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Edição em formato digital: março de 2023
 
FALSAS MEMÓRIAS
Título original: Recursion
© 2019, Blake Crouch
Publicado por Crown, uma chancela de Crown Publishing Group,
uma divisão de Penguin Random House LLC, Nova Iorque.
Todos os direitos reservados.
© desta edição:
2023, Penguin Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda.
Suma de Letras é uma chancela de
Penguin Random House Grupo Editorial
Rua Alexandre Herculano, 50, 3.º, 1250-011 Lisboa, Portugal
correio@penguinrandomhouse.com
 
Penguin Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda. apoia a proteção do copyright. Sem a
prévia autorização por escrito do editor, esta obra não pode ser reproduzida, no todo ou em parte, por
meio de gravação ou por qualquer processo mecânico, fotográfico ou eletrónico, nem ser introduzida
numa base de dados, difundida ou de qualquer forma copiada para uso público ou privado, além do
uso legal como breve citação em artigos e críticas.
 
Tradução: José Remelhe
Revisão: Rui Augusto
Capa: adaptação de Wonder Studio
Imagem da capa © Shutterstock
 
ISBN: 978-989-78-7006-4
 
Composição digital: leerendigital.com
 
Site: penguinlivros.pt
Twitter: @PenguinLivros
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Índice
 
 
Falsas memórias 
Créditos 
Livro Um 
Livro Dois 
Livro Três 
Livro Quatro 
Livro Cinco 
Epílogo 
Agradecimentos 
Sobre este livro 
Sobre Blake Crouch 
Notas 
Para Jacque
«O tempo não é mais do que uma memória a ser criada.»
VLADIMIR NABOKOV
BARRY
2 de novembro de 2018
Barry Sutton encosta à berma na faixa para veículos de emergência em
frente à entrada principal do Poe Building, uma torre art déco
resplandecente sob a iluminação branca dos candeeiros exteriores. Sai do
seu Crown Vic, atravessa o passeio a passos largos e empurra a porta
giratória que dá acesso ao átrio.
O vigilante noturno está de pé ao lado dos elevadores, mantendo uma das
portas aberta, enquanto Barry estuga o passo na direção dele, o som dos
sapatos ecoando no chão de mármore do edifício.
— Qual é o andar? — pergunta Barry ao entrar no elevador.
— Quarenta e um. Lá chegado, vire à direita e vá até ao fundo do
corredor.
— Vêm mais polícias a caminho. Diga-lhes que eu mandei esperar até ao
meu sinal.
O elevador sobe a toda a velocidade, não dando sinais da idade do
edifício, e, ao fim de alguns segundos, Barry sente os ouvidos fecharem-se.
Quando as portas por fim se abrem, passa por uma tabuleta a indicar um
escritório de advocacia. Vê-se uma luz acesa aqui e ali, mas, de resto, o piso
encontra-se às escuras. Caminha pela alcatifa, passando pelos gabinetes em
silêncio, uma sala de reuniões, uma sala de lazer, uma biblioteca. Por fim, o
corredor desemboca numa área de receção que se liga ao gabinete maior.
Sob a luz fraca, os pormenores veem-se em tons de cinza. Uma enorme
secretária de mogno apinhada de pastas de arquivo e documentos. Uma
mesa redonda coberta de blocos de notas e canecas de café frio que exalam
um odor acre. Um bar cheio de garrafas de uísque que aparentam ser
dispendiosas. Um aquário iluminado a zumbir no extremo mais afastado da
sala, onde nadam um pequeno tubarão e vários peixes tropicais.
Ao aproximar-se das portas envidraçadas, Barry põe o telemóvel em
silêncio e descalça os sapatos. Leva a mão ao puxador, abre a porta e sai
para o terraço.
Os arranha-céus contíguos do Upper West Side têm uma aura mística sob
um manto de neblina resplandecente. O barulho da cidade faz-se ouvir,
intenso e próximo — buzinas de automóveis ressoando entre os edifícios e
ambulâncias ao longe que acorrem a mais uma desgraça. O pináculo do Poe
Building fica a menos de quinze metros acima — uma coroa de vidro, aço e
alvenaria ao estilo gótico.
A mulher está sentada a menos de cinco metros ao lado de uma gárgula
desgastada, as costas viradas para Barry, as pernas a baloiçar do lado de
fora.
Ele aproxima-se um pouco mais; as lajes molhadas humedecem-lhe as
meias. Se conseguir aproximar-se o suficiente sem ser visto, poderá agarrá-
la antes que ela perceba…
— Consigo cheirar a sua água-de-colónia — diz ela sem se virar para
trás.
Ele detém-se.
Ela vira-se para trás e diz:
— Mais um passo e salto.
É difícil ter a certeza por causa da luminosidade, mas parece ter cerca de
quarenta anos. Veste um blazer escuro e saia a condizer, e já deve estar ali
sentada há algum tempo, pois o seu cabelo está molhado da neblina.
— Quem é o senhor? — pergunta.
— Barry Sutton. Sou inspetor da Divisão de Investigação Criminal da
Polícia de Nova Iorque.
— Mandaram uma pessoa da Divisão Criminal…?
— Era quem estava mais perto. Como se chama?
— Ann Voss Peters.
— Posso tratá-la por tu?
— Claro.
— Queres que mande chamar alguém?
Ela abana a cabeça.
— Vou pôr-me aqui, assim não terás de virar a cabeça para olhares para
mim.
Barry afasta-se dela, posicionando-se mais próximo do parapeito a dois
metros e meio do sítio onde a mulher está sentada. Olha de relance para
baixo e sente um aperto no estômago.
— Muito bem, diz lá — atalha ela.
— O quê?
— Não me vais tentar dissuadir? Faz o teu melhor.
Na viagem de elevador, ele decidira o que dizer, recordando a formação
que recebera para casos de tentativa de suicídio. Agora, ao deparar-se com a
situação, sente-se menos confiante. Só sabe que tem os pés gelados.
— Eu sei que tudo parece não ter remédio neste momento, mas é apenas
um momento, e os momentos passam.
Ann olha fixamente pela fachada do edifício até à rua, cento e vinte
metros mais abaixo, as palmas das mãos apoiadas na pedra desgastada por
décadas de chuva ácida. Bastaria um impulso. Barry suspeita que ela está a
ponderar os movimentos, a tomar o pulso à ideia de o fazer. A reunir aquela
última réstia de coragem.
Repara que ela está a tremer.
— Posso dar-te o meu casaco? — pergunta ele.
— Acho que é melhor não se aproximar, inspetor.
— Porquê?
— Tenho SFM.
Barry resiste à vontade de fugir. É claro que sabe o que é a síndrome das
falsas memórias, mas nunca conheceu ou se cruzou com alguém com esta
condição. Nunca esteve no mesmo espaço. Não sabe se deve tentar agarrá-
la agora. Nem sequer quer estar assim tão perto. Não, que se lixe. Se ela der
sinais de que vai saltar, tentará salvá-la, e se por causa disso contrair SFM,
que assim seja. É o risco que se corre quando se é polícia.
— Há quanto tempo sofres dessa condição? — pergunta ele.
— Certa manhã, há cerca de um mês, em vez de estar em minha casa em
Middlebury, Vermont, de súbito estava num apartamento aqui na cidade,
com uma dor de cabeça daquelas e uma terrível hemorragia nasal. De
início, não fazia ideia de onde me encontrava. Depois lembrei-me… desta
vida também. Aqui e agora, sou solteira, trabalho num banco de
investimentos, uso o meu nome de solteira. Mas tenho… — Percebe-se que
tem dificuldade em enfrentar a emoção. — Tenho memórias da minha outra
vida no Vermont. Era mãe de um menino de nove anos chamado Sam.
Tinha uma empresa de paisagismo com o meu marido, Joe Behrman. O meu
nome era Ann Behrman. Éramos tão felizes como qualquer pessoa tem o
direito de ser.
— Qual é a sensação? — pergunta Barry, aproximando-se furtivamente.
— A sensação de quê?
— Das suas memórias falsas dessa vida no Vermont.
— Não me lembro apenas do meu casamento. Lembro-me da discussão
por causa da escolha do bolo de aniversário. Lembro-me dos mais ínfimos
pormenores da nossa casa. Do nosso filho. De todos os instantes do
nascimento dele. Do seu riso. Da marca de nascença na bochecha esquerda.
Do seu primeiro dia de escola e de não ter querido que o deixasse. Mas
quando tento lembrar-me da cara do Sam, a imagem que surge é
monocromática. Os seus olhos não têm cor. Digo a mim mesma que são
azuis, mas só vejo preto.
» Todas as minhas memórias dessa vida são em tons de cinzento, como
imagens de um film noir. Parecem-me reais, masLong Island quase só para
ele.
Ao olhar pela janela, vendo as luzes de Brook lyn afastarem-se pelo vidro
encardido, começa a ficar sonolento.
Quando acorda, já é noite. Agora, pela janela, só se vê a penumbra,
pontos de luz e o seu próprio reflexo no vidro.
Montauk é a última paragem da linha. Ele apeia-se do comboio pouco
depois das oito da noite e é apanhado por uma chuva fria que cai por entre a
iluminação dos candeeiros da rua. Aperta o cinto da gabardina e vira a gola
para cima, a respiração a libertar vapor com o frio. Caminha ao longo das
linhas até à estação, que já tem as venezianas fechadas, e entra para o táxi
que chamou ainda durante a viagem.
Os estabelecimentos na baixa de Montauk fecharam na maioria para a
temporada. Ele já aqui esteve noutra ocasião, há vinte anos, com Julia e
Meghan, num fim de semana de verão com muita gente, quando as ruas e as
praias estavam apinhadas de veraneantes.
Pinewood Lane é uma rua isolada, salpicada de areia e deformada pelas
raízes das árvores. Oitocentos metros mais adiante, os faróis do táxi
incidem sobre uma entrada com portão, onde afixaram num dos pilares uma
placa com o número romano «VI».
— Encoste junto ao intercomunicador — pede ao motorista.
O carro avança nessa direção e Barry baixa o vidro, que faz um zunido.
Estica o braço e carrega no botão da campainha. Sabe que há gente em
casa. Ele telefonou antes de sair de Nova Iorque, fazendo-se passar por um
funcionário da FedEx a tentar marcar uma entrega atrasada.
— Residência Behrman — diz uma voz de mulher.
— Sou o inspetor Sutton da Polícia de Nova Iorque. O seu marido está
em casa, minha senhora?
— Está tudo bem?
— Sim. Preciso de falar com ele.
Há um compasso de espera, ao que se segue os ruídos de uma conversa
abafada.
Depois, uma voz de homem soa no intercomunicador.
— Fala o Joe. Qual é o assunto?
— Preferia falar consigo pessoalmente. E em privado.
— Íamos começar agora a jantar.
— Desculpe o incómodo, mas vim de comboio de propósito desde a
cidade.
A entrada particular é um caminho por onde só passa um carro pelo meio
de uma extensão de relvado e floresta; é uma subida ligeira, até se chegar a
uma casa empoleirada no cume de uma pequena escarpa. Vista de longe, a
casa parece toda feita de vidro, e o interior brilha como um oásis na noite.
Barry paga ao taxista em numerário e acrescenta vinte dólares para que o
motorista espere por ele. Depois sai para a chuva e sobe os degraus até à
entrada. A porta da frente abre-se assim que chega ao cimo. Joe Behrman
está mais velho do que na fotografia da carta de condução: o cabelo
apresenta-se agora grisalho, e a cara, batida pelo sol, está mais cheia, a
ponto de formar uma papada.
Franny envelheceu com mais elegância.
Durante três longos segundos fica na dúvida se irão convidá-lo a entrar,
mas, por fim, Franny recua um passo, brinda-o com um sorriso forçado e
convida-o a entrar.
E ele entra para um espaço aberto que é um prodígio de design e conforto
perfeitamente equilibrados. Imagina que, à luz do dia, o envidraçado
proporciona uma vista espetacular sobre o mar e a floresta circundante.
Sente-se por toda a casa o cheiro de alguma coisa a ser preparada na
cozinha, o que faz Barry lembrar-se de como era ter refeições
confecionadas em casa em vez de reaquecidas no micro-ondas ou levadas a
casa por desconhecidos em sacos de plástico.
Franny aperta a mão do marido e diz:
— Vou deixar a comida no forno. — Depois, dirige-se a Barry. — Posso
levar o seu casaco?
Joe conduz Barry até um escritório com uma parede de vidro e as
restantes cobertas de livros. Quando se sentam frente a frente perto da
lareira a gás, Joe diz:
— Devo confessar que é um pouco desconcertante receber a visita não
anunciada de um inspetor à hora do jantar.
— Desculpe se o assustei. Não está em apuros, fique descansado.
Joe sorri.
— Já podia ter dito.
— Vou direito ao assunto. Há quinze anos, a sua esposa subiu ao
quadragésimo andar do Poe Building em Upper West Side e…
— Ela agora está muito melhor, uma pessoa completamente diferente. —
Um trejeito de irritação, ou medo, perpassa o semblante de Joe, que agora
ganhou alguma cor. — O que veio fazer aqui? Porque está em minha casa, a
vasculhar o nosso passado, quando pretendo passar uma noite tranquila com
a minha mulher?
— Há três dias, ia eu a caminho de casa, recebi via rádio um pedido para
um 10-56A, ou seja, um caso de tentativa de suicídio. Acorri ao local e dei
com uma mulher sentada no parapeito do quadragésimo andar do Poe
Building. Ela disse estar a sofrer de SFM. Sabe do que se trata?
— Aquilo das falsas memórias.
— Ela descreveu-me uma vida inteira que nunca aconteceu. Disse que
tinha um marido e um filho, que viviam no Vermont. Tinham os dois uma
empresa paisagística. Disse que o marido se chamava Joe. Joe Behrman.
Joe fica muito quieto.
— O nome dela era Ann Voss Peters. Estava convencida de que a Franny
saltara do sítio onde ela se encontrava. Disse-me que veio aqui e falou
consigo, mas que o senhor não a reconheceu. Ela tinha escolhido aquele
parapeito porque tinha a esperança de o senhor a ir salvar, para compensar o
facto de não conseguir salvar a Franny. Porém, é evidente que a memória da
Ann não era correta, porque o senhor salvou a Franny. Li o auto da polícia
esta tarde.
— O que aconteceu à Ann?
— Não a consegui salvar.
Joe fecha os olhos e volta a abri-los.
— O que pretende de mim? — pergunta, num fio de voz.
— Conhecia a Ann Voss Peters?
— Não.
— Então como é que a Ann o conhecia? Como é que sabia que a sua
mulher subira para aquele mesmo parapeito com a intenção de se suicidar?
Porque estava ela convencida de que fora sua mulher e que os dois tiveram
um filho chamado Sam?
— Não faço ideia, mas agora gostaria que fosse embora.
— Sr. Behrman…
— Por favor, respondi às suas perguntas. Não fiz nada de mal. Vá-se
embora.
Apesar de não fazer a mínima ideia do motivo, Barry tem certeza de uma
coisa: Joe Behrman está a mentir.
Barry levanta-se da cadeira. Leva a mão ao bolso e tira de lá um cartão
de visita, que pousa na mesa entre as cadeiras.
— Se mudar de ideias, espero que me ligue.
Joe não responde, não se levanta, nem sequer olha para Barry. Tem as
mãos sobre as pernas — para que não tremam, é o que Barry percebe — e
olha fixamente para o lume.
Quando Barry está a chegar a Montauk, consulta os horários
dos transportes na aplicação da MTA. Dá tempo à justa para comer
qualquer coisa e apanhar o comboio das 21h50 para a cidade.
O restaurante está quase às moscas e ele senta-se num banco ao balcão,
ainda sob o efeito da adrenalina da conversa com Joe.
Antes de lhe servirem a comida, chega um homem de cabeça rapada, que
se senta numa cabina, pede café e fica a ler alguma coisa no telemóvel.
Não.
A fingir que está a ler alguma coisa no telemóvel.
Tem os olhos demasiado alerta e o alto debaixo do casaco de couro dá a
entender que tem um coldre de trazer ao ombro. Nota-se-lhe a intensidade
velada de um polícia ou um soldado — os olhos que nunca param quietos,
sempre a adejar, sempre a processar, apesar de nunca mexer a cabeça. É um
condicionamento que não se consegue desaprender.
Mas nunca olha para Barry.
Estás a ser paranoico.
Barry está a meio dos seus huevos rancheros e a pensar em Joe e Franny
Behrman quando sente uma fagulha de dor por detrás dos olhos.
Começa a sangrar do nariz e, enquanto enxuga o sangue com um
guardanapo, aflui-lhe à mente um conjunto de memórias completamente
diferentes dos três últimos dias. Estava a regressar a casa de carro na sexta-
feira à noite, mas não recebeu um 10-56A via rádio. Nunca subiu ao
quadragésimo andar do Poe Building. Nunca se encontrou com Ann Voss
Peters. Nunca a viu cair. Nunca viu o auto da polícia sobre a tentativa de
suicídio de Franny Behrman. Nunca comprou um bilhete de comboio para
Montauk. Nunca interrogou Joe Behrman.
De uma certa perspetiva, estava apenas sentado na sua poltrona reclinável
no seu apartamento de uma assoalhada em Washington Heights, a ver um
jogo dos Knicks, e agora, de súbito, está numrestaurante em Montauk com
uma hemorragia nasal.
Quando tenta fazer sentido destas memórias alternativas, percebe que são
diferentes de todas as outras memórias. São incolores e estáticas, envoltas
em matizes de preto e cinzento, tal como Ann Voss Peters descreveu.
Terá sido ela que me contaminou com isto?
A hemorragia nasal passou, mas as mãos começaram-lhe a tremer. Atira
algum dinheiro para cima do balcão e sai para o escuro, tentando manter-se
calmo, mas vai a cambalear.
A nossa existência tem muito poucas coisas com as quais podemos contar
que nos transmitem um sentido de permanência, do chão por debaixo dos
nossos pés. As pessoas desiludem-nos, os nossos corpos defraudam-nos,
desiludimo-nos a nós mesmos. Ele já experienciou tudo isso, mas a que é
que nos agarramos, momento a momento, se as memórias podem
simplesmente mudar? Sendo assim, o que é real? E se a resposta é «nada»,
em que situação é que ficamos?
Questiona-se se estará a enlouquecer, se é esta a sensação de se estar a
perder o juízo.
A estação do comboio fica a quatro quarteirões. Não se vê um carro na
rua, a vila está deserta e, sendo ele um habitante da cidade que nunca
dorme, acha desconcertante o silêncio deste lugarejo em época baixa.
Encosta-se a um candeeiro à espera de que as portas do comboio abram;
além dele, há apenas mais três pessoas na plataforma, incluindo o homem
do restaurante.
A chuva a bater-lhe nas mãos está a transformar-se numa lama aquosa, os
dedos enregelados, mas quer que fiquem assim. O frio é a única coisa que o
mantém ligado à realidade.
HELENA
31 de outubro de 2008 – 14 de março de 2009
Dia 366
Dois dias depois de usar a cadeira pela primeira vez, Helena está sentada
na sala de controlo, rodeada da Equipa de Imagiologia, a fitar um enorme
monitor com uma imagem 3D estática do cérebro dela, onde a atividade
sináptica é representada por diferentes tons de azul luminoso.
— A resolução espacial é extraordinária, malta — diz ela. — Muito
superior ao que alguma vez julguei ser possível.
— Espera — diz Rajesh.
Carrega na barra de espaço e a imagem ganha vida. Há neurónios a luzir
e a apagar como um bilião de pirilampos a iluminar uma noite estival.
Como a latência das estrelas. Consoante a memória é reproduzida, Rajesh
amplia a imagem ao nível dos neurónios individuais. Fios de eletricidade a
faiscar de sinapse em sinapse. Diminui a velocidade para mostrar a
atividade ao longo de um milissegundo, e mesmo assim a complexidade
continua incomensurável. Quando a memória termina, diz:
— Prometeste que nos diria o que estamos a ver.
Helena sorri.
— Eu tinha seis anos. O meu pai tinha-me levado a pescar num ribeiro
que ele adorava no Parque Nacional das Montanhas Rochosas.
— Consegues ser específica em relação àquilo que estavas exatamente a
relembrar durante esses quinze segundos? — pergunta Rajesh. — Foi a
tarde inteira? Certos momentos?
— Descrevê-lo-ia como instantes, os quais, na globalidade, envolvem o
retorno emocional à memória.
— Por exemplo…
— O barulho da água a marulhar nas pedras do curso de água. Folhas de
faia amarelas a boiar na corrente e como faziam lembrar moedas de ouro.
As mãos ásperas do meu pai a prender o isco. A expectativa de apanhar um
peixe. Deitada na relva na margem, a fitar a água. O céu limpo e azul e o sol
a passar pelo meio das árvores em fragmentos de luz. Um peixe que o meu
pai apanhou a estremecer nas suas mãos e ele a explicar que é por causa da
coloração vermelha por debaixo da maxila inferior que lhe chamam truta
assassina. Mais tarde nessa tarde, um anzol espetado no polegar. — Helena
estica o dedo em causa para lhes mostrar uma minúscula cicatriz. — Não
conseguia tirá-lo, por isso o meu pai abriu o seu canivete e cortou a carne.
Lembro-me de chorar, ele a dizer-me para não me mexer, e quando o anzol
finalmente saiu, ele meter-me o polegar na água gelada até eu perder a
sensibilidade no dedo. Vi o sangue sair do corte e espalhar-se pela corrente.
— Qual é a tua ligação emocional a essa memória? — questiona Rajesh.
— O motivo por que a escolheste.
Helena fita os seus enormes olhos escuros e responde:
— A dor do anzol, mas sobretudo porque é a recordação de que mais
gosto com o meu pai. O momento em que ele foi mais genuíno.
Dia 370
Voltam a sentar Helena na cadeira e pedem-lhe para recuperar a memória,
uma e outra vez, decompondo-a em segmentos até a equipa de Rajesh
conseguir atribuir padrões sinápticos individuais a momentos específicos.
Dia 420
A primeira tentativa de reativação acontece na segunda véspera de Natal
que Helena passa na plataforma. Sentam-na na cadeira e põem-lhe um
capacete com uma rede de estimuladores eletromagnéticos.
Sergei programou o dispositivo com as coordenadas sinápticas de um
único segmento da recordação do dia de pesca de Helena. Quando as luzes
se apagam no primeiro compartimento de teste, Helena ouve a voz de Slade
no auscultador do capacete.
— Preparada?
— Sim.
Decidiram de comum acordo não dizer a Helena quando o dispositivo de
reativação entrará em ação, nem qual foi o segmento de memória escolhido,
com receio de que, se ela antecipar a memória, possa dar-se o caso de a
obter inadvertidamente sozinha.
Helena fecha os olhos e inicia o exercício de limpeza mental que já anda
a treinar há uma semana. Vê-se a si mesma entrar numa sala. Há um banco
ao centro, daqueles que se encontram nos museus de arte. Senta-se e
perscruta a parede defronte dela. Do chão ao teto, muda impercetivelmente
de branco para preto, passando por matizes de cinzento cada vez mais
escuro. Ela começa por baixo, demorando-se a analisar lentamente a
extensão da parede, observando ao pormenor a cor de uma secção antes de
passar à seguinte, cada região subsequente pouco mais escura do que a
anterior…
A súbita picada de um anzol com farpa a espetar-se no polegar, a sua voz
é um grito agudo de dor, uma gota de sangue vermelho tingindo o anzol, e o
seu pai que vem a correr.
— Foram vocês? — pergunta Helena, o coração a bater com força no
peito.
— Experienciou alguma coisa? — quer saber Slade.
— Sim, agora mesmo.
— Descreva o que sentiu.
— Um lampejo de uma memória vívida do anzol a espetar-se no meu
polegar. Foram vocês?
Ouvem-se palmas e gritos de júbilo na sala de controlo.
Helena desata a chorar.
Dia 422
Começam a gravar e a catalogar as memórias autobiográficas de toda a
gente na plataforma, limitando-se rigorosamente a memórias flashbulb.
Dia 424
Lenore permite-lhes gravar a sua memória da manhã de 28 de janeiro de
1986.
Ela tinha oito anos e foi ao dentista. O gerente do consultório levara um
televisor de casa e instalara-o na sala de espera. Lenore estava sentada com
a mãe à espera da sua vez, a ver imagens do histórico lançamento do
vaivém, quando a aeronave se desintegrou por cima do oceano Atlântico.
A informação que lhe ficou gravada com mais impacto foi o pequeno
televisor pousado em cima de um carrinho. As imagens das espirais de
nuvens brancas instantes depois da explosão. A mãe dela a dizer: «Oh, meu
Deus.» A expressão de preocupação nos olhos do Dr. Hunter. E uma das
higienistas orais a aparecer das traseiras para olhar para a televisão com as
lágrimas a correrem-lhe pela cara para debaixo da máscara cirúrgica que
ainda tinha posta.
Dia 448
Rajesh lembra-se da última vez que viu o pai antes de ir para a América.
Tinham feito um safari, só eles os dois, no vale de Spiti, no alto dos
Himalaias.
Recorda-se do cheiro dos iaques. Da intensidade violenta do sol da
montanha. Da água gélida do rio. Da sensação de vertigem que o acossou
por causa da rarefação de oxigénio aos quatro mil metros de atitude. Tudo
castanho e árido, à exceção dos lagos, como olhos azul-claros, e os templos
com os seus estandartes de cores vibrantes, e as cúspides dos montes mais
altos a reluzirem com a neve branca.
Mas especialmente da noite em que o pai lhe disse o que realmente
pensava da vida, de Raj, da sua mãe, de tudo, num fugaz momento de
vulnerabilidade quando estavam os dois sentados diante de uma fogueira
mortiça.
Dia 452
Sergeisenta-se na cadeira a recordar o momento em que um motociclista
colidiu com a traseira do seu carro. O súbito impacto do metal a chocar com
metal. Ver o motociclo fazer uma pirueta ao longo da estrada pelo vidro do
condutor. O medo, o terror, o sabor a ferrugem ao fundo da garganta e a
sensação do tempo a andar devagar.
Depois, parar o carro no meio da movimentada rua de Moscovo e apear-
se, sentindo o cheiro de óleo e gasolina emanar do motociclo amachucado,
e o motociclista sentado no meio da rua, as perneiras esfarrapadas e a pele à
vista, a olhar aturdido para as mãos, a maioria dos dedos decepados, e
depois desatar a gritar ao ver Sergei, o motociclista a tentar levantar-se e
lutar, o grito quando a sua perna, dobrada numa posição impossível debaixo
do seu corpo, se recusou a obedecer.
Dia 500
É um dos primeiros dias amenos do ano. A plataforma foi fustigada por
tempestades consecutivas durante todo o inverno, testando os limites,
mesmo os de Helena, em relação a ambientes de trabalho claustrofóbicos,
mas hoje está quente e apresenta-se o céu limpo, e o mar suficientemente
calmo para a superfície luzir debaixo da plataforma.
Ela e Slade caminham vagarosamente pela pista de atletismo.
— O que acha dos progressos que fizemos? — pergunta ele.
— Excelente. Tem sido muito mais rápido do que esperava. Acho que
deveríamos publicar alguma coisa.
— A sério?
— Estou preparada para pegar naquilo que descobrimos e começar a
mudar a vida das pessoas.
Ele olha para ela, mais magro e rijo do que da primeira vez que se viram,
quase um ano e meio antes, mas também ela está mudada. Nunca esteve em
tão boa forma física e o seu trabalho nunca foi tão aliciante.
Nada do envolvimento de Slade neste projeto correspondeu às suas
expectativas. Desde que ela chegou à plataforma, ele só se ausentou uma
vez e tem estado intimamente envolvido em todas as etapas do processo.
Slade e Jee-woon marcaram presença em todas as reuniões da equipa. Pediu
conselhos em relação a todas as decisões importantes. Ela presumira que
um homem ocupado como Slade apenas apareceria ocasionalmente, mas a
obsessão dele é capaz de rivalizar com a dela.
— Está a falar em publicar, e eu sinto que bati numa parede — diz ele.
Fazem a curva nordeste da pista, em direção a oeste. — A experiência de
reativação de uma memória é uma desilusão.
— Choca-me ouvi-lo dizer isso. Toda a gente que foi submetida
à reativação deu conta de experienciar uma memória muito mais vívida e
intensa do que qualquer outra coisa de que se lembram sozinhos. A
reativação aumenta todos os sinais vitais, por vezes ao ponto de um intenso
stress. Viu os gráficos clínicos. Também foi sujeito a uma reativação da
memória. E discorda?
— Não digo que não seja uma experiência mais intensa do que uma
recordação que se tem sozinho, mas não é tão dinâmico como eu esperava.
Ela sente-se ruborizar.
— Estamos a fazer progressos e avanços científicos a uma velocidade
estonteante na nossa compreensão da memória e de engramas, os quais
elucidariam o mundo se concordasse em deixar-me publicar. Quero
começar a mapear memórias de indivíduos que sofrem de Alzheimer em
fase três, e, quando chegarem à fase cinco ou seis, reativar as memórias que
lhes guardarmos. E se for esse o caminho para a regeneração sináptica?
Para uma cura? Ou pelo menos para preservar memórias fulcrais de uma
pessoa cujo cérebro está a falhar?
— Está a pensar apenas na sua mãe, Helena?
— É claro que sim! É possível que dentro de um ano ela chegue a um
ponto em que não terá mais memórias para mapear. O que acha que estou a
fazer aqui? Porque acha que dediquei a vida a isto?
— Adoro a sua paixão e também quero acabar com essa doença, mas
primeiro quero uma Plataforma imersiva para projeção de memórias de
longo prazo, explícitas e episódicas. Exatamente o mesmo título do seu
pedido de patente com que tem sonhado há anos, aquele que ainda não
apresentou.
— Como sabe da minha patente?
Em vez de lhe responder, faz-lhe outra pergunta:
— Acha que aquilo que construiu até ao momento está mais próximo de
ser imersivo?
— Dei tudo o que tenho a este projeto.
— Por favor, não esteja sempre na defensiva. A tecnologia que criou é
perfeita. Eu só quero ajudá-la a torná-la tudo aquilo que pode ser.
Dobram a esquina noroeste e seguem para sul. As equipas de Imagiologia
e Mapeamento jogam uma partida de voleibol. Rajesh está a pintar uma
aguarela en plein air junto à piscina coberta pelo oleado. Sergei lança a bola
ao cesto no campo de basquetebol.
Slade detém-se e olha para Helena.
— Dê ordens à equipa de Infraestru tura para construir um tanque de
privação sensorial. Terão de trabalhar em coordenação com o Sergei para
arranjar uma maneira de o tornar estanque e estabilizar o dispositivo de
reativação num indivíduo sujeito a teste que esteja a flutuar no interior.
— Porquê?
— Porque criará a versão de reativação de memória pura que eu
pretendo.
— Como é que pode saber…?
— Assim que conseguir isso, descubra um método de parar o coração dos
indivíduos sujeitos a teste quando estiverem no interior do tanque de
privação sensorial.
Helena olha para Slade como se ele tivesse perdido o juízo.
— Quanto maior for o stress a que o corpo humano é sujeito durante a
reativação, mais intensa será a sua experiência da memória. O nosso
cérebro encerra uma glândula do tamanho de um grão de arroz chamada
epífise que tem um papel importante na criação de um químico chamado
dimetiltriptamina, ou DMT. Já ouviu falar?
— É um dos alucinogénios mais potentes que se conhecem.
— Em doses ínfimas, libertada para o nosso cérebro durante a noite, a
DMT é responsável pelos sonhos, mas no momento da morte, a epífise
liberta uma verdadeira enxurrada de DMT. É como se fosse época de
saldos. Por causa dela, as pessoas têm visões quando morrem, como, por
exemplo, estarem a caminhar por um túnel em direção a uma luz, ou
reverem mentalmente toda a sua vida. Para termos uma memória imersiva
semelhante a um sonho precisamos de sonhos maiores. Ou, se preferir, de
muito mais DMT.
— Ninguém sabe o que as nossas mentes conscientes experienciam
quando morremos. Não é possível ter a certeza de que isso terá um efeito na
imersão na memória. Corremos o risco de matar pessoas.
— Quando foi que se tornou tão pessimista?
— Quem é que acha que irá oferecer-se como voluntário para morrer por
este projeto?
— Nós ressuscitá-los-emos. Sonde a sua equipa. Pagarei bem, tendo em
conta o risco. E se não tiver voluntários suficientes, pro curarei noutro lugar.
— Oferecer-se-ia como voluntário para entrar no tanque de privação
sensorial e parar o coração?
Slade sorri, sombrio.
— Quando o procedimento estiver aperfeiçoado? Sem dúvida. Depois, e
só depois, poderá trazer a sua mãe para a plataforma e utilizar todo o meu
equipamento e todo o seu conhecimento para mapear e salvar as memórias
dela.
— Marcus, por favor…
— Depois, e só depois.
— Estamos a ficar sem tempo.
— Então, mãos à obra.
Ela vê-o afastar-se. Dantes, aquela sensação ficava mesmo
suficientemente abaixo da superfície para conseguir ignorar, mas agora não
há como o negar. Ela não sabe como, mas Slade tem conhecimento de
coisas que não era suposto ele conhecer — todos os detalhes da sua visão
para projeção da memória, incluindo o nome do pedido de patente que um
dia iria apresentar. Os processadores quânticos que, de algum modo, ele
sabia que resolveriam o problema de mapeamento. E agora esta ideia
tresloucada de parar o coração como um meio de intensificar a experiência
imersiva. Ainda mais alarmante é o modo como Slade faz pequenas
sugestões. É quase como se quisesse que ela se aperceba de que ele sabe de
coisas que não deveria saber. Como se quisesse que ela ficasse preocupada
com o alcance do seu poder e conhecimento. Ocorre-lhe que, se este atrito
continuar, chegará o dia em que Slade lhe negará o acesso à plataforma de
memória. Talvez ela consiga convencer Raj a construir-lhe uma segunda
conta de utilizador, secundária e clandestina, não vá o diabo tecê-las.
Pela primeira vez desde que chegoua esta plataforma, Helena interro ga-
se se estará em segurança aqui.
BARRY
5-6 de novembro de 2018
— Senhor? O senhor desculpe…
Barry desperta do sono, vai abrindo os olhos, tudo se mostra por
momentos desfocado durante cinco segundos de desnorte, e ele não faz
ideia de onde está. Então, toma consciência do balançar do comboio. Postes
de iluminação a passar pela janela do outro lado do corredor. A cara de um
revisor já idoso.
— Posso ver o seu bilhete? — pergunta o velho com uns modos
refinados de outros tempos. Barry esvazia os bolsos até encontrar
o telemóvel no fundo de um bolso interior. Abre a aplicação da MTA e
mostra o bilhete para o revisor ler o código de barras.
— Obrigado, Sr. Sutton. Desculpe tê-lo acordado.
Quando o revisor se afasta para a carruagem seguinte, Barry repara que
tem quatro chamadas não atendidas no visor do telemóvel — todas com o
mesmo indicativo: 934.
E uma mensagem de voz.
Carrega no botão para reproduzir a mensagem e encosta o telemóvel ao
ouvido. «Olá, daqui fala o Joe… o Joe Behrman. Hum… Será que me pode
ligar assim que ouvir esta mensagem? Preciso mesmo de falar consigo.»
Barry liga-lhe logo de imediato, e Joe atende antes do segundo toque.
— Inspetor Sutton?
— Sim.
— Onde está?
— No comboio de regresso a Nova Iorque.
— O senhor tem de compreender, nunca pensei que alguém viesse a
descobrir. Prometeram-me que nunca aconteceria.
— Do que está a falar?
— Eu estava com medo. — Joe começa a chorar. — Pode voltar cá?
— Joe… estou num comboio. Mas pode falar comigo agora.
Por instantes, o homem apenas respira pesadamente para o telefone.
Barry julga ouvir também uma mulher chorar em segundo plano, mas não
tem a certeza.
— Eu não o deveria ter feito — diz Joe. — Apercebi-me disso. Eu tinha
uma vida fantástica, um filho lindo, mas não conseguia olhar-me ao
espelho.
— Porquê?
— Porque não estive lá para a apoiar, e depois ela saltou. Não consegui
perdoar a minha…
— Quem foi que saltou?
— A Franny.
— O que está para aí a dizer? A Franny não saltou. Acabei de a ver em
sua casa.
Pela ligação carregada de estática, Barry ouve Joe ir-se abaixo.
— Joe, o senhor conhecia a Ann Voss Peters?
— Sim.
— Como.
— Fui casado com ela.
— O quê?
— A Ann saltou por minha culpa. Eu vi um anúncio nos classificados
que dizia: «Gostaria de uma renovação?» Liguei para aquele número. A
Ann disse-lhe que sofria de síndrome das falsas memórias?
— Isso mesmo. — E agora sofro eu. — Parece-me que o senhor também
sofre. Dizem que se transmite pelos círculos sociais.
Joe dá uma gargalhada, mas o som é pleno de remorso e repulsa por si
mesmo.
— A SFM não é aquilo que se julga.
— O senhor sabe o que é a SFM?
— Claro.
— Diga-me.
Faz-se silêncio do outro lado da linha e, por instantes, Barry pensa que
perdeu o sinal.
— Joe, está aí? A ligação foi abaixo?
— Estou aqui.
— O que é a SFM?
— São pessoas como eu, que fizeram o que eu fiz. E a coisa só vai piorar.
— Porquê?
— Eu… – Segue-se uma longa pausa. — Não posso explicar. É uma
loucura. Tem de ver com os próprios olhos.
— Como posso fazer isso?
— Depois de eu ligar para esse número, fizeram-me uma entrevista por
telefone e depois levaram-me para um hotel em Manhattan.
— Há muitos hotéis em Manhattan, Joe.
— Mas não como aquele a que eu fui. Não basta ir lá. É preciso que eles
lhe enviem um convite. O único acesso é por uma garagem subterrânea.
— Sabe a morada?
— Fica na East Fiftieth, entre a Lexington e a Third. Há um restaurante
que está aberto a noite toda no mesmo quarteirão.
— Joe…
— São pessoas poderosas. A Franny teve um esgotamento quando se
lembrou, e eles souberam. Vieram cá. Ameaçaram-me.
— Quem são eles?
Não há resposta.
— Joe? Joe?
Desligou.
Barry tenta ligar-lhe de volta, mas a chamada vai diretamente para o
correio de voz.
Olha pela janela — não se vê nada além de trevas ocasionalmente
interrompidas pelas luzes de uma casa ou de uma estação que fica para trás.
Concentra-se naquelas memórias alternativas que se apoderaram dele no
restaurante. Continuam presentes. Nunca aconteceram, mas são reais como
as suas outras memórias e não consegue compreender o paradoxo na sua
mente.
Olha em redor da carruagem — é o único passageiro.
Só se ouve o contínuo bater do coração do comboio a acelerar pela linha.
Toca no assento, passa os dedos pelo tecido.
Abre a carteira e observa a sua carta de condução e depois o distintivo da
Polícia de Nova Iorque.
Respira fundo e diz para os seus botões: És o Barry Sutton. Vais num
comboio de Montauk para Nova Iorque. O teu passado é o teu passado.
Não é possível mudá-lo. Este momento é a realidade. O comboio. O frio da
vidraça. A chuva a escorrer do lado de fora. E tu. Há uma explicação
lógica para as tuas falsas memórias, para o que aconteceu ao Joe e à Ann
Voss Peters. Para tudo isto. É apenas um quebra-cabeças que tem de ser
resolvido. E tu és muito bom a resolver quebra-cabeças.
Tretas.
Nunca teve tanto medo na vida.
Quando sai da Penn Station, passa da meia-noite. A neve cai de um céu
rosáceo e já formou uma camada de cerca de dois centímetros nas ruas.
Vira a gola para cima, abre o guarda-chuva e segue da Thirty-Fourth em
direção a norte.
As ruas e os passeios estão desertos.
A neve abafa o ruído de Manhattan até se instalar um silêncio invulgar.
Quinze minutos de uma caminhada a passo rápido leva-o ao cruzamento
da Eighth Avenue com a West Fiftieth, onde vira para leste, atravessando as
avenidas, agora com mais frio ao aproximar-se da borrasca, o guarda-chuva
inclinado como um escudo de proteção contra o vento e a neve.
Detém-se na Lexington para deixar passar três limpa-neves e fixa o olhar
num letreiro de néon vermelho do outro lado da rua:
McLachlan’s Restaurant
Pequenos-almoços
Almoços
Jantares
Aberto todos os dias
24 Horas
Barry atravessa a rua até se encontrar debaixo do letreiro, a ver a neve
cair pela iluminação vermelha e ocorrendo-lhe que só pode ser este o tal
restaurante que está aberto a noite toda de que Joe lhe falou ao telefone.
Caminha há quase quarenta minutos e começa a tremer; a neve encharca-
lhe os sapatos. Depois do restau rante, passa por um recanto onde está um
sem-abrigo a murmurar consigo mesmo e a balançar-se para trás e para a
frente, os braços envolvendo as pernas. Depois uma loja de vinhos, outra de
bebidas alcoólicas, uma boutique de roupa de senhora de luxo e um banco
— todos fechados àquela hora da noite.
Quase ao fundo do quarteirão, detém-se à entrada de uma rampa de
acesso no escuro que dá para a garagem subterrânea por baixo de um
edifício neogótico encurralado entre dois arranha-céus mais altos feitos de
ferro e vidro.
Baixando o guarda-chuva, desce a rampa de acesso até à penumbra
abaixo do nível da rua. Depois de percorrer doze metros, dá de caras com
um portão de garagem em aço reforçado. Tem um teclado e, por cima, uma
câmara de vigilância.
Que merda! Parece o fim da linha por hoje. Regressará no dia seguinte,
montará vigia à entrada para ver se consegue ver alguém entrar ou…
O ruído de engrenagens a começar a rodar sobressalta-o. Olha para o
portão da garagem, que se abre lentamente, a luz do outro lado a estender-se
pelo pavimento, já a chegar às biqueiras dos sapatos molhados de Barry.
Ir embora?
Ficar?
Este pode até nem ser o sítio certo.
O portão vai a meio, continua a subir e não está ninguém do outro lado.
Hesita, depois passa a soleira para uma modesta estrutura de
estacionamento subterrânea onde se encontra uma dúzia de veículos.
Os seus passos ecoam no betão num espaço iluminado por lâmpadas de
halogéneo.
Avista um elevador e, ao lado deste, uma porta que, presumivelmente, dá
para uma escadaria.
A luz por cima do elevador acende-se.
Ouve-se uma campainha.
Barry agacha-se atrás de um Lincoln MKX e espreita pelo vidro fumado
do passageiro da frente, ficando a ver as portas do elevador abrirem-se.
Ninguém.
Que raio vem a ser isto?
Não deveria estar ali. Nada daquilo está relacionado com os casos que
tem em mãos e, para todos os efeitos, aparentemente não foi cometido
crime algum. Tecnicamente,ele está a invadir propriedade privada.
Foda-se.
As paredes interiores são de metal macio sem qualquer dispositivo, o
elevador parece ser controlado do exterior.
As portas fecham-se.
O elevador sobe.
Sente o coração acelerado.
Barry engole duas vezes para eliminar a pressão dos ouvidos e, trinta
segundos depois, a caixa detém-se com um estremeção.
Quando as portas se abrem, a primeira coisa que ouve é Miles Davis —
um dos perfeitos temas calmos do álbum Kind of Blue —, levado por um
eco isolado através do que parece ser o átrio de um hotel.
Passa do elevador para o chão de mármore. Por todo o lado veem-se
trabalhos de marcenaria pesados. Sofás de couro, cadeiras lacadas de preto.
Resquícios de fumo de charuto no ar.
O espaço tem algo de intemporal.
Mesmo à sua frente, um balcão de receção sem ninguém, por detrás do
qual se vê uma vintena de caixas de correio que teriam sido utilizadas
noutros tempos, e as letras HM brasonadas no tijolo por cima de tudo.
Escuta o tilintar delicado de cubos de gelo a caírem sobre vidro e vozes
vindas de um bar rodeado de janelas. Dois homens, sentados em bancos
forrados a couro, conversam enquanto uma empregada de balcão de colete
preto limpa copos.
Conforme Barry se aproxima do bar, o cheiro a charuto torna-se mais
forte e a atmosfera brumosa de tanto o fumo.
Barry senta-se num banco e apoia-se no robusto balcão de mogno. Do
lado de fora das janelas ali perto, os edifícios e as luzes da cidade surgem
debaixo de um manto de neve.
A empregada acerca-se dele.
É bonita — uns olhos escuros e o cabelo prematuramente grisalho preso
com uns pauzinhos. No crachá lê-se o nome TONYA.
— O que vai beber? — pergunta Tonya.
— Pode ser um uísque?
— Alguma marca em especial?
— Fica à sua consideração.
Ela volta-se para lhe servir a bebida e Barry olha de relance para os
homens que estão a vários lugares de distância. Bebem uísque de uma
garrafa que já vai em metade, pousada entre os dois no balcão.
O que está mais perto parece ter setenta e poucos anos, com o cabelo
grisalho e fraco e uma emaciação sugestiva de doença terminal. O fumo
forma espirais saídas do charuto que tem na mão, que cheira a chuva a cair
num deserto.
O outro homem é mais ou menos da idade de Barry e tem uma cara
inexpressiva, bem barbeada, os olhos cansados.
— Há quanto tempo está aqui, Amor? — pergunta ao homem mais velho
— Há cerca de uma semana.
— Já lhe deram uma data?
— Na verdade, vai ser amanhã.
— A sério? Parabéns.
Fazem um brinde.
— Nervoso? — indaga o homem mais novo.
— Bem… pergunto-me o que me espera. Mas eles fazem um excelente
trabalho a preparar-nos para tudo.
— É verdade… Será sem anestesia?
— Infelizmente, sim. Quando chegou aqui?
— Ontem. — Amor dá uma baforada no charuto.
Tonya aparece com um uísque, que pousa em cima de um guardanapo à
frente de Barry com as palavras HOTEL MEMÓRIA gravadas em relevo a
dourado no papel.
— Já decidiu o que vai fazer quando regressar? — pergunta o homem
mais novo.
Barry sorve o uísque — xerez, caramelo, frutos secos e álcool.
— Tenho uma ideia ou outra.
Amor levanta a mão com que segura o charuto.
— Isto acabou-se. — Aponta para o uísque. — Também vou cortar
noutras coisas. Eu era arquiteto e há um edifício que sempre me arrependi
de não ter construído. Podia ter sido a minha magnum opus. E o senhor?
— Não sei bem. Sinto-me tão culpado…
— Porquê?
— Isto não é egoísmo?
— São as nossas memórias. Mais ninguém manda nelas. — Amor acaba
o seu uísque de um trago. — É melhor ir para a cama. Amanhã é um dia
importante.
— Pois, eu também.
Descendo dos seus bancos, os homens cumprimentam-se com um aperto
de mão e desejam boa sorte um ao outro. Barry fica a vê-los afastarem-se
do bar na direção de uma fila de elevadores.
Quando se vira outra vez para o balcão, a empregada está virada para ele.
— Que sítio é este, Tonya? — pergunta, mas tem uma sensação estranha
na boca e as palavras saem numa fala arrastada e desajeitada.
— O senhor não está com boa cara.
Ele sente alguma coisa soltar-se por detrás dos olhos.
Um desamarrar.
Olha para a bebida. Olha para Tonya.
— O Vince vai ajudá-lo a ir até ao quarto — diz ela.
Barry desce do banco, cambaleia um pouco e, quando se vira, dá de caras
com o olhar inexpressivo do homem do restaurante. À volta do pescoço, a
tatuagem ornamentada de umas mãos de mulher a estrangulá-lo.
Barry leva a mão à arma, mas é como se estivesse a mexer-se em câmara
lenta e Vince já tem as mãos por baixo do casaco dele desapertando com
destreza o coldre de trazer ao ombro, onde tem a arma de serviço, e a enfiar
a pistola na parte de trás das calças de ganga. Tira o telemóvel do bolso de
Barry e atira-o para Tonya.
— Sou da Polícia de Nova Iorque — diz Barry com a fala arrastada.
— Eu também já fui.
— Que sítio é este?
— Vai já ficar a saber.
As tonturas tornam-se mais fortes.
Vince agarra Barry pelo braço e condu-lo para fora do bar, na direção da
fileira de elevadores depois do balcão de receção. Chama o elevador e
arrasta Barry para dentro.
Depois, Barry está a cambalear por um corredor de hotel enquanto o
mundo se funde à sua volta.
Avança aos ziguezagues pela alcatifa vermelha e fofa, passando por
candeeiros com velhas lâmpadas que lançam uma luz antiga sobre os
lambrins entre as portas.
O número 1414 é projetado na porta por uma luz na parede oposta que
movimenta o número num lento padrão em oito à volta do olho mágico.
Vince franqueia a entrada e conduz Barry até a uma grande cama de
dossel e empurra-o para cima do colchão, onde Barry se enrosca na posição
fetal.
Vai rapidamente perdendo a consciência e pensa: Fizeste merda da
grossa, não foi?
A porta do quarto fecha-se com estrondo.
Está sozinho, sem se conseguir mexer.
As luzes da cidade coberta de neve entram pelo cortinado diáfano que
cobre as janelas a todo o comprimento da fachada e a última coisa que vê
antes de perder os sentidos são os arcos ornamentados do Chrysler
Building, cintilando como joias na tempestade.
Tem a boca seca, o braço esquerdo dorido. O espaço à sua volta vai-se
materializando. Barry está reclinado numa cadeira de couro — preta,
elegante, ultramoderna — à qual também foi amarrado, pelos tornozelos,
pelos pulsos, pela cintura e pelo peito. Tem uma sonda intravenosa no
antebraço esquerdo — daí a dor — e há um carrinho de metal ao lado da
cadeira, donde corre o tubo de plástico que está ligado à sua corrente
sanguínea. A parede defronte ostenta um terminal informático e diverso
equipamento médico, incluindo (para sua grande angústia) um carrinho com
todo o equipamento necessário para efetuar uma intervenção cirúrgica.
Guardado num recanto no extremo mais afastado da sala, avista um objeto
liso e branco com tubos e fios ligados, a fazer lembrar um ovo gigante. Um
homem que Barry nunca viu está sentado num banco ao lado dele. Tem a
barba branca e comprida, olhos azuis austeros que irradiam inteligência
e uma intensidade desconfortável. Barry abre a boca, mas sente-se
demasiado grogue para formar palavras.
— Ainda se sente zonzo? — Barry faz que sim com a cabeça. O homem
toca num botão no carrinho ao lado da cadeira. Barry observa um líquido
transparente passar pela linha intravenosa para o seu braço. A sala fica mais
clara e ele sente-se logo alerta, como se tivesse tomado um café forte, e a
consciência dá lugar ao pavor. — Está melhor assim? — pergunta o
homem.
Barry tenta mexer a cabeça, mas esta foi imobilizada. Não a consegue
mexer sequer um milímetro para qualquer um dos lados.
— Sou polícia — diz Barry.
— Eu sei. Sei muito sobre si, inspetor Sutton, incluindo o facto de ser um
homem cheio de sorte.
— Porque diz isso?
— Por causa do seu passado, decidi não o matar.
Isso é uma coisa boa? Ou estará este homem apenas a gozar?
— Quem é o senhor? — pergunta Barry.
— Isso não importa. Vou dar-lhe o melhor presente da sua vida.
O melhor presente que alguém poderia desejar. Se não se importa — diz
ele, com uma simpatia paradoxalmente alarmante —, quero fazer-lhe umas
perguntas antes de começarmos.
Barry está mais alertaa cada minuto que passa e o seu estado de
confusão vai sendo mitigado conforme recupera cada fragmento da sua
memória — cambalear pelo corredor do hotel e entrar no quarto 1414.
— Foi a casa de Joe e Franny Behrman em serviço oficial? — pergunta o
homem.
— Como sabe que eu fui lá?
— Limite-se a responder.
— Não. Fui só satisfazer a minha curiosidade.
— Algum dos seus colegas ou superiores está a par da sua ida
a Montauk?
— Nenhum.
— Falou com alguém sobre o seu interesse em Ann Voss Peters e Joe
Behrman?
Embora tenha falado com Gwen sobre a SFM no domingo, tem a certeza
de que ninguém poderia saber da sua conversa.
Por isso, mente.
— Não.
Barry tem o software de rastreamento ativado no telemóvel. Não faz ideia
de quanto tempo esteve inconsciente, mas partindo do princípio de que
ainda é terça-feira, de manhã cedo, a sua ausência no trabalho só será
notada ao final da tarde. Em teoria, daqui por várias horas. Não tem
compromissos agendados, planos para beber um copo ou para jantar.
Poderiam passar vários dias até alguém dar pela falta dele.
— Virão pessoas à minha procura — diz Barry.
— Nunca o encontrarão.
Barry inspira devagar, tentando manter-se calmo perante o pânico
crescente. Precisa de convencer este homem a libertá-lo com recurso apenas
a palavras e à lógica.
— Não sei quem o senhor é — diz Barry. — Não faço ideia do que vem a
ser isto, mas se me libertar agora, nunca mais ouvirá falar de mim. Juro.
O homem levanta-se do banco e atravessa a sala até ao terminal
informático. De pé, diante de um enorme monitor, escreve num teclado.
Passado algum tempo, Barry ouve o aparelho que está ligado à sua cabeça
começar a fazer um zumbido quase impercetível, como as asas de um
mosquito.
— O que é isto? — pergunta Barry outra vez, o coração a bater mais
forte, o medo a toldar-lhe o discernimento. — O que deseja de mim?
— Quero que me fale sobre a última vez que viu a sua filha viva.
Numa fúria pura e cega, Barry debate-se com as tiras de couro, lutando
com todas as suas forças para libertar a cabeça do que quer que esteja a
prendê-la. O couro range, mas a cabeça não se mexe. Formam-se bolhas de
suor na sua cara, que lhe escorrem para os olhos com um ardor salgado que
ele não consegue limpar.
