de aconselhamento psico- 
lógico. Em diversas áreas da atenção psicológica, os atendimentos podem e devem 
ser orientados por certa diretividade, por exemplo, quando são fornecidas infor- 
mações sobre tratamentos, sobre práticas de saúde que devem ser adotadas (nu- 
trição, higiene, manejo da dor e de crises), entre outras. Nessas ocasiões, embora 
o terapeuta acolha o sofrimento do cliente e busque uma escuta afetiva acerca do 
seu sofrimento, as orientações devem ser manifestadas para que o próprio trata- 
mento seja eficaz. 
No caso de uma pessoa adoecida, por exemplo, o aconselhamento psicológico 
pode ser um espaço adequado para que ela pense em seus recursos e em suas poten- 
cialidades para o crescimento e a superação daquela condição. No entanto, o quadro 
clínico pode sugerir determinado regime alimentar, ou mesmo cuidados específicos, 
que podem ser informados, inclusive, no próprio atendimento em aconselhamento. 
A pessoa adoecida, por exemplo, ao queixar-se de que sente dificuldades físicas 
para falar, pode ser orientada pelo terapeuta (a partir de conhecimentos prévios 
transmitidos em uma equipe multidisciplinar, por exemplo) a tentar manter-se em 
pé por mais tempo, o que aliviará os sintomas ruins e favorecerá que a pessoa fale 
com menos dificuldade. Nesse caso, trata-se de uma informação, algo diretivo e que 
não passa pela subjetividade do cliente. Mas, ao mesmo tempo, busca-se uma escuta 
afetiva dessa dor, de como a pessoa tem manejado esse sofrimento. 
Assim, pensamos em intervenções que tenham tanto elementos diretivos (in- 
formações, procedimentos que devem ser seguidos com rigor, padrão e organização, 
como dietas, cuidados com o corpo) como não diretivos (escuta voltada para a pes- 
soa, com reflexões a partir de suas próprias experiências), de modo que nem sempre 
podemos radicalmente separar essas características. As intervenções, desse modo, 
podem e devem conhecer esses elementos para a oferta de uma ajuda que atenda 
aos objetivos propostos.
O Processo de Formação em Aconselhamento Psicológico 49 
Por fim, é importante recuperar que a discussão diretividade versus não di- 
retividade já não constitui uma preocupação atual no aconselhamento, mas foi 
um mote de extrema importância para o desenvolvimento de saberes e práticas 
na área. Há, atualmente, uma compreensão mais compartilhada pelas diferentes 
abordagens de que essa pessoa (cliente) deve ser compreendida e que ela é a que 
pode mais opinar, decidir e se posicionar quanto à própria vida e suas vicissitu- 
des. Ao mesmo tempo, é preciso caminhar rumo ao crescimento, à autonomia e à 
liberdade, sendo necessário receber informações e direcionamentos, muitas vezes 
fundamentais nesse processo. 
Para resumir e ampliar 
Neste capítulo, aprendemos um pouco sobre como é a formação profissional 
para a prática do aconselhamento psicológico e onde esses conhecimentos podem 
ser adquiridos, treinados e desenvolvidos. No capítulo seguinte, destacaremos as 
principais competências, conhecimentos, habilidades e atitudes que devem ser 
aprendidas e desenvolvidas pelo profissional para que esse seja um conselheiro. 
Esses dois capítulos devem ser compreendidos como diretamente relacionados, haja 
vista que recuperam a necessidade de atenção para a formação do profissional do 
aconselhamento psicológico, o que nem sempre é enfatizado na área. Mas, por en- 
quanto, a partir dos conhecimentos disponíveis neste presente capítulo e das refle- 
xõ0es realizadas até o momento, responda às seguintes questões: 
1) Em sua opinião, quais são as principais características para que uma 
pessoa trabalhe com aconselhamento psicológico? 
2) Quais são as características do aconselhamento diretivo? Dê exemplos a 
partir de sua experiência. 
3) Quais as características do aconselhamento não diretivo? Dê exemplo a 
partir de sua experiência.
04 
ATITUDES BÁSICAS DO PROFISSIONAL 
DO ACONSELHAMENTO 
Seja ou não um lugar-comum, acredito que quanto mais nos co- 
nhecemos, melhor podemos entender, avaliar e controlar nosso 
comportamento e melhor compreender e apreciar o comportamen- 
to dos outros. Quanto mais familiarizados conosco mesmos, me- 
nor a ameaça que sentimos diante do que encontramos. Podemos 
até mesmo chegar ao ponto de gostar de algumas coisas nossas e, 
portanto, tolerar melhor aquelas de que não gostamos nada ou sé 
um pouco. E, então, quanto mais prosseguirmos no exame e na 
vontade de descobrir, é possível que continuemos mudando e cres- 
cendo (Benjamin, 1978, p. 23). 
No Brasil, o aconselhamento psicológico não constitui uma formação indepen- 
dente da do profissional de Psicologia, como ocorre em países como os Estados Uni- 
dos, em que esta formação se dá em nível de pós-graduação aberta a graduados em 
quaisquer áreas do conhecimento. Nesses países, parte-se do pressuposto de que a 
oferta de ajuda profissional ou de orientação não estaria associada necessariamente ao 
saber psicológico, mas a uma gama de profissões, entre elas a Medicina, Enfermagem, 
Serviço Social, entre outras. Assim, o aconselhamento seria uma pós-graduação, uma 
complementação a um curso superior que permitiria ao profissional exercer a função 
de conselheiro ou conselor. 
Em nosso contexto, diferentemente, o aconselhamento possui uma forte relação 
com a formação em Psicologia. Há que se destacar que algumas profissões podem ter 
entre as suas atribuições a oferta de aconselhamento, como em ocupações da área da 
saúde, mas o aconselhamento psicológico, como o próprio adjetivo anuncia, é restrito 
ao psicólogo. Para esclarecer: o aconselhamento pode fazer parte de algumas ocupações,
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mas o aconselhamento psicológico possui especificidades que só podem ser abarcadas 
por alguém que tenha graduação em Psicologia. Pode-se afirmar, a partir do exposto, 
que o aconselhamento psicológico é uma área do saber e da prática em Psicologia. 
Ao tratar da profissão de psicólogo, a Classificação Brasileira de Ocupações 
(CBO, 2002) apresenta da seguinte maneira as funções desse profissional: “pro- 
por alternativas de solução de problemas; esclarecer as repercussões psicológicas 
decorrentes dos procedimentos médico-hospitalares; informar sobre desenvolvi- 
mento do psiquismo humano; dar orientação para mudança de comportamento; 
aconselhar pessoas, grupos e famílias”. Ainda que neste documento o verbo acon- 
selhar seja usado exclusivamente no que se refere ao atendimento institucional 
oferecido a pessoas, grupos e famílias, pode-se compreender que outras ações 
estão associadas a essa atuação em aconselhamento, como orientar, esclarecer, 
ouvir, clarificar, acompanhar e intervir. Por exemplo, pode-se reconhecer o acon- 
selhamento nessas funções do CBO: 
entrevistar pessoas; observar pessoas e situações; escutar pessoas 
ativamente; investigar pessoas, situações e problemas; propiciar 
espaço para acolhimento de vivências emocionais (setting); ofe- 
recer suporte emocional; propiciar criação de vínculo paciente- 
-terapeuta; interpretar conflitos e questões; elucidar conflitos e 
questões; promover integração psiquica; promover desenvolvi- 
mento das relações interpessoais; promover desenvolvimento da 
percepção interna (insight); mediar grupos, família e instituições 
para solução de conflitos. 
Desse modo, entre as atribuiçõesde um psicólogo que se dedica ao aconse- . 
lhamento psicológico podemos destacar ações ki Ea ICi 
criação de vínculo” ou mesmo promover desenvolvimento de relacionamentos inter- 
pessoais. No entanto, tais atribuições não são especificas ao profissional do aconse- 
lhamento, mas perpassam toda e qualquer atuação em Psicologia. Mas pela descri- 
ção sumária do CBO (2002), esses profissionais desempenham funções que podem 
ser propostas em um processo de aconselhamento, como: 
Estudam, pesquisam e avaliam o desenvolvimento emocional e 
os processos mentais e sociais de individuos, grupos e institui- 
ções, com a finalidade de análise, tratamento, orientação e educa- 
ção; diagnosticam e avaliam distúrbios emocionais e mentais e de 
“adaptação social, elucidando conflitos e questões e acompanhando 
o(s) paciente(s) durante o processo de tratamento ou cura; [...] 
desenvolvem pesquisas [...] teóricas e clínicas e coordenam equi- 
pes e atividades de área e afins.
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52 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
O processo de aconselhamento psicológico partilharia com a atuação do psicó- 
logo ou do psicoterapeuta a necessidade de estudar, avaliar, pesquisar e promover o 
desenvolvimento de pessoas, grupos, instituições e organizações. Segundo as Dire- 
trizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia propostas 
pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Nacional de Educação em 2004, por 
meio do Parecer CNE/CES 62/2004, o psicólogo deve ser capaz de: 
diagnosticar, avaliar e atuar em problemas humanos de ordem 
cognitiva, comportamental e afetiva, coordenar e manejar proces- 
sos grupais, atuar inter e multiprofissionalmente, realizar orienta- 
ção, aconselhamento psicológico e psicoterapia, levantando ques- 
tões teóricas e de pesquisa e gerando conhecimentos a partir de 
sua prática profissional. 
O aconselhamento psicológico é mencionado neste documento como uma possi- 
bilidade de ênfase (concentração de estudos e estágios em algum dominio da Psico- 
logia), a depender da instituição de ensino superior, suas características, demandas 
e visões acerca do exercício profissional na área. Segundo o artigo 8º desse parecer, 
é função do profissional de Psicologia “realizar orientação, aconselhamento psicoló- 
gico e psicoterapia”. No artigo 12, são delimitados os principiais campos de atuação 
da ciência psicológica, de modo que o aconselhamento fica disposto juntamente 
com os chamados processos clínicos 
Psicologia e processos clínicos, que envolvem a concentração em 
competências para atuar, de forma ética e coerente com referen- 
ciais teóricos, valendo-se de processos psicodiagnósticos, de acon- 
selhamento, psicoterapia ou outras estratégias clínicas, frente a 
questões e demandas de ordem psicológica apresentadas por indi- 
viduos ou grupos em distintos contextos. 
A partir da apreciação desses documentos oficiais relacionados ao exercício da 
profissão de psicólogo, podemos afirmar que o aconselhamento psicológico recobre 
uma série de capacidades e competências que podem e devem ser desenvolvidas cons- 
tantemente pelos psicólogos, visando ao bem-estar das pessoas. Até o momento es- 
tamos falando em competências, características da atuação e atribuições. Mas quais 
seriam as atitudes esperadas das pessoas que desejam realizar essas atividades? Quais 
atitudes deveriam manifestar, aprender ou compartilhar? Isso nos coloca diante da 
necessidade de discutir, ainda que brevemente, algumas questões que se apresentam: 
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1) Quais são as características de um profissional dedicado ao aconselha- 
mento psicológico? 
2) Quais as características desejáveis de um profissional do aconselhamento? 
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Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 53 
Vamos tentar responder esses questionamentos a seguir. Penso que a maioria 
das características possui como referência a própria profissão do psicólogo. Assim, 
poderíamos nos perguntar: quais as características desejáveis de um psicólogo? Ou, 
ainda: quais as características desejáveis de um bom psicólogo? O adjetivo “bom” 
foi empregado intencionalmente a fim de demarcar a qualidade de profissionais que 
possuem domínio técnico e científico de sua atuação. 
Quando as pessoas geralmente procuram por um psicólogo recorrendo a indi- 
cações, sempre partem da especificação de um profissional considerado suficiente- 
mente bom em sua atuação, que apresenta bons resultados em atuações anteriores 
ou que é bastante procurado pelos clientes. Desse modo, não se busca “qualquer” 
psicólogo, mas alguém que possa estabelecer uma boa relação com o cliente e ajudá- 
-lo ao longo do tratamento, quaisquer que sejam as suas demandas. Para estabelecer 
os critérios de um “bom” psicólogo podemos, portanto, recorrer a diferentes marca- 
dores: aqueles que sabem negociar, os que possuem alinhamento a uma dada abor- 
dagem, que estão habituados a atendimento de determinadas psicopatologias ou de 
um público específico (por exemplo, de crianças), os que são considerados calmos, 
observadores, inteligentes, sensatos, com retidão de caráter ou quaisquer outras 
características que assumamos como condicional ao correto e esperado desempenho 
de uma função de psicólogo. 
Há muitos critérios que podem balizar a classificação de um “bom” psicólogo. 
Costumo elencar algumas dessas características quando me solicitam encaminha- 
mentos. Gosto sempre de indicar pessoas que conheço pessoalmente, com as quais 
já conversei bastante, profissionais que eu reconheça para além das caracteristicas 
profissionais mais evidentes, por exemplo, ser psicanalista, rogeriano, comporta- 
mentalista ou especialista em psicoterapia infantil. Podem ser importantes aspec- 
tos como local (universidade) onde se graduou, tempo de experiência, formação 
complementar, experiência no atendimento a determinada demanda (por exemplo, 
idosos com Alzheimer), ou mesmo aspectos mais informais e objetivos, como preço 
médio da sessão, localização do consultório (por exemplo, em cidades grandes), 
filiação ou não a um plano médico, de saúde ou convênio. 
Pensando a partir da abordagem centrada na pessoa, poder-se-ia dizer que um 
“bom” psicólogo é, a princípio, uma pessoa que consegue estar a serviço de ajudar 
o seu próximo a partir de determinadas características pessoais e de formação 
teórica e técnica. Uma pessoa que consegue reconhecer suas fragilidades, que se 
reconhece na atividade de prestar ajuda psicológica, que suporta estar diante do 
sofrimento do outro a partir de uma postura técnica e que, ao mesmo tempo, re- 
vele a sua sensibilidade, os seus valores, as suas crenças, as suas potencialidades. 
Longe de cristalizar a figura desse profissional como alguém “bonzinho, do bem, 
educado ou cordial”, é importante que o psicólogo esteja a serviço constante de 
uma autorreflexão, ou seja, de se colocar constantemente à prova conservando a 
capacidade de ser o que se é, com autenticidade.
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54 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Especificamente e tecnicamente falando, o psicólogo deve estar apto a empregar 
o conhecimento psicológico adquirido por meio do estudo e da prática em deter- 
minada teoria psicológica para se colocar à disposição de uma pessoa em busca de 
apoio e orientação. Desse modo, deve ter uma atitude de constanteabertura à expe- 
riência do outro, uma postura semelhante à de curiosidade ou de encantamento pela 
descoberta de um outro que pode ser tão semelhante ou radicalmente oposto ao 
que é esse profissional. A consideração de que esse outro possui uma história que 
precisa ser conhecida pelo profissional deve ser um convite para a abertura de uma 
comunicação clara e franca, de uma escuta qualificada que contribua para clarificar 
demandas, aprender com a queixa do cliente e oferecer suporte e encaminhamentos 
necessários à resolução do caso. 
Segundo o código de ética da American Counseling Association (ACA, 2005), os 
profissionais dedicados à prática do aconselhamento 
[...] devem incentivar o crescimento e desenvolvimento do cliente 
de modo a promover o interesse, o bem-estar e o estabelecimento 
de relacionamentos saudáveis. Conselheiros devem se engajar ati- 
vamente na tentativa de compreender as diversas origens culturais 
dos clientes que atendem. Devem explorar suas próprias identi- 
dades culturais e como estas afetam os seus valores e crenças so- 
bre o processo de aconselhamento. Conselheiros são encorajados 
a contribuir para a sociedade, dedicando uma parte da sua ativi- 
dade profissional aos serviços para os quais há pouco ou nenhum 
retorno financeiro (tradução minha). 
A partir dessa afirmação, pode-se recuperar o forte engajamento social apregoa- 
do pela ACA, de modo que o conselheiro deva realizar uma profunda reflexão sobre 
sua cultura para então, posteriormente, poder ajudar alguém que pertença a outra 
cultura. Outro aspecto de destaque é o atendimento voluntário, sempre que neces- 
sário. O conselheiro deve possuir, portanto, comprometimento com o seu país, sua 
cultura, seus valores, bem como respeito e consideração para com culturas distintas, 
no caso norte-americano, especificamente pessoas de outras etnias e imigrantes. 
Antes de prosseguirmos no capítulo, é preciso trazer uma definição sobre os 
conceitos de competências, habilidades e atitudes, muitas vezes tomados como 
sinônimos de adjetivos que devem acompanhar um chamado “bom” profissional. 
Assim, parece claro que um profissional deva possuir competências, habilidades e 
atitudes compatíveis com o exercício profissional que se pretende realizar, no caso, 
do aconselhamento psicológico. 
Em termos específicos de competências para uma determinada prática profis- 
sional, que habilite esta pessoa para o adequado exercício de suas funções, pode-se 
compreender que se trata de um conceito multidimensional, havendo diferentes 
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classificações: profissionais, ocupacionais, básicas, interpessoais e participativas 
(Perrenoud, 2004). As competências profissionais são construídas por meio de pro- 
cessos de aprendizagem que se relacionam a domínios como conhecimentos (in- 
formações especificas sobre conteúdos, teorias, metodologias), habilidades (técni- 
cas disponíveis, dominar as metodologias em termos de suas aplicações) e atitudes 
(motivação para fazer, identidade e determinação) (Brandão & Guimarães, 2001). 
Para Cruz e Schultz (2009), as competências não são asseguradas por diplomas, pela 
instrução formal em determinada área, nem são inatas e totalmente dominadas. As 
competências, pelo contrário, são construidas ao longo da vida do trabalhador, sen- 
do formadas com base em aprendizagem em ambientes formais e informais, dando 
destaque aos elementos de contexto e de instrução. 
Nas Diretrizes Curriculares para os cursos de graduação em Psicologia (2004 
e 2011), do Conselho Nacional de Educação e da Câmara de Educação Superior, 
que serao melhor descritas no Capítulo 9, destaca-se que as competências devem 
garantir o domínio de conhecimentos básicos (no caso, em Psicologia) e a capacida- 
de de utilizá-los em diversos contextos. Um exemplo de competência é destacado 
no item XI do artigo 8º: “atuar, profissionalmente, em diferentes níveis de ação, de 
caráter preventivo ou terapêutico, considerando as características das situações e 
dos problemas específicos com os quais se depara”. A prática do aconselhamento é 
contemplada no item XII do mesmo artigo: “realizar orientação, aconselhamento 
psicológico e psicoterapia”. 
De maneira bem resumida, as habilidades referem-se ao “saber fazer”, à exe- 
cução, à prática, ao exercício profissional propriamente dito. As atitudes estão li-. 
gadas à ação, ao “querer fazer” (como ler, interpretar, utilizar determinado método, 
analisar, descrever). Assim, de acordo com os conhecimentos disponíveis, as habili- 
dades desenvolvidas e as atitudes manifestas, podem-se desenvolver determinadas 
competências profissionais, entre as quais situamos as diretamente relacionadas ao 
aconselhamento psicológico. A atuação profissional será o resultado da interação 
desses domínios, o que se relaciona diretamente com as experiências profissionais 
que também poderão gerar necessidades de acréscimo de conhecimentos específicos 
para determinado setor de atuação ou mesmo de atitudes que possam favorecer o 
exercício profissional. Todos esses elementos são constitutivos da identidade profis- 
sional (Scorsolini-Comin, Souza, & Santos, 2008), que se refere a um conceito mais 
amplo que envolve o reconhecimento da atividade profissional como constitutivo do 
que a pessoa é e de sua satisfação com a vida. 
A seguir, apresentamos uma tabela baseada em apontamentos sobre competên- 
cias trazidos originalmente por Cruz e Schultz (2009). A partir desses elementos 
explorados por esses autores, elucidamos as suas aplicações ao contexto específico 
do aconselhamento psicológico.
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56 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Descrição das competências 
Competências aplicadas ao 
aconselhamento psicológico 
Competências profissionais (ca- 
pacidade de utilizar os conheci- 
mentos e as habilidades adquiri- 
dos para o desempenho em uma 
situação profissional) 
Empregar os princípios teóricos e metodológicos do 
aconselhamento para o estabelecimento de uma re- 
lação de ajuda. É preciso saber definir o aconselha- 
mento, suas principais técnicas e casos nos quais é 
indicado. O conselheiro ou terapeuta deve dominar 
um amplo repertório de conhecimentos que o per- 
mitam manejar e administrar diferentes situações 
experienciadas nesses atendimentos. 
Competências ocupacionais (habi- 
lidade para desempenhar ativida- 
des no trabalho dentro de padrões 
de qualidade esperados) 
Organizar um processo de aconselhamento se- 
gundo os parâmetros definidos para essa prática. 
Devem ser observados os padrões éticos exigidos, 
necessidade de supervisão para o atendimento de 
casos (por exemplo, quando o aconselhamento for 
conduzido por estagiários em formação). 
Competências básicas (capacida- 
de de abstração, boa comunicação 
oral e escrita, raciocínio lógico, ca- 
pacidade de prever e resolver pro- 
blemas do processo e do produto) 
Capacidade de lidar com questões emergentes no 
processo de aconselhamento, bem como comuni- 
car-se de modo aberto e franco, a fim de estabe- 
lecer uma relação de confiança com o cliente. O 
conselheiro deve manter uma comunicação que 
preserve sempre o cliente, de modo que esse pos- 
sa compreender os seus apontamentos. Deve estar 
aberto à recepção de opiniões divergentes da sua 
ou mesmo produzidas em outros contextos e cul- 
turas. 
Competências tecnológicas (co- 
nhecimento das técnicas e tecno- 
logias de uma profissão ou de pro- 
fissões afins) 
Conhecimento sobre técnicas de aconselhamento, 
por exemplo, as específicas de uma dada aborda- 
gem. As competências tecnológicasreferem-se a 
instrumentos utilizados no processo de aconselha- 
mento, o que não corresponde necessariamente ao 
domínio de tecnologias digitais, por exemplo, mas a 
ferramentas básicas como gravadores de áudio, de 
vídeo, blocos de anotação, sempre que necessários 
no processo. 
Competências interpessoais (ca- 
pacidade de negociar, decidir em 
equipe, comunicar-se) 
Capacidade de se comunicar com o cliente e com 
a equipe de aconselhamento, ou mesmo com uma 
equipe multidisciplinar no caso de o serviço de acon- 
selhamento estar implantado em um equipamento 
como hospital, escola, empresa, entre outros. 
Competências participativas (ca- 
pacidade de organizar seu traba- 
lho de modo cooperativo e solidá- 
rio, disposição para assumir res- 
ponsabilidades) 
O próprio estabelecimento de uma relação de ajuda 
pressupõe a capacidade de ser cooperativo, acolhe- 
dor de demandas e queixas, bem como disposição 
para assumir a responsabilidade por aquele proces- 
so no que se refere ao papel do conselheiro. 
Quadro 4.1 Principais competências do profissional dedicado ao aconselhamento psicológico. 
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Sticky Note
parada
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 57 
Embora muitas atitudes possam ser destacadas como necessárias ao adequado 
exercício do aconselhamento, algumas merecem destaque, a exemplo do que con- 
sidera Rogers como “atitudes básicas”. São consideradas atitudes facilitadoras que 
devem estar presentes na relação de ajuda e são compreendidas como suficientes 
para que o processo terapêutico ocorra e atinja seus objetivos. Essas atitudes, se 
presentes e bem conduzidas, por si só seriam capazes de promover mudanças no 
cliente. A primeira delas é a autenticidade, também conhecida como congruência, 
que significa que o profissional tem que ser, no encontro com o cliente, o mais pró- 
ximo possível do que é em todas as suas relações, ou seja, que deve permitir-se “ser 
o que se é” (Rogers, 1977), estando integralmente a serviço daquele processo de 
ajuda e sendo coerente com o seu modo de ser, pensar, agir e se relacionar. 
Esse processo também se relaciona com a necessidade de que o cliente conheça 
a si mesmo para experimentar maior autonomia em relação ao seu crescimento 
pessoal, motivo pelo qual se afirma que essa abordagem se baseia “na responsabi- 
lidade e na capacidade do cliente para descobrir os meios de entrar num contato 
mais pleno com a realidade. Sendo quem se conhece melhor, o cliente é quem pode 
descobrir o comportamento mais apropriado para si mesmo” (Corey, 1983, p. 77). 
A segunda atitude é a consideração positiva incondicional, que se refere ao fato 
de o profissional acreditar profundamente que aquela pessoa em busca de ajuda tem 
condições de amadurecer e resolver seus conflitos a partir desse crescimento e da po- 
tencialização das suas capacidades. É a aceitação do cliente sem reservas, julgamentos 
ou questionamentos sobre o seu modo de ser e as escolhas que tem tomado em sua 
vida. Essa atitude requer do profissional um exercício grande no sentido de aceitar 
o cliente com as suas possíveis incongruências e paradoxos como condição para que 
ele possa se sentir seguro, acolhido e respeitado no espaço do aconselhamento ou da 
psicoterapia. Em Rogers, a experiência terapêutica é apresentada como 
experiência de crescimento, ou seja, esse tipo novo de terapia 
não é uma preparação para a mudança, mas é a própria mudan- 
ça. O aspecto mais importante dessa mudança é a compreensão 
e a aceitação de si, pelo cliente, decorrentes de o terapeuta ter 
aceitado e reconhecido plenamente os sentimentos expressos por 
ele. Dai, a compreensão com as atitudes ou qualidades do tera- 
peuta (Almeida, 2009, p. 180). 
A terceira e mais complexa atitude se refere à empatia, também conhecida como 
postura empática, que seria a capacidade do profissional de abrir-se à possibilidade 
de experienciar, juntamente com o cliente, as suas dores, angústias e apreensões, 
conservando a capacidade de afetar-se e de conseguir refletir claramente sobre essa 
experiência a partir do ponto de vista da pessoa em sofrimento. Essa atitude é con- 
siderada a mais dificil de ser desenvolvida pelo profissional (Santos, 1982).
58 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO + Scorsolini-Comin 
Essas atitudes, consideradas basilares na abordagem centrada na pessoa e bastante 
recorrentes em estudos atuais que empregam esse referencial como suporte para inter- 
venções em diferentes contextos (Moreno & Reis, 2013; Pupo & Ayres, 2013), possuem 
uma reverberação nos pressupostos da Psicologia Positiva. O Quadro 4.2 sumariza as 
principais atitudes que devem ser desenvolvidas pelos profissionais do aconselhamento 
psicológico, com as definições dessas atitudes e respectivos exemplos. 
Atitude Definição Exemplo 
Congruência ou 
autenticidade 
A capacidade de ser o que se é de 
ser cosrente com as suas atitudes, 
valores, ndo devendo se inspirar 
em outros modelos e sim ser fiel 
ou condizente com a sua história, 
formação e princípios. 
O conselheiro deve ser coerente com o seu 
modo de ser, não pode se esconder atras 
de máscaras ou por meio de comportamen- 
tos que ele julga mais compatíveis com uma 
relação de ajuda, mesmo que tais atitudes 
se distanciem do que ele é realmente. Ser 
autêntico pode ser compreendido como ser 
“inteiro” na relação ou, então, de harmonia 
entre a experiência e a consciência ou da 
imagem que faz de si com as suas atitudes. 
Consideração 
positiva 
incondicional 
pelo outro 
Acreditar verdadeiramente que 
O outro é capaz, que pode mu- 
dar, que possui potencialidades 
e recursos pessoais para buscar a 
realização de seus desejos ou para 
atingir os seus objetivos. 
Como destacado por Rogers, é necessário 
acreditar no outro ou, em outras palavras, 
considerá-lo como alguém que possui con- 
dições de se modificar, de se estabilizar, de 
crescer como pessoa. Acreditar no cliente 
e em sua capacidade de mudança deve ser 
uma crença capaz de atuar no estabeleci- 
mento da confiança é mesmo nos rumos 
do tratamento. É um modo de expressar 
aceitação e estima pelo cliente, de acolhê- 
lo como pessoa, 
Empatia É a atitude mais complexa de ser 
atingida, segundo Rogers, uma vez 
que envolve a capacidade de estar 
junto com à outro, compartilhan- 
do as experiências e as sensações 
advindas dessas vivências, mas 
conservando a capacidade de ser 
outra pessoa. É mergulhar no uni- 
verso do outro sem ser 0 outro. 
Trata-se não apenas de compreender que 0 
cliente vive uma dada situação e que deve 
ser compreendido, aceito e respeitado. A 
empatia envolve a necessidade de “estar 
com” o outro, compartilhar sentimentos e 
experiências, indo além de uma compreen- 
são intelectual acerca do problema. É pen- 
sar e agir como se fosse o próprio cliente, 
mas conservando o adequado distancia- 
mento entre essas experiências. Estando 
com o cliente, o terapeuta pode compreen- 
dê-lo de modo mais vivencial, aproximando 
essas pessoas na relação de ajuda. 
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 59 
Atitude Definição Exemplo 
Ética Capacidade de agir tendo como 
norteadores às princípios básicos 
da ética que envolvem respeito 
pelo outro, sua história de vida, 
sua condição, suas caracteristicas 
e escolhas. Envolve respeito pelas 
diferenças, valores praticados e 
atitudes. É preciso diferenciar éti- 
ca de moralidade. 
O profissional do aconselhamento deve se- 
guir um código de ética profissional em vi- 
gência em seu pais. No caso do Brasil, des- 
taca-se O código de ética do psicólogo, pu- 
blicado em 2005 pelo Conselho Federal de 
Psicologia. Assim, deve manter O respeito 
pela individualidade do cliente, respeitar O 
sigilo das informações, não divulgar infor- 
mações confidenciais, bem como respon- 
der a um órgão de classe, porexemplo, ao 
Conselho Regional de Psicologia (CRP) onde 
se inscreveu como profissional. 
Respeito à 
diversidade 
Capacidade de respeitar é aceitar 
diferentes modos de agir diante 
das experiências da vida tendo 
por base a consideração de que 
às pessoas vivem, oOrganizam-se 
e escolhem de maneiras plurais, 
não necessariamente equivalendo 
ão nósso modo de agir diante das 
mesmas situações. 
Ó respeito à diversidade é um dos princi- 
pios norteadores de todo e qualquer pro- 
cesso de ajuda. Respeitar a diversidade não 
significa apenas considerar que o outro é 
alguém diferente, mas o profissional deve 
buscar refletir sobre os problemas apre- 
sentados pelo cliente a partir das diferen- 
tes formas de refletir e agir. Assim, deve 
evitar ao máximo as posturas julgadoras ou 
moralistas, que incidem sobre um modo de 
ser. Ao atender pessoas diferentes e com 
modos diversos de responder às ocasiões 
da vida, o conselheiro permite o estabele- 
cimento de uma relação de ajuda focada 
na confiança e na possibilidade de livre ex- 
pressão de quem se é. 
Respeito a 
cultura do 
Outro 
Evitar posturas etnocêntricas, ou 
seja, que levam em consideração a 
cultura da qual se faz parte como 
referência para a atuação naque- 
la sociadade. Cada cultura possui 
especificidades que devem ser co- 
nhecidas e respeitadas pelo profis- 
sional do aconselhamento. 
No aconselhamento de base multicultural 
ou desenvolvido com comunidades cultu- 
rais distantes da do conselheiro, é impor- 
tante sempre conhecer ao máximo a cultu- 
ra do outro e poder reflatir de que modo o 
cliente oferece à oportunidade para o pro- 
fissional conhecer um universo diferente 
de suas experiências pregressas. Há pará- 
metros específicos que podem e devem ser 
seguidos por profissionais que atendem a 
essas comunidades, notadamente no con- 
texto norte-americano. 
Capacidade de 
Ouvir 
A capacidade de ouvir passa pela 
consideração de que a mensagem 
que o outro quer nós comunicar 
carrega diferentes sentidos, aos 
quais precisamos estar abertos 
para captar, assimilar e compreen- 
der. 
Muitos profissionais, ansiosos para que 
seus clientes falem e se expressem, podem 
perder a capacidade de escuta, substituin- 
do à fala do outro pelas suas próprias expe- 
riências, possivelmente no sentido de evitar 
o silêncio ou buscar a maior expressão do 
cliente. É preciso aprimorar cada vez mais 
à capacidade de ouvir, não apenas as pala- 
vras proferidas pelo cliente, mas sua postu- 
ra, Seus gestos, O modo como se comporta 
na situação do atendimento. À partir disso, 
o conselheiro pode favorecer a melhor ex- 
pressão dos sentimentos do cliente. 
60 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Atitude Definição Exemplo 
Capacidade de 
falar 
Embora estejamos acostumados a 
pensar no aconselhamento como 
uma atividade essencialmente de 
escuta, é importante tratar dessa 
modalidade em termos de como o 
profissional pode comunicar ade- 
quadamente ao cliente as suas 
percepções e avaliações a partir 
do processo de ajuda. O conse- 
lheiro deve ser capaz de coómu- 
nicar O que é necessário, sempre 
com assertividade e compromisso 
ético. 
Embora o foco do atendimento seja na fala 
trazida pelo cliente, o conselheiro deve es- 
tar disponível e disposto para “falar”, ou 
seja, fazer intervenções verbais nas quais 
possa ajudar o cliente a organizar O seu 
pensamento, por exemplo, Pode ajudar, a 
partir dessa sua fala, que à cliente se reco- 
nheça e possa também falar mais aberta- 
mente sobre suas questões. 
Capacidade 
de suportar O 
“silêncio” 
O silêncio às vezes é visto de modo 
muito negativo, notadamente por 
terapeutas iniciantes e que ficam 
ansiosos diante de longas pausas 
no relato dos clientes. 
Ô profissional pode utilizar o silêncio como 
um disparador para uma conversa seguin- 
te, tentando pensar nos sentidos que esse 
silêncio pode evocar naquele processo de 
aconselhamento. Deve sempre tentar tra- 
zer esse silêncio para aquele atendimento, 
pensando a respeito do mesmo. 
Capacidade de 
implicar-se no 
processo de 
mudança do 
outro 
O profissional, mesmo O centra- 
do na pessoa, deve reconhecer 
que também é parte do processo 
de mudança experienciado pelo 
cliente. 
