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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS 104 Estudos realizados para avaliação do peso e estatura dos RNs brasileiros, indicam as seguintes médias no caso dos neonatos a ter- mo: 3.500g/ 50cm para os bebês do sexo masculino e 3.280g/49,- 6cm para os do sexo feminino. Tais estudos mostraram também que a média do perímetro cefálico dos RNs a termo é de 34-35 cm. Já o perímetro torácico deve ser sempre 2- 3cm menor que o cefálico (Navantino, 1995). Os sinais vitais refletem as condições de homeostase dos be- bês, ou seja, o bom funcionamento dos seus sistemas respiratório, cardiocirculatório e metabólico; se os valores encontrados estive- rem dentro dos parâmetros de normalidade, temos a indicação de que a criança se encontra em boas condições no que se refere a esses sistemas. Os RNs são extremamente termolábeis, ou seja, têm dificulda- de de manter estável a temperatura corporal, perdendo rapidamente calor para o ambiente externo quando exposto ao frio, molhado ou em contato com superfícies frias. Além disso, a superfície corporal dos bebês é relativamente grande em relação ao seu peso e eles têm uma capacidade limitada para produzir calor. A atitude e a postura dos RNs, nos primeiros dias de vida, re- fletem a posição em que se encontravam no útero materno. Por exemplo, os bebês que estavam em apresentação cefálica tendem a manter-se na posição fetal tradicional - cabeça fletida sobre o tron- co, mãos fechadas, braços flexionados, pernas fletidas sobre as co- xas e coxas, sobre o abdômen. A avaliação da pele do RN fornece importantes informações acerca do seu grau de maturidade, nutrição, hidratação e sobre a presença de condições patológicas. A pele do RN a termo, AIG e que se encontra em bom estado de hidratação e nutrição, tem aspecto sedoso, coloração rosada (nos RNs de raça branca) e/ou avermelhada (nos RNs de raça negra), tur- gor normal e é recoberta por vernix caseoso. Nos bebês prematuros, a pele é fina e gelatinosa e nos bebês nascidos pós-termo, grossa e apergaminhada, com presença de descamação — principalmente nas palmas das mãos, plantas dos pés — e sulcos profundos. Têm também turgor diminuído. Das inúmeras características observadas na pele dos RNs desta- camos as que se apresentam com maior frequência e sua condição ou não de normalidade. a) Eritema tóxico - consiste em pequenas lesões avermelhadas, emelhantes a picadas de insetos, que aparecem em geral após o 2º dia de vida. São decorrentes de reação alérgica aos medicamentos usados durante o trabalho de parto ou às roupas e produtos utiliza- dos para a higienização dos bebês. b) Millium - são glândulas sebáceas obstruídas que podem es- tar presentes na face, nariz, testa e queixo sob a forma de pequenos pontos brancos. c) Manchas mongólicas - manchas azuladas extensas, que apa- recem nas regiões glútea e lombossacra. De origem racial – apare- cem em crianças negras, amarelas e índias - costumam desaparecer com o decorrer dos anos. d) Petequeias - pequenas manchas arroxeadas, decorrentes de fragilidade capilar e rompimento de pequenos vasos. Podem apare- cer como consequência do parto, pelo atrito da pele contra o canal do parto, ou de circulares de cordão — quando presentes na re- gião do pescoço. Estão também associadas a condições patológicas, como septicemia e doenças hemolíticas graves. e) Cianose - quando localizada nas extremidades (mãos e pés) e/ ou na região perioral e presente nas primeiras horas de vida, é considerada como um achado normal, em função da circulação pe- riférica, mais lenta nesse período. Pode também ser causada por hipotermia, principalmente em bebês prematuros. Quando genera- lizada é uma ocorrência grave, que está em geral associada a distúr- bios respiratórios e/ou cardíacos. f) Icterícia - coloração amarelada da pele, que aparece e evo- lui no sentido craniocaudal, que pode ter significado fisiológico ou patológico de acordo com o tempo de aparecimento e as condições associadas. As icterícias ocorridas antes de 36 horas de vida são em geral patológicas e as surgidas após esse período são chamadas de fisiológicas ou próprias do RN. g) Edema - o de membros