— Eu mato-o — diz Barry.
O homem inclina-se para a frente, ficando a centímetros dele, uma chispa
azul e glacial nos olhos. Barry sente o cheiro da sua água-de-colónia cara, a
acidez do café no seu hálito.
— Não estou a querer atormentá-lo — diz o homem. — Estou a tentar
ajudá-lo.
— Vá-se foder.
— Você é que veio ao meu hotel.
— Pois, e tenho a certeza de que disse ao Joe Behrman o que ele deveria
dizer exatamente para me atrair aqui.
— Façamos o seguinte: vamos tornar a escolha o mais simples possível.
Ou me responde com franqueza quando eu fizer uma pergunta, ou eu mato-
o aqui mesmo.
Preso na cadeira, Barry não tem alternativa senão concordar, para tentar
manter-se vivo até ter uma oportunidade, por muito ínfima, de se libertar.
— Está bem.
O homem levanta a cabeça para o teto e diz:
— Computador, iniciar sessão.
Uma voz feminina maquinal responde: «Nova sessão a iniciar agora.»
O homem fita os olhos de Barry.
— Agora, fale-me da última vez que viu a sua filha viva e não omita
nenhum pormenor.
HELENA
29 de março de 2009 – 20 de junho de 2009
Dia 515
De pé no vestíbulo do cais de carga ocidental da superstrutura, Helena
veste o equipamento contra intempéries, pensando que o vento lhe faz
lembrar um espectro de voz cava, a rugir do lado de fora. Durante toda a
manhã, o vento tem soprado em rajadas de cento e trinta quilómetros por
hora — o suficiente para lançar alguém do tamanho dela pelos ares.
Corre o portão, olha para um mundo cinzento de chuva tocada pelo vento
e prende o mosquetão do arnês ao cabo que foi esticado pela plataforma.
Apesar de antever a força do vento, não está preparada para a intensidade
que quase a leva de repelão. Inclina-se contra o vento, fincando os pés, e
sai.
A plataforma está sob um manto pardacento e ela só consegue ouvir a
fúria do vento e as agulhas de chuva, que batem no capuz do seu casaco
como se fossem esferas de rolamentos.
Demora dez minutos a atravessar a plataforma, uma série de passos
vigorosos num esforço para não perder o equilíbrio. Por fim, chega ao seu
lugar predileto na plataforma — a esquina noroeste — e senta-se com as
pernas a balançar do lado de fora, a observar as ondas de dois metros, que
embatem nos pilares da plataforma.
Os dois últimos elementos da Equipa de Infraestrutura partiram ontem,
antes de a tempestade chegar. Não se limitaram a opor-se à nova diretiva de
Slade que visa «meter pessoas num tanque de privação sensorial e parar o
seu coração». À exceção dela e de Sergei, demitiram-se en masse e
exigiram ser levados de imediato para terra. Sempre que se sente culpada
por ficar, pensa na mãe e noutras pessoas na situação dela, mas de pouco
consolo serve.
Além disso, tem a certeza de que Slade não a deixaria ir embora.
Jee-woon foi de helicóptero a terra procurar pessoal para a equipa médica
e novos engenheiros para construir o tanque de privação sensorial, deixando
Hel ena sozinha no complexo com Slade e uma equipa reduzida.
Aqui fora, na plataforma, é como se o mundo lhe gritasse ao ouvido.
Levanta o rosto para o céu e também grita.
Dia 598
Alguém bate à porta. Ela estica o braço no meio da escuridão, acende o
candeeiro e levanta-se da cama envergando umas calças de pijama e um top
preto. O despertador na mesa de cabeceira indica 9h50.
Vai até à sala de estar e caminha em direção à porta, carregando no botão
na parede para levantar as cortinas opacas.
Slade está no corredor, de calças de ganga e com uma camisola de capuz.
É a primeira vez que ela o vê em semanas.
— Ora bolas, acordei-a — diz ele.
Ela fita-o com os olhos semicerrados sob o brilho dos painéis luminosos
no teto.
— Posso entrar? — pergunta.
— Tenho alternativa?
— Por favor, Helena.
Ela recua um passo e deixa-o entrar, seguindo-o pelo pequeno espaço da
entrada, passando pela casa de banho para o espaço principal.
— O que deseja? — pergunta ela.
Ele senta-se no pousa-pés de um cadeirão ao lado das janelas com vista
para o mar infinito.
— Contaram-me que não tem comido nem praticado exercício — diz ele.
— Que há dias que não fala com ninguém nem sai do quarto.
— Porque não me deixa falar com os meus pais? Porque não me deixa ir
embora?
— Você não está bem, Helena. Não se encontra num estado de espírito
que lhe permita proteger o secretismo deste lugar.
— Eu disse-lhe que me quero ir embora. A minha mãe foi internada. Não
sei como ela está. O meu pai não ouve a minha voz há um mês. De certeza
que está preocupado…
— Sei que não consegue perceber agora, mas estou a salvá-la de si
mesma.
— Ah, vá-se foder.
— Desistiu porque discordou do rumo para o qual eu estava a levar este
projeto. Só estou a dar-lhe tempo para reconsiderar a ideia de deitar tudo a
perder.
— O projeto era meu.
— O dinheiro é meu.
Ela tem as mãos a tremer. De medo. De fúria.
— Não quero continuar a fazer isto — diz ela. — Você destruiu o meu
sonho. Impediu-me de tentar ajudar a minha mãe e outras pessoas. Quero ir
para casa. Vai continuar a reter-me aqui contra a minha vontade?
— É claro que não.
— Então, posso ir embora?
— Recorda-se do que lhe perguntei no dia em que aqui chegou?
Ela abana a cabeça, os olhos húmidos das lágrimas.
— Perguntei-lhe se queria mudar o mundo comigo. Estamos a beneficiar
de todo o trabalho brilhante que a Helena fez e eu venho aqui hoje dizer-lhe
que estamos quase a conseguir. Esqueça tudo o que aconteceu. Vamos
cruzar a meta juntos.
Ela fita-o do outro lado da mesinha de apoio; as lágrimas correm-lhe pela
cara.
— O que é que está a sentir? — pergunta ele. — Fale comigo.
— Estou a sentir que me roubou isto.
— Nada poderia estar mais longe da verdade. Intervim quando a sua
visão esmoreceu. É isso que os parceiros fazem. Hoje é o dia mais
importante da minha vida e da sua. É o culminar de tudo aquilo para que
temos trabalhado. Por issovim aqui. O tanque de privação sensorial está
pronto. O dispositivo de reativação foi reformulado para funcionar no
interior. Vamos realizar um novo teste dento de dez minutos, e este vai ser o
mais importante.
— Quem é a cobaia?
— Não interessa.
— A mim interessa.
— Apenas um gajo que está a receber vinte mil dólares por semana para
fazer o derradeiro sacrifício em nome da ciência.
— E o senhor pô-lo a par dos perigos que esta investigação acarreta?
— Ele está perfeitamente ciente dos perigos. Olhe, se quer ir para casa,
faça as malas e esteja no heliporto ao meio-dia.
— E o meu contrato?
— Prometeu-me três anos. Estará a violar o contrato. Perderá o direito à
sua remuneração, participação nos lucros, tudo. A Helena conhecia as
regras, mas se quer acabar aquilo que começámos, venha comigo ao
laboratório agora mesmo. Será um dia memorável.
BARRY
6 de novembro de 2018
Amarrado a uma cadeira, a viver um verdadeiro pesadelo, Barry diz:
— Foi no dia 25 de outubro. Há onze anos.
— Qual é a primeira coisa de que se lembra quando pensa nisso? —
pergunta o homem. — Qual é a imagem ou o sentimento mais forte?
Barry é apanhado na mais inusitada justaposição de emoções. Quer partir
aquele homem ao meio, mas a memória de Meghan naquela noite está
prestes a parti-lo a ele.
— Encontrar o corpo dela — responde, num tom monocórdico.
— Desculpe se não me fiz entender. Não me refiro a depois de morrer.
Antes.
— A última vez que falei com ela.
— É isso que quero que me conte.
Barry olha para o fundo da sala, rangendo os dentes.
— Por favor, continue, inspetor Sutton.
— Estou sentado na minha cadeira na sala de estar, a ver a World Series.
— Recorda-se de quem estava a jogar?
— Os Red Sox e os Rockies. A segunda partida. Os Sox tinham vencido
o primeiro confronto. Seriam os campeões pelo quarto ano consecutivo.
— Por quem estava a torcer?
— Era indiferente. Acho que queria que os Rockies empatassem, para
manter o interesse. Porque está a fazer-me isto? Qual a finalidade…
— Portanto, está sentado na sua cadeira…
— É provável que esteja a beber uma cerveja.
— A Julia estaria a assistir ao jogo consigo?
Meu Deus. Ele sabe o nome dela.
— Não. Acho que estava a ver televisão no quarto. Já tínhamos jantado.
— Em família?
— Não me lembro. É provável. — De súbito, Barry sente uma pressão no
peito, cuja intensidade é quase esmagadora. — Há anos que não falo sobre
essa noite — diz.
O homem deixa-se ficar sentado no banco a passar os dedos pela barba e
a sondá-lo com toda a calma, à espera de que Barry con tinue a falar.
— Vejo a Meghan chegar do corredor. Não tenho a certeza do que trazia
vestido, mas por algum motivo imagino-a de calças de ganga e uma
camisola azul-turquesa que ela usava muitas vezes.
— Quantos anos tem a sua filha?
— Faltam dez dias para fazer dezasseis. Ela detém-se diante da mesinha
de apoio… sei que isto aconteceu de certeza… e está entre mim e a
televisão com as mãos nas ancas e uma expressão quase severa.
Formam-se lágrimas nos cantos dos seus olhos.
— Continua a ser muito emotivo para si — diz o homem. — Isso é bom.
— Por favor — diz Barry. — Não me obrigue a fazer isto.
— Continue.
Barry respira fundo, procurando desesperadamente algum equilíbrio
emocional a que se agarrar.
Por fim, diz:
— Foi a última vez que olhei para os olhos da minha filha. E não o sabia.
Não parei de tentar olhar à volta dela para ver a televisão.
Não quer chorar à frente deste homem. Que caraças, tudo menos isso.
— Continue.
— Perguntou-me se podia ir ao Dairy Queen. Geralmente, ia até lá duas
noites por semana para fazer os trabalhos de casa e confraternizar com os
amigos. Eu fiz o interrogatório da praxe. A tua mãe concordou? Não, ela
tinha vindo pedir-me a mim. Já fizeste os trabalhos de casa? Não, mas parte
do motivo por que queria ir era para se encontrar com a Mindy, colega de
laboratório em Biologia, para falarem do projeto em que estavam a
trabalhar. Quem mais iria estar lá? Uma lista de nomes, a maioria dos quais
eu conhecia. Lembro-me de consultar o relógio… eram oito e meia da noite
e o jogo começara há pouco e ainda estavam a fazer as primeiras batidas…
e eu disse que ela podia ir, mas que a queria em casa antes das dez. Ela
apresentou argumentos para ser às onze. Eu disse: «Não, amanhã tens aulas,
sabes a que horas tens de te deitar», e então ela concordou e caminhou em
direção à porta. Lembro-me de a chamar mesmo antes de ela sair e de lhe
dizer que a amava.
As lágrimas soltam-se, o corpo treme de emoção, mas as correias
prendem-no bem junto à cadeira.
Barry diz:
— A verdade é que não sei se a chamei. Talvez não, talvez me tenha
concentrado apenas no jogo e não voltei a pensar nela antes das dez da
noite, quando me interroguei por que razão ainda não estava em casa.
— Computador, parar sessão — diz o homem. — Obrigado, Barry —
acrescenta.
Debruça-se e limpa as lágrimas da cara de Barry com as costas da mão.
— Qual foi o objetivo disto? — pergunta Barry, destroçado. — Foi pior
do que qualquer tortura física.
— Irei mostrar-lhe.
O homem pressiona um botão no carrinho.
Barry olha de relance para o tubo no seu braço enquanto uma corrente de
líquido transparente flui para a sua veia.
HELENA
20 de junho de 2009
Dia 598
O homem é seco e alto, os braços magros pontilhados por picadas de
agulha. No ombro esquerdo tem o nome «Miranda» tatuado — a tatuagem
parece recente, ainda vermelha e inflamada. Tem um capacete prateado que
lhe assenta na perfeição, como uma boina, só que um pouco mais grosso, e
um segundo dispositivo do tamanho de um apagador preso ao antebraço
esquerdo. De resto, está despido em frente a uma estrutura tipo carapaça
branca que mais parece um ovo. Um homem e uma mulher aguardam de
cada um dos lados de um carrinho de equipamento médico.
Helena assiste a tudo por um espelho igual ao das salas de interrogatórios
num lugar em frente à consola principal na sala de controlo contígua, entre
Marcus Slade e o Dr. Paul Wilson, diretor de projeto da equipa médica. Ao
lado de Slade está Sergei, o único membro da equipa original que ainda não
se foi embora.
Alguém lhe toca no ombro. Ela olha de relance para trás e vê Jee-woon,
que acabou de se esgueirar para a sala de controlo e se sentou atrás dela.
Inclinando-se para a frente, murmura-lhe ao ouvido:
— Fico muito feliz pela sua decisão de se juntar a nós neste momento. O
laboratório não tem sido o mesmo sem a senhora.
Slade olha para Sergei, que está a analisar o ecrã com uma imagem de
alta resolução do crânio do indivíduo que será submetido ao teste.
— Como estão essas coordenadas de reativação? — pergunta Slade.
— Bloqueadas e carregadas.
Slade vira-se para o médico.
— Paul?
— Estou pronto.
Slade toca num botão nos auscultadores que está a usar e diz:
— Reed, está tudo preparado da nossa parte. Pode meter-se lá dentro.
Por instantes, o homem seco e alto não se mexe. Fica ali a tremer, a olhar
para o tanque pela escotilha aberta. As luzes conferem à sua pele uma
tonalidade azulada, exceto nos sítios onde tem cicatrizes de agulhas, num
vermelho vívido que contrasta com a sua tez doentia.
— Reed? Consegue ouvir-me?
— Sim. — A voz do homem chega por quatro altifalantes posicionados
nos cantos da sala de controlo.
— Preparado para fazer isto?
— É que… E se doer? Não sei bem o que esperar.
Olha fixamente para o espelho — um ar esgazeado e macilento, veem-se-
lhe as costelas debaixo da pele descorada.
— Pode esperar aquilo de que falámos— diz Slade. — O Dr. Wilson está
aqui ao meu lado. Quer dizer alguma coisa, Paul?
O homem de cabelo grisalho e ondulado põe os auscultadores.
— Reed, o registo dos seus sinais vitais está mesmo à minha frente.
Estarei a monitorizá-los constantemente e tenho um plano de emergência
para o caso de ficar em apuros.
— Não se esqueça do bónus que lhe pagarei se o teste de hoje tiver êxito
— diz Slade.
Reed foca os olhos encovados no tanque.
— Está bem — diz ele, enchendo-se de coragem. — Está bem, vamos a
isto. — Agarra as pegas laterais do tanque de privação sensorial e,
vacilante,mete-se lá dentro; o salpicar da água é audível nos altifalantes.
— Reed, diga-nos quando estiver confortável — pede Slade.
Um momento depois, o homem diz:
— Estou a boiar.
— Se não se importa, vou fechar agora a escotilha. — Passam-se dez
tensos segundos. — Pode ser, Reed?
— Sim, pode ser.
Slade introduz um comando no teclado. A escotilha baixa devagar e sela
o tanque hermeticamente.
— Reed, estamos preparados para apagar as luzes e começar. Como se
sente?
— Acho que estou preparado.
— Lembra-se de tudo o que falámos hoje de manhã?
— Acho que sim.
— Tem de ter a certeza.
— Tenho a certeza.
— Ótimo. Vai correr tudo bem. Quando voltar a ver-me, diga-me que o
nome da minha mãe é Susan. Assim, saberei.
Slade diminui a intensidade da luz. Um monitor que estava apagado liga-
se e apresenta imagens em direto de uma câmara de visão noturna virada
diretamente para Reed, instalada no teto do tanque. Na imagem, vê-se o
homem boiar de costas na água altamente salinizada. Slade ativa um
cronómetro no monitor principal e define-o para cinco minutos.
— Reed, esta é a última vez que me ouvirá falar. Vamos dar-lhe alguns
minutos para relaxar e se concentrar. Depois, começamos.
— Percebido.
— Boa sorte. Hoje, vai ficar para a história.
Slade inicia a contagem decrescente e tira os auscultadores.
— Que tipo de memória vai reativar? — pergunta Helena.
— Reparou na tatuagem que ele tem no ombro esquerdo?
— Sim.
— Fizemo-la ontem de manhã. À noite, mapeámos a memória do evento.
— Porquê uma tatuagem?
— Por causa da dor. Eu queria uma experiência de codificação intensa e
recente.
— E um viciado em heroína foi o melhor que conseguiu arranjar para
cobaia?
Slade não responde. A sua transformação é notória. Está a levar este
projeto muito mais longe do que ela alguma vez estivera disposta a fazer.
Nunca pensou que encontraria alguém mais entusiástico e obstinado do que
ela.
— Ele sabe ao menos naquilo em que se meteu? — pergunta ela.
— Sabe.
Helena observa a contagem decrescente. Segundos e minutos a passarem.
Olha para Slade e diz:
— Isto ultrapassa em muito os limites dos ensaios científicos‐ 
responsáveis.
— Concordo.
— E simplesmente está a marimbar-se?
— O tipo de descoberta inovadora que espero fazer hoje só será possível
mediante algum risco.
Helena analisa o ecrã com a imagem de Reed imóvel a boiar no tanque.
— Então, está disposto a arriscar a vida deste homem? — pergunta.
— Sim. Mas ele também. Ele compreende o estado em que se encontra.
Acho que é um ato heroico. Além disso, quando acabarmos, ele irá fazer
uma desintoxicação numa clínica de luxo. E se isto resultar, nós os dois
iremos beber champanhe no seu apartamento… — Consulta o seu Rolex. —
Dentro de dez minutos.
— Do que está a falar?
— Já vai ver.
Num silêncio tenso, ficam todos à espera dos dois minutos finais, e
quando o cronómetro emite o sinal, Slade diz:
— Paul?
— A postos.
Slade olha por cima da consola para o homem que está a controlar os
estimuladores.
— Sergei?
— Preparado.
— Reanimação?
— Desfibrilhador a postos.
Slade olha para Paul e assente com a cabeça.
O médico expira, prime uma tecla e diz:
— Um miligrama de rocurónio administrado.
— O que é isso? — pergunta Helena.
— Um agente de bloqueio neuromuscular — responde o Dr. Wilson.
— Aconteça o que acontecer — diz Slade —, não o podemos ter ali a
esbracejar e a destruir aquele capacete.
— Ele sabe que vai ficar temporariamente paralisado?
— É claro.
— Como estão a administrar estes fármacos?
— Através de uma entrada intravenosa sem fios integrada no antebraço
esquerdo dele. Basicamente, é apenas uma versão do cocktail de injeção
letal, mas sem o sedativo.
— Dois miligramas e meio de tiopental sódico administrados — diz o
médico.
Helena divide a atenção entre a imagem de visão noturna do interior do
tanque e o ecrã que o médico está a analisar, o qual indica a pulsação, a
tensão arterial, o eletrocardiograma e vários outros parâmetros vitais de
Reed.
— Tensão arterial a diminuir— diz o Dr. Wilson. — Frequência cardíaca
a diminuir para cinquenta batimentos por minuto.
— Ele está em sofrimento? — pergunta Helena.
— Não — responde Slade.
— Como pode ter a certeza?
— Vinte batimentos por minuto.
Helena aproxima-se do monitor e observa a cara de Reed naqueles tons
de verde da visão noturna. Tem os olhos fechados e não evidencia sinais de
dor. Na verdade, tem ar de quem está em paz.
— Dez batimentos por minuto. Tensão arterial… máxima trinta, mínima
cinco.
De repente, ouve-se na sala de controlo o aviso sonoro contínuo que
indica que não há atividade do sujeito.
O médico desliga o aviso sonoro e diz:
— Hora do óbito: dez e treze.
No tanque, Reed não tem um aspeto diferente, ainda a boiar na água
salgada.
— Quando o vão reanimar? — pergunta Helena.
Slade não responde.
— A aguardar — diz Sergei.
Surgiu uma nova janela no monitor principal do médico. Tempo desde
paragem cardíaca: 15 segundos.
Quando o relógio chega a um minuto, o médico diz:
— Libertação de DMT detetada.
— Sergei — diz Slade.
— A iniciar programa de reativação de memória. A ativar
estimuladores…
O médico continua a ler os níveis de vários sinais vitais, agora sobretudo
associados aos níveis de oxigénio e atividade cerebral. Sergei também vai
atualizando os valores aproximadamente a cada dez segundos, porém, para
Helena, o estridor das suas vozes diminui. Não consegue desviar os olhos
do homem que está no tanque, questionando-se o que estará ele a ver e a
sentir. Interrogando-se se ela estaria disposta a morrer para experienciar
todo o poder da sua invenção.
Quando o relógio marca dois minutos e trinta segundos, Sergei diz:
— Programa de memória completo.
— Execute-o outra vez — diz Slade.
Sergei olha para ele.
— Marcus, aos cinco minutos, as probabilidades de o reanimar são
praticamente nulas — diz o médico. — As células do cérebro dele estão a
morrer rapidamente.
— Eu e o Reed falámos sobre isso hoje de manhã. Ele está preparado
para correr o risco.
— Tirem-no dali — diz Helena.
— Também não me sinto à vontade com isto — diz Sergei.
— Por favor, confiem em mim. Execute o programa outra vez.
Sergei suspira e apressa-se a escrever alguma informação.
— A iniciar programa de reativação de memória. A ativar estimuladores.
Quando Helena fulmina Slade com o olhar, este atalha:
— O Jee-woon tirou aquele homem de uma casa de chuto num dos piores
bairros de São Fran cisco. Ele estava inconsciente, a agulha ainda espetada
no braço. O mais certo era já estar morto se não fosse…
— Não serve de justificação para isto — refuta ela.
— Compreendo que pense assim. Mais uma vez, peço a todos vós que,
por favor, confiem em mim durante apenas mais um pouco. O Reed ficará
perfeitamente bem.
— Marcus, se tenciona reanimar o Sr. King, sugiro que diga aos meus
médicos que o tirem daquela câmara imediatamente — diz o Dr. Wilson. —
Mesmo que consigamos fazer com o que o seu coração volte a bater, se ele
perder a função cognitiva, não terá utilidade alguma para si.
— Não o vamos tirar do tanque.
Sergei põe-se de pé e caminha para a saída.
Helena levanta-se da cadeira e segue no seu encalço.
— A porta está fechada por fora — diz Slade. — E mesmo que
conseguissem sair, os meus seguranças estão à espera no corredor. Lamento.
Eu tinha a sensação de que vocês perderiam a coragem quando
chegássemos a esta fase.
— Dana, Aaron, retirem o Sr. King do tanque e iniciem a reanimação
imediatamente — diz o médico para o microfone.
Helena olha fixamente pela parede de vidro. Os médicos que estão à
beira do carrinho com equipamento médico não se mexem.
— Aaron! Dana!
— Eles não o conseguem ouvir — diz Slade. — Cortei as comunicações
com o compartimento de testes assim que iniciou a sequência com os
fármacos.
Sergei atira-se contra a porta, embatendo com o ombro no metal.
— Quer mudar o mundo? — pergunta Slade. — O que faz falta é isto. A
sensação é esta. Momentos de inexorabilidade, uma determinação
inabalável.
No monitor com a imagem de visão noturna do interior do tanque vê-se
Reed completamente imóvel.
A águaperfeitamente parada.
Helena observa o monitor do médico. Tempo desde paragem cardíaca:
304 segundos.
— Já ultrapassámos os cinco minutos — diz ela ao Dr. Wilson. — Há
esperança?
— Não sei.
Helena corre até uma cadeira vazia e levanta-a do chão. Jee-woon e Slade
percebem o que ela vai fazer meio segundo demasiado tarde e levantam-se
dos seus lugares para a travarem.
Ela levanta a cadeira acima do ombro e lança-a com violência contra a
janela.
Porém, esta não chega a atingir o vidro.
BARRY
6 de novembro de 2018
Barry abre os olhos, mas não vê nada. Perdeu a noção do tempo. Podem
ter passado anos ou segundos. Pestaneja, mas continua tudo na mesma.
Questiona-se: Estarei morto? Inspira, o peito dilata-se, depois expira.
Quando levanta o braço, ouve o barulho de água e sente alguma coisa
deslizar debaixo da pele.
Percebe que está a boiar de costas, sem fazer esforço, numa piscina de
água com a temperatura exata da sua pele. Quando não se mexe, não a
sente, e mesmo ao imobilizar-se outra vez, fica atónito com a sensação de o
seu corpo não ter princípio nem fim.
Não… há uma sensação. Tem alguma coisa presa ao antebraço esquerdo.
Leva lá a mão direita e toca no que parece ser uma caixa de plástico duro.
Dois centímetros e meio de largura, talvez dez centímetros de comprimento.
Tenta arrancá-la, mas ou foi colada, ou está integrada na sua pele.
— Barry. — É a voz do homem de antes. Aquele que estava sentado no
banco a obrigá-lo a falar sobre Meghan quando ele estava amarrado àquela
cadeira.
— Onde estou? O que está a acontecer?
— Preciso que se acalme. Limite-se a respirar.
— Estou morto?
— Eu estaria a dizer-lhe para respirar se assim fosse? Não está morto e,
neste momento, o lugar onde se encontra não têm importância.
Barry levanta uma das mãos e toca com os dedos na superfície sessenta
centímetros acima da cara. Procura uma alavanca, um botão, alguma coisa
para abrir o sítio onde o meteram, mas as paredes são lisas e não têm
brechas.
Sente uma vibração ligeira no dispositivo no antebraço, tenta levar lá a
mão outra vez, mas nada acontece. Deixou de conseguir mexer o braço
direito.
Tenta levantar o esquerdo, mas nada.
Depois as pernas, a cabeça, os dedos.
Nem sequer consegue pestanejar, e quando tenta falar, não é capaz sequer
de abrir os lábios.
— Aquilo que está a sentir é um agente paralisante — diz o homem
algures nas trevas por cima de si. — Foi isso a vibração que acabou de
sentir, o dispositivo a injetar o fármaco. Infelizmente, é preciso mantê-lo
consciente. Não lhe vou mentir, Barry. Os próximos instantes serão bastante
desconfortáveis.
Fica aterrorizado — o medo mais profundo que jamais conheceu. Tem os
olhos esbugalhados e está constantemente a tentar mexer-se — os braços, as
pernas, os dedos, qualquer coisa —, mas não acontece nada. É o mesmo que
estivesse a tentar controlar um único fio de cabelo. E tudo isto antes de
perceber o verdadeiro horror: não consegue contrair o diafragma, o que
quer dizer que não pode respirar.
Sente um turbilhão de pânico e, por fim, dor, tudo condensado numa
escalada segundo a segundo da necessidade desesperada de inspirar
oxigénio. Porém, os comandos do seu corpo estão-lhe vedados. Não
consegue chorar, esbracejar ou suplicar pela vida, coisa que estaria mais do
que disposto a fazer caso conseguisse falar.
— Já deve ter percebido que perdeu a capacidade de respirar. Não se trata
de sadismo, Barry. Dou-lhe a minha palavra. Não tarda, tudo estará
acabado.
Tudo o que consegue fazer é ficar deitado na mais completa escuridão, a
ouvir os gritos da sua mente e a torrente de pensamentos enquanto o único
barulho é o forte bater do coração, cada vez mais depressa.
O dispositivo volta a vibrar no seu antebraço.
Agora, uma dor pálida e quente percorre-lhe as veias e aquele baque
como um martelo pneumático do seu coração responde de imediato à
substância que lhe foi injetada na corrente sanguínea.
Abrandando.
Abrandando.
Abrandando.
E depois deixa de o ouvir ou sentir bater.
O silêncio no local onde se encontra torna-se absoluto.
Neste momento, sabe que o sangue deixou de circular no seu organismo.
Não consigo respirar e o meu coração deixou de bater. Estou morto. Em
morte clínica. Então, porque continuo a pensar? Como é possível continuar
a ter consciência? Quanto tempo durará isto? Será que a dor irá piorar?
Será mesmo o meu fim?
— Acabei de lhe parar o coração, Barry. Por favor, ouça. Tem de se
manter focado durante os próximos momentos, caso contrário, perdê-lo-
emos. Se passar para o outro lado, lembre-se do que eu fiz por si. Não
permita que aconteça desta vez. Pode alterá-lo.
Dão-se explosões de cor no cérebro privado de oxigénio e sangue de
Barry — um espetáculo de cores para um homem morto, cada lampejo mais
perto e mais intenso do que o anterior.
Até que tudo o que vê é uma brancura ofuscante que já começa
a esmorecer por entre tons de cinzento, a dar lugar ao negro, e sabe o que o
espera no fim desse espectro — o não ser. Mas, talvez, o fim da dor, desta
brutal sede de ar. Está preparado. Preparado para qualquer coisa que ponha
um fim a isto.
É então que sente o cheiro de alguma coisa. É estranho, porque invoca
uma resposta emocional que ele não sabe como apelidar, mas que transporta
a dor da nostalgia. Demora mais um instante, mas percebe que é o cheiro da
sua casa quando ele, Julia e Meghan acabaram de jantar. Em particular, o
rolo de carne, cenouras e batatas assadas cozinhadas por Julia. Depois,
sente o cheiro a levedura, malte e cevada. Cerveja, mas não uma cerveja
qualquer. A Rolling Rocks que ele costumava beber daquelas garrafas
verdes.
Outros cheiros emergem e fundem-se num aroma mais complexo do que
qualquer vinho. Um aroma que ele reconheceria em qualquer sítio — a casa
em Jersey City onde viveu com a ex-mulher e a filha já falecida.
O cheiro a casa.
De súbito, sente o sabor de cerveja e a presença constante na boca dos
cigarros que costumava fumar.
O seu cérebro desencadeia uma imagem que se sobrepõe ao plano branco
que está a esmorecer — desfocado e indistinto nos bordos, mas depressa
ganhando nitidez. Um televisor. No ecrã, uma partida de basebol. A
imagem mental tão nítida como a real, primeiro numa escala de cinzentos,
mas depois a cor inunda tudo aquilo que vê.
Fenway Park.
O relvado verde sob os holofotes do estádio.
O público.
Os atletas.
A argila vermelha da base do lançador e Curt Schilling ali posicionado
com a luva na mão, a olhar com desdém para Todd Helton no lugar do
batedor.
É como se uma memória estivesse a ser criada à sua frente. Primeiro, os
alicerces de cheiro e paladar. Depois, os andaimes dos aspetos visuais.
Depois, um revestimento de tato, quando ele sente, sente deveras, a macieza
fria do couro da cadeira em que está sentado, os pés pousados no apoio
puxado para fora, a sua cabeça a virar, e uma mão — a sua mão — a pegar
na garrafa de Rolling Rock que está pousada numa base para copos na mesa
ao lado da cadeira.
Quando toca na garrafa, consegue sentir o frio húmido da condensação
no vidro verde e, quando a leva à boca e a inclina, o sabor e o cheiro
subjugam-no com o poder da realidade. Não é uma simples memória, mas
uma coisa que está a acontecer agora.
E ele está perfeitamente consciente, não só da memória propriamente
dita, mas da sua perspetiva da memória. É diferente de qualquer recordação
que tenha experienciado, porque ele está dentro dela, a espreitar pelos olhos
da sua versão mais jovem e a assistir ao filme da sua vida antiga a
desenrolar-se diante dos seus olhos como um observador totalmente imerso.
A dor de estar a morrer transformou-se numa estrela difusa e distante, e
agora começa a ouvir sons, apenas fragmentos de início, abafados e
indistintos, mas aos poucos vão ganhando volume e nitidez, como se
alguém estivesse a ajustar lentamente os níveis.
Os comentadores na televisão.
Um telefone a tocar em casa.
Passos a ecoar no chão de madeira dura do corredor.
E depois Meghan está à frente dele. Ele olha diretamente para a cara dela,
a boca dela a mexer-se,e ouve a sua voz — muito ao longe, muito distante
para perceber palavras em concreto, apenas consegue ouvir aquele timbre
familiar que se tem esfumado aos poucos da sua memória ao longo de onze
anos.
Ela é linda. É vital. Está de pé à frente do televisor, a obstruir a vista, a
mochila ao ombro, calças de ganga azuis, camisola azul-turquesa, o cabelo
apanhado atrás num rabo de cavalo.
Isto é demasiado intenso. Pior do que a tortura da asfixia e de igual modo
fora do seu controlo, pois não se trata de uma memória que ele evoca por
vontade própria. De algum modo, está a ser projetada nele, contra a sua
vontade, e ele pensa que talvez haja um motivo para as memórias serem
indistintas e desfocadas. Talvez a sua abstração seja como um anestésico,
um tampão que nos protege da agonia do tempo e de tudo o que este nos
furta e apaga.
Ele quer sair desta memória, mas não consegue. Todos os sentidos estão
completamente envolvidos. Tudo é nítido e vívido como na realidade. Com
a diferença de que não tem controlo. Não pode fazer nada a não ser olhar
pelos olhos desta versão de si mesmo onze anos mais novo e ouvir a última
conversa que teve com a filha, sentindo a vibração da sua laringe e depois o
movimento da sua boca e dos lábios a formar palavras.
— A tua mãe concordou?
A sua voz não soa minimamente estranha. Soa exatamente da mesma
maneira de quando ele fala.
— Não, estou a pedir-te a ti.
— Já fizeste os trabalhos de casa?
— Não, é por isso que quero ir.
Barry sente a sua versão mais jovem inclinar-se para ver para lá de
Meghan quando Todd Helton se prepara para fazer o lançamento seguinte.
O corredor da terceira base pontua, mas Helton é expulso.
— Pai, não me estás a prestar atenção.
— Estou, pois.
Olha outra vez para ela.
— A Mindy é a minha companheira de laboratório e eu tenho um
trabalho para entregar na quarta-feira.
— Para que disciplina?
— Biologia.
— Quem mais vai lá estar?
— Oh, meu Deus! Sou eu, a Mindy, talvez o Jacob, de certeza o Kevin e
a Sarah.
Agora, vê-se a si mesmo levantar o braço para ver as horas no relógio —
o relógio que ele irá perder quando se mudar desta casa dez meses depois,
no rescaldo da morte de Meghan e da explosiva descompres são do seu
casamento.
Passa pouco das 20h30.
— Então, posso ir?
Diz que não.
O Barry mais novo vê o jogador seguinte dos Rockies caminhar para a
posição do batedor.
Diz que não!
— Estarás em casa antes das dez?
— Onze.
— Onze é aos fins de semana, já sabes.
— Dez e meia.
— Pronto, esquece.
— Está bem, dez e um quarto.
— Estás a gozar?
— Demoro dez minutos a chegar lá. A não ser que me queiras levar de
carro.
Uau! Ele reprimira este momento por ser demasiado doloroso. Ela
sugerira que ele a levasse de carro e ele recusara. Se a tivesse levado, ela
ainda estaria viva.
Sim! Leva-a de carro! Leva-a de carro, seu palerma!
— Querida, estou a ver o jogo.
— Então, dez e meia?
Ele sente os lábios revirarem-se num sorriso, lembra-se bem da sensação
há muito esquecida de perder uma negociação com a filha. A irritação, mas
também o orgulho de ela se estar a tornar uma mulher de garra, que sabia o
que queria e lutava por isso. Lembra-se de ter a esperança de ela não perder
essa chama na sua vida adulta.
— Está bem. — Meghan começa a caminhar para a porta. — Mas nem
um minuto mais tarde. Dás-me a tua palavra?
Não a deixes ir.
Não a deixes ir!
— Sim, pai.
As suas últimas palavras. Agora lembra-se. Sim, pai.
A versão mais jovem de Barry está outra vez a ver televisão, Brad Hawpe
a lançar uma bola até ao centro. Consegue ouvir os passos de Meghan,
afastando-se dele, e está a gritar no seu âmago, mas nada acontece. É como
se estivesse a ocupar um corpo sobre o qual não tem qualquer controlo.
A sua versão mais jovem nem sequer está a olhar para Meghan enquanto
ela caminha para a porta. Só se importa com o jogo e não sabe que acabou
de olhar para os olhos da filha pela última vez, que poderia impedir aquilo
de acontecer com uma simples palavra.
Escuta a porta da frente abrir-se e fechar-se com estrondo.
Depois ela desaparece, afastando-se de casa a pé, para longe dele, para a
sua morte. E ele está sentado num cadeirão a assistir a uma partida de
basebol.
A dor de não conseguir respirar desapareceu. Não tem a sensação de estar
a boiar naquela água morna ou de ter o coração adormecido no peito. Nada
importa a não ser esta memória lancinante que está a ser obrigado a suportar
por motivos que não compreende e o facto de a sua filha ter saído de casa
pela última…
O seu dedo mindinho mexe-se.
Ou melhor, ele tem noção de o ter mexido. De a ação resultar da sua
intenção.
Tenta outra vez e consegue mexer a mão toda.
Estica um braço, depois o outro.
Pestaneja. Respira.
Abre a boca e solta um som como um grunhido — gutural e sem sentido
—, mas conseguiu.
O que é que isso significa? Há pouco, estava a experienciar a memória
como um observador a percorrer um ficheiro só de leitura. Como se
estivesse a ver um filme. Agora, consegue mexer-se e interagir com o seu
ambiente, e a cada segundo que passa sente que tem mais domínio sobre o
seu corpo.
Baixa-se e retrai o apoio de pés do cadeirão. No momento seguinte
encontra-se de pé, a olhar para a casa onde viveu há mais de uma década e
espantado com a realidade intensa da experiência.
Atravessa a sala de estar, detém-se à frente do espelho que há ao lado da
porta da frente e observa o seu reflexo no vidro. Tem mais cabelo e de novo
da cor da areia, com menos cabelos grisalhos, os quais, nos últimos anos,
têm reclamado mais espaço na sua cabeça com cabelos cada vez mais raros.
Tem o maxilar bem delineado. Sem papada, sem papos por baixo dos
olhos ou vasos capilares rebentados na lateral do nariz, e percebe que, desde
a morte de Meghan, deixou o corpo desmazelar-se por completo.
Olha para a porta. A porta pela qual a sua filha acabou de sair.
Que raio está a acontecer? Ele estava num hotel em Manhattan, a morrer
numa espécie de tanque de privação sensorial.
Isto é real?
Está a acontecer?
Não pode ser, mas a sensação é exatamente como se estivesse a viver
aquilo.
Abre a porta e sai para a noite outonal.
Se isto não é real, é uma tortura da pior espécie. Mas e se o que o homem
disse for verdade? Vou dar-lhe o melhor presente da sua vida. O melhor
presente que alguém poderia alguma vez desejar.
Barry regressa ao momento. Essas dúvidas terão de ficar para mais tarde.
Agora, ele está no alpendre da frente da sua casa a ouvir as folhas do
carvalho do jardim da frente roçagando com a brisa suave que também
movimenta o baloiço de corda. Ao que parece, voltou, o que é impossível,
ao dia 25 de outubro de 2007, a noite em que a filha morreu atropelada,
tendo o condutor fugido do local. Não chegou a encontrar-se com os amigos
no Dairy Queen, o que quer dizer que essa tragédia acontecerá nos
próximos dez minutos.
E ela já leva um avanço de dois.
Ele está descalço, mas já desperdiçou demasiado tempo.
Fecha a porta da casa e sai para o relvado, as folhas estalam debaixo dos
pés descalços, e abre caminho pelo meio da noite.
HELENA
20 de junho de 2009
Dia 598
Alguém bate à porta. Ela estica o braço no meio da escuridão, acende o
candeeiro e levanta-se da cama com umas calças de pijama e um top preto.
O despertador na mesa de cabeceira indica 9h50.
Quando vai até à sala de estar e caminha para a porta, carregando no
botão na parede para levantar as cortinas opacas, tem uma forte sensação de
déjà-vu.
Slade está no corredor, de calças de ganga e com uma camisola de capuz,
e traz uma garrafa de champanhe, dois copos e um DVD. É a primeira vez
que ela o vê em semanas.
— Ora bolas, acordei-a — diz ele.
Ela fita-o com os olhos semicerrados sob o brilho dos painéis luminosos
no teto.
— Posso entrar? — pergunta.
— Tenho alternativa?
— Por favor, Helena.
Ela recua um passo e deixa-o entrar, seguindo-o pelo pequeno espaço da
entrada, passando pela casa de banho e dirigindo-se ao espaço principal.
— O que deseja? — pergunta ela.
Ele senta-se no pousa-pés de um cadeirão ao lado das janelas com vista
para osão memórias
assombradas, espectrais. — Começa a chorar. — Toda a gente pensa que a
SFM se resume a ter falsas memórias de momentos importantes da vida,
mas o que custa mais são as mais insignificantes. Não me recordo apenas
do meu marido. Recordo-me do cheiro do hálito dele pela manhã quando se
virava para mim na cama. De que se levantava sempre antes de mim para ir
lavar os dentes, regressando para a cama e querendo fazer sexo. Essas
coisas é que custam. Os mais ínfimos e perfeitos detalhes que fazem com
que tenha a certeza de que aconteceu.
— Então e esta vida? — pergunta Barry. — Não tem valor para ti?
— Talvez algumas pessoas tenham SFM e prefiram as suas memórias
atuais às falsas, mas não há nada nesta vida que eu queira. Tentei… durante
quatro longas semanas. Não aguento mais. — As lágrimas deixam marcas
no eyeliner. — O meu filho nunca existiu. Percebe isso? Não passa de uma
falha no meu cérebro.
Barry arrisca mais um passo na direção da mulher, mas desta vez ela
apercebe-se.
— Não te aproximes mais.
— Não estás sozinha.
— O caraças é que não estou sozinha.
— Só te conheço há uns minutos, mas ficarei de rastos se fizeres isso.
Pensa nas pessoas na tua vida que te amam. Pensa em como se sentirão.
— Eu procurei o Joe — diz Ann.
— Quem?
— O meu marido. Estava a viver numa mansão em Long Island. Agiu
como se não me reconhecesse, mas eu sei que reconheceu. Tinha uma outra
vida. Estava casado… não sei com quem. Não sei se teve filhos. Agiu como
se eu estivesse louca.
— Lamento, Ann.
— A dor é demasiado forte.
— Bem, eu já passei por isso. Já quis acabar com tudo. E estou aqui,
agora, a dizer-te que estou feliz por não o ter feito. Estou feliz por ter tido
forças para ultrapassar a situação. Este mau momento não é o livro da tua
vida, é apenas um capítulo.
— O que foi que te aconteceu?
— Perdi a minha filha. A vida também me partiu o coração.
Ann olha para o firmamento incandescente.
— Tens fotografias dela? Ainda falas sobre ela com outras pessoas?
— Sim.
— Pelo menos, ela existiu mesmo.
Não há nada que ele possa dizer para refutar isso.
Ann espreita outra vez pelo meio das pernas. Descalça uma sabrina com
o pé.
Fica a vê-la cair.
Depois, deixa cair a outra.
— Ann, por favor.
— Na minha vida anterior, a minha vida falsa, a primeira mulher do Joe
chamava-se Franny, saltou deste edifício, deste mesmo parapeito, há quinze
anos. Sofria de depressão. Eu sei que ele se sentiu culpado. Antes de deixar
a casa dele em Long Island, disse ao Joe que esta noite iria saltar do Poe
Building, tal como a Franny. Parece disparatado e desesperado, mas tinha a
esperança de que ele viesse salvar-me, coisa que não fez por ela. Quando
chegaste, ainda pensei que fosse ele, mas ele nunca usou água-de-colónia.
— Ela sorri, nostálgica, depois acrescenta: — Tenho sede.
Barry olha de relance pelas portas envidraçadas para o gabinete na
penumbra, vê dois polícias a postos à beira da secretária da receção. Olha
outra vez para Ann.
— Então, porque não sais daí e vamos lá dentro beber um copo de água?
— Não me podes trazer um aqui?
— Não te posso abandonar.
As mãos da mulher começam a tremer, e ele percebe uma súbita
determinação nos seus olhos.
Ela olha para Barry.
— A culpa não é tua — diz ela. — O desfecho seria sempre este.
— Ann, não…
— O meu filho foi apagado.
E olhando despreocupadamente de relance para ele, salta do parapeito.
HELENA
22 de outubro de 2007
Debaixo do chuveiro às seis da manhã, tentando despertar enquanto a
água quente lhe escorre pela pele, Helena tem uma forte sensação de já ter
vivido este exato momento. Nada de novo. Desde os seus vinte anos que
tem episódios de déjà-vu. Além disso, não há nada de especial em relação a
este momento no chuveiro. Questiona-se se a Mountainside Capital já
analisou a sua proposta de subsídio. Passou entretanto uma semana. É mais
do que altura de ter uma resposta. No mínimo, deveriam tê-la contactado
para uma reunião, caso estivessem interessados.
Põe café a fazer e prepara o pequeno-almoço para levar: feijão-preto, três
ovos malpassados, e um pouco de ketchup. Senta-se à pequena mesa junto à
janela a ver o céu clarear por cima do seu bairro nos arrabaldes de San Jose.
Há mais de um mês que não lhe sobra um dia para tratar da roupa e o
chão do seu quarto está praticamente coberto de roupa suja. Vasculha os
montes de roupa até encontrar uma T-shirt e umas calças de ganga com as
quais não se sente completamente envergonhada ao sair de casa.
O telefone toca enquanto está a escovar os dentes. Cospe, passa a boca
por água e atende ao quarto toque no seu quarto.
— Como está a minha menina?
A voz do pai suscita-lhe sempre um sorriso.
— Olá, pai.
— Pensei que já não te apanharia em casa. Não te quis incomodar no
laboratório.
— Não há problema. O que se passa?
— Estava só a pensar em ti. Alguma resposta sobre a proposta
de subsídio?
— Ainda não.
— Tenho a sensação de que irão aprovar.
— Não sei. Esta cidade não é fácil. A concorrência é forte. Há muitas
pessoas, deveras inteligentes, aliás, atrás de dinheiro.
— Mas não tão inteligentes como a minha menina.
Ela já não suporta a confiança do pai nela. Não numa manhã como esta,
com o espectro do fracasso a pairar ao longe, sentada num minúsculo quarto
imundo de uma casa com as paredes brancas e sem decoração onde não
trouxe uma única pessoa em mais de um ano.
— Como está o tempo? — pergunta, para mudar de assunto.
— Nevou ontem à noite. O primeiro nevão da estação.
— Muito?
— Só três ou quatro centímetros, mas as montanhas estão brancas.
Ela consegue imaginá-las: a Front Range das Montanhas Rochosas, as
montanhas da sua infância.
— Como está a mãe?
Uma breve pausa.
— A tua mãe está boa.
— Pai.
— O que foi?
— Como está a mãe?
Ela ouve-o expirar devagar.
— Já tivemos dias melhores.
— Ela está bem?
— Sim. Está lá em cima a dormir.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Diz lá.
— Ontem à noite, como sempre, jogámos gin rummy. E ela, do nada…
deixou de saber as regras. Sentou-se à mesa da cozinha com o olhar fixo nas
cartas, as lágrimas a correrem-lhe pela cara. Há mais de trinta anos que
jogamos juntos.
Ela percebe que ele tapou o bocal com a mão.
Está a chorar, a mil e seiscentos quilómetros de distância.
— Pai, vou para casa.
— Não, Helena.
— Tu precisas da minha ajuda.
— Temos um bom apoio aqui. Vamos esta tarde ao médico. Se queres
ajudar a tua mãe, obtém o teu financiamento e trabalha na tua cadeira.
Ela não lhe quer dizer, mas a cadeira continua a anos de distância. A
anos-luz de distância. É um sonho, uma miragem.
Fica com os olhos marejados de lágrimas.
— Sabes que estou a fazer isto por ela.
— Eu sei, querida.
Por instantes, ficam os dois em silêncio, tentando ambos não dar a
entender que estão a chorar, mas falham redondamente. Ela só quer poder
dizer-lhe que vai acontecer, mas seria mentira.
— Telefono quando chegar a casa hoje à noite — diz ela.
— Está bem.
— Por favor, diz à mãe que a amo.
— Digo, mas ela já sabe.
Quatro horas mais tarde, nas profundezas do complexo de neurociência
em Palo Alto, Helena está a examinar a imagem da memória de um ratinho
segundo a qual ele tem de ter medo — neurónios iluminados por
fluorescência interligados por uma teia de sinapses —, quando um
desconhecido assoma à entrada do gabinete dela. Ela olha por cima do
monitor para o homem de calças de sarja e T-shirt branca, ostentando um
sorriso demasiado reluzente.
— Helena Smith? — pergunta.
— Sim?
— Chamo-me Jee-woon Chercover. Pode dispensar-me um minuto?
— Este laboratório é de acesso restrito. O senhor não pode estar aqui.
— Peço desculpa pela intromissão, mas acho que quererá ouvir o que
tenho para dizer.
Ela poderia pedir-lhe para se ir embora ou chamar a segurança, mas ele
não tem um ar ameaçador.
— Está bem — diz ela. De súbito, percebe que este homem está a tirar as
medidas ao seu gabinete, que é como um paraíso para um acumulador de
tralha. Um gabinete sem janelas, atulhado, paredes de tijolos de betão
pintados, um espaço ainda mais claustrofóbico à conta das caixas de cartão
empilhadas atémar infinito.
— Contaram-me que não tem comido nem praticado exercício — diz ele.
— Que há dias que não fala com ninguém nem sai do quarto.
— Porque não me deixa falar com os meus pais? Porque não me deixa ir
embora?
— Você não está bem, Helena. Não se encontra num estado de espírito
que lhe permita proteger o secretismo deste lugar.
— Eu disse-lhe que me quero ir embora. A minha mãe foi internada. Não
sei como ela está. O meu pai não ouve a minha voz há um mês. De certeza
que está preocupado…
— Sei que não consegue perceber agora, mas estou a salvá-la de si
mesma.
— Ah, vá-se foder.
— Desistiu porque discordou do rumo para o qual eu estava a levar este
projeto. Só estou a dar-lhe tempo para reconsiderar a ideia de deitar tudo a
perder.
— O projeto era meu.
— O dinheiro é meu.
Ela tem as mãos a tremer. De medo. De fúria.
— Não quero continuar a fazer isto — diz ela. — Você destruiu o meu
sonho. Impediu-me de tentar ajudar a minha mãe e outras pessoas. Quero ir
para casa. Vai continuar a reter-me aqui contra a minha vontade?
— É claro que não.
— Então, posso ir embora?
— Recorda-se do que lhe perguntei no dia que aqui chegou?
Ela abana a cabeça, os olhos húmidos das lágrimas.
— Perguntei-lhe se queria mudar o mundo comigo. Estamos a beneficiar
de todo o trabalho brilhante que a Helena fez e eu venho aqui hoje dizer-lhe
que conseguimos.
Ela fita-o do outro lado da mesinha de apoio, as lágrimas correm-lhe pela
cara.
— O que está para aí a dizer?
— Hoje é o dia mais importante das nossas vidas. É tudo aquilo por que
temos trabalhado com tanto afinco. Por isso, vim aqui para comemorar
consigo.
Slade começa a desenrolar o arame que prende a rolha da garrafa de Dom
Perignon. Quando consegue removê-lo, atira-o para cima da mesinha de
apoio. Depois, segurando a garrafa no meio das pernas, tira a rolha com
cuidado. Helena observa-o enquanto ele serve o champanhe nos copos,
enchendo cuidadosamente as duas flutes até cima.
— Está doido — diz ela.
— Ainda não podemos beber. Temos de esperar até… — Consulta
o relógio. — São dez e um quarto, mais coisa menos coisa. Enquanto
esperamos, quero mostrar-lhe uma coisa que aconteceu ontem.
Slade pega no DVD que está em cima da mesinha de apoio e leva-o até
ao centro de entretenimento. Insere-o no leitor e aumenta o volume.
No ecrã surge um homem alto e macilento que ela nunca viu, reclinado
na cadeira de memória. Jee-woon Chercover está debruçado por cima dele a
tatuar as letras «M-i-r-a-n» no seu ombro esquerdo. O homem macilento
levanta um braço e diz:
— Pare.
Slade aparece na imagem.
— O que foi, Reed?
— Estou de volta. Estou aqui. Oh, meu Deus.
— O que está a dizer?
— A experiência funcionou.
— Prove-o.
— O nome da sua mãe é Susan. O senhor disse-me para lhe dizer isto
mesmo antes de eu entrar para o ovo.
No ecrã, Slade faz um sorriso rasgado.
— A que horas fizemos a experiência amanhã? — pergunta.
— Às dez da manhã.
Slade apaga a televisão e olha para Helena.
— Era suposto isto fazer algum sentido para mim? — diz ela.
— Acho que o saberemos dentro de um minuto.
Ficam sentados num silêncio desconfortável, Helena observa as bolhas
do champanhe em efervescência.
— Quero ir para casa — diz ela.
— Pode ir hoje, se assim entender.
Ela olha para o relógio de parede. Marca 10h10. Está um silêncio tão
vincado no seu apartamento que consegue ouvir o silvar do gás a sair das
flutes. Olha fixamente para o mar, pensando que, seja lá o que for que está a
acontecer, ela está farta. Abandonará a plataforma, a sua investigação, tudo.
Renunciará ao seu pagamento, à sua participação nos lucros, porque
nenhum sonho, nenhuma ambição, justifica o que Slade lhe fez. Regressará
a casa no Colorado e ajudará a cuidar da mãe. Não conseguiu preservar as
suas memórias em declínio nem travar a doença, mas pelo menos pode estar
com ela durante o tempo que lhe restar.
