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LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS Unidade 1 Inclusão e libras CEO DAVID LIRA STEPHEN BARROS DIRETORA EDITORIAL ALESSANDRA FERREIRA GERENTE EDITORIAL LAURA KRISTINA FRANCO DOS SANTOS PROJETO GRÁFICO TIAGO DA ROCHA AUTORIA ETNA PALOMA NOBRE 4 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A U TO RI A Etna Paloma Nobre Sou formada em Letras com Especialização Lato Sensu em Educação de Surdos, com experiência técnico-profissional na área de Libras e Educação a Distância de mais de cinco anos, todas em Instituições de Ensino. Sou apaixonada pelo que faço e gosto de transmitir minha experiência e incentivar as pessoas que estão naquela fase de tomar decisão em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! 5LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 ÍC O N ES 6 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 O surdo no contexto histórico das sociedades, a aceitação da língua de sinais como língua natural da comunidade surda, culturas e identidades surdas ................................................ 10 A cultura dos surdos ........................................................................................14 Mundo solitário ...................................................................................16 Acesso e conhecimento .....................................................................18 Identidade surda ................................................................................................22 Conceito sobre surdez na visão clínica e socioantropológica .................................................................. 27 A Surdez sob a Perspectiva Clínica: Diagnóstico, Implicações e Abordagens de Comunicação ................................................................................................31 A Surdez na Visão Socioantropológica: Comunicação e Interação Social ....................................................................................................................32 Comunidade surda e a cultura surda .............................................. 33 Técnicas de Comunicação com Indivíduos Surdos ..................................... 34 Língua de sinais ...................................................................................35 Leitura labial ........................................................................................36 Aspectos filosófico e legal na educação do surdo ................ 39 Introdução ..........................................................................................................39 A Importância da Inclusão e Convivência para a Educação do Surdo: Desafios e Soluções ...........................................................................................42 Definição e Importância da Inclusão na Educação do Surdo ..... 43 Desafios na Inclusão e Convivência com Surdos .......................... 44 Estratégias de Solução de Problemas ............................................. 45 Superando Obstáculos na Convivência: Estratégias para uma Educação Bilíngue Inclusiva para Surdos ........................................................................46 Desafios na Convivência com Alunos Surdos ................................ 47 SU M Á RI O 7LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A Importância da Educação Bilíngue para Surdos ........................ 48 Estratégias para Implementar uma Educação Bilíngue Inclusiva ................................................................................................49 Superando Obstáculos na Convivência: Estratégias para uma Educação Bilíngue Inclusiva para Surdos ........................................................................50 O bilinguismo na educação de surdos ................................... 52 Introdução ...........................................................................................................52 Escolas bilíngues na Determinação Federal n.º 5.626/2005 ..................... 54 Aprender Libras: Estratégias e Técnicas para Dominar a Língua de Sinais Brasileira ..............................................................................................................59 Importância de Aprender Libras ...................................................... 59 Estratégias para Aprendizado de Libras ......................................... 60 Técnicas Práticas para Dominar Libras ........................................... 61 Recursos para Aprender Libras ........................................................ 62 8 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A PR ES EN TA ÇÃ O A Libras foi idealizada para que estudantes tenham contato com a cultura surda e a Língua Brasileira de Sinais, que envolve os Preconceitos Linguísticos existentes no Brasil; e com as abordagens de ensino para a Educação de Surdos. A Língua de Sinais é a língua materna dos surdos, reconhecida como um meio de comunicação legal pela Lei n.º 10.436 de 2002. É a partir dessa lei que os profissionais da área da pedagogia, fonoaudiologia e licenciaturas tem a garantia do contato com disciplina de Libras na sua formação, o que é um avanço relevante tanto para esses profissionais como para a comunidade surda. O que você receberá aqui são informações que com certeza irão lhe auxiliar na tomada de decisões caso, no seu percurso profissional, na sua rotina diária, você encontre pessoas surdas ou outros profissionais que trabalhem com essas pessoas. O contexto histórico de lutas e exigências quanto à Educação dos Surdos no Brasil é cheia de acontecimentos, proibições e conquistas. Aqui será feito um retrospecto desses fatos. A partir da convivência com os Surdos, é possível perceber que é uma comunidade que lida em sua maioria com “guetos”, geralmente optam por parceiros com características em comum. Muitos se mostram inseguros com a aproximação e presença de ouvintes por conta da incompreensão, e esse comportamento é resultado das ações que perduram por muitos anos, ; porém, as dificuldades que foram vistas no passado serviram para alcançar um momento mais pertinente e acessível. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você vai mergulhar neste universo! 9LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 O BJ ET IV O S Olá. Seja muito bem-vindo a nossa Unidade 1, o nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender o processo de inclusão do surdo no sistema educacional e a luta por garantia de direitos sociais. 2. Identificar os meandros da história da educação de surdos no Brasil e a quebra de preconceitos sociais e educacionais no país. 3. Aplicar as legislações norteadoras das ações no entorno da Libras. 4. Refletir sobre a inserção da pessoa surda na escola regular e o contexto em que ela ocorre na atualidade. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! 10 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 O surdo no contexto histórico das sociedades, a aceitação da língua de sinais como língua natural da comunidade surda, culturas e identidades surdas OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como funciona a inclusão e a aceitação dos surdos na sociedade, bem como a importância do reconhecimento da Língua de Sinais como língua natural para a comunidade surda. Entendendo a perspectiva histórica e cultural, você estará mais preparado para promover um ambiente inclusivo e respeitoso para todos. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Que conhecimentos você tem sobre a deficiência auditiva? Com certeza já ouviu falar a respeitoescolas e/ou classes sejam bilíngues: esses níveis de ensino também podem se realizar em escolas de ensino básico comum, desde que atenda as condições expostas. Segundo Lodi (2013), para que a língua inicial de instrução escolar seja a Libras, são necessárias mudanças e reivindicações, uma vez que até mesmo a escrita das duas línguas é diferente. A presença da escrita do português nos processos educacionais é inerente à estruturação pedagógica, que insere e garante status de língua de instrução. O desenvolvimento de linguagem/apropriação da Libras pelos alunos surdos nos primeiros anos escolares é garantido e, consequentemente, adquire-se uma base educacional. Após aquisição da língua materna, a Língua de Sinais, os alunos podem praticar com professores nativos da Língua Portuguesa, com o auxílio de um tradutor intérprete. O ensino infantil e os primeiros anos do fundamental devem ser cursados obrigatoriamente em escolas bilíngues; os 57LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 demais níveis podem ser frequentados em escolas comuns, sob a orientação de professores com o perfil conhecedor da língua e intérpretes contratados, objetivando facilitar o acesso aos conteúdos curriculares em todas as atribuições didático-pedagógicas e no auxílio às atividades institucionais. Embora a escolarização do aluno surdo possa acontecer por intermédio de docentes que entendam as particularidades do ensino de surdos, fica notório que essa organização não descaracteriza uma escola bilíngue. O instrumento, ao informar que as instituições federais de ensino devem abastar específicas constituições, também detalha os papéis dos agentes docentes inseridos nas escolas bilíngues: professor ou instrutor de Libras; tradutor e intérprete da Libras para a Portuguesa e vice-versa; professor para o ensino, como segunda língua para os surdos, do português; e professor regente de classe geral, nas várias áreas de conhecimento, com ciência da originalidade linguística dos alunos surdos. Frequentemente, existem nas escolas debates sobre os limites entre a ação do professor na sala de aula e o intérprete, e fica claro que o intérprete transmite a informação que é produzida pelo professor sem interferência no raciocínio do professor. “É imprescindível ofertar, desde a educação infantil, o ensino da Libras e também da Língua Portuguesa, como segunda língua para alunos surdos” (Decreto n.