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Olá, Alunos! 
 
Sejam bem-vindos! 
 
Esse material foi elaborado com muito carinho para que você 
possa absorver da melhor forma possível os conteúdos e se 
preparar para a sua 2ª fase, e deve ser utilizado de forma 
complementar junto com as aulas. 
 
Qualquer dúvida ficamos à disposição via plataforma 
“pergunte ao professor”. 
 
Lembre-se: o seu sonho também é o nosso! 
Bons estudos! Estamos com você até a sua aprovação! 
 
Com carinho, 
Equipe Ceisc ♥ 
 
 
 
 
3 
2ª FASE OAB | PENAL | 41º EXAME 
Direito Penal 
 
 SUMÁRIO 
Princípio da insignificância
1.1. Introdução ......................................................................................................7
1.2. Requisitos .......................................................................................................8
1.2.1. Requisitos objetivos.....................................................................................8
1.2.2. Requisitos Subjetivos ..................................................................................9
1.3. Princípio da insignificância em espécie ........................................................11
1.4. Como pode cair ............................................................................................16
1.5. Exercícios para resolver após a aula............................................................17 
Iter criminis
2.1. Conceito .......................................................................................................18
2.2. Cogitação .....................................................................................................19
2.3 Atos preparatórios .........................................................................................19
2.4. Execução ......................................................................................................20
2.5. Consumação ................................................................................................20
2.6. Como pode cair ............................................................................................21 
Desistência voluntária e arrependimento eficaz
3.1. Introdução ....................................................................................................23
3.2. Desistência voluntária ..................................................................................23
3.3. Arrependimento eficaz ..................................................................................24
3.4. Requisitos .....................................................................................................25
3.5. Consequência ..............................................................................................27
3.6. Como pode cair ............................................................................................29
3.7. Exercícios para resolver após a aula:...........................................................30
4 
Arrependimento posterior
4.1. Introdução ....................................................................................................31
4.2. Requisitos .....................................................................................................31
4.3. Critério para redução da pena ......................................................................32
4.4. Como pode cair ............................................................................................33
4.5. Reparação do dano ou restituição da coisa em situações específicas.........33 
Crime Impossível
5.1. Introdução ....................................................................................................35
5.2. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio ........................................35
5.3. Crime impossível por impropriedade absoluta do objeto ..............................36
5.4. Como pode cair ............................................................................................37
5.5. Exercícios para resolver após a aula:...........................................................38 
Erro de tipo
6.1. Erro de tipo essencial ...................................................................................39
6.1.1. Introdução .................................................................................................39
6.1.2. Erro de tipo essencial invencível, inevitável ou escusável ........................41
6.1.3. Erro de tipo essencial vencível, evitável ou inescusável ...........................42
6.1.4. Como pode cair .........................................................................................44
6.1.5. Exercícios para resolver após a aula: ........................................................45
6.2. Erro de tipo acidental....................................................................................46
6.2.1. Erro sobre o objeto ....................................................................................47
6.2.2. Erro sobre a pessoa ..................................................................................48
6.2.2.1. Consequência.........................................................................................48
6.2.2.2. Como pode cair ......................................................................................49
6.2.3.1. Introdução ..............................................................................................50
6.2.3.2. Aberratio ictus com unidade simples ......................................................51
6.2.3.3. Aberratio ictus com resultado duplo .......................................................52
6.2.3.4. Como pode cair ......................................................................................53
6.2.4. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) ................................53
6.2.4.1. Conceito .................................................................................................53
6.2.4.2. Espécies .................................................................................................54
6.2.4.3. Como pode cair ......................................................................................55
6.3. Exercícios para resolver após a aula:...........................................................56
5 
6.4. Erro Provocado Por Terceiro ........................................................................57 
Excludente de Ilicitude
7.1. Introdução ....................................................................................................59
7.2. Estado de necessidade ................................................................................59
7.2.1. Conceito ....................................................................................................59
7.2.2. Requisitos ..................................................................................................61
7.2.3. Causa de diminuição da pena ...................................................................64
7.2.4. Excesso .....................................................................................................64
7.3. Legítima defesa ............................................................................................64
7.3.1. Conceito ....................................................................................................64
7.3.2. Requisitos ..................................................................................................65
7.3.3. Excesso .....................................................................................................68
7.4. Estrito cumprimento do dever legal ..............................................................69
7.4.1. Conceito ....................................................................................................69
7.4.2. Destinatário da excludente ........................................................................70
7.4.3. Dever legal ................................................................................................70percepção da realidade (supõe ser seu o celular, já que idêntico), errou em 
relação ao elemento “alheio” do tipo que define o crime de furto. E trata-se de erro 
de tipo invencível, porque qualquer pessoa, nas circunstâncias, consideraria que era 
o seu aparelho celular que havia deixado carregando na tomada da sala de aula. 
Outro exemplo: Agente que se embrenha em mata fechada, distante de qual-
quer centro urbano, com rara circulação de pessoas. Em dado momento, visualiza 
algo se movimentando atrás da intensa vegetação. Supondo ser um animal, efetua 
um disparo. Ao verificar o produto da caça, constata, para sua surpresa, que não 
matou um animal, mas uma pessoa, que, por infeliz coincidência, também caçava no 
local. Trata-se de erro de tipo, pois o caçador, por conta da falsa percepção da 
realidade (supôs ser um animal), errou em relação ao elemento “alguém” do tipo que 
define o crime de homicídio. E, trata-se de erro de tipo invencível, porque qualquer 
pessoa, nas circunstâncias, consideraria que a movimentação atrás da vegetação 
seria a de um animal, não sendo possível supor, nem mesmo para uma pessoa mais 
cautelosa e diligente, que, na verdade, tratava-se de uma pessoa. 
 
Da mesma forma, imaginemos um rapaz, imputável, que conhece uma menina no 
interior de uma boate onde era vedada a entrada de pessoas menores de 18 anos. Os 
42 
dois, após algumas trocas de carícias, resolvem se dirigir a um motel e ali, de forma 
consentida, o jovem mantém relações sexuais com a menina. Após, o rapaz descobre que 
a moça, na verdade, tinha apenas 13 anos e que somente conseguira entrar na casa 
noturna mediante apresentação de carteira de identidade falsa. Trata-se de erro de tipo 
invencível ou inevitável, pois qualquer pessoa nas circunstâncias também consideraria 
que a menina não era menor de 14 anos de idade. 
O erro de tipo essencial invencível exclui o dolo e a culpa. Há exclusão do dolo, 
porque desenvolveu a conduta sem consciência e vontade na produção do resultado; há 
exclusão da culpa, diante da ausência de previsibilidade objetiva. 
Assim, se a peça for resposta à acusação, o pedido será de absolvição sumária, 
com base no artigo 397, III, do CPP. 
Se for memoriais ou apelação, em crimes que não envolvem procedimento do júri, 
o pedi- do será de absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP. 
Tratando-se de procedimento do júri, ao final da primeira fase, como em 
memoriais ou recurso em sentido estrito contra a decisão de pronúncia, o pedido será de 
absolvição sumária, com base no art. 415, III, do CPP. 
6.1.3. Erro de tipo essencial vencível, evitável ou inescusável 
É aquele erro em que uma pessoa mais cautelosa e prudente, nas mesmas 
circunstâncias, não incorreria. É um erro evitável, indesculpável ou inescusável, que uma 
pessoa, observando o dever de cuidado objetivo, teria evitado. 
Considerando o exemplo anterior, imaginemos que outro estudante, menos cauteloso, 
tivesse deixado seu celular carregando na tomada da sala de aula, saindo, após, para comprar 
café na cantina da escola. Quando retorna, retira um celular da tomada, que, na verdade, não 
era o seu aparelho, mas de sua colega, que havia colocado para carregar em substituição ao 
do estudante. Todavia, não obstante e troca dos aparelhos, o celular da colega, embora pa-
recido, era de outro modelo e marca, diferença que uma pessoa mais prudente teria percebido. 
Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois o estudante, por conta da falsa percepção da 
realidade (supõe ser seu o celular), errou em relação ao elemento “alheio” do tipo que define o 
crime de furto. No entanto, nesse caso, trata-se erro de tipo vencível, plenamente evitável 
porque uma pessoa mais diligente teria, nas circunstâncias, percebido que não era seu o 
aparelho celular que se apossou. 
43 
Suponha-se, ainda, que o agente resolve caçar em mata próxima à zona urbana, 
comumente frequentada por outras pessoas, e, ao avistar algo se movimentando atrás da 
vegetação, supondo ser uma animal, efetua um disparo de arma de fogo. Todavia, na verdade, 
não se tratava de um animal, mas de uma pessoa que também estava caçando no local. Trata-
se de erro de tipo, pois o caçador, por conta da falsa percepção da realidade (supôs ser um 
animal), errou em relação ao elemento “alguém” do tipo que define o crime de homicídio. E, 
nesse caso, trata-se de erro de tipo vencível, porque, nas circunstâncias, uma pessoa mais 
prudente adotaria as cautelas necessárias para se certificar que a movimentação atrás da 
vegetação seria a de um animal, e não de uma pessoa21. 
O erro vencível, evitável ou inescusável exclui o dolo, mas não a culpa. Se o erro 
pode- ria ter sido evitado com emprego de diligência mínima, pode-se responsabilizar o agente 
pelo crime culposo, desde que previsto em lei nessa modalidade. 
Assim, se o fato for punido na modalidade culposa, o agente responderá por crime 
culposo. Quando o tipo, entretanto, não admitir essa modalidade, a consequência será 
inexoravelmente a exclusão do crime, já que configurará fato atípico. 
No exemplo do caçador que praticava a caça em mata próxima à zona urbana, onde 
havia circulação de pessoas, o agente responderá pelo crime de homicídio culposo, já que se 
trata de erro de tipo vencível, que poderia ter sido evitado, se tivesse empregado um pouco 
mais de cautela. Isso porque o crime de homicídio prevê a modalidade culposa (CP, art. 121, § 
3º). 
Se não existir previsão do delito na modalidade culposa, o fato praticado mediante erro 
evitável será atípico. Assim, considerando o exemplo do jovem estudante que não empregou a 
necessária diligência para identificar se o aparelho celular que se apossou era seu ou não, 
restará afastado o dolo, permanecendo, no entanto, a possibilidade de responsabilização pelo 
crime na modalidade culposa, já que se trata de erro de tipo vencível. Todavia, como não existe 
furto na modalidade culposa, haverá exclusão do crime, já que o fato é atípico. 
 
21 Situação comumente apontada pela doutrina como exemplo de erro de tipo aconteceu em agosto de 2020 no 
interior de Minas Gerais, em que um caçador foi morto por amigo ao ser confundido com javali 
(https://g1.globo.com/mg/ sul-de-minas/noticia/2020/08/03). 
44 
6.1.4. Como pode cair 
 
O erro de tipo caiu como tese das peças 
dos Exames XXXIII, XXIII, XIV 
 
Pode cair em questões dissertativas e peça. 
Na peça, pode cair como tese absolutória ou, até mesmo, de desclassificação. 
Se for erro de tipo invencível/inevitável, ou, se vencível ou evitável, não existir o crime 
na modalidade culposa, o fato será atípico. 
Nesse caso: 
 
 
 
 
 
Na hipótese de erro de tipo vencível ou evitável, se existir previsão do delito na 
modalidade culposa, e o Ministério Público denunciar pelo crime na modalidade dolosa, pode-
se, ao desenvolver a tese do erro de tipo evitável, desclassificar para crime culposo. 
Imaginemos que o Ministério Público tenha oferecido denúncia pelo crime de homicídio 
doloso. Com a tese do erro de tipo vencível ou evitável, o candidato deverá desclassificar para 
homicídio culposo, com a remessa do processo ao juízo competente, nos termos do artigo 419 
do CPP. 
Nesse caso, em peça, será possível alegar, como tese principal, o erro de tipo invencível, 
buscando a absolvição sumária do réu (art. 415, III, do CPP), e, subsidiariamente, o erro de tipo 
vencível, buscando a desclassificação para homicídio culposo, nos termos do artigo 419 do 
CPP. Na peça, nesse caso, não há nada de tese contraditória. 
 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, III, do CPP 
• Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição 
sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 
45 
6.1.5. Exercícios para resolver após a aula: 
4) QUESTÃO 2 – VII EXAME– 2012-1 
Larissa, senhora aposentada de 60 anos, estava na rodoviária de sua cidade quando foi 
abordada por um jovem simpático e bem vestido. O jovem pediu-lhe que levasse, para a cidade 
de destino, uma caixa de medicamentos para um primo, que padecia de grave enfermidade. 
Inocente e seguindo seus preceitos religiosos, a Sra. Larissa atende ao rapaz: pega a caixa, 
entra no ônibus e segue viagem. Chegando ao local da entrega, a senhora é abordada por 
policiais que, ao abrirem a caixa de remédios, verificam a existência de 250 gramas de cocaína 
em seu interior. Atualmente, Larissa está sendo processada pelo crime de tráfico de 
entorpecente, previsto no art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. 
Considerando a situação anteriormente descrita e empregando os argumentos jurídicos 
apropriados e a fundamentação legal pertinente, responda: qual é a tese defensiva 
aplicável à Larissa? (Valor: 1,25) 
 
5) QUESTÃO 1 – V EXAME – 2011-2 
Antônio, pai de um jovem hipossuficiente preso em flagrante delito, recebe de um serventuário 
do Poder Judiciário Estadual a informação de que Jorge, defensor público criminal com 
atribuição para representar o seu filho, solicitara a quantia de dois mil reais para defendê-lo 
adequadamente. Indignado, Antônio, sem averiguar a fundo a informação, mas confiando na 
palavra do serventuário, escreve um texto reproduzindo a acusação e o entrega ao juiz titular 
da vara criminal em que Jorge trabalha como defensor público. Ao tomar conhecimento do 
ocorrido, Jorge apresenta uma gravação em vídeo da entrevista que fizera com o filho de 
Antônio, na qual fica evidenciado que jamais solicitara qualquer quantia para defendê-lo, e 
representa criminalmente pelo fato. O Ministério Público oferece denúncia perante o Juizado 
Especial Criminal, atribuindo a Antônio o cometimento do crime de calúnia, praticado contra 
funcionário público em razão de suas funções, nada mencionando acerca dos benefícios 
previstos na Lei nº 9.099/95. Designada Audiência de Instrução e Julgamento, recebida a 
denúncia, ouvidas as testemunhas, interrogado o réu e apresentadas as alegações orais pelo 
Ministério Público, na qual pugnou pela condenação na forma inicial, o magistrado concede a 
palavra à Vossa Senhoria para apresentar alegações finais orais. Em relação à situação 
46 
anterior, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a 
fundamentação legal pertinente ao caso: 
A) O Juizado Especial Criminal é competente para apreciar o fato em tela? (Valor: 0,30) 
B) Antônio faz jus a algum benefício da Lei nº 9.099/95? Em caso afirmativo, qual(is)? 
(Valor: 0,30) 
C) Antônio praticou crime? Em caso afirmativo, qual? Em caso negativo, por que razão? 
(Valor: 0,65) 
 
6.2. Erro de tipo acidental 
É o erro que incide sobre dados acidentais do delito, sobre circunstâncias (qualificadoras, 
agravantes e causas de aumento de pena) e elementos irrelevantes da conduta típica. Não 
recai, portanto, sobre elementos essenciais do delito. Logo, no erro de tipo acidental não há 
exclusão do dolo ou culpa do agente. 
No erro de tipo acidental, o agente tem consciência do caráter criminoso da sua conduta, 
mas, por erro meramente secundário, o resultado produzido não sai exatamente conforme o 
desejado. 
Em outras palavras, há um crime, embora com resultado não exatamente conforme o 
desejado, por conta de um erro acidental. 
Por isso, o erro de tipo acidental não afasta a responsabilização penal do agente. 
São casos de erro acidental: a) erro sobre o objeto; b) erro sobre pessoa; c) erro na 
execução (aberratio ictus); d) resultado diverso do pretendido (aberratio criminis); e) erro sobre 
o nexo causal. 
 
 
 
 
 
 
 
47 
Erro de tipo 
acidental
Erro sobre o 
objeto
Erro sobre a 
pessoa 
Art. 20, §3º, 
CP
Erro na 
execução 
(Aberratio 
ictus)
Art. 73, CP
Resultado 
diverso do 
pretendido 
(Aberratio 
Criminis)
Art. 74, CP
 
*Para todos verem: esquema. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6.2.1. Erro sobre o objeto 
Há erro sobre objeto quando o sujeito supõe que sua conduta recai sobre determinada 
coisa, mas, na realidade, incide sobre outra. 
É o caso de o sujeito subtrair farinha pensando ser açúcar. O erro é irrelevante, pois 
a tutela penal abrange a posse e a propriedade de qualquer coisa, pelo que o agente responde 
por furto. 
É o caso, ainda, de o sujeito desejar subtrair joia preciosa, mas apossar-se de objeto 
com valor reduzido, pois banhado a ouro. O erro é irrelevante, sendo meramente acidental, não 
influenciando a tipicidade da conduta do agente, pois subtraiu conscientemente coisa alheia 
móvel, errando, no entanto, quanto ao objeto. 
Todavia, boa parte da doutrina considera possível, verificando-se o caso concreto, a 
aplicação do princípio da insignificância, quando, por exemplo, o agente, primário e sem 
antecedentes criminais, subtrai a réplica de uma joia avaliada em R$ 10,00, supondo ser 
verdadeira e de elevado valor. 
 
48 
6.2.2. Erro sobre a pessoa 
Ocorre quando há erro de representação, em face do qual o sujeito atinge uma 
pessoa supondo tratar-se da que pretendia ofender. Pretende atingir certa pessoa, vindo a 
ofender outra inocente, pensando tratar-se da primeira. 
Nos termos do art. 20, § 3º, 2ª parte, reza o seguinte: “Não se consideram, neste caso” 
(erro sobre pessoa), “as condições ou qualidades da vítima, senão as de pessoa contra quem 
o agente queria praticar o crime”. Significa que no tocante ao crime cometido pelo sujeito, não 
devem ser considerados os dados subjetivos da pessoa diversa, mas sim os dados em relação 
à pessoa pretendida. 
No erro quanto à pessoa, a pessoa pretendida não corre risco de ser atingida, porque, 
em tese, não estava no local no momento dos fatos. Há um erro de representação, pois o agente 
se equivoca quanto à pessoa da vítima. 
 
Exemplo: 
Vinícius pretendia matar Dudu, camisa 10 e melhor jogador de futebol do time 
Energia, seu adversário no campeonato do bairro. No dia de um jogo do Energia, 
Vinicius vê, de costas, um jogador com a camisa 10 do time rival. Acreditando ser Dudu, 
efetua diversos disparos de arma de fogo, mas, na verdade, aquele que vestia a camisa 
10 era Ricardo, adolescente que substituiria Dudu naquele jogo. Em virtude dos 
disparos, Ricardo faleceu. Note-se que Vinicius pretendia matar Dudu, mas, por erro na 
identificação, acabou matando Ricardo. Trata-se, pois, de erro sobre a pessoa. 
O erro quanto à pessoa é considerado tão secundário que o próprio legislador cuidou de 
assentar que, embora tenha atingido pessoa diversa (vítima efetiva), o agente responderá como 
se tivesse atingido a pessoa pretendida (vítima virtual). 
 
6.2.2.1. Consequência 
Conforme se extrai do art. 20, § 3º, do CP, no contexto de erro quanto à pessoa, o agente 
não será isento de pena, respondendo pelo delito considerando-se as condições ou qualidades 
da vítima pretendida. 
Consideremos, por exemplo, a hipótese do filho desalmado, que, pretendendo matar 
seu pai, que contava com 55 anos de idade, realiza disparos de arma de fogo contra o 
homem que estava na varanda da residência do genitor, causando a morte deste. O filho 
49 
desalmado, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas 
vem a descobrir que matara um amigo de seu pai, que contava com 65 anos de idade, 
que, de costas, era com ele parecido. 
Nesse caso, nos termos do art. 20, § 3º, do CP, consideram-se as condições e 
qualidades da vítima pretendida. Logo, o filho desalmado responderá pelo crime de homicídio, 
com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista no art. 61, II, 
e, 1ª parte, do CP. Despreza-se, pois, as condições e características da pessoa atingida, ou 
seja, o agente não responderá pelo crime de homicídio doloso, com a causa de aumento de 
pena em razão da idade da vítima efetivamente atingida. 
Deoutro lado, consideremos que Wilson, pretendendo matar Tobias, de 70 anos de 
idade, amigo do seu pai, realiza disparos de arma de fogo contra o homem que estava na 
varanda da sua residência, causando a morte deste. Wilson, então, deixa o local satisfeito, por 
acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas, logo depois, descobre que, na verdade, 
matara o seu próprio pai, que estava visitando o amigo, e, de costas, era com ele 
parecido. Nesse caso, o agente não responderá pelo crime de homicídio doloso, com a 
agravante por ter praticado crime contra o próprio pai, pois devem ser consideradas as 
condições e qualidades da vítima pretendida. E, como a vítima pretendida era Tobias, senhor 
de 70 anos de idade, Wilson responderá pelo crime de homicídio, com a causa de aumento de 
pena em razão da idade da vítima. 
Consideremos a hipótese da mãe que, sob o efeito do estado puerperal, logo após o 
parto, durante a madrugada, vai até o berçário de um hospital e, supondo ser o seu filho recém-
nascido, sufoca um bebê até a morte. Após, verifica-se que, na verdade, a criança morta não 
era o seu filho, que se encontrava no berçário ao lado, mas um bebê diverso, tendo ela se 
equivocado, portanto, quanto à vítima desejada. Nesse caso, como desejava, sob influência do 
estado puerperal, matar o seu filho recém-nascido, despreza-se as condições e qualidades do 
bebê efetivamente morto, devendo ser consideradas às do próprio filho. Assim, a mãe deverá 
responder pelo crime de infanticídio (CP, art. 123), pois, embora tenha atingido bebê diverso, a 
responsabilização penal deve ser como se tivesse matado a vítima pretendida, ou seja, seu 
filho. 
 
