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Edição em formato digital: março de 2023 FALSAS MEMÓRIAS Título original: Recursion © 2019, Blake Crouch Publicado por Crown, uma chancela de Crown Publishing Group, uma divisão de Penguin Random House LLC, Nova Iorque. Todos os direitos reservados. © desta edição: 2023, Penguin Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda. Suma de Letras é uma chancela de Penguin Random House Grupo Editorial Rua Alexandre Herculano, 50, 3.º, 1250-011 Lisboa, Portugal correio@penguinrandomhouse.com Penguin Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda. apoia a proteção do copyright. Sem a prévia autorização por escrito do editor, esta obra não pode ser reproduzida, no todo ou em parte, por meio de gravação ou por qualquer processo mecânico, fotográfico ou eletrónico, nem ser introduzida numa base de dados, difundida ou de qualquer forma copiada para uso público ou privado, além do uso legal como breve citação em artigos e críticas. Tradução: José Remelhe Revisão: Rui Augusto Capa: adaptação de Wonder Studio Imagem da capa © Shutterstock ISBN: 978-989-78-7006-4 Composição digital: leerendigital.com Site: penguinlivros.pt Twitter: @PenguinLivros mailto:correio@penguinrandomhouse.com https://www.leerendigital.com/ http://www.penguinlivros.pt/) https://twitter.com/PenguinLivros Facebook: sumadeletrasportugal Instagram: penguinlivros https://www.facebook.com/sumadeletrasportugal https://www.instagram.com/penguinlivros/ Índice Falsas memórias Créditos Livro Um Livro Dois Livro Três Livro Quatro Livro Cinco Epílogo Agradecimentos Sobre este livro Sobre Blake Crouch Notas Para Jacque «O tempo não é mais do que uma memória a ser criada.» VLADIMIR NABOKOV BARRY 2 de novembro de 2018 Barry Sutton encosta à berma na faixa para veículos de emergência em frente à entrada principal do Poe Building, uma torre art déco resplandecente sob a iluminação branca dos candeeiros exteriores. Sai do seu Crown Vic, atravessa o passeio a passos largos e empurra a porta giratória que dá acesso ao átrio. O vigilante noturno está de pé ao lado dos elevadores, mantendo uma das portas aberta, enquanto Barry estuga o passo na direção dele, o som dos sapatos ecoando no chão de mármore do edifício. — Qual é o andar? — pergunta Barry ao entrar no elevador. — Quarenta e um. Lá chegado, vire à direita e vá até ao fundo do corredor. — Vêm mais polícias a caminho. Diga-lhes que eu mandei esperar até ao meu sinal. O elevador sobe a toda a velocidade, não dando sinais da idade do edifício, e, ao fim de alguns segundos, Barry sente os ouvidos fecharem-se. Quando as portas por fim se abrem, passa por uma tabuleta a indicar um escritório de advocacia. Vê-se uma luz acesa aqui e ali, mas, de resto, o piso encontra-se às escuras. Caminha pela alcatifa, passando pelos gabinetes em silêncio, uma sala de reuniões, uma sala de lazer, uma biblioteca. Por fim, o corredor desemboca numa área de receção que se liga ao gabinete maior. Sob a luz fraca, os pormenores veem-se em tons de cinza. Uma enorme secretária de mogno apinhada de pastas de arquivo e documentos. Uma mesa redonda coberta de blocos de notas e canecas de café frio que exalam um odor acre. Um bar cheio de garrafas de uísque que aparentam ser dispendiosas. Um aquário iluminado a zumbir no extremo mais afastado da sala, onde nadam um pequeno tubarão e vários peixes tropicais. Ao aproximar-se das portas envidraçadas, Barry põe o telemóvel em silêncio e descalça os sapatos. Leva a mão ao puxador, abre a porta e sai para o terraço. Os arranha-céus contíguos do Upper West Side têm uma aura mística sob um manto de neblina resplandecente. O barulho da cidade faz-se ouvir, intenso e próximo — buzinas de automóveis ressoando entre os edifícios e ambulâncias ao longe que acorrem a mais uma desgraça. O pináculo do Poe Building fica a menos de quinze metros acima — uma coroa de vidro, aço e alvenaria ao estilo gótico. A mulher está sentada a menos de cinco metros ao lado de uma gárgula desgastada, as costas viradas para Barry, as pernas a baloiçar do lado de fora. Ele aproxima-se um pouco mais; as lajes molhadas humedecem-lhe as meias. Se conseguir aproximar-se o suficiente sem ser visto, poderá agarrá- la antes que ela perceba… — Consigo cheirar a sua água-de-colónia — diz ela sem se virar para trás. Ele detém-se. Ela vira-se para trás e diz: — Mais um passo e salto. É difícil ter a certeza por causa da luminosidade, mas parece ter cerca de quarenta anos. Veste um blazer escuro e saia a condizer, e já deve estar ali sentada há algum tempo, pois o seu cabelo está molhado da neblina. — Quem é o senhor? — pergunta. — Barry Sutton. Sou inspetor da Divisão de Investigação Criminal da Polícia de Nova Iorque. — Mandaram uma pessoa da Divisão Criminal…? — Era quem estava mais perto. Como se chama? — Ann Voss Peters. — Posso tratá-la por tu? — Claro. — Queres que mande chamar alguém? Ela abana a cabeça. — Vou pôr-me aqui, assim não terás de virar a cabeça para olhares para mim. Barry afasta-se dela, posicionando-se mais próximo do parapeito a dois metros e meio do sítio onde a mulher está sentada. Olha de relance para baixo e sente um aperto no estômago. — Muito bem, diz lá — atalha ela. — O quê? — Não me vais tentar dissuadir? Faz o teu melhor. Na viagem de elevador, ele decidira o que dizer, recordando a formação que recebera para casos de tentativa de suicídio. Agora, ao deparar-se com a situação, sente-se menos confiante. Só sabe que tem os pés gelados. — Eu sei que tudo parece não ter remédio neste momento, mas é apenas um momento, e os momentos passam. Ann olha fixamente pela fachada do edifício até à rua, cento e vinte metros mais abaixo, as palmas das mãos apoiadas na pedra desgastada por décadas de chuva ácida. Bastaria um impulso. Barry suspeita que ela está a ponderar os movimentos, a tomar o pulso à ideia de o fazer. A reunir aquela última réstia de coragem. Repara que ela está a tremer. — Posso dar-te o meu casaco? — pergunta ele. — Acho que é melhor não se aproximar, inspetor. — Porquê? — Tenho SFM. Barry resiste à vontade de fugir. É claro que sabe o que é a síndrome das falsas memórias, mas nunca conheceu ou se cruzou com alguém com esta condição. Nunca esteve no mesmo espaço. Não sabe se deve tentar agarrá- la agora. Nem sequer quer estar assim tão perto. Não, que se lixe. Se ela der sinais de que vai saltar, tentará salvá-la, e se por causa disso contrair SFM, que assim seja. É o risco que se corre quando se é polícia. — Há quanto tempo sofres dessa condição? — pergunta ele. — Certa manhã, há cerca de um mês, em vez de estar em minha casa em Middlebury, Vermont, de súbito estava num apartamento aqui na cidade, com uma dor de cabeça daquelas e uma terrível hemorragia nasal. De início, não fazia ideia de onde me encontrava. Depois lembrei-me… desta vida também. Aqui e agora, sou solteira, trabalho num banco de investimentos, uso o meu nome de solteira. Mas tenho… — Percebe-se que tem dificuldade em enfrentar a emoção. — Tenho memórias da minha outra vida no Vermont. Era mãe de um menino de nove anos chamado Sam. Tinha uma empresa de paisagismo com o meu marido, Joe Behrman. O meu nome era Ann Behrman. Éramos tão felizes como qualquer pessoa tem o direito de ser. — Qual é a sensação? — pergunta Barry, aproximando-se furtivamente. — A sensação de quê? — Das suas memórias falsas dessa vida no Vermont. — Não me lembro apenas do meu casamento. Lembro-me da discussão por causa da escolha do bolo de aniversário. Lembro-me dos mais ínfimos pormenores da nossa casa. Do nosso filho. De todos os instantes do nascimento dele. Do seu riso. Da marca de nascença na bochecha esquerda. Do seu primeiro dia de escola e de não ter querido que o deixasse. Mas quando tento lembrar-me da cara do Sam, a imagem que surge é monocromática. Os seus olhos não têm cor. Digo a mim mesma que são azuis, mas só vejo preto. » Todas as minhas memórias dessa vida são em tons de cinzento, como imagens de um film noir. Parecem-me reais, masLong Island quase só para ele. Ao olhar pela janela, vendo as luzes de Brook lyn afastarem-se pelo vidro encardido, começa a ficar sonolento. Quando acorda, já é noite. Agora, pela janela, só se vê a penumbra, pontos de luz e o seu próprio reflexo no vidro. Montauk é a última paragem da linha. Ele apeia-se do comboio pouco depois das oito da noite e é apanhado por uma chuva fria que cai por entre a iluminação dos candeeiros da rua. Aperta o cinto da gabardina e vira a gola para cima, a respiração a libertar vapor com o frio. Caminha ao longo das linhas até à estação, que já tem as venezianas fechadas, e entra para o táxi que chamou ainda durante a viagem. Os estabelecimentos na baixa de Montauk fecharam na maioria para a temporada. Ele já aqui esteve noutra ocasião, há vinte anos, com Julia e Meghan, num fim de semana de verão com muita gente, quando as ruas e as praias estavam apinhadas de veraneantes. Pinewood Lane é uma rua isolada, salpicada de areia e deformada pelas raízes das árvores. Oitocentos metros mais adiante, os faróis do táxi incidem sobre uma entrada com portão, onde afixaram num dos pilares uma placa com o número romano «VI». — Encoste junto ao intercomunicador — pede ao motorista. O carro avança nessa direção e Barry baixa o vidro, que faz um zunido. Estica o braço e carrega no botão da campainha. Sabe que há gente em casa. Ele telefonou antes de sair de Nova Iorque, fazendo-se passar por um funcionário da FedEx a tentar marcar uma entrega atrasada. — Residência Behrman — diz uma voz de mulher. — Sou o inspetor Sutton da Polícia de Nova Iorque. O seu marido está em casa, minha senhora? — Está tudo bem? — Sim. Preciso de falar com ele. Há um compasso de espera, ao que se segue os ruídos de uma conversa abafada. Depois, uma voz de homem soa no intercomunicador. — Fala o Joe. Qual é o assunto? — Preferia falar consigo pessoalmente. E em privado. — Íamos começar agora a jantar. — Desculpe o incómodo, mas vim de comboio de propósito desde a cidade. A entrada particular é um caminho por onde só passa um carro pelo meio de uma extensão de relvado e floresta; é uma subida ligeira, até se chegar a uma casa empoleirada no cume de uma pequena escarpa. Vista de longe, a casa parece toda feita de vidro, e o interior brilha como um oásis na noite. Barry paga ao taxista em numerário e acrescenta vinte dólares para que o motorista espere por ele. Depois sai para a chuva e sobe os degraus até à entrada. A porta da frente abre-se assim que chega ao cimo. Joe Behrman está mais velho do que na fotografia da carta de condução: o cabelo apresenta-se agora grisalho, e a cara, batida pelo sol, está mais cheia, a ponto de formar uma papada. Franny envelheceu com mais elegância. Durante três longos segundos fica na dúvida se irão convidá-lo a entrar, mas, por fim, Franny recua um passo, brinda-o com um sorriso forçado e convida-o a entrar. E ele entra para um espaço aberto que é um prodígio de design e conforto perfeitamente equilibrados. Imagina que, à luz do dia, o envidraçado proporciona uma vista espetacular sobre o mar e a floresta circundante. Sente-se por toda a casa o cheiro de alguma coisa a ser preparada na cozinha, o que faz Barry lembrar-se de como era ter refeições confecionadas em casa em vez de reaquecidas no micro-ondas ou levadas a casa por desconhecidos em sacos de plástico. Franny aperta a mão do marido e diz: — Vou deixar a comida no forno. — Depois, dirige-se a Barry. — Posso levar o seu casaco? Joe conduz Barry até um escritório com uma parede de vidro e as restantes cobertas de livros. Quando se sentam frente a frente perto da lareira a gás, Joe diz: — Devo confessar que é um pouco desconcertante receber a visita não anunciada de um inspetor à hora do jantar. — Desculpe se o assustei. Não está em apuros, fique descansado. Joe sorri. — Já podia ter dito. — Vou direito ao assunto. Há quinze anos, a sua esposa subiu ao quadragésimo andar do Poe Building em Upper West Side e… — Ela agora está muito melhor, uma pessoa completamente diferente. — Um trejeito de irritação, ou medo, perpassa o semblante de Joe, que agora ganhou alguma cor. — O que veio fazer aqui? Porque está em minha casa, a vasculhar o nosso passado, quando pretendo passar uma noite tranquila com a minha mulher? — Há três dias, ia eu a caminho de casa, recebi via rádio um pedido para um 10-56A, ou seja, um caso de tentativa de suicídio. Acorri ao local e dei com uma mulher sentada no parapeito do quadragésimo andar do Poe Building. Ela disse estar a sofrer de SFM. Sabe do que se trata? — Aquilo das falsas memórias. — Ela descreveu-me uma vida inteira que nunca aconteceu. Disse que tinha um marido e um filho, que viviam no Vermont. Tinham os dois uma empresa paisagística. Disse que o marido se chamava Joe. Joe Behrman. Joe fica muito quieto. — O nome dela era Ann Voss Peters. Estava convencida de que a Franny saltara do sítio onde ela se encontrava. Disse-me que veio aqui e falou consigo, mas que o senhor não a reconheceu. Ela tinha escolhido aquele parapeito porque tinha a esperança de o senhor a ir salvar, para compensar o facto de não conseguir salvar a Franny. Porém, é evidente que a memória da Ann não era correta, porque o senhor salvou a Franny. Li o auto da polícia esta tarde. — O que aconteceu à Ann? — Não a consegui salvar. Joe fecha os olhos e volta a abri-los. — O que pretende de mim? — pergunta, num fio de voz. — Conhecia a Ann Voss Peters? — Não. — Então como é que a Ann o conhecia? Como é que sabia que a sua mulher subira para aquele mesmo parapeito com a intenção de se suicidar? Porque estava ela convencida de que fora sua mulher e que os dois tiveram um filho chamado Sam? — Não faço ideia, mas agora gostaria que fosse embora. — Sr. Behrman… — Por favor, respondi às suas perguntas. Não fiz nada de mal. Vá-se embora. Apesar de não fazer a mínima ideia do motivo, Barry tem certeza de uma coisa: Joe Behrman está a mentir. Barry levanta-se da cadeira. Leva a mão ao bolso e tira de lá um cartão de visita, que pousa na mesa entre as cadeiras. — Se mudar de ideias, espero que me ligue. Joe não responde, não se levanta, nem sequer olha para Barry. Tem as mãos sobre as pernas — para que não tremam, é o que Barry percebe — e olha fixamente para o lume. Quando Barry está a chegar a Montauk, consulta os horários dos transportes na aplicação da MTA. Dá tempo à justa para comer qualquer coisa e apanhar o comboio das 21h50 para a cidade. O restaurante está quase às moscas e ele senta-se num banco ao balcão, ainda sob o efeito da adrenalina da conversa com Joe. Antes de lhe servirem a comida, chega um homem de cabeça rapada, que se senta numa cabina, pede café e fica a ler alguma coisa no telemóvel. Não. A fingir que está a ler alguma coisa no telemóvel. Tem os olhos demasiado alerta e o alto debaixo do casaco de couro dá a entender que tem um coldre de trazer ao ombro. Nota-se-lhe a intensidade velada de um polícia ou um soldado — os olhos que nunca param quietos, sempre a adejar, sempre a processar, apesar de nunca mexer a cabeça. É um condicionamento que não se consegue desaprender. Mas nunca olha para Barry. Estás a ser paranoico. Barry está a meio dos seus huevos rancheros e a pensar em Joe e Franny Behrman quando sente uma fagulha de dor por detrás dos olhos. Começa a sangrar do nariz e, enquanto enxuga o sangue com um guardanapo, aflui-lhe à mente um conjunto de memórias completamente diferentes dos três últimos dias. Estava a regressar a casa de carro na sexta- feira à noite, mas não recebeu um 10-56A via rádio. Nunca subiu ao quadragésimo andar do Poe Building. Nunca se encontrou com Ann Voss Peters. Nunca a viu cair. Nunca viu o auto da polícia sobre a tentativa de suicídio de Franny Behrman. Nunca comprou um bilhete de comboio para Montauk. Nunca interrogou Joe Behrman. De uma certa perspetiva, estava apenas sentado na sua poltrona reclinável no seu apartamento de uma assoalhada em Washington Heights, a ver um jogo dos Knicks, e agora, de súbito, está numrestaurante em Montauk com uma hemorragia nasal. Quando tenta fazer sentido destas memórias alternativas, percebe que são diferentes de todas as outras memórias. São incolores e estáticas, envoltas em matizes de preto e cinzento, tal como Ann Voss Peters descreveu. Terá sido ela que me contaminou com isto? A hemorragia nasal passou, mas as mãos começaram-lhe a tremer. Atira algum dinheiro para cima do balcão e sai para o escuro, tentando manter-se calmo, mas vai a cambalear. A nossa existência tem muito poucas coisas com as quais podemos contar que nos transmitem um sentido de permanência, do chão por debaixo dos nossos pés. As pessoas desiludem-nos, os nossos corpos defraudam-nos, desiludimo-nos a nós mesmos. Ele já experienciou tudo isso, mas a que é que nos agarramos, momento a momento, se as memórias podem simplesmente mudar? Sendo assim, o que é real? E se a resposta é «nada», em que situação é que ficamos? Questiona-se se estará a enlouquecer, se é esta a sensação de se estar a perder o juízo. A estação do comboio fica a quatro quarteirões. Não se vê um carro na rua, a vila está deserta e, sendo ele um habitante da cidade que nunca dorme, acha desconcertante o silêncio deste lugarejo em época baixa. Encosta-se a um candeeiro à espera de que as portas do comboio abram; além dele, há apenas mais três pessoas na plataforma, incluindo o homem do restaurante. A chuva a bater-lhe nas mãos está a transformar-se numa lama aquosa, os dedos enregelados, mas quer que fiquem assim. O frio é a única coisa que o mantém ligado à realidade. HELENA 31 de outubro de 2008 – 14 de março de 2009 Dia 366 Dois dias depois de usar a cadeira pela primeira vez, Helena está sentada na sala de controlo, rodeada da Equipa de Imagiologia, a fitar um enorme monitor com uma imagem 3D estática do cérebro dela, onde a atividade sináptica é representada por diferentes tons de azul luminoso. — A resolução espacial é extraordinária, malta — diz ela. — Muito superior ao que alguma vez julguei ser possível. — Espera — diz Rajesh. Carrega na barra de espaço e a imagem ganha vida. Há neurónios a luzir e a apagar como um bilião de pirilampos a iluminar uma noite estival. Como a latência das estrelas. Consoante a memória é reproduzida, Rajesh amplia a imagem ao nível dos neurónios individuais. Fios de eletricidade a faiscar de sinapse em sinapse. Diminui a velocidade para mostrar a atividade ao longo de um milissegundo, e mesmo assim a complexidade continua incomensurável. Quando a memória termina, diz: — Prometeste que nos diria o que estamos a ver. Helena sorri. — Eu tinha seis anos. O meu pai tinha-me levado a pescar num ribeiro que ele adorava no Parque Nacional das Montanhas Rochosas. — Consegues ser específica em relação àquilo que estavas exatamente a relembrar durante esses quinze segundos? — pergunta Rajesh. — Foi a tarde inteira? Certos momentos? — Descrevê-lo-ia como instantes, os quais, na globalidade, envolvem o retorno emocional à memória. — Por exemplo… — O barulho da água a marulhar nas pedras do curso de água. Folhas de faia amarelas a boiar na corrente e como faziam lembrar moedas de ouro. As mãos ásperas do meu pai a prender o isco. A expectativa de apanhar um peixe. Deitada na relva na margem, a fitar a água. O céu limpo e azul e o sol a passar pelo meio das árvores em fragmentos de luz. Um peixe que o meu pai apanhou a estremecer nas suas mãos e ele a explicar que é por causa da coloração vermelha por debaixo da maxila inferior que lhe chamam truta assassina. Mais tarde nessa tarde, um anzol espetado no polegar. — Helena estica o dedo em causa para lhes mostrar uma minúscula cicatriz. — Não conseguia tirá-lo, por isso o meu pai abriu o seu canivete e cortou a carne. Lembro-me de chorar, ele a dizer-me para não me mexer, e quando o anzol finalmente saiu, ele meter-me o polegar na água gelada até eu perder a sensibilidade no dedo. Vi o sangue sair do corte e espalhar-se pela corrente. — Qual é a tua ligação emocional a essa memória? — questiona Rajesh. — O motivo por que a escolheste. Helena fita os seus enormes olhos escuros e responde: — A dor do anzol, mas sobretudo porque é a recordação de que mais gosto com o meu pai. O momento em que ele foi mais genuíno. Dia 370 Voltam a sentar Helena na cadeira e pedem-lhe para recuperar a memória, uma e outra vez, decompondo-a em segmentos até a equipa de Rajesh conseguir atribuir padrões sinápticos individuais a momentos específicos. Dia 420 A primeira tentativa de reativação acontece na segunda véspera de Natal que Helena passa na plataforma. Sentam-na na cadeira e põem-lhe um capacete com uma rede de estimuladores eletromagnéticos. Sergei programou o dispositivo com as coordenadas sinápticas de um único segmento da recordação do dia de pesca de Helena. Quando as luzes se apagam no primeiro compartimento de teste, Helena ouve a voz de Slade no auscultador do capacete. — Preparada? — Sim. Decidiram de comum acordo não dizer a Helena quando o dispositivo de reativação entrará em ação, nem qual foi o segmento de memória escolhido, com receio de que, se ela antecipar a memória, possa dar-se o caso de a obter inadvertidamente sozinha. Helena fecha os olhos e inicia o exercício de limpeza mental que já anda a treinar há uma semana. Vê-se a si mesma entrar numa sala. Há um banco ao centro, daqueles que se encontram nos museus de arte. Senta-se e perscruta a parede defronte dela. Do chão ao teto, muda impercetivelmente de branco para preto, passando por matizes de cinzento cada vez mais escuro. Ela começa por baixo, demorando-se a analisar lentamente a extensão da parede, observando ao pormenor a cor de uma secção antes de passar à seguinte, cada região subsequente pouco mais escura do que a anterior… A súbita picada de um anzol com farpa a espetar-se no polegar, a sua voz é um grito agudo de dor, uma gota de sangue vermelho tingindo o anzol, e o seu pai que vem a correr. — Foram vocês? — pergunta Helena, o coração a bater com força no peito. — Experienciou alguma coisa? — quer saber Slade. — Sim, agora mesmo. — Descreva o que sentiu. — Um lampejo de uma memória vívida do anzol a espetar-se no meu polegar. Foram vocês? Ouvem-se palmas e gritos de júbilo na sala de controlo. Helena desata a chorar. Dia 422 Começam a gravar e a catalogar as memórias autobiográficas de toda a gente na plataforma, limitando-se rigorosamente a memórias flashbulb. Dia 424 Lenore permite-lhes gravar a sua memória da manhã de 28 de janeiro de 1986. Ela tinha oito anos e foi ao dentista. O gerente do consultório levara um televisor de casa e instalara-o na sala de espera. Lenore estava sentada com a mãe à espera da sua vez, a ver imagens do histórico lançamento do vaivém, quando a aeronave se desintegrou por cima do oceano Atlântico. A informação que lhe ficou gravada com mais impacto foi o pequeno televisor pousado em cima de um carrinho. As imagens das espirais de nuvens brancas instantes depois da explosão. A mãe dela a dizer: «Oh, meu Deus.» A expressão de preocupação nos olhos do Dr. Hunter. E uma das higienistas orais a aparecer das traseiras para olhar para a televisão com as lágrimas a correrem-lhe pela cara para debaixo da máscara cirúrgica que ainda tinha posta. Dia 448 Rajesh lembra-se da última vez que viu o pai antes de ir para a América. Tinham feito um safari, só eles os dois, no vale de Spiti, no alto dos Himalaias. Recorda-se do cheiro dos iaques. Da intensidade violenta do sol da montanha. Da água gélida do rio. Da sensação de vertigem que o acossou por causa da rarefação de oxigénio aos quatro mil metros de atitude. Tudo castanho e árido, à exceção dos lagos, como olhos azul-claros, e os templos com os seus estandartes de cores vibrantes, e as cúspides dos montes mais altos a reluzirem com a neve branca. Mas especialmente da noite em que o pai lhe disse o que realmente pensava da vida, de Raj, da sua mãe, de tudo, num fugaz momento de vulnerabilidade quando estavam os dois sentados diante de uma fogueira mortiça. Dia 452 Sergeisenta-se na cadeira a recordar o momento em que um motociclista colidiu com a traseira do seu carro. O súbito impacto do metal a chocar com metal. Ver o motociclo fazer uma pirueta ao longo da estrada pelo vidro do condutor. O medo, o terror, o sabor a ferrugem ao fundo da garganta e a sensação do tempo a andar devagar. Depois, parar o carro no meio da movimentada rua de Moscovo e apear- se, sentindo o cheiro de óleo e gasolina emanar do motociclo amachucado, e o motociclista sentado no meio da rua, as perneiras esfarrapadas e a pele à vista, a olhar aturdido para as mãos, a maioria dos dedos decepados, e depois desatar a gritar ao ver Sergei, o motociclista a tentar levantar-se e lutar, o grito quando a sua perna, dobrada numa posição impossível debaixo do seu corpo, se recusou a obedecer. Dia 500 É um dos primeiros dias amenos do ano. A plataforma foi fustigada por tempestades consecutivas durante todo o inverno, testando os limites, mesmo os de Helena, em relação a ambientes de trabalho claustrofóbicos, mas hoje está quente e apresenta-se o céu limpo, e o mar suficientemente calmo para a superfície luzir debaixo da plataforma. Ela e Slade caminham vagarosamente pela pista de atletismo. — O que acha dos progressos que fizemos? — pergunta ele. — Excelente. Tem sido muito mais rápido do que esperava. Acho que deveríamos publicar alguma coisa. — A sério? — Estou preparada para pegar naquilo que descobrimos e começar a mudar a vida das pessoas. Ele olha para ela, mais magro e rijo do que da primeira vez que se viram, quase um ano e meio antes, mas também ela está mudada. Nunca esteve em tão boa forma física e o seu trabalho nunca foi tão aliciante. Nada do envolvimento de Slade neste projeto correspondeu às suas expectativas. Desde que ela chegou à plataforma, ele só se ausentou uma vez e tem estado intimamente envolvido em todas as etapas do processo. Slade e Jee-woon marcaram presença em todas as reuniões da equipa. Pediu conselhos em relação a todas as decisões importantes. Ela presumira que um homem ocupado como Slade apenas apareceria ocasionalmente, mas a obsessão dele é capaz de rivalizar com a dela. — Está a falar em publicar, e eu sinto que bati numa parede — diz ele. Fazem a curva nordeste da pista, em direção a oeste. — A experiência de reativação de uma memória é uma desilusão. — Choca-me ouvi-lo dizer isso. Toda a gente que foi submetida à reativação deu conta de experienciar uma memória muito mais vívida e intensa do que qualquer outra coisa de que se lembram sozinhos. A reativação aumenta todos os sinais vitais, por vezes ao ponto de um intenso stress. Viu os gráficos clínicos. Também foi sujeito a uma reativação da memória. E discorda? — Não digo que não seja uma experiência mais intensa do que uma recordação que se tem sozinho, mas não é tão dinâmico como eu esperava. Ela sente-se ruborizar. — Estamos a fazer progressos e avanços científicos a uma velocidade estonteante na nossa compreensão da memória e de engramas, os quais elucidariam o mundo se concordasse em deixar-me publicar. Quero começar a mapear memórias de indivíduos que sofrem de Alzheimer em fase três, e, quando chegarem à fase cinco ou seis, reativar as memórias que lhes guardarmos. E se for esse o caminho para a regeneração sináptica? Para uma cura? Ou pelo menos para preservar memórias fulcrais de uma pessoa cujo cérebro está a falhar? — Está a pensar apenas na sua mãe, Helena? — É claro que sim! É possível que dentro de um ano ela chegue a um ponto em que não terá mais memórias para mapear. O que acha que estou a fazer aqui? Porque acha que dediquei a vida a isto? — Adoro a sua paixão e também quero acabar com essa doença, mas primeiro quero uma Plataforma imersiva para projeção de memórias de longo prazo, explícitas e episódicas. Exatamente o mesmo título do seu pedido de patente com que tem sonhado há anos, aquele que ainda não apresentou. — Como sabe da minha patente? Em vez de lhe responder, faz-lhe outra pergunta: — Acha que aquilo que construiu até ao momento está mais próximo de ser imersivo? — Dei tudo o que tenho a este projeto. — Por favor, não esteja sempre na defensiva. A tecnologia que criou é perfeita. Eu só quero ajudá-la a torná-la tudo aquilo que pode ser. Dobram a esquina noroeste e seguem para sul. As equipas de Imagiologia e Mapeamento jogam uma partida de voleibol. Rajesh está a pintar uma aguarela en plein air junto à piscina coberta pelo oleado. Sergei lança a bola ao cesto no campo de basquetebol. Slade detém-se e olha para Helena. — Dê ordens à equipa de Infraestru tura para construir um tanque de privação sensorial. Terão de trabalhar em coordenação com o Sergei para arranjar uma maneira de o tornar estanque e estabilizar o dispositivo de reativação num indivíduo sujeito a teste que esteja a flutuar no interior. — Porquê? — Porque criará a versão de reativação de memória pura que eu pretendo. — Como é que pode saber…? — Assim que conseguir isso, descubra um método de parar o coração dos indivíduos sujeitos a teste quando estiverem no interior do tanque de privação sensorial. Helena olha para Slade como se ele tivesse perdido o juízo. — Quanto maior for o stress a que o corpo humano é sujeito durante a reativação, mais intensa será a sua experiência da memória. O nosso cérebro encerra uma glândula do tamanho de um grão de arroz chamada epífise que tem um papel importante na criação de um químico chamado dimetiltriptamina, ou DMT. Já ouviu falar? — É um dos alucinogénios mais potentes que se conhecem. — Em doses ínfimas, libertada para o nosso cérebro durante a noite, a DMT é responsável pelos sonhos, mas no momento da morte, a epífise liberta uma verdadeira enxurrada de DMT. É como se fosse época de saldos. Por causa dela, as pessoas têm visões quando morrem, como, por exemplo, estarem a caminhar por um túnel em direção a uma luz, ou reverem mentalmente toda a sua vida. Para termos uma memória imersiva semelhante a um sonho precisamos de sonhos maiores. Ou, se preferir, de muito mais DMT. — Ninguém sabe o que as nossas mentes conscientes experienciam quando morremos. Não é possível ter a certeza de que isso terá um efeito na imersão na memória. Corremos o risco de matar pessoas. — Quando foi que se tornou tão pessimista? — Quem é que acha que irá oferecer-se como voluntário para morrer por este projeto? — Nós ressuscitá-los-emos. Sonde a sua equipa. Pagarei bem, tendo em conta o risco. E se não tiver voluntários suficientes, pro curarei noutro lugar. — Oferecer-se-ia como voluntário para entrar no tanque de privação sensorial e parar o coração? Slade sorri, sombrio. — Quando o procedimento estiver aperfeiçoado? Sem dúvida. Depois, e só depois, poderá trazer a sua mãe para a plataforma e utilizar todo o meu equipamento e todo o seu conhecimento para mapear e salvar as memórias dela. — Marcus, por favor… — Depois, e só depois. — Estamos a ficar sem tempo. — Então, mãos à obra. Ela vê-o afastar-se. Dantes, aquela sensação ficava mesmo suficientemente abaixo da superfície para conseguir ignorar, mas agora não há como o negar. Ela não sabe como, mas Slade tem conhecimento de coisas que não era suposto ele conhecer — todos os detalhes da sua visão para projeção da memória, incluindo o nome do pedido de patente que um dia iria apresentar. Os processadores quânticos que, de algum modo, ele sabia que resolveriam o problema de mapeamento. E agora esta ideia tresloucada de parar o coração como um meio de intensificar a experiência imersiva. Ainda mais alarmante é o modo como Slade faz pequenas sugestões. É quase como se quisesse que ela se aperceba de que ele sabe de coisas que não deveria saber. Como se quisesse que ela ficasse preocupada com o alcance do seu poder e conhecimento. Ocorre-lhe que, se este atrito continuar, chegará o dia em que Slade lhe negará o acesso à plataforma de memória. Talvez ela consiga convencer Raj a construir-lhe uma segunda conta de utilizador, secundária e clandestina, não vá o diabo tecê-las. Pela primeira vez desde que chegoua esta plataforma, Helena interro ga- se se estará em segurança aqui. BARRY 5-6 de novembro de 2018 — Senhor? O senhor desculpe… Barry desperta do sono, vai abrindo os olhos, tudo se mostra por momentos desfocado durante cinco segundos de desnorte, e ele não faz ideia de onde está. Então, toma consciência do balançar do comboio. Postes de iluminação a passar pela janela do outro lado do corredor. A cara de um revisor já idoso. — Posso ver o seu bilhete? — pergunta o velho com uns modos refinados de outros tempos. Barry esvazia os bolsos até encontrar o telemóvel no fundo de um bolso interior. Abre a aplicação da MTA e mostra o bilhete para o revisor ler o código de barras. — Obrigado, Sr. Sutton. Desculpe tê-lo acordado. Quando o revisor se afasta para a carruagem seguinte, Barry repara que tem quatro chamadas não atendidas no visor do telemóvel — todas com o mesmo indicativo: 934. E uma mensagem de voz. Carrega no botão para reproduzir a mensagem e encosta o telemóvel ao ouvido. «Olá, daqui fala o Joe… o Joe Behrman. Hum… Será que me pode ligar assim que ouvir esta mensagem? Preciso mesmo de falar consigo.» Barry liga-lhe logo de imediato, e Joe atende antes do segundo toque. — Inspetor Sutton? — Sim. — Onde está? — No comboio de regresso a Nova Iorque. — O senhor tem de compreender, nunca pensei que alguém viesse a descobrir. Prometeram-me que nunca aconteceria. — Do que está a falar? — Eu estava com medo. — Joe começa a chorar. — Pode voltar cá? — Joe… estou num comboio. Mas pode falar comigo agora. Por instantes, o homem apenas respira pesadamente para o telefone. Barry julga ouvir também uma mulher chorar em segundo plano, mas não tem a certeza. — Eu não o deveria ter feito — diz Joe. — Apercebi-me disso. Eu tinha uma vida fantástica, um filho lindo, mas não conseguia olhar-me ao espelho. — Porquê? — Porque não estive lá para a apoiar, e depois ela saltou. Não consegui perdoar a minha… — Quem foi que saltou? — A Franny. — O que está para aí a dizer? A Franny não saltou. Acabei de a ver em sua casa. Pela ligação carregada de estática, Barry ouve Joe ir-se abaixo. — Joe, o senhor conhecia a Ann Voss Peters? — Sim. — Como. — Fui casado com ela. — O quê? — A Ann saltou por minha culpa. Eu vi um anúncio nos classificados que dizia: «Gostaria de uma renovação?» Liguei para aquele número. A Ann disse-lhe que sofria de síndrome das falsas memórias? — Isso mesmo. — E agora sofro eu. — Parece-me que o senhor também sofre. Dizem que se transmite pelos círculos sociais. Joe dá uma gargalhada, mas o som é pleno de remorso e repulsa por si mesmo. — A SFM não é aquilo que se julga. — O senhor sabe o que é a SFM? — Claro. — Diga-me. Faz-se silêncio do outro lado da linha e, por instantes, Barry pensa que perdeu o sinal. — Joe, está aí? A ligação foi abaixo? — Estou aqui. — O que é a SFM? — São pessoas como eu, que fizeram o que eu fiz. E a coisa só vai piorar. — Porquê? — Eu… – Segue-se uma longa pausa. — Não posso explicar. É uma loucura. Tem de ver com os próprios olhos. — Como posso fazer isso? — Depois de eu ligar para esse número, fizeram-me uma entrevista por telefone e depois levaram-me para um hotel em Manhattan. — Há muitos hotéis em Manhattan, Joe. — Mas não como aquele a que eu fui. Não basta ir lá. É preciso que eles lhe enviem um convite. O único acesso é por uma garagem subterrânea. — Sabe a morada? — Fica na East Fiftieth, entre a Lexington e a Third. Há um restaurante que está aberto a noite toda no mesmo quarteirão. — Joe… — São pessoas poderosas. A Franny teve um esgotamento quando se lembrou, e eles souberam. Vieram cá. Ameaçaram-me. — Quem são eles? Não há resposta. — Joe? Joe? Desligou. Barry tenta ligar-lhe de volta, mas a chamada vai diretamente para o correio de voz. Olha pela janela — não se vê nada além de trevas ocasionalmente interrompidas pelas luzes de uma casa ou de uma estação que fica para trás. Concentra-se naquelas memórias alternativas que se apoderaram dele no restaurante. Continuam presentes. Nunca aconteceram, mas são reais como as suas outras memórias e não consegue compreender o paradoxo na sua mente. Olha em redor da carruagem — é o único passageiro. Só se ouve o contínuo bater do coração do comboio a acelerar pela linha. Toca no assento, passa os dedos pelo tecido. Abre a carteira e observa a sua carta de condução e depois o distintivo da Polícia de Nova Iorque. Respira fundo e diz para os seus botões: És o Barry Sutton. Vais num comboio de Montauk para Nova Iorque. O teu passado é o teu passado. Não é possível mudá-lo. Este momento é a realidade. O comboio. O frio da vidraça. A chuva a escorrer do lado de fora. E tu. Há uma explicação lógica para as tuas falsas memórias, para o que aconteceu ao Joe e à Ann Voss Peters. Para tudo isto. É apenas um quebra-cabeças que tem de ser resolvido. E tu és muito bom a resolver quebra-cabeças. Tretas. Nunca teve tanto medo na vida. Quando sai da Penn Station, passa da meia-noite. A neve cai de um céu rosáceo e já formou uma camada de cerca de dois centímetros nas ruas. Vira a gola para cima, abre o guarda-chuva e segue da Thirty-Fourth em direção a norte. As ruas e os passeios estão desertos. A neve abafa o ruído de Manhattan até se instalar um silêncio invulgar. Quinze minutos de uma caminhada a passo rápido leva-o ao cruzamento da Eighth Avenue com a West Fiftieth, onde vira para leste, atravessando as avenidas, agora com mais frio ao aproximar-se da borrasca, o guarda-chuva inclinado como um escudo de proteção contra o vento e a neve. Detém-se na Lexington para deixar passar três limpa-neves e fixa o olhar num letreiro de néon vermelho do outro lado da rua: McLachlan’s Restaurant Pequenos-almoços Almoços Jantares Aberto todos os dias 24 Horas Barry atravessa a rua até se encontrar debaixo do letreiro, a ver a neve cair pela iluminação vermelha e ocorrendo-lhe que só pode ser este o tal restaurante que está aberto a noite toda de que Joe lhe falou ao telefone. Caminha há quase quarenta minutos e começa a tremer; a neve encharca- lhe os sapatos. Depois do restau rante, passa por um recanto onde está um sem-abrigo a murmurar consigo mesmo e a balançar-se para trás e para a frente, os braços envolvendo as pernas. Depois uma loja de vinhos, outra de bebidas alcoólicas, uma boutique de roupa de senhora de luxo e um banco — todos fechados àquela hora da noite. Quase ao fundo do quarteirão, detém-se à entrada de uma rampa de acesso no escuro que dá para a garagem subterrânea por baixo de um edifício neogótico encurralado entre dois arranha-céus mais altos feitos de ferro e vidro. Baixando o guarda-chuva, desce a rampa de acesso até à penumbra abaixo do nível da rua. Depois de percorrer doze metros, dá de caras com um portão de garagem em aço reforçado. Tem um teclado e, por cima, uma câmara de vigilância. Que merda! Parece o fim da linha por hoje. Regressará no dia seguinte, montará vigia à entrada para ver se consegue ver alguém entrar ou… O ruído de engrenagens a começar a rodar sobressalta-o. Olha para o portão da garagem, que se abre lentamente, a luz do outro lado a estender-se pelo pavimento, já a chegar às biqueiras dos sapatos molhados de Barry. Ir embora? Ficar? Este pode até nem ser o sítio certo. O portão vai a meio, continua a subir e não está ninguém do outro lado. Hesita, depois passa a soleira para uma modesta estrutura de estacionamento subterrânea onde se encontra uma dúzia de veículos. Os seus passos ecoam no betão num espaço iluminado por lâmpadas de halogéneo. Avista um elevador e, ao lado deste, uma porta que, presumivelmente, dá para uma escadaria. A luz por cima do elevador acende-se. Ouve-se uma campainha. Barry agacha-se atrás de um Lincoln MKX e espreita pelo vidro fumado do passageiro da frente, ficando a ver as portas do elevador abrirem-se. Ninguém. Que raio vem a ser isto? Não deveria estar ali. Nada daquilo está relacionado com os casos que tem em mãos e, para todos os efeitos, aparentemente não foi cometido crime algum. Tecnicamente,ele está a invadir propriedade privada. Foda-se. As paredes interiores são de metal macio sem qualquer dispositivo, o elevador parece ser controlado do exterior. As portas fecham-se. O elevador sobe. Sente o coração acelerado. Barry engole duas vezes para eliminar a pressão dos ouvidos e, trinta segundos depois, a caixa detém-se com um estremeção. Quando as portas se abrem, a primeira coisa que ouve é Miles Davis — um dos perfeitos temas calmos do álbum Kind of Blue —, levado por um eco isolado através do que parece ser o átrio de um hotel. Passa do elevador para o chão de mármore. Por todo o lado veem-se trabalhos de marcenaria pesados. Sofás de couro, cadeiras lacadas de preto. Resquícios de fumo de charuto no ar. O espaço tem algo de intemporal. Mesmo à sua frente, um balcão de receção sem ninguém, por detrás do qual se vê uma vintena de caixas de correio que teriam sido utilizadas noutros tempos, e as letras HM brasonadas no tijolo por cima de tudo. Escuta o tilintar delicado de cubos de gelo a caírem sobre vidro e vozes vindas de um bar rodeado de janelas. Dois homens, sentados em bancos forrados a couro, conversam enquanto uma empregada de balcão de colete preto limpa copos. Conforme Barry se aproxima do bar, o cheiro a charuto torna-se mais forte e a atmosfera brumosa de tanto o fumo. Barry senta-se num banco e apoia-se no robusto balcão de mogno. Do lado de fora das janelas ali perto, os edifícios e as luzes da cidade surgem debaixo de um manto de neve. A empregada acerca-se dele. É bonita — uns olhos escuros e o cabelo prematuramente grisalho preso com uns pauzinhos. No crachá lê-se o nome TONYA. — O que vai beber? — pergunta Tonya. — Pode ser um uísque? — Alguma marca em especial? — Fica à sua consideração. Ela volta-se para lhe servir a bebida e Barry olha de relance para os homens que estão a vários lugares de distância. Bebem uísque de uma garrafa que já vai em metade, pousada entre os dois no balcão. O que está mais perto parece ter setenta e poucos anos, com o cabelo grisalho e fraco e uma emaciação sugestiva de doença terminal. O fumo forma espirais saídas do charuto que tem na mão, que cheira a chuva a cair num deserto. O outro homem é mais ou menos da idade de Barry e tem uma cara inexpressiva, bem barbeada, os olhos cansados. — Há quanto tempo está aqui, Amor? — pergunta ao homem mais velho — Há cerca de uma semana. — Já lhe deram uma data? — Na verdade, vai ser amanhã. — A sério? Parabéns. Fazem um brinde. — Nervoso? — indaga o homem mais novo. — Bem… pergunto-me o que me espera. Mas eles fazem um excelente trabalho a preparar-nos para tudo. — É verdade… Será sem anestesia? — Infelizmente, sim. Quando chegou aqui? — Ontem. — Amor dá uma baforada no charuto. Tonya aparece com um uísque, que pousa em cima de um guardanapo à frente de Barry com as palavras HOTEL MEMÓRIA gravadas em relevo a dourado no papel. — Já decidiu o que vai fazer quando regressar? — pergunta o homem mais novo. Barry sorve o uísque — xerez, caramelo, frutos secos e álcool. — Tenho uma ideia ou outra. Amor levanta a mão com que segura o charuto. — Isto acabou-se. — Aponta para o uísque. — Também vou cortar noutras coisas. Eu era arquiteto e há um edifício que sempre me arrependi de não ter construído. Podia ter sido a minha magnum opus. E o senhor? — Não sei bem. Sinto-me tão culpado… — Porquê? — Isto não é egoísmo? — São as nossas memórias. Mais ninguém manda nelas. — Amor acaba o seu uísque de um trago. — É melhor ir para a cama. Amanhã é um dia importante. — Pois, eu também. Descendo dos seus bancos, os homens cumprimentam-se com um aperto de mão e desejam boa sorte um ao outro. Barry fica a vê-los afastarem-se do bar na direção de uma fila de elevadores. Quando se vira outra vez para o balcão, a empregada está virada para ele. — Que sítio é este, Tonya? — pergunta, mas tem uma sensação estranha na boca e as palavras saem numa fala arrastada e desajeitada. — O senhor não está com boa cara. Ele sente alguma coisa soltar-se por detrás dos olhos. Um desamarrar. Olha para a bebida. Olha para Tonya. — O Vince vai ajudá-lo a ir até ao quarto — diz ela. Barry desce do banco, cambaleia um pouco e, quando se vira, dá de caras com o olhar inexpressivo do homem do restaurante. À volta do pescoço, a tatuagem ornamentada de umas mãos de mulher a estrangulá-lo. Barry leva a mão à arma, mas é como se estivesse a mexer-se em câmara lenta e Vince já tem as mãos por baixo do casaco dele desapertando com destreza o coldre de trazer ao ombro, onde tem a arma de serviço, e a enfiar a pistola na parte de trás das calças de ganga. Tira o telemóvel do bolso de Barry e atira-o para Tonya. — Sou da Polícia de Nova Iorque — diz Barry com a fala arrastada. — Eu também já fui. — Que sítio é este? — Vai já ficar a saber. As tonturas tornam-se mais fortes. Vince agarra Barry pelo braço e condu-lo para fora do bar, na direção da fileira de elevadores depois do balcão de receção. Chama o elevador e arrasta Barry para dentro. Depois, Barry está a cambalear por um corredor de hotel enquanto o mundo se funde à sua volta. Avança aos ziguezagues pela alcatifa vermelha e fofa, passando por candeeiros com velhas lâmpadas que lançam uma luz antiga sobre os lambrins entre as portas. O número 1414 é projetado na porta por uma luz na parede oposta que movimenta o número num lento padrão em oito à volta do olho mágico. Vince franqueia a entrada e conduz Barry até a uma grande cama de dossel e empurra-o para cima do colchão, onde Barry se enrosca na posição fetal. Vai rapidamente perdendo a consciência e pensa: Fizeste merda da grossa, não foi? A porta do quarto fecha-se com estrondo. Está sozinho, sem se conseguir mexer. As luzes da cidade coberta de neve entram pelo cortinado diáfano que cobre as janelas a todo o comprimento da fachada e a última coisa que vê antes de perder os sentidos são os arcos ornamentados do Chrysler Building, cintilando como joias na tempestade. Tem a boca seca, o braço esquerdo dorido. O espaço à sua volta vai-se materializando. Barry está reclinado numa cadeira de couro — preta, elegante, ultramoderna — à qual também foi amarrado, pelos tornozelos, pelos pulsos, pela cintura e pelo peito. Tem uma sonda intravenosa no antebraço esquerdo — daí a dor — e há um carrinho de metal ao lado da cadeira, donde corre o tubo de plástico que está ligado à sua corrente sanguínea. A parede defronte ostenta um terminal informático e diverso equipamento médico, incluindo (para sua grande angústia) um carrinho com todo o equipamento necessário para efetuar uma intervenção cirúrgica. Guardado num recanto no extremo mais afastado da sala, avista um objeto liso e branco com tubos e fios ligados, a fazer lembrar um ovo gigante. Um homem que Barry nunca viu está sentado num banco ao lado dele. Tem a barba branca e comprida, olhos azuis austeros que irradiam inteligência e uma intensidade desconfortável. Barry abre a boca, mas sente-se demasiado grogue para formar palavras. — Ainda se sente zonzo? — Barry faz que sim com a cabeça. O homem toca num botão no carrinho ao lado da cadeira. Barry observa um líquido transparente passar pela linha intravenosa para o seu braço. A sala fica mais clara e ele sente-se logo alerta, como se tivesse tomado um café forte, e a consciência dá lugar ao pavor. — Está melhor assim? — pergunta o homem. Barry tenta mexer a cabeça, mas esta foi imobilizada. Não a consegue mexer sequer um milímetro para qualquer um dos lados. — Sou polícia — diz Barry. — Eu sei. Sei muito sobre si, inspetor Sutton, incluindo o facto de ser um homem cheio de sorte. — Porque diz isso? — Por causa do seu passado, decidi não o matar. Isso é uma coisa boa? Ou estará este homem apenas a gozar? — Quem é o senhor? — pergunta Barry. — Isso não importa. Vou dar-lhe o melhor presente da sua vida. O melhor presente que alguém poderia desejar. Se não se importa — diz ele, com uma simpatia paradoxalmente alarmante —, quero fazer-lhe umas perguntas antes de começarmos. Barry está mais alertaa cada minuto que passa e o seu estado de confusão vai sendo mitigado conforme recupera cada fragmento da sua memória — cambalear pelo corredor do hotel e entrar no quarto 1414. — Foi a casa de Joe e Franny Behrman em serviço oficial? — pergunta o homem. — Como sabe que eu fui lá? — Limite-se a responder. — Não. Fui só satisfazer a minha curiosidade. — Algum dos seus colegas ou superiores está a par da sua ida a Montauk? — Nenhum. — Falou com alguém sobre o seu interesse em Ann Voss Peters e Joe Behrman? Embora tenha falado com Gwen sobre a SFM no domingo, tem a certeza de que ninguém poderia saber da sua conversa. Por isso, mente. — Não. Barry tem o software de rastreamento ativado no telemóvel. Não faz ideia de quanto tempo esteve inconsciente, mas partindo do princípio de que ainda é terça-feira, de manhã cedo, a sua ausência no trabalho só será notada ao final da tarde. Em teoria, daqui por várias horas. Não tem compromissos agendados, planos para beber um copo ou para jantar. Poderiam passar vários dias até alguém dar pela falta dele. — Virão pessoas à minha procura — diz Barry. — Nunca o encontrarão. Barry inspira devagar, tentando manter-se calmo perante o pânico crescente. Precisa de convencer este homem a libertá-lo com recurso apenas a palavras e à lógica. — Não sei quem o senhor é — diz Barry. — Não faço ideia do que vem a ser isto, mas se me libertar agora, nunca mais ouvirá falar de mim. Juro. O homem levanta-se do banco e atravessa a sala até ao terminal informático. De pé, diante de um enorme monitor, escreve num teclado. Passado algum tempo, Barry ouve o aparelho que está ligado à sua cabeça começar a fazer um zumbido quase impercetível, como as asas de um mosquito. — O que é isto? — pergunta Barry outra vez, o coração a bater mais forte, o medo a toldar-lhe o discernimento. — O que deseja de mim? — Quero que me fale sobre a última vez que viu a sua filha viva. Numa fúria pura e cega, Barry debate-se com as tiras de couro, lutando