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29REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 Leonel Alves de Oliveira 1 Fernando Luiz Duarte Almeida2 1 Professor de Morfologia Médica - UNB; Mestre em Bioquímica – UNB; Doutorando em Ciências Médicas – UNB; Biólogo, Cirurgião-Dentista, Especialista em Implantodontia, Assessor Técnico do CFO nas áreas de sangue, células e tecidos e Membro da Comissão Permanente de Biovigilânica – ANVISA. 2 Doutor em Ciências Médicas - Radiologia - UFRJ, Mestre em Cirurgia Bucomaxilofacial - UFRJ; Especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial – UERJ, Chefe do Serviço de Implantodontia da Santa Casa da Misericórdia - RJ. Liberação de VEGF, TGFb e FGFb da Matriz de Fibrina Rica em Plaquetas e Leucócitos obtida pelo Protocolo Fibrin® de centrifugação. Benefícios como Adjuvante Cirúrgico em Elevações do Seio Maxilar. ®. Resumo As propriedades osteoprogenitoras, osteoindutivas e osteocundutivas são desejáveis aos materiais utilizados visando regenerar o tecido ósseo perdido em associação e/ou em consequência da perda dentária. Limitados à propriedade osteocondutiva, os biomateriais empregados em enxertia óssea podem receber um coadjuvante importante. A utilização seletiva de frações do sangue autólogo, especialmente a porção de fibrina, polimerizada na forma de coágulo e em fase líquida - monomérica - quando associadas aos biomateriais granulados, formam por aglutinação um compósito mineralizado em matriz de fibrina que atua favoravelmente na cirurgia de elevação do seio maxilar. Otimização no processo de angiogênese, prevenção e correção de rupturas da membrana sinusal, aglutinação e estabilidade mecânica dos biomateriais, além de colaborar na hemostasia local, são alguns dos benefícios obtidos que aumentam a previsibilidade de resultados, reduzindo as complicações. Este artigo discorre sobre a concentração relativa de três fatores de crescimento e a estrutura morfológica da matriz de fibrina leucoplaquetária autóloga obtida pelo protocolo Fibrin® e contextualiza a sua aplicação em elevações do seio maxilar. PalavRas-Chave: Coagulação, fibrina, enxertos, biomateriais, polimerização. AbstrAct The osteogenic, osteoinductive and osteocunductive properties are desirable for the materials used for regenerating the bone tissue once lost during the process, or in consequence of tooth loss. Limited to the osteoconductive property, biomaterials employed in bone grafts may be enhanced with an important adjuvant. The selective use of autologous blood fractions, especially the fibrin portion, after polymerization in the form of a clot, and in the liquid - monomeric phase, when associated with the particulate biomaterials, forms by agglutination a mineralized composite in a fibrin matrix that acts favorably in the maxillary sinus lift surgery. Angiogenesis process optimization, prevention and correction of sinusal membrane rupture, agglutination and stability of biomaterials, besides improving local hemostasis, are some of the benefits that enforce predictability and reduce complications. This paper describes the relative concentration of growth factors and the morphological structure of the autologous leuko-platelet fibrin matrix obtained by Fibrin® protocol and contextualizes its application in maxillary sinus elevations. KeywOrDs Coagulation, fibrin, grafts, biomaterials, polymerization. 