6.2.2.2. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas e na peça. 
50 
Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com o erro na 
execução, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese 
contraditória. 
Tanto da peça quanto das questões, o erro sobre a pessoa influenciará na correta 
tipificação da conduta do agente, sempre considerando as condições e qualidades da vítima 
pretendida. Assim, se o agente foi acusado de ter praticado crime de homicídio contra o pai, 
aplicando a agravante de ter matado ascendente, e o enunciado proporcionar informações que 
o agente pretendia praticar crime contra pessoa diversa, mas, por erro sobre a pessoa, já que 
estava escuro e a vítima pretendida apresentava a mesma estrutura física do pai. Nesse caso, 
deve-se afastar a agravante de praticar crime contra ascendente, já que se consideram as 
condições e qualidades de pessoa pretendida. 
Da mesma forma, é possível a desclassificação do crime para outro menos grave, como, 
por exemplo, a mãe ter sido denunciado pelo crime de homicídio qualificado, por ter matado um 
bebê asfixiado, tendo o enunciado proporcionado informações que ela estava sob influência do 
estado puerperal, e que pretendia matar o próprio filho. Nesse caso, o candidato deverá 
desenvolver a tese do erro sobre a pessoa, e postular que a ré seja pronunciada pelo crime de 
infanticídio (CP, art. 123), e não pelo crime de homicídio qualificado pela asfixia e recurso que 
impossibilitou a defesa da vítima (CP, art. 121, § 2º, III e IV). 
 
6.2.3.1. Introdução 
Ocorre erro na execução quando o agente, pretendendo atingir uma pessoa, por acidente 
ou erro no uso dos meios de execução, acaba atingindo pessoa diversa. 
O agente não erra quanto à identidade da pessoa, mas quanto ao uso dos meios de 
execução do delito. Com efeito, visualiza como certa a vítima pretendida, mas, por erro na 
pontaria, por exemplo, acaba atingindo pessoa diversa. 
A aberratio ictus pode ocorrer quando, por acidente, o agente, em vez de atingir a pessoa 
pretendida, atinge pessoa diversa. Nesse caso, suponhamos que o agente pretende matar 
Wilson, deixando na sua mesa de trabalho uma xícara de café contendo veneno. Todavia, quem 
toma o café é Pedro, que acaba falecendo. 
Pode ocorrer também quando, por erro nos meios de execução, o agente, em vez de 
atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Exemplo: agente pretendendo matar Wilson, 
visualiza a vítima, tendo-a como certa, faz a mira e efetua o disparo, mas, no entanto, erra o 
alvo pretendido, atingindo pessoa diversa, que se encontrava próxima ao local. 
51 
6.2.3.2. Aberratio ictus com unidade simples 
Ocorre a aberratio ictus com resultado único quando em face de erro na execução 
somente a pessoa diversa da pretendida é atingida, resultando lesão corporal ou morte. 
A consequência jurídica da conduta do agente se encontra retratada no artigo 73, 1ª 
parte do Código Penal, que faz expressa remissão ao artigo 20, § 3º, do Código Penal. Ou seja, 
na hipótese de erro na execução, deve-se observar o disposto no artigo 20, § 3º, do Código 
Penal, segundo o qual, embora tenha atingido pessoa diversa, o agente deve receber 
tratamento penal considerando-se as condições ou qualidades da pessoa pretendida (vítima 
virtual), desprezando-se as condições pessoais da vítima efetivamente atingida. 
É o caso do agente que, pretendendo matar o seu pai, efetua disparo de arma de fogo, 
mas, por erro na pontaria, acaba atingindo pessoa diversa, que se encontrava próximo ao seu 
genitor. Nesse caso, teríamos, em tese, tentativa de homicídio em relação ao pai, e homicídio 
culposo em relação à pessoa diversa. 
Todavia, como se trata de resultado único, não é possível imputar a prática de dois 
crimes. Por isso, nos termos do art. 73 c/c 20, § 3º, ambos do CP, deve-se considerar as 
condições ou qualidades da vítima pretendida. Assim, no caso, embora tenha atingido pessoa 
diversa, o agente responde como se tivesse atingido a pessoa pretendida, ou seja, como se 
tivesse matado o próprio pai. Logo, responderá somente pelo crime de homicídio doloso 
consumado, com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista 
no art. 61, II, e, 1a figura, do CP. 
Consideramos, ainda, a conduta de Wilson, que, após acirrada discussão com Pedro 
num evento comemorativo, efetuou disparo de arma de fogo contra a vítima pretendida. 
Contudo o projétil não atingiu Pedro e sim Maria, criança que estava correndo pelo salão da 
festa, matando-a. Nesse caso, Wilson deverá responder pelo crime de homicídio doloso 
consumado, sem a agravante de ter praticado crime contra criança. Isso porque devem ser 
consideradas as condições e qualidades da vítima pretendida (Pedro) e não da pessoa 
efetivamente atingida (a criança Maria). 
Imaginemos, por exemplo, que Wilson, pretendendo matar a sua esposa, efetua disparos 
de arma de fogo em sua direção, mas, por erro na pontaria, acaba atingindo Pedro, que reside 
na casa em frente a do casal, causando-lhe a morte. Nesse caso, Wilson deverá responder 
pelo crime de homicídio doloso consumado, com a qualificadora do feminicídio (CP, art. 121, 
§ 2o, VI), uma vez que, embora tenha acertado Pedro, o tratamento penal deve considerar as 
condições e qualidades da vítima pretendida (esposa). 
52 
Em que pese constar no art. 73 do CP que o agente responde como se tivesse praticado 
crime contra a pessoa pretendida, essa regra também alcança eventual causa excludente de 
ilicitude. 
Assim, se, ao repelir agressão injusta, o agente, por acidente ou erro no uso dos meios 
de execução, atinge terceiro inocente, o tratamento penal deve levar em conta as condições ou 
qualidades da pessoa pretendida, que, no caso, seria o autor da agressão injusta. Logo, estará 
amparado pela excludente de ilicitude legítima defesa. 
Imaginemos que Wilson, agindo em legítima defesa contra agressão injusta praticada 
por José, atinja, por erro na execução, Maria, terceira inocente que estava passando pelo local 
no momento dos fatos, causando-lhe lesões graves. Nessa situação hipotética, Wilson não será 
responsabilizado criminalmente pelas lesões corporais graves provocadas em Maria, pois 
estará abarcadopela legítima defesa, como se tivesse atingido o agressor injusto. 
6.2.3.3. Aberratio ictus com resultado duplo 
A aberratio ictus com resultado duplo ocorre quando o agente, além de atingir a vítima 
pretendida, atinge também pessoa diversa. 
Nesse caso, com uma única ação, o agente produz mais de um resultado: atinge a 
pessoa pretendida e também pessoa diversa. Por essa razão, o art. 73, 2ª parte, do CP faz 
expressa remissão ao art. 70 do CP, devendo ser aplicada a regra do concurso formal de 
crimes. 
 
 
Exemplo: Ao pretender matar Wilson, o agente efetua um disparo, que, além de 
atingir Wilson, atinge também Pedro, que se encontrava atrás da vítima pretendida. Por conta 
da potência da arma utilizada, o disparo efetuado causou a morte da pessoa pretendida e 
também a da pessoa diversa. Em tese, teríamos homicídio doloso em relação à vítima 
pretendida e homicídio culposo em relação à pessoa diversa. 
 
Nesse caso, nos termos do que dispõe o artigo 73, 2ª parte, do Código Penal, deve-se 
aplicar a regra do artigo 70 do Código Penal, segundo o qual, se o agente com uma única ação 
praticar dois ou mais crimes, deve-se considerar a pena do crime mais grave, aumentando-a 
de 1/6 (um sexto) até a ½ (metade). 
53 
Erro na execução
Pessoa pretendida
Acidente ou erro no uso 
dos meios de execução
Pessoa diversa
Com resultado único Consideram-se
Condições ou 
qualidades da pessoa 
pretendida
Com resultado duplo Concurso formal Art. 70 do CP
 
*Para todos verem: esquema. 
 
 
 
 
 
 
 
 
6.2.3.4. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas e na peça. 
Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com o erro 
sobre a pessoa, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar 
tese contraditória. 
A tese do erro na execução influenciará na correta tipificação da conduta do agente, 
sempre considerando as condições e qualidades da pessoa pretendida. 
Assim, se o agente pretender matar uma pessoa, erra o disparo e acerta a própria 
esposa, e for denunciado pelo homicídio qualificado pelo feminicídio (CP, art. 121, § 2º, VI), o 
candidato, desenvolvendo a tese do erro na execução, de- verá buscar afastar a qualificadora. 
Da mesma forma, se a pessoa pretendida for o agressor injusto, e, para se defender o 
agente teve de fazer uso de arma de fogo, mas, por acidente, atingiu pessoa diversa, o 
candidato deverá adotar a tese da legítima defesa, considerando as condições e qualidades da 
pessoa pretendida (agressor injusto). Nesse caso, se for resposta à acusação: absolvição 
sumária, com base no artigo 397, I, do CPP; se for memoriais ou apelação no procedimento 
comum: absolvição, com base no artigo 386, VI, do CPP; se for memoriais ou recurso em 
sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, IV, do 
CPP. 
 
6.2.4. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) 
6.2.4.1. Conceito 
A aberratio criminis também resulta de acidente ou erro na execução do crime, mas em 
contexto distinto da aberratio ictus. 
54 
Na aberratio criminis, o agente pretende ofender um determinado bem jurídico, mas, por 
acidente ou erro na execução, acaba produzindo resultado diverso do pretendido. Na verdade, 
o agente pretendia praticar um crime, mas acaba praticando crime diverso do pretendido. 
Por essa razão, diz-se que na aberratio criminis há desvio do crime. 
Enquanto na aberratio ictus, a relação é entre “pessoa x pessoa”, ou seja, o agente, 
pretendendo atingir uma pessoa, acaba ofendendo pessoa diversa (ou ambas), na aberratio 
criminis, o agente quer atingir um bem jurídico e ofende outro bem jurídico, produzindo resultado 
diverso do pretendido. 
Exemplo: Ao pretender praticar o crime de dano (CP, art. 163), o agente atira uma pedra 
contra um carro. Todavia, por erro na pontaria, a pedra acabou atingindo uma pessoa que se 
encontrava próxima ao local. Note-se que o agente pretendia produzir um resultado (dano no 
veículo), mas acabou produzindo um resultado diverso do pretendido (lesão corporal). 
 
6.2.4.2. Espécies 
a) Com unidade simples ou resultado único: 
Na aberratio criminis com unidade simples, o agente somente atinge o bem jurídico 
diverso do pretendido. Ou seja, o agente quer atingir uma coisa, mas, por acidente ou erro no 
uso dos meios de execução, ofende somente bem jurídico diverso. 
Nesse caso, conforme a primeira parte do art. 74 do CP, o agente responderá pelo 
resultado diverso do pretendido a título de culpa, se o fato é previsto como crime culposo. 
Assim, se o agente, pretendendo atingir o veículo do desafeto, com o intuito de praticar 
o crime dano (CP, art. 163), por erro na execução, não atinge o objeto, mas somente uma 
pessoa que se encontrava próxima ao local. No caso, não responderá por tentativa de dano e 
o crime culposo, mas somente por um crime: lesão corporal culposa (CP, art. 129, § 6º), se 
resultar lesão corporal; ou por homicídio culposo (CP, art. 121, § 3º, do CP), se resultar morte. 
Cumpre ressaltar, por pertinente, que, se o resultado previsto como crime culposo for 
menos grave ou se o crime não prever modalidade culposa, não se aplica o disposto no art. 74 
do CP. Assim, se o agente efetua disparos de arma para matar a vítima, mas não o acerta e 
quebra a vidraça de uma casa ou acertar um carro, deve-se desprezar a hipótese do art. 74 do 
CP, respondendo por tentativa de homicídio. Primeiro, porque o crime de tentativa de homicídio 
é mais grave do que o delito de dano; segundo, porque não há previsão legal de dano culposo. 
55 
b) Com unidade complexa ou resultado duplo 
Na aberratio criminis com resultado duplo, o agente, além de praticar o crime pretendido, 
também acaba produzindo um resultado diverso do pretendido, ou seja, com uma ação ou 
omissão, acaba provocando dois resultados. 
Nesse caso, como expressamente prevê a parte final do art. 74 do CP, aplica-se a regra 
do concurso formal de crimes (CP, art. 70), considerando-se a pena do crime mais grave 
aumentada de 1/6 até 1/2, de acordo com o número de resultados diversos produzidos. 
Certo dia, imaginemos que o agente, com raiva do vizinho, resolva quebrar a janela da 
residência dele. Para tanto, espera chegar a hora adequada e, supondo não haver ninguém na 
residência, o agente arremessa com força, na direção da casa do vizinho, um enorme tijolo, 
que, além de quebrar a vidraça, atinge também a nuca dele. O vizinho falece instantaneamente. 
Nesse caso, o agente deverá responder por homicídio culposo em concurso formal com o crime 
de dano (art. 121, § 3º, e art. 163, na forma do art. 70, todos do CP), considerando-se a pena 
aplicada ao crime de homicídio culposo, já que mais grave, aumentada de 1/6. 
 
6.2.4.3. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas e na peça. 
Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com erro na 
execução, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese 
contraditória. 
A tese do resultado diverso do pretendido influenciará na correta tipificação da conduta 
do agente. Se, por exemplo, na hipótese de resultado único, o agente, ao invés de atingir um 
determinado bem, atinge, por acidente, uma pessoa, não poderá responder por dois crimes: 
tentativa de dano e lesão corporal culposa. Nesse caso, responderá somente pelo crime de 
lesão corporal culposa. 
 
 
 
 
 
 
56 
6.3. Exercícios para resolver após a aula: 
6) QUESTÃO 2 – OAB FGV – X EXAME – 2013-11 
Maria, mulher solteira de 40 anos, mora no Bairro Paciência, na cidade Esperança. Por conta 
de seu comportamento, sempre foi alvo de comentários maldosos dos vizinhos; alguns até 
chegavam a afirmar que ela tinha “cara de quem cometeu crime”. Não obstante tais 
comentários, nunca houve prova de qualquer das histórias contadas, mas o fato é que Maria é 
conhecida na localidade onde mora por ter má índole, já que sempre arrumabrigas e 
inimizades. Certo dia, com raiva de sua vizinha Josefa, Maria resolve quebrar a janela da 
residência desta. Para tanto, espera chegar a hora em que sabia que Josefa não estaria em 
casa e, após olhar em volta para ter certeza de que ninguém a observava, arremessa com 
força, na direção da casa da vizinha, um enorme tijolo. Ocorre que Josefa, naquele dia, não 
havia saído de casa e o tijolo, após quebrar a vidraça, atinge também sua nuca. Josefa falece 
57 
instantaneamente. Nesse sentido, tendo por base apenas as informações descritas no 
enunciado, responda justificadamente: É correto afirmar que Maria deve responder por 
homicídio doloso consumado? (Valor: 1,25). 
 
6.4. Erro Provocado Por Terceiro 
O erro provocado por terceiro está previsto no art. 20, § 2º, do CP, segundo o qual 
somente o terceiro que determina o erro responderá pelo delito. 
Ao contrário do erro de tipo essencial, em que o agente incide no erro sobre os elementos 
constitutivos do tipo legal por conta própria, no erro provocado por terceiro o agente é induzido 
por alguém a ter uma falsa percepção da realidade em relação aos elementos constitutivos do 
tipo legal. 
Há a figura do agente provocador e do agente provocado. O agente provocador induz o 
provocado a praticar determinada conduta, razão pela qual se diz que o erro não foi 
espontâneo, mas em decorrência da atuação de uma terceira pessoa. 
O terceiro provocador responde pelo delito na condição de autor mediato, podendo a 
provocação ser dolosa ou culposa. O terceiro provocado figura como autor imediato, podendo 
sua responsabilidade penal ser excluída, conforme a escusabilidade ou não do erro que 
incorreu. 
Há provocação dolosa quando o erro é preordenado pelo terceiro, que conscientemente 
induz o sujeito a incidir em erro. Neste caso, o terceiro provocador responde pelo crime a título 
de dolo. 
Existe determinação (ou provocação) culposa quando o terceiro provocador age com 
imprudência, negligência ou imperícia. O terceiro provocador responderá a título de culpa pelo 
delito decorrente da conduta do provocado. 
O tratamento penal em relação ao agente provocado (autor imediato) vai depender da 
escusabilidade ou não do erro ao qual foi induzido. Se o erro provocado pelo terceiro for 
escusável ou inevitável, haverá exclusão do dolo e da culpa, não incidindo, portanto, qualquer 
responsabilização criminal em relação ao terceiro provocado. Se o erro provocado pelo terceiro 
for inescusável ou evitável, haverá exclusão do dolo, mas o terceiro provocado responderá pelo 
crime na modalidade culposa, desde que prevista em lei. 
Exemplo: Wilson havia alugado um apartamento parcialmente mobiliado e, após o 
encerramento do contrato de locação, chamou Pedro, seu amigo, que nunca havia estado no 
imóvel, para ajudá-lo com a retirada de seus pertences. Durante a mudança, Wilson garantiu a 
58 
Pedro que a televisão que se encontrava na sala era de sua propriedade e deveria ser retirada, 
embora soubesse que o aparelho pertencia ao proprietário do imóvel. Ao perceber a situação, 
o proprietário do imóvel registrou boletim de ocorrência contra Wesley e Sidney. Nesse caso, 
apenas Wilson responderá por furto, pois Pedro agiu em erro de tipo escusável provocado por 
terceiro, sendo atípica sua conduta. 
Imaginemos outra situação. “A”, sem verificar se a arma se encontra carregada ou não, 
entrega o artefato a “B”, afirmando que está sem munição, induzindo-o a acionar o gatilho. Sem 
maiores cautelas, “B” acionado o gatilho, atingindo “C”, matando-o. O agente provocador “A” 
responde por homicídio culposo, na condição de autor mediato. Em relação a “B”, agente 
provocado, verificando-se que se trata de erro inescusável ou evitável, haverá a exclusão do 
dolo, mas a responsabilização pelo crime de homicídio culposo, já que há previsão legal do 
crime de homicídio na modalidade culposa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
59 
Excludente de Ilicitude 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
7.1. Introdução 
Quando o agente pratica um fato típico, presume-se, a princípio, que também é ilícito, 
ou seja, contrário ao direito. Todavia, podem incidir causas que retiram a ilicitude do fato, ou 
seja, o fato continua sendo típico, mas, diante da incidência de uma causa de exclusão, passa 
a ser lícito, com a consequente exclusão do crime. 
As causas excludentes de ilicitude estão previstas no art. 23 do CP: 
*Para todos verem: esquema. 
 
 
 
 
7.2. Estado de necessidade 
7.2.1. Conceito 
Nos termos do art. 24 do CP, estado de necessidade é a causa de exclusão da ilicitude 
do fato praticado por quem, não tendo o dever legal de enfrentar o perigo atual, que não 
provocou por sua vontade, sacrifica um bem jurídico alheio para salvar bem próprio ou de 
terceiros, cuja perda não era razoável exigir. 
Excludentes de 
ilicitude
Estado de 
necessidade
PERIGO
Legítima defesa
AGRESSÃO 
INJUSTA
Exercício regular do 
direito
Estrito cumprimento 
do dever legal
60 
Tanto o bem sacrificado quanto o bem protegido são legítimos. Há, pois, um conflito entre 
interesses lícitos. Todavia, diante da situação de perigo, o legislador considera razoável 
sacrificar o bem jurídico de menor valor, para preservar aquele de maior valor. 
Se, por exemplo, o condutor do veículo, com a finalidade de evitar a colisão com um 
pedestre, e, assim, preservar a vida humana, joga seu veículo contra outro que estava 
estacionado, causando danos, estará abarcado pelo estado de necessidade. Há um conflito de 
bens jurídicos legítimos: vida humana (bem protegido) e patrimônio alheio (bem sacrificado). 
Todavia, não era razoável exigir-se o sacrifício da vida humana (bem de maior valor), para 
preservar o patrimônio alheio (bem de menor valor). Por isso, embora seja típico, já que sua 
conduta se adéqua ao disposto no art. 163 do CP, o fato não será ilícito, pois presente a 
excludente consistente no estado de necessidade. 
Convém destacar alguns exemplos que ilustram bem o contexto de incidência do 
estado de necessidade: 
Wilson ateou fogo em seu apartamento para receber o seguro correspondente. No 
entanto, não conseguiu sair do imóvel pelas portas e tentou escapar pela janela, com a 
utilização de uma corda. Todavia, Laura, funcionária da residência, percebendo a situação 
de perigo, empurra violentamente Wilson para o lado, apossa-se da corda e consegue sair 
do local. Laura agiu em estado de necessidade, em decorrência de um perigo provocado por 
ação humana. 
Fabiano e Fernando disputam o único colete salva-vidas durante o naufrágio de um 
barco, provocado por uma tempestade. Fabiano, para alcançar o único colete salva-vidas 
que restou na embarcação, agride violentamente Fernando, causando-lhe lesões corporais 
graves. Fabiano agiu em estado de necessidade, diante da situação de perigo decorrente de 
evento da natureza. 
Durante um passeio pela fazenda da família, Maria caminhava com seu filho, de 5 
anos de idade, quando um touro bravo surgiu e passou a atacar a criança. Diante da situação 
de risco para a integridade física do filho, Maria pegou um machado que estava no chão e 
passou a golpear o animal, vindo a causar sua morte. Nesse caso, Maria agiu em estado de 
necessidade, diante do perigo decorrente do comportamento de um animal. 
Sávio e Felipe estavam em uma embarcação no rio Camaquã, na cidade de São Luiz 
Gonzaga/RS. Sem qualquer motivo aparente, a pequena embarcação perdeu a estabilidade 
e começou a virar. Sávio, que não sabia nadar, como única forma de evitar um naufrágio, 
61 
empurrou Felipe para fora da embarcação, acarretando sua morte por afogamento. Nesse 
caso, embora seja típico, o fato não será ilícito, já que Sávio agiu em estado de necessidade. 
Imaginemos, por exemplo, a hipótese de uma mulher que reside numa humilde casa 
com seu filho de 2 anos de idade. Desempregada e sem ter familiares por perto e nem outros 
conhecidos, conseguia alimentarseu filho a partir de ajudas recebidas de desconhecidos. 
Em determinado dia, não mais aguentando a situação e vendo o filho chorar e ficar doente 
em razão da ausência de alimentação, após não conseguir emprego ou ajuda, a aflita mãe 
decidiu ingressar em um grande supermercado da região, e subtraiu dois pacotes de 
macarrão, com a intenção de preparar o alimento para dar ao seu filho. Trata-se, sem dúvida, 
de fato formalmente típico22, mas praticado em evidente situação de perigo atual decorrente 
da debilidade da saúde do filho pela falta de alimento. Trata-se, na hipótese, de furto 
famélico, causa de exclusão de ilicitude pelo estado de necessidade. 
 