Não se trata de trazer os problemas do 
cliente para a sua própria vida e tentar re- 
solvê-los, mas de apoiar o cliente nesse pro- 
cesso de crescimento, reconhecendo seus 
avanços e retrocessos, oferecendo suporte 
ao longo da travessia do tratamento, consi- 
derando sua importância e participação ati- 
va no processo. 
Autoavaliação O profissional deve abrir-se aó 
processo de refletir constante- 
mente sobre a sua prática, rece- 
bendo feedback ou participando 
de supervisões ou discussões cli- 
nicas. Deve estar aberto a mudar, 
rêver-se, aprimorar-se. 
O bom profissional nunca estã pronto, mas 
está sempre a fazer-se, à modificar-se. Deve 
ter a capacidade não apenas de ser avalia- 
do como avaliar-se criticamente e com vis- 
tas ao seu crescimento pessoal e profissio- 
nal, aprimorando técnicas e formas de ser, 
Deve estudar continuamente. 
Postura 
científica 
O profissional só deve aplicar téc- 
nicas com as quais esteja familia- 
rizado e pelas quais possa se res- 
ponsabilizar. Essas técnicas de- 
vem ser fruto de sólidas pesquisas 
cientificas, com arcabouço teóri- 
co definido e amplamente aceito 
pela comunidade cientifica. 
O profissional deve estudar sempre e estar 
atualizado acerca de conceitos e técnicas 
que emprega em sua pratica profissional. 
Deve possuir postura científica, utilizando 
os saberes acadêmicos para orientar sua 
prática e também a pesquisa na area. Não 
deve compaciuar Ou empregar técnicas e 
práticas que não possuam respaldo cienti- 
fico ou a devida comprovação. 
Quadro 4.2 Principais atitudes a serem desenvolvidas pelo profissional do 
aconselhamento psicológico. 
Gostaria de chamar a atenção para uma dessas atitudes, com frequência apreen- 
dida como aparentemente simples no imaginário social e, muitas vezes, por alguns 
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 61 
estudantes que não iniciaram os seus estágios de atendimento, mas que julgo de 
extrema complexidade - a atitude de escuta. Muitas pessoas acreditam que é muito 
fácil ouvir o outro. Há, com frequência, pessoas que optam pela Psicologia como 
graduação por se considerarem bons ouvintes ou pessoas que se interessam pelas 
histórias de vida narradas por outrem. O interesse pela escuta do outro é sim um 
dos pré-requisitos para poder ouvir alguém com qualidade. Mas, para além desse 
“ouvir”, é preciso buscar um ouvir verdadeiro, para além das narrativas apresenta- 
das, tal como destaca Rogers: 
Foi ouvindo pessoas que aprendi tudo o que sei sobre pessoas, 
sobre a personalidade, sobre as relações interpessoais. Ouvir ver- 
dadeiramente alguém resulta numa outra satisfação especial. É 
como ouvir a música das estrelas, pois por trás da mensagem 
imediata de uma pessoa, qualquer que seja essa mensagem, há o 
universal. Escondidas sob as comunicações pessoais que eu real- 
mente ouço, parecem haver leis psicológicas ordenadas, aspectos 
da mesma ordem que encontramos no universo como um todo. 
Assim, existem ao mesmo tempo a satisfação de ouvir esta pes- 
soa e a satisfação de sentir o próprio eu em contato com uma ver- 
dade universal (Rogers, 2012, p. 5). 
A escuta refinada, atenta às diversas ressonâncias, é algo que nem sempre pode 
ser ensinado em cursos de aconselhamento, mas desenvolvido constantemente a 
partir da experiência de cada um. Alfred Benjamin (1978), em seu reconhecido tra- 
balho sobre a entrevista de ajuda, fundamental para a orientação dos futuros conse- 
lheiros, destaca que: 
Ouvir de verdade é um trabalho dificil, implicando muito pouca coi- 
sa de mecânico. Ouvir exige, antes de mais nada, que não estejamos 
preocupados, pois se estivermos, não podemos dar uma atenção ple- 
na. Em segundo, ouvirimplica em escutar o modo como as coisas es- 
tão sendo ditas, o tom usado, as expressões, os gestos empregados. E 
mais, ouvir inclui o esforço de perceber o que não está sendo dito, o 
que apenas é sugerido, o que está oculto, o que está abaixo ou acima 
da superficie. Ouvimos com nossos ouvidos, mas escutamos também 
com nossos olhos, coração, mente e visceras (p. 68). 
Ao destacar a atitude de escuta como essencial, Benjamin a compreende para além 
de uma função sensorial, de receber e armazenar as informações, mas como algo per- 
ceptual, ou seja, que ressoa sobre as percepções desse terapeuta, em busca de uma 
compreensão mais aprofundada do problema. Não se trata de ouvir para tentar “ser
62 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
justo” ou “organizar uma fala” aparentemente desconexa, mas de compreender a im- 
portância que aquelas palavras adquirem na experiência do cliente. O terapeuta deve, 
portanto, ampliar cada vez mais o seu repertório a partir das diferentes escutas no dia 
a dia, mas também deve ser capaz de “emprestar seus ouvidos” a uma escuta mais 
profunda, carregada de sentimentos, a partir da qual se busca clarificar a situação ou 
revelar ao próprio relator a ressonância de sua fala. O chamado “espelhamento”, por 
vezes atribuido a Rogers como algo mecânico, de devolver ao cliente aquilo que ele 
acabou de relatar, por exemplo, trata-se de uma tarefa muito mais complexa do que 
uma mera repetição para que o cliente se ouça. Na tentativa de fazer com que esse 
cliente também se ouça, o terapeuta deve “devolver” a ele uma fala que não seja ape- 
nas um retrato idêntico de sua expressão anterior, mas também uma ressonância de 
sua fala com uma intenção - dada pelo terapeuta - a fim de promover mudanças no 
modo como esse cliente tem se percebido ou mesmo se descrito. 
Ouvir com os diferentes sentidos e órgãos também é uma possibilidade apresen- 
tada por Benjamin (1978), ou seja, de escutar com o próprio corpo a corporeidade 
do outro, os gestos, a postura, o modo como se apresenta, como se encolhe, se 
expressa, se projeta para a frente, enfim, de que modo esse corpo acaba trazendo 
significações que podem ser importantes para a condução do processo terapêutico. 
Muitas vezes, os clientes não conseguem se expressar claramente com palavras, o 
que força o terapeuta não a tentar extrair a sua fala, mas possibilitar que seu cor- 
po, então, comunique o sofrimento ou o sentimento que precisa ser comunicado 
naquele momento do encontro. Essa capacidade, a de ouvir com o corpo e o corpo, 
parece ser um desafio que se renova a cada novo encontro com o cliente, exigindo 
atenção constante por parte do terapeuta no sentido de abrir-se de modo perene a 
essas várias “escutas”. 
Entre as competências profissionais necessárias para o aconselhamento psico- 
lógico, segundo a ACA (American Counseling Association), destacam-se o domínio de 
conteúdo, conhecimento de habilidades pró-sociais, como autoconceito e autoesti- 
ma, capacidade de demonstrar conhecimentos, capacidade de reconhecer a diversi- 
dade de saberes, definição de expectativas e metas apropriadas ao processo de acon- 
selhamento e avaliação das necessidades dos aconselhandos ou clientes. Além disso, 
espera-se que este profissional crie um ambiente de respeito para o estabelecimento 
do relacionamento com o cliente, que crie um ambiente de aconselhamento positivo 
e de apoio, estabelecendo uma cultura de relacionamentos de aconselhamento sig- 
nificativos. Encontramos nas orientações da ACA uma forte associação a princípios 
compartilhados e difundidos pela Psicologia Positiva, como a necessidade de trans- 
mitir entusiasmo aos clientes, acreditar que todos podem alcançar altos níveis de 
desenvolvimento, aplicando estratégias motivacionais. 
Competências específicas para o aconselhamento de carreira 
Embora tenhamos um capítulo especifico para a abordagem do aconselhamento 
de carreira, um dos focos deste livro, este item tratará igualmente das competências
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 63 
profissionais relacionadas ao aconselhamento psicológico, mas com especificidades 
relacionadas à carreira e à orientação profissional. Esta apresentação tem como ob- 
jetivo ilustrar ao leitor o modo como algumas competências do aconselhamento têm 
sido desenvolvidas para cenários específicos, em um processo de aprimoramento e 
especialização das funções do conselheiro. Assim, cada vez mais este profissional é 
convidado a se especializar em dado domínio do processo de ajuda, favorecendo a 
construção de áreas de pesquisa e atuação que promovam o bem-estar de diferentes 
populações. Essa chamada especialização para atuação em determinados contextos 
de aconselhamento ocorre em função da profissionalização de algumas associações 
de classe que visam não apenas reunir profissionais, mas também produzir conhe- 
cimentos e parâmetros éticos, conceituais, procedimentais e atitudinais para as in- 
tervenções nesses dominios. 
Em 1997, a National Career Development Association (NCDA) elencou as principais 
competências que deveriam orientar a atuação do profissional dedicado ao acon- 
selhamento de carreira. À versão inicial desse documento, intitulada Career Coun- 
seling Competencies, foi revisada em 2009. Há que se destacar que esse documento 
apresenta competências específicas dessa atuação no contexto da carreira, mas que 
podem ser consideradas no processo de formação do conselheiro de modo genera- 
lista, embora sejam destacados aspectos particulares atinentes às intervenções na 
carreira. Trata-se de um documento que norteia tanto a atuação desses profissionais 
quanto os programas de formação destes. No Brasil não encontramos associações 
equivalentes ou documentos específicos que realizem essas orientações e mesmo re- 
gulamentações, mas os documentos internacionais podem contribuir para a adoção 
de parâmetros nacionais. 
Essas orientações, segundo a NCDA (2009), destacam as competências mínimas 
necessárias para executar eficazmente uma ocupação ou trabalho especifico dentro 
da área de carreira, sumarizadas em domínios como: teoria do desenvolvimento de 
carreira, avaliação individual e em grupo, informações e recursos, gestão e imple- 
mentação de programas de aconselhamento de carreira, supervisão, questões éticas 
e legais, pesquisa e avaliação de tecnologias. A fim de atingir propósitos didáticos, 
haja vista que o presente capítulo busca reconhecer atitudes, competências e habi- 
lidades do conselheiro, o quadro a seguir compila as competências do conselheiro 
na área de carreira, extraídas do documento Career Counseling Competencies (NCDA, 
2009), comparando as que são específicas desse domínio de atuação e as que podem 
ser pensadas na formação do conselheiro generalista!. 
! No caso específico da comparação proposta neste quadro, deve-se enfatizar a ressalva de que ambas 
as colunas recuperam competências propostas pela National Career Development Association (NCDA) e que 
são aplicáveis especificamente aos profissionais que atuam no aconselhamento de carreira. À apropriação 
desse documento neste livro parte do pressuposto de que algumas dessas competências podem ser em- 
pregadas no aconselhamento psicológico aplicado em outras áreas (saúde, educação, comunidade, entre 
outras), aqui denominadas “generalistas” ou “não especificas” ou “não exclusivas”.
64 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Competências generalistas para o aconselhamento 
Estabelecer e manter relações pessoais produtivas com indivíduos. 
Estabelecer e manter um clima de grupo produtivo. 
Colaborar com os clientes na identificação de objetivos pessoais. 
Identificar e selecionar as técnicas apropriadas para os objetivos e necessidades de 
cada cliente. 
Desafiar e encorajar os clientes a tomar medidas para se preparar e iniciar transições 
de papéis em sua vida. 
Identificar os recursos da comunidade e estabelecerligações para ajudar os clientes 
com necessidades específicas. 
Apoiar e desafiar os clientes a examinar os papéis do trabalho em sua vida, incluindo 
o equilibrio entre trabalho, lazer, família e comunidade. 
Avaliar caracteristicas pessoais, tais como aptidão, realização, interesses, valores e tra- 
ços de personalidade. 
Capacidade de reconhecer as próprias limitações como conselheiro e procurar super- 
visão quando necessário. 
Habilidade para consultar supervisores e colegas sobre questões e problemas relacio- 
nados com o próprio desenvolvimento profissional como conselheiro. 
Conhecimento de modelos de supervisão e teorias. 
Capacidade de fornecer uma supervisão eficaz para profissionais em diferentes níveis 
de experiência. 
Desenvolver projetos de pesquisa e investigação adequados para o aconselhamento 
psicológico. 
Conhecer sistemas de orientação baseados em computador, bem como serviços dis- 
poníveis na Internet. 
Competências específicas para o aconselhamento de carreira 
Identificar e compreender as características pessoais dos clientes relacionadas com a 
carreira. 
Identificar e compreender as condições sociais contextuais que afetam as carreiras 
dos clientes. 
Identificar e compreender estruturas e funções familiares, sociais e culturais que este- 
jam relacionadas às carreiras dos clientes. 
Identificar e compreender os processos de tomada de decisão de carreira dos clientes. 
Identificar e compreender as atitudes dos clientes em relação ao trabalho e aos tra- 
balhadores. 
Identificar e compreender tendências dos clientes em relação ao trabalho e aos traba- 
lhadores com base no sexo, na raça e nas características culturais. 
Ajudar o cliente a adquirir um conjunto de características para a sua maior emprega- 
bilidade e desenvolvimento de habilidades para procurar emprego. 
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 65 
* Avaliar os interesses de lazer, estilo de aprendizagem, papéis de vida, autoconceito, 
maturidade de carreira, identidade profissional e indecisão de carreira. 
* Avaliar as condições do ambiente de trabalho. 
* Administrar, codificar e relatar resultados de instrumentos de avaliação de carreira de 
forma adequada. 
* Interpretar dados de instrumentos de avaliação e apresentar os resultados para os 
clientes. 
* Auxiliar o cliente a interpretar dados de instrumentos de avaliação. 
* Escrever um relatório preciso dos resultados da avaliação. 
* Implementar programas individuais e de grupo no desenvolvimento de carreira para 
populações específicas, em organizações de trabalho ou não. 
* Treinar pessoas sobre o uso adequado de sistemas baseados em computador para 
obter informações de carreira e planejamento. 
* Planejar, organizar e gerenciar um centro completo de recursos de carreira. 
* Implementar programas de desenvolvimento de carreira, em colaboração com os ou- 
tros profissionais. 
* Montar uma campanha de marketing e relações públicas em favor das atividades e 
serviços de desenvolvimento de carreira. 
* Ajudar o público em geral e os legisladores a entender a importância da orientação 
profissional, desenvolvimento de carreira e planejamento de trabalho para a vida. 
* Analisar necessidades futuras da organização e nível atual de competências dos cola- 
boradores e desenvolver a formação a fim de melhorar o desempenho. 
* Desempenhar a função de mentor e treinar funcionários. 
* Identificar abordagens alternativas para atender às necessidades de planejamento de 
carreira para os indivíduos de várias populações diversas. 
* Transmitir resultados de pesquisas relacionadas com a eficácia dos programas de 
aconselhamento de carreira e utilizar esses resultados em outras intervenções e pro- 
gramas. 
* Aplicar os procedimentos estatísticos apropriados para pesquisa de desenvolvimento 
de carreira. 
Quadro 4.3 Competências profissionais para o aconselhamento de carreira e para o acon- 
selhamento psicológico em diversos contextos a partir do documento Career 
Counseling Competencies, desenvolvido pela National Career Development 
Association (NCDA) em 2009. 
Competências para o trabalho multicultural 
Para finalizar esse capítulo, uma competência bastante discutida no contex- 
to norte-americano deve ser apresentada. Trata-se de competência multicultural
66 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
(Fouad, 2006; Sehgal et al., 2011). Em 2002, a APA adotou orientações específicas 
sobre educação, treinamento, pesquisa e prática multicultural a serem empregadas 
nos atendimentos a minorias étnicas e raciais, imigrantes, populações socialmente 
excluídas, entre outros. Incluem-se no rol das diversidades aspectos como classe 
socioeconômica, idade, maturidade psicológica (cognitiva e emocional), religiosida- 
de/espiritualidade, identidade sexual, identidade étnico-racial, aspectos familiares 
e localização geográfica. Esse documento (Guidelines on Multicultural Education, Trai- 
ning, Research, Practice, and Organizational Change for Psychologists) traz a necessidade 
de que a prática psicológica seja orientada pelo multiculturalismo e pela diversida- 
de. Assim, a cultura deve ser abordada nas práticas educativas desenvolvidas em 
diferentes contextos, a fim de que possa conhecer diferentes modelos e padrões 
culturais que regulam o desenvolvimento humano. O aconselhamento multicultural 
tem sido expressivamente evocado pela ACA e pela AMCD (Association for Multi- 
cultural Counseling and Development). Os autores que mais influenciaram a assunção 
dessa modalidade no aconselhamento, a partir de suas diferentes abordagens, foram 
Carl Rogers, Robert Carkhuff, Norman Kagan, Alan Ivey e Stanley Baker (LeBeauf, 
Smaby, & Maddux, 2009). 
A postura empática nos ajuda a compreender a multiculturalidade na medida 
em que devemos respeitar a realidade do outro, não estabelecendo julgamentos 
acerca do modo como se comporta, ou, no caso de uma determinada cultura di- 
ferente da nossa, não questionando o modo como funciona e se organiza. Essa 
reflexão é fundamental para que o terapeuta não julgue as regras culturais esta- 
belecidas e que organizam e dão sentido à vida e à convivência nessas diferentes 
culturas, entre elas a nossa. 
Um aporte que pode ser útil nessa discussão é a consideração do desenvolvi- 
mento humano como algo cultural, ideia esta defendida pela pesquisadora norte- 
-americana Barbara Rogoff. Para esta autora, o desenvolvimento é um processo que 
mostra regularidades, inclusive culturais, cabendo ao pesquisador a necessidade de 
conhecer a cultura, suas caracteristicas e regularidades, a fim de explorá-la de den- 
tro para fora, ou seja, buscando explicações que partam de reflexões elaboradas a 
partir da sua pertença a essa comunidade. 
concentro-me na participação das pessoas nas práticas e tradi- 
ções culturais de suas comunidades, em lugar de equiparar a cul- 
tura à nacionalidade ou à etnicidade dos indivíduos. Para com- 
preender os aspectos culturais do desenvolvimento humano, 
uma meta básica [...] é desenvolver a ideia de que as pessoas se 
desenvolvem como participantes das comunidades culturais. Seu 
desenvolvimento só pode ser compreendido à luz das práticas e 
das circunstâncias culturais de duas comunidades, as quais tam- 
bém mudam (Rogoff, 2005, p. 15).
Atitudes básicas do profissional do aconselhamento 67 
O que ocorre em muitos processos de aconselhamento é a consideração da 
cultura como algo que possa ser melhorado, comparado, mensurado. A critica de 
Rogoff (2005) reside justamente nessa compreensão equivocada de cultura como 
algo que não pode mudar e como dimensão que pode ser emparelhada para ser alvo 
de comparações. Buscando os processos de transformações e as regularidades de 
cada cultura, pode-se conhecer uma determinada cultura a fundo, a fim de entender 
o sentido de determinadas práticas naquele contexto específico. O aconselhamento 
psicológico organizado a partir dessas questões deve estar a serviçodessa com- 
preensão; o terapeuta deve se colocar disponível para refletir sobre culturas diferen- 
tes da sua, em uma consideração positiva incondicional sobre essa realidade. 
Neste ponto podemos refletir, emprestando as considerações da Antropologia 
sobre o risco dos posicionamentos etnocêntricos, sobre a necessidade de evitar- 
mos nos posicionar em oposição ou questionamento em relação à cultura do outro. 
Quando nos colocamos de modo etnocêntrico, favorecemos o questionamento sobre 
esse outro e suas características sociais e culturais - logo, o crivo passa a ser a cultu- 
ra do próprio conselheiro, que julga a pertinência ou adequação desses aspectos cul- 
turais no desenvolvimento do cliente. Tornam-se comuns questionamentos como: 
mas isso não faz sentido! Por que fazer/ser dessa forma? Você não pode agir assim! 
Por que tem que seguir essa crença? Você acredita nisso? Perguntas e comentários 
que, obviamente, colocam em evidência o modo de ser do profissional e o elegem 
como padrão de referência. 
No aconselhamento multicultural, por sua vez, há a necessidade de reconhecer a 
cultura do outro como constitutiva do seu modo de ser, não cabendo ao profissional 
levantar questionamentos ou criticar tais características, ainda que essas pareçam, 
em sua visão, “afetar” o cliente ou “dificultar” o seu crescimento pessoal. Esses 
elementos devem ser incorporados e refletidos como uma realidade experienciada 
pelo cliente, devendo o profissional estar aberto para a consideração dessa cultura 
no processo de aconselhamento como mais um aspecto particular da relação de 
ajuda estabelecida. Compreender essa cultura, suas regularidades e ressonâncias no 
indivíduo, a despeito de sua própria cultura, crenças e valores, parece ser o desafio 
mais premente nesse tipo de atendimento. 
Nos Estados Unidos, os parâmetros para atuação no aconselhamento multi- 
cultural estão presentes em todos os processos de aconselhamento. Isso pode ser 
observado quando analisamos a revisão das competências profissionais do aconse- 
lhamento de carreira propostos pela NCDA em 2009. A incorporação de diretrizes 
específicas faz referência a um contexto específico do cenário americano, marcado 
por populações de imigrantes e com diversidades étnico-raciais que fazem parte do 
pais. Mas, em linhas gerais, tais elementos podem ser incorporados em todos os 
processos de aconselhamento, a exemplo de atendimentos realizados em uma co- 
munidade religiosa, o que é apresentado de modo detalhado no capítulo final deste 
livro. De que modo o conselheiro pode se posicionar em processos marcados por 
elementos culturais aos quais não cabem julgamentos ou um juízo de realidade?
68 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Como absorver esses aspectos na condução do processo de aconselhamento? Essas 
são questões que atravessam a constituição do campo do aconselhamento psicológi- 
co e serão aprofundadas posteriormente. 
Para resumir e ampliar 
Neste capítulo, pudemos entrar em contato com algumas das principais carac- 
terísticas de um terapeuta para que este desempenhe do melhor modo possível a 
sua função no aconselhamento. Conhecemos as principais diretrizes na área e como 
essas características têm sido pensadas e desenvolvidas, por exemplo, por entidades 
de classe e por centros de profissionalização na área. 
Scheeffer (1980), amparada em autores como Williamson, Erickson, Rogers 
e MacLean, sumariza algumas características do profissional do aconselhamento, 
como: atitude objetiva e científica, formação acadêmica adequada (teórica e práti- 
ca), atributos pessoais (maturidade, liderança, discrição, empatia, bom ajustamento 
emocional, paciência, bom humor), sensibilidade nas relações humanas, respeito 
pelo ser humano, autocompreensão e sólidos princípios éticos. Acreditamos que 
todas essas dimensões sejam importantes para que sejamos bons profissionais do 
aconselhamento mas, também, é mister que estejamos abertos para uma reflexão 
constante acerca dessas atitudes em nossas práticas, a fim de que possam realizar 
ajustes (por exemplo, melhorando nossa formação acadêmica, sensibilizando-nos 
mais diante de determinados casos), ou mesmo reconhecer nossas limitações para 
que possamos, então, investir em nosso próprio crescimento pessoal. Assim, ou- 
samos resumir essas tantas atividades na capacidade de reflexão constante, tanto a 
partir do encontro com cada cliente como do nosso encontro com o que somos em 
nossa essência e em nossas experiências de vida. 
Ao final deste capítulo, você deve conhecer, portanto, sobre as principais com- 
petências, habilidades e atitudes de um profissional do aconselhamento psicológico 
e tentar responder às seguintes questões. 
1) Segundo Rogers, quais são as principais atitudes que devem ser desen- 
volvidas pelo terapeuta no contexto dos seus atendimentos clínicos? 
2) A partir da sua compreensão do capítulo, quais as três atitudes que você 
considera fundamentais para o bom estabelecimento de uma relação de 
ajuda? 
3) A partir da resposta à pergunta anterior, destaque uma dessas atitudes e 
traga exemplos dela a partir de suas vivências profissionais, pessoais e/ 
ou acadêmicas. Em qual situação você já empregou essa atitude? Quais 
os resultados que você encontrou?
05 
ÉTICA PROFISSIONAL NO 
ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO 
Pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra ética vem do grego ethiké e 
refere-se à ciência relativa aos costumes e princípios morais pelos quais um indivíduo 
rege a sua conduta pessoal ou profissional, sinônimo de código deontológico.! A atua- 
ção profissional do psicólogo tem sido alvo de constantes questionamentos e reflexões 
acerca dos aspectos éticos envolvendo a oferta de prevenção e tratamento psicológico. 
Essas constantes indagações, organizadas em fóruns, seminários e demais produções 
científicas centralizadas em órgãos de classe e também nas universidades constituem 
uma ferramenta primordial para o efetivo e qualificado exercício profissional compro- 
metido com o ser humano e com o constante aprimoramento de técnicas e saberes. 
A contemporaneidade tem oferecido uma série de exemplos de situações e contextos 
nos quais faz-se necessária não apenas uma reflexão em torno da ética profissional, 
mas também uma revisão acerca de como esses dilemas têm sido conduzidos pelos 
psicólogos e orientados pelas organizações de classe (Araldi, Diehl, & Maraschin, 
2013; Barros & Holanda, 2007; Gomes & Souza, 2000). 
Diferenciando moral e ética, La Taille (2006) afirma que a primeira refere-se às leis 
que normatizam as condutas humanas e tornam possível a vida em sociedade. Já a ética 
corresponde aos ideais que dão sentido à vida, impulsionando a pessoa no sentido de 
refletir sobre “que vida eu quero viver”? Assim, a ética coloca em destaque ideais como 
a dignidade do ser humano (Bataglia & Bortolanza, 2012), motivo pelo qual adotaremos 
esta definição como condutora da discussão aqui apresentada. Decorrente dessa defini- 
ção, atuar com respeito à dimensão ética significa “considerar os valores como criações 
humanas e acolher a diferença emergente nos diversos contextos como aquilo que re- 
A deontologia refere-se ao conjunto de princípios e regras de conduta, os deveres, inerentes a uma de- 
terminada profissão. Assim, cada profissional está sujeito a uma deontologia própria a regular o exercício 
de sua profissão, conforme o Código de Ética de sua categoria. Recuperado de .
70 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
siste à reprodução, como aquilo propiciador de transformações nos modos modelares 
e excludentes de estar no mundo” (Andrade & Morato, 2004, p. 345). 
A reflexão ética atravessa toda e qualquer atuação do psicólogo, quer seja na 
universidade, em consultórios, aparelhos públicos ou instituições. Uma das mo- 
dalidades nas quais pode atuar o profissional de Psicologia é ode Carl R. Rogers, têm oferecido a oportunidade de uma com- 
preensão mais ampla e complexa deste campo. 
"Martins, N. 5. (2008). 10 léxico de Guimarães Rosa. (3? ed.). São Paulo: EDUSE
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2 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO + Scorsolini-Comin 
Uma das formas de delimitar um conceito é partir daquilo que “ele não é”, ou 
do que “não representa”. A palavra aconselhamento, para os leigos, sugere ime- 
diatamente a oferta de conselhos. “Preciso de um conselho, por isso procurei um 
psicólogo.” Nessa frase está inerente a ideia de que a resposta para algum problema 
ou aflição viria, inequivocamente, desse profissional, e não do cliente que busca au- 
xílio. Essa é, talvez, a noção mais evocada ao tratarmos da área. O aconselhamento 
psicológico ensinaria, a partir dessas considerações, como o profissional poderia 
fornecer “conselhos”, “orientações”, prescrevendo formas de ser e de estar nas mais 
diversas situações da vida. Como destacado por Santos (1982), aconselhar “refere- 
se ao processo de indicar ou prescrever caminhos, direções e procedimentos ou de 
criar condições para que a pessoa faça, ela própria, o julgamento das alternativas e 
formule suas opções” (p. 6). 
A primeira parte desta sentença destaca uma visão de aconselhamento conside- 
rada diretiva, na qual o poder de decisão ou o julgamento acerca do melhor caminho 
a ser adotado está na figura do conselheiro que, por ser mais experiente ou ter uma 
visão técnica acerca do objetivo, tenderia a avaliar e solucionar a problemática de 
maneira mais adequada. Por exemplo, um orientador educacional, ao conhecer as 
principais aptidões de um candidato, sabe indicar ao orientando o melhor caminho 
profissional, a melhor carreira em função de suas demandas e recursos disponíveis. 
Embora essa já tenha sido a principal descrição de um processo de aconselhamento, 
no qual havia, literalmente, a indicação de “conselhos”, atualmente há um consenso 
de que a segunda parte da afirmação de Santos (1982) seja a que descreva de modo 
mais apropriado a função do aconselhamento, ou seja, a de oferecer condições, sub- 
sídios e criar possibilidades para que a pessoa, por si só, possa fazer julgamentos, . 
decidir, buscar o seu próprio crescimento pessoal. Ao conselheiro caberia a tarefa de 
acompanhar esse processo, facilitando a aprendizagem acerca de si. 
O campo profissional do Aconselhamento Psicológico começa a se formar na 
década de 1950, muito influenciado pela prática da orientação (nos Estados Unidos) 
e da orientação profissional (na Europa), que não eram atividades desempenhadas 
exclusivamente por psicólogos. O aconselhamento, nesse contexto, era identifica- 
do como uma atividade de orientação que tinha por objetivo promover o melhor 
“ajustamento” da pessoa a uma dada função ou, então, reconhecer uma gama de 
atividades que poderiam ser desempenhadas por um dado sujeito a partir das suas 
aptidões. Nessa busca por perfis mais adequados para determinadas ocupações, o 
aconselhamento estava fortemente associado à seleção de pessoal, à psicometria e 
à avaliação psicológica. Assim, não havia a preocupação de explorar o potencial da 
pessoa no sentido de promover o seu bem-estar, mas de enquadrar as suas habilida- 
des ou necessidades dentro de uma gama de possibilidades existentes. 
O aconselhamento era compreendido como um processo objetivo, diretivo, nor- 
mativo e até mesmo coercitivo, direcionado ao ajustamento e à adequação do sujeito 
a determinados contextos ocupacionais. Mesmo nos casos de orientação (não liga- 
dos à busca por uma ocupação), buscava-se compreender que o sujeito deveria per- 
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Aconselhamento Psicológico 3 
correr determinados caminhos, cabendo ao conselheiro orientá-lo nesse percurso. 
Ao entrar em contato com as dúvidas e o sofrimento do cliente, o profissional deve- 
ria se “colocar”, direcionando as “melhores” escolhas ou apresentando os caminhos 
considerados mais adaptativos. Essa primeira descrição do aconselhamento ocorreu 
também devido ao fato de que essa foi uma das primeiras áreas da Psicologia a sair 
dos laboratórios, sendo uma tentativa de aplicação dos princípios experimentais 
às pessoas e situações concretas. A teoria traço e fator foi considerada um grande 
expoente desse momento em que o aconselhamento criava o seu terreno de atua- 
ção: tratava-se, de posse dessa teoria, de conhecer as principais habilidades de uma 
pessoa para indicá-la a determinadas ocupações, de modo que essas habilidades 
poderiam ser mensuradas, comparadas, constituindo evidências para uma prática 
de orientação (Scorsolini-Comin, 2014). Em um contexto fortemente marcado pela 
industrialização, direcionar as pessoas para as ocupações consideradas “mais apro- 
priadas” a partir de um minucioso exame de suas competências e habilidades era 
uma forma de promover “ajustamento”, “adaptação” e economia de recursos com 
exaustivos processos de seleção e de treinamento profissional. Nessa época, 
O conselheiro assume, sem pudor, o lugar e o papel de modelo, 
veiculando normas de conduta, valores sociais e hábitos de cida- 
dania, atuando de forma diretiva e ativa na avaliação e no julga- 
mento do aconselhando. Essa atuação baseia-se na confiança no 
poder da educação como meio para atingir a “boa adaptação” so- 
cial do jovem e na crença no valor preditivo dos testes de aptidões 
e de personalidade. Concebido como processo de aprendizagem, 
o Aconselhamento supõe a necessidade de auxílio para o desen- 
volvimento das potencialidades de cada indivíduo, e esse auxílio 
funda-se nas informações que o conselheiro amealha por meio do 
diagnóstico do indivíduo e de seus conhecimentos sobre o contex- 
to social (Schmidt, 2012, p. 3-4). 
O que podemos observar é uma forte influência do diagnóstico nos processos de 
aconselhamento, haja vista a necessidade de direcionar as pessoas a partir da apli- 
cação de testes que tinham como objetivo retratar o indivíduo, suas aspirações, po- 
tencialidades e aptidões. De posse dessas informações, o conselheiro poderia fazer 
indicações relativamente seguras dos caminhos a seguir, das possibilidades dessa 
pessoa em uma fábrica, indústria ou comércio, por exemplo. Tratava-se de um co- 
nhecimento técnico, mensurável, com foco no ajustamento do indivíduo à sociedade 
industrializada. Obviamente que essa atuação diretiva e padronizada do conselhei- 
ro mostra-se bastante diferente do que hoje compreendemos por aconselhamento 
psicológico, o que pode ser transformado a partir dos estudos de Carl Rogers e da 
inter-relação do aconselhamento psicológico com a psicoterapia, na qual merece 
destaque a formação e a atuação do terapeuta no andamento do processo de ajuda.
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4 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
O “Counseling Psychology” substitui os antigos conceitos e méto- 
dos, originários da orientação profissional, modelada por Parsons e 
seus seguidores, pela ideia de um trabalho mais sensível à “unidade 
da personalidade”, mais sensível às pessoasaconselhamento 
psicológico (Santos, 1982; Schmidt, 2012; Scorsolini-Comin & Santos, 2013a) que, 
entre outras definições já apresentadas neste livro, trata da atenção psicológica de- 
senvolvida em um contexto no qual uma pessoa busca ajuda para solucionar algum 
problema de ordem emocional, educacional, existencial ou de carreira. O chamado 
cliente, tomando como base a abordagem centrada na pessoa (Rogers, 1974), en- 
contra no profissional de Psicologia uma ajuda que tem como objetivo o crescimen- 
to pessoal do aconselhando e o desenvolvimento de maior maturidade para que este 
possa fazer escolhas, tomar decisões e promover maior bem-estar. 