com todas as suas forças para libertar a cabeça do que quer que esteja a prendê-la. O couro range, mas a cabeça não se mexe. Formam-se bolhas de suor na sua cara, que lhe escorrem para os olhos com um ardor salgado que ele não consegue limpar. — Eu mato-o — diz Barry. O homem inclina-se para a frente, ficando a centímetros dele, uma chispa azul e glacial nos olhos. Barry sente o cheiro da sua água-de-colónia cara, a acidez do café no seu hálito. — Não estou a querer atormentá-lo — diz o homem. — Estou a tentar ajudá-lo. — Vá-se foder. — Você é que veio ao meu hotel. — Pois, e tenho a certeza de que disse ao Joe Behrman o que ele deveria dizer exatamente para me atrair aqui. — Façamos o seguinte: vamos tornar a escolha o mais simples possível. Ou me responde com franqueza quando eu fizer uma pergunta, ou eu mato- o aqui mesmo. Preso na cadeira, Barry não tem alternativa senão concordar, para tentar manter-se vivo até ter uma oportunidade, por muito ínfima, de se libertar. — Está bem. O homem levanta a cabeça para o teto e diz: — Computador, iniciar sessão. Uma voz feminina maquinal responde: «Nova sessão a iniciar agora.» O homem fita os olhos de Barry. — Agora, fale-me da última vez que viu a sua filha viva e não omita nenhum pormenor. HELENA 29 de março de 2009 – 20 de junho de 2009 Dia 515 De pé no vestíbulo do cais de carga ocidental da superstrutura, Helena veste o equipamento contra intempéries, pensando que o vento lhe faz lembrar um espectro de voz cava, a rugir do lado de fora. Durante toda a manhã, o vento tem soprado em rajadas de cento e trinta quilómetros por hora — o suficiente para lançar alguém do tamanho dela pelos ares. Corre o portão, olha para um mundo cinzento de chuva tocada pelo vento e prende o mosquetão do arnês ao cabo que foi esticado pela plataforma. Apesar de antever a força do vento, não está preparada para a intensidade que quase a leva de repelão. Inclina-se contra o vento, fincando os pés, e sai. A plataforma está sob um manto pardacento e ela só consegue ouvir a fúria do vento e as agulhas de chuva, que batem no capuz do seu casaco como se fossem esferas de rolamentos. Demora dez minutos a atravessar a plataforma, uma série de passos vigorosos num esforço para não perder o equilíbrio. Por fim, chega ao seu lugar predileto na plataforma — a esquina noroeste — e senta-se com as pernas a balançar do lado de fora, a observar as ondas de dois metros, que embatem nos pilares da plataforma. Os dois últimos elementos da Equipa de Infraestrutura partiram ontem, antes de a tempestade chegar. Não se limitaram a opor-se à nova diretiva de Slade que visa «meter pessoas num tanque de privação sensorial e parar o seu coração». À exceção dela e de Sergei, demitiram-se en masse e exigiram ser levados de imediato para terra. Sempre que se sente culpada por ficar, pensa na mãe e noutras pessoas na situação dela, mas de pouco consolo serve. Além disso, tem a certeza de que Slade não a deixaria ir embora. Jee-woon foi de helicóptero a terra procurar pessoal para a equipa médica e novos engenheiros para construir o tanque de privação sensorial, deixando Hel ena sozinha no complexo com Slade e uma equipa reduzida. Aqui fora, na plataforma, é como se o mundo lhe gritasse ao ouvido. Levanta o rosto para o céu e também grita. Dia 598 Alguém bate à porta. Ela estica o braço no meio da escuridão, acende o candeeiro e levanta-se da cama envergando umas calças de pijama e um top preto. O despertador na mesa de cabeceira indica 9h50. Vai até à sala de estar e caminha em direção à porta, carregando no botão na parede para levantar as cortinas opacas. Slade está no corredor, de calças de ganga e com uma camisola de capuz. É a primeira vez que ela o vê em semanas. — Ora bolas, acordei-a — diz ele. Ela fita-o com os olhos semicerrados sob o brilho dos painéis luminosos no teto. — Posso entrar? — pergunta. — Tenho alternativa? — Por favor, Helena. Ela recua um passo e deixa-o entrar, seguindo-o pelo pequeno espaço da entrada, passando pela casa de banho para o espaço principal. — O que deseja? — pergunta ela. Ele senta-se no pousa-pés de um cadeirão ao lado das janelas com vista para o mar infinito. — Contaram-me que não tem comido nem praticado exercício — diz ele. — Que há dias que não fala com ninguém nem sai do quarto. — Porque não me deixa falar com os meus pais? Porque não me deixa ir embora? — Você não está bem, Helena. Não se encontra num estado de espírito que lhe permita proteger o secretismo deste lugar. — Eu disse-lhe que me quero ir embora. A minha mãe foi internada. Não sei como ela está. O meu pai não ouve a minha voz há um mês. De certeza que está preocupado… — Sei que não consegue perceber agora, mas estou a salvá-la de si mesma. — Ah, vá-se foder. — Desistiu porque discordou do rumo para o qual eu estava a levar este projeto. Só estou a dar-lhe tempo para reconsiderar a ideia de deitar tudo a perder. — O projeto era meu. — O dinheiro é meu. Ela tem as mãos a tremer. De medo. De fúria. — Não quero continuar a fazer isto — diz ela. — Você destruiu o meu sonho. Impediu-me de tentar ajudar a minha mãe e outras pessoas. Quero ir para casa. Vai continuar a reter-me aqui contra a minha vontade? — É claro que não. — Então, posso ir embora? — Recorda-se do que lhe perguntei no dia em que aqui chegou? Ela abana a cabeça, os olhos húmidos das lágrimas. — Perguntei-lhe se queria mudar o mundo comigo. Estamos a beneficiar de todo o trabalho brilhante que a Helena fez e eu venho aqui hoje dizer-lhe que estamos quase a conseguir. Esqueça tudo o que aconteceu. Vamos cruzar a meta juntos. Ela fita-o do outro lado da mesinha de apoio; as lágrimas correm-lhe pela cara. — O que é que está a sentir? — pergunta ele. — Fale comigo. — Estou a sentir que me roubou isto. — Nada poderia estar mais longe da verdade. Intervim quando a sua visão esmoreceu. É isso que os parceiros fazem. Hoje é o dia mais importante da minha vida e da sua. É o culminar de tudo aquilo para que temos trabalhado. Por issovim aqui. O tanque de privação sensorial está pronto. O dispositivo de reativação foi reformulado para funcionar no interior. Vamos realizar um novo teste dento de dez minutos, e este vai ser o mais importante. — Quem é a cobaia? — Não interessa. — A mim interessa. — Apenas um gajo que está a receber vinte mil dólares por semana para fazer o derradeiro sacrifício em nome da ciência. — E o senhor pô-lo a par dos perigos que esta investigação acarreta? — Ele está perfeitamente ciente dos perigos. Olhe, se quer ir para casa, faça as malas e esteja no heliporto ao meio-dia. — E o meu contrato? — Prometeu-me três anos. Estará a violar o contrato. Perderá o direito à sua remuneração, participação nos lucros, tudo. A Helena conhecia as regras, mas se quer acabar aquilo que começámos, venha comigo ao laboratório agora mesmo. Será um dia memorável. BARRY 6 de novembro de 2018 Amarrado a uma cadeira, a viver um verdadeiro pesadelo, Barry diz: — Foi no dia 25 de outubro. Há onze anos. — Qual é a primeira coisa de que se lembra quando pensa nisso? — pergunta o homem. — Qual é a imagem ou o sentimento mais forte? Barry é apanhado na mais inusitada justaposição de emoções. Quer partir aquele homem ao meio, mas a memória de Meghan naquela noite está prestes a parti-lo a ele. — Encontrar o corpo dela — responde, num tom monocórdico. — Desculpe se não me fiz entender. Não me refiro a depois de morrer. Antes. — A última vez que falei com ela. — É isso que quero que me conte. Barry olha para o fundo da sala, rangendo os dentes. — Por favor, continue, inspetor Sutton. — Estou sentado na minha cadeira na sala de estar, a ver a World Series. — Recorda-se de quem estava a jogar? — Os Red Sox e os Rockies. A segunda partida. Os Sox tinham vencido o primeiro confronto. Seriam os campeões pelo quarto ano consecutivo. — Por quem estava a torcer? — Era indiferente. Acho que queria que os Rockies empatassem, para manter o interesse. Porque está a fazer-me isto? Qual a finalidade… — Portanto, está sentado na sua cadeira… — É provável que esteja a beber uma cerveja. — A Julia estaria a assistir ao jogo consigo? Meu Deus. Ele sabe o nome dela. — Não. Acho que estava a ver televisão no quarto. Já tínhamos jantado. — Em família? — Não me lembro. É provável. — De súbito, Barry sente uma pressão no peito, cuja intensidade é quase esmagadora. — Há anos que não falo sobre essa noite — diz. O homem deixa-se ficar sentado no banco a passar os dedos pela barba e a sondá-lo com toda a calma, à espera de que Barry con tinue a falar. — Vejo a Meghan chegar do corredor. Não tenho a certeza do que trazia vestido, mas por algum motivo imagino-a de calças de ganga e uma camisola azul-turquesa que ela usava muitas vezes. — Quantos anos tem a sua filha? — Faltam dez dias para fazer dezasseis. Ela detém-se diante da mesinha de apoio… sei que isto aconteceu de certeza… e está entre mim e a televisão com as mãos nas ancas e uma expressão quase severa. Formam-se lágrimas nos cantos dos seus olhos. — Continua a ser muito emotivo para si — diz o homem. — Isso é bom. — Por favor — diz Barry. — Não me obrigue a fazer isto. — Continue. Barry respira fundo, procurando desesperadamente algum equilíbrio emocional a que se agarrar. Por fim, diz: — Foi a última vez que olhei para os olhos da minha filha. E não o sabia. Não parei de tentar olhar à volta dela para ver a televisão. Não quer chorar à frente deste homem. Que caraças, tudo menos isso. — Continue. — Perguntou-me se podia ir ao Dairy Queen. Geralmente, ia até lá duas noites por semana para fazer os trabalhos de casa e confraternizar com os amigos. Eu fiz o interrogatório da praxe. A tua mãe concordou? Não, ela tinha vindo pedir-me a mim. Já fizeste os trabalhos de casa? Não, mas parte do motivo por que queria ir era para se encontrar com a Mindy, colega de laboratório em Biologia, para falarem do projeto em que estavam a trabalhar. Quem mais iria estar lá? Uma lista de nomes, a maioria dos quais eu conhecia. Lembro-me de consultar o relógio… eram oito e meia da noite e o jogo começara há pouco e ainda estavam a fazer as primeiras batidas… e eu disse que ela podia ir, mas que a queria em casa antes das dez. Ela apresentou argumentos para ser às onze. Eu disse: «Não, amanhã tens aulas, sabes a que horas tens de te deitar», e então ela concordou e caminhou em direção à porta. Lembro-me de a chamar mesmo antes de ela sair e de lhe dizer que a amava. As lágrimas soltam-se, o corpo treme de emoção, mas as correias prendem-no bem junto à cadeira. Barry diz: — A verdade é que não sei se a chamei. Talvez não, talvez me tenha concentrado apenas no jogo e não voltei a pensar nela antes das dez da noite, quando me interroguei por que razão ainda não estava em casa. — Computador, parar sessão — diz o homem. — Obrigado, Barry — acrescenta. Debruça-se e limpa as lágrimas da cara de Barry com as costas da mão. — Qual foi o objetivo disto? — pergunta Barry, destroçado. — Foi pior do que qualquer tortura física. — Irei mostrar-lhe. O homem pressiona um botão no carrinho. Barry olha de relance para o tubo no seu braço enquanto uma corrente de líquido transparente flui para a sua veia. HELENA 20 de junho de 2009 Dia 598 O homem é seco e alto, os braços magros pontilhados por picadas de agulha. No ombro esquerdo tem o nome «Miranda» tatuado — a tatuagem parece recente, ainda vermelha e inflamada. Tem um capacete prateado que lhe assenta na perfeição, como uma boina, só que um pouco mais grosso, e um segundo dispositivo do tamanho de um apagador preso ao antebraço esquerdo. De resto, está despido em frente a uma estrutura tipo carapaça branca que mais parece um ovo. Um homem e uma mulher aguardam de cada um dos lados de um carrinho de equipamento médico. Helena assiste a tudo por um espelho igual ao das salas de interrogatórios num lugar em frente à consola principal na sala de controlo contígua, entre Marcus Slade e o Dr. Paul Wilson, diretor de projeto da equipa médica. Ao lado de Slade está Sergei, o único membro da equipa original que ainda não se foi embora. Alguém lhe toca no ombro. Ela olha de relance para trás e vê Jee-woon, que acabou de se esgueirar para a sala de controlo e se sentou atrás dela. Inclinando-se para a frente, murmura-lhe ao ouvido: — Fico muito feliz pela sua decisão de se juntar a nós neste momento. O laboratório não tem sido o mesmo sem a senhora. Slade olha para Sergei, que está a analisar o ecrã com uma imagem de alta resolução do crânio do indivíduo que será submetido ao teste. — Como estão essas coordenadas de reativação? — pergunta Slade. — Bloqueadas e carregadas. Slade vira-se para o médico. — Paul? — Estou pronto. Slade toca num botão nos auscultadores que está a usar e diz: — Reed, está tudo preparado da nossa parte. Pode meter-se lá dentro. Por instantes, o homem seco e alto não se mexe. Fica ali a tremer, a olhar para o tanque pela escotilha aberta. As luzes conferem à sua pele uma tonalidade azulada, exceto nos sítios onde tem cicatrizes de agulhas, num vermelho vívido que contrasta com a sua tez doentia. — Reed? Consegue ouvir-me? — Sim. — A voz do homem chega por quatro altifalantes posicionados nos cantos da sala de controlo. — Preparado para fazer isto? — É que… E se doer? Não sei bem o que esperar. Olha fixamente para o espelho — um ar esgazeado e macilento, veem-se- lhe as costelas debaixo da pele descorada. — Pode esperar aquilo de que falámos— diz Slade. — O Dr. Wilson está aqui ao meu lado. Quer dizer alguma coisa, Paul? O homem de cabelo grisalho e ondulado põe os auscultadores. — Reed, o registo dos seus sinais vitais está mesmo à minha frente. Estarei a monitorizá-los constantemente e tenho um plano de emergência para o caso de ficar em apuros. — Não se esqueça do bónus que lhe pagarei se o teste de hoje tiver êxito — diz Slade. Reed foca os olhos encovados no tanque. — Está bem — diz ele, enchendo-se de coragem. — Está bem, vamos a isto. — Agarra as pegas laterais do tanque de privação sensorial e, vacilante,mete-se lá dentro; o salpicar da água é audível nos altifalantes. — Reed, diga-nos quando estiver confortável — pede Slade. Um momento depois, o homem diz: — Estou a boiar. — Se não se importa, vou fechar agora a escotilha. — Passam-se dez tensos segundos. — Pode ser, Reed? — Sim, pode ser. Slade introduz um comando no teclado. A escotilha baixa devagar e sela o tanque hermeticamente. — Reed, estamos preparados para apagar as luzes e começar. Como se sente? — Acho que estou preparado. — Lembra-se de tudo o que falámos hoje de manhã? — Acho que sim. — Tem de ter a certeza. — Tenho a certeza. — Ótimo. Vai correr tudo bem. Quando voltar a ver-me, diga-me que o nome da minha mãe é Susan. Assim, saberei. Slade diminui a intensidade da luz. Um monitor que estava apagado liga- se e apresenta imagens em direto de uma câmara de visão noturna virada diretamente para Reed, instalada no teto do tanque. Na imagem, vê-se o homem boiar de costas na água altamente salinizada. Slade ativa um cronómetro no monitor principal e define-o para cinco minutos. — Reed, esta é a última vez que me ouvirá falar. Vamos dar-lhe alguns minutos para relaxar e se concentrar. Depois, começamos. — Percebido. — Boa sorte. Hoje, vai ficar para a história. Slade inicia a contagem decrescente e tira os auscultadores. — Que tipo de memória vai reativar? — pergunta Helena. — Reparou na tatuagem que ele tem no ombro esquerdo? — Sim. — Fizemo-la ontem de manhã. À noite, mapeámos a memória do evento. — Porquê uma tatuagem? — Por causa da dor. Eu queria uma experiência de codificação intensa e recente. — E um viciado em heroína foi o melhor que conseguiu arranjar para cobaia? Slade não responde. A sua transformação é notória. Está a levar este projeto muito mais longe do que ela alguma vez estivera disposta a fazer. Nunca pensou que encontraria alguém mais entusiástico e obstinado do que ela. — Ele sabe ao menos naquilo em que se meteu? — pergunta ela. — Sabe. Helena observa a contagem decrescente. Segundos e minutos a passarem. Olha para Slade e diz: — Isto ultrapassa em muito os limites dos ensaios científicos‐ responsáveis. — Concordo. — E simplesmente está a marimbar-se? — O tipo de descoberta inovadora que espero fazer hoje só será possível mediante algum risco. Helena analisa o ecrã com a imagem de Reed imóvel a boiar no tanque. — Então, está disposto a arriscar a vida deste homem? — pergunta. — Sim. Mas ele também. Ele compreende o estado em que se encontra. Acho que é um ato heroico. Além disso, quando acabarmos, ele irá fazer uma desintoxicação numa clínica de luxo. E se isto resultar, nós os dois iremos beber champanhe no seu apartamento… — Consulta o seu Rolex. — Dentro de dez minutos. — Do que está a falar? — Já vai ver. Num silêncio tenso, ficam todos à espera dos dois minutos finais, e quando o cronómetro emite o sinal, Slade diz: — Paul? — A postos. Slade olha por cima da consola para o homem que está a controlar os estimuladores. — Sergei? — Preparado. — Reanimação? — Desfibrilhador a postos. Slade olha para Paul e assente com a cabeça. O médico expira, prime uma tecla e diz: — Um miligrama de rocurónio administrado. — O que é isso? — pergunta Helena. — Um agente de bloqueio neuromuscular — responde o Dr. Wilson. — Aconteça o que acontecer — diz Slade —, não o podemos ter ali a esbracejar e a destruir aquele capacete. — Ele sabe que vai ficar temporariamente paralisado? — É claro. — Como estão a administrar estes fármacos? — Através de uma entrada intravenosa sem fios integrada no antebraço esquerdo dele. Basicamente, é apenas uma versão do cocktail de injeção letal, mas sem o sedativo. — Dois miligramas e meio de tiopental sódico administrados — diz o médico. Helena divide a atenção entre a imagem de visão noturna do interior do tanque e o ecrã que o médico está a analisar, o qual indica a pulsação, a tensão arterial, o eletrocardiograma e vários outros parâmetros vitais de Reed. — Tensão arterial a diminuir— diz o Dr. Wilson. — Frequência cardíaca a diminuir para cinquenta batimentos por minuto. — Ele está em sofrimento? — pergunta Helena. — Não — responde Slade. — Como pode ter a certeza? — Vinte batimentos por minuto. Helena aproxima-se do monitor e observa a cara de Reed naqueles tons de verde da visão noturna. Tem os olhos fechados e não evidencia sinais de dor. Na verdade, tem ar de quem está em paz. — Dez batimentos por minuto. Tensão arterial… máxima trinta, mínima cinco. De repente, ouve-se na sala de controlo o aviso sonoro contínuo que indica que não há atividade do sujeito. O médico desliga o aviso sonoro e diz: — Hora do óbito: dez e treze. No tanque, Reed não tem um aspeto diferente, ainda a boiar na água salgada. — Quando o vão reanimar? — pergunta Helena. Slade não responde. — A aguardar — diz Sergei. Surgiu uma nova janela no monitor principal do médico. Tempo desde paragem cardíaca: 15 segundos. Quando o relógio chega a um minuto, o médico diz: — Libertação de DMT detetada. — Sergei — diz Slade. — A iniciar programa de reativação de memória. A ativar estimuladores… O médico continua a ler os níveis de vários sinais vitais, agora sobretudo associados aos níveis de oxigénio e atividade cerebral. Sergei também vai atualizando os valores aproximadamente a cada dez segundos, porém, para Helena, o estridor das suas vozes diminui. Não consegue desviar os olhos do homem que está no tanque, questionando-se o que estará ele a ver e a sentir. Interrogando-se se ela estaria disposta a morrer para experienciar todo o poder da sua invenção. Quando o relógio marca dois minutos e trinta segundos, Sergei diz: — Programa de memória completo. — Execute-o outra vez — diz Slade. Sergei olha para ele. — Marcus, aos cinco minutos, as probabilidades de o reanimar são praticamente nulas — diz o médico. — As células do cérebro dele estão a morrer rapidamente. — Eu e o Reed falámos sobre isso hoje de manhã. Ele está preparado para correr o risco. — Tirem-no dali — diz Helena. — Também não me sinto à vontade com isto — diz Sergei. — Por favor, confiem em mim. Execute o programa outra vez. Sergei suspira e apressa-se a escrever alguma informação. — A iniciar programa de reativação de memória. A ativar estimuladores. Quando Helena fulmina Slade com o olhar, este atalha: — O Jee-woon tirou aquele homem de uma casa de chuto num dos piores bairros de São Fran cisco. Ele estava inconsciente, a agulha ainda espetada no braço. O mais certo era já estar morto se não fosse… — Não serve de justificação para isto — refuta ela. — Compreendo que pense assim. Mais uma vez, peço a todos vós que, por favor, confiem em mim durante apenas mais um pouco. O Reed ficará perfeitamente bem. — Marcus, se tenciona reanimar o Sr. King, sugiro que diga aos meus médicos que o tirem daquela câmara imediatamente — diz o Dr. Wilson. — Mesmo que consigamos fazer com o que o seu coração volte a bater, se ele perder a função cognitiva, não terá utilidade alguma para si. — Não o vamos tirar do tanque. Sergei põe-se de pé e caminha para a saída. Helena levanta-se da cadeira e segue no seu encalço. — A porta está fechada por fora — diz Slade. — E mesmo que conseguissem sair, os meus seguranças estão à espera no corredor. Lamento. Eu tinha a sensação de que vocês perderiam a coragem quando chegássemos a esta fase. — Dana, Aaron, retirem o Sr. King do tanque e iniciem a reanimação imediatamente — diz o médico para o microfone. Helena olha fixamente pela parede de vidro. Os médicos que estão à beira do carrinho com equipamento médico não se mexem. — Aaron! Dana! — Eles não o conseguem ouvir — diz Slade. — Cortei as comunicações com o compartimento de testes assim que iniciou a sequência com os fármacos. Sergei atira-se contra a porta, embatendo com o ombro no metal. — Quer mudar o mundo? — pergunta Slade. — O que faz falta é isto. A sensação é esta. Momentos de inexorabilidade, uma determinação inabalável. No monitor com a imagem de visão noturna do interior do tanque vê-se Reed completamente imóvel. A águaperfeitamente parada. Helena observa o monitor do médico. Tempo desde paragem cardíaca: 304 segundos. — Já ultrapassámos os cinco minutos — diz ela ao Dr. Wilson. — Há esperança? — Não sei. Helena corre até uma cadeira vazia e levanta-a do chão. Jee-woon e Slade percebem o que ela vai fazer meio segundo demasiado tarde e levantam-se dos seus lugares para a travarem. Ela levanta a cadeira acima do ombro e lança-a com violência contra a janela. Porém, esta não chega a atingir o vidro. BARRY 6 de novembro de 2018 Barry abre os olhos, mas não vê nada. Perdeu a noção do tempo. Podem ter passado anos ou segundos. Pestaneja, mas continua tudo na mesma. Questiona-se: Estarei morto? Inspira, o peito dilata-se, depois expira. Quando levanta o braço, ouve o barulho de água e sente alguma coisa deslizar debaixo da pele. Percebe que está a boiar de costas, sem fazer esforço, numa piscina de água com a temperatura exata da sua pele. Quando não se mexe, não a sente, e mesmo ao imobilizar-se outra vez, fica atónito com a sensação de o seu corpo não ter princípio nem fim. Não… há uma sensação. Tem alguma coisa presa ao antebraço esquerdo. Leva lá a mão direita e toca no que parece ser uma caixa de plástico duro. Dois centímetros e meio de largura, talvez dez centímetros de comprimento. Tenta arrancá-la, mas ou foi colada, ou está integrada na sua pele. — Barry. — É a voz do homem de antes. Aquele que estava sentado no banco a obrigá-lo a falar sobre Meghan quando ele estava amarrado àquela cadeira. — Onde estou? O que está a acontecer? — Preciso que se acalme. Limite-se a respirar. — Estou morto? — Eu estaria a dizer-lhe para respirar se assim fosse? Não está morto e, neste momento, o lugar onde se encontra não têm importância. Barry levanta uma das mãos e toca com os dedos na superfície sessenta centímetros acima da cara. Procura uma alavanca, um botão, alguma coisa para abrir o sítio onde o meteram, mas as paredes são lisas e não têm brechas. Sente uma vibração ligeira no dispositivo no antebraço, tenta levar lá a mão outra vez, mas nada acontece. Deixou de conseguir mexer o braço direito. Tenta levantar o esquerdo, mas nada. Depois as pernas, a cabeça, os dedos. Nem sequer consegue pestanejar, e quando tenta falar, não é capaz sequer de abrir os lábios. — Aquilo que está a sentir é um agente paralisante — diz o homem algures nas trevas por cima de si. — Foi isso a vibração que acabou de sentir, o dispositivo a injetar o fármaco. Infelizmente, é preciso mantê-lo consciente. Não lhe vou mentir, Barry. Os próximos instantes serão bastante desconfortáveis. Fica aterrorizado — o medo mais profundo que jamais conheceu. Tem os olhos esbugalhados e está constantemente a tentar mexer-se — os braços, as pernas, os dedos, qualquer coisa —, mas não acontece nada. É o mesmo que estivesse a tentar controlar um único fio de cabelo. E tudo isto antes de perceber o verdadeiro horror: não consegue contrair o diafragma, o que quer dizer que não pode respirar. Sente um turbilhão de pânico e, por fim, dor, tudo condensado numa escalada segundo a segundo da necessidade desesperada de inspirar oxigénio. Porém, os comandos do seu corpo estão-lhe vedados. Não consegue chorar, esbracejar ou suplicar pela vida, coisa que estaria mais do que disposto a fazer caso conseguisse falar. — Já deve ter percebido que perdeu a capacidade de respirar. Não se trata de sadismo, Barry. Dou-lhe a minha palavra. Não tarda, tudo estará acabado. Tudo o que consegue fazer é ficar deitado na mais completa escuridão, a ouvir os gritos da sua mente e a torrente de pensamentos enquanto o único barulho é o forte bater do coração, cada vez mais depressa. O dispositivo volta a vibrar no seu antebraço. Agora, uma dor pálida e quente percorre-lhe as veias e aquele baque como um martelo pneumático do seu coração responde de imediato à substância que lhe foi injetada na corrente sanguínea. Abrandando. Abrandando. Abrandando. E depois deixa de o ouvir ou sentir bater. O silêncio no local onde se encontra torna-se absoluto. Neste momento, sabe que o sangue deixou de circular no seu organismo. Não consigo respirar e o meu coração deixou de bater. Estou morto. Em morte clínica. Então, porque continuo a pensar? Como é possível continuar a ter consciência? Quanto tempo durará isto? Será que a dor irá piorar? Será mesmo o meu fim? — Acabei de lhe parar o coração, Barry. Por favor, ouça. Tem de se manter focado durante os próximos momentos, caso contrário, perdê-lo- emos. Se passar para o outro lado, lembre-se do que eu fiz por si. Não permita que aconteça desta vez. Pode alterá-lo. Dão-se explosões de cor no cérebro privado de oxigénio e sangue de Barry — um espetáculo de cores para um homem morto, cada lampejo mais perto e mais intenso do que o anterior. Até que tudo o que vê é uma brancura ofuscante que já começa a esmorecer por entre tons de cinzento, a dar lugar ao negro, e sabe o que o espera no fim desse espectro — o não ser. Mas, talvez, o fim da dor, desta brutal sede de ar. Está preparado. Preparado para qualquer coisa que ponha um fim a isto. É então que sente o cheiro de alguma coisa. É estranho, porque invoca uma resposta emocional que ele não sabe como apelidar, mas que transporta a dor da nostalgia. Demora mais um instante, mas percebe que é o cheiro da sua casa quando ele, Julia e Meghan acabaram de jantar. Em particular, o rolo de carne, cenouras e batatas assadas cozinhadas por Julia. Depois, sente o cheiro a levedura, malte e cevada. Cerveja, mas não uma cerveja qualquer. A Rolling Rocks que ele costumava beber daquelas garrafas verdes. Outros cheiros emergem e fundem-se num aroma mais complexo do que qualquer vinho. Um aroma que ele reconheceria em qualquer sítio — a casa em Jersey City onde viveu com a ex-mulher e a filha já falecida. O cheiro a casa. De súbito, sente o sabor de cerveja e a presença constante na boca dos cigarros que costumava fumar. O seu cérebro desencadeia uma imagem que se sobrepõe ao plano branco que está a esmorecer — desfocado e indistinto nos bordos, mas depressa ganhando nitidez. Um televisor. No ecrã, uma partida de basebol. A imagem mental tão nítida como a real, primeiro numa escala de cinzentos, mas depois a cor inunda tudo aquilo que vê. Fenway Park. O relvado verde sob os holofotes do estádio. O público. Os atletas. A argila vermelha da base do lançador e Curt Schilling ali posicionado com a luva na mão, a olhar com desdém para Todd Helton no lugar do batedor. É como se uma memória estivesse a ser criada à sua frente. Primeiro, os alicerces de cheiro e paladar. Depois, os andaimes dos aspetos visuais. Depois, um revestimento de tato, quando ele sente, sente deveras, a macieza fria do couro da cadeira em que está sentado, os pés pousados no apoio puxado para fora, a sua cabeça a virar, e uma mão — a sua mão — a pegar na garrafa de Rolling Rock que está pousada numa base para copos na mesa ao lado da cadeira. Quando toca na garrafa, consegue sentir o frio húmido da condensação no vidro verde e, quando a leva à boca e a inclina, o sabor e o cheiro subjugam-no com o poder da realidade. Não é uma simples memória, mas uma coisa que está a acontecer agora. E ele está perfeitamente consciente, não só da memória propriamente dita, mas da sua perspetiva da memória. É diferente de qualquer recordação que tenha experienciado, porque ele está dentro dela, a espreitar pelos olhos da sua versão mais jovem e a assistir ao filme da sua vida antiga a desenrolar-se diante dos seus olhos como um observador totalmente imerso. A dor de estar a morrer transformou-se numa estrela difusa e distante, e agora começa a ouvir sons, apenas fragmentos de início, abafados e indistintos, mas aos poucos vão ganhando volume e nitidez, como se alguém estivesse a ajustar lentamente os níveis. Os comentadores na televisão. Um telefone a tocar em casa. Passos a ecoar no chão de madeira dura do corredor. E depois Meghan está à frente dele. Ele olha diretamente para a cara dela, a boca dela a mexer-se,e ouve a sua voz — muito ao longe, muito distante para perceber palavras em concreto, apenas consegue ouvir aquele timbre familiar que se tem esfumado aos poucos da sua memória ao longo de onze anos. Ela é linda. É vital. Está de pé à frente do televisor, a obstruir a vista, a mochila ao ombro, calças de ganga azuis, camisola azul-turquesa, o cabelo apanhado atrás num rabo de cavalo. Isto é demasiado intenso. Pior do que a tortura da asfixia e de igual modo fora do seu controlo, pois não se trata de uma memória que ele evoca por vontade própria. De algum modo, está a ser projetada nele, contra a sua vontade, e ele pensa que talvez haja um motivo para as memórias serem indistintas e desfocadas. Talvez a sua abstração seja como um anestésico, um tampão que nos protege da agonia do tempo e de tudo o que este nos furta e apaga. Ele quer sair desta memória, mas não consegue. Todos os sentidos estão completamente envolvidos. Tudo é nítido e vívido como na realidade. Com a diferença de que não tem controlo. Não pode fazer nada a não ser olhar pelos olhos desta versão de si mesmo onze anos mais novo e ouvir a última conversa que teve com a filha, sentindo a vibração da sua laringe e depois o movimento da sua boca e dos lábios a formar palavras. — A tua mãe concordou? A sua voz não soa minimamente estranha. Soa exatamente da mesma maneira de quando ele fala. — Não, estou a pedir-te a ti. — Já fizeste os trabalhos de casa? — Não, é por isso que quero ir. Barry sente a sua versão mais jovem inclinar-se para ver para lá de Meghan quando Todd Helton se prepara para fazer o lançamento seguinte. O corredor da terceira base pontua, mas Helton é expulso. — Pai, não me estás a prestar atenção. — Estou, pois. Olha outra vez para ela. — A Mindy é a minha companheira de laboratório e eu tenho um trabalho para entregar na quarta-feira. — Para que disciplina? — Biologia. — Quem mais vai lá estar? — Oh, meu Deus! Sou eu, a Mindy, talvez o Jacob, de certeza o Kevin e a Sarah. Agora, vê-se a si mesmo levantar o braço para ver as horas no relógio — o relógio que ele irá perder quando se mudar desta casa dez meses depois, no rescaldo da morte de Meghan e da explosiva descompres são do seu casamento. Passa pouco das 20h30. — Então, posso ir? Diz que não. O Barry mais novo vê o jogador seguinte dos Rockies caminhar para a posição do batedor. Diz que não! — Estarás em casa antes das dez? — Onze. — Onze é aos fins de semana, já sabes. — Dez e meia. — Pronto, esquece. — Está bem, dez e um quarto. — Estás a gozar? — Demoro dez minutos a chegar lá. A não ser que me queiras levar de carro. Uau! Ele reprimira este momento por ser demasiado doloroso. Ela sugerira que ele a levasse de carro e ele recusara. Se a tivesse levado, ela ainda estaria viva. Sim! Leva-a de carro! Leva-a de carro, seu palerma! — Querida, estou a ver o jogo. — Então, dez e meia? Ele sente os lábios revirarem-se num sorriso, lembra-se bem da sensação há muito esquecida de perder uma negociação com a filha. A irritação, mas também o orgulho de ela se estar a tornar uma mulher de garra, que sabia o que queria e lutava por isso. Lembra-se de ter a esperança de ela não perder essa chama na sua vida adulta. — Está bem. — Meghan começa a caminhar para a porta. — Mas nem um minuto mais tarde. Dás-me a tua palavra? Não a deixes ir. Não a deixes ir! — Sim, pai. As suas últimas palavras. Agora lembra-se. Sim, pai. A versão mais jovem de Barry está outra vez a ver televisão, Brad Hawpe a lançar uma bola até ao centro. Consegue ouvir os passos de Meghan, afastando-se dele, e está a gritar no seu âmago, mas nada acontece. É como se estivesse a ocupar um corpo sobre o qual não tem qualquer controlo. A sua versão mais jovem nem sequer está a olhar para Meghan enquanto ela caminha para a porta. Só se importa com o jogo e não sabe que acabou de olhar para os olhos da filha pela última vez, que poderia impedir aquilo de acontecer com uma simples palavra. Escuta a porta da frente abrir-se e fechar-se com estrondo. Depois ela desaparece, afastando-se de casa a pé, para longe dele, para a sua morte. E ele está sentado num cadeirão a assistir a uma partida de basebol. A dor de não conseguir respirar desapareceu. Não tem a sensação de estar a boiar naquela água morna ou de ter o coração adormecido no peito. Nada importa a não ser esta memória lancinante que está a ser obrigado a suportar por motivos que não compreende e o facto de a sua filha ter saído de casa pela última… O seu dedo mindinho mexe-se. Ou melhor, ele tem noção de o ter mexido. De a ação resultar da sua intenção. Tenta outra vez e consegue mexer a mão toda. Estica um braço, depois o outro. Pestaneja. Respira. Abre a boca e solta um som como um grunhido — gutural e sem sentido —, mas conseguiu. O que é que isso significa? Há pouco, estava a experienciar a memória como um observador a percorrer um ficheiro só de leitura. Como se estivesse a ver um filme. Agora, consegue mexer-se e interagir com o seu ambiente, e a cada segundo que passa sente que tem mais domínio sobre o seu corpo. Baixa-se e retrai o apoio de pés do cadeirão. No momento seguinte encontra-se de pé, a olhar para a casa onde viveu há mais de uma década e espantado com a realidade intensa da experiência. Atravessa a sala de estar, detém-se à frente do espelho que há ao lado da porta da frente e observa o seu reflexo no vidro. Tem mais cabelo e de novo da cor da areia, com menos cabelos grisalhos, os quais, nos últimos anos, têm reclamado mais espaço na sua cabeça com cabelos cada vez mais raros. Tem o maxilar bem delineado. Sem papada, sem papos por baixo dos olhos ou vasos capilares rebentados na lateral do nariz, e percebe que, desde a morte de Meghan, deixou o corpo desmazelar-se por completo. Olha para a porta. A porta pela qual a sua filha acabou de sair. Que raio está a acontecer? Ele estava num hotel em Manhattan, a morrer numa espécie de tanque de privação sensorial. Isto é real? Está a acontecer? Não pode ser, mas a sensação é exatamente como se estivesse a viver aquilo. Abre a porta e sai para a noite outonal. Se isto não é real, é uma tortura da pior espécie. Mas e se o que o homem disse for verdade? Vou dar-lhe o melhor presente da sua vida. O melhor presente que alguém poderia alguma vez desejar. Barry regressa ao momento. Essas dúvidas terão de ficar para mais tarde. Agora, ele está no alpendre da frente da sua casa a ouvir as folhas do carvalho do jardim da frente roçagando com a brisa suave que também movimenta o baloiço de corda. Ao que parece, voltou, o que é impossível, ao dia 25 de outubro de 2007, a noite em que a filha morreu atropelada, tendo o condutor fugido do local. Não chegou a encontrar-se com os amigos no Dairy Queen, o que quer dizer que essa tragédia acontecerá nos próximos dez minutos. E ela já leva um avanço de dois. Ele está descalço, mas já desperdiçou demasiado tempo. Fecha a porta da casa e sai para o relvado, as folhas estalam debaixo dos pés descalços, e abre caminho pelo meio da noite. HELENA 20 de junho de 2009 Dia 598 Alguém bate à porta. Ela estica o braço no meio da escuridão, acende o candeeiro e levanta-se da cama com umas calças de pijama e um top preto. O despertador na mesa de cabeceira indica 9h50. Quando vai até à sala de estar e caminha para a porta, carregando no botão na parede para levantar as cortinas opacas, tem uma forte sensação de déjà-vu. Slade está no corredor, de calças de ganga e com uma camisola de capuz, e traz uma garrafa de champanhe, dois copos e um DVD. É a primeira vez que ela o vê em semanas. — Ora bolas, acordei-a — diz ele. Ela fita-o com os olhos semicerrados sob o brilho dos painéis luminosos no teto. — Posso entrar? — pergunta. — Tenho alternativa? — Por favor, Helena. Ela recua um passo e deixa-o entrar, seguindo-o pelo pequeno espaço da entrada, passando pela casa de banho e dirigindo-se ao espaço principal. — O que deseja? — pergunta ela. Ele senta-se no pousa-pés de um cadeirão ao lado das janelas com vista para osão memórias assombradas, espectrais. — Começa a chorar. — Toda a gente pensa que a SFM se resume a ter falsas memórias de momentos importantes da vida, mas o que custa mais são as mais insignificantes. Não me recordo apenas do meu marido. Recordo-me do cheiro do hálito dele pela manhã quando se virava para mim na cama. De que se levantava sempre antes de mim para ir lavar os dentes, regressando para a cama e querendo fazer sexo. Essas coisas é que custam. Os mais ínfimos e perfeitos detalhes que fazem com que tenha a certeza de que aconteceu. — Então e esta vida? — pergunta Barry. — Não tem valor para ti? — Talvez algumas pessoas tenham SFM e prefiram as suas memórias atuais às falsas, mas não há nada nesta vida que eu queira. Tentei… durante quatro longas semanas. Não aguento mais. — As lágrimas deixam marcas no eyeliner. — O meu filho nunca existiu. Percebe isso? Não passa de uma falha no meu cérebro. Barry arrisca mais um passo na direção da mulher, mas desta vez ela apercebe-se. — Não te aproximes mais. — Não estás sozinha. — O caraças é que não estou sozinha. — Só te conheço há uns minutos, mas ficarei de rastos se fizeres isso. Pensa nas pessoas na tua vida que te amam. Pensa em como se sentirão. — Eu procurei o Joe — diz Ann. — Quem? — O meu marido. Estava a viver numa mansão em Long Island. Agiu como se não me reconhecesse, mas eu sei que reconheceu. Tinha uma outra vida. Estava casado… não sei com quem. Não sei se teve filhos. Agiu como se eu estivesse louca. — Lamento, Ann. — A dor é demasiado forte. — Bem, eu já passei por isso. Já quis acabar com tudo. E estou aqui, agora, a dizer-te que estou feliz por não o ter feito. Estou feliz por ter tido forças para ultrapassar a situação. Este mau momento não é o livro da tua vida, é apenas um capítulo. — O que foi que te aconteceu? — Perdi a minha filha. A vida também me partiu o coração. Ann olha para o firmamento incandescente. — Tens fotografias dela? Ainda falas sobre ela com outras pessoas? — Sim. — Pelo menos, ela existiu mesmo. Não há nada que ele possa dizer para refutar isso. Ann espreita outra vez pelo meio das pernas. Descalça uma sabrina com o pé. Fica a vê-la cair. Depois, deixa cair a outra. — Ann, por favor. — Na minha vida anterior, a minha vida falsa, a primeira mulher do Joe chamava-se Franny, saltou deste edifício, deste mesmo parapeito, há quinze anos. Sofria de depressão. Eu sei que ele se sentiu culpado. Antes de deixar a casa dele em Long Island, disse ao Joe que esta noite iria saltar do Poe Building, tal como a Franny. Parece disparatado e desesperado, mas tinha a esperança de que ele viesse salvar-me, coisa que não fez por ela. Quando chegaste, ainda pensei que fosse ele, mas ele nunca usou água-de-colónia. — Ela sorri, nostálgica, depois acrescenta: — Tenho sede. Barry olha de relance pelas portas envidraçadas para o gabinete na penumbra, vê dois polícias a postos à beira da secretária da receção. Olha outra vez para Ann. — Então, porque não sais daí e vamos lá dentro beber um copo de água? — Não me podes trazer um aqui? — Não te posso abandonar. As mãos da mulher começam a tremer, e ele percebe uma súbita determinação nos seus olhos. Ela olha para Barry. — A culpa não é tua — diz ela. — O desfecho seria sempre este. — Ann, não… — O meu filho foi apagado. E olhando despreocupadamente de relance para ele, salta do parapeito. HELENA 22 de outubro de 2007 Debaixo do chuveiro às seis da manhã, tentando despertar enquanto a água quente lhe escorre pela pele, Helena tem uma forte sensação de já ter vivido este exato momento. Nada de novo. Desde os seus vinte anos que tem episódios de déjà-vu. Além disso, não há nada de especial em relação a este momento no chuveiro. Questiona-se se a Mountainside Capital já analisou a sua proposta de subsídio. Passou entretanto uma semana. É mais do que altura de ter uma resposta. No mínimo, deveriam tê-la contactado para uma reunião, caso estivessem interessados. Põe café a fazer e prepara o pequeno-almoço para levar: feijão-preto, três ovos malpassados, e um pouco de ketchup. Senta-se à pequena mesa junto à janela a ver o céu clarear por cima do seu bairro nos arrabaldes de San Jose. Há mais de um mês que não lhe sobra um dia para tratar da roupa e o chão do seu quarto está praticamente coberto de roupa suja. Vasculha os montes de roupa até encontrar uma T-shirt e umas calças de ganga com as quais não se sente completamente envergonhada ao sair de casa. O telefone toca enquanto está a escovar os dentes. Cospe, passa a boca por água e atende ao quarto toque no seu quarto. — Como está a minha menina? A voz do pai suscita-lhe sempre um sorriso. — Olá, pai. — Pensei que já não te apanharia em casa. Não te quis incomodar no laboratório. — Não há problema. O que se passa? — Estava só a pensar em ti. Alguma resposta sobre a proposta de subsídio? — Ainda não. — Tenho a sensação de que irão aprovar. — Não sei. Esta cidade não é fácil. A concorrência é forte. Há muitas pessoas, deveras inteligentes, aliás, atrás de dinheiro. — Mas não tão inteligentes como a minha menina. Ela já não suporta a confiança do pai nela. Não numa manhã como esta, com o espectro do fracasso a pairar ao longe, sentada num minúsculo quarto imundo de uma casa com as paredes brancas e sem decoração onde não trouxe uma única pessoa em mais de um ano. — Como está o tempo? — pergunta, para mudar de assunto. — Nevou ontem à noite. O primeiro nevão da estação. — Muito? — Só três ou quatro centímetros, mas as montanhas estão brancas. Ela consegue imaginá-las: a Front Range das Montanhas Rochosas, as montanhas da sua infância. — Como está a mãe? Uma breve pausa. — A tua mãe está boa. — Pai. — O que foi? — Como está a mãe? Ela ouve-o expirar devagar. — Já tivemos dias melhores. — Ela está bem? — Sim. Está lá em cima a dormir. — O que aconteceu? — Nada. — Diz lá. — Ontem à noite, como sempre, jogámos gin rummy. E ela, do nada… deixou de saber as regras. Sentou-se à mesa da cozinha com o olhar fixo nas cartas, as lágrimas a correrem-lhe pela cara. Há mais de trinta anos que jogamos juntos. Ela percebe que ele tapou o bocal com a mão. Está a chorar, a mil e seiscentos quilómetros de distância. — Pai, vou para casa. — Não, Helena. — Tu precisas da minha ajuda. — Temos um bom apoio aqui. Vamos esta tarde ao médico. Se queres ajudar a tua mãe, obtém o teu financiamento e trabalha na tua cadeira. Ela não lhe quer dizer, mas a cadeira continua a anos de distância. A anos-luz de distância. É um sonho, uma miragem. Fica com os olhos marejados de lágrimas. — Sabes que estou a fazer isto por ela. — Eu sei, querida. Por instantes, ficam os dois em silêncio, tentando ambos não dar a entender que estão a chorar, mas falham redondamente. Ela só quer poder dizer-lhe que vai acontecer, mas seria mentira. — Telefono quando chegar a casa hoje à noite — diz ela. — Está bem. — Por favor, diz à mãe que a amo. — Digo, mas ela já sabe. Quatro horas mais tarde, nas profundezas do complexo de neurociência em Palo Alto, Helena está a examinar a imagem da memória de um ratinho segundo a qual ele tem de ter medo — neurónios iluminados por fluorescência interligados por uma teia de sinapses —, quando um desconhecido assoma à entrada do gabinete dela. Ela olha por cima do monitor para o homem de calças de sarja e T-shirt branca, ostentando um sorriso demasiado reluzente. — Helena Smith? — pergunta. — Sim? — Chamo-me Jee-woon Chercover. Pode dispensar-me um minuto? — Este laboratório é de acesso restrito. O senhor não pode estar aqui. — Peço desculpa pela intromissão, mas acho que quererá ouvir o que tenho para dizer. Ela poderia pedir-lhe para se ir embora ou chamar a segurança, mas ele não tem um ar ameaçador. — Está bem — diz ela. De súbito, percebe que este homem está a tirar as medidas ao seu gabinete, que é como um paraíso para um acumulador de tralha. Um gabinete sem janelas, atulhado, paredes de tijolos de betão pintados, um espaço ainda mais claustrofóbico à conta das caixas de cartão empilhadas atémar infinito. — Contaram-me que não tem comido nem praticado exercício — diz ele. — Que há dias que não fala com ninguém nem sai do quarto. — Porque não me deixa falar com os meus pais? Porque não me deixa ir embora? — Você não está bem, Helena. Não se encontra num estado de espírito que lhe permita proteger o secretismo deste lugar. — Eu disse-lhe que me quero ir embora. A minha mãe foi internada. Não sei como ela está. O meu pai não ouve a minha voz há um mês. De certeza que está preocupado… — Sei que não consegue perceber agora, mas estou a salvá-la de si mesma. — Ah, vá-se foder. — Desistiu porque discordou do rumo para o qual eu estava a levar este projeto. Só estou a dar-lhe tempo para reconsiderar a ideia de deitar tudo a perder. — O projeto era meu. — O dinheiro é meu. Ela tem as mãos a tremer. De medo. De fúria. — Não quero continuar a fazer isto — diz ela. — Você destruiu o meu sonho. Impediu-me de tentar ajudar a minha mãe e outras pessoas. Quero ir para casa. Vai continuar a reter-me aqui contra a minha vontade? — É claro que não. — Então, posso ir embora? — Recorda-se do que lhe perguntei no dia que aqui chegou? Ela abana a cabeça, os olhos húmidos das lágrimas. — Perguntei-lhe se queria mudar o mundo comigo. Estamos a beneficiar de todo o trabalho brilhante que a Helena fez e eu venho aqui hoje dizer-lhe que conseguimos. Ela fita-o do outro lado da mesinha de apoio, as lágrimas correm-lhe pela cara. — O que está para aí a dizer? — Hoje é o dia mais importante das nossas vidas. É tudo aquilo por que temos trabalhado com tanto afinco. Por isso, vim aqui para comemorar consigo. Slade começa a desenrolar o arame que prende a rolha da garrafa de Dom Perignon. Quando consegue removê-lo, atira-o para cima da mesinha de apoio. Depois, segurando a garrafa no meio das pernas, tira a rolha com cuidado. Helena observa-o enquanto ele serve o champanhe nos copos, enchendo cuidadosamente as duas flutes até cima. — Está doido — diz ela. — Ainda não podemos beber. Temos de esperar até… — Consulta o relógio. — São dez e um quarto, mais coisa menos coisa. Enquanto esperamos, quero mostrar-lhe uma coisa que aconteceu ontem. Slade pega no DVD que está em cima da mesinha de apoio e leva-o até ao centro de entretenimento. Insere-o no leitor e aumenta o volume. No ecrã surge um homem alto e macilento que ela nunca viu, reclinado na cadeira de memória. Jee-woon Chercover está debruçado por cima dele a tatuar as letras «M-i-r-a-n» no seu ombro esquerdo. O homem macilento levanta um braço e diz: — Pare. Slade aparece na imagem. — O que foi, Reed? — Estou de volta. Estou aqui. Oh, meu Deus. — O que está a dizer? — A experiência funcionou. — Prove-o. — O nome da sua mãe é Susan. O senhor disse-me para lhe dizer isto mesmo antes de eu entrar para o ovo. No ecrã, Slade faz um sorriso rasgado. — A que horas fizemos a experiência amanhã? — pergunta. — Às dez da manhã. Slade apaga a televisão e olha para Helena. — Era suposto isto fazer algum sentido para mim? — diz ela. — Acho que o saberemos dentro de um minuto. Ficam sentados num silêncio desconfortável, Helena observa as bolhas do champanhe em efervescência. — Quero ir para casa — diz ela. — Pode ir hoje, se assim entender. Ela olha para o relógio de parede. Marca 10h10. Está um silêncio tão vincado no seu apartamento que consegue ouvir o silvar do gás a sair das flutes. Olha fixamente para o mar, pensando que, seja lá o que for que está a acontecer, ela está farta. Abandonará a plataforma, a sua investigação, tudo. Renunciará ao seu pagamento, à sua participação nos lucros, porque nenhum sonho, nenhuma ambição, justifica o que Slade lhe fez. Regressará a casa no Colorado e ajudará a cuidar da mãe. Não conseguiu preservar as suas memórias em declínio nem travar a doença, mas pelo menos pode estar com ela durante o tempo que lhe restar. Passa das dez e um quarto. Slade está constantemente a consultar o relógio, revelando no olhar alguma preocupação. — Olhe — diz Helena —, seja lá o que for que venha