7.2.2. Requisitos 
*Para todos verem: Esquema. 
 
Estar em perigo atual 
 
Ameaçar a direito próprio ou alheio 
 
Estar em situação de perigo não causada por sua vontade 
 
Não existir dever legal de enfrentar o perigo 
 
Não poder evitar comportamento lesivo 
 
Não ser exigível sacrifício do interesse ameaçado 
 
Ter conhecimento da situação do fato justificante 
a) Situação de perigo atual 
22 Pode-se, ainda, cogitar da incidência do princípio da insignificância, tornando o fato materialmente atípico. 
62 
Para incidir o estado de necessidade, o fato típico praticado pelo agente deve ser para 
se salvar de um perigo atual, provocado por ação humana, evento da natureza ou 
comportamento instintivo de um animal. 
Se já ocorreu ou se é esperado no futuro, não há estado de necessidade. 
b) ameaça a direito próprio ou alheio: estado de necessidade próprio e de terceiro 
A expressão “direito” deve ser entendida em sentido amplo, abrangendo qualquer bem 
jurídico, como a vida, a integridade física, a honra, a liberdade e o patrimônio. 
A intervenção necessária pode ocorrer para salvar um bem jurídico do sujeito ou de 
terceiros (estado de necessidade próprio e estado de necessidade de terceiro). No último caso, 
não se exige nenhuma relação jurídica específica entre o sujeito que age em estado de 
necessidade e o terceiro (não se exige relação de parentesco, amizade nem subordinação entre 
o agente e o terceiro necessitado). 
c) situação de perigo não causada voluntariamente pelo sujeito 
O CP prevê que só pode alegar estado de necessidade quem pratica o fato para salvar 
de perigo atual direito próprio ou alheio “que não provocou por sua vontade”. 
A razão é lógica e coerente: a ordem jurídica não pode homologar o sacrifício de um 
direito, favorecendo ou beneficiando quem já atuou contra ele ao praticar um ato ilícito e criar 
perigo. 
Exemplo: Tício mora no 3º andar de um prédio de sua propriedade. Com ele, reside um 
colega de escritório. Com a intenção de receber seguro, Tício ateia fogo no edifício. O incêndio, 
porém, assume rapidamente proporções inesperadas e bloqueia praticamente todas as saídas. 
Nesse momento, ao perceber que o colega usa uma corda para descer pela janela, mata o 
companheiro para pegar a corda e salvar-se. O homicídio do companheiro de escritório não 
encontra no estado de necessidade causa de justificação, uma vez que Tício criara o perigo 
que ensejou a situação aflitiva. 
d) inexistência de dever legal de enfrentar o perigo 
Determina o art. 24, § 1º, que “Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o 
dever legal de enfrentar o perigo”. Assim, é indispensável que o sujeito não tenha, em face 
63 
das circunstâncias em que se conduz, o dever imposto por lei, de sofrer o risco de sacrificar o 
próprio interesse jurídico. 
Sempre que a lei impuser ao agente o dever de enfrentar o perigo, deve ele tentar salvar 
o bem ameaçado sem destruir qualquer outro, mesmo que para isso tenha de correr os riscos 
inerentes à sua função. 
Exemplo: o bombeiro não pode deixar de subir a um edifício incendiado invocando a 
possibilidade de sofrer queimaduras. 
e) inevitabilidade do comportamento lesivo 
Ao definir o estado de necessidade, o CP, exige, como pressuposto, a inexistência de 
um outro meio de evitar o perigo, isto é, quando o dano produzido pelo agente for inevitável. 
Significa que o agente não tem outro meio de evitar o perigo ao bem jurídico próprio ou 
de terceiro que não praticar o fato necessitado. É inevitável a realização do comportamento 
lesivo em face da inevitabilidade do perigo de forma diversa. 
Se o perigo pode ser afastado por uma conduta menos lesiva, a prática do 
comportamento mais lesivo não configura a excludente. 
Exemplo: alguém se vê atacado por um cachorro feroz, embora possa se salvar 
fechando um portão, mata o cão. Não pode alegar estado de necessidade, porquanto havia 
outra forma de impedir a lesão ao seu bem jurídico (fechando o portão). 
f) inexigibilidade de sacrifício do interesse ameaçado 
A ponderação de bens está insculpida no final do art. 24, ao admitir o estado de 
necessidade, para proteger direito próprio ou alheio “cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era 
razoável exigir-se”. A admissibilidade do estado de necessidade é orientada pelo princípio da 
razoabilidade. 
É o requisito da proporcionalidade entre a gravidade do perigo que ameaça o bem 
jurídico do agente ou alheio e a gravidade da lesão causada pelo fato necessitado. Não se 
admite, por exemplo, a prática de homicídio para impedir a lesão de um bem patrimonial de 
ínfimo valor. 
Somente se admite a invocação da excludente do estado de necessidade, quando para 
salvar bem de maior ou igual valor ao do sacrificado. Há ponderação de bens. 
 
64 
7.2.3. Causa de diminuição da pena 
Nos termos do art. 24, § 2º, do CP, “embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito 
ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços”. 
Se a destruição do bem jurídico não era razoável, falta um dos requisitos do estado de 
necessidade, não sendo caso, portanto, de exclusão da ilicitude, respondendo o agente pelo 
delito, podendo, ao final, ter a pena diminuída de um a dois terços. 
Não é razoável admitir o sacrifício de uma vida humana para salvar um objeto de elevado 
valor sentimental ou patrimonial. Nesse caso, o agente responderá pelo crime de homicídio, 
podendo-se cogitar a incidência da causa de diminuição da pena de um a dois terços. 
Exemplo: Imaginemos que, num incêndio, o agente opte por ofender a integridade física 
de uma pessoa (praticar lesão corporal grave), para salvar seu computador que contém 
importantes arquivos relacionados à sua empresa. Note que não há estado de necessidade, 
pois, para salvar bem de menor valor, sacrificou outro de maior valor. No caso, o agente 
responderá pelo delito de lesão corporal grave, podendo-se cogitar a incidência da causa de 
diminuição da pena prevista no artigo 24, § 2º, do CP. 
 
7.2.4. Excesso 
Dá-se o nome de excesso no estado de necessidade à desnecessária intensificação da 
conduta inicialmente justificada. No comportamento com que pretende defender o bem jurídico 
em situação de perigo o agente vai além dos limites da proteção razoável. 
Tratando-se de excesso, nota-se que o agente se encontrava em situação de 
necessidade, exorbitando no uso dos meios de execução postos em ação para a defesa do 
bem. 
O excesso pode ser doloso ou não intencional (culposo). 
Há excesso doloso quando o agente supera conscientemente os limites legais. Neste 
caso, responde a título de dolo pelo fato constitutivo do excesso (CP, art. 23, par. ún.) 
7.3. Legítima defesa 
7.3.1. Conceito 
Nos termos do art. 25 do CP, “Entende-se em legítima defesa quem, usando 
moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito 
seu ou de outrem”. 
65 
É uma causa de exclusão da ilicitude que consiste em repelir injusta agressão, atual ou 
iminente, a direito próprio ou alheio, usando moderadamente dos meios necessários. 
A Lei 13.964/2019 introduziu o parágrafo único ao artigo 25 do Código Penal, segundo o 
qual Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se 
também em legítimadefesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de 
agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes.” 
Em que pese já se enquadrar no “caput” do artigo 25 do Código Penal, o legislador optou 
por especificar a conduta do agente de segurança que se depara com agressão ou risco de 
agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. 
É o caso, por exemplo, do agente de segurança efetuar disparos contra o sujeito que, 
durante a prática de roubo a banco, mantém vítima refém. 
Conforme entendimento fixado no ADPF 779, a tese da legítima defesa da honra é 
inconstitucional, por contrariar os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana 
(art. 1º, III, da CF), da proteção à vida e da igualdade de gênero (art. 5º, caput, da CF); 
 
7.3.2. Requisitos 
a) agressão injusta, atual ou iminente 
Exige-se, para caracterizar a legítima defesa, a existência de uma agressão injusta, 
assim considerada como sendo aquela não protegida por uma norma jurídica, isto é, decorrente 
de conduta não autorizada pelo ordenamento jurídico. 
A agressão injusta deve decorrer de ação ou omissão humana. Não há legítima defesa 
contra-ataque instintivo e espontâneo de um animal, porque ausente consciência e vontade 
inerente à agressão. Nesse caso, como vimos, o agente estará diante de uma situação de 
perigo, ensejando a incidência do estado de necessidade. 
Convém registrar, no entanto, que, se o agente atiça um animal, cão feroz, por exemplo, 
a atacar a vítima, estaremos diante de uma agressão injusta, não em decorrência do 
comportamento do animal, mas pela conduta do agente instigador, que usou o cão como 
verdadeira arma ou instrumento de ataque. Nesse caso, tratando-se de agressão injusta 
humana (agente que atiçou o animal a atacar), a vítima poderá praticar um fato típico, que não 
será ilícito, porque estará amparada pela legítima defesa. 
66 
Atual é a agressão que está acontecendo, ou seja, quando o efetivo ataque já está em 
curso no momento da reação defensiva. Exemplo: a vítima reage enquanto está sendo se 
desenvolvendo o ataque com uma faca. 
Iminente é a que está prestes a ocorrer. Nesse caso, a agressão ainda não teve início, 
mas poderá ocorrer em momento imediato. Exemplo do agressor que anuncia o ataque, e parte, 
munido de uma faca, em direção à vítima para matá-la, que reage desferindo um disparo de 
arma de fogo contra o agressor, fazendo cessar a agressão. 
A agressão que se anuncia para o futuro (remota) e a agressão passada (pretérita) não 
autoriza a legítima defesa. De fato, não se admite legítima defesa contra suposta agressão que 
talvez nem sequer se concretize, nem tampouco em relação à agressão pretérita, pois 
caracterizaria vingança. 
 
Só as pessoas humanas, portanto, praticam agressões. O ataque de animais 
não enseja a legítima defesa, mas sim estado de necessidade, pois a expressão 
“agressão” indica conduta humana. 
 
Agora, se o agente instiga um cão feroz a atacar a vítima, é permitida a legítima 
defesa, pois a conduta se trata de uma agressão humana praticada por meio de um 
instrumento que é o animal bravo. 
 
 
b) agressão a direito próprio ou de terceiro 
a) legítima defesa própria: ocorre quando o autor da repulsa é o próprio titular 
do bem jurídico atacado ou ameaçado. 
b) legítima defesa de terceiro: quando a agressão é voltada a atingir bem 
jurídico alheio. 
Todo e qualquer bem ou interesse, seja próprio ou de terceiros, pode ser objeto de 
defesa. Trata-se de um critério de solidariedade permitir a legítima defesa de bem jurídico 
alheio. Não há necessidade que exista vínculo de parentesco ou amizade entre a vítima de uma 
agressão injusta e aquele que agiu para defendê-la, podendo ser, inclusive, pessoa 
desconhecida. 
67 
Imaginemos que Pedro esteja caminhando por uma rua com iluminação precária, 
relativamente escura, quando se depara com a situação de uma pessoa estar agredindo uma 
moça desconhecida, com a intenção de abusá-la sexualmente. Verificando que a jovem estava 
em risco e não havendo outra forma de protegê-la, pega um pedaço de madeira que estava no 
chão e desfere violento golpe contra o agressor, causando-lhe lesão corporal de natureza 
grave. Trata-se de fato típico, mas não ilícito, pois Pedro agiu em legítima defesa de terceiro. 
c) Reação com os meios necessários 
A legítima defesa não constitui salvo-conduto para excessos ou atos de execução. Não 
tem por objeto penalizar o agressor, mas repelir injusta agressão contra um determinado bem 
jurídico. Dito de outro modo, a legítima defesa consiste num mecanismo jurídico entregue ao 
agredido para fazer cessar uma agressão injusta. Uma vez cessada a agressão, cessa a 
situação que legitima a defesa. 
Por isso, o agredido deve eleger, dentre aqueles que tem à sua disposição, o meio 
necessário e menos lesivo capaz de repelir e fazer cessar a injusta agressão. Logo, os meios 
necessários são aqueles eficazes e suficientes para repelir a injusta agressão que está em 
desenvolvimento ou prestes a acontecer, a direito próprio ou de outrem. 
Não há uma regra absoluta, rígida, para se medir o acerto da escolha do meio necessário 
para o exercício da defesa. Uma arma de fogo pode constituir meio necessário para repelir um 
determinado ataque, mas também pode revelar excesso em relação ao contexto que envolve 
outra agressão. Tudo dependerá das circunstâncias do caso concreto. 
O melhor critério é o da razoabilidade e da proporcionalidade. Sempre considerando o 
caso concreto, verificar se o meio empregado é diretamente proporcional à intensidade do 
ataque. Se proporcional, estaremos diante da legítima defesa, desde que preenchidos os 
demais requisitos; se desproporcional à intensidade do ataque, estaremos diante do excesso, 
que pode ser doloso ou culposo, afastando a legitimidade da defesa. 
Assim, se estiver sendo agredido por alguém munido de facão, a vítima, tendo à sua 
disposição uma faca e um revólver, poderá eleger a arma de fogo para repelir e fazer cessar a 
injusta agressão. Isso porque, diante do caso concreto, a arma de fogo é um meio diretamente 
proporcional à intensidade do ataque. 
68 
Agora, se estiver sendo agredido por alguém desarmado, a vítima, tendo à sua 
disposição uma faca e um revólver, deverá eleger a faca para repelir e fazer cessar a injusta 
agressão. Isso porque, diante do caso concreto, a faca seria o meio diretamente proporcional 
à intensidade do ataque. 
d) Uso moderado dos meios necessários 
Após eleger o meio necessário, o agredido deverá fazer uso moderado desses meios, 
assim compreendido como sendo o suficiente para fazer cessar a agressão injusta. 
Trata-se do emprego dos meios necessários dentro do limite do razoável para conter a 
agressão. A proporção entre o ataque e a defesa empreendida deve ser verificada no caso 
concreto, considerando-se a natureza, a gravidade da agressão e a extensão da reação. 
Assim como na escolha do meio necessário, a moderação do uso desse meio também 
deve observar a proporcionalidade entre a reação e a intensidade do ataque. 
Assim, se a vítima está sendo atacada pelo agente munido de uma faca, poderá se 
utilizar de uma arma de fogo para repelir a injusta agressão (eis o meio necessário), mas deverá 
agir com moderação. Nesse caso, se um disparo foi suficiente para fazer cessar a agressão, o 
ofendido não poderá efetuar o segundo disparo, sob pena de incorrer em excesso e responder 
pelo resultado produzido pela desproporção da defesa em relação ao ataque. 
Da mesma forma, enquanto estiver em curso a injusta agressão, a vítima poderá exercer 
legitimamente sua defesa mediante reiteração de golpes com pedaço de madeira contra o 
agressor até fazer cessar o ataque. Cessada a agressão, superada estará a situação de 
legítima defesa. Se a vítima continuar reagindo, passará à qualidade de agressora diante do 
excesso no uso do meio necessário para se defender, devendo,por isso, responder pelo 
excesso doloso ou culposo, conforme o caso. 
7.3.3. Excesso 
Há excesso quando o agente extrapola os limites da legítima defesa, intensificando a 
reação, dolosa ou culposamente, elegendo meio além do necessário ou fazendo uso imoderado 
dos meios necessários para repelir a injusta agressão. 
Nesse caso, embora em um primeiro momento o agente estivesse sob o amparo da 
legítima defesa, presente o excesso, os requisitos da excludente de ilicitude deixarão de existir, 
devendo o agente responder pelas desnecessárias lesões causadas ao bem jurídico ofendido. 
69 
O excesso pode ser doloso ou culposo. 
Há excesso doloso quando o sujeito, de forma consciente, extrapola o necessário para 
repelir a agressão, valendo-se de meios mais lesivos ou usando, de forma imoderada, os meios 
que elegeu para reagir à injusta agressão. 
Assim, quando o agente, para se defender de um tapa, efetua disparos de arma de fogo 
contra o agressor, ou, ainda, quando, após fazer cessar a agressão, o agente segue em diante 
na reação até matar o então agressor. 
Constatado o excesso doloso, o agente responde pelo resultado dolosamente. No caso, 
o agente, que num primeiro momento estava em legítima defesa, responderá pelo crime de 
homicídio doloso. 
No excesso culposo, não há intenção em extrapolar os limites da repulsa à agressão 
injusta, supondo o agente ainda estar sofrendo a agressão, que, na verdade, havia cessado. 
Nesse caso, o agente responderá pelo resultado produzido a título de culpa. 
7.4. Estrito cumprimento do dever legal 
7.4.1. Conceito 
Ao contrário do estado de necessidade (CP, art. 24) e da legítima defesa (CP, art. 25), o 
Código Penal não dispôs sobre o conceito e requisitos do estrito cumprimento do dever legal, 
relegando à doutrina e jurisprudência estabelecer as características dessa causa excludente de 
ilicitude. 
Estará ao abrigo do estrito cumprimento do dever legal o agente que praticar um fato 
típico em face do cumprimento de um dever, observando rigorosamente os limites impostos 
pela lei, de natureza penal ou não. 
 
Exemplo: Policial que prende o agente em flagrante ou mediante cumprimento de 
mandado de prisão, embora atinja o direito de liberdade e até mesmo a integridade 
corporal do preso, não comete crime algum, pois, embora seja típico, o fato não será ilícito, 
porque praticado dentro do estrito cumprimento de um dever imposto pela lei, como é o 
caso do flagrante obrigatório (CPP, art. 301). 
 
Age em estrito cumprimento do dever legal policial rodoviário federal que, aplicando 
técnicas de defesa policial, causa escoriações em um infrator que resiste à prisão. 
70 
Imaginemos que, durante operação em rodovia federal, uma equipe da Polícia 
Rodoviária Federal abordou o condutor de um veículo, solicitando a apresentação de sua 
carteira nacional de habilitação (CNH) e do certificado de registro e licenciamento de veículo 
(CRLV), verificando que se trata de veículo clonado. Ao solicitar que saísse do veículo, o 
condutor se negou, razão pela qual o policial usou de força necessária para fazê-lo cumprir a 
ordem. A conduta do policial está amparada pelo estrito cumprimento do dever legal. 
Também age em estrito cumprimento de um dever legal o oficial de justiça que cumpre 
mandado de reintegração de posse de bem imóvel de propriedade de banco público, com 
ordem de arrombamento, desocupação e imissão de posse. 
 
7.4.2. Destinatário da excludente 
A excludente é destinada precipuamente aos agentes que exercem atividade pública, tal 
como funcionário público ou agente público que age por ordem da lei. Também alcança o 
particular que exerce função pública, ainda que temporariamente, como, por exemplo, o jurado, 
mesário da Justiça Eleitoral. 
7.4.3. Dever legal 
É fundamental, para incidir essa excludente, que o dever decorra, diretamente ou 
indiretamente, de lei, em sentido genérico, emanado de autoridade pública competente. 
O dever pode ser imposto por qualquer lei, seja penal ou extrapenal, podendo se originar 
de decreto, regulamento ou qualquer ato administrativo de caráter geral. Da mesma forma, o 
dever pode emanar de decisões judiciais, já que, ao fim e ao cabo, nada mais são que a 
aplicação da lei ao caso concreto. 
Não se enquadram no contexto de dever legal, não incidindo, portanto, a excludente de 
ilicitude, o cumprimento de dever social, moral ou religioso. Assim, não age no estrito 
cumprimento do dever legal, pastor que invade domicílio a pretexto de afastar maus espíritos. 
 
7.5. Exercício regular do direito 
7.5.1. Conceito 
É o desempenho de uma atividade ou a prática de uma conduta autorizada por lei que 
torna lícito um fato típico. 
O exercício de um direito, desde que regular, não pode ser, ao mesmo tempo, proibido 
pelo direito. 
71 
Qualquer direito, público ou privado, penal ou extrapenal, regulamente exercido, afasta 
a antijuridicidade. Mas o exercício deve ser regular, isto é, deve obedecer a todos os requisitos 
objetivos exigidos pela ordem jurídica. 
7.5.2. Alcance 
Qualquer pessoa pode exercitar um direito subjetivo ou uma faculdade prevista em lei 
(penal ou extrapenal). 
A Constituição Federal prevê que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer 
alguma coisa senão em virtude de lei (CF/1988, art. 5º, II). 
Disso resulta que se exclui a ilicitude nas hipóteses em que o sujeito está autorizado a 
esse comportamento. 
 
Exemplo: prisão em flagrante realizada por um particular. 
 