Passa das dez e um quarto.
Slade está constantemente a consultar o relógio, revelando no olhar
alguma preocupação.
— Olhe — diz Helena —, seja lá o que for que venha a ser isto, estou
pronta para me ir embora. A que horas é que o helicóptero me pode levar de
volta para a Califórnia?
Começa a escorrer sangue do nariz de Slade.
Helena sente um travo a ferrugem e percebe que também está a sangrar
do nariz. Levanta as mãos e tenta estancá-lo, mas este escorre-lhe pelos
dedos e mancha-lhe a T-shirt. Vai a correr para a casa de banho, tira duas
toalhas da gaveta e encosta uma ao nariz enquanto leva a outra para a dar a
Slade.
Quando lha passa para a mão, sente uma dor acutilante atrás dos olhos,
como a pior cefaleia da sua vida, e, a julgar pela expressão de Slade,
percebe que ele está a sentir a mesma coisa.
Slade sorri-lhe, os dentes ensanguentados. Ele levanta-se do pousa-pés,
limpa o nariz e atira a toalha para o chão.
— Consegue senti-las? — pergunta ele.
De início, ela pensa que ele está a referir-se à dor, mas não é isso. De
súbito, ela tem noção de uma memória completamente nova da última meia
hora. Uma memória pardacenta, alucinada. Nela, Slade não veio aqui com
uma garrafa de champanhe. Convidou-a para ir ao compartimento de teste
com ele. Lembra-se de estar sentada na sala de controlo a ver um viciado
em heroína entrar para o tanque de privação sensorial. Desencadearam uma
memória dele a ser tatuado e depois mataram-no. Ela estava a tentar atirar
uma cadeira pelo vidro entre a sala de controlo e o compartimento de teste
quando, de repente, passou a estar aqui — de pé no seu apartamento com
uma hemorragia nasal e uma cefaleia insuportável.
— Não compreendo — diz ela. — O que acabou de acontecer?
Slade levanta o copo de champanhe, toca com ele no dela e bebe um
grande trago.
— Helena, você não se limitou a criar uma cadeira que ajuda as pessoas a
reviverem as suas memórias. Criou uma coisa que as pode fazer regressar
ao passado.
BARRY
25 de outubro de 2007
As janelas das casas vizinhas parecem tremular por causa da iluminação
dos ecrãs de televisão no interior e apenas Barry vai a correr pelo meio de
uma rua deserta, coberta de folhas caídas dos carvalhos que a ladeiam por
todo o quarteirão. Sente-se com mais forças do que nos últimos anos. Não
sente a dor no joelho resultante de uma irrefletida derrapagem por cima do
lugar do batedor numa partida de softball em Central Park que só
acontecerá dentro de cinco anos. Além de que está muito mais leve, pelo
menos treze quilos.
A cerca de oitocentos metros, avista o brilho da sinalética de restaurantes
e motéis, entre eles o Dairy Queen. Apalpa algo no bolso da frente das
calças de ganga. Abrandando o ritmo até uma caminhada rápida, mete a
mão ao bolso e tira de lá um iPhone de primeira geração cuja proteção de
ecrã é uma fotografia de Meghan a cruzar a meta numa corrida de corta-
mato.
Faz quatro tentativas até conseguir desbloqueá-lo e depois percorre os
contactos até encontrar o de Meghan, e liga-lhe quando recomeça a correr.
Toca uma vez e a chamada vai para o correio de voz.
Liga de novo.
Outra vez o correio de voz.
E vai a correr pelo passeio irregular defronte de uma série de velhos
edifícios, que, ao longo da década seguinte, darão lugar a espaços tipo loft,
um café e uma destilaria, mas que para já se elevam na penumbra,
abandonados.
Vários metros mais à frente, vislumbra uma silhueta que assoma das
trevas desta zona subdesenvolvida em direção à orla exterior bem iluminada
da zona empresarial.
Camisola azul-turquesa. Rabo de cavalo.
Grita o nome da filha, mas ela não se vira para trás. Corre então a toda a
velocidade, como nunca correu na vida, a gritar o nome dela entre golfadas
de ar, mesmo ao pensar…
Algo disto é real? Quantas vezes fantasiou sobre este momento? Ter a
oportunidade de impedir a morte dela…
— Meghan!
Ela está agora a quarenta e cinco metros de distância, o suficiente para
perceber que a filha vai falando ao telemóvel, sem saber o que está para
acontecer.
Ouve o chiar de pneus algures nas suas costas. Olha de relance para trás,
para os faróis que se aproximam a alta velocidade, e ouve o rugido deum
motor em alta rotação. O restaurante onde Meghan nunca chegou a entrar
surge ao longe, do outro lado da rua, e ela dá um passo para atravessar.
— Meghan! Meghan! Meghan!
Ela detém-se a um metro do passeio e olha na direção de Barry, o
telemóvel ainda junto ao ouvido. Ele encontra-se suficientemente perto para
se aperceber da estupefação na cara dela, o ruído do carro a aproximar-se
mesmo atrás dele.
Um Mustang preto passa como uma flecha pelo meio da rua,
ziguezagueando por cima da linha central.
Depois desaparece.
Meghan ainda está na berma da estrada.
Barry aproxima-se da filha, ofegante, uma ardência nas pernas por causa
do sprint de oitocentos metros.
Ela baixa o telemóvel.
— Pai? O que estás a fazer?
Ele olha para um lado e para o outro. Apenas eles os dois estão debaixo
da luz amarela de um candeeiro, não há carros a circular, e o silêncio
permite ouvir o roçagar das folhas no pavimento.
Teria sido aquele Mustang o carro que a atropelou há oito anos, na noite
que é também — e de todo possível — esta noite? Terá ele acabado de
impedir que isto acontecesse?
— Estás descalço — diz Meghan.
Ele abraça-a furiosamente, ainda ofegante, e começa a soluçar sem se
conter. É mais do que pode suportar. O cheiro dela, a sua voz, a mera
presença da filha.
— O que aconteceu? — pergunta Meghan. — O que estás aqui a fazer?
Porque estás a chorar?
— Aquele carro… Ter-te-ia…
— Caramba, pai, eu estou bem.
Se isto não é real, é a maior crueldade que alguém lhe poderia fazer,
porque não parece ser uma qualquer experiência de realidade virtual ou lá o
que seja que aquele homem o tenha feito passar. Isto parece real. Isto é a
vida. Uma pessoa não pode regressar disto.
Barry olha para ela, toca-lhe na cara, vital e perfeita sob a luz
do candeeiro.
— És real? — pergunta.
— Estás bêbedo? — atalha ela.
— Não, eu estava…
— O quê?
— Estava preocupado contigo.
— Porquê?
— Porque… porque é isso que os pais fazem. Preocupam-se com as
filhas.
— Pois, aqui estou eu. — Brinda-o com um sorriso um tanto
constrangido, sem dúvida, e com motivos para tal, pondo em causa a
sanidade mental do pai neste momento. — Sã e salva.
Ele pensa na noite em que a encontrou, perto do sítio onde estão agora.
Há uma hora que estivera a telefonar-lhe e o telemóvel dela tocara sempre
até a chamada ser encaminhada para as mensagens de voz. Fora ao
caminhar por esta rua que ele vira o ecrã partido do telemóvel dela a
acender no local onde ficara caído no meio da rua. E depois encontrara o
corpo dela, destroçado e esparramado nas trevas do outro lado do passeio;
os ferimentos deixavam adivinhar que fora projetada por uma longa
distância depois de ser atropelada a alta velocidade.
É uma memória que nunca esquecerá, mas que agora está envolta numa
qualidade parda e desbotada, tal como a falsa memória que o atormentou
naquele restaurante em Montauk. Terá de algum modo mudado o que
aconteceu? Não é possível.
Meghan levanta a cabeça e fita-o por um longo momento. Já não está
zangada. Afável. Preocupada. Ele está sempre a limpar os olhos, fazendo
um esforço para não chorar, e ela parece em simultâneo assustada e
comovida.
— Não faz mal se chorares — diz ela. — O pai da Sarah chora por tudo e
por nada.
— Estou muito orgulhoso de ti.
— Eu sei. — E depois: — Pai, os meus amigos estão à minha espera.
— Está bem.
— Mas vemo-nos mais tarde? — pergunta ela.
— Com certeza.
— Vamos ao cinema este fim de semana, como combinámos? A nossa
saída juntos?
— Sim, claro. — Ele não quer que ela vá. Era capaz de a abraçar durante
uma semana inteira e não seria o suficiente. Mas diz: — Por favor, tem
cuidado esta noite.
Ela vira-lhe as costas e continua a caminhar pela rua. Ele chama o nome
dela. Ela vira-se para trás.
— Amo-te, Meghan.
— Também te amo, pai.
E ele fica ali a tremer e a tentar perceber o que acabou de acontecer,
vendo-a afastar-se dele e depois atravessar a rua, e depois entrar no Dairy
Queen, onde se junta aos amigos numa mesa à janela.
Ouve os passos de alguém que se aproxima nas suas costas.
Barry vira-se para trás, vê um homem de preto caminhar na direção dele.
Mesmo ao longe, parece-lhe vagamente familiar e, quando este está mais
perto, reconhece-o. É o homem do restaurante, Vince, que o levou até ao
quarto depois de o drogarem no bar do hotel. O fulano da tatuagem no
pescoço, só que agora já não a tem. Ou ainda não. Neste momento, tem a
cabeça cheia de cabelo e está mais magro. E parece dez anos mais novo.
Barry recua por instinto, mas Vince levanta as mãos num sinal de quem
vem em paz.
Encaram-se no passeio deserto debaixo do candeeiro.
— O que me está a acontecer? — pergunta Barry.
— Sei que está confuso e desorientado, mas isso passa. Estou aqui para
cumprir a última cláusula do meu contrato de emprego. Já está a acontecer?
— A acontecer o quê?
— O que o meu patrão fez por si.
— Isto é real?
— É real.
— Como pode ser?
— Você está com a sua filha outra vez e ela encontra-se viva. Isso
importa? Não voltará a ver-me depois desta noite, mas tenho de lhe dizer
uma coisa. Há regras basilares, e são simples. Não tente enganar o sistema
com aquilo que sabe do que está para acontecer. Apenas viva a sua vida
outra vez. Viva-a um pouco melhor e não diga a ninguém. Nem à sua
mulher, nem à sua filha. A ninguém.
— E se eu quiser voltar ao que era?
— A tecnologia que o trouxe aqui ainda não foi inventada.
Vince dá meia-volta para se ir embora.
— Como lhe posso agradecer por isto? — pergunta Barry, os olhos outra
vez alagados de lágrimas.
— Neste preciso instante, em 2018, ele está a observá-lo e à sua família.
Esperemos que esteja a ver que o senhor tirou o melhor partido desta
oportunidade. Que é feliz, que a sua filha está bem e, mais importante, que
manteve a boca fechada e cumpriu as regras que acabei de lhe explicar. É
assim que lhe pode agradecer.
— Como assim? «Neste preciso instante, em 2018»?
O homem encolhe os ombros.
— O tempo é uma ilusão, uma idealização formada por memórias
humanas. O passado, o presente ou o futuro não existem. Está tudo
a acontecer agora.
Barry tenta racionalizar as palavras, mas é demasiado para processar.
— Você também voltou ao passado, foi?
— Um pouco mais do que o senhor. Já estou a reviver a minha vida há
três anos.
— Porquê?
— Fiz asneira quando era bófia. Meti-me nuns negócios com as pessoas
erradas. Agora, sou proprietário de uma loja de artigos de pesca e a vida é
bela. Boa sorte com a sua segunda oportunidade.
Vince dá meia-volta e desparece na noite.
«Temos mais saudades dos sítios que nunca conhecemos.»
CARSON MCCULLERS
HELENA
20 de junho de 2009
Dia 598
Helena está sentada no sofá do seu apartamento, tentando compreender a
magnitude dos últimos trinta minutos da sua vida. A reação instintiva é que
tal não pode ser verdade, que é algum truque ou uma ilusão. Porém, está
constantemente a ver a tatuagem acabada com a palavra Miranda no ombro
do heroinómano; a tatuagem incompleta no vídeo que Slade acabou de lhe
mostrar. E sabe que, de algum modo, apesar de ter uma memória vívida e
detalhada da experiência realizada naquela manhã —até ao momento em
que atirou uma cadeira contra o vidro—, nada disso aconteceu. Existe numa
ramificação morta da memória na estrutura neuronal do seu cérebro. A
única coisa comparável é a lembrança de um sonho muito pormenorizado.
—Diga-me no que está a pensar neste instante— pede Slade.
Ela fita-o.
—Será que este procedimento, morrer no tanque de privação sensorial
consoante se procede à reativação de uma memória, pode mesmo alterar o
passado?
—O passado não existe.
—Isso é de loucos.
—O quê? Você pode ter as suas teorias, mas eu não posso ter as minhas?
—Explique-se.
—Você mesma disse. O «agora» é apenas uma ilusão, um acidente
de como o nosso cérebro processa a realidade.
—Isso não passa de… filosofia barata.
—Os nossos antepassados viveram no mar. Devido à diferença do modo
como a luz viaja pela água e pelo ar, o seu volume sensorial, a região na
qual podiam procurar presas, era limitado ao seu volume motor, a região a
que elespodiam deveras chegar e interagir. O que acha que poderia resultar
daí?
Ela pondera a pergunta.
—Só podiam reagir a estímulos imediatos.
—Muito bem. Agora, o que acha que aconteceu quando esses peixes por
fim rastejaram para fora do mar há quatrocentos milhões de anos?
—O seu volume sensorial aumentou, já que a luz viaja mais depressa no
ar do que na água do mar.
—Alguns biólogos evolucionistas acreditam que esta disparidade em
terra entre o volume motor e sensorial abriu caminho para a evolução da
consciência. Se podemos antever o futuro, então podemos pensar no futuro,
podemos planear. E então podemos visionar o futuro, mesmo que este não
exista.
—Aonde quer chegar?
—Que a consciência resulta do ambiente. Aquilo que conhecemos, a
nossa noção de realidade, é moldado por aquilo que percecionamos, pelas
limitações dos nossos sentidos. Pensamos que estamos a ver o mundo como
ele realmente é, mas a Helena, mais do que qualquer outra pessoa, sabe que
são tudo sombras na parede da caverna. Estamos simplesmente tão cegos
como os nossos antepassados aquáticos, as fronteiras do nosso cérebro não
passam de um acidente da evolução. E, tal como eles, por definição, não
conseguimos ver aquilo que estamos a perder. Pelo menos até agora.
Helena recorda o sorriso misterioso de Slade naquela noite no
restaurante, há tantos meses.
—Levantar o véu da perceção— diz ela.
—Nem mais. Para um ser bidimensional, viajar por uma terceira
dimensão não seria apenas impossível, seria uma coisa que não conseguiria
conceber. Tal como o nosso cérebro fica aquém nesta situação. Imagine que
conseguia ver o mundo pelos olhos de seres mais evoluídos… em quatro
dimensões. Poderia experienciar eventos na sua vida por qualquer ordem.
Reviver qualquer memória que desejasse.
—Mas isso é… ridículo. E viola a causa e o efeito.
Slade brinda-a outra vez com aquele sorriso de superioridade. Ainda vai
um passo à frente.
—Receio que a física quântica esteja do meu lado neste ponto. Nós já
sabemos que, ao nível das partículas, a seta do tempo não é tão simples
como os hu manos pensam.
—Está mesmo convencido de que o tempo é uma ilusão?
—Mais do género de a nossa perceção em relação ao tempo ser tão
imperfeita que é como se fosse uma ilusão. Todos os momentos são
igualmente reais e estão a acontecer agora, mas a natureza da nossa
consciência só nos permite o acesso a uma fatia de cada vez. Pense na sua
vida como num livro. Cada página é um momento diferente. Mas da mesma
maneira que lemos um livro, apenas podemos percecionar um momento,
uma página, de cada vez. A nossa perceção imperfeita impede o acesso a
todos os outros. Até agora.
—Mas como?
—Certa vez, disse-me que a memória é o nosso único acesso verdadeiro
à realidade. Eu acho que tinha razão. Qualquer outro momento, uma
memória antiga, é simplesmente tão agora como estas palavras que estou a
dizer, tão acessível como caminhar até à sala ao lado. Apenas precisamos de
uma maneira de convencer o nosso cérebro disso, de fazer um curto-circuito
às nossas limitações evolucionárias e expandir a consciência além do nosso
volume sensorial.
Helena sente a cabeça andar à roda.
— Você sabia? — pergunta.
—Sabia o quê?
—Aquilo em que realmente estávamos a trabalhar desde o início. Que era
muito mais do que imersão na memória.
Slade prega os olhos no chão, depois levanta outra vez a cabeça.
—Respeito-a demasiado para lhe mentir.
—Portanto… sim.
—Antes de irmos à parte daquilo que eu fiz, podemos apenas dedicar um
momento a apreciar aquilo que a Helena conseguiu? É agora a maior
cientista e inventora que alguma vez existiu. É responsável pela descoberta
mais impor tante no nosso tempo. De qualquer tempo.
—E a mais perigosa.
—Nas mãos erradas, certamente.
—Meu Deus, que arrogância. Em quaisquer mãos. Como sabia o que a
cadeira seria capaz de fazer?
Slade pousa o champanhe na mesinha de apoio, põe-se de pé e vai até à
janela. A várias milhas de distância, sobre o mar, nuvens gigantescas de
tempestade aproximam-se da plataforma.
—Da primeira vez que nos encontrámos —diz ele—, você chefiava um
grupo de investigação e desenvolvimento em São Francisco chamado Ion.
—Como assim, «a primeira vez»? Eu nunca trabalhei…
—Deixe-me acabar. Contratou-me como assistente de investigação. Eu
redigia relatórios baseados naquilo que a Helena ditava, procurava artigos
que você queria ler. Organizava a sua agenda e viagens. Mantinha o seu
café quente e o seu gabinete limpo. Ou, no mínimo, transitável. —Brinda-a
com um sorriso fugazmente nostálgico. —Creio que o nome oficial do meu
cargo era «escravo de laboratório». Mas a Helena foi boa para mim. Fez
com que me sentisse integrado na investigação, como se eu fizesse mesmo
parte da sua equipa. Antes de nos conhecermos, eu tinha um problema com
drogas. É possível que me tenha salvado a vida.
» A Helena criou um fantástico microscópio MEG e uma decente rede de
estimulação eletromagnética. Dispunha de processadores quânticos muito
superiores aos que estamos a utilizar aqui, pois a tecnologia Qbit estava
muito mais evoluída. Tinha descoberto o tanque de privação sensorial e
como tornar o dispositivo de reativação operacional no seu interior, mas
isso não lhe bastava. A sua teoria sempre fora de que o tanque colocaria
uma cobaia num estado de privação sensorial tão intenso, que quando
estimulássemos as coordenadas neurais para uma memória, a experiência
escalaria para um evento transcendental e completamente imersivo.
—Espere! Isso foi quando?
—No friso cronológico original.
Demora algum tempo até perceber a magnitude do que ele está a dizer.
—Eu estava a tentar criar a minha aplicação da cápsula do tempo
de Alzheimer? — quer saber.
—Não creio. A Ion estava mais interessada em criar a aplicação de
entretenimento da cadeira, e era nisso que estávamos a trabalhar. Porém,
muito à semelhança do que descobrimos aqui, tudo o que se podia fazer era
proporcionar a alguém uma experiência um pouco mais vívida de uma
memória, sem que esse alguém tivesse de a obter por si. Investiram dezenas
de milhões de dólares, e essa tecnologia em que baseara a sua carreira não
estava a materializar-se. — Slade vira as costas à janela e olha para ela. —
Até ao dia 2 de novembro de 2018.
— O ano 2018?
— Sim.
— Quer dizer… nove anos no futuro?
—Isso mesmo. Nessa manhã, aconteceu uma coisa trágica, acidental e
extraordinária. A Helena estava a realizar uma reativação de memória num
novo sujeito de teste chamado Jon Jordan. O evento de obtenção era um
acidente rodoviário em que ele perdera a mulher. Estava tudo a correr sobre
rodas, até que o sujeito entrou em paragem cardiorrespiratória no interior do
tanque de privação sensorial. Enquanto a equipa médica se apressava para o
tirar de lá, aconteceu uma coisa extraordinária. Antes de conseguirem abrir
o tanque, as pessoas presentes no laboratório encontravam-se, de súbito,
numa posição ligeiramente diferente. Todos se queixavam de hemorragias
nasais, alguns de terríveis cefaleias, e em vez de ser o Jon Jordan a
encontrar-se no tanque, a experiência estava a ser feita a um fulano
chamado Michael Dillman. Aconteceu tudo num abrir e fechar de olhos,
como se alguém tivesse ativado um interruptor.
» Ninguém percebeu o que tinha acontecido. Não tínhamos registo de o
Jordan alguma vez ter estado no nosso laboratório. Ficámos aturdidos,
tentando perceber o que acontecera. Chame-lhe curiosidade insensata, mas
eu não consegui esquecer aquilo. Tentei localizar o Jordan, para saber o que
lhe acontecera, para onde tinha ido, e aconteceu uma coisa muito
estranha… Sabe a memória do acidente rodoviário que estávamos a
reativar? Acontece que ele morreu nesse acidente com a mulher, quinze
anos antes.
A chuva começa a bater no vidro com um tamborilar quase impercetível
no interior do apartamento de Helena.
Slade senta-se outra vez no pousa-pés.
—Acho que fui o primeiro a perceber o que acontecera, a compreender
que, de algum modo, a senhora enviara a consciência do Jon Jordan de volta
para uma memória. É claro que nunca saberemos, masa minha conjetura é
que a desorientação de voltar à sua versão mais jovem alterou o desfecho do
acidente, provocando a morte dele e da mulher.
Helena levanta o olhar do fragmento de alcatifa que tem estado a fitar
desde que começou a enfrentar o horror desta revelação.
—O que foi que fez, Marcus?
—Eu tinha quarenta e seis anos e era um toxicodependente. Esbanjara o
meu tempo. Tinha medo de que a senhora destruísse a cadeira caso
percebesse aquilo de que ela era capaz.
—O que foi que fez?
—Três dias mais tarde, na noite de 5 de novembro de 2018, fui ao
laboratório e recarreguei uma das minhas memórias nos estimuladores.
Depois, meti-me no tanque e injetei uma dose letal de cloreto de potássio na
corrente sanguínea. Bem… ardeu como tudo nas minhas veias! A dor mais
forte que alguma vez senti. O meu coração parou, e quando a DMT fez
efeito, a minha consciência recuou até uma memória que eu criara quando
tinha vinte anos. E isso foi o início de um novo friso cronológico que
emanou do original, em 1992.
—Para o mundo inteiro?
—Ao que parece, sim.
—E é esse que estamos a viver?
—Sim.
—O que aconteceu ao original?
—Não sei. Quando penso nisso, essas memórias são obscuras
e ensombradas. É como se toda a vida lhe tivesse sido sugada.
—Então, ainda se lembra do friso cronológico original, quando era o meu
assistente de laboratório e tinha quarenta e seis anos?
—Sim. Essas memórias acompanharam-me.
—Porque é que eu não as tenho?
—Pense na experiência que acabámos de realizar. Nós os dois não
tínhamos qualquer memória dela até ao preciso momento em que o Reed
morreu no tanque e viajámos de volta até à sua memória da tatuagem. Só
então é que as suas memórias e a consciência desse friso cronológico
anterior, quando tentou atirar uma cadeira contra o vidro, deslizaram para
este.
—Quer dizer que, dentro de nove anos, na noite de 5 de novembro de
2018, irei lembrar-me dessa outra vida?
—Creio que sim. A sua consciência e as memórias desse friso
cronológico original fundir-se-ão neste. Terá dois conjuntos de memórias:
um vivo, um morto.
A chuva está a formar uma cortina de água no vidro, desfocando
o mundo do lado de fora.
—Precisava que eu criasse a cadeira uma segunda vez— diz Helena.
—É verdade.
—E com aquilo que sabia sobre o futuro, construiu um império neste
friso cronológico e atraiu-me com a promessa de um financiamento
ilimitado assim que fiz as primeiras descobertas em Stanford.
Ele assente com a cabeça.
—Para ter o controlo absoluto da criação da cadeira e do modo como é
utilizada. —Ele fica em silêncio. —Basicamente, tem andado a perseguir-
me desde que iniciou este segundo friso cronológico.
—Creio que a palavra «perseguir» é um pouco exagerada.
—Desculpe, mas estamos numa plataforma petrolífera desmantelada no
meio do Pacífico que o senhor construiu só para mim, ou escapou-me
algum pormenor?
Slade levanta o copo de champanhe e bebe o resto de um trago.
—Roubou-me essa outra vida.
—Helena…
—Eu era casada? Tinha filhos?
—Quer mesmo saber? Isso não importa agora. Nunca aconteceu.
—Você é um monstro.
Ela levanta-se, vai até à janela e olha pelo vidro para um milhar de tons
de cinzento— o mar perto e o mar longe, camadas de nuvens estratificadas,
uma borrasca a aproximar-se. Ao longo do último ano, este apartamento
pareceu-se, em crescendo, com uma prisão, mas nunca tanto como agora.
Então, enquanto lágrimas escaldantes e furiosas lhe escorrem pela cara,
ocorre-lhe que foi a sua própria ambição autodestrutiva que a trouxe a este
momento e, provavelmente, ao de 2018.
A retrospeção também está a ter um efeito esclarecedor no
comportamento de Slade, especialmente no que diz respeito ao seu ultimato
de há vários meses para que começassem a matar cobaias para reforçar a
experiência de reativação da memória. Nesse momento, ela pensara que era
uma imprudência da parte dele. Provocara uma saída em massa de quase
todos os colaboradores que estavam na plataforma. Helena entende-o agora
como aquilo que deveras foi: meti culosamente calculado. Ele sabia que
estavam quase a conseguir e pretendia apenas uma equipa reduzida para
testemunhar a verdadeira função da cadeira. Pensando bem nisso, nem
sequer tem a certeza de os seus colegas terem chegado a terra.
Até ao momento, suspeitara que a sua vida poderia estar em perigo.
Agora, tem a certeza.
—Fale comigo, Helena. Não se retraia outra vez.
A sua resposta à revelação de Slade irá provavelmente determinar o que
ele vai decidir fazer com ela.
—Estou zangada— diz.
—É justo. Eu também estaria.
Antes deste momento, ela partira do princípio de que Slade possuía um
intelecto imenso, que era um mestre a manipular pessoas, tal como todos os
líderes da indústria costumam ser. Talvez isso continue a ser verdade, mas a
maior parte do seu sucesso e da sua fortuna deve-se ao conhecimento que
tem sobre eventos do futuro. E ao intelecto dela.
A invenção da cadeira não pode significar apenas dinheiro para ele. Ele
já tem mais dinheiro, fama e poder do que Deus.
—Agora que tem a sua cadeira —diz ela—, que planos tem para ela?
—Ainda não sei. Estava a pensar que poderíamos decidir isso juntos.
Tretas. Já sabes. Tiveste vinte e seis anos até chegar a este momento
para decidir.
—Ajude-me a otimizar a cadeira— diz ele. —Ajude-me a testá-la em
segurança. Não pude dizer-lhe o que pretendia fazer da primeira vez, nem
mesmo da segunda quando lhe fiz esta pergunta, mas agora sabe a verdade,
por isso estou a perguntar-lhe uma terceira vez, e espero que a resposta seja
positiva.
—Qual é a pergunta?
Ele aproxima-se e pega-lhe nas mãos, tão perto agora que ela consegue
sentir o cheiro do champanhe no bafo dele.
—Helena, quer mudar o mundo comigo?
BARRY
25-26 de outubro de 2007
Barry entra em casa e fecha a porta, parando outra vez em frente ao
espelho ao lado do bengaleiro para ver o reflexo da sua versão mais jovem.
Isto não é real.
Não pode ser real.
Julia, no quarto, está a chamá-lo. Ele passa pela televisão, onde ainda
está a ser transmitida a World Series, e caminha pelo corredor, o chão a
ranger debaixo dos seus pés descalços em todos os lugares familiares. Passa
pelo quarto de Meghan e depois por uma divisão que faz de quarto de
hóspedes e de escritório, até que chega à porta do quarto do casal.
A sua ex-mulher está sentada na cama com um livro aberto sobre as
pernas e uma chávena de chá a libertar vapor em cima da mesa de
cabeceira.
— Saíste? — pergunta.
Está tão diferente.
— Saí.
— Onde está a Meghan?
— Foi ao Dairy Queen.
— Amanhã é dia de aulas.
— Ela chega a casa às dez e meia.
— Sabia bem a quem havia de pedir, não é verdade?
Julia sorri e dá umas palmadinhas na colcha ao seu lado; Barry entra no
quarto, passando os olhos pelas fotografias do casamento, uma fotografia a
preto-e-branco de Julia com Meghan ao colo na noite em que nasceu e, por
fim, por cima da cama, por uma reprodução do quadro A Noite Estrelada de
Van Gogh, que compraram no MoMA há dez anos, depois de verem o
original. Ele sobe para a cama e senta-se ao lado de Julia, encostado à
cabeceira. De perto, ela parece obra de um aerógrafo, a pele lisa,
evidenciando apenas uma sugestão das rugas que ele notou durante o
brunch há dois dias.
—Porque não estás a ver o jogo? — pergunta ela. A última vez que se
sentaram nesta cama juntos fora na noite em que ela o deixara. Olhara para
os olhos dele e dissera: «Desculpa, mas não te consigo dissociar de toda
esta dor.» – Querido. O que se passa? Até parece que morreu alguém.
Há quanto tempo não a ouvia tratá-lo por querido, e não, não lhe parece
que morreu alguém. Ele sente… uma forte sensação de desorientação e
desligamento. Como se o seu próprio corpo fosse um avatar a cujas
funcionalidades ainda está a tentar adaptar-se.
—Está tudo bem.
—Uau, queres tentar outra vez, mas agora de uma maneira mais
convincente?
Será possível que a perda que tem carregado desde a morte de Meghan
esteja a escorrer da sua alma através dos olhos e para este momento
impossível? Que, em alguma frequência mais baixa, Julia pressinta essa
mudança nele?Porque a ausência da tragédia está a ter um efeito
inversamente proporcional sobre aquilo que vê quando olha para os olhos
dela. Deixam-no abismado. Vivos, presentes e límpidos. Os olhos da
mulher por quem se apaixonou. E atinge-o outra vez— o funesto poder da
mágoa.
Julia passa-lhe os dedos pela nuca, o que o faz estremecer e o deixa todo
arrepiado. Há uma década que a mulher não lhe toca.
—O que foi? Aconteceu alguma coisa no trabalho?
Tecnicamente, o seu último dia de trabalho incluiu a sua morte num
tanque de privação sensorial e a passagem para o que quer que seja isto, por
isso…
—Sim, de facto.
A experiência sensorial é o que está a dar cabo dele. O cheiro do seu
quarto. A suavidade das mãos de Julia. Todas as coisas que esquecera. Tudo
aquilo que perdera.
—Queres falar sobre isso? — pergunta ela.
—Importas-te que fique só aqui deitado enquanto tu lês?
—Claro que não.
Barry pousa então a cabeça no colo da mulher. Imaginou isto milhares de
vezes, geralmente às três da madrugada, deitado na cama do seu
apartamento em Washington Heights, apanhado naquela aborrecida
transição da embriaguez para a ressaca, pensando…
E se a sua filha não tivesse morrido? E se o seu casamento tivesse
resistido? E se tudo não tivesse saído dos eixos? E se…
Isto não é real.
Não pode ser real.
O único barulho no quarto é o suave folhear das páginas do livro de Julia
mais ou menos a cada minuto. Ele tem os olhos fechados, está apenas a
respirar, e, quando ela passa os dedos pelo cabelo dele como costumava
fazer, ele vira-se de lado para esconder as lágrimas.
Por dentro, é uma pilha trémula de protoplasma e faz um esforço
hercúleo para manter a compostura mental. A emoção é desconcertante,
mas Julia parece não reparar na meia dúzia de vezes que as costas dele se
elevam com um soluço mal contido.
Ele acabou de reencontrar a filha que morreu.
Ele viu-a, ouviu a voz dela, abraçou-a.
Agora, sem saber como, está de volta ao seu antigo quarto na companhia
de Julia, e não se sente capaz de o assimilar.
Um pensamento aterrador chega sem se fazer anunciar: E se isto for
apenas um surto psicótico?
E se tudo isto desaparecer?
E se eu voltar a perder a Meghan?
Entra em hiperventilação…
E se…
—Barry, sentes-te bem?
Não penses mais.
Respira.
—Sinto.
Respira apenas.
—De certeza?
—Sim.
Dorme.
Não sonhes.
E vê se tudo isto ainda existe pela manhã.
Desperta cedo com a luz que entra pelas persianas. Dá por si deitado ao
lado de Julia, ainda com a mesma roupa da noite anterior. Levanta-se da
cama sem a incomodar e vai pé ante pé até ao quarto de Meghan. A porta
está fechada. Abre uma frincha e espreita para dentro. A filha está a dormir
debaixo de um monte de cobertores e, a esta hora, reina na casa um tal
silêncio que até é possível ouvi-la respirar.
Ela está viva. Está em segurança. Está mesmo ali.
Ele e Julia deveriam estar num estado de pesar e choque, acabando de
chegar a casa depois de passarem a noite na morgue. Nunca esqueceu a
imagem do cadáver de Meghan na marquesa —o tronco esmagado e
coberto de hematomas—, mas esta memória assumiu o mesmo cariz
ensombrado das outras memórias falsas.
Mas ali está ela, e aqui está ele, sentindo-se mais em casa neste corpo a
cada segundo que passa. Aquela linha de memórias claras da sua outra vida
está a recuar, como se tivesse despertado do mais longo e mais aterrador
pesadelo. Um pesadelo de onze anos.
Foi precisamente isso que aconteceu, pensa, um pesadelo. Porque isto
parece-se cada vez mais com a sua realidade atual.
Entra no quarto de Meghan e fica de pé ao lado da cama dela a vê-la
dormir. Assistir à formação do Universo não poderia enchê-lo de um
sentimento mais profundo de pasmo, felicidade e uma avassaladora gratidão
por qualquer que tenha sido a força que reconstruiu o seu mundo e o de
Meghan.
Porém, um terror glacial assombra-o perante a ideia de isto poder ser uma
alucinação.
Um fragmento de perfeição inexplicável à espera de lhe ser furtado.
Deambula pela casa como um espectro de uma vida passada,
redescobrindo lugares e objetos quase perdidos na sua memória. A alcova
na sala de estar onde, todos os invernos, montavam o pinheiro. A pequena
mesa junto à entrada onde ele guardava os seus objetos pessoais. A chávena
de café que era a sua preferida. A escrivaninha com tampo de correr no
quarto de hóspedes onde tratava das despesas de casa. A cadeira na sala de
estar onde, todos os domingos, lia o Washington Post e o New York Times
de uma ponta à outra.
É um museu de memórias.
Tem o coração a bater mais depressa do que o normal, ao mesmo ritmo
que o latejar que sente atrás dos olhos. Apetece-lhe um cigarro. Não
psicologicamente —conseguiu finalmente abandonar o vício, há cinco anos,
depois de várias tentativas fracassadas—, mas, ao que parece, o seu
organismo de trinta e nove anos necessita fisicamente de uma bomba de
nicotina.
Vai à cozinha e enche um copo com água da torneira. Fica de pé diante
do lava-loiça a ver a luz da manhã dar vida ao jardim das traseiras com
pinceladas de cor.
Abre o armário do lado direito do lava-loiça e tira de lá o café que
costumava beber. Prepara uma cafeteira e depois mete na máquina de lavar
toda a loiça do dia anterior que consegue, posto o que se dispõe a realizar a
tarefa que lhe coube durante o resto do seu casamento— lavar à mão a loiça
que sobra.
Quando termina a tarefa, ainda sente o apelo dos cigarros. Vai até à mesa
que há à beira da porta da frente, pega no maço de Camel e atira-o para o
caixote do lixo lá fora. Depois, senta-se no alpendre a beber o seu café no
fresco da manhã, com a esperança de desanuviar e interrogando-se se o
homem responsável por o mandar para aqui estará a observá-lo neste
preciso momento. Quiçá desde algum plano de existência superior? Algures
para lá do tempo? O receio volta. Será que, de repente, o irão arrancar deste
momento e lançá-lo para a sua vida antiga? Ou isto é permanente?
Faz um esforço para conter o pânico crescente. Diz com os seus botões
que não imaginou a SFM e o futuro. Isto é demasiado complexo, mesmo
para a sua mente de detetive, para ter sido um sonho.
Isto é real.
Isto está a acontecer.
Isto é a realidade.
Meghan está viva e nada voltará a levá-la de junto dele.
E diz em voz alta, como se fosse uma oração: «Se me consegues ouvir
agora, por favor, não me roubes isto. Farei qualquer coisa.»
Não há resposta no silêncio da madrugada.
Sorve mais um pouco de café e fica a ver a luz do Sol esgueirar-se pelo
meio dos ramos do carvalho, estendendo-se sobre a relva gelada, que
começa a libertar vapor.
HELENA
5 de julho de 2009
Dia 613
Quando vai a descer a escadaria para o terceiro piso da superstru tura, está
a pensar nos pais, sobretudo na mãe.
Na noite passada, sonhou com a voz da mãe.
O subtil timbre nasalado do Oeste.
A suavidade melodiosa.
As duas sentadas num campo adjacente à velha casa onde cresceu. É um
dia de outono. O ar estava fresco e todas as coisas banhadas pela luz
dourada do fim de tarde, conforme o Sol se escondia por trás das
montanhas. Dorothy era jovem, os cabelos ainda castanho -avermelhados,
esvoaçando ao vento. Apesar de não mexer os lábios, a sua voz ouvia-se
clara e forte. Helena não se lembra de uma palavra do que disse, apenas de
sentir a voz da mãe invocada no seu âmago— um amor puro e
incondicional associado a uma ferroada de uma forte nostalgia que lhe fez
doer o coração.
Está ansiosa por falar com eles, mas desde a revelação de há duas
semanas de que ela e Slade tinham construído uma coisa muito mais
poderosa do que um dispositivo de imersão na memória, não se sente à
vontade para abordar o assunto de voltar a comunicar com a mãe e o pai.
Fá-lo-á quando for o momento certo, mas para já ainda é tudo muito
recente.
Ela está com dificuldade em saber o que pensar da sua invenção
acidental, de como Slade a manipulou e daquilo que o futuro lhe reserva.
Mas voltou a trabalhar no laboratório.
A praticar desporto.
A fazer de conta que está tudo bem.
A tentar ser útil.
Quando passa da escadaria para o laboratório, uma enxurrada deadrenalina varre-lhe o sistema. Hoje, irão realizar o teste número nove em
Reed King. Ela voltará a experienciar a realidade a mudar debaixo dos seus
pés e não pode negar que se sente entusiasmada.
Quando se aproxima do compartimento de teste, Slade vem a dobrar a
esquina.
—Bom dia— diz ela.
—Venha comigo.
—O que se passa?
—Mudança de planos.
Com um ar tenso e perturbado, Slade leva-a até uma sala de reuniões e
fecha a porta. Reed já está sentado à mesa com umas calças de ganga
rasgadas e uma camisola de malha, as mãos à volta de uma chávena de chá
fumegante. Parece que o tempo que tem passado na plataforma o fez
engordar e perder aquele aspeto encovado habitual nos toxicodependentes.
—A experiência foi cancelada — diz Slade, ocupando o lugar à cabeceira
da mesa.
—Era suposto eu receber cinquenta mil por esta — diz Reed.
—Receberá o seu dinheiro na mesma. A questão é que já realizámos a
experiência.
—Está a falar de quê? — pergunta Helena.
Slade consulta o relógio.
—Realizámos a experiência há cinco minutos. — Olha para Reed. —
Você morreu.
—Não é isso que é suposto acontecer? — pergunta Reed.
—Você morreu no tanque, mas não ocorreu uma mudança da realidade
— explica Slade. —Na verdade, simplesmente morreu.
—Como sabe essas coisas? — quer saber Helena.
—Depois de o Reed morrer, sentei-me na cadeira e evoquei a memória de
me ter cortado ao barbear-me esta manhã. —Slade levanta a cabeça e toca
num corte feio ao longo do pescoço. — Retirámos o Reed do tanque.
Depois fui eu que entrei, morri, e regressei ao momento em que me barbeei
para poder vir cá abaixo impedir a realização da experiência.
—E porque é que não funcionou? — pergunta ela. — Será que o número
de sinapses não era suficientemente elevado ou…
—O número de sinapses era perfeito.
—Qual era a memória?
—Há quinze dias, 20 de junho. A primeira vez que o Reed entrou para o
tanque com a tatuagem completa a dizer «Miranda» no braço.
É como se houvesse uma detonação no cérebro de Helena.
—Claro que morreu— diz ela. —Isso não era uma memória real.
—O que quer dizer?
—Essa versão dos acontecimentos nunca aconteceu. O Reed nunca fez
uma tatuagem. Ele mudou essa memória quando morreu no tanque. —Olha
então para Reed, começando a juntar as peças do puzzle. —O que significa
que não havia nada para onde pudesse voltar.
—Mas eu lembro-me— diz Reed.
—Como se parece na sua inteleção? — pergunta ela. —Escura? Estática?
Tons de cinzento?
—Como se o tempo tivesse parado.
—Então, não é uma memória verdadeira. É… Não sei o que lhe chamar.
Fictícia. Falsa.
—Morta— diz Slade, voltando a consultar as horas.
—Então… não se tratou de um acidente. —Fulmina Slade com o olhar
por cima da mesa. —Você sabia.
—As memórias mortas fascinam-me.
—Porquê?
—Representam… outra dimensão de movimento.
—Não sei que porra é que isso significa, mas ontem nós concordámos
que não tentaria mapear uma…
—Todas as vezes que o Reed morre no tanque, deixa uma cadeia de
memórias órfãs que se tornam mortas na nossa mente depois de mudarmos.
Mas o que deveras acontece a esses frisos cronológicos? Foram de facto
destruídos ou continuam a existir algures, fora do nosso alcance? – Slade
consulta o relógio outra vez. —Eu lembro-me de tudo da experiência que
efetuámos esta manhã e vocês os dois irão receber essas memórias mortas a
qualquer instante.
Ficam sentados em silêncio, um frio glacial envolve Helena.
Estamos a brincar com merdas que não é suposto brincar.
Sente a dor aparecer por trás dos olhos. Estica o braço e pega em alguns
lenços de papel para estancar a hemorragia nasal.
A memória morta do teste fracassado surge como uma detonação.
Reed a entrar em paragem cardiorrespiratória no tanque.
Morto durante cinco minutos.
Dez minutos.
Quinze.
Ela a gritar para Slade fazer alguma coisa.
A correr para o compartimento de teste e a escancarar a escotilha
do tanque de privação sensorial.
Reed a boiar em paz lá dentro.
Completamente imóvel.
A tirá-lo de lá com a ajuda de Slade e a pousá-lo, todo molhado,
no chão.
A efetuar reanimação cardiopulmonar enquanto o Dr. Wilson diz pelo
intercomunicador: «Não adianta, Helena. Já se foi há muito.»
Continuar apesar disso, o suor a escorrer para os olhos enquanto Slade
desaparece no corredor e vai para a sala onde está a cadeira.
Ela já desistiu de reanimar Reed quando Slade regressa— está sentada a
um canto a tentar aceitar o facto de que mataram mesmo um homem. Não
apenas um homem. Ele era responsabilidade sua. Estava aqui por causa de
uma coisa criada por ela.
Slade começa a despir-se.
«O que está a fazer?», pergunta ela.
«A solucionar isto.» Depois, olha para o vidro espelhado que separa
o compartimento de teste e a sala de controlo. «Alguém a tira daqui, por
favor?»
Os homens de Slade entram de rompante enquanto ele se mete todo nu
no tanque.
«Por favor, venha connosco, Dra. Smith.»
Levanta-se devagar, caminha como um autómato até à sala de controlo e
senta-se atrás de Sergei e do Dr. Wilson enquanto eles reativam a memória
de Slade de quando se cortou ao barbear-se.
Todo este tempo a pensar: «Isto está errado, isto está errado, isto está
errado», até que…
De súbito, está sentada aqui mesmo, nesta sala de reuniões, a estancar o
sangue com um lenço de papel.
Helena olha para Slade.
Ele está a olhar para Reed, que olha para o vazio com um sorriso
arrebatado.
— Reed? — diz Slade.
O homem não responde.
—Reed, está a ouvir-me?
Reed vira a cabeça devagar até fitar Slade, o sangue a escorrer pelos
lábios, a cair em gotas em cima da mesa.
—Eu morri— diz Reed.
—Eu sei. Regressei a uma memória para salvar…
—E foi a coisa mais bela que alguma vez vi.
—O que foi que viu?— pergunta Slade.
—Eu vi… —Faz um esforço para encontrar as palavras. —Tudo.
—Não sei o que isso quer dizer, Reed.
—Todos os momentos da minha vida. Eu ia a grande velocidade por um
túnel cheio desses momentos, e foi maravilhoso. Encontrei um de que me
esquecera. Uma memória encantadora. Acho que a minha primeira.
—Em que consiste? — quer saber Helena.
—Eu tinha dois anos, talvez três. Estava sentado no colo de alguém na
praia e não me podia virar para ver a sua cara, mas sei que era o meu pai.
Estávamos em Cape May, na Jersey Shore, onde costumava passar as férias.
Não a consegui ver, mas sei que a minha mãe também estava ali, e o meu
irmão, Will, estava ao longe, na rebentação, deixando as ondas rebentar em
cima dele. Cheirava a mar, a protetor solar e aos bolos tipo farturas que
alguém estava a vender atrás de nós no passadiço. —As lágrimas correm-
lhe pela cara. —Nunca senti tanto amor em toda a minha vida. Estava tudo
bem. Em segurança. Foi um momento perfeito antes de…
—O quê? — indaga Slade.
—Antes de me tornar eu. —Limpa os olhos, olha para Slade. —Não me
deveria ter salvado. Não me deveria ter trazido de volta.
—O que está para aí a dizer?
—Eu poderia ter ficado naquele momento para sempre.
BARRY
Novembro de 2007
Cada dia é uma revelação, cada momento uma dádiva. O simples ato de
se sentar à mesa de jantar à frente da filha e ouvi-la falar sobre como lhe
correu o dia é como uma remissão de culpa. Como é possível que tenha
tomado isso por garantido, por um segundo sequer?
Regozija-se com cada instante— o modo como Meghan revira os olhos
quando ele a questiona sobre rapazes, o modo como brilham quando falam
sobre as universidades que ela quer visitar. Ele chora de forma espontânea
na presença dela, mas é fácil atribuir o facto a ter deixado de fumar, ao ver a
sua pequenina tornar-se uma mulher.
Julia anda desconfiada de alguma coisa. Nestes momentos, ele repara que
a mulher olha para ele como alguém a examinar um quadro que não está
pendurado em esquadria.
Todas as manhãs, quando a consciência surge pela primeira vez, fica
deitado com medo de abrir os olhos, temendo encontrar-se de novo no seu
apartamento de uma assoalhada em Washington Heights, com a sua
segunda oportunidade a desvanecer no olvido.
Porém, está sempre ao lado de Julia, sempre a ver a luz entrar pelas
persianas, e a sua única ligação à outra vida existe em falsasmemórias. Que
ele adoraria esquecer.
HELENA
5 de julho de 2009
Dia 613
Depois do jantar, quando Helena lava a cara e se prepara para se deitar,
alguém bate à porta. Slade está no corredor, os olhos sombrios
e perturbados.
—O que aconteceu? — pergunta.
—O Reed enforcou-se no quarto.
—Oh, meu Deus! Por causa da memória morta?
—Não vamos tirar conclusões precipitadas. O cérebro de um
toxicodependente funciona de maneira diferente. Quem sabe o que ele
realmente viu quando morreu. De qualquer modo, apenas achei que deveria
saber, mas não se preocupe. Trá-lo-ei de volta amanhã.
—Trá-lo-á de volta?
—Com a cadeira. Vou ser franco. Não estou ansioso por voltar a morrer.
Como deve calcular, é muito desagradável.
—Ele fez a escolha de acabar com a própria vida— diz Helena, tentando
controlar as emoções. —Acho que devemos respeitar isso.
—Não enquanto ele continuar a trabalhar para mim.
Horas mais tarde, deitada na cama, Helena vira-se de um lado para o
outro sem conseguir dormir.
Os pensamentos fervilham na sua mente e ela parece incapaz de travá-
los.
Slade mentiu-lhe.
Manipulou-a.
Impediu-a de comunicar com os pais.
Roubou-lhe uma vida.
Embora nada alguma vez a tenha intrigado intelectualmente mais do que
o misterioso poder da cadeira, não confia em Slade como seu proprietário.
Eles alteraram memórias. Mudaram a realidade. Devolveram a vida a um
homem depois de este morrer. No entanto, ele continua a querer ultrapassar
limites com uma determinação obsessiva que a faz questionar-se sobre o
seu verdadeiro objetivo com tudo isto.
Levanta-se da cama, vai até à janela e abre as cortinas opacas.
A Lua vai alta e está cheia, refletindo-se no mar, cuja superfície é como
um soalho lacado, reluzente, azul-escuro, estático como um momento
congelado.
Nunca virá o dia em que ela trará a mãe de helicóptero até aqui e a
sentará na cadeira para mapear o que quer que sobre da sua mente.
Isso nunca iria acontecer. Chegou a hora de deixar o sonho morrer e pôr-
se a milhas daqui.
Só que não pode. Mesmo que conseguisse esgueirar-se num dos navios
de abastecimento, assim que Slade desse pela sua falta, simplesmente
regressaria a uma memória anterior à sua fuga e impedi-la-ia.
Ele seria capaz de te impedir antes mesmo de tentares a fuga. Antes
mesmo de a ideia te ocorrer. Antes deste momento.
Todas estas conjeturas fazem com que, agora, só haja uma maneira de
sair da plataforma.
BARRY
Dezembro de 2007
Enquanto inspetor, melhorou o seu desempenho profissional, em parte
porque se lembra de alguns casos e de suspeitos, mas principalmente
porque se preocupa. As autoridades tentam promovê-lo a um cargo de
supervisão mais bem remunerado, mas ele recusa. Quer ser um excelente
detetive, nada mais.
Deixa de fumar, bebe apenas aos fins de semana, corre três vezes por
semana e leva Julia a sair todas as sextas-feiras à noite. As coisas não são
perfeitas entre os dois. Ela não carrega o trauma da morte de Meghan e a
consequente destruição do casamento, mas não tem como esquecer o modo
como esses acontecimentos corroeram a sua ligação. Na sua vida anterior,
demorara muito tempo a deixar de amar Julia, e embora esteja de regresso a
uma época antes de tudo implodir, não é como se houvesse um interruptor
que ele pudesse voltar a ligar.
Vê as notícias todas as manhãs, lê os jornais todos os domingos e, apesar
de se recordar dos momentos importantes —o candidato que se tornará
presidente, os primeiros abalos de uma recessão—, as coisas são na maioria
brumosas e insignificantes quanto baste para lhe parecerem novidade outra
vez.
Passou a visitar a mãe todas as semanas. Ela tem sessenta e seis anos e,
dentro de cinco anos, apresentará os primeiros sintomas do glioblastoma
que a matará. Dentro de seis anos, não o reconhecerá nem será capaz de
manter uma conversa, e morrerá numa unidade de cuidados paliativos
pouco depois, uma pálida imagem da pessoa que foi. Ele segurar-lhe-á a
mão descarnada nos seus últimos mo mentos, questionando-se se ela será
sequer capaz de registar a sensação do toque humano na paisagem desolada
do seu cérebro.
Por estranho que pareça, não sente tristeza nem desespero ao saber como
e quando a vida dela irá terminar. Esses últimos dias parecem
impossivelmente distantes quando está sentado no apartamento dela em
Queens na semana antes do Natal. Para dizer a verdade, considera que a
presciência é uma dádiva. O pai de Barry morreu de um aneurisma da aorta,
súbito e inesperado, tinha ele quinze anos. No caso da mãe, tem anos para
se despedir, para se assegurar de que ela sabe que ele a ama, para dizer
todas as coisas que lhe vão no coração, e isso reconforta-o
incomensuravelmente. Nos últimos tempos, tem pensado se a vida não é
isso mesmo— um longo adeus daqueles que amamos.
Hoje, trouxe Meghan com ele, e a filha e a mãe jogam xadrez enquanto
ele está sentado à janela, a mãe a cantar naquele delicado falsete que mexe
sempre com alguma coisa bem no seu íntimo, a sua atenção dividida entre a
partida de xadrez e os transeuntes na rua lá em baixo.
Apesar da tecnologia antiga que o rodeia e da manchete ocasionalmente
familiar nos jornais, ele não sente que está a viver no passado. Este
momento parece-lhe estar a acontecer agora. A experiência está a ter um
impacto filosófico sobre a sua perceção do tempo. Talvez Vince tivesse
razão. Talvez esteja a acontecer tudo em simultâneo.
—Barry?
—Diz, mãe.
—Quando foi que te tornaste tão introspetivo?
Ele sorri.
—Não sei. Se calhar, foi quando entrei na casa dos quarenta.
Ela observa-o por instantes, voltando a atenção para o tabuleiro de xadrez
apenas quando Meghan faz a jogada seguinte.
Vive os dias; as noites, passa-as a dormir.
Vai a festas a que já foi, assiste a jogos a que já assistiu, resolve casos
que já resolveu.
Interroga-se sobre as sensações de déjà-vu que assombraram a sua vida
anterior— a persistente sensação de estar a fazer ou a ver alguma coisa que
já vira.