a ser isto, estou pronta para me ir embora. A que horas é que o helicóptero me pode levar de volta para a Califórnia? Começa a escorrer sangue do nariz de Slade. Helena sente um travo a ferrugem e percebe que também está a sangrar do nariz. Levanta as mãos e tenta estancá-lo, mas este escorre-lhe pelos dedos e mancha-lhe a T-shirt. Vai a correr para a casa de banho, tira duas toalhas da gaveta e encosta uma ao nariz enquanto leva a outra para a dar a Slade. Quando lha passa para a mão, sente uma dor acutilante atrás dos olhos, como a pior cefaleia da sua vida, e, a julgar pela expressão de Slade, percebe que ele está a sentir a mesma coisa. Slade sorri-lhe, os dentes ensanguentados. Ele levanta-se do pousa-pés, limpa o nariz e atira a toalha para o chão. — Consegue senti-las? — pergunta ele. De início, ela pensa que ele está a referir-se à dor, mas não é isso. De súbito, ela tem noção de uma memória completamente nova da última meia hora. Uma memória pardacenta, alucinada. Nela, Slade não veio aqui com uma garrafa de champanhe. Convidou-a para ir ao compartimento de teste com ele. Lembra-se de estar sentada na sala de controlo a ver um viciado em heroína entrar para o tanque de privação sensorial. Desencadearam uma memória dele a ser tatuado e depois mataram-no. Ela estava a tentar atirar uma cadeira pelo vidro entre a sala de controlo e o compartimento de teste quando, de repente, passou a estar aqui — de pé no seu apartamento com uma hemorragia nasal e uma cefaleia insuportável. — Não compreendo — diz ela. — O que acabou de acontecer? Slade levanta o copo de champanhe, toca com ele no dela e bebe um grande trago. — Helena, você não se limitou a criar uma cadeira que ajuda as pessoas a reviverem as suas memórias. Criou uma coisa que as pode fazer regressar ao passado. BARRY 25 de outubro de 2007 As janelas das casas vizinhas parecem tremular por causa da iluminação dos ecrãs de televisão no interior e apenas Barry vai a correr pelo meio de uma rua deserta, coberta de folhas caídas dos carvalhos que a ladeiam por todo o quarteirão. Sente-se com mais forças do que nos últimos anos. Não sente a dor no joelho resultante de uma irrefletida derrapagem por cima do lugar do batedor numa partida de softball em Central Park que só acontecerá dentro de cinco anos. Além de que está muito mais leve, pelo menos treze quilos. A cerca de oitocentos metros, avista o brilho da sinalética de restaurantes e motéis, entre eles o Dairy Queen. Apalpa algo no bolso da frente das calças de ganga. Abrandando o ritmo até uma caminhada rápida, mete a mão ao bolso e tira de lá um iPhone de primeira geração cuja proteção de ecrã é uma fotografia de Meghan a cruzar a meta numa corrida de corta- mato. Faz quatro tentativas até conseguir desbloqueá-lo e depois percorre os contactos até encontrar o de Meghan, e liga-lhe quando recomeça a correr. Toca uma vez e a chamada vai para o correio de voz. Liga de novo. Outra vez o correio de voz. E vai a correr pelo passeio irregular defronte de uma série de velhos edifícios, que, ao longo da década seguinte, darão lugar a espaços tipo loft, um café e uma destilaria, mas que para já se elevam na penumbra, abandonados. Vários metros mais à frente, vislumbra uma silhueta que assoma das trevas desta zona subdesenvolvida em direção à orla exterior bem iluminada da zona empresarial. Camisola azul-turquesa. Rabo de cavalo. Grita o nome da filha, mas ela não se vira para trás. Corre então a toda a velocidade, como nunca correu na vida, a gritar o nome dela entre golfadas de ar, mesmo ao pensar… Algo disto é real? Quantas vezes fantasiou sobre este momento? Ter a oportunidade de impedir a morte dela… — Meghan! Ela está agora a quarenta e cinco metros de distância, o suficiente para perceber que a filha vai falando ao telemóvel, sem saber o que está para acontecer. Ouve o chiar de pneus algures nas suas costas. Olha de relance para trás, para os faróis que se aproximam a alta velocidade, e ouve o rugido deum motor em alta rotação. O restaurante onde Meghan nunca chegou a entrar surge ao longe, do outro lado da rua, e ela dá um passo para atravessar. — Meghan! Meghan! Meghan! Ela detém-se a um metro do passeio e olha na direção de Barry, o telemóvel ainda junto ao ouvido. Ele encontra-se suficientemente perto para se aperceber da estupefação na cara dela, o ruído do carro a aproximar-se mesmo atrás dele. Um Mustang preto passa como uma flecha pelo meio da rua, ziguezagueando por cima da linha central. Depois desaparece. Meghan ainda está na berma da estrada. Barry aproxima-se da filha, ofegante, uma ardência nas pernas por causa do sprint de oitocentos metros. Ela baixa o telemóvel. — Pai? O que estás a fazer? Ele olha para um lado e para o outro. Apenas eles os dois estão debaixo da luz amarela de um candeeiro, não há carros a circular, e o silêncio permite ouvir o roçagar das folhas no pavimento. Teria sido aquele Mustang o carro que a atropelou há oito anos, na noite que é também — e de todo possível — esta noite? Terá ele acabado de impedir que isto acontecesse? — Estás descalço — diz Meghan. Ele abraça-a furiosamente, ainda ofegante, e começa a soluçar sem se conter. É mais do que pode suportar. O cheiro dela, a sua voz, a mera presença da filha. — O que aconteceu? — pergunta Meghan. — O que estás aqui a fazer? Porque estás a chorar? — Aquele carro… Ter-te-ia… — Caramba, pai, eu estou bem. Se isto não é real, é a maior crueldade que alguém lhe poderia fazer, porque não parece ser uma qualquer experiência de realidade virtual ou lá o que seja que aquele homem o tenha feito passar. Isto parece real. Isto é a vida. Uma pessoa não pode regressar disto. Barry olha para ela, toca-lhe na cara, vital e perfeita sob a luz do candeeiro. — És real? — pergunta. — Estás bêbedo? — atalha ela. — Não, eu estava… — O quê? — Estava preocupado contigo. — Porquê? — Porque… porque é isso que os pais fazem. Preocupam-se com as filhas. — Pois, aqui estou eu. — Brinda-o com um sorriso um tanto constrangido, sem dúvida, e com motivos para tal, pondo em causa a sanidade mental do pai neste momento. — Sã e salva. Ele pensa na noite em que a encontrou, perto do sítio onde estão agora. Há uma hora que estivera a telefonar-lhe e o telemóvel dela tocara sempre até a chamada ser encaminhada para as mensagens de voz. Fora ao caminhar por esta rua que ele vira o ecrã partido do telemóvel dela a acender no local onde ficara caído no meio da rua. E depois encontrara o corpo dela, destroçado e esparramado nas trevas do outro lado do passeio; os ferimentos deixavam adivinhar que fora projetada por uma longa distância depois de ser atropelada a alta velocidade. É uma memória que nunca esquecerá, mas que agora está envolta numa qualidade parda e desbotada, tal como a falsa memória que o atormentou naquele restaurante em Montauk. Terá de algum modo mudado o que aconteceu? Não é possível. Meghan levanta a cabeça e fita-o por um longo momento. Já não está zangada. Afável. Preocupada. Ele está sempre a limpar os olhos, fazendo um esforço para não chorar, e ela parece em simultâneo assustada e comovida. — Não faz mal se chorares — diz ela. — O pai da Sarah chora por tudo e por nada. — Estou muito orgulhoso de ti. — Eu sei. — E depois: — Pai, os meus amigos estão à minha espera. — Está bem. — Mas vemo-nos mais tarde? — pergunta ela. — Com certeza. — Vamos ao cinema este fim de semana, como combinámos? A nossa saída juntos? — Sim, claro. — Ele não quer que ela vá. Era capaz de a abraçar durante uma semana inteira e não seria o suficiente. Mas diz: — Por favor, tem cuidado esta noite. Ela vira-lhe as costas e continua a caminhar pela rua. Ele chama o nome dela. Ela vira-se para trás. — Amo-te, Meghan. — Também te amo, pai. E ele fica ali a tremer e a tentar perceber o que acabou de acontecer, vendo-a afastar-se dele e depois atravessar a rua, e depois entrar no Dairy Queen, onde se junta aos amigos numa mesa à janela. Ouve os passos de alguém que se aproxima nas suas costas. Barry vira-se para trás, vê um homem de preto caminhar na direção dele. Mesmo ao longe, parece-lhe vagamente familiar e, quando este está mais perto, reconhece-o. É o homem do restaurante, Vince, que o levou até ao quarto depois de o drogarem no bar do hotel. O fulano da tatuagem no pescoço, só que agora já não a tem. Ou ainda não. Neste momento, tem a cabeça cheia de cabelo e está mais magro. E parece dez anos mais novo. Barry recua por instinto, mas Vince levanta as mãos num sinal de quem vem em paz. Encaram-se no passeio deserto debaixo do candeeiro. — O que me está a acontecer? — pergunta Barry. — Sei que está confuso e desorientado, mas isso passa. Estou aqui para cumprir a última cláusula do meu contrato de emprego. Já está a acontecer? — A acontecer o quê? — O que o meu patrão fez por si. — Isto é real? — É real. — Como pode ser? — Você está com a sua filha outra vez e ela encontra-se viva. Isso importa? Não voltará a ver-me depois desta noite, mas tenho de lhe dizer uma coisa. Há regras basilares, e são simples. Não tente enganar o sistema com aquilo que sabe do que está para acontecer. Apenas viva a sua vida outra vez. Viva-a um pouco melhor e não diga a ninguém. Nem à sua mulher, nem à sua filha. A ninguém. — E se eu quiser voltar ao que era? — A tecnologia que o trouxe aqui ainda não foi inventada. Vince dá meia-volta para se ir embora. — Como lhe posso agradecer por isto? — pergunta Barry, os olhos outra vez alagados de lágrimas. — Neste preciso instante, em 2018, ele está a observá-lo e à sua família. Esperemos que esteja a ver que o senhor tirou o melhor partido desta oportunidade. Que é feliz, que a sua filha está bem e, mais importante, que manteve a boca fechada e cumpriu as regras que acabei de lhe explicar. É assim que lhe pode agradecer. — Como assim? «Neste preciso instante, em 2018»? O homem encolhe os ombros. — O tempo é uma ilusão, uma idealização formada por memórias humanas. O passado, o presente ou o futuro não existem. Está tudo a acontecer agora. Barry tenta racionalizar as palavras, mas é demasiado para processar. — Você também voltou ao passado, foi? — Um pouco mais do que o senhor. Já estou a reviver a minha vida há três anos. — Porquê? — Fiz asneira quando era bófia. Meti-me nuns negócios com as pessoas erradas. Agora, sou proprietário de uma loja de artigos de pesca e a vida é bela. Boa sorte com a sua segunda oportunidade. Vince dá meia-volta e desparece na noite. «Temos mais saudades dos sítios que nunca conhecemos.» CARSON MCCULLERS HELENA 20 de junho de 2009 Dia 598 Helena está sentada no sofá do seu apartamento, tentando compreender a magnitude dos últimos trinta minutos da sua vida. A reação instintiva é que tal não pode ser verdade, que é algum truque ou uma ilusão. Porém, está constantemente a ver a tatuagem acabada com a palavra Miranda no ombro do heroinómano; a tatuagem incompleta no vídeo que Slade acabou de lhe mostrar. E sabe que, de algum modo, apesar de ter uma memória vívida e detalhada da experiência realizada naquela manhã —até ao momento em que atirou uma cadeira contra o vidro—, nada disso aconteceu. Existe numa ramificação morta da memória na estrutura neuronal do seu cérebro. A única coisa comparável é a lembrança de um sonho muito pormenorizado. —Diga-me no que está a pensar neste instante— pede Slade. Ela fita-o. —Será que este procedimento, morrer no tanque de privação sensorial consoante se procede à reativação de uma memória, pode mesmo alterar o passado? —O passado não existe. —Isso é de loucos. —O quê? Você pode ter as suas teorias, mas eu não posso ter as minhas? —Explique-se. —Você mesma disse. O «agora» é apenas uma ilusão, um acidente de como o nosso cérebro processa a realidade. —Isso não passa de… filosofia barata. —Os nossos antepassados viveram no mar. Devido à diferença do modo como a luz viaja pela água e pelo ar, o seu volume sensorial, a região na qual podiam procurar presas, era limitado ao seu volume motor, a região a que elespodiam deveras chegar e interagir. O que acha que poderia resultar daí? Ela pondera a pergunta. —Só podiam reagir a estímulos imediatos. —Muito bem. Agora, o que acha que aconteceu quando esses peixes por fim rastejaram para fora do mar há quatrocentos milhões de anos? —O seu volume sensorial aumentou, já que a luz viaja mais depressa no ar do que na água do mar. —Alguns biólogos evolucionistas acreditam que esta disparidade em terra entre o volume motor e sensorial abriu caminho para a evolução da consciência. Se podemos antever o futuro, então podemos pensar no futuro, podemos planear. E então podemos visionar o futuro, mesmo que este não exista. —Aonde quer chegar? —Que a consciência resulta do ambiente. Aquilo que conhecemos, a nossa noção de realidade, é moldado por aquilo que percecionamos, pelas limitações dos nossos sentidos. Pensamos que estamos a ver o mundo como ele realmente é, mas a Helena, mais do que qualquer outra pessoa, sabe que são tudo sombras na parede da caverna. Estamos simplesmente tão cegos como os nossos antepassados aquáticos, as fronteiras do nosso cérebro não passam de um acidente da evolução. E, tal como eles, por definição, não conseguimos ver aquilo que estamos a perder. Pelo menos até agora. Helena recorda o sorriso misterioso de Slade naquela noite no restaurante, há tantos meses. —Levantar o véu da perceção— diz ela. —Nem mais. Para um ser bidimensional, viajar por uma terceira dimensão não seria apenas impossível, seria uma coisa que não conseguiria conceber. Tal como o nosso cérebro fica aquém nesta situação. Imagine que conseguia ver o mundo pelos olhos de seres mais evoluídos… em quatro dimensões. Poderia experienciar eventos na sua vida por qualquer ordem. Reviver qualquer memória que desejasse. —Mas isso é… ridículo. E viola a causa e o efeito. Slade brinda-a outra vez com aquele sorriso de superioridade. Ainda vai um passo à frente. —Receio que a física quântica esteja do meu lado neste ponto. Nós já sabemos que, ao nível das partículas, a seta do tempo não é tão simples como os hu manos pensam. —Está mesmo convencido de que o tempo é uma ilusão? —Mais do género de a nossa perceção em relação ao tempo ser tão imperfeita que é como se fosse uma ilusão. Todos os momentos são igualmente reais e estão a acontecer agora, mas a natureza da nossa consciência só nos permite o acesso a uma fatia de cada vez. Pense na sua vida como num livro. Cada página é um momento diferente. Mas da mesma maneira que lemos um livro, apenas podemos percecionar um momento, uma página, de cada vez. A nossa perceção imperfeita impede o acesso a todos os outros. Até agora. —Mas como? —Certa vez, disse-me que a memória é o nosso único acesso verdadeiro à realidade. Eu acho que tinha razão. Qualquer outro momento, uma memória antiga, é simplesmente tão agora como estas palavras que estou a dizer, tão acessível como caminhar até à sala ao lado. Apenas precisamos de uma maneira de convencer o nosso cérebro disso, de fazer um curto-circuito às nossas limitações evolucionárias e expandir a consciência além do nosso volume sensorial. Helena sente a cabeça andar à roda. — Você sabia? — pergunta. —Sabia o quê? —Aquilo em que realmente estávamos a trabalhar desde o início. Que era muito mais do que imersão na memória. Slade prega os olhos no chão, depois levanta outra vez a cabeça. —Respeito-a demasiado para lhe mentir. —Portanto… sim. —Antes de irmos à parte daquilo que eu fiz, podemos apenas dedicar um momento a apreciar aquilo que a Helena conseguiu? É agora a maior cientista e inventora que alguma vez existiu. É responsável pela descoberta mais impor tante no nosso tempo. De qualquer tempo. —E a mais perigosa. —Nas mãos erradas, certamente. —Meu Deus, que arrogância. Em quaisquer mãos. Como sabia o que a cadeira seria capaz de fazer? Slade pousa o champanhe na mesinha de apoio, põe-se de pé e vai até à janela. A várias milhas de distância, sobre o mar, nuvens gigantescas de tempestade aproximam-se da plataforma. —Da primeira vez que nos encontrámos —diz ele—, você chefiava um grupo de investigação e desenvolvimento em São Francisco chamado Ion. —Como assim, «a primeira vez»? Eu nunca trabalhei… —Deixe-me acabar. Contratou-me como assistente de investigação. Eu redigia relatórios baseados naquilo que a Helena ditava, procurava artigos que você queria ler. Organizava a sua agenda e viagens. Mantinha o seu café quente e o seu gabinete limpo. Ou, no mínimo, transitável. —Brinda-a com um sorriso fugazmente nostálgico. —Creio que o nome oficial do meu cargo era «escravo de laboratório». Mas a Helena foi boa para mim. Fez com que me sentisse integrado na investigação, como se eu fizesse mesmo parte da sua equipa. Antes de nos conhecermos, eu tinha um problema com drogas. É possível que me tenha salvado a vida. » A Helena criou um fantástico microscópio MEG e uma decente rede de estimulação eletromagnética. Dispunha de processadores quânticos muito superiores aos que estamos a utilizar aqui, pois a tecnologia Qbit estava muito mais evoluída. Tinha descoberto o tanque de privação sensorial e como tornar o dispositivo de reativação operacional no seu interior, mas isso não lhe bastava. A sua teoria sempre fora de que o tanque colocaria uma cobaia num estado de privação sensorial tão intenso, que quando estimulássemos as coordenadas neurais para uma memória, a experiência escalaria para um evento transcendental e completamente imersivo. —Espere! Isso foi quando? —No friso cronológico original. Demora algum tempo até perceber a magnitude do que ele está a dizer. —Eu estava a tentar criar a minha aplicação da cápsula do tempo de Alzheimer? — quer saber. —Não creio. A Ion estava mais interessada em criar a aplicação de entretenimento da cadeira, e era nisso que estávamos a trabalhar. Porém, muito à semelhança do que descobrimos aqui, tudo o que se podia fazer era proporcionar a alguém uma experiência um pouco mais vívida de uma memória, sem que esse alguém tivesse de a obter por si. Investiram dezenas de milhões de dólares, e essa tecnologia em que baseara a sua carreira não estava a materializar-se. — Slade vira as costas à janela e olha para ela. — Até ao dia 2 de novembro de 2018. — O ano 2018? — Sim. — Quer dizer… nove anos no futuro? —Isso mesmo. Nessa manhã, aconteceu uma coisa trágica, acidental e extraordinária. A Helena estava a realizar uma reativação de memória num novo sujeito de teste chamado Jon Jordan. O evento de obtenção era um acidente rodoviário em que ele perdera a mulher. Estava tudo a correr sobre rodas, até que o sujeito entrou em paragem cardiorrespiratória no interior do tanque de privação sensorial. Enquanto a equipa médica se apressava para o tirar de lá, aconteceu uma coisa extraordinária. Antes de conseguirem abrir o tanque, as pessoas presentes no laboratório encontravam-se, de súbito, numa posição ligeiramente diferente. Todos se queixavam de hemorragias nasais, alguns de terríveis cefaleias, e em vez de ser o Jon Jordan a encontrar-se no tanque, a experiência estava a ser feita a um fulano chamado Michael Dillman. Aconteceu tudo num abrir e fechar de olhos, como se alguém tivesse ativado um interruptor. » Ninguém percebeu o que tinha acontecido. Não tínhamos registo de o Jordan alguma vez ter estado no nosso laboratório. Ficámos aturdidos, tentando perceber o que acontecera. Chame-lhe curiosidade insensata, mas eu não consegui esquecer aquilo. Tentei localizar o Jordan, para saber o que lhe acontecera, para onde tinha ido, e aconteceu uma coisa muito estranha… Sabe a memória do acidente rodoviário que estávamos a reativar? Acontece que ele morreu nesse acidente com a mulher, quinze anos antes. A chuva começa a bater no vidro com um tamborilar quase impercetível no interior do apartamento de Helena. Slade senta-se outra vez no pousa-pés. —Acho que fui o primeiro a perceber o que acontecera, a compreender que, de algum modo, a senhora enviara a consciência do Jon Jordan de volta para uma memória. É claro que nunca saberemos, masa minha conjetura é que a desorientação de voltar à sua versão mais jovem alterou o desfecho do acidente, provocando a morte dele e da mulher. Helena levanta o olhar do fragmento de alcatifa que tem estado a fitar desde que começou a enfrentar o horror desta revelação. —O que foi que fez, Marcus? —Eu tinha quarenta e seis anos e era um toxicodependente. Esbanjara o meu tempo. Tinha medo de que a senhora destruísse a cadeira caso percebesse aquilo de que ela era capaz. —O que foi que fez? —Três dias mais tarde, na noite de 5 de novembro de 2018, fui ao laboratório e recarreguei uma das minhas memórias nos estimuladores. Depois, meti-me no tanque e injetei uma dose letal de cloreto de potássio na corrente sanguínea. Bem… ardeu como tudo nas minhas veias! A dor mais forte que alguma vez senti. O meu coração parou, e quando a DMT fez efeito, a minha consciência recuou até uma memória que eu criara quando tinha vinte anos. E isso foi o início de um novo friso cronológico que emanou do original, em 1992. —Para o mundo inteiro? —Ao que parece, sim. —E é esse que estamos a viver? —Sim. —O que aconteceu ao original? —Não sei. Quando penso nisso, essas memórias são obscuras e ensombradas. É como se toda a vida lhe tivesse sido sugada. —Então, ainda se lembra do friso cronológico original, quando era o meu assistente de laboratório e tinha quarenta e seis anos? —Sim. Essas memórias acompanharam-me. —Porque é que eu não as tenho? —Pense na experiência que acabámos de realizar. Nós os dois não tínhamos qualquer memória dela até ao preciso momento em que o Reed morreu no tanque e viajámos de volta até à sua memória da tatuagem. Só então é que as suas memórias e a consciência desse friso cronológico anterior, quando tentou atirar uma cadeira contra o vidro, deslizaram para este. —Quer dizer que, dentro de nove anos, na noite de 5 de novembro de 2018, irei lembrar-me dessa outra vida? —Creio que sim. A sua consciência e as memórias desse friso cronológico original fundir-se-ão neste. Terá dois conjuntos de memórias: um vivo, um morto. A chuva está a formar uma cortina de água no vidro, desfocando o mundo do lado de fora. —Precisava que eu criasse a cadeira uma segunda vez— diz Helena. —É verdade. —E com aquilo que sabia sobre o futuro, construiu um império neste friso cronológico e atraiu-me com a promessa de um financiamento ilimitado assim que fiz as primeiras descobertas em Stanford. Ele assente com a cabeça. —Para ter o controlo absoluto da criação da cadeira e do modo como é utilizada. —Ele fica em silêncio. —Basicamente, tem andado a perseguir- me desde que iniciou este segundo friso cronológico. —Creio que a palavra «perseguir» é um pouco exagerada. —Desculpe, mas estamos numa plataforma petrolífera desmantelada no meio do Pacífico que o senhor construiu só para mim, ou escapou-me algum pormenor? Slade levanta o copo de champanhe e bebe o resto de um trago. —Roubou-me essa outra vida. —Helena… —Eu era casada? Tinha filhos? —Quer mesmo saber? Isso não importa agora. Nunca aconteceu. —Você é um monstro. Ela levanta-se, vai até à janela e olha pelo vidro para um milhar de tons de cinzento— o mar perto e o mar longe, camadas de nuvens estratificadas, uma borrasca a aproximar-se. Ao longo do último ano, este apartamento pareceu-se, em crescendo, com uma prisão, mas nunca tanto como agora. Então, enquanto lágrimas escaldantes e furiosas lhe escorrem pela cara, ocorre-lhe que foi a sua própria ambição autodestrutiva que a trouxe a este momento e, provavelmente, ao de 2018. A retrospeção também está a ter um efeito esclarecedor no comportamento de Slade, especialmente no que diz respeito ao seu ultimato de há vários meses para que começassem a matar cobaias para reforçar a experiência de reativação da memória. Nesse momento, ela pensara que era uma imprudência da parte dele. Provocara uma saída em massa de quase todos os colaboradores que estavam na plataforma. Helena entende-o agora como aquilo que deveras foi: meti culosamente calculado. Ele sabia que estavam quase a conseguir e pretendia apenas uma equipa reduzida para testemunhar a verdadeira função da cadeira. Pensando bem nisso, nem sequer tem a certeza de os seus colegas terem chegado a terra. Até ao momento, suspeitara que a sua vida poderia estar em perigo. Agora, tem a certeza. —Fale comigo, Helena. Não se retraia outra vez. A sua resposta à revelação de Slade irá provavelmente determinar o que ele vai decidir fazer com ela. —Estou zangada— diz. —É justo. Eu também estaria. Antes deste momento, ela partira do princípio de que Slade possuía um intelecto imenso, que era um mestre a manipular pessoas, tal como todos os líderes da indústria costumam ser. Talvez isso continue a ser verdade, mas a maior parte do seu sucesso e da sua fortuna deve-se ao conhecimento que tem sobre eventos do futuro. E ao intelecto dela. A invenção da cadeira não pode significar apenas dinheiro para ele. Ele já tem mais dinheiro, fama e poder do que Deus. —Agora que tem a sua cadeira —diz ela—, que planos tem para ela? —Ainda não sei. Estava a pensar que poderíamos decidir isso juntos. Tretas. Já sabes. Tiveste vinte e seis anos até chegar a este momento para decidir. —Ajude-me a otimizar a cadeira— diz ele. —Ajude-me a testá-la em segurança. Não pude dizer-lhe o que pretendia fazer da primeira vez, nem mesmo da segunda quando lhe fiz esta pergunta, mas agora sabe a verdade, por isso estou a perguntar-lhe uma terceira vez, e espero que a resposta seja positiva. —Qual é a pergunta? Ele aproxima-se e pega-lhe nas mãos, tão perto agora que ela consegue sentir o cheiro do champanhe no bafo dele. —Helena, quer mudar o mundo comigo? BARRY 25-26 de outubro de 2007 Barry entra em casa e fecha a porta, parando outra vez em frente ao espelho ao lado do bengaleiro para ver o reflexo da sua versão mais jovem. Isto não é real. Não pode ser real. Julia, no quarto, está a chamá-lo. Ele passa pela televisão, onde ainda está a ser transmitida a World Series, e caminha pelo corredor, o chão a ranger debaixo dos seus pés descalços em todos os lugares familiares. Passa pelo quarto de Meghan e depois por uma divisão que faz de quarto de hóspedes e de escritório, até que chega à porta do quarto do casal. A sua ex-mulher está sentada na cama com um livro aberto sobre as pernas e uma chávena de chá a libertar vapor em cima da mesa de cabeceira. — Saíste? — pergunta. Está tão diferente. — Saí. — Onde está a Meghan? — Foi ao Dairy Queen. — Amanhã é dia de aulas. — Ela chega a casa às dez e meia. — Sabia bem a quem havia de pedir, não é verdade? Julia sorri e dá umas palmadinhas na colcha ao seu lado; Barry entra no quarto, passando os olhos pelas fotografias do casamento, uma fotografia a preto-e-branco de Julia com Meghan ao colo na noite em que nasceu e, por fim, por cima da cama, por uma reprodução do quadro A Noite Estrelada de Van Gogh, que compraram no MoMA há dez anos, depois de verem o original. Ele sobe para a cama e senta-se ao lado de Julia, encostado à cabeceira. De perto, ela parece obra de um aerógrafo, a pele lisa, evidenciando apenas uma sugestão das rugas que ele notou durante o brunch há dois dias. —Porque não estás a ver o jogo? — pergunta ela. A última vez que se sentaram nesta cama juntos fora na noite em que ela o deixara. Olhara para os olhos dele e dissera: «Desculpa, mas não te consigo dissociar de toda esta dor.» – Querido. O que se passa? Até parece que morreu alguém. Há quanto tempo não a ouvia tratá-lo por querido, e não, não lhe parece que morreu alguém. Ele sente… uma forte sensação de desorientação e desligamento. Como se o seu próprio corpo fosse um avatar a cujas funcionalidades ainda está a tentar adaptar-se. —Está tudo bem. —Uau, queres tentar outra vez, mas agora de uma maneira mais convincente? Será possível que a perda que tem carregado desde a morte de Meghan esteja a escorrer da sua alma através dos olhos e para este momento impossível? Que, em alguma frequência mais baixa, Julia pressinta essa mudança nele?Porque a ausência da tragédia está a ter um efeito inversamente proporcional sobre aquilo que vê quando olha para os olhos dela. Deixam-no abismado. Vivos, presentes e límpidos. Os olhos da mulher por quem se apaixonou. E atinge-o outra vez— o funesto poder da mágoa. Julia passa-lhe os dedos pela nuca, o que o faz estremecer e o deixa todo arrepiado. Há uma década que a mulher não lhe toca. —O que foi? Aconteceu alguma coisa no trabalho? Tecnicamente, o seu último dia de trabalho incluiu a sua morte num tanque de privação sensorial e a passagem para o que quer que seja isto, por isso… —Sim, de facto. A experiência sensorial é o que está a dar cabo dele. O cheiro do seu quarto. A suavidade das mãos de Julia. Todas as coisas que esquecera. Tudo aquilo que perdera. —Queres falar sobre isso? — pergunta ela. —Importas-te que fique só aqui deitado enquanto tu lês? —Claro que não. Barry pousa então a cabeça no colo da mulher. Imaginou isto milhares de vezes, geralmente às três da madrugada, deitado na cama do seu apartamento em Washington Heights, apanhado naquela aborrecida transição da embriaguez para a ressaca, pensando… E se a sua filha não tivesse morrido? E se o seu casamento tivesse resistido? E se tudo não tivesse saído dos eixos? E se… Isto não é real. Não pode ser real. O único barulho no quarto é o suave folhear das páginas do livro de Julia mais ou menos a cada minuto. Ele tem os olhos fechados, está apenas a respirar, e, quando ela passa os dedos pelo cabelo dele como costumava fazer, ele vira-se de lado para esconder as lágrimas. Por dentro, é uma pilha trémula de protoplasma e faz um esforço hercúleo para manter a compostura mental. A emoção é desconcertante, mas Julia parece não reparar na meia dúzia de vezes que as costas dele se elevam com um soluço mal contido. Ele acabou de reencontrar a filha que morreu. Ele viu-a, ouviu a voz dela, abraçou-a. Agora, sem saber como, está de volta ao seu antigo quarto na companhia de Julia, e não se sente capaz de o assimilar. Um pensamento aterrador chega sem se fazer anunciar: E se isto for apenas um surto psicótico? E se tudo isto desaparecer? E se eu voltar a perder a Meghan? Entra em hiperventilação… E se… —Barry, sentes-te bem? Não penses mais. Respira. —Sinto. Respira apenas. —De certeza? —Sim. Dorme. Não sonhes. E vê se tudo isto ainda existe pela manhã. Desperta cedo com a luz que entra pelas persianas. Dá por si deitado ao lado de Julia, ainda com a mesma roupa da noite anterior. Levanta-se da cama sem a incomodar e vai pé ante pé até ao quarto de Meghan. A porta está fechada. Abre uma frincha e espreita para dentro. A filha está a dormir debaixo de um monte de cobertores e, a esta hora, reina na casa um tal silêncio que até é possível ouvi-la respirar. Ela está viva. Está em segurança. Está mesmo ali. Ele e Julia deveriam estar num estado de pesar e choque, acabando de chegar a casa depois de passarem a noite na morgue. Nunca esqueceu a imagem do cadáver de Meghan na marquesa —o tronco esmagado e coberto de hematomas—, mas esta memória assumiu o mesmo cariz ensombrado das outras memórias falsas. Mas ali está ela, e aqui está ele, sentindo-se mais em casa neste corpo a cada segundo que passa. Aquela linha de memórias claras da sua outra vida está a recuar, como se tivesse despertado do mais longo e mais aterrador pesadelo. Um pesadelo de onze anos. Foi precisamente isso que aconteceu, pensa, um pesadelo. Porque isto parece-se cada vez mais com a sua realidade atual. Entra no quarto de Meghan e fica de pé ao lado da cama dela a vê-la dormir. Assistir à formação do Universo não poderia enchê-lo de um sentimento mais profundo de pasmo, felicidade e uma avassaladora gratidão por qualquer que tenha sido a força que reconstruiu o seu mundo e o de Meghan. Porém, um terror glacial assombra-o perante a ideia de isto poder ser uma alucinação. Um fragmento de perfeição inexplicável à espera de lhe ser furtado. Deambula pela casa como um espectro de uma vida passada, redescobrindo lugares e objetos quase perdidos na sua memória. A alcova na sala de estar onde, todos os invernos, montavam o pinheiro. A pequena mesa junto à entrada onde ele guardava os seus objetos pessoais. A chávena de café que era a sua preferida. A escrivaninha com tampo de correr no quarto de hóspedes onde tratava das despesas de casa. A cadeira na sala de estar onde, todos os domingos, lia o Washington Post e o New York Times de uma ponta à outra. É um museu de memórias. Tem o coração a bater mais depressa do que o normal, ao mesmo ritmo que o latejar que sente atrás dos olhos. Apetece-lhe um cigarro. Não psicologicamente —conseguiu finalmente abandonar o vício, há cinco anos, depois de várias tentativas fracassadas—, mas, ao que parece, o seu organismo de trinta e nove anos necessita fisicamente de uma bomba de nicotina. Vai à cozinha e enche um copo com água da torneira. Fica de pé diante do lava-loiça a ver a luz da manhã dar vida ao jardim das traseiras com pinceladas de cor. Abre o armário do lado direito do lava-loiça e tira de lá o café que costumava beber. Prepara uma cafeteira e depois mete na máquina de lavar toda a loiça do dia anterior que consegue, posto o que se dispõe a realizar a tarefa que lhe coube durante o resto do seu casamento— lavar à mão a loiça que sobra. Quando termina a tarefa, ainda sente o apelo dos cigarros. Vai até à mesa que há à beira da porta da frente, pega no maço de Camel e atira-o para o caixote do lixo lá fora. Depois, senta-se no alpendre a beber o seu café no fresco da manhã, com a esperança de desanuviar e interrogando-se se o homem responsável por o mandar para aqui estará a observá-lo neste preciso momento. Quiçá desde algum plano de existência superior? Algures para lá do tempo? O receio volta. Será que, de repente, o irão arrancar deste momento e lançá-lo para a sua vida antiga? Ou isto é permanente? Faz um esforço para conter o pânico crescente. Diz com os seus botões que não imaginou a SFM e o futuro. Isto é demasiado complexo, mesmo para a sua mente de detetive, para ter sido um sonho. Isto é real. Isto está a acontecer. Isto é a realidade. Meghan está viva e nada voltará a levá-la de junto dele. E diz em voz alta, como se fosse uma oração: «Se me consegues ouvir agora, por favor, não me roubes isto. Farei qualquer coisa.» Não há resposta no silêncio da madrugada. Sorve mais um pouco de café e fica a ver a luz do Sol esgueirar-se pelo meio dos ramos do carvalho, estendendo-se sobre a relva gelada, que começa a libertar vapor. HELENA 5 de julho de 2009 Dia 613 Quando vai a descer a escadaria para o terceiro piso da superstru tura, está a pensar nos pais, sobretudo na mãe. Na noite passada, sonhou com a voz da mãe. O subtil timbre nasalado do Oeste. A suavidade melodiosa. As duas sentadas num campo adjacente à velha casa onde cresceu. É um dia de outono. O ar estava fresco e todas as coisas banhadas pela luz dourada do fim de tarde, conforme o Sol se escondia por trás das montanhas. Dorothy era jovem, os cabelos ainda castanho -avermelhados, esvoaçando ao vento. Apesar de não mexer os lábios, a sua voz ouvia-se clara e forte. Helena não se lembra de uma palavra do que disse, apenas de sentir a voz da mãe invocada no seu âmago— um amor puro e incondicional associado a uma ferroada de uma forte nostalgia que lhe fez doer o coração. Está ansiosa por falar com eles, mas desde a revelação de há duas semanas de que ela e Slade tinham construído uma coisa muito mais poderosa do que um dispositivo de imersão na memória, não se sente à vontade para abordar o assunto de voltar a comunicar com a mãe e o pai. Fá-lo-á quando for o momento certo, mas para já ainda é tudo muito recente. Ela está com dificuldade em saber o que pensar da sua invenção acidental, de como Slade a manipulou e daquilo que o futuro lhe reserva. Mas voltou a trabalhar no laboratório. A praticar desporto. A fazer de conta que está tudo bem. A tentar ser útil. Quando passa da escadaria para o laboratório, uma enxurrada deadrenalina varre-lhe o sistema. Hoje, irão realizar o teste número nove em Reed King. Ela voltará a experienciar a realidade a mudar debaixo dos seus pés e não pode negar que se sente entusiasmada. Quando se aproxima do compartimento de teste, Slade vem a dobrar a esquina. —Bom dia— diz ela. —Venha comigo. —O que se passa? —Mudança de planos. Com um ar tenso e perturbado, Slade leva-a até uma sala de reuniões e fecha a porta. Reed já está sentado à mesa com umas calças de ganga rasgadas e uma camisola de malha, as mãos à volta de uma chávena de chá fumegante. Parece que o tempo que tem passado na plataforma o fez engordar e perder aquele aspeto encovado habitual nos toxicodependentes. —A experiência foi cancelada — diz Slade, ocupando o lugar à cabeceira da mesa. —Era suposto eu receber cinquenta mil por esta — diz Reed. —Receberá o seu dinheiro na mesma. A questão é que já realizámos a experiência. —Está a falar de quê? — pergunta Helena. Slade consulta o relógio. —Realizámos a experiência há cinco minutos. — Olha para Reed. — Você morreu. —Não é isso que é suposto acontecer? — pergunta Reed. —Você morreu no tanque, mas não ocorreu uma mudança da realidade — explica Slade. —Na verdade, simplesmente morreu. —Como sabe essas coisas? — quer saber Helena. —Depois de o Reed morrer, sentei-me na cadeira e evoquei a memória de me ter cortado ao barbear-me esta manhã. —Slade levanta a cabeça e toca num corte feio ao longo do pescoço. — Retirámos o Reed do tanque. Depois fui eu que entrei, morri, e regressei ao momento em que me barbeei para poder vir cá abaixo impedir a realização da experiência. —E porque é que não funcionou? — pergunta ela. — Será que o número de sinapses não era suficientemente elevado ou… —O número de sinapses era perfeito. —Qual era a memória? —Há quinze dias, 20 de junho. A primeira vez que o Reed entrou para o tanque com a tatuagem completa a dizer «Miranda» no braço. É como se houvesse uma detonação no cérebro de Helena. —Claro que morreu— diz ela. —Isso não era uma memória real. —O que quer dizer? —Essa versão dos acontecimentos nunca aconteceu. O Reed nunca fez uma tatuagem. Ele mudou essa memória quando morreu no tanque. —Olha então para Reed, começando a juntar as peças do puzzle. —O que significa que não havia nada para onde pudesse voltar. —Mas eu lembro-me— diz Reed. —Como se parece na sua inteleção? — pergunta ela. —Escura? Estática? Tons de cinzento? —Como se o tempo tivesse parado. —Então, não é uma memória verdadeira. É… Não sei o que lhe chamar. Fictícia. Falsa. —Morta— diz Slade, voltando a consultar as horas. —Então… não se tratou de um acidente. —Fulmina Slade com o olhar por cima da mesa. —Você sabia. —As memórias mortas fascinam-me. —Porquê? —Representam… outra dimensão de movimento. —Não sei que porra é que isso significa, mas ontem nós concordámos que não tentaria mapear uma… —Todas as vezes que o Reed morre no tanque, deixa uma cadeia de memórias órfãs que se tornam mortas na nossa mente depois de mudarmos. Mas o que deveras acontece a esses frisos cronológicos? Foram de facto destruídos ou continuam a existir algures, fora do nosso alcance? – Slade consulta o relógio outra vez. —Eu lembro-me de tudo da experiência que efetuámos esta manhã e vocês os dois irão receber essas memórias mortas a qualquer instante. Ficam sentados em silêncio, um frio glacial envolve Helena. Estamos a brincar com merdas que não é suposto brincar. Sente a dor aparecer por trás dos olhos. Estica o braço e pega em alguns lenços de papel para estancar a hemorragia nasal. A memória morta do teste fracassado surge como uma detonação. Reed a entrar em paragem cardiorrespiratória no tanque. Morto durante cinco minutos. Dez minutos. Quinze. Ela a gritar para Slade fazer alguma coisa. A correr para o compartimento de teste e a escancarar a escotilha do tanque de privação sensorial. Reed a boiar em paz lá dentro. Completamente imóvel. A tirá-lo de lá com a ajuda de Slade e a pousá-lo, todo molhado, no chão. A efetuar reanimação cardiopulmonar enquanto o Dr. Wilson diz pelo intercomunicador: «Não adianta, Helena. Já se foi há muito.» Continuar apesar disso, o suor a escorrer para os olhos enquanto Slade desaparece no corredor e vai para a sala onde está a cadeira. Ela já desistiu de reanimar Reed quando Slade regressa— está sentada a um canto a tentar aceitar o facto de que mataram mesmo um homem. Não apenas um homem. Ele era responsabilidade sua. Estava aqui por causa de uma coisa criada por ela. Slade começa a despir-se. «O que está a fazer?», pergunta ela. «A solucionar isto.» Depois, olha para o vidro espelhado que separa o compartimento de teste e a sala de controlo. «Alguém a tira daqui, por favor?» Os homens de Slade entram de rompante enquanto ele se mete todo nu no tanque. «Por favor, venha connosco, Dra. Smith.» Levanta-se devagar, caminha como um autómato até à sala de controlo e senta-se atrás de Sergei e do Dr. Wilson enquanto eles reativam a memória de Slade de quando se cortou ao barbear-se. Todo este tempo a pensar: «Isto está errado, isto está errado, isto está errado», até que… De súbito, está sentada aqui mesmo, nesta sala de reuniões, a estancar o sangue com um lenço de papel. Helena olha para Slade. Ele está a olhar para Reed, que olha para o vazio com um sorriso arrebatado. — Reed? — diz Slade. O homem não responde. —Reed, está a ouvir-me? Reed vira a cabeça devagar até fitar Slade, o sangue a escorrer pelos lábios, a cair em gotas em cima da mesa. —Eu morri— diz Reed. —Eu sei. Regressei a uma memória para salvar… —E foi a coisa mais bela que alguma vez vi. —O que foi que viu?— pergunta Slade. —Eu vi… —Faz um esforço para encontrar as palavras. —Tudo. —Não sei o que isso quer dizer, Reed. —Todos os momentos da minha vida. Eu ia a grande velocidade por um túnel cheio desses momentos, e foi maravilhoso. Encontrei um de que me esquecera. Uma memória encantadora. Acho que a minha primeira. —Em que consiste? — quer saber Helena. —Eu tinha dois anos, talvez três. Estava sentado no colo de alguém na praia e não me podia virar para ver a sua cara, mas sei que era o meu pai. Estávamos em Cape May, na Jersey Shore, onde costumava passar as férias. Não a consegui ver, mas sei que a minha mãe também estava ali, e o meu irmão, Will, estava ao longe, na rebentação, deixando as ondas rebentar em cima dele. Cheirava a mar, a protetor solar e aos bolos tipo farturas que alguém estava a vender atrás de nós no passadiço. —As lágrimas correm- lhe pela cara. —Nunca senti tanto amor em toda a minha vida. Estava tudo bem. Em segurança. Foi um momento perfeito antes de… —O quê? — indaga Slade. —Antes de me tornar eu. —Limpa os olhos, olha para Slade. —Não me deveria ter salvado. Não me deveria ter trazido de volta. —O que está para aí a dizer? —Eu poderia ter ficado naquele momento para sempre. BARRY Novembro de 2007 Cada dia é uma revelação, cada momento uma dádiva. O simples ato de se sentar à mesa de jantar à frente da filha e ouvi-la falar sobre como lhe correu o dia é como uma remissão de culpa. Como é possível que tenha tomado isso por garantido, por um segundo sequer? Regozija-se com cada instante— o modo como Meghan revira os olhos quando ele a questiona sobre rapazes, o modo como brilham quando falam sobre as universidades que ela quer visitar. Ele chora de forma espontânea na presença dela, mas é fácil atribuir o facto a ter deixado de fumar, ao ver a sua pequenina tornar-se uma mulher. Julia anda desconfiada de alguma coisa. Nestes momentos, ele repara que a mulher olha para ele como alguém a examinar um quadro que não está pendurado em esquadria. Todas as manhãs, quando a consciência surge pela primeira vez, fica deitado com medo de abrir os olhos, temendo encontrar-se de novo no seu apartamento de uma assoalhada em Washington Heights, com a sua segunda oportunidade a desvanecer no olvido. Porém, está sempre ao lado de Julia, sempre a ver a luz entrar pelas persianas, e a sua única ligação à outra vida existe em falsasmemórias. Que ele adoraria esquecer. HELENA 5 de julho de 2009 Dia 613 Depois do jantar, quando Helena lava a cara e se prepara para se deitar, alguém bate à porta. Slade está no corredor, os olhos sombrios e perturbados. —O que aconteceu? — pergunta. —O Reed enforcou-se no quarto. —Oh, meu Deus! Por causa da memória morta? —Não vamos tirar conclusões precipitadas. O cérebro de um toxicodependente funciona de maneira diferente. Quem sabe o que ele realmente viu quando morreu. De qualquer modo, apenas achei que deveria saber, mas não se preocupe. Trá-lo-ei de volta amanhã. —Trá-lo-á de volta? —Com a cadeira. Vou ser franco. Não estou ansioso por voltar a morrer. Como deve calcular, é muito desagradável. —Ele fez a escolha de acabar com a própria vida— diz Helena, tentando controlar as emoções. —Acho que devemos respeitar isso. —Não enquanto ele continuar a trabalhar para mim. Horas mais tarde, deitada na cama, Helena vira-se de um lado para o outro sem conseguir dormir. Os pensamentos fervilham na sua mente e ela parece incapaz de travá- los. Slade mentiu-lhe. Manipulou-a. Impediu-a de comunicar com os pais. Roubou-lhe uma vida. Embora nada alguma vez a tenha intrigado intelectualmente mais do que o misterioso poder da cadeira, não confia em Slade como seu proprietário. Eles alteraram memórias. Mudaram a realidade. Devolveram a vida a um homem depois de este morrer. No entanto, ele continua a querer ultrapassar limites com uma determinação obsessiva que a faz questionar-se sobre o seu verdadeiro objetivo com tudo isto. Levanta-se da cama, vai até à janela e abre as cortinas opacas. A Lua vai alta e está cheia, refletindo-se no mar, cuja superfície é como um soalho lacado, reluzente, azul-escuro, estático como um momento congelado. Nunca virá o dia em que ela trará a mãe de helicóptero até aqui e a sentará na cadeira para mapear o que quer que sobre da sua mente. Isso nunca iria acontecer. Chegou a hora de deixar o sonho morrer e pôr- se a milhas daqui. Só que não pode. Mesmo que conseguisse esgueirar-se num dos navios de abastecimento, assim que Slade desse pela sua falta, simplesmente regressaria a uma memória anterior à sua fuga e impedi-la-ia. Ele seria capaz de te impedir antes mesmo de tentares a fuga. Antes mesmo de a ideia te ocorrer. Antes deste momento. Todas estas conjeturas fazem com que, agora, só haja uma maneira de sair da plataforma. BARRY Dezembro de 2007 Enquanto inspetor, melhorou o seu desempenho profissional, em parte porque se lembra de alguns casos e de suspeitos, mas principalmente porque se preocupa. As autoridades tentam promovê-lo a um cargo de supervisão mais bem remunerado, mas ele recusa. Quer ser um excelente detetive, nada mais. Deixa de fumar, bebe apenas aos fins de semana, corre três vezes por semana e leva Julia a sair todas as sextas-feiras à noite. As coisas não são perfeitas entre os dois. Ela não carrega o trauma da morte de Meghan e a consequente destruição do casamento, mas não tem como esquecer o modo como esses acontecimentos corroeram a sua ligação. Na sua vida anterior, demorara muito tempo a deixar de amar Julia, e embora esteja de regresso a uma época antes de tudo implodir, não é como se houvesse um interruptor que ele pudesse voltar a ligar. Vê as notícias todas as manhãs, lê os jornais todos os domingos e, apesar de se recordar dos momentos importantes —o candidato que se tornará presidente, os primeiros abalos de uma recessão—, as coisas são na maioria brumosas e insignificantes quanto baste para lhe parecerem novidade outra vez. Passou a visitar a mãe todas as semanas. Ela tem sessenta e seis anos e, dentro de cinco anos, apresentará os primeiros sintomas do glioblastoma que a matará. Dentro de seis anos, não o reconhecerá nem será capaz de manter uma conversa, e morrerá numa unidade de cuidados paliativos pouco depois, uma pálida imagem da pessoa que foi. Ele segurar-lhe-á a mão descarnada nos seus últimos mo mentos, questionando-se se ela será sequer capaz de registar a sensação do toque humano na paisagem desolada do seu cérebro. Por estranho que pareça, não sente tristeza nem desespero ao saber como e quando a vida dela irá terminar. Esses últimos dias parecem impossivelmente distantes quando está sentado no apartamento dela em Queens na semana antes do Natal. Para dizer a verdade, considera que a presciência é uma dádiva. O pai de Barry morreu de um aneurisma da aorta, súbito e inesperado, tinha ele quinze anos. No caso da mãe, tem anos para se despedir, para se assegurar de que ela sabe que ele a ama, para dizer todas as coisas que lhe vão no coração, e isso reconforta-o incomensuravelmente. Nos últimos tempos, tem pensado se a vida não é isso mesmo— um longo adeus daqueles que amamos. Hoje, trouxe Meghan com ele, e a filha e a mãe jogam xadrez enquanto ele está sentado à janela, a mãe a cantar naquele delicado falsete que mexe sempre com alguma coisa bem no seu íntimo, a sua atenção dividida entre a partida de xadrez e os transeuntes na rua lá em baixo. Apesar da tecnologia antiga que o rodeia e da manchete ocasionalmente familiar nos jornais, ele não sente que está a viver no passado. Este momento parece-lhe estar a acontecer agora. A experiência está a ter um impacto filosófico sobre a sua perceção do tempo. Talvez Vince tivesse razão. Talvez esteja a acontecer tudo em simultâneo. —Barry? —Diz, mãe. —Quando foi que te tornaste tão introspetivo? Ele sorri. —Não sei. Se calhar, foi quando entrei na casa dos quarenta. Ela observa-o por instantes, voltando a atenção para o tabuleiro de xadrez apenas quando Meghan faz a jogada seguinte. Vive os dias; as noites, passa-as a dormir. Vai a festas a que já foi, assiste a jogos a que já assistiu, resolve casos que já resolveu. Interroga-se sobre as sensações de déjà-vu que assombraram a sua vida anterior— a persistente sensação de estar a fazer ou a ver alguma coisa que já vira. E questiona-se se o déjà-vu não será o espectro de frisos cronológicos falsos que nunca aconteceram, mas aconteceram, lançando