º 5.626, de 22 de dezembro de 2005). E para que isso seja realidade, deve-se pensar em formas singulares de avaliação que contemple o ensino de Libras e Língua Portuguesa. O decreto também define que se deve: [...] adotar mecanismos de avaliação coerentes com aprendizado de segunda língua, na correção das provas escritas, valorizando o aspecto semântico e reconhecendo a 58 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 singularidade linguística manifestada no aspecto formal da Língua Portuguesa; desenvolver e adotar mecanismos alternativos para a avaliação de conhecimentos expressos em Libras, desde que devidamente registrados em vídeo ou em outros meios eletrônicos e tecnológicos (Brasil, 2005). A formação de professores para o ensino de Libras é um ponto importante dessa visão, e ela deve ser: [...] posta em diálogo com a formação necessária para o ensino do português como segunda língua. No que diz respeito ao ensino de Libras, o documento, uma vez mais, relaciona essa formação à atuação nos diferentes níveis educacionais e recomenda que pessoas surdas tenham prioridade em todos os processos formativos, visando garantir, assim, que a apropriação dessa língua pelos alunos surdos ou sua aprendizagem por ouvintes, seja realizada por meio de seus usuários. (LODI, 2013, p. 57) ACESSE É importante que você leia Decreto Federal para que tenha embasamento prático e teórico na escola. Disponível no QR code . http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/ d5626.htm. 59LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Aprender Libras: Estratégias e Técnicas para Dominar a Língua de Sinais Brasileira A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é uma rica linguagem de modalidade gestual-visual utilizada por grande parte da comunidade surda brasileira (Quadros, 2004). Assim como outras línguas, Libras possui gramática e vocabulário próprios, que permitem aos seus usuários expressar uma ampla gama de ideias, sentimentos e perspectivas (Stumpf, 2009). Dominar Libras não é apenas uma habilidade valiosa para quem deseja se comunicar efetivamente com pessoas surdas, mas também é um passo significativo em direção a uma sociedade mais inclusiva e acessível (Fernandes, 2003). Aprender Libras envolve mais do que apenas memorizar sinais. Requer o desenvolvimento de novas habilidades motoras, o aprendizado de uma nova estrutura gramatical e a imersão em uma cultura vibrante e única (Gesser, 2007). Neste subtítulo, exploraremos estratégias e técnicas úteis para aprender e dominar a Libras, e discutiremos como a aquisição dessa habilidade pode enriquecer sua vida profissional e pessoal. Esteja pronto para embarcar em uma jornada de aprendizado profundamente recompensadora! Importância de Aprender Libras Aprender Libras é uma questão fundamental para a inclusão e a igualdade. Para começar, vale ressaltar que Libras é a segunda língua oficial do Brasil, de acordo com a Lei n.º 10.436/2002, regulamentada pelo Decreto 5.626/2005 (Brasil, 2005). Dominar essa língua, portanto, representa um passo importante para a compreensão e o respeito à diversidade linguística de nosso país. 60 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Mais do que um simples canal de comunicação, Libras é a principal forma de acesso ao mundo para muitas pessoas surdas. Nesse sentido, aprender Libras não é apenas uma questão de superar barreiras comunicativas, mas uma maneira de valorizar a cultura surda e contribuir para a igualdade de oportunidades na educação, no trabalho e em diversas outras esferas da vida. A inclusão verdadeira só acontece quando respeitamos e valorizamos a diversidade. Isso significa que aprender Libras vai muito além de uma questão de acessibilidade: trata-se de um ato político de reconhecimento da diversidade e do direito de cada pessoa de expressar-se na língua com a qual se sente mais à vontade. Estratégias para Aprendizado de Libras Aprender uma nova língua é um desafio, mas existem algumas estratégias que podem facilitar o processo de aprendizado de Libras. Uma das principais é a prática constante. Como aponta Quadros (1997), a fluência em qualquer língua é adquirida por meio da prática regular e consistente. Isso é particularmente verdade no caso de uma língua de sinais, que depende de habilidades motoras e visuais. A imersão na comunidade surda também é uma estratégia altamente eficaz para aprender Libras (Fellipe, 2001). Isso permite não só a prática da língua, mas também um entendimento mais profundo da cultura surda. O contato direto com a comunidade surda proporciona um aprendizado mais autêntico e contextualizado. O uso de materiais didáticos apropriados é fundamental para o aprendizado de Libras (Gesser, 2009). Vídeos, livros, aplicativos e outros recursos podem ajudar a consolidar o conhecimento adquirido nas aulas e a praticar a língua de forma autônoma. 61LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Por fim, aulas com professores qualificados em Libras são essenciais (Fernandes, 2003). Um bom professor pode proporcionar feedback útil, resolver dúvidas, orientar a prática e proporcionar um ambiente seguro e estimulante para o aprendizado. Técnicas Práticas para Dominar Libras Aprimorar a fluência em Libras envolve não apenas a aprendizagem de sinais, mas também a capacidade de se expressar de forma clara e eficaz. Segundo Stumpf (2005), uma das primeiras técnicas que se deve dominar é a mímica corporal. Isso inclui aprender a usar o corpo e as expressõesfaciais para complementar os sinais e adicionar ênfase ou emoção à comunicação. Outra técnica importante é a prática constante de sinais e expressões (Quadros, 2004). Para quem está aprendendo, é importante repetir os sinais várias vezes para ganhar fluência e confiança. Além disso, é crucial praticar o uso de Libras em contextos variados para aumentar a familiaridade com a língua. Ademais, é importante a aprendizagem de vocabulário. De acordo com Felipe (2001), isso pode ser feito por meio do uso de flashcards, prática com um parceiro ou a prática autônoma com um dicionário de Libras. A incorporação de novos sinais ao vocabulário diário também pode ser uma estratégia útil. Por fim, é crucial não esquecer que a aprendizagem de Libras, como de qualquer língua, é um processo que leva tempo e requer paciência e dedicação. Como observa Gesser (2009), a progressão no aprendizado de Libras é gradual e contínua, e cada passo à frente é uma conquista a ser comemorada. 62 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Recursos para Aprender Libras Vivemos em uma era digital, o que significa que os recursos para aprender Libras nunca foram tão acessíveis. Existem várias ferramentas on-line e off-line que podem ajudar a acelerar seu progresso. Skliar (1998) observa que o aprendizado de uma língua se torna mais eficaz quando se tem acesso a uma variedade de recursos e quando se utiliza uma abordagem multimodal. Dentre os recursos impressos, os livros didáticos e dicionários são materiais clássicos e essenciais. Um exemplo é o “Libras que língua é essa?” de Ferreira-Brito (1995), que oferece uma visão completa da língua e da cultura surda. Além disso, o “Dicionário da Língua Brasileira de Sinais”, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos, também é um recurso valioso. No mundo digital, diversos sites oferecem lições gratuitas de Libras, como o “Acessibilidade Brasil” e o “VLibras”. Aplicativos de smartphones também são ferramentas úteis. O “Hand Talk”, por exemplo, foi eleito o melhor aplicativo social do mundo pela ONU, traduzindo automaticamente textos e áudios para Libras. Além disso, muitas instituições de ensino oferecem cursos on-line de Libras, que vão desde introduções básicas até estudos mais avançados. O site “Educação a Distância” é uma plataforma popular que lista vários desses cursos. Enfim, a riqueza e os de recursos disponíveis são vastos. O importante é experimentar e encontrar os que melhor se adaptam ao seu estilo de aprendizado (GESSER, 2009). 63LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Absorveu tudo? Agora, só para garantir que você realmente compreendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a língua de sinais brasileira, conhecida como Libras, é uma língua completa e complexa que possui sua própria gramática, vocabulário e estrutura. E que, assim como qualquer língua, dominá-la exige prática, dedicação e o uso de estratégias e técnicas eficazes. Exploramos a importância das escolas bilíngues, conforme estabelecido na Determinação Federal n.º 5.626/2005. A educação bilíngue é fundamental para a inclusão e desenvolvimento pleno dos alunos surdos, permitindo que eles aprendam tanto em Libras, sua primeira língua, quanto em Português, sua segunda língua. Além disso, mergulhamos na relevância de aprender Libras, não apenas para se comunicar com a comunidade surda, mas como uma ferramenta para promover a inclusão e a igualdade. Discutimos várias estratégias para o aprendizado de Libras, incluindo a prática constante, a imersão na comunidade surda e a utilização de materiais didáticos adequados. Por fim, apresentamos técnicas práticas para dominar Libras e compartilhamos vários recursos que podem auxiliar nesse processo, incluindo livros, websites, aplicativos e cursos on-line. 64 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 RE FE RÊ N CI A S AUER, E. T. Jr.; BERNSTEIN, L. E.; TUCKER, P. E. (2000). Is subjective word familiarity a meter of ambient language? A natural experiment on effects of perceptual experience. Memory & cognition, v. 28, n. 5, p. 789-797, 2020. BATISTA, D. R. Surdez: desafios e perspectivas na formação do profissional de saúde. Revista Brasileira de Educação Médica, 2014. BERNARDI, M. C.; MARCON, S. R. A leitura labial no processo de comunicação da pessoa com deficiência auditiva. Rev. bras. enferm., v. 60, n. 3, p. 302-306, 2007. BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. 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O surdo no contexto histórico das sociedades, a aceitação da língua de sinais como língua natural da comunidade surda, culturas e identidades surdas A cultura dos surdos Mundo solitário Acesso e conhecimento Identidade surda Conceito sobre surdez na visão clínica e socioantropológica A Surdez sob a Perspectiva Clínica: Diagnóstico, Implicações e Abordagens de Comunicação A Surdez na Visão Socioantropológica: Comunicação e Interação Social Comunidade surda e a cultura surda Técnicas de Comunicação com Indivíduos Surdos Língua de sinais Leitura labial Aspectos filosófico e legal na educação do surdo Introdução A Importância da Inclusão e Convivência para a Educação do Surdo: Desafios e Soluções Definição e Importância da Inclusão na Educação do Surdo Desafios na Inclusão e Convivência com Surdos Estratégias de Solução de Problemas Superando Obstáculos na Convivência: Estratégias para uma Educação Bilíngue Inclusiva para Surdos Desafios na Convivência com Alunos Surdos A Importância da Educação Bilíngue para Surdos Estratégias para Implementar uma Educação Bilíngue Inclusiva Superando Obstáculos na Convivência: Estratégias para uma Educação Bilíngue Inclusiva para Surdos O bilinguismo na educação de surdos Introdução Escolas bilíngues na Determinação Federal n.