30 REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 IntRodução As propriedades osteogênicas, e osteocondu- tivas são desejáveis aos materiais utilizados para regenerar o tecido ósseo perdido. Embora, em sua grande maioria, limitados à propriedade osteocon- dutiva, os enxertos ósseos realizados com bio- materiais tornaram-se procedimentos comuns na prática cirúrgica, pois promovem um arcabouço os- teocondutor rígido, mineralizado como meio ade- quado à reconstrução do tecido ósseo afetado1. Almeida et al, 2004, ressaltam que a nature- za do material utilizado como enxerto tem gran- de importância no sucesso do tratamento, e que a utilização de osso autógeno continua sendo o padrão ouro nas cirurgias reconstrutivas. Porém, sua obtenção ainda é um desafio nas reconstru- ções ósseas, pois a abordagem à região doadora pode aumenetar o tempo de cirurgico, bem como da morbidade a ela associada pela criaçao de dois leitos cirúrgicos2. Complicações trans e pós-operatórias em en- xertias são comuns, especialmente nas elevações do seio maxilar, onde o leito ósseo receptor em grandes atrofias, geralmente é pobre de tecido medular, o que diminui a irrigação local e a mi- gração de células progenitoras ósseas3,4. A viabili- dade de um enxerto ósseo depende fundamental- mente da ausência de infecções, da estabilidade durante as fases iniciais do reparo e da adequada vascularização e migração celular no leito enxerta- do4, especialmente nas situações em que o ma- terial eleito é desprovido de células vivas, como os biomateriais. A angiogênese, fundamental nos processos reconstrutivos, tem como arcabouço iniciador o coágulo sanguíneo5, pois os elementos do san- gue, em sinergismo e por meio de mecanismos de indução-resposta6, promovem o microambiente ideal para os processos de neoformação óssea7. Na prática cirúrgica a manobra de descorti- calização serve tanto para aumentar a irrigação sanguínea para o enxerto, como para prover o seu contato com a medula óssea, fonte de células in- diferenciadas osteoprogenitoras5,8. Outro aspecto relevante é o potencial contami- nante do ambiente intrasinusal. A membrana de Schneider é muito vulnerável à perfuração durante as manobras cirúrgicas para descolamento9, po- dendo inclusive sofrer perfurações durante a inser- ção dos biomateriais de enxertia10,11. Apesar do significativo índice de sucesso, este conjunto de fatores torna a cirurgia de elevação do seio maxilar especialmente vulnerável a com- plicações que podem comprometer o resultado final, implicar em novas intervenções cirúrgicas e aumentar o grau de complexidade na reabilitação. Alguns estudos tem demonstrado que o uso da Fibrina Rica em Plaquetas e Leucócitos (FRPL) tem atuado como importante adjuvante nas cirurgias reconstrutivas por enxertia óssea com elevação do seio maxilar12–14. Simonpiere et al, 201112 empregaram a FRPL como único material de enxerto em elevações do seio maxilar com instalação concomitante de implantes com 20 pacientes e obtiveram 100% de aproveitamento e neoformação óssea confir- mada por tomografia garantindo a efetividade da técnica. Diss et al, 200813 em um estudo prospectivo de 1 ano demonstraram radiograficamente que o uso único de FRPL e implantação simultânea em elevações do seio maxilar foi suficiente para au- mentar o nível ósseo na região apical dos implan- tes instalados. Choukroun et al, 200614 demonstraram histo- logicamente, em estudo in vivo, que o uso de alo- enxerto particulado combinado com fragmentos de FRPL tornou precoce a maturação óssea quando comparado com o uso deste mesmo biomaterial sem FRPL. Vieira e colaboradores, 20169 demonstraram a efetividade desta matriz de fibrina leucoplaquetá- ria autóloga na obliteração de perfuração crítica da membrana sinusal auxiliando a execução da enxer- tia em um mesmo ato cirúrgico. Pichotano et al, 2019 verificaram por histomor- fometria o efeito da adição da FRPL associada ao material de enxerto em 11 casos de elevação do seio maxilar. Os autores verificaram o maior con- teúdo ósseo neoformado ao final de 120 dias no grupo que havia recebido a FRPL associada ao bio- material xenógeno. O grupo que recebeu apenas o biomaterial mineralizado apresentou menores ní- veis de neoformação óssea mesmo após os 180 dias decorridos