 
7.5.3. Algumas hipóteses de exercício regular de um direito 
a) Correção dos filhos 
Os arts. 229 da CF, 1.566, IV, e 1.634, I, do CC, bem como o art. 22 da Lei no 8.069/1990 
(ECA) atribuem aos pais o dever de guarda, sustento e educação dos filhos. 
Os atos de correção aplicados pelos pais aos filhos, desde que evidentemente não 
transbordem para o castigo físico ou tratamento cruel e degradante, guardando a necessária 
razoabilidade, embora possam constituir fato típico, não serão considerados ilícitos pelo 
exercício regular do direito. 
Assim, quando um pai, sempre, absolutamente sempre, dentro de um critério de 
razoabilidade impor ao filho castigo consistente em ficar isolado no quarto, privando sua 
liberdade por alguns minutos, para pensar sobre a arte que praticou, estará no exercício regular 
de um direito. 
O abuso ou excesso no exercício desse direito acarretará a responsabilização criminal 
do pai, até porque o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que a criança e o 
adolescente têm o direito de ser educado e cuidado sem o uso de castigo físico ou de 
tratamento cruel ou degradante (Lei nº 8.069/1990, art. 18-A). 
b) Livre manifestação de pensamento e opinião 
Nos termos do art. 5º, IV, da CF “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado 
o anonimato”. 
72 
Logo, qualquer pessoa tem o direito de expor seu pensamento ou opinião, ainda que 
para criticar alguém ou determinado ato. Embora, em tese, possa ser típico por atingir a honra 
de alguém, se exercido regularmente o direito da livre manifestação de pensamento ou opinião, 
o fato não será ilícito. 
O STJ considerou exercício regular do direito a conduta de condôminos que se 
insurgiram contra a administração do condomínio, considerando que gozam da liberdade de 
expressar seu descontentamento e se manifestar, chamando a atenção dos demais 
condôminos, desde que minimamente embasado (STJ, APn no 737/DF, rel. Min. Og Fernandes, 
Corte Especial, j. 17-12-2014.) 
O STF liberou a realização da chamada “marcha da maconha”, evento que reúne 
pessoas favoráveis à descriminalização da droga. Para os ministros, os direitos constitucionais 
de reunião e de livre expressão do pensamento viabilizam esse tipo de manifestação, desde 
que não dirigida a incitar ou provocar ações ilegais e iminentes (STF, ADIn no 4274/DF, rel. 
Min. Ayres Britto, Tribunal Pleno, j. 23-11-2011, noticiado no Informativo no 649). 
c) Violênciaesportiva 
A prática de determinadas atividades esportivas produz, invariavelmente, lesões 
corporais, tais como o futebol, o boxe e a luta livre. 
Nesses casos, o fato típico praticado não será ilícito, desde que a conduta desenvolvida 
pelo agente observe os estritos limites das regras do esporte praticado. 
Imaginemos, por exemplo, uma luta de boxe, durante disputa do cinturão de ouro, 
Naldinho, obedecendo rigorosamente às regras do esporte, desfere diversos socos contra 
Mauro, causando lesões gravíssimas em seu adversário. Nesse caso, embora típico, o fato não 
será ilícito, pois Naldinho está amparado pelo exercício regular de um direito. 
Se, no entanto, o desportista não observar as regras que disciplinam o esporte praticado, 
responderá pelo resultado lesivo que produzir, segundo seu dolo ou sua culpa. 
Assim, se um jogador de futebol desferir um violento pontapé no rosto do adversário 
caído ao solo, responderá pelo resultado produzido, qual seja, lesão corporal, já que extrapolou 
os limites das regras da atividade desportiva que exercia. 
d) Inviolabilidade de domicílio 
Nos termos do art. 5º, XI, da CF, “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela 
podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou 
desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”. 
73 
Logo, durante o período noturno, se não for hipótese de flagrante delito, o morador 
poderá exercer o direito de não franquear a entrada da autoridade policial para prender um 
suspeito, ainda que munido de mandado de busca e apreensão. Nesse caso, embora constitua, 
em tese, o fato típico consistente no favorecimento pessoal (CP, art. 348), não será ilícito, 
porque o morador está no exercício regular de um direito. 
 
7.6. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas e na peça, pois são teses absolutórias, já que 
constituem causas de exclusão da ilicitude. 
Como tratam de causas de exclusão da ilicitude: 
 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, I, do CPP. 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, VI, do CPP. 
• Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição 
sumária, com base no artigo 415, IV, do CPP. 
 
Memoriais /
apelação
Art. 386, CPP: 
O juiz absolverá o réu,
mencionando a causa na
parte dispositiva, desde que
reconheça:
VI – existirem circunstâncias
que excluam o crime ou
isentem o réu de pena (arts. 20,
21, 22, 23, 26 e § 1º do art. 28,
todos do Código Penal), ou
mesmo se houver fundada
dúvida sobre sua existência;
Resposta à 
acusação
Art. 397, CPP:
Após o cumprimento do
disposto no art. 396-A, e
parágrafos, deste Código, o
juiz deverá absolver
sumariamente o acusado
quando verificar:
I - a existência manifesta de
causa excludente da ilicitude do
fato;
Procedimento do
Júri
Art. 415, CPP:
O juiz, fundamentadamente,
absolverá desde logo o
acusado, quando:
IV – demonstrada causa de
isenção de pena ou de
exclusão do crime.
74 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
75 
Excludente de culpabilidade 
 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
8.1. Introdução 
Doutrinariamente, a culpabilidade é considerada um juízo de censurabilidade e 
reprovação social incidente sobre o fato e seu autor, como forma de se verificar a necessidade 
de aplicação de uma pena. 
Em outras palavras, quando pratica um fato típico e ilícito, o agente será submetido a um 
juízo de censura, que incide sobre a manifestação e exteriorização da vontade do agente, a fim 
de verificar a possibilidade de imposição de uma pena. 
Conforme a teoria normativa pura, admitida no nosso ordenamento jurídico, os 
elementos da culpabilidade são: a) a imputabilidade do agente; b) a potencial consciência da 
ilicitude; c) exigibilidade de conduta diversa. 
De outro lado, as causas excludentes de culpabilidade consistem na inimputabilidade, 
falta de potencial consciência de ilicitude e inexigibilidade de conduta diversa. 
*Para todos verem: esquema. 
E
X
C
L
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D
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N
T
E
S
 D
E
 C
U
L
P
A
B
IL
ID
A
D
E
INIMPUTABILIDADE
Doença mental - art. 26, CP
Embriaguez completa e acidental -
art. 28, §1º, CP
FALTA DE POTENCIAL
CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE - art. 
21, CP
ERRO DE PROIBIÇÃO
INEXIGIBILIDADE DE CONDUTA 
DIVERSA
Coação moral Irresistível - art. 22, 
CP
Obediêcia Hierárquica - art. 22, CP
76 
8.2. Inimputabilidade 
8.2.1. Introdução 
Embora o Código Penal não tenha definido o conceito de imputabilidade, afigura-se 
possível extrair as suas características a partir da definição das hipóteses de inimputabilidade, 
previstas nos arts. 26, caput, 27 e 28, § 1º, todos do CP. 
Para fins penais, pode-se considerar a imputabilidade como sendo a possibilidade de se 
atribuir a autoria ou responsabilidade por fato criminoso a alguém, maior de dezoito anos e com 
higidez mental, que revelou ter capacidade de compreensão em relação ao caráter ilícito do 
fato, bem como de se determinar de acordo com esse entendimento. 
O Código Penal prevê como causas de inimputabilidade: 
a) doença mental (CP, art. 26, caput); 
b) desenvolvimento mental incompleto (CP, arts. 26, caput, e 27); 
c) desenvolvimento mental retardado (CP, art. 26, caput); 
d) menoridade (CP, art. 27); e 
e) embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior (CP, art. 28, § 1o). 
 
8.2.1. Da inimputabilidade por doença mental ou desenvolvimento mental 
incompleto ou retardado 
A doença mental compreende todas as alterações mentais ou psíquicas aptas a eliminar 
a capacidade de compreensão do agente, tanto de origem patológica, quanto as toxicológicas, 
como, por exemplo, a demência senil, psicose traumática, causadas por alcoolismo, psicose 
maníaco-depressiva, esquizofrenia, loucura, histeria, paranoia etc. 
Não constitui requisito indispensável que a doença mental seja de caráter permanente, 
podendo, portanto, ser transitória, desde que, ao tempo da conduta, em decorrência dessa 
enfermidade mental, o agente não reúna qualquer capacidade de compreensão ou 
determinação. 
Isso porque, conforme consta expressamente no art. 26, caput, do CP, a inimputabilidade 
deve ser verificada no momento da conduta. 
O critério adotado para aferir a inimputabilidade é o biopsicológico. Assim, além da 
doença mental, é necessário que, em consequência desse estado biológico, o agente seja, no 
momento da conduta, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de 
determinar-se de acordo com esse entendimento. 
77 
Em outras palavras, a doença mental retira do agente a capacidade de discernir o certo 
do errado, de entender, por exemplo, que atentar contra a vida ou patrimônio de uma pessoa é 
ilícito, bem como impede que o agente consiga controlar sua vontade e seu impulso. Ou seja, 
retira totalmente do agente sua capacidade de compreensão e determinação. 
Em decorrência disso, o doente mental com total incapacidade de compreensão e 
determinação não reúne condições para suportar a fixação e execução de uma pena. Na 
verdade, o portador de doença mental se revela perigoso para si e para a sociedade, 
necessitando, conforme o caso, de internação em hospital de custódia ou tratamento 
ambulatorial. 
A segunda causa de inimputabilidade é o desenvolvimento mental incompleto. É o 
desenvolvimento que ainda não encontrou a plenitude, por conta da idade cronológica do 
agente ou à sua falta de convivência em sociedade, não tendo o agente, por isso, maturidade 
mental ou emocional. 
O desenvolvimento mental incompleto abrange os menores de 18 anos e os silvícolas 
inadaptados ao convívio social. 
Em relação aos menores de 18 anos de idade, a inimputabilidade gera presunção 
absoluta, não admitindo prova em contrário, sem prejuízo, à evidência, de instauração de 
procedimento para apuração de ato infracional no Juizadoda Infância e Juventude, com 
eventual aplicação de medida socioeducativa. 
A doutrina também aponta como exemplo o silvícola inadaptado, assim considerado 
como sendo aquele afastado da civilização e das regras de convívio social, arraigado à sua 
cultura de forma a ignorar ou não reunir qualquer capacidade de compreensão ou determinação 
em relação à ilicitude do fato. 
Todavia, o fato de o agente ser índio, ainda que aparentemente não integrado, não gera, 
por si só, a presunção de inimputabilidade. Com efeito, no caso do indígena, afigura-se 
recomendável, considerando o caso concreto, a realização do exame antropológico, a fim de 
ser verificado o grau de adaptação e compreensão das regras de convívio social e, por 
conseguinte, em relação à ilicitude do fato. 
A terceira causa de inimputabilidade contida no art. 26, caput, do CP, é o 
desenvolvimento mental retardado, consistente na incompatibilidade com a fase da vida em 
que se encontra o agente, já que abaixo do desenvolvimento mental inerente à sua idade 
cronológica. 
78 
Diante da sua peculiar condição, o agente com desenvolvimento retardado não reúne 
aptidões cognitivas, de linguagem, motoras e sociais para compreender o caráter ilícito da sua 
conduta. Estão inseridos na expressão “desenvolvimento mental retardado” os oligofrênicos 
nas suas mais variadas formas, como, por exemplo, a idiotice, imbecilidade e debilidade mental, 
bem como as pessoas que, por ausência ou deficiência dos sentidos, possuem deficiência 
psíquica. 
 
8.2.2. Consequências do reconhecimento da inimputabilidade 
Em relação à inimputabilidade pela enfermidade mental, o agente será processado e 
julgado normalmente, mas, ao final, o juiz não poderá proferir sentença condenatória. Isso 
porque ausente a culpabilidade, pressuposto para a aplicação da pena. 
Nesse contexto, uma vez verificado que o agente praticou um fato típico e ilícito, sendo, 
ao final, considerado inimputável por conta da sua enfermidade mental, o juiz deverá proferir 
sentença absolutória imprópria, com base no artigo 386, VI, do CPP, aplicando medida de 
segurança, consistente em internação em hospital de custódia ou tratamento ambulatorial, nos 
termos do artigo 386, parágrafo único, inciso III, do Código de Processo Penal. 
• Pergunta recorrente 
Cabe absolvição sumária pela inimputabilidade pela doença mental após resposta à 
acusação? 
Na peça resposta à acusação, o artigo 397, II, do CPP inviabiliza que o juiz absolva 
sumariamente o réu, porque teria de aplicar medida de segurança (internação em manicômio). 
Isso prejudicaria o réu, porque seria internado sem lhe fosse viabilizado provar em audiência 
de instrução a sua inocência. Ou seja, se proferir sentença de absolvição sumária, aplicando 
medida de segurança, sem permitir que produza outras provas da sua inocência em audiência 
de instrução, o juiz prejudicará o réu. Além disso, para se aferir a inimputabilidade exige 
produção de provas. 
Nesse caso, o juiz deverá designar audiência de instrução e julgamento e, se não for 
possível absolver o réu por outro fundamento, aí sim o juiz poderá proferir sentença absolutória 
imprópria, com base no artigo 386, VI, do CPP c/c art. 386, parágrafo único, III, do CPP, 
aplicando medida de segurança, consistente em internação em hospital de custódia ou 
tratamento ambulatorial (art. 97 do CP). 
 
79 
8.2.3. Da inimputabilidade por embriaguez proveniente de caso fortuito ou força 
maior 
Embriaguez é a intoxicação aguda e transitória causada pelo álcool ou qualquer 
substância de efeitos análogos, sejam eles entorpecentes (morfina, ópio), estimulantes 
(cocaína) ou alucinógenos (ácido lisérgico), capaz de levar à exclusão da capacidade de 
entendimento acerca do caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento. 
Nos termos do art. 28, II, do CP, a embriaguez voluntária ou culposa não exclui a 
imputabilidade penal. Isso significa dizer que aquele que ingerir bebida alcoólica, de forma 
voluntária ou culposa, poderá ser responsabilizado criminalmente, se praticar um fato típico e 
ilícito. Assim, se o agente, depois de passar várias horas ingerindo bebida alcóolica 
voluntariamente, pegar o seu veículo e, por conta da ausência de reflexos, acaba colidindo com 
outro veículo, causando a morte de uma pessoa, responderá, a princípio, pelo crime de 
homicídio culposo na condução de veículo automotor (CTB, art. 302). 
A inimputabilidade pela embriaguez, com a excludente de culpabilidade, ocorre quando 
se tratar de embriaguez completa e acidental, nos termos do que dispõe o art. 28, § 1o, do CP. 
Logo, a embriaguez deve decorrer de caso fortuito ou força maior e, em decorrência disso, 
deixar o agente, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter 
ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Logo, não basta a embria-
guez acidental, sendo, ainda, necessário que, em decorrência da ingestão de substância 
alcoólica ou de efeitos análogos, o agente tenha ficado, ao tempo da conduta, inteiramente 
incapaz de entender o caráter ilícito da sua conduta ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento. 
A embriaguez é acidental quando não voluntária nem culposa. Pode ser proveniente 
de caso fortuito ou força maior. 
No caso fortuito, o sujeito desconhece o efeito inebriante da substância que ingere, ou 
quando, desconhecendo uma particular condição fisiológica, ingere substância que possui 
álcool (ou substância análoga), ficando embriagado. É o caso do agente que está tomando 
determinado medicamento e ingere bebida alcóolica. A conjugação do medicamento e da 
bebida alcoólica potencializa o metabolismo do agente, a ponto de deixá-lo embriagado. É 
também o caso do agente que ingere determinada bebida sem saber que nela foi colocada uma 
80 
substância capaz de lhe retirar os sentidos, deixando-o embriagado, como, por exemplo, o 
chamado “boa noite cinderela”. 
É o caso, ainda, do agente que ingeriu, sem saber, bebida alcoólica, pensando tratar-se 
de medicamento que costumava guardar em uma garrafa, e perdeu totalmente sua capacidade 
de entendimento e de autodeterminação. Em seguida, entrou em uma farmácia e praticou um 
furto. Nesse caso, será isento de pena, por estar configurada a sua inimputabilidade. 
Na força maior, o agente é obrigado a ingerir bebida alcoólica. Não desejando se 
embriagar nem de se exceder culposamente, o agente é forçado a ingerir bebida alcoólica. É o 
caso, por exemplo, do trote acadêmico de péssimo gosto em que os veteranos obrigam, forçam 
os calouros a ingerirem bebida alcoólica. 
A natureza jurídica da sentença que acolhe a inimputabilidade pela embriaguez completa 
a acidental é absolutória propriamente dita, sem, portanto, aplicação de qualquer medida de 
segurança. 
Quando a embriaguez acidental, proveniente de caso fortuito ou força maior, é 
incompleta, não há exclusão da imputabilidade. Isso porque, em decorrência da embriaguez, 
proveniente de caso fortuito ou força maior, o agente, ao tempo da conduta, não possuía a 
plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento. Ou seja, tinha capacidade de compreensão ou determinação, mas reduzida. A 
sentença será condenatória, mas o agente, por ter a capacidade de compreensão ou 
determinação reduzida, também terá a pena reduzida de um a dois terços, nos termos do art. 
28, § 2o, do CP. 
A embriaguez preordenada, ou dolosa, evidentemente não exclui a imputação. Pelo 
contrário, não só enseja a responsabilização criminal do agente, como também constitui 
circunstância agravante, devendo ser considerada pelo magistrado na segunda fase da fixação 
da pena, conforme se extrai do art. 61, II, l, do CP. 
8.3. Menoridade penal 
Para os menores, o CP adotou o sistema biológico. O CP prevê a presunção absoluta 
de inimputabilidade. 
Nos termos do art. 27 do CP, os7.5. Exercício regular do direito ...........................................................................70
7.5.1. Conceito ....................................................................................................70
7.5.2. Alcance ......................................................................................................71
7.5.3. Algumas hipóteses de exercício regular de um direito ..............................71
7.6. Como pode cair ............................................................................................73 
Excludente de culpabilidade
8.1. Introdução ....................................................................................................75
8.2. Inimputabilidade ...........................................................................................76
8.2.1. Introdução .................................................................................................76
8.2.1. Da inimputabilidade por doença mental ou desenvolvimento mental 
incompleto ou retardado ......................................................................................76
8.2.2. Consequências do reconhecimento da inimputabilidade ...........................78
8.2.3. Da inimputabilidade por embriaguez proveniente de caso fortuito ou força 
maior ...................................................................................................................79
8.3. Menoridade penal .........................................................................................80
8.4. Falta de potencial consciência da ilicitude ....................................................81
8.4.1. Introdução .................................................................................................81
8.4.2. Erro de proibição .......................................................................................81
6 
8.4.3. Efeitos: erro de proibição inevitável e evitável ...........................................82
8.4.4. Diferença entre erro de tipo e erro de proibição ........................................85
8.5.1. Introdução .................................................................................................85
8.5.2. Coação moral irresistível ...........................................................................86
8.5.3. Obediência hierárquica ..............................................................................87
8.6. Como pode cair ............................................................................................89
Padrão Resposta..................................................................................................................... 91
 
 
Olá, aluno(a). Este material de apoio foi organizado com base nas aulas do curso preparatório 
para a 2ª Fase do 41º Exame da OAB e deve ser utilizado como um roteiro para as respectivas 
aulas. Além disso, recomenda-se que o aluno assista as aulas acompanhado da legislação 
pertinente. 
 
Bons estudos, Equipe Ceisc. 
Atualizado em maio de 2024. 
 
7 
 
Princípio da insignificância 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
1.1. Introdução 
O princípio da insignificância, também denominado crime de bagatela, guarda relação 
com o princípio da intervenção mínima e da fragmentariedade, no sentido de que ao Direito 
Penal cumpre a proteção de bens jurídicos que, por sua relevância, efetivamente necessitam 
de tutela penal. 
O Direito Penal não deve incidir quando a conduta do agente não for suficientemente 
capaz de causar lesão ou ao menos perigo de lesão a um determinado bem jurídico. Em 
síntese, o Direito Penal não se presta para atuar diante de condutas que atingem bens jurídicos 
irrelevantes e de natureza ínfima. 
A natureza jurídica do princípio da insignificância é de causa de exclusão da tipicidade 
material. Embora a conduta seja formalmente típica, será materialmente atípica, diante da 
ausência de lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico. Explica-se. 
A tipicidade penal é formada pela junção da tipicidade formal com a tipicidade material. 
A tipicidade formal nada mais é do que a adequação do fato praticado ao modelo legal 
de conduta proibida descrito na norma penal. É o enquadramento do fato praticado à conduta 
descrita no dispositivo penal. Assim, o fato de o agente subtrair determinado objeto se enquadra 
na norma penal que prevê como crime de furto a conduta de subtrair, para si ou para outrem, 
coisa alheia móvel. Ou seja, o fato praticado pelo agente se amolda à conduta proibida descrita 
no art. 155 do CP. Eis a tipicidade formal. 
Todavia, a adequação do fato à norma penal não é suficiente. É necessário, ainda, que 
o fato praticado atinja bem jurídico suficientemente relevante para ensejar a atuação do Direito 
Penal. 
A conduta do agente, pois, deve ser minimamente suficiente para causar lesão ou perigo 
de lesão a um bem juridicamente relevante. Eis a tipicidade material. 
8 
Se, conquanto prevista na norma penal como proibida (tipicidade formal), a conduta 
desenvolvida pelo agente atingir bem jurídico irrelevante, o fato será materialmente atípico, 
incidindo, assim, o princípio da insignificância. 
Tomemos como exemplo a subtração de uma barra de chocolate no valor de R$ 5,00 
(cinco reais) em uma grande rede de supermercados. Tal fato é formalmente típico, já que 
insculpido como proibido no art. 155 do CP, mas será materialmente atípico, uma vez que o 
bem jurídico atingido, por seu ínfimo valor, é irrelevante para o Direito Penal. 
 
1.2. Requisitos 
A incidência do princípio da insignificância não se dá de forma indiscriminada e sem 
critérios. 
Para o reconhecimento da atipicidade material do fato em decorrência do princípio da 
insignificância, devem estar presentes requisitos de ordem objetiva, relacionados ao fato, bem 
como de caráter subjetivo, relacionados ao agente, considerando sempre o caso concreto. 
 
1.2.1. Requisitos objetivos 
O STF1 e o STJ2 apontam quatro requisitos objetivos para a incidência do princípio da 
insignificância: a) mínima ofensividade da conduta; b) ausência de periculosidade social da 
ação; c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; d) inexpressividade da lesão 
jurídica. 
Os Tribunais Superiores elencam tais requisitos, sem, no entanto, estabelecer a 
diferença entre eles e especificar o alcance de cada um. Há, ainda, quem entenda que tais 
requisitos são tautológicos, que, em síntese, dizem a mesma coisa. 
E, na verdade, parece-nos que não seria realmente adequado estabelecer critérios 
rígidos e absolutos para cada requisito, já que os parâmetros estabelecidos para aferição da 
incidência do princípio da insignificância podem variar a depender das circunstâncias do caso 
concreto, como, por exemplo, o valor do bem atingido, a situação econômica da vítima, as 
condições pessoais do autor do fato, bem como as peculiaridades da prática delituosa.
1 STF, RHC nº 163009 AgRg/SC, rel. Luiz Fux, 1ª T., j. 7-12-2018. 
2 STJ, HC nº 502912/SP, rel. Ribeiro Dantas, 5ª T., j. 4-6-2019.
9 
Em outras palavras, a valoração conjunta desses requisitos pode variar de caso a caso, 
o que pode parecer insignificante num caso, pode não ser em outro semelhante, ou seja, furtar 
um objeto no valor de R$ 100,00 (cem reais) pertencente a uma pessoa com situação financeira 
confortável pode ensejar a incidência do princípio da insignificância, ao passo que subtrair uma 
velha bicicleta, avaliada em R$ 100,00 (cem reais), pertencente a um modesto trabalhador que 
a utiliza como meio de transporte para se deslocar até o local de trabalho, pode não incidir tal 
princípio. 
 