O aconselhamento é uma prática consagrada no contexto brasileiro, sendo empre- 
gada em diferentes contextos, como clínica, educação, saúde, institucional, organiza- 
cional e do trabalho (Scheeffer, 1980). Essa multiplicidade de contextos possíveis para 
o aconselhamento psicológico mostra a ciência psicológica para além dos tradicionais 
consultórios, inserindo-se em diversas esferas das políticas públicas (Araldi, Diehl & 
Maraschin, 2013) e levando à necessidade de maior aproximação dessas práticas com 
a realidade socioeconômica e politica do Brasil, em um cenário marcado pela desigual- 
dade social e pela multiculturalidade (Andrade & Morato, 2004). 
A partir desse panorama, devem-se discutir alguns dos principais aspectos éti- 
cos envolvidos na prática do aconselhamento psicológico. Para tanto, recorreremos 
a dois demarcadores legais dessa atuação, um no contexto brasileiro (Código de 
Ética Profissional do Psicólogo) e outro no contexto internacional (Código de Ética 
da American Counseling Association), ambos datados de 2005. A fim de explicitar as 
aplicações desses documentos e refletir sobre seus limites e potencialidades, serão 
discutidos excertos de uma atuação em aconselhamento psicológico desenvolvida 
em contexto comunitário, tendo como norte a abordagem centrada na pessoa. 
Códigos de ética profissional e a prática do aconselhamento 
A filosofia básica do código de ética é que os psicólogos devem dar o melhor de 
si para não provocar danos e problemas a outras pessoas por meio de seu trabalho 
profissional. Isso significa que um psicólogo deve evitar comprometimento com qual- 
quer ato ilegal ou moral que possa causar danos a alguém, física ou psicologicamente. 
Isso significa também que os psicólogos têm a responsabilidade social de usar o seu 
talento para ajudar as pessoas. Em outras palavras, o objetivo da profissão é melhorar 
as condições humanas por meio da aplicação da Psicologia (Spector, 2009, p. 30). 
Em 1953 foi elaborado o primeiro código de ética pela APA (American Psycholo- 
gical Association). Em sua atual versão, datada de 2010, traz como princípios funda-
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 71 
mentais: busca pelo bem-estar e pelos direitos dos clientes e das populações aten- 
didas; estabelecimento de relações de confiança, fidelidade e responsabilidade para 
com as pessoas atendidas; integridade e justiça; respeito pelas pessoas e sua dignida- 
de. Este código traz importantes aportes, como a necessidade de denunciar práticas 
realizadas sem a observância a essa legislação, bem como a necessidade de cooperação 
com outros comitês de ética. Ainda trata de aspectos específicos na veiculação cien- 
tífica, como plágio, originalidade dos dados e duplicação de informações, devendo 
esses aspectos ser observados pela comunidade acadêmica e profissional. O código, a 
exemplo de outras normativas em vigor na Psicologia, trata de questões como a confi- 
dencialidade, o anonimato, a promoção do bem-estar a partir das práticas psicológi- 
cas, a necessidade de informar a pessoa em atendimento sobre as características da 
intervenção, seus direitos e aspectos éticos envolvidos. Segundo Spector (2009), o 
código de ética da APA fundamenta-se nos seguintes princípios: 
a) competência, que se refere à necessidade de que o psicólogo só aplique 
e desenvolva técnicas para as quais esteja habilitado; 
b) integridade profissional, fazendo alusão a aspectos como justiça e ho- 
nestidade em suas práticas; 
c) responsabilidade científica e profissional, mantendo um alto padrão de 
comportamento profissional; 
d) respeito ao direito e à dignidade das pessoas, com preservação do di- 
reito à privacidade e intimidade dos clientes; 
e) bem-estar dos outros, devendo o psicólogo desenvolver e empregar téc- 
nicas que busquem promover essa experiência; 
f) responsabilidade social, que destaca a necessidade de empregar os co- 
nhecimentos psicológicos para o beneficio da sociedade. 
No Brasil, o atual código de ética profissional do psicólogo, em vigência desde 
27 de agosto de 2005, foi construido a partir de um amplo debate conduzido pelo 
Conselho Federal de Psicologia (CFP) e que contou com a participação de grande 
parte dos profissionais em nosso país. Segundo informações disponibilizadas no 
próprio texto do código, foram realizados diversos fóruns regionais e nacionais, com 
a participação de professores, profissionais, estudantes e entidades relacionadas ao 
CFP em um processo que durou três anos até a redação final dos artigos que com- 
puseram essa normativa. 
No contexto norte-americano, a atuação no campo do aconselhamento psicoló- 
gico é orientada, entre outros, pela American Counseling Association (ACA), que tem 
como missão aumentar a qualidade de vida na sociedade e promover o desenvol- 
vimento dos profissionais do aconselhamento. Busca, ainda, a partir dos saberes 
e das práticas em aconselhamento, promover a dignidade e o respeito à diversida-
72 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
de. O código de ética elaborado pela ACA para orientar os chamados conselheiros 
(counselors), que não necessariamente são psicólogos, como ocorre mais frequente- 
mente no Brasil, também foi divulgado em 2005. Há que se destacar que os profis- 
sionais de Psicologia que atuam com aconselhamento psicológico no Brasil respon- 
dem ao código de ética profissional do CFP não havendo diretrizes éticas específicas 
para essa área, haja vista que se trata de uma modalidade de atendimento psicoló- 
gico, ou seja, que se orienta pelos mesmos princípios que regem toda e qualquer 
atuação profissional do psicólogo. 
O código de ética da ACA apresenta, em seu início, que um dos objetivos cen- 
trais da atuação do conselheiro é promover o bem-estar do cliente, seu crescimento 
e a constituição de relacionamentos interpessoais saudáveis e positivos. Um grande 
direcionador dessa atuação está no respeito à diversidade cultural, ou seja, que o 
conselheiro deve respeitar e considerar essa diversidade no modo como o aconse- 
lhamento irá se organizar. Uma farta literatura internacional apresenta os chamados 
atendimentos multiculturais oferecidos a imigrantes, negros, asiáticos, latinos e po- 
pulações consideradas minorias étnicas como um dos focos centrais do aconselha- 
mento na contemporaneidade (Foley-Nicpson & Le, 2012; Sehgal et al., 2011; Yoon, 
Langrehr, & Ong, 2011), contribuindo para elaborar reflexões acerca de como os 
atendimentos a essas populações podem ser realizados sem uma visão etnocêntrica 
e que, de fato, incorpore essas diversidades no curso do tratamento e na construção 
da visão de ser humano por parte desses profissionais. Essa preocupação perpassa, 
por exemplo, a questão da linguagem e da correta comunicação entre cliente e con- 
selheiro, devendo o profissional se esforçar para adaptar seu modo de falar e seus 
termos à adequada compreensão do outro, sendo prevista a ajuda de intérpretes no 
caso de outros idiomas (ACA, 2005). A ACA considera, assim, que aspectos como 
idade, cor, cultura, grupo étnico, doenças, gênero, raça, preferência linguística, reli- 
gião, espiritualidade, orientação sexual e status socioeconômico possuem efeitos no 
modo como as pessoas se comportam e se relacionam, devendo o conselheiroestar 
atento a esses aspectos em sua prática. 
O código de ética da ACA é dividido em oito seções que tratam desde a concei- 
tuação do que vem a ser o relacionamento profissional entre cliente e conselheiro 
até os possíveis encaminhamentos acerca de dilemas éticos envolvendo a prática do 
aconselhamento. Possui uma seção que trata especificamente da pesquisa e da co- 
municação de resultados em publicações científicas. À pesquisa na área é compreen- 
dida como um cuidado ético que visa a informar a população acerca do que consiste 
o aconselhamento, suas técnicas, resultados e recomendações. Enquanto no Brasil 
as diretrizes éticas para à pesquisa envolvendo seres humanos são destacadas espe- 
cificamente na Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacio- 
nal de Saúde, a ACA já apresenta em um único documento o que deveria nortear o 
trabalho do pesquisador no campo do aconselhamento. A ACA trata do sigilo, do 
respeito à confidencialidade dos dados, da necessidade de assinatura de termo de 
consentimento livre e esclarecido, da não compactuação com métodos coercitivos
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 73 
para a obtenção de dados e entrevistas e da liberdade de o participante desistir da 
pesquisa a qualquer momento, sem quaisquer ônus ou sanções. O código de ética 
do CFP trata da pesquisa em seu artigo 16: 
O psicólogo, na realização de estudos, pesquisas e atividades vol- 
tadas para a produção de conhecimento e desenvolvimento de 
tecnologias: (a) avaliará os riscos envolvidos, tanto pelos proce- 
dimentos, como pela divulgação dos resultados, com o objetivo 
de proteger as pessoas, grupos, organizações e comunidades en- 
volvidas; (b) garantirá o caráter voluntário da participação dos en- 
volvidos, mediante consentimento livre e esclarecido, salvo nas 
situações previstas em legislação específica e respeitando os prin- 
cípios deste Código; (c) garantirá o anonimato das pessoas, gru- 
pos ou organizações, salvo interesse manifesto destes; (d) garanti- 
rá o acesso das pessoas, grupos ou organizações aos resultados das 
pesquisas ou estudos, após seu encerramento, sempre que assim o 
desejarem (CFP 2005, p. 14). 
Ainda sobre o código da ACA, o respeito à individualidade, diversidade, iden- 
tidade cultural, confidencialidade, sigilo e anonimato são pressupostos que devem 
atravessar a pesquisa e a prática na área. O documento é bastante específico e traz 
diretrizes sobre situações como o atendimento de pessoas que mantêm relaciona- 
mento íntimo entre si por parte de um mesmo profissional, por exemplo, sobre o 
atendimento a famílias com diferentes configurações e marcas culturais, ao contrá- 
rio do que se observa no código de ética do CFP que aborda diretrizes mais gerais 
que devem nortear o trabalho do psicólogo. Há que se considerar que o código de 
ética profissional em vigência no Brasil não é um documento isolado, mas que foi 
construido tendo como norte outros documentos como a Declaração Universal dos 
Direitos Humanos, a Declaração Universal dos Direitos da Criança, a Constituição 
Federal Brasileira de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990. 
Em termos da atuação do profissional de Psicologia, este deve reconhecer os 
limites de sua competência e de questões pessoais que possam colocar em ris- 
co a sua prática (Corey, 1983). O código da ACA destaca a necessidade de que 
o profissional esteja capacitado para oferecer ajuda. Tal necessidade também é 
reconhecida no código do CFP ao afirmar que o profissional só poderá empregar 
técnicas que realmente conheça e domine: “Assumir responsabilidades profissio- 
nais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tec- 
nicamente” (art. 1º, 2005, p. 8). No entanto, a ACA apresenta a necessidade de 
educação continua e de que os profissionais estejam constantemente capacitados 
para atender demandas que se renovam e que apresentam especificidades, como 
nos casos de emergências, calamidades e temas não contemplados pelo código.
74 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Assim, a ACA reconhece que o aprimoramento profissional não é apenas uma 
necessidade do conselheiro, mas um compromisso ético. É também responsabi- 
lidade do conselheiro utilizar instrumentos de avaliação psicológica que se mos- 
trem recomendados para determinadas situações, estando apto a responder sobre 
o emprego desse instrumento, a forma de codificar e interpretar esses resultados, 
bem como o melhor modo de devolvê-los ao cliente. Embora essas recomendações 
também perpassem o código do CFP há que se destacar que no Brasil existe um 
rigido controle sobre a prática da avaliação psicológica, como o Sistema de Avalia- 
ção de Testes Psicológicos (SATEPSI), que apresenta os instrumentos que podem 
ser empregados pelos psicólogos no território nacional. 
Um avanço do código da ACA é despender uma seção específica apenas para 
tratar das responsabilidades de docentes e supervisores que atuam na formação e 
na orientação de estágios de futuros conselheiros. Sobre eles recaem tarefas espe- 
cíficas, como acompanhar o desenvolvimento tanto do estagiário quanto dos casos 
por ele atendidos, mantendo sempre o bem-estar do cliente. Os supervisores estão 
submetidos ao código de ética da ACA, mesmo que não realizem pessoalmente os 
atendimentos. O código destaca a necessidade de que o profissional tenha uma for- 
mação específica para se tornar supervisor, estando obrigado a conhecer e dominar 
técnicas e métodos específicos de supervisão e não podendo orientar o trabalho de 
amigos, familiares e parceiros amorosos, entre outras ressalvas. Os estudantes e 
estagiários também são mencionados nessas diretrizes e devem seguir o código, a 
exemplo do que ocorre no código do CFP 
Assim, pode-se dizer que ambos os códigos aqui destacados trazem diretrizes 
que devem ser observadas pelos profissionais, sendo similares às orientações gerais. 
A ACA apresenta considerações específicas sobre o aconselhamento, haja vista que 
nos Estados Unidos há um profissional (counselor) responsável pelos atendimentos 
em aconselhamento e com uma formação exclusiva, o que é diferente no Brasil, em 
que o aconselhamento psicológico é realizado apenas por psicólogos, apesar de ou- 
tras formas de aconselhamento poderem ser empreendidas por outros profissionais, 
a exemplo de administradores que atuam na orientação de carreira. Mesmo estando 
sob a égide de um código profissional próprio (CFP 2005), os profissionais de Psi- 
cologia que atuam no aconselhamento psicológico no contexto brasileiro podem e 
devem conhecer outras normativas, a exemplo do código da ACA, não apenas para 
direcionar questões específicas de sua prática não contempladas pelo CFP como 
também para propor reflexões que possam ser incorporadas futuramente em possi- 
veis revisões do código em vigência. 
A ética na prática do aconselhamento psicológico 
Scheeffer (1980) apresenta o aconselhamento como uma modalidade de atendi- 
mento na qual as pessoas, frequentemente, deparam-se pela primeira vez com uma 
situação de escuta sobre os seus problemas emocionais, em condições especificas
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 75 
que a diferem de outras experiências com amigos e outros profissionais de saúde. 
Assim, são necessárias atitudes por parte dos conselheiros para que os preceitos 
éticos sejam respeitados e observados nessa relação, como elevado senso de respon- 
sabilidade, discrição, capacidade de discernimento e humildade para trabalhar com 
materiais de caráter sigiloso e privativo, correspondendo à confiança depositada 
no profissional. Esses preceitos também deveriam ter como objetivo a proteção do 
profissional, ou seja, trata-se de uma ética da relação. Autores da área são unisso- 
nos ao destacar os princípios éticos norteadores do aconselhamento (ACA, 2005; 
Rosenberg, 1987; Scheeffer, 1980): 
a) oconselheirodeve respeitar a integridade do cliente e protegê-lo, visan- 
do sempre ao seu bem-estar; 
b) deve manter sigilo e confidencialidade acerca das informações presta- 
das, devendo ser autorizado pelo cliente a fazer qualquer relato sobre o 
atendimento; 
c) o profissional deve realizar devolutivas sobre testes respondidos pelo 
cliente de modo que essa comunicação possa ajudar no processo de 
aconselhamento, ou seja, tendo em mente a necessidade desse feedback 
para o tratamento; 
d) o conselheiro deve encaminhar o cliente a outros profissionais quando 
houver demandas específicas que não possam ser respondidas por suas 
técnicas ou seu conhecimento; 
e) as possíveis gravações dos atendimentos ou utilização de dados do 
cliente para estudos e aulas devem ser consentidas pelo cliente, in- 
formando-o acerca dessa necessidade e de que o anonimato seja sempre 
preservado; 
f) o profissional deve sempre estar ciente de suas limitações e seus valores 
pessoais, a fim de que possa respeitar as diferenças e diversidades que 
atravessam o estabelecimento de uma relação de ajuda, bem como res- 
peitar e considerar eticamente este outro em busca de auxílio. 
No Brasil, uma das primeiras autoras a priorizar o contexto do aconselhamen- 
to psicológico como cerne para a discussão sobre a ética profissional foi Rosenberg 
(1987), que destacou os efeitos ou as consequências das condutas dos psicólogos 
em seus contextos de atendimentos em instituições ou consultórios, devendo o 
profissional estar atento à não diretividade de sua atuação, não exercendo qual- 
quer influência indevida sobre o cliente. A necessidade de não fazer julgamentos 
ou transmitir valores pessoais que possam direcionar as escolhas dos clientes fa- 
zem parte das orientações da abordagem centrada na pessoa, afirmando que o 
psicólogo é um facilitador do processo de reconhecimento, por parte do cliente,
76 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
de suas características, limites e potencialidades para resolver seus problemas e 
crescer. À conduta ética do psicólogo ao realizar o aconselhamento psicológico 
na abordagem centrada na pessoa, segundo Rosenberg (1987), residiria em sua 
postura pessoal básica, devendo o profissional sempre questionar-se sobre sua 
atuação e seus desdobramentos nos atendimentos e nos percursos desses clientes, 
como explorado por Corey (1983): 
Eu afirmo que não nos é possível excluir nossos valores e crenças 
da relação com os clientes, a não ser que realizemos um “aconse- 
lhamento” rotineiro e mecânico. [...] Creio que, embora tenhamos 
a obrigação de expor nossos valores, nossa obrigação ética é no sen- 
tido de nos abstermos de impor tais valores aos clientes (p. 279). 
Amatuzzi (2012), ao tratar das contribuições de Rogers no campo da psicotera- 
pia, destaca que este autor não trouxe uma nova técnica para a abordagem de anti- 
gos problemas, ou novos meios para a resolução desses problemas, mas justamente 
uma nova ética ao trazer novos fins, instaurando um novo paradigma. Assim, Rogers 
mudou o modo de compreender esses problemas e a relação de ajuda, conferindo 
maior autonomia àquele que busca auxílio e tornando o psicólogo um facilitador do 
processo de crescimento. Rogers propõe, com isso, não uma nova tecnologia, mas 
uma mudança ética. A partir disso, Amatuzzi destaca que: 
a ética equivale a afirmar o valor único da pessoa e olhar o ser hu- 
mano com um senso de respeito que decorre da natureza própria e 
original desse objeto. É olhar para ele não como algo útil, mas como 
ser portador de um valor próprio e inalienável, como ser que me 
interpõe algo de absoluto. É respeitá-lo naquilo que ele é (p. 21). 
A abordagem centrada na pessoa, desse modo, propõe uma ética que respeita a 
pessoa que busca ajuda “naquilo que ela é”, devendo o profissional evitar julgamen- 
tos, diagnósticos e tentativas de “enquadramento” da pessoa em quaisquer catego- 
rias. Obviamente que esta ética não se desdobra estritamente naquela apresentada 
em códigos profissionais, mas pode e deve orientar o olhar do profissional de Psico- 
logia para sua atuação no campo do aconselhamento e das psicoterapias, como ilus- 
trado na seção seguinte, que aborda a construção de um serviço de aconselhamento 
psicológico em uma comunidade religiosa. 
Desafios éticos e possibilidades da atuação 
em aconselhamento psicológico 
Destacamos, a seguir, algumas questões éticas emergentes na atenção psicoló- 
gica a uma comunidade religiosa localizada em uma cidade do interior do Estado
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 77 
de São Paulo.” Nessa comunidade, são desenvolvidas diversas pesquisas científicas 
interessadas não apenas nos aspectos religiosos (Bairrão, 2005; Macedo & Bairrão, 
2011), mas também nas relações estabelecidas pelas pessoas da comunidade, as prá- 
ticas de saúde e cuidado veiculadas, bem como assistência emocional oferecida nos 
atendimentos com entidades incorporadas por médiuns nos dias em que o centro 
se abre ao público. Neste livro, essa comunidade será utilizada como um contexto 
para diversas reflexões, não sendo nosso objetivo discorrer sobre uma determinada 
religião. Assim, o foco está nas intervenções psicológicas realizadas nessa comu- 
nidade, mas que poderiam ter outros contextos (religiosos ou não) como cenários 
possíveis. Como reflexão ética, é importante, aqui, suspender nossos juízos de valor 
e de realidade para uma melhor compreensão da experiência relatada. 
Os terreiros de umbanda, também nomeados por muitos como centros espiritas, 
são instituições religiosas que possuem como objetivo a oferta de serviços de ajuda 
e de apoio emocional a pessoas com diferentes demandas, desde busca por curas 
para doenças até mesmo alívio de sofrimento decorrente de separações, educação 
dos filhos, desemprego, entre outras tantas possibilidades. Assim, trata-se de um 
espaço consagrado como de busca de ajuda. Há que se destacar que a umbanda 
é considerada uma religião genuinamente brasileira (Concone, 1987) por ter sido 
desenvolvida exclusivamente em nosso contexto, mesclando elementos do catolicis- 
mo, do espiritismo kardecista e do candomblé. 
Na comunidade que ilustra este estudo, são desenvolvidos atendimentos psi- 
cológicos nas modalidades de aconselhamento, plantão e psicoterapia a cargo de 
psicólogos e professores que realizam pesquisas nesta instituição. Assim, uma 
parte dessas investigações trata da oferta de apoio psicológico às pessoas daquela 
comunidade, como médiuns, familiares dos médiuns e pessoas que frequentam 
o centro como consulentes. Os atendimentos psicológicos são realizados no pró- 
prio centro, em uma sala reservada com poltronas e cadeiras. Esses atendimentos 
ocorrem em dias e horários previamente agendados em função da disponibilidade 
da comunidade e dos profissionais, bem como em plantão psicológico, que ocor- 
re às sextas-feiras no período da noite. Neste mesmo período são oferecidos os 
atendimentos mediúnicos, de modo que os psicólogos se colocam à disposição 
da comunidade ao mesmo tempo em que os médiuns, de modo que uma mesma 
pessoa pode se consultar com um profissional de Psicologia e, antes ou depois, 
consultar-se com um guia espiritual. 
* Para mais detalhes acerca das intervenções em aconselhamento e plantão psicológico realizadas neste 
contexto de atenção, indico a leitura do Capítulo 9 deste presente livro, além de dois artigos publicados 
no ano de 2014 e que narram experiências ernopsicológicas nesta mesma comunidade de referência: 
Scorsolini-Comin, E (2014). Atenção psicológica e umbanda: Experiência de cuidado e acolhimento 
em saúde mental. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 14(3), 773-794. 
Scorsolini-Comin, F. (2014). Plantão psicológico centrado na pessoa: Intervenção ermnopsicológica em 
terreiro de umbanda. Temas em Psicologia, 22(4), 885-B99,
78 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Não faz parte dos atendimentosem aconselhamento e plantão o questionamen- 
to acerca dos atendimentos mediúnicos ou dos aspectos religiosos da umbanda, 
pelo contrário - os elementos discutidos nas conversas com as entidades espirituais 
constituem um mote a partir do qual essas pessoas podem ser acessadas pelo psi- 
cólogo, de modo que, em uma perspectiva etnopsicológica (Macedo, Bairrão, Mes- 
triner, & Mestriner Junior, 2011), a inscrição do sujeito neste universo deve ser 
tomada como uma característica, uma busca de ajuda, não cabendo ao profissional 
questionar a veracidade, a eficácia ou a necessidade dessa escuta espiritual. 
Nesse cenário, os atendimentos começaram a ser desenvolvidos a partir tanto da 
disponibilidade dos profissionais quanto dos “encaminhamentos” realizados pelo 
chefe da comunidade, o pai de santo. Ao ouvir diferentes queixas todos os dias, este 
senhor procurou os psicólogos e destacou a importância de que pudessem atender a 
uma demanda da instituição, oferecendo atendimentos nos casos em que, segundo 
ele, a ajuda de um profissional de Psicologia se fazia necessária. Assim, os atendi- 
mentos passaram a ser organizados e centralizados no espaço do próprio centro 
desde o ano de 2013. Foi organizada uma sala da instituição com caracteristicas 
propícias aos atendimentos, oferecendo conforto e sigilo às pessoas atendidas. 
Algumas questões éticas emergem neste contexto de atenção. Entre os princi- 
pios fundamentais da atuação do psicólogo, destaca-se a necessidade de que este 
trabalhe “visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletivi- 
dades” e contribua “para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discrimi- 
nação, exploração, violência, crueldade e opressão” (CFP 2005, p. 7). Nesse sentido, 
os atendimentos psicológicos realizados na comunidade partem do pressuposto de 
que as pessoas que buscam esse acolhimento estão em sofrimento emocional, de- 
vendo ser oferecida a elas uma escuta qualificada e uma possibilidade de construir, 
por meio do diálogo, da reflexão e da aceitação incondicional, uma nova forma de 
compreender seus problemas e buscar soluções. Ao criar um espaço de acolhimento, 
busca-se contribuir também para a promoção da saúde a partir da adoção de práticas 
mais saudáveis e de cuidado consigo mesmo. Assim, os atendimentos são conside- 
rados, na comunidade, espaços de escuta e de cuidado a que todos podem recorrer, 
na medida da sua necessidade e do seu desejo ou interesse. 
O terceiro princípio fundamental do código de ética profissional do psicólogo 
destaca que “o psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e 
historicamente a realidade política, econômica, social e cultural” (CFP 2005, p. 7). 
Dessa assertiva derivam algumas considerações, entre elas a necessidade de que o 
profissional reconheça as aproximações e os distanciamentos entre seus saberes e 
práticas daquele contexto no qual pretende atuar. Ao considerar as diversidades (e 
possíveis adversidades) envolvidas nesse contato com uma determinada comunida- 
de, pode compreender movimentos que permitam uma análise crítica e histórica da 
realidade, com respeito à alteridade, evitando um olhar etnocêntrico, o que consti- 
tui um dos pilares da atuação do etnopsicólogo (Leal de Barros & Bairrão, 2010) e 
também do aconselhamento multicultural. Assim, é fundamental que o psicólogo
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 79 
conheça a comunidade e as características das pessoas que a compõem, as relações 
sociais estabelecidas, as formas de ajuda e cuidado existentes, bem como o modo 
como essas pessoas vivem, trabalham, comunicam-se e se relacionam, consideran- 
do sempre o contexto de imersão como ponto de referência e não como ponto de 
distanciamento para o exercício profissional. 
À atuação do psicólogo em uma instituição, no caso do relato em apreço, desta- 
ca a necessidade de constante atenção a um dos princípios fundamentais do código 
de ética profissional, que é contribuir para “promover a universalização do acesso 
da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços 
e aos padrões éticos da profissão” (CFP 2005, p. 7). Cabe ao profissional, des- 
se modo, esclarecer às pessoas por ele atendidas o que constitui um atendimento 
psicológico, qual a função daquele espaço de cuidado, quais as técnicas e regras 
envolvidas naquele exercício e de que modo as pessoas ali atendidas podem ser 
respeitadas e terem identidade, intimidade e história de vida preservadas. Essas 
informações, destacadas no contrato inicial, podem ser retomadas sempre que o 
cliente apresentar dúvidas e questionamentos sobre os procedimentos empregados 
ou sobre a própria relação com o terapeuta. Também é importante que o profissional 
esclareça quais os equipamentos públicos e privados que também oferecem apoio 
psicológico especializado, a fim de que a demanda existente possa ser esclarecida 
acerca da cidadania e dos serviços aos quais ela tem direito e para os quais também 
pode ser encaminhada. 
Ao longo dos atendimentos, a questão da confidencialidade tem se mostrado 
uma preocupação constante dos profissionais e também das pessoas por eles atendi- 
das. O artigo 9º do código de ética destaca que é dever do psicólogo “[...] respeitar o 
sigilo profissional a fim de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das 
pessoas [...]”. Isso se torna fundamental, pois se trata de uma comunidade em que 
todos se conhecem pessoalmente, têm acesso às diferentes histórias de vida, e onde 
há certa “invasão” do espaço privado. Nos atendimentos espirituais, as pessoas re- 
latam seus problemas a um médium incorporado, com o auxílio de um cambono 
(ajudante) que ajuda o consulente a compreender expressões e palavras ditas pelas 
entidades. Desse modo, o problema relatado passa pela compreensão não apenas do 
médium incorporado, mas também do cambono, este último estando consciente, ou 
seja, não está em transe de possessão. Assim, estabelece-se uma relação ética, na 
medida em que os conteúdos ali tratados não podem ser compartilhados em outras 
instâncias. Embora essa orientação não esteja escrita em nenhum código da comu- 
nidade, há que se considerar que os preceitos éticos são transmitidos por uma edu- 
cação informal durante o processo de aprendizagem e desenvolvimento espiritual 
desse cambono que segue, normalmente, para se tornar um médium. 
No entanto, no contexto do aconselhamento psicológico desenvolvido nesta co- 
munidade, há que se retomar constantemente que os conteúdos trazidos e explo- 
rados no atendimento psicológico são exclusivos daquela relação e daquele espaço.
80 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
Um processo importante tem sido o de conversar com diversas pessoas da comu- 
nidade, não apenas as que estão em atendimento, sobre as características dessa 
atenção, quem é o profissional que está a cargo delas e quais os pressupostos éticos 
envolvidos, notadamente a confidencialidade e o sigilo das informações. Algumas 
pessoas trazem questionamentos de como é uma psicoterapia, do que as pessoas 
falam, como falam e como os conteúdos são encaminhados. Nessas ocasiões, é ne- 
cessário que os profissionais de Psicologia tragam informações sobre sua prática 
profissional, bem como esclareçam que psicólogos não atendem apenas pessoas 
com sofrimento mental, popularmente conhecidas como “loucas”, que não reco- 
mendam remédios ou prestam apoio espiritual. Informá-las sobre o que é saúde 
mental, quais as técnicas empregadas, em uma linguagem acessivel e compatível 
com o entendimento de cada um, faz parte da responsabilidade ética da profissão. 
O imaginário da comunidade, expresso em muitas falas acerca dos atendimen- 
tos, retrata que o psicólogo trataria de “loucos”, pessoas desequilibradas, em uma 
perspectiva remediadora e com foco na doença mental. No entanto, o aconselhamen- 
to psicológico, estando a serviçoda promoção de saúde (Schmidt, 2012), propõe 
justamente outro foco, que deve ser veiculado, divulgado e informado às pessoas da 
comunidade. Essa explicitação dos objetivos dos atendimentos acaba sendo trans- 
mitida oralmente pelos psicólogos, sempre que as pessoas trazem questionamentos 
ou comentários que expressam esse imaginário acerca do psicólogo, o que se mostra 
comum nas camadas populares, que possuem, geralmente, acesso por vezes restrito 
a esse profissional de saúde. 
No contexto etnopsicológico de atenção, abre-se a necessidade de que o psicó- 
logo conheça a comunidade na qual pretende atuar, seus principais personagens, 
seus modos de organização. Deve-se abrir à possibilidade de imersão nessa comu- 
nidade a exemplo do que Rogers comenta sobre a imersão do psicólogo no con- 
texto do atendimento psicoterápico: “Quanto mais completa for a imersão, quanto 
mais durar, quanto mais abertura eu estiver para todas as sutilezas de minha expe- 
riência, maiores probabilidades terei de descobrir novos conhecimentos” (Rogers, 
1967, p. 61, citado por Doxsey, 2011). Assim, cabe ao psicólogo que atua em uma 
comunidade religiosa promover uma imersão não apenas quando do atendimento 
face a face, individual, mas também como forma de aproximação da comunidade, 
podendo conhecer linguagens específicas, redes de relacionamentos e modos de 
funcionamentos que possam contribuir para uma apropriação mais acurada acerca 
da pessoa em busca de ajuda. 
Como compreender as referências religiosas sem uma adequada imersão neste 
universo? Seriam os saberes psicológicos transmitidos na formação profissional su- 
ficientes para embasar uma atuação nesse contexto? A necessidade de capacitação 
contínua, a exemplo do que se apregoa no código de ética da ACA, poderia contri- 
buir para que novos conhecimentos e demandas fossem compartilhados, aprendidos 
e reconhecidos como passíveis de atenção psicológica. No entanto, essa capacitação
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 81 
não pode cristalizar formas de atuação ou reforçamento da posição do especialista, 
do psicólogo como aquele que detém o conhecimento de modo exclusivo. Como nos 
alertam Andrade e Morato (2004), “nas práticas institucionais faz-se necessário, 
pois, que o psicólogo se despoje do lugar de especialista, portador de um saber a ser 
transmitido e passe a funcionar como um mediador, um entre, que acolhe a produção 
emergente nos diversos encontros” (p. 347). 
É importante também destacar a formação em Psicologia na graduação e em 
programas de pós-graduação. Como afirmado por Rogers (Zimring, 2010), um dos 
modos mais eficazes de promover a aprendizagem consiste em colocar o estudante 
em confronto experiencial direto com problemas práticos — de natureza social, ética 
e filosófica ou pessoal - e com problemas de pesquisa. As experiências ocorridas 
neste contexto comunitário religioso podem ser disparadoras não de uma atitude de 
julgamento entre certo e errado, mas como uma reflexão que considere um contexto 
que possui especificidades sociais, culturais, históricas e religiosas que, no entanto, 
não são tão externas ao pesquisador ou ao conselheiro. É no exercício de refletir 
sobre a experiência, tentando absorvê-la, que se podem conhecer os pontos de en- 
contro, os nós e as possibilidades de novas tessituras. 
Serralha (2011) destaca que a psicanálise, tradicionalmente, discute a questão 
ética relacionada à naturalização das necessidades humanas e à proposição de cuida- 
dos universalizada e utópica, dando origem a diversos códigos e protocolos necessá- 
rios ao exercício profissional. No entanto, essa dimensão normativa não pode obs- 
curecer no profissional de Psicologia a “capacidade de ver e estar com o outro, de se 
sentir na condição do outro para, então, oferecer um cuidado que vá ao encontro da 
necessidade deste, no tempo. Um cuidado que depende não só de conhecimentos, 
mas também da sensibilidade e disponibilidade do cuidador” (p. 18). A perspecti- 
va fenomenológica e existencial parece concordar com esse posicionamento. O ser 
humano ético, para Andrade e Morato (2004), deve se deixar afetar pelo estranho 
e acolher a alteridade e a produção da diferença emergente. É próprio do campo da 
ética, nessa acepção, “transmutar-se do lugar da explicação sobre o lugar do aprender 
com ou aprender entre” (p. 347). É nesse sentido que a chamada ética do cuidado se 
aproxima da ética instaurada por Rogers com o movimento humanista (Amatuzzi, 
2012). As atitudes são mais decisivas do que os comportamentos, o que equivale 
a dizer que o modo como eu olho, compreendo, aceito e acolho a pessoa em sofri- 
mento é mais importante que a maneira como interpreto os seus comportamentos e 
as suas razões. Assim, o agir (também profissional) deve decorrer do que a pessoa 
possui como valor, o que ressoa constantemente em sua concepção ética. 