da cirurgia inicial15. O uso desta matriz sanguínea, por suas carac- terísticas biológicas e suas diversas aplicações clínicas no campo da cirurgia bucomaxilofacial, favorece tanto a metodologia cirúrgica como as fases iniciais do reparo nas cirurgias de elevação do seio maxilar9,12–14. As seguintes propriedadesda FRPL podem ser associadas com seus bene- fícios adicionais nas cirúrgicas reconstrutivas de elevação do seio maxilar: Proteção mecânica da membrana sinusal16; vedação de perfurações da membrana sinusal13,16; adesão biológica do conte- údo mineralizado do enxerto17,18; criação de um mi- croambiente favorável à acomodação celular17,19; impregnação dos poros do biomaterial com conte- údo biológico adesivo17; aumento da adesividade da superfície do biomaterial osteocondutor17; he- mostasia tópica20. 31REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 mateRIaIs e métodos o método e sua CaRaCteRIzação A proposta metodológica deste manuscrito fundamenta-se nos efeitos da centrifugação so- bre as propriedades funcionais do concentrado sanguíneo leucoplaquetário autólogo e não-trans- fusional, a FRPL, com a aplicação de FCR de 200 x g durante 10 minutos. Estes parâmetros foram estabelecidos em função da liberação lenta de fa- tores de crescimento angiogênicos e da sua análi- se ultraestrutural. Neste método foi incluído o pro- cessamento sanguíneo para a obtenção da fibrina em fase monomérica onde o fator distintivo foi o emprego de tubo de poliestireno isento de sílica21. Deste modo, a obtenção simultânea de coágulos de fibrina e de uma matriz de fibrina em fase líqui- da em única coleta e único processo ininterrupto de centrifugação. Este método foi denominado Protocolo Fibrin®21,22. A fim de verificar a natureza biológica da matriz de fibrina leucoplaquetária obtida por este método de centrifugação foram avaliadas a estrutura mor- fológica e a concentração dos fatores de cresci- mento - do endotélio vascular (VEGF), fibroblástico básico (FGFb) e transformante beta1 (TGFb1) - li- berados durante 10 dias em ensaios laboratoriais morfológicos por microscopia eletrônica de varre- dura (MEV) e imunoensaio quali-quantitativo por Cytometric Bead Array™ (CBA). Durante a realização deste estudo, as normas éticas para a pesquisa científica com seres hu- manos foram rigorosamente obedecidas, em con- cordância com a lei 6.638/79 e conforme a de- claração de Helsinque (World Medical Association Recommendation 2011). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília sob o nú- mero 055468/2015. Os espécimes sanguíneos foram coletados mediante assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido pelo indiví- duo. Participaram voluntariamente deste estudo de caracterização 3 indivíduos adultos jovens, dos quais foram obtidas 3 amostras sanguíneas de cada um após leitura e assinatura de termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Os mesmos declararam-se saudáveis, não tabagistas e não portadores de doenças infecto-contagiosas. Coleta sanguínea A coleção sanguínea foi realizada com 2 tubos plásticos secos de 9ml sem ativador de coágulo (Greiner Bio-One Vacuette, São Paulo, Brasil), 1 tubo de vidro isento de aditivos de 10ml (Montser- rat, Brasil) introduzidos no interior do adaptador e comprimidos para perfuração da tampa de borra- cha até a cessação do seu enchimento. Na troca de tubos o procedimento foi repetido. Previamente à inserção dos tubos, foi realizada a assepsia das tampas com álcool 70%. CentRIfugação A centrifugação foi realizada a uma força centrí- fuga relativa (RCF) de 200 x g utilizando a centrífuga Fibrinfuge25® (Montserrat, Brasil), durante 10 minu- tos tendo seu início imediatamente após a coleta. obtenção e PRoCessamento da matRIz de fRPl Para a obtenção da matriz de fibrina obteve-se três amostras de sangue de cada