sombras sobre a realidade. HELENA 22 de outubro de 2007 Ela está outra vez sentada na sua antiga secretária nas profundezas bafientas do edifício de neu rociência em Palo Alto, apanhada numa transição entre a memória e a realidade. A dor da morte no tanque de privação sensorial ainda se faz sentir— a ardência nos pulmões privados de oxigénio, o peso atroz do coração paralisado, o pânico e o pavor, sem saber se o seu plano surtiria efeito. E então, quando o programa de reativação de memória por fim foi executado e os estimuladores ativados, experimentou um sentimento de puro regozijo e libertação. Slade estava certo. Sem DMT, a experiência de reativação de memória não era mais do que ver um filme que já se viu milhares de vezes. Isto é como viver a experiência. Jee-woon está sentado à frente dela, o seu rosto a tornar-se mais nítido, e ela questiona-se se ele perceberá que há algo de estranho com ela, pois ainda não consegue controlar o corpo, mas consegue apanhar uma palavra aqui e outra além— excertos de uma conversa familiar. —… muito interessado no artigo sobre memória que publicou na revista Neuron. O seu controlo dos músculos começa pelas pontas dos dedos das mãos e dos pés, passando a subir pelos braços e pelas pernas, até que é capaz de controlar a capacidade de pestanejar e engolir. De repente, o seu corpo parece uma coisa que lhe pertence, e é inundada de controlo, a excitação do domínio total, outra vez completamente dentro da sua versão anterior. Olha à sua volta pelo gabinete, as paredes cobertas de imagens em alta resolução de memórias de ratinhos. Há instantes, estava a quase duzentos e oitenta quilómetros ao largo da costa do norte da Califórnia, quase dois anos depois deste momento, a morrer no tanque de privação sensorial no terceiro piso da plataforma petrolífera de Slade. —Está tudo bem? — pergunta Jee-woon. Resultou. Meu Deus, resultou. —Está. Desculpe. Estava a dizer… —Que o meu patrão está muito bem impressionado com o seutrabalho. —O seu patrão tem nome? — pergunta. —Bem, isso depende. —De quê? —De como correr esta conversa. Ter esta conversa pela segunda vez parece-lhe perfeitamente normal e espantosamente surreal. É, sem sombra de dúvida, o momento mais estranho de toda a sua existência, e tem de fazer um esforço para se concentrar. Olha para Jee-woon e diz: —Porque teria eu uma conversa com alguém que não sei quem representa? —Porque o seu financiamento de Stanford acaba dentro de seis semanas. Leva a mão à sua sacola de couro e tira um docu mento de dentro de uma capa azul-marinho. A proposta de subsídio dela. Enquanto Jee-woon lhe propõe trabalhar para o seu patrão com um financiamento ilimitado, ela olha para a sua proposta de subsídio e pensa: Consegui. Criei a minha cadeira e é muito mais poderosa do que alguma vez pensei que pudesse ser. —A senhora precisa de uma equipa de programadores para a ajudar a desenvolver um algoritmo para catalogação de memória complexa e projeção. A infraestrutura para ensaios em humanos. Plataforma Imersiva para Projeção de Memórias de Longo Prazo, Explícitas e Episódicas. Ela criou-a. E funcionou. —Helena? – Jee-woon fita-a do outro lado do desastre que é a sua secretária. —Sim? —Quer vir trabalhar com o Marcus Slade? Na noite em que Reed se suicidara, ela esgueirara-se até ao laboratório e, utilizando um acesso de backdoor para o sistema que convencera Raj a incorporar antes de este se ir embora, mapeara uma memória deste momento— Jee-Woon a fazer-lhe uma visita no seu laboratório em Stanford. Essa visita deixara uma pegada neuronal suficientemente forte para permitir um regresso. Então, programara a sequência de reativação de memória, o cocktail de fármacos, e, pelas três da manhã, metera-se no tanque de privação sensorial. —Helena? O que me diz?c— insiste Jee-woon. —Adoraria trabalhar com o Sr. Slade. Ele tira outro documento da sacola e entrega-lho. —O que é isto? — pergunta, apesar de já saber a resposta. Ela assinou-o naquilo que é agora uma memória morta. —Um contrato de trabalho e confidencialidade. Não negociável. Creio que considerará os termos financeiros bastante generosos. BARRY Janeiro de 2008 – maio de 2010 É então que a vida lhe parece ser a vida outra vez; os dias desenrolam-se com uma sensação de uniformidade e aceleração, e ele pensa cada vez menos no facto de estar a viver a sua vida uma segunda vez. HELENA 22 de outubro de 2007 – agosto de 2010 O cheiro da água-de-colónia de Jee-woon ainda perdura no elevador quando Hel ena sobe ao piso térreo do edifício de neurociência. Há quase dois anos que não pisava o campus de Stanford, que não pisava terra. O verde das árvores e da relva quase a deixa em lágrimas. A forma como a luz do Sol passa pelo meio das folhas trémulas. O cheiro das flores. O barulho das aves que não aves marinhas. É um dia de outono soalheiro e ameno, e ela está sempre a olhar para o visor do seu telemóvel de abrir, a olhar para a data, pois em parte ainda não acredita que é o dia 22 de outubro de 2007. O seu Jeep continua no parque de estacionamento da faculdade. Senta-se no assento quente do sol e procura a chave na sua mochila. Pouco depois, vai a toda a brida pela interestadual, o vento a uivar no arco de segurança. A plataforma petrolífera parece-lhe um sonho cinzento, a desvanecer, e ainda mais a cadeira, o tanque de privação sensorial, Slade, e os dois últimos anos, os quais, por causa de uma coisa que ela construiu, ainda não aconteceram. Na sua casa em San Jose, prepara uma mala com roupa, uma fotografia dos seus pais emoldurada e seis livros importantíssimos para ela: On the Fabric of the Human Body, da autoria de Andreas Vesalius, Física de Aristóteles, Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton, A Origem das Espécies, de Darwin, e dois romances— O Estrangeiro, de Camus, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. No banco, encerra as suas contas poupança e à ordem— um pouco menos de cinquenta mil dólares. Levanta dez mil dólares em numerário, deposita os restantes quarenta mil numa conta de valores mobiliários e depois saí para o sol do meio-dia com um envelope branco que parece lastimavelmente fino. Perto da Highway 1, encosta numa estação de serviço para abastecer o Jeep. Após concluir a transação, atira o cartão de crédito para o lixo, abre a capota e senta-se ao volante. Não sabe para onde vai. Na noite anterior, na plataforma, só fez planos até este ponto e tem os pensamentos num turbilhão de excitação e horror. Há uma moeda num dos suportes para copos. Atira-a ao ar e agarra-a nas costas da mão esquerda. Se sair cara, vai para sul. Se for coroa, para norte. A estrada serpenteia ao longo de uma orla costeira escarpada, o mar escancarando-se numa bruma parda várias centenas de metros ao fundo. Helena acelera pelo meio de florestas de cedros. Passa por promontórios. Atravessa baldios varridos pelo vento. Cruza vilas incógnitas— postos avançados nos confins do mundo. Na primeira noite, encosta duas horas a norte de São Fran cisco num motel de beira de estrada restaurado chamado Timber Cove, empoleirado num penhasco com vista para o mar. Senta-se sozinha defronte de uma lareira com um copo de vinho servido de uma garrafa produzida a apenas trinta quilómetros dali, mais para o interior, a ver o pôr do Sol e a pensar no que a sua vida se tornou. Pega no telemóvel para telefonar aos pais, mas hesita. Neste instante, Marcus Slade está à espera de que ela chegue à sua plataforma petrolífera desmantelada para começar a trabalhar na cadeira, sem dúvida convencido de que é o único a conhecer as suas reais e espantosas capacidades. Mas após Helena não aparecer, além de suspeitar das ações dela, virará o mundo do avesso à sua procura, porque, sem ela, não tem qualquer hipótese de construir —ou, de certa forma, reconstruir— a cadeira. Inclusive, poderá servir-se dos seus pais para chegar a ela. Pousa o telemóvel no chão e esmaga-o com o calcanhar. Segue para norte pela Highway 1, fazendo um breve desvio até um sítio que sempre quis visitar na Lost Coast, a Black Sands Beach, em Shelter Cove. Depois, avança por entre arvoredos de pau-brasil e pacatas comunidades costeiras até à costa noroeste do Pacífico. Dois dias mais tarde, está em Vancouver, a subir a costa da Colúmbia Britânica, de cidade em vila, de vila em aldeia, passando por algumas das paisagens rurais mais desoladas que alguma vez viu. Três semanas depois, enquanto vagueia pelas regiões agrestes do Norte do Canadá, é apanhada por uma tempestade ao anoitecer. Entra numa taberna de beira de estrada nas cercanias de uma aldeia que é uma relíquia dos tempos da corrida ao ouro, senta-se num banco de um balcão de madeira e bebe cerveja e fica na cavaqueira com os locais enquanto o lume arde numa enorme lareira e o primeiro nevão da estação rodopia nas vidraças. De certo modo, a aldeia de Haines Junction, no Yukon, parece tão remota como a plataforma petrolífera de Slade — este lugarejo fica nos confins do Canadá, no meio de uma floresta de árvores de folha perene no sopé de uma cordilheira coberta de gelo. Todos os habitantes da aldeia pensam que ela se chama Marie Iden— o primeiro nome é inspirado na primeira mulher que ganhou um Prémio Nobel e cujo trabalho levou à descoberta da radioatividade, o último nome num dos seus escritores de thrillers preferidos. Vive num quarto por cima da taberna e é paga por baixo da mesa para servir ao balcão aos fins de semana. Não precisa do dinheiro. Os conhecimentos que tem do mercado futuro transformarão os seus investimentos em milhões durante os próximos anos, mas é bom manter-se ocupada, e poderá levantar suspeitas se não tiver uma aparente fonte de rendimentos. O quarto dela não é nada de especial— uma cama, um toucador e uma janela com vista para a autoestrada menos movimentada que já viu, mas, pelo menos de momento, é tudo o que precisa. Trava conhecimentos, não faz amigos, e passam pelo bar e pela aldeia viajantes suficientes para proporcionar uma ocasional ligaçãopara combater a solidão. E ela sente-se só, mas essa emoção parece ser a norma por estas bandas. Não demorou muito a perceber que Haines Junction é um refúgio para uma classe de pessoas diferente. Aquelas que procuram paz. Aquelas que procuram esconder-se. E, é claro, aquelas que procuram as duas coisas. Sente a falta do estímulo mental do seu trabalho. Sente a falta de estar num laboratório. Sente a falta de ter um objetivo. Sente-se dilacerada quando pensa no que os pais deverão achar do seu desaparecimento. Sente- se culpada a todas as horas de todos os dias por não estar a construir a cadeira de memória que poderia preservar as memórias nucleares de pessoas como a sua mãe. Passou-lhe pela cabeça que uma solução para todos esses problemas seria matar Slade. Seria bastante fácil chegar perto dele —podia ligar a Jee- woon, dizer que reconsiderou a proposta—, mas isso vai contra os seus princípios. Para o melhor ou para o pior, simplesmente não é essa pessoa. Assim, reconforta-se com a noção de que cada dia que passa neste recanto isolado do mundo, sem que Slade a descubra, é um dia em que mantém o mundo seguro contra aquilo que ela tem o potencial de criar. Ao fim de dois anos, consegue credenciais e documentos de identificação falsos na Dark Web e muda-se para Anchorage, no Alasca, onde se oferece como assistente de investigação para um neurocientista na universidade— um homem bom que não faz ideia de que um dos seus subalternos é a mais notável cientista de investigação do mundo. Ela passa os dias a entrevistar doentes de Alzheimer e a registar as suas memórias em processo de deterioração ao longo de semanas e meses enquanto a doença evolui pelos seus cruéis e bárbaros estágios. O trabalho não é propriamente revolucionário, mas pelo menos está a aplicar o seu intelecto numa área de estudo pela qual é apaixonada. O tédio e a inutilidade do tempo que passou no Yukon deixaram-na à beira da depressão. Há dias em que deseja desesperadamente começar a construir um microscópio MEG e o dispositivo de reativação como um meio de capturar e preservar as memórias das pessoas que entrevista, as quais estão, aos poucos, a perder a sua identidade e as memórias que as definem. Porém, é demasiado arriscado, pois poderia chamar a atenção de Slade para o seu trabalho, ou alguém poderia, tal como aparentemente aconteceu com ela, dar por acidente o salto da reativação de memória para viagem na memória. Não se pode confiar tecnologias com tal poder aos humanos— com a divisão do átomo, passou-se à bomba atómica. A capacidade de mudar a memória, e, com isso, a realidade, seria no mínimo tão perigosa, em parte porque seria muito tentadora. Ela própria não iria mudar o passado agora e à primeira oportunidade? Mas a existência da cadeira foi revertida, ela desapareceu, e não há qualquer ameaça para a memória e para o tempo, a não ser o conhecimento na sua própria mente, que ela levará consigo para a sepultura. A ideia de se suicidar passou-lhe pela cabeça mais do que uma vez. Seria a derradeira apólice de seguro contra a possibilidade de Slade a encontrar e obrigar a colaborar. Chegou mesmo a ponto de preparar comprimidos de cloreto de potássio para o caso de esse dia chegar. Tem-nos sempre com ela, num medalhão de prata à volta do pescoço. Helena estaciona num lugar para visitantes perto da entrada e sai para o tórrido calor de agosto. O recinto está bem tratado. Há miradouros, fontanários e zonas para fazer piqueniques. Não sabe como o pai consegue pagar este sítio. Regista-se na receção e tem de escrever o nome num formulário de entrada de visitas. Enquanto a administrativa faz uma cópia da sua carta de condução, Helena olha para todo o lado, ner vosa. Há três anos que está neste novo friso cronológico. As falsas memórias de Slade do tempo que passaram juntos na sua plataforma petrolífera ter- lhe-iam chegado na manhã de 6 de julho de 2009, o mesmo momento (no friso cronológico anterior) em que ela morreu no tanque de privação sensorial e regressou à memória de quando Jee-woon foi encontrar-se com ela no laboratório de Stanford. Se Slade não a procurou antes disso, estará a procurar agora. O mais provável é que tenha pagado a alguém daqui para o avisar se Helena aparecer. O que acabou de acontecer. Porém, não veio aqui sem saber o risco que corre. Se Slade ou um dos seus homens a identificar, está preparada para lidar com a situação. Levanta a mão e toca no medalhão que traz ao pescoço. —Aqui tem, querida. —A administrativa entrega um crachá de visitante a Helena. —A Dorothy está no quarto 117, ao fundo do corredor. Vou abrir- lhe a porta. Helena espera enquanto as portas da ala de doentes de Alzheimer abrem devagar. Os cheiros de produtos de limpeza, urina e comida de cantina misturam- se e invocam a memória da última vez que esteve numa unidade de cuidados para adultos— há vinte anos, durante os últimos meses de vida do avô. Passa por uma área comum, onde os residentes num estado de letargia causada pela forte medicação estão sentados à volta de um televisor que transmite um programa sobre a natureza. A porta do quarto 117 está entreaberta; Helena empurra-a. Segundo os seus cálculos, já não vê a mãe há cinco anos. Dorothy está sentada numa cadeira de rodas com um cobertor por cima das pernas, a olhar pela janela para o sopé das Montanhas Rochosas. Helena deve ter surgido na sua visão periférica, porque a mãe vira a cabeça devagar para a porta. Helena sorri. —Olá. A mãe fita-a sem pestanejar. Nenhum sinal de a reconhecer. —Posso entrar? A mãe baixa a cabeça num gesto que Helena toma por assentimento. Entra e fecha a porta. —Gosto muito do teu quarto— diz Helena. A televisão, sem som, está sintonizada num canal de notícias. Há fotografias por toda a parte. Dos seus pais quando eram mais novos, nos bons velhos tempos. Dela em bebé, em criança, acabada de fazer dezasseis anos sentada ao volante do Chevy Silverado da família, no dia em tirou a carta de condução. Segundo a página da CaringBridge que o pai fez, Dorothy passou para os cuidados para doentes de Alzheimer depois do Natal passado, quando ela deixou o forno ligado e quase incendiou a cozinha. Helena senta-se ao lado da mãe à pequena mesa circular junto à janela. Ao meio, um ramo de flores que ali estará há bastante tempo, tendo largado um manto de folhas e pétalas à volta da jarra. A fragilidade da mãe faz lembrar uma ave e a luz do final da manhã que lhe incide no rosto confere-lhe uma aparência diáfana. Embora só tenha sessenta e cinco anos, parece muito mais velha. Tem os cabelos grisalhos rarefeitos e manchas de velhice cobrem-lhe as mãos, que mantêm um aspeto extraordinariamente feminino e elegante. —Sou a tua filha, a Helena. —A mãe olha para ela, desconfiada. —Que magnífica vista sobre as montanhas. —Viste a Nance? — pergunta a mãe. Não parece a voz dela. As palavras saem arrastadas e com um esforço considerável. Nancy era a irmã mais velha de Dorothy. Morreu no parto há mais de quarenta anos, antes de Helena nascer. —Não— responde Helena. —Ela já partiu há bastante tempo. A mãe olha pela janela. Embora o céu esteja limpo por cima das planícies e no sopé da montanha, mais ao longe começaram a formar-se umas nuvens negras à volta dos picos mais altos. Helena põe-se a pensar que esta doença é uma forma sádica e esquizofrénica de viagem de memória, precipitando as vítimas pela vastidão das suas vidas, ludibriando-as a pensar que estão a viver no passado, deixando-as à deriva no tempo. —Desculpa por não te visitar mais vezes— diz Helena. —Não é que não queira… Penso em ti e no pai todos os dias, mas estes últimos anos têm sido… muito complicados. Tu és a única pessoa do mundo a quem posso contar isto, mas tive a oportunidade de construir a minha cadeira de memória. Acho que já te falei disso. Foi por ti que a criei. Queria salvar as tuas memórias. Pensei que iria mudar o mundo. Pensei que tinha obtido tudo aquilo com que sempre sonhara, mas fracassei. Deixei-te ficar mal. E a todas as pessoas como tu, que poderiamter utilizado a minha cadeira para salvarem parte de si mesmas desta… maldita doença. —Helena enxuga as lágrimas. Não consegue compreender se a mãe está a prestar atenção. Talvez isso não importe. —Eu trouxe uma coisa horrível ao mundo, mamã. Não foi minha intenção e agora tenho de passar o resto da vida escondida. Não deveria vir aqui, mas… precisava de te ver uma última vez. Preciso que me ouças dizer… —Hoje vai cair uma tempestade sobre as montanhas— diz Dorothy sem desviar o olhar das nuvens escuras. Helena solta um suspiro profundo e trémulo. —Parece que sim, não é? —Eu costumava fazer caminhadas naquelas montanhas com a minha família num sítio chamado Lost Lake. —Eu lembro-me disso. Estava lá contigo, mãe. —Costumávamos nadar na água gelada e depois deitávamo-nos nas pedras quentes. O céu tão azul que era quase púrpura. Os prados tinham flores silvestres. Parece que foi ontem. Ficam sentadas em silêncio. Cai um relâmpago no cume de Longs Peak. Demasiado longe para se ouvir o trovão. Helena interroga-se com que frequência o seu pai a visitará. Imagina como deve ser difícil para ele. Daria tudo para o voltar a ver. Helena pega em todas as fotografias e dedica-se a mostrar cada uma à mãe, indicando-lhe caras, dizendo nomes, relembrando momentos recorrendo à sua própria memória. Começa a escolher memórias que acha que a mãe consideraria as mais especiais e impor tantes, mas então percebe que é uma escolha demasiado íntima para ser feita por outra pessoa. Só pode partilhar as suas. É então que acontece algo bastante estranho. Dorothy olha para ela e, por instantes, os seus olhos tornam-se nítidos, lúcidos e intrépidos— como se a mulher que Helena sempre conheceu tivesse, vá-se lá saber como, desemaranhado a teia de demência e trajetos neurais destruídos para ver a filha por um fugaz momento. —Sempre me orgulhei de ti— diz a mãe. —A sério? —Tu és a melhor coisa que eu alguma vez fiz. Banhada em lágrimas, Helena abraça a mãe. —Desculpa não te conseguir salvar, mãe. Porém, quando se afasta, o momento de lucidez passou. Está a olhar para os olhos de uma desconhecida. BARRY Junho de 2010 – 6 de novembro de 2018 Certa manhã, acorda e é o dia de formatura da escola secundária de Meghan. A filha está no quadro de honra e faz um discurso maravilhoso. Ele chora. E depois o outono chega, e passa a ser só ele e Julia numa casa muito silenciosa. Certa noite, na cama, ela vira-se para ele e diz: —É assim que queres passar o resto da vida? Ele não sabe o que responder. Ou melhor, até sabe. Sempre atribuíra as culpas do fim do seu casamento com Julia à morte de Meghan. Fora a sua família —os três— que mantivera a união entre ele e Julia. Quando Meghan morrera, esse laço desintegrara-se no espaço de um ano. Só agora consegue admitir que a sua relação sempre esteve condenada. A segunda viagem pelo seu casamento apenas fora uma morte mais lenta e menos dramática, desencadeada pelo crescimento de Meghan, a saída de casa, acabando por seguir a sua vida. Por isso, sim, ele sabe. Apenas não o quer dizer. Este relacionamento estava destinado a um período específico, não mais. A sua mãe morre exatamente da maneira como ele se lembra. Meghan já está no bar quando ele chega, a sorver um martíni e a enviar uma mensagem de texto. Por instantes, ele não a vê, pois ela é apenas mais uma mulher bonita num bar chique de Manhattan, a beber um cocktail ao final da tarde. —Olá, Megs. Ela pousa o telemóvel, com o ecrã virado para baixo, e desce do banco, abraça-o com mais força do que de costume, apertando-o junto ao corpo, sem o largar. —Como estás? — pergunta. —Bem, estou bem. —De certeza? —Sim. Ela sonda-o, desconfiada, voltando para o seu lugar ao balcão, e pede uma San Pellegrino e uma rodela de lima. —Como corre o trabalho? — pergunta ele. É o primeiro ano dela no cargo de coordenadora comunitária numa organização sem fins lucrativos. —É fantasticamente estafante, mas não me apetece falar de trabalho neste momento. —Sabes que estou orgulhoso de ti, não sabes? —Sei, dizes-me isso sempre que nos encontramos. Olha, preciso de te perguntar uma coisa. —Diz. —Sorve um pouco de água mineral com lima. —Quanto tempo foste infeliz? —Não sei. Algum tempo. Anos, talvez. —Tu e a mãe mantiveram-se juntos por minha causa? —Não. —Juras? —Juro. Eu queria que resultasse. Sei que a tua mãe também queria. Por vezes, só demora algum tempo até as pessoas por fim tomarem a decisão. É possível que tenhas contribuído para não repararmos em como estávamos infelizes, mas nunca foste o motivo por que continuámos juntos. —Estiveste a chorar? —Não. —O tanas. Ela é boa. Ele assinou o acordo de separação no escritório do seu advogado há uma hora e, se não surgir um imprevisto, um juiz decretará a decisão de divórcio dentro do próximo mês. Fora uma longa caminhada até chegar aqui e, sim, grande parte do caminho fê-lo a chorar. É uma das coisas boas que Nova Iorque tem— ninguém se importa com o nosso estado emocional, sobretudo quando não há sangue em causa. Chorar no passeio em plena luz do dia não é um ato menos privado do que chorar no nosso quarto a meio da noite. Talvez seja porque ninguém quer saber. Talvez seja porque é uma cidade brutal e todos já passaram por isso numa ou noutra ocasião. —Como está o Max? — pergunta Barry. —Foi à vida dele. —O que aconteceu? —Percebeu a realidade. —Que realidade? —Que a Meghan é uma viciada no trabalho. Barry pede outra água mineral. —Estás com muito bom aspeto, pai. —Achas? —Acho. Estou ansiosa por começar a ouvir as histórias horríveis sobre os teus encontros. —Mal posso esperar por começar a tê-los. Meghan dá uma gargalhada e alguma coisa na maneira como mexe a boca faz com que ele volte a ver o rosto da sua menina, mas apenas por um fugaz segundo. —No domingo fazes anos— diz Barry. —Eu sei. —Eu e a mãe queremos levar-te a tomar o brunch. —Tens a certeza de que não será constrangedor? —Oh, é bem possível, mas nós queremos fazê-lo na mesma se estiveres disposta a isso. Queremos voltar a estar bem. —Alinho— diz Meghan. —Alinhas? —Alinho. Também quero que voltemos a estar bem. Depois das bebidas com Meghan, come qualquer coisa na sua pizaria preferida na cidade— um tasco em Upper West Side perto da sua esquadra. É um lugar onde se vai à noite, com atitude, luz fraca e sem lugares sentados— apenas um balcão a toda a volta do restaurante, os clientes de pé, segurando pratos de papel gordurosos com enormes fatias de piza e copos gigantes de refrigerantes altamente açucarados. É sexta-feira à noite, e barulhento, perfeito. Pensa em beber um copo, mas acha que beber sozinho depois de assinar os documentos do divórcio é demasiado patético e, em vez disso, volta para o carro. Conduz pelas ruas da cidade a sentir-se feliz, emotivo e desconcertado pelo puro mistério de estar vivo. Espera que Julia esteja bem. Enviou-lhe uma mensagem depois de assinar os papéis. Escreveu que estava feliz por continuarem amigos e que estaria sempre disponível para a ajudar no que fosse preciso. Sentado no meio do trânsito, consulta o telemóvel outra vez para ver se ela respondeu. Tem uma mensagem dela: Estarei sempre aqui para ti. Isso nunca mudará. Não se lembra de se sentir assim tão feliz. Olha pelo para-brisas. Apesar de o semáforo estar verde, os carros ainda não começaram a andar. A polícia está a desviar o trânsito da rua mais à frente. Baixa o vidro e grita para o polícia mais perto: —O que se passa? – O homem faz sinal para ele seguir. Barry liga as luzes da grelha e aciona a sirene, o que chama a atenção do jovem agente, que vem a correr até ele. —Desculpe, mandaram-nos encerrar a rua mais adiante. Está um caos. —O que aconteceu? —Uma senhora saltou do prédio no quarteirão a seguir. —Qual? —Aquele arranha-céus ali. Barry olha para a torre art déco branca com uma coroa de vidro e aço; forma-se-lhe um nó no estômago. —De que andar? — pergunta. —O quê? —De que andar é que ela saltou? Uma ambulância, com as luzes e as sirenes ligadas, passa a toda a velocidade no cruzamentoum metro de altura à volta da secretária, cheias de milhares de resumos e artigos. — Desculpe lá a barafunda. Arranjo-lhe já uma cadeira. — Eu faço isso. Jee-woon arrasta uma cadeira rebatível e senta-se à frente dela, os olhos a perscrutar as paredes, que estão quase completamente cobertas de imagens de alta resolução de memórias de ratinhos e atividade neuronal de doentes com demência e Alzheimer. — Em que posso ajudá-lo? — pergunta ela. — O meu patrão ficou muito interessado no artigo sobre memória que publicou na revista Neuron. — O seu patrão tem nome? — Bem, isso depende. — De quê? — De como correr esta conversa. — Porque teria eu uma conversa com alguém que não sei quem representa? — Porque o seu financiamento de Stanford acaba dentro de seis semanas. Helena soergue uma sobrancelha. — O meu patrão paga-me muito bem para saber tudo sobre as pessoas pelas quais se interessa— diz ele. — O senhor tem noção de que o que acabou de dizer é completamente sinistro, não tem? Jee-woon leva a mão à sua sacola de couro e tira um docu mento de dentro de uma capa azul-marinho. A proposta de subsídio dela. — É claro! — diz ela. — O senhor é da Mountainside Capital! — Não. E eles não a irão financiar. — Nesse caso, como arranjou isso? — Não importa. Ninguém a irá financiar. — Como sabe? — Porque isto… — Lança a proposta de subsídio dela para cima dos destroços na sua secretária. — Isto é pouco ambicioso. É mais do mesmo daquilo que tem feito em Stanford nos últimos três anos. Não é suficientemente inovador. A senhora tem trinta e oito anos, o que equivale a ter noventa na comunidade académica. Um dia, num futuro muito distante, vai acordar e perceber que os seus melhores tempos já lá vão. Que está ultrapassada… — Acho que é melhor ir-se embora. — Não a quero insultar. Se me permite a ousadia, o seu problema é que tem medo de pedir aquilo que realmente deseja. Ocorre-lhe que, por algum motivo, este desconhecido está a querer ludibriá-la. Sabe que não deve continuar a envolver-se, mas não consegue conter-se. — E por que motivo tenho medo de pedir aquilo que realmente desejo? — Porque aquilo que realmente deseja levaria a banca à falência. A senhora não precisa de sete algarismos. Precisa de nove, talvez dez. Precisa de uma equipa de programadores para a ajudar a desenvolver um algoritmo para catalogação de memória complexa e projeção. A infraestrutura para ensaios em humanos. Ela fita-o por cima da secretária. — Eu nunca falei em ensaios em humanos naquela proposta. — E se eu lhe dissesse que lhe daremos tudo aquilo que desejar? Financiamento ilimitado. Estaria interessada? O coração dela bate cada vez mais depressa. É assim que acontece? Ela pensa na cadeira de cinquenta milhões de dólares que tem sonhado construir desde que a sua mãe começou a esquecer a vida. Por estranho que pareça, nunca a imagina completamente materializada, apenas sob a forma de esquemas técnicos no pedido de patente que um dia entregará, intitulada Plataforma Imersiva para Projeção de Memórias de Longo Prazo, Explícitas e Episódicas. — Helena? — Se eu concordar, dir-me-á quem é o seu patrão? — Sim. — Concordo. Ele diz-lhe. Deixando-a por momentos boquiaberta, Jee-woon tira outro documento da sacola e passa-lho por cima da caixa de cartão. — O que é isto? — indaga. — Um contrato de trabalho e confidencialidade. Não negociável. Creio que considerará os termos financeiros bastante generosos. BARRY 4 de novembro de 2018 O café localiza-se num lugar pitoresco nas margens do rio Hudson, à sombra da West Side Highway. Barry chega cinco minutos mais cedo e encontra Julia já sentada à mesa debaixo de um guarda-sol. Cumprimentam- se com um abraço fugaz e frágil, como se fossem os dois feitos de vidro. — É bom ver-te — diz ele. — Ainda bem que concordaste em vir. Sentam-se. Um empregado vem saber o que querem beber. — Como está o Anthony? — pergunta Barry. — Ótimo. Atarefado com a renovação do átrio do Lewis Building. O teu trabalho corre bem? Ele não lhe fala do suicídio que não conseguiu impedir há duas noites. Em vez disso, fazem conversa de circunstância até lhes servirem o café. É domingo e a multidão saiu em força para tomar o brunch. Todas as mesas vizinhas parecem uma fonte de conversas sociáveis e gargalhadas, mas eles sorvem o café em silêncio à sombra. Nada e tudo para dizer. Uma borboleta esvoaça à volta da cabeça de Barry até que ele a afasta com delicadeza. Por vezes, a altas horas da noite, ele imagina elaboradas conversa s com Julia. Conversas em que ele lhe diz tudo o que lhe tem apoquentado o coração todos estes anos — a dor, a raiva, o amor — e depois ouve-a fazer o mesmo. Um desanuviar da atmosfera em que ele por fim a compreende e ela o compreende a ele. Quando estão na presença um do outro, porém, nunca é o mesmo. Ele não consegue convencer-se a dizer o que lhe vai na alma, que parece sempre preso e guardado a sete chaves, envolto em tecido cicatricial. O embaraço já não o incomoda como dantes. Passou a aceitar a noção de que faz parte da vida enfrentar os nossos fracassos e, por vezes, esses fracassos são pessoas que amámos outrora. — Gostaria de saber o que estaria ela a fazer hoje — diz Julia. — Creio que estaria aqui sentada connosco. — Refiro-me à sua profissão. — Ah… Seria advogada, claro. Julia ri-se — um dos sons mais adoráveis que ele já ouviu — e não se lembra da última vez que a ouviu rir. Uma experiência bela, mas ao mesmo tempo dolorosa. Como uma janela secreta para a pessoa que ele conheceu. — Ela era capaz de refutar qualquer coisa — diz Julia. — E geralmente levava a sua avante. — Nós não lhe conseguíamos resistir. — Um de nós. — Eu? — diz ele, fingindo-se ofendido. — Aos cinco anos, ela já te tinha topado como sendo o elo mais fraco. — Lembras-te daquela vez em que ela nos convenceu a treinar a fazer marcha-atrás na rampa de acesso… — Convenceu a ti. — … e arrombou o portão da garagem com o meu carro? Julia dá uma gargalhada. — Ficou tão chateada. — Não, envergonhada. — Por instantes, recorda o ocorrido. Ou pelo menos um fragmento. Meghan sentada ao volante do seu velho Camry, a traseira enfiada pelo portão da garagem, a cara dela ruborizada e as lágrimas a escorrerem-lhe pelas maçãs do rosto enquanto agarrava o volante até ficar com os nós dos dedos brancos. — Ela era obstinada e inteligente, e teria feito alguma coisa interessante na vida. — Acaba de beber o café e serve outra dose da cafeteira em aço inoxidável que pediram para os dois. — É bom falar sobre ela — diz Julia. — Ainda bem que finalmente o posso fazer. O empregado vem perguntar o que querem comer e a borboleta regressa, pousando na superfície da mesa ao lado do guardanapo de Barry, que ainda está dobrado. Estende as asas, vaidosa. Ele faz um esforço para afastar a ideia de que é Meghan, a assombrá-lo neste dia, de entre todos os dias. É uma ideia estúpida, claro, mas o pensamento per siste. Como daquela vez em que um tordo o seguiu por oito quarteirões em NoHo ou quando, há pouco tempo, durante um passeio com o cão no Fort Washington Park, uma joaninha não parou de lhe pousar no pulso. Quando a comida chega, Barry imagina Meghan sentada à mesa com eles. A rebeldia da adolescência aquietada. A vida inteira pela frente. Por muito que se esforce, não consegue ver a sua cara, apenas as mãos, sempre em movimento ao falar, tal como a mãe se mexe quando está confiante e entusiasmada com alguma coisa. Não tem fome, mas faz um esforço para comer. Parece-lhe que Julia está a pensar em alguma coisa, mas ela limita-se a remexer com o garfo no que sobra da sua tortilha e ele beberica um pouco de água, dá outra dentada na sanduíche e pousa o olhar sobre o rio, ao longe. O Hudson vem de um lago nas montanhas Adirondack chamado Lake Tear of the Clouds, o lago das lágrimas das nuvens. Foram lá certo verão quando Meghan tinha oito ou nove anos. Acamparam no meio dos abetos. Assistiram a uma chuva de estrelas. Tentaram mentalizar-se de que aquele pequeno lago na montanha era a nascente do rio Hudson. É umaà frente. —Do quadragésimo. Parece outro suicídio por SFM. Barry encosta à berma, sai do carro e desata a correr pela rua, mostrando o distintivo aos agentes que estão a delimitar a área. Abranda ao chegar ao pé de um círculo de polícias, paramédicos e bombeiros, todos reunidos à volta de um Lincoln Town Car preto com o tejadilho completamente esmagado. Ao aproximar-se, preparara-se para ver os grotescos efeitos sobre o corpo humano provocados por uma queda de mais de cento e vinte metros, mas Ann Voss Peters parece quase serena. As únicas lesões externas visíveis são os pequenos fios de sangue que lhe saem das orelhas e da boca. Caiu de costas de uma maneira que o tejadilho esmagado do Town Car parece estar a embalá-la. Tem as pernas cruzadas pelos tornozelos e o braço esquerdo cruzado por cima do peito e encostado à cara, como se estivesse só a dormir. Um anjo caído do céu. Não é que se tenha esquecido. As suas recordações do Hotel Memória, da sua morte no tanque de privação sensorial e o regresso à noite em que Meghan morreu estiveram sempre presentes, nas cercanias da consciência — um monte de memórias desfocadas. Porém, os últimos onze anos também se assemelhavam a um sonho. Foi absorvido pelas minudências da vida e, sem uma ligação palpável à vida da qual fora arrancado, tornara-se demasiado fácil relegar o que acontecera para os lugares mais recônditos da consciência e da memória. Porém, agora, sentado num café nas margens do rio Hudson com Julia e Meghan na manhã do vigésimo sexto aniversário da filha, tem uma consciência ofuscante de estar a viver este momento pela segunda vez. Recorda-se de tudo numa investida de memória translúcida como a água. Ele e Julia sentados a uma mesa perto deste local, a imaginar o que Meghan estaria a fazer se ainda fosse viva. Ele supusera que seria advogada. Tinham-se rido sobre isso e recordado aquela vez em que ela entrara com o carro pelo portão da garagem, antes de compararem memórias de umas férias passadas em família na nascente do rio Hudson. Neste momento, a sua filha está sentada à frente dele e, pela primeira vez em muito tempo, sente-se desorientado pela presença dela, pelo facto de ela existir. A sensação é tão forte como os primeiros dias em que regressou à memória, quando cada segundo resplendecia como uma dádiva. Pelas três da madrugada, Barry desperta com um tremor ao ouvir fortes baques no seu apartamento. Levanta-se da cama, saindo aos poucos de debaixo de um manto de sono enquanto cambaleia para fora do quarto. Jim- Bob, o cão que resgatou de um abrigo, está a ladrar ferozmente à porta. Ao espreitar pela vigia da porta, acorda completamente— Julia está debaixo da luz turva do corredor. Abre o ferrolho, retira a corrente e abre a porta. Ela tem os olhos inchados de chorar, o cabelo em desalinho e está a usar uma gabardina por cima do pijama, os ombros cobertos de neve. —Tentei ligar-te, mas tens o telefone desligado— diz ela. —O que aconteceu? —Posso entrar? Ele cede-lhe passagem e ela entra para o apartamento; nos seus olhos há uma intensidade frenética. Barry pega-lhe pelo braço com delicadeza e condu-la até ao sofá. —Estás a assustar-me, Jules. O que se passa? Ela olha para ele, trémula. —Já ouviste falar da síndrome das falsas memórias? —Já, porquê? —Acho que sofro disso. Ele sente um aperto no estômago. —Porque dizes isso? —Há uma hora, acordei com umas dores de cabeça terríveis e muitas memórias de uma outra vida. Memórias cinzentas e desalentadas. —Os seus olhos enchem-se de lágrimas. —A Meghan morreu atropelada quando andava no secundário. Nós divorciámo-nos um ano depois disso. Eu casei- me com um homem chamado Anthony. Tudo muito real, como se o tivesse, deveras, vivido. Nós os dois tomámos o brunch ontem no mesmo café junto ao rio, só que a Meghan não estava lá. Estava morta há onze anos. Esta noite, acordei sozinha na minha cama, sem o Anthony, e percebi que, na realidade, nós os dois almoçámos com ela ontem, que ela está viva. — As mãos de Julia tremem violentamente. — O que é real, Barry? Que conjunto de memórias representa a verdade? — Desata a chorar. — A nossa filha está viva? —Está. —Mas eu lembro-me de ir contigo à morgue. Vi o corpo dela dilacerado. Ela morreu. Lembro-me como se fosse ontem. Tiveram de me tirar de lá. Eu estava a gritar. Lembras-te, não lembras? Isso aconteceu? Lembras-te de ela morrer? Barry senta-se no sofá de boxers, percebendo que isto tudo faz algum sentido terrível. Ann Voss Peters saltou do Poe Building há três noites. Ele tomou o brunch com Meghan e Julia no dia anterior, o que significa que esta é a noite em que ele foi mandado de volta para a memória da última vez que viu a sua filha viva. O regresso a este momento deve ter desencadeado todas as memórias de Julia desse friso cronológico sem vida de quando Meghan morreu. —Barry, estou a enlouquecer? É então que percebe: se Julia tem essas memórias, Meghan também as deve ter. Olha para Julia. —Temos de ir. —Porquê? Põe-se de pé. —Imediatamente. —Barry… —Ouve o que te digo! Tu não estás a enlouquecer, não estás maluca. —Também te lembras de ela morrer? —Lembro. —Como é possível? —Juro que explicarei tudo, mas agora temos de ir ter com a Meghan. —Porquê? —Porque ela está a experienciar exatamente a mesma coisa que tu. Está a lembrar-se da sua própria morte. Barry mete pela West Side Highway, em direção a sul, debaixo de um nevão, deixando para trás Washington Heights e a zona norte de Manhattan; as ruas estão desertas a esta hora da noite. Julia tem o telemóvel encostado ao ouvido; vai dizendo: —Meghan, por favor, liga-me quando receberes esta mensagem. Estou preocupada contigo. Eu e o teu pai estamos a ir para aí. —Olha para Barry ao seu lado e diz:— Deve estar apenas a dormir. Estamos a meio da noite. Seguem caminho pelas ruas desertas da zona baixa de Manhattan, atravessando a ilha rumo a NoHo; os pneus derrapam no alcatrão escorregadio. Barry pára em frente ao prédio de Meghan e saem para a neve intensa. À entrada, carrega cinco vezes na campainha do apartamento de Meghan, mas ela não atende. Vira-se para Julia. —Tens uma chave? —Não. Ele começa a tocar nas campainhas de outros apartamentos, até que, por fim, alguém lhes abre a porta. O prédio de Meghan é um edifício de aspeto duvidoso do período pré- guerra e não tem elevador. Barry e Julia sobem a correr seis lanços de escadas sombrios até ao último andar e correm por um corredor mal iluminado. O apartamento J fica ao fundo— a bicicleta de Meghan está encostada ao vidro da saída de emergência. Ele bate à porta com força com o punho fechado, mas ninguém responde. Recua um passo, levanta a perna direita e dá um pontapé na porta. Sente uma dor lancinante pela perna acima, mas a porta apenas estremece. Desfere outro golpe, agora com mais força. A porta abre com estrondo e entram de rompante para a penumbra. —Meghan! – Apalpa a parede e acende as luzes, que iluminam um minúsculo estúdio. Há uma alcova para dormir à direita, mas não está lá ninguém. À esquerda, uma cozinha e um pequeno corredor que dá para a casa de banho. Começa a caminhar nessa direção, mas Julia passa por ele a correr e a gritar o nome da filha. Ao fundo do corredor, deixa-se cair de joelhos e diz: —Querida, oh, meu Deus, estou aqui. Barry chega ao fundo do corredor e o coração cai-lhe aos pés. Meghan está deitada no chão de linóleo e Julia ajoelhada ao lado dela, passando-lhe a mão pela cabeça. Meghan tem os olhos abertos e, por um agonizante segundo, pensa que ela está morta. Ela pestaneja. Barry levanta o braço de Meghan com cuidado, tomando-lhe o pulso na artéria radial. Está forte, talvez demasiado forte, e bastante rápido. Interroga-se se ela se recordará do trauma de ser atingida por um objeto de duas toneladas a deslocar-se a cem quilómetros por hora, do momento em que a sua consciência parou, do que quer que tenha acontecido depois. Como será uma pessoa lembrar-se da própria morte? Como é que alguém se pode lembrar de um estado de não existência? Trevas? O nada? Parece-lheuma impossibilidade, como fazer uma divisão por zero. —Meghan— diz baixinho. —Consegues ouvir-me? Ela mexe-se, fitando-o, e os seus olhos parecem enormes, como se estivesse mesmo a vê-lo. —Pai? —Eu e a mãe estamos aqui, querida. —Onde é que eu estou? —No chão da casa de banho do teu apartamento. —Estou morta? —Não, é claro que não. —Tenho uma memória que não existia. Eu tinha quinze anos e ia a pé ter com os meus amigos ao Dairy Queen. Ia a falar ao telemóvel, não estava a pensar em nada, e atravessei a rua. Lembro-me de ouvir o motor de um carro. Virei-me e vi uns faróis a vir na minha direção. Lembro-me de o carro embater em mim e depois de estar deitada de costas, a pensar em como tinha sido estúpida. Não me magoei muito, mas não me consegui mexer, e começou a ficar tudo escuro. Não conseguia ver nada e soube o que estava para vir. Soube que era o fim de tudo. Tens a certeza de que não estou morta? —Estás comigo e com a mãe— diz Barry. —Estás bem viva. Os olhos de Meghan adejam de um lado para o outro, como um computador a processar dados. —Não sei o que é real— diz ela. —Tu és real. Eu sou real. Este momento é real. —Todavia, mesmo ao dizê-lo, ele não tem a certeza. Barry perscruta a sua ex-mulher, e ocorre-lhe que ela se parece com a Julia de antigamente, aquele peso sombrio da morte de Meghan nos olhos. —Que conjunto de memórias te parece mais real? — pergunta Julia. —Um não é mais real do que o outro— diz ela. —É só que estou a viver num mundo que se alinha com a minha filha estar viva. Graças a Deus. Mas sinto que vivi as duas realidades. O que está a acontecer-nos? Barry expira demoradamente e encosta-se à porta do chuveiro. —Ah… Nem sei o que lhe chamar… Na vida passada em que a Meghan morreu, eu estava a investigar um caso relacionado com a síndrome das falsas memórias. Havia coisas que não batiam certo. Certa noite… esta noite, para ser preciso… encontrei um hotel esquisito. Fui drogado e, quando despertei, estava amarrado a uma cadeira, virado para um homem que ameaçou matar-me se eu não lhe contasse os pormenores da noite em que a Meghan morreu. —Porquê? —Não faço ideia. Nem sequer sei o nome dele. Mais tarde, meteram-me numa câmara de privação sensorial. Ele paralisou-me e depois provocou-me uma paragem cardíaca. Quando estava a morrer, comecei a experienciar uns intensos lampejos da memória que lhe tinha descrito. Não sei como, mas a minha consciência de cinquenta anos foi… devolvida ao corpo da minha versão de trinta e nove anos. Julia arregala os olhos e Meghan senta-se direita. —Sei que parece uma loucura —diz ele—, mas, de repente, dei por mim na noite em que a Meghan morreu. —Olha para a filha. —Tu tinhas acabado de sair de casa. Corri atrás de ti e apanhei-te segundos antes de atravessares a rua e seres atropelada por um Mustang a alta velocidade. Lembras-te disso? —Acho que sim. Tu estavas estranhamente emotivo. —Salvaste-a— diz Julia. —Eu estava sempre a pensar que tudo não passava de um sonho ou de uma experiência estranha da qual seria retirado a qualquer momento, mas os dias passaram, depois os meses, depois os anos, e eu só… deixei seguir o rumo da nossa vida. Pareceu-me tudo muito normal e, ao fim de algum tempo, deixei de pensar muito naquilo que me aconteceu. Até há três dias. —O que foi que aconteceu há três dias?— pergunta Meghan. —Uma mulher saltou de um prédio no Upper West Side, que foi o evento que, em primeiro lugar, me levou a investigar aquele caso das falsas memórias. Foi como acordar de um longo sonho. Um sonho que durou uma vida. Esta é a noite em que eu fui mandado para aquela outra vida. Não consegue perceber se a expressão no semblante de Julia é de incredulidade ou de choque. Meghan tem os olhos vidrados. —Eu deveria estar morta— diz. Barry ajeita-lhe o cabelo atrás das orelhas, como costumava fazer quando ela era pequena. —Não, tu estás precisamente onde é suposto estares. Estás viva. Isto é que é real. Nesse dia, não vai trabalhar, e não apenas porque chegou ao seu apartamento às sete da manhã. Receia que as memórias dos colegas sobre a morte de Meghan também tenham vindo ao de cima na noite passada— um trecho de onze anos de falsas memórias em que a sua filha não esteve viva. Quando acorda, há no seu telemóvel uma torrente de notificações da sua lista de contactos— telefonemas não atendidos e mensagens de voz, mensagens de texto frenéticas sobre Meghan. Não responde a nenhuma. Primeiro, precisa de falar com Julia e Meghan. Devem combinar o que dizer às pessoas, embora não faça ideia do quê. Vai a pé até ao bar na esquina da rua de Meghan em NoHo para se encontrar com a filha e a ex-mulher, e dá com elas à espera num compartimento a um canto, tão perto da cozinha aberta que se consegue sentir o calor do forno e ouvir o tinido de tachos e panelas e dos alimentos a crepitar numa grelha. Barry senta-se ao lado de Meghan e atira o casaco para cima do banco. Ela está com um ar desgastado, desnorteado, em choque. Julia não se encontra muito melhor. —Como vai isso, Megs? — pergunta, mas a filha limita-se a fitá-lo, inexpressiva. Ele olha para Julia. —Falaste com o Anthony? —Tentei ligar-lhe, mas não consegui falar com ele. —Estás bem? Ele abana a cabeça, os olhos brilham com uma luz trémula. —Mas hoje não se trata de mim. Pedem comida e uma rodada de bebidas. —O que vamos dizer às pessoas?— pergunta Julia. —Hoje recebi mais de uma dúzia de telefonemas. —Eu também— diz Barry. —Acho que, de momento, devemos manter a versão de que se trata de síndrome das falsas memórias. Acho que é uma coisa de que poderão ter ouvido falar. —Não deveríamos contar às pessoas o que te aconteceu, Barry?— pergunta Julia. —Sobre aquele hotel estranho, a cadeira, e tu viveres esses onze anos uma segunda vez… Barry recorda-se do aviso que lhe fizeram na noite em que regressou à memória da morte de Meghan. Não diga a ninguém. Nem à sua mulher, nem à sua filha. A ninguém. —Este conhecimento de que dispomos, na realidade, é perigoso— diz ele. —Por agora, temos de guardar segredo. Tentar levar uma vida nor mal outra vez. —Como?— pergunta Meghan, conseguindo por fim desenredar a voz. — Eu já nem sei o que pensar da minha vida. —No início, as coisas serão estranhas —diz Barry—, mas voltaremos a encarreirar na nossa existência. Se há alguma coisa a dizer sobre a nossa espécie, é que sabemos adaptar-nos, não é? Ali perto, um empregado deixa cair um tabuleiro com bebidas. Meghan começa a sangrar do nariz. Ele sente um tremeluzir de dor por trás dos olhos e, do outro lado da mesa, Julia está sem dúvida a sentir algo do género. O bar fica em silêncio, todos sentados sem se mexer nas suas mesas. O único som é a música nos altifalantes e o zumbido proveniente de um televisor. Meghan tem as mãos a tremer. Julia também. E ele. Na televisão por cima do balcão, o apresentador do noticiário está a fitar a câmara, o sangue a escorrer-lhe pela cara enquanto procura as palavras. «Eu, hum… Vou ser franco, não sei exatamente o que acabou de acontecer, mas aconteceu alguma coisa.» A imagem muda para um plano em direto da zona limítrofe sul do Central Park. Há um prédio na West Fifty-Ninth Street que não estava ali há instantes. Com bem mais de seiscentos metros de altura, é de longe o prédio mais alto da cidade, constituído por duas torres, uma na Sixth Avenue, outro na Seventh, interligados no topo, formando um U alongado virado ao contrário. Meghan faz um som semelhante a um queixume. Barry agarra no casaco e desliza para fora do compartimento. —Aonde vais?— pergunta Julia. —Venham comigo. Passam pelos aturdidos clientes do restaurante e saem para a rua, onde se metem no Crown Vic de Barry. Ele liga as sirenes, acelera rumo a norte pela Broadway e depois vira para a Seventh Avenue. Barry só as consegue levar até à West Fifty-Third, onde a rua está intransitável devido ao tráfego. A toda a volta, as pessoas estão a sair dos carros. Abandonam o carro de Barry e caminham no meio da turba. Ao fim de vários quarteirões, param no meio da rua para o veremcom os próprios olhos. Estão rodeados por milhares de nova-iorquinos, a cabeça virada para o céu, muitos a tirar fotografias e a fazer vídeos com os telemóveis do novo acréscimo à linha de horizonte de Manhattan— a torre em forma de U localizada no extremo sul do Central Park. —Aquilo não estava ali há instantes, pois não?