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1 2 Olá, Alunos! Sejam bem-vindos! Esse material foi elaborado com muito carinho para que você possa absorver da melhor forma possível os conteúdos e se preparar para a sua 2ª fase, e deve ser utilizado de forma complementar junto com as aulas. Qualquer dúvida ficamos à disposição via plataforma “pergunte ao professor”. Lembre-se: o seu sonho também é o nosso! Bons estudos! Estamos com você até a sua aprovação! Com carinho, Equipe Ceisc ♥ 3 2ª FASE OAB | PENAL | 41º EXAME Direito Penal SUMÁRIO Princípio da insignificância 1.1. Introdução ......................................................................................................7 1.2. Requisitos .......................................................................................................8 1.2.1. Requisitos objetivos.....................................................................................8 1.2.2. Requisitos Subjetivos ..................................................................................9 1.3. Princípio da insignificância em espécie ........................................................11 1.4. Como pode cair ............................................................................................16 1.5. Exercícios para resolver após a aula............................................................17 Iter criminis 2.1. Conceito .......................................................................................................18 2.2. Cogitação .....................................................................................................19 2.3 Atos preparatórios .........................................................................................19 2.4. Execução ......................................................................................................20 2.5. Consumação ................................................................................................20 2.6. Como pode cair ............................................................................................21 Desistência voluntária e arrependimento eficaz 3.1. Introdução ....................................................................................................23 3.2. Desistência voluntária ..................................................................................23 3.3. Arrependimento eficaz ..................................................................................24 3.4. Requisitos .....................................................................................................25 3.5. Consequência ..............................................................................................27 3.6. Como pode cair ............................................................................................29 3.7. Exercícios para resolver após a aula:...........................................................30 4 Arrependimento posterior 4.1. Introdução ....................................................................................................31 4.2. Requisitos .....................................................................................................31 4.3. Critério para redução da pena ......................................................................32 4.4. Como pode cair ............................................................................................33 4.5. Reparação do dano ou restituição da coisa em situações específicas.........33 Crime Impossível 5.1. Introdução ....................................................................................................35 5.2. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio ........................................35 5.3. Crime impossível por impropriedade absoluta do objeto ..............................36 5.4. Como pode cair ............................................................................................37 5.5. Exercícios para resolver após a aula:...........................................................38 Erro de tipo 6.1. Erro de tipo essencial ...................................................................................39 6.1.1. Introdução .................................................................................................39 6.1.2. Erro de tipo essencial invencível, inevitável ou escusável ........................41 6.1.3. Erro de tipo essencial vencível, evitável ou inescusável ...........................42 6.1.4. Como pode cair .........................................................................................44 6.1.5. Exercícios para resolver após a aula: ........................................................45 6.2. Erro de tipo acidental....................................................................................46 6.2.1. Erro sobre o objeto ....................................................................................47 6.2.2. Erro sobre a pessoa ..................................................................................48 6.2.2.1. Consequência.........................................................................................48 6.2.2.2. Como pode cair ......................................................................................49 6.2.3.1. Introdução ..............................................................................................50 6.2.3.2. Aberratio ictus com unidade simples ......................................................51 6.2.3.3. Aberratio ictus com resultado duplo .......................................................52 6.2.3.4. Como pode cair ......................................................................................53 6.2.4. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) ................................53 6.2.4.1. Conceito .................................................................................................53 6.2.4.2. Espécies .................................................................................................54 6.2.4.3. Como pode cair ......................................................................................55 6.3. Exercícios para resolver após a aula:...........................................................56 5 6.4. Erro Provocado Por Terceiro ........................................................................57 Excludente de Ilicitude 7.1. Introdução ....................................................................................................59 7.2. Estado de necessidade ................................................................................59 7.2.1. Conceito ....................................................................................................59 7.2.2. Requisitos ..................................................................................................61 7.2.3. Causa de diminuição da pena ...................................................................64 7.2.4. Excesso .....................................................................................................64 7.3. Legítima defesa ............................................................................................64 7.3.1. Conceito ....................................................................................................64 7.3.2. Requisitos ..................................................................................................65 7.3.3. Excesso .....................................................................................................68 7.4. Estrito cumprimento do dever legal ..............................................................69 7.4.1. Conceito ....................................................................................................69 7.4.2. Destinatário da excludente ........................................................................70 7.4.3. Dever legal ................................................................................................70percepção da realidade (supõe ser seu o celular, já que idêntico), errou em relação ao elemento “alheio” do tipo que define o crime de furto. E trata-se de erro de tipo invencível, porque qualquer pessoa, nas circunstâncias, consideraria que era o seu aparelho celular que havia deixado carregando na tomada da sala de aula. Outro exemplo: Agente que se embrenha em mata fechada, distante de qual- quer centro urbano, com rara circulação de pessoas. Em dado momento, visualiza algo se movimentando atrás da intensa vegetação. Supondo ser um animal, efetua um disparo. Ao verificar o produto da caça, constata, para sua surpresa, que não matou um animal, mas uma pessoa, que, por infeliz coincidência, também caçava no local. Trata-se de erro de tipo, pois o caçador, por conta da falsa percepção da realidade (supôs ser um animal), errou em relação ao elemento “alguém” do tipo que define o crime de homicídio. E, trata-se de erro de tipo invencível, porque qualquer pessoa, nas circunstâncias, consideraria que a movimentação atrás da vegetação seria a de um animal, não sendo possível supor, nem mesmo para uma pessoa mais cautelosa e diligente, que, na verdade, tratava-se de uma pessoa. Da mesma forma, imaginemos um rapaz, imputável, que conhece uma menina no interior de uma boate onde era vedada a entrada de pessoas menores de 18 anos. Os 42 dois, após algumas trocas de carícias, resolvem se dirigir a um motel e ali, de forma consentida, o jovem mantém relações sexuais com a menina. Após, o rapaz descobre que a moça, na verdade, tinha apenas 13 anos e que somente conseguira entrar na casa noturna mediante apresentação de carteira de identidade falsa. Trata-se de erro de tipo invencível ou inevitável, pois qualquer pessoa nas circunstâncias também consideraria que a menina não era menor de 14 anos de idade. O erro de tipo essencial invencível exclui o dolo e a culpa. Há exclusão do dolo, porque desenvolveu a conduta sem consciência e vontade na produção do resultado; há exclusão da culpa, diante da ausência de previsibilidade objetiva. Assim, se a peça for resposta à acusação, o pedido será de absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP. Se for memoriais ou apelação, em crimes que não envolvem procedimento do júri, o pedi- do será de absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP. Tratando-se de procedimento do júri, ao final da primeira fase, como em memoriais ou recurso em sentido estrito contra a decisão de pronúncia, o pedido será de absolvição sumária, com base no art. 415, III, do CPP. 6.1.3. Erro de tipo essencial vencível, evitável ou inescusável É aquele erro em que uma pessoa mais cautelosa e prudente, nas mesmas circunstâncias, não incorreria. É um erro evitável, indesculpável ou inescusável, que uma pessoa, observando o dever de cuidado objetivo, teria evitado. Considerando o exemplo anterior, imaginemos que outro estudante, menos cauteloso, tivesse deixado seu celular carregando na tomada da sala de aula, saindo, após, para comprar café na cantina da escola. Quando retorna, retira um celular da tomada, que, na verdade, não era o seu aparelho, mas de sua colega, que havia colocado para carregar em substituição ao do estudante. Todavia, não obstante e troca dos aparelhos, o celular da colega, embora pa- recido, era de outro modelo e marca, diferença que uma pessoa mais prudente teria percebido. Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois o estudante, por conta da falsa percepção da realidade (supõe ser seu o celular), errou em relação ao elemento “alheio” do tipo que define o crime de furto. No entanto, nesse caso, trata-se erro de tipo vencível, plenamente evitável porque uma pessoa mais diligente teria, nas circunstâncias, percebido que não era seu o aparelho celular que se apossou. 43 Suponha-se, ainda, que o agente resolve caçar em mata próxima à zona urbana, comumente frequentada por outras pessoas, e, ao avistar algo se movimentando atrás da vegetação, supondo ser uma animal, efetua um disparo de arma de fogo. Todavia, na verdade, não se tratava de um animal, mas de uma pessoa que também estava caçando no local. Trata- se de erro de tipo, pois o caçador, por conta da falsa percepção da realidade (supôs ser um animal), errou em relação ao elemento “alguém” do tipo que define o crime de homicídio. E, nesse caso, trata-se de erro de tipo vencível, porque, nas circunstâncias, uma pessoa mais prudente adotaria as cautelas necessárias para se certificar que a movimentação atrás da vegetação seria a de um animal, e não de uma pessoa21. O erro vencível, evitável ou inescusável exclui o dolo, mas não a culpa. Se o erro pode- ria ter sido evitado com emprego de diligência mínima, pode-se responsabilizar o agente pelo crime culposo, desde que previsto em lei nessa modalidade. Assim, se o fato for punido na modalidade culposa, o agente responderá por crime culposo. Quando o tipo, entretanto, não admitir essa modalidade, a consequência será inexoravelmente a exclusão do crime, já que configurará fato atípico. No exemplo do caçador que praticava a caça em mata próxima à zona urbana, onde havia circulação de pessoas, o agente responderá pelo crime de homicídio culposo, já que se trata de erro de tipo vencível, que poderia ter sido evitado, se tivesse empregado um pouco mais de cautela. Isso porque o crime de homicídio prevê a modalidade culposa (CP, art. 121, § 3º). Se não existir previsão do delito na modalidade culposa, o fato praticado mediante erro evitável será atípico. Assim, considerando o exemplo do jovem estudante que não empregou a necessária diligência para identificar se o aparelho celular que se apossou era seu ou não, restará afastado o dolo, permanecendo, no entanto, a possibilidade de responsabilização pelo crime na modalidade culposa, já que se trata de erro de tipo vencível. Todavia, como não existe furto na modalidade culposa, haverá exclusão do crime, já que o fato é atípico. 21 Situação comumente apontada pela doutrina como exemplo de erro de tipo aconteceu em agosto de 2020 no interior de Minas Gerais, em que um caçador foi morto por amigo ao ser confundido com javali (https://g1.globo.com/mg/ sul-de-minas/noticia/2020/08/03). 44 6.1.4. Como pode cair O erro de tipo caiu como tese das peças dos Exames XXXIII, XXIII, XIV Pode cair em questões dissertativas e peça. Na peça, pode cair como tese absolutória ou, até mesmo, de desclassificação. Se for erro de tipo invencível/inevitável, ou, se vencível ou evitável, não existir o crime na modalidade culposa, o fato será atípico. Nesse caso: Na hipótese de erro de tipo vencível ou evitável, se existir previsão do delito na modalidade culposa, e o Ministério Público denunciar pelo crime na modalidade dolosa, pode- se, ao desenvolver a tese do erro de tipo evitável, desclassificar para crime culposo. Imaginemos que o Ministério Público tenha oferecido denúncia pelo crime de homicídio doloso. Com a tese do erro de tipo vencível ou evitável, o candidato deverá desclassificar para homicídio culposo, com a remessa do processo ao juízo competente, nos termos do artigo 419 do CPP. Nesse caso, em peça, será possível alegar, como tese principal, o erro de tipo invencível, buscando a absolvição sumária do réu (art. 415, III, do CPP), e, subsidiariamente, o erro de tipo vencível, buscando a desclassificação para homicídio culposo, nos termos do artigo 419 do CPP. Na peça, nesse caso, não há nada de tese contraditória. • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 45 6.1.5. Exercícios para resolver após a aula: 4) QUESTÃO 2 – VII EXAME– 2012-1 Larissa, senhora aposentada de 60 anos, estava na rodoviária de sua cidade quando foi abordada por um jovem simpático e bem vestido. O jovem pediu-lhe que levasse, para a cidade de destino, uma caixa de medicamentos para um primo, que padecia de grave enfermidade. Inocente e seguindo seus preceitos religiosos, a Sra. Larissa atende ao rapaz: pega a caixa, entra no ônibus e segue viagem. Chegando ao local da entrega, a senhora é abordada por policiais que, ao abrirem a caixa de remédios, verificam a existência de 250 gramas de cocaína em seu interior. Atualmente, Larissa está sendo processada pelo crime de tráfico de entorpecente, previsto no art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Considerando a situação anteriormente descrita e empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente, responda: qual é a tese defensiva aplicável à Larissa? (Valor: 1,25) 5) QUESTÃO 1 – V EXAME – 2011-2 Antônio, pai de um jovem hipossuficiente preso em flagrante delito, recebe de um serventuário do Poder Judiciário Estadual a informação de que Jorge, defensor público criminal com atribuição para representar o seu filho, solicitara a quantia de dois mil reais para defendê-lo adequadamente. Indignado, Antônio, sem averiguar a fundo a informação, mas confiando na palavra do serventuário, escreve um texto reproduzindo a acusação e o entrega ao juiz titular da vara criminal em que Jorge trabalha como defensor público. Ao tomar conhecimento do ocorrido, Jorge apresenta uma gravação em vídeo da entrevista que fizera com o filho de Antônio, na qual fica evidenciado que jamais solicitara qualquer quantia para defendê-lo, e representa criminalmente pelo fato. O Ministério Público oferece denúncia perante o Juizado Especial Criminal, atribuindo a Antônio o cometimento do crime de calúnia, praticado contra funcionário público em razão de suas funções, nada mencionando acerca dos benefícios previstos na Lei nº 9.099/95. Designada Audiência de Instrução e Julgamento, recebida a denúncia, ouvidas as testemunhas, interrogado o réu e apresentadas as alegações orais pelo Ministério Público, na qual pugnou pela condenação na forma inicial, o magistrado concede a palavra à Vossa Senhoria para apresentar alegações finais orais. Em relação à situação 46 anterior, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso: A) O Juizado Especial Criminal é competente para apreciar o fato em tela? (Valor: 0,30) B) Antônio faz jus a algum benefício da Lei nº 9.099/95? Em caso afirmativo, qual(is)? (Valor: 0,30) C) Antônio praticou crime? Em caso afirmativo, qual? Em caso negativo, por que razão? (Valor: 0,65) 6.2. Erro de tipo acidental É o erro que incide sobre dados acidentais do delito, sobre circunstâncias (qualificadoras, agravantes e causas de aumento de pena) e elementos irrelevantes da conduta típica. Não recai, portanto, sobre elementos essenciais do delito. Logo, no erro de tipo acidental não há exclusão do dolo ou culpa do agente. No erro de tipo acidental, o agente tem consciência do caráter criminoso da sua conduta, mas, por erro meramente secundário, o resultado produzido não sai exatamente conforme o desejado. Em outras palavras, há um crime, embora com resultado não exatamente conforme o desejado, por conta de um erro acidental. Por isso, o erro de tipo acidental não afasta a responsabilização penal do agente. São casos de erro acidental: a) erro sobre o objeto; b) erro sobre pessoa; c) erro na execução (aberratio ictus); d) resultado diverso do pretendido (aberratio criminis); e) erro sobre o nexo causal. 47 Erro de tipo acidental Erro sobre o objeto Erro sobre a pessoa Art. 20, §3º, CP Erro na execução (Aberratio ictus) Art. 73, CP Resultado diverso do pretendido (Aberratio Criminis) Art. 74, CP *Para todos verem: esquema. 6.2.1. Erro sobre o objeto Há erro sobre objeto quando o sujeito supõe que sua conduta recai sobre determinada coisa, mas, na realidade, incide sobre outra. É o caso de o sujeito subtrair farinha pensando ser açúcar. O erro é irrelevante, pois a tutela penal abrange a posse e a propriedade de qualquer coisa, pelo que o agente responde por furto. É o caso, ainda, de o sujeito desejar subtrair joia preciosa, mas apossar-se de objeto com valor reduzido, pois banhado a ouro. O erro é irrelevante, sendo meramente acidental, não influenciando a tipicidade da conduta do agente, pois subtraiu conscientemente coisa alheia móvel, errando, no entanto, quanto ao objeto. Todavia, boa parte da doutrina considera possível, verificando-se o caso concreto, a aplicação do princípio da insignificância, quando, por exemplo, o agente, primário e sem antecedentes criminais, subtrai a réplica de uma joia avaliada em R$ 10,00, supondo ser verdadeira e de elevado valor. 48 6.2.2. Erro sobre a pessoa Ocorre quando há erro de representação, em face do qual o sujeito atinge uma pessoa supondo tratar-se da que pretendia ofender. Pretende atingir certa pessoa, vindo a ofender outra inocente, pensando tratar-se da primeira. Nos termos do art. 20, § 3º, 2ª parte, reza o seguinte: “Não se consideram, neste caso” (erro sobre pessoa), “as condições ou qualidades da vítima, senão as de pessoa contra quem o agente queria praticar o crime”. Significa que no tocante ao crime cometido pelo sujeito, não devem ser considerados os dados subjetivos da pessoa diversa, mas sim os dados em relação à pessoa pretendida. No erro quanto à pessoa, a pessoa pretendida não corre risco de ser atingida, porque, em tese, não estava no local no momento dos fatos. Há um erro de representação, pois o agente se equivoca quanto à pessoa da vítima. Exemplo: Vinícius pretendia matar Dudu, camisa 10 e melhor jogador de futebol do time Energia, seu adversário no campeonato do bairro. No dia de um jogo do Energia, Vinicius vê, de costas, um jogador com a camisa 10 do time rival. Acreditando ser Dudu, efetua diversos disparos de arma de fogo, mas, na verdade, aquele que vestia a camisa 10 era Ricardo, adolescente que substituiria Dudu naquele jogo. Em virtude dos disparos, Ricardo faleceu. Note-se que Vinicius pretendia matar Dudu, mas, por erro na identificação, acabou matando Ricardo. Trata-se, pois, de erro sobre a pessoa. O erro quanto à pessoa é considerado tão secundário que o próprio legislador cuidou de assentar que, embora tenha atingido pessoa diversa (vítima efetiva), o agente responderá como se tivesse atingido a pessoa pretendida (vítima virtual). 