º 5.626/2005 Aprender Libras: Estratégias e Técnicas para Dominar a Língua de Sinais Brasileira Importância de Aprender Libras Estratégias para Aprendizado de Libras Técnicas Práticas para Dominar Libras Recursos para Aprender Librasdos surdos e deve ter visto pessoas dizendo: “todo surdo é mudo”, “são muito agitados, se irritam fácil”, “leem nossos lábios”. Mas a maioria dessas informações não é real. Então, o objetivo deste estudo é reverter tais informações equivocadas e mostrar a realidade sobre a comunidade surda. A deficiência auditiva é uma diferença de atuação na sociedade entre um indivíduo e a sua capacidade para a retenção dos sons. A deficiência auditiva exibe uma abrangência no Brasil e, segundo os Decretos n.º 3.298/99 e n.º 5.296/04, art. 4º, inc. II (Brasil, 1999), é considerada “a perda ambilateral, restrito ou na totalidade, de 41 decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500 Hertz (Hz), 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz”. 11LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 […] considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Parágrafo único. Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz (Brasil, 1999, on-line) Saber diferenciar a pessoa surda, entender que a surdez é a perda da audição, que em muitos casos ocasiona a perda congênita, o que, por consequência, gera a necessidade de comunicar-se pela língua de sinais; quem nasce surdo não capta som nenhum e, por isso, não adquire a língua falada como forma de expressão. Crianças que nascem com a audição intacta podem ter a audição comprometida. Isso pode acontecer por doença que causa a inutilidade da audição ou até traumatismos e/ou lesões. Na maioria das situações, a pessoa que aprendeu a se expressar após a lesão que ocasionou a perda auditiva irá adquirir outra forma de comunicação. Já os surdos de nascença não se consideram deficientes, porque já se adaptaram a outros meios compensatórios de interação e comunicação. Em ambas, mesmo com as dificuldades, é importante o convívio na sociedade, pois as duas características de dificuldade auditivas estão presentes em vários ambientes. 12 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 VOCÊ SABIA? Segundo Quadros (2004), o hemisfério esquerdo do cérebro estabelece a linguagem, e o direito processa as informações no âmbito espacial. A Libras é organizada de maneira que a informação é captada por meio de uma mensagem visual. Você acha que essa língua se encontra no hemisfério direito do cérebro? Negativo! Como a língua de sinais tem uma estrutura semelhante à língua expressa, neurologicamente está submissa ao hemisfério esquerdo do cérebro, o responsável pela linguagem. Deixar claro essa diferença já é um bom começo para o entendimento da cultura surda, porque ela é bem vivenciada no ambiente da comunidade. Pertencem à cultura surda aqueles que não têm audição e se apropriam da língua de sinais para se expressar. Os deficientes auditivos, que por alguma lesão ou trauma em algum momento da vida adquiriram a surdez, aprenderão e se beneficiarão da nova forma de comunicação. Segundo Strobel (2008), os surdos tiveram um início de história visto por duas expectativas, que é o olhar doutrinário e medicinal, em que as pessoas surdas eram representadas por pessoas com anomalias nos ouvidos, na composição vocal e no cérebro. Esses pacientes tinham o empenho dos médicos, que estudavam a fala e a aprendizagem dos surdos com expectativas de possibilidades. Já na visão doutrinária religiosa, inicialmente a igreja tinha a crença de que, como os surdos não ouviam e não se comunicavam pela fala, seus pecados não poderiam ser perdoados e consequentemente seriam condenados ao inferno. Para a salvação, a Igreja disponibilizava os membros do clero para assistir essas pessoas, assim os padres e demais religiosos tornavam-se responsáveis, zelando e cuidando da educação dos surdos. 13LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 E, diante desse olhar, antes de entender que nem todo surdo é mudo, o termo surdo-mudo foi utilizado em muitas situações incorretamente, porque a mudez não tem relação com a surdez. Como, naquela época, não existia um incentivo significativo para que os surdos desenvolvessem a habilidade da fala, originou- se a falsa premissa de que “todo surdo é mudo”, uma expressão que, na realidade, não deve ser utilizada. As terapias de fala auxiliaram nessa quebra de mito, porque desenvolvem a fala dos surdos, e isso é um estímulo. Se um surdo não se expressa por meio da fala, necessariamente não é mudo; mas provavelmente não obteve orientações para o seu desenvolvimento, como exercícios que estimulam a comunicação oral. Imagem 1.1 – Mudez versus Surdez Fonte: Freepik. 14 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A cultura dos surdos As crenças criadas por falta de entendimento possibilitaram a disseminação de muitos mitos, mas, a partir do momento que foi aberto o acesso à comunicação para o surdo, ele passou a interagir socialmente em vários ambientes, dando origem à formação de grupos sociais e dando a oportunidade a nós ouvintes de identificar a sua cultura e suas peculiaridades. Imagem 1.2 – Cultura Surda Fonte: Pixabay EXPLICANDO MELHOR Vamos refletir juntos sobre como se dá a cultura surda: vamos nos fazer algumas perguntas, como, por exemplo, o que é cultura? Ela está relacionada apenas àquilo que é retratado por meio da arte e do conhecimento? Não, não podemos nos prender somente a isso, existem várias formas de expressão e entendimento do conceito de cultura. Muitos significados indicam o que é a cultura, mas vamos considerar como uma linha de comportamento que traz uma percepção de um grupo social, no caso, os surdos. 15LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Para dar uma definição de cultura surda, é coerente partir do pressuposto de que existe uma separação: parte de ouvintes e os próprios surdos que não compartilham de uma mesma cultura. Observe o que dizem Santana e Bergamo (2005, p. 574). Um outro modo de discutir a questão da cultura surda é bem mais complexo. Desse lado, não vale a pena entrar em jogos teóricos como, por exemplo, se existe ou não cultura surda e seu oposto, a cultura ouvinte [...]. Em outras palavras, seria preciso entender por que persistem as opiniões em favor da cultura surda e entender quais as vantagens em adotar (e defender) essa ideia. Assim, não parece interessante partir de uma ideia rígida e preconcebida do que seja ou não cultura. A história da cultura surda supera séculos, concordava- se que o surdo não tinha habilidade de desenvolver a língua falada, por isso ele foi obrigado a utilizar a língua oral, mas a oralização não trazia sentido, o vocabulário não remetia a nenhum significado e, a partir da introdução da língua de sinais, foi possível a compreensão da linguagem e de tudo que lhe rodeava. 16 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 SAIBA MAIS Diante de todo o estudo, indico o link a leitura do artigo “Culturas, no plural”, em que o autor, Hugo Eiji, destaca a diversidade da cultura surda em vários países. A coleção on-line de artefatos culturais das comunidades surdas carrega informações que contemplam artes plásticas, literatura, teatro, música e dança. Disponível no QR code . Mundo solitário O livro chamado “O voo da gaivota”, que é a autobiografia de uma autora surda chamada Emanuelle Laborit, relata a sua rotina solitária. Ela, por orientação médica, foi recomendada não se relacionar com nenhum surdo, porque deveria ter em mente o aprendizado da língua oral. Mesmo fazendo uso do aparelho auditivo, as palavras expressadas oralmente não faziam sentido: “Quero entender o que dizem. Estou enjoada de ser prisioneira desse silêncio que eles não procuram romper. Esforço-me o tempo todo, eles não muito. Os ouvintesnão se esforçam. Queria que se esforçassem” (Laborit, 1994, p. 39). http://culturasurda.net/culturas-no-plural/. 17LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Imagem 1.3 – Surdo com aparelho auditivo Fonte: Freepik Por volta dos 7 anos de idade, seu pai ouviu no rádio uma notícia que envolvia a surdez e a língua de sinais, se interessou e pensou que seria uma esperança de forma de comunicação. A autora relata a importância da língua de sinais para a sua vida, seu cotidiano. A esperança de um novo nascimento, o início da vida novamente. O primeiro muro caiu. Havia ainda outros em torno de mim, mas foi aberta a primeira brecha em minha prisão, iria compreender o mundo com os olhos e com as mãos. Sonhava. Estava tão impaciente! Diante de mim, havia aquele homem maravilhoso que me ensinava o mundo. O nome das pessoas e das coisas; há um sinal para Bill, um para Alfredo, um para Jacques, meu pai, minha mãe, minha irmã, para a casa, a mesa, o gato... Vivia! E tinha tantas perguntas a fazer! Tantas e tantas. Estava ávida, sedenta de respostas, já que podiam me responder! (LABORIT, 1994, p. 48). 