1.2.2. Requisitos Subjetivos 
Além dos requisitos objetivos, relacionados aos fatos, deve-se, ainda, verificar a 
presença dos requisitos subjetivos, relacionados ao autor da infração penal e à vítima do delito. 
a) Em relação ao autor da infração penal 
A possibilidade de aplicação do princípio da insignificância em relação ao autor do fato 
passa pela análisemenores de 18 anos são inimputáveis. Ao praticar um 
fato típico e ilícito, não respondem por crime por ausência de imputabilidade, que exclui a 
culpabilidade. 
81 
Logo, o menor não tem legitimidade para figurar no polo passivo da ação penal, razão 
pela qual, se estiver no início da ação penal, a de- núncia deve ser rejeitada, com base no artigo 
395, II, do CPP. Se a ação penal já estiver em tramitação, inclusive com instrução realizada, 
será caso de nulidade do processo, nos termos do artigo 564, II, do CPP. 
 
8.4. Falta de potencial consciência da ilicitude 
8.4.1. Introdução 
Nos termos do artigo 21 do Código Penal, o desconhecimento da lei é inescusável. Não 
se mostra possível, portanto, o agente acusado de uma infração penal alegar desconhecimento 
da lei para se eximir da aplicação da lei penal. A partir da publicação da lei no Diário Oficial, há 
presunção absoluta acerca do seu conhecimento. 
O desconhecimento da lei não se confunde com a falta de potencial consciência da 
ilicitude. A primeira guarda relação com o desconhecimento do seu texto legal, dos seus 
detalhes, ao passo que a segunda se caracteriza pela ausência de conhecimento que a conduta 
desenvolvida é ilícita. É nesse contexto que surge o instituto do erro de proibição. 
 
8.4.2. Erro de proibição 
Como vimos, a possibilidade de o agente adquirir a consciência da ilicitude do fato 
constitui um dos elementos da culpabilidade; pode, no entanto, acontecer de o agente 
desenvolver uma conduta supondo ser permitida ou lícita, quando, na verdade, é penalmente 
proibida, faltando-lhe a potencial consciência da ilicitude do fato. 
Surge, nesse cenário, o erro de proibição que, ao fim e ao cabo, constitui um erro sobre 
a ilicitude do fato, para usar a expressão adotada pelo art. 21 do CP. 
Com efeito, o agente desenvolve uma conduta conhecendo a realidade fática que o 
cerca, tem consciência sobre o fato que está pra- ticando; erra, no entanto, quanto à ilicitude 
do fato praticado. Considera estar praticando fato permitido, mas movido por uma falsa 
percepção acerca do caráter ilícito do fato típico praticado, faltando-lhe, em razão disso, a 
potencial consciência da ilicitude do fato. 
Exemplo: Uma mulher estrangeira, em visita ao nosso País, grávida de dois meses e 
proveniente de país que não coíbe o aborto, ingeriu substância abortiva acreditando não ser 
proibido fazê-lo no Brasil. A mulher não incorre em erro sobre a situação fática nem sobre 
qualquer elemento do tipo que define o crime de aborto (CP, art. 124). Ou seja, tem consciência 
82 
que está ingerindo substância abortiva, com a finalidade de interromper a gravidez; erra, 
contudo, quanto à ilicitude do fato praticado. Supõe ser lícita a conduta, quando, na verdade, é 
penalmente proibida no Brasil. 
Outro exemplo: Depois de jantar num restaurante, Francisco, homem de pouca cultura, 
percebeu que lá havia esquecido seu celular e voltou para pegá-lo, mas não mais o encontrou. 
Considerando que o dono do restaurante era responsável pelo seu prejuízo e acreditando ter o 
direito de fazer justiça pelas próprias mãos, tomou para si objetos pertencentes ao 
estabelecimento, suposta- mente de valor igual ao seu prejuízo. Francisco não incorre em erro 
sobre a situação fática nem sobre qualquer elemento do tipo que define o crime de exercício 
arbitrário das próprias razões (CP, art. 345), mas em relação à proibição da sua conduta. Tem 
pleno conhecimento de que estava se apossando de objetos pertencentes ao dono do 
restaurante, errando, contudo, quanto à ilicitude do fato praticado. Supõe ser lícita a conduta, 
quando, na verdade, é penalmente proibida no Brasil. 
 
8.4.3. Efeitos: erro de proibição inevitável e evitável 
a) Erro de proibição inevitável, escusável ou invencível 
No erro de proibição inevitável, escusável ou invencível, o agente, mesmo que tivesse 
empregado as diligências ordinárias, considerando-se suas características pessoais, não teria 
a possibilidade de adquirir a consciência da ilicitude do fato praticado, ou seja, de verificar que 
se trata de conduta ilícita. 
Adotando-se um critério mais objetivo para aferição da inevitabilidade do erro de 
proibição, pode-se utilizar como parâmetro o conceito de erro de proibição evitável fornecido 
pelo próprio Código Penal. Nos termos do art. 21, parágrafo único, do CP: “Considera-se 
evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe 
era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência”. 
Nesse contexto, se o erro de proibição evitável reúne a característica de ser possível, 
nas circunstâncias, ao agente ter ou atingir a consciência da ilicitude, forçoso concluir que o 
erro de proibição inevitável é aquele em que o agente atua ou se omite sem a consciência da 
ilicitude do fato, quando não lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. 
Em outras palavras, ainda que tivesse empregado as diligências necessárias, 
considerando sua condição pessoal, não seria possível ao agente a atingir a consciência da 
ilicitude do fato praticado. 
83 
Diante do avanço tecnológico e da facilidade de acesso às informações, atualmente se 
revela de difícil incidência a hipótese de erro de proibição inevitável. Há, de fato, diversos 
mecanismos e instrumentos para se alcançar a consciência da ilicitude do fato, reduzindo 
sobremaneira o alcance do erro de proibição inevitável. 
De todo modo, podemos citar alguns exemplos, que, em tese, poderiam se enquadrar 
na hipótese de erro de proibição indireto. 
Exemplo: Um telejornal de alcance nacional informa, de forma equivocada, a aprovação 
da lei que autoriza a eutanásia de doentes em estágio terminal. Não havendo nenhuma 
razão para duvidar da veracidade da notícia, o agente se dirige até o hospital e desliga os 
aparelhos que mantinham vivo um ente querido, que se encontrava sofrendo com a doença 
que o acometia e em estágio terminal, causando-lhe a morte. Praticou fato típico e ilícito, 
mas lhe faltou potencial consciência da ilicitude, incidindo o erro de proibição inevitável, 
cuja consequência será a exclusão da culpabilidade. Note-se que, diante das circunstâncias 
do caso, ainda que empregando diligência normal, o agente teria incorrido em erro quanto 
à licitude do fato praticado, já que a notícia havia sido veiculada em telejornal de grande 
alcance, não havendo qualquer razão para duvidar da veracidade da informação. 
O erro de proibição inevitável, escusável ou invencível exclui a culpabilidade do agente, 
por força da falta de potencial consciência de ilicitude. Com efeito, nos termos do art. 21, 1ª 
parte, do CP, “O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena”. 
b) Erro de proibição evitável, inescusável ou vencível 
O critério de aferição do erro de proibição inescusável, vencível ou evitável encontra-se 
no parágrafo único do art. 21 do CP, segundo o qual “considera-se evitável o erro se o agente 
atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas 
circunstâncias, ter ou atingir essa consciência”. 
O erro de proibição inescusável ou evitável ocorre quando o erro sobre a ilicitude do fato 
não se justifica, pois, se tivesse empregado um mínimo de esforço para se informar, o agente 
poderia ter adquirido a consciência da ilicitude do fato praticado. 
Nesse diapasão, alguém que reside na zona urbana, com amplo acesso aos meios de 
informações, não pode alegar erro inevitável em face da acusação pelo porte de munição. De 
fato, se reconhecido o erro de proibição, certamente será evitável, já que era possível ao 
84 
agente, diante das circunstâncias, de, com um mínimo de esforço, atingir a consciência da 
ilicitude da sua conduta. 
Tratando-se de erro de proibição evitável, inescusável, vencível, não haverá isenção de 
pena ou exclusão da culpabilidade, o agente será condenado, mas, ao final, o juiz, na terceirafase da fixação da pena, deverá diminui-la de um sexto a um terço. 
Imaginemos que Samara recebia a pensão previdenciária da sua mãe, depositada 
mensalmente em sua conta bancária, em virtude de ser procuradora dela. Após a morte da sua 
mãe, Samara continuou recebendo a pensão, supondo que, por ser filha da beneficiária, esse 
benefício passaria diretamente para ela. Trata-se de erro de proibição evitável, porque seria 
possível, com um mínimo esforço, alcançar a percepção da ilicitude de sua conduta. Assim, 
Samara responderia pelo crime de apropriação indébita, incidindo, na hipótese de condenação, 
a causa de diminuição da pena prevista no art. 21, caput, do CP. 
Em síntese, no erro de proibição inevitável, incide causa de exclusão da culpabilidade, 
sendo o agente isento de pena. No erro de proibição evitável, inescusável, vencível, não haverá 
isenção de pena ou exclusão da culpabilidade, devendo o agente responder pelo delito, e, se 
condenado, ter a pena diminuída de um sexto a um terço. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
85 
8.4.4. Diferença entre erro de tipo e erro de proibição 
*Para todos verem: esquema. 
 
 
8.5. Inexigibilidade de conduta diversa 
8.5.1. Introdução 
A exigibilidade de conduta diversa é o terceiro elemento da culpabilidade. O agente, ao 
praticar a infração penal, frustra a expectativa da sociedade, pois era lhe exigido conduta 
diversa daquela que deliberadamente adotou, ou seja, o agente poderia se comportar conforme 
o direito, mas optou por infringir a norma penal. 
De outro lado, quando não lhe era exigível comportamento diverso, não incide o juízo de 
reprovação, excluindo a culpabilidade. 
CAUSA 
EXCLUDENTE DE 
CULPABILIDADE 
CAUSA 
EXCLUDENTE DE 
TIPICIDADE 
ERRO DE TIPO
PORTAR ARMA DE 
FOGO VERDADEIRA, 
SUPONDO SER DE 
BRINQUEDO
AGENTE NÃO SABE O 
QUE FAZ
SE SOUBESSE, NÃO 
INCORRERIA EM ERRO, 
POIS SABE SER 
CONDUTA ILÍCITA
SE ERRO 
FOR 
INVENCÍVEL, 
EXCLUI O 
DOLO E A 
CULPA E O 
FATO SERÁ 
ATÍPICO
SE O ERRO 
FOR VENCÍVEL, 
EXCLUI O DOLO 
E O AGENTE 
RESPONDE 
POR CULPA SE 
A CONDUTA 
TIVER 
PREVISÃO NA 
MODALIDADE 
CULPOSA
ERRO DE PROIBIÇÃO
CIDADÃO AMERICANO 
PORTAR ARMA DE 
FOGO NO BRASIL 
SUPONDO SER 
CONDUTA LÍCITA
AGENTE SABE O QUE 
FAZ
SUPÕE QUE SUA 
CONDUTA É LÍCITA
SE ERRO 
FOR 
INEVITÁVEL, 
HÁ ISENÇÃO 
DE PENA
SE ERRO 
FOR 
EVITÁVEL, HÁ 
REDUÇÃO DA 
PENA DE 1/6 
A 1/3
86 
Nesse particular, as causas legais de exclusão da culpabilidade pela inexigibilidade de 
conduta diversa estão previstas no art. 22 do CP, consistentes na coação moral irresistível e na 
obediência hierárquica. 
8.5.2. Coação moral irresistível 
*Para todos verem: esquema. 
 
 
 
 
Nos termos do art. 22 do CP, se o fato é cometido sob coação irresistível, somente o 
autor da coação é punido. 
Na coação moral, o agente coator, para alcançar o resultado desejado, emprega grave 
ameaça contra o coagido, que, por medo de suportar um mal grave contra si ou contra outrem, 
acaba realizando a conduta criminosa exigida. A coação empregada pelo agente vicia a vontade 
do coagido, retirando-lhe a exigência de se comportar de modo diferente. Nesse caso, em 
relação ao coagido, incide a causa de exclusão da culpabilidade decorrente da inexigibilidade 
de conduta diversa. 
 Exemplo: Imaginemos que, por meio de grave ameaça, Mauro é coagido a confeccionar 
e assinar um documento falso, sob pena de o seu filho ser assassinado. Trata-se de fato típico 
e ilícito, mas não culpável, uma vez que, embora praticado por agente imputável e consciente 
da ilicitude do fato, não lhe era, nas circunstâncias, exigível conduta diversa. De fato, o coagido 
tinha duas opções: confeccionar e assinar o documento falso ou se negar a fazê-lo e ter o seu 
filho assassinado. Ao optar por praticar a falsificação, não se pode atribuir ao agente juízo de 
reprovação, uma vez que somente praticou a conduta diante da grave ameaça do seu filho ser 
morto. 
Outro exemplo: Mário, gerente de banco, estava dentro de seu veículo juntamente com 
familiares quando foi abordado por um bandido armado, que ameaçou os ocupantes do veículo, 
exigindo de Mário o fornecimento de determinada senha para a realização de uma operação 
bancária, o que foi por ele prontamente atendido. Nessa situação, embora tenha contribuído 
para a prática da subtração de valores de contas bancárias, Mário não será responsabilizado 
criminalmente, diante da inexigibilidade de conduta diversa. 
Coação moral 
irresistível 
Coator Grave ameaça Coagido 
Fato típico 
ílícito 
Somente o coator 
responde pelo delito 
87 
Para ser reconhecida a causa excludente de culpabilidade pela inexigibilidade de 
conduta diversa, devem estar presentes o coator, o coagido e a vítima do crime praticado. 
Assim, no caso de um gerente de banco, obrigado por criminosos a entregar valores que 
se encontram no cofre que pode abrir, por conta da ameaça de morte do seu filho, que se 
encontra em poder de um comparsa, os envolvidos são os criminosos (coatores), o gerente do 
banco (coagido) e o próprio banco, já que lesado no seu patrimônio (vítima). 
É possível, no entanto, a presença da excludente de culpabilidade com a presença de 
apenas duas pessoas, quando, por exemplo, o coator figurar como a própria vítima. 
Exemplo: Coagido, por conta da grave ameaça e sem outra forma de agir, mata o próprio 
coator. Note-se que, na hipótese, não se trata de legítima defesa, por conta da inexistência de 
agressão atual ou iminente, já que o coator se limitou a empregar grave ameaça. 
Quando o sujeito pratica o fato sob coação física irresistível, não praticará crime por 
ausência de conduta, aplicando-se o disposto no art. 13, caput, do CP. Trata-se de causa 
excludente da tipicidade. 
A coação moral deve ser irresistível. Tratando-se de coação moral resistível, não há 
exclusão da culpabilidade, incidindo uma circunstância atenuante (CP, art. 65, III, c, 1ª figura). 
 
8.5.3. Obediência hierárquica 
A hierarquia guarda relação com Direito Público, ou seja, com agentes públicos. Para 
que os serviços públicos sejam prestados com eficiência, há necessidade de ser estabelecida 
uma estrutura hierárquica em que as ordens são emanadas dos escalões superiores para 
serem cumpridas pelos agentes subordinados, integrantes dos escalões menores da estrutura 
administrativa. 
E, como regra, as ordens emanadas dos superiores hierárquicos devem ser cumpridas 
pelos subordinados, sob pena, inclusive, de constituir infração funcional, sujeita a sanções de 
ordem administrativa. 
Assim, o subordinado, ainda que não concorde com a ordem, deverá, a princípio, 
cumpri-la. É nesse cenário que surge a exclusão da culpabilidade por força da obediência 
hierárquica, uma vez que, diante de uma ordem não manifestamente ilegal, não seria exigível 
do subordinado conduta diversa, que não seja cumpri-la. 
Destarte, a obediência hierárquica decorre da conduta do subordinado que, por força 
de ordem não manifestamente ilegal emanada por superior hierárquico, prática fato típico e 
88 
ilícito. Trata-se de exclusão da culpabilidade, consistente na inexigibilidade de conduta diversa, 
prevista no art. 22 do CP. 
No caso de a ordem não ser manifestamente ilegal, embora constitua fato típico e 
antijurídico, o subordinado não será culpável, em face da inexigibilidade de conduta diversa. 
Diante das circunstâncias, não seria possível exigir do subordinado conduta diversa, sob pena, 
inclusive, de, desobedecendo ordem não manifestamente ilegal, responder a procedimento 
disciplinar. 
Nesse caso, o subordinado será isento de pena, ao passo que o superior hierárquico 
responderá pelo resultado produzido pelo executor. É o que se extrai do art. 22 do CP. 
Imaginemos que um Delegado de Polícia Civil, mesmo sabendo que o mandado de 
busca e apreensão regularmente expedido se encontra com prazo de cumprimento expirado, 
ordena que Fernanda, policial civil recém-empossada, se dirijaaté a residência de um suspeito 
e cumpra o mandado. Sem desconfiar que a diligência era ilegal, uma vez que determinada por 
autoridade superior, Fernanda se desloca até a casa do suspeito, apresenta o mandado de 
busca e apreensão, e ingressa na residência, mesmo sem a autorização do morador. Trata-se 
de uma ordem ilegal, já que o mandado de busca e apreensão já não tinha validade, mas, 
considerando as circunstâncias, tratando-se de policial recém-empossada, pode-se cogitar da 
hipótese de que essa ordem não é manifestamente ile- gal. Assim, embora tenha praticado fato 
típico e ilícito, Fernanda não será culpável, pois atuou por força de uma ordem não 
manifestamente ilegal emanada de superior hierárquico. Nesse caso, somente o superior 
hierárquico responderá pelo crime previsto no art. 22 da Lei nº 13.869/201923. 
Se a ordem for manifestamente ilegal, tanto o superior hierárquico, quanto o 
subordinado responderão pelo delito praticado. Nesse caso, para o superior hierárquico incide 
a agravante genérica descrita no art. 62, III, 1ª parte, do CP. E, em relação ao subordinado, 
aplica-se a atenuante prevista no art. 65, III, c, do CP. 
Pedro, funcionário público do Tribunal de Justiça, tem a responsabilidade de registrar 
em um livro próprio do cartório os procedimentos que estão há mais de 10 dias conclusos, 
permitindo o controle dos prazos por parte de advogados. O juiz responsável, buscando evitar 
23 “Art. 22. Invadir ou adentrar, clandestina ou astuciosamente, ou à revelia da vontade do ocupante, imóvel alheio ou suas 
dependências, ou nele permanecer nas mesmas condições, sem determinação judicial ou fora das condições estabelecidas 
em lei: Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. § 1º Incorre na mesma pena, na forma prevista no caput deste 
artigo, quem: I – coage alguém, mediante violência ou grave ameaça, a franquear-lhe o acesso a imóvel ou suas 
dependências; II – (VETADO); III – cumpre mandado de busca e apreensão domiciliar após as 21h (vinte e uma horas) ou 
antes das 5h (cinco horas).” 
89 
que terceiros soubessem de sua demora, determina que Pedro deixe de registrar diversos 
processos que estavam conclusos para sentença há vários meses. Apesar de ter conhecimento 
de que a conduta não era correta, Pedro cumpriu a ordem, já que partiu de seu superior 
hierárquico. Nesse caso, como se trata de ordem manifesta- mente ilegal, tanto Pedro quanto 
o juiz deverão responder pelo crime de falsidade ideológica (CP, art. 299), podendo incidir em 
favor do subordinado a atenuante prevista no art. 65, III, c, do CP, e em desfavor do superior 
hierárquico a agravante do art. 62, III, do CP. 
 
8.6. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas e na peça, pois são teses absolutórias, já que 
constituem causas de exclusão da ilicitude. 
Como tratam de causas de exclusão da culpabilidade: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, II, do CPP. 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, VI, do CPP. 
• Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição 
sumária, com base no artigo 415, IV, do CPP. 
 
 
 
90 
 
91 
 
 
 
 
Padrão Resposta 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
92 
1) QUESTÃO 4 – XXX EXAME 
Maria foi denunciada pela suposta prática do crime de descaminho, tendo em vista que teria 
deixado de recolher impostos que totalizavam R$ 500,00 (quinhentos reais) pela saída de 
mercadoria, fato constatado graças ao lançamento definitivo realizado pela Administração 
Pública. Considerando que constava da Folha de Antecedentes Criminais de Maria outro 
processo pela suposta prática de crime de roubo, inclusive estando Maria atualmente presa em 
razão dessa outra ação penal, o Ministério Público deixou de oferecer proposta de suspensão 
condicional do processo. Após a instrução criminal em que foram observadas as formalidades 
legais, sendo Maria assistida pela Defensoria Pública, foi a ré condenada nos termos da 
denúncia. A pena aplicada foi a mínima prevista para o delito, a ser cumprida em regime inicial 
aberto, substituída por restritiva de direitos. Maria foi intimada da sentença através de edital, 
pois não localizada no endereço constante do processo. A família de Maria, ao tomar 
conhecimento do teor da sentença, procura você, na condição de advogado(a) para prestar 
esclarecimentos técnicos. Informa estar preocupada com o prazo recursal, já que Maria ainda 
não tinha conhecimento da condenação, pois permanecia presa. Na condição de advogado(a), 
esclareça os seguintes questionamentos formulados pela família da ré. 
 
A) Existe argumento de direito processual para questionar a intimação de Maria do teor 
da sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,60) 
B) Qual argumento de direito material poderá ser apresentado, em eventual recurso, em 
busca da absolvição de Maria? Justifique. (Valor: 0,65) 
 
Obs.: O(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não 
confere pontuação. 
 