6.2.2.1. Consequência Conforme se extrai do art. 20, § 3º, do CP, no contexto de erro quanto à pessoa, o agente não será isento de pena, respondendo pelo delito considerando-se as condições ou qualidades da vítima pretendida. Consideremos, por exemplo, a hipótese do filho desalmado, que, pretendendo matar seu pai, que contava com 55 anos de idade, realiza disparos de arma de fogo contra o homem que estava na varanda da residência do genitor, causando a morte deste. O filho 49 desalmado, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas vem a descobrir que matara um amigo de seu pai, que contava com 65 anos de idade, que, de costas, era com ele parecido. Nesse caso, nos termos do art. 20, § 3º, do CP, consideram-se as condições e qualidades da vítima pretendida. Logo, o filho desalmado responderá pelo crime de homicídio, com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista no art. 61, II, e, 1ª parte, do CP. Despreza-se, pois, as condições e características da pessoa atingida, ou seja, o agente não responderá pelo crime de homicídio doloso, com a causa de aumento de pena em razão da idade da vítima efetivamente atingida. Deoutro lado, consideremos que Wilson, pretendendo matar Tobias, de 70 anos de idade, amigo do seu pai, realiza disparos de arma de fogo contra o homem que estava na varanda da sua residência, causando a morte deste. Wilson, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas, logo depois, descobre que, na verdade, matara o seu próprio pai, que estava visitando o amigo, e, de costas, era com ele parecido. Nesse caso, o agente não responderá pelo crime de homicídio doloso, com a agravante por ter praticado crime contra o próprio pai, pois devem ser consideradas as condições e qualidades da vítima pretendida. E, como a vítima pretendida era Tobias, senhor de 70 anos de idade, Wilson responderá pelo crime de homicídio, com a causa de aumento de pena em razão da idade da vítima. Consideremos a hipótese da mãe que, sob o efeito do estado puerperal, logo após o parto, durante a madrugada, vai até o berçário de um hospital e, supondo ser o seu filho recém- nascido, sufoca um bebê até a morte. Após, verifica-se que, na verdade, a criança morta não era o seu filho, que se encontrava no berçário ao lado, mas um bebê diverso, tendo ela se equivocado, portanto, quanto à vítima desejada. Nesse caso, como desejava, sob influência do estado puerperal, matar o seu filho recém-nascido, despreza-se as condições e qualidades do bebê efetivamente morto, devendo ser consideradas às do próprio filho. Assim, a mãe deverá responder pelo crime de infanticídio (CP, art. 123), pois, embora tenha atingido bebê diverso, a responsabilização penal deve ser como se tivesse matado a vítima pretendida, ou seja, seu filho. 6.2.2.2. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça. 50 Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com o erro na execução, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese contraditória. Tanto da peça quanto das questões, o erro sobre a pessoa influenciará na correta tipificação da conduta do agente, sempre considerando as condições e qualidades da vítima pretendida. Assim, se o agente foi acusado de ter praticado crime de homicídio contra o pai, aplicando a agravante de ter matado ascendente, e o enunciado proporcionar informações que o agente pretendia praticar crime contra pessoa diversa, mas, por erro sobre a pessoa, já que estava escuro e a vítima pretendida apresentava a mesma estrutura física do pai. Nesse caso, deve-se afastar a agravante de praticar crime contra ascendente, já que se consideram as condições e qualidades de pessoa pretendida. Da mesma forma, é possível a desclassificação do crime para outro menos grave, como, por exemplo, a mãe ter sido denunciado pelo crime de homicídio qualificado, por ter matado um bebê asfixiado, tendo o enunciado proporcionado informações que ela estava sob influência do estado puerperal, e que pretendia matar o próprio filho. Nesse caso, o candidato deverá desenvolver a tese do erro sobre a pessoa, e postular que a ré seja pronunciada pelo crime de infanticídio (CP, art. 123), e não pelo crime de homicídio qualificado pela asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima (CP, art. 121, § 2º, III e IV). 6.2.3.1. Introdução Ocorre erro na execução quando o agente, pretendendo atingir uma pessoa, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, acaba atingindo pessoa diversa. O agente não erra quanto à identidade da pessoa, mas quanto ao uso dos meios de execução do delito. Com efeito, visualiza como certa a vítima pretendida, mas, por erro na pontaria, por exemplo, acaba atingindo pessoa diversa. A aberratio ictus pode ocorrer quando, por acidente, o agente, em vez de atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Nesse caso, suponhamos que o agente pretende matar Wilson, deixando na sua mesa de trabalho uma xícara de café contendo veneno. Todavia, quem toma o café é Pedro, que acaba falecendo. Pode ocorrer também quando, por erro nos meios de execução, o agente, em vez de atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Exemplo: agente pretendendo matar Wilson, visualiza a vítima, tendo-a como certa, faz a mira e efetua o disparo, mas, no entanto, erra o alvo pretendido, atingindo pessoa diversa, que se encontrava próxima ao local. 51 6.2.3.2. Aberratio ictus com unidade simples Ocorre a aberratio ictus com resultado único quando em face de erro na execução somente a pessoa diversa da pretendida é atingida, resultando lesão corporal ou morte. A consequência jurídica da conduta do agente se encontra retratada no artigo 73, 1ª parte do Código Penal, que faz expressa remissão ao artigo 20, § 3º, do Código Penal. Ou seja, na hipótese de erro na execução, deve-se observar o disposto no artigo 20, § 3º, do Código Penal, segundo o qual, embora tenha atingido pessoa diversa, o agente deve receber tratamento penal considerando-se as condições ou qualidades da pessoa pretendida (vítima virtual), desprezando-se as condições pessoais da vítima efetivamente atingida. É o caso do agente que, pretendendo matar o seu pai, efetua disparo de arma de fogo, mas, por erro na pontaria, acaba atingindo pessoa diversa, que se encontrava próximo ao seu genitor. Nesse caso, teríamos, em tese, tentativa de homicídio em relação ao pai, e homicídio culposo em relação à pessoa diversa. Todavia, como se trata de resultado único, não é possível imputar a prática de dois crimes. Por isso, nos termos do art. 73 c/c 20, § 3º, ambos do CP, deve-se considerar as condições ou qualidades da vítima pretendida. Assim, no caso, embora tenha atingido pessoa diversa, o agente responde como se tivesse atingido a pessoa pretendida, ou seja, como se tivesse matado o próprio pai. Logo, responderá somente pelo crime de homicídio doloso consumado, com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista no art. 61, II, e, 1a figura, do CP. Consideramos, ainda, a conduta de Wilson, que, após acirrada discussão com Pedro num evento comemorativo, efetuou disparo de arma de fogo contra a vítima pretendida. Contudo o projétil não atingiu Pedro e sim Maria, criança que estava correndo pelo salão da festa, matando-a. Nesse caso, Wilson deverá responder pelo crime de homicídio doloso consumado, sem a agravante de ter praticado crime contra criança. Isso porque devem ser consideradas as condições e qualidades da vítima pretendida (Pedro) e não da pessoa efetivamente atingida (a criança Maria). Imaginemos, por exemplo, que Wilson, pretendendo matar a sua esposa, efetua disparos de arma de fogo em sua direção, mas, por erro na pontaria, acaba atingindo Pedro, que reside na casa em frente a do casal, causando-lhe a morte. Nesse caso, Wilson deverá responder pelo crime de homicídio doloso consumado, com a qualificadora do feminicídio (CP, art. 121, § 2o, VI), uma vez que, embora tenha acertado Pedro, o tratamento penal deve considerar as condições e qualidades da vítima pretendida (esposa). 52 Em que pese constar no art. 73 do CP que o agente responde como se tivesse praticado crime contra a pessoa pretendida, essa regra também alcança eventual causa excludente de ilicitude. Assim, se, ao repelir agressão injusta, o agente, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, atinge terceiro inocente, o tratamento penal deve levar em conta as condições ou qualidades da pessoa pretendida, que, no caso, seria o autor da agressão injusta. Logo, estará amparado pela excludente de ilicitude legítima defesa. Imaginemos que Wilson, agindo em legítima defesa contra agressão injusta praticada por José, atinja, por erro na execução, Maria, terceira inocente que estava passando pelo local no momento dos fatos, causando-lhe lesões graves. Nessa situação hipotética, Wilson não será responsabilizado criminalmente pelas lesões corporais graves provocadas em Maria, pois estará abarcadopela legítima defesa, como se tivesse atingido o agressor injusto. 6.2.3.3. Aberratio ictus com resultado duplo A aberratio ictus com resultado duplo ocorre quando o agente, além de atingir a vítima pretendida, atinge também pessoa diversa. Nesse caso, com uma única ação, o agente produz mais de um resultado: atinge a pessoa pretendida e também pessoa diversa. Por essa razão, o art. 73, 2ª parte, do CP faz expressa remissão ao art. 70 do CP, devendo ser aplicada a regra do concurso formal de crimes. Exemplo: Ao pretender matar Wilson, o agente efetua um disparo, que, além de atingir Wilson, atinge também Pedro, que se encontrava atrás da vítima pretendida. Por conta da potência da arma utilizada, o disparo efetuado causou a morte da pessoa pretendida e também a da pessoa diversa. Em tese, teríamos homicídio doloso em relação à vítima pretendida e homicídio culposo em relação à pessoa diversa. Nesse caso, nos termos do que dispõe o artigo 73, 2ª parte, do Código Penal, deve-se aplicar a regra do artigo 70 do Código Penal, segundo o qual, se o agente com uma única ação praticar dois ou mais crimes, deve-se considerar a pena do crime mais grave, aumentando-a de 1/6 (um sexto) até a ½ (metade). 53 Erro na execução Pessoa pretendida Acidente ou erro no uso dos meios de execução Pessoa diversa Com resultado único Consideram-se Condições ou qualidades da pessoa pretendida Com resultado duplo Concurso formal Art. 70 do CP *Para todos verem: esquema. 6.2.3.4. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça. Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com o erro sobre a pessoa, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese contraditória. A tese do erro na execução influenciará na correta tipificação da conduta do agente, sempre considerando as condições e qualidades da pessoa pretendida. Assim, se o agente pretender matar uma pessoa, erra o disparo e acerta a própria esposa, e for denunciado pelo homicídio qualificado pelo feminicídio (CP, art. 121, § 2º, VI), o candidato, desenvolvendo a tese do erro na execução, de- verá buscar afastar a qualificadora. Da mesma forma, se a pessoa pretendida for o agressor injusto, e, para se defender o agente teve de fazer uso de arma de fogo, mas, por acidente, atingiu pessoa diversa, o candidato deverá adotar a tese da legítima defesa, considerando as condições e qualidades da pessoa pretendida (agressor injusto). Nesse caso, se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, I, do CPP; se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, VI, do CPP; se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, IV, do CPP. 6.2.4. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) 6.2.4.1. Conceito A aberratio criminis também resulta de acidente ou erro na execução do crime, mas em contexto distinto da aberratio ictus. 54 Na aberratio criminis, o agente pretende ofender um determinado bem jurídico, mas, por acidente ou erro na execução, acaba produzindo resultado diverso do pretendido. Na verdade, o agente pretendia praticar um crime, mas acaba praticando crime diverso do pretendido. Por essa razão, diz-se que na aberratio criminis há desvio do crime. Enquanto na aberratio ictus, a relação é entre “pessoa x pessoa”, ou seja, o agente, pretendendo atingir uma pessoa, acaba ofendendo pessoa diversa (ou ambas), na aberratio criminis, o agente quer atingir um bem jurídico e ofende outro bem jurídico, produzindo resultado diverso do pretendido. Exemplo: Ao pretender praticar o crime de dano (CP, art. 163), o agente atira uma pedra contra um carro. Todavia, por erro na pontaria, a pedra acabou atingindo uma pessoa que se encontrava próxima ao local. Note-se que o agente pretendia produzir um resultado (dano no veículo), mas acabou produzindo um resultado diverso do pretendido (lesão corporal). 6.2.4.2. Espécies a) Com unidade simples ou resultado único: Na aberratio criminis com unidade simples, o agente somente atinge o bem jurídico diverso do pretendido. Ou seja, o agente quer atingir uma coisa, mas, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, ofende somente bem jurídico diverso. Nesse caso, conforme a primeira parte do art. 74 do CP, o agente responderá pelo resultado diverso do pretendido a título de culpa, se o fato é previsto como crime culposo. Assim, se o agente, pretendendo atingir o veículo do desafeto, com o intuito de praticar o crime dano (CP, art. 163), por erro na execução, não atinge o objeto, mas somente uma pessoa que se encontrava próxima ao local. No caso, não responderá por tentativa de dano e o crime culposo, mas somente por um crime: lesão corporal culposa (CP, art. 129, § 6º), se resultar lesão corporal; ou por homicídio culposo (CP, art. 121, § 3º, do CP), se resultar morte. Cumpre ressaltar, por pertinente, que, se o resultado previsto como crime culposo for menos grave ou se o crime não prever modalidade culposa, não se aplica o disposto no art. 74 do CP. Assim, se o agente efetua disparos de arma para matar a vítima, mas não o acerta e quebra a vidraça de uma casa ou acertar um carro, deve-se desprezar a hipótese do art. 74 do CP, respondendo por tentativa de homicídio. Primeiro, porque o crime de tentativa de homicídio é mais grave do que o delito de dano; segundo, porque não há previsão legal de dano culposo. 55 b) Com unidade complexa ou resultado duplo Na aberratio criminis com resultado duplo, o agente, além de praticar o crime pretendido, também acaba produzindo um resultado diverso do pretendido, ou seja, com uma ação ou omissão, acaba provocando dois resultados. Nesse caso, como expressamente prevê a parte final do art. 74 do CP, aplica-se a regra do concurso formal de crimes (CP, art. 70), considerando-se a pena do crime mais grave aumentada de 1/6 até 1/2, de acordo com o número de resultados diversos produzidos. Certo dia, imaginemos que o agente, com raiva do vizinho, resolva quebrar a janela da residência dele. Para tanto, espera chegar a hora adequada e, supondo não haver ninguém na residência, o agente arremessa com força, na direção da casa do vizinho, um enorme tijolo, que, além de quebrar a vidraça, atinge também a nuca dele. O vizinho falece instantaneamente. Nesse caso, o agente deverá responder por homicídio culposo em concurso formal com o crime de dano (art. 121, § 3º, e art. 163, na forma do art. 70, todos do CP), considerando-se a pena aplicada ao crime de homicídio culposo, já que mais grave, aumentada de 1/6. 6.2.4.3. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça. Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com erro na execução, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese contraditória. A tese do resultado diverso do pretendido influenciará na correta tipificação da conduta do agente. Se, por exemplo, na hipótese de resultado único, o agente, ao invés de atingir um determinado bem, atinge, por acidente, uma pessoa, não poderá responder por dois crimes: tentativa de dano e lesão corporal culposa. Nesse caso, responderá somente pelo crime de lesão corporal culposa. 56 6.3. Exercícios para resolver após a aula: 6) QUESTÃO 2 – OAB FGV – X EXAME – 2013-11 Maria, mulher solteira de 40 anos, mora no Bairro Paciência, na cidade Esperança. Por conta de seu comportamento, sempre foi alvo de comentários maldosos dos vizinhos; alguns até chegavam a afirmar que ela tinha “cara de quem cometeu crime”. Não obstante tais comentários, nunca houve prova de qualquer das histórias contadas, mas o fato é que Maria é conhecida na localidade onde mora por ter má índole, já que sempre arrumabrigas e inimizades. Certo dia, com raiva de sua vizinha Josefa, Maria resolve quebrar a janela da residência desta. Para tanto, espera chegar a hora em que sabia que Josefa não estaria em casa e, após olhar em volta para ter certeza de que ninguém a observava, arremessa com força, na direção da casa da vizinha, um enorme tijolo. Ocorre que Josefa, naquele dia, não havia saído de casa e o tijolo, após quebrar a vidraça, atinge também sua nuca. Josefa falece 57 instantaneamente. Nesse sentido, tendo por base apenas as informações descritas no enunciado, responda justificadamente: É correto afirmar que Maria deve responder por homicídio doloso consumado? (Valor: 1,25). 6.4. Erro Provocado Por Terceiro O erro provocado por terceiro está previsto no art. 20, § 2º, do CP, segundo o qual somente o terceiro que determina o erro responderá pelo delito. Ao contrário do erro de tipo essencial, em que o agente incide no erro sobre os elementos constitutivos do tipo legal por conta própria, no erro provocado por terceiro o agente é induzido por alguém a ter uma falsa percepção da realidade em relação aos elementos constitutivos do tipo legal. Há a figura do agente provocador e do agente provocado. O agente provocador induz o provocado a praticar determinada conduta, razão pela qual se diz que o erro não foi espontâneo, mas em decorrência da atuação de uma terceira pessoa. O terceiro provocador responde pelo delito na condição de autor mediato, podendo a provocação ser dolosa ou culposa. O terceiro provocado figura como autor imediato, podendo sua responsabilidade penal ser excluída, conforme a escusabilidade ou não do erro que incorreu. Há provocação dolosa quando o erro é preordenado pelo terceiro, que conscientemente induz o sujeito a incidir em erro. Neste caso, o terceiro provocador responde pelo crime a título de dolo. Existe determinação (ou provocação) culposa quando o terceiro provocador age com imprudência, negligência ou imperícia. O terceiro provocador responderá a título de culpa pelo delito decorrente da conduta do provocado. O tratamento penal em relação ao agente provocado (autor imediato) vai depender da escusabilidade ou não do erro ao qual foi induzido. Se o erro provocado pelo terceiro for escusável ou inevitável, haverá exclusão do dolo e da culpa, não incidindo, portanto, qualquer responsabilização criminal em relação ao terceiro provocado. Se o erro provocado pelo terceiro for inescusável ou evitável, haverá exclusão do dolo, mas o terceiro provocado responderá pelo crime na modalidade culposa, desde que prevista em lei. Exemplo: Wilson havia alugado um apartamento parcialmente mobiliado e, após o encerramento do contrato de locação, chamou Pedro, seu amigo, que nunca havia estado no imóvel, para ajudá-lo com a retirada de seus pertences. Durante a mudança, Wilson garantiu a 58 Pedro que a televisão que se encontrava na sala era de sua propriedade e deveria ser retirada, embora soubesse que o aparelho pertencia ao proprietário do imóvel. Ao perceber a situação, o proprietário do imóvel registrou boletim de ocorrência contra Wesley e Sidney. Nesse caso, apenas Wilson responderá por furto, pois Pedro agiu em erro de tipo escusável provocado por terceiro, sendo atípica sua conduta. Imaginemos outra situação. “A”, sem verificar se a arma se encontra carregada ou não, entrega o artefato a “B”, afirmando que está sem munição, induzindo-o a acionar o gatilho. Sem maiores cautelas, “B” acionado o gatilho, atingindo “C”, matando-o. O agente provocador “A” responde por homicídio culposo, na condição de autor mediato. Em relação a “B”, agente provocado, verificando-se que se trata de erro inescusável ou evitável, haverá a exclusão do dolo, mas a responsabilização pelo crime de homicídio culposo, já que há previsão legal do crime de homicídio na modalidade culposa. 59 Excludente de Ilicitude Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 7.1. Introdução Quando o agente pratica um fato típico, presume-se, a princípio, que também é ilícito, ou seja, contrário ao direito. Todavia, podem incidir causas que retiram a ilicitude do fato, ou seja, o fato continua sendo típico, mas, diante da incidência de uma causa de exclusão, passa a ser lícito, com a consequente exclusão do crime. As causas excludentes de ilicitude estão previstas no art. 23 do CP: *Para todos verem: esquema. 