— diz Meghan. —Não— concorda Barry. —Não estava, mas ao mesmo tempo… —Está ali há anos— conclui Julia. Olham fixamente para o prodígio da engenharia chamado Big Bend enquanto Barry pensa que, até este momento, a SFM passara despercebida, registando-se casos isolados que causaram a devastação na vida de desconhecidos, mas isto afetará todos os habitantes da cidade, e muita gente de todo o mundo. Isto mudará tudo. O pôr do Sol reflete-se no vidro e no aço da torre ocidental do edifício e as memórias da existência de Barry com este edifício na cidade estão a chegar em catadupa. —Eu estive na cobertura— diz Meghan; as lágrimas correm-lhe pela cara. É verdade. —Contigo, pai. Foi a melhor refeição da minha vida. Quando ela concluiu o bacharelato em Serviço Social, ele levou-a a jantar no Curve, o restaurante na cobertura com uma vista espetacular sobre o parque. Não foram apenas as vistas que os levaram lá; Meghan era apaixonada pela cozinha do chef, Joseph Hart. Barry lembra-se distintamente de seguir num elevador que mudou de uma subida vertical para uma ascensão a quarenta e cinco graus através do ângulo inicial da curva até uma translação horizontal ao longo do topo da torre. Quanto mais olha para o edifício, mais lhe parece um objeto que faz parte desta realidade. A sua realidade. Seja lá o que for que isso significa. —Pai? —Sim? – Tem o coração acelerado; sente-se indisposto. —Este momento é real? Barry olha para ela. —Não sei. Duas horas mais tarde, Barry entra no bar de gosto duvidoso perto da casa de Gwen em Hell’s Kitchen e senta-se no banco ao lado dela. —Estás bem?— pergunta Gwen. —Alguém está bem? —Tentei ligar-te hoje de manhã. Acordei com uma história alternativa da nossa amizade. Nessa versão, a Meghan morreu atropelada quando tinha quinze anos. Ela está viva, não está? —Acabei de estar com ela. —Como é que ela está? —Com franqueza? Não sei. Ontem à noite, recordou a própria morte. —Como é que isso é possível? Ele espera que lhes sirvam as bebidas e depois conta-lhe tudo, incluindo a extraordinária experiência com a cadeira. —Recuaste a uma memória?— murmura, acercando-se dele. Cheira a uma mistura de Wild Turkey, um champô qualquer e pólvora, o que leva Barry a questionar-se se ela terá vindo direta para aqui desde o campo de tiro, onde ela dá um espetáculo digno de se ver. Ele nunca viu ninguém disparar como Gwen. —Sim, e depois comecei a vivê-la, mas desta vez com a Meghan viva. Até este momento. —Achas que a SFM é, na verdade, isto?— pergunta ela. —Mudar memórias para mudar a realidade… —Eu sei que é. Na televisão sem som por cima do balcão, Barry vê a fotografia de um homem que reconhece de algures. De início, não consegue associá-lo a uma memória. Barry lê a legendagem de áudio do apresentador do noticiário. «Amor Towles, ilustre arquiteto do Big Bend, foi assassinado no seu apartamento, onde o encontraram há uma hora quando…» —Este edifício, o Big Bend, é um produto da cadeira?— pergunta Gwen. —Sim. Quando estive naquele hotel esquisito, estava lá um fulano, um cavalheiro mais velho. Acho que estava a morrer. Ouvi uma conversa em que disse que era arquiteto e que, quando regressasse à sua memória, iria dedicar-se a um edifício de que sempre se arrependera de não ter construído. Na verdade, estava previsto ele ir para a cadeira hoje, que é o dia em que a realidade mudou para todos nós. Suponho que o mataram por violar as regras. —Que regras? —Eles disseram-me que era suposto eu viver a minha vida um pouco melhor. Não me aproveitar do sistema. Nada de mudanças extremas. —Sabes porque é que esse homem que construiu a cadeira está a permitir às pessoas refazerem as suas vidas? Barry emborca o resto da cerveja. —Não faço ideia. Gwen sorve o uísque. O empregado desliga a jukebox e aumenta o som da televisão. Vai passando pelos canais, e todos eles estão a cobrir ininterruptamente a história do edifício desde que este apareceu de tarde. Na CNN, arranjaram uma «especialista» em síndrome das falsas memórias para especular sobre aquilo que estão a apelidar de «disfunção de memória» em Manhattan. Diz a comentadora: «Se não podemos confiar na memória, se o passado e o presente podem simplesmente mudar sem aviso prévio, então aquilo que é factual e verdadeiro deixará de existir. Como podemos viver num mundo assim? É por isso que assistimos a uma epidemia de suicídios.» —Sabes onde fica esse hotel?— pergunta Gwen. —Já lá vão onze anos… pelo menos na minha mente… mas é provável que o consiga encontrar. Sei que fica em Midtown, partindo do princípio de que ainda está lá. —Os nossos cérebros não foram criados para lidar com uma realidade que está a mudar constantemente as nossas memórias e a alterar o nosso presente— diz Gwen. —E se isto for apenas o princípio? Barry sente o telemóvel no bolso. —Dá-me licença. Tira o telemóvel do bolso e lê uma mensagem de texto de Meghan: Pai. Não aguento mais isto. Não sei quem sou. Só sei que o meu lugar não é aqui. Lamento muito. Amar-te- ei sempre. Barry salta do banco. —O que foi?— pergunta Gwen. Ele desata a correr para a porta. As chamadas para o telemóvel de Meghan estão sempre a ser encaminhadas para o correio de voz. No rescaldo do aparecimento do Big Bend, as ruas da cidade continuam apinhadas. Enquanto Barry conduz rumo a NoHo, pega no microfone do rádio e contacta a New York One para solicitar que uma unidade nas redondezas do apartamento de Meghan passe por lá para ver se está tudo bem. —Daqui New York One, 158, refere-se ao 904B na Bond Street? Já temos várias unidades e corporações de bombeiros no local e ambulâncias a caminho. —O que está para aí a dizer? Que edifício? —Número 12 da Bond Street. —É o prédio da minha filha. O rádio fica em silêncio. Barry larga o microfone e liga as luzes de emergência e a sirene, serpenteando pelo meio dos outros carros, contornando autocarros, atravessando cruzamentos sem parar. Quando vira para a Bond Street vários minutos depois, abandona a sua viatura junto à barreira policial e corre para os carros dos bombeiros que lançam jatos de água para a fachada do prédio de Meghan, onde as labaredas voluteiam pelas janelas do quinto andar. O ambiente é caótico— há uma fileira de luzes de emergência e agentes da polícia a delimitar o espaço com fita para manter os moradores dos edifícios vizinhos a uma distância segura enquanto os residentes do prédio de Meghan saem pela porta da frente. Um polícia tenta travá-lo, mas Barry dá um safanão com o braço, mostra- lhe o distintivo e abre caminho, passando pelos carros de bombeiros até chegar à entrada do prédio, onde o calor das chamas lhe alaga a cara de suor. Um bombeiro sai a cambalear pela porta da frente, que fora entretanto arrancada pelas dobradiças. Traz ao colo um homem mais velho e ambos têm as caras chamuscadas. Um tenente dos bombeiros —um gigante de barba— põe-se à frente de Barry e trava-lhe a passagem. —Vá para trás da fita. —Sou polícia e a minha filha mora neste prédio! – Aponta para as labaredas que saem pela janela do piso superior no extremo mais afastado. —As chamas estão a sair do apartamento dela! O tenente faz uma expressão desanimada. Puxa Barry pelo braço e afasta-o de uma fileira de bombeiros que levam uma mangueira até à boca de incêndio mais próxima. —O que foi?— pergunta Barry. —Diga-me. —O incêndio deflagrou na cozinha daquele apartamento. Está neste momento a propagar-se pelo quarto e pelo quinto pisos. —Onde está a minha filha? O homem respira fundo e olha por cima do ombro. —Onde está a minha filha, foda-se?! —Olhe para mim— diz o homem. —Conseguiram tirá-la de lá? —Sim. Lamento muito dizer-lhe isto, mas ela morreu. Barry recua a cambalear. —Como? —Encontraram umagarrafa de vodca e alguns comprimidos na cama dela. Achamos que ela os tomou e depois tentou fazer chá, mas perdeu a consciência pouco depois. Havia alguma coisa em cima do balcão demasiado perto de um bico do fogão. Foi acidental, mas… —Onde é que ela está? —Vamos sentar-nos e… —Onde é que ela está?! —No passeio, do outro lado daquele camião. Barry começa a caminhar para lá, mas de repente o homem agarra-o pelas costas com a força de um urso. —De certeza que quer fazer isso, amigo? —Largue-me! O homem larga-o, e Barry caminha por cima de mangueiras, passando à frente do carro dos bombeiros, aproximando-se das chamas. A agitação desaparece. Tudo o que vê são os pés descalços de Meghan a espreitar por debaixo de um lençol branco que lhe cobre o corpo, completamente encharcado e quase transparente por causa da água das mangueiras. As suas pernas vão-se abaixo. Senta-se no passeio e chora, com a água a cair-lhe em cima. As pessoas tentam falar com ele, convencê-lo a acompanhá-las, mas ele não as ouve nem as vê. Tem o olhar perdido no infinito. Pensa: Perdi-a duas vezes. Passaram duas horas desde que Meghan morreu e ele ainda tem as roupas húmidas. Barry estaciona na Penn Station e começa a caminhar rumo a norte desde a Thirty-Fourth Street, tal como fez quando regressou de Montauk no comboio noturno, na noite em que encontrou o Hotel Memória. Nessa noite, estava a nevar. Agora está a chover; os edifícios estão envoltos num manto de neblina acima dos quinquagésimos andares e o ar tão frio que a sua respiração se transforma em vapor. Caiu sobre a cidade um estranho silêncio. Poucos carros a circular. Menos pessoas nos passeios. Sente as lágrimas frias na cara. Ao fim de três quarteirões, abre o guarda-chuva. Na sua mente, passaram onze anos desde a noite em que entrou no Hotel Memória. Cronologicamente, aconteceu hoje, mas numa falsa memória. Quando Barry chega à West Fiftieth, está a chover com mais intensidade, o manto de nuvens desceu entretanto. Tem a certeza de que o hotel ficava na Fiftieth e está convencido de que nesse dia seguia para leste. Vislumbra constantemente as duas bases do edifício Big Bend, as suas luzes são visíveis debaixo da chuva. A parte de cima está encoberta pelas nuvens a cerca de seiscentos metros no alto. Faz um grande esforço para não pensar em Meghan neste momento, porque, quando pensa, vai-se abaixo outra vez, e tem de ser forte, precisa de manter a presença de espírito. Com frio e fatigado, começa a pensar que, se calhar, naquela noite, caminhou para oeste, quando um letreiro de néon vermelho ao longe chama a sua atenção. McLachlan’s Restaurant Pequenos-almoços Almoços Jantares Aberto todos os dias 24 Horas Barry caminha na direção do letreiro até ficar por debaixo deste, a ver a chuva cair pelo meio da iluminação vermelha. Estuga o passo. Passa pela loja de vinhos, da qual está recordado, e depois a loja de venda de bebidas alcoólicas, uma boutique de roupa de senhora, um banco —tudo fechado— até que, quase a chegar ao fundo do quarteirão, detém-se à entrada da rampa de acesso sombria, inclinada para o espaço subterrâneo por debaixo de um edifício neogótico encurralado entre dois arranha-céus mais altos. Se descesse aquela rampa de acesso, chegaria a um portão em aço reforçado. Foi por ali que entrou no Hotel Memória há todos aqueles anos. Tem a certeza absoluta. Em parte apetece-lhe descer a rampa, entrar de rompante, alvejar todas as malditas pessoas com que se cruzar dentro daquele hotel e acabar com o homem que o pôs na cadeira. Por causa dele, o cérebro de Meghan não aguentou. Por causa dele, ela está morta. Tem de acabar com o Hotel Memória. Porém, ao fazer isso, provavelmente acabaria por morrer. Não. Ao invés, pretende telefonar a Gwen, propor-lhe uma operação não oficial e clandestina com um punhado de colegas da SWAT. Se ela insistir, ele levará uma declaração escrita a um juiz. Cortarão a eletricidade no prédio, entrarão com óculos de visão noturna, farão uma busca piso a piso. É evidente que alguns cérebros, como o de Meghan, não conseguem lidar com a mudança da sua realidade e os danos colaterais também são trágicos —além da sua filha, morreram três pessoas no prédio dela vítimas do incêndio e, na viagem até à Penn Station, ouviu no rádio mais relatos de pessoas— perturbadas pelo aparecimento do Big Bend— que espalharam o caos pela cidade. Mentes sãs estão a ficar doentes; mentes doentes estão a ser levadas para lá do limite. Pega no telemóvel, acede aos contactos e desliza até aos nomes começados por G. Quando tem o dedo por cima do nome Gwen, alguém grita o seu nome. Olha para o outro lado da rua e vê alguém correr para ele. —Não faças esse telefonema!— grita uma voz de mulher. Ele já está a meter a mão por dentro do casaco, a desapertar o botão do coldre de trazer ao ombro, a agarrar com firmeza a pequena Glock, a pensar que o mais certo é ela trabalhar para o homem que criou a cadeira, o que quer dizer —foda-se!— que sabem que ele está a pensar em atacar o edifício. —Barry, não dispares, por favor. Ela começa a caminhar e levanta as mãos. Estão abertas, vazias. A mulher aproxima-se com cautela; terá pouco mais de um metro e sessenta, usa botas e um blusão de couro preto coberto de gotas da chuva. Um tufo de cabelos ruivos chega-lhe ao maxilar, mas está encharcado. Ela tem estado à espera dele à chuva. O que o deixa sem reação é a bondade dos seus olhos verdes, e outra coisa, que lhe parece —estranhamente— familiar. —Eu sei que foste mandado para a pior memória da tua vida— diz ela. —O homem por trás disso chama-se Marcus Slade e é o dono desse prédio. E sei o que acabou de acontecer à Meghan. Lamento, Barry. Sei que queres fazer alguma coisa em relação a isso. —Trabalhas para eles? —Não. —Consegues ler pensamentos? —Não. —Então, como podes saber o que me aconteceu? —Tu disseste-me. —Nunca te vi na vida. —Disseste-me no futuro, daqui a quatro meses. Barry baixa a pistola, um nó cego no cérebro. —Usaste aquela cadeira? Ela fita-o nos olhos com uma intensidade que lhe provoca uma descarga de eletricidade fria pela espinha abaixo. —Eu inventei a cadeira. —Quem és tu? —Helena Smith, e se entrares no edifício do Slade com a Gwen, será o fim de tudo. «O tempo é que impede que todas as coisas aconteçam em simultâneo.» RAY CUMMINGS BARRY 6 de novembro de 2018 A mulher de cabelos ruivos agarra Barry pelo braço e puxa-o pelo passeio, afastando-o da entrada da garagem subterrânea. —Não estás em segurança aqui— diz ela. —Vamos caminhar até ao teu carro. Ficou na Penn Station, certo? Barry liberta o braço e começa a caminhar na direção oposta. —Na rampa de acesso da tua casa em Portland, a ver o eclipse solar total com o teu pai— diz ela nas suas costas. —Passar os verões com os teus avós na herdade do New Hampshire. Costumavas ficar sentado no pomar de macieiras a imaginar histórias intrincadas. —Barry detém a marcha e olha para ela. —Embora tenhas ficado devastado quando a tua mãe morreu, também ficaste grato —continua ela—, pois soubeste quando a sua hora chegaria e tiveste a oportunidade de uma despedida como mandam as regras, de assegurares que ela sabia que a amavas. Não tiveste essa‐ oportunidade no caso do teu pai, que morreu de repente quando tinhas quinze anos. Ainda hoje acordas a meio da noite questionando-te se também ele sabia que o amavas. Quando chegam ao seu Crown Vic, ele está a tremer. Helena põe-se de joelhos no pavimento molhado e passa a mão pela parte inferior da carroçaria. —O que estás a fazer?— questiona Barry. —A certificar-me de que o teu carro não tem um dispositivo de localização. Entram para se abrigarem da chuva, ele liga o aquecimento e espera que o motor aqueça o ar frio que sopra pela ventilação. Durante a caminhada de quarenta minutos desde a Fiftieth, Helena contou-lhe uma história de loucos em que ele não sabe bem se há de acreditar, algo sobre ela ter criado a cadeira por acidente numa plataforma petrolífera desmantelada num friso cronológico anterior. —Tenhotantas coisas para te contar…— diz Helena, pondo o cinto de segurança. —Podemos ir para o meu apartamento. —Não é seguro. O Marcus Slade sabe quem és, onde vives. Se, em algum ponto no futuro, ele perceber que estamos a trabalhar juntos, irá utilizar-te para chegar até mim. Ele pode utilizar a cadeira para regressar à noite de hoje e encontrar-nos neste momento. Tens de deixar de pensar de forma linear. Não fazes ideia do que ele é capaz. As luzes do Battery Tunnel passam como um córrego por cima das suas cabeças e Helena está a explicar como escapou da plataforma petrolífera de Slade para a sua própria memória e fugiu para o Canadá. —Estava disposta a viver o resto da vida na clandestinidade ou a suicidar-me caso o Slade me encontrasse. Vivia completamente só. A minha mãe morreu em 2011 e o meu pai pouco depois. Então, em 2016, começaram a circular os primeiros relatos de uma nova doença misteriosa. —A síndrome das falsas memórias. —Só recentemente é que a SFM se tornou conhecida do público, mas eu percebi logo que era o Slade. Durante os dois primeiros anos em que andei escondida, ele não teria qualquer memória do tempo que passámos juntos na plataforma. Na sua mente, eu teria desaparecido depois de o Jee-woon me fazer a proposta de trabalho. Mas quando regressámos a 2009, especificamente à noite em que eu fugi utilizando a cadeira, o Slade ganhou todas as memórias do nosso tempo juntos. Eram memórias mortas, é claro, mas… e foi aqui que o meu cálculo saiu errado… continham informação suficiente para ele conseguir construir sozinho a cadeira e todos os seus componentes. » Vim para Nova Iorque, que me pareceu ser o foco principal do surto de SFM, presumindo que o Slade construíra um laboratório novo na cidade e estaria a testar a cadeira em pessoas, mas não o consegui encontrar. Estamos quase a chegar. Bem no meio de Red Hook, Barry passa devagar por uma fila de armazéns ao longo da margem. Helena aponta para o seu prédio, mas obriga Barry a estacionar a cinco quarteirões de distância num beco escuro, fazendo marcha-atrás para a penumbra entre dois contentores do lixo a abarrotar. Entretanto, parou de chover. Lá fora está uma calmaria desconcertante, pairando no ar o cheiro do lixo molhado e dos charcos de água da chuva estagnada. Barry não consegue esquecer o último vislumbre que teve de Meghan— deitada no passeio encardido defronte do seu prédio, os pés descalços a espreitarem por debaixo do lençol molhado. Barry engole a mágoa, abre a bagageira e tira de lá a sua espingarda e uma caixa de munições. Caminham por passeios rachados menos de meio quilómetro; Barry segue atento a veículos ou a passos a aproximarem-se, mas o único barulho que se ouve é o zumbido distante de helicópteros a voar em círculos sobre a cidade e as buzinas graves das barcas no East River. Helena condu-lo até uma porta de metal não identificada na lateral de um prédio na primeira linha junto à água, onde ainda se pode ver o letreiro da fábrica de cerveja que ali operou. Introduz o código de abertura da porta, indica o caminho para o interior e acende a luz. O armazém tresanda a cereais mofentos e o eco dos seus passos enche o espaço como numa catedral em ruínas. Passam por filas de cisternas de fabrico de cerveja em aço inoxidável, um tonel de farinha de malte enferrujado e, por fim, o que restou de uma linha de engarrafamento. Sobem quatro lanços de escada até umas amplas águas-furtadas com janelas que vão do chão até ao teto e que têm vista para o rio, a Governors Island e o reluzente extremo sul de Manhattan. No chão correm cabos e um labirinto de placas de circuitos desmontadas. Há uma prateleira de servidores adaptados a zumbir ao longo de uma velha parede de tijolo e o que parece ser uma cadeira em fase de construção— uma estrutura em madeira não tratada com feixes de fios elétricos à vista ao longo dos braços e das pernas. Um objeto que faz lembrar vagamente um capacete está preso a uma bancada de trabalho e rodeado de uma extravagância de circuitos não concluídos. —Estás a construir a tua própria cadeira?— pergunta Barry. —Subcontrato algum trabalho de programação e engenharia, mas já a construí duas vezes, por isso tenho alguns truques na manga e bastantes fundos resultantes dos meus investimentos. Os avanços no processamento informático diminuíram bastante os custos desde os tempos da plataforma. Tens fome? —Não. —Pois… mas eu estou faminta. Atrás dos servidores há uma pequena cozinha e, do outro lado, posicionada ao longo das janelas, um toucador e uma cama. Sem uma separação concreta entre os espaços de trabalho e de lazer, as águas-furtadas parecem precisamente aquilo que são— o laboratório de uma cientista desesperada, possivelmente louca. Barry lava a cara no lavatório da casa de banho e, quando sai, dá com Helena junto ao fogão às voltas com duas caçarolas. —Adoro huevos rancheros— diz ele. —Eu sei. E adoras mesmo os meus. Bem, tecnicamente, a receita é da minha mãe. Senta-te. Barry senta-se a uma pequena mesa de fórmica e ela leva-lhe um prato. Barry não tem fome, mas sabe que deve comer. Corta um dos ovos malpassados, e a gema escorre para os feijões e para o molho verde. Leva um grande pedaço à boca. Ela tinha razão— são os melhores que alguma vez comeu. —Agora tenho de te falar sobre coisas que ainda não aconteceram— diz Helena. Barry fita-a por cima da mesa e parece-lhe que o seu olhar é um tanto alucinado, como que desligado da realidade. —Depois do aparecimento do Big Bend, a febre da SFM atingirá o apogeu. Por incrível que pareça, continuará a ser considerada uma epidemia misteriosa sem um agente patogénico identificável, apesar de um punhado de fisicistas teóricos começarem a avançar com ideias sobre buracos de minhoca em miniatura e a pos sibilidade de alguém estar a fazer experiências com o espaço-tempo. » Depois de amanhã, vais levar uma equipa da SWAT ao hotel do Slade. Ele e a maioria da sua equipa morrerão durante a incursão. Os jornais noticiarão que o Slade tem andado a disseminar um vírus neurológico que ataca áreas do cérebro que armazenam a memória. Os serviços noticiosos andarão obcecados com isto durante algum tempo, mas dentro de um mês, a histeria do público esmorecerá. Parecerá que o mistério foi resolvido, a ordem restaurada, e que não haverá mais casos de SFM. Enquanto Helena leva umas garfadas à boca, Barry percebe que se encontra sentado à frente de uma mulher que está a revelar-lhe o futuro, mas isso nem sequer é a parte mais estranha. A parte mais estranha é que começa a acreditar nela. Helena pousa o garfo. —Mas eu sei que não acabou— diz ela. —Imagino o pior. Que depois da tua incursão com a SWAT, a cadeira caiu nas mãos de outra pessoa. Por isso, dentro de um mês, irei à tua procura. Provarei a minha boa-fé dizendo- te exatamente aquilo que encontraste no laboratório do Slade. —E eu acreditarei em ti? —Acabarás por acreditar. Dizes-me que, durante a incursão, antes de o Slade ser morto, tentou destruir a cadeira e os processadores, mas que algumas partes se salvaram. Chegaram uns agentes do Governo… não sabes para quem trabalhavam… e levaram tudo. Não há forma de eu ter conhecimento, mas presumo que não saibam para que serve a cadeira nem como funciona. Está quase totalmente danificada, mas eles trabalham dia e noite para descobrir. E se eles forem bem-sucedidos, consegues imaginar? Barry vai ao frigorífico, a mão treme-lhe ao abrir a porta para tirar de lá duas garrafas frias. Volta a sentar-se. —Quer dizer que a minha incursão ao laboratório do Slade resulta nisto. —Sim. Tu experienciaste a cadeira. Conheces o seu poder. Pelo que consigo perceber, o Slade está a utilizá-la para enviar uns poucos escolhidos de regresso às suas memórias. Vá-se lá saber porquê. Mas vê só o pavor e o pânico que está a causar. Não será preciso baralhar muito a realidade para a humanidade descarrilar completamente. Temos de o travar. —Com a tua cadeira? —Só ficará operacional dentro de quatro meses. Quanto mais tempo esperarmos, maiores serão asprobabilidades de alguém encontrar o laboratório do Slade antes de lá irmos. Tu já deste algumas pistas à Gwen e, assim que as pessoas souberem da existência da cadeira, as memórias que têm dela regressarão sempre, independentemente do número de vezes que um friso cronológico seja alterado. Da mesma forma que, na noite passada, a Julia e a Meghan se lembraram de a Meghan morrer atropelada. —As suas memórias só chegaram quando ela atingiu o momento em que eu utilizei a cadeira no último friso cronológico. Funciona sempre assim? —Sim, porque foi nesse momento que a sua consciência e as memórias do friso cronológico anterior se fundiram neste. Penso nisso como o aniversário de um friso cronológico. —Então, o que propões fazer? —Nós os dois assumimos o controlo no que toca ao Slade amanhã. Destruímos a cadeira, o software, toda a infraestrutura, todos os vestígios da sua existência. Eu tenho um vírus preparado para carregar na rede autónoma dele assim que estivermos lá dentro. O vírus reformatará tudo. Barry bebe a cerveja e sente um aperto no estômago. —A minha versão do futuro concordou com este plano? Helena sorri. —Na verdade, tivemos a ideia juntos. —Eu achei que nós os dois teríamos alguma hipótese? —Com franqueza?… Não. —O que é que achas? Helena recosta-se na cadeira. Parece exausta. —Acho que somos a melhor hipótese que o mundo tem. Barry está de pé junto à fachada envidraçada perto da cama de Helena a contemplar a cidade do outro lado do rio negro como o breu. Espera que Julia esteja bem, mas tem dúvidas. Quando lhe telefonou, ela desatou a chorar, desligou e não atendeu mais os seus telefonemas. E por isso convenceu-se de que ela o culpa, pelo menos em parte. O Big Bend domina agora a linha do horizonte e ele questiona-se se alguma vez se habituará ao edifício ou se sempre —para ele e para os outros— representará a falibilidade da realidade. Helena aproxima-se. —Estás bem?— pergunta. —Não consigo deixar de ver a Meghan morta no passeio. Quase tive um vislumbre da cara por debaixo do lençol molhado com que a cobriram. Voltar atrás e viver aqueles onze anos… Em última análise, não solucionou coisa alguma para a minha família. —Lamento muito, Barry. Ele olha para ela. Inspira, expira. —Já alguma vez utilizaste uma arma?— pergunta. —Já. —Há pouco tempo? —A tua versão do futuro sabia que seríamos só nós os dois a invadir o edifício do Slade, por isso começaste a levar-me ao campo de tiro. —Tens a certeza de que estás preparada para isto? —Construí a cadeira por causa da minha mãe, que sofria de Alzheimer. Queria ajudá-la e a outras pessoas como ela. Pensei que, se conseguíssemos descobrir como capturar memórias, seríamos capazes de compreender como impedir que fossem apagadas de todo. Não queria que a cadeira se tornasse aquilo que tornou. Além de destruir a minha vida, agora está a destruir a vida de outros. Houve pessoas que perderam entes queridos, vidas inteiras apagadas. Filhos apagados. —Tu não querias que nenhuma dessas coisas acontecesse. —Porém, aconteceram. E foi a minha ambição que pôs este aparelho nas mãos do Slade, e, mais tarde, de outros. —Olha para Barry. —Tu estás aqui por minha causa. O mundo está a perder o juízo coletivo por minha causa. Há ali a merda de um prédio que não estava lá ontem por minha causa. Por isso, estou-me nas tintas para o que me acontecer amanhã, desde que destrua todos os vestígios da existência da cadeira. Se for preciso, estou preparada para morrer. Ele só agora percebeu— o peso que ela carrega nos ombros. O ódio por si mesma e o arrependimento. Deve ser horrível criar uma coisa capaz de destruir a estrutura da memória e do tempo. Deve ser complicado reprimir o peso de toda aquela culpa, horror, terror e ansiedade. —Apesar de tudo —diz Barry—, graças a ti, tive a oportunidade de ver a minha filha crescer. —Não quero parecer insensível, mas não deverias ter visto. Se não pudermos confiar na memória, a nossa espécie irá ficar feita em pedaços. E isso já começou a acontecer. Helena fixa o olhar na cidade do outro lado da água e Barry pensa que a vulnerabilidade dela neste momento tem algo de avassalador. —Talvez seja melhor dormirmos um pouco— diz ela. —Podes ficar na minha cama. —Não te vou tirar a tua cama. —De qualquer forma, eu durmo no sofá na maior parte das noites, para poder adormecer com o som da televisão. E vira-lhe as costas. —Helena. —O que foi? —Sei que não te conheço, mas tenho a certeza de que a tua vida não se resume àquela cadeira. —Não. Ela define-me. Passei a primeira parte da minha vida a tentar construí-la. Passarei o que sobra a tentar destruí-la. HELENA 7 de novembro de 2018 Deita-se virada para a televisão, a luz do ecrã a tremeluzir nas pálpebras fechadas e o volume do som no ponto certo para envolver a sua mente em constante agitação. Alguma coisa a arrasta para uma consciência completa e súbita. Senta-se como uma mola no sofá. É apenas Barry, a chorar baixinho na outra ponta do quarto. Tem vontade de se meter na cama com ele e reconfortá-lo, mas seria demasiado cedo— são praticamente desconhecidos. De qualquer maneira, talvez ele precise de fazer o luto sozinho por agora. Recosta-se nas almofadas, as molas do sofá a ranger ao puxar os cobertores até ao pescoço. Não lhe passa despercebido como é desusado lembrar-se do futuro. A memória da despedida entre ela e Barry nesta mesma sala, dentro de quatro meses, continua a causar-lhe uma forte dor de cabeça. Ela estava a boiar no tanque de privação sensorial e Barry inclinou- se e beijou-a. Tinha os olhos banhados em lágrimas ao fechar a escotilha. Ela também. O futuro de ambos parecia tão promissor, e ela pôs-lhe um fim. O Barry que ela deixou para trás já sabe se ela foi bem-sucedida. Terá sabido no instante em que ela morreu no tanque, quando a sua realidade se alterou instantaneamente para se alinhar com esta nova realidade que ela está a criar. Resiste ao impulso de acordar o Barry do presente e dizer-lhe. Isso apenas dificultaria a incursão no laboratório de Slade no dia seguinte, lançando sobre as coisas um cariz emocional. E o que diria ele? Haveria faíscas? Química? O melhor é manter o plano. O que importa é que o dia seguinte corra bem. Não pode anular o mal que a sua mente trouxe ao mundo, mas talvez possa sarar a ferida, estancar a hemorragia. Em tempos, teve grandes sonhos— erradicar os efeitos de uma doença que destrói a memória. Agora, com a mãe e o pai mortos e sem amigos de verdade com quem falar a não ser um homem que se encontra quatro meses mais à frente num futuro inalcançável, os seus sonhos deixaram de ser mudar o mundo e tornaram-se desesperadamente pessoais. Gostaria apenas de ser capaz de se deitar à noite e apreciar alguma paz de espírito, manter a mente tranquila. Tenta dormir, ciente de que precisa mais disso esta noite do que talvez em qualquer outra noite da sua vida. Por isso, é claro que o sono lhe foge. Ao final do dia, esgueiram-se pelas traseiras do prédio, demorando algum tempo a sondar as ruas das redondezas antes de se aventurarem no espaço aberto. A zona é formada sobretudo por edifícios industriais abandonados, há pouco tráfego e nada levanta suspeitas. Quando Barry os leva por uma estrada que atravessa Brooklyn Heights, olha de relance para ela. —Ontem à noite, quando me mostraste a cadeira, disseste que a construíste duas vezes antes. Quando foi a primeira vez? Ela beberica um pouco de café que levou consigo— o seu talismã contra a noite anterior de miserável insónia. —No friso cronológico original, eu chefiava um grupo de investigação e desenvolvimento em São Francisco, para uma empresa chamada Ion, que não estava interessada nas aplicações clínicas da minha cadeira. Apenas viam o valor no que respeita ao entretenimento, fazendo contas aos milhões que daí adviriam. Eu não estava a avançar, sentia-me esgotada e não tinha resultados para apresentar. A Ion estava na iminência de acabar o financiamento para a minha investigação quando uma cobaia teve um enfarte e morreu no tanque de privaçãosensorial. Todos experienciámos uma ligeira mudança de realidade, mas ninguém percebeu o que tinha acontecido, a não ser o meu assistente, o Marcus Slade. Tenho de dar a mão à palmatória: ele compreendeu aquilo que eu tinha criado ainda antes de mim. —O que aconteceu? —Uns dias mais tarde, pediu para se reunir comigo no laboratório. Disse que era urgente. Quando lá cheguei, apontou-me uma arma. Obrigou-me a iniciar sessão no sistema e a carregar um programa de reativação para uma memória que mapeáramos para ele. Depois de eu fazer o que ele pediu, matou-me. —Quando foi isso? —Há dois dias, a 5 de novembro de 2018, mas, é claro, isso aconteceu há muitos frisos cronológicos. Barry segue pela saída para a ponte de Brooklyn. —Não te quero contradizer —diz ele—, mas não poderias ter regressado a uma memória diferente? —Por exemplo, impedir o meu nascimento para que a cadeira nunca fosse criada? —Não era isso que queria dizer. —Eu não posso voltar ao passado e impedir o meu nascimento. Outra pessoa será capaz de o fazer, e então tornar-me-ei uma memória morta. Porém, no que respeita à cadeira, não há um «paradoxo do avô» ou qualquer paradoxo temporal. Tudo o que acontece, mesmo que seja mudado ou impedido de acontecer, persiste nas memórias mortas. A causa e o efeito mantêm-se. —Está bem. Então, o que me dizes de regressar a uma memória na plataforma petrolífera? Poderias atirar o Slade ao mar ou algo do género. —Tudo o que aconteceu na plataforma existe em memórias mortas, às quais não é possível regressar. Nós tentámos, mas os resultados foram desastrosos. Mas sim, eu deveria tê-lo matado quando tive oportunidade. Vão agora a meio caminho, atravessando a ponte, cujas travessas por cima das suas cabeças ficam para trás a grande velocidade. Talvez seja do café, talvez da proximidade da cidade, mas, de súbito, ela está bem desperta. —O que são memórias mortas?— pergunta Barry. —É aquilo que toda a gente pensa que são as falsas memórias. Só que não são falsas. Apenas aconteceram num friso cronológico a que alguém pôs um fim. Por exemplo, o friso cronológico em que a tua filha foi atropelada é agora uma memória morta. Tu acabaste com esse friso cronológico e iniciaste este quando o Slade te matou no tanque de privação sensorial. Vão até Midtown, seguem para Norte pela Third Avenue e depois viram à esquerda para a East Forty-Ninth, estacionando por fim na berma mesmo antes de chegarem à pretensa entrada do prédio de Slade— um átrio de fachada com uma fila de elevadores que não levam a parte alguma. A única maneira real de entrar é pelo parque de estacionamento subterrâneo na Fiftieth. Quando saem do carro, chove a cântaros. Barry tira da bagageira uma mochila preta e Helena segue-o até ao passeio e um pouco mais abaixo até à entrada de um bar onde já estiveram uma vez, dentro de quatro meses, quando foram investigar o acesso ao edifício de Slade e debater os planos para este preciso momento. Com o seu cheiro a ranço, o Diplomat está surpreendentemente movimentado e frio, tal como ela se lembra. O distintivo de Barry chama a atenção do minúsculo empregado de balcão. É o mesmo sujeito que ela e Barry encontraram dentro de quatro meses num futuro morto— um estafermo com complexo de Napoleão, mas que, felizmente, tem um medo saudável de polícias. Helena fica ao lado de Barry enquanto este faz as apresentações; sobre ela diz que é sua colega, explicando que precisam de ir à cave, pois foi apresentada uma queixa de agressão sex ual naquele lugar na noite anterior. Durante cinco segundos, Helena pensa que não irá resultar. O empregado de balcão fita-a como se não acreditasse totalmente no papel dela em tudo isto. Ele poderia pedir que lhe mostrassem um mandado, poderia não assumir a responsabilidade e chamar o proprietário, mas em vez disso, aos berros, chama alguém chamado Carla. Uma empregada pousa um tabuleiro de copos de cerveja vazios no balcão e vem ao encontro deles. —São bófias— diz o empregado. —Têm de ir à cave. Carla encolhe os ombros, depois vira-lhes as costas sem dizer uma palavra e caminha ao longo do balcão até uma câmara frigorífica. Condu- los por um labirinto de barris prateados até uma porta estreita no canto mais afastado da divisão refrigerada. Pega numa chave que está dependurada num prego na parede e abre o cadeado que fecha a porta. —Aviso já que não há luz lá em baixo. Barry abre o fecho de correr da mochila e tira de lá uma lanterna. —O homem veio preparado— diz ela. —Nesse caso, deixo-vos à vontade. Barry espera até ela ir embora e abre a porta da cave. O feixe da lanterna revela umas escadas claustrofóbicas de solidez ques‐ tionável que descem para as trevas. O cheiro penetrante a humidade é avassalador— o cheiro de um sítio há muito esquecido. Helena respira fundo para aplacar o furor do coração que está a bater desenfreado. —É isto?— pergunta Barry. —É. Ela segue-o pelos degraus rangentes, que desembocam numa cave com estantes de prateleiras caídas e um bidão de óleo ferrugento cheio de lixo queimado. Na outra ponta da divisão, Barry abre uma porta que faz um rangido de pôr os nervos em franja. Franqueiam a porta para um corredor em arco com as paredes de tijolo a esfarelarem-se. Faz mais frio aqui, debaixo das ruas da cidade; o ar é bafiento, agitado com o gotejar de água corrente e o distante e invisível raspar do que teme serem ratazanas. Helena vai à frente. Os seus passos chapinam e ressoam. A cada quinze metros, passam por portas a desintegrar-se que dão para o ventre de outros edifícios. No segundo cruzamento, ela vira para uma nova passagem e, ao fim de cerca de trinta metros, detém-se e mostra a Barry uma porta igual às outras. É preciso fazer bastante força para o puxador rodar e, quando isso acontece, ele dá um encontrão com o ombro, forçando a porta a abrir-se. Saem do túnel e passam para outra cave, onde Barry larga a mochila no chão de pedra e abre o fecho de correr. Tira de lá um pé-de-cabra, uma embalagem de braçadeiras para cabos, uma caixa de balas calibre 12, uma caçadeira e quatro carregadores extra para a sua Glock. —Leva todos os cartuchos que conseguires. Helena rasga a caixa e começa a guardar cartuchos nos bolsos de dentro do casaco de couro. Barry verifica a sua Glock, despe a gabardina e enfia mais carregadores nos bolsos. Depois, pega no pé-de-cabra e atravessa a divisão até outra porta, que está trancada pelo outro lado. Insere a ponta do pé-de-cabra na ombreira e faz toda a força que consegue. No início, só se ouve o barulho dele a fazer esforço. Depois ouve-se a madeira estalar e o ranger do metal a ceder. Quando a porta se abre uma frincha, Barry mete a mão pela abertura e arranca um cadeado ferrugento quebrado. Depois, com todo o cuidado, abre a porta apenas o suficiente para passarem. Emergem na antiga sala da caldeira do hotel, que parece não ser usada há pelo menos meio século. Seguindo caminho por um labirinto de antigos maquinismos e manómetros, passam por fim pela enorme caldeira e depois franqueiam uma porta que dá para o fundo de umas escadas de serviço que sobem em espiral até à penumbra. —Repete lá em que andar fica a penthouse do Slade?— sussurra Barry. —No vigésimo quarto. O laboratório fica no décimo sétimo e os servidores no décimo sexto. Estás pronto? —Quem me dera ir de elevador. O seu plano é ir diretamente à procura de Slade, com a esperança de que este esteja no apartamento. Assim que ele ouvir disparos ou suspeitar de alguma coisa, é provável que desate a correr para a cadeira de modo a poder recuar no tempo e impedi-los antes de eles conseguirem sequer entrar neste edifício. Barry começa a subir apontando o feixe da lanterna ao chão. Helena segue-o de perto, tentando fazer o mínimo barulho possível, mas a madeira velha das escadas cede e range sob o seu peso. Ao fim de vários minutos, Barry detém-se em frente a uma porta com o número 8 pintado na parede ao lado e apaga a lanterna. —O que foi?— murmura Helena. —Ouvi alguma coisa. Ficam à escuta no escuro, o coração dela a batere a caçadeira mais pesada a cada segundo que passa. Não consegue ver nem ouvir nada, a não ser um gemido baixo que faz lembrar um sopro a passar pelo gargalo de uma garrafa. Desde o alto, um único feixe de luz desce pelo centro da escadaria e inclina-se para eles pelo chão axadrezado. —Vamos— diz Barry num murmúrio, abrindo a porta e puxando-a para o corredor. Avançam depressa por um corredor de alcatifa vermelha de quartos de hotel, cujos números são projetados nas portas por luzes na parede oposta. A meio do corredor, a porta do quarto 825 abre-se para dentro e sai de lá uma mulher de meia-idade envergando um roupão azul-marinho com as letras «HM» em relevo na lapela e com um balde de gelo prateado nas mãos. Barry olha de relance para Helena, que faz sinal com a cabeça. Estão agora a três metros da hóspede do hotel, que ainda não os viu. —Minha senhora?— diz Barry. Quando ela olha para eles, Barry aponta-lhe a pistola. O balde de gelo cai ao chão. Barry leva um dedo aos lábios, aproximando-se da mulher num salto. —Nem uma palavra— diz ele. Empurram-na pela soleira da porta e seguem-na para dentro do quarto. Helena fecha o ferrolho e põe a corrente. —Tenho algum dinheiro e cartões de crédito… —Não é por isso que estamos aqui. Sente-se no chão e esteja calada— diz Barry. A mulher deve ter acabado de sair do chuveiro. Tem o cabelo húmido e nem o menor vestígio de maquilhagem na cara. Helena não a olha nos olhos. Barry larga a mochila no chão e tira de lá as braçadeiras para cabos. —Por favor— suplica. —Não quero morrer. —Ninguém lhe vai fazer mal— diz Helena. —Foi o meu marido que os mandou? —Não— responde Barry. Olha para Helena. —Põe umas quantas almofadas na banheira. Helena agarra em três almofadas que estão em cima da decadente cama de dossel e posiciona-as na banheira de pés, que fica em cima de uma pequena plataforma com vista para o lusco-fusco que cai sobre a cidade e os edifícios que começam a coruscar. Quando sai da casa de banho, Barry posicionou a mulher deitada de barriga para baixo e está a amarrar-lhe os pulsos e os tornozelos. Por fim, agarra nela em peso e leva-a para a casa de banho, onde a deita com delicadeza na banheira. —Porque estão aqui?— quer saber. —Sabe que sítio é esse? —Sei. As lágrimas escorrem-lhe pela cara. —Há quinze anos, cometi um grave erro. —Que erro?— pergunta Helena. —Não deixei o meu marido quando o deveria ter feito. Desperdicei os melhores anos da minha vida. —Alguém a virá buscar— diz Barry. De seguida, rasga um pedaço de fita-cola e tapa-lhe a boca. Fecham a porta da casa de banho. A lareira a gás emana um ar quente acolhedor. A garrafa de champanhe, que, aparentemente, a mulher se preparava para beber, está pousada na mesa de cabeceira ao lado de um único copo e de um diário aberto, as duas páginas totalmente escritas à mão. Helena não se consegue conter. Olha de relance para a elegante caligrafia e percebe que se trata da narrativa de uma memória, talvez aquela para a qual a mulher que está na banheira irá recuar. Começa assim: «Da primeira vez que ele me bateu, eu estava na cozinha às dez da noite, a perguntar-lhe onde ele estivera. Lembro-me de que tinha a cara ruborizada, o hálito a cheirar a uísque e os olhos lacrimejantes.» Helena fecha o diário, vai até à janela e abre o cortinado. Entra uma luz fraca. Espreita para a East Forty-Ninth e vê o carro de Barry, sete pisos mais abaixo e um pouco mais ao fundo do quarteirão. A cidade está molhada, tristonha. A mulher chora na casa de banho. Barry acerca-se de Helena e diz: —Não sei se deram pela nossa presença. De qualquer maneira, deveríamos ir já à procura do Slade. Por mim, arriscava apanhar o elevador. —Tens um canivete? —Tenho. —Posso vê-lo? Barry mete a mão ao bolso e tira de lá um canivete enquanto Helena despe o casaco de couro e arregaça as mangas da camisa cinzenta. Helena pega no canivete, senta-se num cadeirão e abre a lâmina. —O que estás a fazer?— pergunta Barry. —Um ponto de segurança. —Um quê? Helena enterra a ponta da lâmina na lateral do braço esquerdo acima do cotovelo e passa a lâmina pela pele. Quando sente a dor e o sangue começa a escorrer… BARRY 7 de novembro de 2018 —Que raio estás a fazer?— pergunta Barry. Helena tem os olhos fechados, a boca entreaberta, completamente imóvel. Com cuidado, Barry tira-lhe o canivete da mão. Por um longo mo mento, nada acontece. Então, ela abre de repente os olhos verde-claros. Algo neles está diferente. Destilam um medo e uma intensidade que antes não ostentavam. —Estás bem?— pergunta Barry. Helena sonda a sala, consulta o relógio de pulso e depois abraça Barry com uma ferocidade que o assusta. —Estás vivo. —É claro que estou vivo. O que foi que te aconteceu? Ela leva-o até à cama e sentam-se. Helena retira a fronha de uma almofada e rasga uma tira de pano, que começa a amarrar à volta da ferida autoinfligida para estancar a hemorragia. —Acabei de utilizar a cadeira para regressar a este momento— diz ela. —Estou a começar um novo friso cronológico. —A tua cadeira? —Não, a que está no décimo sétimo andar. A cadeira do Slade. —Não compreendo. —Eu já vivi os próximos quinze minutos. A dor do corte no braço agora mesmo foi uma pista que deixei para regressar a este momento. Deixou em mim uma memória vívida e de curto prazo para a qual eu regressar. —Queres dizer que sabes o que está prestes a acontecer? —Se formos à penthouse, sim. O Slade sabe que vamos lá. Estará à nossa espera. Nem sequer chegamos a sair do elevador. És alvejado com uma bala num olho. Há imenso sangue e eu desato a disparar. Devo acertar no Slade, porque de repente ele está a rastejar pela sala de estar. Apanho o elevador até ao décimo sétimo andar, encontro o laboratório e rebento a porta com um balázio no preciso instante em que o Jee-woon está a entrar para o tanque. Ele começa a caminhar para mim a dizer que sabe que eu nunca o magoaria depois de tudo o que fez por mim, mas nunca esteve tão errado em toda a sua vida. No terminal, inicio sessão com umas credenciais de backdoor. Depois, mapeio uma memória, meto-me no tanque e regresso à memória de me cortar neste quarto. —Não tinhas de voltar por minha causa. —Para ser franca, não o teria feito. Só que não sabia onde o Sergei estava e não tinha tempo suficiente para destruir o equipamento. Mas estou muito feliz por estares vivo. —Consulta outra vez o relógio. —Vais ter uma memória terrível sobre tudo isto dentro de cerca de doze minutos, tal como toda a gente que está neste edifício. O que é um problema. Barry levanta-se da cama e dá a mão a Helena para a ajudar a pôr-se de pé. Ele levanta a caçadeira. —Portanto, o Slade está lá em cima à nossa espera, pensando que vamos diretamente para lá, que foi o que fizemos da primeira vez— diz ele. —Correto. —O Jee-woon já está a dirigir-se para a cadeira no décimo sétimo andar, provavelmente para saber se houve uma quebra de segurança para se meter na câmara de privação sensorial e apagar este friso cronológico. E o Ser gei está… —Em parte incerta. Na minha opinião, vamos diretamente para o laboratório e tratamos primeiro do Jee-woon. Aconteça o que acontecer, não o podemos deixar entrar no tanque. Passam do quarto para o corredor. Barry toca de forma compulsiva nos carregadores extra que tem nos bolsos. Quando chegam à fila de ascensores, carrega no botão para chamar o elevador e fica a ouvir as engrenagens rodarem do outro lado das portas com a Glock a postos. —Nós já fizemos esta parte— diz Helena. —Não vem ninguém no elevador. Quando a luz por cima do elevador se acende, a campainha toca. Barry levanta a pistola, o dedo no gatilho. As portas abrem-se para os lados. Ninguém. Entram para a pequena cabina e Helena carrega no botão do piso 17. As paredes deste elevador são feitas de velhos espelhos manchados de fumo e olhar para eles cria uma ilusão recursiva— um número infinito de Barrys e Helenas em cabinas de elevador desdobrando-se pelo espaço. Quando começam a subir, Barry diz: —Vamos encostar-nos à parede. Quero tornar-meum alvo o mais pequeno possível quando as portas se abrirem. Que arma é que o Slade tinha? —Uma pistola cinzenta. —E o Jee-woon? —Havia uma pistola parecida com a tua à beira do terminal. O botão de cada piso acende-se conforme passam por eles. Nono. Décimo. Tolhe-o uma vaga de náuseas— são os nervos. Sente o sabor do medo na boca por causa da descarga de adrenalina para a corrente sanguínea. Décimo primeiro. Décimo segundo. Décimo terceiro. Fica espantado por Helena não parecer tão apavorada como ele, mas, bem vistas as coisas, já não é a primeira vez que ela enfrenta a zaragata. —Obrigado por regressares por mim— diz ele. Décimo quarto. —Mas desta vez tenta não morrer. Décimo quinto. Décimo sexto. —Aqui vamos nós— diz ela. O elevador detém-se com um rangido no décimo sétimo andar. Barry levanta a Glock. Helena encosta a caçadeira ao ombro. As portas abrem-se de par em par e deixam antever um corredor deserto a todo o comprimento do edifício, com outros corredores a seguir noutras direções um pouco mais adiante. Barry sai do elevador com cuidado. Só se ouve o ténue zumbido das luzes por cima das suas cabeças. Helena segue ao lado dele e, quando afasta o cabelo da cara, Barry é subjugado por um impulso protetor e brutal que o aterroriza e espanta. Conhece-a há pouco mais de vinte e quatro horas. Avançam. O laboratório é um espaço lustroso e branco, cheio de luzes embutidas e vidro. Passam por uma janela com vista para uma câmara onde há mais de uma dúzia de microscópios MEG, onde uma jovem cientista está a soldar uma placa de circuitos. Parece que ela não dá pela presença deles. Quando se aproximam da primeira confluência de corredores, ouvem uma porta bater ali perto. Barry detém-se, à espera de ouvir passos, mas só ouve aquelas luzes. Helena leva-o por outro corredor que confina com uma longa parede e janelas com vista para o crepúsculo azulado de Manhattan naquele final de tarde agreste; as luzes à volta dos edifícios brilham no anoitecer brumoso. —O laboratório fica ali à frente— murmura Helena. Barry tem as mãos transpiradas. Limpa-as às calças para segurar melhor a Glock. Param a uma porta onde há um teclado para inserir um código. —É possível que ele já esteja lá dentro— diz ela num murmúrio. —Não sabes o código? Ela abana a cabeça e levanta a caçadeira. —Mas isto resultou da última vez. Barry percebe uma silhueta a dobrar a esquina ao fundo do corredor. Põe-se à frente de Helena, que grita: —Jee-woon, não! Ouvem-se tiros no silêncio, o lampejo de uma bala a sair de um cano apontado a Barry, que descarrega a sua Glock numa rajada. Jee-woon desapareceu. Acontece tudo em cinco segundos. Barry ejeta o carregador vazio, encaixa um novo na arma e puxa a corrediça. Olha para Helena. —Estás bem? —Sim, porque tu te meteste à frente… Oh, meu Deus, foste alvejado. Barry cambaleia para trás, o sangue a jorrar do abdómen, a escorrer pela perna por debaixo das calças, fluindo por cima do sapato e para o chão, formando uma comprida mancha avermelhada. A dor não tarda, mas ele está demasiado estimulado pela adrenalina para perceber a gravidade do ferimento— apenas uma pressão cada vez mais forte na zona intermédia do lado direito do tronco. —Temos de sair deste corredor— geme, e pensa: Meteram-me uma bala no fígado. Helena arrasta-o até dobrar a esquina. Barry senta-se no chão. Agora a sangrar profusamente, o sangue quase preto. Olha para Helena e diz: —Certifica-te de que… ele não vem aí. Ela espreita pela esquina. Quando repara que a pistola lhe caiu da mão, Barry apanha-a do chão. —Eles podem já estar no laboratório— diz. —Eu apanho-os. —Desta não me safo. —Repara num movimento à sua esquerda e tenta levantar a Glock, mas Helena é mais rápida e faz um disparo ensurdecedor que obriga um homem que ele nunca viu a recuar para o corredor. —Vai— diz Barry. —Depressa. O mundo está a ficar mais escuro e sente um zumbido nos ou vidos. Depois, está deitado com a cara encostada ao chão e a vida a esvair-se do seu corpo. Ouve mais disparos. Helena a gritar: —Sergei, não me obrigues a fazer isto. Tu conheces-me! Depois, dois tiros de caçadeira seguidos de gritos. Da sua perspetiva enviesada, vê várias pessoas, que correm pela convergência de corredores e voltam para os elevadores— hóspedes e outros membros da equipa a fugir da barafunda. Tenta levantar-se, mas mal consegue mexer a mão. Sente o corpo como que cimentado ao chão. O fim está a chegar. Apoiar-se sobre os cotovelos é simplesmente a coisa mais difícil que alguma vez fez. Vá-se lá saber como, consegue rastejar, arrastando-se para o outro lado da esquina do corredor com janelas que conduz ao laboratório. Ouve mais tiros. A sua visão foca e desfoca, os estilhaços de vidro no chão das janelas baleadas cortam-lhe os braços e uma chuva fria entra para o edifício. As paredes estão crivadas de balas e uma bruma de fumo espalha-se pelo ar, produzindo-lhe um sabor a metal e enxofre no fundo da sua garganta. Barry rasteja pelo meio dos invólucros de calibre .40 da sua pistola e tenta chamar Helena, mas o nome dela passa-lhe pelos lábios num débil queixume. Arrasta-se o resto do caminho até à entrada. Demora um momento a focar a visão. Helena está de pé no terminal, os dedos dela esvoaçam por uma panóplia de teclados e ecrãs tácteis. Reúne todas as forças e consegue dizer o nome dela. Helena olha de relance para ele. —Eu sei que estás em sofrimento. Estou a fazer isto o mais depressa que posso. —A fazer o quê?