E questiona-se se o déjà-vu não será o espectro de frisos cronológicos
falsos que nunca aconteceram, mas aconteceram, lançando sombras sobre a
realidade.
HELENA
22 de outubro de 2007
Ela está outra vez sentada na sua antiga secretária nas profundezas
bafientas do edifício de neu rociência em Palo Alto, apanhada numa
transição entre a memória e a realidade.
A dor da morte no tanque de privação sensorial ainda se faz sentir— a
ardência nos pulmões privados de oxigénio, o peso atroz do coração
paralisado, o pânico e o pavor, sem saber se o seu plano surtiria efeito. E
então, quando o programa de reativação de memória por fim foi executado
e os estimuladores ativados, experimentou um sentimento de puro regozijo
e libertação. Slade estava certo. Sem DMT, a experiência de reativação de
memória não era mais do que ver um filme que já se viu milhares de vezes.
Isto é como viver a experiência.
Jee-woon está sentado à frente dela, o seu rosto a tornar-se mais nítido, e
ela questiona-se se ele perceberá que há algo de estranho com ela, pois
ainda não consegue controlar o corpo, mas consegue apanhar uma palavra
aqui e outra além— excertos de uma conversa familiar.
—… muito interessado no artigo sobre memória que publicou na revista
Neuron.
O seu controlo dos músculos começa pelas pontas dos dedos das mãos e
dos pés, passando a subir pelos braços e pelas pernas, até que é capaz de
controlar a capacidade de pestanejar e engolir. De repente, o seu corpo
parece uma coisa que lhe pertence, e é inundada de controlo, a excitação do
domínio total, outra vez completamente dentro da sua versão anterior.
Olha à sua volta pelo gabinete, as paredes cobertas de imagens em alta
resolução de memórias de ratinhos. Há instantes, estava a quase duzentos e
oitenta quilómetros ao largo da costa do norte da Califórnia, quase dois
anos depois deste momento, a morrer no tanque de privação sensorial no
terceiro piso da plataforma petrolífera de Slade.
—Está tudo bem? — pergunta Jee-woon.
Resultou. Meu Deus, resultou.
—Está. Desculpe. Estava a dizer…
—Que o meu patrão está muito bem impressionado com o seutrabalho.
—O seu patrão tem nome? — pergunta.
—Bem, isso depende.
—De quê?
—De como correr esta conversa.
Ter esta conversa pela segunda vez parece-lhe perfeitamente normal e
espantosamente surreal. É, sem sombra de dúvida, o momento mais
estranho de toda a sua existência, e tem de fazer um esforço para se
concentrar.
Olha para Jee-woon e diz:
—Porque teria eu uma conversa com alguém que não sei quem
representa?
—Porque o seu financiamento de Stanford acaba dentro de seis semanas.
Leva a mão à sua sacola de couro e tira um docu mento de dentro de uma
capa azul-marinho. A proposta de subsídio dela.
Enquanto Jee-woon lhe propõe trabalhar para o seu patrão com um
financiamento ilimitado, ela olha para a sua proposta de subsídio e pensa:
Consegui. Criei a minha cadeira e é muito mais poderosa do que alguma
vez pensei que pudesse ser.
—A senhora precisa de uma equipa de programadores para a ajudar a
desenvolver um algoritmo para catalogação de memória complexa e
projeção. A infraestrutura para ensaios em humanos.
Plataforma Imersiva para Projeção de Memórias de Longo Prazo,
Explícitas e Episódicas. Ela criou-a. E funcionou.
—Helena? – Jee-woon fita-a do outro lado do desastre que é a sua
secretária.
—Sim?
—Quer vir trabalhar com o Marcus Slade?
Na noite em que Reed se suicidara, ela esgueirara-se até ao laboratório e,
utilizando um acesso de backdoor para o sistema que convencera Raj a
incorporar antes de este se ir embora, mapeara uma memória deste
momento— Jee-Woon a fazer-lhe uma visita no seu laboratório em
Stanford. Essa visita deixara uma pegada neuronal suficientemente forte
para permitir um regresso. Então, programara a sequência de reativação de
memória, o cocktail de fármacos, e, pelas três da manhã, metera-se no
tanque de privação sensorial.
—Helena? O que me diz?c— insiste Jee-woon.
—Adoraria trabalhar com o Sr. Slade.
Ele tira outro documento da sacola e entrega-lho.
—O que é isto? — pergunta, apesar de já saber a resposta. Ela assinou-o
naquilo que é agora uma memória morta.
—Um contrato de trabalho e confidencialidade. Não negociável. Creio
que considerará os termos financeiros bastante generosos.
BARRY
Janeiro de 2008 – maio de 2010
É então que a vida lhe parece ser a vida outra vez; os dias desenrolam-se
com uma sensação de uniformidade e aceleração, e ele pensa cada vez
menos no facto de estar a viver a sua vida uma segunda vez.
HELENA
22 de outubro de 2007 – agosto de 2010
O cheiro da água-de-colónia de Jee-woon ainda perdura no elevador
quando Hel ena sobe ao piso térreo do edifício de neurociência. Há quase
dois anos que não pisava o campus de Stanford, que não pisava terra. O
verde das árvores e da relva quase a deixa em lágrimas. A forma como a luz
do Sol passa pelo meio das folhas trémulas. O cheiro das flores. O barulho
das aves que não aves marinhas.
É um dia de outono soalheiro e ameno, e ela está sempre a olhar para o
visor do seu telemóvel de abrir, a olhar para a data, pois em parte ainda não
acredita que é o dia 22 de outubro de 2007.
O seu Jeep continua no parque de estacionamento da faculdade. Senta-se
no assento quente do sol e procura a chave na sua mochila.
Pouco depois, vai a toda a brida pela interestadual, o vento a uivar no
arco de segurança. A plataforma petrolífera parece-lhe um sonho cinzento,
a desvanecer, e ainda mais a cadeira, o tanque de privação sensorial, Slade,
e os dois últimos anos, os quais, por causa de uma coisa que ela construiu,
ainda não aconteceram.
Na sua casa em San Jose, prepara uma mala com roupa, uma fotografia
dos seus pais emoldurada e seis livros importantíssimos para ela: On the
Fabric of the Human Body, da autoria de Andreas Vesalius, Física de
Aristóteles, Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton,
A Origem das Espécies, de Darwin, e dois romances— O Estrangeiro, de
Camus, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.
No banco, encerra as suas contas poupança e à ordem— um pouco menos
de cinquenta mil dólares. Levanta dez mil dólares em numerário, deposita
os restantes quarenta mil numa conta de valores mobiliários e depois saí
para o sol do meio-dia com um envelope branco que parece
lastimavelmente fino.
Perto da Highway 1, encosta numa estação de serviço para abastecer o
Jeep. Após concluir a transação, atira o cartão de crédito para o lixo, abre a
capota e senta-se ao volante. Não sabe para onde vai. Na noite anterior, na
plataforma, só fez planos até este ponto e tem os pensamentos num
turbilhão de excitação e horror.
Há uma moeda num dos suportes para copos. Atira-a ao ar e agarra-a nas
costas da mão esquerda.
Se sair cara, vai para sul.
Se for coroa, para norte.
A estrada serpenteia ao longo de uma orla costeira escarpada, o mar
escancarando-se numa bruma parda várias centenas de metros ao fundo.
Helena acelera pelo meio de florestas de cedros.
Passa por promontórios.
Atravessa baldios varridos pelo vento.
Cruza vilas incógnitas— postos avançados nos confins do mundo.
Na primeira noite, encosta duas horas a norte de São Fran cisco num
motel de beira de estrada restaurado chamado Timber Cove, empoleirado
num penhasco com vista para o mar.
Senta-se sozinha defronte de uma lareira com um copo de vinho servido
de uma garrafa produzida a apenas trinta quilómetros dali, mais para o
interior, a ver o pôr do Sol e a pensar no que a sua vida se tornou.
Pega no telemóvel para telefonar aos pais, mas hesita.
Neste instante, Marcus Slade está à espera de que ela chegue à sua
plataforma petrolífera desmantelada para começar a trabalhar na cadeira,
sem dúvida convencido de que é o único a conhecer as suas reais e
espantosas capacidades. Mas após Helena não aparecer, além de suspeitar
das ações dela, virará o mundo do avesso à sua procura, porque, sem ela,
não tem qualquer hipótese de construir —ou, de certa forma, reconstruir—
a cadeira.
Inclusive, poderá servir-se dos seus pais para chegar a ela.
Pousa o telemóvel no chão e esmaga-o com o calcanhar.
Segue para norte pela Highway 1, fazendo um breve desvio até um sítio
que sempre quis visitar na Lost Coast, a Black Sands Beach, em Shelter
Cove.
Depois, avança por entre arvoredos de pau-brasil e pacatas comunidades
costeiras até à costa noroeste do Pacífico.
Dois dias mais tarde, está em Vancouver, a subir a costa da Colúmbia
Britânica, de cidade em vila, de vila em aldeia, passando por algumas das
paisagens rurais mais desoladas que alguma vez viu.
Três semanas depois, enquanto vagueia pelas regiões agrestes do Norte
do Canadá, é apanhada por uma tempestade ao anoitecer.
Entra numa taberna de beira de estrada nas cercanias de uma aldeia que é
uma relíquia dos tempos da corrida ao ouro, senta-se num banco de um
balcão de madeira e bebe cerveja e fica na cavaqueira com os locais
enquanto o lume arde numa enorme lareira e o primeiro nevão da estação
rodopia nas vidraças.
De certo modo, a aldeia de Haines Junction, no Yukon, parece tão remota
como a plataforma petrolífera de Slade — este lugarejo fica nos confins do
Canadá, no meio de uma floresta de árvores de folha perene no sopé de uma
cordilheira coberta de gelo. Todos os habitantes da aldeia pensam que ela se
chama Marie Iden— o primeiro nome é inspirado na primeira mulher que
ganhou um Prémio Nobel e cujo trabalho levou à descoberta da
radioatividade, o último nome num dos seus escritores de thrillers
preferidos.
Vive num quarto por cima da taberna e é paga por baixo da mesa para
servir ao balcão aos fins de semana. Não precisa do dinheiro.
Os conhecimentos que tem do mercado futuro transformarão os seus
investimentos em milhões durante os próximos anos, mas é bom manter-se
ocupada, e poderá levantar suspeitas se não tiver uma aparente fonte de
rendimentos.
O quarto dela não é nada de especial— uma cama, um toucador e uma
janela com vista para a autoestrada menos movimentada que já viu, mas,
pelo menos de momento, é tudo o que precisa. Trava conhecimentos, não
faz amigos, e passam pelo bar e pela aldeia viajantes suficientes para
proporcionar uma ocasional ligaçãopara combater a solidão.
E ela sente-se só, mas essa emoção parece ser a norma por estas bandas.
Não demorou muito a perceber que Haines Junction é um refúgio para uma
classe de pessoas diferente.
Aquelas que procuram paz.
Aquelas que procuram esconder-se.
E, é claro, aquelas que procuram as duas coisas.
Sente a falta do estímulo mental do seu trabalho. Sente a falta de estar
num laboratório. Sente a falta de ter um objetivo. Sente-se dilacerada
quando pensa no que os pais deverão achar do seu desaparecimento. Sente-
se culpada a todas as horas de todos os dias por não estar a construir a
cadeira de memória que poderia preservar as memórias nucleares de
pessoas como a sua mãe.
Passou-lhe pela cabeça que uma solução para todos esses problemas seria
matar Slade. Seria bastante fácil chegar perto dele —podia ligar a Jee-
woon, dizer que reconsiderou a proposta—, mas isso vai contra os seus
princípios. Para o melhor ou para o pior, simplesmente não é essa pessoa.
Assim, reconforta-se com a noção de que cada dia que passa neste
recanto isolado do mundo, sem que Slade a descubra, é um dia em que
mantém o mundo seguro contra aquilo que ela tem o potencial de criar.
Ao fim de dois anos, consegue credenciais e documentos de identificação
falsos na Dark Web e muda-se para Anchorage, no Alasca, onde se oferece
como assistente de investigação para um neurocientista na universidade—
um homem bom que não faz ideia de que um dos seus subalternos é a mais
notável cientista de investigação do mundo. Ela passa os dias a entrevistar
doentes de Alzheimer e a registar as suas memórias em processo de
deterioração ao longo de semanas e meses enquanto a doença evolui pelos
seus cruéis e bárbaros estágios. O trabalho não é propriamente
revolucionário, mas pelo menos está a aplicar o seu intelecto numa área de
estudo pela qual é apaixonada. O tédio e a inutilidade do tempo que passou
no Yukon deixaram-na à beira da depressão.
Há dias em que deseja desesperadamente começar a construir um
microscópio MEG e o dispositivo de reativação como um meio de capturar
e preservar as memórias das pessoas que entrevista, as quais estão, aos
poucos, a perder a sua identidade e as memórias que as definem. Porém, é
demasiado arriscado, pois poderia chamar a atenção de Slade para o seu
trabalho, ou alguém poderia, tal como aparentemente aconteceu com ela,
dar por acidente o salto da reativação de memória para viagem na memória.
Não se pode confiar tecnologias com tal poder aos humanos— com a
divisão do átomo, passou-se à bomba atómica. A capacidade de mudar a
memória, e, com isso, a realidade, seria no mínimo tão perigosa, em parte
porque seria muito tentadora. Ela própria não iria mudar o passado agora e
à primeira oportunidade?
Mas a existência da cadeira foi revertida, ela desapareceu, e não há
qualquer ameaça para a memória e para o tempo, a não ser o conhecimento
na sua própria mente, que ela levará consigo para a sepultura.
A ideia de se suicidar passou-lhe pela cabeça mais do que uma vez. Seria
a derradeira apólice de seguro contra a possibilidade de Slade a encontrar e
obrigar a colaborar. Chegou mesmo a ponto de preparar comprimidos de
cloreto de potássio para o caso de esse dia chegar.
Tem-nos sempre com ela, num medalhão de prata à volta do pescoço.
Helena estaciona num lugar para visitantes perto da entrada e sai para o
tórrido calor de agosto. O recinto está bem tratado. Há miradouros,
fontanários e zonas para fazer piqueniques. Não sabe como o pai consegue
pagar este sítio.
Regista-se na receção e tem de escrever o nome num formulário de
entrada de visitas. Enquanto a administrativa faz uma cópia da sua carta de
condução, Helena olha para todo o lado, ner vosa.
Há três anos que está neste novo friso cronológico. As falsas memórias
de Slade do tempo que passaram juntos na sua plataforma petrolífera ter-
lhe-iam chegado na manhã de 6 de julho de 2009, o mesmo momento (no
friso cronológico anterior) em que ela morreu no tanque de privação
sensorial e regressou à memória de quando Jee-woon foi encontrar-se com
ela no laboratório de Stanford.
Se Slade não a procurou antes disso, estará a procurar agora. O mais
provável é que tenha pagado a alguém daqui para o avisar se Helena
aparecer.
O que acabou de acontecer.
Porém, não veio aqui sem saber o risco que corre.
Se Slade ou um dos seus homens a identificar, está preparada para lidar
com a situação.
Levanta a mão e toca no medalhão que traz ao pescoço.
—Aqui tem, querida. —A administrativa entrega um crachá de visitante
a Helena. —A Dorothy está no quarto 117, ao fundo do corredor. Vou abrir-
lhe a porta.
Helena espera enquanto as portas da ala de doentes de Alzheimer abrem
devagar.
Os cheiros de produtos de limpeza, urina e comida de cantina misturam-
se e invocam a memória da última vez que esteve numa unidade de
cuidados para adultos— há vinte anos, durante os últimos meses de vida do
avô.
Passa por uma área comum, onde os residentes num estado de letargia
causada pela forte medicação estão sentados à volta de um televisor que
transmite um programa sobre a natureza.
A porta do quarto 117 está entreaberta; Helena empurra-a.
Segundo os seus cálculos, já não vê a mãe há cinco anos.
Dorothy está sentada numa cadeira de rodas com um cobertor por cima
das pernas, a olhar pela janela para o sopé das Montanhas Rochosas. Helena
deve ter surgido na sua visão periférica, porque a mãe vira a cabeça devagar
para a porta.
Helena sorri.
—Olá.
A mãe fita-a sem pestanejar.
Nenhum sinal de a reconhecer.
—Posso entrar?
A mãe baixa a cabeça num gesto que Helena toma por assentimento.
Entra e fecha a porta.
—Gosto muito do teu quarto— diz Helena. A televisão, sem som, está
sintonizada num canal de notícias. Há fotografias por toda a parte. Dos
seus pais quando eram mais novos, nos bons velhos tempos. Dela em bebé,
em criança, acabada de fazer dezasseis anos sentada ao volante do Chevy
Silverado da família, no dia em tirou a carta de condução.
Segundo a página da CaringBridge que o pai fez, Dorothy passou para os
cuidados para doentes de Alzheimer depois do Natal passado, quando ela
deixou o forno ligado e quase incendiou a cozinha.
Helena senta-se ao lado da mãe à pequena mesa circular junto à janela.
Ao meio, um ramo de flores que ali estará há bastante tempo, tendo largado
um manto de folhas e pétalas à volta da jarra.
A fragilidade da mãe faz lembrar uma ave e a luz do final da manhã que
lhe incide no rosto confere-lhe uma aparência diáfana. Embora só tenha
sessenta e cinco anos, parece muito mais velha. Tem os cabelos grisalhos
rarefeitos e manchas de velhice cobrem-lhe as mãos, que mantêm um
aspeto extraordinariamente feminino e elegante.
—Sou a tua filha, a Helena. —A mãe olha para ela, desconfiada. —Que
magnífica vista sobre as montanhas.
—Viste a Nance? — pergunta a mãe. Não parece a voz dela. As palavras
saem arrastadas e com um esforço considerável. Nancy era a irmã mais
velha de Dorothy. Morreu no parto há mais de quarenta anos, antes de
Helena nascer.
—Não— responde Helena. —Ela já partiu há bastante tempo.
A mãe olha pela janela. Embora o céu esteja limpo por cima das planícies
e no sopé da montanha, mais ao longe começaram a formar-se umas nuvens
negras à volta dos picos mais altos. Helena põe-se a pensar que esta doença
é uma forma sádica e esquizofrénica de viagem de memória, precipitando
as vítimas pela vastidão das suas vidas, ludibriando-as a pensar que estão a
viver no passado, deixando-as à deriva no tempo.
—Desculpa por não te visitar mais vezes— diz Helena. —Não é que não
queira… Penso em ti e no pai todos os dias, mas estes últimos anos têm
sido… muito complicados. Tu és a única pessoa do mundo a quem posso
contar isto, mas tive a oportunidade de construir a minha cadeira de
memória. Acho que já te falei disso. Foi por ti que a criei. Queria salvar as
tuas memórias. Pensei que iria mudar o mundo. Pensei que tinha obtido
tudo aquilo com que sempre sonhara, mas fracassei. Deixei-te ficar mal. E a
todas as pessoas como tu, que poderiamter utilizado a minha cadeira para
salvarem parte de si mesmas desta… maldita doença. —Helena enxuga as
lágrimas. Não consegue compreender se a mãe está a prestar atenção.
Talvez isso não importe. —Eu trouxe uma coisa horrível ao mundo, mamã.
Não foi minha intenção e agora tenho de passar o resto da vida escondida.
Não deveria vir aqui, mas… precisava de te ver uma última vez. Preciso
que me ouças dizer…
—Hoje vai cair uma tempestade sobre as montanhas— diz Dorothy sem
desviar o olhar das nuvens escuras.
Helena solta um suspiro profundo e trémulo.
—Parece que sim, não é?
—Eu costumava fazer caminhadas naquelas montanhas com a minha
família num sítio chamado Lost Lake.
—Eu lembro-me disso. Estava lá contigo, mãe.
—Costumávamos nadar na água gelada e depois deitávamo-nos nas
pedras quentes. O céu tão azul que era quase púrpura. Os prados tinham
flores silvestres. Parece que foi ontem.
Ficam sentadas em silêncio.
Cai um relâmpago no cume de Longs Peak.
Demasiado longe para se ouvir o trovão.
Helena interroga-se com que frequência o seu pai a visitará. Imagina
como deve ser difícil para ele. Daria tudo para o voltar a ver.
Helena pega em todas as fotografias e dedica-se a mostrar cada uma à
mãe, indicando-lhe caras, dizendo nomes, relembrando momentos
recorrendo à sua própria memória. Começa a escolher memórias que acha
que a mãe consideraria as mais especiais e impor tantes, mas então percebe
que é uma escolha demasiado íntima para ser feita por outra pessoa. Só
pode partilhar as suas.
É então que acontece algo bastante estranho.
Dorothy olha para ela e, por instantes, os seus olhos tornam-se nítidos,
lúcidos e intrépidos— como se a mulher que Helena sempre conheceu
tivesse, vá-se lá saber como, desemaranhado a teia de demência e trajetos
neurais destruídos para ver a filha por um fugaz momento.
—Sempre me orgulhei de ti— diz a mãe.
—A sério?
—Tu és a melhor coisa que eu alguma vez fiz.
Banhada em lágrimas, Helena abraça a mãe.
—Desculpa não te conseguir salvar, mãe.
Porém, quando se afasta, o momento de lucidez passou.
Está a olhar para os olhos de uma desconhecida.
BARRY
Junho de 2010 – 6 de novembro de 2018
Certa manhã, acorda e é o dia de formatura da escola secundária de
Meghan.
A filha está no quadro de honra e faz um discurso maravilhoso.
Ele chora.
E depois o outono chega, e passa a ser só ele e Julia numa casa muito
silenciosa.
Certa noite, na cama, ela vira-se para ele e diz:
—É assim que queres passar o resto da vida?
Ele não sabe o que responder. Ou melhor, até sabe. Sempre atribuíra as
culpas do fim do seu casamento com Julia à morte de Meghan. Fora a sua
família —os três— que mantivera a união entre ele e Julia. Quando Meghan
morrera, esse laço desintegrara-se no espaço de um ano. Só agora consegue
admitir que a sua relação sempre esteve condenada. A segunda viagem pelo
seu casamento apenas fora uma morte mais lenta e menos dramática,
desencadeada pelo crescimento de Meghan, a saída de casa, acabando por
seguir a sua vida.
Por isso, sim, ele sabe. Apenas não o quer dizer.
Este relacionamento estava destinado a um período específico, não mais.
A sua mãe morre exatamente da maneira como ele se lembra.
Meghan já está no bar quando ele chega, a sorver um martíni e a enviar
uma mensagem de texto. Por instantes, ele não a vê, pois ela é apenas mais
uma mulher bonita num bar chique de Manhattan, a beber um cocktail ao
final da tarde.
—Olá, Megs.
Ela pousa o telemóvel, com o ecrã virado para baixo, e desce do banco,
abraça-o com mais força do que de costume, apertando-o junto ao corpo,
sem o largar.
—Como estás? — pergunta.
—Bem, estou bem.
—De certeza?
—Sim.
Ela sonda-o, desconfiada, voltando para o seu lugar ao balcão, e pede
uma San Pellegrino e uma rodela de lima.
—Como corre o trabalho? — pergunta ele. É o primeiro ano dela no
cargo de coordenadora comunitária numa organização sem fins lucrativos.
—É fantasticamente estafante, mas não me apetece falar de trabalho
neste momento.
—Sabes que estou orgulhoso de ti, não sabes?
—Sei, dizes-me isso sempre que nos encontramos. Olha, preciso de te
perguntar uma coisa.
—Diz. —Sorve um pouco de água mineral com lima.
—Quanto tempo foste infeliz?
—Não sei. Algum tempo. Anos, talvez.
—Tu e a mãe mantiveram-se juntos por minha causa?
—Não.
—Juras?
—Juro. Eu queria que resultasse. Sei que a tua mãe também queria. Por
vezes, só demora algum tempo até as pessoas por fim tomarem a decisão. É
possível que tenhas contribuído para não repararmos em como estávamos
infelizes, mas nunca foste o motivo por que continuámos juntos.
—Estiveste a chorar?
—Não.
—O tanas.
Ela é boa. Ele assinou o acordo de separação no escritório do seu
advogado há uma hora e, se não surgir um imprevisto, um juiz decretará a
decisão de divórcio dentro do próximo mês.
Fora uma longa caminhada até chegar aqui e, sim, grande parte do
caminho fê-lo a chorar. É uma das coisas boas que Nova Iorque tem—
ninguém se importa com o nosso estado emocional, sobretudo quando não
há sangue em causa. Chorar no passeio em plena luz do dia não é um ato
menos privado do que chorar no nosso quarto a meio da noite. Talvez seja
porque ninguém quer saber. Talvez seja porque é uma cidade brutal e todos
já passaram por isso numa ou noutra ocasião.
—Como está o Max? — pergunta Barry.
—Foi à vida dele.
—O que aconteceu?
—Percebeu a realidade.
—Que realidade?
—Que a Meghan é uma viciada no trabalho.
Barry pede outra água mineral.
—Estás com muito bom aspeto, pai.
—Achas?
—Acho. Estou ansiosa por começar a ouvir as histórias horríveis sobre os
teus encontros.
—Mal posso esperar por começar a tê-los.
Meghan dá uma gargalhada e alguma coisa na maneira como mexe a
boca faz com que ele volte a ver o rosto da sua menina, mas apenas por um
fugaz segundo.
—No domingo fazes anos— diz Barry.
—Eu sei.
—Eu e a mãe queremos levar-te a tomar o brunch.
—Tens a certeza de que não será constrangedor?
—Oh, é bem possível, mas nós queremos fazê-lo na mesma se estiveres
disposta a isso. Queremos voltar a estar bem.
—Alinho— diz Meghan.
—Alinhas?
—Alinho. Também quero que voltemos a estar bem.
Depois das bebidas com Meghan, come qualquer coisa na sua pizaria
preferida na cidade— um tasco em Upper West Side perto da sua esquadra.
É um lugar onde se vai à noite, com atitude, luz fraca e sem lugares
sentados— apenas um balcão a toda a volta do restaurante, os clientes de
pé, segurando pratos de papel gordurosos com enormes fatias de piza e
copos gigantes de refrigerantes altamente açucarados.
É sexta-feira à noite, e barulhento, perfeito.
Pensa em beber um copo, mas acha que beber sozinho depois de assinar
os documentos do divórcio é demasiado patético e, em vez disso, volta para
o carro. Conduz pelas ruas da cidade a sentir-se feliz, emotivo e
desconcertado pelo puro mistério de estar vivo. Espera que Julia esteja bem.
Enviou-lhe uma mensagem depois de assinar os papéis. Escreveu que
estava feliz por continuarem amigos e que estaria sempre disponível para a
ajudar no que fosse preciso.
Sentado no meio do trânsito, consulta o telemóvel outra vez para ver se
ela respondeu.
Tem uma mensagem dela:
Estarei sempre aqui para ti.
Isso nunca mudará.
Não se lembra de se sentir assim tão feliz.
Olha pelo para-brisas. Apesar de o semáforo estar verde, os carros ainda
não começaram a andar. A polícia está a desviar o trânsito da rua mais à
frente. Baixa o vidro e grita para o polícia mais perto:
—O que se passa? – O homem faz sinal para ele seguir. Barry liga as
luzes da grelha e aciona a sirene, o que chama a atenção do jovem agente,
que vem a correr até ele.
—Desculpe, mandaram-nos encerrar a rua mais adiante. Está um caos.
—O que aconteceu?
—Uma senhora saltou do prédio no quarteirão a seguir.
—Qual?
—Aquele arranha-céus ali.
Barry olha para a torre art déco branca com uma coroa de vidro e aço;
forma-se-lhe um nó no estômago.
—De que andar? — pergunta.
—O quê?
—De que andar é que ela saltou?
Uma ambulância, com as luzes e as sirenes ligadas, passa a toda a
velocidade no cruzamentoum metro de altura à volta da secretária, cheias de milhares
de resumos e artigos.
— Desculpe lá a barafunda. Arranjo-lhe já uma cadeira.
— Eu faço isso.
Jee-woon arrasta uma cadeira rebatível e senta-se à frente dela, os olhos a
perscrutar as paredes, que estão quase completamente cobertas de imagens
de alta resolução de memórias de ratinhos e atividade neuronal de doentes
com demência e Alzheimer.
— Em que posso ajudá-lo? — pergunta ela.
— O meu patrão ficou muito interessado no artigo sobre memória que
publicou na revista Neuron.
— O seu patrão tem nome?
— Bem, isso depende.
— De quê?
— De como correr esta conversa.
— Porque teria eu uma conversa com alguém que não sei quem
representa?
— Porque o seu financiamento de Stanford acaba dentro de seis semanas.
Helena soergue uma sobrancelha.
— O meu patrão paga-me muito bem para saber tudo sobre as pessoas
pelas quais se interessa— diz ele.
— O senhor tem noção de que o que acabou de dizer é completamente
sinistro, não tem?
Jee-woon leva a mão à sua sacola de couro e tira um docu mento de
dentro de uma capa azul-marinho.
A proposta de subsídio dela.
— É claro! — diz ela. — O senhor é da Mountainside Capital!
— Não. E eles não a irão financiar.
— Nesse caso, como arranjou isso?
— Não importa. Ninguém a irá financiar.
— Como sabe?
— Porque isto… — Lança a proposta de subsídio dela para cima dos
destroços na sua secretária. — Isto é pouco ambicioso. É mais do mesmo
daquilo que tem feito em Stanford nos últimos três anos. Não é
suficientemente inovador. A senhora tem trinta e oito anos, o que equivale a
ter noventa na comunidade académica. Um dia, num futuro muito distante,
vai acordar e perceber que os seus melhores tempos já lá vão. Que está
ultrapassada…
— Acho que é melhor ir-se embora.
— Não a quero insultar. Se me permite a ousadia, o seu problema é que
tem medo de pedir aquilo que realmente deseja.
Ocorre-lhe que, por algum motivo, este desconhecido está a querer
ludibriá-la. Sabe que não deve continuar a envolver-se, mas não consegue
conter-se.
— E por que motivo tenho medo de pedir aquilo que realmente desejo?
— Porque aquilo que realmente deseja levaria a banca à falência. A
senhora não precisa de sete algarismos. Precisa de nove, talvez dez. Precisa
de uma equipa de programadores para a ajudar a desenvolver um algoritmo
para catalogação de memória complexa e projeção. A infraestrutura para
ensaios em humanos.
Ela fita-o por cima da secretária.
— Eu nunca falei em ensaios em humanos naquela proposta.
— E se eu lhe dissesse que lhe daremos tudo aquilo que desejar?
Financiamento ilimitado. Estaria interessada?
O coração dela bate cada vez mais depressa.
É assim que acontece?
Ela pensa na cadeira de cinquenta milhões de dólares que tem sonhado
construir desde que a sua mãe começou a esquecer a vida. Por estranho que
pareça, nunca a imagina completamente materializada, apenas sob a forma
de esquemas técnicos no pedido de patente que um dia entregará, intitulada
Plataforma Imersiva para Projeção de Memórias de Longo Prazo,
Explícitas e Episódicas.
— Helena?
— Se eu concordar, dir-me-á quem é o seu patrão?
— Sim.
— Concordo.
Ele diz-lhe.
Deixando-a por momentos boquiaberta, Jee-woon tira outro documento
da sacola e passa-lho por cima da caixa de cartão.
— O que é isto? — indaga.
— Um contrato de trabalho e confidencialidade. Não negociável. Creio
que considerará os termos financeiros bastante generosos.
BARRY
4 de novembro de 2018
O café localiza-se num lugar pitoresco nas margens do rio Hudson, à
sombra da West Side Highway. Barry chega cinco minutos mais cedo e
encontra Julia já sentada à mesa debaixo de um guarda-sol. Cumprimentam-
se com um abraço fugaz e frágil, como se fossem os dois feitos de vidro.
— É bom ver-te — diz ele.
— Ainda bem que concordaste em vir.
Sentam-se. Um empregado vem saber o que querem beber.
— Como está o Anthony? — pergunta Barry.
— Ótimo. Atarefado com a renovação do átrio do Lewis Building. O teu
trabalho corre bem?
Ele não lhe fala do suicídio que não conseguiu impedir há duas noites.
Em vez disso, fazem conversa de circunstância até lhes servirem o café.
É domingo e a multidão saiu em força para tomar o brunch. Todas as
mesas vizinhas parecem uma fonte de conversas sociáveis e gargalhadas,
mas eles sorvem o café em silêncio à sombra.
Nada e tudo para dizer.
Uma borboleta esvoaça à volta da cabeça de Barry até que ele a afasta
com delicadeza.
Por vezes, a altas horas da noite, ele imagina elaboradas conversa s com
Julia. Conversas em que ele lhe diz tudo o que lhe tem apoquentado o
coração todos estes anos — a dor, a raiva, o amor — e depois ouve-a fazer
o mesmo. Um desanuviar da atmosfera em que ele por fim a compreende e
ela o compreende a ele.
Quando estão na presença um do outro, porém, nunca é o mesmo. Ele
não consegue convencer-se a dizer o que lhe vai na alma, que parece
sempre preso e guardado a sete chaves, envolto em tecido cicatricial. O
embaraço já não o incomoda como dantes. Passou a aceitar a noção de que
faz parte da vida enfrentar os nossos fracassos e, por vezes, esses fracassos
são pessoas que amámos outrora.
— Gostaria de saber o que estaria ela a fazer hoje — diz Julia.
— Creio que estaria aqui sentada connosco.
— Refiro-me à sua profissão.
— Ah… Seria advogada, claro.
Julia ri-se — um dos sons mais adoráveis que ele já ouviu — e não se
lembra da última vez que a ouviu rir. Uma experiência bela, mas ao mesmo
tempo dolorosa. Como uma janela secreta para a pessoa que ele conheceu.
— Ela era capaz de refutar qualquer coisa — diz Julia. — E geralmente
levava a sua avante.
— Nós não lhe conseguíamos resistir.
— Um de nós.
— Eu? — diz ele, fingindo-se ofendido.
— Aos cinco anos, ela já te tinha topado como sendo o elo mais fraco.
— Lembras-te daquela vez em que ela nos convenceu a treinar a fazer
marcha-atrás na rampa de acesso…
— Convenceu a ti.
— … e arrombou o portão da garagem com o meu carro?
Julia dá uma gargalhada.
— Ficou tão chateada.
— Não, envergonhada. — Por instantes, recorda o ocorrido. Ou pelo
menos um fragmento. Meghan sentada ao volante do seu velho Camry, a
traseira enfiada pelo portão da garagem, a cara dela ruborizada e as
lágrimas a escorrerem-lhe pelas maçãs do rosto enquanto agarrava o volante
até ficar com os nós dos dedos brancos. — Ela era obstinada e inteligente, e
teria feito alguma coisa interessante na vida. — Acaba de beber o café e
serve outra dose da cafeteira em aço inoxidável que pediram para os dois.
— É bom falar sobre ela — diz Julia.
— Ainda bem que finalmente o posso fazer.
O empregado vem perguntar o que querem comer e a borboleta regressa,
pousando na superfície da mesa ao lado do guardanapo de Barry, que ainda
está dobrado. Estende as asas, vaidosa. Ele faz um esforço para afastar a
ideia de que é Meghan, a assombrá-lo neste dia, de entre todos os dias. É
uma ideia estúpida, claro, mas o pensamento per siste. Como daquela vez
em que um tordo o seguiu por oito quarteirões em NoHo ou quando, há
pouco tempo, durante um passeio com o cão no Fort Washington Park, uma
joaninha não parou de lhe pousar no pulso.
Quando a comida chega, Barry imagina Meghan sentada à mesa com
eles. A rebeldia da adolescência aquietada. A vida inteira pela frente. Por
muito que se esforce, não consegue ver a sua cara, apenas as mãos, sempre
em movimento ao falar, tal como a mãe se mexe quando está confiante e
entusiasmada com alguma coisa.
Não tem fome, mas faz um esforço para comer. Parece-lhe que Julia está
a pensar em alguma coisa, mas ela limita-se a remexer com o garfo no que
sobra da sua tortilha e ele beberica um pouco de água, dá outra dentada na
sanduíche e pousa o olhar sobre o rio, ao longe.
O Hudson vem de um lago nas montanhas Adirondack chamado Lake
Tear of the Clouds, o lago das lágrimas das nuvens. Foram lá certo verão
quando Meghan tinha oito ou nove anos. Acamparam no meio dos abetos.
Assistiram a uma chuva de estrelas. Tentaram mentalizar-se de que aquele
pequeno lago na montanha era a nascente do rio Hudson. É umaà frente.
—Do quadragésimo. Parece outro suicídio por SFM.
Barry encosta à berma, sai do carro e desata a correr pela rua, mostrando
o distintivo aos agentes que estão a delimitar a área. Abranda ao chegar ao
pé de um círculo de polícias, paramédicos e bombeiros, todos reunidos à
volta de um Lincoln Town Car preto com o tejadilho completamente
esmagado. Ao aproximar-se, preparara-se para ver os grotescos efeitos
sobre o corpo humano provocados por uma queda de mais de cento e vinte
metros, mas Ann Voss Peters parece quase serena. As únicas lesões externas
visíveis são os pequenos fios de sangue que lhe saem das orelhas e da boca.
Caiu de costas de uma maneira que o tejadilho esmagado do Town Car
parece estar a embalá-la. Tem as pernas cruzadas pelos tornozelos e o braço
esquerdo cruzado por cima do peito e encostado à cara, como se estivesse
só a dormir.
Um anjo caído do céu.
Não é que se tenha esquecido. As suas recordações do Hotel Memória, da
sua morte no tanque de privação sensorial e o regresso à noite em que
Meghan morreu estiveram sempre presentes, nas cercanias da consciência
— um monte de memórias desfocadas.
Porém, os últimos onze anos também se assemelhavam a um sonho. Foi
absorvido pelas minudências da vida e, sem uma ligação palpável à vida da
qual fora arrancado, tornara-se demasiado fácil relegar o que acontecera
para os lugares mais recônditos da consciência e da memória.
Porém, agora, sentado num café nas margens do rio Hudson com Julia e
Meghan na manhã do vigésimo sexto aniversário da filha, tem uma
consciência ofuscante de estar a viver este momento pela segunda vez.
Recorda-se de tudo numa investida de memória translúcida como a água.
Ele e Julia sentados a uma mesa perto deste local, a imaginar o que Meghan
estaria a fazer se ainda fosse viva. Ele supusera que seria advogada.
Tinham-se rido sobre isso e recordado aquela vez em que ela entrara com o
carro pelo portão da garagem, antes de compararem memórias de umas
férias passadas em família na nascente do rio Hudson.
Neste momento, a sua filha está sentada à frente dele e, pela primeira vez
em muito tempo, sente-se desorientado pela presença dela, pelo facto de ela
existir. A sensação é tão forte como os primeiros dias em que regressou à
memória, quando cada segundo resplendecia como uma dádiva.
Pelas três da madrugada, Barry desperta com um tremor ao ouvir fortes
baques no seu apartamento. Levanta-se da cama, saindo aos poucos de
debaixo de um manto de sono enquanto cambaleia para fora do quarto. Jim-
Bob, o cão que resgatou de um abrigo, está a ladrar ferozmente à porta.
Ao espreitar pela vigia da porta, acorda completamente— Julia está
debaixo da luz turva do corredor. Abre o ferrolho, retira a corrente e abre a
porta. Ela tem os olhos inchados de chorar, o cabelo em desalinho e está a
usar uma gabardina por cima do pijama, os ombros cobertos de neve.
—Tentei ligar-te, mas tens o telefone desligado— diz ela.
—O que aconteceu?
—Posso entrar?
Ele cede-lhe passagem e ela entra para o apartamento; nos seus olhos há
uma intensidade frenética. Barry pega-lhe pelo braço com delicadeza e
condu-la até ao sofá.
—Estás a assustar-me, Jules. O que se passa?
Ela olha para ele, trémula.
—Já ouviste falar da síndrome das falsas memórias?
—Já, porquê?
—Acho que sofro disso.
Ele sente um aperto no estômago.
—Porque dizes isso?
—Há uma hora, acordei com umas dores de cabeça terríveis e muitas
memórias de uma outra vida. Memórias cinzentas e desalentadas. —Os seus
olhos enchem-se de lágrimas. —A Meghan morreu atropelada quando
andava no secundário. Nós divorciámo-nos um ano depois disso. Eu casei-
me com um homem chamado Anthony. Tudo muito real, como se o tivesse,
deveras, vivido. Nós os dois tomámos o brunch ontem no mesmo café junto
ao rio, só que a Meghan não estava lá. Estava morta há onze anos. Esta
noite, acordei sozinha na minha cama, sem o Anthony, e percebi que, na
realidade, nós os dois almoçámos com ela ontem, que ela está viva. — As
mãos de Julia tremem violentamente. — O que é real, Barry? Que conjunto
de memórias representa a verdade? — Desata a chorar. — A nossa filha
está viva?
—Está.
—Mas eu lembro-me de ir contigo à morgue. Vi o corpo dela dilacerado.
Ela morreu. Lembro-me como se fosse ontem. Tiveram de me tirar de lá. Eu
estava a gritar. Lembras-te, não lembras? Isso aconteceu? Lembras-te de ela
morrer?
Barry senta-se no sofá de boxers, percebendo que isto tudo faz algum
sentido terrível. Ann Voss Peters saltou do Poe Building há três noites. Ele
tomou o brunch com Meghan e Julia no dia anterior, o que significa que
esta é a noite em que ele foi mandado de volta para a memória da última
vez que viu a sua filha viva. O regresso a este momento deve ter
desencadeado todas as memórias de Julia desse friso cronológico sem vida
de quando Meghan morreu.
—Barry, estou a enlouquecer?
É então que percebe: se Julia tem essas memórias, Meghan também as
deve ter.
Olha para Julia.
—Temos de ir.
—Porquê?
Põe-se de pé.
—Imediatamente.
—Barry…
—Ouve o que te digo! Tu não estás a enlouquecer, não estás maluca.
—Também te lembras de ela morrer?
—Lembro.
—Como é possível?
—Juro que explicarei tudo, mas agora temos de ir ter com a Meghan.
—Porquê?
—Porque ela está a experienciar exatamente a mesma coisa que tu. Está
a lembrar-se da sua própria morte.
Barry mete pela West Side Highway, em direção a sul, debaixo de um
nevão, deixando para trás Washington Heights e a zona norte de Manhattan;
as ruas estão desertas a esta hora da noite.
Julia tem o telemóvel encostado ao ouvido; vai dizendo:
—Meghan, por favor, liga-me quando receberes esta mensagem. Estou
preocupada contigo. Eu e o teu pai estamos a ir para aí. —Olha para Barry
ao seu lado e diz:— Deve estar apenas a dormir. Estamos a meio da noite.
Seguem caminho pelas ruas desertas da zona baixa de Manhattan,
atravessando a ilha rumo a NoHo; os pneus derrapam no alcatrão
escorregadio.
Barry pára em frente ao prédio de Meghan e saem para a neve intensa.
À entrada, carrega cinco vezes na campainha do apartamento de Meghan,
mas ela não atende.
Vira-se para Julia.
—Tens uma chave?
—Não.
Ele começa a tocar nas campainhas de outros apartamentos, até que, por
fim, alguém lhes abre a porta.
O prédio de Meghan é um edifício de aspeto duvidoso do período pré-
guerra e não tem elevador. Barry e Julia sobem a correr seis lanços de
escadas sombrios até ao último andar e correm por um corredor mal
iluminado. O apartamento J fica ao fundo— a bicicleta de Meghan está
encostada ao vidro da saída de emergência.
Ele bate à porta com força com o punho fechado, mas ninguém responde.
Recua um passo, levanta a perna direita e dá um pontapé na porta. Sente
uma dor lancinante pela perna acima, mas a porta apenas estremece.
Desfere outro golpe, agora com mais força.
A porta abre com estrondo e entram de rompante para a penumbra.
—Meghan! – Apalpa a parede e acende as luzes, que iluminam um
minúsculo estúdio. Há uma alcova para dormir à direita, mas não está lá
ninguém. À esquerda, uma cozinha e um pequeno corredor que dá para a
casa de banho.
Começa a caminhar nessa direção, mas Julia passa por ele a correr e a
gritar o nome da filha.
Ao fundo do corredor, deixa-se cair de joelhos e diz:
—Querida, oh, meu Deus, estou aqui.
Barry chega ao fundo do corredor e o coração cai-lhe aos pés. Meghan
está deitada no chão de linóleo e Julia ajoelhada ao lado dela, passando-lhe
a mão pela cabeça. Meghan tem os olhos abertos e, por um agonizante
segundo, pensa que ela está morta.
Ela pestaneja.
Barry levanta o braço de Meghan com cuidado, tomando-lhe o pulso na
artéria radial. Está forte, talvez demasiado forte, e bastante rápido.
Interroga-se se ela se recordará do trauma de ser atingida por um objeto de
duas toneladas a deslocar-se a cem quilómetros por hora, do momento em
que a sua consciência parou, do que quer que tenha acontecido depois.
Como será uma pessoa lembrar-se da própria morte? Como é que alguém se
pode lembrar de um estado de não existência? Trevas? O nada? Parece-lheuma impossibilidade, como fazer uma divisão por zero.
—Meghan— diz baixinho. —Consegues ouvir-me?
Ela mexe-se, fitando-o, e os seus olhos parecem enormes, como se
estivesse mesmo a vê-lo.
—Pai?
—Eu e a mãe estamos aqui, querida.
—Onde é que eu estou?
—No chão da casa de banho do teu apartamento.
—Estou morta?
—Não, é claro que não.
—Tenho uma memória que não existia. Eu tinha quinze anos e ia a pé ter
com os meus amigos ao Dairy Queen. Ia a falar ao telemóvel, não estava a
pensar em nada, e atravessei a rua. Lembro-me de ouvir o motor de um
carro. Virei-me e vi uns faróis a vir na minha direção. Lembro-me de o
carro embater em mim e depois de estar deitada de costas, a pensar em
como tinha sido estúpida. Não me magoei muito, mas não me consegui
mexer, e começou a ficar tudo escuro. Não conseguia ver nada e soube o
que estava para vir. Soube que era o fim de tudo. Tens a certeza de que não
estou morta?
—Estás comigo e com a mãe— diz Barry. —Estás bem viva.
Os olhos de Meghan adejam de um lado para o outro, como um
computador a processar dados.
—Não sei o que é real— diz ela.
—Tu és real. Eu sou real. Este momento é real. —Todavia, mesmo ao
dizê-lo, ele não tem a certeza. Barry perscruta a sua ex-mulher, e ocorre-lhe
que ela se parece com a Julia de antigamente, aquele peso sombrio da morte
de Meghan nos olhos.
—Que conjunto de memórias te parece mais real? — pergunta Julia.
—Um não é mais real do que o outro— diz ela. —É só que estou a viver
num mundo que se alinha com a minha filha estar viva. Graças a Deus. Mas
sinto que vivi as duas realidades. O que está a acontecer-nos?
Barry expira demoradamente e encosta-se à porta do chuveiro.
—Ah… Nem sei o que lhe chamar… Na vida passada em que a Meghan
morreu, eu estava a investigar um caso relacionado com a síndrome das
falsas memórias. Havia coisas que não batiam certo. Certa noite… esta
noite, para ser preciso… encontrei um hotel esquisito. Fui drogado e,
quando despertei, estava amarrado a uma cadeira, virado para um homem
que ameaçou matar-me se eu não lhe contasse os pormenores da noite em
que a Meghan morreu.
—Porquê?
—Não faço ideia. Nem sequer sei o nome dele. Mais tarde, meteram-me
numa câmara de privação sensorial. Ele paralisou-me e depois provocou-me
uma paragem cardíaca. Quando estava a morrer, comecei a experienciar uns
intensos lampejos da memória que lhe tinha descrito. Não sei como, mas a
minha consciência de cinquenta anos foi… devolvida ao corpo da minha
versão de trinta e nove anos.
Julia arregala os olhos e Meghan senta-se direita.
—Sei que parece uma loucura —diz ele—, mas, de repente, dei por mim
na noite em que a Meghan morreu. —Olha para a filha. —Tu tinhas
acabado de sair de casa. Corri atrás de ti e apanhei-te segundos antes de
atravessares a rua e seres atropelada por um Mustang a alta velocidade.
Lembras-te disso?
—Acho que sim. Tu estavas estranhamente emotivo.
—Salvaste-a— diz Julia.
—Eu estava sempre a pensar que tudo não passava de um sonho ou de
uma experiência estranha da qual seria retirado a qualquer momento, mas
os dias passaram, depois os meses, depois os anos, e eu só… deixei seguir o
rumo da nossa vida. Pareceu-me tudo muito normal e, ao fim de algum
tempo, deixei de pensar muito naquilo que me aconteceu. Até há três dias.
—O que foi que aconteceu há três dias?— pergunta Meghan.
—Uma mulher saltou de um prédio no Upper West Side, que foi o evento
que, em primeiro lugar, me levou a investigar aquele caso das falsas
memórias. Foi como acordar de um longo sonho. Um sonho que durou uma
vida. Esta é a noite em que eu fui mandado para aquela outra vida.
Não consegue perceber se a expressão no semblante de Julia é de
incredulidade ou de choque.
Meghan tem os olhos vidrados.
—Eu deveria estar morta— diz.
Barry ajeita-lhe o cabelo atrás das orelhas, como costumava fazer quando
ela era pequena.
—Não, tu estás precisamente onde é suposto estares. Estás viva. Isto é
que é real.
Nesse dia, não vai trabalhar, e não apenas porque chegou ao seu
apartamento às sete da manhã. Receia que as memórias dos colegas sobre a
morte de Meghan também tenham vindo ao de cima na noite passada— um
trecho de onze anos de falsas memórias em que a sua filha não esteve viva.
Quando acorda, há no seu telemóvel uma torrente de notificações da sua
lista de contactos— telefonemas não atendidos e mensagens de voz,
mensagens de texto frenéticas sobre Meghan. Não responde a nenhuma.
Primeiro, precisa de falar com Julia e Meghan. Devem combinar o que
dizer às pessoas, embora não faça ideia do quê.
Vai a pé até ao bar na esquina da rua de Meghan em NoHo para se
encontrar com a filha e a ex-mulher, e dá com elas à espera num
compartimento a um canto, tão perto da cozinha aberta que se consegue
sentir o calor do forno e ouvir o tinido de tachos e panelas e dos alimentos a
crepitar numa grelha.
Barry senta-se ao lado de Meghan e atira o casaco para cima do banco.
Ela está com um ar desgastado, desnorteado, em choque.
Julia não se encontra muito melhor.
—Como vai isso, Megs? — pergunta, mas a filha limita-se a fitá-lo,
inexpressiva.
Ele olha para Julia.
—Falaste com o Anthony?
—Tentei ligar-lhe, mas não consegui falar com ele.
—Estás bem?
Ele abana a cabeça, os olhos brilham com uma luz trémula.
—Mas hoje não se trata de mim.
Pedem comida e uma rodada de bebidas.
—O que vamos dizer às pessoas?— pergunta Julia. —Hoje recebi mais
de uma dúzia de telefonemas.
—Eu também— diz Barry. —Acho que, de momento, devemos manter a
versão de que se trata de síndrome das falsas memórias. Acho que é uma
coisa de que poderão ter ouvido falar.
—Não deveríamos contar às pessoas o que te aconteceu, Barry?—
pergunta Julia. —Sobre aquele hotel estranho, a cadeira, e tu viveres esses
onze anos uma segunda vez…
Barry recorda-se do aviso que lhe fizeram na noite em que regressou à
memória da morte de Meghan.
Não diga a ninguém. Nem à sua mulher, nem à sua filha. A ninguém.
—Este conhecimento de que dispomos, na realidade, é perigoso— diz
ele. —Por agora, temos de guardar segredo. Tentar levar uma vida nor mal
outra vez.
—Como?— pergunta Meghan, conseguindo por fim desenredar a voz. —
Eu já nem sei o que pensar da minha vida.
—No início, as coisas serão estranhas —diz Barry—, mas voltaremos a
encarreirar na nossa existência. Se há alguma coisa a dizer sobre a nossa
espécie, é que sabemos adaptar-nos, não é?
Ali perto, um empregado deixa cair um tabuleiro com bebidas.
Meghan começa a sangrar do nariz.
Ele sente um tremeluzir de dor por trás dos olhos e, do outro lado da
mesa, Julia está sem dúvida a sentir algo do género.
O bar fica em silêncio, todos sentados sem se mexer nas suas mesas.
O único som é a música nos altifalantes e o zumbido proveniente de um
televisor.
Meghan tem as mãos a tremer. Julia também. E ele. Na televisão por
cima do balcão, o apresentador do noticiário está a fitar a câmara, o sangue
a escorrer-lhe pela cara enquanto procura as palavras. «Eu, hum… Vou ser
franco, não sei exatamente o que acabou de acontecer, mas aconteceu
alguma coisa.» A imagem muda para um plano em direto da zona limítrofe
sul do Central Park. Há um prédio na West Fifty-Ninth Street que não
estava ali há instantes. Com bem mais de seiscentos metros de altura, é de
longe o prédio mais alto da cidade, constituído por duas torres, uma na
Sixth Avenue, outro na Seventh, interligados no topo, formando um U
alongado virado ao contrário. Meghan faz um som semelhante a um
queixume. Barry agarra no casaco e desliza para fora do compartimento.
—Aonde vais?— pergunta Julia.
—Venham comigo.
Passam pelos aturdidos clientes do restaurante e saem para a rua, onde se
metem no Crown Vic de Barry. Ele liga as sirenes, acelera rumo a norte pela
Broadway e depois vira para a Seventh Avenue. Barry só as consegue levar
até à West Fifty-Third, onde a rua está intransitável devido ao tráfego. A
toda a volta, as pessoas estão a sair dos carros. Abandonam o carro de Barry
e caminham no meio da turba. Ao fim de vários quarteirões, param no meio
da rua para o veremcom os próprios olhos. Estão rodeados por milhares de
nova-iorquinos, a cabeça virada para o céu, muitos a tirar fotografias e a
fazer vídeos com os telemóveis do novo acréscimo à linha de horizonte de
Manhattan— a torre em forma de U localizada no extremo sul do Central
Park.