7.2. Estado de necessidade 7.2.1. Conceito Nos termos do art. 24 do CP, estado de necessidade é a causa de exclusão da ilicitude do fato praticado por quem, não tendo o dever legal de enfrentar o perigo atual, que não provocou por sua vontade, sacrifica um bem jurídico alheio para salvar bem próprio ou de terceiros, cuja perda não era razoável exigir. Excludentes de ilicitude Estado de necessidade PERIGO Legítima defesa AGRESSÃO INJUSTA Exercício regular do direito Estrito cumprimento do dever legal 60 Tanto o bem sacrificado quanto o bem protegido são legítimos. Há, pois, um conflito entre interesses lícitos. Todavia, diante da situação de perigo, o legislador considera razoável sacrificar o bem jurídico de menor valor, para preservar aquele de maior valor. Se, por exemplo, o condutor do veículo, com a finalidade de evitar a colisão com um pedestre, e, assim, preservar a vida humana, joga seu veículo contra outro que estava estacionado, causando danos, estará abarcado pelo estado de necessidade. Há um conflito de bens jurídicos legítimos: vida humana (bem protegido) e patrimônio alheio (bem sacrificado). Todavia, não era razoável exigir-se o sacrifício da vida humana (bem de maior valor), para preservar o patrimônio alheio (bem de menor valor). Por isso, embora seja típico, já que sua conduta se adéqua ao disposto no art. 163 do CP, o fato não será ilícito, pois presente a excludente consistente no estado de necessidade. Convém destacar alguns exemplos que ilustram bem o contexto de incidência do estado de necessidade: Wilson ateou fogo em seu apartamento para receber o seguro correspondente. No entanto, não conseguiu sair do imóvel pelas portas e tentou escapar pela janela, com a utilização de uma corda. Todavia, Laura, funcionária da residência, percebendo a situação de perigo, empurra violentamente Wilson para o lado, apossa-se da corda e consegue sair do local. Laura agiu em estado de necessidade, em decorrência de um perigo provocado por ação humana. Fabiano e Fernando disputam o único colete salva-vidas durante o naufrágio de um barco, provocado por uma tempestade. Fabiano, para alcançar o único colete salva-vidas que restou na embarcação, agride violentamente Fernando, causando-lhe lesões corporais graves. Fabiano agiu em estado de necessidade, diante da situação de perigo decorrente de evento da natureza. Durante um passeio pela fazenda da família, Maria caminhava com seu filho, de 5 anos de idade, quando um touro bravo surgiu e passou a atacar a criança. Diante da situação de risco para a integridade física do filho, Maria pegou um machado que estava no chão e passou a golpear o animal, vindo a causar sua morte. Nesse caso, Maria agiu em estado de necessidade, diante do perigo decorrente do comportamento de um animal. Sávio e Felipe estavam em uma embarcação no rio Camaquã, na cidade de São Luiz Gonzaga/RS. Sem qualquer motivo aparente, a pequena embarcação perdeu a estabilidade e começou a virar. Sávio, que não sabia nadar, como única forma de evitar um naufrágio, 61 empurrou Felipe para fora da embarcação, acarretando sua morte por afogamento. Nesse caso, embora seja típico, o fato não será ilícito, já que Sávio agiu em estado de necessidade. Imaginemos, por exemplo, a hipótese de uma mulher que reside numa humilde casa com seu filho de 2 anos de idade. Desempregada e sem ter familiares por perto e nem outros conhecidos, conseguia alimentarseu filho a partir de ajudas recebidas de desconhecidos. Em determinado dia, não mais aguentando a situação e vendo o filho chorar e ficar doente em razão da ausência de alimentação, após não conseguir emprego ou ajuda, a aflita mãe decidiu ingressar em um grande supermercado da região, e subtraiu dois pacotes de macarrão, com a intenção de preparar o alimento para dar ao seu filho. Trata-se, sem dúvida, de fato formalmente típico22, mas praticado em evidente situação de perigo atual decorrente da debilidade da saúde do filho pela falta de alimento. Trata-se, na hipótese, de furto famélico, causa de exclusão de ilicitude pelo estado de necessidade. 7.2.2. Requisitos *Para todos verem: Esquema. Estar em perigo atual Ameaçar a direito próprio ou alheio Estar em situação de perigo não causada por sua vontade Não existir dever legal de enfrentar o perigo Não poder evitar comportamento lesivo Não ser exigível sacrifício do interesse ameaçado Ter conhecimento da situação do fato justificante a) Situação de perigo atual 22 Pode-se, ainda, cogitar da incidência do princípio da insignificância, tornando o fato materialmente atípico. 62 Para incidir o estado de necessidade, o fato típico praticado pelo agente deve ser para se salvar de um perigo atual, provocado por ação humana, evento da natureza ou comportamento instintivo de um animal. Se já ocorreu ou se é esperado no futuro, não há estado de necessidade. b) ameaça a direito próprio ou alheio: estado de necessidade próprio e de terceiro A expressão “direito” deve ser entendida em sentido amplo, abrangendo qualquer bem jurídico, como a vida, a integridade física, a honra, a liberdade e o patrimônio. A intervenção necessária pode ocorrer para salvar um bem jurídico do sujeito ou de terceiros (estado de necessidade próprio e estado de necessidade de terceiro). No último caso, não se exige nenhuma relação jurídica específica entre o sujeito que age em estado de necessidade e o terceiro (não se exige relação de parentesco, amizade nem subordinação entre o agente e o terceiro necessitado). c) situação de perigo não causada voluntariamente pelo sujeito O CP prevê que só pode alegar estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual direito próprio ou alheio “que não provocou por sua vontade”. A razão é lógica e coerente: a ordem jurídica não pode homologar o sacrifício de um direito, favorecendo ou beneficiando quem já atuou contra ele ao praticar um ato ilícito e criar perigo. Exemplo: Tício mora no 3º andar de um prédio de sua propriedade. Com ele, reside um colega de escritório. Com a intenção de receber seguro, Tício ateia fogo no edifício. O incêndio, porém, assume rapidamente proporções inesperadas e bloqueia praticamente todas as saídas. Nesse momento, ao perceber que o colega usa uma corda para descer pela janela, mata o companheiro para pegar a corda e salvar-se. O homicídio do companheiro de escritório não encontra no estado de necessidade causa de justificação, uma vez que Tício criara o perigo que ensejou a situação aflitiva. d) inexistência de dever legal de enfrentar o perigo Determina o art. 24, § 1º, que “Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo”. Assim, é indispensável que o sujeito não tenha, em face 63 das circunstâncias em que se conduz, o dever imposto por lei, de sofrer o risco de sacrificar o próprio interesse jurídico. Sempre que a lei impuser ao agente o dever de enfrentar o perigo, deve ele tentar salvar o bem ameaçado sem destruir qualquer outro, mesmo que para isso tenha de correr os riscos inerentes à sua função. Exemplo: o bombeiro não pode deixar de subir a um edifício incendiado invocando a possibilidade de sofrer queimaduras. e) inevitabilidade do comportamento lesivo Ao definir o estado de necessidade, o CP, exige, como pressuposto, a inexistência de um outro meio de evitar o perigo, isto é, quando o dano produzido pelo agente for inevitável. Significa que o agente não tem outro meio de evitar o perigo ao bem jurídico próprio ou de terceiro que não praticar o fato necessitado. É inevitável a realização do comportamento lesivo em face da inevitabilidade do perigo de forma diversa. Se o perigo pode ser afastado por uma conduta menos lesiva, a prática do comportamento mais lesivo não configura a excludente. Exemplo: alguém se vê atacado por um cachorro feroz, embora possa se salvar fechando um portão, mata o cão. Não pode alegar estado de necessidade, porquanto havia outra forma de impedir a lesão ao seu bem jurídico (fechando o portão). f) inexigibilidade de sacrifício do interesse ameaçado A ponderação de bens está insculpida no final do art. 24, ao admitir o estado de necessidade, para proteger direito próprio ou alheio “cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”. A admissibilidade do estado de necessidade é orientada pelo princípio da razoabilidade. É o requisito da proporcionalidade entre a gravidade do perigo que ameaça o bem jurídico do agente ou alheio e a gravidade da lesão causada pelo fato necessitado. Não se admite, por exemplo, a prática de homicídio para impedir a lesão de um bem patrimonial de ínfimo valor. Somente se admite a invocação da excludente do estado de necessidade, quando para salvar bem de maior ou igual valor ao do sacrificado. Há ponderação de bens. 64 7.2.3. Causa de diminuição da pena Nos termos do art. 24, § 2º, do CP, “embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços”. Se a destruição do bem jurídico não era razoável, falta um dos requisitos do estado de necessidade, não sendo caso, portanto, de exclusão da ilicitude, respondendo o agente pelo delito, podendo, ao final, ter a pena diminuída de um a dois terços. Não é razoável admitir o sacrifício de uma vida humana para salvar um objeto de elevado valor sentimental ou patrimonial. Nesse caso, o agente responderá pelo crime de homicídio, podendo-se cogitar a incidência da causa de diminuição da pena de um a dois terços. Exemplo: Imaginemos que, num incêndio, o agente opte por ofender a integridade física de uma pessoa (praticar lesão corporal grave), para salvar seu computador que contém importantes arquivos relacionados à sua empresa. Note que não há estado de necessidade, pois, para salvar bem de menor valor, sacrificou outro de maior valor. No caso, o agente responderá pelo delito de lesão corporal grave, podendo-se cogitar a incidência da causa de diminuição da pena prevista no artigo 24, § 2º, do CP. 7.2.4. Excesso Dá-se o nome de excesso no estado de necessidade à desnecessária intensificação da conduta inicialmente justificada. No comportamento com que pretende defender o bem jurídico em situação de perigo o agente vai além dos limites da proteção razoável. Tratando-se de excesso, nota-se que o agente se encontrava em situação de necessidade, exorbitando no uso dos meios de execução postos em ação para a defesa do bem. O excesso pode ser doloso ou não intencional (culposo). Há excesso doloso quando o agente supera conscientemente os limites legais. Neste caso, responde a título de dolo pelo fato constitutivo do excesso (CP, art. 23, par. ún.) 7.3. Legítima defesa 7.3.1. Conceito Nos termos do art. 25 do CP, “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”. 65 É uma causa de exclusão da ilicitude que consiste em repelir injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, usando moderadamente dos meios necessários. A Lei 13.964/2019 introduziu o parágrafo único ao artigo 25 do Código Penal, segundo o qual Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítimadefesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes.” Em que pese já se enquadrar no “caput” do artigo 25 do Código Penal, o legislador optou por especificar a conduta do agente de segurança que se depara com agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. É o caso, por exemplo, do agente de segurança efetuar disparos contra o sujeito que, durante a prática de roubo a banco, mantém vítima refém. Conforme entendimento fixado no ADPF 779, a tese da legítima defesa da honra é inconstitucional, por contrariar os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF), da proteção à vida e da igualdade de gênero (art. 5º, caput, da CF); 7.3.2. Requisitos a) agressão injusta, atual ou iminente Exige-se, para caracterizar a legítima defesa, a existência de uma agressão injusta, assim considerada como sendo aquela não protegida por uma norma jurídica, isto é, decorrente de conduta não autorizada pelo ordenamento jurídico. A agressão injusta deve decorrer de ação ou omissão humana. Não há legítima defesa contra-ataque instintivo e espontâneo de um animal, porque ausente consciência e vontade inerente à agressão. Nesse caso, como vimos, o agente estará diante de uma situação de perigo, ensejando a incidência do estado de necessidade. Convém registrar, no entanto, que, se o agente atiça um animal, cão feroz, por exemplo, a atacar a vítima, estaremos diante de uma agressão injusta, não em decorrência do comportamento do animal, mas pela conduta do agente instigador, que usou o cão como verdadeira arma ou instrumento de ataque. Nesse caso, tratando-se de agressão injusta humana (agente que atiçou o animal a atacar), a vítima poderá praticar um fato típico, que não será ilícito, porque estará amparada pela legítima defesa. 66 Atual é a agressão que está acontecendo, ou seja, quando o efetivo ataque já está em curso no momento da reação defensiva. Exemplo: a vítima reage enquanto está sendo se desenvolvendo o ataque com uma faca. Iminente é a que está prestes a ocorrer. Nesse caso, a agressão ainda não teve início, mas poderá ocorrer em momento imediato. Exemplo do agressor que anuncia o ataque, e parte, munido de uma faca, em direção à vítima para matá-la, que reage desferindo um disparo de arma de fogo contra o agressor, fazendo cessar a agressão. A agressão que se anuncia para o futuro (remota) e a agressão passada (pretérita) não autoriza a legítima defesa. De fato, não se admite legítima defesa contra suposta agressão que talvez nem sequer se concretize, nem tampouco em relação à agressão pretérita, pois caracterizaria vingança. Só as pessoas humanas, portanto, praticam agressões. O ataque de animais não enseja a legítima defesa, mas sim estado de necessidade, pois a expressão “agressão” indica conduta humana. Agora, se o agente instiga um cão feroz a atacar a vítima, é permitida a legítima defesa, pois a conduta se trata de uma agressão humana praticada por meio de um instrumento que é o animal bravo. b) agressão a direito próprio ou de terceiro a) legítima defesa própria: ocorre quando o autor da repulsa é o próprio titular do bem jurídico atacado ou ameaçado. b) legítima defesa de terceiro: quando a agressão é voltada a atingir bem jurídico alheio. Todo e qualquer bem ou interesse, seja próprio ou de terceiros, pode ser objeto de defesa. Trata-se de um critério de solidariedade permitir a legítima defesa de bem jurídico alheio. Não há necessidade que exista vínculo de parentesco ou amizade entre a vítima de uma agressão injusta e aquele que agiu para defendê-la, podendo ser, inclusive, pessoa desconhecida. 67 Imaginemos que Pedro esteja caminhando por uma rua com iluminação precária, relativamente escura, quando se depara com a situação de uma pessoa estar agredindo uma moça desconhecida, com a intenção de abusá-la sexualmente. Verificando que a jovem estava em risco e não havendo outra forma de protegê-la, pega um pedaço de madeira que estava no chão e desfere violento golpe contra o agressor, causando-lhe lesão corporal de natureza grave. Trata-se de fato típico, mas não ilícito, pois Pedro agiu em legítima defesa de terceiro. c) Reação com os meios necessários A legítima defesa não constitui salvo-conduto para excessos ou atos de execução. Não tem por objeto penalizar o agressor, mas repelir injusta agressão contra um determinado bem jurídico. Dito de outro modo, a legítima defesa consiste num mecanismo jurídico entregue ao agredido para fazer cessar uma agressão injusta. Uma vez cessada a agressão, cessa a situação que legitima a defesa. Por isso, o agredido deve eleger, dentre aqueles que tem à sua disposição, o meio necessário e menos lesivo capaz de repelir e fazer cessar a injusta agressão. Logo, os meios necessários são aqueles eficazes e suficientes para repelir a injusta agressão que está em desenvolvimento ou prestes a acontecer, a direito próprio ou de outrem. Não há uma regra absoluta, rígida, para se medir o acerto da escolha do meio necessário para o exercício da defesa. Uma arma de fogo pode constituir meio necessário para repelir um determinado ataque, mas também pode revelar excesso em relação ao contexto que envolve outra agressão. Tudo dependerá das circunstâncias do caso concreto. O melhor critério é o da razoabilidade e da proporcionalidade. Sempre considerando o caso concreto, verificar se o meio empregado é diretamente proporcional à intensidade do ataque. Se proporcional, estaremos diante da legítima defesa, desde que preenchidos os demais requisitos; se desproporcional à intensidade do ataque, estaremos diante do excesso, que pode ser doloso ou culposo, afastando a legitimidade da defesa. Assim, se estiver sendo agredido por alguém munido de facão, a vítima, tendo à sua disposição uma faca e um revólver, poderá eleger a arma de fogo para repelir e fazer cessar a injusta agressão. Isso porque, diante do caso concreto, a arma de fogo é um meio diretamente proporcional à intensidade do ataque. 68 Agora, se estiver sendo agredido por alguém desarmado, a vítima, tendo à sua disposição uma faca e um revólver, deverá eleger a faca para repelir e fazer cessar a injusta agressão. Isso porque, diante do caso concreto, a faca seria o meio diretamente proporcional à intensidade do ataque. d) Uso moderado dos meios necessários Após eleger o meio necessário, o agredido deverá fazer uso moderado desses meios, assim compreendido como sendo o suficiente para fazer cessar a agressão injusta. Trata-se do emprego dos meios necessários dentro do limite do razoável para conter a agressão. A proporção entre o ataque e a defesa empreendida deve ser verificada no caso concreto, considerando-se a natureza, a gravidade da agressão e a extensão da reação. Assim como na escolha do meio necessário, a moderação do uso desse meio também deve observar a proporcionalidade entre a reação e a intensidade do ataque. Assim, se a vítima está sendo atacada pelo agente munido de uma faca, poderá se utilizar de uma arma de fogo para repelir a injusta agressão (eis o meio necessário), mas deverá agir com moderação. Nesse caso, se um disparo foi suficiente para fazer cessar a agressão, o ofendido não poderá efetuar o segundo disparo, sob pena de incorrer em excesso e responder pelo resultado produzido pela desproporção da defesa em relação ao ataque. Da mesma forma, enquanto estiver em curso a injusta agressão, a vítima poderá exercer legitimamente sua defesa mediante reiteração de golpes com pedaço de madeira contra o agressor até fazer cessar o ataque. Cessada a agressão, superada estará a situação de legítima defesa. Se a vítima continuar reagindo, passará à qualidade de agressora diante do excesso no uso do meio necessário para se defender, devendo,por isso, responder pelo excesso doloso ou culposo, conforme o caso. 7.3.3. Excesso Há excesso quando o agente extrapola os limites da legítima defesa, intensificando a reação, dolosa ou culposamente, elegendo meio além do necessário ou fazendo uso imoderado dos meios necessários para repelir a injusta agressão. Nesse caso, embora em um primeiro momento o agente estivesse sob o amparo da legítima defesa, presente o excesso, os requisitos da excludente de ilicitude deixarão de existir, devendo o agente responder pelas desnecessárias lesões causadas ao bem jurídico ofendido. 69 O excesso pode ser doloso ou culposo. Há excesso doloso quando o sujeito, de forma consciente, extrapola o necessário para repelir a agressão, valendo-se de meios mais lesivos ou usando, de forma imoderada, os meios que elegeu para reagir à injusta agressão. Assim, quando o agente, para se defender de um tapa, efetua disparos de arma de fogo contra o agressor, ou, ainda, quando, após fazer cessar a agressão, o agente segue em diante na reação até matar o então agressor. Constatado o excesso doloso, o agente responde pelo resultado dolosamente. No caso, o agente, que num primeiro momento estava em legítima defesa, responderá pelo crime de homicídio doloso. No excesso culposo, não há intenção em extrapolar os limites da repulsa à agressão injusta, supondo o agente ainda estar sofrendo a agressão, que, na verdade, havia cessado. Nesse caso, o agente responderá pelo resultado produzido a título de culpa. 7.4. Estrito cumprimento do dever legal 7.4.1. Conceito Ao contrário do estado de necessidade (CP, art. 24) e da legítima defesa (CP, art. 25), o Código Penal não dispôs sobre o conceito e requisitos do estrito cumprimento do dever legal, relegando à doutrina e jurisprudência estabelecer as características dessa causa excludente de ilicitude. Estará ao abrigo do estrito cumprimento do dever legal o agente que praticar um fato típico em face do cumprimento de um dever, observando rigorosamente os limites impostos pela lei, de natureza penal ou não. Exemplo: Policial que prende o agente em flagrante ou mediante cumprimento de mandado de prisão, embora atinja o direito de liberdade e até mesmo a integridade corporal do preso, não comete crime algum, pois, embora seja típico, o fato não será ilícito, porque praticado dentro do estrito cumprimento de um dever imposto pela lei, como é o caso do flagrante obrigatório (CPP, art. 301). Age em estrito cumprimento do dever legal policial rodoviário federal que, aplicando técnicas de defesa policial, causa escoriações em um infrator que resiste à prisão. 70 Imaginemos que, durante operação em rodovia federal, uma equipe da Polícia Rodoviária Federal abordou o condutor de um veículo, solicitando a apresentação de sua carteira nacional de habilitação (CNH) e do certificado de registro e licenciamento de veículo (CRLV), verificando que se trata de veículo clonado. Ao solicitar que saísse do veículo, o condutor se negou, razão pela qual o policial usou de força necessária para fazê-lo cumprir a ordem. A conduta do policial está amparada pelo estrito cumprimento do dever legal. Também age em estrito cumprimento de um dever legal o oficial de justiça que cumpre mandado de reintegração de posse de bem imóvel de propriedade de banco público, com ordem de arrombamento, desocupação e imissão de posse. 7.4.2. Destinatário da excludente A excludente é destinada precipuamente aos agentes que exercem atividade pública, tal como funcionário público ou agente público que age por ordem da lei. Também alcança o particular que exerce função pública, ainda que temporariamente, como, por exemplo, o jurado, mesário da Justiça Eleitoral. 7.4.3. Dever legal É fundamental, para incidir essa excludente, que o dever decorra, diretamente ou indiretamente, de lei, em sentido genérico, emanado de autoridade pública competente. O dever pode ser imposto por qualquer lei, seja penal ou extrapenal, podendo se originar de decreto, regulamento ou qualquer ato administrativo de caráter geral. Da mesma forma, o dever pode emanar de decisões judiciais, já que, ao fim e ao cabo, nada mais são que a aplicação da lei ao caso concreto. Não se enquadram no contexto de dever legal, não incidindo, portanto, a excludente de ilicitude, o cumprimento de dever social, moral ou religioso. Assim, não age no estrito cumprimento do dever legal, pastor que invade domicílio a pretexto de afastar maus espíritos. 7.5. Exercício regular do direito 7.5.1. Conceito É o desempenho de uma atividade ou a prática de uma conduta autorizada por lei que torna lícito um fato típico. O exercício de um direito, desde que regular, não pode ser, ao mesmo tempo, proibido pelo direito. 71 Qualquer direito, público ou privado, penal ou extrapenal, regulamente exercido, afasta a antijuridicidade. Mas o exercício deve ser regular, isto é, deve obedecer a todos os requisitos objetivos exigidos pela ordem jurídica. 7.5.2. Alcance Qualquer pessoa pode exercitar um direito subjetivo ou uma faculdade prevista em lei (penal ou extrapenal). A Constituição Federal prevê que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei (CF/1988, art. 5º, II). Disso resulta que se exclui a ilicitude nas hipóteses em que o sujeito está autorizado a esse comportamento. Exemplo: prisão em flagrante realizada por um particular. 