doador, sendo 10 mL em cada tubo. Após a centrifugação, os es- pécimes foram removidos e receberam tratamento de acordo com a metodologia a ser empregada: fIbRIna monoméRICa PaRa obtenção do ComPósIto mIneRalIzado em matRIz de fIbRIna. Após o ciclo de centrifugação o sobrenadante foi removido do tubo até o nível inferior do pelet leucoplaquetário com o auxílio de uma pipeta de transferência de 3mL estéril (Shandong Weigao, Weihai, China) de modo que a zona de peletização leucoplaquetária (ZPL) não fosse desprezada. As amostras serviram para obtenção de compósito mineralizado. O biomaterial xenógeno Lumina Po- rous® (Critéria, Brasil) foi utilizado para a obten- ção de espécimes de sticky bone™. A Fibrina em fase monomérica foi diretamente aplicada sobre os biomateriais hidratados em soro sanguíneo (ob- tido a partir da drenagem das matrizes de fibrina) onde adicionou-se pequenos fragmentos dessa matriz para acelerar o tempo de polimerização. deteRmInação da ConCentRação dos fatoRes de CResCImento A matriz de fibrina foi mantida em estufa (Lab Line Instruments, USA) a 37oC e realizou-se a ex- tração periódica de 200µL de soro em intervalos de (t1) 0, (t2) 48, (t3) 96, (t4) 168 e (t5) 240 horas para quantificação dos fatores de crescimento do endotélio vascular (VEGF), transformante beta 1 (TGFβ1) e fibroblástico básico (FGFb). As alíquotas do soro foram transferidas para criotubos (Kasvi, China) e mantidas em ultrafreezer (Sanyo, Japan) a -80oC, onde permaneceram até o momento do preparo para o imunoensaio. A mensuração da li- beração lenta dos fatores de crescimento do endo- télio vascular, fibroblástico básico e transformante beta 1, respectivamente, VEGF, FGFb e TGFβ1 foi realizada por Cytometric Bead Array (CBA™). Como marcadores moleculares para o imunoensaio utili- zou-se os kits VEGF (Human VEGF Flex Set e Cell 32 REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 Signaling Master Buffer Kit BD™ CBA, USA) e FGF básico (Human basic FGF flex Set, Kit BD™ CBA, USA) e TGF-beta 1 (Human TGF-beta 1 single plex flex set, Kit BD™ CBA, USA), conforme as especi- ficações do fabricante. As amostras foram retira- das do ultrafreezer, descongeladas à temperatura ambiente e foi retirado 25 µL de soro, e então, depositadas em criotubo âmbar para fotoproteção. Para o preparo da curva de calibração foi reconsti- tuído o padrão dos fatores de crescimento com 1,0 mL do diluente da amostra com homogeneização apenas por pipetagem e incubação à temperatura ambiente por 15 minutos. Foram diluídas alíquo- tas do padrão total nas proporções 1/2, 1/4, 1/8, 1/16, 1/32, 1/64, 1/128 e 1/256 para obtenção da curva padrão. Os beads de captura foram diluí- dos em solução diluente para os mesmos sob fo- toproteção em criotubos âmbar a partir na propor- ção de 0,5 µL por amostra. Os beads de detecção foram preparados na mesma proporção de 0,5µL/ amostra e mantidos a 4,0oC ao abrigo da luz, antes do uso. O procedimento pré-analítico das amostras seguiu a seguinte sequência: a) em cada criotubo âmbar foi adicionado 25 µL da amostra de soro coletado; b) a este foi acidionado 25 µL da solução dos beads de captura, feita homogeneização em vórtex e foi incubado por 60 minutos à temperatura ambiente; c) após o tempo de incubação foi adicio- nado 500 µL do tampão de lavagem, submetido à homogeneização em vótex e centrifugação a 200G por 5 minutos à temperatura ambiente na centrífu- ga 1K15 (Sigma, Germany); d) após a centrifuga- ção foi retirado o volume de 450 µL do sobrena- dante e adicionados 25 µL da solução de beads de detecção; e) a amostra foi homogeneizada e mantida sob fotoproteção por 120 minutos à tem- peratura ambiente; f) após este período de incuba- ção foi adicionado 500 µL do tampão de lavagem e a amostra foi submetida a nova centrifugação de 200 x g por 5 minutos; g) foram removidos 