Para resumir e ampliar 
Os princípios éticos que envolvem a prática do aconselhamento psicológico 
estão melhor explicitados em documentos internacionais, haja vista a maior deli- 
mitação dessa área notadamente no contexto norte-americano. Scheeffer (1980), a
82 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
partir da leitura do código de ética da APA, sumariza em quatro pontos principais as 
diretrizes para a atuação do conselheiro: responsabilidade para com o cliente, para 
com a sociedade, para com a instituição empregadora e seus colegas e, por último, 
para consigo próprio e sua profissão. Consideramos que o código de ética profissio- 
nal do psicólogo em vigência no Brasil oferece subsídios suficientes para a atenção 
psicológica nessa modalidade de atendimento. No entanto, julgamos necessário que 
este código se abra às diversidades inerentes à atuação desses profissionais, consi- 
derando também os dilemas éticos aos quais estão submetidos ao realizarem suas 
práticas em diferentes contextos. 
Haveria um código de ética específico para o aconselhamento psicológico? Ten- 
do em consideração o contexto nacional, acreditamos que o código do CFP é bastan- 
te generalista e amplo, a fim de cotejar a maioria das questões por vezes enfrentadas 
no exercício profissional. No entanto, a necessidade de explicitar questões éticas 
específicas dessa prática (por exemplo, no plantão psicológico) ou mesmo de deli- 
mitar a necessidade de educação continua ou de formação específica para supervi- 
sores de estágio pode ser um mote para reflexões e, possivelmente, revisões dessa 
normativa, que completa dez anos de existência em 2015. 
Consideramos que a atuação aqui destacada como forma de ilustrar e compreen- 
der criticamente os princípios éticos presentes no código profissional e em demais 
normativas deve conduzir o psicólogo a uma constante reflexão sobre os cenários 
nos quais desenvolve suas práticas, estando atento aos dilemas éticos emergentes. 
Assim, pode contribuir para um dos princípios que norteiam o seu exercício profis- 
sional, o de atuar “com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento pro- 
fissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico 
de conhecimento e de prática” (CFP 2005, p. 7). 
A prática do aconselhamento psicológico realizado extramuros (Andrade & Mo- 
rato, 2004) tem se constituído como um importante mote para reflexões diversas, 
entre elas a possibilidade de o profissional de Psicologia romper o paradigma no 
qual aparece como detentor de um saber ou como aquele que promoverá mudan- 
ças e resolverá problemas. A responsabilização do sujeito e a consideração positiva 
acerca de suas potencialidades podem e devem compor o repertório ético da atua- 
ção profissional, o que encontra ressonância na comunidade religiosa investigada. 
Desmistificar a prática psicológica respeitando seus preceitos éticos é uma forma de 
aproximar pessoas e comunidades de um saber que se propõe, constantemente, à 
promoção da saúde e do bem-estarpessoal. 
Muitas das questões éticas aqui assinaladas podem e devem ser refletidas a par- 
tir de um exercício profundo de compreensão, tal como proposto por Rogers em 
sua abordagem centrada na pessoa: compreender é a “tentativa constante de ver o 
mundo com os olhos do outro, de sentir o que se passa nele como ele o sente, de en- 
tender a realidade como ele a entende, procurando alcançar os significados próprios 
que ele lhe dá” (Rudio, 1986, p. 40). Nesse sentido, a ética humanista estaria aberta
Ética Profissional no Aconselhamento Psicológico 3 
constantemente para revisões, na medida em que é o conhecimento do outro e sua 
autonomia que servem como balizas para a reflexão ética que deve acompanhar pe- 
renemente o profissional dedicado ao campo do aconselhamento. 
A partir dessas considerações e dos elementos trazidos neste capítulo, responda 
às questões a seguir: 
a) O que você compreende por ética? 
b) Qual a importância da existência de um código de ética profissional para 
a atuação do profissional de Psicologia? 
c) Quais os principais aspectos éticos envolvidos na oferta de uma relação de 
ajuda profissional, como no caso do aconselhamento psicológico? 
d) Após ler o código de ética profissional do psicólogo (CFP 2005), destaque 
um dos aspectos desse documento e discorra sobre a sua aplicação no 
contexto do aconselhamento psicológico.
ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO E PSICOTERAPIA 
Foi o estudo de Carl Rogers (1942), especificamente a publicação da obra Counseling 
and Psychotherapy, que promoveu uma ampliação no campo do aconselhamento e a 
sua maior aproximação da Psicologia Clínica e da psicoterapia, que já tinha bastante 
tradição à época. Para Rogers, havia semelhanças e diferenças entre esses campos, 
embora não devesse ser tarefa fundamental delimitar os objetivos de cada uma dessas 
atuações, pois ambas se colocavam a serviço de pessoas em sofrimento que buscavam 
ajuda (Almeida, 2009; Castelo Branco, 2011). Esses embates já foram mais tradicio- 
nais na Psicologia, que buscava um maior esclarecimento acerca de seus campos de 
atuação, notadamente nos anos seguintes à publicação desse trabalho de Rogers. No 
entanto, ainda hoje esses campos parecem chocar-se, mesclar-se e complementar-se 
em diversas questões do processo de ajuda. 
Desse modo, o objetivo deste capítulo! é delimitar, a partir de estudos da área do 
aconselhamento psicológico, quais as aproximações e distanciamento deste campo do 
saber psicológico com a psicoterapia. A meta é permitir a clara identificação de práti- 
cas por estudantes e profissionais da área da Psicologia, visando ao aperfeiçoamento 
de técnicas e saberes de ambos os campos. 
Este capítulo está dividido em duas partes. Na primeira delas abordaremos os dis- 
tanciamentos entre aconselhamento e psicoterapia, seguidos das aproximações entre 
essas áreas e suas respectivas técnicas a partir de teóricos que discutem a questão. 
Apesar de esses autores construírem as suas considerações norteados por determina- 
dos referenciais teóricos, entre os quais se destaca a abordagem centrada na pessoa, 
o presente estudo não pretende se filiar estritamente a uma abordagem específica de 
|O recorte trazido neste capítulo foi originalmente publicado em formato de artigo pela Contextos Clf- 
nicos (ISSN 1983-3482). Agradeço ao conselho editorial da revista pela autorização da veiculação de seu 
conteúdo neste livro. Referência do artigo: S&corsolini-Comin, E (2014). Aconselhamento psicológico e 
psicoterapia: Aproximações e distanciamentos. Contextos Clínicos, 7(1), 2-14, doi: 10,4013/ctc.2014,71.01
Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia E5 
aconselhamento, primando pelo diálogo entre os posicionamentos existentes. Não 
se trata, no entanto, de esgotar tais posicionamentos, mas de recuperar as consi- 
derações disponíveis tradicionalmente na área e possibilitar a abertura para que as 
aproximações e distanciamentos entre aconselhamento psicológico e psicoterapia 
sejam revisitados com vistas à um encaminhamento mais conclusivo. Por último, 
uma síntese desses conhecimentos será realizada. 
Diferenças entre aconselhamento psicológico e psicoterapia 
Parte da literatura cientifica dedicada ao aconselhamento psicológico o apresen- 
ta juntamente com a psicoterapia, sendo frequentes os títulos de obras que fazem, 
ao mesmo tempo, referência a esses dois campos. É o caso da obra Técnicas de Aconse- 
lhamento e Psicoterapia, publicada por Gerald Corey no Brasil em 1983. Apesar de não 
destacar, ao longo do livro, as especificidades de cada campo de atuação ao mostrar 
as diferentes abordagens psicológicas, apresenta uma preocupação no prefácio, de 
delimitar ambas as áreas. Para este autor, o aconselhamento é o processo por meio 
do qual “se dá oportunidade aos clientes de explorarem preocupações pessoais; esta 
exploração conduz a uma ampliação da capacidade de tomar consciência e das pos- 
sibilidades de escolha” (p. 22). Este processo é de curta duração, com foco na reso- 
lução dos problemas, e ajuda a pessoa a remover os obstáculos ao seu crescimento, 
auxiliando os indivíduos a reconhecer e empregar seus recursos e potencialidades. 
A psicoterapia, pelo contrário, estaria mais relacionada a mudanças na estrutura da 
personalidade, envolvendo uma autocompreensão mais intensa. 
No clássico livro de Santos (1982), encontramos um dos primeiros esforços 
na literatura cientifica nacional no sentido de delimitar as diferenças entre esses 
dois processos. Segundo o autor, que inclui entre os processos a orientação, os 
verbos orientar e aconselhar distanciam-se do que vem a ser a psicoterapia. Esta é 
entendida como o tratamento de perturbações da personalidade ou da conduta por 
meio de métodos e técnicas psicológicas, ou seja, é indicada em casos nos quais a 
orientação e o aconselhamento não seriam suficientes para conduzir os processos de 
mudanças e de crescimento necessários. O aconselhamento seria indicado quando 
não houvesse o diagnóstico de algum transtorno psicológico ou em situações que 
envolvessem o atendimento mais pontual, com o fornecimento de informações e de 
acompanhamento para a tomada de uma decisão importante. Essas considerações 
são apoiadas por autores como Williamson (1950), Tyler (1953) e Bond (1995), 
grandes expoentes dos estudos sobre aconselhamento no contexto norte-americano. 
Em que pesem as aproximações e os distanciamentos entre o aconselhamento 
psicológico e a psicoterapia, há certo consenso de que se trata de intervenções dis- 
tintas, embora mantenham estreito relacionamento (Schmidt, 2012). A maior parte 
dos autores compreende que o aconselhamento está mais ligado a ajudar o cliente 
a tomar alguma decisão e envolve situações objetivas que permitem uma melhor 
utilização de recursos e potencialidades pessoais, sendo que as demandas estão re-
86 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
lacionadas, geralmente, a conflitos ambientais e situacionais, a conflitos conscientes 
e acompanhados de uma ansiedade considerada normal (Patterson, 1959; Scheeffer, 
1980; Tyler, 1953; Williamson, 1950). O aconselhamento busca assistir a pessoa na 
remoção de bloqueios ao seu crescimento (Corey, 1983). A psicoterapia seria desen- 
volvida em um nível mais “profundo” e teria como foco os conflitos de personalida- 
de, com destaque para a necessidade de mudanças nessa estrutura (Santos, 1982). 
À psicoterapia seria, nesse sentido, a autocompreensão intensiva da dinâmica que 
explica as crises existenciais particulares (Corey, 1983). 
Essas diferenças, no entanto, são diluídas a partir do momento em que Rogers 
(1942/2005) passa a se dedicar à questão. O critério para pensarmos essa “profun- 
didade” supostamente pertencente à psicoterapia, tal como apregoado por Santos 
(1982) ao compará-la ao aconselhamento, pode ser questionado à luz das conside- 
rações rogerianas, por exemplo: 
Houve uma tendência para empregar a expressão“consulta psico- 
lógica” mais para entrevistas acidentais e superficiais e reservar o 
termo “psicoterapia” para os contatos mais intensivos e prolonga- 
dos, orientados para uma reorganização mais profunda da perso- 
nalidade. Embora possa haver algum fundamento para esta distin- 
ção, é evidente que uma consulta psicológica intensa e com êxito 
é impossível de se distinguir de uma psicoterapia intensa e com 
êxito (Rogers, 1942/2005, p. 6). 
Assim, tanto o aconselhamento como a psicoterapia poderiam constituir proces- 
sos intensos e exitosos, não sendo possivel distinguir um termo do outro pelo cri- 
tério de “profundidade” de uma técnica psicoterápica, o que será melhor detalhado 
na seção seguinte, das aproximações entre esses campos. A chamada profundidade, 
sinônimo da intensidade do tratamento que provocaria o êxito da intervenção, po- 
deria estar presente em ambas as intervenções, a depender do modo como cada 
relação de ajuda fosse estabelecida, da relação entre profissional e cliente e, tendo 
como norte a abordagem centrada no cliente, da satisfação das condições básicas 
e suficientes para a mudança terapêutica: autenticidade/congruência, consideração 
positiva incondicional e empatia (Rogers, 1973), mencionadas no Capítulo 4 e que 
serão retomadas posteriormente. 
Corey (1983) destaca que são vários os objetivos que perpassam os processos 
de ajuda psicológica, por exemplo, a reestruturação da personalidade, descoberta 
de um sentido de vida, cura de um transtorno psicológico, ajustamento, redução da 
ansiedade, aprendizagem de comportamentos mais adaptativos ou atingimento da 
autorrealização. Esses objetivos conduzem a intervenções diferenciadas e devem ser 
estabelecidos, a priori, na interação cliente e psicólogo, podendo ser modificados ao 
longo do processo. Assim, a partir das considerações desse autor, podemos destacar 
que um caso inicialmente atendido em aconselhamento pode ser encaminhado a
Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia 87 
uma psicoterapia caso seja necessária uma intervenção considerada mais intensa ou, 
então, mais a longo prazo. 
Segundo Schmidt (2012), podem-se delimitar as diferenças entre esses 
dois processos de ajuda. Para a autora, o aconselhamento psicológico pode ser 
compreendido como uma área do conhecimento bastante ampla e que envolve 
uma prática “educativa, preventiva, de apoio situacional, centralizada nos aspectos 
saudáveis, nas potencialidades e nas dimensões conscientes e “mais superficiais" 
da clientela, requerendo tempos abreviados” (p. 13). Já a psicoterapia trataria 
de “problemas emocionais e patologias, de caráter remediativo ou reconstrutivo, 
focalizando o inconsciente e as dimensões “mais profundas” do indivíduo, deman- 
dando tempos prolongados” (p. 13). 
A diferença básica, de acordo com Schmidt (2012), poderia ser sumarizada em 
três elementos: (a) no tempo requerido em cada um dos processos; (b) no grau de 
aprofundamento proporcionado por cada técnica; (c) no tipo de problema trazido 
pelo cliente, se mais situacional ou de caráter mais permanente, ligado a alguma pa- 
tologia ou desconforto emocional. Esse posicionamento é corroborado por Scheeffer 
(1980) e Corsini (1995) notadamente no que se refere ao atendimento de patologias 
no caso das psicoterapias. 
Nessa perspectiva, o aconselhamento seria mais ligado a atividades de orien- 
tação, focado em problemas específicos e que demandem soluções pontuais ou 
que não ensejem a necessidade de um acompanhamento mais longo e aprofunda- 
do (Corsini, 1995). Há que se destacar que uma modalidade de aconselhamento é 
justamente o plantão psicológico (Mahfoud, 2013), bastante tradicional no cenário 
brasileiro, que pode ocorrer em apenas um único encontro. No entanto, o plantão 
não é considerado uma psicoterapia breve focal, nem se limita à produção de alívio e 
conforto. O que define o plantão é a não delimitação ou sistematização dessa oferta 
de ajuda, de modo que o profissional esteja disponível para “encontrar com o outro 
na urgência” (Doescher & Henriques, 2012), oferecendo-lhe suporte emocional, 
espaço para a expressão de sentimentos e angústias, bem como possibilidade de 
reorganização psíquica e de instilação de esperança. 
No entanto, os processos e recursos empregados nesses atendimentos (aconse- 
lhamento e plantão) seriam basicamente semelhantes. É nesse sentido que o acon- 
selhamento psicológico é empregado em modalidades como a do plantão psicológi- 
co, que prevê o cuidado na urgência, em situações de atenção pontual que requerem 
técnicas breves (haja vista a possibilidade de um único encontro) e que possam con- 
duzir a um alívio psicológico sem a utilização de rebuscadas técnicas de investigação 
da personalidade (Perches & Cury, 2013). O objetivo seria o de acolher o cliente em 
sua demanda considerada urgente. 
Segundo Santos (1982), Rogers não se preocupou em estabelecer uma definição 
sobre o aconselhamento nem clarificar as suas diferenças com a psicoterapia. No 
entanto, depreende-se que o aconselhamento se trata de uma assistência psicológica
88 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
destinada a restaurar no indivíduo suas condições de crescimento 
e de atualização, habilitando-a a perceber, sem distorções, a rea- 
lidade que o cerca e a agir, nessa realidade, de forma a alcançar 
ampla satisfação pessoal e social. Aplica-se em todos os casos em 
que o indivíduo se defronta com problemas emocionais, não im- 
portando se se trata de doenças ou perturbações não patológicas 
(Santos, 1982, p. 7). 
A partir dessa definição, pode-se destacar que Rogers não distinguia o aconse- 
lhamento da psicoterapia pela existência de problemas patológicos ou na estrutura 
da personalidade. É essa uma das razões pelas quais este autor não se preocupa com 
a questão do diagnóstico, pois este apresentaria uma racionalização e julgamen- 
to anteriores ao encontro com o outro. À ética humanista apresentada por Rogers 
critica justamente o psicodiagnóstico, considerado contraproducente e uma forma 
de dominação do psicólogo sobre o cliente, pressupondo a existência de um conhe- 
cimento mais amplo e supostamente mais aprofundado do primeiro em relação ao 
segundo (Amatuzzi, 2012). 
O processo terapêutico ocorreria no encontro face a face e nas atitudes do te- 
rapeuta para acessar o indivíduo. Desse modo, o indivíduo, ao buscar ajuda, deve- 
ria estar em sofrimento emocional, não importando a sua causa, a sua intensidade 
ou as suas características. Quaisquer demandas poderiam ser atendidas por meio 
do aconselhamento psicológico, o que se distancia das considerações de Scheeffer 
(1980) e de Schmidt (2012). Mesmo assim, Rogers (1942/2005) aponta que existe 
uma tendência a empregar o termo aconselhamento em entrevistas mais superfi- 
ciais, enquanto a psicoterapia seria empregada em atendimentos mais duradouros e 
intensivos, como apresentado anteriormente. 
O aconselhamento psicológico possui uma farta literatura que o apresenta como 
um campo de atuação que utiliza técnicas genéricas, ou seja, não alinhadas a abor- 
dagens psicológicas específicas, no estabelecimento de uma relação de ajuda consi- 
derada efetiva (Patterson & Eisenberg, 1988). Esses autores postularam princípios 
para que uma ajuda fosse efetiva: 
a) compreensão, que envolve a capacidade de compreender o problema 
que faz com que o cliente busque ajuda profissional, em um exercício 
de profunda investigação acerca dessa motivação e reflexão para com- 
preensão da problemática apresentada; 
b) mudança no cliente como foco de toda a intervenção, ou seja, quaisquer 
que sejam os objetivos trazidos pelo cliente, a assunção dos processos 
de mudança é um indicador de que a relação de ajuda está sendo efetiva; 
c) a qualidade da relação estabelecida entre profissional e cliente, com foco 
no bem-estar daquele que busca ajuda e na possibilidade de que o con-
d) 
Aconselhamento Psicológicoe Psicoterapia E9 
selheiro manifeste suas impressões, desejos e interpretações do modo 
mais autêntico possivel, a fim de priorizar um relacionamento claro e 
transparente com seu cliente; 
processo sequencial, que se refere à necessidade de haver um começo, 
meio e fim da intervenção, o que pode durar um ou mais encontros; 
estabelecer essa sequência e cuidar para que ela seja respeitada é tarefa 
do conselheiro; autorrevelação e autoconfrontação como recursos que 
devem ser utilizados pelo cliente com a ajuda do olhar do conselheiro, 
ou seja, a ajuda só será efetiva se o cliente puder, em algum momento, 
deparar-se com o seu problema e estabelecer, juntamente com o profis- 
sional, metas e ações para promover essas mudanças; 
intensa experiência de trabalho, que significa que o aconselhamento, 
mesmo sendo breve, deve ser intenso e envolver um árduo trabalho 
tanto do profissional como do cliente no sentido de se atingir os obje- 
tivos delineados no início do processo; 
conduta ética, que fundamenta toda e qualquer intervenção profissional 
com seres humanos. No caso dos psicólogos, deve-se considerar o có- 
digo de ética profissional, que trata de diversos elementos da interven- 
ção psicológica, como estabelecimento do contrato de trabalho, sigilo, 
confidencialidade e segurança dos dados fornecidos nos atendimentos 
(vide Capítulo 5). 
Na abordagem centrada na pessoa são consideradas as atitudes básicas do conse- 
lheiro que são definidoras do sucesso do processo de aconselhamento ou, em outras 
palavras, as condições terapêuticas essenciais, facilitadoras e suficientes (Rogers, 
1959, 2001) que podem ser desenvolvidas e aprimoradas pelo psicólogo: 
a) 
b) 
congruência ou autenticidade: o psicólogo deve estar aberto às experiên- 
cias do seu cliente, dispondo de sentimentos que ocorrem consigo mes- 
mo, não se autonegando. A congruência ou autenticidade significa que 
o profissional tem que ser, no encontro com o cliente, o mais próximo 
possível do que é em todas as suas relações, ou seja, que deve se per- 
mitir “ser o que se é” (Rogers, 1977), estando integralmente a serviço 
daquele processo de ajuda e sendo coerente com o seu modo de ser, 
pensar, agir e se relacionar. 
consideração positiva incondicional: o psicólogo deve vivenciar ati- 
tudes positivas de aceitação para com o cliente, sem julgamentos ou 
reservas. Refere-se ao fato de o profissional acreditar profundamente 
que aquela pessoa em busca de ajuda tem condições de amadurecer e
90 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
resolver seus conflitos a partir desse crescimento e da potencialização 
das suas capacidades. É a aceitação do cliente sem reservas, julgamen- 
tos ou questionamentos sobre o seu modo de ser e as escolhas que tem 
tomado em sua vida. 
c) compreensão empática: é a capacidade de o psicólogo colocar-se no lu- 
gar do cliente em uma atitude “como se”, sem perder a noção de que se 
trata do “como se”. Refere-se à capacidade do profissional de abrir-se à 
possibilidade de experienciar, juntamente com o cliente, as suas dores, 
angústias e apreensões, conservando a capacidade de afetar-se e de con- 
seguir refletir claramente sobre essa experiência a partir do ponto de 
vista dessa pessoa em sofrimento. 
Assim como afirma Santos (1982), quando o mundo do cliente se torna claro 
para o psicólogo, ele pode mover-se nele com mais liberdade, pensando a respeito de 
sua experiência e extraindo conhecimentos acerca desse posicionamento. Posterior- 
mente, Santos, em uma aproximação de uma postura chamada por ele de neorroge- 
riana, não plenamente desenvolvida em sua obra, aponta que a atitude mais efetiva 
em um processo de aconselhamento seria a empatia, sendo a condição terapêutica 
mais importante. Essa postura neorrogeriana destacada por Santos refere-se ao fato 
de que muitas considerações de Rogers sofreram pesadas críticas, abrindo espaço 
para a exploração de um novo conceito, o da autoafirmação, que seria um elemento 
básico na explicação da motivação humana. 
Semelhanças entre aconselhamento 
psicológico e psicoterapia 
Strang (1949) foi um dos pioneiros a destacar a dificuldade em se diferenciar 
aconselhamento e psicoterapia, haja vista que ambos os processos visam a ajudar os 
indivíduos e obter um melhor desenvolvimento. Ainda assim, estabelece um conti- 
nuum no qual o aconselhamento educacional e profissional estaria em uma posição 
inicial, realizado quando há maior diretividade, brevidade e menor grau de sofri- 
mento por parte do cliente. À psicoterapia seria um processo derivado do aconselha- 
mento, representando um atendimento mais intenso e aprofundado, embora com 
os mesmos objetivos. De modo similar, para Scheeffer (1980), aconselhamento e 
psicoterapia se confundem em suas finalidades, haja vista que buscam ajudar a pes- 
soa a compreender melhor a si mesma para orientar-se quanto aos seus problemas 
vitais. A partir da leitura de Rogers, Scheeffer afirma que a diferença entre essas 
modalidades reside apenas na terminologia, o que nos faz analisar de modo mais 
atento as proposições rogerianas acerca desses processos. 
Rogers (1942) foi o pioneiro no sentido de aproximar a prática do aconselha- 
mento psicológico à psicoterapia justamente por não focar sua atenção na deman-
Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia 91 
da trazida pelo cliente, em seu psicodiagnóstico, em contraposição à teoria traço 
e fator e à tradição psicométrica predominantes em sua época. Para este autor, O 
ser humano viveria em busca da autorrealização, ou seja, em busca de uma expe- 
riência de crescimento. Assim, desde o primeiro encontro entre psicólogo e cliente 
há uma experiência de crescimento, não havendo diferenças quanto a diagnósticos 
—- todos os clientes, possuam eles patologias ou não, visam, em última instância, a 
atingir esse crescimento. 
Assim, o psicólogo seria um facilitador desse processo, justamente por pos- 
suir conhecimentos necessários à condução do processo juntamente com o cliente 
(Mahfoud, 2013). O foco é sempre o individuo e sua experiência de crescimento 
pessoal. No entanto, mais do que pontuar as semelhanças entre aconselhamento e 
psicoterapia, Rogers (2001) trouxe ao campo do aconselhamento psicológico, an- 
teriormente compreendido de modo mais diretivo, algumas diretrizes por ele utili- 
zadas na psicoterapia. Assim, pode-se dizer que as contribuições de Rogers torna- 
ram o aconselhamento um processo menos mecânico e diretivo, que se apropriou 
de conhecimentos discutidos no campo da psicoterapia para promover mudanças, 
aprendizagem significativa e bem-estar nos clientes. Ao ampliar o escopo do acon- 
selhamento, pode tornar essa área mais relacionada aos saberes psicológicos e à 
pesquisa envolvendo seres humanos. 
O aconselhamento passou a ser compreendido para além do oferecimento de 
conselhos e informações de modo diretivo e intencional e passou a incorporar 
técnicas desenvolvidas no contexto psicoterápico. Como exemplo dos elementos 
trazidos por Rogers (2001) para o campo do aconselhamento está a não direti- 
vidade, a atenção às atitudes básicas/facilitadoras como condições para modifi- 
cações construtivas da personalidade, a tendência à autorrealização e o foco no 
processo de facilitação por parte do psicólogo, sendo a ele vedada a oferta de 
conselhos, informações e interpretações. O sucesso de uma intervenção, para Ro- 
gers (1951/1992), dar-se-ia por certas atitudes básicas que se formam na relação 
com o cliente: congruência ou autenticidade, consideração positiva incondicional 
e postura empática, anteriormente apresentadas. 
A postura de abertura ao cliente e o envolvimento do psicólogo com o modo de 
existir dessa pessoa em busca de ajuda são compreendidos por Forghieri (2007), 
na abordagem fenomenológico-existencial, como um envolvimento existencial, de 
modo que o psicólogo compreenda as suas aproximações com o seu cliente justa-mente por compartilharem o existir-no-mundo, com frustrações, dificuldades, so- 
frimentos e potencialidades. Esse compartilhamento faria com que o aconselhando 
não visse o psicólogo como autossuficiente e alheio aos seus problemas, mas, pelo 
contrário, como alguém que, por conhecer o problema e permitir-se estar com o 
paciente, apresentaria real potencial de ajuda na situação de sofrimento. 
Scheeffer (1980), pensando nas aproximações entre aconselhamento e psico- 
terapia, destaca que um mesmo cliente em sofrimento pode receber tratamentos
92 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
diferentes a partir dessas duas formas de intervenção, ou seja, uma mesma proble- 
mática pode ser abordada de modos distintos a depender de como esse problema 
é compreendido pelo profissional. Assim, destaca a necessidade de que o profis- 
sional possua formação tanto em aconselhamento como em psicoterapia, a fim de 
identificar claramente sob qual enquadre o cliente poderia ser atendido, a depen- 
der do problema relatado, ou seja, que tenha acesso a uma ajuda que corresponda 
às suas necessidades. 
A partir das considerações de Scheeffer (1980), o foco, nesse sentido, recairia 
sobre a necessidade de um adequado diagnóstico, o que se opõe radicalmente ao 
pensamento rogeriano, a fim de oferecer encaminhamento correto a cada caso. Isso 
não impediria, por exemplo, que um caso inicialmente atendido em aconselhamen- 
to pudesse ser encaminhado a uma psicoterapia devido a observações ao longo do 
processo, o que reforça a necessidade de o psicólogo estar atento às necessidades 
de cada cliente. Investir na formação de psicólogos habilitados tanto para o acon- 
selhamento como para a psicoterapia é uma das propostas apresentadas por Corey 
(1983). No Brasil, não existe na formação do bacharel em Psicologia uma atenção 
específica ao aconselhamento. Em muitos currículos de universidades brasileiras 
não existe nem mesmo uma disciplina de aconselhamento psicológico, obrigatória 
ou eletiva. Mesmo assim, encontram-se relatos de experiências de estágio que fazem 
uso do aconselhamento, como no estágio supervisionado básico, obrigatório para a 
formação do psicólogo (Conselho Nacional de Educação, 2004, 2011; Silva, 2006). 
Ainda que o aconselhamento psicológico não seja uma disciplina presente em 
todos os currículos, muitos dos seus saberes são veiculados é experienciados pe- 
los estudantes de Psicologia a partir do plantão psicológico, modalidade fortemen- 
te presente em nosso contexto universitário de oferta de extensão à comunidade 
(Mahfoud, 2013). Assim, não podemos afirmar que o aconselhamento não está pre- 
sente nesses currículos, mas existem diferentes possibilidades de abertura para que 
os conhecimentos advindos do aconselhamento psicológico perpassem a formação 
do psicólogo no contexto nacional. 
Nessas experiências de estágio, o aconselhamento psicológico é, por vezes, em- 
pregado como uma fase inicial do processo de formação, na qual o aluno pode tatear 
e se aproximar do campo da psicoterapia. A existência do aconselhamento nos anos 
iniciais dos cursos de Psicologia reforça o caráter generalista e que oferece base para 
a formação como psicólogo nos anos posteriores, nos atendimentos em psicoterapia 
nas diferentes abordagens psicológicas. 
Na abordagem centrada na pessoa, o psicólogo não daria conselhos, informações 
ou apoio, nem mesmo ofereceria interpretações. Ao contrário, ele seria responsável 
por facilitar, refletir e vivenciar tanto quanto possível os sentimentos do cliente 
(Santos, 1982). Nesse sentido, observa-se uma compreensão do aconselhamento 
bastante próxima do processo psicoterápico, ou seja, um processo não diretivo que 
colocaria o profissional como alguém que deveria manter uma relação de profunda 
e constante reflexão acerca do seu papel.
Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia 93 
Cabe a esse profissional ter clareza acerca das técnicas empregadas e refletir 
constantemente sobre a evolução do cliente, seus desafios, transferências, contra- 
transferências (por exemplo, na abordagem psicodinâmica), capacidade de estar 
com o outro de modo autêntico e genuíno (por exemplo, na abordagem centrada 
na pessoa). Essa necessidade estaria presente também no aconselhamento, ainda 
que a discussão pudesse ser reduzida ao tempo de duração do processo de ajuda, 
as demandas trazidas pelo cliente ou mesmo em relação aos possíveis encaminha- 
mentos de cada caso. 
Barros e Holanda (2007) aproximam o aconselhamento psicológico da ativida- 
de clínica justamente por considerarem a psicoterapia como uma área suficiente- 
mente ampla e que pode ocorrer em uma gama diversa de cenários e contextos que 
não os classicamente difundidos. Em um propósito de clínica ampliada, os autores 
compreendem o aconselhamento psicológico como possibilidade de ocorrência do en- 
contro clínico fundamental, mesmo que em um tempo reduzido. No aconselhamento 
psicológico, como há a possibilidade de se encaminhar o cliente a outras modalidades 
(por exemplo, à psicoterapia ou a outra modalidade de serviço psicológico), a depen- 
der das caracteristicas desse cliente e de suas demandas, trata-se de uma clínica com 
sentido preventivo. Além disso, o aconselhamento não necessita de um espaço espe- 
cífico, favorecendo a ampliação dos contextos possíveis para a chamada “clínica nova 
psicológica” (p. 90). Desse modo, o aconselhamento seria uma possibilidade dentro 
da clínica, mais ampla, estando a serviço da psicoterapia no sentido de encaminhar a 
ela os casos que demandam uma atenção mais específica, aprofundada e a longo pra- 
zo, bem como encaminhar a serviços de atenção especializados os casos que tratem de 
demandas que não sejam abarcadas pelo aconselhamento. 
Em uma meta-análise conduzida por Ahn e Wampold (2001), foram analisados 
os resultados de intervenções utilizando aconselhamento psicológico e psicote- 
rapia em diferentes abordagens. Os resultados apontaram não haver diferenças 
significativas entre as intervenções no que se refere à efetividade do processo 
terapêutico. Isso pode evidenciar que mais do que buscar a diferenciação ou a 
aproximação entre essas modalidades, deve-se compreender a qualidade da ajuda 
oferecida em termos das atitudes básicas do psicólogo e se ele conhece os meca- 
nismos pelos quais pode ofertar essa ajuda. 
Isso nos faz retornar a Rogers (2001) no que tange ao fato de que mais impor- 
tante do que diferenciar modalidades de ajuda é investir na formação de profissio- 
nais aptos a desenvolverem ambas as intervenções a depender do enquadre possível, 
da demanda apresentada e das condições existentes para aquele atendimento. Isso 
quer dizer que o manejo do cliente diante das condições existentes parece ser o mais 
importante, de modo que isso recai sobre a figura do psicólogo e suas atitudes, a im- 
portância de uma escuta atenta, qualificada e empática, com confiança nos recursos 
que podem ser recuperados ou desenvolvidos pelo cliente para o seu crescimento 
pessoal. A atitude de congruência e a postura empática, dessa forma, parecem ser 
importantes apontamentos no sentido de oferecer um clima de segurança e apoio
94 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
à pessoa em sofrimento. O encaminhamento dessa demanda (Barros & Holanda, 
2007), posteriormente, pode assegurar que a pessoa receba o atendimento adequa- 
do e que possa se desenvolver a partir das próximas intervenções, quer sejam em 
um processo de aconselhamento psicológico, em uma psicoterapia ou em um servi- 
ço especializado. 