18 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Após esse relato, atesta-se que a língua de sinais auxilia o surdo, abrindo os caminhos para a comunicação e compreensão daquilo que ainda era desconhecido. Acesso e conhecimento A língua de sinais abriu caminhos e ajudou no desenvolvimento dos surdos, possibilitando o acesso a novas culturas. Segundo Santana e Bergamo (2005, p. 572), “a língua e a cultura são dois artefatos que caminham juntos, e mais, é uma ferramenta na construção da cultura”. É bem normal relacionarmos a palavra cultura à língua de sinais, como se a cultura fosse formada apenas pela representação linguística. A língua de sinais foi uma estratégia de relacionamento com o mundo, ajudou a tirá-lo do isolamento que o cercava. A língua de sinais propiciou a formação de grupos sociais, com a interação e participação de uma comunidade surda. São percebidas diferença entre a comunidade e a cultura surda. Segundo Padden (1989, p. 5 apud Felipe, 2007, p. 45), uma estudiosa linguista surda: [...] uma cultura é um conjunto de comportamentos aprendidos de um grupo de pessoas que possuem sua própria língua, valores, regras de comportamento e tradições’. Ao passo que ‘uma comunidade é um sistema social geral, no qual pessoas vivem juntas, compartilham metas comuns e partilham certas responsabilidades umas com as outras’. A comunidade surda é formada regionalmente por pessoas que moram em determinadas localizações, que buscam as mesmas metas, portanto, uma comunidade surda também 19LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 pode ter ouvintes, enquanto que a cultura surda é compartilhada de forma universal somente pelos surdos, pois os membros da cultura surda comportam-se como pessoas surdas, utilizam a língua de sinais e compartilham de crenças de pessoas surdas. Para falar sobre a comunidade surda, precisamos entender que ela é regional, ou seja, formada por pessoas que moram em determinadas regiões, que almejam os mesmos objetivos e ela também pode ter ouvintes. Já a cultura surda é compartilhada de forma mais ampla, universal, aceita somente surdos, pois os membros da cultura surda demonstram um comportamento singular, comportam-se como surdos, comunicam-se por meio da língua de sinais e repartem experiências e crenças. Imagem 1.4 – Interação e Comunicação Fonte: Freepick 20 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Importante compreender e considerá-los como um grupo social, que pratica interação, se expressa e produz conhecimento como qualquer outro cidadão, não entendem como problema a deficiência, valorizam o uso da língua de sinais, que sobrepõe a capacidade de expressão verbal. Dessa forma, quando se pensar em cultura, deve-se ter um conceito de um conjunto de práticas simbólicas de um determinado grupo: que usa a língua, as artes (literatura, música, dança, teatro), a religião, o sentimento, as ideias, as ações, o modo de vestir, de falar, entre tantas outras. (Santana; Bergamo, 2005, p.130) Esse debate de conceitos, de estudos, não finda de forma fácil. Segundo Laraia (2008, p. 63), “provavelmente nunca terminará, pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana, tema perene da incansável reflexão humana”. Existe uma cultura para o surdo, é a comunidade onde ele está inserido, onde se comunica e desenvolve signos para expressar interação na língua que é de sua propriedade. Esse reconhecimento traz uma bagagem de perseverança, persistência e a diversidade e aquisição pelo respeito à língua dos surdos. Há muitas realizações a se concretizarem com o crescimento regular da comunidade surda: 21LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 REFLITA Anular o passado e requerer o presente se mostrou como artefato cultural para os surdos. Um passado imerso na obrigação de serem ouvintes e, em função disso, aceitar que os outros fizessem a sua história, os dominassem, se tornou a marca mais deprimente. Diante disso, surgem novos feitos e novas interpretações no cotidiano. Nesse sentido, se prosseguirmos com as velhas realidades, narradas como no tempo colonial, perigamos escrever uma história de holocausto, de dominação, de lamentos. Mas não é por aí... Temos outros caminhos que, mesmo desconhecidos, merecem ser trazidos à tona, vivenciados e narrados por constituírem a genuína história natural e cultural dos surdos. De fato, temos nossas lutas de significação, quais sejam: a busca por educação bilíngue, por políticas para a língua de sinais no Brasil, pela abertura das portas das universidades, por posições de igualdade, por ter intérpretes de língua de sinais e por serem válidos os nossos direitos. Além desses, há muitos espaços que possibilitam novos signos e significados que nos motivam, estando presentes em nosso cotidiano e que nos trazem algo mais desejado – encarnar essas possibilidades ‘como pessoas completamente diferentes’. (Perlim; Strobel, 2014, p.20). 22 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 ACESSE Indico o filme “O milagre de Anne Sullivan” (The Miracle Worker, 2000), dirigido por Nadia Tass, que traz a história da escritora Helen Adams Keller, surda e cega, e conta como ela venceu as suas dificuldades. Com o auxílio e compartilhamento da Mestre Anne Sullivan, deficiente visual que lhe instruiu a língua dos sinais ainda na sua fase infantil, Helen Keller veio a ser uma filósofa e jornalista excelente. Disponível no QR code . Identidade surda A história de Emanuelle Laborit (1994) traz informações sobre a sociedade surda e a língua de sinais. [...] Lugar de vida, de recreação, de aprendizado para os surdos. Lugar de encontro com os pais enredados nas mesmas dificuldades, com os profissionais da surdez, que colocam em causa as informações e as práticas do corpo médico. Pois eles estavam decididos a ensinar uma língua, a língua de sinais. Não um código, um jargão; mas uma verdadeira língua. Lembrando-se da primeira vez em Vincennes, mamãe conta: - Senti um medo terrível. Confrontava-me com a realidade. Era como um segundo diagnóstico. As pessoas eram calorosas, mas ouvi histórias sobre o sofrimento de crianças, o isolamento terrível que tinham vivido antes. Suas dificuldades de http://culturasurda.net/filmes/ 23LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 adultos, seus combates permanentes. Vomitei tudo aquilo. Havia me enganado. Tinham me enganado dizendo: ‘com a reeducação, com o aparelho, ela vai falar...’. Meu pai conta: - Era como se até então não houvesse escutado, ou não houvesse desejado escutar ‘um dia, ela FALARÁ’. Vincennes é um outro mundo, o da realidade dos surdos, sem indulgência inútil, mas também o da esperança dos surdos. Certamente, o surdo chega a falar, bem ou mal,mas trata-se apenas de uma técnica incompleta para muitos deles, os surdos profundos. Com a língua de sinais, mais a oralização e a vontade voraz de comunicação que sentia em mim, iria fazer progressos espantosos. O primeiro, o imenso progresso em sete anos de existência acabara de acontecer: eu me chamo ‘EU’. (LABORIT, 1994, p. 52-53) Laborit expõe o quanto conseguiu se encontrar e como a proximidade com surdos e com a língua de sinais proporcionou uma releitura de sua identidade e a sentir-se pertencente a alguém. A identidade relatada foi buscada com a ajuda da cultura surda, que opera de maneira individual no âmbito da aprendizagem, diferente da vivência anterior. Reconhecer a si mesma pode ser chamada de uma identidade, há uma autenticidade para o surdo que é diferente do ouvinte, e até entre os próprios surdos. Há 5 possibilidades de identidade para o surdo: 24 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Imagem 1.5 – Identidade Surda Fonte: Santos (2016, on-line ). • Identidade surda – Geralmente a identidade relaciona- se aos filhos surdos de pais surdos, instruídos a conviver com a percepção visual. Uma autencidade que se destaca na atuação pelos direitos do surdo, que necessita da língua de sinais para desenvolver uma linguagem. • Identidade surda híbrida – É uma percepção evidente nos surdos que nasceram com a audição intacta e lidam com a língua portuguesa e a língua de sinais. É uma analogia peculiar em diferentes momentos, porque são conhecedores da estrutura do português verbalizado. • Identidade de transição – Os surdos mantidos em cárcere na igualdade de ouvinte, viveram parte da sua vida contatando pessoas que se expressavam verbalmente e não se relacionaram com surdos. Essa mudança acontece ao conhecerem a comunidade surda e passarem pelo processo de “des-ouvintização”, 25LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 comumente grande número de surdos passa por esse estágio, posto que são filhos de ouvintes. • Identidade surda incompleta – Nessa identidade, o surdo encontra dificuldade para se assumir, para ingressar na comunidade surda por não fazer talvez uso total da língua de sinais, persiste em percorrer ambientes que fazem parte da rotina dos ouvintes, não compreende e não fala na mesma simetria do ouvinte e, por isso, não está inserido em nenhum dos grupos. • Identidade flutuante – São surdos que se expõem a partir do domínio dos ouvintes. Retratado por aquele que tem ciência ou não que é surdo, mas a sua postura é de um ouvinte, e insistem nisso a qualquer custo, assimilam que são surdos, se esforçam e pensam que a vida seria melhor como ouvintes. Nessa identidade, o surdo despreza ou não tem compromisso com a cultura surda e vive em uma situação de conformidade (Perlin, 1998). SAIBA MAIS É possível um ouvinte demonstrar uma autenticidade surda em famílias quando os pais são surdos e os filhos ouvintes. É comum o uso da língua de sinais como língua materna, para apenas após um tempo adquirirem a língua portuguesa. 26 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter apendido que a comunicação com os surdos envolve muito mais do que apenas falar em voz alta ou sinalizar de maneira exagerada. No subtítulo “Técnicas de comunicação com indivíduos surdos”, nós exploramos diferentes técnicas que permitem uma comunicação eficaz com os surdos, incluindo a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a leitura labial e a comunicação tátil. Aprendemos que a Libras é uma língua completa e rica, que permite uma expressão complexa e uma comunicação fluente. Ela é a língua principal da comunidade surda no Brasil, sendo uma ferramenta indispensável para a inclusão social e educacional de pessoas surdas. Por fim, falamos sobre a comunicação tátil, que é especialmente importante para aqueles que são surdocegos. Cada uma dessas técnicas de comunicação tem suas próprias nuances e complexidades, requerendo tempo e prática para serem dominadas. 27LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Conceito sobre surdez na visão clínica e socioantropológica OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como funciona a comunicação com indivíduos surdos, tanto do ponto de vista clínico quanto socioantropológico. E então? Motivado para desenvolver essa competência e contribuir para uma comunicação mais inclusiva e eficaz com a comunidade surda? Vamos lá. Avante! Introdução Além dos mitos que ouvimos sobre a cultura surda, existem outras crenças sobre a língua de sinais que é importante conhecermos. Por exemplo, a mímica pode ser considerada linguagem de sinais, já que essa língua expressa pensamentos, percepções, opiniões, possibilita a discussão e resolução de assuntos e convicções complexos, porém importantes, como assuntos relacionados à nação. Dizer que a língua de sinais é universal também é mito, e essa afirmação é incoerente porque não é possível ter uma comunicação gestual igualitária, com entendimento geral para todos, da mesma maneira que existem as diversidades na língua falada, a língua sinais também tem diferenças, ela respeita fatores gramaticais, geográficos e culturais. Há tempos que o estudo da linguística se limitava apenas às línguas orais, mas o advento do reconhecimento da língua de sinais trouxe uma nova perspectiva de abrangência que, com o tempo, vem ganhando espaço e se estabelecendo. As abordagens orientadas a Libras vêm com alcance específico educacional na defesa da cultura surda. Essas variações não se resumem apenas à comparação dos processos que promovem um enriquecimento 28 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 do vocabulário, mas estão relacionadas à percepção de mundo e à condição de complexidade em decorrência do processo de aquisição da língua, aspectos culturais e até impacto político e social na vida dos surdos. É importante apontar para aspectos relacionados à organização da gramática e seu funcionamento. Há uma delimitação entre gesto, língua de sinais e aprendizado de uma segunda língua, o que gera, muitas vezes, incompreensão por parte dos surdos, que, por não terem orientação, não se identificam com outros surdos quando se cria um sinal determinado. As escolas de surdos que adotam uma proposta bilíngue proporcionam a interação do surdo com outros, o que incentiva aquisição da língua por parte das crianças, jovens e adultos. Para o surdo, o significado de cultura é compreender o mundo ao redor e torná-lo acessível e habitável, adequado às suas impressões visuais, o que colabora para o sentido das identidades surdas (Strobel, 2008), que contempla a língua e os hábitos. Mesmo após a conquista da inserção da língua de sinais, os surdos enfrentaram impedimentos que dificultavam a aceitação por parte da sociedade, havia intolerância no ambiente familiar e escolar. Segundo Strobel (2008), nas décadas de 1970 e 1980, a aquisição de aprendizagem era indiferente, era normalizado o controle e o disciplinamento. As crianças surdas eram proibidas de se articularem gestualmente; as consequências era serem comparadas aos macacos, além de serem obrigadas a se expressarem oralmente para serem respeitados. Os surdos viam-se obrigados a todo custo a desenvolver a expressão oral e a leitura labial, o que gera o mito de que os surdos compreendem as demonstrações orais. Witkoski (2009) desmitifica esse mito ao expor que os surdos na sua maioria não fazem leitura labial. Vários fatores 29LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 envolvem o sucesso nessa técnica, como a articulação e a proximidade, que são fatores que colaboram ou atrapalham a leitura labial. Essa habilidade depende muito da postura do locutor, não é uma prática simples,o sujeito deve estar em frente ao receptor, a similaridade nas articulações específicas letras e o conhecimento anterior das palavras proferidas influencia no processo de leitura labial. A autora ainda ressalta que [...] o ambiente de conversação usual não se constitui num ideal de apreensão visual ao surdo; ao contrário. Em geral este é caracterizado pela presença de um falante distante, em permanente movimento (quando não está inclusive ausente do seu foco visual), que realiza trocas verbais com outras pessoas as quais não poderão ser observadas concomitantemente. Estas são as características mais comuns do diálogo entre ouvintes, sendo inclusive também as da sala de aula no ensino regular. (WITKOSKI, 2009, p. 569) Não é possível realizar leitura labial em toda situação, até porque a leitura não supre a falta de audição por conta do acesso às palavras expressas oralmente e identificadas pela leitura labial, essa ação não garante a compreensão de tudo o que é verbalizado. Essa ideia equivocada da leitura labial, que motiva o surdo a interagir de forma falada com um ouvinte, traz à tona outro mito, o de que os surdos ouvem algumas coisas que são do seu interesse. Ainda que consigam e se esforcem para compreender uma informação, é muito difícil assimilar o diálogo na sua totalidade. Até com o uso do aparelho auditivo existe a dificuldade em adaptar-se com os ruídos que o aparelho capta, o que dificulta 30 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 a recepção da mensagem. Se o receptor não entende a língua de sinais, é possível que não se estabeleça uma interação. Veja a seguir o relato da experiência de Witkoski (2009, p. 571). Em relação a essa caracterização do comportamento do surdo como patológica, resgato a situação de uma linda menina surda, de sete anos, que conheci. Estava numa escola de surdos de Curitiba conversando com a professora da turma, enquanto acompanhava a harmonia com que os alunos interagiam através da língua de sinais. Nessa hora chegou a mãe de uma das alunas, que estava visivelmente feliz junto a seus colegas conversando em Libras. Vendo o comportamento da filha, a mãe fez o seguinte comentário: ‘Engraçado como aqui ela se comporta bem. Em casa ela não faz nada. Se não mandar tomar banho, não vai; fica só deitada no sofá assistindo à televisão. O pior é que às vezes ela começa a gritar, cada grito, que chega a doer os meus ouvidos!’. Perguntei se ela sabia a língua de sinais. Respondeu: ‘Não, não tive tempo ainda, tenho a casa para cuidar, muito trabalho’. Na situação apresentada, a filha não atende ao pedido da mãe. A menina se relaciona apenas com amigos da escola; em casa, demonstra que é “surda”. Essa postura está relacionada com a apreciação que a filha tem pelo uso da língua de sinais. 31LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Imagem 1.6 – Língua de sinais Fonte: Freepik A Surdez sob a Perspectiva Clínica: Diagnóstico, Implicações e Abordagens de Comunicação Compreender a surdez sob uma perspectiva clínica é fundamental para identificar as diferentes maneiras pelas quais a perda auditiva pode impactar a vida de um indivíduo e as abordagens de comunicação apropriadas. De acordo com World Health Organization (WHO), a surdez é definida como a perda parcial ou total da capacidade de ouvir e é diagnosticada por meio de uma série de testes audiológicos. Esses testes podem incluir exames de otoemissões acústicas (OEA), audiometria tonal e vocal, entre outros (Silva, 2013). 32 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A surdez pode ser de natureza congênita, decorrente de problemas durante a gestação ou o parto, ou adquirida, resultante de doenças, exposição a ruídos elevados, envelhecimento ou outras causas. As implicações clínicas da surdez podem ser extensas, afetando o desenvolvimento da linguagem, o aprendizado, a interação social e a qualidade de vida (Batista, 2014). Quanto às técnicas de comunicação utilizadas nesse contexto, é fundamental que sejam empregadas estratégias adaptadas à capacidade auditiva do indivíduo. Uma das técnicas mais comuns é o uso de aparelhos auditivos ou implantes cocleares, que amplificam os sons e permitem ao indivíduo captar mais informações sonoras. Além disso, as terapias de reabilitação auditiva desempenham um papel crucial na melhoria da comunicação desses indivíduos (Silva, 2013). Portanto, a compreensão da surdez a partir de uma perspectiva clínica é fundamental para orientar a abordagem de comunicação mais adequada para cada indivíduo, considerando suas necessidades específicas e promovendo sua inclusão social e qualidade de vida. A Surdez na Visão Socioantropológica: Comunicação e Interação Social Para além do entendimento clínico da surdez, uma perspectiva socioantropológica nos proporciona uma compreensão mais rica e completa sobre o que significa ser surdo. Sob essa ótica, a surdez é vista não apenas como uma condição médica, mas como uma experiência cultural e social única. Perlin (2005) argumenta que a visão socioantropológica da surdez se concentra na experiência da vida cotidiana das pessoas 33LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 surdas, suas práticas culturais, histórias de vida e identidades. Nesse sentido, a surdez não é vista como uma deficiência, mas como uma experiência cultural distinta que envolve uma forma de ser no mundo que é tão válida e significativa quanto a dos ouvintes. No que se refere à comunicação e interação social, a comunidade surda tem sua própria linguagem, a Língua de Sinais, que é reconhecida como a língua materna da maioria dos surdos. Essa língua, com sua estrutura gramatical própria e sofisticada, facilita a comunicação e a interação social entre os surdos e é uma parte intrínseca de sua identidade cultural (Quartiero, 2006). Além disso, os surdos desenvolvem uma série de estratégias e práticas de comunicação para interagir em um mundo projetado para os ouvintes. Estas podem incluir a leitura labial, a escrita, o uso de tecnologia assistiva, entre outras (Fernandes, 2003). Compreender a surdez a partir de uma visão socioantropológica é, portanto, crucial para respeitar e valorizar a experiência e a cultura surda, bem como para promover a inclusão social e a comunicação eficaz com a comunidade surda. Comunidade surda e a cultura surda A comunidade surda é um conceito amplamente discutido e valorizado no campo da sociologia e da antropologia. No âmbito dessas disciplinas, o termo “comunidade” é interpretado além do mero sentido geográfico, é visto como um grupo social unido por aspectos comuns, sejam eles cultura, língua, tradições, valores ou normas. Nesse sentido, a “comunidade surda” se refere ao agrupamento social de indivíduos surdos que compartilham uma experiência de vida comum, marcada pela comunicação por meio da língua de sinais e por uma cultura própria, a chamada “cultura 34 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 surda”. A surdez, nesse contexto, é concebida não como uma deficiência, mas como uma característica distintiva que dá origem a uma identidade cultural única. A cultura surda, por sua vez, é composta por normas, valores, tradições e comportamentos que são compartilhados e transmitidos entre os membros da comunidade surda. A língua de sinais é um dos principais elementos dessa cultura, servindo como um meio de comunicação e interação, mas também como um símbolo de identidade e pertencimento. A cultura surda é complexa e multifacetada, refletindo vivências, lutas, conquistas e desafios enfrentados pelos indivíduos surdos ao longo da história. A valorização dessa cultura contribui para a promoção da inclusão social e para o respeito à diversidade, desafiando os estereótipos e preconceitos que frequentemente cercam a surdez. Em resumo, é importante compreender a comunidade e a cultura surdas em sua rica complexidade, como um aspecto valioso da diversidadehumana. Tal entendimento permite uma visão mais abrangente e inclusiva sobre a surdez, que vai além do enfoque clínico e médico, valorizando a experiência singular dos indivíduos surdos. Técnicas de Comunicação com Indivíduos Surdos A comunicação eficaz com indivíduos surdos requer conhecimento e habilidades específicas. A sociedade atual apresenta diversas técnicas e métodos para facilitar essa interação, entre as quais se destacam a Língua de Sinais, a leitura labial e diversas outras estratégias. 35LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é considerada a primeira língua de muitos surdos no Brasil, e seu aprendizado e uso são fundamentais para a comunicação eficaz com essa população. A Libras é uma língua visual-espacial com estrutura gramatical própria, rica em expressões e capaz de abranger conceitos complexos (Gesser, 2009). A leitura labial, por sua vez, é uma técnica comumente utilizada pelos surdos para interpretar a fala dos ouvintes, por meio da observação dos movimentos dos lábios e da face do falante. No entanto, essa técnica tem suas limitações, pois muitos sons da fala são invisíveis e a leitura labial não permite a compreensão total do discurso (Rodrigues, 2006). Outras estratégias podem incluir a escrita, o uso de tecnologias assistivas (como aparelhos auditivos e implantes cocleares) e a mímica. É importante ressaltar que a escolha da técnica de comunicação deve ser adaptada ao indivíduo e ao contexto. Cada pessoa surda tem suas preferências e habilidades de comunicação, e uma abordagem única não serve para todos (Brito, 1999). Compreender e dominar essas técnicas é fundamental para a promoção de uma comunicação eficaz e inclusiva com a comunidade surda. Língua de sinais A Língua Brasileira de Sinais (Libras) ocupa uma posição central na comunicação com a comunidade surda no Brasil. Reconhecida como língua oficial do país pelo Decreto n.º 5.626, de 22 de dezembro de 2005, a Libras se configura como uma língua natural, visual-espacial, com sua própria estrutura gramatical, sendo considerada a primeira língua de muitos surdos no Brasil (Brasil, 2005). 36 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 A Libras, assim como as demais línguas de sinais, não é uma simples representação gestual do português, mas sim uma língua autônoma, com suas regras gramaticais, sintáticas e lexicais próprias (Quadros, 2004). A compreensão dessa autonomia linguística é fundamental para entender o seu papel na vida dos surdos e na construção de suas identidades culturais. O aprendizado da Libras traz benefícios significativos para a comunicação com os surdos. Fernandes (2003) afirma que o uso da língua de sinais proporciona aos surdos uma melhor qualidade de comunicação e expressão, pois permite que eles se expressem de maneira mais natural e completa. Além disso, o uso da Libras pode criar pontes entre a comunidade surda e a ouvinte, facilitando a inclusão social e o acesso a direitos fundamentais, como educação e saúde. Gesser (2009) ressalta que a proficiência em Libras por parte dos profissionais que lidam com pessoas surdas é essencial para garantir a efetividade da comunicação e do atendimento às suas necessidades. Portanto, é fundamental compreender a Libras como uma língua natural, autônoma e importante para a comunicação e expressão dos surdos, bem como para sua inclusão social e acesso a direitos. Leitura labial A leitura labial é uma técnica amplamente utilizada por pessoas com deficiência auditiva para compreender a fala visualmente. Essa técnica se baseia na observação dos movimentos dos lábios, da face e da língua do falante, auxiliando na interpretação do que está sendo dito (Bernardi; Marcon, 2007). 37LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 No entanto, é importante frisar que a leitura labial não substitui a audição, sendo considerada uma ferramenta complementar de comunicação. Sua eficácia pode variar significativamente de acordo com fatores como a clareza da fala do interlocutor, o conhecimento prévio do assunto discutido, o nível de habilidade do leitor labial e a luminosidade do ambiente (Rosa; Bazon; Macedo, 2013). Ademais, a leitura labial tem limitações inerentes. Segundo Sachs, Tobey e Sommers (1981), muitos sons da fala, como /p/, /b/ e /m/, por exemplo, têm aparências labiais muito semelhantes e são, portanto, indistinguíveis apenas pela leitura labial. Ainda, muitos sons da fala não são visíveis, como é o caso de sons produzidos na parte posterior da cavidade oral (Auer; Bernstein; Tucker, 2000). Essas limitações podem levar a mal-entendidos na comunicação e criar desafios adicionais para as pessoas que dependem da leitura labial. Ainda assim, a leitura labial permanece sendo uma ferramenta valiosa para muitos indivíduos surdos e com deficiência auditiva, permitindo que eles participem de conversas cotidianas e se envolvam mais plenamente em suas comunidades (Tye-Murray, 2019). 38 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a surdez é uma questão que pode ser analisada a partir de diferentes perspectivas, não somente a clínica, mas também a socioantropológica. Pelo viés clínico, abordamos o diagnóstico, as implicações que a surdez pode trazer para a vida dos indivíduos e as abordagens de comunicação que podem ser utilizadas. Você deve ter entendido que a surdez não é um fim, mas uma condição que pode ser gerenciada com o conhecimento e as ferramentas corretas. Discutimos também a surdez na visão socioantropológica, mostrando que a comunicação e interação social dos surdos vão muito além da ausência de audição. Você deve ter compreendido que a surdez pode trazer consigo uma rica cultura e uma linguagem própria, que contribuem para a formação de uma identidade única e forte. Finalmente, exploramos algumas técnicas de comunicação utilizadas no contexto da surdez. Apresentamos a Língua de Sinais e a leitura labial, mostrando que cada uma tem suas próprias vantagens e desafios. Esperamos que você tenha entendido que a comunicação com os surdos não é uma barreira intransponível, mas sim uma questão de adaptação e aprendizado. Assim, ao longo deste capítulo, buscamos desmistificar a surdez e proporcionar a você um entendimento mais profundo e humano dessa condição. Esperamos que, com esse conhecimento, você se sinta mais preparado para se comunicar de maneira efetiva e respeitosa com os surdos. E aí, está pronto para continuar explorando este universo? Avante! 39LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Aspectos filosófico e legal na educação do surdo OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como funciona a convivência inclusiva e as estratégias de solução de problemas na educação do surdo. Essa competência será fundamental para o exercício de sua profissão, seja como educador, psicólogo, assistente social ou qualquer outra profissão que necessite interagir de maneira inclusiva e empática com indivíduos surdos. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Introdução A identidade surda está ligada à língua de sinais. Essa relação depende de como a língua de sinais é inserida como uma possibilidade de comunicação. Santana e Bergamo (2005) dizem que a relação de que a identidade do surdo é ligada à língua de sinais vem de pesquisas que mostram: do contato do surdo com outro surdo que faz uso da língua de sinais expandem-se novas possibilidades de interação e compreensão, o que não acontece por meio da língua oral. 40 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Imagem 1.7 – Criança aprende a língua de sinais Fonte: Freepik Vygotsky (1991) citaque as ações cognitivas essenciais de um ser humano têm relação direta com a sua história social, que traz a memória da sociedade na qual a criança desenvolve- se socialmente, o que é bem relevante para a formação do pensamento. No processo de aquisição de conhecimento, a língua tem um papel fundamental na designação de como a criança desenvolverá o seu aprendizado. O contato da criança com a língua de sinais influencia na capacidade da formação de pensamento, e o ambiente em que ela está inserida deverá proporcionar o servir dessa língua. Perlin (1998) chama a atenção para a aquisição de uma identidade que é repelida ao indivíduo no ambiente em que ele habita. Um surdo que tem contato contínuo e direto com um ouvinte irá ponderar a surdez como uma deficiência tratável, e guiará a sua identidade sob essa perspectiva. Por outro lado, é positivo o surdo que tem a oportunidade de conviver e vivenciar uma comunidade de surdos com ouvintes, porque essa relação 41LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 desenvolverá uma identidade que favorece e evidencia a diferença e não da deficiência. Para Felipe (2007, p. 82), é provável identificar características do tipo: • a maioria das pessoas surdas sentem-se mais à vontade para ter relacionamento e dividir sentimentos e tal com outra pessoa surda; • as frases com gênero humorístico em tom de piadas afasta o desejo de conhecimento sobre a língua de sinais e sua cultura; • a abordagem sobre assuntos de relacionamento, educação e olhar de mundo, pode ser representado em cenas teatrais; • o surdo tem um olhar diferenciado de mundo, ele se indentifica com as expressões faciais e corporais que são representadas com as mãos, que devem ser usadas de forma necesssária com agilidade e fluência, dando sentido a mensagem transmitida. O surdo possui uma identidade própria, independentemente do seu acesso à língua ou não; a diferença é a sua própria aceitação como surdo junto com a língua de sinais. Observe que aquele que se aceita consegue desenvolver-se e interage com o mundo positivamente, sob o olhar da sua comunidade e cultura surda. 