inferiores, principalmente, é encon- trado com frequência em bebês prematuros, devido as suas limi- tações renais e cardíacas decorrentes da imaturidade dos órgãos. O edema generalizado (anasarca) ocorre associado à insuficiência cardíaca, insuficiência renal e distúrbios metabólicos. Os cabelos do RN a termo são em geral abundantes e sedosos; já nos prematuros são muitas vezes escassos, finos e algodoados. A implantação baixa dos cabelos na testa e na nuca pode estar associada à presença de malformações cromossômicas. Alguns bebês podem também apresentar lanugem, mais fre- quentemente observada em bebês prematuros. As unhas geralmente ultrapassam as pontas dos dedos ou são incompletas e até ausentes nos prematuros. Ao nascimento os ossos da cabeça não estão ainda completa- mente soldados e são separados por estruturas membranosas de- nominadas suturas. Assim, temos a sagital (situada entre os ossos parietais), a coronariana (separa os ossos parietais do frontal) e a lambdoide (separa os parietais do occipital). Entre as suturas coronariana e sagital está localizada a grande fontanela ou fontanela bregmática, que tem tamanho variável e só se fecha por volta do 18º mês de vida. Existe também outra fonta- nela, a lambdoide ou pequena fontanela, situada entre as suturas lambdoide e sagital. É uma fontanela de pequeno diâmetro, que em geral se apresenta fechada no primeiro ou segundo mês de vida. A presença dessas estruturas permite a moldagem da cabeça do feto durante sua passagem no canal do parto. Esta moldagem tem caráter transitório e é também fisiológica. Além dessas, outras alterações podem aparecer na cabeça dos bebês como consequên- cia de sua passagem pelo canal de parto. Dentre elas temos: a) Cefalematoma - derrame sanguíneo que ocorre em função do Rompimento de vasos pela pressão dos ossos cranianos contra a Estrutura da bacia materna. Tem consistência cística (amoleci- da com a sensação de presença de líquidos), volume variável e não atravessa as linhas das suturas, ficando restrito ao osso atingido. Aparece com mais frequência na região dos parietais, são dolorosos à palpação e podem levar semanas para ser reabsorvidos. b) Bossa serossanguínea - consiste em um edema do couro ca- beludo, com sinal de cacifo positivo cujos limites são indefinidos, não respeitando as linhas das suturas ósseas. Desaparece nos pri- meiros dias de vida. Os olhos dos RN podem apresentar alterações sem maior signi- ficado, tais como hemorragias conjuntivais e assimetrias pupilares. As orelhas devem ser observadas quanto à sua implantação que deve ser na linha dos olhos. Implantação baixa de orelhas é um achado sugestivo de malformações cromossômicas. Conhecimentos Específicos Enfermeiro 104 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS 105 No nariz, a principal preocupação é quanto à presença de atresia de coanas, que acarreta insuficiência respiratória grave. A passagem da sonda na sala de parto, sem dificuldade, afasta essa possibilidade. A boca deve ser observada buscando-se avaliar a presença de dentes precoces, fissura labial e/ou fenda palatina. O pescoço dos RNs é em geral curto, grosso e tem boa mobi- lidade. Diminuição da mobilidade e presença de massas indicam pato- logia, o que requer uma avaliação mais detalhada. O tórax, de forma cilíndrica, tem como características principais um apêndice xifoide muito proeminente e a pequena espessura de sua parede. Muitos RNs, de ambos os sexos, podem apresentar hipertrofia das glândulas mamárias, como consequência da estimulação hor- monal materna recebida pela placenta. Essa hipertrofia é bilateral. Quando aparece em apenas uma das glândulas mamárias, em geral é consequência de uma infecção por estafilococos. O abdômen também apresenta forma cilíndrica e seu diâmetro é 2-3 cm menor que o perímetro cefálico. Em geral, é globoso e suasparedes finas possibilitam a observação fácil da presença de hérnias umbilicais e inguinais, principalmente quando os bebês estão cho- rando e nos períodos após a alimentação. A distensão abdominal é um achado anormal e quando ob- servada deve ser prontamente comunicada, pois está comumente associada a condições graves como septicemia e obstruções intes- tinais. O