450 µL do sobrenadante e adicionado 150 µL do tampão para reconstituir o volume final e homogeneizado em vótex; h) A partir deste ponto foi pipetada a alí- quota de 50 µL de cada amostra e aplicada sobre a placa de amostras e a leitura feita do citômetro de fluxo LSRFortessa™ (BD™, USA). Os parâmetros de leitura no citômetro de fluxo foram estabeleci- dos de acordo com as recomendações do fabrican- te para estes compostos. Os dados das análises foram utilizados para o cálculo de concentração uti- lizando o programa FCAP Array™Software Version 3.0 (BD™, USA). A concentração dos três fatores de crescimento foi expressa em pg/ml. avalIação moRfológICa A caracterização morfológica da matriz de fibri- na obtida por estes parâmetros de centrifugação foi feita por microscopia eletrônica de varredura (MEV). No preparo para microscopia eletrônica de varredura um fragmento de cada porção da matriz de fibrina – superior, corpo e fração leucoplaque- tária - foram submetidos à fixação por imersão em solução de Glutaraldeído 1M a 25% em tampão Cacodilato de Sódio a 0,1M por 24 horas a 4,0oC. Os espécimes foram lavados em solução tampão e submetidos ao processo de impregnação por solução Tetróxido de Ósmio - OsO 4 - (Merck, Ale- manha) por 2 horas, lavados em banhos de água deionizada e em sequência submetidos a desidra- tação em banhos sucessivos em solução de ace- tona (Merck, Alemanha) a 30, 50, 70, 80, 95 e dois banhos a 100%, onde cada banho durou 20 minutos. Ainda submersos na acetona 100% os espécimes foram introduzidos na câmara de seca- gem de ponto crítico CPD 030 (Balzers, Alemanha) para desidratação em meio contendo CO 2 em fase líquida em condições controladas e crescentes de temperatura (4-5oC elevando para 40-45oC) e pressão de 72,9 atm. Em seguida os espécimes foram montados em suportes cilíndricos de cobre, fixados com adesivo condutivo de prata e submeti- dos à pulverização catódica SCD 050 (Balzers, Ale- manha) para metalização por deposição e recobri- mento de toda a amostra com partículas de ouro (Au) onde o desprendimento do cátodo foi feito por bombardeamento com íons de argônio. Para a ob- tenção das imagens as amostras foram colocadas em suporte de cobre, metalizadas e levadas ao microscópio eletrônico JSM 7001-F (JEOL, Japan) onde foram colocadas na câmara de vácuo com submissão ao feixe de elétrons para formação das imagens que foram digitalizadas e armazenadas no computador. análIse estatístICa A quantificação de VEGF, FGFb e TGFb1 libera- dos em função do tempo considerou as variações paramétricas propostas no estudo. As leituras no citômetro de fluxo foram feitas em triplicata e cada leitura representa medidas de múltiplas análises, isto permitiu-nos a interpretação estatística dos dados. Para testar a normalidade amostral foi uti- lizado o teste Kolmogorov-Smirnov. Nas análises multigrupos, ao avaliar as concentrações cumula- tivas para comparar a distribuição em amostras independentes foi utilizado o teste ANOVA para a análise de variância onde utilizou-se o teste Kruska-Wallis como pós-teste. Os valores de p dos implantes. Figura 7. Registros radiográficos após 1 ano da cirugia de instalação dos implantes. 1e2 Cortes tomográficos para- sagitais demonstrando implantes com áreas circunjacentes envoltas por tecido mineralizado, com a evidência de camada bicortical com espessa faixa de tecido mineralizado com morfologia típica de osso medular; 3. Radiografia periapical final demonstrando área regenerada sem evidências de partículas de biomaterial sugestiva de reabsorção por substituição de tecido autógeno neoformado; 4. Ampliacão em corte tomográfico transversal que ilustra a neoformação óssea no sentido vestíbulo-palatino no assoalho do seio maxilar com presença de implantes osseointegrados limitados por camadas bicorticais crânio-caudais. 35REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 dIsCussão Por considerar que este coágulo potencializado tem constituição leucoplaquetária e sua utilização é exclusivamente autóloga, Santos et al, 2016 apresentaram pela primeira vez na literatura cien- tífica a nomenclatura fibrina leucoplaquetária autó- loga como uma nômina autoexplicativa que define a composição e origem deste derivado do sangue. A metodologia proposta não gera um produto alheio aos concentrados sanguíneos já descritos na literatura, mas propõe um método que promove praticidade com melhor aproveitamento do volume sanguíneo, bem como de sua concentração celular seletivamente fracionada e a obtenção conjunta das matrizes de fibrina em fases monomérica e polimérica pela utilização concomitante de tubos que ativam e que retardam a polimerização do fi- brinogênio sem adição de agentes químicos. A idealização deste método surgiu em função da demanda do cirurgião dentista em incluir a ve- nopunção e a centrifugação no seu cotidiano ci- rúrgico. A facilitação de se realizar única coleção sanguínea e não intervir no ciclo de centrifugação apresentou-se como um agente facilitador à inclu- são desta metodologia à prática clínica. A eleição desta força de centrifugação, 200 x g, deu-se por promover maior sedimentação e difusão dos ele- mentos sanguíneos aproveitando adequadamente o volume sanguíneo disponível, por apresentar uma alta concentração de fatores de crescimen- to liberada ao longo de 10 dias e por apresentar significativa manutenção da estrutura do conteúdo fibrilar da matriz de fibrina ao longo de 21 dias. A análise morfológica por MEV demonstrou sua organização estrutural evidenciando a densidade da matriz de fibrina obtida pelo método proposto em arranjo tridimensional, bem como a presença de conteúdo celular concentrado com manutenção de sua integridade morfológica. Contextualizado à prática de elevação do seio maxilar, os biomateriais mineralizados atuam como arcabouço rígido para acomodação dos substratos proteicos celulares na composição de nova matriz extracelular do tecido ósseo. Deste modo, a interação entre células dos tecidos ad- jacentes e a nova matriz extracelular depositada sobre o leito enxertado sofrem grande influência de glicoproteínas plasmáticas e de micropartícu- las circulantes. Estas, naturalmente impregnadas da rede de fibrina, conferem-lhe importante pro- priedade adesiva e de sinalização celular. As figuras 8 e 9 demonstraram a impregnação da matriz de fibrina sobre a porosidade natural dos biomateriais xenógenos analisados, que por sinal estruturalmente apresentaram muita similaridade morfológica. A associação entre a matriz de fibrina e a su- perfície do biomaterial osteocondutor representa vantagens na adesividade e acomodação celular sobre este leito. A matriz de fibrina entremeada entre os grânulos do biomaterial gera um meio propício à migração celular. Tal característica pro- porciona estabilidade do material enxertado nas fases iniciais do reparo. A análise de VEGF, FGFb e TGFb1 pelo método CBA demonstrou que o método de centrifugação proposto, o protocolo Fibrin®, proporciona eleva- das concentrações destes metabólitos desprendi- dos lentamente da matriz de fibrina leucoplaquetá- ria ao longo de 240 horas. Estes dados atestaram sua similaridade aos protocolos já descritos na literatura científica internacional. Houve aumento significativo na concentração de VEGF e resulta- dos menos acentuados na concentração de FGFb e de TGFb1. Entretanto, todos os fatores de cres- cimento apresentaram concentrações supra fisio- lógicas. Este método de análise da liberação dos fato- res de crescimento evidencia suas altas concen- trações no leito desta matriz de fibrina. Entretanto, cabe salientar que o maior desprendimento da ma- triz, por si só, não configura nenhuma vantagem