7.5.3. Algumas hipóteses de exercício regular de um direito a) Correção dos filhos Os arts. 229 da CF, 1.566, IV, e 1.634, I, do CC, bem como o art. 22 da Lei no 8.069/1990 (ECA) atribuem aos pais o dever de guarda, sustento e educação dos filhos. Os atos de correção aplicados pelos pais aos filhos, desde que evidentemente não transbordem para o castigo físico ou tratamento cruel e degradante, guardando a necessária razoabilidade, embora possam constituir fato típico, não serão considerados ilícitos pelo exercício regular do direito. Assim, quando um pai, sempre, absolutamente sempre, dentro de um critério de razoabilidade impor ao filho castigo consistente em ficar isolado no quarto, privando sua liberdade por alguns minutos, para pensar sobre a arte que praticou, estará no exercício regular de um direito. O abuso ou excesso no exercício desse direito acarretará a responsabilização criminal do pai, até porque o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que a criança e o adolescente têm o direito de ser educado e cuidado sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante (Lei nº 8.069/1990, art. 18-A). b) Livre manifestação de pensamento e opinião Nos termos do art. 5º, IV, da CF “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. 72 Logo, qualquer pessoa tem o direito de expor seu pensamento ou opinião, ainda que para criticar alguém ou determinado ato. Embora, em tese, possa ser típico por atingir a honra de alguém, se exercido regularmente o direito da livre manifestação de pensamento ou opinião, o fato não será ilícito. O STJ considerou exercício regular do direito a conduta de condôminos que se insurgiram contra a administração do condomínio, considerando que gozam da liberdade de expressar seu descontentamento e se manifestar, chamando a atenção dos demais condôminos, desde que minimamente embasado (STJ, APn no 737/DF, rel. Min. Og Fernandes, Corte Especial, j. 17-12-2014.) O STF liberou a realização da chamada “marcha da maconha”, evento que reúne pessoas favoráveis à descriminalização da droga. Para os ministros, os direitos constitucionais de reunião e de livre expressão do pensamento viabilizam esse tipo de manifestação, desde que não dirigida a incitar ou provocar ações ilegais e iminentes (STF, ADIn no 4274/DF, rel. Min. Ayres Britto, Tribunal Pleno, j. 23-11-2011, noticiado no Informativo no 649). c) Violênciaesportiva A prática de determinadas atividades esportivas produz, invariavelmente, lesões corporais, tais como o futebol, o boxe e a luta livre. Nesses casos, o fato típico praticado não será ilícito, desde que a conduta desenvolvida pelo agente observe os estritos limites das regras do esporte praticado. Imaginemos, por exemplo, uma luta de boxe, durante disputa do cinturão de ouro, Naldinho, obedecendo rigorosamente às regras do esporte, desfere diversos socos contra Mauro, causando lesões gravíssimas em seu adversário. Nesse caso, embora típico, o fato não será ilícito, pois Naldinho está amparado pelo exercício regular de um direito. Se, no entanto, o desportista não observar as regras que disciplinam o esporte praticado, responderá pelo resultado lesivo que produzir, segundo seu dolo ou sua culpa. Assim, se um jogador de futebol desferir um violento pontapé no rosto do adversário caído ao solo, responderá pelo resultado produzido, qual seja, lesão corporal, já que extrapolou os limites das regras da atividade desportiva que exercia. d) Inviolabilidade de domicílio Nos termos do art. 5º, XI, da CF, “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”. 73 Logo, durante o período noturno, se não for hipótese de flagrante delito, o morador poderá exercer o direito de não franquear a entrada da autoridade policial para prender um suspeito, ainda que munido de mandado de busca e apreensão. Nesse caso, embora constitua, em tese, o fato típico consistente no favorecimento pessoal (CP, art. 348), não será ilícito, porque o morador está no exercício regular de um direito. 7.6. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça, pois são teses absolutórias, já que constituem causas de exclusão da ilicitude. Como tratam de causas de exclusão da ilicitude: • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, I, do CPP. • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, VI, do CPP. • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, IV, do CPP. Memoriais / apelação Art. 386, CPP: O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: VI – existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de pena (arts. 20, 21, 22, 23, 26 e § 1º do art. 28, todos do Código Penal), ou mesmo se houver fundada dúvida sobre sua existência; Resposta à acusação Art. 397, CPP: Após o cumprimento do disposto no art. 396-A, e parágrafos, deste Código, o juiz deverá absolver sumariamente o acusado quando verificar: I - a existência manifesta de causa excludente da ilicitude do fato; Procedimento do Júri Art. 415, CPP: O juiz, fundamentadamente, absolverá desde logo o acusado, quando: IV – demonstrada causa de isenção de pena ou de exclusão do crime. 74 75 Excludente de culpabilidade Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 8.1. Introdução Doutrinariamente, a culpabilidade é considerada um juízo de censurabilidade e reprovação social incidente sobre o fato e seu autor, como forma de se verificar a necessidade de aplicação de uma pena. Em outras palavras, quando pratica um fato típico e ilícito, o agente será submetido a um juízo de censura, que incide sobre a manifestação e exteriorização da vontade do agente, a fim de verificar a possibilidade de imposição de uma pena. Conforme a teoria normativa pura, admitida no nosso ordenamento jurídico, os elementos da culpabilidade são: a) a imputabilidade do agente; b) a potencial consciência da ilicitude; c) exigibilidade de conduta diversa. De outro lado, as causas excludentes de culpabilidade consistem na inimputabilidade, falta de potencial consciência de ilicitude e inexigibilidade de conduta diversa. *Para todos verem: esquema. E X C L U D E N T E S D E C U L P A B IL ID A D E INIMPUTABILIDADE Doença mental - art. 26, CP Embriaguez completa e acidental - art. 28, §1º, CP FALTA DE POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE - art. 21, CP ERRO DE PROIBIÇÃO INEXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA Coação moral Irresistível - art. 22, CP Obediêcia Hierárquica - art. 22, CP 76 8.2. Inimputabilidade 8.2.1. Introdução Embora o Código Penal não tenha definido o conceito de imputabilidade, afigura-se possível extrair as suas características a partir da definição das hipóteses de inimputabilidade, previstas nos arts. 26, caput, 27 e 28, § 1º, todos do CP. Para fins penais, pode-se considerar a imputabilidade como sendo a possibilidade de se atribuir a autoria ou responsabilidade por fato criminoso a alguém, maior de dezoito anos e com higidez mental, que revelou ter capacidade de compreensão em relação ao caráter ilícito do fato, bem como de se determinar de acordo com esse entendimento. O Código Penal prevê como causas de inimputabilidade: a) doença mental (CP, art. 26, caput); b) desenvolvimento mental incompleto (CP, arts. 26, caput, e 27); c) desenvolvimento mental retardado (CP, art. 26, caput); d) menoridade (CP, art. 27); e e) embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior (CP, art. 28, § 1o). 8.2.1. Da inimputabilidade por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado A doença mental compreende todas as alterações mentais ou psíquicas aptas a eliminar a capacidade de compreensão do agente, tanto de origem patológica, quanto as toxicológicas, como, por exemplo, a demência senil, psicose traumática, causadas por alcoolismo, psicose maníaco-depressiva, esquizofrenia, loucura, histeria, paranoia etc. Não constitui requisito indispensável que a doença mental seja de caráter permanente, podendo, portanto, ser transitória, desde que, ao tempo da conduta, em decorrência dessa enfermidade mental, o agente não reúna qualquer capacidade de compreensão ou determinação. Isso porque, conforme consta expressamente no art. 26, caput, do CP, a inimputabilidade deve ser verificada no momento da conduta. O critério adotado para aferir a inimputabilidade é o biopsicológico. Assim, além da doença mental, é necessário que, em consequência desse estado biológico, o agente seja, no momento da conduta, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. 77 Em outras palavras, a doença mental retira do agente a capacidade de discernir o certo do errado, de entender, por exemplo, que atentar contra a vida ou patrimônio de uma pessoa é ilícito, bem como impede que o agente consiga controlar sua vontade e seu impulso. Ou seja, retira totalmente do agente sua capacidade de compreensão e determinação. Em decorrência disso, o doente mental com total incapacidade de compreensão e determinação não reúne condições para suportar a fixação e execução de uma pena. Na verdade, o portador de doença mental se revela perigoso para si e para a sociedade, necessitando, conforme o caso, de internação em hospital de custódia ou tratamento ambulatorial. A segunda causa de inimputabilidade é o desenvolvimento mental incompleto. É o desenvolvimento que ainda não encontrou a plenitude, por conta da idade cronológica do agente ou à sua falta de convivência em sociedade, não tendo o agente, por isso, maturidade mental ou emocional. O desenvolvimento mental incompleto abrange os menores de 18 anos e os silvícolas inadaptados ao convívio social. Em relação aos menores de 18 anos de idade, a inimputabilidade gera presunção absoluta, não admitindo prova em contrário, sem prejuízo, à evidência, de instauração de procedimento para apuração de ato infracional no Juizadoda Infância e Juventude, com eventual aplicação de medida socioeducativa. A doutrina também aponta como exemplo o silvícola inadaptado, assim considerado como sendo aquele afastado da civilização e das regras de convívio social, arraigado à sua cultura de forma a ignorar ou não reunir qualquer capacidade de compreensão ou determinação em relação à ilicitude do fato. Todavia, o fato de o agente ser índio, ainda que aparentemente não integrado, não gera, por si só, a presunção de inimputabilidade. Com efeito, no caso do indígena, afigura-se recomendável, considerando o caso concreto, a realização do exame antropológico, a fim de ser verificado o grau de adaptação e compreensão das regras de convívio social e, por conseguinte, em relação à ilicitude do fato. A terceira causa de inimputabilidade contida no art. 26, caput, do CP, é o desenvolvimento mental retardado, consistente na incompatibilidade com a fase da vida em que se encontra o agente, já que abaixo do desenvolvimento mental inerente à sua idade cronológica. 78 Diante da sua peculiar condição, o agente com desenvolvimento retardado não reúne aptidões cognitivas, de linguagem, motoras e sociais para compreender o caráter ilícito da sua conduta. Estão inseridos na expressão “desenvolvimento mental retardado” os oligofrênicos nas suas mais variadas formas, como, por exemplo, a idiotice, imbecilidade e debilidade mental, bem como as pessoas que, por ausência ou deficiência dos sentidos, possuem deficiência psíquica. 8.2.2. Consequências do reconhecimento da inimputabilidade Em relação à inimputabilidade pela enfermidade mental, o agente será processado e julgado normalmente, mas, ao final, o juiz não poderá proferir sentença condenatória. Isso porque ausente a culpabilidade, pressuposto para a aplicação da pena. Nesse contexto, uma vez verificado que o agente praticou um fato típico e ilícito, sendo, ao final, considerado inimputável por conta da sua enfermidade mental, o juiz deverá proferir sentença absolutória imprópria, com base no artigo 386, VI, do CPP, aplicando medida de segurança, consistente em internação em hospital de custódia ou tratamento ambulatorial, nos termos do artigo 386, parágrafo único, inciso III, do Código de Processo Penal. • Pergunta recorrente Cabe absolvição sumária pela inimputabilidade pela doença mental após resposta à acusação? Na peça resposta à acusação, o artigo 397, II, do CPP inviabiliza que o juiz absolva sumariamente o réu, porque teria de aplicar medida de segurança (internação em manicômio). Isso prejudicaria o réu, porque seria internado sem lhe fosse viabilizado provar em audiência de instrução a sua inocência. Ou seja, se proferir sentença de absolvição sumária, aplicando medida de segurança, sem permitir que produza outras provas da sua inocência em audiência de instrução, o juiz prejudicará o réu. Além disso, para se aferir a inimputabilidade exige produção de provas. Nesse caso, o juiz deverá designar audiência de instrução e julgamento e, se não for possível absolver o réu por outro fundamento, aí sim o juiz poderá proferir sentença absolutória imprópria, com base no artigo 386, VI, do CPP c/c art. 386, parágrafo único, III, do CPP, aplicando medida de segurança, consistente em internação em hospital de custódia ou tratamento ambulatorial (art. 97 do CP). 79 8.2.3. Da inimputabilidade por embriaguez proveniente de caso fortuito ou força maior Embriaguez é a intoxicação aguda e transitória causada pelo álcool ou qualquer substância de efeitos análogos, sejam eles entorpecentes (morfina, ópio), estimulantes (cocaína) ou alucinógenos (ácido lisérgico), capaz de levar à exclusão da capacidade de entendimento acerca do caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Nos termos do art. 28, II, do CP, a embriaguez voluntária ou culposa não exclui a imputabilidade penal. Isso significa dizer que aquele que ingerir bebida alcoólica, de forma voluntária ou culposa, poderá ser responsabilizado criminalmente, se praticar um fato típico e ilícito. Assim, se o agente, depois de passar várias horas ingerindo bebida alcóolica voluntariamente, pegar o seu veículo e, por conta da ausência de reflexos, acaba colidindo com outro veículo, causando a morte de uma pessoa, responderá, a princípio, pelo crime de homicídio culposo na condução de veículo automotor (CTB, art. 302). A inimputabilidade pela embriaguez, com a excludente de culpabilidade, ocorre quando se tratar de embriaguez completa e acidental, nos termos do que dispõe o art. 28, § 1o, do CP. Logo, a embriaguez deve decorrer de caso fortuito ou força maior e, em decorrência disso, deixar o agente, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Logo, não basta a embria- guez acidental, sendo, ainda, necessário que, em decorrência da ingestão de substância alcoólica ou de efeitos análogos, o agente tenha ficado, ao tempo da conduta, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito da sua conduta ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. A embriaguez é acidental quando não voluntária nem culposa. Pode ser proveniente de caso fortuito ou força maior. No caso fortuito, o sujeito desconhece o efeito inebriante da substância que ingere, ou quando, desconhecendo uma particular condição fisiológica, ingere substância que possui álcool (ou substância análoga), ficando embriagado. É o caso do agente que está tomando determinado medicamento e ingere bebida alcóolica. A conjugação do medicamento e da bebida alcoólica potencializa o metabolismo do agente, a ponto de deixá-lo embriagado. É também o caso do agente que ingere determinada bebida sem saber que nela foi colocada uma 80 substância capaz de lhe retirar os sentidos, deixando-o embriagado, como, por exemplo, o chamado “boa noite cinderela”. É o caso, ainda, do agente que ingeriu, sem saber, bebida alcoólica, pensando tratar-se de medicamento que costumava guardar em uma garrafa, e perdeu totalmente sua capacidade de entendimento e de autodeterminação. Em seguida, entrou em uma farmácia e praticou um furto. Nesse caso, será isento de pena, por estar configurada a sua inimputabilidade. Na força maior, o agente é obrigado a ingerir bebida alcoólica. Não desejando se embriagar nem de se exceder culposamente, o agente é forçado a ingerir bebida alcoólica. É o caso, por exemplo, do trote acadêmico de péssimo gosto em que os veteranos obrigam, forçam os calouros a ingerirem bebida alcoólica. A natureza jurídica da sentença que acolhe a inimputabilidade pela embriaguez completa a acidental é absolutória propriamente dita, sem, portanto, aplicação de qualquer medida de segurança. Quando a embriaguez acidental, proveniente de caso fortuito ou força maior, é incompleta, não há exclusão da imputabilidade. Isso porque, em decorrência da embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, o agente, ao tempo da conduta, não possuía a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Ou seja, tinha capacidade de compreensão ou determinação, mas reduzida. A sentença será condenatória, mas o agente, por ter a capacidade de compreensão ou determinação reduzida, também terá a pena reduzida de um a dois terços, nos termos do art. 28, § 2o, do CP. A embriaguez preordenada, ou dolosa, evidentemente não exclui a imputação. Pelo contrário, não só enseja a responsabilização criminal do agente, como também constitui circunstância agravante, devendo ser considerada pelo magistrado na segunda fase da fixação da pena, conforme se extrai do art. 61, II, l, do CP. 8.3. Menoridade penal Para os menores, o CP adotou o sistema biológico. O CP prevê a presunção absoluta de inimputabilidade. Nos termos do art. 27 do CP, os7.5. Exercício regular do direito ...........................................................................70 7.5.1. Conceito ....................................................................................................70 7.5.2. Alcance ......................................................................................................71 7.5.3. Algumas hipóteses de exercício regular de um direito ..............................71 7.6. Como pode cair ............................................................................................73 Excludente de culpabilidade 8.1. Introdução ....................................................................................................75 8.2. Inimputabilidade ...........................................................................................76 8.2.1. Introdução .................................................................................................76 8.2.1. Da inimputabilidade por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado ......................................................................................76 8.2.2. Consequências do reconhecimento da inimputabilidade ...........................78 8.2.3. Da inimputabilidade por embriaguez proveniente de caso fortuito ou força maior ...................................................................................................................79 8.3. Menoridade penal .........................................................................................80 8.4. Falta de potencial consciência da ilicitude ....................................................81 8.4.1. Introdução .................................................................................................81 8.4.2. Erro de proibição .......................................................................................81 6 8.4.3. Efeitos: erro de proibição inevitável e evitável ...........................................82 8.4.4. Diferença entre erro de tipo e erro de proibição ........................................85 8.5.1. Introdução .................................................................................................85 8.5.2. Coação moral irresistível ...........................................................................86 8.5.3. Obediência hierárquica ..............................................................................87 8.6. Como pode cair ............................................................................................89 Padrão Resposta..................................................................................................................... 91 Olá, aluno(a). Este material de apoio foi organizado com base nas aulas do curso preparatório para a 2ª Fase do 41º Exame da OAB e deve ser utilizado como um roteiro para as respectivas aulas. Além disso, recomenda-se que o aluno assista as aulas acompanhado da legislação pertinente. Bons estudos, Equipe Ceisc. Atualizado em maio de 2024. 7 Princípio da insignificância Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 1.1. Introdução O princípio da insignificância, também denominado crime de bagatela, guarda relação com o princípio da intervenção mínima e da fragmentariedade, no sentido de que ao Direito Penal cumpre a proteção de bens jurídicos que, por sua relevância, efetivamente necessitam de tutela penal. O Direito Penal não deve incidir quando a conduta do agente não for suficientemente capaz de causar lesão ou ao menos perigo de lesão a um determinado bem jurídico. Em síntese, o Direito Penal não se presta para atuar diante de condutas que atingem bens jurídicos irrelevantes e de natureza ínfima. A natureza jurídica do princípio da insignificância é de causa de exclusão da tipicidade material. Embora a conduta seja formalmente típica, será materialmente atípica, diante da ausência de lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico. Explica-se. A tipicidade penal é formada pela junção da tipicidade formal com a tipicidade material. A tipicidade formal nada mais é do que a adequação do fato praticado ao modelo legal de conduta proibida descrito na norma penal. É o enquadramento do fato praticado à conduta descrita no dispositivo penal. Assim, o fato de o agente subtrair determinado objeto se enquadra na norma penal que prevê como crime de furto a conduta de subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel. Ou seja, o fato praticado pelo agente se amolda à conduta proibida descrita no art. 155 do CP. Eis a tipicidade formal. Todavia, a adequação do fato à norma penal não é suficiente. É necessário, ainda, que o fato praticado atinja bem jurídico suficientemente relevante para ensejar a atuação do Direito Penal. A conduta do agente, pois, deve ser minimamente suficiente para causar lesão ou perigo de lesão a um bem juridicamente relevante. Eis a tipicidade material. 