—Aquilo não estava ali há instantes, pois não?— diz Meghan.
—Não— concorda Barry. —Não estava, mas ao mesmo tempo…
—Está ali há anos— conclui Julia.
Olham fixamente para o prodígio da engenharia chamado Big Bend
enquanto Barry pensa que, até este momento, a SFM passara despercebida,
registando-se casos isolados que causaram a devastação na vida de
desconhecidos, mas isto afetará todos os habitantes da cidade, e muita gente
de todo o mundo.
Isto mudará tudo.
O pôr do Sol reflete-se no vidro e no aço da torre ocidental do edifício e
as memórias da existência de Barry com este edifício na cidade estão a
chegar em catadupa.
—Eu estive na cobertura— diz Meghan; as lágrimas correm-lhe pela
cara.
É verdade.
—Contigo, pai. Foi a melhor refeição da minha vida.
Quando ela concluiu o bacharelato em Serviço Social, ele levou-a
a jantar no Curve, o restaurante na cobertura com uma vista espetacular
sobre o parque. Não foram apenas as vistas que os levaram lá; Meghan era
apaixonada pela cozinha do chef, Joseph Hart. Barry lembra-se
distintamente de seguir num elevador que mudou de uma subida vertical
para uma ascensão a quarenta e cinco graus através do ângulo inicial da
curva até uma translação horizontal ao longo do topo da torre.
Quanto mais olha para o edifício, mais lhe parece um objeto que faz parte
desta realidade.
A sua realidade.
Seja lá o que for que isso significa.
—Pai?
—Sim? – Tem o coração acelerado; sente-se indisposto.
—Este momento é real?
Barry olha para ela.
—Não sei.
Duas horas mais tarde, Barry entra no bar de gosto duvidoso perto da
casa de Gwen em Hell’s Kitchen e senta-se no banco ao lado dela.
—Estás bem?— pergunta Gwen.
—Alguém está bem?
—Tentei ligar-te hoje de manhã. Acordei com uma história alternativa da
nossa amizade. Nessa versão, a Meghan morreu atropelada quando tinha
quinze anos. Ela está viva, não está?
—Acabei de estar com ela.
—Como é que ela está?
—Com franqueza? Não sei. Ontem à noite, recordou a própria morte.
—Como é que isso é possível?
Ele espera que lhes sirvam as bebidas e depois conta-lhe tudo, incluindo
a extraordinária experiência com a cadeira.
—Recuaste a uma memória?— murmura, acercando-se dele. Cheira a
uma mistura de Wild Turkey, um champô qualquer e pólvora, o que leva
Barry a questionar-se se ela terá vindo direta para aqui desde o campo de
tiro, onde ela dá um espetáculo digno de se ver. Ele nunca viu ninguém
disparar como Gwen.
—Sim, e depois comecei a vivê-la, mas desta vez com a Meghan viva.
Até este momento.
—Achas que a SFM é, na verdade, isto?— pergunta ela. —Mudar
memórias para mudar a realidade…
—Eu sei que é.
Na televisão sem som por cima do balcão, Barry vê a fotografia de um
homem que reconhece de algures. De início, não consegue associá-lo a uma
memória. Barry lê a legendagem de áudio do apresentador do noticiário.
«Amor Towles, ilustre arquiteto do Big Bend, foi assassinado no seu
apartamento, onde o encontraram há uma hora quando…»
—Este edifício, o Big Bend, é um produto da cadeira?— pergunta Gwen.
—Sim. Quando estive naquele hotel esquisito, estava lá um fulano, um
cavalheiro mais velho. Acho que estava a morrer. Ouvi uma conversa em
que disse que era arquiteto e que, quando regressasse à sua memória, iria
dedicar-se a um edifício de que sempre se arrependera de não ter
construído. Na verdade, estava previsto ele ir para a cadeira hoje, que é o
dia em que a realidade mudou para todos nós. Suponho que o mataram por
violar as regras.
—Que regras?
—Eles disseram-me que era suposto eu viver a minha vida um pouco
melhor. Não me aproveitar do sistema. Nada de mudanças extremas.
—Sabes porque é que esse homem que construiu a cadeira está a permitir
às pessoas refazerem as suas vidas?
Barry emborca o resto da cerveja.
—Não faço ideia.
Gwen sorve o uísque. O empregado desliga a jukebox e aumenta o som
da televisão. Vai passando pelos canais, e todos eles estão a cobrir
ininterruptamente a história do edifício desde que este apareceu de tarde.
Na CNN, arranjaram uma «especialista» em síndrome das falsas memórias
para especular sobre aquilo que estão a apelidar de «disfunção de memória»
em Manhattan. Diz a comentadora: «Se não podemos confiar na memória,
se o passado e o presente podem simplesmente mudar sem aviso prévio,
então aquilo que é factual e verdadeiro deixará de existir. Como podemos
viver num mundo assim? É por isso que assistimos a uma epidemia de
suicídios.»
—Sabes onde fica esse hotel?— pergunta Gwen.
—Já lá vão onze anos… pelo menos na minha mente… mas é provável
que o consiga encontrar. Sei que fica em Midtown, partindo do princípio de
que ainda está lá.
—Os nossos cérebros não foram criados para lidar com uma realidade
que está a mudar constantemente as nossas memórias e a alterar o nosso
presente— diz Gwen. —E se isto for apenas o princípio?
Barry sente o telemóvel no bolso.
—Dá-me licença.
Tira o telemóvel do bolso e lê uma mensagem de texto de Meghan:
Pai. Não aguento mais isto.
Não sei quem sou. Só sei que o meu lugar não é aqui. Lamento muito. Amar-te-
ei sempre.
Barry salta do banco.
—O que foi?— pergunta Gwen.
Ele desata a correr para a porta.
As chamadas para o telemóvel de Meghan estão sempre a ser
encaminhadas para o correio de voz. No rescaldo do aparecimento do Big
Bend, as ruas da cidade continuam apinhadas.
Enquanto Barry conduz rumo a NoHo, pega no microfone do rádio e
contacta a New York One para solicitar que uma unidade nas redondezas do
apartamento de Meghan passe por lá para ver se está tudo bem.
—Daqui New York One, 158, refere-se ao 904B na Bond Street? Já temos
várias unidades e corporações de bombeiros no local e ambulâncias a
caminho.
—O que está para aí a dizer? Que edifício?
—Número 12 da Bond Street.
—É o prédio da minha filha.
O rádio fica em silêncio.
Barry larga o microfone e liga as luzes de emergência e a sirene,
serpenteando pelo meio dos outros carros, contornando autocarros,
atravessando cruzamentos sem parar.
Quando vira para a Bond Street vários minutos depois, abandona a sua
viatura junto à barreira policial e corre para os carros dos bombeiros que
lançam jatos de água para a fachada do prédio de Meghan, onde as
labaredas voluteiam pelas janelas do quinto andar. O ambiente é caótico—
há uma fileira de luzes de emergência e agentes da polícia a delimitar o
espaço com fita para manter os moradores dos edifícios vizinhos a uma
distância segura enquanto os residentes do prédio de Meghan saem pela
porta da frente.
Um polícia tenta travá-lo, mas Barry dá um safanão com o braço, mostra-
lhe o distintivo e abre caminho, passando pelos carros de bombeiros até
chegar à entrada do prédio, onde o calor das chamas lhe alaga a cara de
suor.
Um bombeiro sai a cambalear pela porta da frente, que fora entretanto
arrancada pelas dobradiças. Traz ao colo um homem mais velho e ambos
têm as caras chamuscadas.
Um tenente dos bombeiros —um gigante de barba— põe-se à frente de
Barry e trava-lhe a passagem.
—Vá para trás da fita.
—Sou polícia e a minha filha mora neste prédio! – Aponta para as
labaredas que saem pela janela do piso superior no extremo mais afastado.
—As chamas estão a sair do apartamento dela!
O tenente faz uma expressão desanimada. Puxa Barry pelo braço e
afasta-o de uma fileira de bombeiros que levam uma mangueira até à boca
de incêndio mais próxima.
—O que foi?— pergunta Barry. —Diga-me.
—O incêndio deflagrou na cozinha daquele apartamento. Está neste
momento a propagar-se pelo quarto e pelo quinto pisos.
—Onde está a minha filha?
O homem respira fundo e olha por cima do ombro.
—Onde está a minha filha, foda-se?!
—Olhe para mim— diz o homem.
—Conseguiram tirá-la de lá?
—Sim. Lamento muito dizer-lhe isto, mas ela morreu.
Barry recua a cambalear.
—Como?
—Encontraram umagarrafa de vodca e alguns comprimidos na cama
dela. Achamos que ela os tomou e depois tentou fazer chá, mas perdeu a
consciência pouco depois. Havia alguma coisa em cima do balcão
demasiado perto de um bico do fogão. Foi acidental, mas…
—Onde é que ela está?
—Vamos sentar-nos e…
—Onde é que ela está?!
—No passeio, do outro lado daquele camião.
Barry começa a caminhar para lá, mas de repente o homem agarra-o
pelas costas com a força de um urso.
—De certeza que quer fazer isso, amigo?
—Largue-me!
O homem larga-o, e Barry caminha por cima de mangueiras, passando à
frente do carro dos bombeiros, aproximando-se das chamas. A agitação
desaparece. Tudo o que vê são os pés descalços de Meghan a espreitar por
debaixo de um lençol branco que lhe cobre o corpo, completamente
encharcado e quase transparente por causa da água das mangueiras.
As suas pernas vão-se abaixo.
Senta-se no passeio e chora, com a água a cair-lhe em cima.
As pessoas tentam falar com ele, convencê-lo a acompanhá-las, mas ele
não as ouve nem as vê.
Tem o olhar perdido no infinito.
Pensa: Perdi-a duas vezes.
Passaram duas horas desde que Meghan morreu e ele ainda tem as roupas
húmidas.
Barry estaciona na Penn Station e começa a caminhar rumo a norte desde
a Thirty-Fourth Street, tal como fez quando regressou de Montauk no
comboio noturno, na noite em que encontrou o Hotel Memória.
Nessa noite, estava a nevar.
Agora está a chover; os edifícios estão envoltos num manto de neblina
acima dos quinquagésimos andares e o ar tão frio que a sua respiração se
transforma em vapor.
Caiu sobre a cidade um estranho silêncio.
Poucos carros a circular.
Menos pessoas nos passeios.
Sente as lágrimas frias na cara.
Ao fim de três quarteirões, abre o guarda-chuva. Na sua mente, passaram
onze anos desde a noite em que entrou no Hotel Memória.
Cronologicamente, aconteceu hoje, mas numa falsa memória.
Quando Barry chega à West Fiftieth, está a chover com mais intensidade,
o manto de nuvens desceu entretanto. Tem a certeza de que o hotel ficava
na Fiftieth e está convencido de que nesse dia seguia para leste.
Vislumbra constantemente as duas bases do edifício Big Bend, as suas
luzes são visíveis debaixo da chuva. A parte de cima está encoberta pelas
nuvens a cerca de seiscentos metros no alto.
Faz um grande esforço para não pensar em Meghan neste momento,
porque, quando pensa, vai-se abaixo outra vez, e tem de ser forte, precisa de
manter a presença de espírito.
Com frio e fatigado, começa a pensar que, se calhar, naquela noite,
caminhou para oeste, quando um letreiro de néon vermelho ao longe chama
a sua atenção.
McLachlan’s Restaurant
Pequenos-almoços
Almoços
Jantares
Aberto todos os dias
24 Horas
Barry caminha na direção do letreiro até ficar por debaixo deste, a ver a
chuva cair pelo meio da iluminação vermelha.
Estuga o passo.
Passa pela loja de vinhos, da qual está recordado, e depois a loja de
venda de bebidas alcoólicas, uma boutique de roupa de senhora, um banco
—tudo fechado— até que, quase a chegar ao fundo do quarteirão, detém-se
à entrada da rampa de acesso sombria, inclinada para o espaço subterrâneo
por debaixo de um edifício neogótico encurralado entre dois arranha-céus
mais altos.
Se descesse aquela rampa de acesso, chegaria a um portão em aço
reforçado.
Foi por ali que entrou no Hotel Memória há todos aqueles anos.
Tem a certeza absoluta.
Em parte apetece-lhe descer a rampa, entrar de rompante, alvejar todas as
malditas pessoas com que se cruzar dentro daquele hotel e acabar com o
homem que o pôs na cadeira. Por causa dele, o cérebro de Meghan não
aguentou. Por causa dele, ela está morta. Tem de acabar com o Hotel
Memória.
Porém, ao fazer isso, provavelmente acabaria por morrer.
Não. Ao invés, pretende telefonar a Gwen, propor-lhe uma operação não
oficial e clandestina com um punhado de colegas da SWAT. Se ela insistir,
ele levará uma declaração escrita a um juiz. Cortarão a eletricidade no
prédio, entrarão com óculos de visão noturna, farão uma busca piso a piso.
É evidente que alguns cérebros, como o de Meghan, não conseguem lidar
com a mudança da sua realidade e os danos colaterais também são trágicos
—além da sua filha, morreram três pessoas no prédio dela vítimas do
incêndio e, na viagem até à Penn Station, ouviu no rádio mais relatos de
pessoas— perturbadas pelo aparecimento do Big Bend— que espalharam o
caos pela cidade.
Mentes sãs estão a ficar doentes; mentes doentes estão a ser levadas para
lá do limite.
Pega no telemóvel, acede aos contactos e desliza até aos nomes
começados por G.
Quando tem o dedo por cima do nome Gwen, alguém grita o seu nome.
Olha para o outro lado da rua e vê alguém correr para ele.
—Não faças esse telefonema!— grita uma voz de mulher.
Ele já está a meter a mão por dentro do casaco, a desapertar o botão do
coldre de trazer ao ombro, a agarrar com firmeza a pequena Glock, a pensar
que o mais certo é ela trabalhar para o homem que criou a cadeira, o que
quer dizer —foda-se!— que sabem que ele está a pensar em atacar o
edifício.
—Barry, não dispares, por favor.
Ela começa a caminhar e levanta as mãos.
Estão abertas, vazias.
A mulher aproxima-se com cautela; terá pouco mais de um metro
e sessenta, usa botas e um blusão de couro preto coberto de gotas da chuva.
Um tufo de cabelos ruivos chega-lhe ao maxilar, mas está encharcado. Ela
tem estado à espera dele à chuva. O que o deixa sem reação é a bondade dos
seus olhos verdes, e outra coisa, que lhe parece —estranhamente— familiar.
—Eu sei que foste mandado para a pior memória da tua vida— diz ela.
—O homem por trás disso chama-se Marcus Slade e é o dono desse prédio.
E sei o que acabou de acontecer à Meghan. Lamento, Barry. Sei que queres
fazer alguma coisa em relação a isso.
—Trabalhas para eles?
—Não.
—Consegues ler pensamentos?
—Não.
—Então, como podes saber o que me aconteceu?
—Tu disseste-me.
—Nunca te vi na vida.
—Disseste-me no futuro, daqui a quatro meses.
Barry baixa a pistola, um nó cego no cérebro.
—Usaste aquela cadeira?
Ela fita-o nos olhos com uma intensidade que lhe provoca uma descarga
de eletricidade fria pela espinha abaixo.
—Eu inventei a cadeira.
—Quem és tu?
—Helena Smith, e se entrares no edifício do Slade com a Gwen, será o
fim de tudo.
«O tempo é que impede que todas as coisas
aconteçam em simultâneo.»
RAY CUMMINGS
BARRY
6 de novembro de 2018
A mulher de cabelos ruivos agarra Barry pelo braço e puxa-o pelo
passeio, afastando-o da entrada da garagem subterrânea.
—Não estás em segurança aqui— diz ela. —Vamos caminhar até ao teu
carro. Ficou na Penn Station, certo?
Barry liberta o braço e começa a caminhar na direção oposta.
—Na rampa de acesso da tua casa em Portland, a ver o eclipse solar total
com o teu pai— diz ela nas suas costas. —Passar os verões com os teus
avós na herdade do New Hampshire. Costumavas ficar sentado no pomar de
macieiras a imaginar histórias intrincadas. —Barry detém a marcha e olha
para ela. —Embora tenhas ficado devastado quando a tua mãe morreu,
também ficaste grato —continua ela—, pois soubeste quando a sua hora
chegaria e tiveste a oportunidade de uma despedida como mandam as
regras, de assegurares que ela sabia que a amavas. Não tiveste essa‐ 
oportunidade no caso do teu pai, que morreu de repente quando tinhas
quinze anos. Ainda hoje acordas a meio da noite questionando-te se
também ele sabia que o amavas.
Quando chegam ao seu Crown Vic, ele está a tremer. Helena põe-se de
joelhos no pavimento molhado e passa a mão pela parte inferior da
carroçaria.
—O que estás a fazer?— questiona Barry.
—A certificar-me de que o teu carro não tem um dispositivo
de localização.
Entram para se abrigarem da chuva, ele liga o aquecimento e espera que
o motor aqueça o ar frio que sopra pela ventilação.
Durante a caminhada de quarenta minutos desde a Fiftieth, Helena
contou-lhe uma história de loucos em que ele não sabe bem se há de
acreditar, algo sobre ela ter criado a cadeira por acidente numa plataforma
petrolífera desmantelada num friso cronológico anterior.
—Tenhotantas coisas para te contar…— diz Helena, pondo o cinto de
segurança.
—Podemos ir para o meu apartamento.
—Não é seguro. O Marcus Slade sabe quem és, onde vives. Se, em
algum ponto no futuro, ele perceber que estamos a trabalhar juntos, irá
utilizar-te para chegar até mim. Ele pode utilizar a cadeira para regressar à
noite de hoje e encontrar-nos neste momento. Tens de deixar de pensar de
forma linear. Não fazes ideia do que ele é capaz.
As luzes do Battery Tunnel passam como um córrego por cima das suas
cabeças e Helena está a explicar como escapou da plataforma petrolífera de
Slade para a sua própria memória e fugiu para o Canadá.
—Estava disposta a viver o resto da vida na clandestinidade
ou a suicidar-me caso o Slade me encontrasse. Vivia completamente só. A
minha mãe morreu em 2011 e o meu pai pouco depois. Então, em 2016,
começaram a circular os primeiros relatos de uma nova doença misteriosa.
—A síndrome das falsas memórias.
—Só recentemente é que a SFM se tornou conhecida do público, mas eu
percebi logo que era o Slade. Durante os dois primeiros anos em que andei
escondida, ele não teria qualquer memória do tempo que passámos juntos
na plataforma. Na sua mente, eu teria desaparecido depois de o Jee-woon
me fazer a proposta de trabalho. Mas quando regressámos a 2009,
especificamente à noite em que eu fugi utilizando a cadeira, o Slade ganhou
todas as memórias do nosso tempo juntos. Eram memórias mortas, é claro,
mas… e foi aqui que o meu cálculo saiu errado… continham informação
suficiente para ele conseguir construir sozinho a cadeira e todos os seus
componentes.
» Vim para Nova Iorque, que me pareceu ser o foco principal do surto de
SFM, presumindo que o Slade construíra um laboratório novo na cidade e
estaria a testar a cadeira em pessoas, mas não o consegui encontrar.
Estamos quase a chegar.
Bem no meio de Red Hook, Barry passa devagar por uma fila de
armazéns ao longo da margem. Helena aponta para o seu prédio, mas obriga
Barry a estacionar a cinco quarteirões de distância num beco escuro,
fazendo marcha-atrás para a penumbra entre dois contentores do lixo a
abarrotar.
Entretanto, parou de chover.
Lá fora está uma calmaria desconcertante, pairando no ar o cheiro do lixo
molhado e dos charcos de água da chuva estagnada. Barry não consegue
esquecer o último vislumbre que teve de Meghan— deitada no passeio
encardido defronte do seu prédio, os pés descalços a espreitarem por
debaixo do lençol molhado.
Barry engole a mágoa, abre a bagageira e tira de lá a sua espingarda e
uma caixa de munições.
Caminham por passeios rachados menos de meio quilómetro; Barry
segue atento a veículos ou a passos a aproximarem-se, mas o único barulho
que se ouve é o zumbido distante de helicópteros a voar em círculos sobre a
cidade e as buzinas graves das barcas no East River.
Helena condu-lo até uma porta de metal não identificada na lateral de um
prédio na primeira linha junto à água, onde ainda se pode ver o letreiro da
fábrica de cerveja que ali operou.
Introduz o código de abertura da porta, indica o caminho para o interior e
acende a luz. O armazém tresanda a cereais mofentos e o eco dos seus
passos enche o espaço como numa catedral em ruínas. Passam por filas de
cisternas de fabrico de cerveja em aço inoxidável, um tonel de farinha de
malte enferrujado e, por fim, o que restou de uma linha de engarrafamento.
Sobem quatro lanços de escada até umas amplas águas-furtadas com
janelas que vão do chão até ao teto e que têm vista para o rio, a Governors
Island e o reluzente extremo sul de Manhattan.
No chão correm cabos e um labirinto de placas de circuitos desmontadas.
Há uma prateleira de servidores adaptados a zumbir ao longo de uma velha
parede de tijolo e o que parece ser uma cadeira em fase de construção—
uma estrutura em madeira não tratada com feixes de fios elétricos à vista ao
longo dos braços e das pernas. Um objeto que faz lembrar vagamente um
capacete está preso a uma bancada de trabalho e rodeado de uma
extravagância de circuitos não concluídos.
—Estás a construir a tua própria cadeira?— pergunta Barry.
—Subcontrato algum trabalho de programação e engenharia, mas já a
construí duas vezes, por isso tenho alguns truques na manga e bastantes
fundos resultantes dos meus investimentos. Os avanços no processamento
informático diminuíram bastante os custos desde os tempos da plataforma.
Tens fome?
—Não.
—Pois… mas eu estou faminta.
Atrás dos servidores há uma pequena cozinha e, do outro lado,
posicionada ao longo das janelas, um toucador e uma cama. Sem uma
separação concreta entre os espaços de trabalho e de lazer, as águas-furtadas
parecem precisamente aquilo que são— o laboratório de uma cientista
desesperada, possivelmente louca.
Barry lava a cara no lavatório da casa de banho e, quando sai, dá com
Helena junto ao fogão às voltas com duas caçarolas.
—Adoro huevos rancheros— diz ele.
—Eu sei. E adoras mesmo os meus. Bem, tecnicamente, a receita é da
minha mãe. Senta-te.
Barry senta-se a uma pequena mesa de fórmica e ela leva-lhe um prato.
Barry não tem fome, mas sabe que deve comer. Corta um dos ovos
malpassados, e a gema escorre para os feijões e para o molho verde. Leva
um grande pedaço à boca. Ela tinha razão— são os melhores que alguma
vez comeu.
—Agora tenho de te falar sobre coisas que ainda não aconteceram— diz
Helena.
Barry fita-a por cima da mesa e parece-lhe que o seu olhar é um tanto
alucinado, como que desligado da realidade.
—Depois do aparecimento do Big Bend, a febre da SFM atingirá o
apogeu. Por incrível que pareça, continuará a ser considerada uma epidemia
misteriosa sem um agente patogénico identificável, apesar de um punhado
de fisicistas teóricos começarem a avançar com ideias sobre buracos de
minhoca em miniatura e a pos sibilidade de alguém estar a fazer
experiências com o espaço-tempo.
» Depois de amanhã, vais levar uma equipa da SWAT ao hotel do Slade.
Ele e a maioria da sua equipa morrerão durante a incursão. Os jornais
noticiarão que o Slade tem andado a disseminar um vírus neurológico que
ataca áreas do cérebro que armazenam a memória. Os serviços noticiosos
andarão obcecados com isto durante algum tempo, mas dentro de um mês, a
histeria do público esmorecerá. Parecerá que o mistério foi resolvido, a
ordem restaurada, e que não haverá mais casos de SFM.
Enquanto Helena leva umas garfadas à boca, Barry percebe que se
encontra sentado à frente de uma mulher que está a revelar-lhe o futuro,
mas isso nem sequer é a parte mais estranha. A parte mais estranha é que
começa a acreditar nela.
Helena pousa o garfo.
—Mas eu sei que não acabou— diz ela. —Imagino o pior. Que depois da
tua incursão com a SWAT, a cadeira caiu nas mãos de outra pessoa. Por
isso, dentro de um mês, irei à tua procura. Provarei a minha boa-fé dizendo-
te exatamente aquilo que encontraste no laboratório do Slade.
—E eu acreditarei em ti?
—Acabarás por acreditar. Dizes-me que, durante a incursão, antes de o
Slade ser morto, tentou destruir a cadeira e os processadores, mas que
algumas partes se salvaram. Chegaram uns agentes do Governo… não sabes
para quem trabalhavam… e levaram tudo. Não há forma de eu ter
conhecimento, mas presumo que não saibam para que serve a cadeira nem
como funciona. Está quase totalmente danificada, mas eles trabalham dia e
noite para descobrir. E se eles forem bem-sucedidos, consegues imaginar?
Barry vai ao frigorífico, a mão treme-lhe ao abrir a porta para tirar de lá
duas garrafas frias.
Volta a sentar-se.
—Quer dizer que a minha incursão ao laboratório do Slade resulta nisto.
—Sim. Tu experienciaste a cadeira. Conheces o seu poder. Pelo que
consigo perceber, o Slade está a utilizá-la para enviar uns poucos escolhidos
de regresso às suas memórias. Vá-se lá saber porquê. Mas vê só o pavor e o
pânico que está a causar. Não será preciso baralhar muito a realidade para a
humanidade descarrilar completamente. Temos de o travar.
—Com a tua cadeira?
—Só ficará operacional dentro de quatro meses. Quanto mais tempo
esperarmos, maiores serão asprobabilidades de alguém encontrar o
laboratório do Slade antes de lá irmos. Tu já deste algumas pistas à Gwen e,
assim que as pessoas souberem da existência da cadeira, as memórias que
têm dela regressarão sempre, independentemente do número de vezes que
um friso cronológico seja alterado. Da mesma forma que, na noite passada,
a Julia e a Meghan se lembraram de a Meghan morrer atropelada.
—As suas memórias só chegaram quando ela atingiu o momento em que
eu utilizei a cadeira no último friso cronológico. Funciona sempre assim?
—Sim, porque foi nesse momento que a sua consciência e as memórias
do friso cronológico anterior se fundiram neste. Penso nisso como o
aniversário de um friso cronológico.
—Então, o que propões fazer?
—Nós os dois assumimos o controlo no que toca ao Slade amanhã.
Destruímos a cadeira, o software, toda a infraestrutura, todos os vestígios da
sua existência. Eu tenho um vírus preparado para carregar na rede
autónoma dele assim que estivermos lá dentro. O vírus reformatará tudo.
Barry bebe a cerveja e sente um aperto no estômago.
—A minha versão do futuro concordou com este plano?
Helena sorri.
—Na verdade, tivemos a ideia juntos.
—Eu achei que nós os dois teríamos alguma hipótese?
—Com franqueza?… Não.
—O que é que achas?
Helena recosta-se na cadeira. Parece exausta.
—Acho que somos a melhor hipótese que o mundo tem.
Barry está de pé junto à fachada envidraçada perto da cama de Helena a
contemplar a cidade do outro lado do rio negro como o breu. Espera que
Julia esteja bem, mas tem dúvidas. Quando lhe telefonou, ela desatou a
chorar, desligou e não atendeu mais os seus telefonemas. E por isso
convenceu-se de que ela o culpa, pelo menos em parte.
O Big Bend domina agora a linha do horizonte e ele questiona-se se
alguma vez se habituará ao edifício ou se sempre —para ele e para os
outros— representará a falibilidade da realidade.
Helena aproxima-se.
—Estás bem?— pergunta.
—Não consigo deixar de ver a Meghan morta no passeio. Quase tive um
vislumbre da cara por debaixo do lençol molhado com que a cobriram.
Voltar atrás e viver aqueles onze anos… Em última análise, não solucionou
coisa alguma para a minha família.
—Lamento muito, Barry.
Ele olha para ela.
Inspira, expira.
—Já alguma vez utilizaste uma arma?— pergunta.
—Já.
—Há pouco tempo?
—A tua versão do futuro sabia que seríamos só nós os dois a invadir o
edifício do Slade, por isso começaste a levar-me ao campo de tiro.
—Tens a certeza de que estás preparada para isto?
—Construí a cadeira por causa da minha mãe, que sofria de Alzheimer.
Queria ajudá-la e a outras pessoas como ela. Pensei que, se conseguíssemos
descobrir como capturar memórias, seríamos capazes de compreender como
impedir que fossem apagadas de todo. Não queria que a cadeira se tornasse
aquilo que tornou. Além de destruir a minha vida, agora está a destruir a
vida de outros. Houve pessoas que perderam entes queridos, vidas inteiras
apagadas. Filhos apagados.
—Tu não querias que nenhuma dessas coisas acontecesse.
—Porém, aconteceram. E foi a minha ambição que pôs este aparelho nas
mãos do Slade, e, mais tarde, de outros. —Olha para Barry. —Tu estás aqui
por minha causa. O mundo está a perder o juízo coletivo por minha causa.
Há ali a merda de um prédio que não estava lá ontem por minha causa. Por
isso, estou-me nas tintas para o que me acontecer amanhã, desde que
destrua todos os vestígios da existência da cadeira. Se for preciso, estou
preparada para morrer.
Ele só agora percebeu— o peso que ela carrega nos ombros. O ódio por
si mesma e o arrependimento. Deve ser horrível criar uma coisa capaz de
destruir a estrutura da memória e do tempo. Deve ser complicado reprimir o
peso de toda aquela culpa, horror, terror e ansiedade.
—Apesar de tudo —diz Barry—, graças a ti, tive a oportunidade de ver a
minha filha crescer.
—Não quero parecer insensível, mas não deverias ter visto. Se não
pudermos confiar na memória, a nossa espécie irá ficar feita em pedaços. E
isso já começou a acontecer.
Helena fixa o olhar na cidade do outro lado da água e Barry pensa que a
vulnerabilidade dela neste momento tem algo de avassalador.
—Talvez seja melhor dormirmos um pouco— diz ela. —Podes ficar na
minha cama.
—Não te vou tirar a tua cama.
—De qualquer forma, eu durmo no sofá na maior parte das noites, para
poder adormecer com o som da televisão.
E vira-lhe as costas.
—Helena.
—O que foi?
—Sei que não te conheço, mas tenho a certeza de que a tua vida não se
resume àquela cadeira.
—Não. Ela define-me. Passei a primeira parte da minha vida a tentar
construí-la. Passarei o que sobra a tentar destruí-la.
HELENA
7 de novembro de 2018
Deita-se virada para a televisão, a luz do ecrã a tremeluzir nas pálpebras
fechadas e o volume do som no ponto certo para envolver a sua mente em
constante agitação. Alguma coisa a arrasta para uma consciência completa e
súbita. Senta-se como uma mola no sofá. É apenas Barry, a chorar baixinho
na outra ponta do quarto. Tem vontade de se meter na cama com ele e
reconfortá-lo, mas seria demasiado cedo— são praticamente desconhecidos.
De qualquer maneira, talvez ele precise de fazer o luto sozinho por agora.
Recosta-se nas almofadas, as molas do sofá a ranger ao puxar os
cobertores até ao pescoço. Não lhe passa despercebido como é desusado
lembrar-se do futuro. A memória da despedida entre ela e Barry nesta
mesma sala, dentro de quatro meses, continua a causar-lhe uma forte dor de
cabeça. Ela estava a boiar no tanque de privação sensorial e Barry inclinou-
se e beijou-a. Tinha os olhos banhados em lágrimas ao fechar a escotilha.
Ela também. O futuro de ambos parecia tão promissor, e ela pôs-lhe um
fim.
O Barry que ela deixou para trás já sabe se ela foi bem-sucedida. Terá
sabido no instante em que ela morreu no tanque, quando a sua realidade se
alterou instantaneamente para se alinhar com esta nova realidade que ela
está a criar.
Resiste ao impulso de acordar o Barry do presente e dizer-lhe. Isso
apenas dificultaria a incursão no laboratório de Slade no dia seguinte,
lançando sobre as coisas um cariz emocional. E o que diria ele? Haveria
faíscas? Química? O melhor é manter o plano. O que importa é que o dia
seguinte corra bem. Não pode anular o mal que a sua mente trouxe ao
mundo, mas talvez possa sarar a ferida, estancar a hemorragia.
Em tempos, teve grandes sonhos— erradicar os efeitos de uma doença
que destrói a memória. Agora, com a mãe e o pai mortos e sem amigos de
verdade com quem falar a não ser um homem que se encontra quatro meses
mais à frente num futuro inalcançável, os seus sonhos deixaram de ser
mudar o mundo e tornaram-se desesperadamente pessoais.
Gostaria apenas de ser capaz de se deitar à noite e apreciar alguma paz de
espírito, manter a mente tranquila.
Tenta dormir, ciente de que precisa mais disso esta noite do que talvez
em qualquer outra noite da sua vida.
Por isso, é claro que o sono lhe foge.
Ao final do dia, esgueiram-se pelas traseiras do prédio, demorando algum
tempo a sondar as ruas das redondezas antes de se aventurarem no espaço
aberto. A zona é formada sobretudo por edifícios industriais abandonados,
há pouco tráfego e nada levanta suspeitas.
Quando Barry os leva por uma estrada que atravessa Brooklyn Heights,
olha de relance para ela.
—Ontem à noite, quando me mostraste a cadeira, disseste que
a construíste duas vezes antes. Quando foi a primeira vez?
Ela beberica um pouco de café que levou consigo— o seu talismã contra
a noite anterior de miserável insónia.
—No friso cronológico original, eu chefiava um grupo de investigação e
desenvolvimento em São Francisco, para uma empresa chamada Ion, que
não estava interessada nas aplicações clínicas da minha cadeira. Apenas
viam o valor no que respeita ao entretenimento, fazendo contas aos milhões
que daí adviriam. Eu não estava a avançar, sentia-me esgotada e não tinha
resultados para apresentar. A Ion estava na iminência de acabar o
financiamento para a minha investigação quando uma cobaia teve um
enfarte e morreu no tanque de privaçãosensorial. Todos experienciámos
uma ligeira mudança de realidade, mas ninguém percebeu o que tinha
acontecido, a não ser o meu assistente, o Marcus Slade. Tenho de dar a mão
à palmatória: ele compreendeu aquilo que eu tinha criado ainda antes de
mim.
—O que aconteceu?
—Uns dias mais tarde, pediu para se reunir comigo no laboratório. Disse
que era urgente. Quando lá cheguei, apontou-me uma arma. Obrigou-me a
iniciar sessão no sistema e a carregar um programa de reativação para uma
memória que mapeáramos para ele. Depois de eu fazer o que ele pediu,
matou-me.
—Quando foi isso?
—Há dois dias, a 5 de novembro de 2018, mas, é claro, isso aconteceu há
muitos frisos cronológicos.
Barry segue pela saída para a ponte de Brooklyn.
—Não te quero contradizer —diz ele—, mas não poderias ter regressado
a uma memória diferente?
—Por exemplo, impedir o meu nascimento para que a cadeira nunca
fosse criada?
—Não era isso que queria dizer.
—Eu não posso voltar ao passado e impedir o meu nascimento. Outra
pessoa será capaz de o fazer, e então tornar-me-ei uma memória morta.
Porém, no que respeita à cadeira, não há um «paradoxo do avô» ou
qualquer paradoxo temporal. Tudo o que acontece, mesmo que seja mudado
ou impedido de acontecer, persiste nas memórias mortas. A causa e o efeito
mantêm-se.
—Está bem. Então, o que me dizes de regressar a uma memória na
plataforma petrolífera? Poderias atirar o Slade ao mar ou algo do género.
—Tudo o que aconteceu na plataforma existe em memórias mortas, às
quais não é possível regressar. Nós tentámos, mas os resultados foram
desastrosos. Mas sim, eu deveria tê-lo matado quando tive oportunidade.
Vão agora a meio caminho, atravessando a ponte, cujas travessas por
cima das suas cabeças ficam para trás a grande velocidade. Talvez seja do
café, talvez da proximidade da cidade, mas, de súbito, ela está bem
desperta.
—O que são memórias mortas?— pergunta Barry.
—É aquilo que toda a gente pensa que são as falsas memórias. Só que
não são falsas. Apenas aconteceram num friso cronológico a que alguém
pôs um fim. Por exemplo, o friso cronológico em que a tua filha foi
atropelada é agora uma memória morta. Tu acabaste com esse friso
cronológico e iniciaste este quando o Slade te matou no tanque de privação
sensorial.
Vão até Midtown, seguem para Norte pela Third Avenue e depois viram
à esquerda para a East Forty-Ninth, estacionando por fim na berma mesmo
antes de chegarem à pretensa entrada do prédio de Slade— um átrio de
fachada com uma fila de elevadores que não levam a parte alguma. A única
maneira real de entrar é pelo parque de estacionamento subterrâneo na
Fiftieth.
Quando saem do carro, chove a cântaros. Barry tira da bagageira uma
mochila preta e Helena segue-o até ao passeio e um pouco mais abaixo até à
entrada de um bar onde já estiveram uma vez, dentro de quatro meses,
quando foram investigar o acesso ao edifício de Slade e debater os planos
para este preciso momento.
Com o seu cheiro a ranço, o Diplomat está surpreendentemente
movimentado e frio, tal como ela se lembra. O distintivo de Barry chama a
atenção do minúsculo empregado de balcão. É o mesmo sujeito que ela e
Barry encontraram dentro de quatro meses num futuro morto— um
estafermo com complexo de Napoleão, mas que, felizmente, tem um medo
saudável de polícias. Helena fica ao lado de Barry enquanto este faz as
apresentações; sobre ela diz que é sua colega, explicando que precisam de ir
à cave, pois foi apresentada uma queixa de agressão sex ual naquele lugar na
noite anterior.
Durante cinco segundos, Helena pensa que não irá resultar. O empregado
de balcão fita-a como se não acreditasse totalmente no papel dela em tudo
isto. Ele poderia pedir que lhe mostrassem um mandado, poderia não
assumir a responsabilidade e chamar o proprietário, mas em vez disso, aos
berros, chama alguém chamado Carla.
Uma empregada pousa um tabuleiro de copos de cerveja vazios no balcão
e vem ao encontro deles.
—São bófias— diz o empregado. —Têm de ir à cave.
Carla encolhe os ombros, depois vira-lhes as costas sem dizer uma
palavra e caminha ao longo do balcão até uma câmara frigorífica. Condu-
los por um labirinto de barris prateados até uma porta estreita no canto mais
afastado da divisão refrigerada.
Pega numa chave que está dependurada num prego na parede e abre o
cadeado que fecha a porta.
—Aviso já que não há luz lá em baixo.
Barry abre o fecho de correr da mochila e tira de lá uma lanterna.
—O homem veio preparado— diz ela. —Nesse caso, deixo-vos
à vontade.
Barry espera até ela ir embora e abre a porta da cave.
O feixe da lanterna revela umas escadas claustrofóbicas de solidez ques‐ 
tionável que descem para as trevas. O cheiro penetrante a humidade é
avassalador— o cheiro de um sítio há muito esquecido. Helena respira
fundo para aplacar o furor do coração que está a bater desenfreado.
—É isto?— pergunta Barry.
—É.
Ela segue-o pelos degraus rangentes, que desembocam numa cave com
estantes de prateleiras caídas e um bidão de óleo ferrugento cheio de lixo
queimado.
Na outra ponta da divisão, Barry abre uma porta que faz um rangido de
pôr os nervos em franja. Franqueiam a porta para um corredor em arco com
as paredes de tijolo a esfarelarem-se.
Faz mais frio aqui, debaixo das ruas da cidade; o ar é bafiento, agitado
com o gotejar de água corrente e o distante e invisível raspar do que teme
serem ratazanas.
Helena vai à frente.
Os seus passos chapinam e ressoam.
A cada quinze metros, passam por portas a desintegrar-se que dão para o
ventre de outros edifícios.
No segundo cruzamento, ela vira para uma nova passagem e, ao fim de
cerca de trinta metros, detém-se e mostra a Barry uma porta igual às outras.
É preciso fazer bastante força para o puxador rodar e, quando isso acontece,
ele dá um encontrão com o ombro, forçando a porta a abrir-se.
Saem do túnel e passam para outra cave, onde Barry larga a mochila no
chão de pedra e abre o fecho de correr. Tira de lá um pé-de-cabra, uma
embalagem de braçadeiras para cabos, uma caixa de balas calibre 12, uma
caçadeira e quatro carregadores extra para a sua Glock.
—Leva todos os cartuchos que conseguires.
Helena rasga a caixa e começa a guardar cartuchos nos bolsos de dentro
do casaco de couro. Barry verifica a sua Glock, despe a gabardina e enfia
mais carregadores nos bolsos. Depois, pega no pé-de-cabra e atravessa a
divisão até outra porta, que está trancada pelo outro lado. Insere a ponta do
pé-de-cabra na ombreira e faz toda a força que consegue.
No início, só se ouve o barulho dele a fazer esforço. Depois ouve-se a
madeira estalar e o ranger do metal a ceder. Quando a porta se abre uma
frincha, Barry mete a mão pela abertura e arranca um cadeado ferrugento
quebrado. Depois, com todo o cuidado, abre a porta apenas o suficiente para
passarem.
Emergem na antiga sala da caldeira do hotel, que parece não ser usada há
pelo menos meio século. Seguindo caminho por um labirinto de antigos
maquinismos e manómetros, passam por fim pela enorme caldeira e depois
franqueiam uma porta que dá para o fundo de umas escadas de serviço que
sobem em espiral até à penumbra.
—Repete lá em que andar fica a penthouse do Slade?— sussurra Barry.
—No vigésimo quarto. O laboratório fica no décimo sétimo e os
servidores no décimo sexto. Estás pronto?
—Quem me dera ir de elevador.
O seu plano é ir diretamente à procura de Slade, com a esperança de que
este esteja no apartamento. Assim que ele ouvir disparos ou suspeitar de
alguma coisa, é provável que desate a correr para a cadeira de modo a poder
recuar no tempo e impedi-los antes de eles conseguirem sequer entrar neste
edifício.
Barry começa a subir apontando o feixe da lanterna ao chão. Helena
segue-o de perto, tentando fazer o mínimo barulho possível, mas a madeira
velha das escadas cede e range sob o seu peso.
Ao fim de vários minutos, Barry detém-se em frente a uma porta com o
número 8 pintado na parede ao lado e apaga a lanterna.
—O que foi?— murmura Helena.
—Ouvi alguma coisa.
Ficam à escuta no escuro, o coração dela a batere a caçadeira mais
pesada a cada segundo que passa. Não consegue ver nem ouvir nada, a não
ser um gemido baixo que faz lembrar um sopro a passar pelo gargalo de
uma garrafa.
Desde o alto, um único feixe de luz desce pelo centro da escadaria e
inclina-se para eles pelo chão axadrezado.
—Vamos— diz Barry num murmúrio, abrindo a porta e puxando-a para o
corredor.
Avançam depressa por um corredor de alcatifa vermelha de quartos de
hotel, cujos números são projetados nas portas por luzes na parede oposta.
A meio do corredor, a porta do quarto 825 abre-se para dentro e sai de lá
uma mulher de meia-idade envergando um roupão azul-marinho com as
letras «HM» em relevo na lapela e com um balde de gelo prateado nas
mãos.
Barry olha de relance para Helena, que faz sinal com a cabeça.
Estão agora a três metros da hóspede do hotel, que ainda não os viu.
—Minha senhora?— diz Barry.
Quando ela olha para eles, Barry aponta-lhe a pistola.
O balde de gelo cai ao chão.
Barry leva um dedo aos lábios, aproximando-se da mulher num salto.
—Nem uma palavra— diz ele.
Empurram-na pela soleira da porta e seguem-na para dentro do quarto.
Helena fecha o ferrolho e põe a corrente.
—Tenho algum dinheiro e cartões de crédito…
—Não é por isso que estamos aqui. Sente-se no chão e esteja calada—
diz Barry.
A mulher deve ter acabado de sair do chuveiro. Tem o cabelo húmido e
nem o menor vestígio de maquilhagem na cara. Helena não a olha nos
olhos.
Barry larga a mochila no chão e tira de lá as braçadeiras para cabos.
—Por favor— suplica. —Não quero morrer.
—Ninguém lhe vai fazer mal— diz Helena.
—Foi o meu marido que os mandou?
—Não— responde Barry. Olha para Helena. —Põe umas quantas
almofadas na banheira.
Helena agarra em três almofadas que estão em cima da decadente cama
de dossel e posiciona-as na banheira de pés, que fica em cima de uma
pequena plataforma com vista para o lusco-fusco que cai sobre a cidade e os
edifícios que começam a coruscar.
Quando sai da casa de banho, Barry posicionou a mulher deitada de
barriga para baixo e está a amarrar-lhe os pulsos e os tornozelos. Por fim,
agarra nela em peso e leva-a para a casa de banho, onde a deita com
delicadeza na banheira.
—Porque estão aqui?— quer saber.
—Sabe que sítio é esse?
—Sei.
As lágrimas escorrem-lhe pela cara.
—Há quinze anos, cometi um grave erro.
—Que erro?— pergunta Helena.
—Não deixei o meu marido quando o deveria ter feito. Desperdicei os
melhores anos da minha vida.
—Alguém a virá buscar— diz Barry. De seguida, rasga um pedaço de
fita-cola e tapa-lhe a boca.
Fecham a porta da casa de banho. A lareira a gás emana um ar quente
acolhedor. A garrafa de champanhe, que, aparentemente, a mulher se
preparava para beber, está pousada na mesa de cabeceira ao lado de um
único copo e de um diário aberto, as duas páginas totalmente escritas à mão.
Helena não se consegue conter. Olha de relance para a elegante caligrafia
e percebe que se trata da narrativa de uma memória, talvez aquela para a
qual a mulher que está na banheira irá recuar.
Começa assim: «Da primeira vez que ele me bateu, eu estava na cozinha
às dez da noite, a perguntar-lhe onde ele estivera. Lembro-me de que tinha a
cara ruborizada, o hálito a cheirar a uísque e os olhos lacrimejantes.»
Helena fecha o diário, vai até à janela e abre o cortinado.
Entra uma luz fraca.
Espreita para a East Forty-Ninth e vê o carro de Barry, sete pisos mais
abaixo e um pouco mais ao fundo do quarteirão.
A cidade está molhada, tristonha.
A mulher chora na casa de banho.
Barry acerca-se de Helena e diz:
—Não sei se deram pela nossa presença. De qualquer maneira,
deveríamos ir já à procura do Slade. Por mim, arriscava apanhar o elevador.
—Tens um canivete?
—Tenho.
—Posso vê-lo?
Barry mete a mão ao bolso e tira de lá um canivete enquanto Helena
despe o casaco de couro e arregaça as mangas da camisa cinzenta.
Helena pega no canivete, senta-se num cadeirão e abre a lâmina.
—O que estás a fazer?— pergunta Barry.
—Um ponto de segurança.
—Um quê?
Helena enterra a ponta da lâmina na lateral do braço esquerdo acima do
cotovelo e passa a lâmina pela pele.
Quando sente a dor e o sangue começa a escorrer…
BARRY
7 de novembro de 2018
—Que raio estás a fazer?— pergunta Barry.
Helena tem os olhos fechados, a boca entreaberta, completamente
imóvel.
Com cuidado, Barry tira-lhe o canivete da mão. Por um longo mo mento,
nada acontece. Então, ela abre de repente os olhos verde-claros.
Algo neles está diferente. Destilam um medo e uma intensidade que antes
não ostentavam.
—Estás bem?— pergunta Barry.
Helena sonda a sala, consulta o relógio de pulso e depois abraça Barry
com uma ferocidade que o assusta.
—Estás vivo.
—É claro que estou vivo. O que foi que te aconteceu?
Ela leva-o até à cama e sentam-se. Helena retira a fronha de uma
almofada e rasga uma tira de pano, que começa a amarrar à volta da ferida
autoinfligida para estancar a hemorragia.
—Acabei de utilizar a cadeira para regressar a este momento— diz ela.
—Estou a começar um novo friso cronológico.
—A tua cadeira?
—Não, a que está no décimo sétimo andar. A cadeira do Slade.
—Não compreendo.
—Eu já vivi os próximos quinze minutos. A dor do corte no braço agora
mesmo foi uma pista que deixei para regressar a este momento. Deixou em
mim uma memória vívida e de curto prazo para a qual eu regressar.
—Queres dizer que sabes o que está prestes a acontecer?
—Se formos à penthouse, sim. O Slade sabe que vamos lá. Estará à nossa
espera. Nem sequer chegamos a sair do elevador. És alvejado com uma bala
num olho. Há imenso sangue e eu desato a disparar. Devo acertar no Slade,
porque de repente ele está a rastejar pela sala de estar. Apanho o elevador
até ao décimo sétimo andar, encontro o laboratório e rebento a porta com
um balázio no preciso instante em que o Jee-woon está a entrar para o
tanque. Ele começa a caminhar para mim a dizer que sabe que eu nunca o
magoaria depois de tudo o que fez por mim, mas nunca esteve tão errado
em toda a sua vida. No terminal, inicio sessão com umas credenciais de
backdoor. Depois, mapeio uma memória, meto-me no tanque e regresso à
memória de me cortar neste quarto.
—Não tinhas de voltar por minha causa.
—Para ser franca, não o teria feito. Só que não sabia onde o Sergei estava
e não tinha tempo suficiente para destruir o equipamento. Mas estou muito
feliz por estares vivo. —Consulta outra vez o relógio. —Vais ter uma
memória terrível sobre tudo isto dentro de cerca de doze minutos, tal como
toda a gente que está neste edifício. O que é um problema.
Barry levanta-se da cama e dá a mão a Helena para a ajudar a pôr-se de
pé.
Ele levanta a caçadeira.
—Portanto, o Slade está lá em cima à nossa espera, pensando que vamos
diretamente para lá, que foi o que fizemos da primeira vez— diz ele.
—Correto.
—O Jee-woon já está a dirigir-se para a cadeira no décimo sétimo andar,
provavelmente para saber se houve uma quebra de segurança para se meter
na câmara de privação sensorial e apagar este friso cronológico. E o Ser gei
está…
—Em parte incerta. Na minha opinião, vamos diretamente para o
laboratório e tratamos primeiro do Jee-woon. Aconteça o que acontecer, não
o podemos deixar entrar no tanque.
Passam do quarto para o corredor. Barry toca de forma compulsiva nos
carregadores extra que tem nos bolsos.
Quando chegam à fila de ascensores, carrega no botão para chamar o
elevador e fica a ouvir as engrenagens rodarem do outro lado das portas
com a Glock a postos.
—Nós já fizemos esta parte— diz Helena. —Não vem ninguém no
elevador.
Quando a luz por cima do elevador se acende, a campainha toca.
Barry levanta a pistola, o dedo no gatilho.
As portas abrem-se para os lados.
Ninguém.
Entram para a pequena cabina e Helena carrega no botão do piso 17. As
paredes deste elevador são feitas de velhos espelhos manchados de fumo e
olhar para eles cria uma ilusão recursiva— um número infinito de Barrys e
Helenas em cabinas de elevador desdobrando-se pelo espaço.
Quando começam a subir, Barry diz:
—Vamos encostar-nos à parede. Quero tornar-meum alvo o mais
pequeno possível quando as portas se abrirem. Que arma é que o Slade
tinha?
—Uma pistola cinzenta.
—E o Jee-woon?
—Havia uma pistola parecida com a tua à beira do terminal.
O botão de cada piso acende-se conforme passam por eles.
Nono.
Décimo.
Tolhe-o uma vaga de náuseas— são os nervos. Sente o sabor do medo na
boca por causa da descarga de adrenalina para a corrente sanguínea.
Décimo primeiro.
Décimo segundo.
Décimo terceiro.
Fica espantado por Helena não parecer tão apavorada como ele, mas,
bem vistas as coisas, já não é a primeira vez que ela enfrenta a zaragata.
—Obrigado por regressares por mim— diz ele.
Décimo quarto.
—Mas desta vez tenta não morrer.
Décimo quinto.
Décimo sexto.
—Aqui vamos nós— diz ela.
O elevador detém-se com um rangido no décimo sétimo andar.
Barry levanta a Glock.
Helena encosta a caçadeira ao ombro.
As portas abrem-se de par em par e deixam antever um corredor deserto a
todo o comprimento do edifício, com outros corredores a seguir noutras
direções um pouco mais adiante.
Barry sai do elevador com cuidado.
Só se ouve o ténue zumbido das luzes por cima das suas cabeças.
Helena segue ao lado dele e, quando afasta o cabelo da cara, Barry é
subjugado por um impulso protetor e brutal que o aterroriza e espanta.
Conhece-a há pouco mais de vinte e quatro horas.
Avançam.
O laboratório é um espaço lustroso e branco, cheio de luzes embutidas e
vidro. Passam por uma janela com vista para uma câmara onde há mais de
uma dúzia de microscópios MEG, onde uma jovem cientista está a soldar
uma placa de circuitos. Parece que ela não dá pela presença deles.
Quando se aproximam da primeira confluência de corredores, ouvem
uma porta bater ali perto. Barry detém-se, à espera de ouvir passos, mas só
ouve aquelas luzes.
Helena leva-o por outro corredor que confina com uma longa parede e
janelas com vista para o crepúsculo azulado de Manhattan naquele final de
tarde agreste; as luzes à volta dos edifícios brilham no anoitecer brumoso.
—O laboratório fica ali à frente— murmura Helena.
Barry tem as mãos transpiradas. Limpa-as às calças para segurar melhor
a Glock.