coto umbilical, aproximadamente até o 4º dia de vida, apre- senta- se com as mesmas características do nascimento - coloração branca- azulada e aspecto gelatinoso. Após esse período, inicia-se o processo de mumificação, durante o qual o coto resseca e passa a apresentar uma coloração escurecida. A queda do coto umbilical ocorre entre o 6° e o 15º dia de vida. A observação do abdômen do bebê permite também a avalia- ção do seu padrão respiratório, uma vez que a respiração do RN é do tipo abdominal. A cada incursão respiratória pode-se ver a elevação e descida da parede abdominal, com breves períodos em que há ausência de movimentos. Esses períodos são chamados de pausas e constituem um acha- do normal, pois a respiração dos neonatos tem um ritmo irregular. Essa irregularidade é observada principalmente nos prematuros. A genitália masculina pode apresentar alterações devido à pas- sagem de hormônios maternos pela placenta que ocasionam, com frequência, edema da bolsa escrotal, que assim pode manter-se até vários meses após o nascimento, sem necessidade de qualquer tipo de tratamento. A palpação da bolsa escrotal permite verificar a presença dos testículos, pois podem se encontrar nos canais inguinais. A glande está sempre coberta pelo prepúcio, sendo então a fimose uma con- dição normal. Deve-se observar a presença de um bom jato urinário no momento da micção. A transferência de hormônios maternos durante a gestação também é responsável por várias alterações na genitália feminina. A que mais chama a atenção é a genitália em couve-flor. Pela esti- mulação hormonal o hímen e os pequenos lábios apresentam-se hipertrofiados ao nascimento não sendo recobertos pelos grandes lábios. Esse aspecto está presente de forma acentuada nos prema- turos. É observada com frequência a presença de secreção vaginal, de aspecto mucoide e leitoso. Em algumas crianças pode ocorrer tam- bém sangramento via vaginal, denominado de menarca neonatal ou pseudomenstruação. Em relação ao ânus, a principal observação a ser feita diz res- peito à permeabilidade do orifício. Essa avaliação pode ser realizada pela visualização direta do orifício anal e pela eliminação de me- cônio nas primeiras horas após o nascimento. Outro ponto impor- tante refere-se às eliminações vesicais e intestinais. O RN elimina urina várias vezes ao dia. A primeira diurese deve ocorrer antes de completadas as primeiras 24 horas de vida, apresentando, como características, grande volume e coloração amarelo-clara. As pri- meiras fezes eliminadas pelos RNs consistem no mecônio, forma- do intrauterinamente, que apresenta consistência espessa e colo- ração verde-escura. Sua eliminação deve ocorrer até às primeiras 48 horas de vida. Quando a criança não elimina mecônio nesse período é preciso uma avaliação mais rigorosa pois a ausência de eliminação de mecônio nos dois primeiros dias de vida pode es- tar associada a condições anormais (presença de rolha meconial, obstrução do reto). Com o início da alimentação, as fezes dos RNs vão assumindo as características do que se costuma denominar fezes lácteas ou fezes do leite. As fezes lácteas têm consistência pastosa e coloração que pode variar do verde, para o amarelo esverdeado, até a coloração amarelada. Evacuam várias vezes ao dia, em geral após a alimen- tação. Referência:Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Projeto de profissionalização dos Trabalha- dores da Área de Enfermagem. Profissionalização de auxiliares de enfermagem: cadernos do aluno: saúde da mulher, da criança e do adolescente / Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão do Traba- lho e da Educação na Saúde, Departamento de Gestão da Educa- ção na Saúde, Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem. - 2. Ed., 1.a reimpr. - Brasília: Ministério da Saúde; Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003. Cadernos de Atenção Básica Controle dos Cânceres do Colo do Útero e da Mama CONTROLE DO CÂNCER DO COLO DO ÚTERO Anatomia e Fisiologia do Útero O útero é um órgão do aparelho reprodutor feminino que está situado no abdome inferior, por trás da bexiga e na frente do reto e é dividido em corpo e colo. Essa última parte é a porção inferior do