8 Se, conquanto prevista na norma penal como proibida (tipicidade formal), a conduta desenvolvida pelo agente atingir bem jurídico irrelevante, o fato será materialmente atípico, incidindo, assim, o princípio da insignificância. Tomemos como exemplo a subtração de uma barra de chocolate no valor de R$ 5,00 (cinco reais) em uma grande rede de supermercados. Tal fato é formalmente típico, já que insculpido como proibido no art. 155 do CP, mas será materialmente atípico, uma vez que o bem jurídico atingido, por seu ínfimo valor, é irrelevante para o Direito Penal. 1.2. Requisitos A incidência do princípio da insignificância não se dá de forma indiscriminada e sem critérios. Para o reconhecimento da atipicidade material do fato em decorrência do princípio da insignificância, devem estar presentes requisitos de ordem objetiva, relacionados ao fato, bem como de caráter subjetivo, relacionados ao agente, considerando sempre o caso concreto. 1.2.1. Requisitos objetivos O STF1 e o STJ2 apontam quatro requisitos objetivos para a incidência do princípio da insignificância: a) mínima ofensividade da conduta; b) ausência de periculosidade social da ação; c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; d) inexpressividade da lesão jurídica. Os Tribunais Superiores elencam tais requisitos, sem, no entanto, estabelecer a diferença entre eles e especificar o alcance de cada um. Há, ainda, quem entenda que tais requisitos são tautológicos, que, em síntese, dizem a mesma coisa. E, na verdade, parece-nos que não seria realmente adequado estabelecer critérios rígidos e absolutos para cada requisito, já que os parâmetros estabelecidos para aferição da incidência do princípio da insignificância podem variar a depender das circunstâncias do caso concreto, como, por exemplo, o valor do bem atingido, a situação econômica da vítima, as condições pessoais do autor do fato, bem como as peculiaridades da prática delituosa. 1 STF, RHC nº 163009 AgRg/SC, rel. Luiz Fux, 1ª T., j. 7-12-2018. 2 STJ, HC nº 502912/SP, rel. Ribeiro Dantas, 5ª T., j. 4-6-2019. 9 Em outras palavras, a valoração conjunta desses requisitos pode variar de caso a caso, o que pode parecer insignificante num caso, pode não ser em outro semelhante, ou seja, furtar um objeto no valor de R$ 100,00 (cem reais) pertencente a uma pessoa com situação financeira confortável pode ensejar a incidência do princípio da insignificância, ao passo que subtrair uma velha bicicleta, avaliada em R$ 100,00 (cem reais), pertencente a um modesto trabalhador que a utiliza como meio de transporte para se deslocar até o local de trabalho, pode não incidir tal princípio. 1.2.2. Requisitos Subjetivos Além dos requisitos objetivos, relacionados aos fatos, deve-se, ainda, verificar a presença dos requisitos subjetivos, relacionados ao autor da infração penal e à vítima do delito. a) Em relação ao autor da infração penal A possibilidade de aplicação do princípio da insignificância em relação ao autor do fato passa pela análisemenores de 18 anos são inimputáveis. Ao praticar um fato típico e ilícito, não respondem por crime por ausência de imputabilidade, que exclui a culpabilidade. 81 Logo, o menor não tem legitimidade para figurar no polo passivo da ação penal, razão pela qual, se estiver no início da ação penal, a de- núncia deve ser rejeitada, com base no artigo 395, II, do CPP. Se a ação penal já estiver em tramitação, inclusive com instrução realizada, será caso de nulidade do processo, nos termos do artigo 564, II, do CPP. 8.4. Falta de potencial consciência da ilicitude 8.4.1. Introdução Nos termos do artigo 21 do Código Penal, o desconhecimento da lei é inescusável. Não se mostra possível, portanto, o agente acusado de uma infração penal alegar desconhecimento da lei para se eximir da aplicação da lei penal. A partir da publicação da lei no Diário Oficial, há presunção absoluta acerca do seu conhecimento. O desconhecimento da lei não se confunde com a falta de potencial consciência da ilicitude. A primeira guarda relação com o desconhecimento do seu texto legal, dos seus detalhes, ao passo que a segunda se caracteriza pela ausência de conhecimento que a conduta desenvolvida é ilícita. É nesse contexto que surge o instituto do erro de proibição. 8.4.2. Erro de proibição Como vimos, a possibilidade de o agente adquirir a consciência da ilicitude do fato constitui um dos elementos da culpabilidade; pode, no entanto, acontecer de o agente desenvolver uma conduta supondo ser permitida ou lícita, quando, na verdade, é penalmente proibida, faltando-lhe a potencial consciência da ilicitude do fato. Surge, nesse cenário, o erro de proibição que, ao fim e ao cabo, constitui um erro sobre a ilicitude do fato, para usar a expressão adotada pelo art. 21 do CP. Com efeito, o agente desenvolve uma conduta conhecendo a realidade fática que o cerca, tem consciência sobre o fato que está pra- ticando; erra, no entanto, quanto à ilicitude do fato praticado. Considera estar praticando fato permitido, mas movido por uma falsa percepção acerca do caráter ilícito do fato típico praticado, faltando-lhe, em razão disso, a potencial consciência da ilicitude do fato. Exemplo: Uma mulher estrangeira, em visita ao nosso País, grávida de dois meses e proveniente de país que não coíbe o aborto, ingeriu substância abortiva acreditando não ser proibido fazê-lo no Brasil. A mulher não incorre em erro sobre a situação fática nem sobre qualquer elemento do tipo que define o crime de aborto (CP, art. 124). Ou seja, tem consciência 82 que está ingerindo substância abortiva, com a finalidade de interromper a gravidez; erra, contudo, quanto à ilicitude do fato praticado. Supõe ser lícita a conduta, quando, na verdade, é penalmente proibida no Brasil. Outro exemplo: Depois de jantar num restaurante, Francisco, homem de pouca cultura, percebeu que lá havia esquecido seu celular e voltou para pegá-lo, mas não mais o encontrou. Considerando que o dono do restaurante era responsável pelo seu prejuízo e acreditando ter o direito de fazer justiça pelas próprias mãos, tomou para si objetos pertencentes ao estabelecimento, suposta- mente de valor igual ao seu prejuízo. Francisco não incorre em erro sobre a situação fática nem sobre qualquer elemento do tipo que define o crime de exercício arbitrário das próprias razões (CP, art. 345), mas em relação à proibição da sua conduta. Tem pleno conhecimento de que estava se apossando de objetos pertencentes ao dono do restaurante, errando, contudo, quanto à ilicitude do fato praticado. Supõe ser lícita a conduta, quando, na verdade, é penalmente proibida no Brasil. 8.4.3. Efeitos: erro de proibição inevitável e evitável a) Erro de proibição inevitável, escusável ou invencível No erro de proibição inevitável, escusável ou invencível, o agente, mesmo que tivesse empregado as diligências ordinárias, considerando-se suas características pessoais, não teria a possibilidade de adquirir a consciência da ilicitude do fato praticado, ou seja, de verificar que se trata de conduta ilícita. Adotando-se um critério mais objetivo para aferição da inevitabilidade do erro de proibição, pode-se utilizar como parâmetro o conceito de erro de proibição evitável fornecido pelo próprio Código Penal. Nos termos do art. 21, parágrafo único, do CP: “Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência”. Nesse contexto, se o erro de proibição evitável reúne a característica de ser possível, nas circunstâncias, ao agente ter ou atingir a consciência da ilicitude, forçoso concluir que o erro de proibição inevitável é aquele em que o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando não lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. Em outras palavras, ainda que tivesse empregado as diligências necessárias, considerando sua condição pessoal, não seria possível ao agente a atingir a consciência da ilicitude do fato praticado. 83 Diante do avanço tecnológico e da facilidade de acesso às informações, atualmente se revela de difícil incidência a hipótese de erro de proibição inevitável. Há, de fato, diversos mecanismos e instrumentos para se alcançar a consciência da ilicitude do fato, reduzindo sobremaneira o alcance do erro de proibição inevitável. De todo modo, podemos citar alguns exemplos, que, em tese, poderiam se enquadrar na hipótese de erro de proibição indireto. Exemplo: Um telejornal de alcance nacional informa, de forma equivocada, a aprovação da lei que autoriza a eutanásia de doentes em estágio terminal. Não havendo nenhuma razão para duvidar da veracidade da notícia, o agente se dirige até o hospital e desliga os aparelhos que mantinham vivo um ente querido, que se encontrava sofrendo com a doença que o acometia e em estágio terminal, causando-lhe a morte. Praticou fato típico e ilícito, mas lhe faltou potencial consciência da ilicitude, incidindo o erro de proibição inevitável, cuja consequência será a exclusão da culpabilidade. Note-se que, diante das circunstâncias do caso, ainda que empregando diligência normal, o agente teria incorrido em erro quanto à licitude do fato praticado, já que a notícia havia sido veiculada em telejornal de grande alcance, não havendo qualquer razão para duvidar da veracidade da informação. O erro de proibição inevitável, escusável ou invencível exclui a culpabilidade do agente, por força da falta de potencial consciência de ilicitude. Com efeito, nos termos do art. 21, 1ª parte, do CP, “O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena”. b) Erro de proibição evitável, inescusável ou vencível O critério de aferição do erro de proibição inescusável, vencível ou evitável encontra-se no parágrafo único do art. 21 do CP, segundo o qual “considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência”. O erro de proibição inescusável ou evitável ocorre quando o erro sobre a ilicitude do fato não se justifica, pois, se tivesse empregado um mínimo de esforço para se informar, o agente poderia ter adquirido a consciência da ilicitude do fato praticado. Nesse diapasão, alguém que reside na zona urbana, com amplo acesso aos meios de informações, não pode alegar erro inevitável em face da acusação pelo porte de munição. De fato, se reconhecido o erro de proibição, certamente será evitável, já que era possível ao 84 agente, diante das circunstâncias, de, com um mínimo de esforço, atingir a consciência da ilicitude da sua conduta. Tratando-se de erro de proibição evitável, inescusável, vencível, não haverá isenção de pena ou exclusão da culpabilidade, o agente será condenado, mas, ao final, o juiz, na terceirafase da fixação da pena, deverá diminui-la de um sexto a um terço. Imaginemos que Samara recebia a pensão previdenciária da sua mãe, depositada mensalmente em sua conta bancária, em virtude de ser procuradora dela. Após a morte da sua mãe, Samara continuou recebendo a pensão, supondo que, por ser filha da beneficiária, esse benefício passaria diretamente para ela. Trata-se de erro de proibição evitável, porque seria possível, com um mínimo esforço, alcançar a percepção da ilicitude de sua conduta. Assim, Samara responderia pelo crime de apropriação indébita, incidindo, na hipótese de condenação, a causa de diminuição da pena prevista no art. 21, caput, do CP. Em síntese, no erro de proibição inevitável, incide causa de exclusão da culpabilidade, sendo o agente isento de pena. No erro de proibição evitável, inescusável, vencível, não haverá isenção de pena ou exclusão da culpabilidade, devendo o agente responder pelo delito, e, se condenado, ter a pena diminuída de um sexto a um terço. 85 8.4.4. Diferença entre erro de tipo e erro de proibição *Para todos verem: esquema. 8.5. Inexigibilidade de conduta diversa 8.5.1. Introdução A exigibilidade de conduta diversa é o terceiro elemento da culpabilidade. O agente, ao praticar a infração penal, frustra a expectativa da sociedade, pois era lhe exigido conduta diversa daquela que deliberadamente adotou, ou seja, o agente poderia se comportar conforme o direito, mas optou por infringir a norma penal. De outro lado, quando não lhe era exigível comportamento diverso, não incide o juízo de reprovação, excluindo a culpabilidade. CAUSA EXCLUDENTE DE CULPABILIDADE CAUSA EXCLUDENTE DE TIPICIDADE ERRO DE TIPO PORTAR ARMA DE FOGO VERDADEIRA, SUPONDO SER DE BRINQUEDO AGENTE NÃO SABE O QUE FAZ SE SOUBESSE, NÃO INCORRERIA EM ERRO, POIS SABE SER CONDUTA ILÍCITA SE ERRO FOR INVENCÍVEL, EXCLUI O DOLO E A CULPA E O FATO SERÁ ATÍPICO SE O ERRO FOR VENCÍVEL, EXCLUI O DOLO E O AGENTE RESPONDE POR CULPA SE A CONDUTA TIVER PREVISÃO NA MODALIDADE CULPOSA ERRO DE PROIBIÇÃO CIDADÃO AMERICANO PORTAR ARMA DE FOGO NO BRASIL SUPONDO SER CONDUTA LÍCITA AGENTE SABE O QUE FAZ SUPÕE QUE SUA CONDUTA É LÍCITA SE ERRO FOR INEVITÁVEL, HÁ ISENÇÃO DE PENA SE ERRO FOR EVITÁVEL, HÁ REDUÇÃO DA PENA DE 1/6 A 1/3 86 Nesse particular, as causas legais de exclusão da culpabilidade pela inexigibilidade de conduta diversa estão previstas no art. 22 do CP, consistentes na coação moral irresistível e na obediência hierárquica. 8.5.2. Coação moral irresistível *Para todos verem: esquema. Nos termos do art. 22 do CP, se o fato é cometido sob coação irresistível, somente o autor da coação é punido. Na coação moral, o agente coator, para alcançar o resultado desejado, emprega grave ameaça contra o coagido, que, por medo de suportar um mal grave contra si ou contra outrem, acaba realizando a conduta criminosa exigida. A coação empregada pelo agente vicia a vontade do coagido, retirando-lhe a exigência de se comportar de modo diferente. Nesse caso, em relação ao coagido, incide a causa de exclusão da culpabilidade decorrente da inexigibilidade de conduta diversa. Exemplo: Imaginemos que, por meio de grave ameaça, Mauro é coagido a confeccionar e assinar um documento falso, sob pena de o seu filho ser assassinado. Trata-se de fato típico e ilícito, mas não culpável, uma vez que, embora praticado por agente imputável e consciente da ilicitude do fato, não lhe era, nas circunstâncias, exigível conduta diversa. De fato, o coagido tinha duas opções: confeccionar e assinar o documento falso ou se negar a fazê-lo e ter o seu filho assassinado. Ao optar por praticar a falsificação, não se pode atribuir ao agente juízo de reprovação, uma vez que somente praticou a conduta diante da grave ameaça do seu filho ser morto. Outro exemplo: Mário, gerente de banco, estava dentro de seu veículo juntamente com familiares quando foi abordado por um bandido armado, que ameaçou os ocupantes do veículo, exigindo de Mário o fornecimento de determinada senha para a realização de uma operação bancária, o que foi por ele prontamente atendido. Nessa situação, embora tenha contribuído para a prática da subtração de valores de contas bancárias, Mário não será responsabilizado criminalmente, diante da inexigibilidade de conduta diversa. Coação moral irresistível Coator Grave ameaça Coagido Fato típico ílícito Somente o coator responde pelo delito 87 Para ser reconhecida a causa excludente de culpabilidade pela inexigibilidade de conduta diversa, devem estar presentes o coator, o coagido e a vítima do crime praticado. Assim, no caso de um gerente de banco, obrigado por criminosos a entregar valores que se encontram no cofre que pode abrir, por conta da ameaça de morte do seu filho, que se encontra em poder de um comparsa, os envolvidos são os criminosos (coatores), o gerente do banco (coagido) e o próprio banco, já que lesado no seu patrimônio (vítima). É possível, no entanto, a presença da excludente de culpabilidade com a presença de apenas duas pessoas, quando, por exemplo, o coator figurar como a própria vítima. Exemplo: Coagido, por conta da grave ameaça e sem outra forma de agir, mata o próprio coator. Note-se que, na hipótese, não se trata de legítima defesa, por conta da inexistência de agressão atual ou iminente, já que o coator se limitou a empregar grave ameaça. Quando o sujeito pratica o fato sob coação física irresistível, não praticará crime por ausência de conduta, aplicando-se o disposto no art. 13, caput, do CP. Trata-se de causa excludente da tipicidade. A coação moral deve ser irresistível. Tratando-se de coação moral resistível, não há exclusão da culpabilidade, incidindo uma circunstância atenuante (CP, art. 65, III, c, 1ª figura). 8.5.3. Obediência hierárquica A hierarquia guarda relação com Direito Público, ou seja, com agentes públicos. Para que os serviços públicos sejam prestados com eficiência, há necessidade de ser estabelecida uma estrutura hierárquica em que as ordens são emanadas dos escalões superiores para serem cumpridas pelos agentes subordinados, integrantes dos escalões menores da estrutura administrativa. E, como regra, as ordens emanadas dos superiores hierárquicos devem ser cumpridas pelos subordinados, sob pena, inclusive, de constituir infração funcional, sujeita a sanções de ordem administrativa. Assim, o subordinado, ainda que não concorde com a ordem, deverá, a princípio, cumpri-la. É nesse cenário que surge a exclusão da culpabilidade por força da obediência hierárquica, uma vez que, diante de uma ordem não manifestamente ilegal, não seria exigível do subordinado conduta diversa, que não seja cumpri-la. Destarte, a obediência hierárquica decorre da conduta do subordinado que, por força de ordem não manifestamente ilegal emanada por superior hierárquico, prática fato típico e 88 ilícito. Trata-se de exclusão da culpabilidade, consistente na inexigibilidade de conduta diversa, prevista no art. 22 do CP. No caso de a ordem não ser manifestamente ilegal, embora constitua fato típico e antijurídico, o subordinado não será culpável, em face da inexigibilidade de conduta diversa. Diante das circunstâncias, não seria possível exigir do subordinado conduta diversa, sob pena, inclusive, de, desobedecendo ordem não manifestamente ilegal, responder a procedimento disciplinar. Nesse caso, o subordinado será isento de pena, ao passo que o superior hierárquico responderá pelo resultado produzido pelo executor. É o que se extrai do art. 22 do CP. Imaginemos que um Delegado de Polícia Civil, mesmo sabendo que o mandado de busca e apreensão regularmente expedido se encontra com prazo de cumprimento expirado, ordena que Fernanda, policial civil recém-empossada, se dirijaaté a residência de um suspeito e cumpra o mandado. Sem desconfiar que a diligência era ilegal, uma vez que determinada por autoridade superior, Fernanda se desloca até a casa do suspeito, apresenta o mandado de busca e apreensão, e ingressa na residência, mesmo sem a autorização do morador. Trata-se de uma ordem ilegal, já que o mandado de busca e apreensão já não tinha validade, mas, considerando as circunstâncias, tratando-se de policial recém-empossada, pode-se cogitar da hipótese de que essa ordem não é manifestamente ile- gal. Assim, embora tenha praticado fato típico e ilícito, Fernanda não será culpável, pois atuou por força de uma ordem não manifestamente ilegal emanada de superior hierárquico. Nesse caso, somente o superior hierárquico responderá pelo crime previsto no art. 22 da Lei nº 13.869/201923. Se a ordem for manifestamente ilegal, tanto o superior hierárquico, quanto o subordinado responderão pelo delito praticado. Nesse caso, para o superior hierárquico incide a agravante genérica descrita no art. 62, III, 1ª parte, do CP. E, em relação ao subordinado, aplica-se a atenuante prevista no art. 65, III, c, do CP. Pedro, funcionário público do Tribunal de Justiça, tem a responsabilidade de registrar em um livro próprio do cartório os procedimentos que estão há mais de 10 dias conclusos, permitindo o controle dos prazos por parte de advogados. O juiz responsável, buscando evitar 23 “Art. 22. Invadir ou adentrar, clandestina ou astuciosamente, ou à revelia da vontade do ocupante, imóvel alheio ou suas dependências, ou nele permanecer nas mesmas condições, sem determinação judicial ou fora das condições estabelecidas em lei: Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. § 1º Incorre na mesma pena, na forma prevista no caput deste artigo, quem: I – coage alguém, mediante violência ou grave ameaça, a franquear-lhe o acesso a imóvel ou suas dependências; II – (VETADO); III – cumpre mandado de busca e apreensão domiciliar após as 21h (vinte e uma horas) ou antes das 5h (cinco horas).” 89 que terceiros soubessem de sua demora, determina que Pedro deixe de registrar diversos processos que estavam conclusos para sentença há vários meses. Apesar de ter conhecimento de que a conduta não era correta, Pedro cumpriu a ordem, já que partiu de seu superior hierárquico. Nesse caso, como se trata de ordem manifesta- mente ilegal, tanto Pedro quanto o juiz deverão responder pelo crime de falsidade ideológica (CP, art. 299), podendo incidir em favor do subordinado a atenuante prevista no art. 65, III, c, do CP, e em desfavor do superior hierárquico a agravante do art. 62, III, do CP. 8.6. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça, pois são teses absolutórias, já que constituem causas de exclusão da ilicitude. Como tratam de causas de exclusão da culpabilidade: • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, II, do CPP. • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, VI, do CPP. • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, IV, do CPP. 90 91 Padrão Resposta 92 1) QUESTÃO 4 – XXX EXAME Maria foi denunciada pela suposta prática do crime de descaminho, tendo em vista que teria deixado de recolher impostos que totalizavam R$ 500,00 (quinhentos reais) pela saída de mercadoria, fato constatado graças ao lançamento definitivo realizado pela Administração Pública. Considerando que constava da Folha de Antecedentes Criminais de Maria outro processo pela suposta prática de crime de roubo, inclusive estando Maria atualmente presa em razão dessa outra ação penal, o Ministério Público deixou de oferecer proposta de suspensão condicional do processo. Após a instrução criminal em que foram observadas as formalidades legais, sendo Maria assistida pela Defensoria Pública, foi a ré condenada nos termos da denúncia. A pena aplicada foi a mínima prevista para o delito, a ser cumprida em regime inicial aberto, substituída por restritiva de direitos. Maria foi intimada da sentença através de edital, pois não localizada no endereço constante do processo. A família de Maria, ao tomar conhecimento do teor da sentença, procura você, na condição de advogado(a) para prestar esclarecimentos técnicos. Informa estar preocupada com o prazo recursal, já que Maria ainda não tinha conhecimento da condenação, pois permanecia presa. Na condição de advogado(a), esclareça os seguintes questionamentos formulados pela família da ré. A) Existe argumento de direito processual para questionar a intimação de Maria do teor da sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,60) B) Qual argumento de direito material poderá ser apresentado, em eventual recurso, em busca da absolvição de Maria? Justifique. (Valor: 0,65) Obs.: O(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. GABARITO COMENTADO A questão exige do examinando conhecimento sobre uma pluralidade de temas, mas em especial sobre os elementos do fato típico e sobre as formas de intimação das sentenças condenatórias. Narra o enunciado que Maria foi denunciada pela suposta prática de crime de descaminho, crime esse que teria gerado um prejuízo aos cofres públicos no valor de aproximadamente R$500,00 (quinhentos reais), estando incursa nas sanções do Art. 334 do CP. 93 A) O advogado, ao ser procurado pela família de Maria, deveria esclarecer que a intimação de Maria do teor da sentença condenatória não foi correta, tendo em vista que ela encontrava-se presa por outro crime, fato do conhecimento do Ministério Público. De acordo com o Art. 392 do CPP, a intimação da sentença deverá ser pessoal se o réu estiver preso, ainda que a prisão seja decorrente de outro processo. A intimação por edital deve ocorrer quando o réu estiver em local incerto e não sabido, quando não for possível sua localização, ou em alguma das situações previstas no Art. 392, incisos IV, V e V, do CPP, o que não foi o caso. A intimação por edital, como forma de intimação ficta, prejudicou Maria, que ainda não tinha conhecimento do teor da sentença condenatória. B) O argumento seria de que a conduta praticada por Maria é atípica em razão da aplicação do princípio da insignificância. O conceito de crime envolve um fato típico, ilícito e culpável. Dentro da tipicidade, está a tipicidade material, que é a lesão relevante ao bem jurídico protegido. Em relação aos crimes tributários, a jurisprudência é tranquila no sentido de que haveria atipicidade material sempre que o valor do imposto sonegado não ultrapassar aquele que a Fazenda Pública considera baixo o suficiente para não justificar uma cobrança através de execução fiscal. Ainda que exista controvérsia se tal valor seria de R$ 10.000,00 ou R$ 20.000,00, fato é que, na presente hipótese, considerando que o valor do tributo não ultrapassaria R$ 500,00, o princípio da insignificância deveria ser aplicado. A lesão constatada não é grave o suficiente para justificar a intervenção do Direito Penal, diante de sua característica de subsidiariedade/última ratio. 2) QUESTÃO 2 – IX EXAME Wilson, extremamente embriagado, discute com seu amigo Junior na calçada de um bar já vazio pelo avançado da hora. A discussão torna-se acalorada e, com intenção de matar, Wilson desfere quinze facadas em Junior, todas na altura do abdômen. Todavia, ao ver o amigo gritando de dor e esvaindo-se em sangue, Wilson, desesperado, pega um táxi para levar Junior ao hospital. Lá chegando, o socorro é eficiente e Junior consegue recuperar-se das graves lesões sofridas. Analise o caso narrado e, com base apenas nas informaçõesdadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) É cabível responsabilizar Wilson por tentativa de homicídio? (Valor: 0,65) 94 B) Caso Junior, mesmo tendo sido socorrido, não se recuperasse das lesões e viesse a falecer no dia seguinte aos fatos, qual seria a responsabilidade jurídico-penal de Wilson? (Valor: 0,60) Obs.: o examinando deve fundamentar suas respostas citação do dispositivo legal não confere pontuação. GABARITO COMENTADO: A) Não, pois Wilson será beneficiado pelo instituto do arrependimento eficaz, previsto na parte final do art. 15 do CP. Assim, somente responderá pelos atos praticados, no caso, as lesões corporais graves sofridas por Júnior. B) Nesse caso, como não houve eficácia no arrependimento, o que é exigido pelo art. 15 do CP, Wilson deverá responder pelo resultado morte, ou seja, deverá responder pelo delito de homicídio doloso consumado. 3) QUESTÃO 3 – IX EXAME – 2012-3 Mário está sendo processado por tentativa de homicídio, uma vez que injetou substância venenosa em Luciano, com o objetivo de matá-lo. No curso do processo, uma amostra da referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando comprovado que, pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância não fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Mesmo assim, arguindo que o magistrado não estava adstrito ao laudo, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Mário nos exatos termos da denúncia. Com base apenas nos fatos apresentados, responda justificadamente: A) O magistrado deveria pronunciar Mário, impronunciá-lo ou absolvê-lo sumariamente? (Valor: 0,65) B) Caso Mário fosse pronunciado, qual seria o recurso cabível, o prazo de interposição e a quem deveria ser endereçado? (Valor: 0,60) Obs.: O(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 95 Gabarito comentado: A) Deveria absolvê-lo sumariamente, por força do art. 415, III, do CPP. O caso narrado não constitui crime, sendo hipótese de crime impossível. B) É cabível recurso em sentido estrito (art. 581, IV, do CPP); deve ser interposto no prazo de cinco dias (art. 586 do CPP); a petição de interposição deve ser endereçada ao juiz a quo e as razões deverão ser endereçadas ao Tribunal de Justiça. 4) QUESTÃO 2 – VII EXAME – 2012-1 Larissa, senhora aposentada de 60 anos, estava na rodoviária de sua cidade quando foi abordada por um jovem simpático e bem vestido. O jovem pediu-lhe que levasse, para a cidade de destino, uma caixa de medicamentos para um primo, que padecia de grave enfermidade. Inocente e seguindo seus preceitos religiosos, a Sra. Larissa atende ao rapaz: pega a caixa, entra no ônibus e segue viagem. Chegando ao local da entrega, a senhora é abordada por policiais que, ao abrirem a caixa de remédios, verificam a existência de 250 gramas de cocaína em seu interior. Atualmente, Larissa está sendo processada pelo crime de tráfico de entorpecente, previsto no art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Considerando a situação anteriormente descrita e empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente, responda: qual é a tese defensiva aplicável à Larissa? (Valor: 1,25) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação GABARITO COMENTADO A questão pretende buscar do examinando conhecimento acerca do instituto do erro de tipo essencial, inclusive para diferenciá-lo das demais modalidades de erro. Assim, para garantir pontuação, a resposta deverá trazer as seguintes informações: a tese defensiva aplicável é a de que Larissa agiu em erro de tipo essencial incriminador, instituto descrito no art. 20, caput, do CP, pois desconhecia circunstância elementar descrita em tipo penal incriminador. Ausente o elemento típico, qual seja, o fato de estar transportando drogas, faz com que, nos termos do 96 dispositivo legal, se exclua o dolo, mas permita-se a punição por crime culposo e, como o dispositivo legal do art. 33 da Lei nº 11.343/2006 não admite a modalidade culposa, o fato se tornaria atípico. Ressalte-se que, levando em conta que o Exame de Ordem busca o conhecimento técnico e acadêmico dos examinandos, não serão pontuadas respostas que tragam teses contraditórias. Assim, a resposta indicativa de qualquer outra espécie de erro (seja acidental, de tipo permissivo ou de proibição) implica na impossibilidade de pontuação, estando, a questão, maculada em sua integralidade. Entende-se por tese contraditória aquelas que elencam diversas modalidades de erro, ainda que uma delas seja a correta. Também com o fim de privilegiar o raciocínio e a demonstração de conhecimento, a mera indicação da consequência correta (atipicidade do fato), dissociada da argumentação pertinente e identificação do instituto aplicável ao caso, não será passível de pontuação. Do mesmo modo, não será pontuada a mera indicação do dispositivo legal, qual seja, o art. 20, caput, do CP. 5) QUESTÃO 1 – V EXAME Antônio, pai de um jovem hipossuficiente preso em flagrante delito, recebe de um serventuário do Poder Judiciário Estadual a informação de que Jorge, defensor público criminal com atribuição para representar o seu filho, solicitara a quantia de dois mil reais para defendê-lo adequadamente. Indignado, Antônio, sem averiguar a fundo a informação, mas confiando na palavra do serventuário, escreve um texto reproduzindo a acusação e o entrega ao juiz titular da vara criminal em que Jorge trabalha como defensor público. Ao tomar conhecimento do ocorrido, Jorge apresenta uma gravação em vídeo da entrevista que fizera com o filho de Antônio, na qual fica evidenciado que jamais solicitara qualquer quantia para defendê-lo, e representa criminalmente pelo fato. O Ministério Público oferece denúncia perante o Juizado Especial Criminal, atribuindo a Antônio o cometimento do crime de calúnia, praticado contra funcionário público em razão de suas funções, nada mencionando acerca dos benefícios previstos na Lei nº 9.099/95. Designada Audiência de Instrução e Julgamento, recebida a denúncia, ouvidas as testemunhas, interrogado o réu e apresentadas as alegações orais pelo Ministério Público, na qual pugnou pela condenação na forma inicial, o magistrado concede a palavra à Vossa Senhoria para apresentar alegações finais orais. Em relação à situação anterior, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso: A) O Juizado Especial Criminal é competente para apreciar o fato em tela? (Valor: 0,30) 97 B) Antônio faz jus a algum benefício da Lei nº 9.099/95? Em caso afirmativo, qual(is)? (Valor: 0,30) C) Antônio praticou crime? Em caso afirmativo, qual? Em caso negativo, por que razão? (Valor: 0,65) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. GABARITO COMENTADO A) Não, pois, de acordo com o art. 141, II, do CP, quando a ofensa for praticada contra funcionário público em razão de suas funções, a pena será aumentada de um terço, o que faz com que a sanção máxima abstratamente cominada seja superior a dois anos. B) Sim, suspensão condicional do processo, nos termos do art. 89 da Lei nº 9.099/1995. C) Não. Antônio agiu em erro de tipo vencível/inescusável. Conforme previsão do art. 20 do CP, nessa hipótese, o agente somente responderá pelo crime se for admitida a punição a título culposo, o que não é o caso, pois o crime em comento não admite a modalidade culposa. Vale lembrar que não houve dolo na conduta de Antônio. 6) QUESTÃO 2 – X EXAME Maria, mulher solteira de 40 anos, mora no Bairro Paciência, na cidade Esperança. Por conta de seucomportamento, sempre foi alvo de comentários maldosos dos vizinhos; alguns até chegavam a afirmar que ela tinha “cara de quem cometeu crime”. Não obstante tais comentários, nunca houve prova de qualquer das histórias contadas, mas o fato é que Maria é conhecida na localidade onde mora por ter má índole, já que sempre arruma brigas e inimizades. Certo dia, com raiva de sua vizinha Josefa, Maria resolve quebrar a janela da residência desta. Para tanto, espera chegar a hora em que sabia que Josefa não estaria em casa e, após olhar em volta para ter certeza de que ninguém a observava, arremessa com força, na direção da casa da vizinha, um enorme tijolo. Ocorre que Josefa, naquele dia, não havia saído de casa e o tijolo, após quebrar a vidraça, atinge também sua nuca. Josefa falece instantaneamente. 98 Nesse sentido, tendo por base apenas as informações descritas no enunciado, responda justificadamente: É correto afirmar que Maria deve responder por homicídio doloso consumado? (Valor: 1,25). Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. GABARITO COMENTADO Na presente questão cabe ao examinando identificar o instituto por ela versado, qual seja, o erro de tipo acidental, na modalidade do resultado diverso do pretendido, previsto no art. 74 do CP. Referido instituto traz como consequência, para o caso sob exame, a punição do agente por crime doloso em relação ao objetivo por ele almejado (que no caso foi o crime de dano previsto no art. 163 do CP), bem como a sua punição na modalidade culposa pelo resultado não intencional por ele alcançado, desde que o tal delito admita a modalidade culposa. Nesse sentido, observa-se que o outro resultado alcançado foi o crime de homicídio, que admite a modalidade culposa, de acordo com o art. 121, § 3º, do CP. Sendo assim, uma vez tendo, Maria, alcançado os dois resultados, deverá ser punida por ambos (dano doloso e homicídio culposo) na forma do art. 70 do CP, ou seja, em concurso formal próprio, que determina a majoração da pena do crime mais grave de 1/6 até 1/2. 99no sentido de verificar se é reincidente ou criminoso habitual. Quanto ao agente reincidente, os tribunais divergem sobre a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância. O STJ considera inaplicável o princípio da insignificância, salvo quando as instâncias ordinárias, analisando o caso concreto, entenderem ser recomendável a incidência dessa causa de exclusão da tipicidade. Nesse particular, o STJ confirmou entendimento do Tribunal de 2º grau que manteve decisão de rejeição da denúncia oferecida contra réu reincidente, atentando para as circunstâncias do caso concreto3. Verifica-se, pois, que, como regra, não se aplica o princípio da insignificância ao réu reincidente, salvo em casos excepcionais, atentando-se às particularidades do caso concreto. Assim, a reincidência do acusado não é motivo suficiente para afastar a aplicação do princípio da insignificância, ressalvados casos específicos, que dependem da análise do contexto fático concreto. 3 STJ, AgRg no REsp nº 1804399/SP, rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., j. 4-6-2019. 10 Em relação ao multirreincidente4 e ao reincidente específico, o STF5 e o STJ6 consideram inaplicável o princípio da insignificância, diante da maior reprovabilidade da sua conduta. b) Em relação à vítima A aplicação do princípio da insignificância depende, ainda, das condições e características pessoais da própria vítima. Além da presença dos vetores objetivos, deve-se verificar o contexto que envolve a vítima, como, por exemplo, sua condição econômica, a importância que o bem jurídico representa para ela, o valor sentimental, as circunstâncias e as consequências do delito. Com efeito, o que pode ser irrelevante para uma determinada vítima, pode não ser em relação à outra. A extensão do prejuízo provocado pela subtração de um botijão de gás de uma residência ocupada por família de excelente condição financeira não é, evidentemente, a mesma em relação a uma família com modesta condição econômica, que reside num acanhado imóvel e cuja renda mensal não supera o valor de um salário-mínimo. Em relação à família dotada de boa condição econômica, pode-se aventar a incidência do princípio da insignificância, ao passo que em relação à família com situação financeira modesta não parece razoável considerar a hipótese de crime de bagatela. Portanto, não há que se falar em reduzido grau de reprovabilidade da conduta do agente, se o valor do bem jurídico atacado não é irrisório diante das condições econômicas da vítima7 . Da mesma forma, ainda que inexpressivo economicamente, o valor sentimental em relação ao bem jurídico atacado também é considerado para aquilatar a aplicação do princípio da insignificância, uma vez que, nesse caso, o dano suportado pela vítima ganha maior relevância do que qualquer quantia pecuniária. Esse é o entendimento do STF8 e do STJ9. 4 STJ, AgRg no AgREsp nº 1307157/MG, rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., j. 21-8-2018. 5 STF, HC nº 153980 AgRg/MS, rel. Min. Dias Toffoli, 2ª T., j. 18-5-2018. 6 6. STJ, AgRg no REsp nº 1427296/MG, rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª T., j. 4-6-2019. 7 STJ, AgRg no AgREsp nº 813662/DF, rel. Min. Gurgel de Faria, 5ª T., j. 23-2-2016. 8 STF, HC nº 111017/RS, rel. Min. Ayres Britto, 2ª T., j. 7-2-2012. 9 STJ, HC nº 60949/PE, rel. Min. Laurita Vaz, 5ª T., j. 20-11-2007. 11 1.3. Princípio da insignificância em espécie Embora seja mais frequente em relação a crimes contra o patrimônio, a aplicação do princípio da insignificância não se limita a crimes dessa natureza, podendo, se preenchidos os requisitos, incidir sobre qualquer crime. A maior incidência do princípio da insignificância ocorre, inexoravelmente, em relação ao crime de furto, já que praticado sem violência ou grave ameaça, atingindo, não raras vezes, objeto de valor ínfimo. A propósito, nesse aspecto, convém registrar que não há um valor máximo limitando a incidência do princípio da insignificância, pois, como dito, além do valor do objeto do crime, deve-se, ainda, considerar as condições financeiras da vítima, a importância do objeto material, bem com as circunstâncias do caso concreto. Não obstante isso, em que pese não constituir parâmetro absoluto, o STJ considera aplicável o princípio da insignificância, se presentes os demais requisitos, quando o valor do objeto material atingido não superar o equivalente a 10% do salário-mínimo vigente à época do fato10, rejeitando, por exemplo, a incidência do crime de bagatela em relação a furto de objeto com valor equivalente a 23% do salário-mínimo vigente à época do fato11. Não há espaço, à evidência, para aplicação do princípio da insignificância em relação a crimes hediondos ou equiparados, uma vez que o legislador conferiu maior rigor ao tratamento dado a agentes acusados por tais delitos, reconhecendo a gravidade das condutas, sendo, pois, incompatível com reduzida reprovabilidade e grau de ofensividade ao bem jurídico inerentes ao crime bagatelar. Alguns delitos, por suas peculiaridades, merecem especial análise acerca da incidência ou não do princípio da insignificância. a) Crimes praticados com violência ou grave ameaça à pessoa É pacífico o entendimento no sentido da inaplicabilidade do princípio da insignificância em relação a crimes de roubo e a outros delitos praticados com violência ou grave ameaça à pessoa. 10 STJ, AgRg no RHC nº 106838/MG, rel. Min. Laurita Vaz, 6ª T., j. 6-6-2019. 11 STJ, AgRg no HC nº 502019/SC, rel. Min. Rogério Schietti Cruz, 6ª T., j. 6-6-2019. 12 Isso porque, ainda que irrelevante o valor do objeto material atacado, não se mostra razoável considerar insignificante a conduta do agente que emprega violência ou grave ameaça contra a vítima. Ao contrário, tal conduta revela maior periculosidade do agente, bem como elevado grau de ofensividade e reprovabilidade, afastando, por absoluto, a aplicação do princípio da insignificância. Prevalece o entendimento, no entanto, da possibilidade da incidência do princípio da insignificância nos casos de lesão corporal leve e lesão corporal culposa, desde que a conduta gere lesões absolutamente ínfimas, como, por exemplo, pequenas escoriações, sem maior lesividade, salvo se praticado no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher. b) Crimes contra a fé pública Os crimes contra a fé pública estão previstos nos arts. 289 a 311-A do CP. O bem jurídico tutelado é a legitimidade e a credibilidade depositada nos documentos, sinais e símbolos que registram as relações jurídicas celebradas na sociedade organizada. Logo, diante da importância do bem jurídico tutelado, não se mostra razoável nem proporcional admitir a incidência do princípio da insignificância em relação aos crimes contra a fé pública. De fato, julgando crime de falsificação de documento público (CP, art. 297), o STJ considerou inaplicável o princípio da insignificância aos delitos cujo bem tutelado seja a fé pública12 . c) Crimes contra a administração pública Sedimentando discussão doutrinária e jurisprudencial, o STJ pacificou entendimento no sentido da inaplicabilidade do princípio da insignificância nos crimes praticados contra a administração pública, já que, independentemente do valor material do bem atingido, busca-se, no caso, tutelar a moralidade administrativa, insuscetível de mensuração econômica. É o que se extrai da Súmula nº 599 do STJ, segundo a qual “o princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a Administração Pública”. d) Crime de descaminho e crimes contra a ordem tributária 12 STJ, AgRg no AgREsp nº 1131701/SP, rel. Min. Rogério Schietti Cruz, 6ª T., j. 17-4-2018. 13 Não obstante estar inserido no capítulo dos crimes contra a administração pública, o crime de descaminho (CP, art. 334) também ofende a ordem tributária, já que o agente ilude, no todo ou em parte, o pagamento de tributo devido pela entrada ou saídade mercadoria do País. Em razão disso, verifica-se a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância ao crime de descaminho, apesar do disposto na Súmula nº 599 do STJ. Ainda que possa parecer estranho num primeiro momento, sobretudo por força do valor considerado como parâmetro, admite-se a incidência do princípio da insignificância no crime de descaminho quando o valor do tributo devido não for superior a R$ 20.000,00 (vinte mil reais). De fato, nos termos do art. 20 da Lei nº 10.522/2002, atualizado pelas Portarias do Ministério da Fazenda nos 75/2012 e 130/2012, serão arquivados, sem baixa na distribuição, por meio de requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos em Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior àquele estabelecido em ato do Procurador-Geral da Fazenda Nacional. A Port. nº 130/2012, que alterou a Port. nº 75/2012, prevê que o Procurador da Fazenda Nacional requererá o arquivamento, sem baixa na distribuição, das execuções fiscais de débitos com a Fazenda Nacional, cujo valor consolidado seja igual ou inferior a R$ 20.000,00 (vinte mil reais), desde que não conste dos autos garantia, integral ou parcial, útil à satisfação do crédito. Em outras palavras, se o valor do tributo iludido pelo agente for igual ou inferior a R$ 20.000,00 (vinte mil reais), poderá, a princípio, ser aplicado o princípio da insignificância. Isso porque, se a Fazenda Nacional expressamente considera irrelevante cobrar tributo cujo valor não supera R$ 20.000,00, sendo, pois, insignificante na esfera fiscal, também será, na ótica dos Tribunais Superiores, insignificante na esfera penal. Esse é o entendimento adotado pelo STJ e pelo STF. Todavia, o princípio da insignificância em relação ao crime de descaminho não é aplicado de forma indiscriminada. 