protocolar ou clínica, uma vez que a atividade de sinalização celular desempenhada por estes está associada à sua impregnação na rede. É notório que as maiores concentrações observadas in vitro ocorrem exatamente no período em que se con- figura fisiologicamente a fibrinólise, ou seja, en- tre 7 e 14 dias. No presente estudo optamos por analisar até o 10o dia por intermediar esta fase. Logo, há uma íntima associação entre a degrada- ção fisiológica da matriz e o desprendimento des- tes peptídeos. Cabe ainda considerar que estas concentrações desprendidas da matriz in vitro não reproduzem fidedignamente o que ocorre em leito tecidual in vivo, onde a ação de enzimas, agentes oxidantes e células migratórias interferem na ati- vidade fisiológica destes fatores de crescimento. Mesmo porque, a matriz de fibrina exerce sobre estas proteínas um mecanismo de proteção pro- teolítica, mantendo-os aderidos e funcionais para a sinalização celular fundamental para o reparo tecidual. A faixa de força eleita para o protocolo Fibrin® apresentou a maior concentração relativa de VEGF, FGFb e TGFb1 no intervalo de 240 horas quando comparadas aos outros intervalos de tempo sub- metidos às mesmas condições metodológicas. A centrífuga eleita para o estudo demonstrou eficiente comportamento mecânico por apresentar níveis de vibração radial abaixo de 1,0 m/s2 na fai- xa de eleição de 200 x g e variação térmica abaixo 36 REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 de 1,0oC. Deste modo não configura nenhum risco de aquecimento da amostra, desnaturação protei- ca ou indução e ativação de proteínas de choque térmico. Independentemente do leve aquecimento na câmara de centrifugação, 0,7oC, as amostras sanguíneas centrifugadas sofreram resfriamento de -5,0oC em média. Embora esta centrífuga seja indicada para o método, sua execução pode ser realizada com outros modelos de centrífugas que apresentem baixo nível de vibração radial e nenhu- ma ou mínima variação térmica, pois estes confi- guram pontos fundamentais do método. A centrifugação simultânea para obtenção de coágulos e fibrina em fase líquida presta-se ade- quadamente para finalidades cirúrgicas, especial- mente a de elevação do seio maxilar. A força de 200 x g e o tempo 10 minutos a que está sujeito o sangue neste protocolo mantém os elementos de- sencadeadores da ativação e retração do coágulo presentes no sobrenadante. Entretanto, provoca maior nível de sedimentação leucoplaquetária na zona de transição entre o sobrenadante e o se- dimento quando comparada a menores faixas de força de centrifugação indicadas em outros proto- colos. Deste modo, o método preconiza o uso da pipeta plástica para captura de todo o volume so- brenadante, o que promove maior aproveitamento do volume sanguíneo centrifugado e, especialmen- te, do pelet de leucócitos e plaquetas. Nas cirurgias de elevação do seio maxilar complicações transcirúrgicas como perfurações da membrana sinusal e lesões na artéria alvéolo- -antral são frequentes. O uso da FRPL representa neste contexto um importante artifício cirúrgico tanto para prover estabilização dos biomateriais de enxertia como para exercer hemostasia local. A indicação de aplicação de membranas de fibri- na sobre a membrana sinusal descolada, além de proporcionar todas as vantagens biológicas asso- ciadaao seu papel fisiológico, confere ainda um arcabouço mecânico de proteção evitando que o contato direto das partículas do biomaterial exer- çam ação lesiva sobre a face periosteal da mem- brana. O uso da matriz de fibrina nas cirurgias de elevação do seio maxilar confere favorecimentos não apenas na resposta biológica, mas também e especialmente no tratamento de complicações comuns a este tipo de cirurgia. Não afirmamos aqui, por nossa investigação laboratorial e casuística clínica, que a FRPL tem o