útero e se localiza dentro do canal vaginal. O colo do útero apresenta uma parte interna, que constitui o chamado canal cervical ou endocérvice, que é revestido por uma camada única de células cilíndricas produtoras de muco - epité- lio colunar simples. A parte externa, que mantém contato com a vagina, é chamada de ectocérvice e é revestida por um tecido de várias camadas de células planas – epitélio escamoso e estratifica- do. Entre esses dois epitélios, encontra-se a junção escamocolu- nar – JEC -, que é uma linha que pode estar tanto na ecto como na endocérvice, dependendo da situação hormonal da mulher. Na infância e no período pós-menopausa, geralmente, a JEC situa-se dentro do canal cervical. No período da menacme, fase reprodutiva da mulher, geral- mente, a JEC situa-se no nível do orifício externo ou para fora des- se – ectopia ou eversão. Vale ressaltar que a ectopia é uma situação fisiológica e por isso a denominação de “ferida no colo do útero” é inapropriada. Conhecimentos Específicos Enfermeiro 105 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS 106 Nessa situação, o epitélio colunar fica em contato com um ambiente vaginal ácido, hostil à essas células. Assim, células subcilíndri- cas, de reserva, bipotenciais, por meio de metaplasia, se transformam em células mais adaptadas – escamosas –, dando origem a um novo epitélio, situado entre os epitélios originais, chamado de terceira mucosa ou zona de transformação. Nessa região, pode ocorrer obstrução dos ductos excretores das glândulas endocervicais subjacentes, dando origem a estruturas císticas sem significado patológico, chamadas de Cistos de Naboth. É nessa zona em que se localizam mais de 90% das lesões cancerosas do colo do útero. História Natural da Doença O câncer do colo do útero é uma afecção progressiva iniciada com transformações intra-epiteliais progressivas que podem evoluir para um processo invasor num período que varia de 10 a 20 anos. O colo do útero é revestido por várias camadas de células epiteliais pavimentosas, arranjadas de forma bastante ordenada. Essa de- sordenação das camadas é acompanhada por alterações nas células que vão desde núcleos mais corados até figuras atípicas de divisão celular. Quando a desordenação ocorre nas camadas mais basais do epitélio estratificado, estamos diante de uma Neoplasia Intraepitelial Cervical Grau I - NIC I – Baixo Grau (anormalidades do epitélio no 1/3 proximal da membrana). Se a desordenação avança 2/3 proximais da membrana estamos diante de uma Neoplasia Intra-epitelial Cervical Grau II - NIC II – Alto Grau. Na Neoplasia Intra-epitelial Cervical Grau III - NIC III – Alto Grau, o desarranjo é observado em todas as camadas, sem romper a membrana basal. A coilocitose, alteração que sugere a infecção pelo HPV, pode estar presente ou não. Quando as alterações celulares se tornam mais intensas e o grau de desarranjo é tal que as células invadem o tecido conjuntivo do colo do útero abaixo do epitélio, temos o carcinoma invasor. Para chegar a câncer invasor, a lesão não tem, obrigatoriamente, que passar por todas essas etapas. Fatores de Risco Associados ao Câncer do Colo do Útero Os fatores de risco mais importantes para o desenvolvimento do câncer do colo do útero são: • Infecção pelo Papiloma Vírus Humano – HPV - sendo esse o principal fator de risco; • Início precoce daatividade sexual; • Multiplicidade de parceiros sexuais; • Tabagismo, diretamente relacionados à quantidade de cigarros fumados; • Baixa condição sócio-econômica; • Imunossupressão; • Uso prolongado de contraceptivos orais; • Higiene íntima inadequada Manifestações Clínicas • O câncer do colo do útero é uma doença de crescimento lento e silencioso; • Existe uma fase pré-clínica, sem sintomas, com transformações intra-epiteliais progressivas importantes, em que a detecção de possíveis lesões precursoras são por meio da realização periódica do exame preventivo do colo do útero. • Progride lentamente, por anos, antes de atingir o estágio invasor da doença, quando a cura se torna mais difícil, se não impossível. Nessa fase os principais sintomas são sangramento vaginal, corrimento e dor. Linha de Cuidado Conhecimentos Específicos Enfermeiro 106