14 O limite previsto na Lei nº 10.522/2002, atualizado pelas Portarias nos 75/2012 e 130/2012, ambas do Ministério da Fazenda, para aplicação do princípio da insignificância somente é aplicado em relação a tributos federais13. Não se aplica, pois, aos tributos estaduais e municipais; primeiro, porque tais tributos não estão abrangidos pela Lei nº 10.522/2002, que trata de tributos federais; segundo, porque a lesão jurídica provocada pela elisão fiscal pode ser mais expressiva entre os entes federativos da esfera estadual e municipal. Além disso, não se admite a aplicação do princípio da insignificância quando constatada a habitualidade delitiva nos crimes de descaminho, configurada tanto pela multiplicidade de procedimentos administrativos quanto por ações penais ou inquéritos policiais em curso14. e) Crime de contrabando O crime de contrabando, previsto no art. 334-A do CP, consiste em importar ou exportar mercadoria proibida. A prática do crime de contrabando não atinge unicamente o erário público, mas também outros bens jurídicos, que, por sua relevância, não permitem a aplicação do princípio da insignificância, tais como a saúde pública e a moralidade administrativa. Além disso, a conduta do agente que importa ou exporta mercadoria classificada como proibida ou ilícita com grau maior grau de reprovabilidade, não se coaduna, portanto, com os vetores que autorizam o princípio da insignificância. Todavia, o Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento no sentido de que "O princípio da insignificância é aplicável ao crime de contrabando de cigarros quando a quantidade apreendida não ultrapassar 1.000 (mil) maços, seja pela diminuta reprovabilidade da conduta, seja pela necessidade de se dar efetividade à repressão ao contrabando de vulto, excetuada a hipótese de reiteração da conduta, circunstância apta a indicar maior reprovabilidade e periculosidade social da ação". f) Crimes na Lei de Drogas – Lei nº 11.343/2006 A Lei de Drogas tutela a saúde pública. São crimes de perigo abstrato ou presumido, sendo, por isso, dispensável a comprovação do efetivo risco ao bem jurídico tutelado. Em relação ao crime de tráfico de drogas, delito equiparado a hediondo, não se discute a 13 STJ, AgRg no REsp nº 1259739/SP, rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª T., j. 30-5-2019. 14 STJ, AgRg no REsp nº 1834566/PR, rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª T., j. 3-3-2020. 15 inaplicabilidade do princípio da insignificância, diante do tratamento mais severo conferido pelo legislador aos delitos dessa natureza. Todavia, em relação ao delito de posse de drogas para consumo pessoal (Lei nº 11.343/2006, art. 28) há divergência acerca da aplicabilidade ou não do princípio da insignificância. O STJ, por sua 5ª Turma, adota o entendimento no sentido de que a conduta de posse de drogas para consumo pessoal está tipificada na Lei de Drogas, que, na sua íntegra, tutela a saúde pública, bem jurídico que, a evidência, não pode ser considerado ínfimo. Além disso, o crime do art. 28 da Lei nº 11.343/2006 é de perigo abstrato, sendo irrelevante a pequena quantidade de substância entorpecente apreendida em poder do agente15. De outro lado, o STF já admitiu o princípio da insignificância em favor de agente condenado por portar 0,6 g de maconha16. g) Violência doméstica ou familiar contra a mulher Diante da relevância do bem jurídico protegido e da natureza protetiva da Lei nº 11.340/2006 não se mostra razoável ou proporcional admitir a incidência do princípio da insignificância no contexto de violência doméstica ou familiar contra a mulher, nem mesmo na hipótese de reconciliação do casal. É o que se extrai da Súmula nº 589 do STJ, segundo a qual: “É inaplicável o princípio da insignificância nos crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações domésticas”. h) Posse e porte ilegal de munição Nos termos dos arts. 14 e 16, ambos da Lei nº 10.826/2003, constitui crime possuir, manter sob sua guarda, portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar. 15 STJ, AgInt no HC nº 372555/ES, rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., j. 15-8-2017. 16 STF, HC nº 110.475/SC, rel. Min. Dias Toffoli, 1ª T., j. 14-2- 2012. 16 Os crimes de posse ou porte ilegal de munição incidem mesmo que desacompanhada de arma de fogo, já que se trata de crime de mera conduta e de perigo abstrato. A inviabilidade do pronto uso da munição, por estar desacompanhada da arma, não desnatura o delito. Isso não significa a impossibilidade do reconhecimento, em situações excepcionais, do princípio da insignificância. Com efeito, admite- se a incidência do princípio da insignificância quando se tratar de posse de pequena quantidade de munição, desacompanhada de armamento capaz de deflagrá-la, uma vez que ambas as circunstâncias conjugadas denotam a inexpressividade da lesão jurídica provocada, bem como a diminuta ofensividade ao bem jurídico tutelado. Nesse contexto, o STJ considerou a incidência do princípio da insignificância ao agente flagrado na posse de dois cartuchos de calibre .32, desacompanhados de arma de fogo17 . O STF, por sua vez, reconheceu o princípio da insignificância em relação à conduta de portar, sem autorização legal, uma munição de uso proibido, consistente num cartucho calibre 0.4018 , Por outro lado, não se aplica o princípio da insignificância na hipótese de ser apreendida razoável quantidade de munições, como, por exemplo, 18 no total, sendo 5 projéteis de calibre .38 e 13 de calibre .38019 . 1.4. Como pode cair O princípio da insignificância já caiu como tese de peça e também em questões dissertativas. Por se tratar de causa de exclusão da tipicidade material, a tese envolvendo o princípio da insignificância ensejará a absolviçãodo acusado. • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP. • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP. 17 STJ, HC nº 484121/MG, rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., j. 16-5-2019. 18 STF, HC nº 154390/SC, rel. Min. Dias Toffoli, 1ª T., j. 17-4-2018. 19 STJ, AgRg no REsp nº 1915047/RJ, rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª T., j. 9-3-2021. 17 Obs.: Deixamos de mencionar a absolvição sumária do artigo 415 do CPP, porque está relacionada a crimes contra a vida, sendo, por isso, incabível o princípio da insignificância nesse caso. 1.5. Exercícios para resolver após a aula 1) QUESTÃO 4 – OAB FGV – XXX Exame – 2019-3 Maria foi denunciada pela suposta prática do crime de descaminho, tendo em vista que teria deixado de recolher impostos que totalizavam R$ 500,00 (quinhentos reais) pela saída de mercadoria, fato constatado graças ao lançamento definitivo realizado pela Administração Pública. Considerando que constava da Folha de Antecedentes Criminais de Maria outro processo pela suposta prática de crime de roubo, inclusive estando Maria atualmente presa em razão dessa outra ação penal, o Ministério Público deixou de oferecer proposta de suspensão condicional do processo. Após a instrução criminal em que foram observadas as formalidades legais, sendo Maria assistida pela Defensoria Pública, foi a ré condenada nos termos da denúncia. A pena aplicada foi a mínima prevista para o delito, a ser cumprida em regime inicial aberto, substituída por restritiva de direitos. Maria foi intimada da sentença através de edital, pois não localizada no endereço constante do processo. A família de Maria, ao tomar conhecimento do teor da sentença, procura você, na condição de advogado(a) para prestar esclarecimentos técnicos. Informa estar preocupada com o prazo recursal, já que Maria ainda não tinha conhecimento da condenação, pois permanecia presa. Na condição de advogado(a), esclareça os seguintes questionamentos formulados pela família da ré. A) Existe argumento de direito processual para questionar a intimação de Maria do teor da sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,60) B) Qual argumento de direito material poderá ser apresentado, em eventual recurso, em busca da absolvição de Maria? Justifique. (Valor: 0,65) 18 Iter criminis Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 2.1. Conceito Iter criminis significa literalmente “caminho do crime”. Trata-se do caminho percorrido pelo agente para a prática da infração penal, passando pela ideação até chegar à consumação. Em síntese, iter criminis é o conjunto de fases pelas quais passa o delito. Compõe-se de uma fase interna, na qual o agente representa mentalmente a prática delituosa, bem como de uma fase externa, em que o agente exterioriza a sua conduta, colocando em prática a ideia criminosa, praticando atos preparatórios e executórios até alcançar a consumação. O iter criminis, pois, é composto pelas seguintes fases. • Fase interna: cogitação; • Fase externa: atos preparatórios, execução e consumação. Convém sinalar que o exaurimento não integra o iter criminis, já que ocorre após a integralização da atividade criminosa. Constitui, na verdade, a atividade posterior à consumação do delito, consistente, não raras vezes, no proveito da atividade criminosa, como se fosse uma espécie de “plus”, podendo, ainda, constituir nos casos expressamente previstos em lei, qualificadora ou causa de aumento de pena. Assim, o fato de o agente vender o bem móvel subtraído caracteriza o exaurimento do crime de furto, já esgotado o iter criminis com o desapossamento do objeto. No crime de corrupção passiva (CP, art. 317), o recebimento da vantagem indevida solicitada caracteriza o exaurimento do crime, já que o crime se consumou com a solicitação de tal vantagem. Cogitação Atos preparatórios Execução Consumação 19 2.2. Cogitação O primeiro momento do iter criminis é a chamada cogitatio. O agente idealiza internamente a atividade criminosa. Elabora mentalmente a infração penal, delibera sobre o desenvolvimento da conduta e, por fim, decide praticar a infração penal. Toda essa representação ainda se encontra no plano interno do agente, ou seja, ainda não há exteriorização de nenhum ato. É exatamente por isso que a fase da cogitação não é punível. De fato, como ainda está no plano interno do agente, não há ainda qualquer violação a um bem jurídico, razão pela qual não incidem as normas de Direito Penal. Em outras palavras, na fase da cogitação não há falar em crime, nem mesmo na forma tentada, já que, para tanto, deve haver, ao menos, o início da execução do delito para caracterizar a infração penal. 2.3 Atos preparatórios Os atos preparatórios consistem no conjunto de atos voltados a concretizar a infração penal. O agente passa da cogitação para a exteriorização da sua atividade criminosa, buscando, previamente ao início da execução, os elementos necessários para o desenvolvimento da conduta delituosa. É a partir dos atos preparatórios que o agente começa a materializar, ou seja, exteriorizar sua busca pela consumação da infração penal. Para a prática do crime de homicídio, a aquisição de uma arma constitui mero ato preparatório. Da mesma forma, o estudo do local do crime, buscando identificar a melhor hora e forma de ingressar no ambiente, constitui atos preparatórios do crime de furto. Os atos preparatórios, via de regra, não são puníveis, nem na forma tentada, uma vez que, nos termos do art. 14, II, do CP, afigura-se necessário o início da execução do delito, com a realização da conduta nuclear descrita no tipo penal. Em outras palavras, via de regra, não constituem crime. Todavia, em casos excepcionais, o legislador descreve atos que na sua concepção seriam preparatórios como delitos autônomos. São os chamados crimes-obstáculo. Nesses casos, o ato preparatório de um determinado delito é considerado pelo legislador um crime autônomo e independente, tratando-o, na situação específica, como verdadeiro ato executório. 20 A associação de três ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes, constitui crime autônomo (CP, art. 288), ainda que nenhum crime seja praticado. Da mesma forma, o legislador considera crime autônomo atos preparatórios para a prática do crime de moeda falsa. De fato, nos termos do art. 291 do CP, constitui crime fabricar, adquirir, fornecer, a título oneroso ou gratuito, possuir ou guardar maquinismo, aparelho, instrumento ou qualquer objeto especialmente destinado à falsificação de moeda, ainda que nenhuma moeda tenha sido falsificada. O art. 5º da Lei nº 13.260/2016 prevê conduta criminosa do agente que realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito, ainda que nenhum ato executório seja realizado. 2.4. Execução Idealizada a infração penal e após realizar os atos preparatórios, o agente passa à fase de execução do delito, com a efetiva agressão ao bem jurídico tutelado. O agente passa a desenvolver conduta voltada a realizar o verbo nuclear do tipo. A partir dos atos executórios, o fato passa a ser punível, ao menos na forma tentada. Isso porque o próprio art. 14, II, do CP, atrelou a tentativa ao início da execução do crime, condicionando sua punibilidade ao início da prática de atos executórios. 2.5. Consumação Nos termos do art. 14, I, do CP, diz-se que o crime é consumado “quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal”. É o tipo penal integralmente realizado, ou seja, quando o fato praticado pelo agente se enquadra plena- mente no tipo penal abstrato. É o elemento culminante do iter criminis. É o momento de conclusão do delito, reunindo todos os elementos que integram o tipo penal. Trata-se do crime perfeito ou completo, já quea conduta do agente atingiu a plenitude, culminando na concretização dos elementos que definem o tipo penal. Assim, quando o agente efetua disparo de arma de fogo contra a vítima, matando-a, terá consumado o delito de homicídio, pois integralizou todos os elementos que compõem sua definição legal, consistente em “matar alguém”. Todavia, a definição de crime consumado revela uma complexidade maior do que o texto legal aparenta. Isso porque, dependendo da classificação doutrinária e das características 21 próprias, as infrações penais podem ter um momento consumativo diverso. Em síntese, nem todas as infrações penais possuem o mesmo momento consumativo. 2.6. Como pode cair A cogitação e os atos preparatórios não constituem crime. Logo, trata-se de tese absolutória20 . 20 Foi o que aconteceu na peça prático-profissional do XXVI Exame da OAB. • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 22 23 Desistência voluntária e arrependimento eficaz Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 3.1. Introdução A desistência voluntária e o arrependimento eficaz estão previstos no art. 15 do CP, segundo o qual “O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados”. Eis a fundamental diferença em relação à tentativa: enquanto na tentativa há início da execução do delito e não consumação por circunstâncias alheias à vontade do agente, na desistência voluntária e arrependimento eficaz a consumação não ocorre por vontade do próprio agente. Em outras palavras, a tentativa e a desistência voluntária ou arrependimento eficaz são institutos absolutamente incompatíveis. Se reconhecido o crime tentado, afasta-se a possibilidade de desistência voluntária e arrependimento eficaz; se reconhecida a desistência voluntária ou arrependimento eficaz, afastada estará a possibilidade do reconhecimento do crime na modalidade tentada. 3.2. Desistência voluntária Na desistência voluntária, o agente dá início à execução do delito, mas, de modo voluntário, antes mesmo de esgotar os meios que tinha à sua disposição, interrompe os atos executórios, não alcançando a consumação por vontade própria. A desistência voluntária se caracteriza por um comportamento negativo do agente, que, após dar início à execução do delito, adota uma postura de abstenção, deixando, mesmo tendo a possibilidade, de prosseguir na execução do delito. Em outras palavras, iniciada a execução, o autor do ilícito, antes de esgotar os atos executórios, resolve, voluntariamente, não seguir adiante no comportamento delituoso. 24 Tomemos como exemplo a conduta do agente que, com a intenção homicida, desfere um disparo de arma de fogo contra a vítima, acertando-a em região não letal. Podendo prosseguir, já que tinha mais cinco balas no revólver, o agente resolve, por vontade própria, não efetuar mais disparos, deixando a vítima sobreviver. Indubitável que o agente deu início à execução do delito, mas não consumou o homicídio por vontade própria, já que adotou uma postura de abstenção, cessando a atividade executória antes de esgotar todos os meios que tinha à sua disposição. Trata-se, pois, de desistência voluntária, devendo o agente responder pelas lesões corporais causadas. Da mesma forma, incidirá a desistência voluntária na hipótese do agente que, após ingressar em residência alheia para o cometimento do furto, resolver adotar uma postura de abstenção, deixando voluntariamente o local sem nada subtrair. Trata-se de evidente hipótese de desistência voluntária, pois, embora tenha dado início à execução do furto, o agente, por vontade própria, cessou a atividade executória antes de esgotar sua potencialidade lesiva. Nesse caso, o agente responderá pelo crime de violação de domicílio (CP, art. 150), e não por tentativa de furto. 3.3. Arrependimento eficaz No arrependimento eficaz, o agente, após ter esgotado todos os meios à sua disposição para a consumação do delito, arrepende-se e, adotando uma postura ativa, impede que o resultado se produza. Diversamente do que ocorre na desistência voluntária, o arrependimento eficaz se caracteriza pelo fato de o agente, após esgotar os meios executórios, desenvolver uma nova atividade, a fim de evitar a consumação do delito. O agente esgota sua potencialidade lesiva, faz tudo que está ao seu alcance para consumar o delito, mas antes de alcançar o resultado inicialmente desejado, arrepende-se e adota um comportamento ativo para evitar a sua consumação. Em outras palavras, o arrependimento eficaz se dá após a execução, mas antes da consumação do crime. Tomemos como exemplo o agente que, com a intenção homicida, após efetuar disparos de arma de fogo contra a vítima utilizando todas as balas do revólver, arrepende- se e, adotando postura ativa, leva a vítima até o hospital, que, submetida a intervenção 25 cirúrgica exitosa, acaba sobrevivendo, embora tenha ficado gravemente ferida. Nesse caso, o agente não responderá pelo crime de tentativa de homicídio, mas por lesão corporal grave. Da mesma forma, agente que, com a intenção homicida, coloca veneno na bebida da vítima, mas, arrependido, desenvolve nova atividade entregando-lhe o antídoto, evitando, assim, a morte, embora tenha resultado lesão à sua saúde. Nesse caso, o agente não responderá pelo crime de tentativa de homicídio, mas por lesão corporal (leve, grave ou gravíssima, conforme o caso). Com a intenção de praticar um golpe, Wilson pagou diversos produtos comprados em determinada loja emitindo cheque sem provisão de fundos. Antes da data do vencimento do desconto do título de crédito, Wilson, arrependido, retornou à loja e trocou o cheque por dinheiro em espécie, tendo quitado o débito integralmente, evitando a consumação do delito de estelionato por meio de pagamento de cheque sem provisão de fundos, já que não houve obtenção de vantagem indevida em prejuízo da vítima. Nesse caso, o agente não responderá pelo crime de tentativa de estelionato, sendo o fato atípico, já que os atos anteriores não constituem crime. 3.4. Requisitos A desistência voluntária e o arrependimento eficaz exigem a presença dos seguintes requisitos: voluntariedade e eficácia. a) Voluntariedade A desistência voluntária e o arrependimento eficaz devem decorrer de atos voluntários, livres de coação física ou moral, ainda que não sejam espontâneos. De fato, não se afigura necessária a espontaneidade do ato de desistir ou se arrepender. Ou seja, não se exige que a ideia de interromper os atos executórios ou de se arrepender tenha se originado na mente do agente. Haverá, pois, desistência voluntária e arrependimento eficaz se o agente não consumou o delito influenciado por terceira pessoa. 26 Exemplo: Durante uma discussão, Wilson, inimigo declarado de Dudu, seu cunhado, golpeou a barriga de seu rival com uma faca, com intenção de matá-lo. Ocorre que, após o primeiro golpe, a pedido da sua irmã, Wilson percebeu a incorreção de seus atos e optou por não mais continuar golpeando Dudu, apesar de saber que aquela única facada não seria suficiente para matá-lo. Neste caso, Wilson não desistiu de prosseguir nos atos executórios de forma espontânea, mas a pedido de sua irmã, esposa da vítima. Embora não espontânea, a desistência foi voluntária, porque livre de coação física ou moral. Não importa a natureza do motivo que levou o agente a desistir de prosseguir na empreitada delituosa ou do seu arrependimento. Pode desistir ou arrepender-se por medo, piedade, decepção com a vantagem do crime, remorso,repugnância pela sua própria conduta, ou por qualquer outra razão. Exemplo: Wilson tem um desafeto a quem sempre faz ameaças de morte. O último encontro foi num bar. Portando um revólver carregado com seis munições, Wilson aproveitou para concretizar o desejo de matar seu oponente. Anunciou que iria matar seu desafeto e efetuou um disparo na sua perna. Neste momento, o desafeto suplica por sua vida. Wilson, sensível ao apelo da vítima, desiste de continuar disparando, afirma que não iria mais matar o rival e se retira do local. No caso, Wilson deixou de prosseguir na empreitada delituosa por piedade da vítima, caracterizando ainda assim a desistência voluntária. Em síntese, é irrelevante que o agente proceda por indulgência, comiseração, ou por motivos subalternos, egoísticos, desde que não tenha sido obstado por causas exteriores independentes de sua vontade. b) Eficácia Para que incidam os efeitos da desistência voluntária ou arrependimento eficaz, afigura- se imprescindível que não ocorra a consumação do delito. Ou seja, a conduta do agente, abstendo-se de prosseguir na empreitada delituosa, ou adotando postura para impedir o resultado, deve ser apta e eficaz para evitar a consumação do delito. 