42 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 SAIBA MAIS O link a seguir exemplifica a estrutura gramatical da Libras. Confira o vídeo “Estrutura da Libras: como fazer frases - Língua de Sinais possui gramática própria?” para entender como funciona o uso da língua. Disponível no QR code. A Importância da Inclusão e Convivência para a Educação do Surdo: Desafios e Soluções A inclusão na educação é uma questão central quando falamos sobre a educação de surdos. A ideia de que todos os estudantes, independentemente de suas diferenças ou deficiências, devem ter oportunidades iguais de acesso e participação na educação é um princípio fundamental da inclusão (Bueno, 1999). No contexto da educação de surdos, a inclusão se torna ainda mais relevante. Afinal, a surdez não é apenas uma condição física que afeta a audição, mas também um fator que pode influenciar profundamente a interação social e o processo de aprendizado dos indivíduos surdos. Os desafios que os alunos surdos enfrentam na escola são diversos e complexos. Eles vão desde a barreira da língua e a falta de professores adequadamente preparados para lidar https://www.youtube.com/watch?v=OiKH_hMM_Es 43LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 com a surdez, até a dificuldade de interação e convivência com os colegas ouvintes. Apesar desses desafios, várias estratégias podem ser adotadas para promover uma inclusão bem-sucedida. A formação de professores em Libras, o uso de recursos visuais e tecnológicos e a adoção de práticas pedagógicas inclusivas são algumas dessas estratégias (GÓES, 2009). Definição e Importância da Inclusão na Educação do Surdo A inclusão na educação do surdo é, portanto, uma prática que visa garantir a esses estudantes as mesmas oportunidades de aprendizado, interação e desenvolvimento que os estudantes ouvintes têm. Isso significa adaptar os métodos de ensino para atender às necessidades específicas dos alunos surdos, fornecer recursos visuais e tecnológicos adequados e promover uma convivência positiva entre alunos surdos e ouvintes. A inclusão na educação do surdo é de suma importância, pois ela tem o potencial de influenciar positivamente não apenas o desenvolvimento acadêmico, mas também o desenvolvimento social e emocional desses indivíduos. Ao se sentirem incluídos e valorizados em seu ambiente de aprendizado, os alunos surdos podem desenvolver uma autoestima mais positiva, uma maior motivação para aprender e um sentimento de pertencimento à comunidade escolar. Além disso, a inclusão na educação do surdo também é fundamental para promover uma sociedade mais justa e inclusiva. Ao aprenderem a conviver e interagir com pessoas surdas desde cedo, os estudantes ouvintes podem desenvolver uma maior 44 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 compreensão e respeito pela diversidade, o que é fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária. Desafios na Inclusão e Convivência com Surdos A inclusão de alunos surdos em ambientes educacionais regulares é uma tarefa complexa e que envolve uma série de desafios. Um dos principais é a barreira de comunicação. A maioria dos ambientes educacionais está configurada para alunos ouvintes, o que pode deixar os alunos surdos em uma situação de desvantagem. A comunicação é uma ferramenta fundamental para o aprendizado, e a ausência de uma comunicação efetiva pode limitar as oportunidades de aprendizado e interação social dos alunos surdos. Outro desafio é a falta de professores qualificados em Libras. Apesar de ser a língua de sinais oficial do Brasil, a formação de profissionais capacitados para lecionar em Libras ainda é insuficiente. Isso pode resultar em uma instrução inadequada e dificultar o processo de aprendizado dos alunos surdos. Os preconceitos também representam um obstáculo significativo para a inclusão dos surdos. Muitas pessoas ainda têm ideias errôneas sobre a surdez e a capacidade desses sujeitos de aprender e se desenvolver. Esses preconceitos podem levar à discriminação e exclusão dos alunos surdos, prejudicando seu desenvolvimento acadêmico e social. Finalmente, a acessibilidade ao currículo escolar é um desafio adicional. Muitas vezes, o material didático e as avaliações não estão adaptados para atender às necessidades específicas dos alunos surdos. Isso pode dificultar a compreensão do conteúdo e afetar o desempenho acadêmico dos alunos surdos. 45LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Portanto, a inclusão de alunos surdos na educação regular exige uma série de ajustes e adaptações, desde a comunicação até o currículo escolar. É um processo que exige o comprometimento de toda a comunidade escolar, mas que tem o potencial de trazer benefícios significativos para todos os envolvidos. Estratégias de Solução de Problemas Para superar os desafios da inclusão e convivência com alunos surdos, várias estratégias podem ser implementadas. Uma delas é a formação de professores em Libras. Investir na capacitação de educadores em Libras é fundamental para garantir que os alunos surdos possam se comunicar de maneira efetiva e acessar o currículo escolar. Outra estratégia é o uso de tecnologias assistidas. Ferramentas como programas de transcrição automática, aparelhos de amplificação sonora e aplicativos que traduzem a fala em texto podem ser de grande auxílio para os alunos surdos. Eles podem ajudar a minimizar as barreiras de comunicação e facilitar o acesso à informação. Adotar práticas de ensino diferenciadas também é uma estratégia relevante. Ao planejar as aulas, os professores devem considerar as necessidades e habilidades específicas dos alunos surdos. Isso pode envolver a utilização de recursos visuais, aulas práticas e a adaptação do ritmo e do método de ensinopara atender às necessidades dos alunos surdos. Por fim, é essencial educar a comunidade escolar para ser mais inclusiva e acolhedora. Isso pode ser feito por meio de palestras, oficinas e outras atividades que promovam o entendimento e o respeito pela diversidade. Dessa forma, é possível criar um ambiente escolar mais acolhedor e propício para o desenvolvimento dos alunos surdos. 46 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Superando Obstáculos na Convivência: Estratégias para uma Educação Bilíngue Inclusiva para Surdos Iniciar a discussão sobre a superação de obstáculos na convivência e a importância de uma educação bilíngue inclusiva para surdos é vital. A sociedade, de forma geral, ainda está em processo de compreender e aceitar plenamente a cultura e a identidade surdas, o que gera uma série de desafios no dia a dia dos indivíduos surdos, especialmente no ambiente escolar (STROBEL, 2008). Esses desafios muitas vezes são oriundos de barreiras de comunicação, falta de conhecimento sobre a surdez e preconceitos relacionados a essa condição. No entanto, é importante frisar que a surdez, por si só, não impede ninguém de aprender e se desenvolver, desde que sejam utilizadas estratégias pedagógicas adequadas e inclusivas (GOLDFELD, 2002). A educação bilíngue para surdos emerge, nesse contexto, como um caminho para a superação desses obstáculos. Essa abordagem propõe o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua e o Português escrito como segunda língua, possibilitando o pleno desenvolvimento acadêmico, cognitivo e social do aluno surdo. Nas próximas seções, exploraremos mais detalhadamente os desafios na convivência com alunos surdos, a importância da educação bilíngue e as estratégias para implementá-la efetivamente no ambiente escolar. Esse é um passo essencial para a construção de uma sociedade mais inclusiva e justa, onde todos têm oportunidades iguais de aprender e crescer (SKLIAR, 1998). 47LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Desafios na Convivência com Alunos Surdos No contexto educacional, existem inúmeros desafios na convivência com alunos surdos, que variam desde a barreira de comunicação até a falta de entendimento sobre a surdez e a cultura surda, além do preconceito ou estigma associado à surdez. A barreira de comunicação é, sem dúvida, um dos maiores obstáculos enfrentados por alunos surdos em um ambiente de educação inclusiva. A língua de sinais, por exemplo, é muitas vezes a língua natural desses indivíduos, mas é pouco conhecida ou utilizada por professores e colegas ouvintes. Isso cria uma disparidade linguística que pode isolar o aluno surdo e afetar seu desempenho acadêmico e sua interação social (Perlin, 2006). A falta de conhecimento sobre a surdez e a cultura surda também é um problema significativo. Muitos ainda enxergam a surdez como uma deficiência que precisa ser “corrigida”, em vez de uma diferença que deve ser respeitada e acomodada. Essa visão pode perpetuar atitudes negativas e estigmatizantes em relação aos surdos, dificultando ainda mais sua inclusão e participação efetiva no ambiente escolar. O preconceito ou estigma associado à surdez também é um obstáculo relevante. Os surdos são frequentemente subestimados em suas capacidades e potencial de aprendizagem, simplesmente por serem como são. Isso pode limitar suas oportunidades e restringir seu desenvolvimento acadêmico e pessoal (Souza, 2008). No entanto, é importante lembrar que esses desafios não são intransponíveis. Com estratégias pedagógicas apropriadas e um esforço conjunto para promover a inclusão e a diversidade, podemos criar um ambiente educacional que seja verdadeiramente 48 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 acolhedor e acessível para todos os alunos, incluindo aqueles que são surdos (Goldfeld, 2002). A Importância da Educação Bilíngue para Surdos A educação bilíngue para surdos é um tema de extrema relevância no campo da educação inclusiva e está diretamente relacionada à forma como se dá a convivência e a integração do indivíduo surdo na sociedade. A ideia de uma educação bilíngue se baseia no pressuposto de que a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a língua natural do surdo, sendo, portanto, a primeira língua a ser adquirida. A segunda língua, nesse caso, o Português, é aprendida de forma subsequente e contextualizada, auxiliando na ampliação do repertório linguístico do aluno surdo. Essa perspectiva é vital para a inclusão efetiva e a convivência harmoniosa de pessoas surdas na sociedade, pois reconhece e valoriza a cultura e a identidade surda, contribuindo para o desenvolvimento de uma autoimagem positiva e para a construção de um ambiente de respeito à diversidade. Do ponto de vista acadêmico, a educação bilíngue proporciona ao aluno surdo as ferramentas linguísticas necessárias para acessar o currículo escolar, participar ativamente do processo de aprendizagem e desenvolver suas capacidades cognitivas (Gesser, 2009). Além disso, no plano social, a educação bilíngue permite uma melhor interação do surdo com a comunidade ouvinte, favorecendo a convivência e a troca de experiências, bem como a participação plena e ativa do surdo na sociedade (Souza, 2008). 49LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Estratégias para Implementar uma Educação Bilíngue Inclusiva A implementação de uma educação bilíngue inclusiva para surdos é um processo multifacetado que envolve diversas estratégias práticas, mas que ao mesmo tempo tem o potencial de transformar radicalmente a experiência educacional dos surdos (Felipe, 2005). A primeira e talvez mais crucial dessas estratégias é a formação de professores. É fundamental que os profissionais da educação sejam proficientes em Libras e conhecedores da cultura e identidade surdas, para poderem proporcionar um ambiente de aprendizagem inclusivo e respeitoso. Essa formação deve ser tanto teórica, para uma compreensão aprofundada das questões envolvidas, quanto prática, para o desenvolvimento de habilidades didáticas adaptadas ao ensino bilíngue para surdos (Gesser, 2009). A inclusão de Libras como disciplina curricular é outra estratégia importante, pois confere visibilidade e legitimidade a essa língua e sua comunidade, além de ser uma ferramenta essencial para a inclusão dos alunos surdos. É igualmente importante que a língua portuguesa seja ensinada de forma contextualizada e significativa, respeitando o bilinguismo dos alunos (Lodi; Harrison; Campos, 2011). A utilização de tecnologia assistiva, como softwares de tradução, legendas e dispositivos de amplificação de som, pode ser uma grande aliada na inclusão dos surdos, facilitando a comunicação e o acesso ao conteúdo curricular (Souza, 2008). Por fim, é crucial a promoção de uma cultura escolar inclusiva e respeitosa, que valorize a diversidade e o respeito às diferenças. Isso passa por uma mudança de mentalidade que 50 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 envolve toda a comunidade escolar: gestores, professores, alunos, funcionários e pais (Strobel, 2008). Superando Obstáculos na Convivência: Estratégias para uma Educação Bilíngue Inclusiva para Surdos Para superar os obstáculos na convivência com alunos surdos e promover uma educação bilíngue inclusiva, é preciso adotar estratégias práticas e eficazes. O primeiro passo, conforme mencionado por Gesser (2009), é o preparo dos profissionais envolvidos na educação, que devem ser proficientes em Libras e conhecedores da cultura surda. A inclusão da Libras como disciplina curricular também é fundamental, conforme destacam Quadros e Karnopp (2004). Essa inclusão valida a língua de sinais e proporciona aos alunos surdos o direito de aprender e se comunicar por meio de sua língua materna. Além disso, essa estratégia promove uma melhor convivência, pois a comunicação se torna mais fluída entre surdos e ouvintes. Nesse sentido,Souza (2008) aponta para a importância da tecnologia assistiva. Equipamentos de amplificação de som, softwares de tradução e legendas podem ser utilizados para facilitar o processo de aprendizagem e a comunicação dos alunos surdos. Contudo, para efetivação de uma educação bilíngue inclusiva é fundamental a promoção de uma cultura escolar inclusiva e respeitosa, como afirma Strobel (2008). A valorização da diversidade e o respeito às diferenças são princípios essenciais que devem ser incorporados por toda a comunidade escolar. 51LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a inclusão e a convivência são aspectos fundamentais para a educação do surdo, e elas envolvem tanto desafios como soluções. A inclusão, que é a ideia de que todos os alunos, independentemente de suas habilidades ou deficiências, devem ser acolhidos e apoiados em um ambiente educacional comum, é crucial para o desenvolvimento acadêmico e social do surdo. Contudo, desafios como barreiras de comunicação, falta de professores qualificados em Libras, preconceitos e dificuldades em acessar o currículo escolar podem dificultar esse processo. Para superar esses obstáculos, estratégias eficazes devem ser empregadas, tais como a formação de professores em Libras, a adoção de práticas de ensino diferenciadas e a educação da comunidade escolar para ser mais inclusiva e acolhedora. A tecnologia assistiva também é uma ferramenta valiosa para facilitar a comunicação e o aprendizado dos alunos surdos. Ademais, você aprendeu que a educação bilíngue, com Libras como primeira língua e o Português como segunda, é fundamental para a inclusão efetiva e a convivência harmoniosa dos surdos. O domínio de ambas as línguas pode contribuir para o desenvolvimento acadêmico, cognitivo e social do indivíduo surdo, e ajudá-los a se comunicarem efetivamente em diferentes contextos. 52 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 O bilinguismo na educação de surdos OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como funciona o aprendizado e a execução dos procedimentos que envolvem a língua de sinais brasileira e os aspectos da cultura surda. Isso será fundamental para o exercício de sua profissão como educador, intérprete, ou qualquer outra carreira que interaja diretamente com a comunidade surda. E então? Motivado para desenvolver esta competência tão necessária e valiosa? Vamos lá. Avante! Introdução Quando pesquisamos Educação bilíngue para surdos nos reportamos a um trabalho pedagógico que faz uso de línguas no desenvolvimento do processo de aprendizagem, de forma inclusiva. • Libras - Língua de Sinais. • Língua Portuguesa escrita. Os surdos precisam e devem ter acesso a uma educação bilíngue, que dê ênfase a língua de sinais como sua língua natural, bem como o aprendizado da língua portuguesa, como segunda língua” (Brasil, 2006, p. 71). O bilinguismo, porém, reconhecido como política pública brasileira, surgiu há pouco tempo, mas já existe registro de ações de sucesso. Temos um exemplo real presente na administração municipal de São Bernardo do Campo, na grande São Paulo. 53LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Imagem 1.8 – São Bernardo do Campo, SP Fonte: Prefeitura de São Bernardo do Campo ([s.d.], on-line ) Em 2012, o município de ensino da cidade criou as Escolas Polo para priorizar a educação de alunos surdos. Essas instituições escolares regulares são de educação básica, que possuem toda a estrutura física e pedagógica para recepcioar e prestar atendimento adequado aos alunos. Alguns professores têm habilidade regular em Libras e são bilíngues, são os responsáveis pelas turmas e realizam os encaminhamentos das disciplinas ativas, são também os intérpretes de Libras. No horário oposto das aulas comuns, há atividades complementares prática de Libras e quem ministra é sempre um professor surdo. Essa é uma das iniciativas escolares que priorizam a educação em duas línguas. (Depoimento da professora Nadia Aparecida Issa Pina). 54 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 ACESSE No Cmais, portal oficial da TV Cultura do Estado de São Paulo, você encontra um vídeo que representa o bilinguismo, composto exatamente na EMEBS Professora Nadia Aparecida Issa Pina. Confira, leia o texto e pense sobre o modo de educação bilíngue exposto em: A Determinação Federal n.º 5.626, de 2005, e a Política Nacional de Educação Especial no Panorama da Educação Inclusiva, de 2008, são dois documentos essenciais que discorrem do assunto. Já ouviu falar? Vamos tratar deles agora! Escolas bilíngues na Determinação Federal n.º 5.626/2005 Mais adiante veremos os documentos oficiais, as leis e os decretos. Vamos, no momento, conhecer a relevância do decreto que apoia e estabece o bilinguismo e a escola bilíngue no atual contexto educativo brasileiro. São eles: o Decreto Federal n.º 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que regimentou a Lei n.º 10.436/2002 (Brasil, 2002), tornando reconhecida a Língua Brasileira de Sinais como meio de comunicação da comunidade surda; de mesmo modo a regulamentação do artigo 18 da Lei n.º 10.098/2000 (Brasil, 2000), que trata da realização da formação de http://univesptv.cmais.com.br/pedagogia-unesp/d-24-conteudo-e-didatica-de-libras/estudantes-surdos-e-bilinguismo-no-ensino-regular 55LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 profissionais intérpretes para a Libras, para viabilizar a interação com os surdos. Encontram-se em vigor após o reconhecimento da Libras, em 2002, e sob a importância dos demais documentos que tratavam da inclusão social e ambiente escolar para surdos. As leis possuem dizeres variados que garantem a educação e a conservação da Libras, no status de políticas públicas que garantam uma educação estirpe para aquisição de conhecimento que beneficie o surdo, como a língua de sinais como ensino mandatório nas licenciaturas e a formação específica de profissionais da área da educação. Essas são ações em que levam tempo para se solidificarem: A burocracia do setor público desempenha um papel significativo, mas não é o único obstáculo; a falta de profissionais qualificados também compromete a implementação das diretrizes legais. O objetivo do decreto é a educação dos surdos, é ampará- los. As primeiras tratativas referentes ao reconhecimento e à aprovação da língua de sinais e seu cumprimento nos espaços educacionais iniciaram no ano de 1996, quando da execução da Câmara Técnica O Surdo e a Língua de Sinais. O decreto foi desenvolvido em acordo com a academia e com a cultura surda. O documento estabelece: Intilula-se Escolas de Educação Bilíngue aquelas em que a Libras e a escrita da Língua Portuguesa reperesentem línguas de instrução inseridas no desenvolvimento do processo educativo. É um direito dos estudantes à escolarização em um período oposto ao atendimento educacional especializado para a complementação curricular, com aproveitamento de equipamentos de tecnologias de informação (BRASIL, 2005, on-line). 56 LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U ni da de 1 Segundo o Decreto Federal (Brasil, 2005), essa educação está dividida seguindo os seguintes critérios: • Ensino infantil e Anos iniciais do fundamental – formação obrigatória de professores bilíngues para atuação em escolas e classes de educação; • Anos finais do ensino fundamental, Médio e no Técnico Profissional – não se faz obrigatório que os professores sejam bilíngues, porém é importante conhecer as especificidades linguísticas e o processo de ensino- aprendizagem, dos alunos surdos. É imprescindível a presença de tradutores e intérpretes da Libras-Língua Portuguesa, embora não se torna obrigatório que as