GABARITO COMENTADO 
A questão exige do examinando conhecimento sobre uma pluralidade de temas, mas em 
especial sobre os elementos do fato típico e sobre as formas de intimação das sentenças 
condenatórias. Narra o enunciado que Maria foi denunciada pela suposta prática de crime de 
descaminho, crime esse que teria gerado um prejuízo aos cofres públicos no valor de 
aproximadamente R$500,00 (quinhentos reais), estando incursa nas sanções do Art. 334 do 
CP. 
93 
A) O advogado, ao ser procurado pela família de Maria, deveria esclarecer que a intimação de 
Maria do teor da sentença condenatória não foi correta, tendo em vista que ela encontrava-se 
presa por outro crime, fato do conhecimento do Ministério Público. De acordo com o Art. 392 
do CPP, a intimação da sentença deverá ser pessoal se o réu estiver preso, ainda que a prisão 
seja decorrente de outro processo. A intimação por edital deve ocorrer quando o réu estiver em 
local incerto e não sabido, quando não for possível sua localização, ou em alguma das 
situações previstas no Art. 392, incisos IV, V e V, do CPP, o que não foi o caso. A intimação 
por edital, como forma de intimação ficta, prejudicou Maria, que ainda não tinha conhecimento 
do teor da sentença condenatória. 
 
B) O argumento seria de que a conduta praticada por Maria é atípica em razão da aplicação do 
princípio da insignificância. O conceito de crime envolve um fato típico, ilícito e culpável. Dentro 
da tipicidade, está a tipicidade material, que é a lesão relevante ao bem jurídico protegido. Em 
relação aos crimes tributários, a jurisprudência é tranquila no sentido de que haveria atipicidade 
material sempre que o valor do imposto sonegado não ultrapassar aquele que a Fazenda 
Pública considera baixo o suficiente para não justificar uma cobrança através de execução 
fiscal. Ainda que exista controvérsia se tal valor seria de R$ 10.000,00 ou R$ 20.000,00, fato é 
que, na presente hipótese, considerando que o valor do tributo não ultrapassaria R$ 500,00, o 
princípio da insignificância deveria ser aplicado. A lesão constatada não é grave o suficiente 
para justificar a intervenção do Direito Penal, diante de sua característica de 
subsidiariedade/última ratio. 
2) QUESTÃO 2 – IX EXAME 
Wilson, extremamente embriagado, discute com seu amigo Junior na calçada de um bar já 
vazio pelo avançado da hora. A discussão torna-se acalorada e, com intenção de matar, Wilson 
desfere quinze facadas em Junior, todas na altura do abdômen. Todavia, ao ver o amigo 
gritando de dor e esvaindo-se em sangue, Wilson, desesperado, pega um táxi para levar Junior 
ao hospital. Lá chegando, o socorro é eficiente e Junior consegue recuperar-se das graves 
lesões sofridas. Analise o caso narrado e, com base apenas nas informaçõesdadas, responda, 
fundamentadamente, aos itens a seguir. 
 
A) É cabível responsabilizar Wilson por tentativa de homicídio? (Valor: 0,65) 
94 
B) Caso Junior, mesmo tendo sido socorrido, não se recuperasse das lesões e viesse a 
falecer no dia seguinte aos fatos, qual seria a responsabilidade jurídico-penal de Wilson? 
(Valor: 0,60) 
 
Obs.: o examinando deve fundamentar suas respostas citação do dispositivo legal não confere 
pontuação. 
 
GABARITO COMENTADO: 
A) Não, pois Wilson será beneficiado pelo instituto do arrependimento eficaz, previsto na parte 
final do art. 15 do CP. Assim, somente responderá pelos atos praticados, no caso, as lesões 
corporais graves sofridas por Júnior. 
 
B) Nesse caso, como não houve eficácia no arrependimento, o que é exigido pelo art. 15 do 
CP, Wilson deverá responder pelo resultado morte, ou seja, deverá responder pelo delito de 
homicídio doloso consumado. 
 
3) QUESTÃO 3 – IX EXAME – 2012-3 
Mário está sendo processado por tentativa de homicídio, uma vez que injetou substância 
venenosa em Luciano, com o objetivo de matá-lo. No curso do processo, uma amostra da 
referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando 
comprovado que, pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância não 
fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Mesmo assim, arguindo que o 
magistrado não estava adstrito ao laudo, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Mário 
nos exatos termos da denúncia. Com base apenas nos fatos apresentados, responda 
justificadamente: 
 
 A) O magistrado deveria pronunciar Mário, impronunciá-lo ou absolvê-lo sumariamente? 
(Valor: 0,65) 
B) Caso Mário fosse pronunciado, qual seria o recurso cabível, o prazo de interposição 
e a quem deveria ser endereçado? (Valor: 0,60) 
 
Obs.: O(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não 
confere pontuação. 
95 
 
Gabarito comentado: 
A) Deveria absolvê-lo sumariamente, por força do art. 415, III, do CPP. O caso narrado não 
constitui crime, sendo hipótese de crime impossível. 
 
B) É cabível recurso em sentido estrito (art. 581, IV, do CPP); deve ser interposto no prazo de 
cinco dias (art. 586 do CPP); a petição de interposição deve ser endereçada ao juiz a quo e as 
razões deverão ser endereçadas ao Tribunal de Justiça. 
 
4) QUESTÃO 2 – VII EXAME – 2012-1 
Larissa, senhora aposentada de 60 anos, estava na rodoviária de sua cidade quando foi 
abordada por um jovem simpático e bem vestido. O jovem pediu-lhe que levasse, para a cidade 
de destino, uma caixa de medicamentos para um primo, que padecia de grave enfermidade. 
Inocente e seguindo seus preceitos religiosos, a Sra. Larissa atende ao rapaz: pega a caixa, 
entra no ônibus e segue viagem. Chegando ao local da entrega, a senhora é abordada por 
policiais que, ao abrirem a caixa de remédios, verificam a existência de 250 gramas de cocaína 
em seu interior. Atualmente, Larissa está sendo processada pelo crime de tráfico de 
entorpecente, previsto no art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. 
 
Considerando a situação anteriormente descrita e empregando os argumentos jurídicos 
apropriados e a fundamentação legal pertinente, responda: qual é a tese defensiva 
aplicável à Larissa? (Valor: 1,25) 
 
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não 
confere pontuação 
 
GABARITO COMENTADO 
A questão pretende buscar do examinando conhecimento acerca do instituto do erro de tipo 
essencial, inclusive para diferenciá-lo das demais modalidades de erro. Assim, para garantir 
pontuação, a resposta deverá trazer as seguintes informações: a tese defensiva aplicável é a 
de que Larissa agiu em erro de tipo essencial incriminador, instituto descrito no art. 20, caput, 
do CP, pois desconhecia circunstância elementar descrita em tipo penal incriminador. Ausente 
o elemento típico, qual seja, o fato de estar transportando drogas, faz com que, nos termos do 
96 
dispositivo legal, se exclua o dolo, mas permita-se a punição por crime culposo e, como o 
dispositivo legal do art. 33 da Lei nº 11.343/2006 não admite a modalidade culposa, o fato se 
tornaria atípico. Ressalte-se que, levando em conta que o Exame de Ordem busca o 
conhecimento técnico e acadêmico dos examinandos, não serão pontuadas respostas que 
tragam teses contraditórias. Assim, a resposta indicativa de qualquer outra espécie de erro (seja 
acidental, de tipo permissivo ou de proibição) implica na impossibilidade de pontuação, estando, 
a questão, maculada em sua integralidade. Entende-se por tese contraditória aquelas que 
elencam diversas modalidades de erro, ainda que uma delas seja a correta. Também com o fim 
de privilegiar o raciocínio e a demonstração de conhecimento, a mera indicação da 
consequência correta (atipicidade do fato), dissociada da argumentação pertinente e 
identificação do instituto aplicável ao caso, não será passível de pontuação. Do mesmo modo, 
não será pontuada a mera indicação do dispositivo legal, qual seja, o art. 20, caput, do CP. 
 
5) QUESTÃO 1 – V EXAME 
Antônio, pai de um jovem hipossuficiente preso em flagrante delito, recebe de um serventuário 
do Poder Judiciário Estadual a informação de que Jorge, defensor público criminal com 
atribuição para representar o seu filho, solicitara a quantia de dois mil reais para defendê-lo 
adequadamente. Indignado, Antônio, sem averiguar a fundo a informação, mas confiando na 
palavra do serventuário, escreve um texto reproduzindo a acusação e o entrega ao juiz titular 
da vara criminal em que Jorge trabalha como defensor público. Ao tomar conhecimento do 
ocorrido, Jorge apresenta uma gravação em vídeo da entrevista que fizera com o filho de 
Antônio, na qual fica evidenciado que jamais solicitara qualquer quantia para defendê-lo, e 
representa criminalmente pelo fato. O Ministério Público oferece denúncia perante o Juizado 
Especial Criminal, atribuindo a Antônio o cometimento do crime de calúnia, praticado contra 
funcionário público em razão de suas funções, nada mencionando acerca dos benefícios 
previstos na Lei nº 9.099/95. Designada Audiência de Instrução e Julgamento, recebida a 
denúncia, ouvidas as testemunhas, interrogado o réu e apresentadas as alegações orais pelo 
Ministério Público, na qual pugnou pela condenação na forma inicial, o magistrado concede a 
palavra à Vossa Senhoria para apresentar alegações finais orais. Em relação à situação 
anterior, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a 
fundamentação legal pertinente ao caso: 
 
A) O Juizado Especial Criminal é competente para apreciar o fato em tela? (Valor: 0,30) 
97 
B) Antônio faz jus a algum benefício da Lei nº 9.099/95? Em caso afirmativo, qual(is)? 
(Valor: 0,30) 
C) Antônio praticou crime? Em caso afirmativo, qual? Em caso negativo, por que razão? 
(Valor: 0,65) 
 
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não 
confere pontuação. 
 
GABARITO COMENTADO 
A) Não, pois, de acordo com o art. 141, II, do CP, quando a ofensa for praticada contra 
funcionário público em razão de suas funções, a pena será aumentada de um terço, o que faz 
com que a sanção máxima abstratamente cominada seja superior a dois anos. 
 
B) Sim, suspensão condicional do processo, nos termos do art. 89 da Lei nº 9.099/1995. 
 
C) Não. Antônio agiu em erro de tipo vencível/inescusável. Conforme previsão do art. 20 do CP, 
nessa hipótese, o agente somente responderá pelo crime se for admitida a punição a título 
culposo, o que não é o caso, pois o crime em comento não admite a modalidade culposa. Vale 
lembrar que não houve dolo na conduta de Antônio. 
 
6) QUESTÃO 2 – X EXAME 
Maria, mulher solteira de 40 anos, mora no Bairro Paciência, na cidade Esperança. Por conta 
de seucomportamento, sempre foi alvo de comentários maldosos dos vizinhos; alguns até 
chegavam a afirmar que ela tinha “cara de quem cometeu crime”. Não obstante tais 
comentários, nunca houve prova de qualquer das histórias contadas, mas o fato é que Maria é 
conhecida na localidade onde mora por ter má índole, já que sempre arruma brigas e 
inimizades. Certo dia, com raiva de sua vizinha Josefa, Maria resolve quebrar a janela da 
residência desta. Para tanto, espera chegar a hora em que sabia que Josefa não estaria em 
casa e, após olhar em volta para ter certeza de que ninguém a observava, arremessa com 
força, na direção da casa da vizinha, um enorme tijolo. Ocorre que Josefa, naquele dia, não 
havia saído de casa e o tijolo, após quebrar a vidraça, atinge também sua nuca. Josefa falece 
instantaneamente. 
98 
Nesse sentido, tendo por base apenas as informações descritas no enunciado, responda 
justificadamente: É correto afirmar que Maria deve responder por homicídio doloso 
consumado? (Valor: 1,25). 
 
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não 
confere pontuação. 
 
GABARITO COMENTADO 
Na presente questão cabe ao examinando identificar o instituto por ela versado, qual seja, o erro 
de tipo acidental, na modalidade do resultado diverso do pretendido, previsto no art. 74 do CP. 
Referido instituto traz como consequência, para o caso sob exame, a punição do agente por 
crime doloso em relação ao objetivo por ele almejado (que no caso foi o crime de dano previsto 
no art. 163 do CP), bem como a sua punição na modalidade culposa pelo resultado não 
intencional por ele alcançado, desde que o tal delito admita a modalidade culposa. Nesse sentido, 
observa-se que o outro resultado alcançado foi o crime de homicídio, que admite a modalidade 
culposa, de acordo com o art. 121, § 3º, do CP. Sendo assim, uma vez tendo, Maria, alcançado 
os dois resultados, deverá ser punida por ambos (dano doloso e homicídio culposo) na forma do 
art. 70 do CP, ou seja, em concurso formal próprio, que determina a majoração da pena do crime 
mais grave de 1/6 até 1/2. 
 
 
 
99no sentido de verificar se é reincidente ou criminoso habitual. 
Quanto ao agente reincidente, os tribunais divergem sobre a possibilidade de 
aplicação do princípio da insignificância. 
O STJ considera inaplicável o princípio da insignificância, salvo quando as instâncias 
ordinárias, analisando o caso concreto, entenderem ser recomendável a incidência dessa causa 
de exclusão da tipicidade. Nesse particular, o STJ confirmou entendimento do Tribunal de 2º 
grau que manteve decisão de rejeição da denúncia oferecida contra réu reincidente, atentando 
para as circunstâncias do caso concreto3. 
Verifica-se, pois, que, como regra, não se aplica o princípio da insignificância ao réu 
reincidente, salvo em casos excepcionais, atentando-se às particularidades do caso concreto. 
Assim, a reincidência do acusado não é motivo suficiente para afastar a aplicação do 
princípio da insignificância, ressalvados casos específicos, que dependem da análise do 
contexto fático concreto. 
3 STJ, AgRg no REsp nº 1804399/SP, rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., j. 4-6-2019. 
10 
Em relação ao multirreincidente4 e ao reincidente específico, o STF5 e o STJ6 
consideram inaplicável o princípio da insignificância, diante da maior reprovabilidade da sua 
conduta. 
b) Em relação à vítima 
A aplicação do princípio da insignificância depende, ainda, das condições e 
características pessoais da própria vítima. 
Além da presença dos vetores objetivos, deve-se verificar o contexto que envolve a 
vítima, como, por exemplo, sua condição econômica, a importância que o bem jurídico 
representa para ela, o valor sentimental, as circunstâncias e as consequências do delito. 
Com efeito, o que pode ser irrelevante para uma determinada vítima, pode não ser em 
relação à outra. A extensão do prejuízo provocado pela subtração de um botijão de gás de uma 
residência ocupada por família de excelente condição financeira não é, evidentemente, a 
mesma em relação a uma família com modesta condição econômica, que reside num acanhado 
imóvel e cuja renda mensal não supera o valor de um salário-mínimo. 
Em relação à família dotada de boa condição econômica, pode-se aventar a incidência 
do princípio da insignificância, ao passo que em relação à família com situação financeira 
modesta não parece razoável considerar a hipótese de crime de bagatela. 
Portanto, não há que se falar em reduzido grau de reprovabilidade da conduta do agente, 
se o valor do bem jurídico atacado não é irrisório diante das condições econômicas da vítima7
. 
Da mesma forma, ainda que inexpressivo economicamente, o valor sentimental em 
relação ao bem jurídico atacado também é considerado para aquilatar a aplicação do princípio 
da insignificância, uma vez que, nesse caso, o dano suportado pela vítima ganha maior 
relevância do que qualquer quantia pecuniária. Esse é o entendimento do STF8 e do STJ9. 
 
4 STJ, AgRg no AgREsp nº 1307157/MG, rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., j. 21-8-2018. 
5 STF, HC nº 153980 AgRg/MS, rel. Min. Dias Toffoli, 2ª T., j. 18-5-2018. 
6 6. STJ, AgRg no REsp nº 1427296/MG, rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª T., j. 4-6-2019.
7 STJ, AgRg no AgREsp nº 813662/DF, rel. Min. Gurgel de Faria, 5ª T., j. 23-2-2016. 
8 STF, HC nº 111017/RS, rel. Min. Ayres Britto, 2ª T., j. 7-2-2012. 
9 STJ, HC nº 60949/PE, rel. Min. Laurita Vaz, 5ª T., j. 20-11-2007.
11 
1.3. Princípio da insignificância em espécie 
Embora seja mais frequente em relação a crimes contra o patrimônio, a aplicação do 
princípio da insignificância não se limita a crimes dessa natureza, podendo, se preenchidos os 
requisitos, incidir sobre qualquer crime. 
A maior incidência do princípio da insignificância ocorre, inexoravelmente, em relação ao 
crime de furto, já que praticado sem violência ou grave ameaça, atingindo, não raras vezes, 
objeto de valor ínfimo. 
A propósito, nesse aspecto, convém registrar que não há um valor máximo limitando a 
incidência do princípio da insignificância, pois, como dito, além do valor do objeto do crime, 
deve-se, ainda, considerar as condições financeiras da vítima, a importância do objeto material, 
bem com as circunstâncias do caso concreto. 
Não obstante isso, em que pese não constituir parâmetro absoluto, o STJ considera 
aplicável o princípio da insignificância, se presentes os demais requisitos, quando o valor do 
objeto material atingido não superar o equivalente a 10% do salário-mínimo vigente à época do 
fato10, rejeitando, por exemplo, a incidência do crime de bagatela em relação a furto de objeto 
com valor equivalente a 23% do salário-mínimo vigente à época do fato11. 
Não há espaço, à evidência, para aplicação do princípio da insignificância em relação 
a crimes hediondos ou equiparados, uma vez que o legislador conferiu maior rigor ao tratamento 
dado a agentes acusados por tais delitos, reconhecendo a gravidade das condutas, sendo, pois, 
incompatível com reduzida reprovabilidade e grau de ofensividade ao bem jurídico inerentes ao 
crime bagatelar. 
Alguns delitos, por suas peculiaridades, merecem especial análise acerca da incidência 
ou não do princípio da insignificância. 
a) Crimes praticados com violência ou grave ameaça à pessoa 
É pacífico o entendimento no sentido da inaplicabilidade do princípio da insignificância 
em relação a crimes de roubo e a outros delitos praticados com violência ou grave ameaça à 
pessoa. 
10 STJ, AgRg no RHC nº 106838/MG, rel. Min. Laurita Vaz, 6ª T., j. 6-6-2019. 
11 STJ, AgRg no HC nº 502019/SC, rel. Min. Rogério Schietti Cruz, 6ª T., j. 6-6-2019.
12 
Isso porque, ainda que irrelevante o valor do objeto material atacado, não se mostra 
razoável considerar insignificante a conduta do agente que emprega violência ou grave ameaça 
contra a vítima. Ao contrário, tal conduta revela maior periculosidade do agente, bem como 
elevado grau de ofensividade e reprovabilidade, afastando, por absoluto, a aplicação do 
princípio da insignificância. 
Prevalece o entendimento, no entanto, da possibilidade da incidência do princípio da 
insignificância nos casos de lesão corporal leve e lesão corporal culposa, desde que a conduta 
gere lesões absolutamente ínfimas, como, por exemplo, pequenas escoriações, sem maior 
lesividade, salvo se praticado no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher. 
b) Crimes contra a fé pública 
Os crimes contra a fé pública estão previstos nos arts. 289 a 311-A do CP. 
O bem jurídico tutelado é a legitimidade e a credibilidade depositada nos documentos, 
sinais e símbolos que registram as relações jurídicas celebradas na sociedade organizada. 
Logo, diante da importância do bem jurídico tutelado, não se mostra razoável nem 
proporcional admitir a incidência do princípio da insignificância em relação aos crimes contra a 
fé pública. 
De fato, julgando crime de falsificação de documento público (CP, art. 297), o STJ 
considerou inaplicável o princípio da insignificância aos delitos cujo bem tutelado seja a fé 
pública12
. 
c) Crimes contra a administração pública 
Sedimentando discussão doutrinária e jurisprudencial, o STJ pacificou entendimento no 
sentido da inaplicabilidade do princípio da insignificância nos crimes praticados contra a 
administração pública, já que, independentemente do valor material do bem atingido, busca-se, 
no caso, tutelar a moralidade administrativa, insuscetível de mensuração econômica. 
É o que se extrai da Súmula nº 599 do STJ, segundo a qual “o princípio da 
insignificância é inaplicável aos crimes contra a Administração Pública”. 
d) Crime de descaminho e crimes contra a ordem tributária 
12 STJ, AgRg no AgREsp nº 1131701/SP, rel. Min. Rogério Schietti Cruz, 6ª T., j. 17-4-2018. 
13 
Não obstante estar inserido no capítulo dos crimes contra a administração pública, o 
crime de descaminho (CP, art. 334) também ofende a ordem tributária, já que o agente ilude, 
no todo ou em parte, o pagamento de tributo devido pela entrada ou saídade mercadoria do 
País. 
Em razão disso, verifica-se a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância 
ao crime de descaminho, apesar do disposto na Súmula nº 599 do STJ. 
Ainda que possa parecer estranho num primeiro momento, sobretudo por força do valor 
considerado como parâmetro, admite-se a incidência do princípio da insignificância no crime de 
descaminho quando o valor do tributo devido não for superior a R$ 20.000,00 (vinte mil reais). 
De fato, nos termos do art. 20 da Lei nº 10.522/2002, atualizado pelas Portarias do 
Ministério da Fazenda nos 75/2012 e 130/2012, serão arquivados, sem baixa na distribuição, 
por meio de requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais 
de débitos inscritos em Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou 
por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior àquele estabelecido em ato do 
Procurador-Geral da Fazenda Nacional. 
A Port. nº 130/2012, que alterou a Port. nº 75/2012, prevê que o Procurador da 
Fazenda Nacional requererá o arquivamento, sem baixa na distribuição, das execuções fiscais 
de débitos com a Fazenda Nacional, cujo valor consolidado seja igual ou inferior a R$ 20.000,00 
(vinte mil reais), desde que não conste dos autos garantia, integral ou parcial, útil à satisfação 
do crédito. 
Em outras palavras, se o valor do tributo iludido pelo agente for igual ou inferior a R$ 
20.000,00 (vinte mil reais), poderá, a princípio, ser aplicado o princípio da insignificância.
Isso porque, se a Fazenda Nacional expressamente considera irrelevante cobrar tributo 
cujo valor não supera R$ 20.000,00, sendo, pois, insignificante na esfera fiscal, também será, 
na ótica dos Tribunais Superiores, insignificante na esfera penal. 
Esse é o entendimento adotado pelo STJ e pelo STF. 
Todavia, o princípio da insignificância em relação ao crime de descaminho não é 
aplicado de forma indiscriminada. 
14 
O limite previsto na Lei nº 10.522/2002, atualizado pelas Portarias nos 75/2012 e 
130/2012, ambas do Ministério da Fazenda, para aplicação do princípio da insignificância 
somente é aplicado em relação a tributos federais13. Não se aplica, pois, aos tributos estaduais 
e municipais; primeiro, porque tais tributos não estão abrangidos pela Lei nº 10.522/2002, que 
trata de tributos federais; segundo, porque a lesão jurídica provocada pela elisão fiscal pode 
ser mais expressiva entre os entes federativos da esfera estadual e municipal. 
Além disso, não se admite a aplicação do princípio da insignificância quando constatada 
a habitualidade delitiva nos crimes de descaminho, configurada tanto pela multiplicidade de 
procedimentos administrativos quanto por ações penais ou inquéritos policiais em curso14. 
e) Crime de contrabando 
O crime de contrabando, previsto no art. 334-A do CP, consiste em importar ou exportar 
mercadoria proibida. 
A prática do crime de contrabando não atinge unicamente o erário público, mas também 
outros bens jurídicos, que, por sua relevância, não permitem a aplicação do princípio da 
insignificância, tais como a saúde pública e a moralidade administrativa. 
Além disso, a conduta do agente que importa ou exporta mercadoria classificada como 
proibida ou ilícita com grau maior grau de reprovabilidade, não se coaduna, portanto, com os 
vetores que autorizam o princípio da insignificância. 
Todavia, o Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento no sentido de que "O 
princípio da insignificância é aplicável ao crime de contrabando de cigarros quando a 
quantidade apreendida não ultrapassar 1.000 (mil) maços, seja pela diminuta reprovabilidade 
da conduta, seja pela necessidade de se dar efetividade à repressão ao contrabando de vulto, 
excetuada a hipótese de reiteração da conduta, circunstância apta a indicar maior 
reprovabilidade e periculosidade social da ação". 
f) Crimes na Lei de Drogas – Lei nº 11.343/2006 
A Lei de Drogas tutela a saúde pública. São crimes de perigo abstrato ou presumido, 
sendo, por isso, dispensável a comprovação do efetivo risco ao bem jurídico tutelado. Em 
relação ao crime de tráfico de drogas, delito equiparado a hediondo, não se discute a 
13 STJ, AgRg no REsp nº 1259739/SP, rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª T., j. 30-5-2019. 
14 STJ, AgRg no REsp nº 1834566/PR, rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª T., j. 3-3-2020. 
15 
inaplicabilidade do princípio da insignificância, diante do tratamento mais severo conferido pelo 
legislador aos delitos dessa natureza. 
 Todavia, em relação ao delito de posse de drogas para consumo pessoal (Lei nº 
11.343/2006, art. 28) há divergência acerca da aplicabilidade ou não do princípio da 
insignificância. 
O STJ, por sua 5ª Turma, adota o entendimento no sentido de que a conduta de posse 
de drogas para consumo pessoal está tipificada na Lei de Drogas, que, na sua íntegra, tutela a 
saúde pública, bem jurídico que, a evidência, não pode ser considerado ínfimo. Além disso, o 
crime do art. 28 da Lei nº 11.343/2006 é de perigo abstrato, sendo irrelevante a pequena 
quantidade de substância entorpecente apreendida em poder do agente15. 
De outro lado, o STF já admitiu o princípio da insignificância em favor de agente 
condenado por portar 0,6 g de maconha16. 
g) Violência doméstica ou familiar contra a mulher 
Diante da relevância do bem jurídico protegido e da natureza protetiva da Lei nº 
11.340/2006 não se mostra razoável ou proporcional admitir a incidência do princípio da 
insignificância no contexto de violência doméstica ou familiar contra a mulher, nem mesmo na 
hipótese de reconciliação do casal. 
É o que se extrai da Súmula nº 589 do STJ, segundo a qual: “É inaplicável o princípio 
da insignificância nos crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito 
das relações domésticas”. 
h) Posse e porte ilegal de munição 
Nos termos dos arts. 14 e 16, ambos da Lei nº 10.826/2003, constitui crime possuir, 
manter sob sua guarda, portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, 
ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar 
munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou 
regulamentar. 
15 STJ, AgInt no HC nº 372555/ES, rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., j. 15-8-2017. 
16 STF, HC nº 110.475/SC, rel. Min. Dias Toffoli, 1ª T., j. 14-2- 2012.
16 
Os crimes de posse ou porte ilegal de munição incidem mesmo que desacompanhada 
de arma de fogo, já que se trata de crime de mera conduta e de perigo abstrato. A inviabilidade 
do pronto uso da munição, por estar desacompanhada da arma, não desnatura o delito. 
Isso não significa a impossibilidade do reconhecimento, em situações excepcionais, 
do princípio da insignificância. Com efeito, admite- se a incidência do princípio da insignificância 
quando se tratar de posse de pequena quantidade de munição, desacompanhada de 
armamento capaz de deflagrá-la, uma vez que ambas as circunstâncias conjugadas denotam 
a inexpressividade da lesão jurídica provocada, bem como a diminuta ofensividade ao bem 
jurídico tutelado. 
Nesse contexto, o STJ considerou a incidência do princípio da insignificância ao 
agente flagrado na posse de dois cartuchos de calibre .32, desacompanhados de arma de 
fogo17
. O STF, por sua vez, reconheceu o princípio da insignificância em relação à conduta de 
portar, sem autorização legal, uma munição de uso proibido, consistente num cartucho calibre 
0.4018
, 
Por outro lado, não se aplica o princípio da insignificância na hipótese de ser 
apreendida razoável quantidade de munições, como, por exemplo, 18 no total, sendo 5 projéteis 
de calibre .38 e 13 de calibre .38019
. 
1.4. Como pode cair 
O princípio da insignificância já caiu como tese de peça e também em questões 
dissertativas. 
Por se tratar de causa de exclusão da tipicidade material, a tese envolvendo o princípio 
da insignificância ensejará a absolviçãodo acusado. 
 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP. 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, III, do CPP. 
 