Param a uma porta onde há um teclado para inserir um código.
—É possível que ele já esteja lá dentro— diz ela num murmúrio.
—Não sabes o código?
Ela abana a cabeça e levanta a caçadeira.
—Mas isto resultou da última vez.
Barry percebe uma silhueta a dobrar a esquina ao fundo do corredor.
Põe-se à frente de Helena, que grita:
—Jee-woon, não!
Ouvem-se tiros no silêncio, o lampejo de uma bala a sair de um cano
apontado a Barry, que descarrega a sua Glock numa rajada.
Jee-woon desapareceu.
Acontece tudo em cinco segundos.
Barry ejeta o carregador vazio, encaixa um novo na arma e puxa
a corrediça.
Olha para Helena.
—Estás bem?
—Sim, porque tu te meteste à frente… Oh, meu Deus, foste alvejado.
Barry cambaleia para trás, o sangue a jorrar do abdómen, a escorrer pela
perna por debaixo das calças, fluindo por cima do sapato e para o chão,
formando uma comprida mancha avermelhada. A dor não tarda, mas ele
está demasiado estimulado pela adrenalina para perceber a gravidade do
ferimento— apenas uma pressão cada vez mais forte na zona intermédia do
lado direito do tronco.
—Temos de sair deste corredor— geme, e pensa: Meteram-me uma bala
no fígado.
Helena arrasta-o até dobrar a esquina.
Barry senta-se no chão.
Agora a sangrar profusamente, o sangue quase preto.
Olha para Helena e diz:
—Certifica-te de que… ele não vem aí.
Ela espreita pela esquina. Quando repara que a pistola lhe caiu da mão,
Barry apanha-a do chão.
—Eles podem já estar no laboratório— diz.
—Eu apanho-os.
—Desta não me safo. —Repara num movimento à sua esquerda e tenta
levantar a Glock, mas Helena é mais rápida e faz um disparo ensurdecedor
que obriga um homem que ele nunca viu a recuar para o corredor.
—Vai— diz Barry. —Depressa.
O mundo está a ficar mais escuro e sente um zumbido nos ou vidos.
Depois, está deitado com a cara encostada ao chão e a vida a esvair-se do
seu corpo. Ouve mais disparos. Helena a gritar:
—Sergei, não me obrigues a fazer isto. Tu conheces-me!
Depois, dois tiros de caçadeira seguidos de gritos. Da sua perspetiva
enviesada, vê várias pessoas, que correm pela convergência de corredores e
voltam para os elevadores— hóspedes e outros membros da equipa a fugir
da barafunda. Tenta levantar-se, mas mal consegue mexer a mão. Sente o
corpo como que cimentado ao chão. O fim está a chegar. Apoiar-se sobre os
cotovelos é simplesmente a coisa mais difícil que alguma vez fez. Vá-se lá
saber como, consegue rastejar, arrastando-se para o outro lado da esquina
do corredor com janelas que conduz ao laboratório. Ouve mais tiros. A sua
visão foca e desfoca, os estilhaços de vidro no chão das janelas baleadas
cortam-lhe os braços e uma chuva fria entra para o edifício. As paredes
estão crivadas de balas e uma bruma de fumo espalha-se pelo ar,
produzindo-lhe um sabor a metal e enxofre no fundo da sua garganta. Barry
rasteja pelo meio dos invólucros de calibre .40 da sua pistola e tenta chamar
Helena, mas o nome dela passa-lhe pelos lábios num débil queixume.
Arrasta-se o resto do caminho até à entrada. Demora um momento a
focar a visão. Helena está de pé no terminal, os dedos dela esvoaçam por
uma panóplia de teclados e ecrãs tácteis. Reúne todas as forças e consegue
dizer o nome dela.
Helena olha de relance para ele.
—Eu sei que estás em sofrimento. Estou a fazer isto o mais depressa que
posso.
—A fazer o quê?— pergunta Barry; a sua respiração torna-se
progressivamente mais agonizante e cada vez menos oxigénio chega ao seu
cérebro.
—Vou regressar à memória do corte que fiz naquele quarto de hotel.
—O Jee-woon e o Sergei estão mortos. —Tosse e sai-lhe pela boca uma
golfada de sangue. —O melhor é… destruíres tudo.
—O Slade ainda anda à solta— diz Helena. —Se escapar, poderá
construir outra cadeira. Preciso que vigies a porta. Sei que estás a sofrer,
mas podes fazer isso? Avisa-me se ele vier.
Afasta-se do terminal e sobe para a estrutura recurvada da cadeira de
memória.
—Vou tentar— diz Barry, e encosta a cabeça ao chão frio.
—Da próxima vez, teremos êxito— diz Helena.
Estica-se e puxa o microscópio MEG para baixo. Quando prende a
correia do queixo, Barry faz um esforço para não desviar os olhos do
corredor, ciente de que, se Slade aparecer, nada poderá fazer para o travar.
Nem sequer tem forças para levantar a arma.
Por fim, as memórias mortas de ele a morrer no último friso cronológico
desfazem-se na sua consciência.
As portas do elevador a abrir para a entrada da penthouse de Slade.
Slade de pé na sua sala de estar imaculada cheia de janelas, a apontar
um revólver para a cabina do elevador.
Barry a pensar: Merda. Ele sabia.
Um lampejo de luz sem som.
Depois— nada.
No meio da bruma da morte, Barry faz um esforço para olhar uma última
vez para o laboratório. Consegue ver Helena arrancar a camisa, despir as
calças de ganga e meter-se no tanque de privação sensorial.
Barry vai a correr por um corredor, o nariz a sangrar, a cabeça a latejar. A
dor de ser alvejado no friso cronológico desapareceu, as memórias deste
novo friso encaixam-se no devido lugar.
Ele e Helena saíram do quarto 825.
Desceram do elevador no décimo sétimo andar, seguiram por um
caminho diferente para o laboratório com a intenção de apanhar Jee-woon
e Slade a descerem do elevador.
Porém, deram de caras com Sergei e perderam demasiado tempo a tentar
passar por ele.
Agora vão a correr para o laboratório.
Barry limpa o sangue do nariz e pestaneja para afastar o suor salgado dos
olhos.
Dobram uma esquina e chegam à porta do laboratório, que Helena abre
com um disparo da caçadeira. Barry é o primeiro a entrar e soam dois
disparos ensurdecedores que por pouco não o atingem na cabeça. Para seu
espanto, os disparos são feitos por um homem que ele já viu uma vez— há
onze anos, na noite em que foi mandado de volta para uma memória.
Marcus Slade encontra-se a sete metros dele, junto ao terminal,
envergando uma camisola de manga cava branca e calções cinzentos,como
se tivesse acabado de vir do ginásio, o cabelo encaracolado escuro alisado
para trás com o suor.
Tem na mão um revólver em aço acetinado e está a fitar Barry com ar de
quem o reconhece na perfeição.
Barry acerta-lhe no ombro direito, e Slade cambaleia para trás, contra o
monte de painéis de controlo, largando o revólver quando desliza até ao
chão.
Helena corre para o tanque de privação sensorial e puxa a alavanca de
libertação de emergência.
Quando Barry chega ao tanque, ela está a abrir a escotilha, revelando Jee-
woon a boiar de costas na água salgada, e a tentar desesperadamente
arrancar a linha intravenosa do antebraço esquerdo dele.
Barry mete a Glock no coldre, mergulha os braços na água morna e tira
Jee-woon lá de dentro, largando-o no chão.
Jee-woon cai e logo se endireita, levantando o olhar para Barry e Helena,
apoiado sobre as mãos e os joelhos, nu e a escorrer água para os ladrilhos.
Olha para a arma de Slade, que está a dois metros dele, e lança-se para a
agarrar. Barry segue-o com a pistola e dispara, sendo imitado por Helena. O
impacto das balas projeta o corpo de Jee-woon contra a parede com um
baque, uma ferida aberta no peito, as forças a deixá-lo ao mesmo ritmo do
sangue.
Barry aproxima-se dele com cuidado, mantendo a pistola apontada para o
corpo destroçado do homem, mas, quando chega à beira dele, Jee-woon já
morreu— tem os olhos vidrados, transparecendo aquele vazio final.
HELENA
7 de novembro de 2018
Ter Slade na mira da caçadeira é um dos momentos gratificantes da
existência fragmentada de Helena.
Leva a mão ao bolso e tira de lá uma pen drive.
—Vou apagar todas as linhas de código. Depois, vou desmantelar
a cadeira, o microscópio…
—Helena…
—Quem fala agora sou eu! Os estimuladores. Todos os equipamentos de
hardware e software do edifício. Será como se a cadeira nunca tivesse
existido.
Slade está encostado à base do terminal, a dor espelhada nos olhos.
—Parece que passou apenas um minuto, não foi?
—Para mim, foram trinta anos— diz ela. —Quanto tempo foi para si?
Ele parece refletir sobre a pergunta enquanto Barry se aproxima dele e
afasta a pistola com o pé.
—Quem sabe?— acaba por dizer. —Depois de desaparecer da minha
plataforma petrolífera… a propósito, boa jogada, nunca percebi bem como
o conseguiu… demorei anos a reconstruir a cadeira. Mas desde então vivi
mais vidas do que possa imaginar.
—A fazer o quê?— pergunta ela.
—Na maioria, foram explorações serenas de quem sou, quem poderia ser,
em sítios diferentes, com pessoas diferentes. Outras foram… mais
aparatosas. Mas neste último friso cronológico descobri que já não
conseguia gerar um número de sinapses suficiente para mapear a minha
própria memória. Viajei demasiado. Enchi a mente de demasiadas vidas.
Demasiadas experiências. Ela começa a fraturar-se. Há vidas inteiras que
nunca recordei, que apenas experienciei em lampejos. Este hotel não é a
primeira coisa que eu fiz. É a última. Construí-o para que outros
experienciassem aquilo que continua a ser, o que sempre será, a sua criação.
Inspira de forma tensa e olha para Barry. Helena pensa que os seus olhos,
apesar de uma dor evidente, transparecem a profundidade serena de um
homem que viveu muito, muito tempo.
—É uma maneira dos diabos de agradecer ao homem que lhe devolveu a
filha— diz Slade.
—Pois, mas agora ela está morta outra vez, seu estafermo de merda. O
choque de se lembrar da sua própria morte e o aparecimento daquele prédio
ontem foi demasiado para ela.
—Lamento muito.
—Você está a utilizar a cadeira de forma destrutiva.
—É verdade— concorda Slade. —Será destrutiva de início, como todo o
progresso. Tal como a era industrial desencadeou duas guerras mundiais.
Tal como o Homo sapiens suplantou o Neandertal. Mas voltaria atrás em
relação a tudo aquilo que acarretou? Seria capaz de o fazer? O progresso é
inevitável. E é uma força para o bem.
Slade olha para o ferimento no ombro, toca-lhe, faz um esgar, depois olha
outra vez para Barry.
—Quer falar sobre o que é destrutivo? O que me diz de ficarmos
trancados nos nossos pequenos aquários, nesta piada de existência que nos é
imposta pelos limites dos nossos sentidos primitivos? A vida é sofrimento,
mas não tem de ser. Por que razão deveria ser obrigado a aceitar a morte da
sua filha quando a pode mudar? Porque é que um moribundo não pode
voltar a ser jovem com sabedoria e conhecimento em vez de exalar os
últimos suspiros em agonia? Porquê deixar a tragédia acontecer quando
podemos voltar atrás e preveni-la? Aquilo que defende não é a realidade, é
uma prisão, uma mentira. —Slade olha para Helena. —Você sabe isso. Tem
de perceber isso. Potenciou uma nova era para a humanidade. Uma era em
que já não sofremos e morremos. Em que podemos experienciar tantas
coisas. Acredite em mim, a nossa perspetiva muda quando vivemos
incontáveis vidas. Você permitiu-nos escapar às limitações dos nossos
sentidos. Salvou-nos a todos. É esse o seu legado.
—Sei o que você me fez em São Francisco— diz Helena. —No friso
cronológico original. —Slade fita-a sem pestanejar. —Quando me disse que
descobriu por acidente o que a cadeira era capaz de fazer, esqueceu-se de
me dizer que me assassinou.
—Porém, aqui está você. A morte já não tem qualquer poder sobre nós.
Isto é a sua obra, Helena. Aproveite-a.
—Não é possível que acredite que podemos confiar a cadeira de memória
à humanidade— diz ela.
—Pense no bem que poderia fazer. Eu sei que queria utilizar esta
tecnologia para ajudar as pessoas. Para ajudar a sua mãe. Você pode recuar
a uma memória e estar com a sua mãe antes de ela morrer, antes de a sua
mente se autodestruir. Pode salvar as memórias dela. Podemos anular as
mortes do Jee-woon e do Sergei. Será como se nada tivesse acontecido. —O
seu sorriso transparece a dor. —Não consegue perceber como seria um
mundo belo?
Helena avança um passo para ele.
—Pode até ter razão. Talvez haja um mundo em que a cadeira torna as
nossas vidas melhores. Mas a questão não é essa. A questão é que também
pode estar errado. A questão é que não sabemos o que as pessoas fariam
com este conhecimento. Só sabemos que, assim que um número suficiente
de pessoas souber da cadeira, ou como a construir, não haverá como voltar
atrás. Nunca escaparemos do ciclo de conhecimento universal da cadeira.
Ela existirá em todos os frisos cronológicos ulteriores. Teremos condenado
a humanidade para todo o sempre. Eu cá prefiro correr o risco e prescindir
de uma coisa gloriosa a arriscar tudo num único lançamento dos dados.
Slade brinda-a com aquele sorriso que diz «sei mais do que pensas» e que
a faz lembrar-se dos anos que passou com ele na plataforma petrolífera.
—Você continua ofuscada pelas suas limitações. Continua a não ver o
panorama completo. E talvez nunca veja, a menos que possa viajar como eu
viajei…
—O que quer dizer com isso?
Ele abana a cabeça.
—Do que está a falar, Marcus? O que quer dizer com «como eu viajei»?
Slade limita-se a fitá-la, a sangrar, e depois o zunido dos processadores
quânticos diminui de intensidade e a sala mergulha num súbito silêncio.
Um a um, os monitores do terminal desligam-se e, quando Barry olha
para Helena sem perceber o que está a acontecer, todas as luzes se apagam.
BARRY
7 de novembro de 2018
Vê as imagens residuais de Helena, Slade e da cadeira.
Depois… nada.
O laboratório fica completamente às escuras.
Nenhum barulho a não ser o bater do seu coração.
Mesmo à sua frente, no sítio onde Slade estava sentado há segundos,
Barry ouve o ruído de alguém a escapulir-se atabalhoadamente pelo chão.
Um disparo de caçadeira ilumina a sala por um ensurdecedor fragmento
de segundo— o tempo suficiente para Barry ver Slade desaparecer pela
porta.
Barry dá um passo hesitante, as retinas ainda a sofrerem o choque do
disparo da caçadeira de Helena, a penumbra em tons de cor de laranja. O
vão da porta ganha forma quando as luzes dos edifícios em redor passam
pelas janelas do corredor.
A sua audição recuperou o suficiente da detonação para ouvir o som de
passadas rápidas afastando-se pelo corredor.recordação
que ele tem de modo quase obsessivo.
— Estás pensativo — diz Julia.
— Estava a pensar naquela viagem que fizemos a Lake Tear of the
Clouds. Lembras-te?
— É claro. Demorámos duas horas a montar a tenda debaixo de uma
chuvada.
— Pensei que estivesse bom tempo.
Ela abana a cabeça.
— Não, passámos a noite a tremer de frio e ninguém pregou olho.
— Tens a certeza?
— Tenho. Aquela viagem esteve na origem da minha regra de nunca
mais acampar na natureza.
— Pois.
— Como é possível que te tenhas esquecido disso?
— Não sei.
A verdade é que está sempre a acontecer. Ele recorda constantemente o
passado, vive mais nas memórias do que no presente, muitas vezes
alterando-as para as embelezar. Para as tornar perfeitas. A nostalgia é para
ele um analgésico, como o álcool. Por fim, diz:
— Talvez ver estrelas-cadentes com as minhas meninas me tenha
parecido uma memória melhor.
Ela atira o guardanapo para cima do prato e recosta-se na cadeira.
— Há pouco tempo, passei pela nossa antiga casa. Está mesmo muito
mudada. Tu não costumas passar por lá?
— De vez em quando.
Para dizer a verdade, ele continua a passar pela sua antiga casa sempre
que tem assuntos para tratar em Jersey City. Ele e Julia perderam-na numa
execução hipotecária no ano depois de Meghan morrer e atualmente pouco
se parece com o sítio onde moraram. As árvores estão mais altas, mais
frondosas, mais verdes. Foi construído um anexo por cima da garagem e
agora mora lá uma família jovem. Toda a fachada foi recuperada em
alvenaria e mudaram as janelas. A rampa de acesso foi ampliada e o
pavimento mudado. O baloiço de corda que estava dependurado no
carvalho foi retirado há anos, mas as iniciais que ele e Meghan certa vez
entalharam no tronco ainda estão lá. Tocou-lhes à porta no verão passado —
achando que era boa ideia ir de táxi até Jersey City às duas da manhã depois
de uma noitada com Gwen e os restantes colegas da Divisão de
Investigação Criminal. Aparecera um polícia de Jersey City depois de os
novos proprietários ligarem para o número de emergência participando a
presença de um vagabundo no seu pátio da frente. Apesar de estar a
cambalear de bêbedo, não foi detido. O polícia conhecera Barry, soubera o
que lhe acontecera. Chamara outro táxi e ajudara Barry a entrar para o
banco de trás. Pagara a corrida até Manhattan e mandara-o à sua vida.
A brisa que chega da água é fresca e o sol é quente nos seus ombros —
um contraste agradável. Barcos de turistas sobem e descem o rio. O barulho
do tráfego é incessante na autoestrada por cima deles. O céu entrecruzado
pelos rastos a dissipar-se de um sem-número de aviões a jato. É o final do
outono na cidade, um dos últimos dias de bom tempo do ano.
Ele pensa que o inverno está para chegar, que passará mais um ano, e
depois outro, em risco de ser despedido, o tempo a passar cada vez mais
depressa. A vida não é nada do que ele esperara quando era mais novo e
vivia com a ilusão de que era possível controlar os acontecimentos. Nada
pode ser controlado, apenas tolerado.
Quando lhes trazem a conta, Julia tenta pagar, mas ele arranca-lha da
mão e atira o cartão para cima da mesa.
— Obrigada, Barry.
— Obrigado por me convidares.
— Não podemos passar outro ano sem nos vermos. — Ela levanta o seu
copo de água com gelo. —À nossa aniversariante.
— À nossa aniversariante. — Consegue sentir a nuvem de amargura
coalescer no seu peito, mas respira fundo e, quando volta a falar, a sua voz
sai quase normal. — Vinte e seis anos.
Depois do brunch, vai a pé até ao Central Park. O silêncio do seu aparta‐ 
mento parece uma ameaça no aniversário de Meghan, visto que os últimos
cinco não correram bem.
Sempre que vê Julia, fica perturbado. Durante muito tempo depois de o
seu casamento acabar, ele pensou que sentiria a falta da sua ex-mulher.
Pensou que nunca a esqueceria. Amiúde, sonhava com ela e acordava com a
dor da ausência dela a consumi-lo. Os sonhos magoavam-no profundamente
— eram em parte memória, em parte fantasia —, porque, neles, ela parecia-
lhe sempre a Julia de antigamente. O sorriso. O riso decidido. A leveza do
ser. Ela era novamente a pessoa que lhe roubara o coração. Ao longo de
toda a manhã seguinte, não a conseguia esquecer, a totalidade daquela perda
a fitá-lo com desdém, resoluta, até a ressaca emocional do sono por fim
o libertar como uma névoa a dissipar-se aos poucos. No rescaldo de um
desses sonhos, certa vez encontrara Julia, sem contar, na festa de um velho
amigo. Para seu espanto, não sentira nada de nada quando, constrangidos,
conversaram na varanda. Estar na presença dela quebrara a abstinência do
sonho; ele não a desejava. Fora uma revelação libertadora, embora o tenha
deixado destroçado. Libertadora porque significava que ele não amava esta
Julia — ele amava a pessoa que ela fora. Destroçado porque a mulher que
assombrava os seus sonhos desparecera completamente. Estava inacessível
como se estivesse morta.
As árvores do parque estão no auge depois de uma vaga de frio há várias
noites, as folhas todas queimadas da geada com o colorido do final de
outono.
Encontra um local na zona de Ramble, descalça os sapatos e as meias e
encosta-se a uma árvore com uma inclinação perfeita. Pega no telemóvel e
tenta ler a biografia com que anda laboriosamente entretido há quase um
ano, mas não se consegue concentrar.
Ann Voss Peters assombra-o. A maneira como caiu sem produzir um
único som, o corpo rígido e ereto. Demorou cinco segundos e ele não
desviou o olhar quando ela se despenhou em cima do Lincoln Town Car que
estava estacionado na berma da estrada.
Não estando a rever mentalmente a conversa que tiveram, está às voltas
com o medo. A pôr as suas memórias à prova. A testar a sua fidelidade. A
questionar-se:
Como é que eu poderia saber se uma memória mudou? Qual seria a
sensação?
Folhas vermelhas e cor de laranja adejam sob a luz do Sol, acumu lando-
se a toda a sua volta na sombra salpicada. Da sua posição estratégica no
meio das árvores, observa as pessoas que caminham pelos trilhos,
vagueando junto ao lago. Na sua maioria passam acompanhadas, mas
algumas estão sozinhas, como ele.
Recebe uma mensagem de texto da sua amiga Gwendoline Archer, chefe
da Hercules Team, uma unidade de contraterrorismo da SWAT, integrada na
unidade de serviço de emergência da Polícia de Nova Iorque.
Tenho pensado em ti. Estás bem?
Ele responde-lhe:
Sim. Acabei de estar com a Julia.
Como correu?
Bem. É difícil. O que tens feito?
Acabei agora uma rusga. Estou a beber
no Isaac’s. Queres companhia?
Podes crer. Estou a ir para aí.
É uma caminhada de quarenta minutos até ao bar que fica perto do
apartamento de Gwen, em Hell’s Kitchen, cujo único mérito aparente é ter-
se aguentado durante quarenta e cinco anos. Empregados de balcão
irritadiços servem cervejas nacionais de pressão desinteressantes e não há
uma única garrafa de uísque que não se possa comprar em qualquer loja por
menos de trinta dólares. As instalações sanitárias são nojentas e ainda têm
máquinas de venda de preservativos. A jukebox toca penas rock dos anos 70
e 80 e, se ninguém lá meter uma moeda, não há música.
Barry aproxima-se de Gwen, que está sentada na ponta mais afastada do
balcão com uns calções de ciclismo e uma T-shirt desbotada da Brooklyn
Marathon, a deslizar o ecrã do telemóvel com a mão esquerda numa
aplicação de encontros.
— Pensei que te tinhas deixado disso— diz ele.
— Por uns tempos, deixei-me completamente de pessoas do teu sexo,
mas o meu terapeuta dá-me cabo do juízo para que eu tente outra vez.
Desce do banco e abraça-o, o ténue cheiro a transpiração misturado com
resquícios de gel de banho e desodorizante, cujo resultado faz lembrar
caramelo salgado.
— Obrigado por te preocupares comigo — diz ele.
— Não deverias estar sozinho hoje.
Ela é quinze anos mais nova, está na casa dos trinta, e, com o seu metro e
noventa e três, a mulher mais alta que ele conhece em pessoa. Com cabelo
loiro curto e feições escandinavas, não é propriamente bonita, mas faz
lembrar a realeza. Não raro parece austera semBarry acha que, naqueles
poucos segundos de escuridão, Slade não teve tempo de deitar a mão à
pistola, mas não pode ter a certeza. O mais certo é que Slade esteja a fugir
tresloucadamente para uma das escadarias.
A voz de Helena emerge desde o vão da porta, um murmúrio:
—Estás a vê-lo?
—Não. Espera um pouco até eu conseguir perceber o que está
a acontecer.
Corre ao longo das janelas com vista para uma noite chuvosa de
Manhattan. Algures do chão chega um matraquear, como se alguém
estivesse a tocar tambor.
Dobra a esquina seguinte, na penumbra completa, e, conforme se
aproxima do corredor principal, bate com o pé em alguma coisa no chão.
Agacha-se e toca na camisola de manga cava ensanguentada de Slade.
Continua a não conseguir ver coisa alguma, mas reconhece o silvo agudo de
um pulmão perfurado que não consegue encher completamente e o
gorgolejar mais baixo de Slade a afogar-se no próprio sangue.
Sente-se envolvido por um terror glacial. Passando a mão ao longo da
parede, chega à confluência de corredores.
Por instantes, apenas ouve Slade exalar o último suspiro atrás de si.
Alguma coisa voluteia junto à ponta do seu nariz e choca com um baque
na parede nas suas costas.
Disparos com silenciadores e clarões deixam antever meia dúzia de
agentes junto aos elevadores, todos com capacetes táticos integrais e coletes
à prova de bala, as armas de assalto encostadas ao ombro.
Barry protege-se do outro lado da esquina e grita:
—Inspetor Sutton, Polícia de Nova Iorque! Vigésima quarta esquadra!
—Barry?
Ele conhece aquela voz.
—Gwen?
—Que diabo está a acontecer, Barry? —Depois, para os homens que a
acompanham: — Eu conheço-o, eu conheço-o!
—O que estás aqui a fazer? — pergunta Barry.
—Recebemos uma participação de disparos neste edifício. O que estás tu
aqui a fazer?
—Gwen, tens de tirar a tua equipa daqui e deixar-me…
—A equipa não é minha.
—De quem é?
—O nosso drone revela uma assinatura térmica numa das salas atrás de si
— troveja uma voz de homem ao fundo do corredor.
—Não é uma ameaça— diz Barry.
—Barry, tens de deixar estes homens fazerem o seu trabalho— diz Gwen.
—Quem são eles? — pergunta Barry.
—Porque não te mostras e falas connosco? Tratarei das apresentações.
Estás a deixar toda a gente muito nervosa.
Ele tem esperança de que Helena tenha percebido o que está a acontecer
e fugido. Precisa de lhe ganhar mais tempo. Se ela conseguir chegar ao seu
laboratório em Red Hook, dentro de quatro meses conseguirá acabar de
construir a cadeira e regressar a este dia e resolver a situação.
—Não me estás a dar ouvidos, Gwen. Leva toda a gente para a garagem e
vão-se embora. — Barry vira-se para trás e grita na direção do laboratório:
— Helena, foge!
Começa a ouvir o barulho de equipamento a chocalhar ao fundo do
corredor— estão a avançar para ele.
Barry lança-se de detrás da esquina e dispara para o ar.
Segue-se uma reação exagerada e imediata de disparos — um turbilhão
de balas a metralhar o corredor a toda a sua volta.
—Estás a ver se te matam? — grita Gwen.
—Helena, vai! Sai do edifício!
Algo rola pelo corredor e pára a um metro dele. Antes mesmo de ter
tempo de perceber o que é, a granada de atordoamento explode, soltando
uma faixa ofuscante de luz e fumo que deixa tudo branco e um zunido
agudo da perda de audição temporária a sobrepor-se a todos os outros
barulhos.
Quando a primeira bala o atinge, ele não sente dor— apenas o impacto.
Depois vem outra e outra, dilacerando-lhe os flancos, a perna, o braço, e,
quando a dor se faz presente, ocorre-lhe que, desta vez, Helena não o irá
salvar.
«Aquele que controla o passado controla o futuro.
Aquele que controla o presente controla o passado.»
GEORGE ORWELL, 1984
HELENA
15 de novembro de 2018 – 16 de abril de 2019
Dia 8
É a clausura mais estranha.
O apartamento é de uma assoalhada, perto de Sutton Place, espaçoso e
com o pé direito alto, uma vista magnífica sobre a Fifty-Ninth Street
Bridge, East River e a distante periferia de Brooklyn e Queens.
Ela não tem acesso a um telefone, ligação à Internet ou qualquer outra
maneira de entrar em contacto com o mundo exterior.
Quatro câmaras, instaladas nas paredes, mantêm sob vigilância cada
milímetro do espaço; as luzes de gravação vermelhas cintilam por cima dela
mesmo quando está a dormir.
Os seus captores, um casal chamado Alonzo e Jessica, ostentam um
enorme autodomínio. No início, isso acalmava-a.
No primeiro dia, mandaram-na sentar-se na sala de estar e disseram:
—Sei que tens perguntas, mas nós não somos as pessoas certas para lhes
responder.
Mesmo assim, Helena perguntou.
O que aconteceu ao Barry?
Quem ordenou o ataque surpresa ao edifício do Marcus Slade?
Quem me mantém aqui prisioneira?
Jessica debruçou-se para a frente e disse:
—Nós somos guardas prisionais que se fazem pagar bem, percebes?
Nada mais. Não sabemos por que motivo estás aqui. Não queremos saber
por que motivo estás aqui, mas se te portares bem, nós e as outras pessoas
que trabalham connosco, com quem nunca te encontrarás, também nos
portaremos bem.
Providenciam-lhe as refeições.
Dia sim, dia não, vão à mercearia e trazem aquilo que ela escreve numa
folha de papel.
À primeira vista, são amistosos, mas os seus olhos transparecem uma
inegável insensibilidade —ou antes, indiferença—, o que lhe garante que a
magoariam, ou pior, caso tivessem ordens para tanto.
Ela vê as notícias logo pela manhã e, a cada ciclo que passa, a SFM
ocupa menos tempo de antena na interminável sucessão de tragédias,
escândalos e mexericos sobre celebridades.
Um tiroteio numa escola ceifa dezanove vidas, e esse acontecimento
marca o primeiro dia desde que o Big Bend apareceu que os principais
títulos não mencionam a SFM.
No oitavo dia no apartamento, Helena senta-se na ilha da cozinha a
comer huevos rancheros ao pequeno-almoço e a ver a luz do Sol entrar pela
janela com vista para o rio.
Esta manhã, no reflexo do espelho da casa de banho, inspecionou a linha
de suturas que tem no sobrolho e o hematoma preto e amarelado, que
começa a desaparecer, infligido pelo agente da SWAT que a deixou
inconsciente com um golpe na escadaria do edifício de Slade quando ela
tentava fugir.
A cada dia que passa, a dor diminui, ao passo que o medo e a incerteza
aumentam.
Come devagar, tentando não pensar em Barry, porque quando imagina a
cara dele, a abjeta impotência da sua situação torna-se insuportável, e não
saber o que está a acontecer dá-lhe vontade de gritar.
Alguém abre o ferrolho e Helena olha pelo pequeno corredor até ao
vestíbulo quando a porta se abre e assoma um homem que, até agora, existia
apenas numa memória morta.
—Fecha a porta e desliga as câmaras— diz Rajesh Anand para alguém
que está no corredor.
—Que raio, Raj?! – Levanta-se do banco onde estava sentada na cozinha
e vai ao encontro dele, onde o vestíbulo conflui com a sala de estar. —O
que estás a fazer aqui?
—Vim ver-te. —Olha fixamente para Helena com um ar confiante que
não tinha quando trabalharam juntos na plataforma. Adquiriu uma
aparência melhor com o passar dos anos, a cara bem barbeada ao mesmo
tempo delicada e bem-parecida. Enverga um fato e traz uma pasta na mão
esquerda. Os cantos dos seus olhos castanhos enrugam-se com um sorriso
genuíno.
Passam para a sala de estar e sentam-se frente a frente nuns sofás
de couro.
—Estás confortável aqui? — pergunta.
—Raj, o que se está a passar?
—Estás a ser retida numa casa segura.
—Sob a autoridade de quem?
—Da Agência de Projetos de Investigação Avançados de Defesa[1].
Ela sente um aperto no estômago.
—A DARPA?
—Precisas de alguma coisa, Helena?
—De respostas. Estou presa?
—Não.
—Então, estou sob detenção.
Ele assente com a cabeça.
—Quero um advogado.
—Não é possível.
—Como assim, não é possível? Sou uma cidadã americana. Isto não é
ilegal?
—Provavelmente.
Raj levanta a pasta e pousa-a na mesa. O couro preto está desgastado em
certos pontos e as ferragens de bronze perderam o brilho.
—Sei que não é grande coisa— diz ele. —Pertencia ao meu pai, que ma
ofereceu no dia em que parti para a América.
Quandocomeça a tentar abrir o mecanismo, Helena diz:
—Estava um homem comigo no décimo sétimo andar daquele…
—O Barry Sutton?
—Não me dizem o que lhe aconteceu.
—Porque não sabem. Ele morreu.
Ela já sabia.
Sentiu-o nos ossos a semana inteira trancada nesta prisão de luxo.
Mesmo assim, fica consternada.
Ao chorar, enruga a cara de mágoa e sente as suturas retesarem-se no
sobrolho.
—Lamento muito— diz Raj. —Ele disparou contra a equipa da SWAT.
Helena enxuga as lágrimas e fulmina-o com o olhar por cima da mesa.
—Qual é o teu envolvimento nisto tudo?
—Abandonar o nosso projeto na plataforma petrolífera do Slade foi o
maior erro da minha vida. Pensei que ele era louco. Todos nós pensámos.
Dezasseis meses mais tarde, acordei certa noite com uma hemorragia nasal.
Não sei como, nem o que significava, mas todo o tempo que tínhamos
passado juntos na plataforma tornara-se uma falsa memória. Percebi que
tinhas descoberto uma coisa incrível.
—Queres dizer que já então sabias no que consistia a cadeira?
—Não. Só suspeitei que tinhas descoberto uma maneira de alterar as
memórias. Quis fazer parte disso. Tentei encontrar-te e ao Slade, mas
tinham desaparecido os dois. Quando a síndrome das falsas memórias
apareceu pela primeira vez em grande escala, fui ao sítio onde sabia que
estariam interessados na minha história.
—À DARPA? Pensaste mesmo que isso era boa ideia?
—Todas as agências governamentais andavam às aranhas. A CDC estava
a tentar encontrar um agente patogénico que não existia. Um fisicista da
RAND escreveu um memorando com a teoria de que a SFM poderia estar a
ser potenciada por microalterações no espaço-tempo. Mas a DARPA
acreditou em mim. Começámos a identificar vítimas de SFM e a entrevistá-
las. No mês passado, encontrei uma pessoa que alegou ter sido colocada
numa cadeira e enviada para uma memória passada. Apenas sabiam que
tudo se passara num hotel algures em Manhattan. Tive a certeza de que
tinhas de ser tu ou o Slade, ou os dois a trabalhar em conjunto.
—Porque haverias de ir à DARPA com uma coisa destas?
—Dinheiro e recursos. Trouxe uma equipa a Nova Iorque. Começámos a
procurar este hotel, mas não o conseguimos encontrar. Então, depois de o
Big Bend aparecer, ouvimos boatos de que uma equipa da SWAT da Polícia
de Nova Iorque estava a planear uma incursão a um edifício em Midtown e
que isso poderia estar relacionado com a SFM. A minha equipa assumiu as
rédeas da operação.
Helena olha pela janela para o outro lado do rio, o sol quente bate-lhe na
cara.
—Estavas a trabalhar com o Slade? — inquire Raj.
—Estava a tentar travá-lo.
—Porquê?
—Porque a cadeira é perigosa. Usaste-a?
—Fiz alguns diagnósticos. Sobretudo, estive a inteirar-me da
funcionalidade. —Raj abre o fecho da pasta. —Olha, compreendo que
tenhas preocupações, mas a tua ajuda seria preciosa. Há muitas coisas que
não sabemos. —Tira de dentro da pasta um monte de folhas e lança-as para
cima da mesinha.
—O que é isto?— pergunta ela.
—Um contrato de trabalho.
Ela levanta o olhar para Raj.
—Não ouviste o que acabei de dizer?
—Eles sabem que com a cadeira é possível regressar a memórias. Achas
mesmo que não a irão usar? Esse génio nunca voltará para a lamparina.
—Isso não implica que eu tenha de os ajudar.
—Mas se estiveres disposta a isso, serás tratada com o respeito que é
devido ao génio que inventou esta tecnologia. Terás um lugar de destaque,
farás história. Essa é a minha proposta. Posso contar contigo?
Helena olha por cima da mesa com um sorriso acutilante.
—Podes ir à merda.
Dia 10
Está a nevar lá fora, uns frágeis dois centímetros e meio já acumulados
na beira da janela. O tráfego avança devagar pela Fifty-Ninth Street Bridge,
que parece existir e deixar de existir consoante a intensidade do nevão.
Depois do pequeno-almoço, Jessica abre o ferrolho e manda-a vestir-se.
—Porquê? — quer saber Helena.
—Já — diz Jessica com o primeiro indício de ameaça que Helena ouviu
de qualquer um deles nos dez dias que passaram juntos.
Descem pelo monta-cargas até ao parque de estacionamento subterrâneo
e até uma fila de Suburbans pretos imaculados.
Seguem pelo Queens-Midtown Tunnel como se rumassem ao aeroporto
LaGuardia, e Helena questiona-se se irão de avião a algum sítio, mas não se
atreve a perguntar. Deixam o aeroporto para trás e continuam até Flushing,
passando pelas fachadas com as cores do arco-íris de Chinatown, acabando
por encostar defronte de vários prédios de escritórios baixos de aspeto
indefinido.
Quando se apeia do carro, Alonzo agarra Helena pelo braço e leva-a pela
passagem pedonal até à entrada principal, atravessando portas duplas, e
deixa-a na receção, onde um homem muito alto —com quase dois metros—
está à espera.
O homem manda Alonzo embora com uma voz cava.
—Eu envio-te uma mensagem de texto— diz e vira a sua atenção para
Helena. —Então é você o génio? — pergunta o homem. Tem uma barba
magnífica e umas sobrancelhas grossas e escuras que se unem como uma
sebe logo abaixo da testa. Estende-lhe a mão. —O meu nome é John Shaw.
Bem-vinda à DARPA.
—Qual a sua função aqui, Sr. Shaw?
—Pode dizer-se que sou o responsável. Acompanhe-me. —Começa a
caminhar para o ponto de controlo de segurança, mas ela fica no mesmo
sítio. Ao fim de cinco passos, o homem olha para ela. —Não era um
pedido, Dra. Smith.
Apresenta uns crachás que lhes permitem passar por umas portas de vidro
deslizantes e condu-la por um corredor atapetado com alcatifa de baeta.
Quando visto do exterior, o edifício parecia um bloco de escritórios
tristonho, mas o interior, com a sua iluminação sinistra e o design utilitário,
é um labirinto governamental frio em toda a linha.
—Desmontámos o laboratório do Slade e trouxemos tudo para aqui para
que ficasse em segurança— diz o homem.
—O Raj não lhe transmitiu o que penso sobre ajudar-vos?
—Transmitiu.
—Então, porque estou eu aqui?
—Quero mostrar-lhe o que estamos a fazer.
—Se isso implica a utilização da cadeira, não estou interessada.
Chegam a uma porta giratória de vidro de aspeto impenetrável e a um
sistema de segurança biométrico.
Shaw, que é trinta a quarenta centímetros mais alto, olha para Helena.
Noutras circunstâncias, poderia ter um rosto amistoso, mas de momento
tem um ar intensamente zangado.
Helena sente o cheiro de drageias de sabor a canela quando ele diz:
—Quero que saiba que não há lugar mais seguro no mundo do que o
outro lado daquele vidro. Pode não parecer, mas este edifício é uma maldita
fortaleza e, na DARPA, guardamos os nossos segredos.
—Aquele vidro não é capaz de conter o poder da cadeira. Nada é capaz
disso. Para que é que a quer, afinal de contas?
O homem repuxa o lado direito da boca e, por instantes, ela vislumbra
uma astúcia empedernida nos seus olhos.
—Faça-me um favor, Dra. Smith— diz Shaw.
—O quê?
—Durante a próxima hora da sua vida, tente manter-se recetiva.
A cadeira e a câmara de privação sensorial estão lado a lado como as
peças centrais sob a luz de holofotes no laboratório mais requintado que
Helena já viu.
Quando entram, Raj está sentado ao terminal; atrás dele encontra-se uma
mulher na casa dos vinte anos em uniforme de combate preto e de botas, os
braços cobertos de tatuagens e o cabelo preto apanhado num rabo de cavalo.
Shaw leva Helena até ao terminal.
—Apresento-lhe a Timoney Rodriguez.
A militar cumprimenta Helena com um menear de cabeça.
—Quem é esta?
—Helena Smith. A criadora de tudo isto. Raj, como estamos?
—A todo o vapor. —Gira a cadeira e olha para Timoney. —Estás pronta?
—Acho que sim.
Helena olha para Shaw.
—O que está a acontecer?
—Vamos enviar a Timoney de regresso a uma memória.
—Com que finalidade?
—Verá.
Helena vira-se para Timoney.
—Tem noção de que estão prestes a matá-la no tanque de privação
sensorial?
—O John e o Raj informaram-me de tudo quando entrei para o projeto.
—Eles vão paralisá-la e provocar-lhe uma paragem cardíaca. Como já
passei por isso quatro vezes, posso afiançar-lhe que é um processo
agonizante e não há como contornar a dor.
—Fixe, fixe.
—As mudanças que fizer afetarão outras pessoas e provocar-lhes-ãotodo
o tipo de sofrimento. Um sofrimento para o qual não estão preparadas.
Acha que tem o direito de fazer isso?
Ninguém dá importância à pergunta de Helena.
Raj levanta-se e aproxima-se da cadeira.
—Senta-te, Timoney.
Tira um capacete prateado do armário ao lado do ter minal e leva-o até à
cadeira. Depois, coloca-o na cabeça de Timoney e começa a apertar a fivela
que o prende por baixo do queixo.
—Isto é o aparelho de reativação?— pergunta Timoney.
—Exatamente. Funciona com o microscópio MEG para registar a
memória. Depois, quando fores até ao tanque, guarda o padrão neural para
reativação pelos estimuladores. — Baixa o MEG por cima do capacete. —
Já pensaste na memória que queres registar?
—O John disse que me daria algumas orientações.
—Da minha parte, o único parâmetro é que a memória tem de ter três
dias — diz Shaw.
Raj abre os compartimentos embutidos no apoio de cabeça da cadeira e
desdobra as hastes telescópicas em titânio, as quais insere em encaixes no
exterior do microscópio.
—A memória não tem de ser abrangente — diz ele. —Só tem de ser
vívida. A dor e o prazer são bons indicadores. Tal como emoções fortes.
Não é, Helena?
Ela mantém-se em silêncio. Está a assistir ao desenrolar do seu pior
pesadelo— a cadeira num laboratório governamental.
Raj vai até ao terminal, prepara um novo ficheiro de registo e leva
o tablet, que funciona como comando à distância.
Senta-se num banco ao lado de Timoney e diz:
—A melhor maneira de registar uma memória, sobretudo no início, é
descrevê-la por palavras. Tenta ir mais além do que apenas aquilo que viste
e sentiste. Os sons, sabores e cheiros da memória são fundamentais para
uma extração vívida. Quando quiseres, podes começar.
Timoney fecha os olhos e respira fundo.
Recorda estar ao balcão com o tampo de cobre de um bar de que é
frequentadora na Village, à espera de que lhe sirvam um uísque que mandou
vir. Uma mulher põe-se ao lado dela para chamar o empregado e dá um
encontrão a Timoney, tão perto dela que consegue sentir o cheiro da
fragrância que usava. A mulher olhou para ela para pedir desculpa e
entreolharam-se por três segundos. Timoney sabia que, em breve, iria entrar
para o tanque para morrer. Estava entusiasmada e aterrorizada com essa
perspetiva. Na realidade, o motivo por que saíra nessa noite fora por
precisar de alguma ligação física.
—A pele dela era da cor do café com natas e os seus lábios deixaram-me
em brasa. Senti uma enorme vontade de lhe tocar. Meu Deus, eu precisava
de um abanão, mas limitei-me a sorrir e a dizer: «Não faz mal, está tudo
bem.» A vida é feita de milhares de pequenos arrependimentos como esse,
não é?
Timoney abre os olhos.
—Está bem assim?
Raj levanta o tablet para mostrar a todos o número de sinapses: 156.
—É suficiente?— indaga Shaw.
—Qualquer coisa acima de 120 está na zona de segurança.
Insere uma linha intravenosa no antebraço esquerdo de Timoney e monta
a cânula de injeção. Depois, Timoney despe o uniforme e caminha até ao
tanque.
Raj abre a escotilha e Shaw dá-lhe a mão para a ajudar a entrar.
—Lembras-te de tudo o que falámos?— pergunta Shaw, olhando para o
seu soldado a boiar na água salgada.
—Sim. Não sei bem o que esperar.
—Para ser franco, nenhum de nós sabe. Vemo-nos do outro lado.
Raj fecha a escotilha e vai até ao terminal. Shaw senta-se ao lado dele e
Helena aproxima-se para analisar os monitores. O protocolo de reativação
já está em curso e Raj faz uma segunda verificação das dosagens de
rocurónio e tiopental sódico.
—Sr. Shaw?— diz Helena.
Ele olha para ela.
—Neste momento, somos as únicas pessoas do mundo capazes
de controlar a cadeira.
—Espero bem que sim.
—Suplico-lhe. Seja ponderado. A sua utilização só trouxe caos
e sofrimento.
—Talvez porque estavam no comando as pessoas erradas.
—A humanidade não dispõe da sensatez para lidar com este tipo de
poder.
—Estou prestes a provar que está equivocada.
Precisa de pôr cobro a isto, mas há dois guardas armados do lado de fora
da porta. Se tentasse alguma coisa, saltar-lhe-iam em cima numa questão de
segundos.
Raj levanta os auscultadores e fala para o microfone:
—Vamos começar dentro de dez segundos, Timoney.
A respiração da mulher ouve-se rápida no altifalante. «Estou pronta.»
Raj ativa a cânula de injeção. O equipamento de Slade melhorou bastante
desde os tempos da plataforma, quando era preciso um médico para
monitorizar as cobaias e avisar quando os estimuladores tinham de ser
ativados. Este novo software automatiza a sequência do fármaco com base
na leitura dos sinais vitais em tempo real e ativa os estimuladores
eletromagnéticos apenas quando é detetada a libertação de
dimetiltriptamina.
—Quanto tempo falta para a mudança?— pergunta Shaw.
—Depende da resposta do organismo dela aos fármacos.
O rocurónio é administrado e, trinta segundos depois, o tiopental sódico.
Shaw debruça-se sobre o ecrã dividido onde são visualizados os sinais
vitais de Timoney à esquerda e as imagens de uma câmara de visão noturna
do interior do tanque à direita.
—A frequência cardíaca está elevadíssima, mas ela parece tão calma.
—A sua frequência cardíaca também estaria elevadíssima se estivesse a
asfixiar enquanto lhe é provocada uma paragem cardíaca— diz Helena.
Ficam todos a observar a linha plana indicativa da falta de frequência
cardíaca de Timoney.
Passam-se minutos.
Escorre um fio de suor pela cara de Shaw.
—É suposto demorar assim tanto tempo?— pergunta.
—É— responde Helena. —É o tempo que demora a morrer depois de o
nosso coração deixar de bater. Garanto-lhe que a ela parece muito mais.
O monitor que indica o estado dos estimuladores apresenta um alerta
intermitente— libertação de DMT detetada. A imagem do cérebro de
Timoney, que antes era negra, explode num espetáculo luminoso de
atividade.
—Os estimuladores estão ativados— diz Raj.
Dez segundos depois, um novo alerta substitui o aviso de DMT —
REATIVAÇÃO DE MEMÓRIA CONCLUÍDA.
Raj olha para Shaw e diz:
—A qualquer momento…
Ao invés de estar no terminal, de súbito, Helena está sentada à mesa de
reuniões do outro lado do laboratório. Sangra do nariz e tem a cabeça a
latejar.
Shaw, Raj e Timoney também estão sentados à mesa, todos com
hemorragias nasais, exceto Timoney.
—Meu Deus— diz Shaw e ri-se. Olha para Raj. —Funcionou. Que porra!
Funcionou!
—O que foi que fez?— pergunta Helena, ainda a tentar distinguir as
memórias mortas das novas, as reais.
—Pense no tiroteio naquela escola há dois dias— diz Raj.
Helena tenta lembrar-se das notícias que viu nas últimas manhãs no seu
apartamento— uma turba de alunos a evacuar a escola, vídeos arrepiantes
feitos com os telemóveis de alunos a mostrarem a violência que se sucedeu
na cantina, pais destroçados a suplicarem aos políticos para fazerem alguma
coisa, conferências de imprensa das forças de autoridade, vigílias e…
Mas nada disso aconteceu.
Agora, são memórias mortas.
Em vez disso, quando o atirador subiu os degraus da escola, com uma
AR-15 a tiracolo e com uma mochila preta carregada de bombas caseiras,
pistolas e carregadores de alta capacidade, uma bala de calibre 7.62 da
NATO, disparada por uma espingarda M40 à distância de cerca de 275
metros, entrou-lhe pela nuca e saiu-lhe pela narina esquerda.
Mais de vinte e quatro horas depois, a identidade do pretenso atirador
mantém-se desconhecida, mas o vigi lante anónimo que o denunciou está a
ser ovacionado por todo o país como um herói.
Shaw olha para Helena.
—A sua cadeira salvou dezanove vidas.
Ela está atónita.
—Olhe —diz ele—, eu sei que se pode argumentar que a cadeira deve ser
eliminada da face da Terra, que é uma ofensa à ordem natural das coisas,
mas acabou de salvar dezanove crianças e apagar uma dor incalculável nas
suas famílias.
—Isso é…
—Fazer de Deus?
—Pois.
—Mas não será fazer de Deus não interferir quando temos esse poder?
—Não deveríamos ter esse poder.
—Mas temos. Graças a uma coisa que a senhora criou.
Ela está hesitante.
—É como se apenas visse o mal que a cadeira pode fazer— diz Shaw. —
Quando iniciou a sua investigação, há muito tempo,quando ainda fazia
experiências com ratinhos, o que foi que a motivou?
—Sempre me interessei pela memória. Quando a minha mãe começou a
mostrar indícios da doença de Alzheimer, quis construir uma coisa capaz de
salvar as memórias nucleares.
—Fez muito mais do que isso— diz Timoney. —Não se limitou a salvar
memórias. Salvou vidas.
—Perguntou-me porque quis a cadeira— diz Shaw. —Espero que
a experiência de hoje lhe tenha permitido perceber quem sou, aquilo que
represento. Vá para casa, desfrute deste momento. Aquelas crianças estão
vivas graças a si.
De regresso ao apartamento, fica sentada na cama a tarde inteira,
a assistir às notícias de última hora sobre o tiroteio na escola que
«desaconteceu». Alunos que foram assassinados são entrevistados,
relatando as falsas memórias de serem alvejados. Um pai choroso fala de ir
à morgue identificar o filho morto, uma mãe destroçada conta ter estado a
planear o funeral da filha quando, de repente, ia a levá-la de carro à escola.
Helena questiona-se se será a única a ver o ligeiro transtorno nos olhos de
um dos alunos assassinados no outro friso cronológico.
Consoante assiste ao mundo a tentar aceitar o impossível, interroga-se o
que as massas pensam de tudo aquilo.
Eruditos religiosos falam de tempos antigos, quando os milagres
aconteciam com muita frequência. Especulam que houve um retrocesso a
esses tempos, que isto pode ser um presságio do Segundo Advento.
Enquanto as pessoas confluem às igrejas aos magotes, a melhor
explicação que os cientistas conseguem dar é que este mundo experienciou
outro «incidente de memória em massa», e embora falem de realidades
alternativas e da frag mentação do espaço-tempo, parecem mais pasmados e
abalados do que os homens de Deus.
Helena não consegue deixar de pensar numa coisa que Shaw lhe disse no
laboratório. É como se apenas visse o mal que a cadeira pode fazer. É
verdade. Tudo o que ela sempre considerou foram os potenciais danos, e
esse medo influenciou a trajetória da sua vida desde o tempo que passou na
plataforma de Slade.
A noite vai caindo sobre Manhattan. Helena está de pé junto à janela, que
vai do chão ao teto, a contemplar a Fifty-Ninth Street Bridge, a estrutura
metálica iluminada que se reflete de forma espetacular num turbilhão de cor
resplandecente na superfície do East River.
Saboreando a sensação de ser capaz de mudar o mundo.
Dia 11
Na manhã seguinte, é conduzida às instalações da DARPA em Queens,
onde Shaw a aguarda mais uma vez à entrada da barreira de segurança.
Quando vão a caminho do laboratório, Shaw pergunta:
—Viu as notícias ontem à noite?
—Fui vendo.
—Foi muito gratificante, não foi?
No laboratório, Timoney, Raj e dois homens que Helena nunca viu estão
sentados à mesa de reuniões. Shaw apresenta-a aos recém-chegados— um
jovem membro dos SEAL chamado Steve, que ele descreve como sendo o
homólogo de Timoney, e um homem com uma apresentação impecável,
envergando um fato preto personalizado, de seu nome Albert Kinney.
—O Albert desertou da RAND e juntou-se a nós— diz Shaw.
—Foi a senhora que concebeu esta cadeira?— pergunta Albert,
apertando-lhe a mão.
—Infelizmente— responde Helena.
—É extraordinária.
Ela senta-se num dos lugares livres e Shaw dirige-se para a cabeceira da
mesa, onde fica de pé, sondando o grupo.
—Bem-vindos— diz ele. —Ao longo da última semana, falei com cada
um de vós individualmente sobre a cadeira de memória que a minha equipa
recuperou. Ontem à tarde, utilizámos a cadeira com sucesso para reformular
o desfecho do tiroteio na escola em Maryland. Corre por aí uma corrente
filosófica, que eu respeito, segundo a qual não podemos confiar em nós
mesmos com uma coisa com tanto poder incondicional. Não quero falar por
si, Dra. Smith, mas até a senhora, que criou a cadeira, defende essa
premissa.