potencial de formar um novo tecido, mas que sua utilização favorece a precocidade da fase prolife- rativa do reparo, que diminui a sintomatologia da fase aguda da inflamação, que favorece a acomo- dação de células migratórias e aumenta a superfí- cie de contato expondo epítopos para sinalização celular distribuídos na densa rede. Deste modo, este agregado sanguíneo deve ser entendido como um adjuvante nos processos cirúrgicos reconstru- tivos. A literatura científica sobre o tema fortalece seu favorecimento no fechamento primário de fe- ridas com efetiva aceleração reparadora sobre os tecidos moles. Ela pode ser exposta ao meio bu- cal e torna precoce as cicatrizações em segunda intenção. Sua resistência mecânica permite que seja suturada e devidamente estabilizada no leito, o que integra a continuidade tecidual onde é inter- posta. Merece destaque a facilitação metodológi- ca de sua aplicação em leito cirúrgico, seja como aglutinador de partículas mineralizadas, seja como potente hemostático local, seja como cobertura de leitos onde oferece proteção mecânica temporal e promove um microambiente favorável à comunica- ção vascular entre bordas cirúrgicas. ConClusão O método intitulado protocolo Fibrin® apresenta as mesmas características biológicas favoráveis ao reparo tecidual já conhecidas de outros métodos descritos na literatura. O que traz de inovação é a ob- tenção conjunta das duas formas físicas da matriz de fibrina – monomérica e polimérica – o que favorece sua distinta e funcional aplicação no leito cirúrgico. Sua abordagem temática sobre os parâmetros da centrifugação traz esclarecimentos funcionais sobre seus efeitos sobre a composição, distribuição celular e morfologia do agregado. O uso de máquinas que apresentem baixos níveis de vibração e de variação térmica são favoráveis para a preservação das características biológicas da matriz de fibrina garantindo seus benefícios nas respostas biológicas do reparo tecidual. A coleta sanguínea é o ponto de maior fragilidade metodológica para a obtenção dos biomateriais de fibrina e requer adequação técnica aplicável para a obtenção de coágulos terapêuticos, diferentemente da área diagnóstica. Ou seja, o cirurgião dentista deve aprimorar-se na técnica para primar pela formação do coágulo em tempo adequadamente funcional. 37REVISTA CATARINENSE DE IMPLANTODONTIA ANO 19 Nº 19 RefeRênCIas 1. Wallace, S. S. et al. Maxillary Sinus Elevation by Lateral Window Approach: Evolution of Technology and Technique. J. Evid. Based Dent. 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Tratamento da osteonecrose mandibular medicamentosa usando a fibrina leucoplaquetária autóloga – Dez meses de acompanhamento sem recidiva. Implant. Int. J. 2, 48–55 (2017). A aplicação desta matriz de FRPL na cirurgiade elevação do seio maxilar atua como um importante adjuvante tanto na resposta reparadora como na facilitação do método cirúrgico. Neste quesito, o proto- colo Fibrin® adequa-se perfeitamente à técnica cirúrgica por promover a obtenção concomitante das duas apresentações físicas da matriz e simplifica a execução da técnica. Estudos clínicos prospectivos e randomizados são necessários para trazer maiores níveis de evidên- cia acerca o método e seus efeitos biológicos sobre a angiogênse e a neoformação óssea. declaração de Conflito de Interesses O autor Leonel Alves de Oliveira é o idealizador do protocolo Fibrin® para obtenção conjunta da matriz de fibrina em fases polimérica e monomérica e consultor científico da Montserrat Import. Os demais au- tores declaram não haver conflitos de interesse. agradecimentos Aos doutores Edival Magalhães e Eduardo Rêgo Barros pelas fotografias cirúrgicas ilustrativas. Às equipes técnicas e professores dos laboratórios de microscopia e microanálise e imunologia me- dida da Universidade de Brasília.