17 STJ, HC nº 484121/MG, rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., j. 16-5-2019. 
18 STF, HC nº 154390/SC, rel. Min. Dias Toffoli, 1ª T., j. 17-4-2018. 
19 STJ, AgRg no REsp nº 1915047/RJ, rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª T., j. 9-3-2021.
17 
 
Obs.: Deixamos de mencionar a absolvição sumária do artigo 415 do CPP, porque 
está relacionada a crimes contra a vida, sendo, por isso, incabível o princípio da 
insignificância nesse caso. 
 
1.5. Exercícios para resolver após a aula 
1) QUESTÃO 4 – OAB FGV – XXX Exame – 2019-3 
Maria foi denunciada pela suposta prática do crime de descaminho, tendo em vista que teria 
deixado de recolher impostos que totalizavam R$ 500,00 (quinhentos reais) pela saída de 
mercadoria, fato constatado graças ao lançamento definitivo realizado pela Administração 
Pública. Considerando que constava da Folha de Antecedentes Criminais de Maria outro 
processo pela suposta prática de crime de roubo, inclusive estando Maria atualmente presa em 
razão dessa outra ação penal, o Ministério Público deixou de oferecer proposta de suspensão 
condicional do processo. Após a instrução criminal em que foram observadas as formalidades 
legais, sendo Maria assistida pela Defensoria Pública, foi a ré condenada nos termos da 
denúncia. A pena aplicada foi a mínima prevista para o delito, a ser cumprida em regime inicial 
aberto, substituída por restritiva de direitos. Maria foi intimada da sentença através de edital, 
pois não localizada no endereço constante do processo. A família de Maria, ao tomar 
conhecimento do teor da sentença, procura você, na condição de advogado(a) para prestar 
esclarecimentos técnicos. Informa estar preocupada com o prazo recursal, já que Maria ainda 
não tinha conhecimento da condenação, pois permanecia presa. Na condição de advogado(a), 
esclareça os seguintes questionamentos formulados pela família da ré. 
A) Existe argumento de direito processual para questionar a intimação de Maria do teor 
da sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,60) 
B) Qual argumento de direito material poderá ser apresentado, em eventual recurso, em 
busca da absolvição de Maria? Justifique. (Valor: 0,65) 
 
 
 
 
 
18 
Iter criminis 
 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
 
2.1. Conceito 
Iter criminis significa literalmente “caminho do crime”. Trata-se do caminho percorrido 
pelo agente para a prática da infração penal, passando pela ideação até chegar à consumação. 
Em síntese, iter criminis é o conjunto de fases pelas quais passa o delito. 
Compõe-se de uma fase interna, na qual o agente representa mentalmente a prática 
delituosa, bem como de uma fase externa, em que o agente exterioriza a sua conduta, 
colocando em prática a ideia criminosa, praticando atos preparatórios e executórios até 
alcançar a consumação. 
O iter criminis, pois, é composto pelas seguintes fases. 
 
 
• Fase interna: cogitação; 
• Fase externa: atos preparatórios, execução e consumação. 
Convém sinalar que o exaurimento não integra o iter criminis, já que ocorre após a 
integralização da atividade criminosa. Constitui, na verdade, a atividade posterior à 
consumação do delito, consistente, não raras vezes, no proveito da atividade criminosa, como 
se fosse uma espécie de “plus”, podendo, ainda, constituir nos casos expressamente previstos 
em lei, qualificadora ou causa de aumento de pena. 
Assim, o fato de o agente vender o bem móvel subtraído caracteriza o exaurimento do 
crime de furto, já esgotado o iter criminis com o desapossamento do objeto. No crime de 
corrupção passiva (CP, art. 317), o recebimento da vantagem indevida solicitada caracteriza o 
exaurimento do crime, já que o crime se consumou com a solicitação de tal vantagem. 
Cogitação
Atos 
preparatórios
Execução Consumação
19 
2.2. Cogitação 
O primeiro momento do iter criminis é a chamada cogitatio. O agente idealiza 
internamente a atividade criminosa. Elabora mentalmente a infração penal, delibera sobre o 
desenvolvimento da conduta e, por fim, decide praticar a infração penal. Toda essa 
representação ainda se encontra no plano interno do agente, ou seja, ainda não há 
exteriorização de nenhum ato. 
É exatamente por isso que a fase da cogitação não é punível. De fato, como ainda está 
no plano interno do agente, não há ainda qualquer violação a um bem jurídico, razão pela qual 
não incidem as normas de Direito Penal. 
Em outras palavras, na fase da cogitação não há falar em crime, nem mesmo na forma 
tentada, já que, para tanto, deve haver, ao menos, o início da execução do delito para 
caracterizar a infração penal. 
 
2.3 Atos preparatórios 
Os atos preparatórios consistem no conjunto de atos voltados a concretizar a infração 
penal. O agente passa da cogitação para a exteriorização da sua atividade criminosa, 
buscando, previamente ao início da execução, os elementos necessários para o 
desenvolvimento da conduta delituosa. É a partir dos atos preparatórios que o agente começa 
a materializar, ou seja, exteriorizar sua busca pela consumação da infração penal. 
Para a prática do crime de homicídio, a aquisição de uma arma constitui mero ato 
preparatório. Da mesma forma, o estudo do local do crime, buscando identificar a melhor hora 
e forma de ingressar no ambiente, constitui atos preparatórios do crime de furto. 
Os atos preparatórios, via de regra, não são puníveis, nem na forma tentada, uma vez 
que, nos termos do art. 14, II, do CP, afigura-se necessário o início da execução do delito, com 
a realização da conduta nuclear descrita no tipo penal. Em outras palavras, via de regra, não 
constituem crime. 
Todavia, em casos excepcionais, o legislador descreve atos que na sua concepção 
seriam preparatórios como delitos autônomos. São os chamados crimes-obstáculo. 
Nesses casos, o ato preparatório de um determinado delito é considerado pelo legislador 
um crime autônomo e independente, tratando-o, na situação específica, como verdadeiro ato 
executório. 
20 
A associação de três ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes, constitui 
crime autônomo (CP, art. 288), ainda que nenhum crime seja praticado. 
Da mesma forma, o legislador considera crime autônomo atos preparatórios para a 
prática do crime de moeda falsa. De fato, nos termos do art. 291 do CP, constitui crime fabricar, 
adquirir, fornecer, a título oneroso ou gratuito, possuir ou guardar maquinismo, aparelho, 
instrumento ou qualquer objeto especialmente destinado à falsificação de moeda, ainda que 
nenhuma moeda tenha sido falsificada. 
O art. 5º da Lei nº 13.260/2016 prevê conduta criminosa do agente que realizar atos 
preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito, ainda que 
nenhum ato executório seja realizado. 
2.4. Execução 
Idealizada a infração penal e após realizar os atos preparatórios, o agente passa à fase 
de execução do delito, com a efetiva agressão ao bem jurídico tutelado. 
O agente passa a desenvolver conduta voltada a realizar o verbo nuclear do tipo. A partir 
dos atos executórios, o fato passa a ser punível, ao menos na forma tentada. Isso porque o 
próprio art. 14, II, do CP, atrelou a tentativa ao início da execução do crime, condicionando sua 
punibilidade ao início da prática de atos executórios. 
 
2.5. Consumação 
Nos termos do art. 14, I, do CP, diz-se que o crime é consumado “quando nele se reúnem 
todos os elementos de sua definição legal”. É o tipo penal integralmente realizado, ou seja, 
quando o fato praticado pelo agente se enquadra plena- mente no tipo penal abstrato. 
É o elemento culminante do iter criminis. 
É o momento de conclusão do delito, reunindo todos os elementos que integram o tipo 
penal. Trata-se do crime perfeito ou completo, já quea conduta do agente atingiu a plenitude, 
culminando na concretização dos elementos que definem o tipo penal. 
Assim, quando o agente efetua disparo de arma de fogo contra a vítima, matando-a, terá 
consumado o delito de homicídio, pois integralizou todos os elementos que compõem sua 
definição legal, consistente em “matar alguém”. 
Todavia, a definição de crime consumado revela uma complexidade maior do que o texto 
legal aparenta. Isso porque, dependendo da classificação doutrinária e das características 
21 
próprias, as infrações penais podem ter um momento consumativo diverso. Em síntese, nem 
todas as infrações penais possuem o mesmo momento consumativo. 
 
2.6. Como pode cair 
A cogitação e os atos preparatórios não constituem crime. Logo, trata-se de tese 
absolutória20
. 
 
20 Foi o que aconteceu na peça prático-profissional do XXVI Exame da OAB. 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do 
CPP 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, III, do CPP 
• Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição 
sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 
22 
 
23 
Desistência voluntária e arrependimento eficaz 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
 
3.1. Introdução 
A desistência voluntária e o arrependimento eficaz estão previstos no art. 15 do CP, 
segundo o qual “O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede 
que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados”. 
Eis a fundamental diferença em relação à tentativa: enquanto na tentativa há início da 
execução do delito e não consumação por circunstâncias alheias à vontade do agente, na 
desistência voluntária e arrependimento eficaz a consumação não ocorre por vontade do 
próprio agente. 
Em outras palavras, a tentativa e a desistência voluntária ou arrependimento eficaz são 
institutos absolutamente incompatíveis. Se reconhecido o crime tentado, afasta-se a 
possibilidade de desistência voluntária e arrependimento eficaz; se reconhecida a desistência 
voluntária ou arrependimento eficaz, afastada estará a possibilidade do reconhecimento do 
crime na modalidade tentada. 
 
3.2. Desistência voluntária 
Na desistência voluntária, o agente dá início à execução do delito, mas, de modo 
voluntário, antes mesmo de esgotar os meios que tinha à sua disposição, interrompe os atos 
executórios, não alcançando a consumação por vontade própria. 
A desistência voluntária se caracteriza por um comportamento negativo do agente, que, 
após dar início à execução do delito, adota uma postura de abstenção, deixando, mesmo tendo 
a possibilidade, de prosseguir na execução do delito. 
Em outras palavras, iniciada a execução, o autor do ilícito, antes de esgotar os atos 
executórios, resolve, voluntariamente, não seguir adiante no comportamento delituoso. 
24 
Tomemos como exemplo a conduta do agente que, com a intenção homicida, desfere 
um disparo de arma de fogo contra a vítima, acertando-a em região não letal. Podendo 
prosseguir, já que tinha mais cinco balas no revólver, o agente resolve, por vontade própria, 
não efetuar mais disparos, deixando a vítima sobreviver. 
Indubitável que o agente deu início à execução do delito, mas não consumou o homicídio 
por vontade própria, já que adotou uma postura de abstenção, cessando a atividade executória 
antes de esgotar todos os meios que tinha à sua disposição. Trata-se, pois, de desistência 
voluntária, devendo o agente responder pelas lesões corporais causadas. 
Da mesma forma, incidirá a desistência voluntária na hipótese do agente que, após 
ingressar em residência alheia para o cometimento do furto, resolver adotar uma postura de 
abstenção, deixando voluntariamente o local sem nada subtrair. Trata-se de evidente hipótese 
de desistência voluntária, pois, embora tenha dado início à execução do furto, o agente, por 
vontade própria, cessou a atividade executória antes de esgotar sua potencialidade lesiva. 
Nesse caso, o agente responderá pelo crime de violação de domicílio (CP, art. 150), e não por 
tentativa de furto. 
 
3.3. Arrependimento eficaz 
No arrependimento eficaz, o agente, após ter esgotado todos os meios à sua disposição 
para a consumação do delito, arrepende-se e, adotando uma postura ativa, impede que o 
resultado se produza. 
Diversamente do que ocorre na desistência voluntária, o arrependimento eficaz se 
caracteriza pelo fato de o agente, após esgotar os meios executórios, desenvolver uma nova 
atividade, a fim de evitar a consumação do delito. 
O agente esgota sua potencialidade lesiva, faz tudo que está ao seu alcance para 
consumar o delito, mas antes de alcançar o resultado inicialmente desejado, arrepende-se e 
adota um comportamento ativo para evitar a sua consumação. 
Em outras palavras, o arrependimento eficaz se dá após a execução, mas antes da 
consumação do crime. 
Tomemos como exemplo o agente que, com a intenção homicida, após efetuar 
disparos de arma de fogo contra a vítima utilizando todas as balas do revólver, arrepende-
se e, adotando postura ativa, leva a vítima até o hospital, que, submetida a intervenção 
25 
cirúrgica exitosa, acaba sobrevivendo, embora tenha ficado gravemente ferida. Nesse caso, 
o agente não responderá pelo crime de tentativa de homicídio, mas por lesão corporal grave. 
Da mesma forma, agente que, com a intenção homicida, coloca veneno na bebida da 
vítima, mas, arrependido, desenvolve nova atividade entregando-lhe o antídoto, evitando, 
assim, a morte, embora tenha resultado lesão à sua saúde. Nesse caso, o agente não 
responderá pelo crime de tentativa de homicídio, mas por lesão corporal (leve, grave ou 
gravíssima, conforme o caso). 
Com a intenção de praticar um golpe, Wilson pagou diversos produtos comprados em 
determinada loja emitindo cheque sem provisão de fundos. Antes da data do vencimento do 
desconto do título de crédito, Wilson, arrependido, retornou à loja e trocou o cheque por dinheiro 
em espécie, tendo quitado o débito integralmente, evitando a consumação do delito de 
estelionato por meio de pagamento de cheque sem provisão de fundos, já que não houve 
obtenção de vantagem indevida em prejuízo da vítima. Nesse caso, o agente não responderá 
pelo crime de tentativa de estelionato, sendo o fato atípico, já que os atos anteriores não 
constituem crime. 
 
3.4. Requisitos 
A desistência voluntária e o arrependimento eficaz exigem a presença dos seguintes 
requisitos: voluntariedade e eficácia. 
a) Voluntariedade 
A desistência voluntária e o arrependimento eficaz devem decorrer de atos voluntários, 
livres de coação física ou moral, ainda que não sejam espontâneos. 
De fato, não se afigura necessária a espontaneidade do ato de desistir ou se arrepender. 
Ou seja, não se exige que a ideia de interromper os atos executórios ou de se arrepender tenha 
se originado na mente do agente. Haverá, pois, desistência voluntária e arrependimento eficaz 
se o agente não consumou o delito influenciado por terceira pessoa. 
 
 
 
26 
 
Exemplo: Durante uma discussão, Wilson, inimigo declarado de Dudu, seu cunhado, 
golpeou a barriga de seu rival com uma faca, com intenção de matá-lo. Ocorre que, após o 
primeiro golpe, a pedido da sua irmã, Wilson percebeu a incorreção de seus atos e optou por 
não mais continuar golpeando Dudu, apesar de saber que aquela única facada não seria 
suficiente para matá-lo. Neste caso, Wilson não desistiu de prosseguir nos atos executórios 
de forma espontânea, mas a pedido de sua irmã, esposa da vítima. Embora não espontânea, 
a desistência foi voluntária, porque livre de coação física ou moral. 
 
Não importa a natureza do motivo que levou o agente a desistir de prosseguir na 
empreitada delituosa ou do seu arrependimento. Pode desistir ou arrepender-se por medo, 
piedade, decepção com a vantagem do crime, remorso,repugnância pela sua própria conduta, 
ou por qualquer outra razão. 
 
Exemplo: Wilson tem um desafeto a quem sempre faz ameaças de morte. O último 
encontro foi num bar. Portando um revólver carregado com seis munições, Wilson aproveitou 
para concretizar o desejo de matar seu oponente. Anunciou que iria matar seu desafeto e 
efetuou um disparo na sua perna. Neste momento, o desafeto suplica por sua vida. Wilson, 
sensível ao apelo da vítima, desiste de continuar disparando, afirma que não iria mais matar 
o rival e se retira do local. No caso, Wilson deixou de prosseguir na empreitada delituosa por 
piedade da vítima, caracterizando ainda assim a desistência voluntária. 
 