—Assim é.
—Eu tenho uma perspetiva diferente, reforçada pela proeza de ontem.
Acredito que, consoante a tecnologia surge no mundo, cabe-nos a tarefa de
encontrar a melhor aplicação visando a continuação e o aperfeiçoamento da
nossa espécie. Acredito que a cadeira encerra um potencial magnífico para
trazer o bem ao mundo. Além da doutora Smith, temos aqui hoje a Timoney
Rodri guez e o Steve Crowder, dois dos soldados mais corajosos e capazes
que já saíram das forças armadas dos EUA. O Raj Anand, o homem a quem
devemos a descoberta da cadeira. O Albert Kinney, teórico de sistemas da
RAND, cujo cérebro é uma verdadeira pedra preciosa. E eu. Na qualidade
de diretor-adjunto da DARPA, disponho dos recursos para criar, sob
absoluto secretismo, um novo programa, que iniciaremos precisamente
hoje.
—Pretende continuar a utilizar a cadeira?— pergunta Helena.
—De facto.
—Com que finalidade?
—Definiremos em conjunto a declaração de missão do nosso grupo.
—Quer dizer que nos considera uma espécie de conselheiros?— pergunta
Albert.
—Nem mais. E também decidiremos juntos os parâmetros da utilização.
Helena empurra a cadeira para trás e levanta-se.
—Não participarei nisto.
Shaw olha para ela desde a cabeceira da mesa, a tensão é visível no seu
maxilar.
—Este grupo precisa da sua voz, do seu ceticismo.
—Não se trata de ceticismo. É verdade que salvámos vidas ontem, mas,
ao fazê-lo, criámos falsas memórias e confusão na mente de milhões de
pessoas. Sempre que utiliza a cadeira, estará a mudar a maneira como os
humanos processam a realidade. Não fazemos ideia de quais possam ser os
efeitos a longo prazo.
—Permita que lhe pergunte uma coisa— diz Shaw. —Acha que alguma
pessoa decente está triste agora que dezanove alunos não foram, de facto,
assassinados? Não estamos a falar de trocar boas memórias por más ou de
alterar a realidade de forma aleatória. Estamos aqui com uma finalidade,
que é acabar com a infelicidade humana.
Helena inclina-se para a frente.
—Isto não é diferente da forma como o Marcus Slade estava a usar a
cadeira. Ele queria mudar a forma como experienciávamos a realidade, mas,
na prática, estava a permitir que as pessoas voltassem atrás para emendarem
as suas vidas, o que foi bom para algumas pessoas, mas catastrófico para
outras.
—A preocupação da Helena tem lógica— diz Albert. —Já foi publicada
bastante literatura sobre os efeitos da SFM no cérebro, problemas de
excesso de armazenamento de memória, e falsas memórias em pessoas com
problemas mentais. Eu recomendaria a criação de uma equipa para analisar
todos os trabalhos sérios que foram publicados sobre o assunto para que
possamos estar informados. Em teoria, se limitarmos a idade das memórias
para as quais enviamos os nossos agentes, estaremos a limitar a dissonância
cognitiva entre os frisos cronológicos reais e falsos.
—Em teoria?— indaga Helena. —Não deveria agir com base em
informações melhores do que teoria quando fala em mudar a natureza da
realidade?
—Albert, está a sugerir que excluamos um retrocesso a um passado
distante?— pergunta Shaw. —É que eu tenho aqui uma lista— dá uma
palmadinha num bloco de notas de couro preto— de atrocidades e
calamidades ocorridas nos séculos XX e XXI. Isto é apenas uma sugestão,
mas, e se conseguíssemos encontrar um homem de noventa e cinco anos
com formação como atirador no passado? Uma mente arguta, recordações
claras. Helena, qual é a idade mais jovem que se sentiria confortável a
enviar alguém até uma memória?
—Nem acredito que estamos sequer a ter esta conversa.
—Estamos apenas a conversar. Nesta mesa não há más ideias.
—O cérebro feminino atinge o estado de maturidade aos vinte e um anos
— diz ela. —O cérebro masculino, alguns anos mais tarde. É provável que
até aos dezasseis seja possível, mas precisamos de realizar testes para ter a
certeza. Se enviarmos alguém até memórias em tão tenra idade, há a
possibilidade de a sua função cog nitiva simplesmente colapsar. Poderia ser
desastroso pôr à força uma consciência adulta num cérebro não totalmente
desenvolvido.
—Está a sugerir aquilo que eu penso, John?— atalha Albert. —O envio
de agentes até memórias de há quarenta, cinquenta ou sessenta anos para
assassinar di tadores antes que eles assassinem milhõesde pessoas?
—Ou impedir uma morte que foi o catalisador de uma tragédia épica. Por
exemplo, quando Gavrilo Princip, um sérvio bósnio, assassinou o
arquiduque Francisco Fernando em 1914, e, ao fazê-lo, derrubou a primeira
peça de dominó numa cadeia que, em última instância, desencadearia a
Primeira Guerra Mundial. Estou apenas a lançar a ideia para debate.
Estamos perante uma máquina com um poder incrível.
O grupo fica num silêncio pensativo.
Helena volta a sentar-se. Tem o coração a bater desenfreado e a boca
seca.
—O único motivo por que ainda aqui estou é que alguém tem de ser a
voz da razão— diz ela.
—Não podia estar mais de acordo— diz Shaw.
—Uma coisa é mudar os eventos dos últimos dias. Não me interpretem
mal! Isso não deixa de ser perigoso e nunca mais o deveria fazer. É
totalmente diferente salvar a vida de milhões de pessoas há meio século.
Suponhamos que arranjávamos maneira de impedir a Segunda Guerra
Mundial. O que aconteceria se, por força das nossas ações, trinta milhões de
pessoas que era suposto morrerem sobrevivessem? Pode até parecer uma
coisa maravilhosa, mas pensem melhor. Como poderíamos calcular o
potencial de bem ou de mal dos que morreram? Quem pode dizer que as
ações de um monstro como Hitler, Estaline ou Pol Pot não preveniram a
ascensão de um monstro muito pior? No mínimo, uma alteração a esta
escala certamente mudaria o nosso presente de uma forma incalculável.
Anularia os casamentos e os nascimentos de milhões de pessoas. Se não
tivesse existido Hitler, toda uma geração de imigrantes nunca viria para os
EUA. Ou, para simplificar ainda mais, se o namorado da escola secundária
da sua bisavó não morrer na guerra, ela casará com ele, e não com o seu
bisavô. Os seus avós nunca nascerão, nem os seus pais e… mais do que
óbvio… você também não. —Olha para Albert, do outro lado da mesa. —O
senhor é um teórico de sistemas? Consegue imaginar algum modelo capaz
de começar sequer a extrapolar as alterações sobre a população do planeta a
este nível de magnitude?
—Sim, seria capaz de desenvolver alguns modelos, porém, para ir ao
encontro daquilo que diz, rastrear a causa e efeito com um conjunto de
dados tão descomunal é praticamente impossível. Concordo consigo quando
diz que nos aproximamos perigosamente da lei das consequências não
intencionais. Eis um exercício mental de que me lembrei agora mesmo: se a
Inglaterra não entrasse em guerra com a Alemanha devido à nossa
intervenção, o Alan Turing, pai do computador e da inteligência ar tificial,
não teria sido instigado a decifrar a tecnologia de criptografia da Alemanha.
É possível que, mesmo assim, tivesse lançado as bases do mundo moderno
comandado por microchips em que vivemos, ou talvez não. Ou então, em
menor escala. E quantas vidas não foram salvas graças a toda esta
tecnologia que nos protege? Mais do que as vidas que se perderam na
Segunda Guerra Mundial? As possibilidades são infinitas.
—Compreendido— diz Shaw. —Urge ter este tipo de conversa. —Olha
para Helena. —É por isso que a quero aqui. Não me impedirá de usar a
cadeira, mas talvez nos possa ajudar a usá-la com sensatez.
Dia 17
Passam a primeira semana a definir as regras básicas, entre as quais:
As únicas pessoas autorizadas a utilizar a cadeira são agentes com
formação, como é o caso de Timoney e Steve.
A cadeira nunca poderá ser utilizada para alterar acontecimentos das
histórias pessoais dos elementos da equipa ou respetivos amigos e
familiares.
A cadeira nunca poderá ser utilizada para enviar agentes até memórias
com mais de cinco dias.
A cadeira só será aplicada para anular tragédias e catástrofes
inimagináveis, as quais possam ser facilmente contornadas e sob anonimato
por um único agente.
Todas as decisões relacionadas com o uso da cadeira devem ser sujeitas a
votação.
Albert passou a denominar o seu grupo Departamento de Revogação de
Merdas Particularmente Horríveis e, tal como acontece com muitos nomes
que começam por ser uma piada de mau gosto mas que não são depressa
substituídos, a designação acaba por ser adotada.
Dia 25
Uma semana depois, Shaw submete à consideração do grupo a possível
missão seguinte, chegando mesmo a levar uma fotografia para reforçar o
seu argumento.
Há vinte e quatro horas, em Lander, no Wyoming, foi encontrada
assassinada no seu quarto uma menina de onze anos. O modus operandi é
semelhante ao de cinco homicídios anteriores que aconteceram ao longo de
um período de oito semanas em cidades remotas por toda a região Oeste dos
Estados Unidos.
O criminoso entrou no quarto em algum momento entra as onze da noite
e as quatro da manhã com recurso a um cortador de vidro. Amordaçou a
vítima e violou-a enquanto os pais dormiam sem se aperceberem de nada
num quarto do outro lado do corredor.
—Ao contrário dos crimes anteriores —diz Shaw—, em que as vítimas
só foram encontradas dias ou semanas mais tarde, desta vez ele deixou-a na
cama, debaixo dos cobertores, para os pais a encontrarem na manhã
seguinte. Quer isto dizer que temos uma janela de tempo incontestável
relativamente a quando o homicídio aconteceu, além de que sabemos o
local exato. Parece não haver dúvida de que este monstro voltará a fazer o
mesmo. Gostaria de propor uma votação para utilizar a cadeira e o meu
voto é «sim».
Timoney e Steve não hesitam na mesma orientação de voto.
—Como propõe que o Steve acabe com o assassino?— pergunta Albert.
—Como assim?
—Ora bem, temos a maneira discreta, em que ele interceta o gajo e acaba
com ele no meio de nenhures e o mete num buraco na terra onde nunca
ninguém o encontrará. E depois temos a maneira espalhafatosa, em que o
pretenso assassino é encontrado com a goela cortada nos arbustos debaixo
da janela pela qual estava prestes a entrar, com o cortador de vidro e o
canivete ainda na sua posse. Com a versão espalhafatosa, estaríamos de
facto a anunciar a existência do Departamento de Revogação de Merdas
Particularmente Horríveis. Talvez queiramos fazer esse anúncio ou talvez
não. Estou só a levantar a questão.
Helena tem estado a olhar fixamente para a fotografia mais inquietante
que alguma vez viu e o pensamento racional começa a desintegrar-se. Neste
momento, tudo o que deseja é que a pessoa que fez isto sofra.
—O meu voto é no sentido de desmantelar este laboratório e apagar os
servidores, mas se decidirem ir avante com isto… realmente, tenho a noção
de que não vos posso impedir… então matem este animal e deixem-no com
as ferramentas incriminatórias debaixo da janela da menina.
—Porquê, Helena?— pergunta Shaw.
—Porque se as pessoas souberem que alguém, ou alguma entidade, está
por trás destas mudanças de realidade, a consciencialização do vosso
trabalho começará a assumir um estatuto mítico.
—Tipo o Batman?— pergunta Albert com um sorriso afetado.
Helena revira os olhos.
—Se o vosso objetivo é reparar o mal que os homens fazem, talvez seja
do vosso interesse que os homens maus vos temam. Além disso, se
encontrarem este fulano perto do local do crime, pronto a invadir a casa, as
autoridades estabelecerão a ligação aos outros homicídios e, esperemos,
isso proporcione algum alívio às famílias das outras vítimas.
—Está a dizer para nos tornarmos o bicho-papão?— diz Timoney.
—Se alguém decidir não cometer uma atrocidade por receio de um grupo
desconhecido com a capacidade de manipulação da memória e do tempo,
será uma missão que nunca terão de realizar e falsas memórias que nunca
terão de criar. Por isso, sim. Tornem-se o bicho-papão.
Dia 24
Steve encontra o assassino de crianças à 1h35 da manhã quando este está
a começar a cortar o vidro do quarto de Daisy Robinson. Tapa-lhe a boca,
prende-lhe os pulsos com fita adesiva e degola-o lentamente de orelha a
orelha, ficando a ver enquanto este se contorce e esvai em sangue no solo
ao lado da casa.
Dia 31
Na semana seguinte, recusam-se a intervir no descarrilamento de um
comboio em Texas Hill Country no qual morrem nove pessoas e muitas
mais ficam feridas.
Dia 54
Quando um avião a jato, que faz a carreira regional, se despenha na
floresta de árvoresde folha perene a sul de Seattle, tornam a optar por não
utilizar a cadeira, tendo o grupo chegado à conclusão de que, tal como no
caso do descarrilamento, quando a causa do acidente for conhecida, já terá
passado demasiado tempo para destacar Steve ou Timoney.
Dia 58
Dia após dia, torna-se mais claro que tragédias estão mais aptos a
corrigir, e, para alívio de Helena, no caso de haver hesitação, uma dúvida
qualquer, preferem não intervir.
Ela continua a ser mantida prisioneira no prédio de apartamentos perto de
Sutton Place. Alonzo e Jessica deixaram-na começar a fazer caminhadas à
noite. Um deles segue-a a cerca de meio quarteirão; o outro meio quarteirão
mais à frente.
É a primeira semana de janeiro e o ar que voluteia entre os edifícios é
uma explosão polar na cara dela. Porém, deleita-se com a falsa liberdade de
caminhar em Nova Iorque à noite, imaginando que está deveras sozinha.
Torna-se contemplativa, pensando nos pais e em Barry. Não consegue
deixar de pensar na última imagem que guarda dele— de pé no laboratório
de Slade precisamente antes de as luzes se apagarem. Depois, um minuto
mais tarde, o som da voz dele, a gritar para ela fugir.
Correm-lhe pela cara lágrimas frias.
As três pessoas mais importantes da vida dela morreram e nunca mais as
verá. A perfeita solidão dessa certeza deixa-a desolada.
Tem quarenta e nove anos e questiona-se se a sensação de envelhecer
será esta— não apenas a deterioração física, mas uma interpessoal. Um
silêncio cada vez mais intenso causado pelas pessoas que mais amamos,
que moldaram e definiram o nosso mundo, e que foram à nossa frente para
o que quer que virá de seguida.
Sem uma saída, sem um final à vista, e sem todos aqueles que ama, não
sabe ao certo durante quanto tempo continuará a fazer isto.
Dia 61
Timoney regressa a uma memória para impedir que um vendedor de
seguros de cinquenta e dois anos com perturbações psíquicas vá a uma
manifestação política em Berkeley e massacre vinte e oito estudantes com
uma espingarda de assalto.
Dia 70
Steve invade um apartamento em Leeds enquanto o homem está a montar
o colete, espeta a lâmina da faca de combate na base do seu crânio e
destrói-lhe o bolbo raquidiano, deixando-o de barriga para baixo em cima
da mesa, por cima de um monte de pregos, parafusos e porcas que teriam
despedaçado doze pessoas no metro de Londres na manhã seguinte.
Dia 90
No dia em que se celebram três meses da criação do programa, uma
notícia no New York Times traça o perfil das suas oito missões, especulando
que as mortes dos pretensos assassinos, atiradores e um bombista suicida
sugerem a obra de uma organização enigmática que possui uma tecnologia
além de todo o entendimento.
Dia 115
Helena está na cama a dormir profundamente quando alguém bate à porta
da frente e fica com o coração em sobressalto. Se estivesse no seu
apartamento, poderia fingir que não estava em casa e esperar que a visita
tardia se fosse embora, mas infelizmente vive sob vigilância e o ferrolho já
está a ser aberto.
Levanta-se da cama, veste o roupão felpudo e sai para a sala de estar no
preciso instante em que John Shaw está a abrir a porta da frente.
—Entre— diz ela. —Faça de conta que está em sua casa.
—Desculpe. E lamento também a visita tardia. —Percorre o corredor até
à sala de estar. —Belo apartamento.
Helena consegue sentir-lhe no hálito o cheiro inflamado a uísque com um
travo a canela— é bastante intenso.
—Pois, tem uma renda regulada e isso tudo.
Ela poderia oferecer-lhe uma cerveja ou assim, mas não oferece.
Shaw senta-se num banco almofadado da ilha da cozinha e ela fica de pé
diante dele, pensando que ele parece mais meditabundo e perturbado desde
a última vez que o viu.
—Em que posso ajudá-lo, John?
—Sei que nunca acreditou no nosso programa.
—Sem dúvida.
—Mas estou feliz por fazer parte das tomadas de decisão. Consigo,
somos melhores. A senhora não me conhece assim tão bem, mas eu nem
sempre… Ei, não tem nada que se beba?
Ela vai ao frigorífico, tira de lá duas garrafas de Brooklyn Brewery e abre
as cápsulas.
Shaw bebe um grande trago e diz:
—Eu construo merdas para as forças armadas com o intuito de as ajudar
a matar pessoas com o máximo de eficiência possível. Sou responsável por
alguma tecnologia deveras horrível, mas estes últimos meses foram os
melhores da minha vida. Todas as noites, ao adormecer, penso na mágoa
que estamos a eliminar. Vejo as caras das pessoas cujas vidas ou os entes
queridos estamos a salvar. Penso na Daisy Robinson. Penso em todos eles.
—Eu sei que está a tentar fazer aquilo que é correto.
—Estou mesmo, talvez pela primeira vez na vida. —Bebe um trago de
cerveja. —Não disse nada à equipa, mas estou a ser pressionado por
pessoas em cargos importantes.
—Pressionado em que sentido?
—Graças ao meu historial, beneficio de rédea solta e de um mínimo de
supervisão, mas não deixo de ter superiores. Não sei se suspeitam de
alguma coisa, mas querem saber no que tenho estado a trabalhar.
—O que podemos fazer?— pergunta ela.
—Temos várias hipóteses. Podemos criar um programa de fachada, dar-
lhes alguma coisa reluzente para se entreterem, que não tenha nada que ver
com aquilo que estamos a fazer. Provavelmente, ganharíamos algum tempo.
A opção mais sensata é dizer-lhes a verdade.
—Não pode fazer isso.
—O principal desígnio da DARPA é fazer descobertas inovadoras em
tecnologias que fortalecerão a nossa segurança nacional, com um foco em
aplicações militares. É apenas uma questão de tempo, Helena. Não o posso
esconder deles para sempre.
—De que forma é que os militares utilizariam a cadeira?
—De todas! Ontem, um pelotão do 101.º Regimento sofreu uma
emboscada na província de Kandahar. Oito marines mortos em combate. A
informação ainda não foi divulgada ao público. No mês passado, um Black
Hawk despenhou-se numa missão de treino noturno no Havai. Morreram
cinco soldados. Sabe quantas missões fracassam porque não apanhamos o
inimigo por uns dias ou horas? Ou no sítio certo à hora errada? Eles
encarariam a cadeira como uma ferramenta que daria aos comandantes a
capacidade de editar a guerra.
—E se não partilharem a sua perspetiva sobre a utilização a dar
à cadeira?
—Oh, não partilharão. —Shaw emborca o resto da cerveja. Desaperta o
botão do colarinho, alivia a gravata. —Não a quero assustar, mas não seria
apenas o Departamento de Defesa a explorar a cadeira. A CIA, a NSA, o
FBI… Todas as agências quererão o seu quinhão quando souberem da sua
existência. Nós somos uma agência do Departamento de Defesa e isso dar-
nos-á alguma cobertura, mas todos exigirão um lugar na cadeira.
—Meu Deus!… E a informação será divulgada?
—É difícil saber, mas já imaginou se o Departamento de Justiça tivesse
esta tecnologia em sua posse? Transformariam este país no Relatório
Minoritário.
—Destrua a cadeira.
—Helena…
—O que foi? É assim tão difícil? Destrua-a antes que aconteça uma coisa
dessas.
—O seu potencial para o bem é demasiado elevado. Você já comprovou
isso. Não a podemos destruir apenas por receio do que poderia acontecer.
O apartamento fica em silêncio. Helena envolve a garrafa de cerveja fria
e húmida com os dedos.
—Então, qual é o seu plano?— pergunta.
—Não tenho um plano. Ainda. Só precisava que soubesse aquilo que nos
espera.
Dia 136
Tudo começa mais cedo do que qualquer um poderia supor.
No dia 22 de março, Shaw entra no laboratório para o briefing diário de
todas as coisas horríveis que aconteceram no mundo nas últimas vinte e
quatro horas e diz:
—Temos a nossa primeira missão decretada.
—Por quem?— pergunta Raj.
—Por um peixe graúdo.
—Então, já sabem?— pergunta Helena.
—Já. —Abre uma pasta de arquivo com a palavra Ultrassecreto impressa
a vermelho na capa. —Isto não foi noticiado. No dia 5 de janeiro, há setenta
e cinco dias, um caça de sexta geração teve uma avaria e despenhou-se
perto da fronteira da Ucrânia com a Bielorrússia. Eles acham que a
aeronave não foi destruída e acreditam que o piloto foi capturado. Estamos
a falar de um Boeing F/A-XX, que ainda está em desenvolvimento,é
ultrassecreto e está cheio de todo o tipo de engenhocas que preferíamos que
não caíssem nas mãos dos russos.
» Pediram-me para enviar um agente até ao dia 4 de janeiro para me
informar sobre este acidente. Depois, eu devo fazer chegar a mensagem ao
secretário-adjunto da Defesa, que se assegurará de informar a hierarquia de
modo que a aeronave seja inspecionada antes do voo de teste e não se
aproxime de território russo.
—Setenta e seis dias?— pergunta Helena.
—Isso mesmo.
—Disse-lhes que não utilizamos a cadeira para recuar assim tanto no
tempo?— diz Albert.
—Não o disse de forma tão efusiva, mas sim.
—E?
—Eles disseram: «Faça o que lhe mandam, porra!»
No dia 22 de março, enviam Timoney pelas dez da manhã.
Às onze, Helena e a equipa estão colados à televisão a ver a CNN, em
choque. Foi a primeira vez que utilizaram a cadeira para recuar a antes da
data de uma intervenção prévia e, com base no que lhes é dado a entender
pelos relatos, o efeito foi extraordinário. Até ao momento, o fenómeno de
falsas memórias seguiu o seu padrão previsível, cumprindo os respetivos
aniversários do friso cronológico individual. Por outras palavras, quando
um agente altera um friso cronológico, as falsas memórias desse friso
cronológico «morto» chegam sempre no momento exato em que o agente
morreu no tanque de privação sensorial. Porém, desta vez, parece que esses
pontos de aniversário foram sobrepostos— não apagados, mas empurrados
para as dez desta manhã, o momento em que a cadeira foi utilizada pela
última vez quando Timoney regressou ao passado para transmitir a Shaw a
mensagem sobre o caça despenhado. Por isso, ao invés de recordar cada
friso cronológico morto conforme aconteceram, o público recebeu o
impacto total de memórias mortas de uma assentada, às dez da manhã de
hoje, toda a gente se lembrou em simultâneo de todos os massacres evitados
desde o dia 4 de janeiro, incluindo Berkeley e o ataque bombista no metro
de Londres. Infligir estas falsas memórias uma a uma ao longo de vários
meses foi suficientemente perturbador. Atingir todas as pessoas com todas
as falsas memórias de uma só vez é exponencialmente mais inquietante. Até
ao momento, a imprensa não deu conta de quaisquer mortes ou colapsos em
resultado do súbito ataque devastador, mas serve para Helena reforçar a sua
convicção de que a sua máquina é demasiado misteriosa, perigosa e
imprevisível para existir.
Dia 140
Shaw ainda tem rédea solta para intervir em tragédias civis, mas o seu
trabalho está cada vez mais militarizado. Utilizam a cadeira para recuar no
tempo e anular um ataque com um drone que alvejou um casamento,
matando sobretudo mulheres e crianças afegãs, falhando por completo o
alvo pretendido, que nem sequer estava presente.
Dia 146
Corrigem um ataque aéreo de um bombardeiro B-1 Lancer que calculou
mal o bombardeamento e matou uma equipa de operações especiais inteira
na província de Zabul em vez da força talibã que fora convocado para
bombardear.
Dia 152
Quatro soldados mortos, atacados por militantes islâmicos durante uma
patrulha no deserto do Níger, são ressuscitados quando Timoney morre no
tanque de privação sensorial e dá a Shaw os detalhes da emboscada que está
para acontecer. Estão a utilizar a cadeira com tal frequência —pelo menos
uma vez por semana, agora—, que Shaw recruta um novo agente para
aliviar o esforço de Steve e Timoney, que começam a experienciar os
primeiros sinais de degradação mental causada pelo stress de mortes
sucessivas.
Dia 160
Helena desce ao parque de estacionamento do seu edifício e dirige-se
para o Suburban preto com Alonzo e Jessica, sentindo-se mais impotente do
que nunca. Não pode continuar a fazer isto. As autoridades militares estão a
usar a cadeira e ela não tem como as impedir. A cadeira está sob vigilância
vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e ela não tem acesso ao
sistema. Mesmo que conseguisse escapar de Alonzo e Jessica, considerando
tudo o que sabe, o Governo nunca cessaria de lhe dar caça. Além disso,
Shaw poderia simplesmente mandar um agente até uma memória passada e
impedir a sua fuga.
Pensamentos sombrios assaltam-na outra vez.
O telemóvel vibra no seu bolso quando se dirigem para sul pela FDR
Drive. É Shaw.
Ela atende.
—Olá, vou a caminho.
—Queria que fosse a primeira a saber.
—O quê?
—Temos uma nova missão esta manhã.
—Do que se trata?
O céu desaparece quando passam pelo portal de Manhattan do Queens-
Midtown Tunnel.
—Querem que mandemos alguém a uma memória de há quase um ano.
—O quê? Para quê?
Jessica trava com tanta força que Helena é projetada para a frente, mas
amparada pelo cinto de segurança. Do lado de fora do para-brisas, um mar
de farolins traseiros vermelhos ilumina o túnel mais à frente, acompanhados
da cacofonia dos condutores que começam a buzinar.
—Um assassinato.
Nas profundezas do túnel vê-se um distante clarão seguido de um som
parecido com um trovão.
Os vidros chocalham, o carro estremece debaixo dela, as luzes por cima
das suas cabeças tremulam por um aterrador segundo, mas depois acendem-
se outra vez.
—Que diabo foi isto?— diz Alonzo.
—John, ligo-lhe já. —Helena baixa o telemóvel. —O que está
a acontecer?
—Acho que houve um acidente ali à frente.
As pessoas estão a começar a sair dos carros.
Alonzo abre a porta e sai para o túnel.
Jessica segue-o.
O cheiro a fumo que entra pela ventilação do automóvel traz Helena de
volta ao presente. Espreita pelo vidro traseiro para os carros aglomerados
atrás de si.
Pela janela vê um homem correr a toda a velocidade para a luz do dia, e
Helena sente o primeiro lampejo de medo.
Vão surgindo cada vez mais pessoas, todas com um ar aterrorizado,
apressando-se pelo meio dos carros rumo a Manhattan, tentando fugir de
alguma coisa.
Helena abre a porta e sai do carro.
O alvoroço do medo e do desespero humanos ecoam nas paredes do
túnel, num crescendo, sobrepondo-se ao ralenti de um milhar de motores de
automóveis.
—Alonzo?
—Não sei o que aconteceu —diz ele—, mas é grave.
Paira no ar um cheiro suspeito— não só dos escapes dos automóveis, mas
de gasolina e coisas a derreter.
O fumo sai num turbilhão do túnel mais à frente e as pessoas que
cambaleiam na direção dela parecem em choque, as caras ensanguentadas e
enegrecidas.
A qualidade do ar está cada vez pior, começa a sentir uma ardência nos
olhos e agora mal consegue ver um palmo à sua frente.
—Temos de sair já daqui, Alonzo— diz Jessica.
Quando se viram para abandonar o local, emerge do meio do fumo um
homem, a coxear e agarrado ao flanco, sem dúvida em sofrimento.
Helena corre para ele, agora a tossir e, quando se aproxima, repara que
ele está agarrado a um fragmento de vidro espetado no seu flanco. Tem as
mãos tingidas de sangue, a cara enegrecida do fumo e contorcida de dor.
—Helena!— grita Jessica. —Vamos embora!
—Ele precisa da nossa ajuda.
O homem cai nos braços de Helena, sem conseguir respirar. Alonzo corre
para eles; juntos, passam os braços do homem por cima dos ombros. É um
homem grande; pesa pelo menos cento e dez quilos e usa uma camisa
chamuscada com o nome e o logótipo de um serviço de entregas no bolso
da lapela.
É um alívio caminhar para a saída. A cada passo, o pé esquerdo do
homem chapinha no sapato, que está a ficar cheio de sangue.
—Viu o que aconteceu?— pergunta Helena.
—Dois camiões pesados obstruíram a circulação. Estavam a ocupar as
duas faixas de rodagem um pouco mais à minha frente. Toda a gente se pôs
a buzinar. Pouco depois, as pessoas começaram a sair dos carros e
aproximaram-se dos camiões para ver o que havia de errado. Assim que um
sujeito subiu para um dos reboques, vi um enorme clarão e depois o maior
estrondo da minha vida. De repente, vem uma bola de fogo por cima dos
carros todos. Eu agachei-me um segundo antes de atingir a minha carrinha.
O para-brisas explodiu e depois o interior incendiou-se. Pensei que ia
morrer queimado. Nem sei como consegui…
O homem interrompe o relato.
Helena olha para o pavimento, que está a vibrar debaixo dos seus pés, e
depois olham todos para o túnelque conduz a Queens.
No início, é difícil perceber, mas pouco depois o movimento ao longe
torna-se claro— as pessoas vêm a correr na direção eles; o barulho dos
gritos aumenta, ribombando nas paredes do túnel.
Helena vê uma fissura abrir-se no meio do teto, três metros e meio acima
das suas cabeças, ramificando-se. Começam a cair fragmentos de betão à
sua volta, esmagando para-brisas e pessoas. Sente o vento frio na cara, e
então, no meio de gritos de terror, um ruído como um trovão, a aumentar de
forma exponencial a cada segundo que passa.
O homem das entregas solta um gemido.
—Foda-se— diz Alonzo.
Helena sente humidade na cara e depois uma parede de água irrompe do
meio do fumo, levando carros e pessoas.
Colide com Helena como um muro de tijolos glaciais, levantando-a do
chão, e ela vê-se levada aos trambolhões num vórtice de gélida violência,
embatendo em paredes, no teto, depois chocando com uma mulher num fato
executivo, entreolhando-se por dois segundos surreais antes de Helena ser
lançada pelo para-brisas de uma carrinha da FedEx.
Helena está de pé à janela da sala de estar, uma hemorragia nasal,
a cabeça a latejar, tentando processar o que acabou de acontecer.
Apesar de ainda sentir o terror de ser varrida pelo túnel numa onda de
detritos, água, carros e pessoas, a sua morte ali nunca aconteceu.
Não passa de uma memória morta.
Ela acordou, tomou o pequeno-almoço, preparou-se e estava a ir para a
porta quando ouviu duas explosões tão fortes que abanaram o chão e
fizeram os vidros tilintar.
Correu para a sala de estar e, pela janela, viu, tomada de espanto, a Fifty-
Ninth Street Bridge arder. Passados cinco minutos, ganhou as falsas
memórias de morrer no túnel.
Neste momento, as duas torres da Fifty-Ninth Street Bridge que
emolduram a ilha Roosevelt estão envoltas em colunas de labaredas
revoluteantes que se elevam centenas de metros no ar, atingindo uma
temperatura tão elevada que ela é capaz de sentir o calor, mesmo a mais de
trezentos metros de distância e através do vidro.
Que merda está a acontecer?
O vão da ponte entre Manhattan e a ilha Roosevelt está caído sobre o
East River como um tendão decepado, as armações ainda presas à torre de
Manhattan. Os automóveis vão escorregando pelo pavimento íngreme para
o rio, as pessoas a agarrar-se às grades enquanto, lentamente, a corrente do
rio arranca o segmento de ponte com um guincho estridente, que Helena
consegue sentir nas entranhas.
Limpa o sangue do nariz e é então que compreende: Eu experienciei a
mudança de realidade. Eu morri no túnel. Agora estou aqui. Alguém está a
usar a cadeira.
O vão da ponte que liga a ilha Roosevelt a Queens já foi completamente
arrancado e, a jusante, vê uma secção de trezentos metros de estrada em
chamas cair em cima de um navio porta-contentores, empalando-lhe o casco
com armações de metal arrancadas como se fossem lanças.
Mesmo dentro do apartamento, o ar cheira a coisas a arder que não
deveriam poder arder e o uivo das sirenes de centenas de veículos de
emergência a aproximar-se é ensurdecedor.
Quando o seu telemóvel vibra atrás de si na ilha da cozinha, os últimos
fiapos de metal soltam-se da torre de Manhattan como chicotes a estalar e,
com um tremendo rugido, o segmento de ponte liberta-se, caindo a pique
quarenta metros, as duas plataformas de faixas de rodagem a desabar em
cima da FDR Drive, esmagando os carros, derrubando as árvores ao longo
da margem, e depois raspando devagar ao longo do terminal oriental da
Fifty-Ninth e da Fifty-Eighth Street, arrancando toda a fachada nordeste de
um arranha-céus, não abalroando por pouco o prédio de Helena antes de
deslizar para o East River.
Ela corre para a cozinha e atende a chamada.
—Quem está a utilizar a cadeira?
—Não somos nós— responde John.
—O tanas! Acabei de escapar à minha morte no Midtown Tunnel e agora
estou aqui no meu apartamento a ver a ponte em chamas.
—Saia daí o mais depressa possível.
—Porquê?
—Estamos fodidos, Helena. Completamente fodidos.
A porta do apartamento dela abre-se com estrondo. Alonzo e Jessica
correm para dentro, os narizes a sangrar, com um ar assustadíssimo.
Helena pressente uma desaceleração de todo o movimento.
Outra mudança a acontecer?
—Mas que diabo…— diz Jessica.
Agora Helena está a olhar pelo vidro traseiro fumado, para norte, ao
longo do East River, para o Harlem e o Bronx.
Não chegou a morrer no túnel.
A destruição da Fifty-Ninth Street Bridge não aconteceu.
Na realidade, eles já percorreram meio caminho do tabuleiro superior da
Fifty-Ninth Street Bridge, que de momento está completamente intacto.
—Oh, meu Deus— exclama Jessica, sentada ao volante.
O Suburban dá uma guinada para a faixa de rodagem contígua – Alonzo
estica o braço, agarra o volante sentado no lugar do pendura e puxa o
veículo para a faixa de rodagem em que é suposto seguir.
Mais à frente, um autocarro desvia-se para a sua faixa de rodagem,
abalroando três carros e esmagando-os contra o separador central numa
aspersão de faíscas e vidro estilhaçado.
Jessica dá um sacão no volante, evitando por pouco o choque em cadeia e
fazendo o carro por momentos andar sobre duas rodas.
—Vejam! Atrás de nós— diz ela.
Helena olha para trás e vê cerradas colunas de fumo, que se elevam desde
Midtown.
—Isto está relacionado com as falsas memórias, não é?— diz Jessica.
Helena liga para Shaw, encosta o telemóvel ao ouvido e pensa: Alguém
está a utilizar a cadeira para mudar a realidade de um desastre para outro.
—Todas as linhas estão ocupadas; por favor, tente mais tarde.
Alonzo liga o rádio.
—… notícias de última hora: dois camiões pesados explodiram perto do
Grand Central Terminal. Instalou-se o caos. Há relatos anteriores de algum
tipo de acidente no túnel Queens-Midtown e eu lembro-me de ver a Fifty-
Ninth Street Bridge ruir, mas… não sei como é possível… vejo-a de pé na
nossa câmara da torre neste preciso…
… e estão parados na East Fifty-Seventh Street, o ar carregado de fumo,
os ouvidos a zunir.
Outra dor de cabeça.
Outra hemorragia nasal.
Outra mudança.
O acidente no túnel nunca aconteceu.
O acidente na ponte nunca aconteceu.
O Grand Central Terminal nunca sofreu um ataque bombista.
Só sobejam as memórias mortas desses acontecimentos, empilhadas na
sua mente como as memórias de sonhos.
Ela acordou, preparou o pequeno-almoço, vestiu-se e desceu ao parque
de estacionamento subterrâneo do prédio com Jessica e Alonzo, como numa
manhã qualquer. Seguem para oeste pela East Fifty-Seventh para contornar
o acesso que dá para a ponte quando um clarão ofuscante irrompe no céu,
seguido do barulho de mil canhões a disparar ao mesmo tempo, retumbando
pelos edifícios das cercanias.
Neste momento estão presos no meio do trânsito e, a toda a volta, há
pessoas de pé no passeio, a olhar horrorizadas para a Trump Tower, da qual
se erguem vagas de fumo e labaredas.
Os dez pisos inferiores vergam-se como se estivessem a derreter,
revelando o interior como se fosse formado por cubículos. Os pisos mais
acima continuam intactos, e as pessoas aí presas olham por cima do novo
precipício para a cratera que outrora fora o cruzamento da Fifty-Seventh
com a Fifth Avenue.
Enquanto a cidade grita com as sirenes que se aproximam, um som
estridente, Jessica pergunta:
—O que está a acontecer? Mas que raio está a acontecer?
Mais à frente, um ser humano cai do céu e esmaga o tejadilho de um táxi.
Outra pessoa cai em cima do para-brisas de um carro mesmo atrás do
Suburban.
Uma terceira mergulha pelo toldo de um clube de desporto privado e
Helena interroga-se se as pessoas estarão a atirar-se dos prédios por as suas
mentes não conseguirem suportar o que está a acontecer. Não seria de
espantar. Se ela não soubesse da cadeira, o que pensaria que estava a
acontecer à cidade, ao tempo, à própria realidade?
Jessica chora.
—Parece o fim do mundo— diz Alonzo.
Helena olha pela janela para o prédio quando uma mulher de cabelo loiro
salta de um escritório cujos vidros foram estilhaçados pela explosão. Cai
como um foguete, de cabeça para baixo, a gritar até aoim pacto. Helena
tenta desviar o olhar, mas não consegue fazê-lo a tempo.
O movimento de todas as coisas desacelera outra vez.
O fumo escuro.
As chamas.
A mulher a cair em câmara lenta, a cabeça cada vez mais perto do
pavimento.
Tudo se detém.
Este friso cronológico está a morrer.
As mãos de Jessica agarram o volante eternamente.
Helena não consegue desviar o olhar da mulher que saltou do prédio, que
nunca chega a bater no chão, porque está parada em pleno voo, o topo da
cabeça a trinta centímetros do pavimento, os cabelos loiros esparramados,
os olhos fechados, o rosto num esgar perpétuo, a preparar-se para o
impacto…
E Helena está a passar pelas portas duplas do edifício da DARPA, onde
Shaw se encontra do lado de fora do posto de segurança.
Entreolham-se, processando esta nova realidade à medida que as novas
memórias se encaixam no lugar.
Nada daquilo aconteceu.
Nem o túnel, a ponte, a Grand Central ou a Trump Tower. Helena
acordou, preparou-se e foi levada como todas as outras manhãs, sem
incidentes.
Abre a boca para dizer alguma coisa, mas Shaw adianta-se:
—Aqui não.
Raj e Albert estão sentados à mesa de reuniões no laboratório, a assistir
às notícias numa televisão embutida na parede. O ecrã foi dividido em
quatro imagens em tempo real das câmaras da torre que mostram a Fifty-
Ninth Street Bridge, o Grand Central Terminal, a Trump Tower e o túnel
Queens-Midtown, todos incólumes, por debaixo do título: PROBLEMA DE
MEMÓRIA EM MASSA EM MANHATTAN.
—Que porra é que está a acontecer?— pergunta Helena.
Toda ela treme, porque, apesar de nunca ter acontecido, ainda consegue
sentir o impacto da parede de água a embater no seu corpo. Consegue ouvir
o embate dos corpos nos carros a toda a volta. Consegue ouvir o rangido da
ponte a desmoronar.
—Sente-se— diz Shaw.
Ela senta-se em frente a Raj, que está com um ar completamente
aturdido.
Shaw continua de pé e diz:
—Os planos da cadeira, do tanque, o nosso software, o protocolo…
Houve uma fuga de informação.
Helena aponta para o ecrã.
—Alguém está a provocar isto?
—Sim.
—Quem?
—Não sei.
—Seria preciso mais de dois meses para alguém construir a cadeira
baseando-se apenas nos planos— diz ela.
—A fuga já foi há mais de um ano.
—Como é que pode ser? Vocês nem sequer tinham a cadeira há um
ano…
—O Marcus operou a partir daquele hotel durante mais de um ano.
Alguém teve curiosidade sobre o que ele estava a fazer e acedeu de modo
ilícito aos servidores dele. O Raj acabou de descobrir provas da intrusão.
—Foi uma maciça fuga de informação— diz Raj. —Esconderam-na bem
e obtiveram acesso a tudo.
Shaw olha para Albert.
—Diga-lhe o que descobriu.
—Outros casos de mudanças de realidade.
—Onde?
—Hong Kong, Seul, Tóquio, Moscovo, quatro em Paris, dois em
Glasgow, um em Oslo. Muitas semelhanças com as histórias de SFM que
surgiram na América no ano passado.
—Quer dizer que alguém está a usar a cadeira e vocês têm a certeza
disso.
—Sim. Até encontrei uma empresa em São Paulo que a utiliza para fins
turísticos.
—Meu Deus. Há quanto tempo é que isso está a acontecer?
—Há quase três meses.
—Os governos chinês e russo assumiram ter esta tecnologia— diz Shaw.
—Cada frase que diz assusta-me mais do que a anterior.
—Bem, para não fugir à regra… – Abre um computador portátil
e escreve um URL. —Isto foi publicado há cinco minutos. Ainda não
chegou à imprensa.
Ela inclina-se para o ecrã.
É a página da WikiLeaks.
Sob o título «Guerra e Tropas», vê a imagem de um soldado sentado
numa cadeira que parece exatamente igual à que está no meio desta sala,
por baixo do título:
Máquina de Memória Militar dos EUA. Milhares de páginas com
esquemas completos de um equipamento que, alegadamente, envia
soldados de volta às suas memórias pode ser a explicação da vaga de
tragédias revertidas ao longo dos últimos seis meses.
Helena sente um aperto no peito.
Pontos negros toldam-lhe o campo de visão.
—Como é que a WikiLeaks estabeleceu uma ligação entre a cadeira e o
nosso Governo?— pergunta.
—Não se sabe.
—Recapitulando —diz Albert—, os servidores do Slade foram atacados.
O conteúdo terá sido vendido a vários compradores. Um ou mais desses
compradores, ou talvez os próprios hackers, continuaram a divulgar os
planos. É provável que, atualmente, haja muitas cadeiras a ser utilizadas em
muitos países. A China e a Rússia têm a cadeira, e agora, após a WikiLeaks
ter publicado os esquemas, qualquer empresa, ditador ou pessoa abastada
com vinte e cinco milhões de dólares à mão de semear pode ter a sua
própria máquina de memória privada.
—Não se esqueça de que um grupo terrorista qualquer parece ser um dos
orgulhosos proprietários da cadeira —diz Raj— e estão a utilizá-la para
repetir o mesmo ataque em diferentes alvos numa das cidades com maior
densidade populacional do mundo.
Helena olha para a cadeira.
Para o tanque de privação sensorial.
Para o terminal.
Sente-se na atmosfera um ténue zumbido.
No ecrã da televisão, as notícias dão agora conta de um novo ataque em
São Francisco, no qual a Golden Gate Bridge emana colunas de fumo preto
em direção à alvorada. Ela tenta compreender a situação, mas é tudo
demasiado intenso, confuso, preocupante.
—Qual é o pior cenário possível, Albert?— pergunta Shaw.
—Creio que estamos a vivê-lo.
—Não, refiro-me ao que acontecerá a seguir.
Albert sempre foi fleumático, como se a sua colossal inteligência o
protegesse e elevasse acima de tudo, mas não hoje. Hoje, parece assustado.
—Não há certezas de a Rússia ou a China só disporem dos planos da
cadeira ou de já terem construído uma. Se for o primeiro caso, podemos ter
a certeza de que estão na corrida para o fabrico da cadeira, contra todos os
outros países do mundo.
—Porquê?— quer saber Helena.
—Porque é uma arma. É a arma mais poderosa de todas. Lembram-se da
nossa primeira reunião a esta mesa, quando falámos sobre enviar um
atirador de noventa e cinco anos até uma memória para mudar o desfecho
de uma guerra? Quais dos nossos inimigos… que diabos, até dos nossos
amigos… beneficiariam de utilizar a cadeira contra nós?
—Quais não beneficiariam?— atalha Shaw.
—Quer dizer que estamos numa situação semelhante a um impasse
nuclear?— pergunta Raj.
—Muito pelo contrário. Os governos não utilizam armas nucleares,
porque assim que carregarem no botão, o adversário fará o mesmo.
A ameaça de retaliação é um dissuasor demasiado forte. Porém, com a
cadeira, não existe uma ameaça de retaliação ou destruição mútua.
O primeiro governo, empresa ou indivíduo a utilizá-la com êxito e de forma
estratégica, quer seja a mudar o desfecho de uma guerra ou a assassinar um
ditador que já morreu há imenso tempo, será o vencedor.
—Está a dizer que toda a gente tem interesse em utilizar a cadeira?—
pergunta Helena.
—Exatamente. E quanto antes. Quem quer que seja o primeiro a
reescrever a história no seu próprio interesse, será o vencedor. É demasiado
arriscado permitir que outra pessoa o consiga fazer primeiro.
Helena olha outra vez de relance para a televisão.
Neste momento, o Transamerica Pyramid no distrito financeiro de São
Francisco está em chamas.
—Pode ser um governo estrangeiro que está por trás destes ataques— diz
Helena.
—Não— refuta Albert, analisando o seu telemóvel. —Um grupo
anónimo acaba de reivindicar a responsabilidade no Twitter.
—O que é que pretendem?
—Não faço ideia. Muitas vezes, o simples desencadear de devastação e
terror é, em si mesmo, o objetivo final.
Vê-se no ecrã uma mulher sentada a apresentar o noticiário com um ar
abalado ao falar para a câmara.
—Ponha mais alto, Albert— diz Shaw.
—Entre relatos contraditórios sobre ataques terroristas em Nova Iorque
e São Francisco, acabou de ser publicado no The Guardian um comunicado
de Glenn Greenwald no qual alega que o Governo dos Estados Unidos
possui há pelo menos seis meses uma nova tecnologia chamada «cadeira de
memória», a qual foi pirateada de uma empresa privada. O Sr. Greenwald
afirma que a cadeira de memória permite que a consciência de quem nela
se sentar viaje até ao passado e, de acordo com as suas fontesconfidenciais, esta cadeira será a causa da síndrome das falsas memórias,
a misteriosa…
Albert tira o som à televisão.
—Temos de fazer alguma coisa imediatamente— diz. —A qualquer
momento, a realidade pode mudar-nos para um mundo completamente
diferente ou, simplesmente, para fora da existência.
Shaw, que não parava de andar de um lado para o outro, deixa-se abater
na sua cadeira a olhar para Helena.
—Eu deveria ter-lhe dado ouvidos.
—Agora não é o momento de…
—Pensei que a poderíamos utilizar para o bem. Estava preparado para
dedicar o resto da minha…
—Não importa. Se me tivesse dado ouvidos e destruído a cadeira, agora
estaríamos indefesos.
Shaw olha de relance para o telemóvel.
—Os meus superiores vêm a caminho.
—Quanto tempo temos?— pergunta Helena.
—Vêm num jato de Washington, por isso cerca de trinta minutos.
Apoderar-se-ão de tudo.
—Nunca mais nos deixarão entrar aqui— diz Albert.
—Vamos mandar a Timoney até ao passado— diz Shaw.
—Até quando?— pergunta Albert.
—Até antes de o laboratório do Slade ter sido atacado. Agora que
sabemos a localização do edifício dele, podemos fazer a incursão mais
cedo. Não ocorrerá o acesso ilícito e seremos os únicos guardiões
da cadeira.
—Até chegarmos de novo a este momento— diz Albert. —Então,
o mundo lembrar-se-á de toda a devastação que aconteceu esta manhã.
—E as pessoas que agora possuem a cadeira irão simplesmente
reconstruí-la com base numa falsa memória— diz Helena. —Tal como o
Slade fez. Será mais difícil sem os planos, mas não impossível. O que
precisamos é de mais tempo.
Helena levanta-se e aproxima-se do terminal, onde pega num capacete e
se senta na cadeira.
—O que está a fazer?— pergunta Shaw.
—O que lhe parece?… Raj, vens dar-me uma ajuda? Preciso de mapear
uma memória.
Raj, Shaw e Albert entreolham-se por cima da mesa.
—O que está a fazer, Helena?— repete Shaw.
—A tirar-nos desta alhada.
—Como?
—Não pode confiar em mim, porra?!— grita. —Estamos a ficar sem
tempo. Eu não me intrometi, dei conselhos, segui as suas regras. Agora, é a
sua vez de seguir as minhas.
Shaw suspira, desalentado. Ela conhece a mágoa de ter de prescindir das
promessas da cadeira. Não se trata apenas da desilusão de todas as
aplicações científicas e humanitárias que não se concretizarão, as quais se
poderiam concretizar em condições ideais. Trata-se de perceber que, sendo
uma espécie profundamente imperfeita, nunca estaremos preparados para
dominar esse poder.
—Está bem— acaba por dizer. —Raj, ative a cadeira.
É a primeira verdadeira experiência de liberdade que a rapariga tem.
Ao cair da noite, sai da sua casa de campo de dois pisos e mete-se no
Chevy Silverado azul e branco de 1978 que é o único veículo da família.
Nunca esperara que os pais lhe oferecessem um carro quando fez
dezasseis anos há dois dias. Os seus planos são passar o próximo verão a
trabalhar como nadadora-salvadora e baby-sitter e, espera, juntar dinheiro
suficiente para comprar o seu próprio carro.
Os pais estão de pé no alpendre da frente ligeiramente abaulado,
orgulhosos, a vê-la meter a chave na ignição.
A mãe tira uma fotografia.
Quando o motor ronca, o que mais a surpreende é o vazio dentro da
carrinha.
O pai não está sentado no lugar do pendura.
A mãe não está sentada no meio dos dois.
Ela está sozinha.
Pode ouvir a música que quiser, no volume que lhe apetecer. Pode ir
aonde quiser, conduzir à velocidade que bem entender.
É claro que não o fará.
Na sua viagem de estreia, o seu plano é aventurar-se pelos perigosos e
distantes baldios da loja de conveniência, cerca de dois quilómetros mais
ao fundo da rua.
A fervilhar de energia, engrena a alavanca na posição de condução e
acelera devagar pela longa rampa de acesso, metendo o braço esquerdo do
lado de fora do vidro para acenar aos pais.
A estrada rural que passa à frente da sua casa está deserta.
Vira para a estrada e liga o rádio. A nova canção de George Michael,
Faith, está a tocar na estação de rádio da faculdade às portas de Boulder e
ela canta a plenos pulmões enquanto passa pelos vastos campos. O futuro
parece-lhe mais próximo do que nunca. Como se pudesse até já ter
chegado.
As luzes da estação de serviço brilham ao longe e, quando levanta o pé
do pedal, sente uma dor lancinante por trás dos olhos.
Fica com a visão turva e por pouco não colide com as bombas de
combustível.
No parque de estacionamento nas traseiras da loja, desliga o motor e
pressiona os polegares nas têmporas para tentar aplacar a dor— tão forte
que pensa que vai vomitar.
É então que acontece uma coisa muito estranha.
O seu braço direito move-se para a coluna da direção e agarra as
chaves.
—Mas que raio?!— diz.
Porque ela não moveu o braço.
De seguida, vê o pulso rodar a chave e ligar o motor outra vez, e agora a
sua mão está a aproximar-se da alavanca das mudanças e a engrenar a
marcha-atrás.
Contra a sua vontade, olha por cima do ombro, pelo vidro de trás, recua
a carrinha pelo parque de estacionamento, e depois engrena a velocidade
para arrancar.
Não consegue evitar pensar: Não estou a conduzir, não estou a fazer
nada disto, enquanto a carrinha acelera pela autoestrada, de volta para
casa.
Uma escuridão começa a toldar-lhe a vidão periférica, a Front Range e
as luzes de Boulder a diminuir de intensidade e a ficar mais pequenas,
como se estivesse a cair lentamente num poço fundo. Quer gritar, não
permitir que isto aconteça, mas agora é apenas uma passageira no seu
próprio corpo, incapaz de falar, cheirar ou sentir coisa alguma.
O som do rádio é pouco mais do que um murmúrio moribundo, e, de um
momento para o outro, a centelha de luz que era a sua consciência do
mundo extingue-se.
HELENA
15 de outubro de 1986
Helena vira da estrada rural para a rampa de acesso da casa de campo de
dois pisos onde cresceu, sentindo-se mais em casa a cada momento que
passa nesta versão mais jovem de si mesma.
A casa de campo parece mais pequena, muito mais insignificante do que
ela se lembrava, e inegavelmente mais frágil, com o pano de fundo azul das
montanhas que se elevam desde as planícies a quase dezassete quilómetros
de distância.
Estaciona, desliga o motor e vê no retrovisor a sua cara de dezasseis
anos.
Sem rugas.
Muitas sardas.
Os olhos translúcidos, verdes e cintilantes.
Ainda uma criança.