Para resumir e ampliar 
De modo geral, pode-se dizer que o aconselhamento psicológico e a psicoterapia 
possuem semelhanças, embora o assinalamento das diferenças entre esses proces- 
sos seja um importante marcador didático na formação de psicólogos e possa confe- 
rir o devido prestígio a esses campos, notadamente do aconselhamento psicológico, 
se considerarmoso contexto brasileiro. Do mesmo modo, permitir que essas áreas 
se aproximem, como proposto por Rogers ao longo de sua obra, pode evidenciar 
não a necessidade de delimitar campos de ajuda, mas de compreender a natureza e 
a qualidade desse cuidado, o que deve atravessar toda modalidade de ajuda psicoló- 
gica. Ao deslocar a atenção das caracteristicas de cada campo e assinalar as atitudes 
do profissional e o cuidado na relação com o cliente, recupera a necessidade de uma 
prática voltada ao humano, à experiência e à possibilidade de “ser” e de “estar” com 
o outro, independentemente da modalidade de atenção psicológica oferecida. 
A necessária diferenciação, no entanto, não pode obscurecer a prática, ou seja, 
o processo de ajuda oferecido a pessoas que buscam atendimento por quaisquer 
motivos, seja um transtorno mental ou a necessidade de apoio à tomada de decisão 
profissional. No processo de ajuda, a formação do profissional deve permitir que 
ele transite entre esses campos e os conheça em profundidade, permitindo que pos- 
sam fazer encaminhamentos e escolhendo a modalidade mais adequada a cada caso, 
quando necessário. 
As diferenças, portanto, podem ser sumarizadas quanto aos seguintes aspectos: 
a) tempo da intervenção, sendo o aconselhamento considerado mais breve, 
de curto prazo; 
b) aprofundamento do caso e intensidade do atendimento, o que decorre 
da primeira característica, já que a psicoterapia permite uma investi- 
gação mais minuciosa da personalidade e a longo prazo; 
c) demanda apresentada, sendo o aconselhamento mais voltado para situa- 
ções contextuais e mais pontuais, com foco no presente, que envolvem 
sofrimento emergencial e necessidade de alívio de tensões e acolhimento; 
d) as intervenções em aconselhamento focam a ação, mais do que a re- 
flexão, e são mais centradas na prevenção do que no tratamento; 
e) o aconselhamento é mais focado na resolução de problemas.
Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia 95 
Devido à importância da obra de Rogers (1977) na construção dos saberes rela- 
cionados tanto ao aconselhamento como à psicoterapia, há que se destacar que, para 
este autor, o foco do atendimento psicológico não está na resolução de problemas, 
mas no processo de permitir que o cliente adquira maior autonomia e liberdade para 
buscar o seu crescimento pessoal e a autorrealização. Quando destacamos o foco 
no problema, recuperamos outros autores clássicos do aconselhamento que não se 
alinham à abordagem centrada na pessoa (Corey, 1983; Scheeffer, 1980), mas que 
constituem importantes referências para a área, inclusive no interesse em diferen- 
ciar aconselhamento e psicoterapia. 
Bond (1995) destaca que o conselheiro deve facilitar o processo de mudança e 
ajudar o aconselhando a mantê-la. As semelhanças referem-se ao escopo do pro- 
cesso de ajuda, das atitudes do psicólogo e da necessidade de desenvolvimento de 
recursos terapêuticos para estabelecimento de uma relação de ajuda que possa ser 
considerada efetiva e atingir os objetivos delineados no início do processo. 
Atualmente, observa-se que muitos psicólogos são formados sem que a discipli- 
na de aconselhamento psicológico seja oferecida ou que suas práticas sejam desen- 
volvidas em projetos de extensão, pesquisa ou em práticas de estágio. Isso ocasiona 
a dificuldade de constituir um campo de pesquisa em aconselhamento psicológico 
no Brasil, como atestado por Scorsolini-Comin e Santos (20134), em análise da pro- 
dução científica na pós-graduação. O entrelaçamento entre essas áreas e suas práti- 
cas é enfatizado na maioria das publicações (Rogers, 1942; Santos, 1982; Scheeffer, 
1980; Schmidt, 2012; Strang, 1949), de modo que no contexto brasileiro deve ser 
mais investigada a atuação em aconselhamento psicológico, quando comparamos a 
produção nacional à de outros países, como os Estados Unidos. 
Internacionalmente, o campo do aconselhamento é mais sólido, com a oferta 
de mestrados profissionais abertos a profissionais não psicólogos, por exemplo, e 
importantes periódicos são responsáveis por mostrar as contribuições das pesquisas 
na área para o fortalecimento dessa disciplina (Journal of Counseling Psychology, The 
Counseling Psychologist, por exemplo) (Bowden, 2010). No Brasil, pelo contrário, são 
expressivos os periódicos voltados à psicoterapia e à Psicologia Clínica (como Psico- 
logia Clínica, Contextos Clínicos, Clínica & Cultura), com pouco espaço para publicações 
acerca de experiências exclusivas de aconselhamento. Desse modo, observa-se um 
constante interesse na veiculação de estudos e intervenções em aconselhamento 
nos Estados Unidos, o que contrasta com a realidade nacional, mais influenciada 
pela Psicologia Clínica, o que remete à própria constituição do saber psicológico 
em nosso país (Hutz-Midgett & Hutz, 2012). Algumas técnicas do aconselhamento 
acabaram por ser incorporadas a outras áreas, como acontece com a Orientação Pro- 
fissional e de Carreira (Souza & Scorsolini-Comin, 2011). 
Embora o movimento ocorrido nos Estados Unidos, de maior destaque para o 
aconselhamento, deva ser assinalado, isso não nos autoriza a afirmar que o mes- 
mo processo deva ocorrer no cenário nacional, ou seja, de maior investimento no
96 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
aconselhamento psicológico. No Brasil, a própria construção do conceito de plantão 
psicológico, amplamente utilizado em instituições e serviços-escola, constitui um 
desdobramento dos pressupostos do aconselhamento, de modo que esses contextos 
de produção devem ser considerados como convites à reinvenção de práticas e pos- 
sibilidades de oferta de ajuda (Schmidt, 2012). As inovações em curso e vindouras 
devem, no entanto, partir do necessário diálogo com a produção científica em dife- 
rentes contextos. 
Essas considerações, endereçadas ao aconselhamento psicológico, também po- 
dem se estender à psicoterapia em suas diversas abordagens. Assim, concluímos 
com a necessidade de fortalecer ambos os campos do saber, reforçando suas carac- 
terísticas e recomendações, sem interromper o debate e sem esquecer, a exemplo de 
Rogers (2001), do papel fundamental do profissional na sua relação com o cliente: o 
que ambos constroem nesse relacionamento pode ser potencialmente esclarecedor 
para a oferta de ajuda qualificada e atenta ao humano, suas vicissitudes, demandas 
e possibilidades de percursos. 
A partir dessas considerações e tendo como referência o conteúdo deste capítu- 
lo, responda às questões a seguir: 
a) Em sua opinião, em qual aspecto o aconselhamento psicológico mais se 
assemelha à psicoterapia? Explique. 
b) Em sua opinião, em qual aspecto o aconselhamento psicológico mais se 
difere da psicoterapia? Explique. 
c) Assista ao vídeo (link: ),? uma animação que trata da atua- 
ção do profissional de Psicologia ou profissional de ajuda. Posterior- 
mente, destaque quais elementos do aconselhamento psicológico e da 
psicoterapia estão presentes no video. 
* Dirigido por Eunice Hwang. Frozen Mammoth Productions. Sheridan, EUA. Ano: 2010. Duração: 
432º.
07 
O ACONSELHAMENTO DE CARREIRA 
Quando nasci um anjo esbelto, 
desses que tocam trombeta, anunciou: 
vai carregar bandeira. 
Cargo muito pesado pra mulher, 
esta espécie ainda envergonhada. 
[=+:] 
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. 
Mulher é desdobrável. Eu sou. 
Adélia Prado, Com licença poética. 
Este poema demarca uma diferença relacionada ao gênero: o que pode e o que não 
pode ser atribuido à mulher em nossa sociedade? Poderia a mulher carregar bandeira? 
Para além das discussões sobre gênero, feminismo e papel da mulher em nossa socie- 
dade, o poema dialoga com o universo da carreira ao pressupor tanto os papéis estabe- 
lecidos social e culturalmente quanto à possibilidade de reinvenção desses papéis, de 
desdobrar-se e produzir novas significações.do que aos problemas, 
pois que a adaptação a um aspecto da vida está em relação com to- 
dos os outros. O novo movimento encerra dados teóricos e técni- 
cos da psicoterapia, inclui orientação profissional e ocupa-se, sobre- 
tudo, do indivíduo como pessoa, procurando ajudá-lo a adaptar-se 
com sucesso aos vários aspectos da vida (Santos, 1982, p. 6). 
Conforme comentado por Nunes (2006), essas características fizeram com que o 
aconselhamento psicológico, como área e campo de aplicação tal como conhecemos 
hoje, fosse considerado a partir de 1951, com a inclusão de métodos menos diretivos e 
normativos, na busca por uma compreensão de ser humano em movimento e em per- 
manente mudança para atender às exigências do meio e também demandas pessoais 
a partir de suas experiências afetivas e sociais. No entanto, o termo aconselhamento 
psicológico já vinha sendo utilizado anteriormente por Parsons, ainda que recobrisse 
uma série de técnicas consideradas normativas e não ligadas a uma escuta clínica. 
Com a publicação da obra “Psicoterapia e Consulta Psicológica” em 1942, Carl R. 
Rogers foi um dos responsáveis por atribuir ao aconselhamento psicológico um cará- 
ter mais clínico, com vistas ao crescimento pessoal do cliente e não apenas o seu ajus- 
tamento a um dado sistema (Morato, 1999; Nunes, 2006). Assim, ultrapassava-se o 
caráter de orientação e pensava-se na ressonância das experiências de cada cliente em 
um processo continuo de estabelecimento de uma relação de proximidade e confiança 
com o conselheiro (terapeuta). O conselheiro ou terapeuta deveria ser capaz de apre- 
sentar determinadas características que pudessem acolher o cliente em sofrimento. 
Ea partir da década de 1950, portanto, que o aconselhamento psicológico se dis- 
tancia das técnicas de orientação diretiva, adquirindo um sentido mais próximo da 
psicoterapia, ainda que guarde as suas especificidades, como veremos mais detida- 
mente neste livro. Segundo Forghieri (2007), o aconselhamento psicológico foi ofi- 
cialmente reconhecido como um campo de atuação terapêutica pela American Psycholo- 
gical Association (APA) em 1951, o que foi destacado em uma publicação de Super em 
1955, diferenciando-a do campo da psicoterapia. Essa diferença, no entanto, não era 
considerada ou enlevada por Rogers. Com a influência deste autor, os processos de 
aconselhamento passam a ser considerados dentro de uma perspectiva de ser humano 
que o compreende de modo positivo e orientado para a autorrealização (em uma clara 
referência à obra de Maslow), de modo que o mesmo não poderia ser mensurado e 
dimensionado segundo características, aptidões e habilidades, mas compreendido a 
partir de uma teoria de personalidade que também contemplasse a aprendizagem, a 
necessidade de crescimento pessoal e a relação com o terapeuta para o estabelecimen- 
to de uma relação de ajuda que potencializasse a transformação. 
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Aconselhamento Psicológico 5 
A partir da segunda metade do século XX, portanto, avistamos no contexto in- 
ternacional uma maior ênfase ao aconselhamento no processo de tornar o cliente 
mais consciente de seus problemas, recursos, condições e incoerências por meio de 
uma escuta focada na pessoa e não mais no conselheiro como figura detentora da 
verdade. Caberia a esse profissional, a partir de agora, não mais direcionar o cliente, 
mas torná-lo capaz de decidir-se e desenvolver-se, o que se aproximava mais do pro- 
cesso psicoterápico. Esse movimento internacional, sobretudo nos Estados Unidos, 
viria a se difundir também em países como o Brasil. 
A história do aconselhamento psicológico no Brasil começa ainda quando a pro- 
fissão de psicólogo não era regulamentada, ou seja, antes de 1962.? Assim como 
nos contextos europeu e norte-americano, o aconselhamento esteve fortemente re- 
lacionado à orientação educacional e profissional, com influência da psicometria e 
da avaliação psicológica, em um primeiro momento. Tratava-se, portanto, de buscar 
o ajustamento do sujeito, seja a uma ocupação ou a um determinado nível de ensi- 
no, pressupondo uma postura de encontrar o lugar mais adequado para a pessoa a 
partir de suas características e habilidades. O aconselhamento se punha a serviço de 
identificar essas características e indicar os caminhos mais “aconselháveis”. Esses 
serviços de orientação educacional não eram exclusivos de psicólogos, haja vista que 
a profissão ainda não havia sido regulamentada à época (Nunes, 2006). 
Segundo Forghieri (2007), no início da década de 1950, o aconselhamento psicoló- 
gico surgiu na clínica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto “Sedes 
Sapientiae”, por intermédio da religiosa Madre Cristina, que se propunha a atender 
à comunidade gratuitamente em encontros breves (com uma ou duas sessões), com 
foco no problema relatado pelo cliente e no reconhecimento e potencialização dos seus 
recursos pessoais para enfrentar a situação. Ainda de acordo com o relato de Yolanda 
Forghieri, também considerada uma das principais fundadoras da área e responsável 
pela sua expansão, em 1951, Ruth Scheeffer organizou a Divisão de Orientação Profis- 
sional da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, tendo proposto o primeiro serviço 
de orientação e aconselhamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
Com a regulamentação da profissão em 27 de agosto de 1962, o aconselhamento 
passou a ser assumido de modo mais intenso pelos psicólogos. Aos poucos, passou 
a compor os currículos dos primeiros cursos de Psicologia em nosso país, entre eles 
o da Universidade de São Paulo (USP) e o da Pontifícia Universidade Católica de 
São Paulo (PUC-SP), este último a partir de 1963 pelo Prof. Efraim Rojas Boccalan- 
dro (Forghieri, 2007). Conforme destacado por Nunes (2006), a primeira menção ao 
aconselhamento psicológico no curso de Psicologia da USP foi como uma parte das 
técnicas de exame psicológico, não constituindo, ainda, uma disciplina independente. 
Esse cenário foi sendo alterado aos poucos, também com o auxílio dos primeiros psicó- 
* Para uma visão mais aprofundada da história do aconselhamento psicológico no Brasil, recomenda- 
mos as leituras das obras de Nunes (2006), Nunes e Morato (2012), Schmidt (2012) e Forghieri (2007).
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6 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO + Scorsolini-Comin 
logos formados por esta universidade e que haviam tido contato com o campo e as téc- 
nicas de aconselhamento já em uma perspectiva de escuta clínica e menos relacionada à 
orientação diretiva tradicional. Pensando no contexto histórico da época, não era apenas 
o aconselhamento psicológico que buscava a sua independência ou legitimação como 
área do saber psicológico, mas a própria Psicologia buscava o seu reconhecimento, haja 
vista o seu caráter recente no país. O que fazia, de fato, um psicólogo? A resposta a essa 
pergunta ainda era uma grande novidade para a maioria da população. 
Também com o intuito de divulgar as práticas psicológicas à população, foi cria- 
do um primeiro serviço de Psicologia ligado ao grêmio estudantil da USP em 1966, 
por iniciativaTambém a carreira, muitas vezes, é con- 
cebida como algo mensurável e que poderia ser “indicada”, “prescrita” e “moldada” a 
depender de características já trazidas pela pessoa, como um resquício da teoria traço 
e fator que influenciou fortemente o início do campo do aconselhamento psicológi- 
co. Ao propor esse aparente “ajustamento”, por vezes naturalizado historicamente, 
promove-se a dificuldade de se pensar na carreira - e no próprio ser humano - como 
ser desdobrável e aberto a reinvenções e transformações. 
O aconselhamento de carreira pode ser compreendido como um processo de aju- 
da que tem por objetivo a melhor potencialização dos recursos do cliente. Enquanto 
intervenção, pode ser compreendido como processo ou estratégia empregada para
98 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
ajudar um cliente a tomar decisões e implementá-las no decurso de sua carreira 
de modo eficaz e promovendo satisfação (Arruda & Melo-Silva, 2010). Assim, é 
importante que o cliente conheça, a partir do processo de ajuda orientado por um 
conselheiro ou um orientador profissional, como ele é, suas principais fragilidades, 
seus pontos de apoio e seus recursos para o enfrentamento das dificuldades e para 
a superação das dificuldades relatadas. Trata-se, portanto, de ajudar o cliente a se 
autoconhecer para que possa fazer uso desse conhecimento no gerenciamento de 
sua carreira ao longo de todo o ciclo vital, ou seja, não só no modo como admi- 
nistra sua carreira, mas também como a compreende de modo mais amplo em sua 
vida. No entanto, para compreendermos esse processo, precisamos definir, ante- 
riormente, o que concebemos por carreira. 
No dicionário da Lingua Portuguesa, entre outros significados, a carreira pode 
ser descrita como “curso”, “trajetória”, “caminho”, “esfera de atividade”, “meio ou 
modo de proceder”, “decurso da existência”. Em termos profissionais, pode ser 
compreendida como sequência de experiências de trabalho das pessoas ao longo do 
tempo (Arthur, Hall, & Lawrence, 1989; Oltramari & Grisci, 2014), sendo esta uma 
definição compartilhada pelos meios acadêmicos e pela mídia interessada no assun- 
to. Ainda segundo esses autores, a carreira relaciona-se, na literatura científica, a 
temas como autogestão, comprometimento, aprendizagem, gênero, engajamento, 
satisfação e desempenho, recobrindo uma ampla gama de assuntos que podem ser 
discutidos sob o aporte do que vem a ser a carreira. 
Este conceito também vem sendo fortemente associado aos estudos no campo 
da Orientação Profissional e da Psicologia Organizacional e do Trabalho, haja vista 
que ambas as disciplinas promovem um debate acerca da carreira, tanto no domínio 
da escolha, da orientação e reorientação como no modo como os indivíduos pensam 
a sua carreira em termos de planejamento, adequação ao mercado de trabalho, en- 
gajamento profissional e satisfação no trabalho (Arruda & Melo-Silva, 2010; Dias 
& Soares, 2012; Inocente & Scorsolini-Comin, 2010; Magalhães & Gomes, 2007; 
Munhoz & Melo-Silva, 2012). A partir do exposto, neste livro compreendemos a 
carreira como o percurso profissional a partir do engajamento da pessoa em alguma 
atividade laboral e o aconselhamento de carreira ou aconselhamento psicológico 
aplicado à carreira como um processo de ajuda mediada por um conselheiro a partir 
da demanda de um cliente que envolve, ao longo da intervenção, o reconhecimento 
de quem a pessoa é, o modo como tem pensado a sua inserção profissional e os pla- 
nos futuros relacionados ao mundo do trabalho. Trata-se de uma visão de processo, 
já que se baseia na trajetória percorrida pelo cliente desde o início da sua atividade 
laboral, envolvendo escolhas, estratégias e procedimentos, bem como as mudanças 
ao longo do tempo relacionadas a esses mesmos elementos. 
Segundo Oltramari e Grisci (2014), 
[...] tanto na esfera acadêmica quanto nas revistas populares de 
negócio as repercussões na vida pessoal produzidas pelo atual mo- 
delo de carreira não se mostram suficientemente problematizadas.
O Aconselhamento de Carreira 99 
Raras perspectivas críticas incluem em suas análises alguns con- 
dicionamentos externos que repercutem na carreira dos sujeitos, 
como a necessidade de conciliar a vida profissional e a familiar 
[...]. Contudo, não aprofundam a discussão a respeito da sobre- 
carga acarretada pela responsabilização única dos sujeitos por suas 
carreiras, bem como não fazem referência aos possíveis dilemas 
que os profissionais vivenciam [...] (p. 21). 
Desse modo, a carreira é compreendida como uma trajetória no meio profis- 
sional relacionada às escolhas dos sujeitos ao longo do tempo, suas oportunidades 
e desempenho em determinadas funções. A gestão desse processo - a gestão de 
carreira — é apresentada como uma área na qual a própria pessoa seria responsá- 
vel pela sua carreira, escolhas e acontecimentos ligados ao trabalho. No entanto, 
como anunciado também por Oltramari e Grisci (2014), nem sempre os eventos 
que incidem sobre a carreira podem ser atribuídos ao próprio indivíduo, mas res- 
soam em elementos como família, oportunidades, jornadas de trabalho, tendên- 
cias profissionais, entre outros. 
A partir dessas considerações, o processo de aconselhamento deve, portanto, 
ser sensível à inter-relação desses elementos, a fim de contribuir para que o cliente 
possa, a partir de uma maior autonomia, fazer escolhas e buscar o seu crescimento 
pessoal. Também faz-se necessário criar um espaço para que o cliente possa refletir 
sobre as dificuldades enfrentadas, o possível sofrimento diante das experiências 
de trabalho e da necessidade de tomar decisões e lidar com os desafios atuais do 
mundo do trabalho. Segundo a National Career Development Association (NCDA), o 
aconselhamento de carreira é definido como o processo de ajudar as pessoas no 
desenvolvimento de uma carreira de vida com foco na definição do papel dos traba- 
lhadores e como esse papel interage com outros papéis de vida.! 
Partindo dos pressupostos da abordagem centrada na pessoa e na Psicologia 
Positiva, pode-se afirmar que a carreira é uma das dimensões da vida mais direta- 
mente envolvidas na realização e no bem-estar. Relembrando a teoria de motiva- 
ção de Maslow, segundo a qual a autorrealização seria a meta mais elevada, pode- 
-se dizer que, no contexto da carreira, todas as pessoas tenderiam a buscar a sua 
autorrealização, que poderia ser compreendida como estar em um local adequado 
e que possa disponibilizar recursos para se atingir a autorrealização, além de uma 
atividade que oferecesse oportunidade de engajamento e vinculação. A autorreali- 
zação, no entanto, não seria um estado final ao qual chegaríamos depois de certo 
tempo ou a partir da satisfação de necessidades básicas, mas uma construção cons- 
tante na qual se busca, em cada atividade, a autorrealização. Nesse aporte teórico, 
o aconselhamento de carreira deve, portanto, possibilitar que o cliente entre em 
! Informações disponíveis no site da National Career Development Association (NCDA), pelo link: .
100 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
contato com esse processo de se autorrealizar a partir das atividades atinentes 
aquela área, função ou conjunto de ações profissionais. De que modo o cliente 
pode contribuir nesse processo de autorrealização? O que ele precisa conhecer? 
De que modo pode se organizar para atingir tal objetivo? Essas são questões dis- 
paradoras do processo de aconselhamento. 
Muitas instituições nacionais e internacionais visam a promover uma cultura de 
desenvolvimento de carreira, especializando-se na oferta de produtos e serviços - 
entre os quais se situam os processos de aconselhamento - como forma de refletir 
sobre a importância que essa dimensão tem assumido nos dias atuais. A National 
Career Development Association (NCDA), ouAssociação Nacional de Desenvolvimen- 
to de Carreira, fundada nos Estados Unidos em 1913, inspira e capacita a realização 
de carreira e objetivos de vida, proporcionando o desenvolvimento profissional, re- 
cursos e pesquisas na área. Trata-se de uma organização ligada à American Counseling 
Association (ACA). Segundo informações disponibilizadas pela NCDA, busca-se de- 
senvolver estudos sobre a carreira para a oferta de programas e serviços de aconse- 
lhamento de carreira e para a avaliação de materiais de informação de carreira. Esta 
associação também capacita profissionais que desejem se tornar conselheiros espe- 
cializados em carreira e mantêm serviços de orientação pela Internet, pautando-se 
no constante fomento à pesquisa na área como forma de manter a excelência em 
seus processos de formação, consultoria e orientação para o trabalho. 
No Brasil, podemos destacar, entre outros, o papel da Associação Brasileira de 
Orientação Profissional, a ABOP criada em 1993 para agregar profissionais interes- 
sados em “construir algo que significasse o desenvolvimento da Orientação Profis- 
sional no Brasil, unindo esforços e experiências de profissionais que compartilhavam 
dos mesmos questionamentos, das mesmas angústias, das mesmas inquietações e 
do sentimento de isolamento, frequente no cotidiano profissional”? A ABOP possui 
como missão desenvolver, integrar e valorizar a Orientação Profissional no Brasil 
e como visão ser um grupo de referência nacional para profissionais de orientação 
profissional na sua construção de identidade e desenvolvimento profissional. Esta 
associação reúne, desse modo, profissionais que trabalham com a orientação de 
carreira ligada à Orientação Profissional. Não se trata de um órgão que promove a 
formação desses profissionais, mas que congrega pesquisadores, docentes e demais 
ocupações relacionadas ao ensino, à pesquisa e à intervenção no âmbito da carreira. 
Em busca do emprego gratificante? 
Para a Psicologia Positiva, a carreira é uma das dimensões responsáveis pela 
atribuição de sentido à vida, ou seja, é também responsável pelo nosso bem-estar. 
* Informações disponíveis em: . 
* Algumas das ideias discutidas nesta seção foram anteriormente apresentadas, embora de modo su- 
marizado, em capítulo que compõe o livro “Gestão de carreiras: Para iniciar um diálogo”, publicado pelo 
Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inocente & Scorsolini-Comin, 2010).
O Aconselhamento de Carreira 101 
Assim, o emprego gratificante é aquele que contribui para que as pessoas se sintam 
realizadas ou com maiores possibilidades de buscar a autorrealização a partir das 
atividades desempenhadas. Pessoas que trabalham são mais felizes que pessoas de- 
sempregadas e pessoas que estão em trabalhos aos quais atribuem um sentido po- 
sitivo são ainda mais felizes (Snyder & Lopez, 2009). O espaço do aconselhamento 
deve permitir que o cliente pense em como pode atribuir esses sentidos positivos 
ao seu trabalho, a partir, por exemplo, da reflexão acerca da própria carreira e como 
esta vem sendo construída ao longo do tempo. 
A qualidade de vida relacionada ao trabalho faz referência não apenas aos ele- 
mentos materiais relacionados, por exemplo, ao ambiente organizacional, como 
existência de projetos de melhoria da qualidade do trabalho ou de valorização do 
trabalhador. Refere-se, sobretudo, a uma avaliação ou apreciação acerca de como 
aquele trabalho tem impactado na percepção de bem-estar e de realização. Para 
Buss (2000), a saúde e a qualidade de vida podem ser promovidas proporcionan- 
do-se adequadas condições de vida, boas condições de trabalho, educação, cultura 
fisica e formas de lazer e descanso. Aproximando a discussão da área do trabalho, 
a qualidade de vida no trabalho é referida, em muitos estudos, como o maior de- 
terminante da qualidade de vida (Haddad, 2000). O trabalho é percebido como 
algo que dá sentido à vida, é analisado como essencial à percepção de bem-estar. O 
trabalho dever ser visto como parte inseparável da vida humana, sendo uma forma 
de desenvolvimento da identidade, participação no meio social e determinante de 
vários aspectos do desenvolvimento. 
A psicodinâmica do trabalho enfatiza a centralidade do trabalho na vida dos 
trabalhadores, analisando os aspectos dessa atividade que podem favorecer a saú- 
de. Dejours (1986), Dejours, Abdoucheli, Jayet e Betiol (1994) acentuam o papel 
da organização do trabalho no que tange aos efeitos negativos ou positivos que 
aquela possa exercer sobre o funcionamento psíquico e à vida mental do trabalha- 
dor (Inocente & Scorsolini-Comin, 2010). Desse modo, o trabalho não pode ser 
compreendido apenas como uma dimensão isolada da vida, mas como um elemen- 
to fortemente associado a “quem eu sou” e, desse modo, à própria trajetória de 
vida. Por isso a importância de se discutir a preparação para a carreira não apenas 
em empresas e organizações, mas também em escolas, em centros de saúde, nas 
universidades e em todos os espaços nos quais haja alguma abertura para uma 
reflexão sobre saúde, educação e trabalho. 
Estudiosos da Psicologia Positiva têm descoberto o que torna um emprego gra- 
tificante. Essas pesquisas, compiladas por Snyder e Lopez (2009), têm por objetivo 
elencar quais os elementos mais valorizados pelos trabalhadores para avaliar o seu 
emprego e classificá-lo como satisfatório ou não. Como toda avaliação de satisfação, 
parte-se da necessidade de avaliar a própria condição tendo por base informações 
sobre as diferentes realidades acerca do mesmo assunto. Assim, sempre avalio a 
minha satisfação tendo por referência a satisfação de outras pessoas ou as condições 
existentes no meu meio organizacional em comparação com outros meios.
102 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
Há que se reconhecer que a Psicologia Positiva tem sido cada vez mais apro- 
ximada das pesquisas sobre intervenções na carreira e com relação à orientação 
profissional, carecendo, no entanto, que mais pesquisas sejam feitas na área. Como 
destacado por Barros, Martín e Pinto (2010, p. 323), 
As intervenções direccionadas à promoção da felicidade mostram 
que, embora alguns exercícios (expressão da gratidão, identifica- 
ção de aspectos positivos na vida, narração de histórias relativas 
a acontecimentos de vida positivos e significativos e definição das 
virtudes pessoais mais relevantes) sejam eficazes, [...] os resulta- 
dos das intervenções podem estar comprometidos se estas forem 
muito circunscritas do ponto de vista temporal, não respeitando 
OS timings necessários ao desenvolvimento e à consolidação de de- 
terminadas competências. 
Assim, essas intervenções, por exemplo, no contexto do aconselhamento psi- 
cológico, devem ser avaliadas não de modo isolado, mas ao longo do tempo, em 
atendimentos que devem ser acompanhados em termos das mudanças observadas 
no processo de aconselhamento. O emprego gratificante, desse modo, não poderia 
ser discutido como uma técnica isolada, mas como uma atividade disparadora de 
reflexões que se estenderiam ao longo de todo o processo de aconselhamento, mos- 
trando a construção desse emprego gratificante, por exemplo, a partir da interven- 
ção psicológica realizada. Ainda segundo Snyder e Lopez (2009), entre os motivos 
para afirmar que o emprego é gratificante, destacamos: (a) variedade de tarefas 
realizadas; (b) ambiente de trabalho seguro; (c) renda; (d) propósito; (e) felicidade 
e satisfação; (f) engajamento; (g) sensação de desempenhar bem os seus objetivos; 
e (h) companheirismo. Esses elementos sumarizados por esses autores serão aqui 
apresentados em detalhes e compõem o modelo do emprego gratificante, bastante 
utilizado na Psicologia Positiva. 
Variedade de tarefas realizadas 
A variedade de tarefas envolve a consideração de que as pessoas podem ter suas 
potencialidades mais desenvolvidas se tiverema oportunidade de variar as ativi- 
dades desempenhadas com certa frequência, diversificando os cenários de atuação 
e as possibilidades advindas dessa variedade, como aquisição de conhecimentos e 
práticas. Embora você possa ter um emprego que envolva uma rotina, essa rotina 
não pode envolver uma mesma atividade. É importante que as atividades sejam al- 
ternadas e que elas sejam diversificadas. 
Essa orientação faz referência ao processo criativo segundo o qual a novidade 
e a inovação podem emergir a partir dessa variedade, fazendo com que a pessoa se
O Aconselhamento de Carreira 103 
engaje em diferentes movimentos que permitam uma compreensão mais ampla e 
aprofundada de seu meio organizacional ou do seu emprego. Assim, em uma mes- 
ma função, a pessoa pode ter acesso a diversas atividades que favoreçam que ela 
atribua sentido à sua experiência laboral. Com a variedade de tarefas, surge tam- 
bém a diversidade em relação aos desafios profissionais experienciados. Diferen- 
tes atividades requerem, muitas vezes, diferentes conhecimentos e habilidades, o 
que pode levar o cliente à necessidade de ampliar o seu repertório de atuação, o 
que pode estar ligado à sua maior satisfação no emprego ou a uma avaliação posi- 
tiva do seu trabalho. 
Ambiente de trabalho seguro 
O ambiente de trabalho é muito importante. Como você se sente na sua em- 
presa ou organização? Você se sente acolhido, respeitado e seguro para expor as 
suas ideias, para ser você mesmo? Há um clima constante de controle, ameaça de 
demissão, animosidade entre os funcionários? Ou é um ambiente que permite que o 
funcionário desempenhe suas funções de modo adequado e atento às suas próprias 
necessidades e também às necessidades da organização? Um ambiente seguro não 
precisa ser um lugar tranquilo, mas as pessoas precisam se sentir acolhidas, preci- 
sam sentir-se à vontade para poderem atuar da melhor maneira possivel, precisam 
se sentir aceitas. Ambientes que geram insegurança não produzem funcionários 
satisfeitos (embora eles possam ser produtivos). À segurança no ambiente organi- 
zacional refere-se, desse modo, à construção de um espaço no qual a pessoa possa 
transitar de modo a expor suas opiniões, desempenhar suas funções e ser respeitada 
em todos esses processos, gerando confiança na equipe. A confiança no ambiente 
organizacional pode fazer com que os profissionais se engajem mais em determi- 
nadas atividades que têm como objetivo final a atribuição de maior segurança ao 
trabalhador. O ambiente de trabalho seguro relaciona-se diretamente ao conceito de 
clima organizacional, que se refere ao modo como a organização é sentida pelos seus 
colaboradores, se acolhedora ou muito competitiva, se comprometida com o capital 
humano ou influenciada apenas pelo mercado, entre outras possibilidades. Assim, 
deve-se favorecer que o clima organizacional esteja aberto ao contato humano, ao 
acolhimento, independentemente das características da organização. 
Renda para a família e para a própria pessoa 
O dinheiro, apesar de não ser o principal componente de nosso bem-estar, é sim 
muito importante. Precisamos sobreviver e ter renda para a nossa família, para com- 
prarmos as coisas de que precisamos, pagar nossos impostos, para nos divertirmos, 
para levarmos uma vida com estabilidade. A renda advinda da atividade laboral deve 
permitir que o funcionário atenda às suas necessidades fora do ambiente de traba- 
lho, além do que a remuneração deve ser considerada adequada para a realização de
104 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
determinada atividade. Em algumas situações de crise, algumas empresas passam 
por mudanças que envolvem reajustes em salários, por exemplo, Se essas mudanças 
foram situacionais, não tendem a comprometer significativamente a atribuição de 
sentido positivo ao trabalho gratificante, desde que os demais elementos estejam 
devidamente desenvolvidos ou contemplados neste emprego. 