— pergunta Barry; a sua respiração torna-se progressivamente mais agonizante e cada vez menos oxigénio chega ao seu cérebro. —Vou regressar à memória do corte que fiz naquele quarto de hotel. —O Jee-woon e o Sergei estão mortos. —Tosse e sai-lhe pela boca uma golfada de sangue. —O melhor é… destruíres tudo. —O Slade ainda anda à solta— diz Helena. —Se escapar, poderá construir outra cadeira. Preciso que vigies a porta. Sei que estás a sofrer, mas podes fazer isso? Avisa-me se ele vier. Afasta-se do terminal e sobe para a estrutura recurvada da cadeira de memória. —Vou tentar— diz Barry, e encosta a cabeça ao chão frio. —Da próxima vez, teremos êxito— diz Helena. Estica-se e puxa o microscópio MEG para baixo. Quando prende a correia do queixo, Barry faz um esforço para não desviar os olhos do corredor, ciente de que, se Slade aparecer, nada poderá fazer para o travar. Nem sequer tem forças para levantar a arma. Por fim, as memórias mortas de ele a morrer no último friso cronológico desfazem-se na sua consciência. As portas do elevador a abrir para a entrada da penthouse de Slade. Slade de pé na sua sala de estar imaculada cheia de janelas, a apontar um revólver para a cabina do elevador. Barry a pensar: Merda. Ele sabia. Um lampejo de luz sem som. Depois— nada. No meio da bruma da morte, Barry faz um esforço para olhar uma última vez para o laboratório. Consegue ver Helena arrancar a camisa, despir as calças de ganga e meter-se no tanque de privação sensorial. Barry vai a correr por um corredor, o nariz a sangrar, a cabeça a latejar. A dor de ser alvejado no friso cronológico desapareceu, as memórias deste novo friso encaixam-se no devido lugar. Ele e Helena saíram do quarto 825. Desceram do elevador no décimo sétimo andar, seguiram por um caminho diferente para o laboratório com a intenção de apanhar Jee-woon e Slade a descerem do elevador. Porém, deram de caras com Sergei e perderam demasiado tempo a tentar passar por ele. Agora vão a correr para o laboratório. Barry limpa o sangue do nariz e pestaneja para afastar o suor salgado dos olhos. Dobram uma esquina e chegam à porta do laboratório, que Helena abre com um disparo da caçadeira. Barry é o primeiro a entrar e soam dois disparos ensurdecedores que por pouco não o atingem na cabeça. Para seu espanto, os disparos são feitos por um homem que ele já viu uma vez— há onze anos, na noite em que foi mandado de volta para uma memória. Marcus Slade encontra-se a sete metros dele, junto ao terminal, envergando uma camisola de manga cava branca e calções cinzentos,como se tivesse acabado de vir do ginásio, o cabelo encaracolado escuro alisado para trás com o suor. Tem na mão um revólver em aço acetinado e está a fitar Barry com ar de quem o reconhece na perfeição. Barry acerta-lhe no ombro direito, e Slade cambaleia para trás, contra o monte de painéis de controlo, largando o revólver quando desliza até ao chão. Helena corre para o tanque de privação sensorial e puxa a alavanca de libertação de emergência. Quando Barry chega ao tanque, ela está a abrir a escotilha, revelando Jee- woon a boiar de costas na água salgada, e a tentar desesperadamente arrancar a linha intravenosa do antebraço esquerdo dele. Barry mete a Glock no coldre, mergulha os braços na água morna e tira Jee-woon lá de dentro, largando-o no chão. Jee-woon cai e logo se endireita, levantando o olhar para Barry e Helena, apoiado sobre as mãos e os joelhos, nu e a escorrer água para os ladrilhos. Olha para a arma de Slade, que está a dois metros dele, e lança-se para a agarrar. Barry segue-o com a pistola e dispara, sendo imitado por Helena. O impacto das balas projeta o corpo de Jee-woon contra a parede com um baque, uma ferida aberta no peito, as forças a deixá-lo ao mesmo ritmo do sangue. Barry aproxima-se dele com cuidado, mantendo a pistola apontada para o corpo destroçado do homem, mas, quando chega à beira dele, Jee-woon já morreu— tem os olhos vidrados, transparecendo aquele vazio final. HELENA 7 de novembro de 2018 Ter Slade na mira da caçadeira é um dos momentos gratificantes da existência fragmentada de Helena. Leva a mão ao bolso e tira de lá uma pen drive. —Vou apagar todas as linhas de código. Depois, vou desmantelar a cadeira, o microscópio… —Helena… —Quem fala agora sou eu! Os estimuladores. Todos os equipamentos de hardware e software do edifício. Será como se a cadeira nunca tivesse existido. Slade está encostado à base do terminal, a dor espelhada nos olhos. —Parece que passou apenas um minuto, não foi? —Para mim, foram trinta anos— diz ela. —Quanto tempo foi para si? Ele parece refletir sobre a pergunta enquanto Barry se aproxima dele e afasta a pistola com o pé. —Quem sabe?— acaba por dizer. —Depois de desaparecer da minha plataforma petrolífera… a propósito, boa jogada, nunca percebi bem como o conseguiu… demorei anos a reconstruir a cadeira. Mas desde então vivi mais vidas do que possa imaginar. —A fazer o quê?— pergunta ela. —Na maioria, foram explorações serenas de quem sou, quem poderia ser, em sítios diferentes, com pessoas diferentes. Outras foram… mais aparatosas. Mas neste último friso cronológico descobri que já não conseguia gerar um número de sinapses suficiente para mapear a minha própria memória. Viajei demasiado. Enchi a mente de demasiadas vidas. Demasiadas experiências. Ela começa a fraturar-se. Há vidas inteiras que nunca recordei, que apenas experienciei em lampejos. Este hotel não é a primeira coisa que eu fiz. É a última. Construí-o para que outros experienciassem aquilo que continua a ser, o que sempre será, a sua criação. Inspira de forma tensa e olha para Barry. Helena pensa que os seus olhos, apesar de uma dor evidente, transparecem a profundidade serena de um homem que viveu muito, muito tempo. —É uma maneira dos diabos de agradecer ao homem que lhe devolveu a filha— diz Slade. —Pois, mas agora ela está morta outra vez, seu estafermo de merda. O choque de se lembrar da sua própria morte e o aparecimento daquele prédio ontem foi demasiado para ela. —Lamento muito. —Você está a utilizar a cadeira de forma destrutiva. —É verdade— concorda Slade. —Será destrutiva de início, como todo o progresso. Tal como a era industrial desencadeou duas guerras mundiais. Tal como o Homo sapiens suplantou o Neandertal. Mas voltaria atrás em relação a tudo aquilo que acarretou? Seria capaz de o fazer? O progresso é inevitável. E é uma força para o bem. Slade olha para o ferimento no ombro, toca-lhe, faz um esgar, depois olha outra vez para Barry. —Quer falar sobre o que é destrutivo? O que me diz de ficarmos trancados nos nossos pequenos aquários, nesta piada de existência que nos é imposta pelos limites dos nossos sentidos primitivos? A vida é sofrimento, mas não tem de ser. Por que razão deveria ser obrigado a aceitar a morte da sua filha quando a pode mudar? Porque é que um moribundo não pode voltar a ser jovem com sabedoria e conhecimento em vez de exalar os últimos suspiros em agonia? Porquê deixar a tragédia acontecer quando podemos voltar atrás e preveni-la? Aquilo que defende não é a realidade, é uma prisão, uma mentira. —Slade olha para Helena. —Você sabe isso. Tem de perceber isso. Potenciou uma nova era para a humanidade. Uma era em que já não sofremos e morremos. Em que podemos experienciar tantas coisas. Acredite em mim, a nossa perspetiva muda quando vivemos incontáveis vidas. Você permitiu-nos escapar às limitações dos nossos sentidos. Salvou-nos a todos. É esse o seu legado. —Sei o que você me fez em São Francisco— diz Helena. —No friso cronológico original. —Slade fita-a sem pestanejar. —Quando me disse que descobriu por acidente o que a cadeira era capaz de fazer, esqueceu-se de me dizer que me assassinou. —Porém, aqui está você. A morte já não tem qualquer poder sobre nós. Isto é a sua obra, Helena. Aproveite-a. —Não é possível que acredite que podemos confiar a cadeira de memória à humanidade— diz ela. —Pense no bem que poderia fazer. Eu sei que queria utilizar esta tecnologia para ajudar as pessoas. Para ajudar a sua mãe. Você pode recuar a uma memória e estar com a sua mãe antes de ela morrer, antes de a sua mente se autodestruir. Pode salvar as memórias dela. Podemos anular as mortes do Jee-woon e do Sergei. Será como se nada tivesse acontecido. —O seu sorriso transparece a dor. —Não consegue perceber como seria um mundo belo? Helena avança um passo para ele. —Pode até ter razão. Talvez haja um mundo em que a cadeira torna as nossas vidas melhores. Mas a questão não é essa. A questão é que também pode estar errado. A questão é que não sabemos o que as pessoas fariam com este conhecimento. Só sabemos que, assim que um número suficiente de pessoas souber da cadeira, ou como a construir, não haverá como voltar atrás. Nunca escaparemos do ciclo de conhecimento universal da cadeira. Ela existirá em todos os frisos cronológicos ulteriores. Teremos condenado a humanidade para todo o sempre. Eu cá prefiro correr o risco e prescindir de uma coisa gloriosa a arriscar tudo num único lançamento dos dados. Slade brinda-a com aquele sorriso que diz «sei mais do que pensas» e que a faz lembrar-se dos anos que passou com ele na plataforma petrolífera. —Você continua ofuscada pelas suas limitações. Continua a não ver o panorama completo. E talvez nunca veja, a menos que possa viajar como eu viajei… —O que quer dizer com isso? Ele abana a cabeça. —Do que está a falar, Marcus? O que quer dizer com «como eu viajei»? Slade limita-se a fitá-la, a sangrar, e depois o zunido dos processadores quânticos diminui de intensidade e a sala mergulha num súbito silêncio. Um a um, os monitores do terminal desligam-se e, quando Barry olha para Helena sem perceber o que está a acontecer, todas as luzes se apagam. BARRY 7 de novembro de 2018 Vê as imagens residuais de Helena, Slade e da cadeira. Depois… nada. O laboratório fica completamente às escuras. Nenhum barulho a não ser o bater do seu coração. Mesmo à sua frente, no sítio onde Slade estava sentado há segundos, Barry ouve o ruído de alguém a escapulir-se atabalhoadamente pelo chão. Um disparo de caçadeira ilumina a sala por um ensurdecedor fragmento de segundo— o tempo suficiente para Barry ver Slade desaparecer pela porta. Barry dá um passo hesitante, as retinas ainda a sofrerem o choque do disparo da caçadeira de Helena, a penumbra em tons de cor de laranja. O vão da porta ganha forma quando as luzes dos edifícios em redor passam pelas janelas do corredor. A sua audição recuperou o suficiente da detonação para ouvir o som de passadas rápidas afastando-se pelo corredor.recordação que ele tem de modo quase obsessivo. — Estás pensativo — diz Julia. — Estava a pensar naquela viagem que fizemos a Lake Tear of the Clouds. Lembras-te? — É claro. Demorámos duas horas a montar a tenda debaixo de uma chuvada. — Pensei que estivesse bom tempo. Ela abana a cabeça. — Não, passámos a noite a tremer de frio e ninguém pregou olho. — Tens a certeza? — Tenho. Aquela viagem esteve na origem da minha regra de nunca mais acampar na natureza. — Pois. — Como é possível que te tenhas esquecido disso? — Não sei. A verdade é que está sempre a acontecer. Ele recorda constantemente o passado, vive mais nas memórias do que no presente, muitas vezes alterando-as para as embelezar. Para as tornar perfeitas. A nostalgia é para ele um analgésico, como o álcool. Por fim, diz: — Talvez ver estrelas-cadentes com as minhas meninas me tenha parecido uma memória melhor. Ela atira o guardanapo para cima do prato e recosta-se na cadeira. — Há pouco tempo, passei pela nossa antiga casa. Está mesmo muito mudada. Tu não costumas passar por lá? — De vez em quando. Para dizer a verdade, ele continua a passar pela sua antiga casa sempre que tem assuntos para tratar em Jersey City. Ele e Julia perderam-na numa execução hipotecária no ano depois de Meghan morrer e atualmente pouco se parece com o sítio onde moraram. As árvores estão mais altas, mais frondosas, mais verdes. Foi construído um anexo por cima da garagem e agora mora lá uma família jovem. Toda a fachada foi recuperada em alvenaria e mudaram as janelas. A rampa de acesso foi ampliada e o pavimento mudado. O baloiço de corda que estava dependurado no carvalho foi retirado há anos, mas as iniciais que ele e Meghan certa vez entalharam no tronco ainda estão lá. Tocou-lhes à porta no verão passado — achando que era boa ideia ir de táxi até Jersey City às duas da manhã depois de uma noitada com Gwen e os restantes colegas da Divisão de Investigação Criminal. Aparecera um polícia de Jersey City depois de os novos proprietários ligarem para o número de emergência participando a presença de um vagabundo no seu pátio da frente. Apesar de estar a cambalear de bêbedo, não foi detido. O polícia conhecera Barry, soubera o que lhe acontecera. Chamara outro táxi e ajudara Barry a entrar para o banco de trás. Pagara a corrida até Manhattan e mandara-o à sua vida. A brisa que chega da água é fresca e o sol é quente nos seus ombros — um contraste agradável. Barcos de turistas sobem e descem o rio. O barulho do tráfego é incessante na autoestrada por cima deles. O céu entrecruzado pelos rastos a dissipar-se de um sem-número de aviões a jato. É o final do outono na cidade, um dos últimos dias de bom tempo do ano. Ele pensa que o inverno está para chegar, que passará mais um ano, e depois outro, em risco de ser despedido, o tempo a passar cada vez mais depressa. A vida não é nada do que ele esperara quando era mais novo e vivia com a ilusão de que era possível controlar os acontecimentos. Nada pode ser controlado, apenas tolerado. Quando lhes trazem a conta, Julia tenta pagar, mas ele arranca-lha da mão e atira o cartão para cima da mesa. — Obrigada, Barry. — Obrigado por me convidares. — Não podemos passar outro ano sem nos vermos. — Ela levanta o seu copo de água com gelo. —À nossa aniversariante. — À nossa aniversariante. — Consegue sentir a nuvem de amargura coalescer no seu peito, mas respira fundo e, quando volta a falar, a sua voz sai quase normal. — Vinte e seis anos. Depois do brunch, vai a pé até ao Central Park. O silêncio do seu aparta‐ mento parece uma ameaça no aniversário de Meghan, visto que os últimos cinco não correram bem. Sempre que vê Julia, fica perturbado. Durante muito tempo depois de o seu casamento acabar, ele pensou que sentiria a falta da sua ex-mulher. Pensou que nunca a esqueceria. Amiúde, sonhava com ela e acordava com a dor da ausência dela a consumi-lo. Os sonhos magoavam-no profundamente — eram em parte memória, em parte fantasia —, porque, neles, ela parecia- lhe sempre a Julia de antigamente. O sorriso. O riso decidido. A leveza do ser. Ela era novamente a pessoa que lhe roubara o coração. Ao longo de toda a manhã seguinte, não a conseguia esquecer, a totalidade daquela perda a fitá-lo com desdém, resoluta, até a ressaca emocional do sono por fim o libertar como uma névoa a dissipar-se aos poucos. No rescaldo de um desses sonhos, certa vez encontrara Julia, sem contar, na festa de um velho amigo. Para seu espanto, não sentira nada de nada quando, constrangidos, conversaram na varanda. Estar na presença dela quebrara a abstinência do sonho; ele não a desejava. Fora uma revelação libertadora, embora o tenha deixado destroçado. Libertadora porque significava que ele não amava esta Julia — ele amava a pessoa que ela fora. Destroçado porque a mulher que assombrava os seus sonhos desparecera completamente. Estava inacessível como se estivesse morta. As árvores do parque estão no auge depois de uma vaga de frio há várias noites, as folhas todas queimadas da geada com o colorido do final de outono. Encontra um local na zona de Ramble, descalça os sapatos e as meias e encosta-se a uma árvore com uma inclinação perfeita. Pega no telemóvel e tenta ler a biografia com que anda laboriosamente entretido há quase um ano, mas não se consegue concentrar. Ann Voss Peters assombra-o. A maneira como caiu sem produzir um único som, o corpo rígido e ereto. Demorou cinco segundos e ele não desviou o olhar quando ela se despenhou em cima do Lincoln Town Car que estava estacionado na berma da estrada. Não estando a rever mentalmente a conversa que tiveram, está às voltas com o medo. A pôr as suas memórias à prova. A testar a sua fidelidade. A questionar-se: Como é que eu poderia saber se uma memória mudou? Qual seria a sensação? Folhas vermelhas e cor de laranja adejam sob a luz do Sol, acumu lando- se a toda a sua volta na sombra salpicada. Da sua posição estratégica no meio das árvores, observa as pessoas que caminham pelos trilhos, vagueando junto ao lago. Na sua maioria passam acompanhadas, mas algumas estão sozinhas, como ele. Recebe uma mensagem de texto da sua amiga Gwendoline Archer, chefe da Hercules Team, uma unidade de contraterrorismo da SWAT, integrada na unidade de serviço de emergência da Polícia de Nova Iorque. Tenho pensado em ti. Estás bem? Ele responde-lhe: Sim. Acabei de estar com a Julia. Como correu? Bem. É difícil. O que tens feito? Acabei agora uma rusga. Estou a beber no Isaac’s. Queres companhia? Podes crer. Estou a ir para aí. É uma caminhada de quarenta minutos até ao bar que fica perto do apartamento de Gwen, em Hell’s Kitchen, cujo único mérito aparente é ter- se aguentado durante quarenta e cinco anos. Empregados de balcão irritadiços servem cervejas nacionais de pressão desinteressantes e não há uma única garrafa de uísque que não se possa comprar em qualquer loja por menos de trinta dólares. As instalações sanitárias são nojentas e ainda têm máquinas de venda de preservativos. A jukebox toca penas rock dos anos 70 e 80 e, se ninguém lá meter uma moeda, não há música. Barry aproxima-se de Gwen, que está sentada na ponta mais afastada do balcão com uns calções de ciclismo e uma T-shirt desbotada da Brooklyn Marathon, a deslizar o ecrã do telemóvel com a mão esquerda numa aplicação de encontros. — Pensei que te tinhas deixado disso— diz ele. — Por uns tempos, deixei-me completamente de pessoas do teu sexo, mas o meu terapeuta dá-me cabo do juízo para que eu tente outra vez. Desce do banco e abraça-o, o ténue cheiro a transpiração misturado com resquícios de gel de banho e desodorizante, cujo resultado faz lembrar caramelo salgado. — Obrigado por te preocupares comigo — diz ele. — Não deverias estar sozinho hoje. Ela é quinze anos mais nova, está na casa dos trinta, e, com o seu metro e noventa e três, a mulher mais alta que ele conhece em pessoa. Com cabelo loiro curto e feições escandinavas, não é propriamente bonita, mas faz lembrar a realeza. Não raro parece austera semBarry acha que, naqueles poucos segundos de escuridão, Slade não teve tempo de deitar a mão à pistola, mas não pode ter a certeza. O mais certo é que Slade esteja a fugir tresloucadamente para uma das escadarias. A voz de Helena emerge desde o vão da porta, um murmúrio: —Estás a vê-lo? —Não. Espera um pouco até eu conseguir perceber o que está a acontecer. Corre ao longo das janelas com vista para uma noite chuvosa de Manhattan. Algures do chão chega um matraquear, como se alguém estivesse a tocar tambor. Dobra a esquina seguinte, na penumbra completa, e, conforme se aproxima do corredor principal, bate com o pé em alguma coisa no chão. Agacha-se e toca na camisola de manga cava ensanguentada de Slade. Continua a não conseguir ver coisa alguma, mas reconhece o silvo agudo de um pulmão perfurado que não consegue encher completamente e o gorgolejar mais baixo de Slade a afogar-se no próprio sangue. Sente-se envolvido por um terror glacial. Passando a mão ao longo da parede, chega à confluência de corredores. Por instantes, apenas ouve Slade exalar o último suspiro atrás de si. Alguma coisa voluteia junto à ponta do seu nariz e choca com um baque na parede nas suas costas. Disparos com silenciadores e clarões deixam antever meia dúzia de agentes junto aos elevadores, todos com capacetes táticos integrais e coletes à prova de bala, as armas de assalto encostadas ao ombro. Barry protege-se do outro lado da esquina e grita: —Inspetor Sutton, Polícia de Nova Iorque! Vigésima quarta esquadra! —Barry? Ele conhece aquela voz. —Gwen? —Que diabo está a acontecer, Barry? —Depois, para os homens que a acompanham: — Eu conheço-o, eu conheço-o! —O que estás aqui a fazer? — pergunta Barry. —Recebemos uma participação de disparos neste edifício. O que estás tu aqui a fazer? —Gwen, tens de tirar a tua equipa daqui e deixar-me… —A equipa não é minha. —De quem é? —O nosso drone revela uma assinatura térmica numa das salas atrás de si — troveja uma voz de homem ao fundo do corredor. —Não é uma ameaça— diz Barry. —Barry, tens de deixar estes homens fazerem o seu trabalho— diz Gwen. —Quem são eles? — pergunta Barry. —Porque não te mostras e falas connosco? Tratarei das apresentações. Estás a deixar toda a gente muito nervosa. Ele tem esperança de que Helena tenha percebido o que está a acontecer e fugido. Precisa de lhe ganhar mais tempo. Se ela conseguir chegar ao seu laboratório em Red Hook, dentro de quatro meses conseguirá acabar de construir a cadeira e regressar a este dia e resolver a situação. —Não me estás a dar ouvidos, Gwen. Leva toda a gente para a garagem e vão-se embora. — Barry vira-se para trás e grita na direção do laboratório: — Helena, foge! Começa a ouvir o barulho de equipamento a chocalhar ao fundo do corredor— estão a avançar para ele. Barry lança-se de detrás da esquina e dispara para o ar. Segue-se uma reação exagerada e imediata de disparos — um turbilhão de balas a metralhar o corredor a toda a sua volta. —Estás a ver se te matam? — grita Gwen. —Helena, vai! Sai do edifício! Algo rola pelo corredor e pára a um metro dele. Antes mesmo de ter tempo de perceber o que é, a granada de atordoamento explode, soltando uma faixa ofuscante de luz e fumo que deixa tudo branco e um zunido agudo da perda de audição temporária a sobrepor-se a todos os outros barulhos. Quando a primeira bala o atinge, ele não sente dor— apenas o impacto. Depois vem outra e outra, dilacerando-lhe os flancos, a perna, o braço, e, quando a dor se faz presente, ocorre-lhe que, desta vez, Helena não o irá salvar. «Aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado.» GEORGE ORWELL, 1984 HELENA 15 de novembro de 2018 – 16 de abril de 2019 Dia 8 É a clausura mais estranha. O apartamento é de uma assoalhada, perto de Sutton Place, espaçoso e com o pé direito alto, uma vista magnífica sobre a Fifty-Ninth Street Bridge, East River e a distante periferia de Brooklyn e Queens. Ela não tem acesso a um telefone, ligação à Internet ou qualquer outra maneira de entrar em contacto com o mundo exterior. Quatro câmaras, instaladas nas paredes, mantêm sob vigilância cada milímetro do espaço; as luzes de gravação vermelhas cintilam por cima dela mesmo quando está a dormir. Os seus captores, um casal chamado Alonzo e Jessica, ostentam um enorme autodomínio. No início, isso acalmava-a. No primeiro dia, mandaram-na sentar-se na sala de estar e disseram: —Sei que tens perguntas, mas nós não somos as pessoas certas para lhes responder. Mesmo assim, Helena perguntou. O que aconteceu ao Barry? Quem ordenou o ataque surpresa ao edifício do Marcus Slade? Quem me mantém aqui prisioneira? Jessica debruçou-se para a frente e disse: —Nós somos guardas prisionais que se fazem pagar bem, percebes? Nada mais. Não sabemos por que motivo estás aqui. Não queremos saber por que motivo estás aqui, mas se te portares bem, nós e as outras pessoas que trabalham connosco, com quem nunca te encontrarás, também nos portaremos bem. Providenciam-lhe as refeições. Dia sim, dia não, vão à mercearia e trazem aquilo que ela escreve numa folha de papel. À primeira vista, são amistosos, mas os seus olhos transparecem uma inegável insensibilidade —ou antes, indiferença—, o que lhe garante que a magoariam, ou pior, caso tivessem ordens para tanto. Ela vê as notícias logo pela manhã e, a cada ciclo que passa, a SFM ocupa menos tempo de antena na interminável sucessão de tragédias, escândalos e mexericos sobre celebridades. Um tiroteio numa escola ceifa dezanove vidas, e esse acontecimento marca o primeiro dia desde que o Big Bend apareceu que os principais títulos não mencionam a SFM. No oitavo dia no apartamento, Helena senta-se na ilha da cozinha a comer huevos rancheros ao pequeno-almoço e a ver a luz do Sol entrar pela janela com vista para o rio. Esta manhã, no reflexo do espelho da casa de banho, inspecionou a linha de suturas que tem no sobrolho e o hematoma preto e amarelado, que começa a desaparecer, infligido pelo agente da SWAT que a deixou inconsciente com um golpe na escadaria do edifício de Slade quando ela tentava fugir. A cada dia que passa, a dor diminui, ao passo que o medo e a incerteza aumentam. Come devagar, tentando não pensar em Barry, porque quando imagina a cara dele, a abjeta impotência da sua situação torna-se insuportável, e não saber o que está a acontecer dá-lhe vontade de gritar. Alguém abre o ferrolho e Helena olha pelo pequeno corredor até ao vestíbulo quando a porta se abre e assoma um homem que, até agora, existia apenas numa memória morta. —Fecha a porta e desliga as câmaras— diz Rajesh Anand para alguém que está no corredor. —Que raio, Raj?! – Levanta-se do banco onde estava sentada na cozinha e vai ao encontro dele, onde o vestíbulo conflui com a sala de estar. —O que estás a fazer aqui? —Vim ver-te. —Olha fixamente para Helena com um ar confiante que não tinha quando trabalharam juntos na plataforma. Adquiriu uma aparência melhor com o passar dos anos, a cara bem barbeada ao mesmo tempo delicada e bem-parecida. Enverga um fato e traz uma pasta na mão esquerda. Os cantos dos seus olhos castanhos enrugam-se com um sorriso genuíno. Passam para a sala de estar e sentam-se frente a frente nuns sofás de couro. —Estás confortável aqui? — pergunta. —Raj, o que se está a passar? —Estás a ser retida numa casa segura. —Sob a autoridade de quem? —Da Agência de Projetos de Investigação Avançados de Defesa[1]. Ela sente um aperto no estômago. —A DARPA? —Precisas de alguma coisa, Helena? —De respostas. Estou presa? —Não. —Então, estou sob detenção. Ele assente com a cabeça. —Quero um advogado. —Não é possível. —Como assim, não é possível? Sou uma cidadã americana. Isto não é ilegal? —Provavelmente. Raj levanta a pasta e pousa-a na mesa. O couro preto está desgastado em certos pontos e as ferragens de bronze perderam o brilho. —Sei que não é grande coisa— diz ele. —Pertencia ao meu pai, que ma ofereceu no dia em que parti para a América. Quandocomeça a tentar abrir o mecanismo, Helena diz: —Estava um homem comigo no décimo sétimo andar daquele… —O Barry Sutton? —Não me dizem o que lhe aconteceu. —Porque não sabem. Ele morreu. Ela já sabia. Sentiu-o nos ossos a semana inteira trancada nesta prisão de luxo. Mesmo assim, fica consternada. Ao chorar, enruga a cara de mágoa e sente as suturas retesarem-se no sobrolho. —Lamento muito— diz Raj. —Ele disparou contra a equipa da SWAT. Helena enxuga as lágrimas e fulmina-o com o olhar por cima da mesa. —Qual é o teu envolvimento nisto tudo? —Abandonar o nosso projeto na plataforma petrolífera do Slade foi o maior erro da minha vida. Pensei que ele era louco. Todos nós pensámos. Dezasseis meses mais tarde, acordei certa noite com uma hemorragia nasal. Não sei como, nem o que significava, mas todo o tempo que tínhamos passado juntos na plataforma tornara-se uma falsa memória. Percebi que tinhas descoberto uma coisa incrível. —Queres dizer que já então sabias no que consistia a cadeira? —Não. Só suspeitei que tinhas descoberto uma maneira de alterar as memórias. Quis fazer parte disso. Tentei encontrar-te e ao Slade, mas tinham desaparecido os dois. Quando a síndrome das falsas memórias apareceu pela primeira vez em grande escala, fui ao sítio onde sabia que estariam interessados na minha história. —À DARPA? Pensaste mesmo que isso era boa ideia? —Todas as agências governamentais andavam às aranhas. A CDC estava a tentar encontrar um agente patogénico que não existia. Um fisicista da RAND escreveu um memorando com a teoria de que a SFM poderia estar a ser potenciada por microalterações no espaço-tempo. Mas a DARPA acreditou em mim. Começámos a identificar vítimas de SFM e a entrevistá- las. No mês passado, encontrei uma pessoa que alegou ter sido colocada numa cadeira e enviada para uma memória passada. Apenas sabiam que tudo se passara num hotel algures em Manhattan. Tive a certeza de que tinhas de ser tu ou o Slade, ou os dois a trabalhar em conjunto. —Porque haverias de ir à DARPA com uma coisa destas? —Dinheiro e recursos. Trouxe uma equipa a Nova Iorque. Começámos a procurar este hotel, mas não o conseguimos encontrar. Então, depois de o Big Bend aparecer, ouvimos boatos de que uma equipa da SWAT da Polícia de Nova Iorque estava a planear uma incursão a um edifício em Midtown e que isso poderia estar relacionado com a SFM. A minha equipa assumiu as rédeas da operação. Helena olha pela janela para o outro lado do rio, o sol quente bate-lhe na cara. —Estavas a trabalhar com o Slade? — inquire Raj. —Estava a tentar travá-lo. —Porquê? —Porque a cadeira é perigosa. Usaste-a? —Fiz alguns diagnósticos. Sobretudo, estive a inteirar-me da funcionalidade. —Raj abre o fecho da pasta. —Olha, compreendo que tenhas preocupações, mas a tua ajuda seria preciosa. Há muitas coisas que não sabemos. —Tira de dentro da pasta um monte de folhas e lança-as para cima da mesinha. —O que é isto?— pergunta ela. —Um contrato de trabalho. Ela levanta o olhar para Raj. —Não ouviste o que acabei de dizer? —Eles sabem que com a cadeira é possível regressar a memórias. Achas mesmo que não a irão usar? Esse génio nunca voltará para a lamparina. —Isso não implica que eu tenha de os ajudar. —Mas se estiveres disposta a isso, serás tratada com o respeito que é devido ao génio que inventou esta tecnologia. Terás um lugar de destaque, farás história. Essa é a minha proposta. Posso contar contigo? Helena olha por cima da mesa com um sorriso acutilante. —Podes ir à merda. Dia 10 Está a nevar lá fora, uns frágeis dois centímetros e meio já acumulados na beira da janela. O tráfego avança devagar pela Fifty-Ninth Street Bridge, que parece existir e deixar de existir consoante a intensidade do nevão. Depois do pequeno-almoço, Jessica abre o ferrolho e manda-a vestir-se. —Porquê? — quer saber Helena. —Já — diz Jessica com o primeiro indício de ameaça que Helena ouviu de qualquer um deles nos dez dias que passaram juntos. Descem pelo monta-cargas até ao parque de estacionamento subterrâneo e até uma fila de Suburbans pretos imaculados. Seguem pelo Queens-Midtown Tunnel como se rumassem ao aeroporto LaGuardia, e Helena questiona-se se irão de avião a algum sítio, mas não se atreve a perguntar. Deixam o aeroporto para trás e continuam até Flushing, passando pelas fachadas com as cores do arco-íris de Chinatown, acabando por encostar defronte de vários prédios de escritórios baixos de aspeto indefinido. Quando se apeia do carro, Alonzo agarra Helena pelo braço e leva-a pela passagem pedonal até à entrada principal, atravessando portas duplas, e deixa-a na receção, onde um homem muito alto —com quase dois metros— está à espera. O homem manda Alonzo embora com uma voz cava. —Eu envio-te uma mensagem de texto— diz e vira a sua atenção para Helena. —Então é você o génio? — pergunta o homem. Tem uma barba magnífica e umas sobrancelhas grossas e escuras que se unem como uma sebe logo abaixo da testa. Estende-lhe a mão. —O meu nome é John Shaw. Bem-vinda à DARPA. —Qual a sua função aqui, Sr. Shaw? —Pode dizer-se que sou o responsável. Acompanhe-me. —Começa a caminhar para o ponto de controlo de segurança, mas ela fica no mesmo sítio. Ao fim de cinco passos, o homem olha para ela. —Não era um pedido, Dra. Smith. Apresenta uns crachás que lhes permitem passar por umas portas de vidro deslizantes e condu-la por um corredor atapetado com alcatifa de baeta. Quando visto do exterior, o edifício parecia um bloco de escritórios tristonho, mas o interior, com a sua iluminação sinistra e o design utilitário, é um labirinto governamental frio em toda a linha. —Desmontámos o laboratório do Slade e trouxemos tudo para aqui para que ficasse em segurança— diz o homem. —O Raj não lhe transmitiu o que penso sobre ajudar-vos? —Transmitiu. —Então, porque estou eu aqui? —Quero mostrar-lhe o que estamos a fazer. —Se isso implica a utilização da cadeira, não estou interessada. Chegam a uma porta giratória de vidro de aspeto impenetrável e a um sistema de segurança biométrico. Shaw, que é trinta a quarenta centímetros mais alto, olha para Helena. Noutras circunstâncias, poderia ter um rosto amistoso, mas de momento tem um ar intensamente zangado. Helena sente o cheiro de drageias de sabor a canela quando ele diz: —Quero que saiba que não há lugar mais seguro no mundo do que o outro lado daquele vidro. Pode não parecer, mas este edifício é uma maldita fortaleza e, na DARPA, guardamos os nossos segredos. —Aquele vidro não é capaz de conter o poder da cadeira. Nada é capaz disso. Para que é que a quer, afinal de contas? O homem repuxa o lado direito da boca e, por instantes, ela vislumbra uma astúcia empedernida nos seus olhos. —Faça-me um favor, Dra. Smith— diz Shaw. —O quê? —Durante a próxima hora da sua vida, tente manter-se recetiva. A cadeira e a câmara de privação sensorial estão lado a lado como as peças centrais sob a luz de holofotes no laboratório mais requintado que Helena já viu. Quando entram, Raj está sentado ao terminal; atrás dele encontra-se uma mulher na casa dos vinte anos em uniforme de combate preto e de botas, os braços cobertos de tatuagens e o cabelo preto apanhado num rabo de cavalo. Shaw leva Helena até ao terminal. —Apresento-lhe a Timoney Rodriguez. A militar cumprimenta Helena com um menear de cabeça. —Quem é esta? —Helena Smith. A criadora de tudo isto. Raj, como estamos? —A todo o vapor. —Gira a cadeira e olha para Timoney. —Estás pronta? —Acho que sim. Helena olha para Shaw. —O que está a acontecer? —Vamos enviar a Timoney de regresso a uma memória. —Com que finalidade? —Verá. Helena vira-se para Timoney. —Tem noção de que estão prestes a matá-la no tanque de privação sensorial? —O John e o Raj informaram-me de tudo quando entrei para o projeto. —Eles vão paralisá-la e provocar-lhe uma paragem cardíaca. Como já passei por isso quatro vezes, posso afiançar-lhe que é um processo agonizante e não há como contornar a dor. —Fixe, fixe. —As mudanças que fizer afetarão outras pessoas e provocar-lhes-ãotodo o tipo de sofrimento. Um sofrimento para o qual não estão preparadas. Acha que tem o direito de fazer isso? Ninguém dá importância à pergunta de Helena. Raj levanta-se e aproxima-se da cadeira. —Senta-te, Timoney. Tira um capacete prateado do armário ao lado do ter minal e leva-o até à cadeira. Depois, coloca-o na cabeça de Timoney e começa a apertar a fivela que o prende por baixo do queixo. —Isto é o aparelho de reativação?— pergunta Timoney. —Exatamente. Funciona com o microscópio MEG para registar a memória. Depois, quando fores até ao tanque, guarda o padrão neural para reativação pelos estimuladores. — Baixa o MEG por cima do capacete. — Já pensaste na memória que queres registar? —O John disse que me daria algumas orientações. —Da minha parte, o único parâmetro é que a memória tem de ter três dias — diz Shaw. Raj abre os compartimentos embutidos no apoio de cabeça da cadeira e desdobra as hastes telescópicas em titânio, as quais insere em encaixes no exterior do microscópio. —A memória não tem de ser abrangente — diz ele. —Só tem de ser vívida. A dor e o prazer são bons indicadores. Tal como emoções fortes. Não é, Helena? Ela mantém-se em silêncio. Está a assistir ao desenrolar do seu pior pesadelo— a cadeira num laboratório governamental. Raj vai até ao terminal, prepara um novo ficheiro de registo e leva o tablet, que funciona como comando à distância. Senta-se num banco ao lado de Timoney e diz: —A melhor maneira de registar uma memória, sobretudo no início, é descrevê-la por palavras. Tenta ir mais além do que apenas aquilo que viste e sentiste. Os sons, sabores e cheiros da memória são fundamentais para uma extração vívida. Quando quiseres, podes começar. Timoney fecha os olhos e respira fundo. Recorda estar ao balcão com o tampo de cobre de um bar de que é frequentadora na Village, à espera de que lhe sirvam um uísque que mandou vir. Uma mulher põe-se ao lado dela para chamar o empregado e dá um encontrão a Timoney, tão perto dela que consegue sentir o cheiro da fragrância que usava. A mulher olhou para ela para pedir desculpa e entreolharam-se por três segundos. Timoney sabia que, em breve, iria entrar para o tanque para morrer. Estava entusiasmada e aterrorizada com essa perspetiva. Na realidade, o motivo por que saíra nessa noite fora por precisar de alguma ligação física. —A pele dela era da cor do café com natas e os seus lábios deixaram-me em brasa. Senti uma enorme vontade de lhe tocar. Meu Deus, eu precisava de um abanão, mas limitei-me a sorrir e a dizer: «Não faz mal, está tudo bem.» A vida é feita de milhares de pequenos arrependimentos como esse, não é? Timoney abre os olhos. —Está bem assim? Raj levanta o tablet para mostrar a todos o número de sinapses: 156. —É suficiente?— indaga Shaw. —Qualquer coisa acima de 120 está na zona de segurança. Insere uma linha intravenosa no antebraço esquerdo de Timoney e monta a cânula de injeção. Depois, Timoney despe o uniforme e caminha até ao tanque. Raj abre a escotilha e Shaw dá-lhe a mão para a ajudar a entrar. —Lembras-te de tudo o que falámos?— pergunta Shaw, olhando para o seu soldado a boiar na água salgada. —Sim. Não sei bem o que esperar. —Para ser franco, nenhum de nós sabe. Vemo-nos do outro lado. Raj fecha a escotilha e vai até ao terminal. Shaw senta-se ao lado dele e Helena aproxima-se para analisar os monitores. O protocolo de reativação já está em curso e Raj faz uma segunda verificação das dosagens de rocurónio e tiopental sódico. —Sr. Shaw?— diz Helena. Ele olha para ela. —Neste momento, somos as únicas pessoas do mundo capazes de controlar a cadeira. —Espero bem que sim. —Suplico-lhe. Seja ponderado. A sua utilização só trouxe caos e sofrimento. —Talvez porque estavam no comando as pessoas erradas. —A humanidade não dispõe da sensatez para lidar com este tipo de poder. —Estou prestes a provar que está equivocada. Precisa de pôr cobro a isto, mas há dois guardas armados do lado de fora da porta. Se tentasse alguma coisa, saltar-lhe-iam em cima numa questão de segundos. Raj levanta os auscultadores e fala para o microfone: —Vamos começar dentro de dez segundos, Timoney. A respiração da mulher ouve-se rápida no altifalante. «Estou pronta.» Raj ativa a cânula de injeção. O equipamento de Slade melhorou bastante desde os tempos da plataforma, quando era preciso um médico para monitorizar as cobaias e avisar quando os estimuladores tinham de ser ativados. Este novo software automatiza a sequência do fármaco com base na leitura dos sinais vitais em tempo real e ativa os estimuladores eletromagnéticos apenas quando é detetada a libertação de dimetiltriptamina. —Quanto tempo falta para a mudança?— pergunta Shaw. —Depende da resposta do organismo dela aos fármacos. O rocurónio é administrado e, trinta segundos depois, o tiopental sódico. Shaw debruça-se sobre o ecrã dividido onde são visualizados os sinais vitais de Timoney à esquerda e as imagens de uma câmara de visão noturna do interior do tanque à direita. —A frequência cardíaca está elevadíssima, mas ela parece tão calma. —A sua frequência cardíaca também estaria elevadíssima se estivesse a asfixiar enquanto lhe é provocada uma paragem cardíaca— diz Helena. Ficam todos a observar a linha plana indicativa da falta de frequência cardíaca de Timoney. Passam-se minutos. Escorre um fio de suor pela cara de Shaw. —É suposto demorar assim tanto tempo?— pergunta. —É— responde Helena. —É o tempo que demora a morrer depois de o nosso coração deixar de bater. Garanto-lhe que a ela parece muito mais. O monitor que indica o estado dos estimuladores apresenta um alerta intermitente— libertação de DMT detetada. A imagem do cérebro de Timoney, que antes era negra, explode num espetáculo luminoso de atividade. —Os estimuladores estão ativados— diz Raj. Dez segundos depois, um novo alerta substitui o aviso de DMT — REATIVAÇÃO DE MEMÓRIA CONCLUÍDA. Raj olha para Shaw e diz: —A qualquer momento… Ao invés de estar no terminal, de súbito, Helena está sentada à mesa de reuniões do outro lado do laboratório. Sangra do nariz e tem a cabeça a latejar. Shaw, Raj e Timoney também estão sentados à mesa, todos com hemorragias nasais, exceto Timoney. —Meu Deus— diz Shaw e ri-se. Olha para Raj. —Funcionou. Que porra! Funcionou! —O que foi que fez?— pergunta Helena, ainda a tentar distinguir as memórias mortas das novas, as reais. —Pense no tiroteio naquela escola há dois dias— diz Raj. Helena tenta lembrar-se das notícias que viu nas últimas manhãs no seu apartamento— uma turba de alunos a evacuar a escola, vídeos arrepiantes feitos com os telemóveis de alunos a mostrarem a violência que se sucedeu na cantina, pais destroçados a suplicarem aos políticos para fazerem alguma coisa, conferências de imprensa das forças de autoridade, vigílias e… Mas nada disso aconteceu. Agora, são memórias mortas. Em vez disso, quando o atirador subiu os degraus da escola, com uma AR-15 a tiracolo e com uma mochila preta carregada de bombas caseiras, pistolas e carregadores de alta capacidade, uma bala de calibre 7.62 da NATO, disparada por uma espingarda M40 à distância de cerca de 275 metros, entrou-lhe pela nuca e saiu-lhe pela narina esquerda. Mais de vinte e quatro horas depois, a identidade do pretenso atirador mantém-se desconhecida, mas o vigi lante anónimo que o denunciou está a ser ovacionado por todo o país como um herói. Shaw olha para Helena. —A sua cadeira salvou dezanove vidas. Ela está atónita. —Olhe —diz ele—, eu sei que se pode argumentar que a cadeira deve ser eliminada da face da Terra, que é uma ofensa à ordem natural das coisas, mas acabou de salvar dezanove crianças e apagar uma dor incalculável nas suas famílias. —Isso é… —Fazer de Deus? —Pois. —Mas não será fazer de Deus não interferir quando temos esse poder? —Não deveríamos ter esse poder. —Mas temos. Graças a uma coisa que a senhora criou. Ela está hesitante. —É como se apenas visse o mal que a cadeira pode fazer— diz Shaw. — Quando iniciou a sua investigação, há muito tempo,quando ainda fazia experiências com ratinhos, o que foi que a motivou? —Sempre me interessei pela memória. Quando a minha mãe começou a mostrar indícios da doença de Alzheimer, quis construir uma coisa capaz de salvar as memórias nucleares. —Fez muito mais do que isso— diz Timoney. —Não se limitou a salvar memórias. Salvou vidas. —Perguntou-me porque quis a cadeira— diz Shaw. —Espero que a experiência de hoje lhe tenha permitido perceber quem sou, aquilo que represento. Vá para casa, desfrute deste momento. Aquelas crianças estão vivas graças a si. De regresso ao apartamento, fica sentada na cama a tarde inteira, a assistir às notícias de última hora sobre o tiroteio na escola que «desaconteceu». Alunos que foram assassinados são entrevistados, relatando as falsas memórias de serem alvejados. Um pai choroso fala de ir à morgue identificar o filho morto, uma mãe destroçada conta ter estado a planear o funeral da filha quando, de repente, ia a levá-la de carro à escola. Helena questiona-se se será a única a ver o ligeiro transtorno nos olhos de um dos alunos assassinados no outro friso cronológico. Consoante assiste ao mundo a tentar aceitar o impossível, interroga-se o que as massas pensam de tudo aquilo. Eruditos religiosos falam de tempos antigos, quando os milagres aconteciam com muita frequência. Especulam que houve um retrocesso a esses tempos, que isto pode ser um presságio do Segundo Advento. Enquanto as pessoas confluem às igrejas aos magotes, a melhor explicação que os cientistas conseguem dar é que este mundo experienciou outro «incidente de memória em massa», e embora falem de realidades alternativas e da frag mentação do espaço-tempo, parecem mais pasmados e abalados do que os homens de Deus. Helena não consegue deixar de pensar numa coisa que Shaw lhe disse no laboratório. É como se apenas visse o mal que a cadeira pode fazer. É verdade. Tudo o que ela sempre considerou foram os potenciais danos, e esse medo influenciou a trajetória da sua vida desde o tempo que passou na plataforma de Slade. A noite vai caindo sobre Manhattan. Helena está de pé junto à janela, que vai do chão ao teto, a contemplar a Fifty-Ninth Street Bridge, a estrutura metálica iluminada que se reflete de forma espetacular num turbilhão de cor resplandecente na superfície do East River. Saboreando a sensação de ser capaz de mudar o mundo. Dia 11 Na manhã seguinte, é conduzida às instalações da DARPA em Queens, onde Shaw a aguarda mais uma vez à entrada da barreira de segurança. Quando vão a caminho do laboratório, Shaw pergunta: —Viu as notícias ontem à noite? —Fui vendo. —Foi muito gratificante, não foi? No laboratório, Timoney, Raj e dois homens que Helena nunca viu estão sentados à mesa de reuniões. Shaw apresenta-a aos recém-chegados— um jovem membro dos SEAL chamado Steve, que ele descreve como sendo o homólogo de Timoney, e um homem com uma apresentação impecável, envergando um fato preto personalizado, de seu nome Albert Kinney. —O Albert desertou da RAND e juntou-se a nós— diz Shaw. —Foi a senhora que concebeu esta cadeira?— pergunta Albert, apertando-lhe a mão. —Infelizmente— responde Helena. —É extraordinária. Ela senta-se num dos lugares livres e Shaw dirige-se para a cabeceira da mesa, onde fica de pé, sondando o grupo. —Bem-vindos— diz ele. —Ao longo da última semana, falei com cada um de vós individualmente sobre a cadeira de memória que a minha equipa recuperou. Ontem à tarde, utilizámos a cadeira com sucesso para reformular o desfecho do tiroteio na escola em Maryland. Corre por aí uma corrente filosófica, que eu respeito, segundo a qual não podemos confiar em nós mesmos com uma coisa com tanto poder incondicional. Não quero falar por si, Dra. Smith, mas até a senhora, que criou a cadeira, defende essa premissa. —Assim é. —Eu tenho uma perspetiva diferente, reforçada pela proeza de ontem. Acredito que, consoante a tecnologia surge no mundo, cabe-nos a tarefa de encontrar a melhor aplicação visando a continuação e o aperfeiçoamento da nossa espécie. Acredito que a cadeira encerra um potencial magnífico para trazer o bem ao mundo. Além da doutora Smith, temos aqui hoje a Timoney Rodri guez e o Steve Crowder, dois dos soldados mais corajosos e capazes que já saíram das forças armadas dos EUA. O Raj Anand, o homem a quem devemos a descoberta da cadeira. O Albert Kinney, teórico de sistemas da RAND, cujo cérebro é uma verdadeira pedra preciosa. E eu. Na qualidade de diretor-adjunto da DARPA, disponho dos recursos para criar, sob absoluto secretismo, um novo programa, que iniciaremos precisamente hoje. —Pretende continuar a utilizar a cadeira?