A porta range quando ela a abre com o ombro para se apear, pondo o pé
sobre a relva. A brisa traz o cheiro adocicado e húmido de uma leitaria nas
redondezas, e é inquestionavelmente o cheiro que mais associa a casa.
Sente uma enorme leveza ao subir os degraus do alpendre, desgastados
pelo tempo.
O rumorejar baixo da televisão é a primeira coisa que ouve quando abre a
porta da frente e entra. Ao fundo do corredor, passando pelas escadas, ouve
movimento na cozinha— comida a ser mexida, misturada, tachos a bater,
água a correr. Toda a casa cheira a frango assado no forno. Helena espreita
para a sala de estar. O pai está sentado na sua cadeira reclinável com os pés
esticados, a fazer o que costumava fazer todos os dias da semana da sua
juventude— assistir ao World News Tonight. Peter Jennings anuncia que
Elie Wiesel foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz.
—Como foi a viagem?— pergunta o pai.
Compreende que as crianças são sempre demasiado jovens e egocêntricas
para verem realmente os pais no auge das suas vidas. Porém, ela vê o seu
pai neste momento como nunca o viu antes. Ele é tão jovem e bem-
parecido. Ainda nem tem quarenta anos. Não consegue desviar o olhar dele.
—Foi muito divertida. —A sua voz soa-lhe estranha, aguda e delicada.
Ele volta a olhar para o televisor e não repara nela a limpar as lágrimas
dos olhos.
—Amanhã não preciso da carrinha, por isso pergunta à mãe, e se ela
também não precisar, podes levá-la para a escola. —Esta realidade parece-
lhe mais firme a cada segundo que passa. Acerca-se da cadeira reclinável,
debruça-se e passa os braços à volta do pescoço dele. —Porque foi isso?—
pergunta. O cheiro a Old Spice e a barba áspera como lixa quase a fazem
chorar.
—Por seres o meu pai— murmura.
Passa pela sala de jantarter de se esforçar por isso.
Certa vez, ele disse-lhe que ela tinha cara de monarca quiescente.
Conheceram-se e criaram uma ligação durante um assalto a um banco, há
alguns anos, que se transformou numa situação com reféns. No Natal
seguinte, envolveram-se num dos momentos mais embaraçosos da
existência de Barry. Aconteceu numa das muitas festas organizadas pela
Polícia de Nova Iorque e os dois perderam o controlo. Ele acordou no
apartamento dela às três da manhã com a cabeça ainda à roda. O seu erro
foi tentar esgueirar-se quando não estava preparado para ficar consciente.
Vomitou no chão ao lado da cama dela e estava a tentar limpar a porcaria
quando Gwen despertou e gritou com ele:
«Eu limpo o teu vomitado de manhã. Vai-te embora!» Ele não se lembra
de pormenores de cenas de sexo, se é que o fizeram ou tentaram, e a sua
esperança é que ela tenha a mesma misericordiosa lacuna de memória.
De qualquer forma, nenhum deles voltou a falar do assunto.
O empregado chega para saber o que Barry vai tomar e para servir outro
Wild Turkey a Gwen. Bebem e conversam sobre ninharias durante algum
tempo, e quando Barry por fim sente que o mundo começa a libertar-se,
Gwen diz:
— Constou-me que tiveste um caso de suicídio de uma pessoa com SFM
na sexta à noite.
— Foi.
Ele conta-lhe todos os pormenores.
— Sê honesto — diz ela. — Ficaste muito transtornado?
— Bem, ontem tornei-me um especialista em SFM pela Internet.
— E então?
— Há oito meses, os Centros para Controlo de Doenças identificaram
sessenta e quatro casos semelhantes na região nordeste. Em todos os casos,
os doentes apresentaram queixas de falsas memórias agudas. Não apenas
uma ou duas, mas uma história alternativa completamente imaginada, que
abarcava grandes porções das suas vidas até àquele momento, remontando
geralmente a meses ou anos. Em alguns casos, décadas.
— Queres dizer que perdem a memória da vida real?
— Não, de repente, têm dois conjuntos de memórias. Um verdadeiro e
um falso. Em alguns casos, os doentes sentem que as suas memórias e
consciências foram transpostas de uma vida para a outra. Noutros casos, os
doentes experienciaram um súbito flash de falsas memórias de uma vida
que nunca viveram.
— O que é que provoca isso?
— Ninguém sabe. Não identificaram uma única anomalia fisiológica ou
neurológica nos indivíduos afetados. Os únicos sintomas são as falsas
memórias propriamente ditas. Ah, e cerca de dez por cento dos afetados
suicidam-se.
— Meu Deus.
— O número pode ser mais elevado. Muito mais elevado. Este valor
representa os casos conhecidos.
— Este ano, os suicídios aumentaram em cinco divisões administrativas.
Barry olha para o empregado e faz sinal para servir mais uma rodada.
— É contagioso? — pergunta Gwen.
— Não encontrei uma resposta concludente. Os CCD não identificaram
um agente patogénico, pelo que não parece transmitir-se pelo sangue ou
pelo ar. Ainda. Um artigo do The New England Journal of Medicine
especulou que se propaga através da rede social do portador.
— Como o Facebook? Como é que isso pode…
— Não, quero dizer que quando uma pessoa é infetada com SFM,
algumas das pessoas do seu círculo de conhecidos também são contagiadas.
Os progenitores partilharão as mesmas falsas memórias, mas em menor
escala. Os irmãos, irmãs, amigos íntimos. Realizou-se um estudo de caso a
um fulano que, certo dia, acordou e tinha memórias de uma vida
completamente diferente. De estar casado com outra mulher, viver noutra
casa, ter filhos diferentes. Com base na sua memória, reconstruíram a lista
dos convidados do casamento dele… o casamento de que ele se lembrava,
mas que nunca aconteceu. Localizaram treze pessoas dessa lista e todos
também tinham memórias desse casamento que nunca aconteceu. Já ouviste
falar de uma coisa chamada efeito Mandela?
— Não sei. Talvez.
É servida mais uma rodada. Barry emborca o seu shot de Old Grand-Dad
e empurra-o com uma Coors enquanto a luminosidade que entra pelo vidro
da frente diminui de intensidade com o lusco-fusco.
— Ao que parece, milhares de pessoas têm memória de Nelson Mandela
ter morrido na prisão nos anos 80, apesar de ele ter vivido até 2013 —
explica.
— Já ouvi isso. É como aquela história dos livros The Berenstain Bears.
— Nunca ouvi falar.
— És mesmo velho.
— Vai-te lixar.
— São uns livros infantis de quando eu era criança e muita gente lembra-
se de se intitularem The Berenstein Bears, S-T-E-I-N, quando na verdade se
escrevia Berenstain. S-T-A-I-N.
— Que estranho.
— Assustador, melhor dizendo, pois eu tenho ideia de que era
Berenstein.
Gwen bebe o seu uísque de um trago.
— Além disso, e ninguém sabe se está relacionado com a SFM, os casos
de déjà-vu agudo também estão a aumentar.
— O que é isso?
— As pessoas têm a sensação, por vezes a ponto de ser debilitante, de
que estão a reviver sequências inteiras das suas vidas.
— Isso às vezes acontece-me.
— A mim também.
— A tua suicida não disse que a primeira mulher do marido dela também
saltou do Poe Building? — pergunta Gwen.
— Disse. Porquê?
— Não sei. Parece-me apenas… pouco provável.
Barry olha para ela. O bar está a ficar cheio e barulhento.
— Onde queres chegar? — pergunta.
— Se calhar, ela não tinha síndrome das falsas memórias. Se calhar, a
gaja era apenas maluca. Se calhar, não te devias preo cupar tanto.
Três horas mais tarde, ele está perdido de bêbedo noutro bar — o sonho
húmido de um amante de cerveja, com cabeças de búfalos e veados
empalhadas, dependuradas nas paredes de madeira e uma fileira de torneiras
de tirar cerveja por debaixo das prateleiras com iluminação de fundo.
Gwen tenta levá-lo a jantar, mas a empregada repara que ele está a
cambalear e recusa-lhes uma mesa. Lá fora, a cidade parece à deriva e
Barry está concentrado a tentar que os prédios não rodopiem enquanto
Gwen o segura pelo braço direito, conduzindo-o rua abaixo.
De súbito, percebe que estão numa esquina sabe-se lá onde a falar com a
bófia. Gwen está a mostrar o seu distintivo ao polícia de patrulha e a
explicar que o intento dela é levar Barry para casa, mas que tem medo de
que ele vomite dentro de um táxi.
Depois, estão a caminhar outra vez, a cambalear, a fulgurância noturna
futurista de Times Square a rodopiar como uma feira popular nauseante.
Consulta o relógio, 23h22, e não sabe em que buraco negro caíram as
últimas seis horas.
— Não quero ir para casa— diz, para ninguém em especial.
Depois, está a fitar um relógio digital que indica 4h15. Tem a sensação de
que alguém lhe abriu um buraco no crânio enquanto dormia e sente a língua
seca como uma tira de couro. Não está no apartamento dele. Está deitado no
sofá da sala de estar de Gwen.
Faz um esforço para montar as peças da noite, mas estão todas
espalhadas. Lembra-se de Julia e do parque. Da primeira hora do primeiro
bar com Gwen, mas, depois disso, tudo é confuso e matizado
de arrependimento.
Sente o coração bater nos ouvidos. As ideias em catadupa.
É a hora solitária da noite, aquela que ele bem conhece — quando
a cidade dorme, mas ele não, e todos os arrependimentos da vida lhe
espicaçam a mente com uma intensidade insuportável.
Pensa no pai que morreu quando ele era jovem e a eterna dúvida: Ele
saberia que eu o amava?
E Meghan. Sempre Meghan.
Quando a sua filha era pequena, estava convencida de existir um monstro
na arca que havia aos pés da sua cama. Nunca se lembrava disso durante o
dia, mas assim que ficava escuro e ele a aconchegava na cama, ela
chamava-o sempre, e ele ia a correr até à beira dela, ajoelhava-se ao lado da
cama e fazia-lhe ver que tudo parece mais assustador à noite. Era apenas
uma ilusão, uma partida que a escuridão nos prega.
Como é estranho que, décadas mais tarde e com a vida tão fora do rumo
que traçara, se encontre sozinho no sofá do apartamento de uma amiga,
tentando aplacar os seus medos com a mesma lógica que utilizava para
acalmar a filha há tantos anos.
Tudo parecerá melhor pela manhã.
A esperança regressará quando for de dia outra vez.
O desespero é uma mera ilusão, uma partida que a escuridão nos prega.
Fecha os olhose vai para a cozinha, onde encontra a mãe
encostada ao balcão, a fumar um cigarro e a ler um romance. A última vez
que Helena a viu foi num centro de cuidados para adultos perto de Boulder,
daqui por vinte e quatro anos, o corpo frágil, a mente destruída. Tudo isso
ainda acontecerá, mas neste momento, traz vestidas umas calças de ganga
azuis e uma blusa de botões até baixo. Tem uma permanente e franjas à
moda dos anos 80 e está no auge absoluto da sua vida. Helena atravessa a
pequena cozinha e dá um forte abraço à mãe. Está a chorar outra vez e não
se consegue conter.
—O que foi, Helena?
—Nada.
—Aconteceu alguma coisa pelo caminho?
Helena abana a cabeça.
—Estou só emotiva.
—Porquê?
—Nem sei.
Sente as mãos da mãe passarem-lhe pelo cabelo e o cheiro do perfume
que sempre usou —White Linen de Estée Lauder— misturado com o cheiro
pungente do tabaco.
—Crescer pode ser assustador— diz a mãe. Parece impossível que esteja
ali. Há instantes, ela estava a asfixiar num tanque de privação sensorial, a
dois mil e quinhentos quilómetros de distância e a trinta anos no futuro.
—Precisas de ajuda com o jantar?— pergunta Helena, acabando por se
afastar.
—Não, o frango ainda demora algum tempo. Tens a certeza de que estás
bem?
—Tenho.
—Eu chamo-te quando estiver pronto.
Helena sai da cozinha e atravessa o corredor até ao fundo das escadas.
São mais íngremes do que se lembra e rangem muito mais. O quarto dela é
um desastre, como sempre foi. Como todos os seus futuros apartamentos e
escritórios serão.
Vê peças de roupa de que já se esquecera.
Um ursinho de peluche com um só braço, que ela perderá na faculdade.
Um walkman, dentro do qual vê a cassete transparente com o álbum
Listen Like Thieves dos INXS.
Senta-se à pequena escrivaninha e olha pelo vidro encantadoramente
deformado da velha janela. A paisagem é composta pelas luzes de Denver, a
mais de trinta quilómetros de distância, e das planícies de cor púrpura para
oriente, o enorme mundo selvagem elevando-se invisível do outro lado. Era
costume sentar-se ali a sonhar acordada com o seu futuro.
Nunca teria imaginado.
Está um manual de ciências aberto ao lado de um trabalho sobre biologia
celular que ela tem de terminar esta noite.
Na gaveta do meio encontra um caderno preto e branco com a palavra
«Helena» escrita à mão na capa.
Disto lembra-se.
Abre o caderno e vê página atrás de página com a sua caligrafia de
adolescente.
Embora nunca tenha perdido as suas memórias de frisos cronológicos
anteriores após utilizações prévias da cadeira, receia que isso possa começar
a acontecer. Está a navegar por águas nunca antes navegadas— nunca
recuou tanto no tempo ou até uma versão de si mesma tão jovem. Há uma
possibilidade de poder esquecer a pessoa em que se tornou, o motivo pelo
qual está aqui.
Pega numa esferográfica e abre o diário numa página em branco, escreve
a data e começa a redigir uma nota para si mesma a explicar tudo o que
aconteceu nas suas vidas anteriores:
Querida, Helena,
A 16 de abril de 2019, o mundo recordar-se-á de uma cadeira de
memória que tu criaste. Tens trinta e três anos para encontrar uma maneira
de impedir que isso aconteça. Só tu podes impedir que isso aconteça…
«Quando uma pessoa morre, apenas parece estar morta.
Continua muito viva no passado… Todos os momentos, passados,
presentes e futuros, sempre existiram, sempre existirão.
É apenas uma ilusão que temos aqui na Terra de que um momento
se sucede a outro, como as contas de um colar, e de que, assim que um momento
passa, assim será para sempre.»
KURT VONNEGUT, MATADOURO CINCO OU A CRUZADA DAS CRIANÇAS
BARRY
16 de abril de 2019
Barry está sentado numa cadeira à sombra, a contemplar uma grande
extensão de saguaros num deserto banhado pela luz da manhã.
Felizmente, a dor lancinante por trás dos olhos está a diminuir.
Estava deitado no décimo sétimo andar de um prédio em Man hattan com
balas a zunir à sua volta e a crivar-se no seu corpo e o sangue a jorrar
enquanto pensava no rosto da filha.
Depois, uma bala acertou-lhe na cabeça, e agora está aqui.
—Barry. —Vira-se para a mulher que está sentada ao seu lado: cabelo
curto, olhos verdes, uma palidez céltica. Helena. —Estás a sangrar.
Passa-lhe um guardanapo, que ele leva ao nariz para estancar o sangue.
—Fala comigo, querido— diz ela. —Estamos a pisar novo território.
Estão a chegar-te trinta e três anos de memórias mortas. No que estás
a pensar neste instante?
—Não sei. Eu estava… Parece-me que ainda agora estava naquele hotel.
—No do Marcus Slade?
—Sim, fui alvejado. Estava a morrer. Parece que as balas ainda me estão
a atingir. Estava a dizer-te para fugires. Depois, de repente, dou por mim
aqui. Como se não tivesse passado tempo algum. Mas as minhas memórias
daquele hotel agora parecem-me mortas. Pretas e cinzentas.
—Sentes-te mais como o Barry daquele friso cronológico ou deste?
—Daquele. Não faço ideia de onde estou. A única coisa familiar és tu.
—Em breve terás memórias deste friso cronológico.
—Muitas?
—Uma vida inteira delas. Não sei bem o que esperar para ti. Pode ser
perturbador.
Ele olha para a cordilheira de montanhas castanhas. O deserto está a
florescer. Os pássaros a cantar. Não corre vento e o frio da noite demora-se
no ar.
—Nunca vi este sítio.
—Esta é a nossa casa, Barry.
Ele demora algum tempo a perceber.
—Que dia é hoje?
—É o dia 16 de abril de 2019. No friso cronológico em que morreste,
utilizei um tanque de privação sensorial da DARPA para regressar a uma
memória de há trinta e três anos, a 1986. Depois, vivi a minha vida outra
vez, até este momento, tentando encontrar uma maneira de evitar que o dia
de hoje acontecesse.
—O que acontece no dia de hoje?
—Depois de tu morreres no hotel do Slade, houve uma fuga de
informação sobre a cadeira, que chegou ao conhecimento do público, e o
mundo deu em doido. Hoje é o dia em que o mundo se recordará de tudo.
Até agora, tu e eu somos os únicos que sabem.
—Sinto-me… esquisito— diz ele.
Levanta um copo de água com gelo da mesa e bebe de um trago.
As mãos começam a tremer-lhe.
Helena repara e diz:
—Se piorar, tenho isto. —Levanta uma seringa com tampa que está
pousada na mesa.
—O que é?
—Um sedativo. Só para o caso de ser necessário.
Começa como uma tempestade de verão.
Apenas uma gota de chuva muito fria aqui e além.
O ribombar de trovões distantes.
Trovoada seca a lampejar no horizonte.
A memória inicial deste friso cronológico atinge-o.
Da primeira vez que viu Helena, ela sentou-se num banco ao balcão ao
lado dele num pequeno bar em Portland, no Oregon, e disse:
—Tens ar de quem me quer pagar um copo.
Era tarde, ele estava embriagado e ela era diferente de todas as pessoas
que conhecera— vinte e poucos anos, mas uma alma velha com a mente
mais brilhante que jamais encontrara. A familiaridade imediata de estar na
presença dela fez-lhe parecer que toda a vida a conhecera e que estava a
acordar pela primeira vez. Falaram de trivialidades até o bar fechar e
depois ela levou-o para o motel onde estava hospedada e fodeu-o como se
fosse o último dia na Terra.
Outra…
Estavam juntos há vários meses e ele tinha-se apaixonado por ela
quando ela lhe disse que era capaz de prever o futuro.
—Tretas— disse ele.
—Um dia, vou provar-to— disse ela.
Não fez grande alarde disso. Disse-o com indiferença, quase como uma
piada, e ele esqueceu essa asserção até dezembro de 1990. Certa noite,
estavam a ver televisão e ela disse-lhe que, no mês seguinte, os EUA
expulsariam as forças iraquianas do Kuwait numa missão chamada
Operação Tempestade no Deserto.
Houve outros casos.
Ao entrarem para uma sala de cinema para assistirem ao Silêncio dos
Inocentes, ela disse-lhe que o filme arrebataria os Óscares no ano seguinte.
Nessa primavera, ela pediu-lhe que ele se sentasse no pequeno
apartamento onde viviam, passou-lhe para a mão um pequeno gravador
e cantou o refrão do tema Smells Like Teen Spirit dos Nirvana dois meses
antes de ser lançado. Depois, gravou-se a dizer-lhe que o governador do
Arkansas anunciaria a sua candidatura à presidência dos Estadose reconforta-se com a memória de terem ido acampar no
Lake Tear of the Clouds, com esse momento perfeito.
Nele, as estrelas cintilavam.
Se pudesse, ficaria ali para sempre.
HELENA
1 de novembro de 2007
Dia 1
Sente um nó no estômago ao ver a orla costeira do norte da Califórnia no
lusco-fusco. Encontra-se sentada atrás do piloto, sob o rugir dos rotores, a
ver o mar tumultuoso cento e cinquenta metros abaixo do trem de aterragem
do helicóptero.
Não está um dia bom junto ao mar. As nuvens formam um manto baixo;
a água é cinzenta e mosqueada por uma espécie de pequenos tufos brancos
e, quanto mais se afastam de terra, mais sombrio o mundo se torna.
Pelo para-brisas raiado da chuva do helicóptero, vê algo materializar-se
ao longe — uma estrutura a elevar-se da água, ainda a uma ou duas milhas
de distância.
— É aquilo? — diz para o microfone.
— Sim, senhora.
Inclinando-se para a frente até ficar apoiada no arnês pelos ombros,
observa com intensa curiosidade enquanto o helicóptero inicia a
aproximação, diminuindo de velocidade, descendo na direção do colosso de
ferro, aço e betão suportado por três pilares no mar como um gigantesco
tripé. O piloto empurra a alavanca e o aparelho inclina-se para a esquerda,
formando um lento círculo à volta da estrutura, cuja plataforma principal
fica a cerca de sessenta e seis metros acima do nível do mar. Ainda se veem
algumas gruas projetando-se das laterais — vestígios dos tempos de
prospeção de petróleo e gás. De resto, a plataforma foi despojada dos seus
acessórios industriais e transformada. Na plataforma principal, vislumbra
um campo de basquetebol, uma piscina, uma estufa, aquilo que parece ser
uma pista de atletismo à volta do perímetro.
Aterram num heliporto. A turbina começa a abrandar e, pela janela,
Helena vê um homem com um casaco amarelo correr para o helicóptero.
Quando abre a porta da cabina, ainda está a bulir com o cinto de segurança,
até que finalmente o consegue desengatar.
O homem ajuda-a a descer do helicóptero, primeiro para o trem de
aterragem, depois para a superfície da plataforma. Ela segue-o até umas
escadas que descem desde o heliporto até à plataforma principal. O vento
intromete-se pelo seu casaco de capuz e pela T-shirt; quando chega aos
degraus, o helicóptero deixa de fazer barulho, e mantém-se apenas a
presença do silêncio aberto do oceano.
Descem do último degrau para uma ampla superfície de betão, e ali está
ele, atravessando a plataforma na sua direção.
Ela sente o coração bater com força.
Ele tem a barba desgrenhada, o cabelo escuro despenteado e a adejar ao
vento. Traz vestidas umas calças de ganga e uma sweatshirt desbotada; ali
está, em carne e osso, Marcus Slade — inventor, filantropo, magnata
empresarial, fundador de uma miríade de empresas de tecnologia inovadora,
abrangendo setores tão diversos como informática na nuvem, transportes,
espaço e inteligência artificial. É um dos cidadãos mais ricos e mais
influentes, tendo desistido da escola. Tem apenas trinta e quatro anos. Sorri
e diz:
— Vamos lá! – O entusiasmo dele acalma os nervos de Helena. Quando
se encontram junto um do outro na plataforma, ela não sabe como
o cumprimentar. Com um aperto de mão? Um abraço educado? Slade
decide por ela com um abraço afetuoso. — Bem-vinda à Fawkes Station.
— Fawkes?
— Em memória de Guy Fawkes! Lembra-se do 5 de Novembro?
— Ah, pois. Por causa da memória?
— Porque gosto de perturbar o estado atual das coisas. Deve estar com
frio… Vamos para dentro.
Caminham, então, dirigindo-se para a superstrutura de cinco pisos no
outro extremo da plataforma.
— Não é bem aquilo de que eu estava à espera— diz Helena.
— Comprei-a há alguns anos à ExxonMobil quando a extração acabou. A
ideia inicial era transformá-la numa casa para mim.
— Uma fortaleza de solidão?
— Isso mesmo. Mas depois percebi que poderia viver aqui e também
utilizá-la como a unidade de investigação perfeita.
— Perfeita porquê?
— Por muitas razões, mas sobretudo pela privacidade e a segurança.
Estou envolvido numa série de setores onde grassa a espionagem
empresarial e este é o ambiente mais controlável que se pode desejar, não é?
Passam pela piscina, tapada para o inverno, o oleado a bater
violentamente com o vento de novembro.
— Primeiro que tudo, obrigada! — diz ela. — Segundo, porquê eu?
— Porque dentro da sua cabeça está uma tecnologia que pode alterar a
humanidade.
— Como?
— O que há de mais valioso do que as nossas memórias? — pergunta ele.
— Definem-nos e formam a nossa identidade.
— Além disso, haverá um mercado de quinze mil milhões de dólares
para tratamentos para o Alzhei mer na próxima década.
Marcus esboça um sorriso.
— Para que conste, o meu principal objetivo é ajudar as pessoas — diz
ela. — Quero descobrir uma maneira de salvar memórias em cérebros que
estejam em processo de deterioração e que deixaram de as conseguir
recuperar. Uma cápsula do tempo para memórias fulcrais.
— Compreendo. Ocorre-lhe algum motivo por que este não possa ser um
empreendimento filantrópico e comercial?
Passam pela entrada de uma enorme estufa, as paredes interiores cheias
de vapor e a escorrer condensação.
— A que distância estamos da costa? — pergunta ela, com o olhar fixo
no mar do outro lado da plataforma, onde um denso bloco de nuvens se
desloca na direção deles.
— A cento e setenta e três milhas. Como é que a sua família e amigos
reagiram ao saber que veio até ao fim do mundo, envolvida numa
investigação ultrassecreta?
Ela não sabe bem o que responder. Nos últimos tempos, a sua vida
desenrolou-se sob as luzes fluorescentes de laboratórios e envolveu o
processamento de dados. Nunca lhe fora possível escapar à irresistível força
da gravidade do seu trabalho — pela sua mãe, mas também, para ser franca,
por ela mesma. O trabalho é a única coisa que a faz sentir-se viva, pelo que
é costume perguntar-se se isso quererá dizer que é uma má pessoa.
— Eu trabalho muito — diz ela —, por isso apenas teria de comunicar a
minha ausência a seis pessoas. O meu pai iria pôr-se a chorar, mas, também,
ele é muito emotivo. Ninguém ficaria especialmente admirado. Meu Deus,
parece tão patético, não parece?
— Acho que as pessoas que não sabem o que estão aqui a fazer é que se
preocupam com ter uma vida equilibrada — diz Slade, olhando para ela.
Ela pondera estas palavras. No secundário, na faculdade, ela fora
incentivada, uma e outra vez, a encontrar a sua paixão — um motivo para
se levantar da cama e respirar. Pela sua experiência, poucas pessoas
encontram essa raison d’être.
Aquilo de que os investigadores e os professores nunca lhe falaram foi o
lado sombrio de encontrarmos o nosso propósito. O facto de às tantas nos
consumir, transformando-nos num destruidor de relações e felicidade.
Apesar de tudo, ela não prescindiria disso. Não sabe ser de outra maneira.
Estão a aproximar-se da entrada da superstrutura.
— Espere um segundo — diz Slade. — Veja. — Aponta para a parede de
neblina que avança pela plataforma. O ar torna-se frio e silencioso. Helena
já nem sequer consegue ver o heliporto. Foram engolidos por uma nuvem.
Slade olha para ela.
— Quer mudar o mundo comigo?
— É para isso que aqui estou.
— Ótimo. Vamos ver o que eu construí para si.
BARRY
5 de novembro de 2018
POLÍCIA DE NOVA IORQUE
24.ª ESQUADRA, 151 W 100TH ST.
NOVA IORQUE, 10025
* SUPERINTENDENTE
JOHN R. POOLE
* TELEFONE
(212) 555-1811
[X] RELATÓRIO POLICIAL PRELIMINAR
[ ] RELATÓRIO SUPLEMENTAR
CSRR: 01457C
DATA: 07/11/03
HORA: 21h30
DIA: SEXTA
LOCAL: 2000 WEST 102ND 41ST FLOOR
NATUREZA DO RELATÓRIO
NARRATIVA POLICIAL
EU, AGENTE RIVELLI, DURANTE A PATRULHA, RESPONDI A UM 10-56A NO POE
BUILDING NO TERRAÇO DOS ESCRITÓRIOS DA HULTQUIST LLC. AÍ, ENCONTREI UMA
MULHER DE PÉ NO PARAPEITO. IDENTIFIQUEI-ME COMO AGENTE DA POLÍCIA E PEDI-
LHE O FAVOR DE DESCER. ELA RECUSOU-SE A DESCER E AVISOU-ME PARA NÃO ME
APROXIMAR, CASO CONTRÁRIO, SALTARIA. PERGUNTEI-LHE O NOME E ELA DISSE
CHAMAR-SE FRANNY BEHRMAN [CAUCASIANA / SEXO FEMININO / DATA DE
NASCIMENTO: 12/06/63 / / MORADA: 509 E 110THST]. NÃO ME PARECEU ESTAR
SOB A INFLUÊNCIA DE QUALQUER SUBSTÂNCIA OU ÁLCOOL. PERGUNTEI-LHE SE
QUERIA QUE EU TELEFONASSE A ALGUÉM. ELA RESPONDEU QUE NÃO. PERGUNTEI
PORQUE QUERIA ACABAR COM A PRÓPRIA VIDA. ELA DISSE QUE NÃO TINHA
MOTIVOS PARA SER FELIZ E QUE O SEU MARIDO E FAMÍLIA FICARIAM MELHOR SEM
ELA. AFIANCEI-LHE QUE ISSO NÃO ERA VERDADE.
A PARTIR DAÍ, ELA DEIXOU DE RESPONDER ÀS MINHAS PERGUNTAS E PARECEU
ESTAR A GANHAR CORAGEM PARA SALTAR. EU ESTAVA PRESTES A TENTAR AFASTÁ-
LA FISICAMENTE DA BEIRA QUANDO RECEBI UMA COMUNICAÇÃO DE RÁDIO DO
AGENTE DECARLO, A INFORMAR QUE O MARIDO DA SRA. BEHRMAN [JOE BEHRMAN,
CAUCASIANO / SEXO MASCULINO / DATA DE NASCIMENTO: 3/12/61 / / MORADA:
509 E 110TH ST] ESTAVA A SUBIR NO ELEVADOR PARA VER A ESPOSA E INFORMEI
A SRA. BEHRMAN DO SUCEDIDO.
O SR. BEHRMAN CHEGOU À COBERTURA. ELE APROXIMOU-SE DA ESPOSA E
CONVENCEU-A A DESCER PARA O TERRAÇO.
LEVEI O SR. E A SRA. BEHRMAN ATÉ À RUA E ELA FOI LEVADA DE AMBULÂNCIA
PARA AVALIAÇÃO NO SISTERS OF MERCY HOSPITAL.
RELATÓRIO DO
AGENTE RIVELLI
OFICIAL DE SERVIÇO
SGT. DAWES
Com uma enorme ressaca e sentado à sua secretária num mar de
cubículos, Barry lê o relatório do incidente pela terceira vez. Aquilo faz-lhe
imensa confusão, porque é exatamente o contrário do que Ann Voss Peters
disse que aconteceu ao seu marido e à primeira mulher deste. Ela pensava
que Franny saltara.
Pousa o relatório e acede à base de dados da Direcção-Geral de Viação de
Nova Iorque. A cabeça começa a latejar-lhe.
Depois de uma pesquisa, fica a saber que a última morada conhecida de
Joe e Franny Behrman é em Montauk, n.º 6, Pinewood Lane.
Deveria abandonar o caso. Esquecer a SFM e Ann Voss Peters e dedicar-
se à papelada e aos arquivos de casos em aberto que lhe enchem a
secretária. Não aconteceu um crime que justifique a perda de tempo.
Apenas… inconsistências.
A verdade é que aquilo espicaçou-lhe a curiosidade.
É inspetor há vinte e três anos porque adora resolver mistérios, e este…
este contraditório conjunto de acontecimentos, está a sussurrar-lhe ao
ouvido — alguma coisa não bate certo, e ele sente-se compelido a agir.
Poderia ser repreendido por ir no seu Crown Vic até à outra ponta de
Long Island por causa de um caso que, decididamente, não é um assunto
policial jurisdicionalmente aprovado, e está com uma dor de cabeça
demasiado forte para conduzir até tão longe.
Assim, acede ao site da MTA e consulta os horários.
Há um comboio que parte da Penn Station com destino a Montauk dentro
de menos de uma hora.
HELENA
18 de janeiro de 2008 – 29 de outubro de 2008
Dia 79
Viver na plataforma petrolífera de Slade é como ser paga para ficar
alojada numa estância de cinco estrelas que por acaso também é o nosso
lugar de trabalho. Todas as manhãs, acorda no piso superior da
superstrutura, onde se localizam os alojamentos de toda a equipa. O dela é
um espaçoso apartamento de esquina com janelas do chão ao teto em vidro
repelente de chuva. O vidro pulveriza as gotículas de água, pelo que,
mesmo sob as condições mais adversas, tem sempre uma vista perfeita
sobre o mar infinito. Uma vez por semana vêm limpar o seu apartamento e
levam-lhe a roupa suja. Um chef galardoado com uma estrela Michelin
confeciona a maioria das refeições, muitas vezes com peixe fresco e fruta e
legumes colhidos da estufa.
Marcus insiste com ela para que pratique exercício cinco dias por semana
para manter o ânimo e a perspicácia mental. Há um ginásio no piso térreo,
que ela utiliza quando está mau tempo, e nos raros dias bons de inverno,
corre na pista à volta da plataforma. É algo que ela aprecia, pois fica com a
sensação de que está a correr no topo do mundo.
O seu laboratório de investigação tem novecentos metros quadrados —
ocupa o segundo andar completo da superstrutura Fawkes Station — e já
fez mais prog ressos nas últimas dez semanas do que durante os cinco anos
que passou em Stanford. Aquilo de que precisa ela obtém. Não tem contas
para pagar nem relações para manter. Nada para fazer a não ser concentrar-
se apenas na sua investigação.
Até ao momento, tem manipulado memórias em ratinhos, trabalha com
aglomerados de células específicas que foram geneticamente criadas para
ser sensíveis à luz. Assim que um aglomerado de células é rotulado e
associado a uma memória armazenada (por exemplo, um choque elétrico),
ela reativa a memória do medo do ratinho atingindo esses aglomerados de
células sensíveis à luz com um laser optogenético especial inserido através
de filamentos no cérebro do ratinho.
O trabalho que realiza na plataforma petrolífera é decididamente de outro
campeonato.
Helena lidera o grupo que se dedica ao problema principal, que por acaso
também é a sua área de especialização — identificar e catalogar os
aglomerados de neurónios ligados a uma memória em particular e depois
reconstruir um modelo digital do cérebro que lhes permite seguir memórias
e mapeá-las.
O princípio não é diferente do que fez com os cérebros de ratinhos, mas
muito mais complexo.
A tecnologia a que as outras três equipas estão dedicadas é desafiante,
mas não pioneira — tecnologia de ponta, sim, mas com o pessoal certo e o
descomunal livro de cheques de Marcus, conseguirão recriá-la sem muita
dificuldade.
Ela lidera uma equipa de vinte pessoas, divididas por quatro grupos.
Neste momento chefia a Equipa de Mapeamento. A Equipa de Imagiologia
tem a tarefa de descobrir uma maneira de filmar disparos neuronais que não
implique a inserção de um laser no crânio e no cérebro da pessoa.
Acabaram por construir um dispositivo que utiliza uma forma avançada de
magnetoencefalografia, ou MEG. Um equipamento SQUID (dispositivo
supercondutor de interferência quântica) detetará campos magnéticos
infinitesimais produzidos por neurónios individuais desencadeados no
cérebro humano, até ao nível de determin ar a posição de cada neurónio.
Chamam-lhe microscópio MEG.
A Equipa de Reativação está a construir um aparelho que consiste
essencialmente numa vasta rede de estimuladores eletromagnéticos que
formam um invólucro à volta da cabeça para identificação 3D rigorosa e
focalização precisa de centenas de milhões de neurónios que são
necessários para reativar a memória.
Por fim, a Equipa de Infraestrutura está a construir uma cadeira para
ensaios em humanos.
Foi um dia positivo. Talvez até um dia fantástico. Reuniu-se com Slade,
Jee-woon e os diretores de projeto para analisar os progressos, e todas as
equipas estão numa fase adiantada. São quatro da tarde de um dia em finais
de janeiro, um daqueles poucos dias invernais com uma temperatura amena
e o céu azul. O sol vai mergulhando no oceano, lançando sobre as nuvens e
o mar tons de cinzento e cor-de-rosa como ela nunca viu; senta-se na beira
da plataforma, virada para oeste, as pernas a balançar por cima da água.
Sessenta metros mais abaixo, as ondas avolumam-se e embatem nos
enormes pilares desta fortaleza no mar.
Ela nem acredita que se encontra ali.
Nem acredita que esta é a sua vida.
Dia 225
O microscópio MEG está quase pronto e o aparelho de reativação evoluiu
até à fase possível enquanto todos esperam o mapeamento para se
dedicarem ao problema de catalogação.
Helena sente-se frustrada com o atraso. Durante o jantar com Slade na
sua suite palaciana, revela-lhe a verdade — a equipa está a fracassar porque
o obstáculo a ultrapassar tornou-se um problema bicudo. Visto que estão a
progredir dos cérebros de ratinhos para os cérebros humanos, o poder de
cálculo que têm ao seu dispor é insuficiente para mapear algo tão
prodigiosamente complexo como a estrutura da memória humana. A
verdade é que não dispõem dos ciclos CPU necessários, a menos que
consigam contornar o problema.
— Já ouviu falar da D-Wave? — pergunta Slade enquanto Helena bebe
um trago de um borgonha branco, o melhor vinho que já provou.
— Lamento, mas não.
— É uma empresa com sede na Colúmbia Britânica. Há um ano,
lançaram o protótipo de um processador quântico. Tem uma aplicação
extremamente específica, mas é ideal para o tipo de problema de
mapeamentode um enorme conjunto de dados que temos pela frente.
— São caros?
— Baratos não são, mas eu interessei-me pela tecnologia, por isso, no
verão passado, encomendei alguns dos seus protótipos avançados para
projetos futuros.
Slade sorri e alguma coisa na maneira como a perscruta do outro lado da
mesa deixa-a com a desconcertante sensação de que ele sabe mais sobre ela
do que Helena gostaria. Sobre o seu passado, a sua maneira de pensar,
aquilo que mexe com ela. Porém, não o pode censurar se ele conseguiu
descobrir algumas coisas sobre ela. Tem investido tempo e muito dinheiro
na mente de Helena.
Pela janela atrás de Slade, vislumbra um último resquício de luz, a milhas
e milhas de distância no mar, e já não é a primeira vez que fica
impressionada com o isolamento em que se encontram.
Dia 270
Os dias do solstício de verão são longos e soalheiros e os progressos
foram travados enquanto aguardam a chegada de dois processadores de
recozimento quântico. Helena tem muitas saudades dos pais e as suas
conversas semanais passaram a ser o ponto alto da sua existência neste sítio.
A distância está a ter um efeito estranho sobre a sua ligação com o pai.
Sente-se mais próxima dele como não se sentia há anos, desde antes de ir
para a escola secundária. Os mais insignificantes detalhes das vidas deles
no Colorado ganham um súbito significado. Ela delicia-se com as
minudências, e quanto mais aborrecidas, melhor.
As suas caminhadas no sopé da montanha aos fins de semana. Descrições
sobre a quantidade de neve que ainda há nos pontos mais altos. Um
concerto a que assistiram em Red Rocks. As consultas de neurologia da
mãe em Denver. Filmes que viram. Livros que leram. Coscuvilhices da
vizinhança.
As notícias chegam-lhe sobretudo pelo pai.
Por vezes, a mãe está lúcida, a mesma pessoa de outrora, e conversam
como de costume.
Na maioria das vezes, Dorothy tem dificuldade em manter uma conversa.
Helena sente uma saudade irracional de tudo o que se prende com o
Colorado. Da vista desafogada desde o terraço dos pais sobre a planície até
às Flatirons, onde começam as Montanhas Rochosas. Da cor verde, pois as
únicas plantas que lhe são dadas a ver na plataforma estão na pequena horta
da estufa. Acima de tudo, sente saudades da mãe. Lamenta profundamente
não estar com ela naquele que deve ser o período mais assustador da sua
vida.
O pior é não poder partilhar os pormenores dos seus fantásticos
progressos na cadeira, todos ao abrigo de um inviolável acordo de não
divulgação. Suspeita que Slade ouve todas as conversas. É claro que ele
nega tudo, mas a suspeita mantém-se.
Por motivos de confidencialidade, não são permitidas visitas na
plataforma e nenhum elemento das equipas está autorizado a sair antes do
término do contrato, a não ser em caso de emergências familiares ou
médicas.
As noites de quarta-feira passaram a ser noites de festa numa tentativa de
desenvolver um espírito de camaradagem no local de trabalho. É um
desafio para Helena, introvertida inveterada, que, até recentemente, teve a
vida de uma cientista solitária. Jogam paintball, voleibol e basquetebol na
plataforma. Fazem churrascos à beira da piscina e bebem de barris de
cerveja que lhes são trazidos de barco. Põem música em altos berros e
embebedam-se. Às vezes, até dançam. A área dos campos de jogos e da
churrasqueira é cercada por painéis altos de vidro que protegem do vento
quase constante, mas mesmo com essas proteções, muitas vezes têm de
gritar para se fazerem ouvir.
Quando está mau tempo, reúnem-se na ala comum separada da cantina
para jogar jogos de tabuleiro ou às escondidas na superstrutura.
Como é a superior hierárquica de quase toda a gente da plataforma à
exceção de Slade, ela hesita em aproximar-se das pessoas da sua equipa.
Todavia, encontra-se num deserto de água a perder de vista, desamparada,
sessenta e seis metros acima do mar. Renunciar à amizade e à intimidade
poderia conduzi-la pelo caminho do isolamento psicótico.
É durante um jogo de escondidas, num armário de roupa de cama no piso
superior, que ela se enrola com Sergei — o genial engenheiro elétrico, um
homem bem-parecido, que lhe ganha sempre nas partidas de raquetebol.
Estão os dois muito juntinhos no escuro enquanto as pessoas que andam à
procura deles passam a correr pelo seu esconderijo e, de repente, ela está a
beijá-lo e a puxá-lo para ela, e ele a puxar-lhe os calções para baixo e a
encostá-la à parede.
Marcus trouxe Sergei de Moscovo. Poderá ser o cientista mais puro do
grupo, e é decididamente o mais competitivo.
Porém, não é a sua «paixoneta da plataforma». Esse seria Rajesh, o
técnico de software que Slade contratou há pouco tempo, antecipando a
chegada da D-Wave. Transmite no olhar um ardor e uma franqueza que a
atraem. É bem-falante e extremamente inteligente. Ontem, ao pequeno-
almoço, sugeriu a criação de um clube de leitura.
Dia 302
Os processadores quânticos chegam num enorme navio mercante. É
como se fosse noite de Natal: toda a gente à espera, de pé, observando com
um fascínio apavorado a grua levantar trinta milhões de dólares de poder de
cálculo até à plataforma principal, sessenta metros acima.
Dia 312
O mapeamento foi recuperado, os novos processadores foram postos a
funcionar, está a ser escrito o código que mapeará uma memória e carregará
as respetivas coordenadas neurais para o aparelho de reativação. A sensação
de inação passou. Estão outra vez a avançar. O estado de espírito de Helena
muda de um sentimento de solidão para entusiasmo, mas também pasmo
em relação à presciência de Slade. Não só a um nível macro ao adivinhar a
incomensurabilidade da visão dela, mas, mais impressionantemente, a um
nível granular — ao saber qual seria a ferramenta perfeita para dar resposta
ao vasto volume de dados associados ao mapeamento da memória humana.
Além disso, sabia que um processador não seria suficiente, pelo que
comprou dois.
No jantar semanal com Slade, ela informa-o de que, se os avanços
continuarem a este ritmo, dentro de um mês estarão preparados para realizar
o primeiro ensaio num humano.
Ele faz uma expressão de regozijo.
— A sério?
— A sério. E passo a informar que serei eu a primeira a experimentar.
— Nem pensar. É demasiado perigoso.
— Porque haveria a decisão de ser sua?
— Por milhares de razões. Além disso, sem a Helena, estaríamos
perdidos.
— Marcus, eu insisto.
— Bem… podemos falar sobre isso mais tarde. Entretanto, vamos
celebrar.
Marcus Slade vai ao frigorífico de vinhos e tira de lá uma garrafa de
Cheval Blanc de 1947. Demora algum tempo a tirar a delicada rolha e
depois esvazia a garrafa num decantador de cristal.
— Não restam muitas destas no mundo — diz ele.
Assim que Helena leva o copo ao nariz e inala o aroma adocicado e
condimentado das uvas de outrora, o seu conceito do que um vinho pode ser
muda radicalmente.
— À sua saúde e a este momento — diz Slade, tocando com delicadeza
com o seu copo no dela.
O sabor é aquilo que todos os outros vinhos que ela alguma vez provou
aspiravam a ser, a escala do que é bom, excelente e transcendente é
reconfigurada na sua mente.
É transcendental.
Cálido, substancial, opulento, espantosamente refrescante.
Frutos vermelhos em compota, flores, chocolate e…
— Ando para lhe perguntar uma coisa — diz Slade, interrompendo o seu
devaneio.
Ela fita-o por cima da mesa.
— Porquê a memória? É evidente que já se interessava por este tema
antes de a sua mãe adoecer.
Ela rodopia o vinho no copo, vê o reflexo dos dois sentados à mesa nas
janelas de seis metros com vista para a penumbra oceânica.
— Porque a memória… é tudo. Fisicamente, uma memória não passa de
uma conjugação específica de neurónios interligados, uma sinfonia de
atividade neural. Porém, na realidade, é o filtro que nos separa da realidade.
O senhor pensa que está a saborear este vinho, a ouvir o que eu estou a
dizer, no presente, mas isso não existe. Os impulsos nervosos das suas
papilas gustativas e dos seus ouvidos são transmitidos para o seu cérebro,
que os processa e os descarrega para a memória ativa. Por isso,quando tem
consciência de que está a experienciar alguma coisa, isso já aconteceu. Já é
uma memória. — Helena inclina-se para a frente, estala os dedos. — Aquilo
que o seu cérebro faz para interpretar um estímulo simples como este é
incrível. A informação visual e auditiva chega aos seus olhos e ouvidos a
velocidades diferentes, e depois é pro cessada pelo seu cérebro a velocidades
diferentes. O seu cérebro aguarda o processamento do mais ínfimo
fragmento de estímulo e depois reordena as entradas neurais corretamente, e
permite-lhe experienciá-las em conjunto, como um acontecimento
simultâneo, cerca de meio segundo depois do que efetivamente sucedeu.
Nós pensamos que estamos a experienciar o mundo diretamente e no
imediato, mas tudo aquilo que experienciamos é uma reconstrução
cuidadosamente editada e com um atraso.
Dá-lhe algum tempo para absorver a informação enquanto sorve mais um
pouco do magnífico vinho.
— E as memórias flashbulb? — pergunta Slade. —Aquelas memórias
muito vívidas imbuídas de um extremo significado pessoal e emoção?
— Pois. Isso leva-nos a outra ilusão. O paradoxo do presente capcioso.
Aquilo que pensamos ser o «presente» não é realmente um mo mento. É
uma extensão de tempo recente, arbitrária. Geralmente, os dois ou três
últimos segundos. Mas liberte uma carga de adrenalina no seu sistema,
ponha a amígdala em alta rotação, e eis que cria uma memória hipervívida,
onde o tempo parece abrandar, ou parar completamente. Se mudar a forma
como o seu cérebro processa um acontecimento, muda a duração do
«agora». De facto, muda o ponto em que o presente se torna o passado. É
mais uma forma de inferir que o conceito de presente é apenas uma ilusão,
feita de memórias e construída pelo nosso cérebro.
Helena recosta-se, envergonhada do seu entusiasmo, sentindo de súbito o
vinho subir-lhe à cabeça.
— Daí eu ter escolhido a memória — continua ela. — A neurociência. —
Toca com a ponta dos dedos na têmpora. — Se queremos compreender o
mundo, temos de começar por compreender… compreender deveras… a
forma como o experienciamos.
Slade assente com a cabeça e diz:
— «É evidente que a mente não apreende as coisas imediatamente, mas
apenas mediante a intervenção das ideias que tem sobre elas.»
Helena dá uma gargalhada de espanto.
— Estou a ver que leu John Locke.
— E então? — diz Slade. — Lá porque sou um gajo das tecnologias,
nunca peguei num livro? A Helena está a falar em utilizar a neurociência
para levantar o véu da perceção; ver a realidade como ela é.
— O que, por definição, é impossível. Por muito que saibamos sobre o
modo de ação das nossas perceções, em última instância nunca
conseguiremos ultrapassar as nossas limitações.
Slade limita-se a sorrir.
Dia 364
Helena passa pela porta do segundo andar e caminha por um corredor
bem iluminado rumo ao compartimento de teste principal. Está tão nervosa
como tem estado desde o primeiro dia que aqui chegou, o estômago de tal
forma às voltas que só tomou café e algumas fatias de ananás ao pequeno-
almoço.
Durante a noite, a Equipa de Infraestrutura levou da sua oficina a cadeira
que estiveram a construir para o compartimento de teste principal. É onde
Helena está agora, detendo-se à soleira da porta. John e Rachel estão a
aparafusar a base da cadeira ao chão.
Ela sabia que seria um momento emotivo, mas é com uma tal intensidade
que vê a cadeira montada pela primeira vez, que é apanhada desprevenida.
Até ao momento, o produto do seu trabalho consistiu em imagens de
aglomerados de neurónios, sofisticados programas de software e um monte
de incertezas, mas a cadeira é palpável, uma coisa em que pode tocar, a
mani festação física da meta para a qual se tem dirigido há dez anos,
impulsionada pela doença da mãe.
— O que acha? — pergunta Rachel. — O Slade mandou-nos alterar os
projetos para lhe fazer uma surpresa.
Helena ficaria furiosa com Slade por este ter decidido unilateralmente
alterar o design se aquilo que construíram não fosse tão perfeito. Está
abismada. Na sua mente, a cadeira era sempre um dispositivo utilitário, um
meio para atingir um fim. Aquilo que construíram para ela é uma obra de
arte, elegante, a fazer lembrar uma chaise-longue Eames, só que
monobloco.
Os dois engenheiros olham então para ela, sem dúvida tentando avaliar a
sua reação, perceber se a sua superior hierárquica está satisfeita com o
trabalho.
— Vocês superaram-se — diz ela.
À hora do almoço, a cadeira está totalmente instalada. O microscópio
MEG, integrado no apoio de cabeça, faz lembrar um capacete suspenso. O
feixe de cabos acoplado foi enroscado ao longo das costas da cadeira até
uma entrada no chão, pelo que o aspeto global é o de um equipamento
aprimorado e de linhas simples.
Helena conseguiu convencer Slade a ser ela a primeira a sentar-se na
cadeira, escondendo-lhe a informação sobre o elevado número de sinapses
de que necessitariam para reativar uma memória de forma adequada. Slade
refutou, é claro, alegando que a mente e a memória dela eram demasiado
valiosas para correr o risco, mas era uma batalha que nem ele nem ninguém
tinha hipótese de ganhar. Assim, às 13h07, ela senta-se no couro macio e
recosta-se. Lenore, uma das técnicas de imagiologia, baixa cuidadosamente
o microscópio sobre a cabeça de Helena; o acolchoamento adapta-se-lhe na
perfeição. Depois, aperta a fivela debaixo do queixo. Slade observa desde
um canto da sala, filmando com uma câmara portátil, um enorme sorriso no
rosto, como se estivesse a filmar o nascimento do seu primogénito.
— Sente-se bem? — pergunta Lenore.
— Sim.
— Agora, vou prendê-la. — Lenore abre dois compartimentos integrados
no apoio de cabeça e desdobra uma série de hastes telescópicas em titânio,
que aparafusa em invólucros no exterior do microscópio para estabilização.
— Tente mexer a cabeça — diz Lenore.
— Não consigo.
— Como se sente sentada na sua cadeira? — pergunta Slade.
— Sinto vontade de vomitar. — Helena fica a ver toda a gente sair do
compartimento de teste e passar para uma sala de controlo contígua com
vista para o compartimento através de uma parede de vidro. Momentos
depois, a voz de Slade soa num altifalante integrado no apoio de cabeça:
— Consegue ouvir-me?
— Sim.
— Agora vamos diminuir a intensidade da luz. — Pouco depois, tudo o
que ela consegue ver são as caras da sua equipa refletindo o tom azulado de
uma dúzia de monitores. — Faça por relaxar — diz Slade.
Helena respira fundo pelo nariz e expira devagar enquanto a série
geométrica de detetores SQUID começa a zumbir baixinho por cima dela,
um zunido que dá a sensação de mil milhões de nanomassagens no seu
couro cabeludo.
Debateram até à exaustão o tipo de memória que deveriam mapear em
primeiro lugar. Alguma coisa simples? Complexa? Recente? Antiga?
Alegre? Trágica? Ontem, Helena decidiu que estavam a pensar demais.
Afinal de contas, como se pode definir uma memória «simples»? Existe tal
coisa quando se trata da condição humana? Pense-se no albatroz que
pousou na plataforma durante a sua corrida matinal. É um mero bruxulear
de pensamento na sua mente que, um dia, será lançado àquela terra
desolada do oblívio onde as memórias esquecidas vão morrer. Porém, inclui
o cheiro do mar. As penas brancas e húmidas da ave, que reluzem ao sol da
manhã. O bater do coração da ave devido ao esforço da corrida. O suor frio
a escorrer pelas costas e o ardor nos olhos. Aquele momento em que ela se
questiona sobre o lugar que a ave considera ser a sua casa na infinita
uniformidade do oceano.
Quando todas as memórias contêm um universo, qual o significado de
«simples»?
— Helena…? Está preparada? — ouve-se a voz de Slade.
— Estou.
— Escolheu uma memória?
— Escolhi.
— Então vou fazer a contagem decrescente a partir de cinco e quando
ouvir o sinal… recorde.
BARRY
5 de novembro de 2018
No verão, o comboio apenas teria lugares de pé e seguiria apinhado de
habitantes de Manhattan a caminho dos Hamptons, mas é uma tarde fria de
novem bro, com as nuvens pardacentas a ameaçar o primeiro nevão da
estação, e Barry tem a carruagem da ferrovia de

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