Propósito derivado do fato de fornecer 
um produto ou prestar um serviço 
Você encontra sentido no seu trabalho? Você consegue pensar no porquê de 
estar realizando as suas atividades? Consegue visualizar as finalidades disso? Qual 
o propósito envolvido? Você se sente bem ao participar desse processo e poder con- 
tribuir com o seu trabalho? Muitas pessoas relatam que veem um sentido maior na 
prestação do seu serviço. Essa percepção é comum em ocupações humanitárias ou 
que trabalham diretamente com as pessoas ou em atividades de ajuda. No entanto, 
outras ocupações podem ter a mesma percepção por estarem engajadas em proces- 
sos que produzem, por exemplo, equipamentos que visam a facilitar a vida das pes- 
soas ou a produzir um bem que possa ser útil e satisfatório à comunidade. É preciso 
que, independentemente da função ocupada e do seu setor de atividade, a pessoa 
seja capaz de compreender o sentido da sua atuação. Quem atribui esse sentido ao 
trabalho é o próprio trabalhador, não sendo um valor que parte do outro ou do con- 
selheiro, mas de uma avaliação interna, de uma percepção sobre a atividade laboral. 
Felicidade e satisfação 
Um dos principais focos da Psicologia Positiva é justamente o estudo da feli- 
cidade, o que a causa, o que a possibilita, o que a favorece. Como destacado por 
pesquisas acerca do bem-estar (Graziano, 2005; Fiquer, 2006; Scorsolini-Comin, 
2009; Scorsolini-Comin & Santos, 2010), a definição do que é felicidade, qualidade 
de vida e bem-estar é bastante controversa e polissêmica, o que torna complexa 
a atividade de investigar quaisquer desses conceitos. Muitas vezes, na literatura, 
esses conceitos são tratados como equivalentes. Embora sejam próximos, guardam 
especificidades que devem ser pontuadas e aprimoradas, a fim de que as pesquisas 
possam voltar-se, inclusive, para a melhor definição de cada um dos construtos. 
Embora a literatura científica seja vasta na tentativa de definir a felicidade, pode- 
-se dizer que a satisfação no trabalho refere-se a uma avaliação pessoal de sua con- 
dição laboral a partir de diversos elementos, entre eles as comparações disponíveis, 
o que se espera da ocupação, entre outros. Nas palavras de Spector (2009), a satis- 
fação no trabalho “é uma variável de atitude que mostra como as pessoas se sentem 
em relação ao trabalho que têm, seja no todo, seja em relação a alguns de seus aspec- 
tos” (p. 321), podendo ser traduzida no quanto uma pessoa gosta do seu trabalho.
O Aconselhamento de Carreira 105 
Na compreensão da satisfação no trabalho, este conceito está associado aos sen- 
timentos positivos sobre o emprego, também relacionados às práticas que resultam 
no aumento de desempenho, melhor produtividade e maior interesse do indivíduo 
em demonstrar suas competências no ambiente de trabalho (Caldas, Somensari, 
Costa, Siqueira, & Claro, 2013; Mumtaz, Khan, Aslam, & Ahmad, 2011). 
Estar satisfeito com alguma dimensão da vida - no caso, com o emprego - re- 
cupera a necessidade de constantemente reconhecer as potencialidades e os limites 
dessa atuação tal como ela se apresenta. Você se sente satisfeito no seu trabalho? 
Quando busca responder a essa questão, quais elementos utiliza na clarificação da 
satisfação ou da insatisfação? Há elementos que podem ser mais significativos que 
outros, o que depende de uma avaliação pessoal, ou seja, a variação também decorre 
do fato de que cada pessoa emprega critérios próprios para atestar a sua satisfação 
com o emprego. Mas, em linhas gerais, podem-se elencar alguns, como: remune- 
ração, caracteristica da atividade, possibilidade de ascensão, companheirismo, res- 
peito dos superiores e características da organização e do meio organizacional, seu 
clima etc. Obviamente que o “peso” desses aspectos varia de pessoa para pessoa, ou 
seja, dos seus valores, crenças, necessidades e aspirações quanto ao trabalho. 
Engajamento e envolvimento positivos 
Você se envolve com a sua instituição? Vocêparticipa do que acontece na organi- 
zação, você se engaja nas atividades que lhe são delegadas, você se mostra participa- 
tivo, comprometido e disposto a ajudar? Estar disponível e mostrar seu interesse é se 
envolver positivamente com uma instituição. Profissionais mais satisfeitos tendem a 
se engajar mais do que outros e esse engajamento retrata, na verdade, a possibilidade 
de atribuir sentido à experiência de trabalho. Quanto mais aquele emprego for consi- 
derado importante para a pessoa (não apenas no sentido de uma remuneração), mais 
ela tenderá a se engajar nas atividades que desempenha (Snyder & Lopez, 2009). 
O engajamento tem sido um construto cada vez mais investigado no domi- 
nio da ciência psicológica. O engajamento no trabalho é definido na literatura 
científica como algo positivo, relacionado ao bem-estar ou a uma satisfação ca- 
racterizada por um alto nível de energia e uma forte identificação com o próprio 
trabalho, envolvendo estado mental caracterizado por vigor, resiliência, motiva- 
ção intrínseca, dedicação e absorção (Bakker & Leiter, 2010; Caldas et al., 2013). 
Pessoas engajadas geralmente possuem alto nível de concentração, mostram-se 
absorvidas pelas atividades e mostram interesse genuíno pelo trabalho reali- 
zado, estando conectadas com seus papéis no trabalho (Caldas et al., 2013). O 
engajamento, assim, recobre uma gama de comportamentos e estratégias que 
vincula a pessoa ao seu trabalho, de modo que não basta apenas desempenhar 
bem uma função, mas que esta se conecte ao que a “pessoa é”, aos seus valores, 
às suas aspirações e planos profissionais.
106 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
Sensação de estar desempenhando bem os seus objetivos 
Você avalia o seu trabalho, ou seja, faz uma autoavaliação periódica? O que 
acha do seu desempenho? Você tem atingido os seus objetivos? Você tem ciência 
dos seus objetivos (os seus objetivos profissionais-pessoais e os objetivos do seu 
trabalho)? Sentir-se capaz e realizando bem as suas atividades não apenas melhora 
a sua autoestima, como contribui para que você se sinta melhor em seu trabalho 
e avalie o seu emprego como mais gratificante. Essa sensação ou percepção so- 
bre estar desempenhando bem os seus objetivos refere-se, entre outros, ao modo 
como a pessoa compara as suas expectativas profissionais às possibilidades que o 
emprego pode oferecer. 
Desempenhar “bem” os seus objetivos recupera, além disso, a necessidade de 
ter clareza sobre os objetivos que a pessoa constrói sobre o seu emprego. E pre- 
ciso, portanto, responder à questão: quais os objetivos do seu trabalho ou do seu 
emprego? E quais os seus objetivos pessoais a partir da realização desse trabalho 
ou da sua vinculação a esse emprego? Muitas vezes, as pessoas compreendem 
que o objetivo do trabalho é apenas desempenhar as funções atribuídas ou pres- 
critas, mas o emprego gratificante deve possibilitar que o cliente perceba a sua 
atuação, refletindo constantemente sobre os limites e as potencialidades dessa 
inserção profissional. 
Companheirismo e lealdade dos colegas de 
trabalho e dos chefes da empresa 
Snyder e Lopez (2009) resgatam pesquisas que atestam que pessoas que tra- 
balham com seus melhores amigos são oito vezes mais produtivas no trabalho 
do que as que não trabalham ao lado dessas pessoas. Infelizmente, nem todos 
têm a oportunidade de trabalhar com seus melhores amigos. Mas é importante 
termos um clima amistoso em nosso ambiente de trabalho, de mantermos bons 
relacionamentos também no meio profissional. Você já saiu com os seus colegas 
de trabalho? Você conhece um pouco da história de cada um? Você se interessa por 
eles? Você demonstra afetos? Você está aberto a novas amizades? Ter um clima de 
companheirismo e lealdade favorece o bom desempenho e torna os profissionais 
mais satisfeitos. As intempéries do dia a dia profissional podem ser amenizadas se 
fizermos parte de uma equipe que nos dê segurança, que nos conheça e que parti- 
lhe de sentimentos em comum. O companheirismo pode aumentar a confiança, de 
modo que o colega de trabalho possa ser um importante interlocutor em momen- 
tos de maior dificuldade no trabalho ou mesmo quando o desempenho profissio- 
nal começa a ser afetado, por exemplo, por questões familiares ou de outra ordem. 
Desse modo, companheiros leais podem ser importantes no compartilhamento de 
sentimentos e experiências que tendem a suavizar o clima organizacional e moti- 
var os funcionários no desempenho de suas funções.
O Aconselhamento de Carreira 107 
Compreendendo o emprego gratificante 
O emprego gratificante não é um índice fechado cuja avaliação ocorre de modo 
linear e unívoco. Também é uma avaliação que pode e deve ser empregada ao longo do 
tempo, podendo ocorrer flutuações neste construto em função de diversos aspectos 
emocionais, situacionais e contextuais. No contexto do aconselhamento de carreira 
desenvolvido sob o enfoque da Psicologia Positiva, podemos avaliar nosso emprego 
(cargo, trabalho) a partir dos critérios apresentados e que seriam importantes na ca- 
racterização de um emprego gratificante segundo o modelo desenvolvido por Snyder 
e Lopez (2009): (a) variedade de tarefas realizadas; (b) ambiente de trabalho seguro; 
(c) renda para a família e para a própria pessoa; (d) propósito derivado do fato de for- 
necer um produto ou prestar um serviço; (e) felicidade e satisfação; (f) engajamento e 
envolvimento positivos; (g) sensação de estar desempenhando bem os seus objetivos; 
(h) companheirismo e lealdade dos colegas de trabalho e dos chefes da empresa. Para 
cada um desses critérios, o cliente deve refletir sobre a importância que atribui a eles. 
Posteriormente, deve tentar dimensionar de que modo essas balizas estão presentes 
ou não em seu emprego. Ou seja, para cada uma das dimensões há duas avaliações 
possíveis: a importância atribuida e o modo como essa dimensão se apresenta no 
emprego atual. Esse exercício* pode ser feito individualmente ou com o auxílio de um 
conselheiro ou orientador de carreira. 
Por exemplo, se você atribui muita importância ao fato de trabalhar com uma 
equipe leal, vai se mostrar aborrecido se não atingir isso no seu emprego. Assim, 
deve trabalhar no sentido de encontrar amizades e alianças seguras no seu am- 
biente de trabalho, a fim de que possa fazer uma avaliação positiva desse critério. 
Assim, avalie o seu trabalho tanto em função da importância de cada critério (dos 
oito anteriormente apresentados) quanto do modo como cada um está presente 
em sua experiência profissional. 
O aconselhamento de carreira na Psicologia Positiva pode empregar esse exercicio 
como forma de balizar o processo de orientação do cliente, com base nas respostas 
atribuídas a cada um dos critérios de avaliação do emprego gratificante. A partir dos 
pontos fortes apontados neste instrumento, pode-se discutir no processo de acon- 
selhamento de que modo esses aspectos podem ser ainda mais potencializados ou 
mesmo olhando para os aspectos considerados fracos ou as avaliações que necessitam 
melhorar a partir do exercício. O próprio conselheiro pode incrementar o exercício, 
incluindo aspectos que julgue relevantes na atribuição das características de um em- 
prego gratificante, como por exemplo “ajustamento dos seus valores pessoais à mis- 
são e aos valores da organização” e “reconhecimento do seu trabalho por parte de sua 
equipe (chefia, colegas e colaboradores)”. Dessa maneira, pode propor um exercício 
adaptado ao contexto no qual atua, com os elementos que julgar mais importantes. 
* O instrumento original está presente no capítulo intitulado “Bom trabalho: A Psicologia do emprego 
gratificante”, do livro “Psicologia Positiva: Uma abordagem científica e prática das qualidades humanas”, 
publicado pela editora Artmed (Snyder & Lopez, 2009, p. 372).
108 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
O que deve ser destacado é queo exercício, isolado de um processo sólido de 
aconselhamento de carreira, não constitui uma técnica relevante para que o cliente 
compreenda a sua situação. O papel do conselheiro, facilitando o processo de com- 
preensão desse instrumento, é importante no sentido de ajudar o cliente a clarificar 
a sua situação naquele determinado emprego. Aconselhar acerca da carreira, desse 
modo, não parte de uma compreensão do conselheiro do que seja melhor e mais 
adequado para o cliente, mas de que modo esse próprio cliente compreende os ele- 
mentos que contribuem para a sua trajetória profissional. 
A partir dos diversos elementos do aconselhamento psicológico desenvolvidos 
neste livro, poderíamos resumir e sistematizar o aconselhamento de carreira em 
termos de cinco passos principais que podem orientar o trabalho do profissional que 
pretende atuar nesta área: 
1º passo: estabelecimento de um contrato 
Embora estejamos imersos em uma sociedade na qual a figura do psicólogo não 
é mais vista com desconfiança, de modo que as atividades desenvolvidas por esse 
profissional já são mais palatáveis às pessoas, há que se destacar que ainda pairam 
diversos questionamentos sobre essa atuação no imaginário social. Entre essas ima- 
gens estão a do psicólogo como alguém que “lê mentes”, que está sempre “analisan- 
do”, que “o conhece mais do que você mesmo” ou que possui um “poder” de dizer 
se uma pessoa está apta ou não a uma determinada função. Mesmo em processos 
seletivos realizados em organizações, por exemplo, os profissionais que trabalham 
com recrutamento e seleção empregam seus conhecimentos para ajudar os gestores 
em seu processo decisório, não sendo os próprios psicólogos, muitas vezes, que 
contratam ou não uma determinada pessoa em função da avaliação psicológica que 
fizeram acerca de determinado candidato. Isso nos leva a compreender que ao psicó- 
logo ainda são atribuídos “poderes” ou responsabilidades que muitas vezes passam 
por outros profissionais, sendo a sua função a de auxiliar sempre tendo por base os 
seus conhecimentos, exclusivamente. Não cabe ao psicólogo aplicar técnicas que 
não sejam atribuídas aos psicólogos, sendo que esse profissional também não pode 
realizar procedimentos que não estejam de acordo com seu código de ética. 
Feito esse breve esclarecimento sobre esse profissional, vamos explicar o que com- 
preendemos por contrato. De modo geral, os contratos tratam de acordos entre duas 
ou mais partes e podem ser informais, formais, registrados ou não em instâncias supe- 
riores. Fazem referência à necessidade de que todas as partes envolvidas cumpram os 
acordos firmados a partir do respeito ao outro e das particularidades que destacam as 
regras, o que pode ser feito, o que não pode ser feito e quais as eventuais punições ou 
sanções que recaem sobre quem não cumpre um determinado ponto desse contrato. O 
contrato psicológico, por sua vez, refere-se a uma situação de acordo firmado entre o 
profissional e o seu cliente que trata dos termos que envolvem a relação de ajuda que
O Aconselhamento de Carreira 109 
será estabelecida, quer seja em um aconselhamento ou em uma psicoterapia. O contrato 
não precisa ser escrito, de modo que ambos devem estabelecer uma relação de confiança 
que suporte a não formalização desse contrato. O contrato psicológico pertence àquela 
díiade, em um dado momento e com determinadas condições para que o trabalho do 
psicólogo possa ser realizado visando ao atingimento dos objetivos apregoados pelo 
cliente. O contrato deve recobrir respostas para as seguintes questões: 
a) Quais os objetivos do cliente para buscar ajuda profissional? 
b) A partir desses objetivos, o profissional pode ajudá-lo em quais deles? 
c) Como o processo será realizado? (entrevistas, conversas, questionários, 
técnicas empregadas) 
d) Qual a duração média do processo? (ainda que em algumas abordagens 
seja complexo afirmar isso, qual é a previsão para que a pessoa possa 
atingir seu objetivo?) 
e) Quantos encontros ocorrerão na semana e qual a duração de cada um? 
Em que consiste, de fato, o processo de aconselhamento psicológico? P 
g) Como o profissional pensa que o aconselhamento possa ser importante 
para que o cliente atinja os objetivos já relatados? 
h) Como será o pagamento por esse processo? (sem custos, por sessão, 
valor de cada encontro, valor do pacote) 
1) Como será feita a avaliação do processo? (pelo profissional, pelo cliente, 
por ambos, ao final de cada encontro, ao final de cada módulo, ao final 
de todo o processo) 
Esse contrato pode ser estabelecido ao final do primeiro encontro. É desejá- 
vel que não ocorra de início, pois isso poderia atrapalhar o cliente no processo 
de explicitação de suas dúvidas ou de esclarecimento de suas queixas e deman- 
das. Depois de um primeiro encontro, o profissional do aconselhamento estará 
habilitado a dizer se o melhor tratamento ou encaminhamento é mesmo o acon- 
selhamento ou se o cliente poderia se beneficiar de outro processo de ajuda. O 
importante é sempre reconhecer os limites e as possibilidades do aconselhamen- 
to psicológico. O profissional deve estar apto a responder às seguintes perguntas 
antes de estabelecer o contrato: 
a) As demandas trazidas pelo cliente são compatíveis com as queixas re- 
latadas em um processo de aconselhamento psicológico? 
b) Eu possuo recursos profissionais e emocionais para acompanhá-lo nesse 
processo?
110 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
c) As técnicas e procedimentos que eu domino são compatíveis com o 
tratamento das queixas relatadas pelo cliente? 
Caso seja capaz de responder afirmativamente a essas questões, o profissional 
pode dar início ao estabelecimento do contrato, deixando sempre claras as con- 
dições e as regras para os atendimentos. Deve-se deixar claro ao cliente quais as 
características do aconselhamento, quais as suas limitações e potencialidades para 
solucionar demandas semelhantes às relatadas por quem busca ajuda. Quanto mais 
sincero o profissional for com seu cliente, retomando a necessidade de ser autênti- 
co trazida por Rogers, mais o cliente poderá estabelecer uma relação de confiança 
necessária para o desenvolvimento do processo de ajuda. Ser autêntico significa, 
entre outros, responder assertivamente ao cliente, ser sincero e objetivo, oferecer 
respostas pontuais a questionamentos objetivos, tratando do cliente com respeito à 
sua história, escolhas, necessidades e limitações. 
A partir do estabelecimento do contrato, deve-se permitir que o cliente traga 
questionamentos que podem dizer respeito à duração do processo, às técnicas em- 
pregadas ou às próprias características do aconselhamento. Esses questionamentos 
já funcionam como o início do estabelecimento de um vínculo. Na verdade, há que 
se retomar que o vínculo passa a ser formado a partir do momento em que o cliente 
entrou em atendimento, os primeiros olhares, as primeiras impressões, o modo 
como relata ter chegado ao profissional. Há que se destacar que o contrato deve, 
muitas vezes, ser rediscutido ou retomado no decorrer do processo, haja vista a 
necessidade de mudanças. Essas podem ser de diferentes ordens, como reajuste 
no valor do encontro, necessidade de alteração do dia de atendimento, ou mesmo 
encaminhamento do cliente a um outro profissional ou à psicoterapia, por exemplo. 
Como um contrato baseado na confiança, é importante trabalhar com o cliente no 
sentido de que a revisão no mesmo deve sempre ocorrer quando pelo menos uma 
das partes sentir essa necessidade, o que pode se dar quando algum acordo não for 
cumprido ou quando houver a exigência de uma nova abordagem do problema ou 
do processo como um todo. 
2º passo: conhecer a si mesmo 
Essa orientação não é exclusiva de um processo de aconselhamento de carreira, 
mas deve permear todo o processo de autoconhecimento, entre os quais destacamos 
a psicoterapia, por exemplo. O que seriaa psicoterapia se não um processo constante 
de se autoconhecer, a fim de manejar de modo mais adequado os recursos em direção 
a um maior bem-estar? Assim, é fundamental que o profissional saiba ajudar o cliente 
nesse autoconhecimento. Isso pode ocorrer de diversas formas, entre elas: aplicação 
de questionários, testes, inventários, técnicas de autorrelato, entrevistas, narrativas, 
reflexões sobre as experiências cotidianas, entre outras técnicas. Independentemente 
da técnica empregada, deve-se sempre explicar ao cliente em que consiste essa técni-
O Aconselhamento de Carreira 111 
ca, qual o seu objetivo e por que ela é indicada no seu caso. À aplicação de testes, por 
exemplo, pode ser uma situação que potencialize a ansiedade decorrente de estar ha- 
vendo uma avaliação. Na verdade, deve-se esclarecer que se trata de uma técnica que 
tem por objetivo o autoconhecimento ou um melhor reconhecimento de potencialida- 
des e fragilidades do cliente, de modo a auxiliá-lo no aconselhamento e não classificá- 
-lo. Toda e qualquer aplicação de instrumental deve ser discutida e apresentada ao 
cliente como uma possibilidade, não como uma solução ou ferramenta que possui um 
fim em si mesmo, descolado de um processo maior de aconselhamento. 
3º passo: conhecer o mundo do trabalho e as possibilidades do mercado 
É muito importante que o cliente conheça de que modo se organiza o mer- 
cado de trabalho e suas possibilidades, áreas emergentes, tendências e perspec- 
tivas. À depender da área em que deseja atuar, deve conhecer concursos públi- 
cos, cursos preparatórios, bem como buscar assessoria em órgãos que orientam 
empreendedores no caso de abertura de um novo negócio ou de necessidade de 
mudanças em seu negócio atual. A reflexão sobre a carreira, passa, desse modo, 
pelas possibilidades do mundo do trabalho aceitar ou absorver as suas ideias é 
propostas. Deve conhecer sua área de atuação, possibilidades de inserção, orga- 
nizações existentes, desafios e lacunas a preencher. Um programa de aconselha- 
mento de carreira deve tomar por base esse contexto, a fim de que possibilite ao 
cliente em atendimento um diálogo proficuo com a realidade que o cerca, evi- 
tando decisões que conduzam ao sofrimento de dedicar-se a algo com menores 
potencialidades ou com poucas perspectivas. 
Uma advertência deve ser feita ao leitor nesse ponto. Não se trata aqui de 
resgatar a teoria de traço e fator criticada no início do livro, mas de articular o 
seu plano profissional à exequibilidade, ou seja, à necessidade de colocar em 
prática as aspirações e desejos trazidos pelo cliente em processo de aconselha- 
mento. O cliente deve ler manuais profissionais, estar atento às transformações 
do mercado, às tendências econômicas, aos cenários possíveis para a sua escolha 
profissional. Esse processo de informar-se é parte do aconselhamento, haja vista 
que o cliente passa a buscar, por si mesmo, a resolução dos seus conflitos e um 
melhor direcionamento da carreira. 
O reconhecimento de quem se é, suas qualidades e aptidões, não deve desem- 
bocar em uma resposta única do tipo “um perfil adequado a cada profissão”, mas se 
articular aos projetos de vida, que passam pela apreciação do contexto de atuação. O 
que distancia a presente proposta de intervenção das clássicas teorias sobre aconse- 
lhamento de carreira é justamente o papel do conselheiro como um facilitador, como 
alguém disponível para acompanhar o cliente em suas dúvidas e na busca pelo seu 
crescimento pessoal, a exemplo do que se apregoa em outras abordagens teóricas, 
como no construcionismo social destacado a seguir:
112 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
[...] o cliente é o especialista sobre si mesmo, o que desconstrói 
um discurso vigente acerca do fato de que, para se aconselhar 
adequadamente, é preciso entender do universo do cliente, estar 
imerso no mesmo ou em seu contexto - é priorizada tanto a dife- 
rença como o fato de o profissional não fazer parte da mesma área 
de seu cliente, o que nos levaria à ilusão de que administradores 
(ou psicólogos, ou educadores etc.) só poderiam ser aconselhados 
por seus pares. O que coloca as pessoas em interação é justamente 
a abertura para o diálogo e o engajamento positivo no sentido de 
favorecer uma escuta e uma reflexão sobre a prática profissional e 
sobre a história do cliente que procura por ajuda (Souza & Scorso- 
lini-Comin, 2011, p. 54). 
A partir dessas considerações, pode-se pensar no planejamento da carreira no curto, 
médio e longo prazos, tendo como pressuposto a possibilidade de rever esses elemen- 
tos sempre que necessário ou quando algo for modificado na estrutura da carreira ou 
mesmo na revisão de planos e metas do cliente. O aconselhamento de carreira não 
pode ser um procedimento cristalizado e realizado apenas em uma fase da vida, mas 
justamente estar aberto a revisões e reconsiderações, ou seja, deve ser um processo 
em acontecimento, assim como a carreira. 
4º passo: estabelecer planos e metas 
Ao conhecer suas potencialidades, desejos e possibilidades de prática a partir 
do mercado de trabalho, o conselheiro deve ajudar o cliente a estabelecer planos e 
metas para a sua carreira: onde se pretende chegar, em qual prazo, quais atividades 
pretende realizar, em quais ocupações pretende se engajar para satisfazer-se pro- 
fissionalmente? Essas são apenas algumas das perguntas que podem orientar esse 
processo. O planejamento de carreira deve ser feito tendo o máximo de informações 
possíveis sobre a sua carreira e dimensionando o seu trabalho como um dos pilares 
da vida, mas não o único - há que se considerar elementos como familia, lazer, satis- 
fação de outras necessidades não relacionadas ao mundo do trabalho, investimentos 
em cursos, viagens, entre outros. 
A carreira, para ser bem planejada, deve se articular também aos outros pla- 
nos de vida, motivo pelo qual não concebemos a carreira “descolada” da realidade 
na qual se situa, ou seja, no contexto de vida do cliente. As metas profissionais 
também devem ser dimensionadas tendo em mente os valores pessoais e as ne- 
cessidades ocupacionais apresentadas. O que será preciso realizar para se atingir 
determinada meta? Esta é uma questão central que pode nortear o aconselhamen- 
to nesta fase: delimitar as necessidades para se atingir cada uma das metas torna-
O Aconselhamento de Carreira 113 
-Se um marcador organizativo importante, cuja visualização pode permitir que a 
pessoa, simplesmente ao olhar para o seu plano de carreira, reconheça os ajustes 
que precisam ser feitos, áreas a serem priorizadas ou mesmo ideias que devem ser 
abandonadas, ainda que temporariamente. 
Obviamente que todo plano deve considerar a possibilidade de ser revisto, 
permitindo um novo desenho dessa realidade e dos caminhos necessários. Mais 
uma vez é preciso considerar aqui a função do conselheiro: a de facilitar esse 
processo de visualização, de revisão, de acompanhamento e avaliação de car- 
reira. Quem escolhe os caminhos, os prazos, as metas e mesmo as estratégias é 
o próprio cliente, com a ajuda do conselheiro. Assim, ultrapassa-se a noção de 
um aconselhamento que depende das respostas do conselheiro, mas fundamen- 
talmente do cliente em interação com o conselheiro e também da competência 
desse profissional em manejar o processo para que o cliente atinja os objetivos 
apregoados ao iniciar o processo. 
5º passo: planejar sempre 
Cada vez mais a carreira tem sido apresentada como um aspecto da vida em per- 
manente mudança. À todo momento, diversas informações entram em circulação, 
novas possibilidades são apresentadas e a necessidade de revisão parece acompa- 
nhar o próprio processo de crescimento pessoal: para crescer é necessário mudar. 
Essa frase parece se aplicar bem a um contexto de carreira em constante incremento. 
O mundo do trabalho tem possibilitado novas leituras e desafios, de modo que o 
profissionaltem que ser capaz de responder a esses incrementos ao mesmo tempo 
que reserva um espaço para compreender a sua carreira de modo mais amplo, ligado 
a sua própria trajetória de vida. É por isso que a máxima “planejar sempre” pode ser 
compreendida em função de outra afirmação basal nessa modalidade de aconselha- 
mento: “a carreira sempre mudará”, acompanhando o movimento do próprio ama- 
durecimento do indivíduo. Em outras palavras, “o orientador deve ajudar o cliente a 
entrar na história que criou, explorando novas descrições de si, ou seja, mudando” 
(Souza & Scorsolini-Comin, 2011, p. 56). 
É de suma importância pensar também no papel do conselheiro nesse processo 
de refletir sobre a carreira junto com o cliente. O profissional do aconselhamento 
deve estar preparado para ajudar o cliente durante esse processo de autoconheci- 
mento, que deve ser realizado com atenção ao contexto em que se está inserido e as 
possibilidades de revisão sobre a identidade profissional - que pode ser compreen- 
dida como em constante construção e lapidação. 
Ao narrarmos os modos como essa carreira irá se estruturar e se desenvolver es- 
tamos, inequivocamente, falando de um diálogo com o nosso contexto e com nossos 
múltiplos outros, que nos oferecem a possibilidade relacional e de coconstrução de 
nossas identidades profissionais. Assim, longe de julgarmos uma realidade, pode-
114 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
mos fazer uso da apreciação como formadora de um juízo que precede o julgamento 
(Souza & Scorsolini-Comin, 2011, p. 56). 
Ao destacarem a apreciação em uma perspectiva construcionista social, esses 
autores abrem a possibilidade de pensá-la em outras abordagens, a exemplo da Psi- 
cologia Positiva, que também partilha do enfoque apreciativo. A postura apreciativa 
destaca a possibilidade de olhar e compreender as experiências a partir do enlevo 
aos aspectos positivos, adaptativos, saudáveis e que promovem a mudança, o bem- 
-estar, a satisfação e a saúde. No contexto da carreira, a apreciação promove uma 
cultura que destaca os aspectos considerados positivos no meio organizacional, no 
cargo que se ocupa ou mesmo na natureza da ocupação. Ela pode ser implementada 
a partir de reflexões iniciais consideradas simples, como: 
a) De quais aspectos você mais gosta no seu trabalho? 
b) Quais os sentidos positivos que você observa na sua atuação profis- 
sional? 
c) De que modo os aspectos positivos do seu trabalho repercutem na cons- 
trução da sua carreira? 
d) Como essa apreciação positiva pode ser empregada na compreensão do 
seu percurso profissional até o momento? 
e) Quais aspectos positivos você observa na sua carreira até o momento? 
A partir das respostas a essas perguntas, que podem ocorrer ao longo do aconse- 
lhamento, sendo retomadas sempre que necessário ou que novos elementos forem 
incorporados, novas questões podem ser lançadas como forma de propor direciona- 
mentos ou encaminhamentos para esses sentidos positivos construidos: 
a) Como posso favorecer uma apreciação positiva do meu trabalho? 
b) De que modo posso contribuir para que o clima organizacional seja mais 
favorável? 
c) Quais recursos posso ativar para a resolução dos possíveis conflitos ou 
impasses observados no meu trabalho? 
d) De que forma eu posso aplicar os aspectos positivos vivenciados no 
meu trabalho na minha carreira, ou seja, ao longo da minha trajetória 
profissional? 
O conselheiro deve estar atento a essas respostas na busca por compreender 
de que modo a carreira desse cliente vem sendo construída ou, então, pautado em 
quais princípios esse cliente tem abordado a construção da sua carreira. Quando 
avalia a sua carreira, quais elementos utiliza para justificar as suas dificuldades ou
O Aconselhamento de Carreira 115 
necessidades em termos profissionais? Obviamente que muitos profissionais que 
não se consideram satisfeitos em sua carreira tendem a elencar aspectos negativos 
ou desadaptativos acerca das suas experiências de trabalho, pelo menos em uma 
primeira apreciação ou para a clarificação da queixa inicial para o seu conselhei- 
ro. Embora esses aspectos negativos sejam, por vezes, responsáveis pela busca de 
orientação ou de ajuda na compreensão do modo como a carreira vem sendo organi- 
zada, há que se destacar que a cultura da apreciação promove uma ruptura no modo 
como o indivíduo percebe a sua carreira: ao invés de elencar os problemas pelos 
quais tem passado (e esses problemas serão elencados e pensados ao longo do acon- 
selhamento), pode esforçar-se na recuperação de experiências positivas de carreira, 
identificando quais elementos estão presentes e que podem estar relacionados a 
essa percepção satisfatória ou essa sensação de bem-estar. 
Para resumir e ampliar 
Neste capítulo, conhecemos um pouco mais acerca do processo de aconselha- 
mento de carreira tendo por base os pressupostos teóricos da Psicologia Positiva. 
Em profissionais que estejam no início da carreira, o conselheiro pode explorar 
experiências mais próximas da inserção profissional, como a formação acadêmica, a 
decisão por aquela carreira e mesmo o processo de orientação profissional anterior 
ao ingresso na universidade, por exemplo. Em todos esses casos, parte-se da neces- 
sidade de compreender quem a pessoa é, quais os seus recursos e potencialidades 
para sua maior autonomia em relação à carreira. No processo de aconselhamento, 
busca-se sempre que a pessoa possa se responsabilizar pelas suas escolhas e realizá- 
-las de modo autônomo e consciente, recuperando a ideia do conselheiro como um 
facilitador desse processo e encorajador do cliente no sentido de promover as mu- 
danças necessárias. O aconselhamento de carreira baseado na perspectiva da Psico- 
logia Positiva é representado resumidamente na Figura 7.1. 
A partir da leitura do capítulo e das suas reflexões pessoais acerca do que é car- 
reira, responda às questões a seguir: 
1) O que é carreira? 
2) Em que consiste, em linhas gerais, um processo de aconselhamento de 
carreira? Quais os seus objetivos? 
3) Se tivesse que montar um esquema próprio de atendimento em aconse- 
lhamento de carreira para ajudar um colega de curso, como procederia? 
Dê exemplos de cada um dos passos adotados.
116 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
Desde a primeira entrevista, deve-se possibilitar que o 
cliente fale sobre a sua carreira atual, os motivos para ter 
buscado o aconselhamento psicológico, bem como história 
de vida, história de vida relacionada ao trabalho, queixa 
apresentada e questões a serem resolvidas. 
Primeiros encontros: o cliente deve reconhecer, com 
auxílio do conselheiro, suas principais aptidões e 
qualidades, seus recursos pessoais e profissionais para O 
enfrentamento de diversas situações relacionadas ao 
mundo do trabalho. Deve-se buscar a construção de um 
perfil de qualidades e potências. 