27 Se, conquanto tenha buscado evitar a produção do resultado, o crime alcançou a consumação, o agente responderá pelo delito desejado na sua forma consumada, já que a desistência ou arrependimento não foi eficaz. Imaginemos que Wilson, desejando matar João, efetua vários disparos contra a vítima, atingindo-a na região torácica. Arrependido, decide socorrer João, que, levado ao hospital, não resistiu aos ferimentos e acabou falecendo. Como o arrependimento não foi eficaz, uma vez que o resultado ocorreu, Wilson responderá pelo crime de homicídio consumado. Consideremos, ainda, a hipótese de agente desferir um disparo de arma de fogo contra a vítima, acertando-a na região torácica, mas desiste de prosseguir na execução do delito, mesmo tendo mais munição no revólver. A vítima é socorrida por populares e encaminhada ao hospital, mas não resiste aos ferimentos e acaba falecendo. Nesse caso, a desistência voluntária não foi eficaz, respondendo o agente pelo crime de homicídio consumado, ainda que tenha abandonado a empreitada delituosa. 3.5. Consequência Nos termos da parte final do art. 15 do CP, verificada hipótese de desistência voluntária ou arrependimento eficaz, não é possível imputação do crime na modalidade tentada, já que, como visto, há exclusão da tipicidade do crime inicialmente desejado, respondendo o agente pelos atos até então praticados, se típicos. Assim, no exemplo do agente que, com a intenção homicida, desfere um disparo de arma de fogo contra a vítima, acertando-a em região não letal, mas resolve, por vontade própria, não efetuar mais disparos, deixando a vítima sobreviver, não haverá tentativa de homicídio, devendo o agente responder pelos atos até então praticados, quais sejam, lesões corporais leves, graves ou gravíssimas, conforme o caso. Na hipótese do agente que, após ingressar em residência alheia para o cometimento do furto, resolveu interromper os atos executórios, deixando voluntariamente o local sem nada subtrair, não haverá tentativa de furto, mas crime de violação do domicílio (CP, art. 150), atos até então praticados. O agente que, com a intenção homicida, após efetuar disparos de arma de fogo contra a vítima utilizando todas as balas do revólver, arrepende-se e, adotando postura ativa, leva a vítima até o hospital, que, submetida a intervenção cirúrgica exitosa, acaba sobrevivendo, 28 embora tenha ficado gravemente ferida, não responderá pela tentativa de homicídio, mas pelo crime de lesão corporal grave. Da mesma forma, o agente que, com a intenção homicida, coloca veneno na bebida da vítima, mas, arrependido, desenvolve nova atividade entregando-lhe o antídoto, evitando, assim, a morte, embora tenha resultado lesão à sua saúde. O agente não responderá pelo crime de homicídio tentado, mas pelo crime de lesão corporal leve, grave ou gravíssima, conforme o caso. Como dito, o agente somente responderá pelos atos até então praticados se constituírem infração penal. Assim, se os fatos inicialmente praticados não se revestirem de tipicidade, o agente não responderá por qualquer delito, já que os fatos anteriores à desistência voluntária ou arrependimento eficaz não constituem crime. Wilson, com a intenção de obter vantagem indevida em prejuízo alheio, adquiriu diversos produtos, emitindo, como forma de pagamento, cheque sem provisão de fundos. Arrependido, retornou à loja antes da data prevista para o desconto da cártula e a trocou por dinheiro em espécie, quitando integralmente o débito, evitando, assim, a consumação do delito de estelionato por meio de pagamento de cheque sem provisão de fundos, já que não houve obtenção de vantagem indevida em prejuízo da vítima. No caso, diante do arrependimento eficaz, o agente não responderá pelo crime de estelionato inicialmente desejado, nem mesmo na forma tentada, devendo responder pelos atos até então praticados. Como, no caso, os atos anteriores não se enquadram em qualquer modelo legal de conduta proibida, o fato será atípico, não sendo o agente responsabilizado por crime algum. Imaginemos outro exemplo: Wilson, pretendendo praticar crime de peculato, em determinada noite, ingressa em repartição pública se valendo da senha de acesso que possuía em razão do cargo, com o objetivo de subtrair um computador da repartição. Enquanto se dirigia até a sala onde estava o computador, reflete sobre as consequências da sua conduta e a decepção que poderia causar à sua família, razão pela qual deixa o local sem nada subtrair. Nesse caso, Wilson deu início à execução do crime de peculato, mas, por vontade própria, não consumou o delito, devendo, por isso, responder pelos atos até então praticados. Como os atos praticados não configuram conduta típica, Wilson não será responsabilizado criminalmente. 29 3.6. Como pode cair Pode cair em questões e tese de peça, na forma de desclassificar do crime imputado como tentado, para aquele correspondente aos atos até então praticados. O Ministério Público oferece denúncia pelo crime de tentativa de homicídio, resultando lesões na vítima. Com a tese da desistência voluntária ou arrependimento eficaz, teremos a desclassificação para o crime de lesão corporal (leve, grave ou gravíssima, conforme o enunciado), nos termos do artigo 419 do CPP. O Ministério Público oferece denúncia pelo crime de tentativa de furto. Com a tese da desistência voluntária, teremos a desclassificação para o crime de violação de domicílio (CP, art. 150), crime de menor potencial ofensivo, e, portanto, da competência do Juizado Especial Criminal. Pode acontecer, ainda, de os atos praticados não se revestirem de tipicidade, ou seja, são fatos atípicos, como, por exemplo, o agente ingressar num estabelecimento comercial e desistir de subtrair qualquer objeto. Nesse caso, por se tratar de lugar com acesso ao público, não se enquadra em domicílio, não incidindo qualquer crime remanescente. Nesses casos: • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 30 3.7. Exercícios para resolver após a aula: 2) QUESTÃO 2 – IX EXAME – 2012-3 Wilson, extremamente embriagado, discute com seu amigo Junior na calçada de um bar já vazio pelo avançado da hora. A discussão torna-se acalorada e, com intenção de matar, Wilson desfere quinze facadas em Junior, todas na altura do abdômen. Todavia, ao ver o amigo gritando de dor e esvaindo-se em sangue, Wilson, desesperado,pega um táxi para levar Junior ao hospital. Lá chegando, o socorro é eficiente e Junior consegue recuperar-se das graves lesões sofridas. Analise o caso narrado e, com base apenas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) É cabível responsabilizar Wilson por tentativa de homicídio? (Valor: 0,65) B) Caso Junior, mesmo tendo sido socorrido, não se recuperasse das lesões e viesse a falecer no dia seguinte aos fatos, qual seria a responsabilidade jurídico-penal de Wilson? (Valor: 0,60) 31 Arrependimento posterior Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 4.1. Introdução Trata-se de causa obrigatória de diminuição da pena que incide quando o agente, responsável pelo crime praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa, repara o dano provocado ou restitui a coisa, desde que por ato voluntário do agente, até o recebimento da denúncia ou da queixa. Difere do arrependimento eficaz, porque o arrependimento é manifestado após a consumação do delito até o recebimento da denúncia. Por isso, chama-se arrependimento posterior. 4.2. Requisitos a) Crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa Nos termos do artigo 16 do Código Penal, cabe arrependimento posterior nos crimes praticados sem violência ou grave ameaça à pessoa. Não se restringe aos crimes contra o patrimônio, podendo ser aplicado a qualquer delito compatível com a reparação do dano decorrente da conduta do agente. Por isso, entende-se, por exemplo, possível a aplicação do arrependimento posterior no peculato doloso (CP, art. 312). Se a reparação do dano ou restituição da coisa foi realizada no contexto de crime praticado com violência ou grave ameaça, como o roubo, por exemplo, não incidirá o arrependimento posterior, podendo incidir a atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do CP. b) Reparação do dano ou restituição da coisa A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser voluntária, pessoal e integral. A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser realizada de modo voluntário. Não é necessário que seja espontâneo. Logo, pode ser por meio de conselho ou sugestão de terceiro, uma vez que o ato, embora não espontâneo, foi voluntário (aceitou o conselho ou sugestão porque quis). 32 A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser sempre integral, podendo, no entanto, ser parcial mediante concordância da vítima. A recusa do ofendido em aceitar a reparação do dano ou restituição da coisa não impede a redução da pena pelo arrependimento posterior. c) Até o recebimento da denúncia ou queixa A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser realizada até o recebimento da denúncia ou queixa. Trata-se de um limite temporal. Se a reparação do dano ou restituição da coisa ocorrer após o recebimento da denúncia ou da queixa, mas até sentença, aplica-se a atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do CP. O quadro abaixo ilustra os momentos de incidência dos institutos da desistência voluntária, arrependimento eficaz, arrependimento posterior e atenuante genérica. *Para todos verem: Esquema. Assim, se o agente subtraiu uma TV do seu local de trabalho e, ao chegar em casa com a coisa subtraída, é convencido pela esposa a devolvê-la, o que efetivamente vem a fazer no dia seguinte, mesmo quando o fato já havia sido registrado na delegacia, haverá arrependimento posterior, com reflexo na dosimetria da pena. 4.3. Critério para redução da pena O arrependimento posterior constitui causa de diminuição da pena, devendo ser observado o patamar de 1/3 a 2/3. Para definir o quantum da redução, o juiz deve considerar a celeridade da reparação do dano ou restituição da coisa, bem como o grau de voluntariedade do agente. Quanto mais célere e sincera a reparação do dano ou restituição da coisa, maior será a redução da pena; Durante a execução •Desistência voluntária Esgotada a execução •Arrependimento eficaz Consumação •Arrependimento posterior Recebimento da denúncia ou queixa •Atenuante genérica do art. 65, III, b, do CP 33 quanto mais distante do fato a reparação do dano ou a restituição da coisa e menos sincera, menor será a redução da pena. 4.4. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas, sobretudo para diferenciar da atenuante da reparação do dano. Na peça, trata-se de tese subsidiária, já que constitui causa de diminuição da pena. E, nesse caso, deve-se buscar a redução na fração máxima, ou seja, de 2/3. 4.5. Reparação do dano ou restituição da coisa em situações específicas a) Peculato culposo Nos termos do art. 312, § 3º, do CP, no caso do peculato culposo, se anterior à sentença transitada em julgado, a reparação é causa de extinção da punibilidade; se a reparação do dano for posterior à sentença irrecorrível, incidirá causa de diminuição da pena até metade da pena imposta. Se o peculato for doloso, a reparação antes do recebimento da denúncia ensejará a incidência do arrependimento posterior, tendo como consequência a diminuição da pena de 1/3 a 2/3, nos termos do art. 16 do CP. Se a reparação do dano ocorrer após o recebimento da denúncia, incidirá a atenuante genérica do art. 65, III, b, do CP. b) Estelionato mediante emissão de cheque sem fundos No caso da emissão de cheque sem suficiente provisão de fundos, a reparação do dano até o recebimento da denúncia impede o prosseguimento da ação penal, adotando-se uma interpretação a contrario sensu da Súmula nº 554 do STF. Nesse caso, segundo a doutrina, haveria uma causa supralegal de extinção da punibilidade, porque o delito de estelionato exige como pressuposto necessário à sua consumação o efetivo prejuízo da vítima 34 35 Crime Impossível Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 5.1. Introdução O crime impossível está previsto no art. 17 do CP. Trata-se de hipótese de tentativa não punível, verificando-se quando a ineficácia absoluta do meio empregado na execução do delito ou impropriedade absoluta do objeto sobre o qual recaiu a conduta do agente tornam impossível a consumação do crime. Embora o art. 17 do CP contenha a expressão “não se pune a tentativa”, o que poderia revelar eventual causa de isenção de pena, o crime impossível, na verdade, tem natureza jurídica de causa excludente da tipicidade. 5.2. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio O crime impossível por ineficácia absoluta do meio guarda relação com o meio de execução ou instrumento utilizado pelo agente, que, por sua natureza, será incapaz de produzir qual- quer resultado, ou seja, jamais alcançará a consumação do delito. Constitui crime impossível, por ineficácia absoluta do meio, a conduta da gestante que busca interromper a gravidez com a morte do feto, fazendo uso de substância que não tem efeito abortivo, como, por exemplo, chá de boldo. Da mesma forma, trata-se de crime impossível a conduta do agente que, penalmente imputável, pretendendo matar seu desafeto, aponta em sua direção arma de fogo que não realiza nenhum disparo em razão de defeito estrutural que, de forma absoluta, impede o seu funcionamento. Não será punida, ainda, a conduta do agente que portava arma de fogo inapta para efetuar qualquer disparo. É o que decidiu o STJ O crime impossível se caracteriza quando a ineficácia do meio for absoluta. A ineficácia do meio, quando relativa, leva à tentativa e não ao crime impossível, por aplicação da teoria objetiva temperada, adotada pelo Código Penal. Há ineficácia relativa do meio quando, não obstante eficaz à produção do resultado, este não ocorre por circunstâncias acidentais. É o caso do agente que pretende desfechar um tiro 36 de revólver contra a vítima, mas a arma nega o disparo, por defeito daquele projétil específico, embora os demais que constavam no tambor fossem aptos a efetuar disparos. 5.3. Crime impossívelpor impropriedade absoluta do objeto O crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto guarda relação com o objeto material, compreendendo a pessoa ou coisa, sobre o qual recai a conduta do agente. O objeto será absolutamente impróprio quando inexistente ao tempo da conduta do agente ou, ainda, pelas circunstâncias em que se encontra, afigura-se impossível a produção do resultado visado pelo agente. Tomemos como exemplo a conduta do agente, que, ao pretender matar a vítima, desfere vários disparos de arma de fogo contra o corpo dela, verificando-se, após, que, ao receber os disparos, já se encontrava morta, em decorrência de ter sofrido, momentos antes, fulminante ataque cardíaco. Nesse caso, é evidente a impropriedade absoluta do objeto, diante da impossibilidade de ceifar a vida de pessoa que já estava morta. Da mesma forma, caracteriza crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto a conduta da mulher que ingere substância abortiva, demonstrando-se, após, que jamais estivera grávida. Trata-se de fato atípico, pois não há objeto material a ser atingido (feto com vida intrauterina), não sendo possível, pois, punir a mulher nem mesmo a título de tentativa de aborto. Considera-se, ainda, crime impossível por impropriedade absoluta do objeto a conduta do punguista que pretende subtrair a carteira da vítima, que, ao tempo da ação, não trazia consigo nenhuma quantia ou bem com valor econômico. Se a impropriedade do objeto for relativa, o agente poderá ser responsabilizado criminalmente ao menos na modalidade tentada. Assim, se o punguista, buscando subtrair a carteira da vítima, coloca a mão no seu bolso direito, quando, na verdade, o objeto material se encontra no bolso esquerdo, haverá, à evidência, tentativa de furto, já que se trata de uma circunstância meramente acidental que não torna impossível o crime. A existência de qualquer bem com a vítima impede o reconhecimento da impropriedade absoluta do objeto. 37 5.4. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e como tese absolutória de peça. Por se tratar de causa de exclusão da tipicidade: • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 38 5.5. Exercícios para resolver após a aula: 3) QUESTÃO 3 – IX EXAME – 2012-3 Mário está sendo processado por tentativa de homicídio, uma vez que injetou substância venenosa em Luciano, com o objetivo de matá-lo. No curso do processo, uma amostra da referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando comprovado que, pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância não fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Mesmo assim, arguindo que o magistrado não estava adstrito ao laudo, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Mário nos exatos termos da denúncia. Com base apenas nos fatos apresentados, responda justificadamente: A) O magistrado deveria pronunciar Mário, impronunciá-lo ou absolvê-lo sumariamente? (Valor: 0,65) B) Caso Mário fosse pronunciado, qual seria o recurso cabível, o prazo de interposição e a quem deveria ser endereçado? (Valor: 0,60) 39 Erro de tipo Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 6.1. Erro de tipo essencial 6.1.1. Introdução Nos termos do artigo 20, caput, do Código Penal, caracteriza-se pelo erro sobre o elemento constitutivo do tipo penal. Antes de mais nada, mostra-se importante compreender o que significa a expressão elemento constitutivo do tipo penal. A figura típica (ou tipo legal) é composta de elementos específicos ou elementares. Cada expressão que compõe uma figura típica é um elemento que constitui o modelo legal de conduta proibida. Exemplo: O crime de homicídio (CP, art. 121) é composto pelos elementos “matar” “alguém”. “Matar” é um elemento constitutivo do tipo que define o crime de homicídio. “Alguém” é também um elemento constitutivo do tipo que define o crime de homicídio. Se o agente desenvolve conduta sem consciência em relação à realidade a que está inserido, adotando compreensão equivocada da situação de fato, pode-se cogitar da hipótese de erro de tipo. E R R O D E T IP O Essencial Invencível Exclusão DOLO Fato atípico CULPA Fato atípico Vencível Exclusão do dolo Responde por culpa, se tiver previsão legal Acidental Erro do objeto Erro sobre pessoa - art. 20, §3º, CP Aberratio ictus - art. 73, CP Aberratio criminis - art. 74, CP 40 Agora fica mais clara a compreensão de que o erro de tipo é aquele que recai sobre um dos elementos constitutivos do tipo penal. Há uma falsa percepção da realidade que cerca o agente. O agente desenvolve uma conduta sem saber que está praticando um fato típico. Não sabe, em função do erro, que está praticando uma conduta típica. Em outras palavras, o agente, diante do erro, desenvolve conduta sem a plena consciência da presença de um elemento do tipo penal. Se, diante da situação de fato, tivesse atingido essa consciência, não incorreria em erro, e, portanto, não teria praticado a conduta. Exemplo: Durante uma caçada, o agente percebe que há movimentação atrás de arbustos. Supondo ser um animal, atira em direção ao alvo, e, quando vai se certificar do produto da caça, verifica que, na realidade, atingiu uma pessoa, que estava escondida atrás dos arbustos. O contexto fático, na percepção do caçador, era a de que estava atirando contra um animal. Todavia, trata-se de uma falsa percepção da realidade, já que acabou atingindo uma pessoa. O agente errou sobre o elemento constitutivo “alguém”. Desenvolveu uma conduta sem saber que estava praticando um fato típico, ou seja, sem saber que estava incorrendo no tipo penal que descreve o crime de homicídio. Outro exemplo: Imaginemos a conduta de uma pessoa que se apossa do aparelho celular que estava sobre a mesa do escritório, supondo ser seu, quando, na realidade, era do colega de trabalho. A realidade do agente era a de que estava se apossando do seu aparelho celular. Todavia, trata-se de uma falsa percepção da realidade, pois se apossou do aparelho celular que pertence a outra pessoa. O agente não sabia que estava praticando uma conduta típica, pois errou sobre o elemento constitutivo “coisa alheia móvel” do tipo penal que define o crime de furto (CP, art. 155). Dessarte, no erro de tipo, o agente desenvolve conduta sem consciência e vontade em relação a todos os elementos que integram o tipo penal. Há desconformidade entre a realidade e a representação do sujeito que, se a conhecesse, não realizaria a conduta. Se o agente soubesse que era uma pessoa atrás dos arbustos, não teria efetuado o disparo; se o agente tivesse consciência que pertencia a outra pessoa, não teria se apossado do aparelho celular do colega. 41 O erro de tipo essencial pode ser invencível ou vencível. 6.1.2. Erro de tipo essencial invencível, inevitável ou escusável O erro de tipo invencível, inevitável ou escusável é aquele em que qualquer pessoa, nas mesmas circunstâncias, incorreria. É um erro escusável, que não seria evitado ainda que se tratasse de pessoa cautelosa e prudente. Exemplo: Tomemos como exemplo a conduta de um estudante que deixou seu aparelho celular carregando na tomada da sala de aula, saindo para comprar café na cantina da escola. Quando retorna, retira o aparelho celular da tomada, que, na verdade, não era o que havia deixado para carregar, mas outro idêntico, que pertencia à sua colega, que havia retirado o celular do agente da tomada e colocou o seu no lugar. Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois o estudante, por conta da falsa