— pergunta Helena. —De facto. —Com que finalidade? —Definiremos em conjunto a declaração de missão do nosso grupo. —Quer dizer que nos considera uma espécie de conselheiros?— pergunta Albert. —Nem mais. E também decidiremos juntos os parâmetros da utilização. Helena empurra a cadeira para trás e levanta-se. —Não participarei nisto. Shaw olha para ela desde a cabeceira da mesa, a tensão é visível no seu maxilar. —Este grupo precisa da sua voz, do seu ceticismo. —Não se trata de ceticismo. É verdade que salvámos vidas ontem, mas, ao fazê-lo, criámos falsas memórias e confusão na mente de milhões de pessoas. Sempre que utiliza a cadeira, estará a mudar a maneira como os humanos processam a realidade. Não fazemos ideia de quais possam ser os efeitos a longo prazo. —Permita que lhe pergunte uma coisa— diz Shaw. —Acha que alguma pessoa decente está triste agora que dezanove alunos não foram, de facto, assassinados? Não estamos a falar de trocar boas memórias por más ou de alterar a realidade de forma aleatória. Estamos aqui com uma finalidade, que é acabar com a infelicidade humana. Helena inclina-se para a frente. —Isto não é diferente da forma como o Marcus Slade estava a usar a cadeira. Ele queria mudar a forma como experienciávamos a realidade, mas, na prática, estava a permitir que as pessoas voltassem atrás para emendarem as suas vidas, o que foi bom para algumas pessoas, mas catastrófico para outras. —A preocupação da Helena tem lógica— diz Albert. —Já foi publicada bastante literatura sobre os efeitos da SFM no cérebro, problemas de excesso de armazenamento de memória, e falsas memórias em pessoas com problemas mentais. Eu recomendaria a criação de uma equipa para analisar todos os trabalhos sérios que foram publicados sobre o assunto para que possamos estar informados. Em teoria, se limitarmos a idade das memórias para as quais enviamos os nossos agentes, estaremos a limitar a dissonância cognitiva entre os frisos cronológicos reais e falsos. —Em teoria?— indaga Helena. —Não deveria agir com base em informações melhores do que teoria quando fala em mudar a natureza da realidade? —Albert, está a sugerir que excluamos um retrocesso a um passado distante?— pergunta Shaw. —É que eu tenho aqui uma lista— dá uma palmadinha num bloco de notas de couro preto— de atrocidades e calamidades ocorridas nos séculos XX e XXI. Isto é apenas uma sugestão, mas, e se conseguíssemos encontrar um homem de noventa e cinco anos com formação como atirador no passado? Uma mente arguta, recordações claras. Helena, qual é a idade mais jovem que se sentiria confortável a enviar alguém até uma memória? —Nem acredito que estamos sequer a ter esta conversa. —Estamos apenas a conversar. Nesta mesa não há más ideias. —O cérebro feminino atinge o estado de maturidade aos vinte e um anos — diz ela. —O cérebro masculino, alguns anos mais tarde. É provável que até aos dezasseis seja possível, mas precisamos de realizar testes para ter a certeza. Se enviarmos alguém até memórias em tão tenra idade, há a possibilidade de a sua função cog nitiva simplesmente colapsar. Poderia ser desastroso pôr à força uma consciência adulta num cérebro não totalmente desenvolvido. —Está a sugerir aquilo que eu penso, John?— atalha Albert. —O envio de agentes até memórias de há quarenta, cinquenta ou sessenta anos para assassinar di tadores antes que eles assassinem milhõesde pessoas? —Ou impedir uma morte que foi o catalisador de uma tragédia épica. Por exemplo, quando Gavrilo Princip, um sérvio bósnio, assassinou o arquiduque Francisco Fernando em 1914, e, ao fazê-lo, derrubou a primeira peça de dominó numa cadeia que, em última instância, desencadearia a Primeira Guerra Mundial. Estou apenas a lançar a ideia para debate. Estamos perante uma máquina com um poder incrível. O grupo fica num silêncio pensativo. Helena volta a sentar-se. Tem o coração a bater desenfreado e a boca seca. —O único motivo por que ainda aqui estou é que alguém tem de ser a voz da razão— diz ela. —Não podia estar mais de acordo— diz Shaw. —Uma coisa é mudar os eventos dos últimos dias. Não me interpretem mal! Isso não deixa de ser perigoso e nunca mais o deveria fazer. É totalmente diferente salvar a vida de milhões de pessoas há meio século. Suponhamos que arranjávamos maneira de impedir a Segunda Guerra Mundial. O que aconteceria se, por força das nossas ações, trinta milhões de pessoas que era suposto morrerem sobrevivessem? Pode até parecer uma coisa maravilhosa, mas pensem melhor. Como poderíamos calcular o potencial de bem ou de mal dos que morreram? Quem pode dizer que as ações de um monstro como Hitler, Estaline ou Pol Pot não preveniram a ascensão de um monstro muito pior? No mínimo, uma alteração a esta escala certamente mudaria o nosso presente de uma forma incalculável. Anularia os casamentos e os nascimentos de milhões de pessoas. Se não tivesse existido Hitler, toda uma geração de imigrantes nunca viria para os EUA. Ou, para simplificar ainda mais, se o namorado da escola secundária da sua bisavó não morrer na guerra, ela casará com ele, e não com o seu bisavô. Os seus avós nunca nascerão, nem os seus pais e… mais do que óbvio… você também não. —Olha para Albert, do outro lado da mesa. —O senhor é um teórico de sistemas? Consegue imaginar algum modelo capaz de começar sequer a extrapolar as alterações sobre a população do planeta a este nível de magnitude? —Sim, seria capaz de desenvolver alguns modelos, porém, para ir ao encontro daquilo que diz, rastrear a causa e efeito com um conjunto de dados tão descomunal é praticamente impossível. Concordo consigo quando diz que nos aproximamos perigosamente da lei das consequências não intencionais. Eis um exercício mental de que me lembrei agora mesmo: se a Inglaterra não entrasse em guerra com a Alemanha devido à nossa intervenção, o Alan Turing, pai do computador e da inteligência ar tificial, não teria sido instigado a decifrar a tecnologia de criptografia da Alemanha. É possível que, mesmo assim, tivesse lançado as bases do mundo moderno comandado por microchips em que vivemos, ou talvez não. Ou então, em menor escala. E quantas vidas não foram salvas graças a toda esta tecnologia que nos protege? Mais do que as vidas que se perderam na Segunda Guerra Mundial? As possibilidades são infinitas. —Compreendido— diz Shaw. —Urge ter este tipo de conversa. —Olha para Helena. —É por isso que a quero aqui. Não me impedirá de usar a cadeira, mas talvez nos possa ajudar a usá-la com sensatez. Dia 17 Passam a primeira semana a definir as regras básicas, entre as quais: As únicas pessoas autorizadas a utilizar a cadeira são agentes com formação, como é o caso de Timoney e Steve. A cadeira nunca poderá ser utilizada para alterar acontecimentos das histórias pessoais dos elementos da equipa ou respetivos amigos e familiares. A cadeira nunca poderá ser utilizada para enviar agentes até memórias com mais de cinco dias. A cadeira só será aplicada para anular tragédias e catástrofes inimagináveis, as quais possam ser facilmente contornadas e sob anonimato por um único agente. Todas as decisões relacionadas com o uso da cadeira devem ser sujeitas a votação. Albert passou a denominar o seu grupo Departamento de Revogação de Merdas Particularmente Horríveis e, tal como acontece com muitos nomes que começam por ser uma piada de mau gosto mas que não são depressa substituídos, a designação acaba por ser adotada. Dia 25 Uma semana depois, Shaw submete à consideração do grupo a possível missão seguinte, chegando mesmo a levar uma fotografia para reforçar o seu argumento. Há vinte e quatro horas, em Lander, no Wyoming, foi encontrada assassinada no seu quarto uma menina de onze anos. O modus operandi é semelhante ao de cinco homicídios anteriores que aconteceram ao longo de um período de oito semanas em cidades remotas por toda a região Oeste dos Estados Unidos. O criminoso entrou no quarto em algum momento entra as onze da noite e as quatro da manhã com recurso a um cortador de vidro. Amordaçou a vítima e violou-a enquanto os pais dormiam sem se aperceberem de nada num quarto do outro lado do corredor. —Ao contrário dos crimes anteriores —diz Shaw—, em que as vítimas só foram encontradas dias ou semanas mais tarde, desta vez ele deixou-a na cama, debaixo dos cobertores, para os pais a encontrarem na manhã seguinte. Quer isto dizer que temos uma janela de tempo incontestável relativamente a quando o homicídio aconteceu, além de que sabemos o local exato. Parece não haver dúvida de que este monstro voltará a fazer o mesmo. Gostaria de propor uma votação para utilizar a cadeira e o meu voto é «sim». Timoney e Steve não hesitam na mesma orientação de voto. —Como propõe que o Steve acabe com o assassino?— pergunta Albert. —Como assim? —Ora bem, temos a maneira discreta, em que ele interceta o gajo e acaba com ele no meio de nenhures e o mete num buraco na terra onde nunca ninguém o encontrará. E depois temos a maneira espalhafatosa, em que o pretenso assassino é encontrado com a goela cortada nos arbustos debaixo da janela pela qual estava prestes a entrar, com o cortador de vidro e o canivete ainda na sua posse. Com a versão espalhafatosa, estaríamos de facto a anunciar a existência do Departamento de Revogação de Merdas Particularmente Horríveis. Talvez queiramos fazer esse anúncio ou talvez não. Estou só a levantar a questão. Helena tem estado a olhar fixamente para a fotografia mais inquietante que alguma vez viu e o pensamento racional começa a desintegrar-se. Neste momento, tudo o que deseja é que a pessoa que fez isto sofra. —O meu voto é no sentido de desmantelar este laboratório e apagar os servidores, mas se decidirem ir avante com isto… realmente, tenho a noção de que não vos posso impedir… então matem este animal e deixem-no com as ferramentas incriminatórias debaixo da janela da menina. —Porquê, Helena?— pergunta Shaw. —Porque se as pessoas souberem que alguém, ou alguma entidade, está por trás destas mudanças de realidade, a consciencialização do vosso trabalho começará a assumir um estatuto mítico. —Tipo o Batman?— pergunta Albert com um sorriso afetado. Helena revira os olhos. —Se o vosso objetivo é reparar o mal que os homens fazem, talvez seja do vosso interesse que os homens maus vos temam. Além disso, se encontrarem este fulano perto do local do crime, pronto a invadir a casa, as autoridades estabelecerão a ligação aos outros homicídios e, esperemos, isso proporcione algum alívio às famílias das outras vítimas. —Está a dizer para nos tornarmos o bicho-papão?— diz Timoney. —Se alguém decidir não cometer uma atrocidade por receio de um grupo desconhecido com a capacidade de manipulação da memória e do tempo, será uma missão que nunca terão de realizar e falsas memórias que nunca terão de criar. Por isso, sim. Tornem-se o bicho-papão. Dia 24 Steve encontra o assassino de crianças à 1h35 da manhã quando este está a começar a cortar o vidro do quarto de Daisy Robinson. Tapa-lhe a boca, prende-lhe os pulsos com fita adesiva e degola-o lentamente de orelha a orelha, ficando a ver enquanto este se contorce e esvai em sangue no solo ao lado da casa. Dia 31 Na semana seguinte, recusam-se a intervir no descarrilamento de um comboio em Texas Hill Country no qual morrem nove pessoas e muitas mais ficam feridas. Dia 54 Quando um avião a jato, que faz a carreira regional, se despenha na floresta de árvoresde folha perene a sul de Seattle, tornam a optar por não utilizar a cadeira, tendo o grupo chegado à conclusão de que, tal como no caso do descarrilamento, quando a causa do acidente for conhecida, já terá passado demasiado tempo para destacar Steve ou Timoney. Dia 58 Dia após dia, torna-se mais claro que tragédias estão mais aptos a corrigir, e, para alívio de Helena, no caso de haver hesitação, uma dúvida qualquer, preferem não intervir. Ela continua a ser mantida prisioneira no prédio de apartamentos perto de Sutton Place. Alonzo e Jessica deixaram-na começar a fazer caminhadas à noite. Um deles segue-a a cerca de meio quarteirão; o outro meio quarteirão mais à frente. É a primeira semana de janeiro e o ar que voluteia entre os edifícios é uma explosão polar na cara dela. Porém, deleita-se com a falsa liberdade de caminhar em Nova Iorque à noite, imaginando que está deveras sozinha. Torna-se contemplativa, pensando nos pais e em Barry. Não consegue deixar de pensar na última imagem que guarda dele— de pé no laboratório de Slade precisamente antes de as luzes se apagarem. Depois, um minuto mais tarde, o som da voz dele, a gritar para ela fugir. Correm-lhe pela cara lágrimas frias. As três pessoas mais importantes da vida dela morreram e nunca mais as verá. A perfeita solidão dessa certeza deixa-a desolada. Tem quarenta e nove anos e questiona-se se a sensação de envelhecer será esta— não apenas a deterioração física, mas uma interpessoal. Um silêncio cada vez mais intenso causado pelas pessoas que mais amamos, que moldaram e definiram o nosso mundo, e que foram à nossa frente para o que quer que virá de seguida. Sem uma saída, sem um final à vista, e sem todos aqueles que ama, não sabe ao certo durante quanto tempo continuará a fazer isto. Dia 61 Timoney regressa a uma memória para impedir que um vendedor de seguros de cinquenta e dois anos com perturbações psíquicas vá a uma manifestação política em Berkeley e massacre vinte e oito estudantes com uma espingarda de assalto. Dia 70 Steve invade um apartamento em Leeds enquanto o homem está a montar o colete, espeta a lâmina da faca de combate na base do seu crânio e destrói-lhe o bolbo raquidiano, deixando-o de barriga para baixo em cima da mesa, por cima de um monte de pregos, parafusos e porcas que teriam despedaçado doze pessoas no metro de Londres na manhã seguinte. Dia 90 No dia em que se celebram três meses da criação do programa, uma notícia no New York Times traça o perfil das suas oito missões, especulando que as mortes dos pretensos assassinos, atiradores e um bombista suicida sugerem a obra de uma organização enigmática que possui uma tecnologia além de todo o entendimento. Dia 115 Helena está na cama a dormir profundamente quando alguém bate à porta da frente e fica com o coração em sobressalto. Se estivesse no seu apartamento, poderia fingir que não estava em casa e esperar que a visita tardia se fosse embora, mas infelizmente vive sob vigilância e o ferrolho já está a ser aberto. Levanta-se da cama, veste o roupão felpudo e sai para a sala de estar no preciso instante em que John Shaw está a abrir a porta da frente. —Entre— diz ela. —Faça de conta que está em sua casa. —Desculpe. E lamento também a visita tardia. —Percorre o corredor até à sala de estar. —Belo apartamento. Helena consegue sentir-lhe no hálito o cheiro inflamado a uísque com um travo a canela— é bastante intenso. —Pois, tem uma renda regulada e isso tudo. Ela poderia oferecer-lhe uma cerveja ou assim, mas não oferece. Shaw senta-se num banco almofadado da ilha da cozinha e ela fica de pé diante dele, pensando que ele parece mais meditabundo e perturbado desde a última vez que o viu. —Em que posso ajudá-lo, John? —Sei que nunca acreditou no nosso programa. —Sem dúvida. —Mas estou feliz por fazer parte das tomadas de decisão. Consigo, somos melhores. A senhora não me conhece assim tão bem, mas eu nem sempre… Ei, não tem nada que se beba? Ela vai ao frigorífico, tira de lá duas garrafas de Brooklyn Brewery e abre as cápsulas. Shaw bebe um grande trago e diz: —Eu construo merdas para as forças armadas com o intuito de as ajudar a matar pessoas com o máximo de eficiência possível. Sou responsável por alguma tecnologia deveras horrível, mas estes últimos meses foram os melhores da minha vida. Todas as noites, ao adormecer, penso na mágoa que estamos a eliminar. Vejo as caras das pessoas cujas vidas ou os entes queridos estamos a salvar. Penso na Daisy Robinson. Penso em todos eles. —Eu sei que está a tentar fazer aquilo que é correto. —Estou mesmo, talvez pela primeira vez na vida. —Bebe um trago de cerveja. —Não disse nada à equipa, mas estou a ser pressionado por pessoas em cargos importantes. —Pressionado em que sentido? —Graças ao meu historial, beneficio de rédea solta e de um mínimo de supervisão, mas não deixo de ter superiores. Não sei se suspeitam de alguma coisa, mas querem saber no que tenho estado a trabalhar. —O que podemos fazer?— pergunta ela. —Temos várias hipóteses. Podemos criar um programa de fachada, dar- lhes alguma coisa reluzente para se entreterem, que não tenha nada que ver com aquilo que estamos a fazer. Provavelmente, ganharíamos algum tempo. A opção mais sensata é dizer-lhes a verdade. —Não pode fazer isso. —O principal desígnio da DARPA é fazer descobertas inovadoras em tecnologias que fortalecerão a nossa segurança nacional, com um foco em aplicações militares. É apenas uma questão de tempo, Helena. Não o posso esconder deles para sempre. —De que forma é que os militares utilizariam a cadeira? —De todas! Ontem, um pelotão do 101.º Regimento sofreu uma emboscada na província de Kandahar. Oito marines mortos em combate. A informação ainda não foi divulgada ao público. No mês passado, um Black Hawk despenhou-se numa missão de treino noturno no Havai. Morreram cinco soldados. Sabe quantas missões fracassam porque não apanhamos o inimigo por uns dias ou horas? Ou no sítio certo à hora errada? Eles encarariam a cadeira como uma ferramenta que daria aos comandantes a capacidade de editar a guerra. —E se não partilharem a sua perspetiva sobre a utilização a dar à cadeira? —Oh, não partilharão. —Shaw emborca o resto da cerveja. Desaperta o botão do colarinho, alivia a gravata. —Não a quero assustar, mas não seria apenas o Departamento de Defesa a explorar a cadeira. A CIA, a NSA, o FBI… Todas as agências quererão o seu quinhão quando souberem da sua existência. Nós somos uma agência do Departamento de Defesa e isso dar- nos-á alguma cobertura, mas todos exigirão um lugar na cadeira. —Meu Deus!… E a informação será divulgada? —É difícil saber, mas já imaginou se o Departamento de Justiça tivesse esta tecnologia em sua posse? Transformariam este país no Relatório Minoritário. —Destrua a cadeira. —Helena… —O que foi? É assim tão difícil? Destrua-a antes que aconteça uma coisa dessas. —O seu potencial para o bem é demasiado elevado. Você já comprovou isso. Não a podemos destruir apenas por receio do que poderia acontecer. O apartamento fica em silêncio. Helena envolve a garrafa de cerveja fria e húmida com os dedos. —Então, qual é o seu plano?— pergunta. —Não tenho um plano. Ainda. Só precisava que soubesse aquilo que nos espera. Dia 136 Tudo começa mais cedo do que qualquer um poderia supor. No dia 22 de março, Shaw entra no laboratório para o briefing diário de todas as coisas horríveis que aconteceram no mundo nas últimas vinte e quatro horas e diz: —Temos a nossa primeira missão decretada. —Por quem?— pergunta Raj. —Por um peixe graúdo. —Então, já sabem?— pergunta Helena. —Já. —Abre uma pasta de arquivo com a palavra Ultrassecreto impressa a vermelho na capa. —Isto não foi noticiado. No dia 5 de janeiro, há setenta e cinco dias, um caça de sexta geração teve uma avaria e despenhou-se perto da fronteira da Ucrânia com a Bielorrússia. Eles acham que a aeronave não foi destruída e acreditam que o piloto foi capturado. Estamos a falar de um Boeing F/A-XX, que ainda está em desenvolvimento,é ultrassecreto e está cheio de todo o tipo de engenhocas que preferíamos que não caíssem nas mãos dos russos. » Pediram-me para enviar um agente até ao dia 4 de janeiro para me informar sobre este acidente. Depois, eu devo fazer chegar a mensagem ao secretário-adjunto da Defesa, que se assegurará de informar a hierarquia de modo que a aeronave seja inspecionada antes do voo de teste e não se aproxime de território russo. —Setenta e seis dias?— pergunta Helena. —Isso mesmo. —Disse-lhes que não utilizamos a cadeira para recuar assim tanto no tempo?— diz Albert. —Não o disse de forma tão efusiva, mas sim. —E? —Eles disseram: «Faça o que lhe mandam, porra!» No dia 22 de março, enviam Timoney pelas dez da manhã. Às onze, Helena e a equipa estão colados à televisão a ver a CNN, em choque. Foi a primeira vez que utilizaram a cadeira para recuar a antes da data de uma intervenção prévia e, com base no que lhes é dado a entender pelos relatos, o efeito foi extraordinário. Até ao momento, o fenómeno de falsas memórias seguiu o seu padrão previsível, cumprindo os respetivos aniversários do friso cronológico individual. Por outras palavras, quando um agente altera um friso cronológico, as falsas memórias desse friso cronológico «morto» chegam sempre no momento exato em que o agente morreu no tanque de privação sensorial. Porém, desta vez, parece que esses pontos de aniversário foram sobrepostos— não apagados, mas empurrados para as dez desta manhã, o momento em que a cadeira foi utilizada pela última vez quando Timoney regressou ao passado para transmitir a Shaw a mensagem sobre o caça despenhado. Por isso, ao invés de recordar cada friso cronológico morto conforme aconteceram, o público recebeu o impacto total de memórias mortas de uma assentada, às dez da manhã de hoje, toda a gente se lembrou em simultâneo de todos os massacres evitados desde o dia 4 de janeiro, incluindo Berkeley e o ataque bombista no metro de Londres. Infligir estas falsas memórias uma a uma ao longo de vários meses foi suficientemente perturbador. Atingir todas as pessoas com todas as falsas memórias de uma só vez é exponencialmente mais inquietante. Até ao momento, a imprensa não deu conta de quaisquer mortes ou colapsos em resultado do súbito ataque devastador, mas serve para Helena reforçar a sua convicção de que a sua máquina é demasiado misteriosa, perigosa e imprevisível para existir. Dia 140 Shaw ainda tem rédea solta para intervir em tragédias civis, mas o seu trabalho está cada vez mais militarizado. Utilizam a cadeira para recuar no tempo e anular um ataque com um drone que alvejou um casamento, matando sobretudo mulheres e crianças afegãs, falhando por completo o alvo pretendido, que nem sequer estava presente. Dia 146 Corrigem um ataque aéreo de um bombardeiro B-1 Lancer que calculou mal o bombardeamento e matou uma equipa de operações especiais inteira na província de Zabul em vez da força talibã que fora convocado para bombardear. Dia 152 Quatro soldados mortos, atacados por militantes islâmicos durante uma patrulha no deserto do Níger, são ressuscitados quando Timoney morre no tanque de privação sensorial e dá a Shaw os detalhes da emboscada que está para acontecer. Estão a utilizar a cadeira com tal frequência —pelo menos uma vez por semana, agora—, que Shaw recruta um novo agente para aliviar o esforço de Steve e Timoney, que começam a experienciar os primeiros sinais de degradação mental causada pelo stress de mortes sucessivas. Dia 160 Helena desce ao parque de estacionamento do seu edifício e dirige-se para o Suburban preto com Alonzo e Jessica, sentindo-se mais impotente do que nunca. Não pode continuar a fazer isto. As autoridades militares estão a usar a cadeira e ela não tem como as impedir. A cadeira está sob vigilância vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e ela não tem acesso ao sistema. Mesmo que conseguisse escapar de Alonzo e Jessica, considerando tudo o que sabe, o Governo nunca cessaria de lhe dar caça. Além disso, Shaw poderia simplesmente mandar um agente até uma memória passada e impedir a sua fuga. Pensamentos sombrios assaltam-na outra vez. O telemóvel vibra no seu bolso quando se dirigem para sul pela FDR Drive. É Shaw. Ela atende. —Olá, vou a caminho. —Queria que fosse a primeira a saber. —O quê? —Temos uma nova missão esta manhã. —Do que se trata? O céu desaparece quando passam pelo portal de Manhattan do Queens- Midtown Tunnel. —Querem que mandemos alguém a uma memória de há quase um ano. —O quê? Para quê? Jessica trava com tanta força que Helena é projetada para a frente, mas amparada pelo cinto de segurança. Do lado de fora do para-brisas, um mar de farolins traseiros vermelhos ilumina o túnel mais à frente, acompanhados da cacofonia dos condutores que começam a buzinar. —Um assassinato. Nas profundezas do túnel vê-se um distante clarão seguido de um som parecido com um trovão. Os vidros chocalham, o carro estremece debaixo dela, as luzes por cima das suas cabeças tremulam por um aterrador segundo, mas depois acendem- se outra vez. —Que diabo foi isto?— diz Alonzo. —John, ligo-lhe já. —Helena baixa o telemóvel. —O que está a acontecer? —Acho que houve um acidente ali à frente. As pessoas estão a começar a sair dos carros. Alonzo abre a porta e sai para o túnel. Jessica segue-o. O cheiro a fumo que entra pela ventilação do automóvel traz Helena de volta ao presente. Espreita pelo vidro traseiro para os carros aglomerados atrás de si. Pela janela vê um homem correr a toda a velocidade para a luz do dia, e Helena sente o primeiro lampejo de medo. Vão surgindo cada vez mais pessoas, todas com um ar aterrorizado, apressando-se pelo meio dos carros rumo a Manhattan, tentando fugir de alguma coisa. Helena abre a porta e sai do carro. O alvoroço do medo e do desespero humanos ecoam nas paredes do túnel, num crescendo, sobrepondo-se ao ralenti de um milhar de motores de automóveis. —Alonzo? —Não sei o que aconteceu —diz ele—, mas é grave. Paira no ar um cheiro suspeito— não só dos escapes dos automóveis, mas de gasolina e coisas a derreter. O fumo sai num turbilhão do túnel mais à frente e as pessoas que cambaleiam na direção dela parecem em choque, as caras ensanguentadas e enegrecidas. A qualidade do ar está cada vez pior, começa a sentir uma ardência nos olhos e agora mal consegue ver um palmo à sua frente. —Temos de sair já daqui, Alonzo— diz Jessica. Quando se viram para abandonar o local, emerge do meio do fumo um homem, a coxear e agarrado ao flanco, sem dúvida em sofrimento. Helena corre para ele, agora a tossir e, quando se aproxima, repara que ele está agarrado a um fragmento de vidro espetado no seu flanco. Tem as mãos tingidas de sangue, a cara enegrecida do fumo e contorcida de dor. —Helena!— grita Jessica. —Vamos embora! —Ele precisa da nossa ajuda. O homem cai nos braços de Helena, sem conseguir respirar. Alonzo corre para eles; juntos, passam os braços do homem por cima dos ombros. É um homem grande; pesa pelo menos cento e dez quilos e usa uma camisa chamuscada com o nome e o logótipo de um serviço de entregas no bolso da lapela. É um alívio caminhar para a saída. A cada passo, o pé esquerdo do homem chapinha no sapato, que está a ficar cheio de sangue. —Viu o que aconteceu?— pergunta Helena. —Dois camiões pesados obstruíram a circulação. Estavam a ocupar as duas faixas de rodagem um pouco mais à minha frente. Toda a gente se pôs a buzinar. Pouco depois, as pessoas começaram a sair dos carros e aproximaram-se dos camiões para ver o que havia de errado. Assim que um sujeito subiu para um dos reboques, vi um enorme clarão e depois o maior estrondo da minha vida. De repente, vem uma bola de fogo por cima dos carros todos. Eu agachei-me um segundo antes de atingir a minha carrinha. O para-brisas explodiu e depois o interior incendiou-se. Pensei que ia morrer queimado. Nem sei como consegui… O homem interrompe o relato. Helena olha para o pavimento, que está a vibrar debaixo dos seus pés, e depois olham todos para o túnelque conduz a Queens. No início, é difícil perceber, mas pouco depois o movimento ao longe torna-se claro— as pessoas vêm a correr na direção eles; o barulho dos gritos aumenta, ribombando nas paredes do túnel. Helena vê uma fissura abrir-se no meio do teto, três metros e meio acima das suas cabeças, ramificando-se. Começam a cair fragmentos de betão à sua volta, esmagando para-brisas e pessoas. Sente o vento frio na cara, e então, no meio de gritos de terror, um ruído como um trovão, a aumentar de forma exponencial a cada segundo que passa. O homem das entregas solta um gemido. —Foda-se— diz Alonzo. Helena sente humidade na cara e depois uma parede de água irrompe do meio do fumo, levando carros e pessoas. Colide com Helena como um muro de tijolos glaciais, levantando-a do chão, e ela vê-se levada aos trambolhões num vórtice de gélida violência, embatendo em paredes, no teto, depois chocando com uma mulher num fato executivo, entreolhando-se por dois segundos surreais antes de Helena ser lançada pelo para-brisas de uma carrinha da FedEx. Helena está de pé à janela da sala de estar, uma hemorragia nasal, a cabeça a latejar, tentando processar o que acabou de acontecer. Apesar de ainda sentir o terror de ser varrida pelo túnel numa onda de detritos, água, carros e pessoas, a sua morte ali nunca aconteceu. Não passa de uma memória morta. Ela acordou, tomou o pequeno-almoço, preparou-se e estava a ir para a porta quando ouviu duas explosões tão fortes que abanaram o chão e fizeram os vidros tilintar. Correu para a sala de estar e, pela janela, viu, tomada de espanto, a Fifty- Ninth Street Bridge arder. Passados cinco minutos, ganhou as falsas memórias de morrer no túnel. Neste momento, as duas torres da Fifty-Ninth Street Bridge que emolduram a ilha Roosevelt estão envoltas em colunas de labaredas revoluteantes que se elevam centenas de metros no ar, atingindo uma temperatura tão elevada que ela é capaz de sentir o calor, mesmo a mais de trezentos metros de distância e através do vidro. Que merda está a acontecer? O vão da ponte entre Manhattan e a ilha Roosevelt está caído sobre o East River como um tendão decepado, as armações ainda presas à torre de Manhattan. Os automóveis vão escorregando pelo pavimento íngreme para o rio, as pessoas a agarrar-se às grades enquanto, lentamente, a corrente do rio arranca o segmento de ponte com um guincho estridente, que Helena consegue sentir nas entranhas. Limpa o sangue do nariz e é então que compreende: Eu experienciei a mudança de realidade. Eu morri no túnel. Agora estou aqui. Alguém está a usar a cadeira. O vão da ponte que liga a ilha Roosevelt a Queens já foi completamente arrancado e, a jusante, vê uma secção de trezentos metros de estrada em chamas cair em cima de um navio porta-contentores, empalando-lhe o casco com armações de metal arrancadas como se fossem lanças. Mesmo dentro do apartamento, o ar cheira a coisas a arder que não deveriam poder arder e o uivo das sirenes de centenas de veículos de emergência a aproximar-se é ensurdecedor. Quando o seu telemóvel vibra atrás de si na ilha da cozinha, os últimos fiapos de metal soltam-se da torre de Manhattan como chicotes a estalar e, com um tremendo rugido, o segmento de ponte liberta-se, caindo a pique quarenta metros, as duas plataformas de faixas de rodagem a desabar em cima da FDR Drive, esmagando os carros, derrubando as árvores ao longo da margem, e depois raspando devagar ao longo do terminal oriental da Fifty-Ninth e da Fifty-Eighth Street, arrancando toda a fachada nordeste de um arranha-céus, não abalroando por pouco o prédio de Helena antes de deslizar para o East River. Ela corre para a cozinha e atende a chamada. —Quem está a utilizar a cadeira? —Não somos nós— responde John. —O tanas! Acabei de escapar à minha morte no Midtown Tunnel e agora estou aqui no meu apartamento a ver a ponte em chamas. —Saia daí o mais depressa possível. —Porquê? —Estamos fodidos, Helena. Completamente fodidos. A porta do apartamento dela abre-se com estrondo. Alonzo e Jessica correm para dentro, os narizes a sangrar, com um ar assustadíssimo. Helena pressente uma desaceleração de todo o movimento. Outra mudança a acontecer? —Mas que diabo…— diz Jessica. Agora Helena está a olhar pelo vidro traseiro fumado, para norte, ao longo do East River, para o Harlem e o Bronx. Não chegou a morrer no túnel. A destruição da Fifty-Ninth Street Bridge não aconteceu. Na realidade, eles já percorreram meio caminho do tabuleiro superior da Fifty-Ninth Street Bridge, que de momento está completamente intacto. —Oh, meu Deus— exclama Jessica, sentada ao volante. O Suburban dá uma guinada para a faixa de rodagem contígua – Alonzo estica o braço, agarra o volante sentado no lugar do pendura e puxa o veículo para a faixa de rodagem em que é suposto seguir. Mais à frente, um autocarro desvia-se para a sua faixa de rodagem, abalroando três carros e esmagando-os contra o separador central numa aspersão de faíscas e vidro estilhaçado. Jessica dá um sacão no volante, evitando por pouco o choque em cadeia e fazendo o carro por momentos andar sobre duas rodas. —Vejam! Atrás de nós— diz ela. Helena olha para trás e vê cerradas colunas de fumo, que se elevam desde Midtown. —Isto está relacionado com as falsas memórias, não é?— diz Jessica. Helena liga para Shaw, encosta o telemóvel ao ouvido e pensa: Alguém está a utilizar a cadeira para mudar a realidade de um desastre para outro. —Todas as linhas estão ocupadas; por favor, tente mais tarde. Alonzo liga o rádio. —… notícias de última hora: dois camiões pesados explodiram perto do Grand Central Terminal. Instalou-se o caos. Há relatos anteriores de algum tipo de acidente no túnel Queens-Midtown e eu lembro-me de ver a Fifty- Ninth Street Bridge ruir, mas… não sei como é possível… vejo-a de pé na nossa câmara da torre neste preciso… … e estão parados na East Fifty-Seventh Street, o ar carregado de fumo, os ouvidos a zunir. Outra dor de cabeça. Outra hemorragia nasal. Outra mudança. O acidente no túnel nunca aconteceu. O acidente na ponte nunca aconteceu. O Grand Central Terminal nunca sofreu um ataque bombista. Só sobejam as memórias mortas desses acontecimentos, empilhadas na sua mente como as memórias de sonhos. Ela acordou, preparou o pequeno-almoço, vestiu-se e desceu ao parque de estacionamento subterrâneo do prédio com Jessica e Alonzo, como numa manhã qualquer. Seguem para oeste pela East Fifty-Seventh para contornar o acesso que dá para a ponte quando um clarão ofuscante irrompe no céu, seguido do barulho de mil canhões a disparar ao mesmo tempo, retumbando pelos edifícios das cercanias. Neste momento estão presos no meio do trânsito e, a toda a volta, há pessoas de pé no passeio, a olhar horrorizadas para a Trump Tower, da qual se erguem vagas de fumo e labaredas. Os dez pisos inferiores vergam-se como se estivessem a derreter, revelando o interior como se fosse formado por cubículos. Os pisos mais acima continuam intactos, e as pessoas aí presas olham por cima do novo precipício para a cratera que outrora fora o cruzamento da Fifty-Seventh com a Fifth Avenue. Enquanto a cidade grita com as sirenes que se aproximam, um som estridente, Jessica pergunta: —O que está a acontecer? Mas que raio está a acontecer? Mais à frente, um ser humano cai do céu e esmaga o tejadilho de um táxi. Outra pessoa cai em cima do para-brisas de um carro mesmo atrás do Suburban. Uma terceira mergulha pelo toldo de um clube de desporto privado e Helena interroga-se se as pessoas estarão a atirar-se dos prédios por as suas mentes não conseguirem suportar o que está a acontecer. Não seria de espantar. Se ela não soubesse da cadeira, o que pensaria que estava a acontecer à cidade, ao tempo, à própria realidade? Jessica chora. —Parece o fim do mundo— diz Alonzo. Helena olha pela janela para o prédio quando uma mulher de cabelo loiro salta de um escritório cujos vidros foram estilhaçados pela explosão. Cai como um foguete, de cabeça para baixo, a gritar até aoim pacto. Helena tenta desviar o olhar, mas não consegue fazê-lo a tempo. O movimento de todas as coisas desacelera outra vez. O fumo escuro. As chamas. A mulher a cair em câmara lenta, a cabeça cada vez mais perto do pavimento. Tudo se detém. Este friso cronológico está a morrer. As mãos de Jessica agarram o volante eternamente. Helena não consegue desviar o olhar da mulher que saltou do prédio, que nunca chega a bater no chão, porque está parada em pleno voo, o topo da cabeça a trinta centímetros do pavimento, os cabelos loiros esparramados, os olhos fechados, o rosto num esgar perpétuo, a preparar-se para o impacto… E Helena está a passar pelas portas duplas do edifício da DARPA, onde Shaw se encontra do lado de fora do posto de segurança. Entreolham-se, processando esta nova realidade à medida que as novas memórias se encaixam no lugar. Nada daquilo aconteceu. Nem o túnel, a ponte, a Grand Central ou a Trump Tower. Helena acordou, preparou-se e foi levada como todas as outras manhãs, sem incidentes. Abre a boca para dizer alguma coisa, mas Shaw adianta-se: —Aqui não. Raj e Albert estão sentados à mesa de reuniões no laboratório, a assistir às notícias numa televisão embutida na parede. O ecrã foi dividido em quatro imagens em tempo real das câmaras da torre que mostram a Fifty- Ninth Street Bridge, o Grand Central Terminal, a Trump Tower e o túnel Queens-Midtown, todos incólumes, por debaixo do título: PROBLEMA DE MEMÓRIA EM MASSA EM MANHATTAN. —Que porra é que está a acontecer?— pergunta Helena. Toda ela treme, porque, apesar de nunca ter acontecido, ainda consegue sentir o impacto da parede de água a embater no seu corpo. Consegue ouvir o embate dos corpos nos carros a toda a volta. Consegue ouvir o rangido da ponte a desmoronar. —Sente-se— diz Shaw. Ela senta-se em frente a Raj, que está com um ar completamente aturdido. Shaw continua de pé e diz: —Os planos da cadeira, do tanque, o nosso software, o protocolo… Houve uma fuga de informação. Helena aponta para o ecrã. —Alguém está a provocar isto? —Sim. —Quem? —Não sei. —Seria preciso mais de dois meses para alguém construir a cadeira baseando-se apenas nos planos— diz ela. —A fuga já foi há mais de um ano. —Como é que pode ser? Vocês nem sequer tinham a cadeira há um ano… —O Marcus operou a partir daquele hotel durante mais de um ano. Alguém teve curiosidade sobre o que ele estava a fazer e acedeu de modo ilícito aos servidores dele. O Raj acabou de descobrir provas da intrusão. —Foi uma maciça fuga de informação— diz Raj. —Esconderam-na bem e obtiveram acesso a tudo. Shaw olha para Albert. —Diga-lhe o que descobriu. —Outros casos de mudanças de realidade. —Onde? —Hong Kong, Seul, Tóquio, Moscovo, quatro em Paris, dois em Glasgow, um em Oslo. Muitas semelhanças com as histórias de SFM que surgiram na América no ano passado. —Quer dizer que alguém está a usar a cadeira e vocês têm a certeza disso. —Sim. Até encontrei uma empresa em São Paulo que a utiliza para fins turísticos. —Meu Deus. Há quanto tempo é que isso está a acontecer? —Há quase três meses. —Os governos chinês e russo assumiram ter esta tecnologia— diz Shaw. —Cada frase que diz assusta-me mais do que a anterior. —Bem, para não fugir à regra… – Abre um computador portátil e escreve um URL. —Isto foi publicado há cinco minutos. Ainda não chegou à imprensa. Ela inclina-se para o ecrã. É a página da WikiLeaks. Sob o título «Guerra e Tropas», vê a imagem de um soldado sentado numa cadeira que parece exatamente igual à que está no meio desta sala, por baixo do título: Máquina de Memória Militar dos EUA. Milhares de páginas com esquemas completos de um equipamento que, alegadamente, envia soldados de volta às suas memórias pode ser a explicação da vaga de tragédias revertidas ao longo dos últimos seis meses. Helena sente um aperto no peito. Pontos negros toldam-lhe o campo de visão. —Como é que a WikiLeaks estabeleceu uma ligação entre a cadeira e o nosso Governo?— pergunta. —Não se sabe. —Recapitulando —diz Albert—, os servidores do Slade foram atacados. O conteúdo terá sido vendido a vários compradores. Um ou mais desses compradores, ou talvez os próprios hackers, continuaram a divulgar os planos. É provável que, atualmente, haja muitas cadeiras a ser utilizadas em muitos países. A China e a Rússia têm a cadeira, e agora, após a WikiLeaks ter publicado os esquemas, qualquer empresa, ditador ou pessoa abastada com vinte e cinco milhões de dólares à mão de semear pode ter a sua própria máquina de memória privada. —Não se esqueça de que um grupo terrorista qualquer parece ser um dos orgulhosos proprietários da cadeira —diz Raj— e estão a utilizá-la para repetir o mesmo ataque em diferentes alvos numa das cidades com maior densidade populacional do mundo. Helena olha para a cadeira. Para o tanque de privação sensorial. Para o terminal. Sente-se na atmosfera um ténue zumbido. No ecrã da televisão, as notícias dão agora conta de um novo ataque em São Francisco, no qual a Golden Gate Bridge emana colunas de fumo preto em direção à alvorada. Ela tenta compreender a situação, mas é tudo demasiado intenso, confuso, preocupante. —Qual é o pior cenário possível, Albert?— pergunta Shaw. —Creio que estamos a vivê-lo. —Não, refiro-me ao que acontecerá a seguir. Albert sempre foi fleumático, como se a sua colossal inteligência o protegesse e elevasse acima de tudo, mas não hoje. Hoje, parece assustado. —Não há certezas de a Rússia ou a China só disporem dos planos da cadeira ou de já terem construído uma. Se for o primeiro caso, podemos ter a certeza de que estão na corrida para o fabrico da cadeira, contra todos os outros países do mundo. —Porquê?— quer saber Helena. —Porque é uma arma. É a arma mais poderosa de todas. Lembram-se da nossa primeira reunião a esta mesa, quando falámos sobre enviar um atirador de noventa e cinco anos até uma memória para mudar o desfecho de uma guerra? Quais dos nossos inimigos… que diabos, até dos nossos amigos… beneficiariam de utilizar a cadeira contra nós? —Quais não beneficiariam?— atalha Shaw. —Quer dizer que estamos numa situação semelhante a um impasse nuclear?— pergunta Raj. —Muito pelo contrário. Os governos não utilizam armas nucleares, porque assim que carregarem no botão, o adversário fará o mesmo. A ameaça de retaliação é um dissuasor demasiado forte. Porém, com a cadeira, não existe uma ameaça de retaliação ou destruição mútua. O primeiro governo, empresa ou indivíduo a utilizá-la com êxito e de forma estratégica, quer seja a mudar o desfecho de uma guerra ou a assassinar um ditador que já morreu há imenso tempo, será o vencedor. —Está a dizer que toda a gente tem interesse em utilizar a cadeira?— pergunta Helena. —Exatamente. E quanto antes. Quem quer que seja o primeiro a reescrever a história no seu próprio interesse, será o vencedor. É demasiado arriscado permitir que outra pessoa o consiga fazer primeiro. Helena olha outra vez de relance para a televisão. Neste momento, o Transamerica Pyramid no distrito financeiro de São Francisco está em chamas. —Pode ser um governo estrangeiro que está por trás destes ataques— diz Helena. —Não— refuta Albert, analisando o seu telemóvel. —Um grupo anónimo acaba de reivindicar a responsabilidade no Twitter. —O que é que pretendem? —Não faço ideia. Muitas vezes, o simples desencadear de devastação e terror é, em si mesmo, o objetivo final. Vê-se no ecrã uma mulher sentada a apresentar o noticiário com um ar abalado ao falar para a câmara. —Ponha mais alto, Albert— diz Shaw. —Entre relatos contraditórios sobre ataques terroristas em Nova Iorque e São Francisco, acabou de ser publicado no The Guardian um comunicado de Glenn Greenwald no qual alega que o Governo dos Estados Unidos possui há pelo menos seis meses uma nova tecnologia chamada «cadeira de memória», a qual foi pirateada de uma empresa privada. O Sr. Greenwald afirma que a cadeira de memória permite que a consciência de quem nela se sentar viaje até ao passado e, de acordo com as suas fontesconfidenciais, esta cadeira será a causa da síndrome das falsas memórias, a misteriosa… Albert tira o som à televisão. —Temos de fazer alguma coisa imediatamente— diz. —A qualquer momento, a realidade pode mudar-nos para um mundo completamente diferente ou, simplesmente, para fora da existência. Shaw, que não parava de andar de um lado para o outro, deixa-se abater na sua cadeira a olhar para Helena. —Eu deveria ter-lhe dado ouvidos. —Agora não é o momento de… —Pensei que a poderíamos utilizar para o bem. Estava preparado para dedicar o resto da minha… —Não importa. Se me tivesse dado ouvidos e destruído a cadeira, agora estaríamos indefesos. Shaw olha de relance para o telemóvel. —Os meus superiores vêm a caminho. —Quanto tempo temos?— pergunta Helena. —Vêm num jato de Washington, por isso cerca de trinta minutos. Apoderar-se-ão de tudo. —Nunca mais nos deixarão entrar aqui— diz Albert. —Vamos mandar a Timoney até ao passado— diz Shaw. —Até quando?— pergunta Albert. —Até antes de o laboratório do Slade ter sido atacado. Agora que sabemos a localização do edifício dele, podemos fazer a incursão mais cedo. Não ocorrerá o acesso ilícito e seremos os únicos guardiões da cadeira. —Até chegarmos de novo a este momento— diz Albert. —Então, o mundo lembrar-se-á de toda a devastação que aconteceu esta manhã. —E as pessoas que agora possuem a cadeira irão simplesmente reconstruí-la com base numa falsa memória— diz Helena. —Tal como o Slade fez. Será mais difícil sem os planos, mas não impossível. O que precisamos é de mais tempo. Helena levanta-se e aproxima-se do terminal, onde pega num capacete e se senta na cadeira. —O que está a fazer?— pergunta Shaw. —O que lhe parece?… Raj, vens dar-me uma ajuda? Preciso de mapear uma memória. Raj, Shaw e Albert entreolham-se por cima da mesa. —O que está a fazer, Helena?— repete Shaw. —A tirar-nos desta alhada. —Como? —Não pode confiar em mim, porra?!— grita. —Estamos a ficar sem tempo. Eu não me intrometi, dei conselhos, segui as suas regras. Agora, é a sua vez de seguir as minhas. Shaw suspira, desalentado. Ela conhece a mágoa de ter de prescindir das promessas da cadeira. Não se trata apenas da desilusão de todas as aplicações científicas e humanitárias que não se concretizarão, as quais se poderiam concretizar em condições ideais. Trata-se de perceber que, sendo uma espécie profundamente imperfeita, nunca estaremos preparados para dominar esse poder. —Está bem— acaba por dizer. —Raj, ative a cadeira. É a primeira verdadeira experiência de liberdade que a rapariga tem. Ao cair da noite, sai da sua casa de campo de dois pisos e mete-se no Chevy Silverado azul e branco de 1978 que é o único veículo da família. Nunca esperara que os pais lhe oferecessem um carro quando fez dezasseis anos há dois dias. Os seus planos são passar o próximo verão a trabalhar como nadadora-salvadora e baby-sitter e, espera, juntar dinheiro suficiente para comprar o seu próprio carro. Os pais estão de pé no alpendre da frente ligeiramente abaulado, orgulhosos, a vê-la meter a chave na ignição. A mãe tira uma fotografia. Quando o motor ronca, o que mais a surpreende é o vazio dentro da carrinha. O pai não está sentado no lugar do pendura. A mãe não está sentada no meio dos dois. Ela está sozinha. Pode ouvir a música que quiser, no volume que lhe apetecer. Pode ir aonde quiser, conduzir à velocidade que bem entender. É claro que não o fará. Na sua viagem de estreia, o seu plano é aventurar-se pelos perigosos e distantes baldios da loja de conveniência, cerca de dois quilómetros mais ao fundo da rua. A fervilhar de energia, engrena a alavanca na posição de condução e acelera devagar pela longa rampa de acesso, metendo o braço esquerdo do lado de fora do vidro para acenar aos pais. A estrada rural que passa à frente da sua casa está deserta. Vira para a estrada e liga o rádio. A nova canção de George Michael, Faith, está a tocar na estação de rádio da faculdade às portas de Boulder e ela canta a plenos pulmões enquanto passa pelos vastos campos. O futuro parece-lhe mais próximo do que nunca. Como se pudesse até já ter chegado. As luzes da estação de serviço brilham ao longe e, quando levanta o pé do pedal, sente uma dor lancinante por trás dos olhos. Fica com a visão turva e por pouco não colide com as bombas de combustível. No parque de estacionamento nas traseiras da loja, desliga o motor e pressiona os polegares nas têmporas para tentar aplacar a dor— tão forte que pensa que vai vomitar. É então que acontece uma coisa muito estranha. O seu braço direito move-se para a coluna da direção e agarra as chaves. —Mas que raio?!— diz. Porque ela não moveu o braço. De seguida, vê o pulso rodar a chave e ligar o motor outra vez, e agora a sua mão está a aproximar-se da alavanca das mudanças e a engrenar a marcha-atrás. Contra a sua vontade, olha por cima do ombro, pelo vidro de trás, recua a carrinha pelo parque de estacionamento, e depois engrena a velocidade para arrancar. Não consegue evitar pensar: Não estou a conduzir, não estou a fazer nada disto, enquanto a carrinha acelera pela autoestrada, de volta para casa. Uma escuridão começa a toldar-lhe a vidão periférica, a Front Range e as luzes de Boulder a diminuir de intensidade e a ficar mais pequenas, como se estivesse a cair lentamente num poço fundo. Quer gritar, não permitir que isto aconteça, mas agora é apenas uma passageira no seu próprio corpo, incapaz de falar, cheirar ou sentir coisa alguma. O som do rádio é pouco mais do que um murmúrio moribundo, e, de um momento para o outro, a centelha de luz que era a sua consciência do mundo extingue-se. HELENA 15 de outubro de 1986 Helena vira da estrada rural para a rampa de acesso da casa de campo de dois pisos onde cresceu, sentindo-se mais em casa a cada momento que passa nesta versão mais jovem de si mesma. A casa de campo parece mais pequena, muito mais insignificante do que ela se lembrava, e inegavelmente mais frágil, com o pano de fundo azul das montanhas que se elevam desde as planícies a quase dezassete quilómetros de distância. Estaciona, desliga o motor e vê no retrovisor a sua cara de dezasseis anos. Sem rugas. Muitas sardas. Os olhos translúcidos, verdes e cintilantes. Ainda uma criança. A porta range quando ela a abre com o ombro para se apear, pondo o pé sobre a relva. A brisa traz o cheiro adocicado e húmido de uma leitaria nas redondezas, e é inquestionavelmente o cheiro que mais associa a casa. Sente uma enorme leveza ao subir os degraus do alpendre, desgastados pelo tempo. O rumorejar baixo da televisão é a primeira coisa que ouve quando abre a porta da frente e entra. Ao fundo do corredor, passando pelas escadas, ouve movimento na cozinha— comida a ser mexida, misturada, tachos a bater, água a correr. Toda a casa cheira a frango assado no forno. Helena espreita para a sala de estar. O pai está sentado na sua cadeira reclinável com os pés esticados, a fazer o que costumava fazer todos os dias da semana da sua juventude— assistir ao World News Tonight. Peter Jennings anuncia que Elie Wiesel foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz. —Como foi a viagem?