Encontros intermediários: trabalhar aspectos ligados ao 
planejamento de carreira do início até a aposentadoria, 
como a pessoa tem se preparado, se possui informações 
objetivas, se possui dúvidas etc. Abordar aspectos 
relacionados à família, ao meio social e às fontes de apoio. 
Últimos encontros: discutir com o cliente o que ele 
compreende por carreira, quais os seus principais planos 
e metas para curto, médio e longo prazos. O cliente deve 
ser capaz de reconhecer de que modo a carreira pode 
contribuir para aumentar a sua satisfação de vida e o seu 
bem-estar. 
Encontros finais: recuperar a todo momento a carreira 
como um processo fluido e que pode sempre ser alterado, 
que pode ser revisto, replanejado. O principal ganho do 
aconselhamento deve ser a capacidade de o cliente 
refletir de modo autônomo e amadurecido sobre a sua 
própria carreira como elemento diretamente relacionado 
à sua própria vida. 
Figura 7.1 Sequência de um processo de aconselhamento psicológico na abordagem 
da Psicologia Positiva.
SAÚDE EM FLORESCIMENTO:ACONSELHAMENTO 
PSICOLÓGICO NA PSICOLOGIA POSITIVA 
[...] as práticas que produzem o florescimento - emoções positivas, 
sentido, boas obras e relacionamentos positivos -— estão acima e além 
das práticas que minimizam o sofrimento. (Seligman, 2011, p. 65). 
Os movimentos por uma sociedade na qual o sofrimento psíquico fosse acolhido e 
compreendido como algo inerente ao meio social, cultural e histórico intensificaram- 
-se no Brasil nas últimas décadas do século XX, juntamente com as constantes denún- 
cias sobre maus-tratos em hospitais psiquiátricos e com o alerta sobre a desumani- 
zação no tratamento em saúde mental. Ao recluir os chamados “loucos” do convívio 
social, em um modelo hospitalocêntrico tradicional, buscava-se afastar a sociedade do 
que seria o processo de adoecimento mental ou, em outras palavras, que o sofrimento 
psíquico não poderia ser acolhido por aquele meio. Esse quadro de referência come- 
çou a ser modificado a partir de transformações significativas ocorridas no plano das 
políticas públicas em saúde e em movimentos sociais que reivindicavam uma atenção 
ética, qualificada e respeitosa voltada ao ser humano em diversas partes do mundo. 
O contexto da saúde no final do século XX vinha sendo assolado por diversos mo- 
vimentos importantes. Na década de 1980, destaca-se a redemocratização e a reforma 
sanitária. Em 1988, com a promulgação da nova Constituição Federal, a saúde passa a 
ser destacada como direito de todos e dever do Estado. Em 1988 foi instituído o SUS 
(Sistema Único de Saúde) pela Constituição Federal, com os seus princípios de re- 
gionalização, hierarquização, descentralização, integralidade da assistência, equidade 
é participação popular. O SUS está regulado pela Lei nº 8.080/1990. Amparada nas 
experiências de outros países, como da Itália (Basaglia, 2005), em direcionamentos 
ocorridos a partir da VIII Conferência Nacional de Saúde (1986) e no estabelecimen- 
to do SUS, a Reforma Psiquiátrica brasileira constituiu uma mudança significativa 
do modo de tratar, entender e promover a saúde mental no início de 2001. A expe- 
riência italiana, liderada por Franco Basaglia (2005), mostrava a possibilidade de um
118 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
atendimento alternativo que não excluisse a pessoa adoecida da sociedade em que 
vive e de seus vínculos familiares, o que mostrou a necessidade de que o modelo 
hospitalocêntrico outrora adotado no Brasil pudesse ser revisto. Assim, a Reforma 
Psiquiátrica brasileira não pode ser considerada uma política de saúde isolada, mas 
justamente relacionada a diversos movimentos sociais ocorridos no Brasil a partir 
da década de 1970, como a redemocratização, e que requerem um olhar atento à 
construção da cidadania, da democracia e da busca pelo bem-estar (Amarante, 2000; 
Aosani & Nunes, 2013; Camargo-Borges & Mishima, 2009; Bacelar, 2011). 
A Reforma Psiquiátrica, reconhecida no Brasil a partir da Lei 10.216, de 6 de 
abril de 2001 (Brasil, 2001), foi um marco no sentido de promover o atendimen- 
to comunitário a pacientes psiquiátricos ou em sofrimento mental, anteriormente 
cronificados em asilos e hospitais psiquiátricos. Com a criação dessa lei, houve gra- 
dativamente a diminuição dos leitos psiquiátricos e das internações, priorizando 
um modelo de atendimento no qual o paciente deve ser integrado à sociedade e à 
comunidade em que vive, com direito à convivência familiar. Desse modo, a reforma 
destaca a necessidade de desinstitucionalização em favor de um atendimento comu- 
nitário que pode ocorrer em equipamentos alternativos como hospitais-dia, hospi- 
tais-noite, centros de convivência, centros de atenção psicossocial, ambulatórios de 
emergências psiquiátricas, residências terapêuticas e outras possibilidades de cuida- 
do (Barroso & Silva, 2011; Vidal, Bandeira, & Gontijo, 2008). Em consonância com 
os pressupostos do SUS (integralidade, equidade e a descentralização), as novas 
políticas de saúde mental decorrentes da Reforma Psiquiátrica visam a compreender 
cada cidadão como um ser único que necessita de cuidados particulares, imerso em 
condições culturais, sociais e históricas que devem ser consideradas sempre. 
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde mental é com- 
preendida como o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capaci- 
dades, pode fazer face ao estresse normal da vida, trabalhar de forma produtiva e 
contribuir para a comunidade em que se insere, ou seja, retoma o próprio conceito 
de saúde. Segundo Rosa e Sandri (2013), relaciona-se com o modo como as pessoas 
administram desejos, capacidades, ambições, ideias e emoções frente às exigências 
da vida. O “estado de bem-estar”, utilizado para a delimitação teórica sobre o campo 
da saúde mental, dialoga diretamente com um dos pilares da Psicologia Positiva, que 
é justamente a promoção do bem-estar. Nessa abordagem, o bem-estar deve promo- 
ver o florescimento pelo aumento da emoção positiva, do engajamento, do sentido, 
dos relacionamentos positivos e da realização (Seligman, 2011; Scorsolini-Comin, 
Fontaine, Koller, & Santos, 2013). 
Partindo da definição de saúde mental pela OMS e do modo como essa aten- 
ção vem sendo desenvolvida no contexto brasileiro, pode-se pensar em modelos de 
atendimento psicológico que busquem, de modo coordenado, promover o bem-estar 
da pessoa em sofrimento psíquico em uma estrutura que prioriza a inserção desta 
em uma comunidade, respeitando os pressupostos de inclusão social, cultural e his- 
tórica (Lemos & Cavalcante Junior, 2009). Nesse sentido, o aconselhamento psico- 
lógico, modalidade de atendimento que prioriza a dimensão da pessoa como maior
Saúde em Florescimento 119 
potencialidade no tratamento, desponta como possibilidade de escuta, acolhimento 
e ajuda não apenas nos momentos de crise e de emergência (Gomes, 2008), mas 
também ao longo de todo o processo de tratamento, ocorrido em residências tera- 
péuticas ou em CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), para citar dois exemplos de 
equipamentos mais frequentes no sistema brasileiro. O aconselhamento psicológico 
recupera a possibilidade de que a pessoa em sofrimento possa ser ouvida de modo 
a organizar a sua demanda, reconhecer as suas potencialidades e tomar decisões 
importantes, inclusive no que se refere aos direcionamentos de seu tratamento. 
Para a Organização Mundial de Saúde (WHO, 1995), o aconselhamento apoia- 
-se no estabelecimento de condições favoráveis para que o indivíduo avalie seus 
problemas e tome decisões. Na abordagem centrada na pessoa proposta por Rogers 
(2005), o aconselhamento trata-se de uma relação de ajuda na qual o psicólogo tem 
a função de facilitar que a pessoa busque o sentido de suas experiências, clarifican- 
do a sua demanda e reconhecendo seus recursos para enfrentar os obstáculos que 
se apresentam ao seu crescimento e à sua autorrealização (Pupo & Ayres, 2013). 
Ainda para Rogers (2005), o aconselhamento é um relacionamento e um encontro 
interpessoal e intersubjetivo entre alguém em busca de auxílio e um psicoterapeuta, 
o que destaca elementos não apenas do cliente, mas também daquele que oferece 
esta ajuda. O psicoterapeuta deve estar suficientemente preparado para os atendi- 
mentos em termos da manifestação das atitudes básicas como empatia, congruência 
e consideração positiva incondicional pelo outro (Rudio, 1986), fundamentais para 
o estabelecimento de uma relação de ajuda considerada satisfatória. 
A despeito da prevalência de práticas em saúde mental que não compreendem 
o bem-estar integral da pessoa como um dos principais objetivos do tratamento, ou 
que possuem uma visão essencialmente focada na psicopatologia, a experiência de 
exercer uma Psicologia orientada positivamente é reveladora das potencialidades 
dos seres humanos, mesmo com certo grau de impedimento e comprometimento 
impostos pela psicopatologia, como afirmam Lemos e CavalcanteJunior (2009). 
Assim, a Psicologia Positiva aplicada à saúde mental considera o indivíduo adoecido 
como uma pessoa com potencialidades e que deve ser reconhecido como tal pela so- 
ciedade, pela equipe de profissionais de saúde e assistência social, pela sua própria 
família (Barros, Martin, & Pinto, 2010). 
A partir desse panorama, o objetivo deste capítulo é apresentar como o aconse- 
lhamento psicológico tem sido realizado no contexto da saúde mental e, especifica- 
mente, como as intervenções que têm por base a Psicologia Positiva têm possibilita- 
do um olhar diferenciado para o adoecimento mental justamente por priorizarem a 
potencialização de recursos pessoais para a promoção da saúde. 
A saúde mental como foco da ciência psicológica 
A Psicologia enquanto ciência foi construída, em grande parte, baseada em estu- 
dos sobre os processos de adoecimento e questões relacionadas às psicopatologias.
120 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
A necessidade de compreender o adoecimento mental e classificar as doenças para 
melhor investigá-las deu origem a índices consagrados como o DSM (Diagnostic and 
Statistical Manual of Mental Disorders), atualmente em sua quinta edição, e ao CID 
(Catálogo Internacional de Doenças), em sua décima edição. A cada ano, novos 
estudos apontam para a necessidade de incluir nessas classificações novas doenças, 
decorrentes de pesquisas realizadas em grande parte da população mundial. 
Apesar desse movimento ser importante no sentido de promover uma melhor 
qualidade de vida para as pessoas acometidas por essas doenças, deve-se destacar 
uma ênfase da ciência psicológica em uma abordagem classificatória com foco na 
disfuncionalidade, no adoecimento, no dano e nos agravos à saúde. De fato, ao lon- 
go dos anos, a Psicologia se importou de modo mais timido com o estudo do bem- 
-estar, O que o promove, o que mantém e gera crescimento e desenvolvimento nas 
pessoas (Scorsolini-Comin & Santos, 2010; Seligman, 2004). 
Em um novo paradigma de saúde mental no contexto brasileiro a partir da Re- 
forma Psiquiátrica, uma maior atenção à prevenção e à promoção de saúde mental 
foi se delineando em diversos equipamentos do Sistema Único de Saúde. Os CAPS, 
por exemplo, integram a rede do SUS e desempenham uma função estratégica no 
âmbito da assistência em saúde mental enquanto serviços de base comunitária 
voltados à reabilitação psicossocial (Cordeiro, Oliveira, & Souza, 2012). Estão 
inseridos nos bairros, a fim de facilitar o contato dos usuários com a população 
externa e contribuir com a readaptação dos usuários à sociedade. Para ser atendida 
em um CAPS, uma pessoa pode ter passado ou não por internação psiquiátrica. O 
início do atendimento se dá a partir de demanda espontânea ou encaminhamento 
realizado pela Estratégia de Saúde da Família e/ou qualquer outro serviço de saú- 
de (Camargo Borges & Mishima, 2009). 
Ao procurar o CAPS mais próximo, a pessoa em sofrimento recebe um acolhi- 
mento inicial, a fim de que se possa compreender em que consiste o seu sofrimento 
psíquico e consolidar o vínculo terapêutico com o profissional de saúde responsável. 
Esse atendimento inicial pode ajudar a pessoa a compreender os motivos de seu so- 
frimento, bem como oferecer apontamentos para que o profissional defina, em um 
momento posterior, o projeto terapêutico, necessariamente personalizado face às 
particularidades de cada usuário. Mas os CAPS não trabalham apenas no tratamento 
desses usuários, como buscam promover ações de reinserção social e de promoção 
de saúde mental (Nascimento, Scorsolini-Comin, & Peres, 2013). 
Embora haja a constante preocupação em prevenir as pessoas do adoecimento 
mental, muitos programas falham justamente por não pensarem uma prevenção 
aliada à potencialização de aspectos positivos e virtudes nas pessoas. À Psicologia 
ainda está voltada para a doença, para os aspectos tidos como negativos, tendo 
grande dificuldade de romper com este paradigma, que remonta à Segunda Guerra 
Mundial. Após este período, os estudos em Psicologia se direcionaram para a recu- 
peração e remediação de déficits e patologias. Na sequência, surgiu uma concepção
Saúde em Florescimento 121 
do ser humano baseada e influenciada pela doença mental e pelas disfuncionalida- 
des dos sistemas e organizações, destacando as fragilidades e limitações das pessoas 
(Graziano, 2005; Seligman, 2011; Scorsolini-Comin & Santos, 2010; Scorsolini-Co- 
min et al., 2013). 
A esta época, segundo Seligman (2004), a Psicologia era fortemente identificada 
como tratamento de doenças mentais, a fim de curar desordens, e não ligada à pro- 
moção de saúde e qualidade de vida das pessoas. Segundo Sheldon e King (2001), a 
Psicologia Positiva é o estudo científico das forças e virtudes próprias do individuo. 
Para Seligman (2004), trata-se do estudo de sentimentos, emoções, instituições e 
comportamentos positivos que têm como objetivo final a felicidade humana. 
Segundo Marujo, Neto, Caetano e Rivero (2007), os ganhos de uma Psicologia 
devotada à perturbação psicológica claramente mostraram a possibilidade de se in- 
tervir de forma a tornar menos problemáticas as vidas de pessoas em sofrimento 
ou em disfunção, com intervenções remediativas, individuais e coletivas, eficazes e 
cientificamente validadas. Embora esses ganhos devam se sublinhados e valorizados, 
é necessário destacar que “o foco na doença e na patologia ajudou a construir uma 
ciência psicológica que parece ter esquecido parte da sua missão, e negligenciado uma 
importante fatia do estudo dos seres humanos” (Marujo et al., 2007, p. 117). Segundo 
esses autores, a ausência de doença não constitui, por si só, felicidade ou bem-estar, 
mas o reconhecimento de que o bom e a excelência existem, são reais é avaliáveis, é 
merecem a atenção da ciência. 
Psicologia Positiva: uma abordagem em saúde mental 
A Psicologia Positiva emergiu a partir da Psicologia Humanista e teve como 
precursores os estudos de Maslow e Rogers. Feist e Feist (2008) afirmam que as 
três condições necessárias e suficientes para o crescimento psicológico postuladas 
por Rogers (autenticidade, consideração positiva incondicional e empatia) seriam 
precursoras da Psicologia Positiva. Essa abordagem considera que as pessoas que 
assumem um interesse ativo pela vida são psicologicamente mais saudáveis e que 
variáveis de saúde mental como otimismo, motivação intrínseca e autoeficácia po- 
dem não apenas estar relacionados a uma maior satisfação de vida e rendimento, 
como também podem prevê-los. 
De acordo com Seligman (2004), a Psicologia Positiva se sustenta sobre três 
pilares: o estudo da emoção positiva; o estudo dos traços ou qualidades positivas, 
principalmente forças e virtudes, incluindo habilidades como inteligência e capaci- 
dade atlética; e, por fim, o estudo das chamadas instituições positivas, como a demo- 
cracia, a família e a liberdade (que dão suporte às virtudes que, por sua vez, apoiam 
as emoções positivas). Em relação às boas e más qualidades, Graziano (2005) afirma 
que partindo da ideia de que seriam positivas as emoções que favorecem a interação 
e as negativas aquelas que a prejudicam, a Psicologia Positiva define que as boas
122 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
qualidades são as características humanas que favorecem as emoções positivas e o 
comportamento de interação, de forma que as más qualidades seriam o oposto, ou 
seja, as características humanas que favorecem as emoções negativas, bem como o 
comportamento que prejudica a interação. 
A Psicologia Positiva pretende debruçar-se sobre as experiências positivas 
(como emoções positivas, felicidade, esperança, alegria), características positivas 
individuais (como caráter, forças e virtudes), e instituições positivas (como orga- 
nizações baseadas no sucesso e potencial humano, sejam locais de trabalho, esco- 
las, famílias, hospitais, comunidades,sociedades ou ambientes físicos a todos os 
títulos saudáveis) (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000; Paludo & Koller, 2007). 
Essas experiências positivas seriam responsáveis pelo crescimento pessoal dos 
indivíduos, o que também é um dos focos da relação de ajuda de base humanista, 
que foi um dos movimentos precursores da Psicologia Positiva. Em comum, essas 
duas abordagens trabalham com a ideia de que a intervenção psicológica deve 
ocorrer no sentido de não focalizar o problema, mas a própria pessoa, seu cresci- 
mento, desenvolvimento, maturidade, melhor funcionamento e maior capacidade 
de enfrentar a vida (Rogers, 2001; Rudio, 1986). 
Um dos pressupostos epistemológicos compartilhados pela abordagem centrada 
na pessoa e pela Psicologia Positiva é que o ser humano encontra-se em constante 
processo de desenvolvimento, em que busca a autorrealização, a autonomia e O ajus- 
tamento, que são componentes importantes do bem-estar. Ao psicólogo cabe criar 
condições favoráveis para que a pessoa identifique os obstáculos que a impedem de 
atingir a autorrealização e que possa superá-los, promovendo seu crescimento pes- 
soal. Esse processo de facilitação pode ocorrer pela psicoterapia e também a partir 
do aconselhamento psicológico, foco deste livro. 
Conforme atesta Graziano (2005), esta corrente resgata o caráter preventivo 
que, há muito, fora abandonado por uma Psicologia exclusivamente focada na doen- 
ça. Por meio do estudo das características humanas positivas, a ciência aprenderá a 
prevenir doenças físicas e mentais e os psicólogos, por sua vez, aprenderão a desen- 
volver qualidades que ajudem indivíduos e comunidades muito mais do que resistir 
ou sobreviver, mas a efetivamente florescer (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). 
Em um modelo de compreensão da saúde mental, Keyes e Lopez (2002) sugerem 
que esta e os “sintomas de doença mental combinados podem estar em permanente 
mudança, resultando em flutuações de bem-estar geral que vão desde a doença mental 
completa até a saúde mental completa” (Snyder & Lopez, 2009, p. 138). Esta com- 
preensão de funcionamento é conhecida como modelo de estado completo. Em um 
dos extremos estariam os sintomas elevados de doença mental e, do lado oposto, os 
sintomas elevados de bem-estar subjetivo, promotores de satisfação e de saúde mental. 
Assim, a saúde mental seria a combinação de três tipos de bem-estar: (a) bem- 
-estar emocional, que envolve a presença de afetos positivos e de altos níveis de 
satisfação com a vida; (b) bem-estar social, que envolve elementos como aceitação e
Saúde em Florescimento 123 
integração; e, por fim, o (c) bem-estar psicológico, que combina autoaceitação, cres- 
cimento pessoal, autonomia, relações positivas com as outras pessoas e existência 
de um propósito de vida (Ryff & Keyes, 1995; Keyes & Magyar-Moe, 2003). A partir 
dessa consideração, pode-se compreender que as intervenções psicológicas no cam- 
po da saúde mental e de inspiração na Psicologia Positiva deveriam ser realizadas 
tendo por base a busca desse bem-estar em diferentes domínios, ou, de outra forma, 
como uma ajuda para que a pessoa integrasse suas experiências a esses elementos e 
os potencializasse, como será discutido a seguir. 
Aconselhamento psicológico como intervenção 
voltada à potencialização e ao florescimento 
O aconselhamento psicológico tem sido compreendido como um campo do 
conhecimento psicológico que pode ser empregado na prevenção em saúde mental 
e na promoção de saúde (Gomes, 2008; Pupo & Ayres, 2013; Schmidt, 2012). A 
partir das intervenções na Psicologia Positiva, Snyder e Lopez (2009) destacam 
quatro possibilidades de atenção em saúde mental: (a) prevenção primária, ocor- 
rida antes de o problema se manifestar; (b) prevenção secundária, fase na qual o 
problema já se manifestou e se desenvolveu, de modo que a intervenção tem que 
ser no sentido de tratar e conter esse problema, o que ocorre, por exemplo, na psi- 
coterapia; (c) potencialização primária, que se refere a atividades que devem ser 
feitas para estabelecer funcionamento e satisfação em níveis ótimos; (d) poten- 
cialização secundária, que parte de quando o funcionamento e satisfação já estão 
bons para atingir experiências de pico. 
Classicamente, o aconselhamento psicológico tem sido identificado como uma 
prática próxima da psicoterapia (Rogers, 2001), motivo pelo qual se encaixaria na 
prevenção secundária, ou seja, quando já há uma queixa predefinida. No entanto, 
alguns processos de aconselhamento vêm sendo desenvolvidos antes mesmo que os 
problemas se manifestem, sendo um espaço para que as pessoas possam expressar 
sentimentos tanto positivos quanto negativos e serem aconselhadas no sentido de 
se sentirem mais esclarecidas e fortalecidas para tomarem decisões em suas vidas, 
nos mais diferentes domínios. É nesse ponto do processo que a potencialização 
(primária e secundária) pode ser empregada no sentido de auxiliar as pessoas a cla- 
rificarem seus objetivos de vida, satisfazerem seus desejos e compreenderem quais 
elementos contribuem para o seu real bem-estar. 
Entre as técnicas utilizadas nos processos de potencialização está a apreciação. 
Segundo Bryant (2005), ela pode ocorrer de diferentes formas: (a) sentir prazer por 
algo que ainda está para ocorrer; (b) intensificar, no momento de sua ocorrência, 
o prazer derivado de estar realizando uma determinada atividade; (c) lembrar-se 
de eventos positivos para resgatar memórias que levem à satisfação. A apreciação, 
ainda segundo esse autor, pode ocorrer em diversos momentos da rotina de uma 
pessoa, em situações nas quais ela pode compartilhar esses prazeres com outras
124 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
pessoas, em que se deixa “absorver” pelo momento, em que pode refletir sobre 
suas próprias experiências e expressar-se de diversas formas (falando, cantando, 
movendo-se). As atividades de apreciação são responsáveis por trazer às pessoas 
as memórias de experiências consideradas positivas, o que pode promover reações 
mais adaptativas em momentos de maior tristeza, depressão e desapontamento. 
As emoções positivas experienciadas tornam as pessoas mais flexíveis em seus 
pensamentos e comportamentos (Fredrickson, 2002, 2009). Segundo estudos dessa 
mesma autora, conhecidos como “ampliar e potencializar” ou “potencializar e cons- 
truir” (Snyder & Lopez, 2009), as emoções positivas fazem com que as pessoas se 
lembrem de episódios de satisfação e de sucesso em sua vida, fazendo com que traga 
essas percepções para a sua vida atual e os possíveis problemas que esteja enfren- 
tando, promovendo um novo modo de entender o aconselhamento, ou seja, como 
um espaço no qual essas emoções positivas possam ser resgatadas com o auxílio 
de um profissional. Obviamente que isso não significa que o aconselhamento deva 
constituir um espaço exclusivo de potencialização, mas que o olhar para a amplia- 
ção e a potencialização, parafraseando as intervenções de Fredrickson (2001, 2002), 
deva ser evidenciado pelo conselheiro em sua prática. Ao ampliar os recursos do 
cliente, permitindo que ele olhe para a sua história e seus eventos bem-sucedidos, 
pode-se promover a retomada de consciência acerca de suas virtudes e possibilida- 
des de experiências positivas decorrentes de uma nova postura. 
Segundo Fredrickson (2002), por meio dos processos de ampliação, as emoções 
positivas podem ajudar à construir recursos. As emoções positivas, segundo esta 
autora, estão ligadas ao aumento das soluções criativas para os problemas enfrenta- 
dos. Ou seja, a partir do momento em que a pessoa pode ampliar a sua consciência 
por meio da ampliação de suas emoções positivas, pode também encontrar formas 
auxiliares, mais criativas e adaptativas de resolver seus problemas, o que é um dos 
focos dos processos de aconselhamento, ou seja, acompanhar a pessoa para que ela 
possa, a partir de seus recursos, tomarde Rachel Lea Rosenberg, em uma clara aproximação com a área ins- 
titucional. O serviço funcionava como campo de estágio das disciplinas de Aconse- 
lhamento Psicológico e Orientação Profissional e foi um dos precursores do Serviço 
de Aconselhamento Psicológico (SAP) do Instituto de Psicologia da USP criado mais 
tarde (Nunes, 2006; Nunes & Morato, 2012; Rosenberg, 1987). O SAP foi um dos 
pioneiros no sentido de oferecer atendimentos à comunidade, prática profissional a 
alunos de graduação e, ao mesmo tempo, formação teórica e metodológica na área. 
O SAP está atualmente ligado ao Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do 
Desenvolvimento e da Personalidade, do IP-USP. Foi fundado em 1969 por iniciativa 
de professores como Oswaldo de Barros Santos e Rachel Lea Rosenberg, oferecendo, 
desde seu início, atendimento gratuito à população. 
No SAP também há o plantão psicológico, derivado do aconselhamento, que 
promove atendimento psicológico de curta duração, faz encaminhamento de alunos 
do curso de Psicologia para psicoterapia e presta assessoria a instituições de saúde e 
educação. O modelo do SAP-IP-USP serviu de inspiração para a instalação de diver-. 
sos equipamentos de atendimento à comunidade, em sua maioria associados a uni- 
versidades e centros universitários (Breschigliari & Rocha, 2009; Einsenlohr, 1997; 
Rocha, 2000; Rosenberg, 1987; Schmidt, 1992, 2005, 2012). O modelo teórico de 
atendimento assumido inicialmente pelo SAP foi o centrado na pessoa, a partir das 
ideias de Rogers, o que permitiu uma série de reflexões a partir dos atendimentos 
realizados ao longo do tempo, bem como constituiu um importante núcleo de for- 
mação para psicólogos interessados na abordagem humanista. 
Nesse sentido, a formação ética passava pelos valores humanitários 
compartilhados pela equipe e condizentes com a proposta de Ro- 
gers. A consideração e o respeito pelo contexto particular de cada 
sujeito e pela singularidade de seu sofrimento não deveriam nun- 
ca ser sobrepostos em nome de uma técnica “neutra” ou de uma 
teoria “universal”. Daí que as atitudes do psicólogo eram mais 
consideradas na avaliação do estágio do que o domínio intelectual 
de uma técnica ou de uma teoria. Desse modo, a proposta de Ro- 
gers era mais compreendida como uma plataforma para o pensar
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Aconselhamento Psicológico 7 
do que uma técnica ou uma teoria à disposição do psicólogo. Isso 
estava de acordo com muitas ideias do autor [...] acerca, inclusive, 
de sua própria abordagem e implicava numa legitimação teórica 
para criar alternativas de atuação profissional consistentes com o 
contexto no qual se inseriam (Nunes, 2006, p. 96). 
Outros cursos que influenciaram fortemente o estabelecimento do campo do 
aconselhamento psicológico no Brasil foram o da Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo e o do Instituto “Sedes Sapientiae”. Assim, pode-se localizar na cida- 
de de São Paulo um marco importante na história do aconselhamento psicológico, 
inclusive com a assunção dos primeiros profissionais brasileiros a desenvolver esse 
campo, seus primeiros docentes e, consequentemente, pesquisadores que difun- 
diram os saberes da área para outros estados e universidades. É preciso sempre 
retomar o contexto da época: início das atividades profissionais dos primeiros psicó- 
logos, experimentação dos primeiros currículos de Psicologia, uma ciência psicoló- 
gica em florescimento no Brasil, início da ditadura militar e um período fortemente 
marcado por tensões políticas e econômicas, sociais e de efervescência intelectual. 
Com o passar do tempo é com o maior desenvolvimento e estabelecimento da 
ciência psicológica em nosso país, a marcada influência norte-americana e europeia 
abriu espaço para a emergência de estudos desenvolvidos no contexto brasileiro, 
junto aos institutos de pesquisa que propunham intervenções não apenas no campo 
clinico, como também em grupos e instituições. Ao longo desses anos, o campo do 
aconselhamento se ampliou, inclusive a Psicologia Clínica tornou-se mais acessível, 
não apenas aos currículos universitários como nas práticas psicológicas. Alguns dos 
expoentes do aconselhamento ainda encontram-se na ativa e na formação de novos 
recursos humanos. 
Embora muitas mudanças possam ser assinaladas desde a década de 1960, nota- 
damente na Psicologia brasileira, o campo do aconselhamento psicológico continua 
a constituir uma das áreas clássicas do saber psicológico, agora em um movimento 
de ampliação e recriação. O desenvolvimento da modalidade de plantão psicológico 
e também do aconselhamento em instituições extramuros deve ser assinalado como 
movimentos importantes nesses poucos mais de 50 anos de profissionalização da 
Psicologia (regulamentação da profissão do psicólogo em 1962). Algumas dessas 
mudanças serão abordadas neste livro, como o maior diálogo com a promoção da 
saúde e com as áreas de educação, carreira e trabalho. 
Em busca de definições 
Definir o aconselhamento psicológico nem sempre é uma tarefa simples, nota- 
damente quando nos deparamos com uma jovem turma de alunos de graduação (ge- 
ralmente nos dois primeiros anos letivos), sedentos por conhecer, de fato, em que
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& ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO - Scorsolini-Comin 
consiste essa área, haja vista que as informações geralmente acessadas no início de 
um curso de Psicologia referem-se, prioritariamente, a uma atuação clínica, ou seja, 
ligada à psicoterapia. Em uma primeira e desavisada leitura, o aconselhamento pode 
ser associado com a oferta de conselhos, o que pressupõe à necessidade de um outro 
em busca de ajuda e alguém mais capacitado para a oferta desses conselhos, dicas ou 
orientações de como lidar e resolver diferentes problemas e situações. 
A preocupação em definir o aconselhamento psicológico atravessa todos os 
livros dedicados ao tema, o que revela a necessidade de “reapresentar” aos lei- 
tores esse campo em constante reformulação. Assim, diferentes definições são 
apresentadas ao longo do tempo, sugerindo não apenas a evolução da área, mas a 
dificuldade de apreender o que caracteriza a oferta do aconselhamento psicológi- 
co. Nosso esforço neste livro é sistematizar as principais definições disponíveis 
na literatura científica. 
Ao longo dos anos, o aconselhamento foi definido, muitas vezes, como uma 
relação de ajuda destinada a pessoas ditas “normais” (Robinson, 1950), com o ob- 
jetivo de ajustá-las ao seu ambiente (Mac Kinney, 1958), promover aprendizagem 
(Tolberg, 1959), e que poderia ser empregada para auxiliá-las em diferentes contex- 
tos, como emocional, profissional e educacional (Scheeffer, 1980), podendo se apro- 
ximar da atividade clínica em termos da oferta de ajuda e de uma escuta qualificada 
e atenta ao sofrimento psíquico (Santos, 1982). 
Segundo a Society of Counseling Psychology (SCP), ligada à American Psychological 
Association (APA), o aconselhamento psicológico está focado nos processos desen- 
volvimentais considerados típicos, atípicos e disfuncionais, abrangendo sistemas 
de grupos individuais, familiares e organizações. Trata-se de uma especialidade da 
Psicologia que mantém como foco facilitar o funcionamento pessoal e interpessoal 
em todo o ciclodecisões e resolver problemas. Essa sequên- 
cia positiva, ou espiral ascendente, é esquematizada desse modo (Fredrickson & Joi- 
ner, 2002): (1) experiências de emoções positivas; (2) ampliação de repertórios de 
pensamento-ação momentâneos; (3) construção de recursos pessoais duradouros; 
(4) transformação das pessoas e geração de espirais ascendentes. 
Processo semelhante é proposto por Rogers (2001) ao destacar o processo conhe- 
cido como comunicação consigo mesmo, ou seja, de representar adequadamente na 
consciência tudo o que percebe e sente. Daí a necessidade de que a abordagem cen- 
trada na pessoa possa promover uma mudança no modo como a pessoa percebe o seu 
mundo e a si mesma. À Psicologia Positiva também trabalha com esse princípio, uti- 
lizando, para isso, situações potencialmente disparadoras de experiências positivas. 
Outra intervenção que pode inspirar o aconselhamento psicológico na aborda- 
gem da Psicologia Positiva é a chamada Mudança Terapêutica de Estilo de Vida (Ilard 
& Karwoski, 2005), utilizada na prevenção da depressão e no desenvolvimento pes-
Saúde em Florescimento 125 
soal. Tal intervenção combina o uso de remédios, exercícios físicos e processos de 
orientação que conduzem a pessoa à adoção de um estilo de vida mais adaptativo e 
menos estressor, com atividades simples como telefonar para um amigo, exercitar- 
-se, colocar os pensamentos negativos em um diário e realizar atividades prazerosas. 
Pesquisas têm demonstrado que realizar atividades prazerosas com pessoas signifi- 
cativas eleva o nível de bem-estar (Seligman, 2011). 
Com base nesse modelo recentemente difundido pela Psicologia Positiva, abre- 
-se a necessidade de promover relacionamentos interpessoais positivos capazes não 
de mudar a história de vida do sujeito, mas de possibilitar um posicionamento mais 
saudável e satisfatório diante da vida e das vinculações que podem ser estabelecidas 
visando a um maior bem-estar e ao chamado florescimento. Para florescer, verbo 
este bastante empregado na abordagem da Psicologia Positiva, um individuo deveria 
reunir todas as características essenciais do bem-estar (emoções positivas, engaja- 
mento, interesse, sentido, propósito), além de algumas das características conside- 
radas adicionais, como autoestima, otimismo, resiliência, vitalidade, autodetermi- 
nação e relacionamentos positivos. Os relacionamentos positivos de um indivíduo 
consideram tanto a existência de pessoas que se importam com ele quanto o nível 
de interesse e preocupação que expressa em relação a outrem. 