Em síntese, é irrelevante que o agente proceda por indulgência, comiseração, ou por 
motivos subalternos, egoísticos, desde que não tenha sido obstado por causas exteriores 
independentes de sua vontade. 
b) Eficácia 
Para que incidam os efeitos da desistência voluntária ou arrependimento eficaz, afigura-
se imprescindível que não ocorra a consumação do delito. Ou seja, a conduta do agente, 
abstendo-se de prosseguir na empreitada delituosa, ou adotando postura para impedir o 
resultado, deve ser apta e eficaz para evitar a consumação do delito. 
27 
Se, conquanto tenha buscado evitar a produção do resultado, o crime alcançou a 
consumação, o agente responderá pelo delito desejado na sua forma consumada, já que a 
desistência ou arrependimento não foi eficaz. 
Imaginemos que Wilson, desejando matar João, efetua vários disparos contra a vítima, 
atingindo-a na região torácica. Arrependido, decide socorrer João, que, levado ao hospital, não 
resistiu aos ferimentos e acabou falecendo. Como o arrependimento não foi eficaz, uma vez 
que o resultado ocorreu, Wilson responderá pelo crime de homicídio consumado. 
Consideremos, ainda, a hipótese de agente desferir um disparo de arma de fogo contra 
a vítima, acertando-a na região torácica, mas desiste de prosseguir na execução do delito, 
mesmo tendo mais munição no revólver. A vítima é socorrida por populares e encaminhada ao 
hospital, mas não resiste aos ferimentos e acaba falecendo. Nesse caso, a desistência 
voluntária não foi eficaz, respondendo o agente pelo crime de homicídio consumado, ainda que 
tenha abandonado a empreitada delituosa. 
 
3.5. Consequência 
Nos termos da parte final do art. 15 do CP, verificada hipótese de desistência voluntária 
ou arrependimento eficaz, não é possível imputação do crime na modalidade tentada, já que, 
como visto, há exclusão da tipicidade do crime inicialmente desejado, respondendo o agente 
pelos atos até então praticados, se típicos. 
Assim, no exemplo do agente que, com a intenção homicida, desfere um disparo de arma 
de fogo contra a vítima, acertando-a em região não letal, mas resolve, por vontade própria, não 
efetuar mais disparos, deixando a vítima sobreviver, não haverá tentativa de homicídio, 
devendo o agente responder pelos atos até então praticados, quais sejam, lesões corporais 
leves, graves ou gravíssimas, conforme o caso. 
Na hipótese do agente que, após ingressar em residência alheia para o cometimento do 
furto, resolveu interromper os atos executórios, deixando voluntariamente o local sem nada 
subtrair, não haverá tentativa de furto, mas crime de violação do domicílio (CP, art. 150), atos 
até então praticados. 
O agente que, com a intenção homicida, após efetuar disparos de arma de fogo contra 
a vítima utilizando todas as balas do revólver, arrepende-se e, adotando postura ativa, leva a 
vítima até o hospital, que, submetida a intervenção cirúrgica exitosa, acaba sobrevivendo, 
28 
embora tenha ficado gravemente ferida, não responderá pela tentativa de homicídio, mas pelo 
crime de lesão corporal grave. 
Da mesma forma, o agente que, com a intenção homicida, coloca veneno na bebida da 
vítima, mas, arrependido, desenvolve nova atividade entregando-lhe o antídoto, evitando, 
assim, a morte, embora tenha resultado lesão à sua saúde. O agente não responderá pelo 
crime de homicídio tentado, mas pelo crime de lesão corporal leve, grave ou gravíssima, 
conforme o caso. 
Como dito, o agente somente responderá pelos atos até então praticados se constituírem 
infração penal. Assim, se os fatos inicialmente praticados não se revestirem de tipicidade, o 
agente não responderá por qualquer delito, já que os fatos anteriores à desistência voluntária 
ou arrependimento eficaz não constituem crime. 
 
Wilson, com a intenção de obter vantagem indevida em prejuízo alheio, adquiriu diversos 
produtos, emitindo, como forma de pagamento, cheque sem provisão de fundos. Arrependido, 
retornou à loja antes da data prevista para o desconto da cártula e a trocou por dinheiro em 
espécie, quitando integralmente o débito, evitando, assim, a consumação do delito de 
estelionato por meio de pagamento de cheque sem provisão de fundos, já que não houve 
obtenção de vantagem indevida em prejuízo da vítima. No caso, diante do arrependimento 
eficaz, o agente não responderá pelo crime de estelionato inicialmente desejado, nem mesmo 
na forma tentada, devendo responder pelos atos até então praticados. Como, no caso, os atos 
anteriores não se enquadram em qualquer modelo legal de conduta proibida, o fato será 
atípico, não sendo o agente responsabilizado por crime algum. 
Imaginemos outro exemplo: Wilson, pretendendo praticar crime de peculato, em 
determinada noite, ingressa em repartição pública se valendo da senha de acesso que possuía 
em razão do cargo, com o objetivo de subtrair um computador da repartição. Enquanto se dirigia 
até a sala onde estava o computador, reflete sobre as consequências da sua conduta e a 
decepção que poderia causar à sua família, razão pela qual deixa o local sem nada subtrair. 
Nesse caso, Wilson deu início à execução do crime de peculato, mas, por vontade própria, não 
consumou o delito, devendo, por isso, responder pelos atos até então praticados. Como os 
atos praticados não configuram conduta típica, Wilson não será responsabilizado 
criminalmente. 
29 
3.6. Como pode cair 
Pode cair em questões e tese de peça, na forma de desclassificar do crime imputado 
como tentado, para aquele correspondente aos atos até então praticados. 
O Ministério Público oferece denúncia pelo crime de tentativa de homicídio, resultando 
lesões na vítima. Com a tese da desistência voluntária ou arrependimento eficaz, teremos a 
desclassificação para o crime de lesão corporal (leve, grave ou gravíssima, conforme o 
enunciado), nos termos do artigo 419 do CPP. 
O Ministério Público oferece denúncia pelo crime de tentativa de furto. Com a tese da 
desistência voluntária, teremos a desclassificação para o crime de violação de domicílio (CP, 
art. 150), crime de menor potencial ofensivo, e, portanto, da competência do Juizado Especial 
Criminal. 
Pode acontecer, ainda, de os atos praticados não se revestirem de tipicidade, ou seja, 
são fatos atípicos, como, por exemplo, o agente ingressar num estabelecimento comercial e 
desistir de subtrair qualquer objeto. Nesse caso, por se tratar de lugar com acesso ao público, 
não se enquadra em domicílio, não incidindo qualquer crime remanescente. 
Nesses casos: 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do 
CPP 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, III, do CPP 
• Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do 
absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 
30 
3.7. Exercícios para resolver após a aula: 
2) QUESTÃO 2 – IX EXAME – 2012-3 
Wilson, extremamente embriagado, discute com seu amigo Junior na calçada de um bar já 
vazio pelo avançado da hora. A discussão torna-se acalorada e, com intenção de matar, Wilson 
desfere quinze facadas em Junior, todas na altura do abdômen. Todavia, ao ver o amigo 
gritando de dor e esvaindo-se em sangue, Wilson, desesperado,pega um táxi para levar Junior 
ao hospital. Lá chegando, o socorro é eficiente e Junior consegue recuperar-se das graves 
lesões sofridas. Analise o caso narrado e, com base apenas nas informações dadas, responda, 
fundamentadamente, aos itens a seguir. 
A) É cabível responsabilizar Wilson por tentativa de homicídio? (Valor: 0,65) 
B) Caso Junior, mesmo tendo sido socorrido, não se recuperasse das lesões e viesse a 
falecer no dia seguinte aos fatos, qual seria a responsabilidade jurídico-penal de Wilson? 
(Valor: 0,60) 
31 
Arrependimento posterior 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
4.1. Introdução 
Trata-se de causa obrigatória de diminuição da pena que incide quando o agente, 
responsável pelo crime praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa, repara o dano 
provocado ou restitui a coisa, desde que por ato voluntário do agente, até o recebimento da 
denúncia ou da queixa. 
Difere do arrependimento eficaz, porque o arrependimento é manifestado após a 
consumação do delito até o recebimento da denúncia. Por isso, chama-se arrependimento 
posterior. 
 
4.2. Requisitos 
a) Crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa 
Nos termos do artigo 16 do Código Penal, cabe arrependimento posterior nos crimes 
praticados sem violência ou grave ameaça à pessoa. 
Não se restringe aos crimes contra o patrimônio, podendo ser aplicado a qualquer delito 
compatível com a reparação do dano decorrente da conduta do agente. Por isso, entende-se, 
por exemplo, possível a aplicação do arrependimento posterior no peculato doloso (CP, art. 
312). 
Se a reparação do dano ou restituição da coisa foi realizada no contexto de crime 
praticado com violência ou grave ameaça, como o roubo, por exemplo, não incidirá o 
arrependimento posterior, podendo incidir a atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do CP. 
b) Reparação do dano ou restituição da coisa 
A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser voluntária, pessoal e integral. 
A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser realizada de modo voluntário. Não 
é necessário que seja espontâneo. Logo, pode ser por meio de conselho ou sugestão de 
terceiro, uma vez que o ato, embora não espontâneo, foi voluntário (aceitou o conselho ou 
sugestão porque quis). 
32 
A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser sempre integral, podendo, no 
entanto, ser parcial mediante concordância da vítima. 
A recusa do ofendido em aceitar a reparação do dano ou restituição da coisa não impede 
a redução da pena pelo arrependimento posterior. 
c) Até o recebimento da denúncia ou queixa 
A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser realizada até o recebimento da 
denúncia ou queixa. Trata-se de um limite temporal. 
Se a reparação do dano ou restituição da coisa ocorrer após o recebimento da denúncia 
ou da queixa, mas até sentença, aplica-se a atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do 
CP. 
O quadro abaixo ilustra os momentos de incidência dos institutos da desistência 
voluntária, arrependimento eficaz, arrependimento posterior e atenuante genérica. 
*Para todos verem: Esquema. 
 
Assim, se o agente subtraiu uma TV do seu local de trabalho e, ao chegar em casa com 
a coisa subtraída, é convencido pela esposa a devolvê-la, o que efetivamente vem a fazer no 
dia seguinte, mesmo quando o fato já havia sido registrado na delegacia, haverá 
arrependimento posterior, com reflexo na dosimetria da pena. 
4.3. Critério para redução da pena 
O arrependimento posterior constitui causa de diminuição da pena, devendo ser 
observado o patamar de 1/3 a 2/3. 
Para definir o quantum da redução, o juiz deve considerar a celeridade da reparação do 
dano ou restituição da coisa, bem como o grau de voluntariedade do agente. Quanto mais 
célere e sincera a reparação do dano ou restituição da coisa, maior será a redução da pena; 
Durante a 
execução
•Desistência 
voluntária
Esgotada a 
execução
•Arrependimento 
eficaz
Consumação
•Arrependimento 
posterior
Recebimento 
da denúncia ou 
queixa
•Atenuante 
genérica do 
art. 65, III, b, 
do CP
33 
quanto mais distante do fato a reparação do dano ou a restituição da coisa e menos sincera, 
menor será a redução da pena. 
 
4.4. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas, sobretudo para diferenciar da atenuante da 
reparação do dano. 
Na peça, trata-se de tese subsidiária, já que constitui causa de diminuição da pena. E, 
nesse caso, deve-se buscar a redução na fração máxima, ou seja, de 2/3. 
 
4.5. Reparação do dano ou restituição da coisa em situações 
específicas 
a) Peculato culposo 
Nos termos do art. 312, § 3º, do CP, no caso do peculato culposo, se anterior à sentença 
transitada em julgado, a reparação é causa de extinção da punibilidade; se a reparação do dano 
for posterior à sentença irrecorrível, incidirá causa de diminuição da pena até metade da pena 
imposta. 
Se o peculato for doloso, a reparação antes do recebimento da denúncia ensejará a 
incidência do arrependimento posterior, tendo como consequência a diminuição da pena de 1/3 
a 2/3, nos termos do art. 16 do CP. Se a reparação do dano ocorrer após o recebimento da 
denúncia, incidirá a atenuante genérica do art. 65, III, b, do CP. 
b) Estelionato mediante emissão de cheque sem fundos 
No caso da emissão de cheque sem suficiente provisão de fundos, a reparação do dano 
até o recebimento da denúncia impede o prosseguimento da ação penal, adotando-se uma 
interpretação a contrario sensu da Súmula nº 554 do STF. 
Nesse caso, segundo a doutrina, haveria uma causa supralegal de extinção da 
punibilidade, porque o delito de estelionato exige como pressuposto necessário à sua 
consumação o efetivo prejuízo da vítima 
 
 
 
34 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 
Crime Impossível 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
5.1. Introdução 
O crime impossível está previsto no art. 17 do CP. Trata-se de hipótese de tentativa não 
punível, verificando-se quando a ineficácia absoluta do meio empregado na execução do delito 
ou impropriedade absoluta do objeto sobre o qual recaiu a conduta do agente tornam impossível 
a consumação do crime. 
Embora o art. 17 do CP contenha a expressão “não se pune a tentativa”, o que poderia 
revelar eventual causa de isenção de pena, o crime impossível, na verdade, tem natureza 
jurídica de causa excludente da tipicidade. 
 
5.2. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio 
O crime impossível por ineficácia absoluta do meio guarda relação com o meio de 
execução ou instrumento utilizado pelo agente, que, por sua natureza, será incapaz de produzir 
qual- quer resultado, ou seja, jamais alcançará a consumação do delito. 
Constitui crime impossível, por ineficácia absoluta do meio, a conduta da gestante que 
busca interromper a gravidez com a morte do feto, fazendo uso de substância que não tem 
efeito abortivo, como, por exemplo, chá de boldo. 
Da mesma forma, trata-se de crime impossível a conduta do agente que, penalmente 
imputável, pretendendo matar seu desafeto, aponta em sua direção arma de fogo que não 
realiza nenhum disparo em razão de defeito estrutural que, de forma absoluta, impede o seu 
funcionamento. 
Não será punida, ainda, a conduta do agente que portava arma de fogo inapta para 
efetuar qualquer disparo. É o que decidiu o STJ
O crime impossível se caracteriza quando a ineficácia do meio for absoluta. A ineficácia 
do meio, quando relativa, leva à tentativa e não ao crime impossível, por aplicação da teoria 
objetiva temperada, adotada pelo Código Penal. 
Há ineficácia relativa do meio quando, não obstante eficaz à produção do resultado, este 
não ocorre por circunstâncias acidentais. É o caso do agente que pretende desfechar um tiro 
36 
de revólver contra a vítima, mas a arma nega o disparo, por defeito daquele projétil específico, 
embora os demais que constavam no tambor fossem aptos a efetuar disparos. 
5.3. Crime impossívelpor impropriedade absoluta do objeto 
O crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto guarda relação com o objeto 
material, compreendendo a pessoa ou coisa, sobre o qual recai a conduta do agente. 
O objeto será absolutamente impróprio quando inexistente ao tempo da conduta do 
agente ou, ainda, pelas circunstâncias em que se encontra, afigura-se impossível a produção 
do resultado visado pelo agente. 
Tomemos como exemplo a conduta do agente, que, ao pretender matar a vítima, desfere 
vários disparos de arma de fogo contra o corpo dela, verificando-se, após, que, ao receber os 
disparos, já se encontrava morta, em decorrência de ter sofrido, momentos antes, fulminante 
ataque cardíaco. Nesse caso, é evidente a impropriedade absoluta do objeto, diante da 
impossibilidade de ceifar a vida de pessoa que já estava morta. 
Da mesma forma, caracteriza crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto a 
conduta da mulher que ingere substância abortiva, demonstrando-se, após, que jamais 
estivera grávida. Trata-se de fato atípico, pois não há objeto material a ser atingido (feto com 
vida intrauterina), não sendo possível, pois, punir a mulher nem mesmo a título de tentativa de 
aborto. 
Considera-se, ainda, crime impossível por impropriedade absoluta do objeto a conduta 
do punguista que pretende subtrair a carteira da vítima, que, ao tempo da ação, não trazia 
consigo nenhuma quantia ou bem com valor econômico. 
 
Se a impropriedade do objeto for relativa, o agente poderá ser responsabilizado 
criminalmente ao menos na modalidade tentada. 
 
Assim, se o punguista, buscando subtrair a carteira da vítima, coloca a mão no seu bolso 
direito, quando, na verdade, o objeto material se encontra no bolso esquerdo, haverá, à 
evidência, tentativa de furto, já que se trata de uma circunstância meramente acidental que não 
torna impossível o crime. A existência de qualquer bem com a vítima impede o reconhecimento 
da impropriedade absoluta do objeto. 
37 
5.4. Como pode cair 
Pode cair em questões dissertativas e como tese absolutória de peça. Por se tratar de 
causa de exclusão da tipicidade: 
 
 
 
 
 
• Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do 
CPP 
• Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no 
artigo 386, III, do CPP 
• Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição 
sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 
38 
5.5. Exercícios para resolver após a aula: 
3) QUESTÃO 3 – IX EXAME – 2012-3 
Mário está sendo processado por tentativa de homicídio, uma vez que injetou substância 
venenosa em Luciano, com o objetivo de matá-lo. No curso do processo, uma amostra da 
referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando 
comprovado que, pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância não 
fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Mesmo assim, arguindo que o 
magistrado não estava adstrito ao laudo, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Mário 
nos exatos termos da denúncia. Com base apenas nos fatos apresentados, responda 
justificadamente: 
 A) O magistrado deveria pronunciar Mário, impronunciá-lo ou absolvê-lo sumariamente? 
(Valor: 0,65) 
B) Caso Mário fosse pronunciado, qual seria o recurso cabível, o prazo de interposição 
e a quem deveria ser endereçado? (Valor: 0,60) 
 
 
 
 
 
 
39 
Erro de tipo 
Prof. Nidal Ahmad 
@prof.nidal 
 
6.1. Erro de tipo essencial 
6.1.1. Introdução 
Nos termos do artigo 20, caput, do Código Penal, caracteriza-se pelo erro sobre o 
elemento constitutivo do tipo penal. 
Antes de mais nada, mostra-se importante compreender o que significa a expressão 
elemento constitutivo do tipo penal. A figura típica (ou tipo legal) é composta de elementos 
específicos ou elementares. Cada expressão que compõe uma figura típica é um elemento que 
constitui o modelo legal de conduta proibida. 
Exemplo: O crime de homicídio (CP, art. 121) é composto pelos elementos “matar” 
“alguém”. “Matar” é um elemento constitutivo do tipo que define o crime de homicídio. “Alguém” 
é também um elemento constitutivo do tipo que define o crime de homicídio. 
Se o agente desenvolve conduta sem consciência em relação à realidade a que está 
inserido, adotando compreensão equivocada da situação de fato, pode-se cogitar da hipótese 
de erro de tipo. 
E
R
R
O
 D
E
 T
IP
O Essencial
Invencível Exclusão
DOLO Fato atípico
CULPA Fato atípico
Vencível
Exclusão do dolo
Responde por culpa, 
se tiver previsão legal
Acidental
Erro do objeto
Erro sobre pessoa 
- art. 20, §3º, CP
Aberratio ictus - art. 
73, CP
Aberratio criminis -
art. 74, CP
40 
Agora fica mais clara a compreensão de que o erro de tipo é aquele que recai sobre um 
dos elementos constitutivos do tipo penal. Há uma falsa percepção da realidade que cerca o 
agente. O agente desenvolve uma conduta sem saber que está praticando um fato típico. Não 
sabe, em função do erro, que está praticando uma conduta típica. 
Em outras palavras, o agente, diante do erro, desenvolve conduta sem a plena 
consciência da presença de um elemento do tipo penal. Se, diante da situação de fato, tivesse 
atingido essa consciência, não incorreria em erro, e, portanto, não teria praticado a conduta. 
 
Exemplo: Durante uma caçada, o agente percebe que há movimentação atrás de 
arbustos. Supondo ser um animal, atira em direção ao alvo, e, quando vai se certificar do 
produto da caça, verifica que, na realidade, atingiu uma pessoa, que estava escondida 
atrás dos arbustos. O contexto fático, na percepção do caçador, era a de que estava 
atirando contra um animal. Todavia, trata-se de uma falsa percepção da realidade, já que 
acabou atingindo uma pessoa. O agente errou sobre o elemento constitutivo “alguém”. 
Desenvolveu uma conduta sem saber que estava praticando um fato típico, ou seja, sem 
saber que estava incorrendo no tipo penal que descreve o crime de homicídio. 
Outro exemplo: Imaginemos a conduta de uma pessoa que se apossa do aparelho 
celular que estava sobre a mesa do escritório, supondo ser seu, quando, na realidade, era 
do colega de trabalho. A realidade do agente era a de que estava se apossando do seu 
aparelho celular. Todavia, trata-se de uma falsa percepção da realidade, pois se apossou 
do aparelho celular que pertence a outra pessoa. O agente não sabia que estava 
praticando uma conduta típica, pois errou sobre o elemento constitutivo “coisa alheia 
móvel” do tipo penal que define o crime de furto (CP, art. 155). 
 
Dessarte, no erro de tipo, o agente desenvolve conduta sem consciência e vontade em 
relação a todos os elementos que integram o tipo penal. Há desconformidade entre a realidade 
e a representação do sujeito que, se a conhecesse, não realizaria a conduta. Se o agente 
soubesse que era uma pessoa atrás dos arbustos, não teria efetuado o disparo; se o agente 
tivesse consciência que pertencia a outra pessoa, não teria se apossado do aparelho celular 
do colega. 
41 
O erro de tipo essencial pode ser invencível ou vencível. 
 
6.1.2. Erro de tipo essencial invencível, inevitável ou escusável 
O erro de tipo invencível, inevitável ou escusável é aquele em que qualquer pessoa, nas 
mesmas circunstâncias, incorreria. É um erro escusável, que não seria evitado ainda que se 
tratasse de pessoa cautelosa e prudente. 
 
Exemplo: Tomemos como exemplo a conduta de um estudante que deixou 
seu aparelho celular carregando na tomada da sala de aula, saindo para comprar 
café na cantina da escola. Quando retorna, retira o aparelho celular da tomada, que, 
na verdade, não era o que havia deixado para carregar, mas outro idêntico, que 
pertencia à sua colega, que havia retirado o celular do agente da tomada e colocou 
o seu no lugar. Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois o estudante, por conta da 
falsa

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