— pergunta o pai. Compreende que as crianças são sempre demasiado jovens e egocêntricas para verem realmente os pais no auge das suas vidas. Porém, ela vê o seu pai neste momento como nunca o viu antes. Ele é tão jovem e bem- parecido. Ainda nem tem quarenta anos. Não consegue desviar o olhar dele. —Foi muito divertida. —A sua voz soa-lhe estranha, aguda e delicada. Ele volta a olhar para o televisor e não repara nela a limpar as lágrimas dos olhos. —Amanhã não preciso da carrinha, por isso pergunta à mãe, e se ela também não precisar, podes levá-la para a escola. —Esta realidade parece- lhe mais firme a cada segundo que passa. Acerca-se da cadeira reclinável, debruça-se e passa os braços à volta do pescoço dele. —Porque foi isso?— pergunta. O cheiro a Old Spice e a barba áspera como lixa quase a fazem chorar. —Por seres o meu pai— murmura. Passa pela sala de jantarter de se esforçar por isso. Certa vez, ele disse-lhe que ela tinha cara de monarca quiescente. Conheceram-se e criaram uma ligação durante um assalto a um banco, há alguns anos, que se transformou numa situação com reféns. No Natal seguinte, envolveram-se num dos momentos mais embaraçosos da existência de Barry. Aconteceu numa das muitas festas organizadas pela Polícia de Nova Iorque e os dois perderam o controlo. Ele acordou no apartamento dela às três da manhã com a cabeça ainda à roda. O seu erro foi tentar esgueirar-se quando não estava preparado para ficar consciente. Vomitou no chão ao lado da cama dela e estava a tentar limpar a porcaria quando Gwen despertou e gritou com ele: «Eu limpo o teu vomitado de manhã. Vai-te embora!» Ele não se lembra de pormenores de cenas de sexo, se é que o fizeram ou tentaram, e a sua esperança é que ela tenha a mesma misericordiosa lacuna de memória. De qualquer forma, nenhum deles voltou a falar do assunto. O empregado chega para saber o que Barry vai tomar e para servir outro Wild Turkey a Gwen. Bebem e conversam sobre ninharias durante algum tempo, e quando Barry por fim sente que o mundo começa a libertar-se, Gwen diz: — Constou-me que tiveste um caso de suicídio de uma pessoa com SFM na sexta à noite. — Foi. Ele conta-lhe todos os pormenores. — Sê honesto — diz ela. — Ficaste muito transtornado? — Bem, ontem tornei-me um especialista em SFM pela Internet. — E então? — Há oito meses, os Centros para Controlo de Doenças identificaram sessenta e quatro casos semelhantes na região nordeste. Em todos os casos, os doentes apresentaram queixas de falsas memórias agudas. Não apenas uma ou duas, mas uma história alternativa completamente imaginada, que abarcava grandes porções das suas vidas até àquele momento, remontando geralmente a meses ou anos. Em alguns casos, décadas. — Queres dizer que perdem a memória da vida real? — Não, de repente, têm dois conjuntos de memórias. Um verdadeiro e um falso. Em alguns casos, os doentes sentem que as suas memórias e consciências foram transpostas de uma vida para a outra. Noutros casos, os doentes experienciaram um súbito flash de falsas memórias de uma vida que nunca viveram. — O que é que provoca isso? — Ninguém sabe. Não identificaram uma única anomalia fisiológica ou neurológica nos indivíduos afetados. Os únicos sintomas são as falsas memórias propriamente ditas. Ah, e cerca de dez por cento dos afetados suicidam-se. — Meu Deus. — O número pode ser mais elevado. Muito mais elevado. Este valor representa os casos conhecidos. — Este ano, os suicídios aumentaram em cinco divisões administrativas. Barry olha para o empregado e faz sinal para servir mais uma rodada. — É contagioso? — pergunta Gwen. — Não encontrei uma resposta concludente. Os CCD não identificaram um agente patogénico, pelo que não parece transmitir-se pelo sangue ou pelo ar. Ainda. Um artigo do The New England Journal of Medicine especulou que se propaga através da rede social do portador. — Como o Facebook? Como é que isso pode… — Não, quero dizer que quando uma pessoa é infetada com SFM, algumas das pessoas do seu círculo de conhecidos também são contagiadas. Os progenitores partilharão as mesmas falsas memórias, mas em menor escala. Os irmãos, irmãs, amigos íntimos. Realizou-se um estudo de caso a um fulano que, certo dia, acordou e tinha memórias de uma vida completamente diferente. De estar casado com outra mulher, viver noutra casa, ter filhos diferentes. Com base na sua memória, reconstruíram a lista dos convidados do casamento dele… o casamento de que ele se lembrava, mas que nunca aconteceu. Localizaram treze pessoas dessa lista e todos também tinham memórias desse casamento que nunca aconteceu. Já ouviste falar de uma coisa chamada efeito Mandela? — Não sei. Talvez. É servida mais uma rodada. Barry emborca o seu shot de Old Grand-Dad e empurra-o com uma Coors enquanto a luminosidade que entra pelo vidro da frente diminui de intensidade com o lusco-fusco. — Ao que parece, milhares de pessoas têm memória de Nelson Mandela ter morrido na prisão nos anos 80, apesar de ele ter vivido até 2013 — explica. — Já ouvi isso. É como aquela história dos livros The Berenstain Bears. — Nunca ouvi falar. — És mesmo velho. — Vai-te lixar. — São uns livros infantis de quando eu era criança e muita gente lembra- se de se intitularem The Berenstein Bears, S-T-E-I-N, quando na verdade se escrevia Berenstain. S-T-A-I-N. — Que estranho. — Assustador, melhor dizendo, pois eu tenho ideia de que era Berenstein. Gwen bebe o seu uísque de um trago. — Além disso, e ninguém sabe se está relacionado com a SFM, os casos de déjà-vu agudo também estão a aumentar. — O que é isso? — As pessoas têm a sensação, por vezes a ponto de ser debilitante, de que estão a reviver sequências inteiras das suas vidas. — Isso às vezes acontece-me. — A mim também. — A tua suicida não disse que a primeira mulher do marido dela também saltou do Poe Building? — pergunta Gwen. — Disse. Porquê? — Não sei. Parece-me apenas… pouco provável. Barry olha para ela. O bar está a ficar cheio e barulhento. — Onde queres chegar? — pergunta. — Se calhar, ela não tinha síndrome das falsas memórias. Se calhar, a gaja era apenas maluca. Se calhar, não te devias preo cupar tanto. Três horas mais tarde, ele está perdido de bêbedo noutro bar — o sonho húmido de um amante de cerveja, com cabeças de búfalos e veados empalhadas, dependuradas nas paredes de madeira e uma fileira de torneiras de tirar cerveja por debaixo das prateleiras com iluminação de fundo. Gwen tenta levá-lo a jantar, mas a empregada repara que ele está a cambalear e recusa-lhes uma mesa. Lá fora, a cidade parece à deriva e Barry está concentrado a tentar que os prédios não rodopiem enquanto Gwen o segura pelo braço direito, conduzindo-o rua abaixo. De súbito, percebe que estão numa esquina sabe-se lá onde a falar com a bófia. Gwen está a mostrar o seu distintivo ao polícia de patrulha e a explicar que o intento dela é levar Barry para casa, mas que tem medo de que ele vomite dentro de um táxi. Depois, estão a caminhar outra vez, a cambalear, a fulgurância noturna futurista de Times Square a rodopiar como uma feira popular nauseante. Consulta o relógio, 23h22, e não sabe em que buraco negro caíram as últimas seis horas. — Não quero ir para casa— diz, para ninguém em especial. Depois, está a fitar um relógio digital que indica 4h15. Tem a sensação de que alguém lhe abriu um buraco no crânio enquanto dormia e sente a língua seca como uma tira de couro. Não está no apartamento dele. Está deitado no sofá da sala de estar de Gwen. Faz um esforço para montar as peças da noite, mas estão todas espalhadas. Lembra-se de Julia e do parque. Da primeira hora do primeiro bar com Gwen, mas, depois disso, tudo é confuso e matizado de arrependimento. Sente o coração bater nos ouvidos. As ideias em catadupa. É a hora solitária da noite, aquela que ele bem conhece — quando a cidade dorme, mas ele não, e todos os arrependimentos da vida lhe espicaçam a mente com uma intensidade insuportável. Pensa no pai que morreu quando ele era jovem e a eterna dúvida: Ele saberia que eu o amava? E Meghan. Sempre Meghan. Quando a sua filha era pequena, estava convencida de existir um monstro na arca que havia aos pés da sua cama. Nunca se lembrava disso durante o dia, mas assim que ficava escuro e ele a aconchegava na cama, ela chamava-o sempre, e ele ia a correr até à beira dela, ajoelhava-se ao lado da cama e fazia-lhe ver que tudo parece mais assustador à noite. Era apenas uma ilusão, uma partida que a escuridão nos prega. Como é estranho que, décadas mais tarde e com a vida tão fora do rumo que traçara, se encontre sozinho no sofá do apartamento de uma amiga, tentando aplacar os seus medos com a mesma lógica que utilizava para acalmar a filha há tantos anos. Tudo parecerá melhor pela manhã. A esperança regressará quando for de dia outra vez. O desespero é uma mera ilusão, uma partida que a escuridão nos prega. Fecha os olhose vai para a cozinha, onde encontra a mãe encostada ao balcão, a fumar um cigarro e a ler um romance. A última vez que Helena a viu foi num centro de cuidados para adultos perto de Boulder, daqui por vinte e quatro anos, o corpo frágil, a mente destruída. Tudo isso ainda acontecerá, mas neste momento, traz vestidas umas calças de ganga azuis e uma blusa de botões até baixo. Tem uma permanente e franjas à moda dos anos 80 e está no auge absoluto da sua vida. Helena atravessa a pequena cozinha e dá um forte abraço à mãe. Está a chorar outra vez e não se consegue conter. —O que foi, Helena? —Nada. —Aconteceu alguma coisa pelo caminho? Helena abana a cabeça. —Estou só emotiva. —Porquê? —Nem sei. Sente as mãos da mãe passarem-lhe pelo cabelo e o cheiro do perfume que sempre usou —White Linen de Estée Lauder— misturado com o cheiro pungente do tabaco. —Crescer pode ser assustador— diz a mãe. Parece impossível que esteja ali. Há instantes, ela estava a asfixiar num tanque de privação sensorial, a dois mil e quinhentos quilómetros de distância e a trinta anos no futuro. —Precisas de ajuda com o jantar?— pergunta Helena, acabando por se afastar. —Não, o frango ainda demora algum tempo. Tens a certeza de que estás bem? —Tenho. —Eu chamo-te quando estiver pronto. Helena sai da cozinha e atravessa o corredor até ao fundo das escadas. São mais íngremes do que se lembra e rangem muito mais. O quarto dela é um desastre, como sempre foi. Como todos os seus futuros apartamentos e escritórios serão. Vê peças de roupa de que já se esquecera. Um ursinho de peluche com um só braço, que ela perderá na faculdade. Um walkman, dentro do qual vê a cassete transparente com o álbum Listen Like Thieves dos INXS. Senta-se à pequena escrivaninha e olha pelo vidro encantadoramente deformado da velha janela. A paisagem é composta pelas luzes de Denver, a mais de trinta quilómetros de distância, e das planícies de cor púrpura para oriente, o enorme mundo selvagem elevando-se invisível do outro lado. Era costume sentar-se ali a sonhar acordada com o seu futuro. Nunca teria imaginado. Está um manual de ciências aberto ao lado de um trabalho sobre biologia celular que ela tem de terminar esta noite. Na gaveta do meio encontra um caderno preto e branco com a palavra «Helena» escrita à mão na capa. Disto lembra-se. Abre o caderno e vê página atrás de página com a sua caligrafia de adolescente. Embora nunca tenha perdido as suas memórias de frisos cronológicos anteriores após utilizações prévias da cadeira, receia que isso possa começar a acontecer. Está a navegar por águas nunca antes navegadas— nunca recuou tanto no tempo ou até uma versão de si mesma tão jovem. Há uma possibilidade de poder esquecer a pessoa em que se tornou, o motivo pelo qual está aqui. Pega numa esferográfica e abre o diário numa página em branco, escreve a data e começa a redigir uma nota para si mesma a explicar tudo o que aconteceu nas suas vidas anteriores: Querida, Helena, A 16 de abril de 2019, o mundo recordar-se-á de uma cadeira de memória que tu criaste. Tens trinta e três anos para encontrar uma maneira de impedir que isso aconteça. Só tu podes impedir que isso aconteça… «Quando uma pessoa morre, apenas parece estar morta. Continua muito viva no passado… Todos os momentos, passados, presentes e futuros, sempre existiram, sempre existirão. É apenas uma ilusão que temos aqui na Terra de que um momento se sucede a outro, como as contas de um colar, e de que, assim que um momento passa, assim será para sempre.» KURT VONNEGUT, MATADOURO CINCO OU A CRUZADA DAS CRIANÇAS BARRY 16 de abril de 2019 Barry está sentado numa cadeira à sombra, a contemplar uma grande extensão de saguaros num deserto banhado pela luz da manhã. Felizmente, a dor lancinante por trás dos olhos está a diminuir. Estava deitado no décimo sétimo andar de um prédio em Man hattan com balas a zunir à sua volta e a crivar-se no seu corpo e o sangue a jorrar enquanto pensava no rosto da filha. Depois, uma bala acertou-lhe na cabeça, e agora está aqui. —Barry. —Vira-se para a mulher que está sentada ao seu lado: cabelo curto, olhos verdes, uma palidez céltica. Helena. —Estás a sangrar. Passa-lhe um guardanapo, que ele leva ao nariz para estancar o sangue. —Fala comigo, querido— diz ela. —Estamos a pisar novo território. Estão a chegar-te trinta e três anos de memórias mortas. No que estás a pensar neste instante? —Não sei. Eu estava… Parece-me que ainda agora estava naquele hotel. —No do Marcus Slade? —Sim, fui alvejado. Estava a morrer. Parece que as balas ainda me estão a atingir. Estava a dizer-te para fugires. Depois, de repente, dou por mim aqui. Como se não tivesse passado tempo algum. Mas as minhas memórias daquele hotel agora parecem-me mortas. Pretas e cinzentas. —Sentes-te mais como o Barry daquele friso cronológico ou deste? —Daquele. Não faço ideia de onde estou. A única coisa familiar és tu. —Em breve terás memórias deste friso cronológico. —Muitas? —Uma vida inteira delas. Não sei bem o que esperar para ti. Pode ser perturbador. Ele olha para a cordilheira de montanhas castanhas. O deserto está a florescer. Os pássaros a cantar. Não corre vento e o frio da noite demora-se no ar. —Nunca vi este sítio. —Esta é a nossa casa, Barry. Ele demora algum tempo a perceber. —Que dia é hoje? —É o dia 16 de abril de 2019. No friso cronológico em que morreste, utilizei um tanque de privação sensorial da DARPA para regressar a uma memória de há trinta e três anos, a 1986. Depois, vivi a minha vida outra vez, até este momento, tentando encontrar uma maneira de evitar que o dia de hoje acontecesse. —O que acontece no dia de hoje? —Depois de tu morreres no hotel do Slade, houve uma fuga de informação sobre a cadeira, que chegou ao conhecimento do público, e o mundo deu em doido. Hoje é o dia em que o mundo se recordará de tudo. Até agora, tu e eu somos os únicos que sabem. —Sinto-me… esquisito— diz ele. Levanta um copo de água com gelo da mesa e bebe de um trago. As mãos começam a tremer-lhe. Helena repara e diz: —Se piorar, tenho isto. —Levanta uma seringa com tampa que está pousada na mesa. —O que é? —Um sedativo. Só para o caso de ser necessário. Começa como uma tempestade de verão. Apenas uma gota de chuva muito fria aqui e além. O ribombar de trovões distantes. Trovoada seca a lampejar no horizonte. A memória inicial deste friso cronológico atinge-o. Da primeira vez que viu Helena, ela sentou-se num banco ao balcão ao lado dele num pequeno bar em Portland, no Oregon, e disse: —Tens ar de quem me quer pagar um copo. Era tarde, ele estava embriagado e ela era diferente de todas as pessoas que conhecera— vinte e poucos anos, mas uma alma velha com a mente mais brilhante que jamais encontrara. A familiaridade imediata de estar na presença dela fez-lhe parecer que toda a vida a conhecera e que estava a acordar pela primeira vez. Falaram de trivialidades até o bar fechar e depois ela levou-o para o motel onde estava hospedada e fodeu-o como se fosse o último dia na Terra. Outra… Estavam juntos há vários meses e ele tinha-se apaixonado por ela quando ela lhe disse que era capaz de prever o futuro. —Tretas— disse ele. —Um dia, vou provar-to— disse ela. Não fez grande alarde disso. Disse-o com indiferença, quase como uma piada, e ele esqueceu essa asserção até dezembro de 1990. Certa noite, estavam a ver televisão e ela disse-lhe que, no mês seguinte, os EUA expulsariam as forças iraquianas do Kuwait numa missão chamada Operação Tempestade no Deserto. Houve outros casos. Ao entrarem para uma sala de cinema para assistirem ao Silêncio dos Inocentes, ela disse-lhe que o filme arrebataria os Óscares no ano seguinte. Nessa primavera, ela pediu-lhe que ele se sentasse no pequeno apartamento onde viviam, passou-lhe para a mão um pequeno gravador e cantou o refrão do tema Smells Like Teen Spirit dos Nirvana dois meses antes de ser lançado. Depois, gravou-se a dizer-lhe que o governador do Arkansas anunciaria a sua candidatura à presidência dos Estadose reconforta-se com a memória de terem ido acampar no Lake Tear of the Clouds, com esse momento perfeito. Nele, as estrelas cintilavam. Se pudesse, ficaria ali para sempre. HELENA 1 de novembro de 2007 Dia 1 Sente um nó no estômago ao ver a orla costeira do norte da Califórnia no lusco-fusco. Encontra-se sentada atrás do piloto, sob o rugir dos rotores, a ver o mar tumultuoso cento e cinquenta metros abaixo do trem de aterragem do helicóptero. Não está um dia bom junto ao mar. As nuvens formam um manto baixo; a água é cinzenta e mosqueada por uma espécie de pequenos tufos brancos e, quanto mais se afastam de terra, mais sombrio o mundo se torna. Pelo para-brisas raiado da chuva do helicóptero, vê algo materializar-se ao longe — uma estrutura a elevar-se da água, ainda a uma ou duas milhas de distância. — É aquilo? — diz para o microfone. — Sim, senhora. Inclinando-se para a frente até ficar apoiada no arnês pelos ombros, observa com intensa curiosidade enquanto o helicóptero inicia a aproximação, diminuindo de velocidade, descendo na direção do colosso de ferro, aço e betão suportado por três pilares no mar como um gigantesco tripé. O piloto empurra a alavanca e o aparelho inclina-se para a esquerda, formando um lento círculo à volta da estrutura, cuja plataforma principal fica a cerca de sessenta e seis metros acima do nível do mar. Ainda se veem algumas gruas projetando-se das laterais — vestígios dos tempos de prospeção de petróleo e gás. De resto, a plataforma foi despojada dos seus acessórios industriais e transformada. Na plataforma principal, vislumbra um campo de basquetebol, uma piscina, uma estufa, aquilo que parece ser uma pista de atletismo à volta do perímetro. Aterram num heliporto. A turbina começa a abrandar e, pela janela, Helena vê um homem com um casaco amarelo correr para o helicóptero. Quando abre a porta da cabina, ainda está a bulir com o cinto de segurança, até que finalmente o consegue desengatar. O homem ajuda-a a descer do helicóptero, primeiro para o trem de aterragem, depois para a superfície da plataforma. Ela segue-o até umas escadas que descem desde o heliporto até à plataforma principal. O vento intromete-se pelo seu casaco de capuz e pela T-shirt; quando chega aos degraus, o helicóptero deixa de fazer barulho, e mantém-se apenas a presença do silêncio aberto do oceano. Descem do último degrau para uma ampla superfície de betão, e ali está ele, atravessando a plataforma na sua direção. Ela sente o coração bater com força. Ele tem a barba desgrenhada, o cabelo escuro despenteado e a adejar ao vento. Traz vestidas umas calças de ganga e uma sweatshirt desbotada; ali está, em carne e osso, Marcus Slade — inventor, filantropo, magnata empresarial, fundador de uma miríade de empresas de tecnologia inovadora, abrangendo setores tão diversos como informática na nuvem, transportes, espaço e inteligência artificial. É um dos cidadãos mais ricos e mais influentes, tendo desistido da escola. Tem apenas trinta e quatro anos. Sorri e diz: — Vamos lá! – O entusiasmo dele acalma os nervos de Helena. Quando se encontram junto um do outro na plataforma, ela não sabe como o cumprimentar. Com um aperto de mão? Um abraço educado? Slade decide por ela com um abraço afetuoso. — Bem-vinda à Fawkes Station. — Fawkes? — Em memória de Guy Fawkes! Lembra-se do 5 de Novembro? — Ah, pois. Por causa da memória? — Porque gosto de perturbar o estado atual das coisas. Deve estar com frio… Vamos para dentro. Caminham, então, dirigindo-se para a superstrutura de cinco pisos no outro extremo da plataforma. — Não é bem aquilo de que eu estava à espera— diz Helena. — Comprei-a há alguns anos à ExxonMobil quando a extração acabou. A ideia inicial era transformá-la numa casa para mim. — Uma fortaleza de solidão? — Isso mesmo. Mas depois percebi que poderia viver aqui e também utilizá-la como a unidade de investigação perfeita. — Perfeita porquê? — Por muitas razões, mas sobretudo pela privacidade e a segurança. Estou envolvido numa série de setores onde grassa a espionagem empresarial e este é o ambiente mais controlável que se pode desejar, não é? Passam pela piscina, tapada para o inverno, o oleado a bater violentamente com o vento de novembro. — Primeiro que tudo, obrigada! — diz ela. — Segundo, porquê eu? — Porque dentro da sua cabeça está uma tecnologia que pode alterar a humanidade. — Como? — O que há de mais valioso do que as nossas memórias? — pergunta ele. — Definem-nos e formam a nossa identidade. — Além disso, haverá um mercado de quinze mil milhões de dólares para tratamentos para o Alzhei mer na próxima década. Marcus esboça um sorriso. — Para que conste, o meu principal objetivo é ajudar as pessoas — diz ela. — Quero descobrir uma maneira de salvar memórias em cérebros que estejam em processo de deterioração e que deixaram de as conseguir recuperar. Uma cápsula do tempo para memórias fulcrais. — Compreendo. Ocorre-lhe algum motivo por que este não possa ser um empreendimento filantrópico e comercial? Passam pela entrada de uma enorme estufa, as paredes interiores cheias de vapor e a escorrer condensação. — A que distância estamos da costa? — pergunta ela, com o olhar fixo no mar do outro lado da plataforma, onde um denso bloco de nuvens se desloca na direção deles. — A cento e setenta e três milhas. Como é que a sua família e amigos reagiram ao saber que veio até ao fim do mundo, envolvida numa investigação ultrassecreta? Ela não sabe bem o que responder. Nos últimos tempos, a sua vida desenrolou-se sob as luzes fluorescentes de laboratórios e envolveu o processamento de dados. Nunca lhe fora possível escapar à irresistível força da gravidade do seu trabalho — pela sua mãe, mas também, para ser franca, por ela mesma. O trabalho é a única coisa que a faz sentir-se viva, pelo que é costume perguntar-se se isso quererá dizer que é uma má pessoa. — Eu trabalho muito — diz ela —, por isso apenas teria de comunicar a minha ausência a seis pessoas. O meu pai iria pôr-se a chorar, mas, também, ele é muito emotivo. Ninguém ficaria especialmente admirado. Meu Deus, parece tão patético, não parece? — Acho que as pessoas que não sabem o que estão aqui a fazer é que se preocupam com ter uma vida equilibrada — diz Slade, olhando para ela. Ela pondera estas palavras. No secundário, na faculdade, ela fora incentivada, uma e outra vez, a encontrar a sua paixão — um motivo para se levantar da cama e respirar. Pela sua experiência, poucas pessoas encontram essa raison d’être. Aquilo de que os investigadores e os professores nunca lhe falaram foi o lado sombrio de encontrarmos o nosso propósito. O facto de às tantas nos consumir, transformando-nos num destruidor de relações e felicidade. Apesar de tudo, ela não prescindiria disso. Não sabe ser de outra maneira. Estão a aproximar-se da entrada da superstrutura. — Espere um segundo — diz Slade. — Veja. — Aponta para a parede de neblina que avança pela plataforma. O ar torna-se frio e silencioso. Helena já nem sequer consegue ver o heliporto. Foram engolidos por uma nuvem. Slade olha para ela. — Quer mudar o mundo comigo? — É para isso que aqui estou. — Ótimo. Vamos ver o que eu construí para si. BARRY 5 de novembro de 2018 POLÍCIA DE NOVA IORQUE 24.ª ESQUADRA, 151 W 100TH ST. NOVA IORQUE, 10025 * SUPERINTENDENTE JOHN R. POOLE * TELEFONE (212) 555-1811 [X] RELATÓRIO POLICIAL PRELIMINAR [ ] RELATÓRIO SUPLEMENTAR CSRR: 01457C DATA: 07/11/03 HORA: 21h30 DIA: SEXTA LOCAL: 2000 WEST 102ND 41ST FLOOR NATUREZA DO RELATÓRIO NARRATIVA POLICIAL EU, AGENTE RIVELLI, DURANTE A PATRULHA, RESPONDI A UM 10-56A NO POE BUILDING NO TERRAÇO DOS ESCRITÓRIOS DA HULTQUIST LLC. AÍ, ENCONTREI UMA MULHER DE PÉ NO PARAPEITO. IDENTIFIQUEI-ME COMO AGENTE DA POLÍCIA E PEDI- LHE O FAVOR DE DESCER. ELA RECUSOU-SE A DESCER E AVISOU-ME PARA NÃO ME APROXIMAR, CASO CONTRÁRIO, SALTARIA. PERGUNTEI-LHE O NOME E ELA DISSE CHAMAR-SE FRANNY BEHRMAN [CAUCASIANA / SEXO FEMININO / DATA DE NASCIMENTO: 12/06/63 / / MORADA: 509 E 110THST]. NÃO ME PARECEU ESTAR SOB A INFLUÊNCIA DE QUALQUER SUBSTÂNCIA OU ÁLCOOL. PERGUNTEI-LHE SE QUERIA QUE EU TELEFONASSE A ALGUÉM. ELA RESPONDEU QUE NÃO. PERGUNTEI PORQUE QUERIA ACABAR COM A PRÓPRIA VIDA. ELA DISSE QUE NÃO TINHA MOTIVOS PARA SER FELIZ E QUE O SEU MARIDO E FAMÍLIA FICARIAM MELHOR SEM ELA. AFIANCEI-LHE QUE ISSO NÃO ERA VERDADE. A PARTIR DAÍ, ELA DEIXOU DE RESPONDER ÀS MINHAS PERGUNTAS E PARECEU ESTAR A GANHAR CORAGEM PARA SALTAR. EU ESTAVA PRESTES A TENTAR AFASTÁ- LA FISICAMENTE DA BEIRA QUANDO RECEBI UMA COMUNICAÇÃO DE RÁDIO DO AGENTE DECARLO, A INFORMAR QUE O MARIDO DA SRA. BEHRMAN [JOE BEHRMAN, CAUCASIANO / SEXO MASCULINO / DATA DE NASCIMENTO: 3/12/61 / / MORADA: 509 E 110TH ST] ESTAVA A SUBIR NO ELEVADOR PARA VER A ESPOSA E INFORMEI A SRA. BEHRMAN DO SUCEDIDO. O SR. BEHRMAN CHEGOU À COBERTURA. ELE APROXIMOU-SE DA ESPOSA E CONVENCEU-A A DESCER PARA O TERRAÇO. LEVEI O SR. E A SRA. BEHRMAN ATÉ À RUA E ELA FOI LEVADA DE AMBULÂNCIA PARA AVALIAÇÃO NO SISTERS OF MERCY HOSPITAL. RELATÓRIO DO AGENTE RIVELLI OFICIAL DE SERVIÇO SGT. DAWES Com uma enorme ressaca e sentado à sua secretária num mar de cubículos, Barry lê o relatório do incidente pela terceira vez. Aquilo faz-lhe imensa confusão, porque é exatamente o contrário do que Ann Voss Peters disse que aconteceu ao seu marido e à primeira mulher deste. Ela pensava que Franny saltara. Pousa o relatório e acede à base de dados da Direcção-Geral de Viação de Nova Iorque. A cabeça começa a latejar-lhe. Depois de uma pesquisa, fica a saber que a última morada conhecida de Joe e Franny Behrman é em Montauk, n.º 6, Pinewood Lane. Deveria abandonar o caso. Esquecer a SFM e Ann Voss Peters e dedicar- se à papelada e aos arquivos de casos em aberto que lhe enchem a secretária. Não aconteceu um crime que justifique a perda de tempo. Apenas… inconsistências. A verdade é que aquilo espicaçou-lhe a curiosidade. É inspetor há vinte e três anos porque adora resolver mistérios, e este… este contraditório conjunto de acontecimentos, está a sussurrar-lhe ao ouvido — alguma coisa não bate certo, e ele sente-se compelido a agir. Poderia ser repreendido por ir no seu Crown Vic até à outra ponta de Long Island por causa de um caso que, decididamente, não é um assunto policial jurisdicionalmente aprovado, e está com uma dor de cabeça demasiado forte para conduzir até tão longe. Assim, acede ao site da MTA e consulta os horários. Há um comboio que parte da Penn Station com destino a Montauk dentro de menos de uma hora. HELENA 18 de janeiro de 2008 – 29 de outubro de 2008 Dia 79 Viver na plataforma petrolífera de Slade é como ser paga para ficar alojada numa estância de cinco estrelas que por acaso também é o nosso lugar de trabalho. Todas as manhãs, acorda no piso superior da superstrutura, onde se localizam os alojamentos de toda a equipa. O dela é um espaçoso apartamento de esquina com janelas do chão ao teto em vidro repelente de chuva. O vidro pulveriza as gotículas de água, pelo que, mesmo sob as condições mais adversas, tem sempre uma vista perfeita sobre o mar infinito. Uma vez por semana vêm limpar o seu apartamento e levam-lhe a roupa suja. Um chef galardoado com uma estrela Michelin confeciona a maioria das refeições, muitas vezes com peixe fresco e fruta e legumes colhidos da estufa. Marcus insiste com ela para que pratique exercício cinco dias por semana para manter o ânimo e a perspicácia mental. Há um ginásio no piso térreo, que ela utiliza quando está mau tempo, e nos raros dias bons de inverno, corre na pista à volta da plataforma. É algo que ela aprecia, pois fica com a sensação de que está a correr no topo do mundo. O seu laboratório de investigação tem novecentos metros quadrados — ocupa o segundo andar completo da superstrutura Fawkes Station — e já fez mais prog ressos nas últimas dez semanas do que durante os cinco anos que passou em Stanford. Aquilo de que precisa ela obtém. Não tem contas para pagar nem relações para manter. Nada para fazer a não ser concentrar- se apenas na sua investigação. Até ao momento, tem manipulado memórias em ratinhos, trabalha com aglomerados de células específicas que foram geneticamente criadas para ser sensíveis à luz. Assim que um aglomerado de células é rotulado e associado a uma memória armazenada (por exemplo, um choque elétrico), ela reativa a memória do medo do ratinho atingindo esses aglomerados de células sensíveis à luz com um laser optogenético especial inserido através de filamentos no cérebro do ratinho. O trabalho que realiza na plataforma petrolífera é decididamente de outro campeonato. Helena lidera o grupo que se dedica ao problema principal, que por acaso também é a sua área de especialização — identificar e catalogar os aglomerados de neurónios ligados a uma memória em particular e depois reconstruir um modelo digital do cérebro que lhes permite seguir memórias e mapeá-las. O princípio não é diferente do que fez com os cérebros de ratinhos, mas muito mais complexo. A tecnologia a que as outras três equipas estão dedicadas é desafiante, mas não pioneira — tecnologia de ponta, sim, mas com o pessoal certo e o descomunal livro de cheques de Marcus, conseguirão recriá-la sem muita dificuldade. Ela lidera uma equipa de vinte pessoas, divididas por quatro grupos. Neste momento chefia a Equipa de Mapeamento. A Equipa de Imagiologia tem a tarefa de descobrir uma maneira de filmar disparos neuronais que não implique a inserção de um laser no crânio e no cérebro da pessoa. Acabaram por construir um dispositivo que utiliza uma forma avançada de magnetoencefalografia, ou MEG. Um equipamento SQUID (dispositivo supercondutor de interferência quântica) detetará campos magnéticos infinitesimais produzidos por neurónios individuais desencadeados no cérebro humano, até ao nível de determin ar a posição de cada neurónio. Chamam-lhe microscópio MEG. A Equipa de Reativação está a construir um aparelho que consiste essencialmente numa vasta rede de estimuladores eletromagnéticos que formam um invólucro à volta da cabeça para identificação 3D rigorosa e focalização precisa de centenas de milhões de neurónios que são necessários para reativar a memória. Por fim, a Equipa de Infraestrutura está a construir uma cadeira para ensaios em humanos. Foi um dia positivo. Talvez até um dia fantástico. Reuniu-se com Slade, Jee-woon e os diretores de projeto para analisar os progressos, e todas as equipas estão numa fase adiantada. São quatro da tarde de um dia em finais de janeiro, um daqueles poucos dias invernais com uma temperatura amena e o céu azul. O sol vai mergulhando no oceano, lançando sobre as nuvens e o mar tons de cinzento e cor-de-rosa como ela nunca viu; senta-se na beira da plataforma, virada para oeste, as pernas a balançar por cima da água. Sessenta metros mais abaixo, as ondas avolumam-se e embatem nos enormes pilares desta fortaleza no mar. Ela nem acredita que se encontra ali. Nem acredita que esta é a sua vida. Dia 225 O microscópio MEG está quase pronto e o aparelho de reativação evoluiu até à fase possível enquanto todos esperam o mapeamento para se dedicarem ao problema de catalogação. Helena sente-se frustrada com o atraso. Durante o jantar com Slade na sua suite palaciana, revela-lhe a verdade — a equipa está a fracassar porque o obstáculo a ultrapassar tornou-se um problema bicudo. Visto que estão a progredir dos cérebros de ratinhos para os cérebros humanos, o poder de cálculo que têm ao seu dispor é insuficiente para mapear algo tão prodigiosamente complexo como a estrutura da memória humana. A verdade é que não dispõem dos ciclos CPU necessários, a menos que consigam contornar o problema. — Já ouviu falar da D-Wave? — pergunta Slade enquanto Helena bebe um trago de um borgonha branco, o melhor vinho que já provou. — Lamento, mas não. — É uma empresa com sede na Colúmbia Britânica. Há um ano, lançaram o protótipo de um processador quântico. Tem uma aplicação extremamente específica, mas é ideal para o tipo de problema de mapeamentode um enorme conjunto de dados que temos pela frente. — São caros? — Baratos não são, mas eu interessei-me pela tecnologia, por isso, no verão passado, encomendei alguns dos seus protótipos avançados para projetos futuros. Slade sorri e alguma coisa na maneira como a perscruta do outro lado da mesa deixa-a com a desconcertante sensação de que ele sabe mais sobre ela do que Helena gostaria. Sobre o seu passado, a sua maneira de pensar, aquilo que mexe com ela. Porém, não o pode censurar se ele conseguiu descobrir algumas coisas sobre ela. Tem investido tempo e muito dinheiro na mente de Helena. Pela janela atrás de Slade, vislumbra um último resquício de luz, a milhas e milhas de distância no mar, e já não é a primeira vez que fica impressionada com o isolamento em que se encontram. Dia 270 Os dias do solstício de verão são longos e soalheiros e os progressos foram travados enquanto aguardam a chegada de dois processadores de recozimento quântico. Helena tem muitas saudades dos pais e as suas conversas semanais passaram a ser o ponto alto da sua existência neste sítio. A distância está a ter um efeito estranho sobre a sua ligação com o pai. Sente-se mais próxima dele como não se sentia há anos, desde antes de ir para a escola secundária. Os mais insignificantes detalhes das vidas deles no Colorado ganham um súbito significado. Ela delicia-se com as minudências, e quanto mais aborrecidas, melhor. As suas caminhadas no sopé da montanha aos fins de semana. Descrições sobre a quantidade de neve que ainda há nos pontos mais altos. Um concerto a que assistiram em Red Rocks. As consultas de neurologia da mãe em Denver. Filmes que viram. Livros que leram. Coscuvilhices da vizinhança. As notícias chegam-lhe sobretudo pelo pai. Por vezes, a mãe está lúcida, a mesma pessoa de outrora, e conversam como de costume. Na maioria das vezes, Dorothy tem dificuldade em manter uma conversa. Helena sente uma saudade irracional de tudo o que se prende com o Colorado. Da vista desafogada desde o terraço dos pais sobre a planície até às Flatirons, onde começam as Montanhas Rochosas. Da cor verde, pois as únicas plantas que lhe são dadas a ver na plataforma estão na pequena horta da estufa. Acima de tudo, sente saudades da mãe. Lamenta profundamente não estar com ela naquele que deve ser o período mais assustador da sua vida. O pior é não poder partilhar os pormenores dos seus fantásticos progressos na cadeira, todos ao abrigo de um inviolável acordo de não divulgação. Suspeita que Slade ouve todas as conversas. É claro que ele nega tudo, mas a suspeita mantém-se. Por motivos de confidencialidade, não são permitidas visitas na plataforma e nenhum elemento das equipas está autorizado a sair antes do término do contrato, a não ser em caso de emergências familiares ou médicas. As noites de quarta-feira passaram a ser noites de festa numa tentativa de desenvolver um espírito de camaradagem no local de trabalho. É um desafio para Helena, introvertida inveterada, que, até recentemente, teve a vida de uma cientista solitária. Jogam paintball, voleibol e basquetebol na plataforma. Fazem churrascos à beira da piscina e bebem de barris de cerveja que lhes são trazidos de barco. Põem música em altos berros e embebedam-se. Às vezes, até dançam. A área dos campos de jogos e da churrasqueira é cercada por painéis altos de vidro que protegem do vento quase constante, mas mesmo com essas proteções, muitas vezes têm de gritar para se fazerem ouvir. Quando está mau tempo, reúnem-se na ala comum separada da cantina para jogar jogos de tabuleiro ou às escondidas na superstrutura. Como é a superior hierárquica de quase toda a gente da plataforma à exceção de Slade, ela hesita em aproximar-se das pessoas da sua equipa. Todavia, encontra-se num deserto de água a perder de vista, desamparada, sessenta e seis metros acima do mar. Renunciar à amizade e à intimidade poderia conduzi-la pelo caminho do isolamento psicótico. É durante um jogo de escondidas, num armário de roupa de cama no piso superior, que ela se enrola com Sergei — o genial engenheiro elétrico, um homem bem-parecido, que lhe ganha sempre nas partidas de raquetebol. Estão os dois muito juntinhos no escuro enquanto as pessoas que andam à procura deles passam a correr pelo seu esconderijo e, de repente, ela está a beijá-lo e a puxá-lo para ela, e ele a puxar-lhe os calções para baixo e a encostá-la à parede. Marcus trouxe Sergei de Moscovo. Poderá ser o cientista mais puro do grupo, e é decididamente o mais competitivo. Porém, não é a sua «paixoneta da plataforma». Esse seria Rajesh, o técnico de software que Slade contratou há pouco tempo, antecipando a chegada da D-Wave. Transmite no olhar um ardor e uma franqueza que a atraem. É bem-falante e extremamente inteligente. Ontem, ao pequeno- almoço, sugeriu a criação de um clube de leitura. Dia 302 Os processadores quânticos chegam num enorme navio mercante. É como se fosse noite de Natal: toda a gente à espera, de pé, observando com um fascínio apavorado a grua levantar trinta milhões de dólares de poder de cálculo até à plataforma principal, sessenta metros acima. Dia 312 O mapeamento foi recuperado, os novos processadores foram postos a funcionar, está a ser escrito o código que mapeará uma memória e carregará as respetivas coordenadas neurais para o aparelho de reativação. A sensação de inação passou. Estão outra vez a avançar. O estado de espírito de Helena muda de um sentimento de solidão para entusiasmo, mas também pasmo em relação à presciência de Slade. Não só a um nível macro ao adivinhar a incomensurabilidade da visão dela, mas, mais impressionantemente, a um nível granular — ao saber qual seria a ferramenta perfeita para dar resposta ao vasto volume de dados associados ao mapeamento da memória humana. Além disso, sabia que um processador não seria suficiente, pelo que comprou dois. No jantar semanal com Slade, ela informa-o de que, se os avanços continuarem a este ritmo, dentro de um mês estarão preparados para realizar o primeiro ensaio num humano. Ele faz uma expressão de regozijo. — A sério? — A sério. E passo a informar que serei eu a primeira a experimentar. — Nem pensar. É demasiado perigoso. — Porque haveria a decisão de ser sua? — Por milhares de razões. Além disso, sem a Helena, estaríamos perdidos. — Marcus, eu insisto. — Bem… podemos falar sobre isso mais tarde. Entretanto, vamos celebrar. Marcus Slade vai ao frigorífico de vinhos e tira de lá uma garrafa de Cheval Blanc de 1947. Demora algum tempo a tirar a delicada rolha e depois esvazia a garrafa num decantador de cristal. — Não restam muitas destas no mundo — diz ele. Assim que Helena leva o copo ao nariz e inala o aroma adocicado e condimentado das uvas de outrora, o seu conceito do que um vinho pode ser muda radicalmente. — À sua saúde e a este momento — diz Slade, tocando com delicadeza com o seu copo no dela. O sabor é aquilo que todos os outros vinhos que ela alguma vez provou aspiravam a ser, a escala do que é bom, excelente e transcendente é reconfigurada na sua mente. É transcendental. Cálido, substancial, opulento, espantosamente refrescante. Frutos vermelhos em compota, flores, chocolate e… — Ando para lhe perguntar uma coisa — diz Slade, interrompendo o seu devaneio. Ela fita-o por cima da mesa. — Porquê a memória? É evidente que já se interessava por este tema antes de a sua mãe adoecer. Ela rodopia o vinho no copo, vê o reflexo dos dois sentados à mesa nas janelas de seis metros com vista para a penumbra oceânica. — Porque a memória… é tudo. Fisicamente, uma memória não passa de uma conjugação específica de neurónios interligados, uma sinfonia de atividade neural. Porém, na realidade, é o filtro que nos separa da realidade. O senhor pensa que está a saborear este vinho, a ouvir o que eu estou a dizer, no presente, mas isso não existe. Os impulsos nervosos das suas papilas gustativas e dos seus ouvidos são transmitidos para o seu cérebro, que os processa e os descarrega para a memória ativa. Por isso,quando tem consciência de que está a experienciar alguma coisa, isso já aconteceu. Já é uma memória. — Helena inclina-se para a frente, estala os dedos. — Aquilo que o seu cérebro faz para interpretar um estímulo simples como este é incrível. A informação visual e auditiva chega aos seus olhos e ouvidos a velocidades diferentes, e depois é pro cessada pelo seu cérebro a velocidades diferentes. O seu cérebro aguarda o processamento do mais ínfimo fragmento de estímulo e depois reordena as entradas neurais corretamente, e permite-lhe experienciá-las em conjunto, como um acontecimento simultâneo, cerca de meio segundo depois do que efetivamente sucedeu. Nós pensamos que estamos a experienciar o mundo diretamente e no imediato, mas tudo aquilo que experienciamos é uma reconstrução cuidadosamente editada e com um atraso. Dá-lhe algum tempo para absorver a informação enquanto sorve mais um pouco do magnífico vinho. — E as memórias flashbulb? — pergunta Slade. —Aquelas memórias muito vívidas imbuídas de um extremo significado pessoal e emoção? — Pois. Isso leva-nos a outra ilusão. O paradoxo do presente capcioso. Aquilo que pensamos ser o «presente» não é realmente um mo mento. É uma extensão de tempo recente, arbitrária. Geralmente, os dois ou três últimos segundos. Mas liberte uma carga de adrenalina no seu sistema, ponha a amígdala em alta rotação, e eis que cria uma memória hipervívida, onde o tempo parece abrandar, ou parar completamente. Se mudar a forma como o seu cérebro processa um acontecimento, muda a duração do «agora». De facto, muda o ponto em que o presente se torna o passado. É mais uma forma de inferir que o conceito de presente é apenas uma ilusão, feita de memórias e construída pelo nosso cérebro. Helena recosta-se, envergonhada do seu entusiasmo, sentindo de súbito o vinho subir-lhe à cabeça. — Daí eu ter escolhido a memória — continua ela. — A neurociência. — Toca com a ponta dos dedos na têmpora. — Se queremos compreender o mundo, temos de começar por compreender… compreender deveras… a forma como o experienciamos. Slade assente com a cabeça e diz: — «É evidente que a mente não apreende as coisas imediatamente, mas apenas mediante a intervenção das ideias que tem sobre elas.» Helena dá uma gargalhada de espanto. — Estou a ver que leu John Locke. — E então? — diz Slade. — Lá porque sou um gajo das tecnologias, nunca peguei num livro? A Helena está a falar em utilizar a neurociência para levantar o véu da perceção; ver a realidade como ela é. — O que, por definição, é impossível. Por muito que saibamos sobre o modo de ação das nossas perceções, em última instância nunca conseguiremos ultrapassar as nossas limitações. Slade limita-se a sorrir. Dia 364 Helena passa pela porta do segundo andar e caminha por um corredor bem iluminado rumo ao compartimento de teste principal. Está tão nervosa como tem estado desde o primeiro dia que aqui chegou, o estômago de tal forma às voltas que só tomou café e algumas fatias de ananás ao pequeno- almoço. Durante a noite, a Equipa de Infraestrutura levou da sua oficina a cadeira que estiveram a construir para o compartimento de teste principal. É onde Helena está agora, detendo-se à soleira da porta. John e Rachel estão a aparafusar a base da cadeira ao chão. Ela sabia que seria um momento emotivo, mas é com uma tal intensidade que vê a cadeira montada pela primeira vez, que é apanhada desprevenida. Até ao momento, o produto do seu trabalho consistiu em imagens de aglomerados de neurónios, sofisticados programas de software e um monte de incertezas, mas a cadeira é palpável, uma coisa em que pode tocar, a mani festação física da meta para a qual se tem dirigido há dez anos, impulsionada pela doença da mãe. — O que acha? — pergunta Rachel. — O Slade mandou-nos alterar os projetos para lhe fazer uma surpresa. Helena ficaria furiosa com Slade por este ter decidido unilateralmente alterar o design se aquilo que construíram não fosse tão perfeito. Está abismada. Na sua mente, a cadeira era sempre um dispositivo utilitário, um meio para atingir um fim. Aquilo que construíram para ela é uma obra de arte, elegante, a fazer lembrar uma chaise-longue Eames, só que monobloco. Os dois engenheiros olham então para ela, sem dúvida tentando avaliar a sua reação, perceber se a sua superior hierárquica está satisfeita com o trabalho. — Vocês superaram-se — diz ela. À hora do almoço, a cadeira está totalmente instalada. O microscópio MEG, integrado no apoio de cabeça, faz lembrar um capacete suspenso. O feixe de cabos acoplado foi enroscado ao longo das costas da cadeira até uma entrada no chão, pelo que o aspeto global é o de um equipamento aprimorado e de linhas simples. Helena conseguiu convencer Slade a ser ela a primeira a sentar-se na cadeira, escondendo-lhe a informação sobre o elevado número de sinapses de que necessitariam para reativar uma memória de forma adequada. Slade refutou, é claro, alegando que a mente e a memória dela eram demasiado valiosas para correr o risco, mas era uma batalha que nem ele nem ninguém tinha hipótese de ganhar. Assim, às 13h07, ela senta-se no couro macio e recosta-se. Lenore, uma das técnicas de imagiologia, baixa cuidadosamente o microscópio sobre a cabeça de Helena; o acolchoamento adapta-se-lhe na perfeição. Depois, aperta a fivela debaixo do queixo. Slade observa desde um canto da sala, filmando com uma câmara portátil, um enorme sorriso no rosto, como se estivesse a filmar o nascimento do seu primogénito. — Sente-se bem? — pergunta Lenore. — Sim. — Agora, vou prendê-la. — Lenore abre dois compartimentos integrados no apoio de cabeça e desdobra uma série de hastes telescópicas em titânio, que aparafusa em invólucros no exterior do microscópio para estabilização. — Tente mexer a cabeça — diz Lenore. — Não consigo. — Como se sente sentada na sua cadeira? — pergunta Slade. — Sinto vontade de vomitar. — Helena fica a ver toda a gente sair do compartimento de teste e passar para uma sala de controlo contígua com vista para o compartimento através de uma parede de vidro. Momentos depois, a voz de Slade soa num altifalante integrado no apoio de cabeça: — Consegue ouvir-me? — Sim. — Agora vamos diminuir a intensidade da luz. — Pouco depois, tudo o que ela consegue ver são as caras da sua equipa refletindo o tom azulado de uma dúzia de monitores. — Faça por relaxar — diz Slade. Helena respira fundo pelo nariz e expira devagar enquanto a série geométrica de detetores SQUID começa a zumbir baixinho por cima dela, um zunido que dá a sensação de mil milhões de nanomassagens no seu couro cabeludo. Debateram até à exaustão o tipo de memória que deveriam mapear em primeiro lugar. Alguma coisa simples? Complexa? Recente? Antiga? Alegre? Trágica? Ontem, Helena decidiu que estavam a pensar demais. Afinal de contas, como se pode definir uma memória «simples»? Existe tal coisa quando se trata da condição humana? Pense-se no albatroz que pousou na plataforma durante a sua corrida matinal. É um mero bruxulear de pensamento na sua mente que, um dia, será lançado àquela terra desolada do oblívio onde as memórias esquecidas vão morrer. Porém, inclui o cheiro do mar. As penas brancas e húmidas da ave, que reluzem ao sol da manhã. O bater do coração da ave devido ao esforço da corrida. O suor frio a escorrer pelas costas e o ardor nos olhos. Aquele momento em que ela se questiona sobre o lugar que a ave considera ser a sua casa na infinita uniformidade do oceano. Quando todas as memórias contêm um universo, qual o significado de «simples»? — Helena…? Está preparada? — ouve-se a voz de Slade. — Estou. — Escolheu uma memória? — Escolhi. — Então vou fazer a contagem decrescente a partir de cinco e quando ouvir o sinal… recorde. BARRY 5 de novembro de 2018 No verão, o comboio apenas teria lugares de pé e seguiria apinhado de habitantes de Manhattan a caminho dos Hamptons, mas é uma tarde fria de novem bro, com as nuvens pardacentas a ameaçar o primeiro nevão da estação, e Barry tem a carruagem da ferrovia de