De acordo com essa nova visão, o conhecimento das forças e virtudes poderia 
propiciar o “florescimento” (flourishing) das pessoas, comunidades e instituições. O 
florescimento trata-se de uma condição que permite o desenvolvimento pleno, sau- 
dável e positivo dos aspectos psicológicos, biológicos e sociais dos seres humanos 
(Scorsolini-Comin & Santos, 2013b; Scorsolini-Comin et al., 2013). O florescimen- 
to significa um estado no qual os individuos sentem uma emoção positiva pela vida, 
apresentam um ótimo funcionamento emocional e social e não possuem problemas 
relacionados à saúde mental. 
Tendo por base o modelo de bem-estar desenvolvido por Seligman (2011), o 
aconselhamento deve promover um espaço de escuta focado no cliente e em seu 
crescimento pessoal. Para promover o florescimento desse cliente, deve-se amparar, 
além das atitudes básicas definidas por Rogers (2001) (congruência, consideração 
positiva pelo outro e empatia), no desenvolvimento de emoções positivas, enga- 
jamento, interesse, sentido e propósito na vida. Desse modo, as intervenções em 
aconselhamento devem se basear tanto nas atitudes do conselheiro quanto nas ati- 
tudes do cliente. Ao explorar as atitudes do cliente, como proposto mais diretamen- 
te na Psicologia Positiva, pode-se contribuir para que o processo de aconselhamento 
promova uma escuta atenta no sentido de conhecer os principais interesses daquele 
que busca ajuda, de compreender como são as suas vinculações, suas metas de de- 
senvolvimento e como o profissional pode auxiliá-lo no sentido de potencializar 
recursos para uma vida mais satisfatória. 
A partir dessas considerações, pode-se compreender que o aconselhamento 
não aparece apenas nas situações nas quais um problema já está manifesto e deve 
ser alvo de intervenção corretiva ou reparadora, mas em eventos cotidianos nos
126 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO * Scorsolini-Comin 
quais o espaço de escuta com foco na potencialização, por si só, já garante um 
olhar que vise ao desenvolvimento, ao crescimento e à utilização de recursos tra- 
zidos pelo cliente. Ampliar e potencializar é uma intervenção com foco no desen- 
volvimento e não na patologia (Fredrickson, 2009), o que não exclui a necessidade 
de atenção no adoecimento mental - pelo contrário. Ao reconhecer a necessidade 
de ajuda em situações de adoecimento mental, o aconselhamento psicológico vol- 
tado à potencialização pode promover uma atitude de maior cuidado por parte do 
cliente no sentido de reconhecer sua estrutura, suas ferramentas e seu sentido de 
vida, experienciando emoções positivas que possam ser disparadoras de estados 
emocionais igualmente prazerosos e protetivos. 
Outra possibilidade em saúde mental é que os processos de aconselhamento 
tenham por princípio a potencialização dos níveis de bem-estar emocional, psicoló- 
gico e social. Essas intervenções devem contribuir para que as pessoas desenvolvam 
os seguintes recursos e potencialidades: autoaceitação (conhecer a si mesmo), cres- 
cimento pessoal, aceitação social, realização social, propósito na vida, satisfação na 
vida, autonomia, domínio do ambiente (capacidade de reconhecer de que modo o 
ambiente interfere na sua vida), coerência social, integração social, autopercepção 
em relação aos seus afetos positivos e negativos (identificar momentos de alegria e 
tristeza, buscando que os primeiros sejam mais frequentes) e relações positivas com 
as outras pessoas. Tal potencialização pode ocorrer a partir de exercícios orientados 
pelo terapeuta ou mesmo compor o repertório de estratégias desenvolvidas durante 
o processo de aconselhamento, sempre que o cliente mostrar abertura para a inser- 
ção dessas técnicas que visam à promoção da saúde. 
Pensando criticamente sobre esse modelo, pode-se supor que todo processo de 
ajuda psicológica busca, em alguma medida, desenvolver alguns desses aspectos. No 
entanto, o foco na resolução dos problemas como algo externo pode afastar o indiví- 
duo, muitas vezes, do seu contato consigo mesmo, fundamental para a mudança de 
atitudes (Rudio, 1986), o que deve ser alvo da reflexão do profissional que atua na 
interface entre a abordagem centrada na pessoa e a Psicologia Positiva. 
Por fim, a chamada psicoterapia positiva (Rashid & Seligman, 2011) é uma das 
técnicas desenvolvidas no contexto da saúde mental e voltada, em sua origem, a 
pessoas deprimidas. Sua proposição foi realizada pela primeira vez no Serviço Psico- 
lógico e de Aconselhamento da Universidade da Pensilvânia. Seus autores destacam 
a necessidade de que seja empregada em conjunto com princípios terapêuticos bási- 
cos como acolhimento, empatia, confiança, sinceridade e relacionamento profissio- 
nal (Seligman, 2011), o que faz parte do aconselhamento centrado na pessoa (Pupo 
& Ayres, 2013; Rogers, 2005). Após uma avaliação inicial dos sintomas de estresse 
e de bem-estar nos clientes, discute-se de que modo os sintomas depressivos podem 
ser explicados pela ausência de emoção positiva, engajamento e sentido na vida. 
Nesse modelo de aconselhamento, são delimitadas 13 sessões nas quais o cliente 
deve entrar em contato com as suas principais dificuldades, suas potencialidades e 
forças de caráter que podem facilitar o desenvolvimento do prazer, do engajamento e
Saúde em Florescimento 127 
do sentido. Os clientes são convidados a várias reflexões orientadasde vida, com atenção especial a aspectos emocionais, sociais, profis- 
sionais, educacionais, de saúde e desenvolvimentais (SCP 2014). 
Fundada em 1952, a American Counseling Association (ACA) é uma organização 
profissional e educacional dedicada ao crescimento e à divulgação do aconselhamen- 
to, sendo a mais importante instituição na área, inclusive em termos de represen- 
tatividade desses profissionais, o que oferece subsídios para as reflexões em torno 
desse campo também em outros paises. Segundo a ACA, o aconselhamento é uma 
relação profissional que permite a diversos indivíduos, famílias e grupos desenvol- 
verem saúde mental, bem-estar, educação e objetivos de carreira. Assim, trata-se 
de um processo comprometido com objetivos específicos responsáveis pelo maior 
bem-estar do cliente, ultrapassando as noções mais clássicas de que os processos de 
aconselhamento visariam à resolução de problemas ou conflitos. 
A prática do aconselhamento esteve tradicionalmente atrelada a diversas possi- 
bilidades de atuação, como fornecimento de informações, feedback positivo, direcio- 
namento, orientação, encorajamento e interpretação. Há diversas formas de definir 
o aconselhamento psicológico. Pode ser considerado uma relação de ajuda que en- 
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Aconselhamento Psicológico 9 
volve alguém que busca esse apoio, alguém disposto a ajudar e apto para essa tarefa, 
em uma situação que possibilite esse dar e receber apoio (Hackney & Nye, 1977). 
Outra definição clássica é de uma “relação face a face de duas pessoas, na qual uma 
delas é ajudada a resolver dificuldades de ordem educacional, profissional, vital e a 
utilizar melhor os seus recursos pessoais” (Scheeffer, 1980, p. 14). 
A partir das diversas definições existentes, também atualizadas ao longo do 
tempo e em função da maior divulgação da área e de pesquisas conduzidas neste 
campo, o quadro a seguir sumariza algumas das conceituações mais compartilhadas 
e que servem para orientar nosso olhar em busca de uma definição compatível com 
o nosso modo de atuar. Um exercício interessante, depois de o estudante trabalhar 
com a prática do aconselhamento, por exemplo em atividades de estágio, é buscar 
redigir uma própria definição. Mas, por enquanto, vamos nos concentrar nessa sis- 
tematização didática que mostra as diferentes definições ao longo do tempo. 
Autor(a) Definição de aconselhamento psicológico 
Rogers (1942 Uma série de contatos diretos com o indivíduo com o objetivo de 
lhe oferecer assistência na modificação de suas atitudes e compor- 
tamentos. Consiste em uma relação permissiva que oferece ao in- 
divíduo oportunidade de compreender a si mesmo e a tal ponto 
que o habilita a tomar decisões em face de suas novas perspecti- 
vas. À partir da leitura de Santos (1982) acerca da obra de Rogers, o 
aconselhamento pode ser compreendido como um “[...] método de 
assistência psicológica destinado a restaurar no indivíduo suas con- 
dições de crescimento e de atualização, habilitando-o a perceber, 
sem distorções, a realidade que o cerca e a agir, nessa realidade, de 
forma a alcançar ampla satisfação pessoal e social” (p. 7). 
Erickson (1951) Relação entre duas pessoas na qual um dos participantes assumiu 
ou foi levado a assumir a responsabilidade de ajudar o outro. O 
cliente tem possíveis necessidades, problemas, bloqueios ou frus- 
trações que deseja tentar satisfazer ou modificar. O bem-estar do 
cliente constitui o interesse central da situação. 
aum = : a 4 
Shostrom e 
Brammer (1952) | formação específica, auxilia a outra a modificar-se ou a mudar seu 
ambiente” (p. 1). . 
Gustad (1953) Processo orientado para a aprendizagem em que um orientador 
habilitado, com conhecimentos e prática de Psicologia, procura au- 
xiliar o cliente através de métodos apropriados às suas necessida- 
des, a conhecer-se melhor e a aprender a utilizar esses conheci- 
mentos em relação a objetivos definidos, para que esse cliente se 
torne um membro mais atuante de sua sociedade. 
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10 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO +» Scorsolini-Comin 
Autor(a) Definição de aconselhamento psicológico 
Super (1955) Movimento que encerra dados teóricos e técnicos da psicoterapia, 
inclui orientação profissional e ocupa-se, sobretudo, do indivíduo 
como indivíduo, procurando ajudá-lo a adaptar-se com sucesso aos 
vários aspectos da vida. Os aconselhadores ou orientadores ocu- 
pam-se de pessoas normais, podendo-se, ainda, cuidar daquelas 
que apresentam deficiências e são mal-ajustadas, porém, de ma- 
neira diferente daquela que caracteriza a Psicologia Clínica. 
Mac Kinney (1958) Relação interpessoal na qual o conselheiro assiste o indivíduo na 
sua totalidade psíquica a se ajustar mais efetivamente a si próprio 
e ao seu ambiente. 
Tyler (1958) “Tipo de atividade de auxílio psicológico que se concentra no cres- 
cimento de um sentido claro de identidade do ego e na disposição 
para fazer escolhas e assumir compromissos de acordo com elas” 
(p. 12). 
Stefflre (1976). Indica um relacionamento profissional entre um orientador prepa- 
rado e um dli : Esse relacionamento, geralmente, se verifica ape- 
nas entre duas pessoas, embora, às vezes, possa envolver mais de 
duas, e destina-se a auxiliar o cliente a compreender e ver melhor 
seu espaço vital, de modo a fazer escolhas significativas, com base 
em informações, de acordo com sua natureza essencial nas áreas 
onde haja escolha para ele fazer. 
May (1979) A essência do aconselhamento consiste na tentativa de tornar o ato 
da ajuda mais eficiente, baseando-o no conhecimento do caráter hu- 
mano, sua construção, destruição e reconstrução, de modo que pos- 
sa ser auxiliado pelos vários ramos da Psicologia contemporânea. 
Sheeffer (1980) Relação face a face entre duas pessoas, na qual uma delas é ajuda- 
da a resolver dific 
e a utilizar melhor os seus recursos pessoais. 
Santos (1982) |- 
mentos ou criar condições para que a pessoa faça, ela própria, o 
julgamento das alternativas e formule suas opções. A exemplo de 
Rogers, este autor considera o aconselhamento um processo seme- 
lhante à psicoterapia. 
Corey (1983) Processo através do qual se dá a oportunidade aos clientes de ex- 
plorarem preocupações pessoais; esta exploração conduz a uma 
ampliação da capacidade de tomar consciência e das possibilidades 
de escolha. O processo de aconselhamento é geralmente de curta 
duração, focaliza os problemas e assiste a pessoa na remoção de 
bloqueios ao seu crescimento. Este processo auxilia o indivíduo a 
descobrir os recursos de que dispõe para uma vida mais produtiva. 
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Aconselhamento Psicológico 11 
Autor(a) Definição de aconselhamento psicológico 
Rudio (1986) Trata-se de uma relação de ajuda. Assim como a psicoterapia, utili- 
za como método de base uma série de entrevistas diretas com um 
individuo procurando ajudá-lo a mudar suas atitudes e comporta- 
mentos. 
Pattersone. 
Eisenberg (1988) 
Processo interativo caracterizado por uma relação única entre con- 
selheiro e cliente que leva este último a mudanças em uma ou mais 
das seguintes áreas: comportamento; construtos pessoais; capaci- 
dade para ser bem-sucedido nas situações de vida, de forma a au- 
mentar ao máximo as oportunidades e reduzir ao mínimo as condi- 
ções ambientais adversas; conhecimento e habilidade para tomada 
de decisão. O aconselhamento deve resultar em comportamento 
livre e responsável por parte do cliente, acompanhado de capacida- 
de para compreender e controlar sua ansiedade. 
European 
Association for 
Processo de aprendizagem interativo entre conselheiro e cliente (indi- 
viíduos, famílias, grupos ou instituições) que aproxima de forma holísti- 
Counselling (1996 ca questões culturais, econômicas, sociais e/ou emocionais. Pode estar 
preocupado com o endereçamento e resolução de problemas específi- 
cos, tomar decisões, lidar com a crise, melhorar relacionamentos, ques- 
tões de desenvolvimento, entre outros. O objetivo global é proporcionar 
aos clientes oportunidades para viver de modo mais gratificante e cheio 
de recursos. 
Spanoudis (1997) Espaço clínico caracterizado por um tempo cronologicamente limi-. 
tado, capaz de propiciar um encontro no qual a relação entre o su- 
buscariam, dentro do lugar comum criado por esse encontro, o cla- 
reamento dos significados vivenciais e relacionais experienciados 
por aquela subjetividade. 
Ministério da 
Saúde (Brasil, 
1997) 
Processo de escuta ativa, individualizado e centrado no paciente. 
Pressupõe a capacidade de estabelecer uma relação de confiança 
entre os interlocutores, visando o resgate dos recursos internos da 
pessoa atendida para que ela mesma tenha possibilidade de reco- 
nhecer-se como sujeito de sua própria saúde e transformação. 
Whiteley (1999) Prática de ajuda focalizada e objetiva, de caráter educativo e pre- 
ventivo que, através da descoberta, avaliação, realce e incremento 
dos recursos internos e interpessoais de indivíduos e grupos, busca | 
contribuir para uma melhor qualidade de vida e uma maior satisfa- 
ção pessoal. 
Trindade e . 
Teixeira (2000) 
Relação de ajuda que visa a facilitar uma adaptação mais satisfa- | 
tória do sujeito à situação em que se encontra e otimizar os seus 
autonomia. A finalidade principal é promover o bem-estar psicoló- 
recursos pessoais em termos de autoconhecimento, autoajuda e 
gico e a autonomia pessoal no confronto com as dificuldades e os 
problemas. 
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12 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO +» Scorsolini-Comin 
Autor(a) Definição de aconselhamento psicológico 
Barros e Holanda | Possibilidade de ocorrência do encontro clínico fundamental, mes- 
(2007) mo que em um gradiente temporal reduzido, possuindo um lugar 
no espectro da clínica psicológica clássica. 
Forghieri (2007 Também chamado de aconselhamento terapêutico, consiste num 
relacionamento interpessoal de ajuda existencial, cuja origem re- 
monta à Antiguidade, na “cura pela palavra” introduzida e pratica- 
da pelo filósofo Empédocles. Tal ajuda terapêutica não se propõe 
a lidar e curar os sintomas e psicopatologias. Pretende atingir, di- 
retamente, os aspectos saudáveis dos clientes. O aconselhamento 
psicológico “é a relação entre duas ou mais pessoas, por meio de 
uma conversação, na qual a presença de um aconselhador torna-se 
existencialmente terapêutica para uma ou várias dessas pessoas, 
que são os aconselhandos. Constitui-se, portanto, de uma relação 
interpessoal que requer a presença genuína do aconselhador, ma- 
nifestada por ele mediante atuações, tais como o fornecimento de 
informações ou esclarecimentos sobre assuntos que preocupam o 
aconselhando, o exame e a reflexão a respeito de situações confli- 
tantes vivenciadas por ele e das várias perspectivas sob as quais 
elas podem ser consideradas; o reconhecimento e a exploração de 
recursos e capacidades pessoais do aconselhando no sentido de 
desenvolver sua própria liberdade para se confrontar com suas difi- 
culdades do momento e procurar resolvê-las ou ultrapassá-las, aju- 
dado inicialmente pela presença do aconselhador" (p. 1). 
Schmidt (2012) Trata-se de uma prática de fronteira, o que indica a qualidade de 
desafiar ou afrontar a ordem disciplinar. O aconselhamento pode 
ser apreendido como prática intersticial por constituir-se entre o 
modelo médico e a educação e por ser capaz de acolher, em um 
primeiro momento, a ação de vários e diferentes profissionais, con- 
figurando-se como área multiprofissional. 
Moreno e Reis - | No contexto da saúde, constitui-se como uma ação de prevenção e 
(2013) é componente do processo de diagnóstico, provendo o usuário de 
——— atenção individualizada e singular. 
Pupo e Ayres. Tecnologia de ajuda, de cuidado, e como uma prática instrumental que 
(2013) oferece auxílio estruturado e personalizado para o manejo de situa- 
ções dificeis e de crise que exigem ajustamentos e adaptações, para a 
solução de problemas específicos e para a tomada de decisões. 
Quadro 1.1 Principais definições acerca do aconselhamento psicológico ao longo dos anos. 
Atravessando a maioria dessas definições, encontramos as expressões “relação”, 
“ajuda”, “cliente”, “bem-estar”, “escolha”, “decisão”, “problema”, “recursos pes- 
soais”, “processo” e “aprendizagem”. Também encontramos o sentido de o profis- 
sional ajudar o cliente para que este possa direcionar-se de modo mais satisfatório.
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Aconselhamento Psicológico 13 
Por esse prisma, concluímos ser o aconselhamento psicológico um processo de aju- 
da que parte da relação fundamental entre um cliente e um profissional para que 
este ajude o primeiro a tomar consciência de sua condição atual para que possa, 
posteriormente, reconhecer recursos que o ajudem a solucionar a problemática que 
o conduziu até o atendimento. 
Vamos, então, nos arriscar a pensar em uma definição “própria” de aconselha- 
mento? Amparado nas principais definições existentes e veiculadas por expoen- 
tes como Santos (1982), Morato (1999), Schmidt (1992), Rosenberg (1987) e 
Forghieri (2007), independentemente da abordagemempregada, compreendemos 
o aconselhamento psicológico como uma área interessada nas relações interpes- 
soais estabelecidas entre um psicólogo-conselheiro e uma pessoa em busca de aju- 
da que, por meio da escuta e do diálogo, não apenas trocam informações e orienta- 
ções e discutem sobre direções e procedimentos, mas compartilham modos de ser 
e fortalecem os aspectos positivos daquele que busca o aconselhamento, a fim de 
que este alcance maior autonomia e liberdade. Pode ser compreendido como uma 
tecnologia de ajuda e cuidado utilizada em situações diversas que envolvem o ma- 
nejo de crises e em que se buscam a adaptação, a autonomia, a maior capacidade 
de se tomar decisões e também o crescimento pessoal (Patterson, 1959; Santos, 
1982; Scorsolini-Comin & Santos, 2013a; Scheeffer, 1980). 
Concordamos com a proposição de Schmidt (2012) que destaca a prática do 
aconselhamento psicológico como de fronteira, justamente por se constituir entre o 
modelo médico e a educação e por “ser capaz de acolher, num primeiro momento, 
a ação de vários e diferentes profissionais tais como educadores, psicólogos, assis- 
tentes sociais, religiosos, entre outros, configurando-se como área multiprofissio- 
nal” (p. 20). Além disso, é uma área que busca articular polos diferentes, como o 
instituído e o instituinte, os saberes psicológicos e os de outras áreas, a fim de levar 
à aprendizagem significativa. O psicólogo-conselheiro, neste sentido, funcionaria 
como um facilitador que oferece um tempo e um espaço nos quais a elaboração da 
experiência ocorre por meio da escuta e do diálogo. 
Outra definição de Schmidt (2012) parece especialmente importante na carac- 
terização da área como algo dinâmico e em construção na contemporaneidade: a do 
aconselhamento psicológico como “campo de invenção das práticas que, na singula- 
ridade das situações, propiciam a expressão do vivido de indivíduos e grupos e sua 
elaboração compreensiva” (p. 17). Assim, o psicólogo-conselheiro não seria alguém 
que exclusivamente indicaria caminhos, na acepção trazida em Grande Sertão: Vere- 
das, mas que construiria com o aconselhando caminhos próprios para a escrita das 
trajetórias desenvolvimentais. 
O espaço de criação possibilitado pelo aconselhamento psicológico fortaleceria 
os aspectos positivos do aconselhando, levando-o a identificar e reconhecer seus 
problemas, seus recursos e potencialidades, tendo na figura do conselheiro um 
apoio nesse reconhecimento e no aconselhamento um espaço de expressão e de
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14 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO +» Scorsolini-Comin 
abertura para a mudança. Tais considerações nos aproximam da Psicologia Positiva, 
derivada da tradição humanista, como recurso para promover intervenções psicoló- 
gicas pautadas na consideração positiva acerca do outro, na atitude de interesse pelo 
outro e sua história, bem como o foco na resiliência, na instilação de esperança e no 
chamado “florescimento” de características pessoais fortalecedoras, como abordare- 
mos nos capitulos seguintes. 
Em uma perspectiva fenomenológica, trata-se de uma relação entre duas pes- 
soas na qual a “presença de um aconselhador torna-se existencialmente terapêutica 
[...] para os aconselhandos” (Forghieri, 2007, p. 1). Essa relação interpessoal requer 
“a presença genuína do aconselhador, manifestada por ele mediante diferentes atua- 
ções” (Forghieri, 2007, p. 1), como fornecimento de informações, exame e reflexão 
sobre situações conflitantes vivenciadas pelo cliente, o reconhecimento e a explora- 
ção de recursos e capacidades pessoais do aconselhando. Em termos dos elementos 
comuns a todos os aportes teóricos relacionados ao aconselhamento psicológico 
(ou, pelo menos, à maioria deles), Hackney e Nye (1977) destacam seis: 
a) trata-se de um processo que envolve respostas aos sentimentos e pensamentos 
do cliente: o cliente que busca ajuda deseja, em todos os casos, resolver 
seus problemas ou obter respostas sobre os conflitos que enfrenta. Ao 
profissional não cabe responder a isso, mas sim ajudá-lo na obtenção - 
ou construção — de respostas que possam ser adequadas e favoráveis ao 
seu crescimento e desenvolvimento: 
b) envolve uma aceitação básica das percepções e sentimentos do cliente, indepen- 
dentemente da avaliação externa do conselheiro: o profissional não deve 
emitir julgamentos de valor e considerar de modo positivo as percep- 
ções trazidas pelo cliente. Ao invés de julgá-los por suas escolhas e mo- 
dos de agir, deve compreender esse modelo como disparador de uma 
série de atitudes e comportamentos; 
c) caráter confidencial e existência de condições ambientais (setting) para que se 
estabeleça a relação de ajuda, o que destaca a necessidade de considerações 
éticas que norteiem a atuação do conselheiro, como apresentado de 
modo aprofundado em um dos capítulos deste livro; 
d) a demanda pelo aconselhamento deve partir da pessoa que busca ajuda: essa de- 
manda espontânea possibilita que a pessoa busque ajuda no momento 
em que considerar mais adequado, seja em uma urgência (por exemplo, 
em um plantão psicológico), seja quando estiver suficientemente segura 
ou preparada para expor seus sentimentos e trabalhar no sentido de 
buscar seu crescimento pessoal; 
e) ofoco está na vida daquele que busca ajuda, não na figura do conselheiro: o pro- 
cesso deve estar voltado a uma atenção ao cliente em sofrimento, sendo
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f) 
Aconselhamento Psicológico 15 
que o conselheiro deve manter esse foco nos atendimentos, evitando 
referências intensas e constantes à própria vida; 
foco nos processos comunicativos entre conselheiro e cliente: isso pressupõe a 
necessidade de estabelecer uma comunicação efetiva, aberta e franca, 
em que o cliente tenha condições e liberdade de expressar sentimentos 
e ser acolhido e compreendido pelo profissional. 
Pupo e Ayres (2013) sintetizam, a partir da literatura da área, que o aconselha- 
mento psicológico engloba determinadas etapas e tarefas, como: 
a) 
b) 
d) 
identificação e análise de problemas e circunstâncias específicas da vida: envolve 
uma análise global do cliente, desde a compreensão da sua história de 
vida até a manifestação do problema atual. Esse problema deve ser con- 
siderado dentro de um quadro de referência e não de modo isolado, 
como se não estivesse relacionado ao cliente e sua história; 
aumento do discernimento, conhecimento e consciência dos diferentes elemen- 
tos envolvidos nestas situações: trata-se da busca por maior clarificação do 
problema, compreensão da queixa que fez com que o cliente buscasse 
ajuda. Esse processo de clarificação não se refere apenas à compreensão 
por parte do profissional, mas também por parte do próprio cliente; 
avaliação das condições, recursos (pessoais e sociais), estratégias, alianças e obs- 
táculos existentes para manejá-las: ao entrar em contato com a história do 
cliente, o profissional poderá identificar alguns padrões de comporta- 
mento ou aspectos que estejam impedindo o desenvolvimento e cresci- 
mento pessoais do cliente. É importante compreender que, apesar da 
problemática enfrentada, o cliente possui recursos para lidar com a 
situação, ainda que estes não estejam claros. O terapeuta deve ajudar o 
cliente nesse reconhecimento; 
definição do potencial de mudança dessas condições e atitudes pessoais: ao co- 
nhecer o problema enfrentado pelo cliente e seus recursos pessoais, 
pode compreender o potencial de mudança, ou seja, a disponibilidade 
desse cliente de realizar transformações em seu modo de ver o problema 
ou de solucioná-lo, buscando sempre o crescimento pessoalnesse pro- 
cesso. O potencial de mudança não seria algo estático, mas que variaria 
ao longo do processo de ajuda; 
escolha e experimentação de ações específicas, consideradas factiveis e convenientes 
para a transformação da realidade em questão: o terapeuta deve discutir com 
o cliente sobre as possíveis decisões e escolhas que estão relacionadas ao 
problema. Pode discutir estratégias de abordagens, comportamentos que 
podem favorecer a resolução do conflito, bem como avaliá-las à medida 
que são empregadas e analisadas pelo cliente diante da situação.
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16 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO +» Scorsolini-Comin 
Ainda há que se considerar a importância da relação entre conselheiro e cliente 
em termos da necessidade de estabelecimento de um vínculo que possibilite ao 
cliente confiar suficientemente na figura do terapeuta, a ponto de compartilhar so- 
frimentos, acontecimentos e momentos com forte carga emocional em sua experiên- 
cia de vida. No contato entre esses dois agentes, deve-se possibilitar a expressão dos 
sentimentos daquele que busca ajuda, o que nos retorna à construção da confiança. 
A partir das considerações de Rogers, essa confiança seria estabelecida desde os pri- 
meiros contatos e dos primeiros gestos trocados entre cliente e terapeuta. 
Em que pesem as aproximações e os distanciamentos entre o aconselhamento psi- 
cológico e a psicoterapia, o que será aprofundado no Capítulo 6, há certo consenso de 
que se tratam de intervenções distintas, embora mantenham estreito relacionamento 
(Schmidt, 2012). A maior parte dos autores compreende que o aconselhamento está 
mais ligado a ajudar o aconselhando ou cliente a tomar alguma decisão e envolve 
situações objetivas que permitem uma melhor utilização de recursos e potenciali- 
dades pessoais, sendo que as demandas estão relacionadas, geralmente, a conflitos 
ambientais e situacionais, a conflitos conscientes e acompanhados de uma ansieda- 
de considerada normal (Patterson, 1959; Scheeffer, 1980; Tyler, 1953; Williamson, 
1950). Segundo Forghieri (2007), o aconselhamento está mais voltado para os aspec- 
tos saudáveis do cliente, havendo o pressuposto de que, por mais adoecido que ele 
esteja, “sempre mantém alguma saúde existencial” (p. 44). Com essas intervenções, 
o cliente recomeçaria a crescer e adquirir força e coragem para enfrentar e resolver 
seus problemas, superando essas dificuldades e abrindo-se para a experimentação de 
outras possibilidades. Já na psicoterapia, o foco seriam os aspectos patológicos do 
cliente, havendo o pressuposto de que, para compreendê-lo e ajudá-lo, seria necessá- 
rio um processo complexo e profundo para se chegar ao bem-estar. 
A psicoterapia seria desenvolvida em um nível mais profundo e teria como foco 
os conflitos de personalidade (Santos, 1982). No entanto, um cliente, ao passar pelo 
aconselhamento, poderia ser encaminhado, a depender da avaliação do terapeuta, 
para um processo psicoterápico. Esse encaminhamento tomaria por base algumas 
indicações, como existência de psicopatologias que não possam ser tratadas no es- 
paço do aconselhamento, necessidade de o cliente se aprofundar em questões de 
sua personalidade, capacidade de o cliente suportar um processo terapêutico mais 
prolongado, além de aspectos que ultrapassariam os chamados “desajustes” emo- 
cionais, situacionais e ambientais. 
Em que pesem as transformações ocorridas na área ao longo dos anos, fruto das 
pesquisas e da avaliação dos serviços de aconselhamento existentes, bem como do 
avanço em termos das discussões teóricas e epistemológicas, o aconselhamento pode 
ser compreendido como um campo de invenção de práticas que permitem que o in- 
divíduo se expresse e elabore suas experiências de modo compreensivo (Schmidt, 
2012). Essa mesma autora destaca a necessidade de que as abordagens existentes 
dialoguem, mas, antes disso, que tal referencial seja apenas um norteador do proces- 
so, não sendo mais importante que o próprio processo de aconselhamento. Trazendo
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Sticky Note
parada
Aconselhamento Psicológico 17 
à baila as considerações de Rogers, que serão aprofundadas nos capítulos seguintes, 
pode-se dizer que os psicodiagnósticos e as abordagens em aconselhamento seriam 
menos importantes que a presença genuína do terapeuta, expressando as atitudes 
essenciais para a tão almejada mudança terapêutica: autenticidade ou congruência, 
consideração positiva incondicional e postura empática (Amatuzzi, 2012). 
Assim, podemos dizer que o campo do aconselhamento psicológico foi se mo- 
dificando ao longo dos anos e das diversas influências recebidas, não apenas teó- 
ricas, mas a partir de intervenções. Embora nem sempre possamos delimitar a 
expressão de determinados conceitos e localizá-los no tempo, haja vista a coexis- 
tência dessas noções em diversas publicações, julgamos pertinente o exercício de 
sistematizar o desenvolvimento histórico do aconselhamento psicológico. Embora 
seja complexa a tarefa de apresentar em uma linha contínua o modo como o acon- 
selhamento psicológico tem sido compreendido ao longo dos anos, trata-se de um 
exercício didático importante. Não se trata de linhas demarcadas com exatidão, 
mas orientações gerais sobre a evolução das definições acerca do aconselhamento 
psicológico, como representado na Figura 1.1. 
Aconselhamento como sinônimo de orientação diretiva ligada 
à necessidade de reconhecer aptidões para encontrar a melhor 
1820 adaptação do sujeito aos meios educacionais e profissionais. 
a Forte influência da psicometria. Aconselhamento diretiva, foco 
1950 no conselheiro e em sua capacidade de reconhecer habilidades 
e direcionar caminhos. À capacidade de escolha por parte do 
cliente é limitada pelo saber do conselheiro. 
O aconselhamento passa a ser influenciado pela 
psicoterapia a partir da obra de Rogers. A escuta é O 
1950 acolhimento passam a ser mais importantes que à 
a —+ | diretividade do processo. Aconselhamento não diretivo. 
1970 Entrada do aconselhamento nos cursos de Psicologia 
brasileiros. Forte relação com os serviços-escolas é com o 
atendimento psicológico em instituições. 
Assunção de diferentes abordagens teóricas acerca 
do acorselhamento. Consolidação do 
1370 aconselhamento como campo teórico e de prática 
É] + relacionado ao saber psicológico. Diminuição das 
000 distâncias entre aconselhamento e psicoterapia. 
Consolidação dos serviços de aconselhamento 
psicológico no país e dessa disciplina nos cursos 
de Psicologia. 
O aconselhamento psicológico se consolida 
como prática relacionada à aprendizagem, 
obDbem , ápromoçãode saúde ao atendimento em 
diante instituições. Assunção de abordagens 
pós-modemas. Oferta da aconselhamento em 
diferentes contextos, com destaque para 05 
elementos multiculturais. 
Figura 1.1 Evolução das definições acerca do aconselhamento psicológico
18 ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO + Scorsolini-Comin 
Por fim, há que se destacar que a pluralidade de práticas existentes e de teorias 
utilizadas para subsidiar intervenções, notadamente quando analisamos a produ- 
ção científica internacional (Hutz-Midgett & Hutz, 2012; Smith & Valarezo, 2013; 
Urofsky, 2013), compõe um repertório amplo no qual o aconselhamento psicológico 
mostra-se uma área de formação profissional e de atendimento psicológico capaz 
de se flexibilizar em termos de demandas, culturas e settings possíveis. Cabe aos 
profissionais do aconselhamento em formação o exercício de construção perene de 
intervenções que, recuperando o que já foi construído e consolidado no passado, 
possam se abrir também à criatividade e à reinvenção de práticas, haja vista as diver- 
sas interfaces nas quais a ciência

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